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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ

ELOYSE WEENY RAMOS BIEBERBACH CESCHIM


PRISCILA BRASIL
RUBIA DANIELA THIEME
VANILZA CUNHA

PROGRAMA PARA FORTALECIMENTO DAS PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO


PERMANENTE EM SAÚDE NO SUS: ANÁLISE DAS OFICINAS DA
MACRORREGIONAL LESTE DO ESTADO DO PARANÁ

CURITIBA
2019

1
ELOYSE WEENY RAMOS BIEBERBACH CESCHIM
PRISCILA BRASIL
RUBIA DANIELA THIEME
VANILZA CUNHA

PROGRAMA PARA FORTALECIMENTO DAS PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO


PERMANENTE EM SAÚDE NO SUS: ANÁLISE DAS OFICINAS DA
MACRORREGIONAL LESTE DO ESTADO DO PARANÁ

Artigo apresentado à disciplina de Planejamento e


Gestão em Saúde do Programa de Pós-
Graduação de Saúde Coletiva da Universidade
Federal do Paraná.

Tutor: Rafael Gomes Ditterich

CURITIBA
2019

2
PROGRAMA PARA FORTALECIMENTO DAS PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO
PERMANENTE EM SAÚDE NO SUS: ANÁLISE DAS OFICINAS DA
MACRORREGIONAL LESTE DO ESTADO DO PARANÁ

CESCHIM, Eloyse1
BRASIL, Priscila2
THIEME, Rubia3
CUNHA, Vanilza4

RESUMO

O presente artigo constitui-se em um estudo de caráter qualitativo, realizado por


meio da análise de políticas públicas sob a ótica do enfoque retórico, utilizando-se
da análise de conteúdo dos discursos contidos nos relatórios produzidos em Oficinas
na Macrorregional Leste propostas pela Secretaria da Saúde do Paraná (SESA-PR)
para revisão do Plano Estadual de Educação Permanente em Saúde do Paraná
2016-2019 e para subsidiar o processo de elaboração do Plano Estadual de
Educação Permanente em Saúde do Paraná 2020-2023. Como categorias de
análise, foram utilizadas palavras que significam o agrupamento de temas. Assim, a
Categoria 1 se refere a “necessidades”, a Categoria 2 à “solução” e a Categoria 3 à
“responsáveis/parcerias”. O indicador de frequência utilizado baseou-se no número
de vezes em que palavras ou expressões foram citadas em cada uma das
categorias, a fim de elencar as mais frequentes e menos frequentes com relação à
Educação Permanente. Para essa análise, foi utilizada a técnica de nuvens de
palavras. Dentre os cincos eixos das oficinas, algumas das necessidades que se
apresentaram foram: formação dos profissionais por meio de metodologias ativas de
ensino, a ausência de articulação entre o trabalho da Vigilância em Saúde e a
Atenção Básica, a necessidade de relacionar o controle social com as universidades
por meio de grupos de pesquisa, entre outras. Enquanto soluções, foram sugeridas:
a criação de núcleos de educação permanente e definição de profissional de
referência na Regional de Saúde, a troca de experiências exitosas entre municípios,
a criação de espaços conjuntos para planejamento das ações, ente outras. Algumas
das organizações indicadas para a efetivação das sugestões e propostas foram:
Escola de Saúde Pública, Conselho de Secretarias Municipais de Saúde e gestores
e SESA. A gestão Política e Administrativa da Educação Permanente, a efetivação
1
Nutricionista, Especialista em Saúde Coletiva e Terapia Nutricional e Nutrição Clínica, Mestranda no
Programa de Pós Graduação em Alimentação e Nutrição (Universidade Federal do Paraná);
eloyse.bieberbach@gmail.com.
2
Assistente Social, Especialista em Gestão de Políticas, Programas e Projetos Sociais pela Pontifícia
Universidade Católica do Paraná e Especialização em Saúde Mental na Atenção Primária a Saúde
pela Escola de Saúde Pública do Paraná. Servidora pública Estadual da Secretaria de Saúde –
SESA; pri.santosbrasil@gmail.com
3
Nutricionista, especialização em Atenção Hospitalar em Saúde do Adulto e do Idoso (Residência
Multiprofissional), Mestre em Segurança Alimentar e Nutricional (Universidade Federal do Paraná),
doutoranda do Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas (Universidade Federal do Paraná);
rubiathieme@gmail.com.
4
Docente e Assistente Social, especialista em Saúde Ambiental pela Universidade de São Paulo-
USP – SP; vanilza.cunha@ufpr.br
3
de ações com uso de metodologias ativas e problematizadoras de ensino, bem
como o controle social são cruciais para que ocorra transformação dos processos e
práticas do trabalho em saúde, condizentes com as realidades municipais do Estado
do Paraná.

