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(f) MARX, Karl. As lutas de classes na França.

São Paulo: Boitempo


Grupo Marxismo e pensamento brasileiro
Paulo Sampaio, 06.2021

Apresentação do Prefácio de Friedrich Engels (1895)

A sociedade capitalista se acha num dilema: avanço ao socialismo ou regressão à


barbárie - Engels apud Luxemburgo

As barricadas são ridículas contra aqueles que administram a bomba - Adorno

A questão central do Prefácio pode ser formulada da seguinte maneira: quais


as transformações na relação entre eleitoralismo e insurreição na tática
revolucionária decorrentes do avanço da industrialização, que promove o
crescimento acelerado tanto do partido como do poderio militar? Essa questão
surge a partir do exame da mudança dos termos da luta de classes ao longo da
segunda metade do século XIX. Ou seja, Engels se vale da ocasião de apresentar
artigos de Marx sobre as revoluções de 1848 para discutir o período aberto pela
derrota de 1848. Essa derrota teria demonstrado a inoperância da tática clássica
das barricadas e, para Engels, o desnível entre essa tática e a situação concreta só
aumentou com as mudanças produzidas pelo avanço da industrialização na Europa
como um todo, pelo nacionalismo belicista de Luís Napoleão e de Bismarck e pela
Guerra Franco-Prussiana.

1. O método materialista: lugar da política e da economia na análise da história

Segundo Engels, de modo geral Marx procura explicar a história a partir da


economia. O grande desafio enfrentado por ele nos artigos aqui reunidos é fazer
isso no calor da hora, explicando fatos contemporâneos. Isso porque uma análise
fundamentada em estatísticas econômicas é mais factível a posteriori, ao passo que
a quente o material disponível é sobretudo da ordem da política. A solução está em
tentar interpretar a própria política como epifenômeno da economia, buscando
"derivar os fatos políticos de efeitos advindos de causas em última instância
econômicas". Isto é, os fenômenos mais fundamentais - as mudanças na indústria e
no mercado a nível global - seriam legíveis, ainda que imperfeitamente, em sua
tradução política, mais superficial e por isso mesmo mais acessível ao analista que
se vale de jornais e não de dados já consolidados e disponíveis em algum arquivo.
Assim, segundo Engels "o método materialista com muito frequência terá de se
restringir a derivar os conflitos políticos de embates de interesses das classes
sociais e frações de classes resultantes do desenvolvimento econômico, as quais
podem ser encontradas na realidade, e a provar que os partidos políticos individuais
são a expressão política mais ou menos adequada dessas mesmas frações de
classes". Ou seja, não temos aqui uma análise 'politicista' da política, que a toma
como embate entre grandes homens, opiniões e visões de mundo, mas uma
perspectiva segundo a qual a política é um epifenômeno da economia, ao qual
recorremos quando nos faltam dados propriamente econômicos.
Dessa análise dos embates entre frações de classes decorrem imprecisões
inevitáveis, das quais Marx não estaria isento. Segundo Engels, "[e]ra pura e
simplesmente impossível, durante o período revolucionário de 1848-1849,
acompanhar as transformações econômicas que se efetuavam simultaneamente ou
até manter uma visão geral delas", e parte da informação se perdia na tradução
dessas transformações em embates políticos. Foi, portanto, o conhecimento de
Marx a respeito da situação econômica imediatamente anterior aos acontecimentos
analisados, assim como seu conhecimento acerca da história política da França,
que lhe forneceu o ponto de partida para "apresentar uma descrição dos
acontecimentos que revela o seu nexo interior de modo até hoje não igualado (...)".
Somente em um segundo momento, em 1850, Marx conseguiu constatar que
de fato "a crise mundial do comércio de 1847 fora propriamente a mãe das
Revoluções de Fevereiro e Março, e que a prosperidade industrial, que
gradativamente voltara a se instalar em meados de 1848 e que, em 1849 e 1850,
atingira seu pleno florescimento, constituiu a força revitalizadora que inspirou novo
ânimo à reação europeia". Assim, nos últimos artigos desta coletânea, ele
conseguiu verificar à luz do nível mais profundo e menos visível da economia aquilo
que, nos primeiros artigos, ele havia deduzido a partir da superfície política.

