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DIFERENÇAS CULTURAIS ENTRE OS ETNERC E OS OLUDÉRCNI. . .

Bruno Dransfeld
“O Batista Gaúcho “
Outubro – 2010

Os povos Etnerc e Oludércni são tribos que há milênios convivem em sociedade e, apesar das
diferenças em seus ritos e tradições, sempre dividiram o mesmo espaço geográfico. Estudos revelam que esses
povos são originários da África, diz a lenda Etnerc que eles vieram de uma região oriental, à época chamada
Nedé, e que a tribo Oludércni é descendente dos primeiros Etnerc.
Através dos séculos essas duas grandes civilizações exploraram e romperam os limites territoriais,
espalhando-se por todo o mundo, atualmente elas são encontradas em todos os continentes, no entanto, pesquisas
indicam que o número de Oludércni é significativamente maior do que o de Etnerc...
Quase todos os aspectos sociais, culturais e políticos da vida dos dois povos são semelhantes,
diferindo apenas de acordo com a região em que estão estabelecidos, porém, há apenas um que os difere
fundamentalmente, a ponto de não permitir que as tribos se unam e sejam uma só: a Crença. É ela que define a que
povo um nativo pertence e não suas origens. Por isso, tanto um indivíduo Etnerc quanto um Oludércni podem
mudar de tribo a qualquer momento de sua vida, basta mudar sua crença e, consequentemente, seu
comportamento. Todavia, essa mudança sempre causa desconforto nos clãs, que, obviamente, desejam manter-se
sempre de acordo com as tradições étnicas próprias de seu povo. O que, muitas vezes, acaba freando a iniciativa
do indivíduo.
Enquanto os Etnerc acreditam que há um ser criador que os formou, assim como a toda natureza,
os Oludércni consideram-se o próprio deus, acreditam que o poder está no seu próprio espírito, é por isso que
cada um é um deus que governa o seu destino, seu objeto de crença e superstições é o seu próprio eu...
De acordo com as crenças Oludércni, o valor de um indivíduo não consiste naquilo que ele é, mas
está naquilo que ele possui: no tamanho de sua tenda, na potência de seus cavalos, na abundância de mantimentos
que produz e na quantidade de indígenas submetidos à sua autoridade. Também idolatram o corpo, dedicando
várias luas ao culto de sua forma física. A beleza é muito venerada entre eles, por isso fazem vários rituais, até
dolorosos, para obtê-la, principalmente entre as mulheres que se sacrificam em busca do corpo ideal, usando como
objeto de sedução. Quanto mais homens a desejam mais mulheres a invejam, logo, maior é o seu poder. Já para um
homem Oludércni o poder não está necessariamente na sua aparência, mas no número de belas mulheres com
quem consegue relacionar-se, de preferência, sexualmente. Possuir mulheres significa, simbolicamente,
masculinidade. Culturalmente, as mulheres são o símbolo fálico que é exibido perante os outros homens. Por se
considerarem divindades mortais, eles acreditam que tudo é válido para realizar seus desejos, e em prol da própria
felicidade, por isso, em muitos momentos eles podem revelar-se hostis, egoístas, orgulhosos e insensíveis. Por
isso várias guerras foram travadas entre eles, Oludércni contra Oludércni. É curioso que ainda sejam tão
numerosos...
A questão de sua existência e morte permanece como um tabu entre eles. A fim de amenizar a
angústia proveniente das dúvidas, eles explicam sua origem através das crenças dos sacerdotes das estrelas,
também conhecidos como Somonôrtsa, que dizem que tudo veio do nada, também na lenda do grande feiticeiro
Niwrad, ele acreditava que seus antecedentes foram os animais, que através dos anos adquiriram maiores
capacidades cognitivas e formas cada vez mais complexas até chegar a atual estrutura humana. Até entre eles não
há certeza alguma sobre a veracidade dessas lendas, contudo elas são muito aceitas, por serem a única explicação
“racional” para sua origem. Já quanto à morte, evita-se falar sobre ela, pois nenhum Oludércni pode ter certeza de
que ela é o fim...
Já dentro da cultura Etnerc, há a crença de que eles são filhos do grande Osoredop-Odot. Diz a
lenda que essa divindade criou a toda Natureza afim de servir as suas mais belas criaturas: os seres humanos, que
foram os primeiros Etnerc. Também diz que Osoredop-Odot moldou, com as próprias mãos, de forma única e
especial um coração para cada homem e mulher e lhes deu para que o amassem e pudessem senti-lo, também
preparou uma bela aldeia, onde todos viviam em paz.
Certo dia, dois forasteiros, vindos de muito longe, aproximaram-se da aldeia. Todos os nativos
reuniram-se em torno deles para conhecê-los, pois nunca tinham visto ninguém que não pertencesse à tribo Etnerc.
Tratava-se de um velho senhor, chamado Ongilam, acompanhado de seu filho Odacep, um belo rapaz de feições
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encantadoras, seu porte era imponente como de um guerreiro, seu olhar era sedutor e sua voz confiante...
Entretanto, ele andava errante, pois ainda não tinha encontrado seu lugar no mundo. Ongilam, ansiando por uma
morada para seu filho, lhes propôs que o aceitassem na tribo em troca do grande conhecimento que Odacep os
oferecia. As moças apaixonadas (paixão vem do grego pathos=patologia, doença), convenceram os homens a
aceitá-lo. Vendo que todos foram seduzidos pela formosura de seu filho, e ansiavam aceitá-lo. Ongilam lhes
