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RIAS DA APRENDIZAGEM PARA O

ENSINO DE CIÊNCIAS: PIAGET X VYGOTSKY

Fabiana Silva Botta Demizu 1 - UNESPAR


Diego Marlon dos Santos2 - UNESPAR
Sônia Maria Crivelli Mataruco3 - UNESPAR
Marcia Regina Royer4 - UNESPAR

Grupo de Trabalho - Didática: Teorias, Metodologias e Práticas


Agência Financiadora: não contou com financiamento

Resumo

O ensino de ciências exige uma reflexão sobre os conteúdos ensinados e, também, sobre as
práticas pedagógicas adotadas na sala de aula, uma vez que visa estabelecer a participação
ativa do educando, logo, propendendo a promoção do desenvolvimento da Educação
Científica. Neste artigo será abordado uma reflexão sobre a importância do ensino de ciências
baseando-se nos diferentes teóricos: Piaget (1896-1980) e Vygotsky (1896-1934). Ambos
destacam-se como precursores importantes ao proporem uma nova base teórica da educação
com mudanças na concepção de sujeito e de mundo. Dessa forma, um novo olhar direcionado
aos estudos nessa área possibilita a configuração de novas práticas pedagógicas, capazes de
transformar o desenvolvimento da aprendizagem em educação científica, no qual o educando
seja protagonista da sua própria história, transformando-se em um sujeito ativo na construção
e assimilação do conhecimento. Enquanto Piaget privilegia a maturação biológica, Vygotsky
valoriza o ambiente social no qual Piaget salienta que o desenvolvimento passa por estágios
fixos e universais, prevalecendo o processo de maturação, dando ênfase na epistemologia
genética no entanto Vygotsky discorda, por acreditar que o ambiente social da criança
influenciará no nível do seu desenvolvimento, ou seja, não se pode aceitar uma visão única do
desenvolvimento humano. Assim, esta pesquisa através de referências bibliográficas teve
como finalidade enfatizar as questões de desenvolvimento e aprendizagem no ensino na área
de ciências por meio de teorias com ênfase nas ideias dos autores que servem de alicerce para

1
Bióloga e Pedagoga; Professora Mestranda da UNESPAR-Campus Paranavaí, área de Ensino, Paraná (PR),
Brasil: E-mail: fabybotta@hotmail.com
2
Químico, Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ensino: Formação Docente Interdisciplinar da
UNESPAR/Campus Paranavaí - PR. E-mail: marlonquimica29@gmail.com
3
Tecnóloga em Gestão Ambiental, Matemático e Administradora. Mestranda em Ensino: do Programa de Pós-
Graduação em Formação Docente Interdisciplinar da UNESPAR/ Campus Paranavaí – PR. E-mail:
soniamcm@sanepar.com.br
4
Bióloga; Professora Doutora da UNESPAR-Campus de Paranavaí, orientadora do Programa de Pós-Graduação
em Ensino: Formação Docente Interdisciplinar da UNESPAR/Campus Paranavaí - PR; e-mail:
marciaroyer@yahoo.com.br.

ISSN 2176-1396
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a elaboração dos currículos hoje presentes em nossa sociedade. A educação em nosso país
está prejudicada, em decorrências de muitas lacunas, dessa forma, é necessário encontrar
elementos para solucioná-las, ou então, reduzi-las ao máximo possível. No entanto, Piaget e
Vygotsky trazem contribuições relevantes a cerca desta discussão, portanto sugere-se que os
estudos desses dois pensadores, estejam entre as leituras essenciais dos nossos atuais, além
dos futuros professores.

Palavras-chave: Ciências. Piaget. Vygotsky. Desenvolvimento. Aprendizagem.

Introdução

Atualmente, o ensino de ciências exige uma reflexão sobre os conteúdos ensinados e,


