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5 - O Ocidente Carolíngio: A Europa nos Séculos VIII e IX

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A EMERGÊNCIA DE UMA DINASTIA

Na década que se seguiu à batalha de Tertry em 687, Pepino de Heristal, prefeito do palácio
do reino franco, estendeu o domínio até à Frísia. Na esperança de consolidar a sua conquista
pela extensão da religião cristã a esses territórios, Pepino enviou a Roma o monge Willibrord,
onde o papa o investiu como metropolita. A abertura de Pepino a Roma iniciou uma nova po-
lítica: a aliança da monarquia franca com o papado. A Pepino sucedeu o seu filho Carlos Mar-
tel, que prosseguiu o relacionamento com Roma e as missões como parte de uma política de
extensão da sua influência para leste do Reno. O monge beneditino da Saxónia ocidental
Wynfrith evangelizou com algum sucesso a Germânia e o papa Gregório II, que lhe atribuiu o
nome de Bonifácio, encarregou-o da conversão dos germânicos que viviam a leste do Reno. A
missão de Bonifácio seguida, mais tarde, do trabalho de Alcuíno na corte de Carlos Magno,
seria o culminar dos missionários do norte da Inglaterra no império franco: foi nomeado arce-
bispo de Mainz e criou alguns mosteiros, o mais famoso dos quais foi o de Fulda na Germânia
central. A sua organização episcopal a leste do Reno precedeu a incorporação formal dessas
áreas no reino franco, já sob o domínio de Carlos Magno.

Carlos Martel não era um instrumento da Igreja e utilizava as terras desta, que tinham sido na
sua grande maioria doadas pelos réis, para financiar a sua organização militar. Os seus filhos
Pepino o Breve e Carlomano estavam mais receptivos à persuasão de Bonifácio, que se serviu
da sua influência junto destes para reorganizar a Igreja franca, tendo sido fundamental no for-
talecimento dos laços francos com Roma.

A REVOLUÇÃO DE 751

Em 747 Carlomano retirou-se para um mosteiro, deixando a prefeitura a Pepino, que à seme-
lhança dos anteriores prefeitos do palácio, exercia a autoridade de vice-reis sobre o reino.
Como o papa Zacarias II defendia que aquele que exercesse o poder de facto deveria ser o so-
berano, pensa-se que Bonifácio ungiu Pepino como rei em 751. A nova dinastia seria mais
tarde chamada “carolíngia”, segundo Carlos Magno, o maior rei que ela produziu. A ajuda do
papa teve, porém, um preço, já que Pepino passou a maior parte do seu reinado em Itália a

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combater os inimigos do papa, os lombardos, o que Carlos Martel tinha recusado fazer. As
suas conquistas foram entregues ao papado pela Doação de Pepino, cujo texto original não
sobreviveu; é mencionado na Vida do Papa Estêvão II, sendo confirmado por Carlos Magno.
Inspirou uma das mais notáveis falsificações da Idade Média, a Doação de Constantino, que
foi escrita na corte papal antes de 800. Este texto alega que o imperador Constantino, antes de
partir para Constantinopla, doou Roma, os palácios em Latrão e todo o Império ocidental ao
papa Silvestre I, afirmando que nenhum governante secular era indicado para governar o tro-
no da fé cristã. A implicação clara era que, através da doação do imperador, a Igreja tinha au-
toridade legítima na Europa ocidental, possuindo o poder de decidir quem exerceria esse car-
go. A Doação de Constantino teve pouco impacto a nível prático.

A CARREIRA DE CARLOS MAGNO

Com a morte de Pepino em 768, o reino foi dividido pelos seus filhos rivais Carlomano e Car-
los, que entraram em guerra que só terminou com a morte de Carlomano. O reinado de Carlos
Magno estabeleceu padrões governativos, relações políticas e culturais que iriam dominar a
Europa durante séculos. Embora a unificação da Europa sob um só rei constituísse um feito
pessoal que sobreviveu apenas uma geração após a sua morte, a transformação que ele fez das
instituições locais permaneceria, sob diferentes formas, ao longo de toda a Idade Média.

Como ninguém conseguia governar contra os nobres, Carlos Magno recompensou-os rica-
mente com os despojos das conquistas, pois ao longo dos anos 790 efectuou várias campanhas
militares. Normalmente nomeava francos para os cargos elevados, germanizando, a pouco e
pouco, a nobreza europeia, mas não fez qualquer tentativa para impor uma lei uniforme e,
com excepção para os saxões, respeitou os costumes dos povos que conquistou. Fomentou o
estudo e fez que tanto os seus filhos e filhas fossem educados nas artes liberais. Aprendeu a
ler e a compreender o latim e o grego, mas nunca aprendeu a escrever.

Carlos Magno casou-se quatro vezes e teve numerosas concubinas e filhos ilegítimos. Ele e
Carlomano casaram-se com filhas de Desidério, rei dos lombardos, mas Carlos Magno repudi-
ou a sua mulher quando Desidério recebeu a viúva e os filhos de Carlomano na sua corte. Em
774 Carlos Magno apropriou-se do reino e coroou-se a si próprio rei dos lombardos.

As campanhas militares de Carlos Magno tiveram resultados mais duradouros no norte. Como
os francos já tinham hegemonia na Germânia, a leste do Reno, desde a época de Carlos Mar-
tel, ele apenas formalizou a conquista, estabelecendo bispados, um ducado e a organização
por condados entre o Reno e o Elba. Carlos estabeleceu uma Linha Militar de Leste na fron-

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teira leste da Baviera, que mais tarde seria o núcleo do ducado da Áustria e aniquilou o reino
dos Avaros no sudeste da Europa. No norte da Germânia os saxões, pagãos, tinham sempre
resistido aos francos, apesar de Carlos Magno ter realizado contra eles campanhas militares
entre 772 e 804. De todas as vezes que regressava, os saxões revoltavam-se e voltavam à anti-
ga religião.

A COROAÇÃO IMPERIAL DE 800 E A MONARQUIA TEOCRÁTICA

Carlos Magno manifestou uma grande preocupação em proteger as igrejas, os seus funcionári-
os e as suas propriedades: as igrejas recebiam um décimo da propriedade, do trabalho e de to-
dos os tributos que chegassem ao tesouro real. Governou uma área mais vasta do que qualquer
príncipe desde os imperadores romanos, mas o imperador bizantino, cuja ortodoxia era sus-
peita por causa da questão iconoclasta, era o senhor temporal da cidade de Roma. O papa
Leão III mostrou-se incapaz de controlar os turbulentos nobres de Roma, acabando por ser
preso. Pediu então a ajuda de Carlos Magno que, como rei dos lombardos, era o mais podero-
so príncipe de Itália. Carlos Magno foi a Roma, onde convocou um sínodo que ilibou o papa
dos crimes de que o acusavam. Talvez como paga, Leão III coroou Carlos Magno em Roma
no dia de Natal de 800: ao erguer-se depois das preces matinais colocou-lhe a coroa sobre a
sua cabeça, declarando-o imperador e Augusto. Embora existam discrepâncias cronológicas
nos registos, nenhuma fonte contemporânea declara francamente que Carlos Magno estivesse
descontente com a coroação. Nessa altura estava a negociar o casamento com a imperatriz bi-
zantina Irene e é provável que Leão o tenha coroado para os afastar, fortalecendo a sua posi-
ção no Ocidente. Na verdade a negociação falharam e as relações francas com Constantinopla
só seriam normalizadas momentos antes da morte de Carlos Magno. A Vida de Einhard, que
foi escrita após a morte de Carlos Magno, alega que o papa surpreendera o rei com a coroação
imperial. Carlos aproveitou-se da situação pois, em 802, repetiu a coroação imperial em Aa-
chen, tirando, desta vez, a coroa das mãos do sacerdote e colocando-a sobre a sua própria ca-
beça. Assim, proclamava implicitamente que tinha recebido o poder imperial directamente de
Deus e não através do papa.

Os historiadores têm conferido um considerável significado simbólico ao processo da coroa-


ção imperial. Quando os seus netos dividiram o reino, a parte do mais velho incluiu Roma e o
título imperial, que acabou por se extinguir em 924. O impacto da coroação nos contemporâ-
neos de Carlos Magno foi nebuloso: ele não deu a Carlos Magno mais nenhuns direitos. Al-
guns historiadores fazem notar que os decretos legislativos de Carlos Magno depois de 802

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demonstram maiores preocupações com os assuntos religiosos do que os anteriores, mas o
elemento teocrático nunca esteve ausente antes, e essa mudança pode reflectir tão somente o
facto de ele estar a envelhecer e querer, desse modo, assegurar a sua salvação. Embora os go-
vernantes francos tenham colaborado com o papa desde o tempo de Pepino de Heristal, o últi-
mo carolíngio com suficiente poder para ser mais do que um mero auxiliar foi Carlos, o Cal-
vo. No século XII, os reis capetos iriam reavivar a aliança papal como parte do seu esforço
para se ligarem aos lendários carolíngios, mas os protectores dos papas entre meados do sécu-
lo IX e meados do século XI foram os reis germânicos.

Existem razões para apelidar Carlos Magno de rei teocrático. Ele via-se como um delegado
de Deus, com a missão de proteger o povo cristão e de espalhar e salvaguardar a fé. Na tradi-
ção de Constantino, presidiu aos sínodos da Igreja. Em 802, ordenou que cada rapaz com mais
de 12 anos de idade jurasse a mesma fidelidade para com ele enquanto imperador que tinham
jurado anteriormente enquanto rei. A ordem indica, com alguma extensão, o que essa fidelida-
de significava: que todos viveriam sob a lei de Deus. Mais de metade das cláusulas da directi-
va dizem respeito à disciplina da Igreja e à atitude dos laicos para com ela.

Enquanto governador nomeado por Deus, Carlos Magno estava profundamente interessado na
teologia. Através da sua Admonição Geral, Carlos Magno tentou regular normas de comporta-
mento, e muitos das suas capitulares estavam preocupadas tanto com a manutenção das obri-
gações para com Deus como para com o rei ou, mais tarde, o imperador. Manifestou grandes
preocupações com a iconoclastia: o sínodo de Frankfurt promulgou os Livros Carolíngios,
contendo o que seria a posição ocidental: as imagens deveriam ser veneradas, mas não adora-
das. Este sínodo também anatematizou o adopcionismo, uma doutrina semelhante à heresia
nestoriana: os adopcionistas alegavam que Cristo era humano no momento do seu nascimen-
to, mas que fora adoptado por Deus Pai.

O GOVERNO NA ÉPOCA CAROLÍNGIA

Carlos Magno normalizou o Governo franco e efectuou consideráveis avanços na Administra-


ção. O Governo estava centrado no palácio do rei, um princípio que acabaria por se tornar o
modelo para toda a Europa. O conde do palácio presidia à corte e aos outros oficiais, tais
como o senescal (que estava encarregue da mesa real) e os vários camareiros. Alguns oficiais
do palácio executavam mais do que os simples deveres domésticos, como era o caso do con-
destável (conde do estábulo), que tinha funções militares. Os oficiais da casa real tinham posi-
ções de poder pessoal mas ainda não institucional: a figura dominante tanto podia ser o chan-

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celer, o senescal ou o conde do palácio, dependendo das suas personalidades e das relações
que mantinham com o rei.

O rei era um líder militar itinerante, pelo que pouco sabemos da corte de Carlos Magno para
além dos títulos dos seus principais oficiais, apesar de este período ter assistido a grandes de-
senvolvimentos na manutenção de registos. A maior parte dos documentos que sobreviveram
até aos nossos dias dizem respeito às relações do governante com os magnatas laicos e ecle-
siásticos. A chancelaria de Carlos Magno emitia ordens administrativas chamadas capitulares
(organizados sob capitula). O chanceler era um funcionário da capela real de Carlos Magno,
mas na época de Luís, o Pio, o sucessor de Carlos Magno, era já uma figura importante. Mui-
to do impulso dado ao aumento de registos escritos deve-se ao facto de Carlos Magno preten-
der saber qual o serviço militar que lhe era devido, pelo que encorajava os abades a fazerem
listas das suas terras e das obrigações dos seus arrendatários e, destas, obtinha a indicação das
somas que estes tinham de pagar para cumprir a sua obrigação militar. As assembleias milita-
res anuais também eram ocasiões em que o rei consultava os magnatas.

Carlos Magno tentou fazer do manso uma unidade de percepção militar e talvez mesmo de
percepção fiscal. O manso era um território correspondente ao lote inglês e ao germânico
Hufe. Era uma unidade de terra de dimensões variáveis, cujo jugo era suficiente para sustentar
uma família. Segundo a legislação de Carlos Magno, cada quatro mansos eram obrigados a
fornecer um homem de infantaria ao Exército real, enquanto cada doze mansos deveriam dar
um homem de cavalaria. A Europa do século IX passou a ter registos de posse de terras e de
lucros, dos quais sobrevivem apenas fragmentos, que são comparáveis ao Livro do Julgamen-
to Final que Guilherme o Conquistador, mandou compilar para Inglaterra.

Num período de fracas formas de comunicação e de crescentes, mas ainda inadequados, recur-
sos reais, Carlos Magno e os seus sucessores tinham de confiar nos poderosos senhores locais
e nas suas redes de clientes. Por volta do século VII, o poder temporal da maior parte dos bis-
pos estava confinado às civitas, dentro das muralhas da cidade, enquanto os condes governa-
vam no exterior. No norte, o poder dos condes estava frequentemente centrado no pagus, um
território mais pequeno do que a civitas. No período de Carlos Magno existiam perto de 200 a
250 condados no reino franco. O conde era nomeado pelo rei, convocava a assembleia do
condado em nome dele, ficava com uma percentagem das taxas tributadas e controlava os tri-
butos militares do seu condado. Era semelhante ao lorde anglo-saxónico, que aparece pela pri-
meira vez em fontes do século IX, apenas para ser substituído pelo xerife no século XI. As as-
sembleias do condado reuniam-se todos os quatro meses no Império Carolíngio, todos os seis
meses na Inglaterra, e deveriam ter a presença de todos os proprietários do condado. Abaixo

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da assembleia do condado existia a assembleia do vicariato, que correspondia aos cem em In-
glaterra, presidido por um vigário ou por um homem do cento, e que se reunia de quatro em
quatro semanas. Carlos Magno ordenou que pelo menos uma pessoa que soubesse ler e escre-
ver latim estivesse ligada a cada assembleia.

Reis anteriores já tinham utilizado missi (emissários) para supervisionar os seus interesses lo-
cais, sobrepondo-se aos condes. Em 802 Carlos Magno regularizou esta prática na Capitular
sobre os Missi e enviou dois, um laico e um clérigo, para verificar as actividades dos condes.
O seu número aumentou para quatro com o neto de Carlos Magno, Carlos o Calvo. Circula-
vam apenas nas áreas centrais da Austrásia, da Neustria e da Burgúndia, que tinham sido fran-
cas no período merovíngio. Na Aquitânia e nas zonas da Germânia recentemente conquistadas
os condes eram, em geral, subordinados dos duques, cujas funções eram militares.

A propriedade pessoal do governante era o domínio real. Dele o rei retirava rendas em géne-
ros e em dinheiro, serviços laborais e os lucros da justiça. Pepino e Carlos Magno dispensa-
ram muitos dos seus apoiantes de alguns impostos e ofereceram terras à Igreja. O rei também
obtinha rendimentos ocasionais da «oferta pública» dos magnatas e das igrejas, colectas e tri-
butos, portagens, serviço militar público e impostos de terras e do heribannum, pago por
aqueles que não prestavam serviço militar. Ao rei também se devia hospitalidade, onde quer
que a sua corte itinerante aparecesse. Tal como em Inglaterra, era-lhe devido serviço laboral
de todos os homens livres em pontes, estradas ou fortificações. O poder do real era ainda es-
sencialmente pessoal, mas já não era somente o «primeiro entre iguais» no grande conjunto de
aristocratas. As estruturas básicas pelas quais a Europa seria governada durante séculos, toma-
ram a sua verdadeira forma no período de Carlos Magno e, em larga medida, no do seu filho e
netos.

A RENASCENÇA CAROLÍNGIA

A atitude pessoal do governante era de suprema importância na vida intelectual medieval.


pois praticamente toda a actividade criativa desde o século XI resultava do apoio e incentivo
das autoridades, tanto laicas como clericais. Houve um súbito aumento da actividade criativa
nos finais do século VIII e princípios do IX, devido, em grande parte, a uma clara transforma-
ção de atitude na corte real. Este período é justamente conhecido como a Renascença Caro-
língia e foi um genuíno renascer, já que Carlos Magno esperava recriar a Roma cristã.

Uma preocupação de Carlos Magno dizia respeito a um clero letrado, pois, apenas através de-
les podia realizar o seu objectivo de cristianizar a Europa. Embora a pretensão de conseguir

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uma literacia massiva seja exagerada, a verdade é que deu ordens a cada bispado e mosteiro
para manterem escolas e darem instrução a todos os que a desejassem. Ordenou que os rapa-
zes aprendessem a ler, mas a escrita deveria ser deixada para os homens adultos. Impulsionou
a escola palaciana, trazendo o maior intelectual da época, Alcuíno de Iorque, para a dirigir. A
influência de Alcuíno transcendeu esta escola, uma vez que outras cedo a imitaram.

Alcuíno foi, talvez, o responsável pela sugestão de uma coroação imperial de Carlos Magno,
estabeleceu a missa de acordo com o ritual romano, que se tornou a liturgia padrão no reino.
As regras de ortografia e de gramática latina foram regularizadas na escola palaciana, após o
declínio na época merovíngia. Nos juramentos de Estrasburgo, os seguidores dos netos de
Carlos Magno, Luís o Germano, e Carlos o Calvo, juraram, cada um na língua vernácula do
outro, de forma a poderem ser compreendidos; é o mais antigo exemplo do francês vernáculo.

O estudo das sete artes liberais tinha sido proibida nas escolas episcopais desde os finais do
século VI. Alcuíno restituiu-lhes um lugar de honra na escola palaciana. As escolas carolíngi-
as ensinavam, sobretudo, Gramática e Retórica. No início do século IX assistiu-se a uma ex-
plosão de escrita epistolar neoclássica. Também se compôs alguma poesia latina bastante boa,
sobretudo no século IX, compensando em frescura e originalidade de expressão o que lhe fal-
tava em profundidade: na verdade, dirigia grande parte das energias criativas para o galanteio.
Embora as cortes da Europa germânica não fossem reconhecidas por apoiarem a literatura, o
panegírico do mecenato constitui uma excepção que foi sempre defendida.

A Renascença carolíngia está associada também à reforma do estilo de escrita. Os romanos ti-
nham utilizado maiúsculas nas suas inscrições mais formais e nos manuscritos, e tinham uma
«meia-uncial», uma mistura de maiúscula com minúscula, para os outros casos. Na Gália ger-
mânica e na Itália, anteriores ao século VIII, houve um declínio catastrófico na qualidade da
escrita. As letras eram muitas vezes feitas de linhas separadas, as palavras eram colocadas pe-
gadas umas às outras e as ligações e abreviaturas eram comuns. No início do século VIII, al-
guns manuscritos começaram a ser escritos de uma forma mais legível, sobretudo no norte da
Bretanha. Na época de Carlos Magno começou a praticar-se um estilo particular na abadia de
São Martinho de Tours, que depressa foi imitado pela maioria dos copistas da Europa conti-
nental. Conhecido como o carolino minúsculo, é uma escrita arredondada e legível, com algu-
ma pontuação, divisões claras entre palavras, abreviaturas normalizadas e poucas ligações. A
Idade Média Central e a Baixa Idade Média deram lugar à escrita angular e mais apertada a
que os modernos chamam ou gótica. Grande parte das obras romanas que mais tarde se en-
contraram eram cópias carolíngias, o que constitui um tributo aos copistas carolíngios. Assu-
mindo que os romanos tinham escrito dessa forma, este modelo foi sendo adoptado e hoje é

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conhecida como «humanista». Esse estilo foi adoptado pelos tipógrafos italianos e da Europa
ocidental, embora a impressão em gótico fosse mais utilizada na Germânia.

Carlos Magno compreendeu que as obras escritas podiam vir a servir os propósitos da sua di-
nastia. Os Anais Reais Francos, juntamente com as crónicas mantidas nas abadias que ele
apoiava, constituem um registo inestimável dos feitos do rei. Os escritos históricos diversifi-
caram-se depois da morte de Carlos Magno e, a partir desta altura, praticamente todos os go-
vernantes ordenaram que os seus feitos fossem colocados por escrito.

O período carolíngio também testemunhou um renascimento no design da arquitectura roma-


na. Os carolíngios utilizavam a forma de basílica, normalmente interseccionada com um tran-
septo e com arcos arredondados. Um aspecto de originalidade era o ênfase na forma como as
igrejas ocidentais terminavam. Algumas tinham fachadas maciças, extremamente adornadas,
enquanto outras tinham a nave central flanqueada, no lado oeste, por torres gémeas.

Os estilos nas artes plásticas também se alteraram. A arte da Alta Idade Média, sobretudo em
joalharia, tinha enfatizado os desenhos geométricos abstractos e as iluminuras do século VII
apresentam desenhos de animais extremamente realistas, nomeadamente o touro, o leão e a
águia, como símbolos de três dos quatro evangelistas (Mateus, simbolizado pelo homem, era a
única concessão à Humanidade). Todavia, a partir do período carolíngio, a arte passou a utili-
zar cada vez mais figuras humanas, muitas vezes representadas em trajes romanos e sempre
de uma forma estilizada e simbólica. Os edifícios de estilo romano também aparecem nas pin-
turas carolíngias, mas com uma total ausência de perspectiva; os humanos são muitas vezes
vistos em estruturas mais pequenas do que eles, já que o realismo estava confinado à mensa-
gem teológica. A arte carolíngia representa um avanço substancial, em qualidade e quantida-
de, em relação aos seus antecessores. O mecenato real das artes continuou depois de Carlos
Magno, de tal forma que levou a que alguns falassem de duas renascenças carolíngias.

O clima intelectual era também particularmente benéfico na corte do neto de Carlos Magno,
Carlos o Calvo (840-877), onde se notabilizou João Escoto Erígena, um irlandês que era um
dos poucos europeus do Ocidente que sabiam grego.

OS ÚLTIMOS CAROLÍNGIOS

Carlos Magno sobreviveu a todos o filhos excepto a um: Luís, mais conhecido por o Pio. Se
bem que certos aspectos do seu reinado possam ser comparados ao do seu pai, Carlos Magno
era um modelo difícil de seguir, sobretudo à medida que as dificuldades se acumulavam. Em

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793 os escandinavos tinham atacado a costa norte de Inglaterra. Embora antes da morte de
Carlos Magno nada sugerisse a magnitude do problema que se seguiu, em 810 a Frísia foi sa-
queada pelos dinamarqueses. O sul da Gália permaneceu como uma área de fronteira, sofren-
do os ataques muçulmanos.

Luís o Pio aceitou em 816 a coroa imperial das mãos do papa. Em 817 emitiu o Ordenamento
do Império, no qual dividiu o reino pelos seus três filhos, deixando o título imperial para o
mais velho. No entanto, a sua segunda mulher, Judite, deu à luz um filho, Carlos o Calvo, exi-
gindo que ele fosse incluído. Em 829, os filhos mais velhos colocaram-se à frente de uma co-
ligação de monarcas dissidentes, depuseram Luís e exilaram a madrasta. Quando o rei morreu,
o reino foi dividido em três (um dos filhos tinha, entretanto, morrido). Mais tarde, Carlos e
Luís uniram-se contra Lothair, o filho mais velho. No Tratado de Verdun, forçaram Lothair
àquilo que viria a ser o delinear de um acordo duradouro: Luís ficou com a maior parte da
Germânia, Carlos com a maior parte da França e Lothair com o Reino Central. Este incluía os
Países Baixos, a Burgúndia e a Itália até Roma, e o título imperial. Em 855, o reino de Lothair
foi, por sua vez, dividido em três. A parte norte, constituída pelo noroeste da Germânia e o sul
dos Países Baixos foram para Lothair II; depois da sua morte, em 870, ficou conhecido como
Lotaríngia, sendo dividido pelos seus tios.

O Império de Carlos Magno foi brevemente reunificado por Carlos o Calvo e depois por Car-
los III o Gordo, filho de Luís o Germano, que sucedeu aos seus irmãos na Germânia e na Lo-
taríngia e aos seus primos na França. A incapacidade de Carlos o Gordo em proteger o seu
reino dos escandinavos levou a que os magnatas francos o depusessem em 888. Durante o sé-
culo IX e início do século X estabeleceram-se os maiores principados territoriais francos. Os
ducados da Burgúndia e da Aquitânia remontam a unidades políticas existentes no período
merovíngio, enquanto a Flandres e depois a Normandia e a Bretanha eram condados com ori-
gem em domínios fronteiriços carolíngios.

A Carlos, o Gordo sucedeu, no reino Franco de leste, o seu sobrinho Arnulfo, que governou
até à sua morte, sendo o último carolíngio a ser coroado imperador. Era um soldado hábil, que
teve mais sucesso do que outros reis do seu tempo na luta contra os invasores, derrotando os
escandinavos em 891. O seu filho e sucessor, Luís o Menino, o último rei carolíngio da Ger-
mânia, morreu em 911 sem deixar herdeiros.

O Reino Central era uma impossibilidade política. Os reis ficavam enredados nas lutas políti-
cas do papa em Roma. Por volta do início do século X, as sucessivas divisões e recombina-
ções tinham feito do sul do Reino Central e de partes do oeste um ducado da Burgúndia e rei-
nos separados da Burgúndia, Provença e Lombardia.

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AS NOVAS INVASÕES

O desmantelamento do Império de Carlos Magno foi intensificado em todo o lado pela cres-
cente pressão vinda de fora da Europa ocidental. A actividade muçulmana tinha aumentado no
Mediterrâneo: a Sicília e partes do sul da Itália foram ocupadas e a costa mediterrânica da
França foi constantemente atacada.

No século V os magiares tinham-se deslocado para o sul da Rússia, e no século IX foram em-
purrados para ocidente pelos pechenegas e depois pelos búlgaros para a Hungria. Daí, os ma-
giares atacaram o norte da Itália até à Burgúndia. Depois de o imperador germano Otão I os
ter derrotado no rio Lech, retiraram-se e estabeleceram-se permanentemente na Hungria.

Os viquingues eram bastante móveis e o facto de atacarem pelo mar fazia que fosse extrema-
mente difícil preparar uma defesa eficaz contra eles. Os suecos tinham fundado o principado
de Kiev e os dinamarqueses atacavam a Inglaterra e a costa da Escócia. Os noruegueses atin-
giram a Islândia, a Irlanda, o País de Gales e a Escócia ocidental. No continente, os noruegue-
ses atacaram a Bretanha e os territórios ao longo do rio Loire, enquanto os dinamarqueses
concentravam a sua actividade nos Países Baixos e ao longo do Sena e Somme. Uma segunda
vaga de escandinavos dirigiu-se para ocidente nos finais do século X. Embora o continente
europeu tenha sido poupado a este grupo, eles atacaram a Inglaterra ajudados pela numerosa
população escandinava que já aí se encontrava, enquanto outros se estabeleceram na Grone-
lândia, alcançando a margem leste da América do Norte por volta do ano 1000.

A ISLÂNDIA

O mais duradouro colonato escandinavo além-mar foi o da Islândia. A costa da Islândia foi
colonizada pelos noruegueses a partir dos finais do século IX. Por volta de 930 já tinham esta-
belecido uma assembleia geral, a Althing.

OS ESCANDINAVOS E O IMPÉRIO CAROLÍNGIO

As lutas internas entre os descendentes de Carlos Magno são por vezes dadas como responsá-
veis pelo sucesso dos ataques viquingues à Europa. Mas os factos não são assim tão simples.
A geografia da Europa do noroeste, com rios facilmente navegáveis pelas pequenas embarca-
ções viquingues, fizeram da região uma presa fácil para os ataques navais. Os primeiros ata-
ques não tiveram consequências significativas porque os viquingues se limitavam a atacar, a

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saquear e a partir novamente. O padrão alterou-se quando os dinamarqueses saquearam Rou-
en e Paris e, a pouco e pouco, foram permanecendo ao longo do ano. Passaram então a atacar
deliberadamente os grandes centros, deixando pequenos contingentes de homens para guardar
as conquistas enquanto os Exércitos principais se moviam para o interior. Depois de 880, os
Escandinavos permaneceram mais a sul, onde ocuparam gradualmente a área do noroeste da
França que, no início do século XI, viria a ser chamada Normandia.

OS ESCANDINAVOS E A EMERGÊNCIA DE UMA MONARQUIA INGLESA

Em 874 os dinamarqueses conquistaram os reinos Anglo-Saxões e só o Wessex de Alfredo o


Grande restou como reino inglês independente. No início de 878 os dinamarqueses derrota-
ram-no, mas ele conseguiu recuperar, acabando por obter uma vitória decisiva em Edington.
Com a paz de Wedmore, o chefe dinamarquês converteu-se ao Cristianismo e os dois reis par-
tilharam a Mércia: Os dinamarqueses ficaram com o leste que, juntamente com a Nortúmbria,
viria a ser chamado Danelaw, enquanto Alfredo ficou com a Mércia ocidental e a área a sul do
rio Tamisa. O seu filho, Eduardo o Mais Velho, conquistou a Mércia dinamarquesa. Mais tar-
de, Edgar o Pacificador (944-975) foi o primeiro a intitular-se rei de Inglaterra.

A GÉNESE DAS RELAÇÕES FEUDAIS NA EUROPA DA BAIXA IDADE MÉDIA

O termo «feudalismo» tem dado origem a grandes controvérsias entre os estudiosos. É aplica-
do pelos marxistas e por alguns políticos capitalistas em relação a um regime económico ou
político que é considerado aristocrático ou opressivo. Outros identificam-no com a descentra-
lização da função governamental, mas isso ignora o facto de aqueles países onde os laços feu-
dais estavam mais desenvolvidos, a França e a Inglaterra, se terem tornado estados centraliza-
dos, enquanto a Germânia não feudal e a Itália se dividiram em numerosos principados.

Alguns definiram o feudalismo de uma forma muito lata, que inclui os laços não honrosos en-
tre o servo e o senhor das terras. Outros preferem evitar completamente o termo, uma vez que
«feudalismo» é uma palavra moderna que não era utilizada na Idade Média. Muita desta con-
fusão é originada pela abordagem «tudo ou nada» de alguns historiadores. Embora alguns se-
nhores feudais compilassem listas dos seus arrendatários, nunca existiu um «sistema» feudal.
A utilização da expressão «relações feudais» parece preferível, pois o «feudalismo» sugere
mais rigidez do que aquela que alguma vez esteve presente. As relações feudais desenvolve-
ram-se gradualmente desde o final dos períodos merovíngio e carolíngio, mas as fontes pouco

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dizem até aos séculos XI e XII. Quando os registos começam, mostram que os laços feudais
tinham vindo a evoluir em muitas partes da Europa.

Apesar de a palavra feudalismo não existir, o latim e as línguas vernáculas tinham palavras
para vassalo e feudo, os componentes necessários do vínculo feudal. A vassalagem era um
laço pessoal entre um homem e um senhor, que desenvolvia características particulares dife-
rentes de quaisquer outros compromissos. O vassalo, a parte subordinada, devia obrigações de
honra, nomeadamente serviço militar, que não comprometiam o seu estatuto social. Na lin-
guagem dos textos da época, ele era um «homem livre numa relação de dependência». O feu-
do era uma relação de propriedade entre o vassalo e o senhor, que obedecia a condições de
posse bastante diferentes das propriedades não feudais. Os vassalos que mantinham feudos
não eram sustentados directamente pela casa do senhor e deveriam utilizar os lucros das pro-
priedades para pagar os custos das suas obrigações de vassalagem.

VASSALAGEM

Há quem encare o sistema romano de clientes como a origem do laço feudal. Embora isto
possa ter sido verdade, os clientes romanos não mantinham, em princípio, uma relação militar
do estilo dos laços feudais; era antes uma situação onde uma das partes, claramente inferior,
se tornou dependente de um senhor nobre, que a protegia e a representava nas relações com as
autoridades mais elevadas, nomeadamente o Estado romano. O sistema de clientes era um sis-
tema de servidão, no qual uma pessoa previamente livre se entregava a um senhor, dando-lhe
usualmente as suas terras e recebendo-as de volta depois, em troca do pagamento de rendas
em dinheiro, em género e/ou trabalho por um período de anos ou, mais frequentemente, du-
rante toda a sua vida, acrescida à dos seus descendentes. A parte menor perdia o seu estatuto
com este estado de coisas, o que não se passava com a vassalagem feudal.
A palavra latina vassalus é uma transliteração do céltico gwas (criado). A utilização da pala-
vra sugere um elo entre a suserania local galo-romana e a vassalagem medieval, mas a vassa-
lagem desenvolveu-se num laço mais honorífico. Uma vez que o serviço honrado era a via
mais segura para o avanço social, a vassalagem começou a perder gradualmente o seu cunho
de dependência na Europa, a oeste do Reno, durante os séculos V e VII. Na Germânia, no en-
tanto, continuou a denotar uma pessoa de baixo estatuto.

A confusão sobre o estatuto dos vassalos reflecte o facto de, nos finais da Europa romana e
germânica, as relações de dependência serem normais em todos os níveis sociais. A distinção
faz parte da natureza das obrigações em que incorria a parte menor. Os camponeses que se

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«entregavam», a si e às suas terras, aos senhores perdiam estatuto, pois as suas obrigações, so-
bretudo o serviço laboral, não eram honradas de acordo com o sistema de valores da época.
Os seus senhores protegiam-nos e, assim, reforçavam o seu próprio estatuto aumentando o nú-
mero dos seus dependentes. Embora tenha havido alguma confusão entre servidão e vassala-
gem, quando os gwas se tornaram «vassalos» no século VIII, isso já não acontecia, pois a vas-
salagem tinha-se transformado numa relação honrosa.

O FEUDO

Os reis merovíngios tinham dado terras às igrejas, tendo sido também generosos para com os
magnatas laicos. A Igreja desempenhava um grande papel no desenvolvimento legal do feudo.
O benefício (que mais tarde foi, geralmente, chamado feudo) era uma propriedade condicio-
nal, garantindo direitos, desde que o seu detentor desempenhasse determinados serviços. A
Igreja não podia, segundo a lei canónica, alienar a sua propriedade sob qualquer razão, por
mais vantajosa que fosse, e, como tal, concedia o uso da terra como um «favor» (beneficium)
em resposta às «preces» (preces) do beneficiário; estas concessões chamavam-se precaria. A
igreja continuava, todavia, a deter a posse da propriedade.

Para pagar as suas guerras, Carlos Martel começou a recuperar algumas terras que os reis ti-
nham dado às igrejas, causando a oposição de uma organização cujo apoio a dinastia não se
podia dar ao luxo de perder. Carlos Magno assumiu o compromisso de fazer que as igrejas de-
tivessem «precaria pela palavra do rei». Estas terras deviam serviço militar ao rei, mas per-
maneciam como propriedades da Igreja. Através da precaria pela palavra do rei, o benefício
ficou associado ao serviço militar para com o monarca. A prática propagou-se então para ter-
ras que não eram propriedade da Igreja.

O alódio, que era mantido em propriedade directa, continuou a ser a forma dominante de pos-
se de terra no sul da Europa romana e nas áreas do norte que não faziam parte do reino franco
antes do tempo de Carlos Magno.

A ORGANIZAÇÃO MILITAR DA EUROPA FRANCA

Da mesma forma que no século VIII se assistiu na Europa ocidental a uma mudança nas leis
da terra, tornando possível o desenvolvimento do feudo, também se testemunhou uma altera-
ção na natureza das guerras e das obrigações militares. Se, em princípio, todos os homens li-
vres deviam a obrigação militar ao rei, esta estava a tornar-se cada vez mais honorífica. Na

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época em que os germânicos eram essencialmente nómadas, a requisição do serviço militar
através de campanhas sazonais de todos os homens livres da tribo, fisicamente hábeis, não
constituía um fardo pesado, uma vez que as mulheres e os escravos tratavam da agricultura.
Por volta do século VIII os homens livres já não podiam deixar as suas quintas durante as
campanhas da Primavera e do Verão, que coincidiam com as épocas de plantação, onde era
necessária mais mão-de-obra na quinta.

