Você está na página 1de 3

II CONGRESSO BRASILEIRO DE PSIQUIATRIA

Palestra: “Quadros Depressivos em Crianças de 0 a 10 Anos”


(Francisco Assumpção e Kleber Oliveira)

Francisco Assumpção
Os transtornos depressivos são caracterizados pelo aparecimento de tristeza
patológica associada a perda (ou aumento) de apetite, insônia ou hipersônia,
dificuldades de concentração, perda de prazer, diminuição de libido e retardo
psicomotor. Podem ser crônicos com sintomas mais brandos (distimia) ou agudos com
sintomas mais graves (depressão maior).
Para diagnóstico diferencial em pré-escolares considera-se a negligência/abuso,
falência do desenvolvimento, ansiedade de separação, transtornos de ajustamento
com humor deprimido; em escolares considera-se os transtornos de ajustamento com
humor deprimido e transtornos de ansiedade, em adolescentes considera-se abuso de
álcool/drogas, transtornos de ansiedade e esquizofrenia. Além de outros casos de
doenças em geral, como infecções, transtornos neurológicos e endócrinos, medicações
etc.
Pensar o ser humano é fundamental e ele é mais do que a mera imposição
social ou legal de qualquer manifestação. Suas decisões são pessoais a partir do
momento em que é capaz de avalia-as e se responsabilizar por elas.
Crianças se manifestam por meio de seus comportamentos, que são
dependentes de mecanismos de controle ligados ao SNC (mundo biológico),
mecanismos cognitivos gerais programados através de aprendizado e ambiente
(mundo das relações), mecanismos de controle ligados a linguagem e processos
simbólicos (mundo próprio), sendo envolvidas duas funções para pensarmos esse
desenvolvimento: inteligência e afetividade.
Quanto ao tratamento, é necessário o tratamento medicamentoso,
psicoterapia e psicoeducação, terapia familiar e adaptações pedagógicas, um
tratamento correto exige que se conheça o desenvolvimento da criança, sua família e
seu ambiente social. Pouco se conhece sobre os efeitos neurobiológicos de
medicações psicotrópicas no cérebro em desenvolvimento.

Kleber Oliveira
O diagnostico de depressão na infância é um desafio devido a criança estar em
processo de desenvolvimento, o diagnóstico diferencial também é bastante difícil de
fazer. A prevalência é cerca de 1 a 2%, tem evolução crônica, episódica (cada episódio
dura de 3 a 6 meses) e recidivante.
Alguns critérios diagnósticos importantes nessa idade são: humor deprimido,
perda de interesse ou prazer e falta de concentração, além de desvio no padrão da
curva de crescimento, insônia ou hipersônia, agitação ou retardo psicomotor, fadiga,
sentimento de culpa ou inutilidade e ideação suicida ou pensamentos de morte em
crianças maiores. Sempre se deve observar os prejuízos que esses sintomas trazem.
Quanto aos sintomas mais comuns por faixa etária, seguem abaixo:

 Lactentes (bebês até 02 anos): sinais indiretos por meio da expressão facial e
postura corporal, lentificação motora, retraimento social mesmo com pessoas
conhecidas, choro imotivado, recusa alimentar e alterações de sono;
 Pré-escolares (02 a 06 anos): não atinge peso esperado, fisionomia triste ou
seria, irritabilidade, agitação, sintomas ansiosos (ansiedade separação,
preocupação exacerbada com situações catastróficas etc.), estereotipias
(balanceios), dores vagas, perda de habilidades adquiridas (enurese, dificuldade
para se alimentar sozinha etc.), perda de prazer em atividades que antes
gostava;

 Escolares: tristeza, irritabilidade, instabilidade emocional (alteração de humor


não justificada, reação abrupta a qualquer estímulo), isolamento social,
lentificação psicomotora, distraibilidade, alteração de peso, pensamentos
suicidas, desesperança.

Ao avaliar a depressão é importante continuar observando para fazer


diagnoistico diferencial com relação ao transtorno bipolar, transtornos de ansiedade,
TDAH, transtornos de ajustamento e condições clinicas e medicações.
Geralmente na entrevista os pais levam os sintomas externalizantes, como
queda no rendimento escolar, irritabilidade, isolamento social, afastamento de
atividades que antes gostava, entre outros, mas o psiquiatra deve avaliar ainda os
sintomas internalizantes como associados ao desenvolvimento cognitivo, anedonia,
avolição e ideação suicida.
Se não for feito o tratamento adequado, as possíveis seqüelas sao: abuso de
substancias, transtornos de conduta, transtornos de personalidade, comportamento
suicida, obesidade, comportamento sexual de risco, problemas sociais, dificuldades
acadêmicas e laborais.
O suicídio pode ocorrer devido a severidade dos sintomas, cronicidade,
planejamento e ideação, tentativas prévias, comorbidade com transtorno de conduta,
abuso de substâncias e agressividade, falta de suporte familiar, desesperança e história
familiar de suicídio.
Quanto aos fatores de risco para a depressão, podem ser: bullying, luto, abusos
(físico, psicológico, sexual), mudanças drásticas, pensamentos negativos devido a
família enfatizar apenas aspectos negativos da criança, criminalidade parental, uso de
substâncias pelos pais, histórico familiar de transtornos de humor, alto risco de
recorrência de TAB e ansiedade na família.
O tratamento deve ser um plano de tratamento individualizado, considerando
aspectos desenvolvimentais, estressores e a psicoeducação de cada criança, requer o
envolvimento parental para ter sucesso. A psicoterapia favorece a melhoria do quadro
em qualquer abordagem, devem atuar sobre os distúrbios da interação social e
oferecer suporte no nível educacional e social, buscando readaptar a criança ao seu
meio. É importante avaliar também se a criança não é o paciente identificado da
família, é muito comum que a depressão na criança seja a denunciante de problemas
familiares, por isso o tratamento deve considerar essa questão e observar e envolver a
família, para que o contexto da criança mude.