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A RUINA DO CAPITALISMO

Entrevista extraída de Folha de São Paulo, domingo 17 de octubre de 1999. Autor: Gustavo Opschpe. Origen del
texto: Especial para Folha Editoria: MAIS!; pgs. 5-9

1) P. 1,2 – “... o termo "globalização" é em grande parte um slogan e uma mistificação, não uma
realidade nova. Estamos falando é da liberdade de movimento dos fatores de produção versus
protecionismo. Isso tem sido uma questão por 500 anos. Países foram para um lado e para outro
na questão, porque há vantagens em ambos, para todos. No momento, os EUA têm liderado um
grande esforço para derrubar barreiras, especialmente de fluxos de capital. Os fluxos financeiros
sempre foram os mais controlados de todos. Os EUA tiveram um certo nível de sucesso nos
últimos dez anos, conseguindo com que países fizessem coisas para as quais eles ainda não
estavam preparados.Por um lado, essa iniciativa começou com muito êxito. Quando você
proclama que não há alternativas ao modelo neoliberal, o que está querendo dizer é que não
deveria haver outras alternativas, mas, obviamente, elas existem. Houve uma forte reação. Não
só uma reação de vários países, que disseram: "Isso não funciona para nós, vamos sair
perdendo", mas também dos EUA e da Europa Ocidental, de pessoas como Jeffrey Sachs e
Kissinger; pessoas que você não poderia nunca chamar de esquerdistas. E o argumento deles é
muito sensato, ao dizerem que as pessoas que têm se esforçado para conseguir esse livre fluxo
não pensaram nas consequências de uma política como essa. As consequências são muito
severas: colapsos de liderança, seguidos de revoluções etc. O que eles estão dizendo é que você
deve fazer isso de uma maneira mais social. Então a combinação da discussão, simbolicamente,
do FMI - Banco Mundial e a crescente resistência de alguns países definitivamente diminuíram o
grau de abertura. Mas isso não é nada de novo, acelera e regride o tempo todo, e certamente o
livre comércio não é uma panacéia. Quer dizer, a idéia de que você deve competir não tem nada
de novo _o que é o capitalismo senão a teoria de que você tem de ser competitivo no mercado
mundial?”

2) P. 2 – os social-democratas vêm, cada vez mais, migrando para o centro, por cem anos. Essas
pessoas querem capturar a posição liberal. Em parte, é uma tentativa de conseguir mais votos.
Eles acham que vão consegui-los no centro, sem perder votos na esquerda, se eles se
proclamarem social-democratas. Mas eu não acho que essa seja a receita para o sucesso. Não
acho que nisso haja algo de novo: trata-se da clássica posição centrista, liberal, que vem
enfraquecendo nos últimos 30 anos, e eles estão tentando restaurá-la. Falta saber quanto
sucesso terão.Uma coisa que se pode dizer sobre a Terceira Via é que ela funciona. Se você é
Clinton, ela funciona contra um Partido Republicano de extrema-direita. E, se você é Blair, ela
funciona contra um Partido Conservador de extrema-direita. Mas, se os republicanos voltarem
para sua posição de "moderados" e os conservadores voltarem para sua posição tradicional, por
que os eleitores votariam na versão falsa, quando eles podem votar na versão verdadeira? Isso é
tudo que tem de ser feito para a Terceira Via ser derrotada. Então, eu não a vejo como o caminho
do futuro. Acho que ela já alcançou seu cume e agora está começando a retroceder.

