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Profa. Ms. Claudia Nunes - Quais os impactos da Neurociência na educação, hoje? E que transformações podem
acontecer na escola com a parceria dos princípios neurocientíficos nos planejamentos?
Profa Dra Marta Relvas - Bem acredito num termo muito em voga hoje: colaboração. Por conseguinte, acredito em uma
colaboração como reflexo de outra palavra importante: interdisciplinaridade. É a comunhão entre saúde e educação/escola no
intuito de esclarecer, com outras nuances teóricas, o acontecimento de algumas situações de ensino e ações/reações discentes.
Estava mais do que na hora disso acontecer. Muitas das ciências não estão mais encasteladas em seus conjuntos teóricos ou
campos de análise, há uma convergência de conceitos e teorias que conseguem explicar ou, pelo menos, minimizar certos
conflitos e problemas em diferentes âmbitos. Neste caso, a neurociência (o conhecimento neurocientífico) não poderia ficar
restrita à área médica. Quando se procura, por exemplo, uma educação ou ensino de qualidade, o aspecto da saúde escolar com o
qual nós, professores, nos deparamos, todos os dias, não poderia continuar tão excluída. Dentro desta perspectiva, é importante
reconhecer que o professor em sua formação necessita estudar como ocorre o processo da aprendizagem num contexto mais
neuroanatomofisiológico. Mas temos que ter cuidado com isso: os estudos e pesquisas neurocientíficos na educação escolar não
podem ser encarados como receituários pedagógicos, eles são “pistas” importantes de que existem diferentes maneiras se ensinar
e aprender conteúdos. É preciso aceitar de vez que, em nossas turmas, cada sujeito é único no que tange à sua integralidade, a
saber: cultura, biologia, psicologia e social; logo também é único em seu processo de aprender. Se assim for entendido, permear o
olhar educativo envolvendo também características do funcionamento do sistema nervoso central será de suma importância.
Profa. Ms Claudia - Pensar na parceira entre Neurociência e Educação na prática pedagógico ou em atividades didáticas é
pensar em formação do professores. Qual é sua opinião sobre isso? É possível mudanças nos currículos das licenciaturas?
Profa Dra Marta Relvas - Bom, sabemos que mudanças são difíceis e levam tempo, mas diante, por exemplo, do intenso
processo de globalização mundial e da acelerada ascensão das novas tecnologias no cotidiano, penso que mudanças precisam
acontecer urgentemente e com muita responsabilidade. Não se pode mais tratar deste assunto com banalidade, em alguns
momentos ou em pequenos grupos, frente às inúmeras pesquisas desenvolvidas na área acadêmica. Em minha opinião, após
muitas leituras e anos de vivência docente nos diferentes ensinos (fundamental, médio, superior, e pós), hoje não é possível
separar os estudos do corpo, mente, razão, emoção, aprendizagem, da sala de aula, da prática de ensino, da didática, da Educação.
O sujeito que aprende é único em sua totalidade e isto quer dizer o seguinte: ele é único em suas maneiras de assimilar
informação e transformá-la em conhecimento. E dentro deste diálogo, emoções de todos os tipos estão envolvidas, a saber:
emoções trazidas de casa, emoções dos meios de comunicação, emoções das relações pessoais e interpessoais de ambos os atores
educacionais. Mas, antes de tudo, é preciso ter um entendimento maior sobre o assunto para ‘saber agir na urgência’, como disse
Edgar Morin. Estudos sobre a contribuição da neurocientificidade, no processo de aprendizagem ou no entendimento do diálogo
professor-aluno, na contemporaneidade, dão mais consistência (base) às ações docentes em aula, no desenvolvimento de projetos,
na formação de grupos de pesquisa, ou na intenção de capturar a atenção dos seus alunos quanto aos conteúdos apresentados.