Vimos que Carlos Magno ordenou que cada quatro mansos de terra juntassem recursos e for-
necessem um homem de infantaria para as hostes reais, enquanto cada doze mansos forneceri-
am um homem de cavalaria equipado com armas, equipamento de construção e comida para
três meses. O serviço militar estava agora para além das posses da maioria dos agricultores li-
vres. Muitos deles entregavam-se, inevitavelmente, ao serviço de senhores nobres que lidari-
am com as necessidades militares do rei em nome deles.

Por volta do século IX, o serviço do homem livre normal estava, geralmente, limitado à defe-
sa do seu território natal, muitas vezes definido como o condado. No entanto, a um grupo se-
leccionado de pessoas, os vassalos, foram concedidos benefícios que garantiam um rendimen-
to em rendas que utilizavam para pagar o serviço militar ao rei. Este sistema seria utilizado
em guerras defensivas ou ofensivas e era apenas restringido pelos termos do contrato indivi-
dual entre vassalo e senhor. Através dele, os senhores tinham serviço militar que, de outra for-
ma, só poderiam obter através da contratação de mercenários. Os vassalos deviam, normal-
mente, serviço de cavalaria e não de infantaria, e isso envolvia armamentos dispendiosos. Em-
bora os exércitos francos tivessem utilizado a cavalaria antes do século VIII, e continuassem a
utilizar a infantaria após isso, a guerra tornou-se mais aristocrática depois do século VIII, pro-
movendo o desenvolvimento dos laços feudais.

A SUSERANIA TERRITORIAL E O LAÇO FEUDAL

O crescimento da suserania territorial e a detenção de cargos reais passaram a ficar associados


à vassalagem - um laço contratual entre pessoas livres, em que cada um tinha obrigações limi-
tadas e de honra para com o outro - no século VIII e sobretudo no século IX. Em 816, uma ca-
pitular de Luís, o Pio, proibia os vassalos de deixarem os seus senhores a não ser que estes ti-
vessem tentado reduzir o vassalo à servidão, conspirado contra a sua vida, cometido adultério
com a sua mulher, atacado com uma espada desembainhada ou recusado defendê-lo quando
se encontrava fisicamente apto para o fazer. Isto foi confirmado pela Capitular de Meersen, de
847, que foi emitida conjuntamente pelos três netos de Carlos Magno. Torna os «homens» de

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cada rei habilitados a prestar serviço se se encontrarem nas terras de um dos outros reis. Tam-
bém distingue entre o serviço devido ao seu senhor, segundo este sistema, e uma invasão da
terra, que necessita do serviço militar de toda a população.

As relações com a suserania territorial também envolvem a união da detenção de cargos com
o feudo. Carlos Magno encorajava os grandes homens do seu reino a tornarem-se seus vassa-
los, fortalecendo, assim, com um vínculo privado de homem para homem a lealdade que os
condes, enquanto súbditos e funcionários reais, deviam ao rei como personificação do Estado.
Encorajava os condes, por sua vez, a requisitarem os grandes homens das suas terras como
seus vassalos. A vassalagem impregnava, assim, toda a hierarquia de proprietários de terras
até aos mais pequenos. À medida que o controlo real enfraquecia, as condições de vassalagem
tornaram-se gradualmente hereditárias, uma vez que os homens estavam proibidos de abando-
nar os seus senhores sem causa aparente.

Durante este mesmo período, também os condes tomaram as suas posições gradualmente he-
reditárias. Este facto tornou-se um estatuto na Capitular de Kiersey, quando Carlos o Calvo,
vinculou os reis subsequentes a respeitarem a posse do cargo do pai pelo filho, enquanto se
excluíam os parentes colaterais. O mesmo texto também reconhece o estatuto hereditário de
ambos os vassalos reais e o dos outros grandes homens, embora existam outras fontes onde se
sugere que a vassalagem de retaguarda (um vassalo de retaguarda é o vassalo de alguém que é
vassalo em vez de um outro) se tornou hereditária na França apenas no século XI, e na Ger-
mânia apenas no século XII.

A natureza do feudo também conferia, de um modo geral, alguma autoridade governamental.


Vimos que, por volta do século VII, as terras que não se chamavam benefícios ou feudos,
eram concedidas em imunidade, o que conferia o direito de governar o território em questão.
Foi um passo importante tanto na criação de uma base de propriedade de terras para o poder
dos nobres, como também na própria definição do estatuto de nobre. Na verdade, textos pos-
teriores indicam que um nobre tinha de possuir o bannum (poder de mando sobre homens li-
vres). Isto equivale ao direito de governar o território. Uma vez que os vassalos que tinham
feudos possuíam, usualmente, imunidade sobre eles, este facto dava-lhes outro meio de eleva-
rem o seu estatuto, tanto na relação com a nobreza mais antiga ligada à terra, cuja posição era
fundada na posse da terra e não na especificidade feudal (embora pudessem manter tanto feu-
dos como alódios), como na relação com aqueles vassalos que não possuíam terras.

À medida que os condes e os duques tomavam as suas posições hereditárias, os direitos alia-
dos aos seus cargos começaram a ser associados à imunidade que detinham nas suas proprie-
dades feudais e alodiais. Por volta dos finais do século IX, muitos condes tornaram-se vassa-

Capítulo 5 15/160
los reais e, em troca, recebiam tanto feudos como cargos reais, já que a distinção entre os dois
se tinha distorcido por mais de um século de costumes que haviam deixado terras e cargos he-
reditários na mesma família. Quando isto aconteceu, a relação feudal já tinha assumido uma
nova dimensão, uma vez que os cargos territoriais no principado faziam parte do feudo.

Os reis do início do século IX esperavam, naturalmente, que cada homem, vassalo ou não,
servisse apenas um senhor. O primeiro exemplo registado de um vassalo com mais de um se-
nhor é de 895, mas isto quer dizer que é provável que a prática já existisse em tempos anterio-
res. Existia, assim, uma considerável mobilidade dentro da relação feudal, que deveria ser en-
carada como uma forma, mas não a única, de organização do poder territorial. Os homens me-
nores, como os vassalos no sentido original do termo, podiam ascender em posição, não ape-
nas por servirem senhores de estatuto elevado como também pela obtenção de feudos de mais
de um senhor. Mesmo se os vários senhores do vassalo se encontrassem em paz uns com os
outros e não houvesse nenhum conflito de lealdades, a vassalagem múltipla enfraquecia o ca-
rácter pessoal da mesma, uma vez que o vassalo não podia desempenhar serviço militar a
mais de um ao mesmo tempo, tendo então de enviar substitutos. O casamento era um outro
meio de ascensão porque, embora as mulheres pudessem herdar feudos, os seus maridos deve-
riam administrá-los desempenhando as obrigações que lhes estavam incumbidas.

A DIFUSÃO GEOGRÁFICA DAS RELAÇÕES FEUDAIS

As relações feudais encontram-se, sobretudo, no coração do Império carolíngio, entre os rios


Loire e Reno, uma área com uma nobreza belicosa, numerosos camponeses e solo suficiente-
mente fértil para sustentar os enormes gastos que o vínculo feudal exigia. Também era bastan-
te fortes nos Países Baixos até ao início do século XII, mas, a partir daí, começaram a decli-
nar, à medida que as cidades desenvolveram sistemas que revolucionaram tanto as relações de
suserania e de propriedade rurais como urbanas.

A Inglaterra anterior à conquista normanda conheceu a suserania pessoal e a laenland (terra


emprestada). Este termo abarcava tanto os arrendatários como as terras mantidas segundo
acordos semelhantes ao do feudo, uma vez que ambas eram posses «precárias». Mas a marca
do aristocrata era a sua posse de «terra registada» num livro ou numa carta e era semelhantes
ao alodial do continente. Por estas terras deviam serviço militar público em defesa da terra
(recrutamento geral), mas, por cada cinco áreas de terra (de cerca de 120 acres cada uma)
eram responsáveis pelo fornecimento de um homem de cavalaria. Isto era semelhante às rela-
ções pré-feudais do tempo de Carlos Magno. Apenas depois de 1066 é que os normandos in-

16/160 Capítulo 5
troduziram na Inglaterra os laços feudais.

A situação da Germânia era muito parecida com a de Inglaterra. Até aos finais do século VII
não se conheciam os laços feudais: a Germânia conhecia a suserania, mas o termo «vassalo»
tinha conotações de servilismo. A maior parte da terra era alodial e os cargos concedidos pe-
los reis não eram associados aos feudos. Na Itália os carolíngios introduziram os laços feudais
na Lombardia, que mais tarde se tornou o baluarte dos imperadores a sul dos Alpes. Depois de
os normandos terem conquistado o sul da Itália e a Sicília, nos finais do século XI, introduzi-
ram um feudalismo superficial. Os vínculos feudais também se encontram na Espanha e no
sudoeste da França, mas as semelhanças com o feudalismo da zona do Loire e Reno é apenas
de terminologia e não institucional.

O período de Carlos Magno assistiu, assim, à criação de um Governo que, em teoria, era con-
trolado pelo rei e pela sua corte. Todavia, para colocar esta estrutura em prática, os governan-
tes carolíngios tiveram de confiar numa aristocracia cada vez mais poderosa, vinculada aos
reis através da detenção de cargos e terras. Sobretudo na área entre os rios Loire e Reno, onde
o poder dos reis e dos senhores era mais forte, o elo entre o monarca e os seus súbditos mais
poderosos tomou a forma da relação feudal que, por volta do século IX, aliava Governo, de-
pendência militar e propriedade de terras. Durante a confusão das invasões do século IX, os
senhores na França e nos Países Baixos fortaleceram o seu poder através do controlo das defe-
sas locais, e entre os finais do século IX e o início do século XI dominaram estas áreas com
quase nenhum envolvimento directo dos reis. O poder dos reis era mais forte na Inglaterra e
na Germânia e, pelo menos no caso da Inglaterra, permaneceria como tal ao longo de todo o
período medieval.

Capítulo 5 17/160
6 - Transformações na Terra

(Pág. 174 do livro)

VILA E ALDEIA NA ALTA IDADE MÉDIA

A economia do início da Europa medieval era esmagadoramente agrária. Mesmo após o enor-
me crescimento das cidades e do comércio na Idade Média Central, o privilégio politico e os
valores sociais continuaram a basear-se na propriedade de terra.

Entre 400 e o início do século IX o clima foi frio e húmido; depois surgiu um período de tem-
peraturas mais amenas. Por volta de 1150 o frio regressou, e viria a ser mais intenso no final
do século XIII. Os séculos intercalares, de clima temperado e ameno, favoreceram a expansão
demográfica e económica. No final do período romano, o nível do mar começou a subir inun-
dando as costas da Bretanha e dos Países Baixos nos finais dos séculos IV e V. Ocorreram fo-
mes no início da Idade Média e, em 543, surgiu uma peste semelhante à do século XIV, que
permaneceu endémica até ao século VII.

Embora os germânicos estivessem em fase de sedentarização, o que normalmente favorece o


crescimento populacional, as escavações feitas nos locais das aldeias e das cidades e os nomes
de vários locais sugerem que a população diminuiu até ao início do século VII. Depois houve
crescimento, seguido de graves fomes e de declínio populacional a partir dos anos de 790.

Os estudiosos distinguem três tipos de povoações rurais do início do período medieval. Na ba-
cia do Mediterrâneo continuaram a predominar os campos quadrados romanos, com os edifí-
cios no centro. A Germânia a leste do Reno foi pouco afectada pelos romanos, e aí, tal como
em Inglaterra, os campos tendiam a ser alongados. O resto da Europa, entre o Reno e os Alpes
e os Pirinéus, sofreu vários graus de romanização. O auge dessa influência na Gália verifi-
cou-se no final do século II, quando a maioria da população agrícola do norte da Europa pare-
ce ter vivido em vilas. Mesmo nestas, a dispersão das povoações era maior no norte do que no
Mediterrâneo. Por volta do final do século III, as vilas altas começaram a ser abandonadas a
favor das terras mais baixas, sobretudo quando próximas de cursos de água ou de aldeias. Por
volta de 700, já só existiam vestígios da organização de vilas romanas no norte.

Os germânicos parecem ter evitado os vales dos rios até ao século VIII. Os dados arqueológi-
cos identificaram campos quadrados utilizados pelas populações residuais celtas ou romanas
perto dos campos rectangulares, preferidos pelos germânicos. Em áreas que foram povoadas

18/160 Capítulo 6
durante as migrações sob o domínio de um senhor, desenvolveram-se povoações mais estrutu-
radas, com a casa deste situada na melhor terra e rodeada pelas casas dos seus dependentes. A
maior parte das comunidades tinha vários campos, que eram cultivados em esquema rotativo.
Os aldeões tinham lotes de terra em cada campo, de modo a que ninguém ficasse privado de
sustento num ano em que um campo permanecesse em pousio. As terras estavam divididas
em «mansos» de vários tamanhos, que se tornaram a unidade de percepção tributária. À ex-
cepção das zonas desbravadas, as herdades dos senhores eram formadas pelas doações e pelas
terras que os agricultores anteriormente livres entregavam em troca de protecção.

Algumas aldeias germânicas praticavam uma agricultura de três campos, com dois deles culti-
vados anualmente enquanto o terceiro ficava em pousio, mas a maioria utilizava apenas dois.
Muito se tem dito sobre as vantagens da rotação de três campos em vez da de dois. O facto de
a sementeira da Primavera ser maior do que a do Outono, significava que não poderia haver
todos os anos rotação da mesma área cultivada. Houve constantes mudanças na configuração
dos campos durante a Alta Idade Média, à medida que os agricultores se adaptavam às altera-
ções climáticas e aos recursos e mercados disponíveis. No século X e sobretudo no século XI
os crescentes poderes dos senhores permitiram estabelecer uma aldeia «nucleada» com cam-
pos regulares, como o estilo de povoação dominante no coração da Europa do norte.

Nas primeiras povoações germânicas foram encontrados vários tipos de casas. As cabanas
construídas sobre postes eram utilizadas como celeiros. A cabana com o piso escavado abaixo
do nível do chão, para manter o calor, e com um telhado em declive, que não chegava a tocar
o solo, era bastante comum até ao ano 1000, mas não aparece depois disso. Na Europa eslava,
mas não no oeste, algumas cabanas afundadas tinham lareiras. Os agricultores mais ricos e os
senhores das aldeias viviam em casas rectangulares com apenas uma divisão grande. A «casa-
estábulo», na qual viviam humanos e animais, só se encontrava ao longo da costa do mar do
Norte e apenas em épocas remotas. No interior, os animais eram alojados em edifícios separa-
dos e as casas dos humanos eram mais pequenas. Até ao final do século XII mesmo as gran-
des casas do campo, à excepção da do senhor, eram construídas com madeira ou barro e com
telhados de palha ou colmo. As casas senhoriais eram raras até ao século XI.

A ECONOMIA DA PRODUÇÃO AGRÍCOLA

Os dados arqueológicos e toponímicos aprofundaram a nossa compreensão da agricultura do


início da Idade Média, mas ainda sabemos pouco sobre ela no período anterior ao grande au-
mento de registos da época de Carlos Magno. A agricultura na maioria das tribos germânicas,

Capítulo 6 19/160
ainda que primitiva, era mais sofisticada do que em tempos se julgou. Ainda existia um ele-
mento pastorício considerável na economia da maior parte das tribos. As florestas eram abun-
dantes e o gado era tido em tão elevado preço que muitos valores eram calculados em função
de cabeças de gado. O trabalho artesanal da Alta Idade Média era feito sobretudo pelas mu-
lheres, crianças e pessoas que não tinham possibilidade de trabalhar nos campos. Poucos tra-
balhadores podiam ser dispensados dos campos para os trabalhos artesanais.

Os arados com relhas e rodas de ferro eram conhecidos no período pré-histórico, tal como a
canga para cavalos e bois, mas existem poucas provas de que tenham sido utilizados antes do
século VIII, sendo o arado de garfos ou de baloiço o mais comum. Sem rodas, os arados eram
demasiado leves para fazerem um sulco suficientemente fundo de modo a proteger as semen-
tes dos pássaros e da erosão do vento e da água. Nas melhores condições, a agricultura da Eu-
ropa germânica podia produzir colheitas de 2 ou 3 partes por 1 parte de semente, mas era fre-
quentemente mais baixa. Um agricultor numa área pouco fértil poderia ter de guardar cerca de
metade da sua colheita para utilizar na sementeira do ano seguinte. Nos séculos VIII e IX
ocorreram fomes graves e numerosas, causadas provavelmente pelo agravamento do clima.
Na Gália merovíngia eram necessários pelo menos 30 acres de terra para sustentar uma famí-
lia de quatro pessoas, embora essa quantidade tenha diminuído com a evolução da tecnologia
agrícola. As aldeias desenvolviam-se em áreas férteis, mas estavam separadas umas das outras
por floresta e terras impróprias para cultivo. A maioria das aldeolas possuíam casas de cam-
poneses dispersas, geralmente rodeadas por campos e, por vezes, com áreas de pasto centrais.

Os germanos semeavam aveia, que os romanos consideravam erva daninha mas que se dava
bem em solos pouco produtivos. A espelta era provavelmente o cereal mais cultivado. As se-
menteiras da Primavera da cevada, espelta e aveia davam pouco rendimento, mas portavam-se
bem em condições adversas. Os cereais do Inverno eram o trigo e o centeio, que necessitavam
de melhores condições para crescer. Uma vez que a sementeira do Inverno era mais pequena
do que a da Primavera, estas colheitas eram artigos de luxo, sobretudo a do trigo, que muitas
vezes servia de renda para os senhores das propriedades. A partir do século X existem cada
vez mais indícios de centeio na Europa do norte, à medida que a plantação do Outono se tor-
nava mais importante devido ao aquecimento climático e ao aumento da população. Os ger-
manos cultivavam essencialmente cereais e poucos pomares ou hortas. Os cereais, que exigi-
am um trabalho intenso, não podiam ser cultivados com lucro em quintas pequenas. Eram pre-
feridos pelos senhores, pela sua transportabilidade e conservação, e pelos agricultores pela sua
capacidade de adaptação aos solos.

20/160 Capítulo 6
CRESCIMENTO ECONÓMICO DEPOIS DE 700

A força dos senhores laicos e eclesiásticos proporcionou um regime agrícola mais controlado
entre o Loire e o Reno, baseado principalmente em villas. Muitas das terras que tinham volta-
do a ser parte das florestas durante as invasões estavam agora a ser novamente desbravadas.
De certa forma, mostram que as propriedades carolíngias eram consideravelmente maiores do
que as dos seus antecessores merovíngios nos mesmos locais.

Como resposta ao desejo de Carlos Magno em ter mais informações sobre a obrigação do im-
posto militar, as grandes abadias da Gália central compilaram estudos, chamados polípticos,
sobre as terras e as obrigações dos seus rendeiros. Os mais antigos destes registos que sobre-
viveram remontam ao início e meados do século IX. As propriedades monásticas eram áreas
de maior densidade populacional, indo de vinte a trinta e cinco habitantes por quilómetro qua-
drado. Mas as áreas de intensa agricultura eram separadas por florestas ou pântanos e as co-
municações difíceis. Assim, as estimativas da população das propriedades das abadias não po-
dem ser representativas da situação no norte da Europa. Na bacia do Mediterrâneo, todavia,
algumas regiões estavam a ficar de tal modo povoadas que, por volta de 900, não podiam ser
sustentadas apenas pela tecnologia agrícola existente.

A SOCIEDADE CAMPONESA

A sociedade rural na Europa tribal era extremamente móvel. A Lei Sálica concedia às aldeias
o direito de expulsarem um recém-chegado que considerassem indesejado, um costume que
sugeria tanto uma considerável deslocação de pessoas no século VI como a existência de sóli-
das organizações de aldeia. Temos de considerar a mobilidade vertical ou mudança de estatu-
to e a mobilidade horizontal, na qual um indivíduo muda de residência. À excepção dos escra-
vos que adquiriam terras, grande parte da mobilidade vertical entre os camponeses era para
baixo, uma vez que a maioria dos códigos de leis germânicos conferiam às crianças filhas de
pais com diferentes estatutos a condição do progenitor com posição mais baixa. As pessoas li-
vres que não tinham meios de defesa entregavam-se frequentemente aos senhores, tornando-
se servos em troca de protecção. As propriedades do início do período medieval exigiam bas-
tante trabalho manual. As migrações também trouxeram a reanimação da escravatura por toda
a Europa: os escravos eram um bem importante, mas os germanos, que precisavam de mão-
de-obra, mantinham-nos em vez de os venderem. A maioria dos escravos estavam ligados à
propriedade ou à reserva (mais ou menos um quarto ou um terço da herdade, deixada de lado

Capítulo 6 21/160
para o senhor), mas alguns eram «escravos domiciliários», ou seja, servos que tinham lotes de
terra. Alguns documentos apresentam distinções entre mansos livres e servis. Os mansos li-
vres eram, aparentemente, os que eram ocupadas por agricultores livres na altura das partilhas
das terras no século VII; os mansos servis, que eram normalmente mais pequenos, eram terras
dadas a escravos como incentivo para as desbravarem e cultivarem.

A maioria dos servos só tinham, em princípio, o usufruto das terras durante a sua vida, mas,
por vezes, elas ficavam na família durante três gerações. Essas pessoas não estavam vincula-
das à terra, mas não era provável que a abandonassem. Embora muitos servos levassem uma
existência miserável, a servidão não era sempre uma consequência de dificuldades económi-
cas: sobretudo a partir do século VIII, o serviço militar se tornou mais oneroso, pelo que al-
guns agricultores procuravam evitá-lo, tornando-se dependentes dos grandes senhores que o
fariam por eles. Assim, os homens livres entregavam-se, a si e às suas propriedades, às igre-
jas, retomando depois a ocupação das terras por uma renda simbólica, não propriamente devi-
do a pobreza, mas sim para evitar as obrigações públicas. Esta forma de arrendamento rural
foi gradualmente convertida num direito hereditário em ocupar a terra.

O servo medieval tinha direitos de posse sobre a terra que ocupava - não podia ser desapossa-
do dela se pagasse a renda e desempenhasse as funções requeridas -, mas estava vinculado à
pessoa do seu senhor, ao passo que os colonos romanos e os seus descendentes, estavam ape-
nas vinculados à terra. Os polípticos carolíngios mencionam um numeroso grupo chamado
colonos. Ao contrário dos colonos romanos, os colonos carolíngios do norte da França eram
servos vinculados às pessoas dos seus senhores. Uma outra importante distinção entre o colo-
no romano e o servo medieval, mesmo os que nos polípticos são chamados servos, é que en-
quanto os colonos carilíngios, como os servos, faziam pagamentos aos senhores, tanto em di-
nheiro como em géneros, com predominância nos pagamentos em géneros, os colonos roma-
nos não executavam serviços laborais na reserva como parte da renda. Na maior parte do sul
da França, onde a ocupação romana tinha sido mais forte, sobreviveu, todavia, um colonato
neo-romano, legalmente livre, mas impossibilitado de abandonar as terras onde trabalhavam.

Os polípticos também apresentam registos de descendentes dos laeti, germânicos não livres
que os romanos tinham colocado em aldeias em troca de serviço militar. A maior parte das al-
deias também tinha «prebendários», assalariados que podiam ter pequenos lotes de terra mas
não o suficiente para sustentarem uma família. Com a excepção dos escravos, que estavam
vinculados aos seus senhores e não à terra, e talvez também os laeti, estes eram todos homens
livres de deixarem a terra, pelo menos durante o período merovíngio.

Os primeiros mansos, que tinham originalmente sustentado uma só família, eram enormes,

22/160 Capítulo 6
mas, por volta do século IX, mencionam-se já vários mansos fraccionados. Isto sugere que ti-
nha havido algum desenvolvimento nas tecnologias agrícolas (uma vez que uma família já
não precisava de tanta terra para sobreviver) e que os rendeiros podiam alienar a sua terra des-
de que, claro, obtivessem a permissão do senhor. Muitos dos mansos também eram mantidos
por várias famílias. Algumas delas eram, claramente, famílias que tinham herdado ou compra-
do direitos no manso mas que não viviam neles.

As abadias que compilavam os polípticos tentaram normalizar os serviços no manso, de modo


a que cada unidade de terra, e não cada família, devesse os mesmos serviços. Alguns campo-
neses também pagavam um imposto por cabeça, cuja obrigatoriedade foi um sinal de servilis-
mo até tarde na Idade Média. Os rendeiros deviam pagamentos pela sua terra em géneros e
em serviços laborais feitos na reserva do senhor e, frequentemente, um pagamento em dinhei-
ro. Os serviços laborais significavam que o rendeiro tinha de se colocar à disposição do se-
nhor dois ou três dias por semana («trabalho semanal»), juntamente com a execução de tare-
fas específicas («trabalho por tarefa»). A obrigatoriedade ao trabalho semanal, característica
da ambiguidade jurídica que rodeava as posses de terra dos camponeses, era encarada como
uma marca de servilismo, enquanto o trabalho por tarefa era sinal de um homem livre; no en-
tanto, muitos rendeiros faziam os dois tipos de trabalho. A totalidade dos serviços laborais
que eram exigidos aos rendeiros nunca chegava, no entanto, para cultivar toda a reserva do se-
nhor. Torna-se assim evidente que os rendeiros que possuíam terras constituíam uma classe de
elite, porque as herdades tinham numerosos escravos e assalariados.

Os camponeses mantinham, frequentemente, terras de vários senhores e nem sempre na mes-


ma aldeia. Os polípticos apresentam listas de mais pessoas a viverem numa aldeia do que as
terras poderiam ter sustentado. Muitas destas pessoas mantinham, sem dúvida, outras terras de
mais senhores do que aquela cujo registo sobreviveu. A maioria dos agricultores tinha de
complementar os seus parcos ganhos com o cultivo de pequenas hortas em volta das suas ca-
banas - uma fonte principal de colheitas de raízes e outros vegetais, que não eram exigidos
como renda pelos senhores, nem eram vendidas a dinheiro -, com a prática da caça, recolha de
nozes nas florestas, pesca e criação de pequenos animais e aves de capoeira.

A venda de terras e os casamentos conduziram a uma mistura de estatutos sociais nas proprie-
dades carolíngias. Alguns escravos tornaram-se servos pela aquisição de terras e de direitos
sobre elas, enquanto homens livres se tornaram servos para obterem a protecção de senhores
poderosos. Os inventários mostram casamentos entre pessoas livres e não livres. Em algumas
propriedades, sobretudo em zonas recentemente desbravadas, havia uma preponderância de
homens, pelo que nestas zonas muitas mulheres livres casavam-se com homens não livres que

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possuíam terras. As villas tinham supervisores que, geralmente, vinham dos próprios grupos
dos camponeses. Estes homens deviam pelas suas terras menos serviços onerosos e menos pa-
gamentos. A maioria das propriedades tinha especializados, nomeadamente ferreiros, cujo tra-
balho era essencial para o cultivo das terras.

A DIFUSÃO DA VILLA

A «herdade» ou «villa» refere-se a terras e direitos que eram controlados a partir de um único
centro administrativo. Assim, a propriedade de um senhor podia incluir várias villas, mas as
villas, por sua vez, seriam constituídas por propriedades em vários locais diferentes que res-
pondiam a uma sede situada numa delas.

A villa «clássica» que é descrita nos inventários carolíngios era uma forma de agricultura, in-
vulgarmente centralizada e eficiente. Era possível apenas em áreas de grande densidade popu-
lacional e com solos férteis, onde os senhores eram suficientemente fortes para impor uma or-
ganização e controlo centralizado sobre os camponeses. Este género de organização agrícola
era raro, excepto na zona entre os rios Loire e Reno e nas zonas centrais da Inglaterra, depois
da conquista normanda. Nos Países Baixos, que tinham grandes quintas, o laço entre a reserva
e a terra detida pelo camponês era menos forte do que o que acontecia entre o Loire e o Reno;
os agricultores pagavam rendas em dinheiro e em géneros, em vez de ser em trabalho. Nas
terras altas ou montanhosas, tais como as do sudeste da França, do sul da Alemanha e de
grande parte da Itália, a população era dispersa e a economia permaneceu pastorícia até mea-
dos da Idade Média. Em regiões de solos rochosos e pouco férteis, tal como a Bretanha, a
maioria dos camponeses eram livres, mas pobres e confinados às suas casas e a terrenos ane-
xos, com sebes ou rodeados de rochas, criando o campo «bocage», que ainda hoje se pode en-
contrar nessa zona. Os agricultores limitavam-se a pagar renda ou a deter as suas propriedades
directamente. A França central era uma área montanhosa e florestal de propriedades fechadas,
embora existissem algumas grandes quintas. Os rendeiros pagavam, normalmente, rendas em
vez de serviços laborais. Na cordilheira do Jura, no sudeste da França e na Suíça, a agricultura
extensiva era impraticável, pelo que a economia estava dirigida para a criação de animais e a
agricultura assentava na técnica da «queimadas e desbastes»: a terra era ocupada durante al-
guns anos e depois o restolho era queimado, permitindo à terra voltar ao estado selvagem. A
França do sul estava familiarizada com a villa clássica, que era aí menos ubiquitária do que na
região Loire-Reno. Os rendeiros eram livres, herdeiros dos colonos romanos.

O norte da Itália era demasiado montanhoso para sustentar grandes propriedades. No sul, de-

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senvolveram-se algumas villas, sobretudo depois de os normandos terem conquistado essa re-
gião, no século XI. O sul da Itália e as ilhas costeiras eram importantes produtores de cereais,
alimentando as grandes cidades do continente. Na Alemanha, a Rhineland e a Baviera esta-
vam fortemente divididas em herdades, mas a servidão era desconhecida na Turíngia e muito
rara na Saxónia. Nas zonas eslavas da Europa de leste, para as quais os germânicos se deslo-
caram depois do século X, os servilismo iniciou-se quando os recém-chegados subjugaram os
eslavos nativos e foi depois, então, estendido aos próprios colonos pelos seus poderosos se-
nhores, numa altura em que a servidão já estava a tornar-se rara nas zonas mais a ocidente.

AS MULHERES, AS CRIANÇAS E A FAMÍLIA

No período carolíngio o parentesco, na maioria das regiões, tinha-se tornado agnático (pater-
no). A maior parte dos homens aristocráticos mantinham concubinas, sendo o divórcio possí-
vel. À excepção de alguns chefes que eram bígamos ainda no século VIII, os casamentos
eram monogâmicos. O dote, a herança, o dote reverso (no qual o marido presenteia a mulher
no casamento) e o «presente da manhã» (que o marido oferecia à sua mulher na manhã se-
guinte à consumação do casamento, como o preço da virgindade) eram todos utilizados. Estes
bens pertenciam à esposa que os recebia, podendo ser legados aos seus descendentes num ca-
samento posterior. Isto dava às viúvas alguma segurança, embora tivessem, de um modo ge-
ral, de dividir as suas propriedades com os filhos.

Uma mulher estava sob a tutela do seu parente masculino mais próximo, fosse ele o seu pai ou
algum dos seus irmãos, mesmo após o casamento, ou então sob a tutela do seu marido, como
era mais usual no norte. Uma vez que as mulheres podiam herdar, tanto segundo a lei romana
como segundo o costume germânico, embora existisse uma considerável diferença entre tri-
bos, os casamentos possibilitavam transferências significativas de bens entre famílias. As mu-
lheres tinham, de um modo geral, uma situação económica mais próspera segundo os costu-
mes germânicos do que sob a lei romana, pois, segundo regimes de heranças partilhadas, elas
podiam herdar nas mesmas condições dos homens. A sociedade aberta da antiga Gália franca
permitia que algumas mulheres ascendessem a posições de influência. As mulheres das clas-
ses mais baixas trabalhavam nos campos, mas, em primeiro lugar, eram-lhes dados trabalhos
de manufactura, nomeadamente a fiação e a preparação de alimentos e de bebidas. A fiação da
lã e a fabricação de tecidos de linhos, tanto para uso local como para exportação, eram tarefas
das mulheres que trabalhavam em oficinas mantidas em várias propriedades; só no século XI
é que a tecelagem se tornou principalmente um trabalho dos homens.

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Sabemos pouco sobre a educação das crianças. Todos os códigos de leis bárbaros atribuíam
um alto valor às crianças, embora o preço de sangue aumentasse à medida que iam crescendo,
devido às elevadas taxas de mortalidade. Até ao século XI a prática da oblação era corrente:
os pais entregavam as crianças, normalmente em idades muito tenras, aos mosteiros para aí
serem criadas. As escolas monásticas parecem ter sido bastante humanas para com as crian-
ças, que eram comparadas aos inocentes das escrituras. Com os adolescentes, cujos desejos
sexuais não se enquadravam com a vida monástica, eram mais severos.

O COMÉRCIO DE LONGA DISTÂNCIA NA EUROPA DA ALTA IDADE MÉDIA

As alterações políticas e climáticas, a tecnologia primitiva e o crescimento ou declínio da po-


pulação eram factores que criavam oferta e procura de trabalho e de outros serviços e bens.
Embora no início da Idade Média o comércio na Europa ocidental fosse menos intenso do que
viria a ser depois, não era de negligenciar. Devemos distinguir, ainda que não de uma forma
rígida, entre comércio local e regional, geralmente de bens de primeira necessidade, e o co-
mércio de longa distância, que era sobretudo de artigos de luxo.

O historiador belga Henri Pirenne sugeriu uma cronologia do desenvolvimento comercial do


início do período medieval. Pirenne encarava a economia dos primórdios da Europa tribal
como, essencialmente, uma continuação da antiga Roma. A unidade comercial do Mediterrâ-
neo permaneceu inquebrantável e os artigos de luxo, nomeadamente as especiarias, as tâma-
ras, o azeite, o papiro, os metais preciosos e os escravos continuaram a circular de leste para
oeste. O comércio do Mediterrâneo só foi interrompido no século VII pelos muçulmanos e
não pelos germânicos. A época de Carlos Magno assistiu a um mínimo económico quando o
comércio declinou e a produção se tornou quase totalmente agrária. O Império romano do
Ocidente sempre importara mais do Leste do que exportara, e as migrações germânicas acen-
tuaram inicialmente este défice comercial. Escavações demonstraram que os produtos orien-
tais continuaram a entrar na Itália, entre 400 e 600, apesar de em quantidades consideravel-
mente pequenas. A rarefacção da população rural foi rápida, sobretudo nos séculos III e IV,
quando as povoações das terras baixas se mudaram para os topos das colinas, mais defensá-
veis, tendo as cidades diminuído. Depois de 600, o declínio tornou-se ainda mais rápido.

No final do período romano assistiu-se ao declínio do uso da moeda, embora na economia eu-
ropeia nunca tenha sido «natural» e sempre a tenham evitado. A maioria das operações de tro-
ca, no início da Idade Média, era em géneros, com a moeda a ser utilizada para pagar a dife-
rença entre os dois artigos de troca que se julgava possuírem um valor diferente. Os «Estados

26/160 Capítulo 6
sucessores» germânicos emitiram uma pequena moeda de prata, mas até mesmo esta deixou
de existir no terceiro quartel do século VI. As moedas de ouro, que eram utilizadas no comér-
cio de longa distância, continuaram a circular durante algum tempo, tanto no Leste como no
Oeste, e os reis bárbaros emitiram moedas de ouro a partir das cunhagens romanas.