Palavras-chave: Educação Permanente, Oficinas Macrorregionais, Saúde.

ABSTRACT

This article is a qualitative study, carried out through the analysis of public policies
from a rhetorical point of view, using the content analysis of the discourses contained
in the reports produced at workshops in the Macroregional East proposed by SESA-
PR to review the State Plan for Permanent Health Education in Paraná 2016-2019
and to subsidize the process of elaboration of the State Plan for Permanent Health
Education in Paraná 2020-2023. As categories of analysis, we used words that mean
the grouping of themes. Thus, Category 1 refers to "needs", Category 2 to "solution"
and Category 3 to "responsible/partnerships". The frequency indicator used was
based on the number of times words or expressions were cited in each of the
categories, in order to list the most frequent and less frequent with respect to PE. For
this analysis, the cloud word technique was used. Among the five axes of the
workshops, some of the needs presented were: training of professionals through
active teaching methodologies, lack of articulation between the work of Health
Surveillance and Primary Care, the need to relate social control with the universities
through research groups, among others. As solutions, it was suggested: the creation
of centers of permanent education and definition of professional reference in the
Regional Health, the exchange of successful experiences among municipalities, the
creation of joint spaces for planning actions, among others. Some of the names
indicated for the effectiveness of the suggestions and proposals that were evidenced
were: School of Public Health, Council of Municipal Health Secretaries and managers
and Secretary of State of Paraná. The Political and Administrative Management of
Permanent Education, the implementation of actions using active and problematizing
methodologies of education, as well as social control are crucial for the
transformation of health work processes and practices, in line with the municipal
realities of the State of Paraná.

Keywords: Permanent Education, Macroregional Workshops, Health.

1 INTRODUÇÃO

A educação dos trabalhadores da saúde requer estratégias educativas


capazes de gerar transformação nos processos de trabalho das equipes
multiprofissionais (PEIXOTO, 2013). Nessa perspectiva, a Lei 8080/1990 que
instituiu o Sistema Único de Saúde (SUS) traz em seu artigo 14º a necessidade de
serem criadas “Comissões Permanentes de integração entre os serviços de saúde e
as instituições de ensino profissional e superior”. Tais comissões seriam, então,
4
responsáveis por propor prioridades, métodos e estratégias para a formação e
educação continuada dos recursos humanos do SUS (BRASIL, 1990).
A educação continuada é tradicionalmente apresentada como recurso no
setor Saúde, tendo enfoque na atualização de conhecimentos, baseado em técnicas
de transmissão, centrada em categorias profissionais específicas, sem considerar a
perspectiva de equipes e de grupos de trabalhadores da saúde. Diferente da
educação continuada, a Educação Permanente (EP), traz uma perspectiva mais
ampla, em que o aprender e o ensinar compõe o cotidiano profissional, resultando
em uma transformação das práticas profissionais e organização do trabalho, bem
como pressupõe o incentivo às capacidades inventiva e inovadora para abordar a
complexidade dos processos de trabalho (BRASIL, 2009; 2014).
No Brasil, a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS),
inicialmente instituída pela portaria GM/MS nº198/2004, foi alterada pela portaria
GM/MS nº1999/2007, que contempla novas estratégias e diretrizes para sua
implementação. A PNEPS tem como objetivo desenvolver movimentos e práticas de
EP em saúde, reconhecer a produção local de cotidianos de saúde e ativar práticas
colaborativas de aprendizagem e entrelaçamento de saberes, a fim de possibilitar o
desenvolvimento individual e coletivo dos profissionais de saúde (BRASIL, 2009;
2014; STROSCHEIN & ZOCCHE, 2012; MERHY, 2015).
Contudo, ainda existe um distanciamento da formação dos trabalhadores da
Saúde em relação às reais necessidades do SUS, tornando necessário o
fortalecimento da EP como orientadora de novas práticas que levem à reflexão
sobre o trabalho e a construção de processos de aprendizagem colaborativa e
significativa.
Os processos educativos devem se apresentar como uma alternativa política
para enfrentar a fragmentação dos serviços e das ações de saúde. Para tanto, a
problematização das situações ou problemas enfrentados possibilita transformações
efetivas nos processos de trabalho e a construção conjunta da autonomia dos
sujeitos e das equipes, bem como a construção de soluções factíveis. Os espaços
coletivos devem ser garantidos pelos gestores, pois ampliam o envolvimento com o
trabalho, na medida em que permitem discussão, deliberação e planejamento das
ações educativas, necessários para implementar a PNEPS (BRASIL, 2014).