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25/02/2019 UM MUNDO DE APRENDIZAGENS: NEUROCIÊNCIA E EDUCAÇÃO: Entrevista com Profa Dra MARTA RELVAS
Mesmo assim, o que ainda percebo muito é uma grande resistência por parte de muitos educadores, ainda que deslumbrados
sobre o assunto. Eles parecem não confiar nas temáticas das pesquisas e têm dificuldade de entender a neurociência como uma
ferramenta de contribuição para o entendimento pleno do desenvolvimento da aprendizagem. É um diálogo difícil, não
impossível, acredito. Se lembrarem que muitos teóricos da educação também tiveram uma relação íntima com outras diferentes
ciências, inclusive as médicas, lembrarão também que esta relação procurava entender ‘aprendizagem’, processos de
aprendizagem. A singularidade desta relação hoje, junto às neurociências, é que podemos entender aprendizagem TAMBÉM
entendendo como ela acontece no principal ator e processador de informações e conhecimento: o cérebro. O que se pede? Que
este novo professor conheça as teorias pedagógicas e as perpasse pelo conhecimento neurocientífico com mais prazer e
criatividade.
Profa Ms Claudia Nunes - Quais seriam suas indicações para um professor que desperte para as teorias científicas em
busca de respostas para as crescentes dificuldades de aprendizagem?
Profa. Dra Marta Relvas - Eu só conheço uma indicação para este ‘despertar’: estudar muito. E isto demanda buscar novas
perspectivas e muitas informações sobre o assunto, além de ter a ‘consciência’ de que é preciso ter muita coragem para mudar os
próprios paradigmas até então aceitos como ‘de sucesso’, primordiais e ‘corretos’. É correr risco mesmo! É experimentar algo
novo sem tantas reservas. Há dados empíricos importantes que precisam ser conhecidos e reconhecidos (e utilizados) pelos
professores em seus estudos e práticas, e, para tal, é preciso voltar ‘aos bancos escolares’, ou seja, encarar ‘formações
continuadas’ neste e noutros assuntos relacionados, ter muita dedicação e se manter horas sentados na cadeira debruçados sobre
‘livros grossos’, como costumo dizer aos meus acadêmicos. Mesmo em outros temas, observo que muitos professores se
tornaram ‘práticos do ensino’, abdicando de serem ‘estudiosos da aprendizagem’, por diferentes razões, em muitos casos até
justificáveis, mas que prejudicam seu ‘olhar’ sobre sua aula e seus alunos. Aí sempre reafirmo aos meus acadêmicos: não haverá
mudança de paradigma se o professor não for pesquisador/leitor do seu tempo e incluir o conhecimento neurocientífico em seu
cabedal teórico cujo processo demandará esforço e criação de objetivos reais.
Profa Ms Claudia Nunes - A maioria das escolas hoje está em processo de informatização. Hoje a Internet é um dos
grandes meios de comunicação e de informação. Diante disso é possível afirmar que a cognição está alterada? Como a
neurociência responderia a isso?
Profa Dra Marta Relvas - Bom, muito se fala da Internet, geração Y e as mudanças cognitivas. Eu acredito que esta mudança
não seja mais uma possibilidade, e sim uma constatação. Os cérebros estão realizando plasticidades diferentes, estão se moldando
de maneira diferente. Mais do que construir ferramentas para melhor atender a si e ao cotidiano, o homem constrói ferramentas
para melhorar sua qualidade de vida e, desta maneira, se manter vivo, jovem e eterno. A Informática e o movimento de imersão
no mundo virtual sugerem a utilização de uma nova linguagem e esta reorganiza o funcionamento cerebral. Nada diferente do que
fizeram e fazem a linguagem oral e a escrita nas sociedades. Desde a criação do ábaco, do papel, do lápis (...), dos computadores,
o humano necessita se ‘corticalizar’ a fim de se tornar inserido e aceito na sociedade. Logo, o uso exacerbado (ou não) da Internet
ou de recursos tecnológicos facilitadores da ação humana geram alteração sim do córtex e mudanças nas formas de aprender,
pensar, sentir e agir. Há o desenvolvimento do potencial da inteligência humana de qualquer maneira. Pode-se dizer que estamos
caminhando para uma ecologia cognitiva, onde a informação, principal ferramenta para atender as necessidades humanas neste
contexto planificado do planeta, se tornou nossa moeda de entrada (e de troca) na sociedade.