também, sobre as práticas pedagógicas adotadas na sala de aula, uma vez que visa estabelecer
a participação ativa do educando, logo, propendendo a promoção do desenvolvimento da
Educação Científica. Para isso, faz-se necessário uma ação docente que estimule a criação de
situações problema na sala de aula, portanto buscando alternativas e, além disso, formulando
possíveis hipóteses para despertar no aluno, o interesse na investigação e busca do
conhecimento.
Dentre os fatores debatidos no contexto atual, que remete ao ensino de ciências, estão
a fragmentação das disciplinas, o volume de informações nos currículos, a formação
específica e continuada do professor, como também, a prática pedagógica abordada dentro da
sala de aula. Portanto, o ensino de ciências envolve princípios teóricos metodológicos,
estando estes, sujeitos a transformações.
Emerge assim, a necessidade de uma ação docente, que busque contribuir com os
conhecimentos, se organizam para o enriquecimento da estrutura cognitiva dos educandos e,
dessa forma, é possível a construção dos conhecimentos de maneira efetiva, portanto tornando
o aluno sujeito de seu aprendizado.
Neste contexto, o presente artigo tem como objetivo principal abordar uma reflexão
sobre a importância do ensino de Ciências, baseando-se nos diferentes teóricos: Piaget (1896-
1980) e Vygotsky (1896-1934). Piaget como Vygotsky destacam-se como precursores
importantes, ao proporem uma nova base teórica da educação, com mudanças na concepção
de sujeito e de mundo.
Dessa forma, um novo olhar direcionado aos estudos nessa área, possibilita a
configuração de novas práticas pedagógica, capazes de transformar o desenvolvimento da
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aprendizagem em educação científica, no qual, o educando seja protagonista da sua própria


história, transformando-se em um sujeito ativo na construção e assimilação do conhecimento.
Os autores, em estudo, nos convidam a refletir sobre o modo de proporcionar o
processo de aprendizagem e desenvolvimento no ensino de Ciências, bem como, enfatizam a
importância do papel do professor.

Envolvimento com questões educacionais

As grandes transformações ocorridas na sociedade, bem como, as constantes


mudanças de informações, refletem diretamente no ensino, tornando assim, a escola não
somente como uma transmissora de conhecimentos, e sim em um ambiente inovador,
possibilitando ao aluno, uma compreensão de conteúdos que proporcione uma educação de
qualidade, através de uma aula que valorize a invenção e a descoberta, desenvolvendo trocas,
experiências, afetividade e o pensamento crítico e reflexivo.
Enfatiza-se, através do estudo das teorias construtivistas, a importância da descoberta
e da invenção como fatores principais na integração e formação no ensino aprendizagem.
Com este estudo, os alunos são capazes de construir seu próprio conhecimento quando o
professor torna-se um guia, capaz de estimulá-los a realizarem suas próprias descobertas e,
além disso, desenvolverem a capacidade de construir hipóteses, buscarem soluções
necessárias para pensarem e se comunicarem.
Serão sistematizados nesse trabalho, alguns pressupostos teóricos básicos das teorias
do desenvolvimento de Piaget e Vygotsky e, em seguida, serão abordadas algumas reflexões
sobre o estudo destas teorias no ensino de Ciências, porém enfatizando quais contribuições
essas podem influenciar no desenvolvimento do ensino, propiciadas pela mediação
aluno/aluno e aluno/professor.

Teoria do desenvolvimento de Piaget

Jean Piaget possui inúmeras obras sobre estudos do conhecimento humano, sendo o
pioneiro e mais conhecido autor construtivista do século XX. Nascido em Neuchâtel, na
Suíça, no ano de 1896, filho primogênito de Arthur (professor Universitário) e Rebeca
(doméstica). Aos 19 anos de idade, foi licenciado pela Universidade de Neuchâtel, localizada
na Suíça, foi criada a partir da Academia de Neuchâtel (1838-1866) e possui graus de
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diplomação para bacharel, mestre e doutorado. Graduou-se em biologia e filosofia e, obteve


seu título de doutor aos 22 anos de idade.
Piaget lecionou em diversas universidades por toda Europa e, foi o único suíço a dar
aulas na Universidade de Sourbone, na França. Também fundou e dirigiu o Centro
Internacional para Epistemologia Genética. Faleceu no dia 16 de setembro de 1980, aos 84
anos, na cidade de Genebra. Foi homenageado com um busto, em uma das mais belas e
conhecidas praças de Genebra. Este notável suíço publicou mais de 500 artigos científicos e
cerca de 100 livros, dos quais o mais prestigiado é A Epistemologia Genética.
A relevância do estudo da área de ciências por Piaget é destacada pelo livro Os
Pensadores:

Os estudos de biologia fizeram-no suspeitar de que os processos de conhecimento


poderiam depender dos mecanismos de equilíbrio orgânico: por outro lado, Piaget
convenceu-se de que tanto as ações externas quanto os processos de pensamento
admitem uma organização lógica. Elaborou, então, um ensaio sobre o equilíbrio do
todo e suas partes (PIAGET, 1978, p. VIII).

