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Direito Penal – Parte IV – tema 1

Crimes contra a vida

Fundamento constitucional

O direito à vida está consagrado no art. 5º, caput, da Constituição


Federal como direito fundamental:

Art. 5º, CRFB/88: Todos são iguais perante a lei, sem distinção
de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à
vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade, nos termos seguintes:

Sendo um direito fundamental, é relativo. Pode sofrer limitações,


desde que não sejam arbitrárias e possam ser sustentadas por interesses
maiores do Estado ou mesmo de outro ser humano.

A própria Constituição Federal autoriza a privação da vida humana


quando admite a pena de morte em tempo de guerra (art. 5º, XLVII, a).

Art. 5º, XLVII, CRFB/88: não haverá penas:


a) de morte, salvo em caso de guerra declarada, nos termos
do art. 84, XIX;

Ademais, o Código Penal afasta a ilicitude do fato típico praticado


em legítima defesa (art. 25), justificando, exemplificativamente, a morte
daquele que agride uma pessoa com a intenção de matá-la, além de
apontar expressamente as hipóteses em que o aborto é permitido (art. 128).

Art. 25, CP/40: Entende-se em legítima defesa quem, usando


moderadamente dos meios necessários, repele injusta
agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem.

Art. 128, CP/40: Não se pune o aborto praticado por médico:


Aborto necessário
I - se não há outro meio de salvar a vida da gestante;

Aborto no caso de gravidez resultante de estupro


II - se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido
de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu
representante legal.
Direito Penal – Parte IV – tema 1

Em tais casos, uma vida pode ser sacrificada para preservar outra, em
face da ausência momentânea do Estado para a proteção de bens
jurídicos, ou então para preservar a vida da gestante ou a sua dignidade,
quando a gravidez resulta de estupro.

Espécies

O Código Penal arrola quatro crimes contra a vida:

(1) homicídio – art. 121


(2) induzimento, instigação ou auxílio a suicídio – art. 122
(3) infanticídio – art. 123
(4) aborto – arts. 124 a 128

Buscou, desse modo, proteger integralmente o direito à vida do ser


humano, desde a sua concepção.

Competência

Salvo o homicídio culposo (art. 121, § 3º, do CP), cuja ação penal
tramita perante o juízo singular (justamente pelo fato de ser culposo), todos
os demais crimes são julgados pelo Tribunal do Júri, em atendimento ao
previsto no art. 5º, XXXVIII, d, da Constituição Federal.

Art. 5º, XXXVIII, CRFB/88: é reconhecida a instituição do júri,


com a organização que lhe der a lei, assegurados: (...)
d) a competência para o julgamento dos crimes dolosos
contra a vida;

O Código Penal Militar dispõe que os crimes militares em tempo de


paz, definidos em seu art. 9º, quando dolosos contra a vida e cometidos por
militares contra civil, serão da competência do Tribunal do Júri.

Art. 9º, CPM/69: Consideram-se crimes militares, em tempo


de paz: (...)

§1º Os crimes de que trata este artigo, quando dolosos


contra a vida e cometidos por militares contra civil, serão da
competência do Tribunal do Júri.

O § 2º do art. 9º, contudo, elenca situações em que os crimes dolosos


contra a vida cometidos por militares das Forças Armadas contra civil serão
Direito Penal – Parte IV – tema 1

da competência da Justiça Militar da União. Tais situações foram trazidas


pela Lei 13.491/2017, que alterou o Código Penal Militar.1 Vejamos:

Art. 9º, CPM/69: Consideram-se crimes militares, em tempo


de paz: (...)

§1º Os crimes de que trata este artigo, quando dolosos


contra a vida e cometidos por militares das Forças Armadas
contra civil, serão da competência da Justiça Militar da
União, se praticados no contexto:
I – do cumprimento de atribuições que lhes forem
estabelecidas pelo Presidente da República ou pelo Ministro
de Estado da Defesa;
II – de ação que envolva a segurança de instituição militar
ou de missão militar, mesmo que não beligerante; ou
III – de atividade de natureza militar, de operação de paz,
de garantia da lei e da ordem ou de atribuição subsidiária,
realizadas em conformidade com o disposto no art. 142 da
Constituição Federal e na forma dos seguintes diplomas
legais:
a) Lei no 7.565, de 19 de dezembro de 1986 - Código
Brasileiro de Aeronáutica;
b) Lei Complementar no 97, de 9 de junho de 1999;
c) Decreto-Lei no 1.002, de 21 de outubro de 1969 - Código
de Processo Penal Militar; e
d) Lei no 4.737, de 15 de julho de 1965 - Código Eleitoral.

Ação penal

A ação penal, como consectário lógico da indisponibilidade do


direito à vida, sempre será pública incondicionada, circunstância que não
impede, em caso de inércia do Ministério Público, a utilização da ação
penal privada subsidiária da pública, garantida pelo art. 5º, inciso LIX, da
Constituição Federal.

Art. 5º, LIX, CRFB/88: será admitida ação privada nos crimes
de ação pública, se esta não for intentada no prazo legal;

1Antes da Lei 13.491/2017, a única situação que era julgada pela Justiça Militar era a de
tentativa de homicídio ou homicídio contra vítima civil praticado por militar, no exercício de
sua função, ao abater aeronave hostil (“Lei do Abate”).

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