Profa Ms Claudia Nunes - Quais foram as mudanças de comportamento e sociais que a senhora imagina ao englobar
neurociência e educação nas práticas pedagógicas?
Profa Dra Marta Relvas - Eu acredito e espero que ocorra maior conhecimento de como a aprendizagem ocorre no cérebro e em
todo corpo. E principalmente, como esta aprendizagem é exposta ou pode ser estimulada. Algo que possa facilitar e ampliar a
compreensão dos processos percorridos pela informação no meio externo e interno humano. Algo que implique numa revisão
séria sobre as formas de resolver conflitos e situações pedagógicas na escola ou sala de aula com mais coerência, afetividade e
paciência. É preciso reconhecer que a EMOÇÃO é a centelha da vida, ou melhor, é o estímulo desencadeador e fixador da
informação na memória. Em outras palavras: é através da emoção que o cérebro seleciona o que é importante ou não,
transformando em uma aprendizagem significativa o tempo todo. Um professor ‘emocionado’ demanda do aluno novas emoções
e isto gera dúvidas, experimentações e aprendizagens. É o cérebro em plasticidade para aprender, criar competências.
Profa Ms Claudia Nunes - Como as neurociências ou alguns de seus temas aparecem ou apareceriam no currículo da
formação de professores, por exemplo?
Profa Dra Marta Relvas - Num primeiro momento e num impulso, eu diria que a modificação deveria ser logo, vertical e de
alcance geral em termos de ensino. Professor deveria ter acesso ao elenco de assuntos neurocientíficos desde o início de sua
formação. Mas pensando com mais vagar, talvez se possa iniciar o processo no ensino superior, quando o professor recebe as
informações necessárias ao seu futuro profissional. Neste momento, disciplinas de conteúdo neurocientífico, voltado para o
trabalho docente, abririam novas perspectivas para o professor quando diante de situações surpreendentes, tensas ou trágicas no
ambiente de trabalho. O professor teria mais ‘cartas na manga’ para gerenciar indisciplinas, desinteresses, hiperatividades,
agressividades, dificuldades de aprendizagem dentre outros. Se isto acontecesse no ensino superior, os outros ensinos seriam
automaticamente atingidos por este novo olhar, postura, atitude. Conhecendo o funcionamento neurocientifico da aprendizagem
pode se entender, por exemplo, os processos de assimilação, acomodação e equilibração: zonas de desenvolvimento que
acontecem nas células neurais com intensidade e constantemente; e como os estímulos atuais, na neurofisiologia celular,
aumentam ou diminuem o potencial elétrico e químico da célula neurônio quando o aluno se esforça em aprender, a partir de
desafios significativos e contextualizados.
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25/02/2019 UM MUNDO DE APRENDIZAGENS: NEUROCIÊNCIA E EDUCAÇÃO: Entrevista com Profa Dra MARTA RELVAS
Profa Ms Claudia Nunes - Para garantir uma rotina de aprendizagem em turmas de quase 30 alunos, ou 30 cérebros,
como a senhora diria, o que o professor deveria saber? Como o professor deveria agir?