2. As Ilusões Perdidas: da revolução por baixo à revolução pelo alto de Luís


Bonaparte (junho de 1848 - dezembro de 1851)
No momento em que eclodiu a revolução de fevereiro de 1848 na França,
Marx e Engels tinham em mente um modelo de revolução marcado "pelas memórias
dos modelos de 1789-1830", isto é, dos embates que se deram entre a Revolução
Francesa e a revolução de julho de 1830 - os 'três dias gloriosos' em que a
burguesia liberal e sociedades secretas republicanas, por meio das barricadas,
puseram um fim ao reinado de Carlos X e ao período da Restauração (queda de
Napoleão em 1814 - julho de 1830). A suposição de que o modelo de revolução de
1789-1830 ainda estava de pé foi reforçada pelo fato de que os levantes de junho
de 1848 na França ressoaram pela Europa, de modo que realmente parecia que era
chegada a hora de o proletariado encampar a luta aberta contra a burguesia. Para
Marx e Engels, esse parecia ser "o grande embate decisivo" que levaria à "vitória
definitiva do proletariado".
Essa visão mudou com as derrotas de 1849. Agora Marx e Engels
sustentavam que a primeira etapa do período revolucionário havia se encerrado, e
que o processo só poderia seguir adiante caso houvesse uma nova crise econômica
mundial. Isso marcou um rompimento entre Marx e Engels e outros setores do
movimento operário, que seguem na esperança de que "uma irrupção renovada
ocorreria de um dia para outro". No entanto, mesmo sustentando que a revolução só
seria retomada se ocorresse uma nova crise, Marx e Engels ainda não haviam se
desvencilhado do antigo modelo de revolução. Nesse sentido, Engels afirma:
"Porém, a história não deu razão nem a nós, desmascarando nossa visão de então
como uma ilusão. Ela foi ainda mais longe: não só destruiu o nosso equívoco de
então, mas também revolucionou totalmente todas as condições sob as quais o
proletariado tem de lutar. Hoje as formas de luta de 1848 são antiquadas em todos
os aspectos, e esse é um ponto que merece ser analisado mais detidamente na
oportunidade que aqui se oferece".
Engels identifica traços comuns a todas as revoluções ocorridas desde a
Revolução Gloriosa na Inglaterra (1688-9), processo que pôs fim à monarquia
absoluta e produziu a Bill of Rights. Essas revoluções foram todas conduzidas por
minorias, que conseguiram mobilizar as maiorias. Marx e Engels acreditavam que
esse modelo se aplicaria à revolução socialista, com a diferença de que nesse caso
o processo seria conduzido por uma minoria que de fato representava o interesse
da maioria. Segundo o Engels dos anos 1890, o que se passava na cabeça dele e
de Marx por volta de 1848 era algo como: "Se em todos os períodos revolucionários
mais longos fora possível ganhar com facilidade as grandes massas da população
por meio de simples mistificações plausíveis elaboradas pelas minorias
vanguardistas, como elas poderiam ser menos acessíveis a ideias que eram o
reflexo mais próprio de sua situação econômica, que não eram nada além da
expressão clara e racional das suas necessidades só difusamente e ainda não
entendidas por elas mesmas?". Assim, em seu terceiro artigo, 'Decorrências do 13
de junho de 1849', Marx, escrevendo no primeiro semestre de 1850, ainda
imaginava que a revolução estava prestes a eclodir. Para ele, a república burguesa
pós-1848 havia, por um lado, concentrado o poder nas mãos de uma grande
burguesia de mentalidade monarquista e, por outro lado, agrupado todas as demais
classes - "tanto camponeses como pequeno-burgueses" - em torno do proletariado.
Assim, aparentemente "estavam dadas, então, todas as perspectivas para a
conversão da revolução da minoria em revolução da maioria". Aparentemente, já
tínhamos uma redução nítida do conflito de classes a somente dois atores
fundamentais: a burguesia e o proletariado.
Essas ilusões foram frustradas, pois o "desenvolvimento econômico no
continente naquela época nem de longe estava maduro para a eliminação da
produção capitalista". O fato de que a partir de 1848 a grande indústria se
consolidou na França, na Áustria, na Hungria, na Polônia, na Rússia e na Alemanha
demonstrou que ainda havia muito espaço para a expansão do capitalismo. Foi
somente a partir desse salto industrializante que a divisão da sociedade em duas
classes, burguesia e proletariado, - que até então estava presente somente na
Inglaterra e em Paris - de fato se espalhou pela Europa toda. Nesse mesmo
contexto, o golpe de Estado de Luís Bonaparte em dezembro de 1851 encerrou o
período das "revoluções vindas de baixo" e iniciou o período das "revoluções vindas
de cima". Na periodização de Hobsbawm, passamos da Era das Revoluções para a
Era do Capital.