Nos finais do século VI, a conquista lombarda do norte da Itália forçou os comerciantes gre-
gos a moverem-se para Ocidente, para o território controlado pelos franco e colónias de mer-
cadores judeus, gregos e sírios estabeleceram-se nos portos da Gália, nomeadamente em Mar-
selha e na Espanha visigoda. As moedas de ouro bizantinas seguiram este movimento até ao
início do reinado de Heraclio (613-29). No Ocidente também se reanimou a moeda senhorial
nativa. Este crescimento do comércio entre o Leste e o Oeste foi ameaçado quando os bizanti-
nos tiveram de enfrentar várias ameaças nas suas fronteiras do leste. A actividade económica
deslocou-se abruptamente para norte, onde as moedas de prata passaram a serem cunhadas,
pelo que a Provença, que tinha sido a zona intermediária entre o Mediterrâneo e as áreas co-
merciais do norte, depois de 600 declinou abruptamente. Apesar das estradas serem poucas e
más, o comércio por terra era importante mesmo assim, embora se preferissem as rotas fluvi-
ais. Do Mediterrânico para o interior, as rotas principais eram as dos rios Ródano e Saône, ao
longo dos quais se estabeleceram portagens. Em Châlons, no Saône, uma viagem por terra
dava acesso aos rios Sena e Mosa e daí para a Inglaterra e para a Frísia. O comércio continuou
activo ao longo do Reno, que tinha sido a fronteira romana até cerca de 600. Declinou, depois
em favor dos portos do mar do Norte e do comércio do Sena para Inglaterra, mas ganharia no-
vamente alguma força no século VIII, sob o estímulo da corte carolíngia. Os estabelecimentos
comerciais da costa do mar do Norte e o comércio através do canal da Mancha, entre a Ingla-
terra, a Frísia e a França, cresceram bastante durante o século VII. Prova desta reanimação é a
feira de Saint-Denis, nos arredores de Paris, onde todos os anos os comerciantes da Lombar-
dia, da Espanha, da Provença, da Inglaterra e do reino franco podiam trocar aí os seus produ-
tos. A Inglaterra também foi incluída no núcleo comercial bizantino através da renovação dos
laços com Roma, durante a época do papa Gregório o Grande. O comércio do Mosa também
era vital, sobretudo para o comércio de escravos, sendo Verdun era o principal mercado de es-
cravos da Europa. Na época de Carlos Magno o comércio de escravos declinou significativa-
mente, sendo depois reavivado com a colonização do território eslavo, nos séculos IX e X.

O COMÉRCIO INTER-REGIONAL NO SÉCULO VIII

O comércio oriental reanimou-se no século VIII, após um período de estagnação no século

Capítulo 6 27/160
VII. Os bizantinos recuperaram as rotas do mar Negro, enquanto os islâmicos controlavam a
África. Em Itália, em meados do século VII, os reis lombardos cunharam moedas de ouro. O
comércio dos cereais, do sal, do azeite, dos tecidos e das especiarias, efectuado com as zonas
do interior, que era controlado pelos lombardos e pelos portos bizantinos, percorria o rio Pó e
os seus afluentes. Veneza, situada em território bizantino, tinha surgido de uma aldeia piscató-
ria que crescera quando as pessoas, que fugiam dos Lombardos, se deslocaram para as lagoas
do continente. Por volta do início do século VIII estava a tornar-se o principal porto do mar
Adriático. No século VII a maioria dos mercadores profissionais na Itália eram judeus e sírios,
mas no século VIII desenvolveu-se um grupo mercantil nativo. A lei de 750 de Aistulf da
Lombardia dividiu os mercadores do seu reino em três grupos, de acordo com a sua riqueza e
fez com que o primeiro grupo fosse responsável pelas mesmas obrigações militares que os
possuidores de sete ou mais mansos de terra. Apenas no século X surgiria um estatuto inglês
que equiparava as obrigações militares de um mercador que fazia três viagens além-mar às
suas próprias custas, com as de um possuidor de cinco lotes de terra (cerca de 600 acres).

O crescimento comercial das regiões do mar do Norte continuou mesmo depois da reanima-
ção do comércio do Mediterrâneo no século VIII. Achados arqueológicos mostraram que as
redes comerciais não eram utilizadas apenas para bens de luxo, mas também para artigos de
utilidade, tais como cerâmica. As escavações de aldeias rurais mostram que, embora a maior
parte da cerâmica fosse feita localmente, também se importava uma quantidade considerável.
O comércio de lã entre a Frísia e a Inglaterra era tão intenso que uma moeda, a sceatta, era
cunhada nos dois lugares, e os numismáticos não conseguem distinguir uma da outra.

A procura nas cortes reais era de importância crítica no estabelecimento das redes comerciais
no início da Idade Média. Dorestad, na Holanda, tornou-se o porto de entrada para o Império
carolíngio, importante no abastecimento de mercadorias inglesas. O comércio com Inglaterra
fazia-se pelo Sena, entre Quentovic e Hamwih, porto localizado perto de Southampton.

No século VIII, à medida que o comércio local se reanimava, os governantes francos mero-
víngios recomeçaram a cunhar moeda de prata, sobretudo nos centros comerciais da Frísia e
dos vales do Mosa e Reno. A origem desta prata pode ter residido nos contactos frísios com
os muçulmanos através da Rússia. Em 755 o rei Pepino emitiu um novo penny de prata, seme-
lhante aos utilizados pelos omíadas em Espanha. Carlos Magno incrementou a cunhagem e
normalizou-a por todo o seu reino em unidades de doze pennies.

O final do século VIII, o período de Carlos Magno, foi uma época de difícil crescimento eco-
nómico, apesar do comércio com o estrangeiro. O agravamento do clima provocou a perda de
várias colheitas e fomes, pelo que, em 794, Carlos Magno ordenou que se vendesse cereais

28/160 Capítulo 6
dos domínios reais a um preço reduzido. Em 805, tentou fixar os preços dos alimentos, proi-
biu a exportação de cereais e ordenou que todos aqueles que possuíssem terras em benefício
do rei alimentassem os necessitados nas suas propriedades. As dificuldades de comunicação e,
consequentemente, de comércio, forçaram as comunidades a tentarem ser auto-suficientes; a
deficiente tecnologia agrária e as flutuações do clima impediram-nas de o conseguirem.

O COMÉRCIO NOS SÉCULOS IX E X

Os muçulmanos fizeram uma ofensiva no Mediterrâneo ocidental, capturando as Baleares, a


Sardenha, a Córsega, Malta, Creta e, finalmente, a Sicília. Não conseguiram estabelecer bases
permanentes no continente, mas saquearam Roma e ocuparam Bari, o principal porto do Me-
diterrâneo central, durante cerca de trinta anos. Atacaram os portos do sul da França, continu-
ando para norte através do vale do Ródano, pelo que, em meados do século IX, o Império
franco tinha perdido o seu acesso ao Mediterrâneo. Mais a norte, o declínio do poder real ca-
rolíngio não só deu origem a desordens, que prejudicaram o comércio local, como também di-
minuiu o mercado de artigos de luxo destinados aos príncipes. Mesmo antes da morte de Car-
los Magno, os dinamarqueses saquearam a Frísia e, por volta de 834, controlavam o mar do
Norte e o canal da Mancha. O seu mercado de Haithabu competia com os centros francos. Do-
restad atingiu o clímax e declinou depois de 830, tendo os dinamarqueses completado a sua
ruína, saqueando-a. Estes ataques iriam destruir todos os centros de comércio significativos a
norte do Loire, se bem que na maioria dos casos fosse apenas de forma temporária.

Apesar da destruição, o impacto dos escandinavos no comércio é difícil de avaliar. Pilharam


os mosteiros, mas muitos dos objectos de igreja de ouro e prata roubados acabaram por circu-
lar como dinheiro. Grande parte do comércio com o Leste no início do século IX era conduzi-
do pelos escandinavos: estes eram marinheiros perfeitos e uma mesma expedição podia prati-
car o saque e, simultaneamente, o comércio legítimo. A actividade da cunhagem de moeda
cresceu durante o reinado de Carlos o Calvo, quando os ataques escandinavos atingiram o
auge. O centro de comércio dos Países Baixos transitou, durante o século IX, do Mosa, que
dava acesso às capitais carolíngias, para perto do Scheldt, que estava melhor situado para o
comércio com os ingleses e escandinavos.

O comércio sueco era extremamente importante, tal como o dinamarquês. Birka era pouco
utilizada pelo mercadores ocidentais, mas tornou-se importante no comércio de Leste, princi-
palmente com a Rússia. O entesouramento nessa região, a maioria na primeira metade do sé-
culo X, revelam um contacto considerável com os gregos e com os muçulmanos. As frotas vi-

Capítulo 6 29/160
quingues encontravam-se no Mediterrâneo por volta de 870, embora aí os homens do norte
não se tenham envolvido em operações militares.

No século X os muçulmanos importavam escravos, peles, couros, madeira e outros produtos


florestais, assim como ferro do Ocidente, pagando com prata. A descoberta das minas de prata
de Rammelsberg, na Alemanha, foi responsável por grande parte das novas cunhagens, mas
os anos de 970 a 980 foram, também, um período de grande cunhagem na Inglaterra, porque
nessa altura o comércio entre o Ocidente e a Espanha e o norte de África muçulmanos estava
activo. O Islão ocidental, ao contrário do oriental, utilizava tanto a prata como o ouro, trocan-
do-os por escravos eslavos, capturados pelos francos. O comércio bizantino, que utilizava
apenas o ouro, também se reanimou com o Ocidente no século X. Os gregos vendiam tecidos
e outros artigos manufacturados no Ocidente, em troca do ouro adquirido aos muçulmanos.
As reservas ocidentais de ouro e prata muçulmanos cresceram ainda mais no século XI, du-
rante as conquistas militares cristãs.

AS ORIGENS DA VIDA URBANA

Grande parte do comércio estava centrado nas igrejas e nas cortes dos príncipes. Na maioria
dos locais era este comércio local, e não o de longa distância de artigos de luxo, que providen-
ciava a base populacional necessária para o desenvolvimento urbano. Com a excepção, talvez,
de Roma, as «cidades» do Ocidente cristão anteriores ao século XI eram verdadeiros «núcleos
pré-urbanos», em que os centros de comércio não se diferenciados das áreas circundantes.
Muitos eram wike, povoações com apenas uma rua ao longo de uma estrada ou curso de água,
ou portus, se se situavam em rios. Alguns wike e portus desenvolveram-se como subúrbios no
exterior de fortificações, tais como bispados ou mosteiros. Outros, como Dorestad e Quento-
vic, eram abertos e sem fortificações. O núcleo pré-urbano tinha alguma indústria, mas a mai-
or parte dos produtos eram manufacturados nas propriedades rurais. A maioria das «cidades»
até ao século XI tinha uma função largamente distributiva.

A maioria das civitates da Gália estiveram desprovidas de habitantes laicos após terem caído
nas mãos dos invasores. O termo civitas sofreu uma alteração de significado: enquanto para
os romanos designava uma subdivisão administrativa de uma província, na Alta Idade Média
passou a significar apenas a área de uma antiga cidade romana dentro dos limites das mura-
lhas, onde o bispo exercia o controlo secular. A História dos Francos de Gregório de Tours
sugere que os bispados recuperaram rapidamente no século VI. Os ricos e eruditos bispos
constituíam o principal mercado para os produtos de luxo do Leste, mas as civitates também

30/160 Capítulo 6
precisavam de bens utilitários. Tours tinha, pelo menos, uma população dependente dos mer-
cadores de cereais e o mecanismo de mercado era suficientemente sofisticado para permitir
que estes, durante a fome de 585, amealhassem e especulassem. Uma vez que as igrejas e aba-
dias recebiam pagamentos em géneros das suas propriedades, que eram mais vastas do que se-
ria necessário para alimentar o clero e os monges, o excedente permitia que os mercados se
desenvolvessem em povoações controladas pelas igrejas. Em 744, Pepino ordenou que os bis-
pos se assegurassem de que cada diocese tinha um mercado e que os preços estavam de «acor-
do com a colheita». Isto sugere que nem todas as dioceses possuíam mercados agrícolas, que
o comércio estava em expansão e que o rei receava a exploração ilícita do mesmo.

Os primeiros locais na Grã-Bretanha reconhecíveis como cidades situavam-se na costa e esta-


vam orientados para o comércio continental. Nenhum deles parece ter sido realmente grande
antes do século VII, mas o crescimento foi rápido daí em diante. Os reis da Anglia de Leste
no século VII poderão ter-se servido de Ipswich como porto de entrada, da mesma forma que
os carolíngios utilizavam Dorestad. A maior cidade saxónica era Hamwih, no Wessex, que ti-
nha indústrias, nomeadamente ferro, bronze, chumbo, prata, cerâmica, madeira e trabalhos em
osso e marfim. Hamwih e Winchester complementava-se: esta era a civitas onde o rei, o bispo
e os aristocratas ficavam, enquanto Hamwih era o centro de comércio que servia o mercado
aristocrático. Como não era fortificada, sucumbiu facilmente aos ataques. No século X as suas
funções foram assumidas por Southampton, que se situava mais para oeste e para o interior.

No reino franco e na Itália, nas povoações que não estavam associadas a bispados, a popula-
ção estabelecia-se, inicialmente, perto de uma fortificação ou de uma abadia. Tendia, então, a
espalhar-se na direcção de onde recebia os mantimentos. Um bom exemplo é a cidade de
Huy, no leste dos Países Baixos, que ilustra o facto de que, mesmo nas cidades perto dos
grandes rios, as povoações se desenvolverem primeiro ao longo dos pequenos cursos de água
ou das estradas que conduziam ao interior. A área nos rios maiores permanecia suburbana ou
era utilizada apenas como distrito de armazenamento. A maioria dos núcleos pré-urbanos ti-
nham, assim, origem em mercados agrícolas e em centros de distribuição entre as áreas que ti-
nham excedentes e faltas de alimentos, de matérias primas ou de trabalho.

O regresso a condições mais estáveis no século X, juntamente com o influxo de metais precio-
sos do Oriente, alimentou o comércio e a concentração de populações não agrícolas em cen-
tros fortificados. As cidades italianas de Pisa e Génova cresceram com o comércio com os
muçulmanos, mesmo quando estes começaram a expulsar os seus habitantes das ilhas costei-
ras. Com a excepção do caso peculiar da Itália, a maior parte das cidades do continente desen-
volveram-se em locais que tinham, pelo menos, uma ruína de uma muralha ou de um edifício

Capítulo 6 31/160
público romano Na Inglaterra, no entanto, o desenvolvimento das cidades ocorreu precoce-
mente e sob iniciativa real, uma vez que as povoações civis se deslocaram para as fortalezas
estabelecidas por Alfredo o Grande e seus sucessores. Embora a intenção dos reis em fundar
as cidades fosse a de providenciar fortalezas defensáveis, os reis do século X também tenta-
ram centralizar aí as actividades comerciais, exigindo que as grandes transacções fossem auto-
rizadas perante um corregedor real dos portos.

Os escandinavos rapidamente se adaptaram à vida nas cidades. Iorque, tinha uma população
multinacional e até mesmo uma colónia frísia no tempo de Carlos Magno. Durante o século
X, os dinamarqueses restauraram e aumentaram a muralha romana de Iorque, construindo um
palácio real na cidade central. Era, provavelmente, o maior porto do mundo viquingue. A mai-
oria das cidades que se desenvolveram entre 950 e 1050 não fundações planeadas, responden-
do a condições económicas em constante mutação. Em Inglaterra, não eram normalmente for-
tificadas e não revelam um grande planeamento das ruas, ao contrário das povoações do sécu-
lo IX e início do século X.

A Alemanha foi a primeira área a recuperar dos ataques do século IX e início do século X. Os
reis concediam alvarás de mercados às cidades mais importantes, sobretudo às que tinham
bispados, colocando mercadores e mercados sob a sua protecção. Alguns mercados foram cri-
ados com o objectivo de incentivar o comércio de longa distância, tal como Tiel no Waal,
para o comércio inglês, e Bremen para o comércio escandinavo. O comércio germano nos fi-
nais do século X dirigia-se cada vez mais para o sul e leste. A conversão ao Cristianismo ori-
ental do príncipe Vladimir de Kiev e a conquista bizantina dos búlgaros removeu as últimas
barreiras ao comércio terrestre entre o Ocidente e Constantinopla. Os produtos muçulmanos
podiam encontrar-se novamente na Germânia por volta do final do século X. O rei Otão I pre-
feria a cidade de Magdeburgo, na fronteira com a Saxónia, estabelecendo aí um arcebispado e
construindo um novo mercado para os judeus administrarem o comércio. Os reis germanos,
que eram os primeiros beneficiários do crescente fornecimento de metais preciosos orientais,
começaram a incentivar, no final do século IX, os judeus do Mediterrâneo a estabelecerem-se
nas suas cidades episcopais. Os judeus rapidamente se espalharam pela França e, por volta do
ano 1000, existiam comunidades judaicas na maior parte das cidades do norte da Europa,
mantendo estreitas relações religiosas e económicas umas com as outras.

32/160 Capítulo 6
TERCEIRA PARTE

A maturidade de uma civilização: A Europa na Idade Média Cen-


tral c. 920-1270

INTRODUÇÃO

No século X iniciou-se um período de recuperação das invasões e dos desastres climáticos.


Na Alemanha e na Inglaterra e, um pouco mais tarde, na França, criaram-se, entre os séculos
X e XIII, instituições governativas que iram constituir a fundação institucional do Estado, tal
como o conhecemos hoje. A população aumentou e a produção agrícola intensificou-se de
modo a poder responder ao maior número de bocas que era necessário alimentar. A crescente
procura de alimentos, juntamente com o aumento do fornecimento de ouro e prata, conduzi-
ram a uma inflação monetária que contribuiu para a emancipação dos servos na maior parte
da Europa ocidental. Desenvolveram-se verdadeiras cidades que fomentavam o comércio e a
interdependência regional, fornecendo a mão-de-obra necessária para o primeiro desenvolvi-
mento industrial significativo da Europa. Os curricula e as instituições escolares, nomeada-
mente as instituições mais medievais de ensino, a Universidade, foram transformadas de
modo a corresponder ás necessidades desta sociedade e economia cada vez mais complexas.
Paralelamente à estruturada cultura Latina das Universidades, desenvolveu-se uma vibrante
cultura vernácula. A Igreja transformou-se numa formidável máquina administrativa mas tam-
bém encorajava um vasto leque de expressão espiritual, desde a simples religiosidade de um
monaquismo reavivado às sofisticadas especulações dos teólogos sobre a natureza da divinda-
de e do cosmo. Os desenvolvimentos, cujas origens explorámos em capítulos anteriores, atin-
giram a sua plenitude de crescimento durante a Idade Média Central.

Capítulo 7 33/160
7 - Governo e Política: Imperadores e Papas

(Pág. 202 do livro)

Os príncipes mais ricos e poderosos da Europa do século X e início do século XI eram os da


zona mais a Leste do reino franco, o que hoje corresponde à Alemanha e ao norte de Itália. Os
ataques escandinavos não foi o único problema dos carolíngios. Estes tinham concedido a
maior parte das suas terras às igrejas e aos senhores temporais da aristocracia, que deveriam
controlar as populações; no entanto, nenhum monarca poderia governar efectivamente sem
controlar directamente um vasto domínio. Por volta de 911, quando a dinastia franco-carolín-
gia de leste se extinguiu, a grande maioria das suas terras encontrava-se em Lorraine. O poder
do rei franco do Ocidente continuou a declinar ao longo do século X, mas o advento de uma
nova dinastia na Germânia levou à recuperação do poder da monarquia.

A Germânia era composta por cinco ducados: Turíngia, Saxónia, Baviera, Francónia e a Suá-
bia, esta incluindo partes do «Reino Central» e a Burgúndia. Enquanto os ducados e os conda-
dos eram hereditários e mantidos como feudos no ocidente, os reis germanos tinham o direito
de nomear duques. Os subordinados dos duques eram os condes; mas enquanto o «condado»
era uma subdivisão local do ducado tanto na Germânia como na França, o conde germano não
obtinha qualquer jurisdição territorial em função do seu cargo, que era puramente honorário.
Os carolíngios tinham tentado, sem sucesso, passar por cima dos poderosos duques na Germâ-
nia e governar localmente através dos condes, que eram mais fracos, ao passo que os reis ger-
manos fizeram tudo o que estava ao seu alcance para impedir que tanto os condes como os du-
ques solidificassem as suas posições associando terras aos cargos oficiais.

Em 911 os duques escolheram Conrado de Francónia como rei, e este, no leito da morte, desig-
nou para seu sucessor o seu mais importante rival, o duque da Saxónia, Henrique o Passarinhei-
ro. Este fez campanhas contra os magiares e contra os eslavos e acabou com a antiga tradição de
dividir o reino entre pelos filhos do rei, designando um deles como monarca. Isto fez da Coroa
uma instituição pública em vez de uma propriedade da família passível de ser repartida. Com-
pensou os seus outros filhos tornando-os duques.

O seu sucessor, Otão I o Grande (936-973) enfrentou vários problemas. O seu irmão Henrique,
duque da Baviera, reclamou o trono com base no facto de ter sido o primeiro filho de Henrique
o Passarinheiro a nascer depois de o pai se ter tornado rei. As incursões dos magiares ensombra-
ram os primeiros anos do seu reinado, mas, em 955, conseguiu derrotá-los em Lechfeld, ex-
pulsando-os para o que viria a ser a Hungria. As suas campanhas militares contra os eslavos

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foram bastante mais longe do que as de seu pai, levando ao estabelecimento de postos fronteiriços a
leste. Otão o Grande continuou a tradição carolíngia de utilizar as igrejas para controlar as popula-
ções recentemente subjugadas. Ele contava com os homens da Igreja como administradores lo-
cais, mais do que alguma vez algum antecessor seu havia feito. Enquanto em França os reis ti-
nham perdido o controlo sobre a maioria dos bispados, os bispos germanos ainda prestavam
serviço militar e pagamentos em géneros ao rei: uma ordem de mobilização datada de 982, requi-
sitando cavalaria armada, revela que as igrejas forneceram três quartos das tropas. A manuten-
ção do controlo das igrejas era, assim, de importância política e militar para os reis germanos.

Otão o Grande é conhecido pela restauração do título imperial, que estava vago desde 924.
Entretanto, tinham ressurgido reinos independentes na Lombardia e na Burgúndia, desencade-
ando-se uma guerra quando Adelaide, filha do rei Rodolfo da Burgúndia e viúva de Lothair da
Provença, foi feita prisioneira pelos lombardos. O filho de Otão I, Liudolf da Suábia e o irmão
daquele, Henrique da Baviera, intervieram, mas Otão antecipou-se, invadiu a Lombardia, ca-
sou-se com Adelaide e coroou-se a si próprio rei dos Lombardos. Encetou negociações com Roma
pelo título imperial, que conseguiu em 962, quando o papa João XII procurou a sua ajuda.

A coroação de Otão o Grande estabeleceu o «Sacro Império Romano», utilizando o termo do sécu-
lo XII. Quando os nobres germanos escolhiam um novo rei, este tornava-se imperador desig-
nado. Otão I casou o seu filho, que lhe sucedeu como Otão II, com a princesa bizantina Teófana,
um acto que implicou o reconhecimento da sua coroação pelo imperador de Constantinopla.
Otão II passou pouco tempo na Germânia. Em 980 foi para Itália, onde foi derrotado pelos
muçulmanos. Quando as notícias do seu desaire chegaram às regiões do norte, os eslavos ata-
caram a fronteira de leste, chegando mesmo a ameaçar Magdeburgo. Depois da morte de Otão,
no ano seguinte, Teófana tornou-se regente do seu filho Otão III, ainda criança, e agindo com
considerável perícia conseguiu restaurar a fronteira de leste. Assumindo o poder, Otão III foi
um jovem impressionante, que esperava fundir o passado greco-romano com o mundo germâ-
nico da sua época. Marchou sobre Roma, instalou o seu primo Bruno como papa (Gregório
V), recebendo depois a coroa imperial das mãos deste. Otão III esperava fundir as comunida-
des secular e eclesiástica numa única comunidade cristã dominada pelo imperador, segundo o
modelo bizantino. Em 999 fomentou a escolha para papa do seu tutor, Gerbert de Aurillac, um
matemático e astrónomo que tinha sido educado na Espanha muçulmana. Gerbert adoptou o
nome Silvestre II, sugerindo a sua preocupação com a jurisdição temporal do papado, já que o
papa Silvestre I tinha sido o suposto beneficiário da «Doação de Constantino».

Otão III tentou unir os seus domínios italianos à Germânia, colocando oficiais germanos
numa série de castelos. No entanto, separou a Polónia e a Hungria da Germânia, concedendo-

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lhes os seus próprios arcebispados. A insatisfação aumentou e, após a sua morte prematura,
sucedeu-lhe o seu primo, Henrique II, filho de Henrique da Baviera. Henrique limitou a sua
actividade à Germânia, com grande desagrado dos aristocratas germanos que se tinham habi-
tuado a um rei que passava parte do tempo em Itália. Henrique despendeu energias considerá-
veis na contenção das ambições do rei da Polónia, que chegou a intitular-se a si próprio rei da
Boémia. Conhecido pela sua bondade, pela qual acabou por ser canonizado, Henrique II de-
pendia dos bispos mas controlava firmemente as suas nomeações. Henrique II não teve filhos,
o que levou outra dinastia ao trono germânico. Conrado II era um turíngio que descendia, pelo
lado da mãe, de Otão I. Aparentemente, os nobres escolheram-no por ele possuir pouquíssi-
mas terras, mas serviu-se dos seus direitos como rei para consolidar os domínios da sua famí-
lia. A exploração das minas de prata de Rammeisberg deu aos novos governantes recursos fi-
nanceiros, tornando-os uma ameaça maior para a independência da aristocracia. Conrado II
anexou a Burgúndia, quando o tio de Henrique II morreu sem deixar filhos. Apoiou os vavassa-
los do arcebispo de Milão contra os seus senhores, dando-lhes o direito de herdar feudos. Ao
contrário do reformador da Igreja Henrique II e do seu próprio filho e sucessor, Henrique III,
Conrado II tentou limitar a autoridade da Igreja.

O GOVERNO REAL NA ALEMANHA DA ALTA IDADE MÉDIA

O estudo da política germana tornou claro que os reis tinham de manter um forte domínio e
controlar a Igreja para serem bem sucedidos. A Querela das Investiduras entre os reis germa-
nos e os papas é considerada como tendo sido o início da separação da Igreja do Estado, que
tinham coexistido em simbiose até então. Anteriormente, o rei, que era o único homem laico a
receber a unção, tinha funções sacras, com deveres de supervisão sobre a Igreja, enquanto as
igrejas beneficiavam materialmente do apoio dos reis e de outros potentados seculares. A unção
do rei conferia-lhe carisma, que se julgava trazer a bênção de Deus ao seu povo.

Por volta de 900, graças à maior sedentarização da população, a organização por condados ti-
nha-se enraizado no reino Franco do Ocidente, mas não na Lotaríngia e na Germânia. No en-
tanto, durante o século X e início do século XI, a autoridade em muitos condados carolíngios
fragmentou-se. Surgiam novas famílias, algumas dos ramos mais recentes das dos condes, que
começavam a adquirir alodiais (e, menos frequentemente, feudos, com a excepção da França a
norte do Loire), a construir castelos e a convertê-los em centros governativos e de tributação,
intitulando-se a si próprios condes. Os seus territórios raramente formavam blocos coerentes:
a maioria das vezes eram domínios espalhados e direitos exercidos sobre essa mesma área,

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complementados com as relações pessoais feudais e de lealdade. O poder do senhor estava li-
gado ao conceito de ban (bannum): o poder de comandar pessoas livres. Hoje chamar-lhes-ía-
mos apenas «autoridade governamental», mas na Idade Média Central era bastante mais com-
plicado do que isso. Os condes, cujos antepassados haviam sido nomeados por carolíngios,
exerciam o direito de ban porque o rei tinha delegado neles essa autoridade, embora a origem
real do poder fosse, muitas vezes, convenientemente esquecida quando os condes se faziam
independentes de facto. Mas muitas das novas famílias com estatuto de conde, sobretudo na
Lotaríngia e na Burgúndia, também exerciam o poder ban, o que lhes conferia um estatuto no-
bre. Faziam-no, contudo, como abades laicos ou «advogados» de igrejas, que gozavam de
imunidade, uma vez que as igrejas nomeavam, geralmente, pessoas laicas como advogados
para protegerem as suas imensas riquezas e propriedades de outros poderes seculares. Já des-
de a época de Carlos o Calvo que os próprios imperadores nomeavam homens laicos como
abades. Os «proprietários» laicos da maioria das igrejas locais nomeavam o sacerdote da pa-
róquia, e mesmo alguns bispados franceses tinham de se sujeitar a estas ignomínias. Na Fran-
ça e na Burgúndia, os advogados eram, assim, eles próprios os despojadores das igrejas que
protegiam até começarem a ser limitados pelos príncipes nos séculos X e XI.

Na Germânia as coisas seguiram um rumo diferente. De modo a enfraquecer o poder local dos
condes e dos duques que, tecnicamente, eram os seus funcionários, os reis germanos concedi-
am terras alodiais às grandes igrejas, davam-lhes imunidade sobre elas e depois faziam com
que eles próprios fossem nomeados seus advogados. Quando no século XI os condes adquiri-
ram mais poder os reis sentiram necessidade de os controlar e nomearam duques de entre os
proprietários locais e não de fora, como haviam feito anteriormente.

Sobretudo a partir da época de Conrado II, os reis serviram-se de ministeriales para governar
as imunidades eclesiásticas. Os ministeriales eram servos sem terras que, ao desempenharem
este serviço honrado, que envolvia funções militares e guarda aos castelos, iriam, eventual-
mente, tornar-se cavaleiros, a mais baixa posição da nobreza germana. Aqueles abades e bis-
pos que não nomeavam advogados para as suas imunidades também as governavam com mi-
nisteriales. Por volta do século XI os ministeriales tinham desenvolvido uma consciência de
classe, colocando, por escrito, os costumes que orientavam a sua condição.

A autoridade dos condes franceses era baseada no poder que os reis carolíngios haviam, em
tempos, exercido, complementada com outros direitos e propriedades adquiridos mais tarde
pelos condes. No Reino Central e na Germânia, o governo estava mais intimamente ligado aos
extensos territórios da Igreja e daqueles que agiam em seu nome. Daí que o controlo da Igreja
fosse muito mais vital para os reis germanos do que para os da França ou Inglaterra.

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A INVESTIDURA LAICA E A REFORMA DA IGREJA

De modo a que isto funcionasse no seu interesse, o rei tinha de controlar as nomeações para as
abadias e, sobretudo, para os bispados. Os abades de mosteiros que não eram controlados por
proprietários laicos, eram escolhidos pelos monges das fundações individuais, enquanto os
bispos eram escolhidos pelo clero local e depois aclamados pelo «povo», se bem que quem ti-
vesse sido designado para um tal lugar não pudesse exercer os seus poderes até ser formal-
mente empossado. Os detentores laicos de cargos e de feudos eram «investidos» nos seus car-
gos ou terras, sendo-lhes entregue, normalmente, um galho ou um pedaço de terra simbolizan-
do a propriedade, fazendo eles, depois, um juramento de fidelidade. Os bispos eram, desta
forma, investidos com os bens temporais das suas dioceses mas também recebiam investidura
com os sinais do cuidado das almas: o anel, simbolizando o casamento com Cristo, e o báculo
o pastor do rebanho. Uma vez que os imperadores germanos se consideravam sacerdotes atra-
vés da unção, investiam bispos com o báculo. O imperador Henrique III juntou a esta a investi-
dura com o anel. Depois de o bispo ter sido investido pelo rei, era normalmente consagrado
pelo arcebispo, fazendo, depois, um juramento de fidelidade ao imperador. As posses tempo-
rais e as funções sagradas eram, assim, usualmente atribuídas numa única cerimónia, e os im-
peradores omitiam com muita frequência a parte formal da eleição, que era feita pelo clero e
pelas pessoas da diocese. Ao recusar-se a investir um candidato, um rei estava a vetar a escolha
de um bispo, que permaneceria apenas eleito pelo clero. Se os reis perdessem os seus poderes
sobre as nomeações da Igreja, ficariam numa posição perigosamente exposta.

Mais tarde, os papas fizeram da intervenção laica na Igreja germana um assunto de discussão,
mas os reis germanos tinham muito cuidado em colocar homens eruditos e devotos nos altos
cargos da Igreja. Na França, os bispados tornaram-se possessões hereditárias das famílias, sen-
do mesmo comprados e vendidos. Encarar a investidura laica como uma usurpação da autorida-
de da Igreja não é correcto, uma vez que a Igreja obtinha protecção, influência e uma riqueza
considerável com o apoio dos governantes seculares. Além disso, poucos foram os sacerdotes
ou homens laicos europeus a questionar este estado de coisas até meados do século XI. As atitudes
alteraram-se em face a vários desenvolvimentos: um movimento de reforma dentro da Igreja,
uma intensificação dos poderes dos reis germanos na Itália, uma oportunidade para os papas
estenderem os seus domínios na Itália central e uma criança-rei na Germânia entre 1056-1065.

O impacto da reforma da Igreja na Querela das Investiduras tem sido não somente exagerado
como deturpado. Alguns papas do século IX eram homens hábeis, mas estavam mais interes-
sados em consolidar a sua posição material e teórica do que na reforma da Igreja. O ímpeto

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inicial para a reforma não veio do papado, mas sim dos mosteiros. Em 910, o duque da Aquitâ-
nia fundou a abadia de Cluny na Burgúndia, colocando o mosteiro directamente sob o papado e
garantindo a sua independência em relação aos senhores seculares. Antes de meados do sécu-
lo XI o poder papal significava pouco, mas Cluny conseguiu manter a sua autonomia, bem
como a das suas paróquias, num mundo caracterizado por uma Igreja dominada . Embora os
monges de Cluny tenham sido conselheiros de bispos e de chefes políticos, o impacto da abadia
na vida religiosa sentiu-se principalmente em França.

Um outro movimento reformador foi iniciado na Lotaríngia por João, abade de Gorze, e di-
fundido pelos monges influentes de S. Maximiano de Trier. Gorze foi mais influente do que
Cluny na reforma dos mosteiros na Germânia e nos Países Baixos. Ao contrário de Cluny, não
existia nenhuma direcção centralizada para o movimento lotaríngio, mas sim uma atenção
particular à rígida regra beneditina. Por volta de 1050, a maioria dos mosteiros germanos ti-
nham já sido reformados segundo o modelo lotaríngio. Talvez ainda mais importante que isto,
o papa Leão IX, que foi colocado no trono pelo seu parente, o imperador Henrique III, foi um
lotaríngio que trouxe as reformas para Roma.

Matilde, condessa da Toscânia, forneceu um outro laço com os reformistas lotaríngios, pois
era uma ardente patrona do movimento e amiga de Hildebrando, que mais tarde se tomaria o
papa Gregório VII. Matilde queria deixar as suas terras na Toscânia ao papado, mas o impera-
dor estava igualmente interessado nelas. Este assunto era particularmente importante para os
papas, uma vez que a posse da Toscânia lhes daria uma base de poder mais segura no centro
de Itália, tornando-os menos dependentes dos reis germanos, cujo poder estava mais a norte,
na Lombardia. A reforma da Igreja e os objectivos territoriais dos papas em Itália confluíram,
assim, para a Toscânia. Os papas reclamaram realmente a Toscânia aquando da morte de Ma-
tilde, mas nunca a conseguiram controlar efectivamente.

O movimento da reforma italiana foi influenciado por Cluny e pelos mosteiros lotaríngios,
conjugando-se também com a tradição reformista do movimento eremítico centrado em Pedro
Damião e Humberto, bispo-cardeal de Óstia. Os eremitas consideravam que a Igreja deveria
separar-se do mundo material e davam particular atenção à simonia. Estes reformistas viam na
simonia não só como a compra de um cargo, mas também o pagamento de um imposto sobre
as possessões temporais das igrejas e a necessidade de se ter ligações com o poder secular
para a obtenção de um cargo da Igreja. Alguns reformistas consideravam que o juramento de
fidelidade que os bispos germanos faziam perante o imperador constituía simonia.