Profa Dra Marta Relvas - Bom, de pronto afirmo: nosso sistema educacional é cruel e desumano com o professor. Eu costumo
dizer que aprendizagem não combina com currículo escolar, pois aprender demanda um ritmo neural de sinapses e transmissões
de dados que são transformados em informações e emoções, que por sua vez são transformados em aprendizagem significativa
muito individual; e isto não combina com as delimitações de tempo de cada disciplina como acontece hoje em dia. Como esperar
que um cérebro assimile informação e a transforme em conhecimento em um tempo ou dois de 40 ou 50min? E pior, este cérebro
precisa ‘aprender’ diferentes conteúdos numa manha: entre às 8h e 12h, o aluno deve ‘aprender’ partes do conteúdo de artes,
química e física, por exemplo. É uma loucura! O conhecimento deve ser aplicado em mudanças de atitudes comportamentais e
isto demanda tempo de estudo, múltiplos acessos e diferentes formas exercitar. Mas este professor deverá acompanhar os
processos dos 30 cérebros que estão em sua frente com muita atenção? Sim, deve, mas é difícil... é difícil diante de nossas
‘políticas públicas’ que, cada vez mais, assumem o frenesi dos fast foods em seus programas educacionais em muitos casos de
pouca participação e reflexão dos próprios professores. Então, como disse anteriormente, sugiro que o professor estude muito
para compreender essa dimensão biopsicoafetiva, social e cultural que chega à sua sala de aula e que demanda novas posturas
sobre o ‘fazer pedagógico’.
Profa Ms Claudia Nunes - Quais seriam as melhores propostas de dinâmicas de ensino a serem escolhidas por um
professor(a) que já reconheça a neurociência como fonte de suas pesquisas e/ou atualizações de conteúdo, por exemplo?
Profa Dra Marta Relvas - Cada professor já tem inúmeros recursos tecnológicos que o auxiliam em seus planos de aula,
planejamento de cursos e projetos escolares. Estes recursos foram adquiridos em sua formação e em seu cotidiano profissional.
Diante da oportunidade de conhecer a neurociência, cabe a ele verificar quais dinâmicas podem ser adaptadas a este novo
conhecimento de forma que a aprendizagem aconteça a contendo e com mais significado. A idéia então é possibilitar estratégias
metodológicas de exploração dos sentidos biológicos do corpo que possam proporcionar à mente novas configurações:
habilidades e aprendizagens. Ações pertinentes ao sentir, pensar e agir. Estas ações permeadas, decodificadas, armazenadas e
interpretadas por um único ator intercessor - o cérebro - podem (e vão) dar novas dinâmicas à sala de aula e, com isso seduzir a
atenção e o interesse discente. Ao invés de ‘entregar’ tarefas quase prontas ou que exijam pouca reflexão do aluno, que tal criar
desafios? Estimular a autonomia de ação? Provocar debates em sala? Incentivar trabalho em equipe? Que tal provocar a chamada
‘oxigenação do cérebro’? Este é um momento em que as sinapses e os neurônicos se aceleram criando novos sulcos de
aprendizagem na memória dos alunos e, de acordo com a criatividade em questão, aumentam o número de ferramentas capazes
de integrá-los (os alunos) no mercado de trabalho e/ou na sociedade em geral. Que tal experimentar?
Profa. Ms Claudia Nunes - Quais seriam os cursos ou formas de atualização dos professores no sentido de ganharem
habilidades perceptivas sobre as dificuldades de aprendizagem de seus alunos em meio ao discurso da neurociência?
Profa Dra Marta Relvas - Penso que esta discussão não se esgota apenas na realização de cursos, mas num conjunto de
estruturas agindo em ‘comum acordo’, como: escolas, cursos, meios de comunicação, experiência individual. Quanto mais
informado, melhor (e maior) criticidade os professores poderão exercer suas funções em sala de aula. De um lado, a sala de aula
se torna mais dinâmica; e de outro, o professor se torna mais tolerante ao reconhecer que os humanos (seus alunos) são seres
inacabados, já que nossas células estão sempre se renovando e que, por isso, têm tempos cognitivos diferentes. Mesmo que
saibamos que neurônios não se regeneram, existe uma capacidade plástica e adaptativa de células especiais chamadas
‘neuróglias’ que realizam funções neurológicas antes desconhecidas, de acordo com a intensidade das influências. Logo existe a
possibilidade de entender que existem diferentes maneiras de aprender, por conseguinte diferentes maneiras de ensinar. Palavras
como dinamismo, colaboração, mediação, interatividade, afetividade e autonomia podem ajudar neste processo.