3. A Era do Capital: o nacionalismo, as metralhadoras e o partido de massas


(1851 - 1895)

O bonapartismo marca o fechamento de um ciclo e a abertura de um novo,


pois ele criou as condições para a renovação do processo revolucionário, na medida
em que promove o desenvolvimento da indústria. É nesse sentido que, para Engels,
"[o]s coveiros da Revolução de 1848 haviam se convertido em executores e seu
testamento. E, ao lado deles, já se erguia ameaçadoramente o herdeiro de 1848, o
proletariado, reunido na Internacional".
Como complemento do bonapartismo, temos a revolução prussiana pelo alto
de 1866, que alçou Bismarck ao poder e acelerou a industrialização na Alemanha.
Ambos os regimes garantiram a coesão social mediante um nacionalismo belicista,
o que levou à Guerra Franco-Prussiana (1870-71). Esse conflito conduziu à queda
do Segundo Império na França e à unificação da Alemanha, e culminou na Comuna
de Paris (março a maio de 1871). Com a Comuna, segundo Engels, "mais uma vez
ficou evidente que, ainda naquele tempo, vinte anos depois do período descrito no
presente escrito, esse governo da classe trabalhadora era uma impossibilidade". A
Comuna demonstrou ainda mais enfaticamente a inviabilidade dos governos
provisórios do tipo que já havia aparecido em 1848-49. Uma das consequências de
seu fracasso foi o aumento do prestígio do marxismo no interior do movimento
operário. Segundo Engels, já a partir de 1848-49 o avanço da industrialização havia
fortalecido o marxismo, à medida em que reduzia o conflito de classe aos seus dois
atores fundamentais. Em 1848 ainda "havia os muitos evangelhos sectários
obscuros com as suas panaceias", ao passo que "hoje [nos anos 1890] temos uma
só teoria, a de Marx, reconhecida universalmente, dotada de uma clareza cristalina,
que formula as finalidade últimas de modo preciso". O salto para a hegemonia do
marxismo, porém, foi dado de fato em 1871. Uma das razões do fracasso da
Comuna foi sua divisão entre blanquistas e proudhonistas, então as correntes mais
influentes do socialismo. A derrota desmoralizou ambas essas vertentes e, com
isso, o pensamento daqueles dois jovens alemães que escreviam em jargão
proto-hegeliano, até minoritário no pensamento socialista, conseguiu ganhar
terreno.
Segundo Engels, apesar da percepção geral de que a derrocada da Comuna
marcava o ocaso definitivo do movimento operário, foi justamente a partir desse
momento que verificou-se seu maior crescimento até então. O nacionalismo
belicista de Luís Bonaparte e Bismarck, culminando na Guerra Franco-Prussiana,
fez com que a população se familiarizasse com o manuseio de armas de fogo e com
a organização militar. Ao lado disso, os custos das guerras elevaram os impostos e
aumentaram a insatisfação popular, contribuindo indiretamente para o aumento das
fileiras do socialismo. Esses fatores, somados ao descrédito do blanquismo e do
produhonismo, provocaram uma explosão do SPD, que passou de 102 mil votos em
1871 a 1,427 milhões de votos em 1890, mesmo com leis de exceção
anti-socialistas. Essas leis foram abolidas em 1891 - mesmo ano em que o SPD
adotou um programa abertamente marxista -, permitindo ao partido conquistas
1.787 milhões de votos, "mais de um quarto de todos os votos depositados".
Para Engels, o SPD estava nesse período dando exemplo de como os
socialistas deveriam se relacionar com as eleições. A estratégia eleitoral tinha pouco
prestígio na França, devido ao abuso que sofreu sob o bonapartismo, e na Espanha,
onde havia uma tradição de absenteísmo. O direito ao voto era visto como uma
"armadilha, como um instrumento do governo para fraudá-los". O SPD estaria dando
a demonstração prática de transformação desse instrumento de fraude em
instrumento de emancipação. A questão aqui é como usar o direito ao voto. Engels
entende as votações como um bom 'termômetro' para avaliar a insatisfação popular
e a capacidade dos socialistas de se identificar com ela - as urnas seriam "um
parâmetro inigualável para dar à nossa ação a proporção correta"; já os mandatos
conquistados são vistos como "nosso melhor meio de propaganda". Ele também
afirma que os processos eleitorais estreitaram o contato do partido com a massa, às
quais deveriam se dirigir os socialistas mesmo quando falavam ao parlamento.
Embora não seja esse o ponto do texto, numa primeira leitura poderíamos ver
aqui uma defesa unilateral do eleitoralismo. E de fato, historicamente parágrafos
como o seguinte serviram de base para a falsificação reformista do pensamento de
Engels: "Esse uso bem-sucedido do direito de voto universal efetivou um modo de
luta bem novo do proletariado e ele foi rapidamente aprimorado. O proletariado
descobriu que as instituições do Estado, nas quais se organiza o domínio da
burguesia, admitem ainda outros manuseios com os quais a classe trabalhadora
pode combatê-las. Ele participa das eleições para as assembleias estaduais, para