Piaget acreditava que se os organismos vivos podem se adaptar geneticamente a um


novo meio, de forma semelhante, a criança se torna ser capaz de reconstruir suas ações e
ideias quando relacionada com novas experiências, no ambiente em que vive.
Sua teoria que parte do construtivismo, é referenciada como Epistemologia Genética,
portanto favorece uma compreensão significativa no auxílio da análise sobre a função do
professor na sala de aula e, como o ensino é desenvolvido em plena época de ascensão das
mudanças, a saber, presentes na sociedade.
Na perspectiva construtivista de Piaget, o início do conhecimento é a ação do sujeito
sobre o objeto, ou seja, o conhecimento humano se constrói na interação homem-meio,
sujeito-objeto. Desenvolvimento e crescimento m

conhecimento sobre o meio.


Contudo para
importante definir os seguintes conceitos cognitivos: assimilação, acomodação e equilibração,
pois são conceitos que explicam como e por que acontece o desenvolvimento cognitivo.
Dentre essa construção, Piaget procurou demonstrar através dos processos mentais,
destacando a compreensão e a gênese do conhecimento, ilustrados na figura:
3459

Figura 1. Esquema que caracteriza os processos mentais da teoria construtivista de Jean Piaget.

Fonte: http://psicologiad43.blogspot.com.br/2012/05/assimilacao-acomodacao-e-equilibracao.html

Equilibração

Todo organismo vivo precisa viver em equilíbrio com o meio ambiente, pois sem esse
equilíbrio, o organismo não sobrevive. O equilíbrio consiste num estado de constante troca.
No ambiente, o sujeito precisa se manter em equilíbrio, logo, favorece constantemente
situações novas e desafiadoras, lhe causando desequilíbrios, os quais são suficientes para o
avanço do desenvolvimento cognitivo.
Para reequilibrar-se diante de um conflito, pois um organismo nunca ficará em
equilíbrio constante, o sujeito pode lançar alguns mecanismos fundamentais, os quais são
denominados de mecanismos próprios do sujeito. A seguir, são explanadas as subdivisões da
equilibração.

Assimilação

Caracteriza-se como processo pelo qual as ideias, pessoas, costumes são incorporadas
à atividade do sujeito. A criança aprende e assimila tudo o que está inserido no ambiente em
que vive, transformando em conhecimento próprio, por exemplo, quando uma criança tem
uma nova experiência e se adapta à mesma.
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Acomodação

É a modificação de um esquema ou de uma estrutura em função das particularidades


do objeto a ser assimilado. Representa o momento da ação do objeto sobre o sujeito
emergindo, portanto, como o elemento complementar das interações sujeito-objeto.
, os processos de assimilação e acomodação, embora
considerados diferentes, ocorrem simultaneamente na resolução dos conflitos impostos pelo
ambiente, possibilitando desse modo, o enfrentamento e a resolução de conflitos encontrados
no ambiente, para que o sujeito possa se equilibrar e continuar se desenvolvendo.

Estágios do Desenvolvimento Cognitivo proposto por Jean Piaget

Piaget formulou uma teoria para explicar os níveis de desenvolvimento, os quais


consistem em estágios do desenvolvimento cognitivo. Assim, foram subdivididos em quatro
estágios, os quais estão presentes no crescimento humano, que ocorre desde o nascimento até
a idade adulta. Cada estágio é desenvolvido um novo modo de operar, sendo variável de
criança para criança, integrando um desenvolvimento gradual. Piaget classificou os estágios
de desenvolvimento da seguinte maneira:

Estágio Sensório motor

Este estágio ocorre do nascimento do indivíduo até os 2 anos de idade e, tem como
característica, enfatizar a inteligência inata do ser humano. Nessa etapa do desenvolvimento, o
bebê, gradualmente, se torna capaz de organizar atividades, em relação ao ambiente, por meio
de atividades sensórias motoras. Expressou, adema

movimento.

Estágio do Pensamento Pré-Operatório

De um modo geral, ocorre entre os 2 e 6 anos de idade. Neste estágio, a criança


interioriza o meio, ou seja, é capaz de representá-lo mentalmente, portanto compreende seu
ambiente simbólico através das suas representações ou pensamentos acerca da realidade.
Neste estágio, há um grande avanço do desenvolvimento, afinal, é nele que a criança
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desenvolve a linguagem. Assim sendo, o sujeito se socializa o que implica desse modo, que a
criança consegue se comunicar com os demais ao seu redor.