O imperador Henrique III era um governante forte que também se sentia responsável pelo
bem-estar da Igreja. Leão IX considerou como excepção a prática de os homens laicos investirem

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bispos com o anel e o báculo e tomou medidas contra a simonia e o casamento clerical. Leão
IX também viajou pelo norte da Europa, emitindo decretos reformistas nos conselhos de igrejas
locais e levando ao norte da Europa o papado como uma força espiritual. As relações entre o rei e
o papa, cada um deles convencido de que era o líder de uma comunidade cristã unificada, que
incluía tanto um ramo secular como um eclesiástico, estavam a tornar-se tensas quando Henri-
que III morreu em 1056, deixando uma criança de 6 anos como seu herdeiro.

A Igreja serviu-se da menoridade do rei para tomar medidas a fim de assegurarem a sua inde-
pendência. Assim, os cardeais e bispos das igrejas fundamentais de Roma formaram em 1059 o
Colégio de Cardeais, com o objectivo de regular a eleição papal e que depressa se tornou num con-
selho permanente. Também em 1059, o papa proibiu formalmente, pela primeira vez, a inves-
tidura laica com o anel e o báculo, embora o decreto fosse, de um modo geral, ignorado.

A IGREJA E A POLÍTICA NA ITÁLIA DO SÉCULO XI

As condições do século XI permitiram que a Igreja ocidental iniciasse uma ofensiva política e
doutrinal contra o Leste e, em 1054, o cardeal Humberto provocou a separação final entre as
Igrejas grega e latina. O causa foi o uso pela Igreja de Leste de pão ázimo na missa e a sua po-
sição de que o Espírito Santo procedia do Pai através do Filho e não do Pai e do Filho.

Os bizantinos governavam a maior parte do sul da Itália no início do século XI. Os emires
muçulmanos detinham as ilhas da Sardenha, da Córsega e da Sicília. A instabilidade política
crónica convidava os aventureiros e, pouco depois do ano 1000, apareceram normandos no sul
da Itália. Robert «Guiscard» («astuto»), o mais célebre destes, por volta de 1059, já tinha con-
quistas tão vastas que o papa Nicolau II se aliou a ele abertamente. Em troca do reconheci-
mento papal pelas suas conquistas, Guiscard considerou as suas terras como feudo do papa,
concordando em ajudar o recém-estabelecido Colégio de Cardeais para as eleições papais.
Guiscard continuou a concentrar-se no continente, enquanto o seu irmão mais novo, Rogério,
iniciou a invasão da Sicília em 1061. A queda de Bari acabou com a presença bizantina na
Apúlia, e em 1072, o próprio Guiscard tomou a cidade de Palermo. Este era, por altura da sua
morte em 1085, o mais poderoso príncipe no sul da Itália.

O ponto fulcral do conflito entre o imperador e o papa era o norte da Itália. Em Milão, as alianças ti-
nham mudado desde que Conrado II se tinha aliado aos vavassalos contra os seus senhores. No
ano de l059, irromperam novas hostilidades. Os patarenos («apanha-farrapos») de Milão eram
vavassalos, cuja oposição ao seu senhor, o bispo de Milão, os levou a aliarem-se ao papa na
questão da eleição de bispos pelo clero e pelas pessoas da diocese. Os regentes de Henrique

40/160 Capítulo 7
IV apoiavam o arcebispo e os tumultos prolongaram-se até 1073, quanto Henrique IV esma-
gou os patarenos, instalando o seu próprio candidato como arcebispo.

A QUERELA DAS INVESTIDURAS: A PRIMEIRA FASE

Durante o pontificado de Alexandre II a principal figura da corte papal era o monge Benedito
Hildebrando, que se tornou o papa Gregório VII. Este aliou-se aos senhores saxões, que se re-
voltaram em 1073 contra Henrique IV. A revolta foi silenciada, mas as relações do imperador
com o papa deterioraram-se. Gregório renovou em 1075 a proibição da investidura de bispos
com anel e báculo pelos homens laicos, mas Henrique IV ignorou-o.

A Querela das Investiduras iniciou um processo de separação da Igreja e do Estado, o que iria
sair caro à Igreja em bens maternais, uma vez que a reacção dos príncipes sobre a reclamação
de poder dos papas no mundo temporal iria inaugurar um período de domínio secular sobre o
braço eclesiástico. Gregório VII excomungou e depôs o rei no início de 1076, justificando a
sua acção pelo poder que Cristo havia dado a S. Pedro de ligar e separar na Terra e no Céu.
Os nobres germanos, que estavam agora unidos pelos bispos, serviram-se da excomunhão do
rei como desculpa para se revoltarem. Em 1077 Gregório VII dirigiu-se à Germânia para pre-
sidir a uma assembleia de nobres que ia julgar Henrique. Optando por uma retirada estratégi-
ca, o rei interceptou Gregório em Canossa, um castelo da condessa Matilda da Toscânia, ofe-
recendo a sua submissão como penitente. Foi um golpe de mestria diplomática, pois, embora
o papa duvidasse da sinceridade de Henrique, não podia recusar-se a absolvê-lo. Mais tarde
afirmou que apenas libertara Henrique da excomunhão, sem lhe restaurar a Coroa, mas o re-
sultado imediato de Canossa foi o de privar os nobres germanos das razões para a revolta.
Apesar de tudo, eles escolheram um novo rei, Rudolfo de Rheinfelden.

Gregório VII reclamou o direito de arbitrar entre Henrique e Rudolfo. Depois de protelar du-
rante três anos, enquanto se reuniam forças militares na Germânia, o papa reafirmou a deposi-
ção e excomunhão de Henrique IV e libertou os súbditos do rei dos seus juramentos de fideli-
dade para com ele. No entanto, pouco depois, Henrique derrotou e matou Rudolfo, nomeou um
antipapa e expulsou Gregório VII de Roma. As tropas de Robert Guiscard vieram em auxílio do
seu senhor papal, expulsaram os germanos de Roma, pilharam a cidade e levaram com eles o
papa, que morreu sob custódia normanda em 1085.

O conflito entre Gregório VII e Henrique IV constituiu a primeira guerra de propaganda sobre
um tema político ou religioso desde o fim do período romano. Ambas as partes fazeram circu-
lar «cartas», um instrumento retórico utilizado na antiguidade e reavivado durante a Renascen-

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ça carolíngia. As de Gregório eram dirigidas a S. Pedro. Henrique respondia à excomunhão, ati-
rando calúnias sobre o papa e acusando-o de instigar à violência sob a máscara da religião. Hen-
rique defendia que o poder provinha de Deus e acreditava que só podia ser deposto se se afas-
tasse da fé. O seu maior defensor, o autor anónimo dos Tractos Anglo-Normandos, argumenta-
va que a jurisdição do papa estava confinada à esfera espiritual. Negava que os bispos deri-
vassem o seu poder do papa, que era apenas o bispo de Roma, obtendo-o antes directamente de
Deus. Apenas dois controversistas afirmavam que o poder do Estado não estava divinamente
instituído e, curiosamente, um deles era partidário do papa. O jurista Pedro Crassus argumen-
tou que o poder de governar na Terra assentava em leis civis e não canónicas, enquanto o
monge saxónico Manegold de Lautenbach afirmava que o rei tinha assumido um contrato com
a comunidade para governar com justiça. O seu poder não vinha de Deus, mas ascendia do
povo. Quando agia injustamente, ou quando oprimia a Igreja, quebrava este contrato e liberta-
va os seus súbditos dos votos de obediência. Implícita às duas ideias, que o imperador rejeitava,
estava a noção do rei enquanto homem laico e não como sacerdote.

A RESOLUÇÃO DA QUERELA DAS INVESTIDURAS

Embora Henrique IV estivesse vantagem em 1085, as hostilidades continuaram na Germânia


e na Itália, pois o rei não conseguia controlar as terras da Igreja. Apesar de alguns bispos ger-
manos terem apoiado o rei no despoletar do conflito, acreditando que o papa estava errado em
se envolver nas actividades políticas, por volta de 1100 o clero germano já se encontrava for-
temente do lado do papa. Isto ocasionou conflitos nas suas cidades, sobretudo na Rhineland,
onde o apoio ao rei era mais forte. Henrique IV e sobretudo o seu sucessor, Henrique V
(1106-1125), reconheceram diversas associações de cidades, como forma de combater os bis-
pos. Os magnatas germanos continuaram a servir-se da disputa do rei com a Igreja, de forma a
combatê-lo e a consolidarem o seu poder sobre as suas próprias igrejas. Em 1105, o filho de
Henrique IV juntou-se aos rebeldes, pois acreditava que se tinha de chegar a um acordo com a
Igreja, e porque sentia que a personalidade do seu pai era o verdadeiro obstáculo. Henrique IV
morreu no ano seguinte e Henrique V, uma vez no poder, veio a demonstrar o mesmo empe-
nho que tivera o seu pai em combater a Igreja.

Os papas não tiveram maior sucesso na tentativa de levar os governantes ocidentais a reco-
nhecerem as suas pretensões políticas. Na Sicília, governada desde 1100 pelos aliados nor-
mandos do papa, o poder do rei sobre a Igreja era enorme, a ponto de ser ele o representante
papal e nomear bispos e abades. Os conflitos na Inglaterra e na França eram menos graves do

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que na Germânia. Guilherme o Conquistador rejeitou a ideia de Gregório VII de que ele deti-
nha a Inglaterra como feudo do papado. O papa foi mais firme com Filipe I de França, talvez
porque ele fosse mais fraco ou talvez porque os seus arranjos matrimoniais ofendessem o San-
to Padre. Gregório ordenou a Filipe que proibisse a investidura laica com o anel e o báculo.
Filipe não teve possibilidade de impor esta medida (que decerto não lhe agradava), pois ape-
nas controlava um terço dos bispados de França. Em consequência, Gregório excomungou-o.

As relações inglesas com o papado tornaram-se tensas a partir de 1093, quando o rei Guilher-
me II nomeou Anselmo, abade de Bec na Normandia, como arcebispo de Cantuária. Anselmo
recusou-se a aceitar a investidura do rei, tentando, apesar da falta de entusiasmo dos outros
bispos, libertar a Igreja do controlo secular. Como resultado, foi banido. O rei Henrique I vol-
tou a chamá-lo, mas entraram em conflito quando Anselmo se recusou a consagrar bispos e
abades nomeados pelo rei. Em 1107 chegou-se a um compromisso no qual o rei desistia da in-
vestidura com anel e báculo, mas mantinha o direito de receber as homenagens da Igreja pelas
suas terras. Este acontecimento teve pouco impacto, a ponto de o direito dos laicos em nomea-
rem candidatos para cargos vagos na Igreja ser reconhecido na legislação emitida pelo rei
Henrique II. Henrique I foi, de um modo geral, capaz de manter os papas à distância, mas, após a
sua morte, os representantes papais já tratavam usualmente das nomeações para os altos cargos
da Igreja, e os apelos judiciais a Roma tinham aumentado.

Em 1122 chegou-se a um acordo para a Germânia e a Itália. Este tratado, a Concordata de


Worms, existe tanto numa versão papal (Calisto II) como numa imperial e, mais tarde, os pa-
pas afirmaram que se referia unicamente a Henrique V e não aos seus sucessores. Henrique
prescindiu do direito de investir os bispos com anel e báculo, reconhecendo, assim, ser um laico.
Em contrapartida, na Germânia, onde governava como rei, a eleição de bispos e abades seria feita
na sua presença, tendo ele o poder de resolver disputas e de recusar a investidura do poder tem-
poral, se a eleição lhe desagradasse. Isto conferia-lhe, em termos práticos, o direito de vetar as
eleições episcopais, uma vez que um bispo eleito canonicamente não podia, de facto, exercer a
sua função sem as terras da sua diocese. Na Burgúndía e na Itália, onde Henrique governava
como imperador, o bispo, uma vez consagrado, deveria ser investido com os bens temporais
da sua diocese no prazo de seis meses.

A MONARQUIA PAPAL E A COMUNIDADE CRISTÃ

O objectivo do movimento da reforma eclesiástica, tal como fora adoptado pelos papas, era a
supremacia do clero sobre o braço secular, embora o que se atingiu, de facto, foi o início da

Capítulo 7 43/160
separação da Igreja e do Estado.

A Dictactus Papae de Gregório VII, que estava inserida no registo papal de 1075 talvez como
uma lista de tópicos para um conjunto de cânones a serem desenvolvidos posteriormente,
apresentava declarações surpreendentes em relação à supremacia papal sobre os príncipes lai-
cos: o papa podia utilizar a insígnia imperial, o que significava que os imperadores detinham
os seus poderes a partir dele e não de Deus; podia depor imperadores; excomungar livremente
e libertar súbditos da sua fidelidade a «homens pérfidos». Mas, das vinte e sete proposições do
Dictactus, apenas cinco dizem respeito às relações do papa com os poderes seculares. As outras
reportam-se ao governo da Igreja e à posição do papa no topo da hierarquia. Gregório VII re-
clamava o direito de depor, transferir e reinvestir bispos, não só pessoalmente mas também
através de um delegado, e de combinar e dividir os bispados, consoante a sua vontade. Gregó-
rio reclamava o direito de determinar a doutrina, detendo-se a apenas alguns passos de decla-
rar a infalibilidade, que entraria na lei canónica apenas no século XIV. Previu um crescimento
do poder dos tribunais das igrejas, que, nesta altura, funcionavam por toda a Europa separados
dos tribunais laicos. Encorajou os apelos, ordenando que os casos mais importantes dos tribu-
nais das igrejas locais fossem remetidos para Roma.

A preocupação do papa estava cada vez mais dirigida para a administração política, legal e reli-
giosa. A maioria dos bispos ainda eram escolhidos localmente, mas o papa reclamava o direi-
to de confirmar as eleições, cobrando uma substancial taxa de confirmação. O papa Urbano II
reformou os cargos centrais do papado numa curia dominada pelos cardeais.

Os papas do século XII eram jurisconsultos canónicos, apostados em clarificar aquilo que tinha
sido até então a ambígua área de interacção do braço secular com o eclesiástico. Os membros
das ordens religiosas, nomeadamente bispos, cónegos, monges e abades eram julgados pelos
tribunais da Igreja. Esta prática, chamada «benefício do clero», também se alargava a pessoas
de «ordens menores» através dos subdiáconos. Uma vez que antes do século XIII a maioria
das escolas estavam associadas à Igreja, os estudantes inseriam-se nas ordens menores, pelo
que os seus crimes passaram a estar sob a jurisdição dos tribunais das igrejas, o que tinha in-
convenientes, já que os tribunais da Igreja, muitas vezes, recusavam-se a entregar estudantes
ao braço secular. Os tribunais eclesiásticos diferiam dos tribunais senhoriais, na medida em
que lidavam não só com pessoas mas também com tipos específicos de acções legais. Os tri-
bunais das igrejas ouviam casos relacionados com a crença, o estado da alma e os sacramen-
tos. Assim, lidavam com tudo o que estivesse relacionado com o estatuto legal do casamento, uma
vez que era um sacramento, com as acções contra a cobrança de juros em empréstimos, com o
perjúrio, porque os juramentos eram um compromisso com Deus, embora a fraude que não en-

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volvesse um juramento fosse uma ofensa secular.

Enquanto a teologia se ocupa da doutrina religiosa e da natureza de Deus, o objecto da lei ca-
nónica é a vida do cristão no mundo terreno. As fontes da lei canónica incluíam as resoluções
dos concílios da Igreja e os decretos papais. O primeiro conjunto de leis canónicas foi o De-
cretum, que foi compilada pelo monge italiano Graciano por volta de 1140. Na Idade Média Cen-
tral a lei da Igreja estava a transformar-se em lei papal. Em meados do século XIII estabele-
ceu-se o Rota Romana como o supremo tribunal papal. No entanto, a maioria dos casos continua-
vam a ser ouvidos localmente. Por volta dos finais do século XIII os bispos lidavam com tantos
litígios que começaram a delegar os seu juízo em «oficiais», cujos julgamentos só tinham ape-
lo apenas para o arcebispo. Mas os tribunais da Igreja não possuíam jurisdição coerciva e, con-
sequentemente, dependiam muitas vezes da vontade dos governantes laicos em fazer cumprir
os seus veredictos. A revogação do estatuto clerical era a pena mais frequentemente aplicada,
o que significava que, numa segunda vez, seria julgado como laico num tribunal secular.

A ITÁLIA E A GERMÂNIA NO SÉCULO XII: SUCESSO E FRACASSO DO ESTA-


DO TERRITORIAL-INSTITUCIONAL

A Sicí1ia normanda teve um dos mais sofisticados sistema de governo da Europa do século
XII, com Rogério I, o Grande Conde, ao passo que na Itália reinava a desordem após as mor-
tes dos filhos de Robert Guiscard. Em 1128 Rogério II uniu a Sicília à Calábria e à Apúlia.
Aquando do cisma do papado, em 1130, foi reconhecido como rei pelos dois candidatos à su-
cessão, em troca de homenagem e fidelidade. Rogério II falava grego e, provavelmente, árabe
e criou uma administração tendo o árabe, o latim e o grego como línguas oficiais. O rei intro-
duziu gradualmente os ritos latinos da Igreja, embora desconfiasse da reforma gregoriana. De-
tinha o título de «Delegado Apostólico» e nomeava bispos, a maior parte dos quais recrutados
em França. Rogério apoiava os artistas e escritores, e a sua corte era conhecida como um cen-
tro de tradução das obras de Platão, Euclides e Ptolomeu. Os barões sicilianos prestavam ser-
viço militar sobre os feudos, mas Rogério II também possuía um exército mercenário profissi-
onal e uma forte marinha. Os normandos mantiveram as estruturas administrativas dos muçul-
manos, nomeadamente o gabinete financeiro central que fazia auditorias às contas dos funcio-
nários locais. A abundância de ouro muçulmano possibilitou o aumento da cunhagem de moe-
da, tornando Rogério o governante mais rico da Europa.

Enquanto se desenvolvia uma forte monarquia na Sicília, a Querela das Investiduras estava a
ter consequências graves para os reis germanos: os magnatas constituíam exércitos privados e

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tornavam as suas posições hereditárias; os reis deixaram de ser escolhidos como “advogados”
e perderam para os bispos e abades o controlo sobre as grandes igrejas e, para os condes, du-
ques e mesmo cavaleiros, o controlo sobre as igrejas mais pequenas. Enquanto os reis france-
ses e ingleses e muitos príncipes locais desenvolveram instituições governativas sólidas, os
monarcas germanos foram incapazes de o fazer. Os barões compreenderam que os seus inte-
resses eram melhor servidos por uma monarquia enfraquecida e, quando Henrique V morreu
sem deixar filhos, escolheram o idoso duque da Saxónia, Lothair de Suplinburgo, preterindo o
duque Frederico II da Suávia, que havia herdado as terras de família de Henrique V. Em 1133
Lothair aceitou algumas terras italianas em feudo do papa, rendendo-lhe homenagem e pedin-
do a confirmação do título. A filha de Lothair casou-se com Henrique o Orgulhoso, duque da
Baviera, que passaria a ser o sucessor lógico de Lothair. Contudo, em vez dele, os barões es-
colheram o fraco Conrado III, o filho mais novo do duque da Suávia, que possuía apenas uma
pequena propriedade no sudoeste. Conrado III nunca recebeu o título imperial. Foi sucedido
pelo seu sobrinho, o duque da Suávia, Frederico I, conhecido como Frederico Barba-Roxa.

O REINADO DE FREDERICO BARBA-ROXA: A REORGANIZAÇÃO E FEUDALI-


ZAÇÃO DA GERMANIA

Frederico Barba-Roxa foi o rei mais forte desde Henrique III. Manteve a sua posição pessoal
na Germânia, mas, em retrospectiva, parece ter dificultado o governo dos seus sucessores. A
sua dinastia, Hohenstaufen, enfrentava dois problemas imediatos. Os domínios de Frederico
na Germânia eram mais pequenos do que os do seu parente, Henrique o Leão, que se tinha
tornado duque da Baviera através do pai, Henrique o Orgulhoso, e duque da Saxónia através
da mãe, a filha do rei Lothair. Barba-Roxa tentou feudalizar as classes mais altas da socieda-
de, a fim de fortalecer a autoridade e compensar o que os reis tinham perdido para as igrejas.
No entanto, Barba-Roxa pensava em termos do sistema feudal carolíngio, mas, nessa altura,
em França e Inglaterra o feudalismo estava a tornar-se fiscal, uma vez que os príncipes utili-
zavam pagamentos em dinheiro. O feudalismo germânico, pelo contrário, desconhecia o auxí-
lio (dever de herança) e, por volta do século XI, os senhores estavam a perder rendas com a
tutela de herdeiros menores e sobre o direito de casar as herdeiras com homens apropriados.

Os reis haviam tentado governar a Itália segundo princípios feudais e, em 1157, Frederico
enunciou dois importantes princípios: a «reserva de fidelidade», pela qual todos os juramentos
de lealdade feitos pelos detentores de feudos, entre si, eram entendidos como «reservando» a
lealdade suprema para o rei; e que todas as concessões de terras da Coroa partissem, em últi-

46/160 Capítulo 7
ma instância, do rei. Mas Barba-Roxa nunca foi capaz de impor estas regulamentações.

Henrique o Leão casou-se com a filha de Henrique II de Inglaterra. De modo a confinar o po-
der de Henrique no sul da Germânia, Barba-Roxa separou, a Marca de Leste (a Áustria) da
Baviera e deu-a a Henrique de Jasomirgott, da família Babenberg, o rival de Henrique o Leão
na Baviera. Os Babenbergs transformaram a Áustria num Estado poderoso. Em 1156 criou o
Condado Palatino do Reno e, em 1180, serviu-se da queda de Henrique o Leão para dividir a
Saxónia na Vestefália, que deu ao arcebispo de Colónia, e o resto à dinastia Ascaniana. Ao
criar novos principados, Barba-Roxa comprometeu a integridade dos ducados tribais. Com a
sua posição no sul comprometida, Henrique o Leão concentrou-se no fortalecimento da sua
posição na Saxónia, fundando novas cidades (incluindo Lubeck, que se tornaria o principal
porto do Báltico) e estendendo a colonização germana para leste. Henrique desencadeou tam-
bém uma «cruzada» contra os Vendes. Henrique estava interessado na promoção do comér-
cio, sobretudo com a Escandinávia e com a Rússia, a cujos mercadores ofereceu concessões
de comércio em Lubeck.

OS GERMANOS EM ITÁLIA

Os imperadores tinham exercido pouco controlo na Lombardia, pelo que as cidades desenvol-
veram-se sem a sua influência e, por volta de 1155, já tinham governos municipais próprios.
Frederico tentou recuperar os direitos imperais na Lombardia, cujas cidades tinham no papa
um grande aliado contra Barba-Roxa.

Em 1143 foi instalado em Roma por mercadores hostis ao papa um «Senado», que acabou por
se radicalizar sob influência de Arnaldo de Brescia. O papa foi forçado a fugir para França e
excomungou Arnaldo e os seus seguidores. Em 1155 Barba-Roxa restaurou o papa Adriano
IV e executou Arnaldo de Brescia. Na coroação de Frederico como imperador, em 1155, o
papa insistiu que o imperador segurasse o seu estribo e aquele só concordou depois de decla-
rar que os seus direitos como imperador não seriam prejudicados por essa acção. Mas após
uma reunião da assembleia imperial em Besançon, o papa enviou uma carta a Frederico em
que afirmava que a Igreja romana tinha depositado a coroa imperial sobre ele. Utilizou a pala-
vra latina benefícium, que nesta altura, na Europa ocidental, significava apenas «bondade»,
mas que na Germânia queria dizer «feudo». Os nobres ficaram ofendidos e atacaram o delega-
do papal e só a intervenção de Frederico foi capaz de salvar a sua vida.

Em 1159 Frederico recusou-se a aceitar Alexandre III como papa, nomeando um antipapa; as

Capítulo 7 47/160
cidades da Lombardia, que tinham uma aliança defensiva contra o imperador, aliaram-se ao
papa. A luta começou, o imperador destruiu Milão e forçou os habitantes a suplicarem o seu
perdão, mas foi incapaz de subjugar toda a aliança lombarda. Tomou Roma e exilou o papa,
mas a malária dizimou o seu Exército, forçando-o a voltar para a Germânia. Fez ainda um
derradeiro esforço contra as cidades lombardas, para o que requisitou ajuda militar do seu vas-
salo Henrique o Leão, mas o seu pedido foi recusado com base no facto de que este não devia
serviço fora da Germânia. Em 1183 Frederico teve de aceitar a Paz de Constância, que garan-
tia às cidades lombardas direitos régios dentro das suas muralhas.

Frederico fracassou no seu esforço para criar um domínio real com base na Lombardia e na
Suábia. O seu problema imediato era agora a sua posição na Germânia, depois de ter passado
um quarto de século em Itália. Em 1180, Barba-Roxa levou Henrique o Leão a julgamento
com base na sua recusa de serviço em 1178, tendo prometido aos barões concessões, a fim de
garantir um veredicto favorável. Mas Henrique recusou-se a comparecer, sendo então julgado
em contumácia. Henrique foi exilado por três anos e os feudos distribuídos pelos príncipes;
todavia, uma vez que a maior parte das suas terras eram alódios, não foi muito afectado, con-
tinuando a ser o príncipe mais rico da Germânia.

Alguns aspectos do acordo de 1180, nomeadamente os respeitantes à relação dos vavassalos


com o imperador e os senhores mais próximos dele, tinham sido antecipados pela Constitui-
ção da Lei dos Feudos, emitida em Roncaglia em 1158. Mas o Estado dos Príncipes Imperi-
ais, grandes barões que eram locatários feudais em nome do rei foi estabelecida em 1180. Este
era composto pelo imperador, pelos príncipes eclesiásticos, num segundo nível, e pelos prín-
cipes laicos (duques), num terceiro; os príncipes laicos podiam tomar feudos dos homens da
Igreja, mas não o contrário. Os condes eram «fidalgos livres», num quarto nível, e recebiam
feudos dos duques e não do rei. Os cavaleiros, que tinham começado por ser ministeriales não
livres, estavam abaixo dos condes, mas exerciam em muitos casos os mesmos poderes que
eles, escapando, completamente, ao controlo do rei.

O rei germano perdeu qualquer domínio que ainda pudesse ter sobre os vavassalos, na altura
em que os reis ingleses e franceses estavam a instituir esses poderes O rei apenas podia lidar
com eles através dos duques. Além disso, talvez a partir de 1152, e seguramente depois de
1180, o rei germano não era já capaz de reabsorver feudos quando estes eram confiscados na
ausência de um herdeiro: tinha de os conceder a outros no prazo de um ano e um dia. Embora
os desse frequentemente aos seus próprios parentes, continuava a ficar privado de uma impor-
tante ferramenta centralizadora, muito utilizada pelos reis franceses e ingleses. As concessões
que Frederico Barba-Roxa fez aos barões em 1180 significavam que as instituições governati-

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vas na Germânia se desenvolviam ao nível dos principados territoriais e não da monarquia.

Em 1184 Barba-Roxa arranjou o casamento de Henrique, seu filho e herdeiro, com Constân-
cia, tia do rei Guilherme II da Sicília. Uma vez que era improvável que Constância sucedesse
ao seu sobrinho, o papa concordou com o casamento, embora unisse o seu opositor tradicional
com um aliado seu. No entanto, em 1189 ela tornou-se rainha da Sicília e Henrique VI, que su-
cedeu no ano seguinte a Barba-Roxa, governou a Germânia como herança e a Sicília e o sul da
Itália em nome de sua mulher. A ascensão de Henrique VI ao trono significava uma grande
mudança política. A maior parte dos anteriores governantes germanos tinha-se servido dos in-
teresses na Itália para combater as ameaças que surgiam na Germânia, mas a Sicília parecia
constituir a principal preocupação de Henrique. Constância era bastante mais velha do que
Henrique e o casal parecia desprezar-se mutuamente. Mas, para grande consternação do papa e
espanto de toda a gente, tiveram um filho: o futuro Frederico II.

A ÉPOCA DE FREDERICO II

Frederico II herdou da sua mãe a Sicília, que era um feudo em nome do papa. Na Germânia o
poder real era electivo e não hereditário. A maior parte dos príncipes apoiou Filipe da Suábia,
irmão de Henrique VI, uma vez que os Welf, rivais dos Hohenstaufen, não inspiravam muita
confiança devido aos laços com os ingleses e à vontade em se subordinarem aos papas. No
entanto, uma facção minoritária escolheu Otão de Brunswick, filho de Henrique o Leão. Esta
eleição foi o começo dos conflitos Guelf-Ghibelline, que iriam devastar a Itália. O nome «Guelf»
é uma italianização de «Welf», enquanto «Ghibelline» vem de Wainblingen, um dos castelos
preferidos dos Hohenstaufen. As facções Guelf italianas tornaram-se os principais suportes do
papa contra o imperador, fosse ele quem fosse.

Ambos os lados apelaram ao papa Inocêncio III, que protelou o veredicto, de modo a tornar
impossível a situação de qualquer um dos candidatos, e depois, como se poderia prever, deci-
diu a favor de Otão de Brunswick. A disputa continuou e Filipe da Suábia estava prestes a al-
cançar a vitória quando, em 1208, foi assassinado. Os seus partidários aceitaram Otão que, de
seguida, se virou contra Inocêncio III, invadindo a Itália. Inocêncio não teve outra alternativa
senão reconhecer as pretensões de Frederico II na Germânia. Negociou o casamento de Frede-
rico com Constância, filha do rei de Aragão. Frederico dirigiu-se para a sua coroação em
Mainz e depois voltou para o sul, expulsando Otão de Itália.

Em troca do apoio do papa, Frederico concordou em partir em cruzada e jurou não unir as coro-

Capítulo 7 49/160
as da Germânia e da Sicília, abdicando do trono siciliano quando se tornasse imperador. Con-
tudo, quando em 1220 foi coroado pelo papa Honório III não cumpriu a promessa. Na Germâ-
nia legitimou os poderes dos barões germanos e reconheceu os privilégios dos bispos, incluin-
do a suserania sobre as suas cidades. Em 1231, o Estatuto a Favor dos Príncipes permitiu que
todos os senhores germanos, e não somente os príncipes imperiais, exercessem direitos régios.
Chegou mesmo a aceitar que a cunhagem imperial não tivesse prioridade sobre o dinheiro do
príncipe local. Restituiu as terras que as cidades tinham apreendido aos príncipes, às igrejas e
aos ministeriales. Assim, Frederico concedeu independência aos príncipes sobre os seus terri-
tórios, em troca de estes reconhecerem a sua soberania, permitindo-lhe virar-se para Itália. No
entanto, a maioria dos príncipes germanos, que sob os termos do acordo de 1180 de Frederico
I não tinham qualquer controlo sobre os seus vavassalos, não tinham mais capacidade de con-
trolar os seus principados do que o imperador tinha de manter a unidade do Império. O filho
de Frederico, Henrique, que ele colocara como rei na Germânia, estava em desacordo com a
política do pai e aliou-se às cidades germanas e à Coligação Lombarda. Henrique suicidou-se
quando Frederico o colocou sob prisão. Frederico deu o poder a outro filho, Conrado, que lhe
sucederia como imperador e não voltou à Germânia depois de 1235.

Na Sicília Frederico tentou manter a posição de um governante absoluto. Nos seus Regula-
mentos de Cápua ordenou que a concessão de todos os privilégios, desde 1189, fosse submeti-
do à sua consideração. Anulou as liberdades das cidades, designando funcionários para as
controlarem. Embora tenha desfrutado de uma reputação póstuma de tolerância religiosa,
impôs uma normalização cristã rigorosa, proibindo a usara, a heresia, o sacrilégio, a blasfé-
mia, a prostituição e ordenou que todos os homens judeus adultos usassem barba. Emitiu leis
severas contra os súbditos muçulmanos, que eram mais numerosos do que os judeus. As Cons-
tituições de Melfi (mais tarde chamadas Liber Augustalis) foram o culminar das reformas de
Frederico na Sicília. Aboliram praticamente todos os direitos locais de governo, colocando
toda a autoridade nas mãos dos oficiais imperiais e o poder legislativo na exclusiva dependên-
cia do rei. Controlava as importações e exportações através da requisição de produtos para os
armazéns do Estado. Emitiu moeda de ouro, augustalis, e obrigou os estrangeiros a pagarem
os produtos sicilianos em ouro, embora o comércio na Sicília fosse feito com prata.

O governo da Sicília tinha desviado Frederico da sua promessa ao papa de partir em cruzada.
Em 1225 casou-se com Isabella, rainha titular de Jerusalém e, em 1227, embarcou para a Pa-
lestina, mas regressou de seguida por motivo de doença. O papa Gregório IX pensou que se
tratasse de um truque e excomungou o imperador. Quando Frederico voltou a partir, Gregório
voltou a excomungá-lo por ir em cruzada sem ter sido absolvido da primeira excomunhão.

50/160 Capítulo 7
Preferindo negociar, Frederico estabeleceu uma paz de dez anos com os muçulmanos, ganhan-
do o controle Jerusalém e alguns locais costeiros a norte dela; os muçulmanos mantiveram os
seus santuários na Palestina, o que enfureceu o papa e o patriarca cristão. Quando o patriarca
se recusou a coroar Frederico rei de Jerusalém, este coroou-se a si próprio, mas apenas em
nome de Conrado IV, o filho ainda criança que teve da já falecida Isabella. Durante a ausência
do imperador de Itália, Gregório IX engendrou uma invasão da Sicília por João de Brienne,
pai da rainha Isabella, que se considerava o rei legítimo de Jerusalém. Frederico voltou e derro-
tou o exército invasor, forçando o papa a reconhecer o seu Governo na Sicília.

Entretanto, Frederico tentou reavivar os direitos imperiais na Lombardia, que há muito esta-
vam adormecidos. Aí combateu a heresia cátara, que tinha muitos adeptos no norte da Itália.

Os problemas da Germânia ocuparam a atenção de Frederico no início de 1230. Quando voltou


do norte, em 1235, a Coligação Lombarda abriu hostilidades: a batalha de Cortenuovo pareceu
virar a maré a favor do imperador, mas as cidades continuaram a lutar quando Frederico insis-
tiu em pôr cobro à sua autodeterminação. Gregório IX aliou-se abertamente às cidades, vol-
tando a excomungar Frederico sob a acusação de abusar da Igreja e de enviar delegados e fra-
des mendicantes às cortes do norte da Europa para obterem tropas e dinheiro.

Após a morte de Gregório IX foi eleito Inocêncio IV. Depois de simular negociações de paz,
o papa e os cardeais deixaram Itália e foram para França. Num conselho em Lião Inocêncio
depôs Frederico, libertou todas as pessoas dos juramentos de lealdade e convocou uma cruza-
da contra ele, que não deu quaisquer frutos, pois Luís IX de França já estava comprometido
com uma cruzada no Leste. Como seria de prever, o apelo do papa foi bem sucedido na Lom-
bardia, mas Frederico sobreviveu. Quando morreu em 1250 ainda combatia Inocêncio IV.

Frederico II tinha uma personalidade interessante, bem como várias actividades intelectuais.
Versado em alquimia e astrologia, correspondia-se com intelectuais eminentes, mas a sua re-
putação póstuma como patrono das artes é exagerada. Os seus principais interesses iam para
as obras médicas e estudos legais, fundando uma Universidade em Nápoles, que não lhe so-
breviveu. Embora perseguisse menos os judeus do que a maioria dos seus contemporâneos,
nomeadamente Luís IX de França, nunca os tolerou, sendo impiedoso para como os heréticos
cristãos.