os conselhos comunais, para as cortes profissionais, disputando com a burguesia
cada posto em cuja ocupação uma parcela suficiente do proletariado tinha direito à
manifestação. E assim ocorreu que a burguesia e o governo passaram a temer mais
a ação legal que a ilegal do partido dos trabalhadores, a temer mais os sucessos da
eleição que os da rebelião. Com efeito, também nesse ponto as condições da luta
haviam se modificado fundamentalmente. A rebelião ao estilo antigo, a luta de rua
com barricadas, que até 1848 servia em toda parte para levar à decisão final,
tornara-se consideravelmente antiquada".
Engels estaria descartando totalmente a insurreição da tática revolucionária?
Estaria mesmo descartando a tomada do Estado como estratégia? Essas
interpretações foram promovidas pelo reformismo a partir da disputa do revisionismo
que dividiu o SPD logo após a morte de Engels, como veremos. No entanto, é
evidente que no Prefácio Engels não descarta a insurreição, mas somente redefine
seu papel. Para ele, tornou-se anacrônico imaginar a insurreição "como se fosse um
embate entre dois exércitos", tal e qual o que temos nas guerras entre nações. O
objetivo dos insurretos é, na realidade, "desgastar as tropas por meio de pressões
morais", de modo que ou bem "a tropa desanimaria" ou bem "os comandantes
perderiam a cabeça".
A superioridade militar das forças oficiais é evidente. Engels, que desde os
anos 1850 se dedicou sistematicamente ao estudo da história militar - o que lhe
rendeu o apelido de "general" -, estava ciente de que seriam mobilizadas forças
destrutivas gigantescas contra os socialistas em uma luta de rua. Basta lembrar que
já na década de 1860, durante a Guerra Civil estadunidense, foi inventada uma
metralhadora capaz de 200 disparos por minuto. Na década seguinte, durante a
Guerra Franco-Prussiana, a metralhadora foi amplamente utilizada, e portanto
aperfeiçoada. Em 1895, momento em que Engels escreve o Prefácio, o Império
Britânico já havia demonstrado a eficácia das metralhadoras mais recentes, capazes
de 600 disparos por minuto, com as quais massacraram milhares de colonos
insurretos no Sudão. Ao lado das metralhadores, Engels testemunhou também o
aparecimento das granadas, das bananas de dinamite e das espingardas de
repetição Winchester, que viriam a ser a arma principal da Primeira Guerra Mundial.
E esse salto na tecnologia bélica foi acompanhado por um novo urbanismo militar:
"os novos bairros das grandes cidades, construídos a partir de 1848, são dispostos
em estradas longas, retas e amplas, feitas de encomenda para maximizar o efeito
da nova artilharia pesada e das novas espingardas".
Mas para Engels, "até mesmo no período clássico das lutas de rua, a
barricada tinha um efeito mais moral que mateiral". Ou seja, nunca esteve em
questão derrotar militarmente as forças oficiais. Sempre que houve vitória, isso se
deu pela capacidade de fazer com que as tropas oficiais cessem fogo ou deixem de
responder aos seus comandantes. Em uma passagem suprimida da versão
publicada à época, a ideia de que a luta de rua deveria ser descartada é claramente
rejeitada: "Modificaram-se as condições da guerra entre os povos, modificaram-se
não menos as da luta de classes. Foi-se o tempo dos ataques surpresa, das
revoluções realizadas por pequenas minorias conscientes à testa de massas sem
consciência". A nova forma de rua não seria mais as diversas escaramuças da
"tática passiva das barricadas", mas uma única investida de "ataque aberto", com
um grande exército popular. Ou seja, para realizar "uma remodelagem total da
organização social, as próprias massas precisam estar presentes, precisam já ter
compreendido o que está em jogo (...)". Ao que parece, os termos da relação entre
luta de rua e ação parlamentar são os seguintes: Engels tem em mente a formação
de um exército de massas, e sustenta que isso depende de um trabalho intenso no
nível da consciência das massas, a ser realizado por meio das eleições. Nesse
sentido: "(...) para que as massas compreendam o que deve ser feito faz-se
necessário um trabalho longo e persistente, e é justamente esse trabalho que
estamos fazendo agora com um êxito que leva nossos adversários ao desespero".
O sucesso eleitoral é condição para o almejado exército de massas, e não um
substituto da insurreição. A tática defendida por Engels é o acúmulo gradual de
forças até o "dia da decisão" - expressão suprimida da versão publicada à época.
Esse acúmulo se daria pela educação da consciência das massas, incluindo aí as
massas camponesas, através do "lento trabalho de propaganda e de atividade
parlamentar (...)".
É também evidente que Engels passa longe de ilusões reformistas acerca do
caráter neutro do Estado. De fato, o texto discute a possibilidade de que, diante do
crescimento do socialismo por dentro da legalidade, os próprios defensores da
ordem optem pela ruptura com a legalidade para garantir seus interesses.