Estágio Operatório Concreto

Ocorre comumente entre os 6 aos 12 anos de idade. Neste estágio, ocorre uma

assimilação da logicidade de que um objeto pode transformar-se, reverter-se sem perder suas
características físicas. Assim, por meio das operações, os conhecimentos construídos
anteriormente pela criança, portanto vão se transformando em conceitos.

Estágio Operatório Formal

Inicia aproximadamente aos 12 de idade e prossegue em diante. Neste período, os


jovens se tornam capazes de raciocinar, deduzir e, outrossim, criar hipóteses a partir de
proposições verbais, formulando resolução de problemas e, então, adquirindo pensamento
sistemático. Com esta característica, a linguagem está desenvolvida, permitindo, dessa forma,
discussões lógicas e conclusivas.
Os níveis de desenvolvimento segundo Piaget, teve uma influência no papel ativo do
homem como processo de aquisição e elaboração do pensamento, oferecendo subsídios para o
avanço na compreensão do homem como um sujeito epistêmico.

Teoria do desenvolvimento de Lev Semenovitch Vygotsky

Vygotsky nasceu em 1896, -


- . Morreu de tuberculose em
1934, antes de completar 38 anos. Sua obra permaneceu desconhecida no Ocidente até os
anos 60, principalmente por razões políticas.
-social e, ademais, o papel da linguagem no
desenvolvimento do indivíduo. A criança nasce inserida num meio social, que é a família e, é
na mesma que estabelece as primeiras relações com a linguagem, ou seja, na interação com os
outros.
3462

e .
2005 63 “O
í ”
Entretanto, pensamento e linguagem direcionam paralelamente e posteriormente
juntos (aproximadamente aos 2 anos de idade), onde o significado, a partir de então, ocupa
lugar central. Assim se refere Oliveira:

Existe a trajetória do pensamento desvinculado da linguagem e a trajetória da


linguagem independente do pensamento filogenético. Num determinado momento
desse desenvolvimento, essas duas trajetórias se unem e o pensamento se torna
verbal e a linguagem raci
atribuída a necessidade de intercâmbio dos indivíduos (1991, p.45).

A citação supracitada afirma as reflexões em referência as maiores contribuições que


Vygotsky propôs, relacionado ao desenvolvimento do pensamento infantil, associado ao
processo de aprendizagem no meio social em que a criança vive.

í - í .
í

í
-

“O
, funciona
com ” (OLIVEIRA, 1995,
p.68).
3463

Os sistemas simbólicos e os processos de internalização

O pensamento e a linguagem possuem origens diferentes, mas em determinado


período, essas concepções se unem pela necessidade de comunicação, expressão e
compreensão entre os indivíduos de uma mesma sociedade.
A partir dos estudos realizados por Vygotsky (1989), aludindo-se sobre a evolução da
espécie humana (filogênese) e a evolução do indivíduo (ontogênese), se compreende que a
relação entre pensamento e linguagem passa por várias transformações. Essa interiorização
visa à modificação do sujeito frente às considerações de fatores sócio históricos.
A história filogenética da inteligência prática está estreitamente ligada, não apenas no
domínio da natureza, mas ao domínio do próprio indivíduo. A história do trabalho e a história
da linguagem, dificilmente poderão ser compreendidas uma sem a outra. Assim, conforme
palavras do autor:

í : a segunda, nas atividades individuais,


como propriedades internas do p
í . (VYGOTSKY, 2001, p. 114).

Dentro desta perspectiva, pode-se entender que Vygotsky defende uma linguagem
socializada, que por assim dizer, concebe o desenvolvimento humano a partir das relações
sociais, para as quais, a pessoa estabelece no decorrer da vida.

í , nos , num
processo interno, que resulta no desenvolvimento de si mesmo.

Análise reflexiva sobre as ideias de Vygotsky e Piaget no desenvolvimento e aprendizagem


no ensino de Ciências

Percebe-se que o ensino de Ciências tem sofrido constantes modificações, tanto na


estrutura curricular dos conteúdos, quanto na aplicação da metodologia na sala de aula. O
professor não representa somente um mero apresentador do conteúdo, e sim um interlocutor
do conhecimento prévio do aluno que, de alguma forma, fornecerá orientação necessária para
que se transforme desse modo, em teorias científicas.
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A escola tem como função desenvolver a inteligência do indivíduo, propondo


atividades estimulantes, através do processo da descoberta de novas experiências e, ademais,
proporcionando aos alunos, equilíbrio de pensamento e raciocínio lógico, promovendo a
socialização do pensamento individual e coletivo.
Analisando as obras de Piaget e Vygotsky, surgem divergências em relação aos
conceitos científicos e espontâneos, influenciando o aprendizado escolar e o desenvolvimento
cognitivo da criança, no qual, Vygotsky interpreta esta concepção em relação à Piaget com o
seguinte pensamento:

Essa concepção, característica da velha teoria educacional, também impregna os


escritos de Piaget, que acredita que o pensamento da criança passa por certas fases e
estágios, independentemente de qualquer instrução que ela possa receber; a
instrução permanece um fator externo. O nível do desenvolvimento da criança não
deve ser avaliado por aquilo que ela aprendeu através da instrução, mas sim pelo
modo como ela pensa sobre assuntos a respeito dos quais nada lhe foi ensinado.
Aqui, a separação – na verdade, a oposição – entre aprendizado e desenvolvimento é
levada ao seu extremo [...] (VYGOTSKY, 1991, p. 82).

Piaget refuta este pensamento de Vygotsky através da ideia que, se quisermos


descobrir e operar as ideias espontâneas da criança têm que começar a libertá-las de todo e
qualquer vínculo. Referindo-se aos conceitos científicos que a criança adquire na escola, a
relação entre esses conceitos e cada objeto, é logo de início mediada por outro conceito.
Na disciplina de ciências, podemos mencionar a teoria construtivista de Piaget
analisando a seguinte questão: Como se passa de um estado de menor conhecimento para um
estado de maior conhecimento? Essa pergunta é defendida por ele, quando diferencia
desenvolvimento e aprendizagem:

Primeiro, eu gostaria de esclarecer a diferença entre dois problemas: o problema do


desenvolvimento e o da aprendizagem. [...] desenvolvimento é um processo que diz
respeito à totalidade das estruturas de conhecimento. Aprendizagem apresenta o
caso oposto. Em geral, a aprendizagem é provocada por situações – provocada por
psicólogos experimentais; ou por professores em relação a um tópico específico; ou
por uma situação externa. Em geral, é provocada e não espontânea. Além disso, é
um processo limitado – limitado a um problema único ou a uma estrutura única.
Assim, eu penso que desenvolvimento explica aprendizagem, e essa opinião é
contrária à opinião amplamente difundida de que o desenvolvimento é uma soma de
experiências discretas de aprendizagem (PIAGET, 1964, p. 176).

Como explica Piaget, é necessária a diferenciação entre desenvolvimento e


aprendizagem, de forma que o ensino priorize o indivíduo a pensar e, além disso, a criar
estruturas que estabeleçam relações e hipóteses. Entretanto, defende um ensino experimental,
3465

composto de natureza física, e não aquele imposto pelo empirismo clássico, de forma que o
aluno seja capaz de reconstruir seus conceitos, contudo, favorecendo um conhecimento
significativo.
Em seus estudos, Vygotsky evidencia o processo de formação de conceitos, que são
compreendidos como signos, destacando sua importância através da citação abaixo:

í
da relação dos conceitos espontâneos. Eles surgem e se constituem no processo de
aprendizagem escolar por via in

í
O

. [...] considerações igualmente


empíricas nos levam a reconhecer que a força e a fraquez
í
í -
í .
(VYGOTSKY, 2001, p. 263).

Para Vygotsky, pensamento e linguagem são processos interdependentes, desde o


início da vida. A compreensão da linguagem, pela criança, transforma suas ações mentais
superiores, dando forma ao pensamento, ao campo imaginário, e também, ao o uso da
memória. No entanto, diferente daquilo que Piaget postula, a linguagem é capaz de
sistematizar a experiência no desenvolvimento cognitivo da criança adquirindo uma função
central na captação dos conceitos.
Vygotsky entende que a construção do conhecimento parte de uma ação social para
individual, pois a criança já nasce no meio social e, desde seu nascimento vai adquirindo
conceitos através da interação com adultos mediadores. Em contrapartida, Piaget discorda
com este pensamento de Vygotsky, pois acredita que os conhecimentos são elaborados
espontaneamente pelas crianças, porém dependendo do estágio em que se encontram. Assim,
defende a ideia que a construção do conhecimento proceda do individual para o social.
É possível afirmar que Piaget como Vygotsky concebem a criança como um ser ativo,
atento, que constantemente cria hipóteses sobre o seu ambiente. No entanto, há maneiras
diferentes de conceber este processo de desenvolvimento.
Enquanto Piaget privilegia a maturação biológica, Vygotsky valoriza o ambiente
social. Piaget salienta que o desenvolvimento passa por estágios fixos e universais,
prevalecendo o processo de maturação, dando ênfase na epistemologia genética sendo
3466