A DESINTEGRAÇÃO DO IMPÉRIO HOHENSTAUFEN

Frederico II teve apenas um filho legítimo, Conrado IV, mas a melhor hipótese para os

Capítulo 7 51/160
Hohenstaufen residia no seu filho bastardo, Manfredo, cuja filha Constância estava casada
com Pedro, o governante dos reinos de Aragão e Catalunha. Inocêncio IV ainda prometeu o
trono siciliano a Edmundo, filho do rei Henrique III de Inglaterra, em troca o juramento deste
em pagar as dívidas do papa, mas este esquema desmoronou-se com as objecções dos barões
ingleses. À medida que o poder de Manfredo crescia, o papa Clemente IV prometeu o trono si-
ciliano a Carlos de Anjou, o irmão mais novo de Luís IX de França. Manfredo derrotou Car-
los em Benevento, mas aquele foi morto nessa batalha. Daí em diante, Carlos enfrentou ape-
nas uma oposição simbólica. Conradino, o jovem filho de Conrado IV, invadiu a Itália, mas
foi derrotado e executado. Carlos de Anjou era visto com antipatia em Itália pois comportava-
se de forma arrogante e governava através de oficiais franceses. Esperava utilizar a Sicília
como base para a tomada de Constantinopla, mas foi impedido pelas «Vésperas Sicilianas»,
um tumulto que começou por um motim antifrancês em Palermo e que se espalhou pelos do-
mínios de Carlos. O trono foi então oferecido ao rei Pedro de Aragão, genro de Manfredo, o
que levou o sobrinho de Carlos, o rei Filipe III de França, a passar grande parte do seu reinado
em guerra contra Aragão. Carlos e os seus descendentes conseguiram manter Nápoles e os ou-
tros domínios na Itália continental, mas os Aragões tomaram a Sicília. O antigo reino norman-
do permaneceu dividido até 1435, quando Alfonso o Magnânimo da Sicília se tornou rei em
Nápoles, passando o reino a ser conhecido como as «Duas Sicílias».

Na Germânia os papas apoiaram vários reis-fantoche, mesmo antes da morte de Frederico II e,


depois de 1254, as condições tornaram-se caóticas. Depois de um interregno de dezanove
anos, o papa Gregório X, que nesta altura receava mais Carlos de Anjou do que os germanos,
levou os príncipes germanos a eleger em Rudolfo de Habsburgo como novo rei. Rudolfo foi es-
colhido, principalmente, porque era fraco, uma vez que detinha apenas algumas propriedades
na Suíça, mas acabou por provar não ser nenhum incapaz. Apercebendo-se de que não tinha
qualquer hipótese de reconquistar a Itália, Rudolfo utilizou os restantes recursos do Império
nos interesses da sua própria família. Numa guerra com o rei da Boémia conquistou a Áustria,
que se tornou a base da fortuna da família Habsburgo. Os barões germanos reagiram contra o
seu abrupto aumento de poder, escolhendo Adolfo de Nassau como imperador, mas este foi
deposto em favor do filho de Rudolfo de Habsburgo, Alberto. A Coroa esteve nas mãos dos
Habsburgos durante várias gerações e o poder na Germânia, fora do extremo sul, passou a ser
exercido por coligações urbanas e príncipes regionais.

OS GERMANOS NO LESTE ESLAVO

52/160 Capítulo 7
Os ocidentais continuaram a expandir-se para leste durante toda a Idade Média central. Os
Vendes tinham-se valido dos problemas dos sucessores de Otão o Grande, para travar a ex-
pansão germana, mas os interesses territoriais dos príncipes germanos do norte coincidiam
com a cruzada de Henrique o Leão contra eles. Embora a cruzada tenha sido mal sucedida, os
Vendes foram gradualmente subjugados e grande parte do que constitui actualmente a Alema-
nha, com a excepção da Prússia de Leste, foi conquistado antes de 1200.

Os Cavaleiros Teutónicos foram criados em 1190 como uma ordem de cruzados na Palestina,
mas no início do século XIII mudaram-se para o leste da Europa. Em 1226 os Cavaleiros res-
ponderam a um pedido polaco para uma cruzada contra os pagãos prussianos. Estabeleceram
um Estado separado sob soberania papal, embora os duques polacos continuassem a reclamar
a ordem como seu vassalo colectivo. Em 1308 os Cavaleiros Teutónicos tomaram aos polacos a
Pomerélia, que englobava o porto de Gdansk. Em 1410, contudo, enfrentaram uma derrota es-
magadora em Tannenberg, às mãos de uma força conjunta de polacos e lituanos. Daí em dian-
te o poder dos Cavaleiros Teutónicos declinou rapidamente. A Pomerélia foi devolvida à Po-
lónia e os Cavaleiros tiveram de mover a sua capital para Konigsberg, na Prússia de Leste.
Em 1525, Alberto de Bradenburg, da família Hohenzollern e último grão-mestre, tornou-se
luterano e foi investido como duque da Prússia pelo rei Sigismundo I da Polónia.

A Livónia, que compreendia a actual Estónia e parte da Letónia, foi conquistada no século
XIII pelos Irmãos da Espada, uma ordem filiada nos Cavaleiros Teutónicos. Em 1346 os Ca-
valeiros compraram os interesses dinamarqueses na Estónia e as principais cidades, nomeada-
mente Riga e Tallinn tornaram-se importantes centros da Hansa. Os grão-duques da Lituânia
não só resistiram aos livonianos, como ainda expandiram os seus territórios à custa dos princi-
pados russos. A Lituânia foi cristianizada quando o grão-duque Jagiello se casou com Jadwi-
ga, filha do Rei Luís I da Polónia e da Hungria. Tomou o nome de Ladislas II e converteu-se à re-
ligião da sua mulher. As Coroas polaca e lituana voltaram a separar-se no século XV.

A Dinamarca era o mais forte poder do Báltico ocidental. O rei Valdemar IV expandiu a mari-
nha dinamarquesa, mas foi derrotado pela Hansa. A Noruega e a Suécia eram politicamente
menos coesas do que a Dinamarca e, em 1397, pela União de Kalmar, a filha de Valdemar IV,
Margarida, uniu as três Coroas. A Suécia reafirmou a independência no século XV, mas a No-
ruega permaneceu até 1814 sob a Coroa dinamarquesa.

A RÚSSIA

Depois de Jaroslav o Sábio, de Kiev, ter morrido os seus filhos dividiram o Estado em princi-

Capítulo 7 53/160
pados que governaram individualmente. Kiev, em si mesmo, estava reservado para o mais ve-
lho. Os mongóis conquistaram toda a Rússia em 1237. Os príncipes russos não se uniram con-
tra os invasores, pois consideraram os Cavaleiros Teutónicos e os suecos uma ameaça maior.
O príncipe Alexandre Nevsky venceu os suecos no rio Neva, enquanto os mongóis cercavam
Chernigov mais a sul. Por volta de 1241 existiam exércitos mongóis na Hungria e na Polónia.
Mais tarde os mongóis retiraram-se da Hungria, mas continuaram a controlar a Bulgária. Ale-
xandre Nevsky considerou que era impossível resistir contra os germanos e mongóis ao mes-
mo tempo, pelo que se tornou um súbdito mongol.

Apesar da instabilidade política, o norte da Rússia atravessou um período de considerável


crescimento económico durante os séculos de domínio mongol, já que Moscovo se desenvol-
veu à custa dos refugiados do Leste: a população aumentou e a agricultura, a metalurgia e, so-
bretudo, os têxteis e as peles desenvolveu-se segundo padrões semelhantes aos do Ocidente.

54/160 Capítulo 7
8 - Governo e Política: a Inglaterra e a França na Idade Média
Central
(Pág. 240 do livro)

A Inglaterra

A ALTA INGLATERRA ANGLO-SAXÓNICA

A conquista da Inglaterra em 1066 pelo duque Guilherme da Normandia foi uma mera casua-
lidade que minou seriamente o seu desenvolvimento politico e económico de Inglaterra. A
unificação política da Inglaterra foi atingida sob a dinastia de Wessex, no período que se se-
guiu aos ataques dos viquingues. Os trinta e nove distritos de Inglaterra tinham sido estabele-
cidos por volta do século X. A assembleia do distrito, que se reunia duas vezes por ano par a
lidar com casos importantes, era presidido por oficiais nomeados pelo rei: o dignitário, no século
X, e o corregedor do distrito, ou xerife, no século XI. A população do cento, uma subdivisão
do distrito, reunia-se mensalmente, tratando dos litígios mais correntes. Os reis do século X
estabeleceram um monopólio sobre a cunhagem da moeda, controlando os portos onde se re-
gistavam as grandes transacções comerciais.

Em 1016, Cnut da Dinamarca, expulsou os herdeiros do rei Ethelred II para a Normandia, co-
roando-se a si próprio rei. Cnut tinha uma personalidade forte, mas as suas frequentes ausênci-
as de Inglaterra deixavam o poder nas mãos de quatro condes. Em 1042 os dois filhos de Cnut
morreram sem deixar herdeiros e Godwin, conde de Wessex, engendrou o regresso a Inglater-
ra de Eduardo, o filho mais novo de Ethelred II, já de meia-idade e que passara a sua vida
adulta no exílio na Normandia. Por volta de 1045, Eduardo, que mais tarde seria chamado o
Confessor, foi pressionado a casar-se com a filha de Godwin.

Era claro que Eduardo o Confessor iria morrer sem herdeiros. Segundo o costume anglo-sa-
xão, com o qual o rei não estava familiarizado, o conselho real (Witan) tinha, nestas circuns-
tâncias, o direito de escolher o novo rei. Mas Eduardo, entretanto, tinha prometido a sucessão
ao seu parente, o duque Guilherme da Normandia. Em 1063, Harold, o filho sobrevivente de
Godwin e seu herdeiro como conde de Wessex, naufragou ao largo da costa da Normandia, ten-
do sido feito prisioneiro pelo duque Guilherme, que só o libertou depois de jurar apoiar as
pretensões deste ao trono inglês. Mais tarde Harold renunciou ao juramento, alegando tê-lo fei-
to sob coacção, mas Guilherme fez bom uso da divulgação da quebra dessa promessa e iria in-

Capítulo 8 55/160
vadir a Inglaterra desfraldando a bandeira do papa.

Eduardo o Confessor morreu em 1066 e o Witan escolheu Harold como novo rei. Este teve de
enfrentar não só a invasão da Normandia, mas também a da Noruega, uma vez que um dos fi-
lhos de Cnut havia prometido o trono ao pai do rei norueguês. Este invadiu o norte da Ingla-
terra, onde contava com o apoio dos dinamarqueses, mas foi derrotado em Stamford Bridge.
Guilherme da Normandia atravessou o canal e desembarcou sem encontrar resistência. Harold
encorajado pela sua vitória sobre os noruegueses, decidiu deixar que Guilherme forçasse a ba-
talha. Esta aconteceu em Hastings, as tropas de Harold foram derrotadas e este perdeu a vida
na batalha. Guilherme foi coroado rei no dia de Natal de 1066 pelo arcebispo de Iorque.

A NORMANDIA E OS SEUS DUQUES

As estruturas governativas dos territórios conquistados pelos normandos funcionavam bastan-


te melhor do que as da Normandia. Os ataques escandinavos tinham causado uma tremenda
devastação antes de o norueguês Rolf ter aceitado o baptismo, em 911, e ter obtido terras em
torno de Rouen. Por volta do século XI, os duques consideravam-se, de facto, franceses e pas-
savam a maior parte do tempo em lutas contra os seus conterrâneos, os reis da Frância ociden-
tal e os príncipes vizinhos, nomeadamente os condes da Flandres. As guerras que se seguiram
à morte do seu pai deram ao duque Guilherme a oportunidade de redistribuir terras pelos seus
leais seguidores. O poder de uma «nova» aristocracia foi acompanhado por uma reforma da
Igreja normanda, cujas principais posições eram ocupadas por membros seus.

A COLONIZAÇÃO NORMANDA DA INGLATERRA

Embora não existisse uma força de oposição, já que Harold e os condes ingleses tinham pere-
cido em Hastings, Guilherme tinha inúmeros inimigos. Uma revolta no Yorkshire e outra no
Maine, a sul da Normandia, que Guilherme tinha conquistado, foram apoiadas pelos reis Mal-
com da Escócia e Filipe I de França e ainda por uma frota escandinava. Quando o filho mais
velho de Guilherme, Robert, se insurgiu contra ele, os escoceses invadiram a Inglaterra e o rei
francês frustrou a sua campanha na Bretanha.

Em Inglaterra, Guilherme teve o mais sofisticado sistema governativo conhecido na Europa


fora da Sicília. Manteve a maioria dos funcionários de Eduardo o Confessor, fazendo apenas
algumas mudanças nos cargos de chefia. O rei construiu castelos e proibiu os barões de fazerem
o mesmo sem a sua autorização. Introduziu a multa murdrum: o cento onde fosse encontrado

56/160 Capítulo 8
um cadáver tinha de fazer uma «apresentação de inglesidade», provando que o corpo encon-
trado era o de um inglês, Não o conseguindo, a pessoa morta era tida como sendo normanda e
a população do cento tinha de pagar o preço de sangue.

Os normandos aumentaram os poderes do xerife, transformando-o num cobrador de impostos.


Guilherme introduziu as relações feudais na Inglaterra. Antes de 1066, a Inglaterra tinha co-
nhecido a laenland (terra de empréstimo) que era uma tenure, mas não implicava serviço mi-
litar. Todos os homens livres na Inglaterra anglo-saxónica tinham devido serviço público de
infantaria, mas as pessoas de estatuto de thegn, que detinham cinco parcelas de terra (cerca de
500 a 600 acres), deviam prestar serviço de cavalaria. Grande parte da terra era alodial e os
homens livres tinham, como era usual, senhores. Os reis normandos, não compreendendo este
estado de coisas, concederam aos normandos, em propriedade feudal, terras que tinham con-
fiscado aos anglo-saxões. Exigiam, muitas vezes, que os seus vassalos fornecessem cinco cava-
leiros ou contingentes em múltiplos de cinco. A «quota do Cavaleiro», a unidade de terra que
suportava um cavaleiro, aproximava-se da unidade inglesa das cinco parcelas, mas, na realida-
de, a maioria dos cavaleiros normandos detinha bastante menos de cinco parcelas.

A maior parte destas medidas foram executadas depois de 1069, quando os normandos combi-
naram os lotes dos thegn anglo-saxões em menos de 200 unidades jurisdicionais, chamadas
honrarias. Cada honraria era detida por um vassalo directo do rei e consistia, geralmente, em
territórios dispersos. No entanto, em muitos casos, o proprietário inglês da terra continuava a
ocupá-la, mas não a detinha directamente do rei; não ficava, assim, privado da sua terra, mas
descia um nível no estatuto social. Da mesma forma que todos os anglo-saxões tinham devido
lealdade ao rei, Guilherme I forçou os seus vassalos a jurarem, em 1086, que quaisquer acor-
dos de vassalagem que tivessem feito entre eles constituiriam uma excepção à fidelidade su-
prema que tinham para com o rei Esta provisão era contrária aos princípios da relação feudal,
tal como se tinha desenvolvido no continente, onde a lealdade primária era em relação ao se-
nhor imediato. Estes vassalos constituíam um tribunal real que reunia três vezes por ano.

A introdução dos laços feudais em Inglaterra alterou a estrutura de impostos. A base das con-
tribuições anglo-saxónicas tinha sido o tributo ou Danegeld. Os normandos continuaram a co-
brar o tributo, mas, em 1130, a maior parte dos rendimentos do rei vinha dos pagamentos feu-
dais, pois os normandos introduziram as contribuições, os incidentes e as taxas feudais.

O Doomsday Book, o mais célebre feito administrativo dos primeiros normandos, oferece a me-
lhor imagem da colonização normanda em Inglaterra. Em 1086 Guilherme I enviou delegados
para inquirirem em cada cento relativamente ao valor dos arrendamentos em três épocas dis-
tintas: na altura da morte de Eduardo o Confessor, quando o actual locatário ou o seu antepas-

Capítulo 8 57/160
sado directo recebeu a terra e no momento do inquérito em si mesmo. O resultado constitui o
mais impressionante registo de posses de terras a nível local e dos laços destas com a monar-
quia, que iria sobreviver desde o século XI ou mesmo bastante depois disso. O Doomsday
Book mostra que cerca de um quinto de Inglaterra se encontrava no domínio real, uma vez
que o rei tinha tomado as terras de Eduardo o Confessor e dos Godwins. A igreja controlava
aproximadamente um quarto da terra, mas, tal como acontecia com as baronias laicas, havia
uma grande discrepância entre os maiores bispados, as abadias e os restantes.

A INGLATERRA ANGLO-NORMANDA: A SEGUNDA GERAÇÃO

A Guilherme o Conquistador, sucedeu na Normandia o seu filho mais velho, Robert Curthose
(«calças curtas»). O segundo filho, Guilherme II, chamado Rufus (“cabelo vermelho”), tor-
nou-se rei de Inglaterra, enquanto Henrique, o mais novo, recebeu uma compensação em di-
nheiro. Guilherme II estabilizou a fronteira escocesa, mas teve sérias divergências com St.
Anselmo, arcebispo de Cantuária. Quando Guilherme II morreu, Henrique tomou a coroa in-
glesa e, mais tarde, a Normandia, reunindo os domínios do seu pai.

Embora a Normandia e a Inglaterra tivessem um só governante e algumas famílias baronesas


possuíssem propriedades nos dois lados, as duas áreas desenvolveram sistemas administrati-
vos distintos. O reinado de Henrique foi mais importante para o desenvolvimento de institui-
ções governamentais do que o de Guilherme o Conquistador, já que ele estabeleceu as bases das
mais conhecidas transformações do seu neto, o rei Henrique II. Um juiz (chefe de justiça) agia
como vice-rei quando o rei estava no continente. O Tesouro Público (oficial real de contas) é
mencionado pela primeira vez no reinado de Henrique I. Para a Normandia estabeleceu-se um
Tesouro Público distinto. O rei nomeou um juiz para cada distinto ou grupo de distritos para
lidar com os apelos à Coroa (tipo de casos que eram colocados perante o tribunal real e não
como apelo), retirando-as, assim, da competência do xerife local.

O único filho de Henrique I tinha morrido, pelo que o parente masculino mais próximo era
Guilherme “Clito”, filho do seu irmão Roberto e um aliado de Luís VI de França. A filha de
Henrique, Matilde, que tinha sido casada com o imperador germano Henrique, estava viúva e
sem filhos e o seu estado civil tornou-se alvo da preocupação, já que a ideia de uma mulher
como monarca era estranha ao espírito masculino da época. Em 1127, violando uma promessa
de não casar fora da Inglaterra sem o consentimento dos barões, Matilde desposou Geoffrey o
Plantageneta, conde de Anjou (o cognome provém do ramo de giesta que usava no chapéu).
Uma vez que os condes de Anjou tinham sido inimigos dos duques normandos, o casamento

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criava a ameaça de complicações vindouras, mas os barões acabaram por aquiescer. O casa-
mento de Matilde com Geoffrey produziu três filhos. Quando morreu, o filho mais velho de
Matilde, Henrique, herdou o Maine e Anjou (Geoffiey tinha conquistado o Maine, que se situ-
ava entre Anjou e a Normandia).

Um outro candidato ao trono pela morte de Henrique I, Stephen de Blois, era considerado um
usurpador, mas os barões ingleses preferiram-no. Em 1139, Matilde invadiu a Inglaterra, der-
rotou e capturou Stephen em Lincoln, mas acabou por perder a vantagem ao cobrar taxas aos
londrinos, os seus principais apoiantes. Stephen foi libertado e recuperou a fidelidade dos seus
aliados. A causa de Matilde teve mais sucesso na Normandia devido à perícia de Geoffrey.
Como o filho de Stephen morreu, ele concordou que fosse Henrique, filho de Matilde, a suce-
der-lhe. A dinastia angevina ou plantageneta de Henrique iria governar a Inglaterra até l399.

HENRIQUE II: O NASCIMENTO DA LEI COMUM INGLESA

O reinado do rei Henrique II é um dos mais cruciais na história de Inglaterra. Embora muitas
das suas reformas tenham sido antecipadas pelo seu avô, Henrique I, ele ficou conhecido
como o «pai da lei comum inglesa». Como conde do Maine e de Anjou e Duque da Norman-
dia, títulos que detinha em feudo da Coroa francesa, Henrique era uma figura importante,
mesmo antes de ascender ao trono inglês. Em 1152, planeou um golpe de mestre diplomático
ao casar-se com Eleanor, filha e herdeira do duque da Aquitânia, que governava o maior prin-
cipado do sudoeste da França. Eleanor, mais velha onze anos do que Henrique, deu-lhe oito
filhos. Eleanor fartou-se das infidelidades sexuais de Henrique e encorajou os seus filhos a re-
belarem-se contra ele. Henrique manteve Eleanor em reclusão honrada até ao fim do seu rei-
nado, mas ela tornou-se uma preciosa conselheira dos seus filhos, os reis Ricardo I e João. Por
seu direito próprio, e através de Eleanor, Henrique II foi um vassalo da Coroa francesa com
mais territórios em França do que os próprios reis franceses. Henrique deu principados indivi-
duais aos seus filhos quando eles se tomaram adultos.

Grande parte da opinião popular do reinado de Henrique II foi formada com base na sua di-
vergência com Thomas Becket. O arcebispo de Cantuária recomendou a sua nomeação como
chanceler ao novo rei Henrique e rapidamente se tornariam amigos, tendo Thomas, por várias
vezes, colocado os interesses reais à frente dos da Igreja. Henrique nomeou Becket, que nem
sequer era sacerdote, como arcebispo de Cantuária. Becket alterou imediatamente a sua posi-
ção, tomando-se um acérrimo defensor das liberdades da Igreja, nomeadamente dos seus tri-
bunais. Henrique, perturbado pela permissividade demonstrada para com os funcionários cri-

Capítulo 8 59/160
minosos pelos tribunais da Igreja a que respondiam, emitiu as Constituições de Clarendon,
que declaravam que os clérigos que fossem dados como culpados e expulsos nos tribunais das
igrejas recebessem, posteriormente, o veredicto do braço secular para lhes ser administrado o
castigo apropriado. Acusado de corrupção fiscal durante a sua chancelaria, Becket foi exilado,
encontrando uma inesperada e calorosa recepção do papa. Henrique, que precisava que o seu
filho mais velho fosse coroado rei pelo arcebispo de Cantuária, chamou Becket de volta. As-
sim que se encontrou em Inglaterra, Becket excomungou os clérigos que tinham participado
numa anterior coroação do príncipe Henrique pelo arcebispo de Iorque. O rei, num ataque de
fúria, perguntou se alguém o ajudaria a livrar-se de Becket e quatro cavaleiros tomaram isso
como uma ordem e mataram-no no altar da Catedral de Cantuária. O ultraje obrigou Henrique
a penitenciar-se publicamente e a retirar as Constituições de Clarendon.

Até 1164, o Governo de Henrique II não teve grande notoriedade. No entanto, entre esse ano
e 1170, emitiu várias medidas judiciais e administrativas importantes, que estabeleceram a
base da «lei comum», assim chamada porque era comum a todos os homens livres ingleses.
Durante o reinado de Stephen, os tribunais dos barões tinham muitas vezes tomado precedên-
cia sobre os direitos reais nos centos e o poder dos xerifes tinha-se tornado diminuto. Estes po-
deres eram exercidos «desde o início dos tempos» e, como tal, enquanto costume, tinham a
força de uma lei. Para contornar os tribunais dos barões, Henrique II permitiu que os litigantes
comprassem mandatos judiciais (documentos de apelo) que transferiam casos de um tribunal
de barões para um tribunal real.

Os mais famosos decretos de Henrique foram as regulamentações de Clarendon. Segundo a


regulamentação de Novel Disseisin (Despossessão Recente) um homem livre que reclamasse
ter sido privado da sua terra poderia ver o seu caso transferido para o tribunal real. Segundo a
regulamentação de Mórt d’Ancéstór (Morte de Antepassado) o litígio residia no facto de um
antepassado reclamante ter detido ou não a terra. Os barões estavam particularmente descon-
tentes com a Mort d’Ancestor, uma vez que se reapossavam de terras de camponeses livres
que devim pagamento de direitos por morte.

Já na época de Henrique I o tribunal real estava sobrecarregado com trabalho e ele enviava
juízes em digressão pelos distritos. Esta prática foi retomada por Henrique II nas Constitui-
ções de Clarendon, um dos mais importantes decretos da história legal inglesa. Jurados de
«apresentação», os antepassados do júri de acusação moderno, constituídos por doze homens
em cada cento e quatro em cada aldeia, deveriam «apresentar», sob juramento, os nomes das
pessoas que tinham sido ladrões, assaltantes, assassinos ou receptadores destes criminosos,
desde o início do reinado do rei, um período de doze anos. As pessoas que fossem indiciadas

60/160 Capítulo 8
eram julgadas perante um tribunal de juízes em digressão. A lista de «casos reais» que era le-
vada perante um tribunal real, cresceu de tal forma que, por volta de 1186, praticamente todos
os assuntos que agora chamamos acções criminosas eram ouvidos num tribunal real.

As formas de provar permaneceram pouco sofisticadas, sobretudo quando comparadas com os


tribunais das igrejas da época. Os julgamentos sob a Regulamentação de Clarendon eram con-
duzidos pelo julgamento de Deus (ordália). Henrique II desconfiava, contudo, da provação e
ordenou que aqueles que eram ilibados por ela fossem, de qualquer modo exilados, se muitos
homens de posição na comunidade os considerassem indesejados. Com a Grande Regulamen-
tação criou-se uma solução parcial, onde se permitia ao réu de uma acção civil declinar o jul-
gamento por luta e ver o seu caso decidido por um júri de cavaleiros. As pessoas de nascimen-
to humilde, os aldeões e os camponeses livres, podiam, assim, escapar a uma forma de julga-
mento onde a vantagem estava sempre do lado do nobre, que tinha treino de luta.

Henrique II também limitou as prerrogativas militares dos detentores de cargos e dos barões.
Embora não fossem permitidos exércitos privados, muitos barões obtinham o serviço de mais
cavaleiros por meio da feudalização do que era devido ao rei. O Inquérito sobre o Serviço dos
Cavaleiros de 1166 ordenou aos júris que informassem quantos cavaleiros tinham sido devi-
dos ao rei durante o reinado de Henrique I, quantos eram agora devidos e quantos tinham os
barões. Depois, o rei aplicou a taxa sobre os cavaleiros em excesso, permitindo que os barões
os mantivessem e utilizou o dinheiro para contratar soldados mercenários para o seu Exército.

Henrique também profissionalizou a casa real. O Tesouro Público tornou-se uma instituição
com funcionários permanentes, que fazia auditorias às contas e, para os casos que envolviam
finanças reais, agia como um tribunal. Um representante do chanceler estava, normalmente,
presente nas suas actividades. Mais tarde essa figura ficou permanentemente ligada ao Tesou-
ro Público, tornando-se o seu representante como chanceler do Tesouro.

Nos finais do século XII, a Inglaterra tinha feito a transição para o Estado institucional. Exis-
tia uma estrutura burocrática e judicial permanente que podia funcionar de modo efectivo sem
o rei estar presente. Os rendimentos do rei provinham, essencialmente, da cobrança de impos-
tos e dos incidentes feudais e não dos domínios reais. A nível do desenvolvimento institucio-
nal, o Governo inglês encontrava-se quase um século à frente do seu parceiro francês.

RICARDO I E JOÃO

Henrique II teve, de um modo geral, uma relação amigável com Luís VII de França, o seu se-

Capítulo 8 61/160
nhor feudal nos principados continentais. O sucessor de Luís, Filipe II Augusto, era um diplo-
mata frio e astuto, que se serviu das rivalidades entre os príncipes angevinos para seu provei-
to. Conspirou com os dois filhos sobreviventes de Henrique, Ricardo e João, que lutaram con-
tra o seu pai, impondo-lhe uma paz humilhante pouco antes de morrer.

Ricardo I Coração de Leão não permaneceu por muito tempo como um fantoche francês. Era
um general talentoso e, como tal, popular entre os barões, mas não mostrava interesse nem ap-
tidão para o Governo. De um reinado de dez anos, passou apenas seis meses em Inglaterra. O
seu pai tinha planeado uma cruzada, que era do agrado de Ricardo, pelo que o novo rei partiu
de imediato, deixando o seu irmão João como regente. Quando Filipe Augusto voltou para a
Europa, antes de Ricardo, João aliou-se a ele contra o irmão. No regresso, Ricardo foi captu-
rado pelo duque Leopoldo da Áustria, a quem tinha insultado na Palestina, e somente foi li-
bertado em troca de um resgate. Chegou a Inglaterra no final de 1194 e depois partiu para
França para nunca mais voltar. Forçou Filipe Augusto a retirar-se das terras que ele tinha to-
mado, mas morreu prematuramente ferido por uma flecha durante o cerco a um castelo.

Ricardo não deixou filhos e os herdeiros possíveis eram o irmão João e o seu sobrinho Artur
da Bretanha, filho do seu falecido irmão, Geoffiey Greymantel. Apesar de não gostarem de
João, os barões escolheram-no para rei. Filipe Augusto tentou utilizar Artur contra João, mas
este capturou-o e, provavelmente, mandou assassiná-lo.

João foi sempre uma figura mal compreendida. Numa era em que a perícia militar e a destreza
física eram mais importantes do que o talento governativo, a imagem de João era prejudicada
por ser de baixa estatura e um general medíocre. Nascido em 1167, era demasiado novo para
beneficiar da primeira divisão do reino que Henrique II fez pelos seus três filhos mais velhos,
ficando conhecido por João Sem Terra. Foi-lhe dada a soberania sobre a Irlanda, onde os pro-
blemas militares, depois agravados pelas desventuras em França, lhe deram o novo cognome
de Espada-Macia. Enquanto os barões o desprezavam, os historiadores modernos, pelo con-
trário, consideram João como um homem de considerável perícia e capacidades administrati-
vas, que se interessou particularmente pelos tribunais e pelas finanças.

Parte dos problemas de João eram causados por ele próprio, dado o seu carácter ambíguo. As-
sim, em 1200 criou problemas desnecessários quando anulou o casamento com a sua esposa e
casou com a Isabelle de Angoulême, a prometida de Hugo de Lusignan, que era seu vassalo
em La Marche, no sudoeste da França. Na Idade Média a promessa de casamento era um laço
muito forte, porque se punha em jogo propriedades e alianças políticas entre os nobres. Hugo
apelou para Filipe II de França, o senhor supremo de ambos, reclamando justiça. Como João
não compareceu a nenhuma das três convocações para responder a essas acusações, Filipe de-

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clarou-o vassalo por contumácia, confiscando-lhe os feudos da Coroa. Este género de declara-
ções não eram novas, mas agora Filipe estava em posição de as fazer cumprir. Filipe agiu ra-
pidamente, mas João pouco combateu, retirando-se para Inglaterra. Por volta de 1205, tinha
perdido tudo menos a Aquitânia, que os franceses só tentaram tomar bastante mais tarde.

Eram relativamente poucos os barões que possuíam terras na Normandia e em Inglaterra e


que, por conseguinte, tinham de escolher entre uma soberania francesa ou inglesa, mas o as-
pecto mais grave da contenda foi o facto de sentirem que a humilhante perda da Normandia
representava uma afronta à sua honra. João passou a maior parte dos restantes anos a tentar
reunir forças para retomar os domínios perdidos mas, para isso, precisava de dinheiro e a per-
da da Normandia tinha-lhe custado um terço dos seus rendimentos. Além disso, em Inglaterra
vivia-se uma crise inflacionária devido a um súbito influxo de prata para pagar a lã inglesa.
Ora, a maioria dos lucros do rei, nomeadamente as rendas, eram fixos em termos nominais,
pelo que o seu valor facial não podia ser aumentado para combater a inflação. O rei não tinha,
assim, outra hipótese senão a de explorar ao máximo as ajudas e os incidentes feudais, que
eram pagos pelos arrendatários principais. Transformou a taxa militar num pagamento anual
dos barões que se ofereciam para lutar pessoalmente, aumentou o montante das ajudas feu-
dais, exerceu o direito arcaico de casar as herdeiras com pessoas da sua escolha e explorou ao
máximo o direito de receber os rendimentos dos feudos dos tutelados durante a sua menorida-
de. Para além disto, instituiu ajudas extraordinárias em várias ocasiões. Henrique II tinha co-
brado a uma taxa sobre propriedades, o «dízimo saladino» em 1188, e outro tinha sido cobra-
do em 1193-1194 para o resgate de Ricardo. João instituiu dois, em 1203 e 1207.

A vida de João foi ainda complicada pelas divergências com a Igreja. O arcebispo de Cantuá-
ria morreu em 1205 e, sem esperarem pela posição de João, os monges elegeram o seu prior
Reginaldo, mas, quando João nomeou João de Gray, os monges também confirmaram a elei-
ção. O papa Inocêncio III reclamou o direito de decidir a disputa mas, em vez de se decidir
por um dos candidatos eleitos, ordenou aos monges de Cantuária que se encontravam casual-
mente em Roma que escolhessem um terceiro homem, Stephen Langton, um clérigo inglês
que tinha estudado em Paris e que passara duas décadas na corte papal. Tanto o rei como a
casa do capítulo objectaram. Inocêncio excomungou João e impôs um interdito a Inglaterra, o
que não provocou grandes distúrbios e aliviou os embaraços financeiros do rei, uma vez que
as vagas nos cargos das igrejas não podiam ser preenchidas durante o interdito e, segundo o
direito régio, o rei podia tomar os rendimentos das igrejas que estivessem vagas. Em 1213
João estabeleceu a paz com o papado, concordando em pagar uma indemnização, em aceitar
Langton como arcebispo e em deter a Inglaterra como um feudo do papa. Tomou esta atitude

Capítulo 8 63/160
quando se preparava para invadir a França, porque Filipe Augusto estava excomungado nessa
altura e João esperava que Inocêncio considerasse a sua invasão como uma cruzada. Em vez
disso, Filipe estabeleceu a paz com o papa e João encontrou-se a braços com uma dívida e
com o descontentamento dos barões, desgostosos perante a sua submissão ao papa.

João forjou alianças com os príncipes dos Países Baixos e, em menor grau, com os germanos
de Rhineland, com o intuito de conseguir uma invasão da França em múltiplas frentes coorde-
nadas. Mas o plano de João desfez-se, pois os seus aliados, incluindo o seu sobrinho Otão de
Brunswick e o conde flamengo, foram derrotados pelos franceses na batalha de Bouvines. De
volta a Inglaterra, e instigados per Langton, os barões insurgiram-se contra ele e, em Junho de
1215, forçaram-no a selar a Magna Carta, um dos mais importantes decretos da história legal
da Inglaterra. Inocêncio III que era agora aliado de João e não partilhava dos sentimentos do
arcebispo, declarou a Magna Carta nula e sem significado.

A «MAGNA CARTA»

A Magna Carta é mais um documento para a defesa dos interesses dos barões do que uma
carta de liberdades. Consignava algumas reformas de Henrique II, nomeadamente o estabele-
cimento dos tribunais centrais, mas reagia contra os expedientes financeiros e os abusos juris-
dicionais de João. A Magna Carta lida com vários assuntos. Depois de uma cláusula de ga-
rantias das liberdades da Igreja e dos homens livres, o texto passa a dirigir-se aos que são ar-
rendatários do rei e a quem é prometido que não haverá abusos nas ajudas feudais, nas taxas
de tutela e de casamento. O montante da ajuda feudal é fixado para diferentes categorias de
feudos e a obrigação das viúvas e dos seus herdeiros perante os juros dívidos a judeus é limi-
tada. Várias cláusulas restringem as acções arbitrárias dos xerifes, regulamentam o procedi-
mento dos tribunais criminais e civis dos distritos.

Duas das mais discutidas cláusulas da Magna Carta dizem respeito aos procedimentos nos
julgamentos e aos meios de criar impostos extraordinários. As multas seriam proporcionais à
ofensa, sendo garantido o julgamento por pares (socialmente iguais). Não se tratava de um
julgamento por júri. Os tribunais de João, sobretudo o do Tesouro Público, funcionavam com
juízes de nascimentos diversos, e os barões ressentiam-se por terem de responder perante eles.