Profa Ms Claudia Nunes - Como a senhora bem sabe, a grande maioria de professores precisa trabalhar em vários lugares
para obter retorno financeiro digno. Sendo assim, professores perguntam como aliar os conceitos da neurociência com o
processo educativo, se mal têm tempo de ‘ficar com a família’, por exemplo? Como a senhora vê esta colocação? E o que
poderia responder?
Profa Dra Marta Relvas - Difícil... Resposta difícil... Fala-se em comprometimento, mas o que fazer diante de uma estrutura
educacional que demanda esta atitude docente do qual fala? Eu não sei... Existem fatores complicadores sem dúvida e que só a
boa vontade dos professores não basta... Décadas de desvalorização provocaram no cérebro deste profissional certa melancolia,
por exemplo, quanto ao seu lugar na sociedade atual... Professores atuando há muitos anos acabam adquirindo alguns transtornos
e isto significa perda da qualidade de vida emocional. Cresce o número de diagnósticos de depressão e síndromes entre estes
profissionais. Penso que uma discussão mais ampla sobre as políticas públicas deve (e precisa) acontecer, mas ainda temos muito
a fazer e caminhar... De pronto, o melhor que temos (nós professores) a fazer é entender (e estudar) o momento, a ciência e os
alunos, e revitalizar, aos poucos, nossas práticas.
Profa Ms Claudia Nunes - Qual é o maior desafio da neurociência hoje junto aos professores?
Profa Dra Marta Relvas - Bom, depois de tudo o que foi dito aqui, responder esta questão é mais simples: penso que o maior
desafio da neurociência entre os professores é fazê-lo pensar cientificamente sua sala e sua prática, e alinhavar as teorias da
educação com a neurocientificidade da aprendizagem humana. Em cada contexto, será possível experimentar este pensamento.
Profa Ms Claudia Nunes - A senhora acredita que a Neurociência pode ganhar bastante espaço em ambiente educacional
alicerçada na ascensão das novas tecnologias no cotidiano?
Profa Dra Marta Relvas - Sim. As novas tecnologias ajudaram na ascensão do reconhecimento da neurociência como
possibilidade de entender o ‘fazer pedagógico’ dentre outros assuntos. Por exemplo, com as neuroimagens pode-se comprovar
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25/02/2019 UM MUNDO DE APRENDIZAGENS: NEUROCIÊNCIA E EDUCAÇÃO: Entrevista com Profa Dra MARTA RELVAS
uma fisiologia existente no processo de aprender, muito relacionada à compreensão do funcionamento de nossa biologia
molecular, celular, anatômica e fisiológica e que este processo de aprender “brota” no comportamento humano. Assim, ações e
reações externas (confrontos e conflitos) podem ser entendidos.
Profa Ms Claudia Nunes - Em seu último livro ‘Neurociência e Educação’, a senhora apresenta um grande estudo sobre as
possíveis diferenças entre o cérebro feminino e o masculino. Esta é a base na qual o professor deve se basear para iniciar
uma investigação sobre as dificuldades de aprendizagem que surgirem em sua sala de aula?
Profa Dra Marta Relvas - É possível... Não posso ‘advogar em causa própria’, mas sim, é possível... Conhecer os diferentes
potenciais de funcionamento dos cérebros torna-se fundamental, pois homens e mulheres têm cargas neuroquímicas diferentes
desencadeadas no sistema de recompensa e estes modulam ritmos neurais diferenciados, com isso, comportamentos diferenciados
diante da informação, do conteúdo, do início de uma relação ou de um diálogo.
Profa Ms Claudia Nunes - Desde o seu primeiro livro ‘Fundamentos Biológicos da Educação’ até hoje, houve mudanças
fortes no diálogo entre Neurociência e Educação. Cada vez mais se percebe sua proximidade. Como a senhora observa
este panorama?
Profa Dra Marta Relvas - Acreditando que estamos no caminho certo para melhorar este diálogo.