5
Portanto, diante do movimento atual sobre a necessidade da implementação
da PNEPS, o Departamento de Gestão da Educação em Saúde (DEGES), ligado ao
Ministério da Saúde, lançou o Programa para Fortalecimento das Práticas de
Educação Permanente em Saúde no SUS (PRO EPS-SUS), com vistas a fortalecer
as ações de EP no país e dar centralidade aos processos de gestão da PNEPS
considerando a lógica dos modelos de atenção à saúde, bem como de reconhecer a
colaboração dos atores nesse processo (BRASIL, 2018).
A PNEPS deve considerar as especificidades das secretarias e unidades
descentralizadas do Ministério da Saúde nos estados brasileiros (BRASIL, 2014).
Nesse sentido, a Secretaria da Saúde do estado do Paraná (SESA-PR) propôs
enquanto estratégia de trabalho o formato de Oficinas Macrorregionais, realizadas
nas Macrorregionais Leste, Norte, Oeste e Noroeste, nos municípios de Curitiba,
Londrina, Cascavel e Maringá, respectivamente. Essa proposta se deu devido à
necessidade de revisão do Plano Estadual de Educação Permanente em Saúde do
Paraná 2016-2019 e para subsidiar o processo de elaboração do Plano Estadual de
Educação Permanente em Saúde do Paraná 2020-2023 (ESPP, 2019).
Assim sendo, o presente trabalho tem como objetivo analisar os relatórios da
Oficina Piloto realizada na Macrorregional Leste do estado do Paraná, em especial
os conteúdos referentes aos discursos contidos neles.

2 METODOLOGIA

O presente trabalho constitui-se de um estudo de caráter qualitativo, realizado


por meio da análise de políticas públicas sob a ótica do enfoque retórico, utilizando-
se da análise de conteúdo dos discursos contidos nos relatórios produzidos em
Oficinas na Macrorregional Leste propostas pela SESA-PR para revisão do Plano
Estadual de Educação Permanente em Saúde do Paraná 2016-2019 e para
subsidiar o processo de elaboração do Plano Estadual de Educação Permanente em
Saúde do Paraná 2020-2023.
A abordagem qualitativa é definida como detentora de objetos que exigem
respostas não traduzíveis em números, pois, toma como material a linguagem em
suas várias formas de expressão (BOSI, 2012). Contudo, a análise qualitativa não
rejeita toda e qualquer forma de quantificação, pois, permite sugerir possíveis

6
relações entre um índice (tema, palavra) da mensagem e uma ou várias variáveis do
locutor (BARDIN, 1977).
No que se refere às palavras, o discurso pode ser considerado como palavra
em ato. A análise de conteúdo, que considera o material de estudo como um dado,
pode ser utilizado para a análise de documentos, como atas e relatórios, sob a ótica
da retórica. Na análise de conteúdo do texto, categorias de análise previamente
definidas são utilizadas para compreender o que o texto expressa e busca-se um
conjunto de elementos que possuam um significado que possa ser transformado em
um indicador de frequência (BARDIN, 1977; FARIA, 2015).
Como categorias de análise, foram utilizadas palavras que significam o
agrupamento de temas. Assim, a Categoria 1 se refere a “necessidades”, a
Categoria 2 à “solução” e a Categoria 3 à “responsáveis/parcerias”. O indicador de
frequência utilizado baseou-se no número de vezes em que palavras ou expressões
foram citadas em cada uma das categorias, a fim de elencar as mais frequentes e
menos frequentes com relação à EP (representação por meio de nuvem de
palavras). Para essa análise, foi utilizada a técnica de nuvens de palavras, tendo
estas sido elaboradas por meio do sítio eletrônico livre TagCrowd. Essas
ferramentas tecnológicas de análise qualitativa podem ser utilizadas pela sua
simplicidade e acessibilidade (DIETZ, 2016).
Entre setembro e dezembro de 2018, foram realizadas Oficinas para
formulação do Plano Estadual de Educação Permanente em Saúde do Paraná 2020-
2023 nas quatro Macrorregionais de Saúde do Paraná (Figura 1). A Oficina da
Macrorregional Leste ocorreu em setembro de 2018 e foi considerada uma Oficina
Piloto. A apresentação ao Ministério da Saúde ocorreu em janeiro de 2019. A
estratégia utilizada nas Oficinas Macrorregionais foi à realização de grupos de
trabalho, em que foram elencadas questões para subsidiar o diagnóstico e análise
da situação dos trabalhadores no SUS/PR, com seleção de eixos prioritários,
definição de objetivos e metas de EP e instrumentos de gestão que auxiliassem no
monitoramento e avaliação dos temas propostos.
Para possibilitar uma análise mais detalhada das necessidades, sugestões e
parcerias, estas foram selecionadas e agrupadas de acordo com cinco eixos
temáticas propostos posteriormente à Oficina Piloto, sendo estes: Gestão do
Trabalho e da Educação Permanente (eixo 1), Promoção e Vigilância em Saúde