O Parlamento inglês não teve origem na Magna Carta. O rei tinha direito a obter imposto es-
pecial dos «homens livres» em três casos: para os resgatar do cativeiro, para armar cavaleiros
os filhos mais velhos e para casar, pela primeira vez, as filhas mais velhas. As ajudas deveri-
am ser «razoáveis», mas o seu montante não era fixado. Os barões, contudo, reconheceram

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que o rei podia precisar, com legitimidade, de dinheiro para outras ocasiões, e quando o rei
necessitava de estabelecer imposto em vez do serviço militar, deveria convocar um «conselho
de comuns» de todo o reino, enviando notificações individuais aos «maiores barões». Os
grandes arrendatários deveriam ser convocados, enquanto grupo, pelos xerifes e meirinhos
dos condados. Embora o Parlamento viesse a ter dois grupos, aqueles que recebiam notifica-
ções individuais e aqueles que eram convocados em grupo para falar pelos constituintes, a
Magna Carta dizia respeito apenas aos arrendatários principais do rei, um grupo bastante
mais pequeno do que o envolvido no Parlamento. Os barões forçaram João a aceitar a Carta
em 1215. A Magna Carta também nomeou um comité de vinte e cinco barões que iriam for-
çar o rei a implementar as suas determinações. João repudiou a carta logo na primeira oportu-
nidade, mas alterou o seu comportamento, a ponto de satisfazer muitos barões. Um núcleo de
opositores continuou a lutar, convidando mesmo o herdeiro do trono francês, o futuro Luís
VIII, a vir a Inglaterra combater o rei. Praticamente todos os revolucionários do núcleo duro
vieram do norte de Inglaterra, uma área que nunca estivera completamente sob domínio real.

HENRIQUE III

As funções dos tribunais comuns foram clarificadas na época de Henrique III. As apelos eram
dirigidos aos tribunais comuns, enquanto o Tesouro Público lidava com os casos relacionados
com as finanças, e o Tribunal do Rei com os assuntos onde o rei tinha interesses. A maioria
dos tribunais distritais reunia-se mensalmente, sem prejuízo de haver sessões especiais para
assuntos específicos. O xerife continuou a exercer um poder considerável, mas a sua jurisdi-
ção civil estava limitada a casos que envolvessem valores de 40 xelins e a sua jurisdição cri-
minal estava confinada a pequenas infracções. A maior parte do tempo do xerife era ocupada
na execução dos decretos reais, agindo como oficial de processo, na confiscação de bens, no
comando da milícia e na nomeação de jurados. Os casos mais importantes eram levados pe-
rante os juízes reais itinerantes.

Henrique III e Luís IX de França tinham temperamentos semelhantes e, em 1259, concorda-


ram com um esquema através do qual Luís cedia Périgueux, Limoges e Cahors a Henrique III.
Em troca, este abdicava de todas as pretensões sobre a Normandia, Poitou, Anjou, Mainz e
Touraine, aceitando Luís como o seu soberano feudal em Bordéus, Baiona e Gasconha, que
anteriormente tinha reclamado como alódios que detinha por direito. O grande conselho er
formado por bispos, barões e condes, mas só era reunido quando o rei queria. A verdadeira
questão não era o Parlamento enquanto instituição separada, mas a necessidade de controlar o

Capítulo 8 65/160
conselho real, uma vez que ele raramente convocava todo o grupo dos principais arrendatári-
os, confiando, em vez disso, num grupo de conselheiros mais restrito. Os barões aceitaram
Luis IX de França como árbitro na sua divergência: no Pacto de Amiens, Luís decretou que o
programa dos barões era uma restrição ilegal ao poder do governante ungido por Deus.

O líder dos barões era um cunhado do rei, o jovem Simão de Montfort, conde de Leicester.
Em 1264, irrompeu a guerra aberta e as forças reais foram derrotadas na batalha de Lewes,
tendo Montfort se tornado o verdadeiro governante de Inglaterra, impondo as Provisões de
Oxford, que estabeleciam que um grupo de 12 membros supervisionariam o governo, admi-
nistração local e os castelos reais. Ficava também estabelecido que o parlamento se reuniria 3
vezes por ano para acompanhar a actividade deste grupo. No ano seguinte convocou pela pri-
meira vez os representantes dos burgos para um parlamento, claramente como manobra para
ganhar o seu apoio. Mas os barões não conseguiram chegar a acordo sobre até onde agir con-
tra o velho rei, cuja posição era fortalecida pela ascensão do seu filho Eduardo. Em 1265,
Eduardo derrotou e matou Montfort na batalha de Evesham, pondo cobro à revolta. Compor-
tou-se cautelosamente e, em 1267, o Estatuto de Marlborough adoptou a maioria das Provi-
sões de Oxford, enquanto reservava o direito de nomeação de funcionários para o rei.

66/160 Capítulo 8
A França

OS PRIMEIROS CAPETOS

Os reis francos do Ocidente tinham pouco poder fora dos seus próprios territórios devido à frag-
mentação da autoridade política. Alguns condados tinham apenas um único distrito e muitos
destes dividiram-se em castelanias no final do século X e início do século XI. Os ducados do
sul da França eram muito vastos e alguns fragmentaram-se em mais de cem condados e vis-
condados no século X. Alguns condes e duques, nomeadamente os condes (mais tarde du-
ques) da Normandia e os condes da Flandres, resistiram a esta fragmentação. Outros perderam
território, que mais tarde iriam recuperar, tal como a Burgúndia e a Ile-de-France.

Em 987, os carolíngios foram substituídos por Hugo Capeto, que deu início a uma nova dinastia.
Os primeiros capetos exerceram o poder numa área cada vez menor, centrada em Paris e em
Orleães. Vários dos seus vassalos, nomeadamente os duques da Normandia e da Aquitânia e os
condes de Anjou e da Flandres, eram mais poderosos do que eles. No período de Henrique I as
alienações conduziram o domínio real à sua menor extensão de sempre, mas novos territórios
foram acrescentados no reinado de Filipe I, um rei cuja indelicadeza e indiferença pessoal em
relação à Reforma gregoriana da Igreja lhe concedeu uma infeliz reputação póstuma.

MUDANÇAS NO GOVERNO FRANCÊS DURANTE O SÉCULO XII

O século XII foi um período de centralização, e não apenas ao nível das monarquias: nobres,
como os condes da Flandres e da Champanha e os duques da Burgúndia, reclamavam os direitos
que tinham sido assumidos pelos castelões durante o século XI, nomeadamente a reserva da jus-
tiça de sangue (casos onde a pena por condenação era a morte ou a mutilação). Enquanto con-
des de Paris na Ile-de-France, os capetos actuaram do mesmo modo, subjugando-os.

Durante a Idade Média Central a expansão dos «movimentos de paz» ajudava a conter a vio-
lência. As igrejas tinham uma paz especial, que proporcionava a protecção de Deus àqueles
que viviam nas proximidades imediatas. A paz do rei estendia-se a pessoas que precisavam de
uma protecção especial, como o caso dos mercadores. A Paz e Trégua de Deus foi promulga-
da pela primeira vez pelas igrejas do noroeste da Europa nos finais do século X, embora, até
ao final do século XI, o impacto tenha sido mínimo. A Paz abrangia as pessoas com ordens
sagradas, as mulheres, as crianças e os não combatentes. A Trégua de Deus, proclamada pelos
bispos, proibia os combates nos territórios do bispado desde o pôr do Sol de sexta-feira até ao

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nascer do Sol de segunda-feira, mas esse período foi gradualmente alargado.

O reinado de Luís VI o Gordo constituiu o ponto de viragem na monarquia dos capetos: inici-
ou a prática de manter os registos numa chancelaria real, em contraste com a prática anterior
do simples selamento das cartas, e negociou o casamento do seu herdeiro, o futuro Luis VII
com Eleanor, herdeira da Aquitânia, que era bastante maior do que o domínio real.

Luis VII reavivou a prática carolíngia de convocar os grandes senhores de todo o reino para
assembleias. Na mais famosa destas últimas, reunida em 1155, Luís tomou-se o primeiro mo-
narca francês a legislar para todo o reino, proclamando uma paz de Deus universal. No final
do seu reinado, a cunhagem real começou a circular, pela primeira vez desde os finais do sé-
culo IX, fora do domínio real. Luís proibiu as igrejas de julgar casos de violação, assassínio e
fogo-posto, para os quais a pena era a morte ou a mutilação.

No século XI a Casa Real de França estava a assumir prerrogativas já assumidas pela sua
congénere inglesa. A chancelaria encontrava-se sob a orientação de um «guardião de selo», a
administração do domínio real era confiada a cerca de quarenta prebostes (prévôts), que eram
cobradores de impostos, presidiam tribunais e convocavam a milícia local, sendo por isso se-
melhantes aos xerifes ingleses. O preboste era mais um funcionário do domínio do que um
funcionário governamental efectivo. Por volta de 1146, os reis franceses utilizaram a casa dos
Cavaleiros Templários como tesouro, que foi o único até 1307. Comparativamente, os ange-
vinos tinham cinco tesouros em Inglaterra e três na Normandia. O Governo francês só consti-
tuiu um arquivo fixo depois de os documentos de Filipe Augusto terem sido destituídos, jun-
tamente com o resto das bagagens, numa batalha contra Ricardo Coração de Leão, em 1194.

O REINADO DE FILIPE AUGUSTO

A Luis VII sucedeu, em 1180, o seu filho Filipe II, que ficou conhecido como Filipe Augusto.
Filipe conseguiu pela duplicidade o que os seus antecessores não fizeram pelas armas. Serviu-
se das ambições de João contra Ricardo e, eventualmente, acabou por instigar Artur da Breta-
nha contra João. Por ter repudiado a sua segunda mulher, Ingeborg da Dinamarca, foi exco-
mungado e a França interditada em 1200. Em 1180 o poder da monarquia estava em cresci-
mento, mas ainda era inferior ao dos angevinos da Normandia e da Inglaterra e de Filipe da
Alsácia, conde da Flandres. Filipe Augusto aumentou os recursos da monarquia ao conseguir,
em 1180, o condado de Artois, (como dote pelo seu casamento com Isabella, filha de Balduí-
no, conde de Hainault), a anexação da Normandia e dos territórios angevinos adjacentes em
1205. Os próprios flamengos foram subordinados em 1226, mediante o Tratado de Melun.

68/160 Capítulo 8
O reinado de Filipe Augusto foi crucial para a administração da França. Depois de ter perdido
os seus documentos em batalha, estabeleceu um arquivo permanente. Os meirinhos, que co-
meçaram por ser simples oficiais judiciais, presidindo a tribunais três vezes por ano, por volta
de 1202 recolhiam rendimentos e tratavam das multas judiciais. Os meirinhos eram itinerantes
e, inicialmente, tinham roteiros que se sobrepunham, mas no século XIII foi-lhes concedido
territórios fixos. À medida que se juntavam áreas do sul da França aos domínios reais, os se-
nescais desempenhavam aí as mesmas funções que os meirinhos exerciam no norte. Os meiri-
nhos e senescais eram designados para partes da França de onde não eram nativos, estando
proibidos de casar ou de comprar terras durante o período das suas comissões, nas localidades
onde estavam estacionados. Depois de deixarem o seu cargo, tinham de permanecer na região
durante quarenta dias, enquanto se faziam auditorias às suas contas.

A maior parte da justiça real era administrada através de prebostes, meirinhos e senescais. O
tribunal real central durante a época de Filipe Augusto permaneceu itinerante. Filipe substi-
tuiu os barões na corte por homens de posições inferiores que lhe deviam a ascensão social.
Não tinham funções específicas, servindo como homens para todos os ofícios. Apenas sob o
Governo de Luís IX se estabeleceram reuniões regulares, se criou um corpo permanente de
juízes e se iniciou o registo regular (os registos Olim, que existem desde 1254).

Os ganhos territoriais de Filipe Augusto fortaleceram as finanças da monarquia. Perseguiu os


judeus e com a confiscação dos seus bens financiou todo o seu programa político ao longo de
1190. Cobrou elevadas taxas a todos os príncipes que herdavam feudos da Coroa, tais como
Ricardo e João e Balduíno IX. Por volta de 1200, os capetos estava financeiramente igualados
aos angevinos, tendo a aquisição da Normandia inclinado a balança a seu favor.

Quando Filipe Augusto morreu era o mais poderoso príncipe francês, embora tivesse vários
rivais. Filipe tinha expulso os angevinos da zona norte do seu domínio, deixando-os apenas
com a Gasconha (a região da Aquitânia em volta de Bordéus), que era importante para o co-
mércio do vinho, mas que difícil de governar. O filho de Filipe, Luís VIII, era um homem
competente mas morreu prematuramente.

SANTIDADE E INSTRUMENTO DE ESTADO: A ÉPOCA DE LUÍS IX

Luís IX tornou-se rei aos l2 anos de idade, sendo colocado no trono sob a regência da sua
mãe, Branca de Castela. Luís deixou um legado misto: centralizou e institucionalizou o Go-
verno, alargou a jurisdição apelativa do tribunal real e não era uma ferramenta nem dos papas
nem do clero francês. Todavia, deixou uma dívida esmagadora, causada em grande parte pelas

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suas duas cruzadas. A sua primeira cruzada foi um verdadeiro desastre, para ele próprio e para
o Estado francês: a sua saúde ficou arruinada e o tesouro vazio, pois o seu rendimento anual
em 1244 era cerca de um quarto do que a expedição lhe tinha custado. Cobriu a diferença to-
mando propriedades aos judeus, cobrando imposto de cruzada aos súbditos, à Igreja e con-
traindo empréstimos junto dos genoveses e dos Cavaleiros Templários.

Filipe Augusto permitiu aos nobres do norte participarem na cruzada contra os «albigenses»
do sul da França, mas não tomou parte activa na acção. Pelo contrário, Luís VIII e Luís IX
perseguiriam os albigenses, pelo que o condado de Tolosa reverteu para a Coroa. A outra úni-
ca grande adição de Luís IX ao domínio real foi a compra do condado de Mâcon em 1239.

Luís regularizou as relações com Inglaterra e negociou uma trégua semelhante com Jaime I de
Aragão, que abdicou das suas pretensões no Languedoque e na Provença, enquanto Luís fazia
o mesmo em Barcelona e no Roussillon. Em nenhum dos casos os resultados foram perma-
nentes: as hostilidades com os ingleses em relação à Gasconha irromperam em 1290, bem
como as com Aragão, estas em consequência do apoio deste a Manfredo contra Carlos de An-
jou, o irmão mais novo de Luís. Luís permitiu os tribunais papais na França, mas recusou ace-
der aos pedidos do papa para uma cruzada contra o imperador Frederico II.

O Governo francês foi fortalecido e o comando da administração regularizado, à medida que os


meirinhos e senescais eram colocados acima de grupos de prebostes. No entanto, alguns abu-
sos dos meirinhos levaram Luís a nomear inquisidores, em regra frades, para os controlar.
Embora os príncipes tenham continuado a governar os seus territórios, a partir da época de
Luís IX as ordenações reais eram cumpridas fora do domínio real.

O reinado de Luís IX foi importante para a regulação da justiça francesa. As sessões judiciais
do conselho real passaram a ser fixas e em Paris. As reuniões do conselho real tornaram-se ra-
ras, sendo utilizadas mais para sessões solenes, tais como a emissão de ordenações. Os proce-
dimentos do tribunal do rei (o Parlamento) foram passados a escrito pela primeira vez durante
o seu reinado. O Parlamento de Paris tornou-se o supremo tribunal e os apelos feitos par a ele
tornaram-se mais numerosos para o final do reinado de Luís. Os casos reservados para a Coroa
foram alargados e o Parlamento obteve o direito de intervir quando os juízes achavam que se
estava a negar justiça, mesmo que não houvesse qualquer apelo. O facto de as leis usuais das
várias províncias se terem desenvolvido antes da jurisdição real, fez com que em França não
houvesse uma «lei dos comuns» semelhante à de Inglaterra. Também existia uma diferença
considerável entre a lei escrita do sul da França e a lei normal das regiões do norte.

Nem a monarquia francesa nem a inglesa implementaram novas formas de angariar receitas

70/160 Capítulo 8
senão depois de 1270, pois os rendimentos aumentaram como resultado de uma mais eficiente
exploração dos direitos que o rei já possuía. As maiores fontes de rendimento dos governantes
franceses eram as ajudas e os incidentes feudais. Os legisladores reais defenderam que toda a
terra em França era detida como feudo do rei, o que significava que toda ela era tributável.
Luís IX tomou a cruzada como um incidente feudal, cobrando os ajudas às cidades. Os reis
também fiscalizavam o «recrutamento geral», a obrigação dos homens livres em prestarem
serviço militar, cobrando uma taxa àqueles a que não serviam no Exército real.

A MUDANÇA DA NATUREZA DA LEI

Nas regiões da Europa com população galo-romanas surgiu na Alta Idade Média a lei comum
neo-romana a partir das compilações feitas pelos governantes germânicos. A lei neo-romana
fornecia um corpo unificado e autoritário de jurisprudência ao qual os advogados e príncipes
podiam recorrer, mas não era de todo estranha às noções legais correntes na Europa germâni-
ca e, muito menos, na Europa do sul. A natureza da lei e dos tribunais implicava que a justifi-
cação para práticas e condições tinha de ser encontrada na lei escrita, normalmente no Corpo
da Lei Civil ou no Corpo da Lei Canónica, ou nos estatutos reais que os complementavam. O
costume oral declinou, enquanto forma corrente de legitimidade.

Não se deve exagerar sobre o impacto do reavivar da lei romana, apesar de ter sido extrema-
mente significativo. O norte germânico tinha uma forte tradição da representação de facto
pelo cidadão, mas a lei romana permitia a concessão de poder de procuração a um represen-
tante. A lei romana de intermediação era mais fraca do que a da Europa germana; segundo
ela, a pessoa que cometesse realmente o acto era responsável por ele, e não a pessoa que desse
a ordem para o fazer. Isto tinha consequências tão diversificadas como a permissão de os prín-
cipes escaparem à responsabilização por actos ilegais cometidos pelos seus oficiais. Os tribu-
nais que funcionavam sob a lei romana enfatizavam o papel do juiz, estando menos preocupa-
dos com os procedimentos do que com a determinação da culpa ou da inocência; o júri era
menos utilizado do que nos tribunais de lei normal da Europa germana. A lei romana era uma
lei de Estado unitária que enfatizava os direitos do governantes sobre os dos seus súbditos.
Era paternalista e concedia extensivos direitos aos chefes masculinos das famílias sobre as
mulheres e as crianças. A prática da lei Romana estava dependente dos locais e das circuns-
tâncias.

Capítulo 8 71/160
9 - Nobres e Cruzados

Pag 276 do livro

NOBREZA E ARISTOCRACIA: O ESTABELECIMENTO E COMPOSIÇÃO DA


ELITE GOVERNATIVA EUROPEIA

A partir do século V os vassalos nas áreas a oeste do rio Reno foram-se tornando, gradual-
mente, distintos dos outros servos, ao serem escolhidos para desempenhar serviço militar. Os
vassalos consolidaram a sua ascensão pela obtenção de terras dos seus senhores, ou através de
casamentos com famílias da nobreza. Os vassalos tornaram-se, assim, o primeiro de vários
grupos que, por volta do século XIII, ascenderam à nobreza através do serviço de honra pres-
tado a uma pessoa de estatuto mais elevado.

Mesmo em zonas onde os reis não tinham muito poder, gozavam de imenso prestígio numa
sociedade organizada por estatutos sociais. Os códigos tribais demonstram, a partir do século
VI, que a proximidade física com o rei concedia aos guerreiros um Wergeld (preço de sangue)
mais elevado. Na época de Carlos Magno o serviço na administração real, sem olhar às proe-
zas militares, era também um meio de elevar o estatuto de uma pessoa. Muitos castelões, por
volta do final do século IX e X, eram descendentes de vassalos reais carolíngios e alguns de-
les ascenderam à nobreza suplantando mesmo as mais antigas famílias dos condes. Por sua
vez, por volta do ano 1000, os filhos mais novos de alguns condes usurparam o poder de ban,
constituindo uma aristocracia com pretensões de nobreza. Ao exercer autoridade pública em
nome do rei, um homem tornava-se um «homem livre nobre», grupo que ficou conhecido, no
século XII, como os «barões». Em alguns locais, nomeadamente na Germânia do norte e na
Inglaterra anglo-saxónica, o estatuto mais elevado estava associado à posse de alódios e não à
detenção de feudos, uma vez que o feudo não era propriedade do vassalo mas sim do seu se-
nhor. No entanto, o facto de a maioria dos feudos comportarem concessões de imunidade tam-
bém envolvia o exercício delegado do poder de ban.

A posse da terra constituía a base do poder dos nobres, mas a detenção de cargos também se
tornou cada vez mais importante. Os duques e condes germanos eram nomeados pelo rei; a
sua posição não devia nada à relação feudal e o estatuto nobre estava ligado exclusivamente
ao serviço honrado prestado a uma pessoa de elevado estatuto. Mas para se ser um nobre tam-
bém se tinha de ser reconhecido como tal pela comunidade, o que significava ser-se descen-
dente de, pelo menos, um pai nobre e, em algumas regiões, dos dois. Assim, uma pessoa de

72/160 Capítulo 9
baixo nascimento podia ganhar terras e até títulos, mas a sua linhagem só era reconhecida
como nobre quando fizesse algum casamento com famílias nobres. As estratégias familiares
tornaram-se cruciais mas, sobretudo depois do ano 1000, as famílias nobres eram cada vez
mais fechadas, adoptando frequentemente o nome de um castelo, que era a base do seu poder.
Quando a filha de um senhor se casava com um «homem novo», a genealogia sugeriria que o
estatuto da mãe iria determinar o dos descendentes, o que deu origem a que, em algumas partes da
Europa, o estatuto nobre fosse herdado através da mãe. Constatamos, porém, que embora o es-
tatuto fosse comummente determinado pela mãe, durante as migrações isso alterou-se para a des-
cendência paternal, quando a cavalaria se tornou importante na definição da nobreza.

Por volta do ano 1000 existiam dois níveis de nobreza em França: uma nobreza feudal com tí-
tulos e cujas famílias tinham exercido o poder de ban desde tempos imemoriais, estava acom-
panhada por uma nobreza menor e, de um modo geral, não feudal, constituída por castelões. Es-
tes, por sua vez, eram de dois tipos, embora os casamentos diluíssem sempre essas distinções:
pessoas de baixo nascimento, que tinham usurpado o poder ou se tinham casado com mem-
bros de famílias mais antigas, e pessoas que provinham de ramos das casas titulares e que ha-
viam convertido o serviço militar ou a guarda do castelo em poder de interdição sobre o distri-
to administrativo de um castelo. Os dois níveis de nobreza tinham em comum a posse do ban-
num e justicia (o poder de comandar e de julgar) e a profissão militar. Existiam claras distin-
ções de prestígio entre os dois, mas, legalmente, eram a mesma coisa em muitas regiões, por volta
do século XII, e em praticamente todo o lado, no século XIII.

Houve outros que entraram para a nobreza a seguir aos vassalos rurais, o que nos leva à rela-
ção entre a cavalaria e a nobreza. O estatuto de cavaleiros estava ligado ao serviço militar a ca-
valo, mas tal parece não ter sido verdade na Inglaterra anterior a 1066, onde o cniht era uma
pessoa livre de filiação indefinida. Só depois da conquista normanda é que a «taxa de cavaleiro»
(knighy fee) se tornou uma unidade de serviço de cavalaria e, mesmo nessa altura, foi subdividida
tão rapidamente que até na época de Guilherme o Conquistador, muitos cavaleiros não tinham
uma taxa total. Por volta do século XIII o estatuto de cavaleiro na Inglaterra era uma distinção
social baseada no rendimento que vinha da terra e não do serviço militar.

Abaixo do nível de cavaleiros existiam, em Inglaterra e na França, os sargentos, pessoas que


se encontravam entre os senhores locais, sem terem para com eles laços feudais, e os artesãos
e assalariados. Os ministeriales da Germânia, da Lotaríngia e da Flandres eram semelhantes
aos sargentos. Não tinham, originalmente, quaisquer terras e, como tal, seriam talvez servos
móveis, a quem eram dadas posições de responsabilidade pelos reis germanos e pelas igrejas.
As suas funções eram semelhantes às dos castelões franceses que estavam a surgir por volta

Capítulo 9 73/160
do ano 1000; a diferença residia no facto de os castelões serem de origem livre e, por vezes,
nobre, enquanto os ministeriales não o eram. O posto mais baixo na «ordem dos brasões» cor-
respondia aos homens de linhagem de cavaleiros, mas que não estavam armados cavaleiros.
Os cavaleiros germanos foram reconhecidos como nobres de facto no final do século XII, em-
bora tenham perdido formalmente o estatuto de servos apenas no século XIII.

A VIDA NOBRE

A noção de cavaleiro tomou forma no continente europeu durante as Cruzadas. O papa pro-
meteu remissão plenária dos pecados daqueles que morressem na luta contra os infiéis e S.
Bernardo de Clairvaux, o mais influente homem da Igreja do século XII, escreveu um tratado
intitulado Sobre a Nova Cavalaria, no qual louvava os que morressem na luta pela fé. Algu-
ma literatura de «amor cortês» do século XII idealizou um país de fantasia e de amor platóni-
co combinado com bravura militar, especialmente no que dizia respeito a cavaleiros que pro-
curavam relíquias ou buscavam o Santo Graal. A mística da cavalaria era enfatizada por um
elaborado cerimonial: o filho de um cavaleiro era enviado com a idade de 7 anos para a casa
do um outro cavaleiro, muitas vezes o senhor do seu pai ou um parente próximo, para ser trei-
nado nas artes da caça e da guerra. Depois de o jovem escudeiro ter recebido a sua educação,
era «armado» cavaleiro. Passava a noite anterior a essa cerimónia a rezar e em rituais de puri-
ficação e, depois, ajoelhava-se e jurava seguir os preceitos cristãos Um outro cavaleiro toca-
va-lhe no ombro com uma espada e erguia-o, já como cavaleiro.

Os torneios eram importantes no treino dos guerreiros. Os primeiros faziam-se, normalmente,


com lanças de madeira, mas o nobre verdadeiramente desportista utilizava as armas normais.
Henrique II proibiu-os em Inglaterra e, a partir de 1130, a Igreja emitiu decretos contra eles.
Mas mesmo Henrique enviou os seus filhos para o continente para serem treinados num «cir-
cuito» de torneios no norte de França e na Flandres. O objectivo era capturar o adversário e
não matá-lo. Os concorrentes derrotados, juntamente com os seus cavalos e armaduras, eram
detidos sob resgate, um fardo que recaía sobre os vassalos e/ou arrendatários dos perdedores.

Nos torneios observavam-se elaboradas convenções sociais: o cavaleiro agia como campeão
da sua dama, levando normalmente o lenço dela ou um outro talismã para a luta e, caso ga-
nhasse, curvar-se-ia perante ela para lhe dedicar a vitória. Os poetas exaltaram as virtudes dos
jovens príncipes. O maior herói foi o Jovem Rei, Henrique de Inglaterra, filho de Henrique II,
que morreu prematuramente em 1183.

74/160 Capítulo 9
A DAMA NOBRE

As rainhas aristocráticas, como Brunilde e Fredegunda, tiveram um papel importante na polí-


tica da Europa germana, mas o seu papel foi ainda maior quando se tornaram rainhas-mães.
No período carolíngio a crescente influência da Igreja circunscrevia o papel da mulher, mas
existem inúmeras excepções. A rainha Bertrada, de Pepino o Breve, foi uma forte figura que
arbitrou as querelas dos seus filhos, forçando um deles, o próprio Carlos Magno, a repudiar a
sua primeira mulher e a casar-se com uma princesa lombarda. Pelo seu lado, Luís o Pio foi
atormentado pelas manobras politicas da sua segunda mulher, Judite, a favor do filho dela,
Carlos, que também era, ele próprio, influenciado pelas suas duas mulheres. No século X, o
imperador Otão III foi controlado pela sua avó Adelaide e pela sua mãe Teófana.

Por volta do século XI as mulheres aristocratas casadas estavam limitadas a influenciar os


seus maridos, a criar e a educar as crianças Uma vez viúvas, adquiriam mais autoridade sobre
os seus próprios destinos e, sobretudo, sobre os dos seus filhos. Constatámos o enorme poder
de Eleanor da Aquitânia, rainha de Luis VII de França e de Henrique de Inglaterra. Bianca de
Castela, rainha de Luís VIII de França e mãe de S. Luís, deteve um poder enorme sobre o fi-
lho, de quem foi regente no período em que ele esteve em cruzada pela primeira vez.

O FINANCIAMENTO DA NOBREZA

A renascença económica da Idade Média Central atingiu a posição financeira dos nobres, cu-
jos rendimentos provinham principalmente de rendas fixas. Em muitas regiões, todos os filhos
sobreviventes de pais nobres eram considerados nobres e os patrimónios eram divididos entre
eles. A primogenitura, herança de toda a propriedade pelo filho mais velho, era comum ape-
nas nos feudos, nomeadamente naqueles que incluíam um título; o filho mais velho ou sub-
feudalizava os seus irmãos, ou obtinha a permissão do seu próprio senhor para dividir o feudo
com eles. À medida que as propriedades foram ficando mais pequenas e passaram a valer me-
nos, as linhagens tenderam a desaparecer. Quando ambos os pais tinham de ser nobres para
que o filho fosse nobre, o grupo de pessoas que podiam ser encaradas para potenciais casa-
mentos sem derrogação do estatuto era limitado e o resultado só podia ser a extinção gradual.
Na Picardia, no noroeste da França, havia em 1150 cerca de 100 linhagens nobres, mas o nú-
mero decresceu para 12 em 1300; na Vestefália, no oeste da Germânia, passou de 120 para 29
durante esse período. Teria de haver uma mudança e ela chegou no início do século XIV, atra-
vés de alterações no estatuto de cavaleiro.

Capítulo 9 75/160
MUDANÇAS NO RELACIONAMENTO FEUDAL: A VASSALAGEM

A aquisição de títulos e terras em feudo era apenas uma das várias formas de elevar o estatuto
social de uma pessoa. A natureza do laço feudal também passou por grandes transformações
durante a Idade Média Central. Existem poucas informações do processo pelo qual os laços
militares feudais, no período carolíngio, evoluíram para o feudalismo fiscal e governativo do
século XII. Os vassalos e senhores do período carolíngio tinham tido obrigações específicas
de se sustentarem mutuamente. Por volta de 1020 o duque da Aquitânia pediu a Fulbert de
Chartres que especificasse o que o juramento de fidelidade envolvia. A resposta foi dada em
termos vagos: a conduta do vassalo não deveria, de modo algum, atentar contra o seu senhor
ou contra os desígnios deste, mas nada foi dito em relação às obrigações de tomar parte em
actividades que aumentassem os interesses do senhor.

À medida que o elemento proprietário do laço feudal se intrometia cada vez mais com o pes-
soal, passou a desenvolver-se um cerimonial para simbolizar o vínculo dos homens honrados
aos seus senhores. O senhor perguntava ao vassalo se estava disposto a tornar-se um homem
seu e a resposta afirmativa era seguida, em muitas regiões, por um beijo. Depois fazia-se um
juramento de fidelidade no qual o vassalo jurava cumprir os termos da sua homenagem. O
vassalo era investido depois de ter prestado homenagem e jurado fidelidade: o senhor coloca-
va na mão do vassalo um símbolo da propriedade: um galho ou um torrão de terra.

Por volta do século XI, o costume de os vassalos terem vários senhores tinha criado uma situ-
ação altamente complexa na qual as suseranias locais eram reunidas e subdivididas continua-
mente. Os vassalos tentaram desenvolver uma hierarquia de obrigações, fazendo que um se-
nhor fosse o «suserano» ou senhor supremo, normalmente aquele de quem era detido o maior
feudo ou que estava na família do vassalo há mais tempo. Mas uma geração após o apareci-
mento da homenagem suserana, aparecem fontes que se referem a múltiplas homenagens se-
melhantes, perdendo o seu significado.

A evolução demográfica e económica justifica muitas das mudanças na natureza da vassala-


gem. O aumento populacional trouxe um aumento da disponibilidade de mercenários e tor-
nou-se mais barato contratá-los do que convocar as hostes feudais, sobretudo se os nobres
precisavam mais de infantaria do que de cavalaria. Especialmente depois das Cruzadas, os
castelos tornaram-se de tal modo sofisticados que muitas das campanhas se concentravam
mais na utilização de formações massivas do que em ataques de cavalaria. Mesmo as batalhas
campais eram cada vez mais travadas a pé, sobretudo depois de se terem desenvolvido gran-
des milícias no início do século XIII. No início do século XII, os reis ingleses cobravam um

76/160 Capítulo 9
pagamento anual ao vassalo em vez do serviço militar. Por essa altura, a extensão do serviço
devido por vassalos era limitada em quase todo o lado (por exemplo, a quarenta dias por ano
na Inglaterra e na Normandia). Se o senhor desejasse mais, tinha de pagar ao vassalo por ele.
As «ajudas» e os «incidentes» feudais desenvolveram-se na França por volta dos finais do sé-
culo XI e início do século XII. A ajuda e conselho era obrigação do vassalo: tinham de acon-
selhar o senhor sempre que lhes fosse pedido. A ajuda militar era devida, por princípio, todos
os anos, mas já observámos que isto, no século XII, estava na prática muito limitado A ajuda
financeira era devida em ocasiões específicas: quando o armava cavaleiro o seu filho mais ve-
lho, quando dava a sua filha mais velha em casamento pela primeira vez, quando era captura-
do e mantido sob resgate e quando partia em cruzada. A primeira ajuda feudal que se encontra
registada em França foi quando o rei casou em 1137, seguida de uma ajuda para uma cruzada
em 1147. Os reis germanos juntaram uma quinta ajuda para a viagem a Roma para a coroação
imperial. O montante da ajuda era negociado entre o senhor e o vassalo, mas por volta do sé-
culo XIII já se tinham fixado valores normalizados.

MUDANÇAS NA RELAÇÃO FEUDAL: O FEUDO

O feudo era propriedade do senhor, porém, era o vassalo quem usufruía da sua utilização. O
senhor tinha de consentir com as vendas, com a substituição de um vassalo por outro, com as
subdivisões e com a subfeudalização, mas a maioria dos senhores permitia estas práticas em
troca de uma taxa. Os feudos entraram, assim, no mercado de terras. Isto, combinado com a
múltipla vassalagem e detenção de feudos, sobre os quais os senhores não exerciam qualquer
tipo de controlo, originava responsabilidade por feudos extremamente complexas, e pequenas
querelas podiam resultar em grandes conflitos. A alienação do serviço militar e o acompanha-
mento de pagamentos tornou-se de tal forma grave que o rei inglês Eduardo I proibiu a sub-
feudalização, decretando que, de futuro, os feudos pudessem ser transferidos apenas por ven-
da e substituição. O novo locatário não ficaria a dever qualquer serviço ao vendedor, assumin-
do simplesmente as obrigações do vendedor para com o senhor.

Os incidentes feudais eram pagamentos inerentes ao feudo e não à vassalagem, como reco-
nhecimento da posse do senhor. Por volta do século XIII, as ajudas feudais e alguns dos inci-
dentes eram rigidamente regulados, constituindo apenas um pequeno rendimento dos prínci-
pes. Outros incidentes continuaram a ser importantes fontes do rendimento real na Inglaterra e
na França, embora isso não acontecesse na Germânia, de tal forma que os reis pressionavam
os proprietários de terras para que estes convertessem os seus alódios (terra pública e não su-

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jeita a pagamentos feudais) em feudos.

Os incidentes feudais incluíam o auxílio, uma obrigação herdada que era o equivalente a um
ano de rendimento do feudo (?). A Magna Carta fixou o montante da assistência atribuída a
diferentes categorias de feudos; à medida que os valores da terra aumentavam, o valor real da
assistência declinava em proporção. Quando um menor herdava o feudo, o senhor tinha o in-
cidente da tutela que lhe permitia criar a criança em sua casa, ficando com o rendimento do
feudo até que o vassalo atingisse a maioridade. Isto levou a abusos tais que se estabeleceu um
tribunal de tutores em Inglaterra de forma a remediar a situação. Quando o feudo era herdado
por uma mulher, o senhor gozava do incidente do casamento: podia casá-la com um homem
leal, da sua escolha, de modo a que o serviço militar pessoal do feudo fosse garantido.