3) P. 2,3 – O liberalismo é, como quase todos os termos políticos importantes, um termo confuso
e que confunde, e as pessoas o usam de várias maneiras diferentes. Há liberalismo político,
econômico, liberalismo cultural _e esses termos não são a mesma coisa. As pessoas podem ser
um sem ser o outro. Então, por que usamos o mesmo termo?Os liberais têm sido pró e contra o
liberalismo político, pró e contra o liberalismo econômico e pró e contra o liberalismo cultural, se
você olhar para a verdadeira história do movimento. Então, é óbvio que nenhuma dessas é a
questão-chave. O liberalismo tem sido, desde o início, a doutrina dos centristas do mundo.
4) P. 3 –“Dizem: "Sim, o comércio é inevitável, o progresso está chegando e é uma coisa boa,
mas ele tem de ser administrado e controlado por experts, e o que a gente tem para oferecer é
reforma administrada". O liberalismo quer começar uma doutrina orientada pelo Estado (e a idéia
de que o liberalismo é contra o Estado é uma loucura absoluta) sobre como controlar rebeliões
em massa, por meio de concessões.Se você pensar no liberalismo como a doutrina reformista
que faz concessões para aplacar o descontentamento popular, mas sem entregar o jogo e
mantendo o sistema, aí pode ver o seu sucesso histórico e os problemas que ele enfrenta
hoje.Parte do argumento é que os liberais conseguiram cooptar a oposição: por um lado, os
conservadores, que eram contra qualquer tipo de mudança, e, por outro, os radicais, que queriam
mudanças amplas e rápidas. E assim criou o que eu chamo de avatares do liberalismo, que
podem discutir se querem reformas mais rápidas ou mais lentas, mas que, basicamente, aceitam
as premissas do liberalismo. Isso controlou a situação política. O último avatar do liberalismo foi o
leninismo, que disse às massas: "Confie em nós, pois, quando chegarmos ao poder, faremos
todas as reformas e, se as reformas não chegarem rápido o suficiente, é porque estamos sendo
atacados, mas esperem e nós chegaremos, logo, na sociedade perfeita".O meu argumento é que
isso foi o que manteve o sistema nos últimos 30, 50 anos e, quando isso caiu, quando os
movimentos anti-sistêmicos _na forma de movimentos de liberação nacional, comunistas ou até
social-democratas_ perderam o apoio popular, porque eles não conseguiram mudar o mundo,
isso provocou a queda do comunismo. Provocou também a queda da principal ferramenta de
controle que as forças dominantes tinham sobre as massas, que, então, ficaram desiludidas. Elas
não têm mais a crença de que alguma magia ou feitiço vá acontecer e se tornam, por um lado,
contra o Estado e, por outro lado, muito amedrontadas _porque o Estado está entrando em
colapso a sua volta, e há crimes_ e então elas se voltam ao que eu chamo de "grupismo", que é
a criação de grupos que vão prover segurança contra o perigo.”

5) P. 3 – “Eu venho argumentando que o capitalismo está acabando por causa dos limites
impostos à acumulação de capital, de um lado, e do colapso da sua sustentação política, de
outro. A sustentação política do capitalismo tem sido o liberalismo que tem, especialmente por
meio de seu avatar, reprimindo revoltas populares. Basicamente, em uma palavra, a sustentação
política mais importante é a legitimação do Estado. E a legitimação do Estado passa pela
promessa dos movimentos anti-sistêmicos de que o Estado seria uma ferramenta boa para
transformar o mundo. Eu acho que isso acabou. Então nós vamos às bases econômicas do
sistema, e o sistema existe para a acumulação incessante de capital. O que eu venho
argumentando é que isso está sendo prejudicado por três razões: um, o nível mundial de salários
vem subindo e deve continuar crescendo por causa da "desruralização" do mundo; dois, o preço
da matéria-prima vem subindo por causa do fim da possibilidade de externalização barata dos
custos, essa é a crise ecológica; e três, o preço da arrecadação de impostos vem subindo
mundialmente _a porcentagem de dinheiro recolhido que é destinada ao Estado, por aquilo que
eu chamo de democratização do mundo, à medida que a população pressiona o Estado para que
este lhe propicie saúde, educação e renda perpétua. Então há três fatores, em escala mundial,
que vem encolhendo as margens de lucro _e vão continuar a fazê-lo cada vez mais. Por um lado,
do ponto de vista dos capitalistas, vale cada vez menos fazer parte do sistema e, por outro lado,
é cada vez mais difícil de manter legitimidade política.”

6) P.6 – “... eu não sou um utopista. Acredito em tentativa e erro. Mas rejeito a idéia de que é
impossível termos um sistema relativamente não-hierárquico, relativamente democrático,
relativamente igualitário _acho que poderia funcionar, e em grande escala. Nesse sentido eu sou
otimista: acredito na maleabilidade da natureza humana; na capacidade de construir novas
estruturas que realmente funcionem.”

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