7
(eixo 2), Atenção à Saúde (eixo 3), Gestão Política e Administrativa (eixo 4) e
Controle Social (eixo 5).

Figura 1 – Mapa das Macrorregionais de Saúde do estado do Paraná

Fonte: Secretaria de Estado do Paraná, 2010.

A Oficina da Macrorregional Leste foi realizada em três grupos, sendo o


Grupo 1 composto de municípios da 2ª Regional de Saúde, da 5ª Regional de Saúde
e da 21ª Regional de Saúde; o Grupo 2, de municípios e Conselho Municipal de
Saúde de Rio Negro; e o Grupo 3, de municípios da 2ª Regional de Saúde e
Universidades.
Foram analisados os relatórios originais produzidos nos grupos das Oficinas,
considerando para cada grupo as Categorias 1, 2 e 3. O conteúdo dos relatórios não
expressa de nenhuma maneira a opinião individualizada ou expõe de qualquer forma
os atores que participaram da Oficina, já que os relatórios analisados no presente
estudo foram construídos coletivamente pelos atores envolvidos, isentando-se da
necessidade de registro e avaliação em Comitê de Ética em Pesquisa com seres

8
humanos, de acordo com artigo 1º, inciso VII da resolução do Conselho Nacional de
Saúde nº 510/2016 (BRASIL, 2016).

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise do conteúdo dos relatórios originais produzidos nos grupos de


trabalho das Oficinas demonstrou a importância de se dialogar sobre a EP em
saúde, considerando a situação dos trabalhadores no SUS/PR quanto às suas
necessidades, as soluções e possíveis parcerias que podem ser formadas para
alcance dos objetivos e metas, bem como no compartilhamento de
responsabilidades.

A expressão “educação permanente” destacou-se na nuvem da Categoria 1


(Figura 2), uma vez que se apresenta como uma das maiores necessidades dentre
os cinco eixos temáticos. Nos eixos de Gestão de Trabalho e da Educação
Permanente e de Atenção à Saúde, evidenciou-se a necessidade de formação dos
profissionais por meio de metodologias ativas de ensino que possibilitem uma efetiva
EP em saúde.
A EP em saúde deve ser baseada em atualização teórica, científica e técnica.
Contudo, a EP também inclui a construção de relações e processos inseridos nas
equipes de atuação e de atenção à saúde. Um aspecto central da EP é a
possibilidade a introdução de mecanismos, espaços e temas que geram autoanálise
durante a formação de profissionais. Além disso, possibilita-se a ruptura das pré-
noções estabelecidas anteriormente ao mesmo tempo em que se dialoga com as
práticas e concepções vigentes, a fim de problematizá-las. Nesse sentido, a EP em
saúde pode ser orientadora de transformação das práticas de saúde (CECCIM,
2004; STROSCHEIN & ZOCCHE, 2012).
Entre as necessidades para transformar as práticas em saúde, está integrar
os trabalhos dentro do setor saúde. Em relação à temática da Promoção e Vigilância
em Saúde, foi citada a ausência de integração entre o trabalho da vigilância em
saúde e atenção básica, sendo o fortalecimento da relação entre vigilância e
assistência à única proposta elencada.
Reconhecem-se as dificuldades existentes para modificação das práticas de
saúde. Se há empecilhos intrasetoriais, desafios maiores podem ser encontrados
9
para garantir a intersetorialidade, difícil de ser concretizada. As ações intersetoriais,
bem como a integralidade, envolvem pensamento, saberes e práticas no ensino, na
gestão, no controle social e na atuação profissional. A transformação das práticas de
saúde e a transformação da formação profissional em saúde devem ser produzidas
concomitantemente (CECCIM, 2005).