Finalmente, quando não havia nenhum herdeiro o senhor do feudo gozava do incidente de
confiscação, através do qual o feudo revertia para ele enquanto sua propriedade. A confisca-
ção era regulada e complicada pelos costumes locais. Os algumas regiões os parentes colate-
rais (primos, sobrinhas e sobrinhos) podiam herdar na ausência de filhos, mas não em todo o
lado. Os reis capetos tentaram tomar o controlo do rico condado da Champanha em 1201,
quando Filipe II explorou os seus direitos de tutela sobre o ainda criança conde Thibaut IV.

Talvez nada exemplifique tão bem a fiscalidade do feudalismo como a concessão em feudo de
artigos, tal como o direito de cobrar uma portagem. Os pagamentos anuais em dinheiro tam-
bém eram dados como feudos por volta do final do século X e, já no século XII, eram bastante
comuns no noroeste da Europa. Os feudos em dinheiro (rendas) tinham muitas das caracterís-
ticas do feudo de terra, com a excepção de que não era hereditário ou transferível e, conse-
quentemente, não devia os incidentes feudais que eram pagos quando o feudo de terra trocava
de mãos. Era utilizado mais frequentemente na aquisição de serviço militar de pessoas a quem
os senhores não podiam conceder terras em feudo. Os detentores de feudos em dinheiro devi-
am serviço militar conforme lhes fosse requerido, e não anualmente. O feudo em dinheiro po-
dia ser utilizado para circunscrever o espírito, mas raramente a prática das outras obrigações
do vassalo. Os reis ingleses faziam usos do feudo em dinheiro, de modo a cercarem a França
com inimigos, nas suas fronteiras do norte e do leste.

CASTELOS E ARMAMENTO

A guerra era o modo de vida e o lazer do cavaleiro. As fortificações da Alta Idade Média
eram muito diversas, indo de ruínas romanas a propriedades rurais, defendidas por muralhas

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de terra, trincheiras ou paliçadas de troncos. Os castelos que formavam o núcleo em volta do
qual se desenvolveram as castelanias, durante o século X e século XI, eram mais elaborados
mas, mesmo assim, ainda bastante pequenos. Os castelos em pedra apareceram pela primeira
vez no final do século X e esse novo estilo espalhou-se rapidamente. O castelo de «torres e
muralhas» dos normandos foi um avanço fundamental. A torre de menagem do castelo era, de
início, de madeira, embora se tenham reconstruído algumas em pedra. Os castelos com torres
de menagem de pedra não tinham, muitas vezes, outras torres.

A construção de castelos tornou-se cada vez mais complexa e cara, sobretudo nos séculos XII
e XIII. Enquanto os castelos mais antigos tinham sido fortemente aleatórios em design, por
volta do século XIII já eram quase todos planeados. Muralhas de pedra concêntricas substituí-
ram a paliçada de madeira; na maioria dos casos, o invasor tinha de ultrapassar uma muralha
exterior, depois atravessar para a terra-de-ninguém para atingir a segunda muralha e tomar a
muralha interior, antes de completar a sua conquista. Alargaram-se e aprofundaram-se as trin-
cheiras, enquanto as muralhas eram feitas cada vez mais altas e mais grossas. As muralhas ti-
nham normalmente torreões para abrigar archeiros e balestreiros.

À medida que os castelos se tornavam mais imponentes, as cidades fortificadas tornaram-se


objecto de planeamento militar. Os exércitos, em meados do século XIII, aumentaram consi-
deravelmente, contando muitas vezes com cerca de 15 000 a 20 000 soldados, incluindo mi-
neiros e operadores de máquinas de cerco. A dupla necessidade dos homens da cidade - de de-
fesa, mas também de acesso - significava que existiam aberturas na maioria das fortificações,
algumas das quais permaneciam incompletas. A força de assalto utilizava aríetes e uma gran-
de variedade de catapultas, tal como a balista, para disparar dardos ou grandes flechas, e o tra-
buco para lançar pedras, bolas de fogo ou até mesmo homens ou animais mortos, que pudes-
sem causar a peste entre os defensores.

Capítulo 9 79/160
As CRUZADAS

As Cruzadas não foi somente um movimento de entusiasmo religioso alimentado pelo desejo
de libertar os santuários da fé cristã. De facto, os muçulmanos tinham, de um modo geral, me-
lhores relações com os cristãos latinos do que com os bizantinos. A Palestina tinha (e ainda
tem) os santuários sagrados e a vida espiritual do crente atingia o auge com a viagem a esses
locais. O século XI trouxe uma maior consciência religiosa e isso foi responsável por um au-
mento de peregrinações, sobretudo a Jerusalém. Alguns líderes do século XI, especialmente
aqueles que eram conhecidos pelos seus temperamentos violentos, como os condes Fulk Ner-
ra, de Anjou, e Roberto o Diabo, da Normandia, fizeram peregrinações verdadeiramente pú-
blicas. As peregrinações, ao contrário das cruzadas, não eram supostamente armadas, embora
se saiba que houve grupos de peregrinos que defrontaram exércitos muçulmanos.

A noção de guerra santa foi fundamental para o movimento das Cruzadas. Os bizantinos ti-
nham-se servido da hostilidade religiosa como uma arma política nas suas conquistas do sécu-
lo X e Carlos Magno agiu como agente militante da Cristandade na divulgação da Palavra en-
tre os ímpios. Robert Guiscard, vassalo do papa depois de 1061, justificou as suas campanhas
na Sicília em nome da religião. A lenda de que as relíquias do Apóstolo Santiago foram trazi-
das para Espanha, levaram a que ele fosse considerado o santo patrono da Reconquista, tor-
nando-se Compostela o local mais importante de peregrinação no Ocidente.

Os acontecimentos do Leste também apressaram as Cruzadas. Até ao século XI o mundo mu-


çulmano tinha sido dominado pelos árabes, mas esta situação alterou-se com a chegada dos
turcos Seldjúcidas que, em 1055, tomaram Bagdade. O califa concedeu o título de sultão ao
seu chefe, Tughrul Beg, que passou a deter o verdadeiro poder. Os turcos conquistaram rapi-
damente um império que incluía a Pérsia, a Mesopotâmia, a Síria e grande parte da Palestina.

Em 1071, o sultão Alp Arslan aniquilou um exército bizantino em Manzikert e, por volta de
1092, os turcos já tinham expulsado os gregos da Ásia Menor, através da qual os peregrinos
cristãos viajavam para a Palestina. Para enfraquecer Alp Arslan, os bizantinos encorajaram
um regime separatista na Ásia Menor, que ficou conhecido como o sultanato de Rum. Os bi-
zantinos também tinham problemas na sua fronteira ocidental. Bari, o último posto avançado
dos bizantinos em Itália, caiu para Robert Guiscard, em 1071, que os atacou depois mais a
leste. Os bizantinos só conseguiram repelir os normandos contratando venezianos, tendo o im-
perador emitido a «Bula Dourada», que concedia a estes o direito a colónia mercantil em
Constantinopla e o direito de controlarem as docas e o monopólio do comércio bizantino com
o Ocidente. O prólogo das Cruzadas envolvia, assim, uma hostilidade não só entre cristãos e

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muçulmanos mas também entre os cristãos normandos e os cristãos gregos.

O impulso para o movimento das Cruzadas veio do imperador bizantino. Respeitando os oci-
dentais como guerreiros e como pensadores, o imperador Aleixo I Comneno pediu ao papa
Urbano II ajuda para reunir um exército. Parece ter tido em mente uma força de elite compos-
ta por mercenários que lutariam sob o seu comando. Em vez disso, mobilizou vastos exérci-
tos, cujos comandantes lhe escapavam por completo.

A PRIMEIRA CRUZADA

Ao convocar o famoso conselho de Clermont, em 1095, Urbano II tinha os seus próprios ob-
jectivos, nomeadamente a reunificação das Igrejas grega e latina. Mas no seu sermão do en-
cerramento, o papa apelou, para que os reis de França e da Lotaríngia parassem de lutar contra
os seus pares crentes, matando onde mais importava. O efeito foi electrificante. Embora não
se tenha a certeza de o papa ter chegado a mencionar Jerusalém, a Cidade Santa tornou-se o
objectivo dos cruzados. Vários bispos tomaram imediatamente a cruz, seguidos por numero-
sos príncipes laicos: os príncipes da Lotaringia, onde os costumes da partilha de heranças ha-
viam enfraquecido os nobres, os príncipes do sul da França e os normandos do sul da Itália,
formaram os principais fomentadores da Primeira Cruzada. Na ausência de reis e de duques, o
conde Raimundo IV de Tolosa, os duques Godofredo de Lorraine e Roberto da Normandia e o
conde Roberto II da Flandres foram os participantes mais importantes da Primeira Cruzada, a
única militarmente bem sucedida.

Urbano II colocou a propriedade dos cruzados sob a paz de Deus, declarando uma moratória
sobre as suas dividas. Também prometeu a remissão plenária dos pecados aos que fossem
martirizados na cruzada. Os sacerdotes que recrutavam os exércitos para as cruzadas ainda fo-
ram mais longe, dizendo que tanto a culpa como o castigo eram perdoados. Mesmo antes de o
Exército estar pronto, já uma «cruzada popular» se tinha posto a caminho. Pedro o Eremita e
Walter o Pobre, evocaram visões para convocar as massas dos Países Baixos e da Rhineland.
Os grupos de atravessaram o vale do Reno, massacrando judeus por onde passavam - apesar
dos esforços dos bispos para os proteger -, seguindo, depois, pelos Balcãs até Constantinopla.
Aleixo Comneno recusou-se a permitir a entrada dos peregrinos na cidade, mas deu-lhes pas-
sagens através do Bósforo, onde acabaram por ser dizimados pelos turcos.

Os exércitos, a que agora chamamos de Primeira Cruzada, convergiram para Constantinopla


em meados de 1097, cada um sob o seu próprio comandante, que eram rivais nas suas terras e
nas disputas pelos saques muçulmanos. Alguns chefes, que se separavam do corpo do Exérci-

Capítulo 9 81/160
to principal, estabeleceram principados na Terra Santa, nomeadamente o de Antioquia, pelo
normando Bohemund. Os bizantinos forçaram os ocidentais a jurar que restaurariam todo o
território que tinha sido bizantino antes das conquistas turcas, juramentos que todos, menos
Raimundo de Tolosa, quebrariam. Os bizantinos ainda feriram mais a sensibilidade dos cruza-
dos ao tentarem impedi-los de saquear Niceia, a primeira cidade a ser capturada.

As querelas sobre a sucessão do sultão Malik-Shah deram aos ocidentais uma oportunidade, já
que o império era controlado por emires locais, alguns dos quais ajudaram os invasores. Jeru-
salém foi tomada a 15 de Julho de 1099, seguindo-se uma carnificina sem precedentes.

O REINO LATINO DE JERUSALÉM

Os cruzados tinham de estabelecer uma administração ou, pelo menos uma autoridade na Pa-
lestina. Quando Raimundo de Tolosa recusou a coroa, Godofredo de Bouillon foi nomeado
defensor do Santo Sepulcro. Quando Godofredo morreu, em 1100, o seu irmão Balduíno foi
coroado rei de Jerusalém, tendo como vassalos os governantes dos outros principados latinos.

O «Reino Latino de Jerusalém» estava literalmente entre o mar, os muçulmanos e bizantinos e


o acesso de mercadorias, peregrinos e recrutas militares era crítico. Como seria de esperar, o
reino tornou-se dependente dos mercadores italianos, a quem era dado o direito de terem coló-
nias residentes nas grandes cidades do reino.

A maioria dos cruzados voltou para a Europa e o reino latino viu-se obrigado a oferecer estí-
mulos para conseguir colonos. Os poucos que ficaram na Palestina permaneceram nos seus
próprios enclaves, sobretudo nas cidades costeiras, preferindo não se misturar com os muçul-
manos. Longe de aprenderem com o contacto com os muçulmanos, os cristãos mantiveram as
suas próprias escolas, acreditando que o povo de Cristo nada tinha a aprender com os pagãos.
As «Ordens Militares» detinham um poder considerável no reino latino, sobretudo através do
controlo dos castelos. Os Cavaleiros de S. João de Jerusalém, chamados Hospitalários, foram
criados para cuidar dos peregrinos doentes e pobres. Foram reconhecidos como ordem militar
por bula papal de 1113, sendo inicialmente compostos por homens laicos e clérigos. Os Cava-
leiros do Templo de Jerusalém, Templários, foram fundados em 1119 pelo cavaleiro Hugo de
Payens, para defender os peregrinos. Tomavam votos monásticos e a sua regra, baseada na
cistercense, foi escrita por Bernardo de Clairvaux. A ordem cresceu muito rapidamente, sendo
colocada directamente sob o controlo do papa. Os Cavaleiros Templários eram dirigidos por
um mestre, sob o qual existiam três graus de cavaleiros, sargentos e capelães. As ordens de

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Calatrava e de Alcântara, na Espanha, foram formadas por imitação dos Templários.

Depois de 1131, Jerusalém foi governada por Fulk V de Anjou, em nome de sua mulher Meli-
sende, a filha rei Balduíno II (Fulk era o pai de Godofredo Plantageneta). Fulk morreu em
1143, tendo-lhe sucedido sua mulher e seu filho de 13 anos Balduíno III. No ano seguinte, o
Estado cruzado sofreu a sua primeira perda territorial significativa quando Edessa caiu nas
mãos de Zengi, príncipe de Mosul e de Alepo. O assassinato de Zengi, em 1146, impediu os
muçulmanos de consolidarem as suas vitórias, mas o seu segundo filho, Nur ed-Din, provou
ser um oponente formidável.

A SEGUNDA CRUZADA E AS SUAS CONSEQUÊNCIAS

A queda de Edessa levou o papa Eugénio III a apelar para uma nova cruzada. Conrado III da
Germânia estava relutante, mas foi persuadido pelos sermões de S. Bernardo. Luís VII de
França tinha planeado a sua própria expedição, mas concordou em combinar os esforços com
os germanos. O Exército germano, ignorando um anterior acordo para esperarem pelos fran-
ceses, seguiu à frente e foi derrotado. Os franceses, por sua vez, sofreram uma desastrosa der-
rota, e só depois as forças restantes dos dois exércitos se juntaram. Decidiriam, depois, atacar
Damasco, embora o seu governante fosse aliado de Balduíno III contra Nur ed-Din. O resulta-
do foi uma catástrofe previsível: a Segunda Cruzada não conseguiu nada.

Enquanto o reino latino se dividia entre facções apoiantes de Balduíno III e da sua mãe, Nur
ed-Din tomou Damasco, unindo a Síria contra os cruzados. Grande parte do problema consis-
tia na insurreição de Ronaldo de Châtillon, um aventureiro francês que casou com a viúva de
Raimundo II de Tripolis. A Balduíno III sucedeu o seu irmão Amalrico que, para silenciar a
oposição da Igreja, teve de se separar da sua mulher, mas conseguiu assegurar uma declaração
de legitimidade para os seus dois filhos, Sibila e Balduíno IV. Amalrico demonstrou algum ta-
lento para legislação, tentando limitar o poder das ordens militares. O seu principal interesse
em relação ao estrangeiro era atacar o Egipto, que prometia fundos para o defraudado tesouro
real. Amalrico e Nur ed-Din combateram-se durante alguns anos, mas em 1169 o vizir Nur
ed-Din entrou no Cairo. O seu sobrinho, Saladino, seguiu-o pouco depois. Saladino expulsou
os franceses do Egipto, conquistou os pontos fortes no mar Vermelho e, em 1171, acabou com
a dinastia fatimida e colocou o Egipto sob o califado abássida de Bagdade, restaurando, as-
sim, a unidade do Islão sunita.

Nur ed-Din e Amalrico morreram ambos em 1174. Balduíno IV era um leproso de 13 anos
que acabou por ficar paralisado. Formaram-se diferentes partidos em torno de Ronaldo de

Capítulo 9 83/160
Châtillon, dos senhores Courtenay de Edessa e dos Lusignans, uma família do Poitou angevi-
no. O próprio rei era controlado pela sua mãe, da família Courtenay. Sucedeu-lhe o seu sobri-
nho, Balduíno V, o filho da sua irmã Sibila e de Guilherme, marquês de Montferrat. Balduíno
V morreu passado um ano, sendo sucedido por Sibila, que colocou no poder o seu segundo
marido, Guy de Lusignan.

Entretanto, em 1176 Saladino tinha consolidado a sua posição no império de Nur ed-Din e, ao
controlar o Egipto, a Síria e Mosul, cercou os Estados cruzados. A corte franca continuou do-
minada pelas intrigas e, no inicio de 1187, Ronaldo de Châtillon emboscou uma caravana e
deu assim a Saladino o pretexto para atacar. A 4 de Julho de 1187, Saladino aniquilou os cris-
tãos em «Chifres de Hattin», a oeste do mar da Galileia, capturando Guy e decapitando pesso-
almente Ronaldo de Châtillon. Jerusalém capitulou a 2 de Outubro sem resistência. Na Prima-
vera de 1190 apenas Antioquia, Tiro e Trípolis permaneciam nas mãos dos cristãos.

A TERCEIRA CRUZADA

A queda de Jerusalém chocou a Cristandade. Os reis do ocidente - Filipe Augusto, de França,


Frederico I o Barba-Roxa, do Império romano-germânico, e Henrique II, e depois da sua mor-
te, Ricardo I, de Inglaterra - planearam uma campanha conjunta para recuperar os santuários.

A Terceira Cruzada teve resultados ambivalentes. Os germanos chegaram primeiro e derrota-


ram um exército turco, mas a maior parte das tropas de Barba-Roxa voltaram para casa depois
de ele ter morrido afogado. Os ingleses e os franceses passaram o Inverno na Sicília, rumando
depois para a Palestina. No caminho, Ricardo tomou Chipre aos bizantinos. Uma vez na Terra
Santa, os exércitos foram desviados para as guerras locais. Ricardo vendera Chipre aos tem-
plários, mas permitiu que Guy de Lusignan, que tinha poucos apoios no reino latino, compras-
se os seus interesses. Os Lusignan governariam Chipre, que se tornou uma base indispensável
para o acesso militar e económico ao reino latino, até 1474. Conrado de Montferrat, o rival de
Guy para a Coroa de Jerusalém, justificava a sua pretensão com o casamento com Isabella, a
meia-irmã de Sibila, mas foi entretanto assassinado por uma seita fanática. Depois des breves
reinados dos dois subsequentes maridos de Isabella terem terminado os descendentes de Con-
rado governariam o reino latino até ele cair em 1291.

Acre caiu para os cruzados em Julho de 1191. Filipe Augusto, pouco depois, voltou para
França, mas Ricardo permaneceu na Palestina, capturando Jafa. Quando soube dos esquemas
do seu irmão João com Filipe, negociou uma trégua de três anos e um salvo-conduto para os
peregrinos cristãos nos santuários de Jerusalém e voltou para casa.

84/160 Capítulo 9
A QUARTA CRUZADA

A perda de Jerusalém levou o papa Inocêncio III a convocar uma outra cruzada. Esta envolvia
uma alteração de estratégia. Apercebendo-se de que a rivalidade entre os reis tinha impedido o
sucesso da Terceira Cruzada, o papa solicitou nobres menos poderosos, sobretudo franceses.

As relações com os bizantinos tinham-se deteriorado, pois estes pareciam ter ajudado os mu-
çulmanos contra os ocidentais durante a Terceira Cruzada. O novo empreendimento consistia
em realizar um ataque naval contra o Egipto, utilizando barcos venezianos, e evitando, assim,
as estradas através de Constantinopla. Os cruzados desembarcaram em Veneza e contraíram enor-
mes dívidas, mas os venezianos ofereceram-se para as adiar se os cruzados tomassem Zara, uma
cidade na costa da Dalmácia que o rei da Hungria tinha conquistado aos venezianos. Assim o fi-
zeram, sendo excomungados pelo papa por terem quebrado os seus votos de cruzada, embora,
fossem pouco depois libertados dessa expulsão, excepto os venezianos. Os venezianos ainda
tinham outros interesses no Oriente. Em 1187, o imperador Isaac II Ângelo tinha-lhes restituído
o direito de comércio em qualquer zona do império. mas, em 1195, Isaac II foi deposto a favor
de um imperador anti ocidental, que expulsou os venezianos. Aleixo II, filho de Isaac II, enviou
emissários pedindo apoio e prometendo somas avultadas aos venezianos e aos cruzados e que
forneceria um exército para a expedição palestiniana. Os cruzados reinvestiriam Isaac II e
Aleixo II, mas eles acabaram por ser depostos e assassinados. Em resposta, os cruzados e os ve-
nezianos irromperam sobre Constantinopla e saquearam-na durante três dias, queimando toda a ci-
dade, incluindo a biblioteca imperial e os seus insubstituíveis manuscritos, levando milhares de relí-
quias e destruindo toda e qualquer estatuária que não conseguissem transportar.

Depois de dividido o saque, o conde Balduíno IX da Flandres e de Hainault foi escolhido como
imperador da «România», o império latino de Constantinopla. Os Venezianos obtiveram enor-
mes concessões, incluindo importantes portos e três oitavos da cidade de Constantinopla em si
mesma. Balduíno foi capturado era 1205, enquanto lutava contra os búlgaros, e nunca mais foi
visto. Em 1261, Miguel VIII Paleólogo, governante de Niceia, tomou Contantinopla com
grande facilidade e expulsou os ocidentais. Miguel VIII pôs fim aos monopólios dos venezianos
dando valiosos direitos comerciais aos genoveses.

O Império bizantino nunca recuperou do choque da Quarta Cruzada e apenas as mortes fortui-
tas de vários governantes mongóis e turcos, fora do poder bizantino, impediram que o Ociden-
te fosse invadido no final do século XIII e século XIV. A casa de Anjou deteve o principado
de Acbaia, no sul da Grécia, até l432. O ducado de Atenas foi tomado em 1311 a Valter de
Brienne (cujo filho seria famoso na história da cidade de Florença), por mercenários catalães

Capítulo 9 85/160
que serviam nominalmente Constantinopla. Em 1383, os Acciaioulis, uma família banqueira
florentina, tornaram-se duques de Atenas, rendendo-se aos turcos em 1456.

O MOVIMENTO DAS CRUZADAS, 1204-1244

No século XII formou-se um Supremo Tribunal, tecnicamente um tribunal de pares, mas era
tanto um corpo legislativo como um supremo tribunal. Compreendia os nobres, os bispos, os
cruzados estrangeiros de altas patentes e os mestres das ordens militares. O rei tornou-se pou-
co mais do que uma figura representativa. Vários barões cunhavam as suas próprias moedas e
muitos deles possuíam jurisdição independente. As cidades italianas e Marselha lucraram bas-
tante com a organização de viagens regulares para os peregrinos de e para a Terra Santa.

Já antes da Quarta Cruzada, alguns padres defendiam que o orgulho humano é que tinha cau-
sado o fracasso das cruzadas: o que os reis não tinham concretizado podia ser feito por pesso-
as inocentes e pobres, cujas vidas imitassem Jesus e os seus discípulos. Foi um grupo com es-
sas características que empreendeu a muito mal compreendida «Cruzada das Crianças» em
1212. Grupos de adolescentes pobres dirigiram-se para Génova e Marselha e embarcaram
rumo à Palestina. Como resultado, alguns foram vendidos como escravos pelos turcos, mas
outros conseguiriam voltar para a Europa.

Os acontecimentos que se seguiram à morte de Saladino causaram uma transferência de poder


do mundo islâmico para o Egipto, que agora se tornava a região-chave da Palestina. Em,
1217, um exército maioritariamente austríaco e húngaro, a «Quinta Cruzada», atravessou o
Mediterrâneo em barcos venezianos, cercando Damieta, no Nilo. Francisco de Assis juntou-se
aí à Cruzada. Pregou o Cristianismo e a virtude espiritual da pobreza ao sultão al-Kamil, que
escutou delicadamente e, depois, reconduziu-o aos seus montado num grande elefante. Dami-
eta foi tomada, mas os cruzados detiveram-na apenas durante dois anos.

O imperador Frederico II tinha jurado ir em cruzada como condição pelo reconhecimento pa-
pal da sua Coroa. Chegou à Palestina apenas em 1228, mas conseguiu uma trégua de dez anos
e a restituição de Jerusalém para os cristãos. Frederico teve de regressar rapidamente a Itália,
deixando a regência na Palestina a cargo do seu jovem filho Conrado IV. A guerra entre o
Exército imperial e as forças de João de Ibelin, que era apoiado pela maioria da nobreza da
Palestina, terminou com a solidez militar que o reino de Jerusalém ainda pudesse ter. Os mu-
çulmanos tomaram Jerusalém pela última vez em 1244.

86/160 Capítulo 9
AS CRUZADAS DE S. LUÍS

Luís IX de França tomou a cruz no final de 1244. Quando partiu, em 1248, seguiu a táctica de
atacar através do Egipto. O sultão abandonou Damieta, mas em 1250 capturou todo o exército
de Luís (incluindo o rei), quando este tentava perseguir os muçulmanos pelo rio Nilo. Os cru-
zados trocaram Damieta pela pessoa do rei. Pelo Exército pediu-se um enorme resgate, mas
Luís serviu-se de uma revolução palaciana do Egipto para libertar o seu Exército.

Na Terra Santa, as rivalidades entre os descendentes de Frederico II, os ibelinos, os venezia-


nos, os genoveses, os pisanos e as ordens militares continuaram e, simultaneamente, o sultão
Baibars foi anulando os pontos fortes cristãos na Palestina. Entretanto, Luís IX tomou nova-
mente a cruz, contraindo para tal enormes empréstimos com os banqueiros genoveses, impon-
do elevados impostos ao clero e às cidades. Como o seu irmão mais novo, Carlos de Anjou,
dominava o sul de Itália, tal deu-lhe o controlo de importantes portos, mas Luís acabou por
desviar a Cruzada do Egipto para Tunis, onde morreu, o que forçou ao regresso do Exército.
As tropas inglesas, sob o comando do futuro rei Eduardo I, negociaram uma trégua de onze
anos com Baibars, que tinha capturado os últimos castelos das ordens militares na Palestina.
Em 1291, Acre, a última cidade cristã no reino de Jerusalém, caiu para os muçulmanos.

A presença cristã no Oriente não estava completamente extinta. Em 1310, os Hospitalários


ocuparam a ilha de Rodes, que permaneceram até 1523. Os papas continuaram a convocar
cruzadas, mas a única que conseguiu reunir um grande exército foi a «Cruzada de Nicopólis»,
de 1396, que acabou com uma humilhante derrota às mãos dos turcos. As Cruzadas permiti-
ram aos papas angariar vastas somas de dinheiro e aos príncipes oportunidade para adquirirem
reputação militar, mas não havia nenhuma possibilidade de se recuperar Jerusalém.

IMPACTO DAS CRUZADAS

Muitas mudanças ocorridas na Europa ocidental têm sido atribuídas às Cruzadas. Sem dúvida
que fortaleceram a autoridade moral dos papas, gasta pelos seus envolvimentos políticos nos
séculos anteriores. Aprenderam-se novas tecnologias. Os cruzados viram, pela primeira vez,
moinhos de vento, mas a maior parte da evolução tecnológicos foi militar. Os muçulmanos
aprenderam a utilizar a cota de malha dos cristãos, enquanto estes aprenderam sofisticados es-
tilos de arquitectura de castelos, nomeadamente as ameias e muralhas.

As Cruzadas tiveram impacto nas finanças públicas. As primeiras duas cruzadas parecem ter
tido pouca necessidade de receitas extraordinárias. Os exércitos viviam com o que retiravam

Capítulo 9 87/160
saqueavam e não existem quaisquer registos de impostos especiais. Isto alterou-se radical-
mente com a Terceira Cruzada. Frederico o Barba-Roxa e Filipe Augusto parecem ter-se con-
tentado com os seus recursos pessoais e com as ajudas dos barões, mas Ricardo I cobrou a
«taxa de Saladino» que o seu pai tinha estipulado. As Cruzadas de Frederico II e, sobretudo,
as de Luís IX, foram extremamente caras. Luís morreu em dívida para com os seus próprios
súbditos, os banqueiros genoveses e os cavaleiros templários.

Às Cruzadas atribuiu-se o reavivar do comércio entre o Leste e o Oeste, mas essas afirmações
são um pouco exageradas. Desde o período romano que o Oeste enviava escravos, produtos
florestais e soldados para o Oriente, em troca de têxteis de luxo e de especiarias e este comér-
cio continuou a existir, à excepção de breves períodos de hostilidade inspirada por rivalidades
políticas ou religiosas. Pisa, Génova e Veneza comerciavam activamente com os gregos e mu-
çulmanos já antes das Cruzadas. O ritmo deste comércio acelerou-se depois de 1100 mas tam-
bém aconteceu o mesmo com o comércio interno na Europa.

O papel dos cruzados nestas transformações não é, de modo algum, claro. Fizeram, sem dúvi-
da, com que fosse mais fácil para os ocidentais obter produtos da Palestina, mas esta não era
um dos grandes exportadores de materiais necessários ou desejados no Ocidente. Para especi-
arias, os ocidentais ainda recorriam a Constantinopla ou a Bagdade. Depois de 1100 o comér-
cio com os muçulmanos tornou-se muito arriscado, pois os estrangeiros eram frequentemente
expulsos e os seus bens apreendidos. No entanto, alguns italianos continuaram a comerciar
com Alexandria e Damieta, e no Cairo estabeleceu-se uma colónia de pisanos.

As Cruzadas fortaleceram a economia da Europa ocidental, ao aumentarem a disponibilidade


de dinheiro. A Europa ocidental não tinha grandes reservas de metais preciosos e, antes das
Cruzadas, exploravam-se apenas as minas de prata de Rammelsberg, na Germânia. Os cris-
tãos capturaram quantidades substanciais de moeda muçulmana na Palestina, na Espanha e na
Sicília. Como resultado, as cortes tornaram-se ricas e financiavam os mercadores urbanos, a
quem compravam artigos de luxo importados do Oriente, e as manufacturas que começavam a
desenvolver-se nas cidades europeias. O maior impacto das Cruzadas pode ter sido não a pro-
moção do comércio entre o Ocidente e o Oriente, mas a criação de uma base comercial capita-
lista na Europa do século XII, devido, em grande parte, à moeda muçulmana roubada.

As Cruzadas também têm sido consideradas responsáveis pelos entendimentos culturais entre
o Oriente e o Ocidente, mas não existem certezas. A cultura não era difundida mais rapida-
mente através dos conflitos militares. Os muçulmanos e os cristãos permaneceram separados
na Palestina. O saque de Constantinopla foi um desastre cultural do qual o pensamento oci-
dental nunca recuperou. Embora se tenham salvo alguns manuscritos, o facto de termos ape-

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nas pequenos fragmentos do corpus original de Platão, Aristóteles e dos dramaturgos gregos
testemunha a verdadeira a latitude do flagelo. A zona mais fértil do intercâmbio cultural era a
Sicília, sobretudo em relação aos conhecimentos médicos e farmacêuticos muçulmanos no
Ocidente. Também em Toledo os contactos entre muçulmanos e cristãos atingiram o auge.

A ESPANHA DURANTE A IDADE MÉDIA CENTRAL

Até aos finais do século VIII existiam duas zonas governadas pelos cristãos na península Ibé-
rica: o reino das Astúrias, que se considerava o herdeiro do reino visigodo, e Navarra. O rei de
Aragão, Afonso III o Grande, deslocou a capital de Oviedo para Leão, que passou a dar o
nome ao reino. A área fronteiriça a sudeste de Leão, povoada por muçulmanos e cristãos, era
terra-de-ninguém, e tornou-se no século X o condado de Castela. Os príncipes cristãos - as
principais figuras do século X foram a rainha Toda de Navarra e o seu genro e rival Fernando
Gonzalez, que governou Castela como conde – seguiram uma complexa politica dinástica que
os colocou em conflito uns com os outros, da mesma forma que com os muçulmanos.

MUDANÇAS EM AL-ANDALUS

O califado omíada enfraqueceu depois da morte do califa al-Hakim e caíu em 1031, suceden-
do-lhe vários pequenos Estados em constante competição (os reinos taifa). Os cristãos da Es-
panha do noroeste aproveitaram-se da situação para expandir as suas fronteiras para sul. Tole-
do caiu em 1085 para Afonso VI de Leão.

O avanço cristão foi travado pelos almorávidas, beduínos que seguiam o ascetismo, a rígida
aderência ao Corão e a prática da guerra santa. Yusuf ibn Tashfin, o fundador da nova dinas-
tia, travou o avanço cristão e, em 1106, já tinha subjugado toda a Espanha muçulmana, excep-
to Saragoça. Os almorávidas desencorajavam a vida cultural que tinha florescido sob os reis
taifa, perseguiram os cristãos e os judeus, bem como muitos dos seus novos súbditos, nomea-
damente os mercadores e intelectuais. Por volta de 1147, uma nova seita, os almóadas, que
consideravam os almorávidas tão heréticos como os cristãos, derrubaram o governo em Mar-
rocos e tomaram a maior parte dos territórios dos seus territórios. Os almóadas reconheceram
o califado abássida em Bagdade e, como resultado, assistiu-se ao primeiro interesse de Espa-
nha, desde o século IX, pela literatura e pensamento persa, grego e árabe.

Capítulo 9 89/160
DE TOLEDO A SEVILHA

Quando Fernando I morreu, Castela e Leão foram para diferentes filhos, mas em 1072 acaba-
ram por ser reunidas sob o filho mais novo, Afonso VI, o conquistador de Toledo. Afonso
promoveu a colonização e a formação de aldeias em volta dos mosteiros de Cluny. As cartas
(fueros), que influenciaram as que se davam no norte - é muito provável que o princípio «li-
berdade após um ano e um dia» tenha vindo da península Ibérica - estabeleceram conselhos
nas cidades com jurisdição sobre a área rural circundante. A maior parte deles resumiam-se a
comunas rurais, mas alguns tornaram-se verdadeiras cidades. Afonso promoveu a peregrina-
ção a Santiago, criando pontos de acolhimento e melhores estradas.

Afonso VI de Castela e Leão morreu sem deixar um herdeiro masculino. O seu neto, Afonso
VII, acabou por governar tanto Castela como Leão, chegando mesmo a tomar o título de im-
perador. Afonso VI proclamou Henrique da Burgúndia, o marido da sua filha bastarda Teresa,
conde de Portugal. O filho de Teresa e de Henrique, Afonso Henriques, declarou-se, em 1139,
rei de Portugal. Durante o seu longo reinado (até 1185), Portugal expandiu-se para sul, toman-
do Lisboa aos muçulmanos. Sob Afonso III, Portugal atingiu, sensivelmente, as suas frontei-
ras actuais. Portugal era mais homogéneo etnicamente do que Castela e Aragão, com poucos
muçulmanos e judeus. A Coroa era forte e a aristocracia menos poderosa.

O crescimento de Aragão foi mais lento do que o de Castela, mas, com Afonso I o Lutador,
que travou guerras constantes com os muçulmanos, quase duplicou o tamanho e tomou Sara-
goça, que se tornou a capital do reino. Tal como em Castela, os reis esperavam limitar os po-
deres dos nobres, utilizando os caballeros villanos e estabelecendo novas aldeias. Contudo, os
nobres de Aragão serviram-se da guerra civil no início do reinado de Afonso I para fortalecer a
sua posição, e este teve de reconhecer a hereditariedade dos domínios e títulos que detinham.
Assim, a nobreza de Aragão tornou-se mais forte do que a de Castela. Afonso I, que morreu
sem deixar um herdeiro, foi sucedido pelo seu irmão mais novo, Ramiro que, para contraba-
lançar a influência de Afonso VII de Castela e Leão, casou a sua filha Petronila com o conde
Ramon Berenguer IV de Barcelona. Este acordo permitiu a Ramon Berenguer exercer a sobe-
rania em Aragão até os seus filhos atingirem a maioridade.