4. Do socialismo à barbárie: a disputa do revisionismo e a votação dos créditos


de guerra (1896 - 4 de agosto de 1914)

A influência marxista no movimento socialista atingiu seu ponto mais elevado


até então com a adoção pelo SPD do Programa de Erfurt, documento elaborado por
Karl Kautsky, August Bebel e Eduard Bernstein em 1891, que substituiu o Programa
de Gotha. O próprio Engels exerceu forte influência sobre a redação do Programa.
Foi nesse mesmo ano de 1891, durante os debates preparatórios para o Congresso
de Erfurt, que Engels publicou a Crítica ao Programa de Gotha, escrita por Marx em
1875, como forma de fazer pressão contra o reformismo; ele também escreveu uma
Crítica ao Programa de Erfurt - que se refere a um primeiro esboço, e não ao texto
final Com essas duas tacadas, conseguiu fazer com que a primeira redação do
projeto fosse alterada, sendo substituída por outra mais radical.
No entanto, logo após a morte de Engels o marxismo passou a ser atacado
por dentro do próprio partido. Engels faleceu em agosto de 1895, e a partir de 1896
Bernstein - que era de certo modo seu herdeiro político e que fora designado pelo
próprio Engels como responsável pelo espólio de textos seus e de Marx - começou
a publicar uma série de artigos nos quais procurava refutar as bases do marxismo
revolucionário. Nesses textos, posteriormente reunidos e sistematizados no livro As
premissas do socialismo e as tarefas da social-democracia (1899), Bernstein
sustenta, no plano teórico, a necessidade de deixar para trás a dialética, que seria
anti-científica, e substituí-la pelo neo-kantismo; o plano político, ele recusa a
ditadura do proletariado em favor do foco exclusivo em reformas promovidas por
meio do parlamento. Bernstein defende ainda que seria preciso se manter nos
limites da democracia, superando as supostas influências blanquistas presentes em
Marx e Engels, que corresponderiam a uma concepção golpista de tomada de poder
por parte de uma minoria vanguardista.
Kautsky escreveu panfletos em resposta, e Luxemburgo atacou duramente
Bernstein no canônico Reforma ou Revolução? (1899). Nesse embate teórico, que
ficou conhecido como a disputa do revisionismo, Bernstein transformou o Prefácio
de Engels em sua arma principal. Para ele, tínhamos aqui um testamento político
reformista, a partir do qual o campo anti-marxista podia se apoiar na autoridade do
próprio Engels. O próprio Bernstein estava ciente das alterações sofridas pelo texto,
que ensejaram essa falsificação; contudo, isso não era do conhecimento de seus
oponentes. Por conta disso, o Prefácio representava um empecilho para o marxismo
revolucionário, que tendeu a ignorá-lo. Assim, em O Estado e a Revolução (1917), a
reconstituição cronológica feita por Lênin das posições de Marx e Engels a respeito
da questão do Estado deixa de mencionar o Prefácio. Do mesmo modo, esse texto
não é discutido por Luxemburgo em Reforma ou Revolução?. Trotsky, por sua vez,
só comentou o Prefácio nos anos 1930, quando a versão sem cortes foi publicada
pelo Instituto Marx-Engels de Moscou. Em 1935, ele afirmou: “a famosa Introdução
de Engels (…) deu origem a inúmeras controvérsias. Na época, os alemães o
alteraram e cortaram por um problema de censura. Nos últimos quarenta anos,
filisteus de todas as cores afirmaram centenas e milhares de vezes que o ‘próprio
Engels’ aparentemente renegou de uma vez por todas os velhos ‘métodos
românticos’ da luta de rua. No entanto, se há algo que Engels essencialmente
renegou foi a ideia do putsch, isto é, escaramuças fora de hora de uma pequena
minoria; em segundo lugar, ele repudiou os métodos antiquados, ou seja, formas e
métodos de luta de rua que não correspondiam ao progresso da tecnologia. (…) Era
necessário que a terceira parte ou, melhor ainda, dois quintos do exército (…)
fossem ganhos para o socialismo. Neste caso, a insurreição não será um putsch".1
Luxemburgo romperá seu silêncio sobre o Prefácio em um discurso 'Sobre o
Programa Espartaquista' de 1918, em que aponta esse texto como o responsável
pela catastrófica aprovação dos créditos de guerra em 4 de agosto de 1914 e pelo
colapso da social-democracia revolucionária. Esse dia de certo simboliza a opção
pela barbárie em detrimento do socialismo. O SPD, que tinha até então um histórico
anti-belicista, viu sua militância insuflada pelo nacionalismo belicista quando a
Alemanha declarou guerra à Rússia em 1914. Contribui para isso o forte sentimento
anti-russo presente entre os socialistas, decorrente da posição de destaque
ocupada pelo czarismo enquanto articulador da reação europeia. Dos 110
parlamentares do SPD, 96 votaram a favor dos créditos de guerra por convicção, e
outros 14 por disciplina partidária. Para possibilitar a mobilização total, os sindicatos
abdicaram do direito à greve durante o período de guerra. O Kaiser Guilherme II
declarou extasiado: "não há mais partidos, somente alemães". A capitulação do
SPD levou ajudou a arrastar o restante da Segunda Internacional para a adesão à