Vygotsky discorda, por acreditar que o ambiente social da criança influenciará no nível do seu
desenvolvimento, ou seja, não se pode aceitar uma visão única do desenvolvimento humano.
Posição similar é defendida por Oliveira (1993):

Embora haja uma diferença muito marcante no ponto de partida que definiu o
empreendimento intelectual de Piaget e Vygotsky - o primeiro tentando desvendar
as estruturas e mecanismos universais do funcionamento psicológico do homem e o
último tomando o ser humano como essencialmente histórico e portanto sujeito às
especificidades do seu contexto cultural - há diversos aspectos a respeito dos quais o
pensamento desses dois autores é bastante semelhante. [...] Tanto Piaget como
Vygotsky são interacionistas, postulando a importância da relação entre indivíduo e
ambiente na construção dos processos psicológicos; nas duas abordagens, portanto,
o indivíduo é ativo em seu próprio processo de desenvolvimento: nem está sujeito
apenas a mecanismos de maturação, nem submetido passivamente a imposições do
ambiente (p.103-4).

Com esta citação, pode-se verificar que os dois teóricos contribuíram, de forma
relevante, quando o assunto é desenvolvimento e aprendizagem. Por conseguinte, pode-se
verificar nos currículos que, tanto a construção teórico-metodológica quanto, suas práticas
profissionais estão inseridas ou baseadas em procedimentos das obras dos teóricos Piaget
como de Vygotsky.

Considerações Finais

Nas concepções multidimensionais de Piaget e Vygotsky, esta pesquisa identificou os


fundamentos e contribuições dessas teorias para a construção da práxis educativa.
A educação em nosso país está prejudicada, em decorrências de muitas lacunas, dessa
forma, é necessário encontrar elementos para solucioná-las, ou então, reduzi-las ao máximo
possível. No entanto, Piaget e Vygotsky trazem contribuições relevantes a cerca desta
discussão, portanto sugere-se que os estudos desses dois pensadores, estejam entre as leituras
essenciais dos nossos atuais, além dos futuros professores.
A evolução que temos encontrado em relação à epistemologia que decorre das
pesquisas de Piaget e Vygotsky determina uma função dinamogênica, ou seja, presente não
somente no campo da psicologia, mas também na educação.
Em relação ao papel da aprendizagem, Vygotsky postula que o desenvolvimento e a
aprendizagem são processos recíprocos, o que implica em dizer que, se há mais
aprendizagem, consequentemente terá mais desenvolvimento. Paradoxalmente, Piaget,
3467

acredita que a aprendizagem subordina-se ao desenvolvimento e, tem-se pouco impacto sobre


o mesmo.
Quando for comparar os dois autores teóricos do desenvolvimento humano, pode-se
dizer que Piaget apresenta uma teoria megaconstrutivista, com ênfase no papel do sujeito,
onde o desenvolvimento será representado por processos de maturação, experiências físicas e
transmissões culturais e sociais, constituindo estágios fixos e universais. Em contrapartida,
Vygotsky apresenta uma teoria com caráter interacionista, isto é, acredita que a interação
entre as pessoas originam as funções mentais superiores.
Conclui-se este artigo com a expectativa de que educadores tenham oportunidade de se
apropriar e discutir os processos de desenvolvimento e de aprendizagem tendo como reflexão
no seu trabalho educativo, considerando as diferenças e perspectivas das teorias de Piaget e
Vygotsky.

REFERÊNCIAS

OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky: -


. 1.ed São Paulo: Editora Scipione, 1991.

OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky: Aprendizado e desenvolvimento, um processo sócio-


histórico. São Paulo, Scipione, 1993.

OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky: Aprendizado e desenvolvimento, u -


. 2. ed. : editora Scipione, 1995.

. In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural,


1978, p. 1 - 39.

PIAGET, Jean. Seis estudos de psicologia. Rio de Janeiro: Forense, 1964.

VYGOTSKY, Lev Semenovitch. Pensamento e Linguagem. 2.ed. São Paulo: Martin Fontes,
1991.

VIGOTSKY, Lev Semenovich. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo:


Martins Fontes, 2001.

VYGOTSKY, Lev Semenovitch. Psicologia da arte. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

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