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Tarefa e Papel do Educador Ambiental

O educador ambiental não é um professor no sentido formal da palavra - ele é um mestre. E um estimulador de
vivências, um indicador de realidades, um deflagrador de processos de autoconhecimento. Seu "approach" das questões
ambientais deve ser profundamente gestaltista, enfatizando experiências que estimulem o conhecimento por meio de
conteúdos afetivos. O objetivo do seu trabalho não é passar informações, mas estimular cada indivíduo a buscar, dentro
de si mesmo, o potencial e a capacidade de produzir saber.

Neste contexto, o desenvolvimento de atividades vivenciais, que estimulem a percepção, ganha especial importância:
cada indivíduo é levado a perceber as realidades trabalhadas com todos os seus sentidos e aprende a colocar-se como
ator em situações onde normalmente é apenas espectador.

Um programa de educação ambiental é um processo complexo de trabalho, onde a relação interindividual precisa ser
elaborada com grande cuidado. Todo educador sabe que possui um grande potencial para influenciar a conduta do
educando - e que não apenas o seu trabalho mas ele próprio, como indivíduo, oferecem modelos de comportamento,
positivos ou negativos, de acordo com as circunstâncias. Todo educando, de forma muito sensível, capta as contradições
existentes no discurso, nas mensagens e nos comportamentos do educador: assim como é impossível esconder a
timidez, o cansaço e a improvisação, é também impossível dar legitimidade a um discurso e a uma prática que não
estejam sintonizadas com as realidades do mestre. Isto ocorre em todas as experiências ligadas à educação, mas é
especialmente sentido nos processos da educação ambiental, onde a proposta de trabalho implica num aprofundamento
das relações educador x educando.

Para atuar com eficiência no campo da educação ambiental, é portanto necessário que o mestre em perspectiva
vivencie, ele mesmo, os processos com os quais pretende trabalhar, sintonizando-se nas propostas que vai desenvolver
e ampliando a sua percepção do mundo, da natureza, da sociedade e do próprio indivíduo.

Isto não tem relação direta com a multiplicação de conhecimentos ligados ao domínio cognitivo: não é absolutamente
necessário que o educador ambiental seja um especialista em meio ambiente, mas é preciso, antes de mais nada, que
acredite profundamente no trabalho que vai desenvolver e tenha interesse pessoal em contribuir para os objetivos da
própria educação ambiental: melhorar a qualidade de vida do Homem e criar condições para o desenvolvimento de uma
sociedade equilibrada, livre e responsável com relação ao meio. É preciso, também, que ele esteja consciente de sua
influência sobre o grupo de orientandos e que tenha disponibilidade de tempo e emocional para engajar-se totalmente no
processo.

Os programas de educação ambiental envolvem um processo quase artesanal de trabalho, uma vez que partem do
indivíduo para o grupo e deste para o mundo. É importante definir:

- os objetivos específicos de cada programa;

- a área ou local onde será realizado o trabalho, e

- as características da clientela.

A partir desses aspectos, serão também definidos o conteúdo do programa, a metodologia de abordagem e os recursos
necessários ao desenvolvimento das atividades.

Ao desenhar as atividades, o educador deverá testar todas as alternativas e vias de ação possíveis para o
desenvolvimento do trabalho, não excluindo a possibilidade de modificação de rumos ao longo do processo. Muitas
vezes, as ações e soluções propostas pelo grupo revelam-se mais criativas e eficazes do que as propostas pelo
educador. Outro aspecto a levar em conta é a relação espaço x tempo x atividade, que poderá revelar-se imensamente
variável ao longo do processo, fugindo muitas vezes ao que foi pensado e proposto pelo orientador.

É nesse momento que a maturidade do orientador se faz necessária: apenas um educador muito seguro de suas
propostas e dos seus próprios limites e recursos poderá ser o líder democrático de um processo de aprendizado que ele
provoca, estimula e analisa, mas não controla. É também fundamental que ele saiba entender e trabalhar a dinâmica de
grupos, estimulando as lideranças positivas, neutralizando os insumos negativos e levando todo o grupo a participar.
O processo interativo só acontecerá quando for estabelecida uma relação de respeito e de confiança entre orientador e o
grupo de orientandos. É importante, nesse processo, deixar claro que o educador ambiental é também um membro do
grupo e que o saber não virá dele, mas das próprias atividades de exploração, verificação e constatação de fenômenos.
Na educação ambiental não há, portanto, um "saber" pronto mas uma busca do saber, encenada pelo próprio grupo, do
qual faz parte o orientador. Nessa realidade, é permitido errar, refazer caminhos e experiências; perde-se o medo da
crítica, pois não há um modelo de resultado a atingir, previamente estabelecido. Cada indivíduo responderá ao processo
com sua própria capacidade, tempo, recursos e criatividade.

Cabe ao educador ambiental proporcionar ao grupo de educandos as condições adequadas de trabalho, que tornem
possível o desenvolvimento das atividades. Ele deverá estar familiarizado com os espaços, métodos e materiais que
serão utilizados ao longo do processo e deverá colocar à disposição do grupo com o qual trabalha todos os recursos de
que disponha. Isto não significa cercar-se de materiais caros e sofisticados - um bom programa de educação ambiental
pode ser desenvolvido com sucata e/ou com materiais do próprio meio onde o programa é aplicado. Por exemplo, numa
comunidade de favelados, será possível desenvolver uma serie de atividades utilizando o lixo doméstico; num parque
estadual, exercícios interativos com terra, folhas, ramos secos e sementes serão de excelentes resultados. Num museu
do tipo tradicional, o próprio acervo servira como elemento estimulador de exercícios e atividades de sensibilização.
Numa aldeia ou comunidade rural, objetos do cotidiano, como potes de barro, vassouras de galhos, redes e outros,
poderão ser utilizados em atividades associativas e de exemplificação.

Um outro aspecto a ressaltar é a responsabilidade do educador ambiental com relação às mensagens e aos conteúdos
trabalhados. Sendo a educação ambiental um processo de estímulo à consciência crítica do educando sobre o seu meio
natural e social, é preciso que esse processo se desenvolva de maneira mais isenta possível do ponto de vista político,
social e cultural. É neste momento que a posição ética do orientador fica evidenciada: enfatizar a tomada de consciência
sobre os processos do meio ambiente total (natural e cultural) significa estimular o indivíduo para a realidade, sem
entretanto direcioná-lo em suas conclusões.

Para atuar como um processo de educação para a liberdade, a educação ambiental pressupõe, intrinsecamente, que
cada indivíduo só será livre se for capaz de elaborar, por sua própria conta, a relação com o meio que mais lhe convier.

O educador ambiental dará portanto a cada indivíduo o tempo e as condições necessárias para que ele desenvolva o
pensamento critico e construa comportamentos relativos ao meio ambiente total, respeitando o seu próprio ritmo de
apreensão das realidades, sua própria identidade cultural e social e suas limitações.

Fonte:

SCHEINER, Teresa Cristina (coord.) Interação Museu-Comunidade pela Educação Ambiental. Rio de Janeiro: Tacnet
Cultural 1991.

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