Figura 2 – Nuvem de palavras referentes à Categoria 1 - “necessidades” - como


indicador de conteúdo dos discursos relacionados à educação permanente

10
No eixo de Gestão Política e Administrativa, o destaque esteve na pouca
visibilidade da EP em conjunto com a ausência de sua institucionalização. Além
disso, evidenciou-se a falta de profissional de referência na Regional de Saúde em
relação à temática da EP e falta de espaços que possibilitem articulação entre a
Regional de Saúde. Foram apontadas, também, as dificuldades decorrentes da
alternância de cargos por questões políticas, além da necessidade de construir
Contratos Organizativos de Ação Pública Ensino-Saúde (COAPES).
No que se refere à institucionalização da EP em saúde, deve-se fazer lembrar
a definição de instituições. Considera-se como instituição os hábitos coletivos de
pensamento e ação, as convenções sociais, as regras de conduta e códigos legais,
que tem origem na interação das pessoas, sob diferentes formas (formais, informais
ou ambas) e com várias funções (PESSALI, 2015). Assim, quando trabalhadores da
área da saúde mencionam que a EP não é visível e não está institucionalizada,
observa-se a fragilidade da compreensão da proposta original da EP em saúde.
A ideia da EP como “aprendizagem no trabalho, onde o aprender e o ensinar
se incorporam ao cotidiano das organizações e ao trabalho” é sustentada pela
PNEPS (LEMOS, 2016). Quando não se visualiza a EP é também porque os
trabalhadores não a desenvolvem. Para institucionalizá-la, seria necessário que a
EP se tornasse um hábito no processo de trabalho, que as regras dispostas nas
normativas que regulamentam as ações e serviços no SUS fossem atendidas
enquanto comportamento não apenas normatizado, mas, normalizado. É na
interação das pessoas que essas instituições são formadas.
A EP parte do pressuposto de que o aprender e o ensinar deve integrar a
prática diária dos profissionais da saúde com o intuito de identificar as situações-
problema. Por meio desta prática, os trabalhadores refletem sobre as diversas
realidades e os modelos de atenção em saúde em que estão inseridos, os quais
podem ser reproduzidos e não são colocados em discussão entre todos os atores
envolvidos. Os profissionais da saúde devem reconhecer o espaço de trabalho como
um ambiente de formação coletiva por meio da pedagogia da problematização, que
é um facilitador da transformação social, fazendo com que os atores envolvidos
catalisem o seu olhar de integralidade, de gestão, de educação, de assistência com
ética e política, de pesquisa, de inclusão social e de direitos humanos
(STROSCHEIN & ZOCCHE, 2012).

11
Contudo, não se pretende culpabilizar o trabalhador da Saúde. Ao contrário,
destaca-se que é possível constatar que é no momento em que o trabalho se
encontra cada vez mais instável e precarizado, que o Ministério da Saúde aposta na
centralidade da questão da EP em saúde (LEMOS, 2016). A baixa disponibilidade de
profissionais, a crescente especialização, a dependência de tecnologias mais
sofisticadas, o predomínio da formação hospitalar e centrada nos aspectos
biológicos e tecnológicos da assistência são problemas que demandam iniciativas
de transformação da formação de trabalhadores (CECCIM, 2004).
Assim, é imprescindível a constituição de equipes multiprofissionais, coletivos
de trabalho e lógicas apoiadoras, bem como de fortalecimento e consistência de
práticas dos membros da equipe, orientadas para resolutividade dos problemas de
saúde das populações. Sem essas medidas, coloca-se em risco a qualidade do
trabalho, visto que o número de profissionais é inferior ao necessário e nunca será
possível dominar tudo o que se requer em situações complexas de necessidades em
direitos à saúde (CECCIM, 2004). Portanto, deve-se apostar numa EP que favoreça
a articulação dos princípios epistemológicos, científicos, estéticos e tecnológicos
para além da lógica da sociedade atual (neoliberal) e capaz de potencializar rupturas
com os mecanismos de exploração vigentes (LEMOS, 2016).
Para isso, considerando o Estado democrático de direitos, a participação da
sociedade é fundamental. O controle social, presente na nuvem de palavras,
também emergiu na discussão no eixo temático relacionado, demonstrando a
necessidade de se estabelecer vínculo com o controle social e universidades afim de
incluí-los na elaboração dos planos de EP.
O controle social é um dos elementos analisadores para pensar/providenciar
a EP em saúde, fazendo parte do Quadrilátero da Formação. Assim, problematizar a
prática do trabalho, integrando os atores do quadrilátero da formação para a área da
saúde é fundamental. Os demais atores do quadrilátero são: a gestão, a atenção e o
ensino (STROSCHEIN & ZOCCHE, 2012). Para análise da organização social, é
necessário verificar a presença dos movimentos sociais, dar acolhimento à visão
ampliada das lutas por saúde e à construção do atendimento às necessidades
sociais por saúde (CECCIM, 2004).
Com relação às soluções (Figura 3), em sua maioria, as propostas foram
referentes à realização de capacitações, oficinas de EP em saúde e encontros