Profa Ms Claudia Nunes - Em um futuro próximo, quais podem ser as contribuições da Neurociência para melhorar a
qualidade do ensino, por exemplo, em EAD?
Profa Dra Marta Relvas - A questão da EAD tem uma característica diferente: alunos e professores pouco ou nunca se olham.
Sei que a webcam pode ser um objeto que solucione este argumento, mas lembro que é uma mediação realizada por uma
máquina, ou para os mais detalhistas, uma tela. Mesmo assim, a aprendizagem ocorre. É uma aprendizagem que depende da
presença e do uso de diferentes objetos reais (computadores, mouses, caixas de som, webcams, pendrives etc.) e
ferramentasonline (ambientes virtuais de aprendizagem – AVAs -, sites de bate-papo – MSN ou Skipe, redes de relacionamento –
Orkut, Facebook ou Twitter -, Blogs, Listas de discussão etc). Novamente o cérebro é exigido para modificar suas maneiras de
aprender, agora com mais intensidade, afinal aprendemos na modalidade presencial, e agora também podemos aprender na
modalidade a distância. Em torno disso, são precisos novos estudos e novos entendimentos. Eu, hoje, afirmo o seguinte: é preciso
conhecer e entender que o humano necessita interagir para aprender, interagir para se sentir humanamente útil no processo e
interagir para ‘adrenalizar’ suas redes neurais de forma a criar memórias de longa duração. E serão os desafios com os quais se
deparará que darão intensidade às redes e consistência às aprendizagens.
Profa Ms Claudia Nunes - A senhora não acha que a linguagem neurocientífica pode desmotivar (atrapalhar?) os
professores quanto ao seu estudo e confundir seu olhar (do professor) sobre o aluno?
Profa Dra Marta Relvas - Não. Os professores não precisam decorar nomenclaturas, os professores precisam entender o
processo. Há livros como os da Suzana Herculano, Claudio Saltini, Victor Fonseca, além de Morin, Vygotsky e Piaget que podem
ajudá-los nesta relação. Ou seja, desde que a linguagem seja adequada ao segmento dos educadores, não haverá desmotivação, ao
contrário, a vontade de aprender será aguçada porque os professores sempre têm situações / alunos para entender. A linguagem
deve ser adaptada...
Profa Ms Claudia Nunes - De uma maneira geral, quais são os principais conceitos e ações da neurociência com os quais
os professores devem ter mais atenção, de pronto?
Profa Dra Marta Relvas - Penso que devam ter atenção aos fatores biológicos que interferem na aprendizagem. Talvez ler um
pouco sobre transtornos (ou dificuldades) de aprendizagem em torno da leitura, escrita, raciocínio lógico, por exemplo. Neste
aspecto, levar em consideração (por observação), problemas de conduta pessoal ou no grupo, percepção e interação social,
transtornos emocionais mais graves ou por influências extrínsecas (como, diferenças culturais). Será que os transtornos de
aprendizagem não foram provocados por distúrbios na interligação de informações em regiões do cérebro no período de
gestação? Ou será falta de oportunidade de aprender? O que ocorre com os cérebros daqueles que trocam de escolas
constantemente por diferentes motivos? E se houver comprometimentos visuais ou auditivos não corrigidos? Várias perguntas
podem promover o encontro do professor com os estudos neurocientíficos. A complexa rede de conexões neurais é emoldurada
por fatores psicológicos, sociais e ambientais e estes promovem alterações comportamentais no diálogo com a realidade e outros
indivíduos. Fora as questões de aprendizagem, um bom estudo gira em torno da capacidade da neuroplasticidade neural das
camadas corticais do cérebro; sobre as transmissões de impulsos eletroquímicos da célula realizadas pelas sinapses; sobre o
processamento, associação e distribuição destas transmissões sinápticas em áreas específicas do cérebro; e sobre o sistema
límbico em cujas emoções estão centradas e que tem muita importância no ato de aprender. O professor deve saber o seguinte:
uma aula bem humorada provoca os neurotransmissores e estes criam uma sensação de bem estar do ‘aprendente’; já uma aula
‘hostil’ desencadeia neurotransmissores e hormônios que inibem o encantamento do aprender.