1
Essa questão do blanquismo está ligada ao surgimento do assim chamado "Marxismo Ocidental". A
partir de 1910, Kautsky, que até então era o "papa do marxismo", passa a ocupar a posição de um
centro entre Bernstein e Luxemburgo. Ao mesmo tempo em que faz frente ao revisionismo em nome
do marxismo, ele rejeita a ideia de Luxemburgo de que os métodos utilizados na Revolução Russa
de 1905 poderiam ser aplicados na Alemanha. Em sua argumentação, ele distingue o marxismo
russo - "Oriental" e com influência blanquista - do marxismo alemão - "Ocidental". Em História da
Revolução Russa, Trotsky retoma o Prefácio, e discute também as acusações de blanquismo que
foram lançadas primeiro contra Marx e Engels por Bernstein e, a partir dos anos 1910, também
contra os bolcheviques, por Kautsky, a essa altura um "renegado": "A crítica de Engels dirigida contra
o fetichismo da barricada apoiava-se na evolução da técnica em geral e da técnica militar. A tática
insurrecional do blanquismo correspondia ao caráter da velha Paris, ao proletariado semiartesanal, a
ruas estreitas e ao sistema militar de Luís Filipe. Em princípio, o erro de Blanqui consistia em
identificar a revolução com a insurreição. O erro técnico do blanquismo consistia em identificar a
insurreição com a barricada. A crítica marxista foi dirigida contra os dois erros. (...) Engels descobriu
não somente o lugar secundário da insurreição na revolução, mas também o papel declinante da
barricada na insurreição. A crítica de Engels nada tinha em comum com uma renúncia aos métodos
revolucionários em proveito do puro parlamentarismo, como tentaram demonstrar em seu tempo os
filisteus da socialdemocracia alemã, em cooperação com a censura dos Hohenzollern. Para Engels,
a questão das barricadas continuava sendo a questão sobre um dos elementos técnicos da
insurreição. Os reformistas tentaram deduzir da negação do papel decisivo da barricada a negação
da violência revolucionária em geral".
guerra imperialista. No total, somente quatro partidos filiados permaneceram firmes
na oposição à guerra: os Mencheviques e os Bolcheviques na Rússia; o
Independent Labour Party na Inglaterra; e o Partido Social-Democrata da Sérvia.
Para concluir, gostaria de ressaltar que o próprio Engels previu com precisão
impressionante os contornos mais gerais da Primeira Guerra. Para ele, a
militarização de milhões de cidadãos europeus promovida pela Guerra
Franco-Prussiana preparava o terreno tanto para a revolução social como para uma
guerra mundial. No Prefácio, a aposta de Engels é a de que o internacionalismo
proletário poderia se sobrepor ao nacionalismo belicista, como podemos ver em
passagens como: "A anexação da Alsácia-Lorena, a causa mais evidente da
desvairada concorrência armamentista, conseguiu insuflar de maneira chauvinista a