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motivacionais que mobilizem os profissionais para repensar suas práticas afim de
propiciar transformação nos processos de trabalho de atenção em saúde nos
serviços de saúde.

Figura 3 – Nuvem de palavras referentes à Categoria 2 - “solução” - como indicador


de conteúdo dos discursos relacionados à educação permanente

As capacitações, apresentadas como parte da solução e para transformar as


práticas em saúde, devem considerar o Quadrilátero da Formação. A educação dos
profissionais de saúde deve mudar a concepção hegemônica tradicional (modelo
biomédico, mecanicista, centrada na transmissão de informações pelo professor)
para uma concepção construtivista (interacionista, de problematização das práticas e
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dos saberes). Quanto às práticas de atenção à saúde, devem-se construir novas
práticas de saúde, tendo em vista os desafios da integralidade e da humanização e
da inclusão da participação dos usuários no planejamento terapêutico (CECCIM,
2004).
No eixo temático de Promoção e Vigilância em Saúde, foi apontado como
solução a criação de espaços conjuntos para planejamento das ações apoiados pelo
gestor. De acordo com Ceccim (2014), a implementação de espaços de discussão,
análise e reflexão da prática no cotidiano do trabalho e dos referenciais que orientam
essas práticas, por meio de matriciamento e facilitadores de coletivos organizados
para a produção, é fundamental (CECCIM, 2014). A manutenção de espaços é uma
das principais estratégias para efetivação da EP (MICCAS & BATISTA).
No tocante à gestão, tanto a composição saúde e educação quanto trabalho e
educação são permeados por dificuldades de gestão, mas, também, de
infraestrutura material e de recursos humanos, para desenvolver ou continuar
multiplicando e aplicando EP (MICCAS & BATISTA). Nesse sentido, uma das
soluções propostas para o eixo de Atenção à Saúde, foi referente à sensibilização
dos atores envolvidos na EP, como gestores, em conjunto com profissionais de
saúde e controle social.
No eixo 4, que se refere à Gestão Política e Administrativa, sugere-se a
definição de profissional de referência na regional de saúde e criação de núcleos de
EP municipais, bem como a criação de COAPES e da Comissão de Integração
Ensino, Serviço e Comunidade (CIESC).
Quando instituída em 2004, a PNEPS seria operacionalizada por meio dos
Polos de Educação Permanente em Saúde, os quais se configuram como instância
ou dispositivo do SUS para a gestão locorregional da formação e do
desenvolvimento em saúde. Os atores dos Polos eram tutores, facilitadores e
operadores de EP em saúde, entre outros (CECCIM, 2005). Os polos de EP são
considerados umas das principais estratégias para efetivação da EP (MICCAS &
BATISTA, 2014).
Por outro lado, a própria PNEPS aponta para a importância em se romper
com os modelos tradicionais de ensino e a Educação à Distância (EaD) pode ser
uma estratégia possível para a EP em saúde. A EaD pode facilitar o
desenvolvimento da aprendizagem dentro ou fora do setor de saúde, apesar de

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serem encontradas limitações, como ausência de preparação para utilizar a
tecnologia e de tutores qualificados para atuarem como facilitadores de
aprendizagem. Os argumentos favoráveis à essa modalidade vêm no sentido da
possibilidade da troca de experiências que contribuam para a construção do
conhecimento, mesmo que os trabalhadores estejam em espaços e tempos não
compartilhados (SILVA, 2015).
As Instituições de Ensino Superior, como as universidades, podem participar
do processo de formação, tanto à distância quanto presencial. A EP em saúde,
nesse contexto, corresponde à Educação Formal de Profissionais, pois integra o
setor/mundo do trabalho e o setor/mundo do ensino (CECCIM, 2014). O
envolvimento e aproximação das universidades, bem como do controle social, tem o
objetivo de aproximar a comunidade. Nas universidades, grupos de pesquisa e
extensão podem colaborar no processo de formação dos profissionais. Outra
questão seria a troca de experiências exitosas entre municípios, que poderia ser
viabilizada pela regional de saúde.