propôs uma condição: só deixaria seu filho viver na aldeia se eles entregassem à Odacep seus corações, sendo que
uma vez entregue, ele jamais retornaria. Então, sem consultar Osoredop-Odot, todos o aceitaram, e desejando seu
conhecimento, lhe entregaram seus corações, outrora recebido de seu senhor para que o amassem.
Quando Odacep entrou na aldeia, transfigurou-se, revelando sua verdadeira identidade. Então os
olhos de todo o povo abriram-se e eles viram um violento monstro. Mas os Etnerc não podiam livrar-se dele, pois
já lhe tinham entregue seus corações. Odacep os subordinou ao duro jugo da escravidão, forçando-os a fazer
coisas terríveis e vergonhosas, jamais imaginadas, trazendo sobre o povo grande sofrimento.
Não havia esperança, pois era impossível recuperar os corações, uma vez que estes foram
aprisionados por Odacep em sua caverna, vigiada por seu pai Ongilam. Odacep arrancou de dentro deles o amor
à Osoredop-Odot, assim como as memórias de tudo quanto ele havia feito, por fim, os envenenou com ódio,
amargura, egoísmo, e ganância. Com isso, conseguiu que o povo aceitasse o seu domínio, criando gosto pelo que
ele lhes impunha. Porém, apesar de poder manipular os corações encarcerados, uma coisa não conseguiu retirar
deles: a Liberdade e o Livre Arbítrio! Por isso cada nativo, mesmo envenenado pela maldade e violência de
Odacep, podia escolher entre amá-lo ou não, todavia, a maioria passou a amá-lo!
Quando Oseredop-Odot, viu que Ongilam havia enganado o povo e agora este estava oprimido
sob o poder de Odacep, chorou amargamente, não podia, simplesmente, tomá-los de volta, pois eles usaram sua
liberdade para escolher entregar o coração. Precisava libertar e reconquistar seus corações, construindo uma ponte
sobre o abismo que os separava... Somente com sua vida poderia pagar o preço da separação proporcionada por
Odacep.
Ciente do sacrifício que faria, entrou na aldeia disfarçado de nativo para falar ao povo que havia
esperança e que eles não precisavam ser escravos de Odacep, ainda havia uma chance de reconquistar a liberdade
se eles se arrependessem de sua maldade e retornassem ao seu Senhor Oseredop-Odot, também lhes ensinou o
amor, mas não o compreenderam, pois seus corações estavam obscurecidos pelo engano, antes, o desprezaram,
humilharam, feriram e maltrataram, até que, não suportando mais as suas palavras, sacrificaram-no em público.
Assim, consumou-se o seu acordo com Odacep.
Ongilam, que estava sempre aos arrredores, celebrou o fracasso de Osoredop-Odot e vitória de
Odacep, certo de que triunfaria para sempre sobre o povo. Só que, para sua surpresa, Oseoredop-Odot, que é
mais forte do que a morte, reviveu, e, sem palavras, apenas com o poder e autoridade do seu olhar, expulsou
Ongilam da entrada da caverna, derrotando-o para sempre! Assim, resgatou todos os corações encarcerados por
Odacep, mas, para que fossem verdadeiramente livres, retornou a aldeia e devolveu-os a cada homem e mulher da
tribo, para que não mais estivessem sob o domínio de Odacep, mas pudessem, mais uma vez, escolher voltar-se ao
seu amável senhor!
Apesar do seu inimaginável sacrifício e de ter resgatado os corações do poder de Ongilam, a
maioria dos nativos, agora livres, não quiseram dar ouvidos a Osoredop-Odot, alguns por não acreditarem nele,
outros porque achavam difícil viver o amor sem interesses que ele lhes oferecia. Estes retornaram à presença de
Odacep e, adorando-o, lhe imploraram que os mantivesse na escravidão. De fato, estes nunca foram livres, pois
sua mentalidade era algemada às trevas, onde ninguém pode ver...
Porém, os poucos que ficaram, ao receberem seus corações, reconheceram seu Senhor e, em
prantos, clamaram que os perdoassem, o adoraram e agradeceram seu sacrifício. Então, em sinal de obediência,
devolveram seus corações ao grande Osoredop-Odot, pedindo-o que cuidasse deles e os purificassem de todo
veneno de Odacep. Osoredop-Odot sorrindo os perdoou, e, prometendo-lhes sempre sussurrar aos seus corações
a verdade das suas palavras partiu, deixando a promessa e esperança de sua volta!
Desde então, os Etnec, buscam viver uma vida correta, sem egoísmo e maldade, amando-se
mutuamente e considerando uns aos outros superiores a si. Através da sua bondade tentam mostrar aos que não
conhecem ao seu Senhor o quanto Ele os ama, e deseja aproximar-se deles. Contudo, apesar de terem seus
corações curados, restaram a cicatrizes deixadas por Odacep, e como conseqüência, algumas vezes os Etnerc
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fazem coisas que desagradam ao seu Senhor Osoredop-Odot mas ele está sempre pronto a perdoar o coração
arrependido.
Conclui a lenda que foi a partir desse momento que, apesar de conviverem nas mesmas aldeias,
compartilharem da mesma cultura e constituírem uma mesma sociedade, o povo dividiu-se de acordo com suas
crenças. Aqueles que não crêem em Osoredop-Odot, tampouco nessa lenda, que não vivem segundo o seu amor, e
submetem-se à Odacep sem arrrepender-se de sua escolha, são aqueles a quem chamados, até hoje, de
Oludércni...

FIM

Hei, Você, A Que Tribo Pertence, Tchê. . . ?

Hei! Caso não tenhas notado, “Etnerc” e “Oludércni” são, respectivamente: “Crente” e
“Incrédulo”, ao contrário. Releia o texto lendo as palavras em negrito e palavras em itálico e ele fará um novo e
Importante sentido pra você, querido Irmão ! ! !