Profa Ms Claudia Nunes - É possível entender o Bulling e a síndrome de Bounout através dos princípios da Neurociência?
Como isso poderia ser explicado e exemplificado aos professores?
Profa Dra Marta Relvas - Sim, pois as questões dos julgamentos e valores tem uma reação diretamente proporcional com a área
do cérebro denominada ‘pré frontal’ e com o sistema límbico das emoções e do prazer, com isso desajustes nos ritmos neurais
dessas áreas podem provocar alterações comportamentais visíveis no humano.
Profa Ms Claudia Nunes - Quando e por que a senhora começou a pensar na possibilidade de acrescentar mais qualidade
à Educação através da neurociência?
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25/02/2019 UM MUNDO DE APRENDIZAGENS: NEUROCIÊNCIA E EDUCAÇÃO: Entrevista com Profa Dra MARTA RELVAS
Profa Dra Marta Relvas - Sou da área da educação há 32 anos como professora do ensino fundamental e médio nas áreas de
ciências e biologia. Neste caminhar fui estudar anatomia e fisiologia humana. Durante as minhas aulas de biologia e ciências
percebia muitas das vezes que alguns alunos apresentavam dificuldades em acompanhar os conteúdos trabalhados em sala.
Atéque, no laboratório de anatomia, precisamente desenvolvendo pesquisas em neuroanatomia, comecei a “ligar” a minha
pesquisa com a dificuldade nos processos de aprender de meus alunos. A partir daí não parei mais de estudar
neurobioanatomofisiologia da aprendizagem humana. São mais ou menos uns 20 anos de estudos na área. Como falei antes, para
entender o que acontecia com os meus alunos, foi preciso muita dedicação e estudos. E tenho certeza que estes estão apenas no
começo, mas que, sem dúvida alguma, já é um grande passo para contribuir ao entendimento científico no processo de aprender
na sala de aula.
Profa Ms Claudia Nunes - Sabe-se que, em Neurociência, os métodos de investigação são muitos, por exemplo:
eletroencefalograma, lesões nas estruturas neurais, neuroimageamento. Em sua opinião, quais seriam os métodos de
investigação pedagógicos a serem revisados diante da parceria com as neurociências?
Profa Dra Marta Relvas - A pedagogia está repleta de métodos de investigação possíveis de entender o que acontece em sala de
aula. O que se solicita hoje em dia é que nestas investigações se entenda (e inclua) que a neurobioanatomofisiologia da
aprendizagem humana deve ser levada em consideração. Na relação com os professores nos cursos de pós-graduação, graduação
e em palestras pelo Brasil, fico sempre preocupada com os fatos relatados nas escolas. Também tenho lido e visto, nos meios de
comunicação, muitas situações de violência nas escolas e com os professores. Isto me assusta um pouco. Há um despropósito nas
situações que assusta. Logo acredito que haja a necessidade de um reconhecimento sobre o que está acontecendo com o cérebro
desta geração. Mas atenção: o professor, bem como os envolvidos na educação, não diagnostica nada, apenas deve apontar os
sinais / dar pistas às investigações multi- e interdisciplinares. Este é o caminho com o qual a Neurociência vem contribuindo para
melhorar o “olhar” do professor em sala de aula.
Profa Ms Claudia Nunes - Em cada um dos seus livros existem um ou mais conceitos amparados pela neurociência com a
intenção de estimular/motivar os professores a dar mais atenção a certas e diferentes performances dos alunos em sala de
aula ou no espaço escolar. No primeiro, inteligência e afetividade; no segundo, educação inclusiva; e no último,
potencialidades cognitivas em cada gênero humano. Foi intencional? Por quê? Por conseguinte, já há um ou mais
conceitos sendo gestados para um quarto livro?