Figura 4– Nuvem de palavras referentes à Categoria 3 - “responsáveis/parcerias” -


como indicador de conteúdo dos discursos relacionados à educação permanente

ESPP: Escola de Saúde Pública; COSEMS: Conselho de Secretarias Municipais de Saúde; IES:
Instituições de Ensino Superior; SESA: Secretaria de Estado de Saúde do Paraná; CES: Conselho
Estadual de Saúde; CMS: Conselho Municipal de Saúde.

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Dentre os 5 eixos temáticos, a Escola de Saúde Pública, o Conselho de
Secretarias Municipais de Saúde e gestores foram os mais citados como
responsáveis e parceiros nos processos de implementação das sugestões
propostas. Além deles, é notável a presença de parcerias como as Instituições de
Ensino Superior, técnicos e a Secretaria de Estado do Paraná (Figura 4).

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pretendeu-se, por meio deste artigo, analisar os conteúdos contidos nos


relatórios produzidos na Oficina Piloto da Macrorregional Leste do Estado do Paraná
de Educação Permanente em Saúde.
Dos documentos norteadores para o desenvolvimento das oficinas, destaca-
se o Programa para o Fortalecimento das Práticas de Educação Permanente em
Saúde no Sistema Único de Saúde (PRO EPS-SUS), instituído por meio da Portaria
nº 3194 de 28 de novembro de 2017, que traz em seu Art. 2º como objetivo geral:
[...] estimular, acompanhar e fortalecer a qualificação profissional dos
trabalhadores da área da saúde para a transformação das práticas de saúde
em direção ao atendimento dos princípios fundamentais do SUS, a partir da
realidade local e da análise coletiva dos processos de trabalho (BRASIL,
2017).

Neste sentido, as oficinas apresentaram enquanto proposta a revisão do


Plano Estadual de Educação Permanente em Saúde do Paraná 2016-2019,
documento este que congrega as estratégias propostas, discutidas e pactuadas
entre as regiões de saúde e o Estado, considerando as necessidades regionais para
os processos de formação (PEEPS, 2019).
É importante pontuar que o PEEPS do estado do Paraná para o ano de 2019
seguiu as diretrizes da portaria supracitada e que está articulado à Diretriz 16 do
PEEPS 2016-2019, servindo de documento guia para construção da diretriz de
“Gestão do Trabalho e da Educação Permanente em Saúde do Plano 2020-2023”
(PEEPS, 2019), um dos cinco eixos estruturante das oficinas. Os outros quatro eixos
são, conforme citado anteriormente, Promoção e Vigilância em Saúde, Atenção à
Saúde, Gestão Política e Administrativa e Controle Social.
É evidente a necessidade de estimular a sensibilização, a compreensão e a
efetivação da EP para os profissionais de Saúde, possível mediante uso de
metodologias ativas e problematizadoras de ensino. A intencionalidade deve estar
16
centrada na transformação dos processos de trabalho de atenção em saúde, a partir
compreensão da realidade e do olhar sobre as práticas profissionais vigentes dos
trabalhadores da saúde.
A gestão política e administrativa é crucial para o desenvolvimento de
atividades de EP, pois torna-se referência e apoio no desenvolvimento de ações
municipais. Além disso, podem viabilizar a intersetorialidade e a institucionalização
de espaços que possibilitem planejamento de ações, bem como sua
operacionalização, implementação e avaliação dos processos de trabalho, desafios
estes a serem vencidos.
Por fim, o controle social deve permear todos esses espaços de gestão e
trabalho em saúde, tendo em vista que é por meio deste que a realidade e as
necessidades são percebidas, bem como os resultados de ações de EP que tem
como objetivo principal a transformação de práticas técnicas e sociais promotoras de
saúde na sociedade.

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REFERÊNCIAS

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