burguesia francesa e a burguesia alemã uma contra a outra; para os trabalhadores
dos dois países, ela se converteu num novo laço de união". No entanto, em textos
dos anos 1880 encontramos prognósticos mais pessimistas. Em um artigo de 1887,
ele afirma que caso uma nova guerra envolvesse a França e a Prússia, o resultado
seria "(...) uma guerra mundial de uma amplitude e uma violência jamais imaginadas
até agora. De oito a dez milhões de soldados vão ser degolados entre eles e ao
fazer isso devastarão toda a Europa como jamais ocorreu a um enxame de
lagostas. As devastações da guerra dos Trinta Anos, concentradas em três ou
quatro anos, e esparzidas por todo o continente; fome, epidemias, embrutecimento
generalizado dos exércitos e das massas populares devido à miséria aguda; caos
irremediável de nosso mecanismo artificial no comércio, a indústria e o crédito,
levando à bancarrota geral; afundamento dos velhos Estados e de seu saber fazer
estatal tradicional, de modo que as coroas rodarão por dezenas sobre o pavimento,
e não se encontrará a ninguém que as recolha; impossibilidade absoluta de prever
como acabará tudo isso e quem sairá vencedor neste combate; um único resultado
está absolutamente claro: o esgotamento geral e a criação das condições da vitória
final da classe operária. Esta é a perspectiva quando o sistema da oferta mútua no
armamento bélico levada ao paroxismo dê inevitavelmente seus frutos”. De fato, a
guerra derrubou monarquias e criou condições para as revoluções operárias na
Rússia, na Alemanha e na Hungria. Contudo, novamente aqui a história não deu
razão a Engels, por mais impressionante que seja sua capacidade de antecipar os
acontecimentos: as revoluções alemã e húngara não se consolidaram, e a revolução
russa, isolada, se degenerou. De modo que talvez a previsão mais precisa de
Engels seja a que temos em uma carta a Bebel de 1886: "No caso de guerra
mundial não estará assegurada mais que a barbárie, e não a vitória do socialismo”.

Referências:

RICCI, Franceso. O "Testamento" falsificado de Engels: uma lenda dos oportunistas.


In:
https://teoriaerevolucao.pstu.org.br/o-testamento-falsificado-de-engels-uma-lenda-do
s-oportunistas/

SEWELL, Rob. 4th August 1914 - The great betrayal of the Second International. In:
https://www.marxist.com/4th-august-1914-the-great-betrayal-and-collapse-of-the-sec
ond-international.htm

ACHCAR, Gilbert. Engels - pensador da guerra, pensador da revolução. In:


https://movimentorevista.com.br/2020/11/engels-pensador-da-guerra-pensador-da-re
volucao/

LUXEMBURGO, Rosa. Folheto Junius. In:


https://movimentorevista.com.br/2021/05/folheto-junius/

__________. On the Program and the Political Situation. In:


https://www.marxists.org/archive/luxemburg/1918/12/31.htm

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