Profa Dra Marta Relvas - É intencional, pois à medida que se desvenda o funcionamento do sistema nervoso humano em seu
pleno desenvolvimento desde embrião até adulto, pode-se compreender que o humano é um mix biológico (átomos, moléculas,
células) que funciona numa explosão de emoções (também neuroquímica), também modulada pelo meio social em que se vive e
convive. Para isso, esta explosão sempre dependerá da experiência adquirida para que se possa dar mais valorização ou não para
uma determinada informação. É importante o papel (e a presença) dos pais, professores e equipe pedagógica no movimento de
‘aprender a aprender’ a como modular, através da escuta, todas as dimensões do humano. Razão e emoção funcionam como um
palco do mesmo cérebro que, mesmo diante de vários problemas (traumas, perdas, bloqueios, medos etc.), raciocina, pensa,
reflete, sente, se comove, se emociona. Por isso os estudos das Neurociências vêm favorecer o universo da educação,
contribuindo no entendimento da aprendizagem cognitiva, de forma a melhorar a qualidade das práticas metodológicas de ensino.
É uma nova ferramenta teórica que pode ser utilizada como recurso para aulas mais interessantes. A emoção é a centelha das
novas habilidades a serem descobertas e/ou adquiridas. Cada um de nós é diferente em cada reação apresentada no cotidiano. Por
isso é fundamental que o professor (educador, tutor, mediador, interagente) aprenda a diferenciar e ao mesmo tempo relacionar o
que é ‘Ter Emoção’ e o que é ‘Sentir Emoção’ no espaço da aprendizagem. Interessante, ‘TER e SENTIR a emoção de aprender’
pode ser meu quarto livro... (risos).
Profa Ms Claudia Nunes - Para encerrar essa entrevista, o que a senhora diria aos professores que buscam formas de
integrar educação e as mídias digitais, através do ferramental neurocientífico?
Profa Dra Marta Relvas - Que este professor perceba que precisa se despertar urgentemente para esta aprendizagem com
dedicação e esforço. Se assim for, o próximo passo será despertar o desejo do sujeito ‘aprendente’. E para isso, não vejo outro
caminho que não seja o afeto. Comecem por ai: leiam e pratiquem o afeto em sua vida e em sala de aula.
*Marta Pires Relvas - Doutora em psicanálise. Mestre em Teologia. Professora Universitária e do Ensino Fundamental/Médio.
Bióloga, Psicopedagoga, Neuroanatomofisiologista. Professora de Biologia Celular, Neurobiologia, Fisiologia Humana, Bioética
e Ética Aplicada, Didática do Ensino Superior. Pesquisadora em Biologia do Desenvolvimento Cognitivo.
Livros publicados:
- Fundamentos Biológicos da Educação: Despertando Inteligências e Afetividade no Processo de Aprendizagem - Editora WAK,
4º edição.
- Neurociência e Transtornos de Aprendizagem: As Múltiplas Eficiências para uma Educação Inclusiva - Editora WAK, 3º
edição.
- Neurociência e Educação: Potencialidades dos Gêneros Humanos na Sala de Aula - Editora WAK. 2º edição.
Colaboradora nos livros: Como Aplicar a Psicomotricidade - Editora WAK. Neuropsiquiatria: Infância e Adolescência - Editora
WAK. Temas Interdiscplinares na Educação - Editora WAK e Neuropsicologia e Aprendizagem - Editora TecMedd
Mídia Digital:
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25/02/2019 UM MUNDO DE APRENDIZAGENS: NEUROCIÊNCIA E EDUCAÇÃO: Entrevista com Profa Dra MARTA RELVAS
Profa. Ms. Claudia Nunes – Mestre em Educação. Especialista em Docencia do Ensino Superior e em Tecnologias
Educacionais. Professora de Língua Portuguesa / Literatura / Produção textual. Tutora de cursos de graduação, pos-
graduação e extensão presencial e a distancia.
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