Em 1212 um Exército unido de vários reinos da península Ibérica, auxiliado por algumas tro-
pas francesas, aniquilou o Exército almóada em Las Navas de Tolosa. Depois da morte de
Afonso, a conquista deslocou-se para sul. Os catalães tomaram Maioca, os aragões tomaram
Valência e os castelhanos Sevilha. Não tentaram capturar o único posto muçulmano restante,
Granada, talvez porque pagasse tributos consideráveis a Castela e constituísse um abrigo para

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os muçulmanos que estavam a ser expulsos das comunidades cristãs.

LEI, SOCIEDADE E ETNIA NA ESPANHA DO SÉCULO XIII

Os muçulmanos, conhecidos como os mudéjares, foram no século XI governados por cristãos,


mas o seu número aumentou dramaticamente no século XIII, levando a que os cristãos espa-
nhóis os começassem a expulsar, em vez de coexistir com eles. Ora, aos soldados castelhanos
tinham sido dadas quintas e eles mantiveram os muçulmanos como trabalhadores e arrendatá-
rios. Agora os muçulmanos começaram a ser expulsos, o que levou a que a terra de cultivo,
que no tempo muçulmano tinha sustentado uma agricultura diversificada, fosse entregue à cri-
ação de gado e a uma «monocultura cerealífera». A Andaluzia tornou-se, assim, uma região
de grandes quintas entregues à criação de animais. Castela desenvolveu uma exportação subs-
tancial de lã, sobretudo depois de Afonso X ter licenciado a Mesta, uma associação de criado-
res de ovelhas.

A conquista da Andaluzia reforçou a posição dos judeus no comércio e no crédito. Os gover-


nantes espanhóis ignoravam, de um modo geral, as restrições dos papas para evitar contacto
com os judeus. Consideravam-nos úteis e, geralmente, protegiam-nos.

Na Península Ibérica surgiram instituições representativas, as cortes, compreendendo os três


grupos do clero, da nobreza e da burguesia. Os reis utilizavam-nas para contrariar o poder dos
nobres. Estas instituições representativas não se estendiam ao sul, que tinha vastas populações
muçulmanas e judaicas. Por volta de 1300, as cortes castelhanas tinham estabelecido o direito
comum, mas não escrito, de aprovar novos impostos, apresentar petições ao rei e confirmar a
sucessão do trono; na verdade, em 1282, depôs Afonso X o Sábio, com base no seu descon-
tentamento com a centralização implícita no seu código de leis, o Siete Partidas. As cortes
castelhanas permaneceram mais fracas do que as de Aragão e da Catalunha.

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As transformações sociais e económicas da idade média central

O Sector Agrícola

Entre meados do século X e finais do século XIII a Europa teve uma expansão económica
sem precedentes. A população vinha a crescer desde que os germanos se estabeleceram em lo-
cais permanentes. A expansão foi, contudo, dificultada pelas pragas intermitentes ao longo de
grande parte do século VI, pelas invasões do século IX e pelas alterações climáticas nos finais
do século VIII e IX, que originaram inundações e Invernos rigorosos e encurtaram a estação
de gestação das culturas. Cada um destes problemas foi ultrapassado depois de 950.

O crescimento demográfico é difícil de medir. À excepção do Doomsday Book inglês, a maior


parte dos números que nos chegaram reportam-se a pequenas áreas ou até a propriedades indi-
viduais. As tentativas para calcular a população total da Europa são demasiado variáveis e
inexactas para poderem ter algum significado. Além disso, a maior parte das fontes são listas
de chefes de família que devem ser corrigidas para se chegar a uma ideia sobre o número dos
dependentes. Fontes sugerem que as pessoas com menos de 15 anos de idade constituíam cer-
ca de 40% da população total. A quantidade de homens ou mulheres no total da população va-
riava: parece ter existido uma predominância de homens nas áreas rurais e de mulheres nas
zonas urbanas, mas este padrão não se verifica em todo o lado.

A ALDEIA

A expansão demográfica da Idade Média Central e o crescente poder dos senhores para altera-
rem os costumes locais criaram a aldeia nucleada a partir de aldeolas dispersas, facilitando o
desenvolvimento de feudos. A maior parte das aldeias do início da Idade Média que nasceram
de aldeolas tinham ruas irregulares, mas aquelas que foram fundadas na Idade Média Central
eram frequentemente regulares, tendo a forma circular, rectangular ou estavam organizadas
em redor de uma praça central. Depois de 1100, e sobretudo nos séculos XIV e XV, os senho-
res muitas vezes impunham os seus próprios planos das aldeias, reestruturando-a em torno da
casa senhorial. O núcleo da aldeia era, usualmente, a rua principal, com as casas dos agricul-
tores, a igreja da paróquia (embora, nas novas aldeias, esta se pudesse encontrar nas zonas li-
mítrofes), os edifícios do senhor, um lago ou um poço e um campo onde se apascentavam os

92/160 Capítulo 10
animais. As ruas laterais conduziam aos campos de cultivo que se situavam nos arredores.

No século XII, o feudo e a aldeia eram, normalmente, um mesmo território, embora isso não
se verificasse em todos os casos. A administração das propriedades do senhor tornou-se mais
sistemática do que anteriormente, apesar de a maioria deles nomear delegados ou meirinhos
que podiam agir tanto nos seus próprios interesses como nos do senhor. Por volta do século
XII, os senhores obtinham rendimentos consideráveis das banalités (monopólios derivados
do seu poder bannum): os arrendatários eram obrigados a utilizar os moinhos, as padarias e
as fábricas de cerveja do senhor, tendo de pagar taxas de utilização ou uma parte dos bens
produzidos pelas máquinas do senhor. À medida que se requisitavam menos serviços de mão-
de-obra aos arrendatários, na reserva ou nas terras, os senhores tinham de contratar assalaria-
dos para cultivar as terras. Isto levou-os a utilizar técnicas administrativas mais complexas e
a manter registos mais exactos. Esta mudança também for impulsionada pela prática cada vez
mais frequente de colocar a aldeia sob leis ou costumes escritos.

A CASA CAMPONESA

A cabana afundada, que tinha sido utilizada na Alta Idade Média para a indústria leiteira e ar-
mazenamento de produtos, deixou de ser utilizada, em parte porque muitos dos agricultores
mais prósperos, que podiam custear edifícios exteriores, incluíam agora celeiros e estábulos
separados. Além disso, a manufactura, nomeadamente de tecidos finos, que tinha estado loca-
lizada nessas cabanas, deslocou-se para as cidades. As únicas excepções eram o fabrico de ali-
mentos e o trabalho dos ferreiros. A casa unitária, onde as actividades da família se desenrola-
vam sob um mesmo tecto, tornou-se comum. A maioria delas tinha duas salas, uma para os
humanos e outra para os animais. Algumas, todavia, não tinham separação entre elas e os ocu-
pantes confinavam com os animais. A câmara comum surgiu primeiro no norte da Germânia,
espalhando-se depois às outras zonas da Europa.

A maioria das casas dos camponeses tinham janelas cobertas por pergaminho ou peles. Antes
do século XIV era raro verem-se vidros nas janelas. Até as paredes serem constituídas com
materiais resistentes ao fogo, tinha de se colocar, no centro da casa, lareiras para aquecimento
e para cozinhar. Isto criava o problema de fumo e de aquecimento, uma vez que o fumo tinha
de sair através de um buraco no telhado. A chaminé de parede, que tinha um cano duplo para
levar o ar até ao fogo e o fumo para foi a da casa, tornou possível aquecer vários andares. A
chaminé de parede desenvolveu-se em França e espalhou-se depois por Itália e Inglaterra.

Capítulo 10 93/160
A maior parte das casas na Idade Média Central eram construídas com materiais inflamáveis e
o problema do fogo era agravado pela prática de cobrir o chão com palha. A pedra só era utili-
zada nas casas dos aldeões mais ricos, mas os blocos de barro com ervas encontram-se em al-
gumas zonas, sobretudo nas mais a norte. Na Alta Idade Média, a maioria das casas dos cam-
poneses eram construídas com madeira, em estruturas de «cabanas de troncos» ou utilizando
tábuas unidas umas às outras. Grande parte delas tinha uma estrutura de troncos ou vigas en-
trecruzadas, com as fendas tapadas com lama ou barro. Todavia, por volta do século XIII, a
madeira tornou-se tão cara que as casas começaram a construir-se com pedra, sobretudo em
França. Um grande avanço foi o fabrico de tijolos, que começou no norte da Noruega e na
Ânglia de leste, em meados do século XII, espalhando-se pelas regiões costeiras. Algumas ci-
dades mantinham, por volta de 1300, as suas próprias fábricas de tijolos e de pedras de pavi-
mento e as suas próprias pedreiras. A maioria dos telhados da Alta Idade Média eram feitos
com matérias vegetais, uma vez que a pedra e o barro eram demasiado pesados. Os pilares,
apoiados numa base de pedra, foram, gradualmente, substituindo os postes de madeira. Até ao
século XIV não eram utilizadas telhas senão nas cidades, mas depois dessa altura tornaram-se
comuns. No sul da Europa as casas tinham sótãos baixos e uma ligeira inclinação no telhado,
enquanto que no norte os sótãos eram altos e os telhados mais inclinados.

TECNOLOGIA AGRÍCOLA E ROTINAS DO CAMPO

Alguns historiadores atribuíram o aumento de população a uma longa conversão da agricultu-


ra de dois campos para três campos no norte da Europa, durante a Idade Média Central. Se
dois terços de uma dada área, e não metade, fossem sempre cultivados, com a parte restante
em descanso e utilizada para apascentar animais, que a iam fertilizando com os seus excre-
mentos, a produção de colheitas deveria aumentar cerca de 50 %. No entanto, a sementeira da
Primavera era maior do que a de Outono nas propriedades carolíngias. O facto de serem se-
meadas duas ou três colheitas parece ter sido determinado por costumes locais e por condi-
ções climáticas e não tanto por uma decisão consciente. Muitos locais em Inglaterra, que é
frequentemente encarada como o coração dos campos abertos sem vedações e da forma agrí-
cola das aldeias nucleadas, tinham dois campos, coexistindo por vezes com três. O desbrava-
mento de terras poderia adicionar um terceiro campo à estrutura de dois campos, mas os casos
de conversão deliberada para rotação de colheitas eram raros.

As transformações na tecnologia agrícola tiveram um papel importante. O arado de relhas


continuou a ser utilizado nos solos arenosos do Mediterrâneo, mas no norte existem inúmeras

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provas do arado de rodas. Pelo menos até ao século XII, a maioria dos arados, que tinham es-
tes equipamentos, eram leves e a relha tinha apenas um dente de ferro e não uma lâmina com-
pleta. Depois disso, os arados tornaram-se bastante mais pesados, à medida que a exploração
mineira do ferro se desenvolvia. O arado «nórdico» era puxado por uma parelha de bois e, por
vezes, de cavalos. Os cavalos são mais ágeis e inteligentes, mas comem mais do que os bois e
não tem tanta força. Depois da expansão da ferradura da Ásia para o Ocidente, no século X,
os cavalos passaram a ser utilizados nos Países Baixos e em partes da Inglaterra de Leste
como animais de arado, mas nunca substituíram os bois.

Um importante avanço foi o desenvolvimento, por volta do ano 800, da canga. Ilustrações da
Alta Idade Média mostram os animais presos por um cabresto que lhes cortava a respiração,
impedindo-os de puxar uma carga pesada durante muito tempo. A canga transferia o peso do
arado para a cernelha do animal, permitindo-lhes puxar arados mais pesados durante mais
tempo. Com a canga veio a prática de prender os animais um ao lado do outro, em vez de
numa única fila à frente do arado. As aldeias reuniam muitas vezes os seus recursos para com-
prar e manter parelhas de arados de seis a oito bois. Cada aldeão tinha tiras de terreno em cada
campo, para que ninguém ficasse de fora devido ao sistema de rotação. A lâmina do arado
«nórdico» criava padrões estriados no solo, que ainda hoje se praticam em alguns locais. Em-
bora o feudo se desenvolvesse mais em áreas planas, os «campos» consistiam, geralmente, em
vários segmentos lavrados em ângulo, em relação uns aos outros, de modo a minorar a erosão
e a um melhor aproveitamento topográfico. As mudanças eram lentas em zonas com este tipo
de prática agrícola de comunidade, uma vez que o indivíduo tinha de se subordinar às necessi-
dades da aldeia. Os limites do campo, as rotinas de arado e outros assuntos de interesse co-
mum eram regulamentados por leis ou costumes. Embora os laços da maioria dos aldeões
com o senhor viessem a diminuir durante a Idade Média Central, permaneceram vinculados às
práticas agrícolas comuns da aldeia.

Os campos abertos da maior parte das aldeias eram cultivados com cereais, que se davam me-
lhor em condições adversas e se transportavam mais facilmente. Os vegetais cultivavam-se
em volta das casas, apesar de o cultivo de legumes em campos abertos ter aumentado lenta-
mente depois de 1200. Os dados sobre a produção de cereais são inconclusivos, mas o que foi
publicado sugere que a produtividade aumentou mais lentamente do que a população. A pro-
dução era muito baixa e os agricultores tinham de separar uma parte substancial das colheitas
para usarem como semente na estação seguinte. A produção parece ter aumentado de cerca de
2 ou 3 por 1, em relação à maior parte dos cereais no período carolíngio, para 3 ou 4 por 1 no
século XII. A produtividade também foi aumentada pela divulgação dos moinhos. Os moi-

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nhos de água existiam em quase toda a Europa. Os grandes mosteiros da Gália, que possuíam
os recursos financeiros e a mão-de-obra necessária para construir grandes moinhos, foram
cruciais para a divulgação do seu uso. O Doomsday Book dá conta de mais de 5000 moinhos
de água em Inglaterra. O moinho de água tinha aplicações industriais e agrícolas óbvias. À
parte a drenagem, o moinho foi utilizado para a amassagem desde finais do século XI na Nor-
mandia. Tinha martinetes para bater a terra utilizada para amaciar os tecidos de lã. O moinho
de tratamento de peles, que triturava a casca de árvore necessária para o curtimento, apareceu
em meados do século XII e a serra hidráulica no século XIII.

A EXPANSÃO DOS TERRENOS DE CULTIVO

Até final do século XII o crescimento da população foi acompanhado pelo aumento de terras
cultiváveis, como consequência do desbravamento de florestas e drenagem de pântanos. A ex-
pansão das áreas cultiváveis assumiu duas formas. De início, a maior parte dos desbravamen-
tos eram iniciativa de agricultores individuais que precisavam de mais terra. Os novos terre-
nos, desbravados na orla das aldeias ou dos campos eram pequenos e acabaram por ser incor-
porados nos campos das aldeias. Os senhores tinham todo o interesse em ver mais terrenos
desbravados e ofereciam condições favoráveis de arrendamento, incluindo muitas vezes ren-
das fixas, aos agricultores que conseguissem limpar ou drenar a terra e lavrá-la.

A segunda forma de expansão das zonas aráveis consistia na fundação de aldeias planeadas ou
«novas cidades», nomeadamente a partir do final do século XI. Os príncipes e outros senho-
res, tanto temporais como espirituais, ofereciam cartas de liberdade para levar os colonos a
desbravarem terras e a estabelecerem-se nelas. Os contratos de pariage eram frequentemente
feitos entre os príncipes laicos que tinham o poder bannum e, por conseguinte o direito de
conceder liberdades, e as instituições eclesiásticas, que podiam promover a nova aldeia por
entre os arrendatários das suas casas. Os sócios partilhavam os lucros da pariage. Estas activi-
dades eram especialmente atractivas para os forasteiros que não tinham terras suficientes nas
suas aldeias de origem para conseguirem sustentar uma família e, assim, procuravam oportu-
nidades noutros locais. Muitas igrejas promoveram activamente a colonização. As abadias
cistercienses compravam terras e administravam-nas utilizando irmãos laicos e trabalhadores
assalariados. Em alguns locais, nomeadamente no norte de Inglaterra, despovoaram-se aldeias
para arranjar espaço para as ovelhas, tendo em vista a procura de lã nas cidades.

A fundação de povoações chegou à Europa central meio século depois de ter começado na
Europa ocidental. Eram particularmente numerosas no Leste durante os anos de 1190, tendo

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aumentado ao longo do século XIII. Em Inglaterra, quando se fundava um burgo dentro de
um feudo os rendimentos do senhor aumentavam substancialmente com as rendas adicionais
e, sobretudo no século XIII, com as multas judiciais. Praticamente todas as novas aldeias que
recebiam cartas de foral tinham o direito de constituir feiras e aos mercadores era-lhes conce-
dida isenção de portagem e oferecido um salvo-conduto. A maioria das cartas de foral funda-
doras interessavam apenas aos agricultores, pois regulamentavam o governo do senhor local,
mas não concediam autodeterminação à povoação. Ambos os aspectos contrastavam com as
genuínas cartas de foral das cidades, que só aparecem mais tarde no processo evolutivo.

As cartas estabeleciam frequentemente rendas de fundo, cujo valor facial permanecia fixo e
hereditário. Algumas concediam a mesma renda fixa a terras adicionais que os habitantes ad-
quirissem: era um encorajamento para que os arrendatários desbravassem mais terras. As roti-
nas agrárias, as rendas de alimentos e o controlo dos animais eram regulamentados. A obriga-
toriedade de um imposto sobre cabeça terminou, na maioria dos casos, pois era considerado
uma marca de servidão. Os serviços laborais dos arrendatários estavam, de um modo geral,
restringidos às épocas de sementeira e colheita, sendo o trabalho extra substituído por uma
renda em dinheiro. Os aldeões tinham o direito de vender a sua propriedade e de abandonar a
aldeia sem o consentimento do senhor, desde que não fossem acusados de crime. Por fim,
aqueles que tivessem residido na comunidade por um ano e um dia sem terem sido reclama-
dos pelo senhor como servos, ou pelo tribunal como estando sob uma acção judicial, tinham o
direito de ficar permanentemente na aldeia. Esta medida teve origem na fundações de aldeias
em Espanha e espalhou-se depois para muitos outros locais.

As aldeias privilegiadas eram locais mais desejáveis para se viver e muitos locais que tinham
sido fundados anteriormente compravam as cartas aos senhores por elevados preços. Assim, e
à excepção da Inglaterra, na Idade Média Central as distinções importantes passaram a ser en-
tre as aldeias com alvará ou não, em vez de ser entre pessoas livres e não livres.

As novas aldeias não estavam organizadas segundo uma base «feudal» tradicional, que tinha
ido de encontro às necessidades dos senhores num período com menos população e menos
mercados, onde os senhores arranjavam mão-de-obra para as suas reservas vinculando os tra-
balhadores à terra. Uma vez que a maior parte dos serviços eram avaliados pela unidade de
terra e não pela pessoa, os arrendatários podiam enviar um membro da família para desempe-
nhar «trabalho semanal», enquanto os restantes trabalhavam nas terras da família. A emanci-
pação de servos em relação aos serviços laborais foi uma consequência das mudanças orgâni-
cas dentro da economia. De facto, os servos vendiam o seu trabalho no desbravamento de ter-
ras em troca de alvarás que lhes dessem liberdade e determinados privilégios. A servidão esta-

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va, no século XII, praticamente extinta nas zonas governadas por grandes senhores, tais como
a Normandia, a Burgúndia e a Flandres. No Midi francês, em Dauphiné e nas regiões alpinas,
na Provença e na Itália central, a servidão resistiu ao longo de toda a Idade Média.

AS CONSEQUÊNCIAS SOCIAIS DA EXPANSÃO ECONÓMICA RURAL

À medida que as rendas em géneros se transformavam em rendas em dinheiro, durante o sécu-


lo XII, tornando-se fixas, o valor real das despesas dos camponeses diminuiu. Os agricultores
orientavam a produção para os mercados e para as cidades em desenvolvimento, que precisa-
vam de grandes abastecimentos de comida. Com o crescimento da população havia, no entan-
to, cada vez mais agricultores com falta de terra suficiente para sustentar uma família. En-
quanto o crescimento populacional colocava algumas famílias nobres em relativa penúria, os
costumes de heranças regionais podiam determinar o destino das famílias camponesas. À ex-
cepção dos feudos, que normalmente passavam para o filho mais velho, a primogenitura não
era comum senão em Inglaterra e, em muitos locais as filhas e os seus maridos herdavam tal
como os filhos homens. Nas zonas onde o filho mais velho ou o mais novo herdava toda a
propriedade, os outros irmãos subalugavam-lhes uma parte ou pagavam uma soma ao senhor
para obterem permissão para se irem embora. Tornavam-se trabalhadores rurais semimigrató-
rios ou então iam para as cidades. Nestas zonas desenvolveu-se uma classe superior e inferior
dentro do grupo dos camponeses. Por volta dos finais do século XIII, as aldeias tinham, de um
modo geral, uma pequena classe alta, que controlava a maioria das actividades administrativas
locais, agindo, por vezes, em nome do senhor ou do príncipe. Existia um grupo intermédio de
proprietários prósperos, que constituíam um quarto ou um terço dos habitantes da aldeia, que
tinham terra suficiente para sustentar uma família e produzir ainda alguns excedentes para co-
mercializar. Os restantes viviam no limiar da subsistência, tendo de complementar os seus
rendimentos com a execução de outros trabalhos. As heranças partilhadas, pelo contrário, dei-
xavam muitas vezes todos os herdeiros sem meios adequados de subsistência. O mercado de
terras no século XIII tornou-se muito activo, numa altura em que os agricultores tentavam
consolidar a posse das terras que tinham sido divididas pelas heranças. As cidades tendiam a
desenvolver-se em áreas de heranças partilhadas, uma vez que a subdivisão de terras signifi-
cava, frequentemente, que nenhum deles conseguiria sobreviver sem comprar as partes dos
outros e, como tal, muitos agricultores tinham de procurar trabalho no sector urbano.

Assim, durante a Idade Média Central, o estatuto social era menos importante entre os campo-
neses do que os factores económicos. A distinção entre livre e não livre não tinha tanto signi-

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ficado como tinha a terra que o agricultor detinha, a disponibilidade de mercado para os exce-
dentes e as suas obrigações contributivas. Os servos permaneciam sujeitos a serviços e a pa-
gamentos senhoriais que as pessoas livres não deviam, enquanto os homens livres estavam
obrigados a exigências que lhes eram impostas, tais como os impostos e o serviço militar.

MEIO SÉCULO DE CRISE: 1175-1225

Apesar de não possuirmos valores exactos, a expansão das áreas dentro dos limites das mura-
lhas e da fortificação dos subúrbios sugerem que as populações de muitas cidades quadrupli-
caram entre 1000 e l300. A maior parte dessa expansão deu-se depois de 1150: antes disso o
aumento populacional tinha sido absorvido pelo sector agrário. A partir do último quartel do
século XII, o aumento das cidades originou uma grande procura de cereais, aumentando os
preços dos alimentos. Os principais beneficiários foram os grandes proprietários que tinham
um maior excedente do que os camponeses, mesmo os mais abastados. A partir de 1175, os
senhores tentaram extrair o máximo possível de cereais das suas reservas e das rendas em
grão dos seus rendeiros. Os camponeses que ainda estavam sujeitos a serviços laborais não ti-
nham possibilidade de os comutar por dinheiro, tentando os senhores, com vários graus de su-
cesso, tornar a impor-lhes os serviços laborais, cujos antepassados se tinham evadido. A situa-
ção era mais grave em Inglaterra, onde a taxa de inflação era mais elevada do que no conti-
nente; a Inglaterra, durante o século XIII, tinha a mais alta incidência de servidão da Europa
ocidental.

Assim, enquanto as mudanças económicas do período anterior a 1175 beneficiaram principal-


mente os camponeses, agora a situação favorecia os senhores. À medida que a população con-
tinuava a aumentar, durante o século XIII, a maior parte da terra adicional que era desbravada
situava-se em áreas pouco férteis que não eram apropriadas para a agricultura. Sobretudo em
Itália, as maiores densidades populacionais verificavam-se, por vezes, em zonas de colinas,
menos sujeitas a inundações do que os vales dos rios, mas também menos férteis. A expansão
para terras mais pobres foi apenas parcialmente compensada pelos desenvolvimentos das tec-
nologias agrícolas, tal como o uso de arados mais pesados.

O SOBREAQUECIMENTO DA ECONOMIA EUROPEIA, 1225-1275

A situação dos camponeses piorou gradualmente durante o século XIII. O excesso populacio-
nal deu vantagem aos que possuíam terra. Embora as rendas, os salários e as margens de lucro

Capítulo 10 99/160
tenham aumentado entre 1100 e 1250, daí em diante os salários reais estagnaram e, em alguns
casos, declinaram, enquanto as rendas subiram devido à crescente procura de terras originada
pelo aumento populacional. Por volta de 1300, a expansão contínua para zonas sub povoadas
só era possível nas áreas germano-eslavas da Europa de Leste. Muitos agricultores viam-se
obrigados a emigrar para as cidades, que, por sua vez, ficavam sobrepovoadas, ou a comple-
mentar os seus rendimentos com trabalhos para os senhores ou para outros aldeões. Muitos,
especialmente as mulheres, arranjavam trabalhos em part-time independente ou assalariado. A
fiação era uma ocupação maioritariamente feminina e rural, exercendo-se também nas áreas
rurais grande parte da pisoagem. Os senhores serviam-se da falta de terras para impor obriga-
ções económicas mesmo às aldeias livres. Só em raras situações é que as cartas concediam
aos aldeões o direito de se governarem a si próprios totalmente. No final da Idade Média, as
multas e os honorários consistiam na maior parte dos rendimentos de muitos senhores, em de-
trimento das rendas de terras.

Alguns senhores impunham impostos fixos por pessoa. Além disso, os senhores não emanci-
pavam aldeias indiscriminadamente: mais facilmente emancipavam as grandes populações
que não se podiam controlar facilmente e as aldeias dispersas. Estavam menos inclinados a
emancipar as aldeias mais pequenas, que se localizavam perto do centro dos seus domínios.

As rendas fixas, que eram concedidas pela maioria das cartas das aldeias, tinham, inicialmen-
te, prejudicado os senhores, pois tinham sido influenciadas pela inflação. Estes tentaram obter
dinheiro fomentando o desbravamento de novas terras e pela oferta de estímulos que se reve-
lassem necessários para arranjar rendeiros para elas. De um modo geral, até ao último quartel
do século XII, obtiveram mais rendas do que anteriormente, mesmo considerando a inflação.

Os senhores também puderam, no século XIII, corrigir alguns estragos causados pelas conces-
sões de rendas perpétuas generosas dos seus antepassados. À medida que as famílias se extin-
guiam, os senhores podiam voltar a ceder terras a arrendatários, mas com rendas mais eleva-
das e apenas por um limitado número de anos. Por volta do século XIV, muitas aldeias tinham
já dois tipos de rendas: as rendas fixas sobre terra mais antiga, perto do centro da aldeia, e as
propriedades arrendadas a termo, nos arredores e que deviam rendas mais elevadas. Mesmo
quando as rendas sobre a terra eram fixas por costume e não podiam ser aumentadas, as taxas
de entrada, que eram pagas quando um herdeiro tomava posse, não estavam sujeitas a tais res-
trições, subindo, rapidamente no final do século XIII.

No século XIII existiu algum reavivamento da servidão, encorajado não apenas pela pressão
demográfica mas também pelo desenvolvimento das leis A maioria das cartas das aldeias não
tinham abolido completamente os serviços laborais e os pagamentos, pelo que os doutores de

100/160 Capítulo 10
leis re-introduziram a servidão e os pagamentos inerentes: as heranças, os bens de mão-morta
(obrigações de herdeiros em darem ao senhor o melhor animal da propriedade do defunto), os
pagamentos quando um servo casava com um dependente de outro senhor e o imposto de ca-
beça, particularmente pesado na Alemanha. Mesmo para aqueles que tinham a sorte de manter
consideráveis lotes de terra, o declínio dos rendimentos tornou-se no século XIII um verdadei-
ro problema, uma vez que o solo começava a ficar exausto, pois continuava-se a cultivar qua-
se exclusivamente cereais. A terra de cultivo menos produtiva, que era normalmente aquela
que tinha sido desbravada em último lugar, estava, por volta de 1270, a ser transformada em
pasto ou em terra para madeira. No noroeste da França adoptou-se um regime agrícola mais
flexível: os campos eram cultivados continuamente ao longo do ano. Nos campos que perma-
neciam em pousio, cultivavam-se forragens. No século XIII, os rendimentos subiram abrupta-
mente nestas áreas, permanecendo elevados ao longo de todo o período medieval.

A VIDA URBANA NA IDADE MÉDIA CENTRAL

A Europa durante a Idade Média Central desenvolveu uma verdadeira vida urbana e, por volta
de 1100, existiam grandes cidades no norte. A maior parte delas eram mercados agrícolas que
possuíam alguma manufactura. Por volta de 1200 o mapa urbano da Europa estava pratica-
mente completo. A maioria das cidades eram «orgânicas», tendo evoluído a partir de planos
irregulares de ruas sobre locais romanos ou em volta de abadias ou de castelos de príncipes,
mas algumas desenvolveram-se a partir de novas aldeias a quem tinham sido concedidas car-
tas de formação pelos seus senhores. As «novas cidades» constituíam um elo jurídico e eco-
nómico entre a expansão da economia agrária e o desenvolvimento da vida urbana, devido a
algumas características dos seus forais, tais como a liberdade para migrantes depois de terem
residido na cidade por um ano e um dia, e o direito de se libertarem de propriedades sem te-
rem de pedir a autorização do senhor. A presença de um bispo atraía os comerciantes de longa
distância. Os tribunais dos príncipes eram importantes para a protecção. Depois do ano 1000
existiam canais, e a maior parte do tráfico para o interior era feita em barcaças planas, conse-
guindo movimentar-se grandes quantidades de mercadorias entre os vários centros urbanos.

Os mercadores eram, por definição, ambulantes, mas tinham de passar a noite em algum lado,
o que fomentou o desenvolvimento de povoações ao longo dos principais rios. Os «núcleos
pré-urbanos» incluíam, assim, três tipos de pessoas: os consumidores ricos que viviam dentro
da fortificação; os comerciantes de longa distância que providenciavam os produtos de luxo
que eram pedidos pelos primeiros, mas que tinham de se ausentar durante grande parte do

Capítulo 10 101/160
ano; e um grupo de pessoas de suporte, desde negociantes de alimentos a artesãos de peque-
nos artigos, que providenciavam mais produtos e serviços mundanos, tanto para os habitantes
do «castelo» como para os mercadores. Muitas pessoas dos dois grupos produtivos viviam em
subúrbios, sem fortificações, fora do castelo ou da muralha romana.

Os núcleos pré-urbanos eram comerciais por natureza e não industriais. Essas povoações esta-
vam, geralmente, localizadas em zonas onde a oferta e a procura se cruzavam: um excedente
agrícola podia ser vendido a uma população que necessitava dele ou, um pouco mais tarde,
onde uma grande população com necessidade de trabalho podia obter matérias-primas utilizá-
veis na indústria. Praticamente todas as cidades, mesmo aquelas com comércio de longa dis-
tância ou indústria, funcionavam como mercados para os excedentes agrícolas das zonas limí-
trofes. Os mercadores urbanos também transportavam comida, sobretudo cereais, para áreas
onde faziam mais falta, vendendo-os nesses mesmos locais.

A maior parte das povoações comerciais do norte da Europa desenvolveram-se em rotas ter-
restres e ao longo de rios que davam acesso ao interior agrícola. Nos rios fizeram-se moinhos,
não só para a moagem de cereais, mas também para servirem as indústrias, tais como a de pi-
soagem e a de curtumes.

As cidades ofereciam preços elevados pelos produtos agrícolas. Parecem ter promovido, ini-
cialmente, a emancipação dos camponeses que viviam perto delas, uma vez que a grande pro-
cura de cereais fazia com que os preços subissem, beneficiando os agricultores, cujas rendas e
outras obrigações eram expressas em termos monetários fixos. No entanto, a produtividade
dos cereais era tão baixa que apenas os agricultores com grandes quantidades de terras conse-
guiam produzir excedentes suficientes para compensarem o transporte até uma cidade distan-
te. No século XII, algumas cidades já importavam cereais de regiões bem mais distantes do
que os seus arredores. As grandes cidades flamengas obtinham cereais do norte de França e,
mais tarde, do Leste germano-eslavo, enquanto as cidades do norte da Itália obtinham os seus
mantimentos da Sicília, de outras ilhas costeiras e do norte de Africa. Os mercadores de ali-
mentos contavam-se entre as pessoas mais ricas das cidades.

A INDÚSTRIA URBANA

Em praticamente todas as cidades desenvolveu-se primeiro o comércio e só depois a indús-


tria. Durante a Alta Idade Média, a maioria das manufacturas eram primitivas e executavam-
se em propriedades rurais. Isto começou a alterar-se no século XI, à medida que a evolução
tecnológica tornava possível a manufactura de uma mais vasta variedade de bens de consumo.

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Os pequenos artesãos que produziam para um mercado local viviam nas ruas laterais às prin-
cipais vias públicas e os artesãos que produziam em maior volume estabeleceram-se perto do
centro. Segundo um padrão que era ditado por considerações sanitárias, as actividades que ne-
cessitavam de água, tais como os tintureiros, os curtidores e os cervejeiros, estabeleciam-se ao
longo dos numerosos canais que percorriam a cidade e que chegavam mesmo a estender-se
até à periferia. Os talhantes e os vendedores de peixe estavam localizados nas áreas centrais
devido à necessidade de vender os produtos deterioráveis com que lidavam, enquanto os tece-
lões se encontravam, de um modo geral, nos subúrbios, mais afastados da água.

A prosperidade de muitas cidades baseava-se na manufactura de finos tecidos de lã, mas a


verdadeira extensão do comércio têxtil nas cidades da Europa medieval tem sido, de algum
modo, exagerada, sobretudo no período anterior a 1200. Mesmo em alguns dos maiores cen-
tros têxteis, como Ghent, os trabalhadores de curtumes estabeleceram-se primeiro que os tece-
lões, pois os germanos envergavam peles e utilizavam vestes de couro. Além disso, a tecela-
gem de lã não constituiu uma indústria caracteristicamente urbana senão após o século XI. Os
teares verticais primitivos, semelhantes aos utilizados pelos romanos, eram utilizados nas pro-
priedades rurais e algumas famílias de camponeses tinham como obrigação fornecer tecidos
como parte das suas rendas. O tear vertical era operado manualmente, sobretudo por mulhe-
res, e só podia ser utilizado por um trabalhador de cada vez, limitando o tamanho do tecido às
dimensões da estrutura. No século XI desenvolveu-se o tear horizontal no noroeste da Europa,
começando talvez por surgir na Champanha. Era operado normalmente por dois ou três ho-
mens e produzia um tecido mais longo e denso. Os gostos dos consumidores afastaram-se dos
linhos, que tinham dominado os tecidos até ao século XI, para se aproximarem das lãs. Por
fim, os abastecimentos de lã de grande qualidade tornaram-se cada vez mais abundantes. Ter-
ras que anteriormente tinham estado abandonadas, sobretudo ao longo da costa do mar do
Norte, foram utilizadas como pastos antes de serem convertidas em terras aráveis. Aldeias in-
teiras no norte de Inglaterra foram despovoadas para criarem pastos para ovelhas.

A SOCIEDADE E O GOVERNO URBANO NA IDADE MÉDIA CENTRAL

A maioria das cidades, que não foram fundadas deliberadamente pelos seus senhores, ganha-
ram privilégios através das associações de habitantes. Enquanto as cartas normais para «novas
cidades» reconheciam simplesmente os direitos dos indivíduos e da cidade nas relações com o
senhor, as povoações maiores também recebiam direitos limitados de autodeterminação. Os
seus forais eram, de um modo geral, mais específicos em relação à avaliação e cumprimento

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das dívidas e à abolição do duelo judicial (?), que tinha sempre funcionado para vantagem dos
nobres nos litígios com os homens da cidade. Os locais com maiores liberdades eram, por ve-
zes, chamados «comunas», porque neles eram formadas associações de habitantes que pos-
suíam um objectivo comum. Algumas comunas flamengas ou do norte da França tinham o di-
reito de exercer vingança colectiva sobre quem quer que atingisse um membro seu e não o
corrigisse devidamente. A palavra «comuna» não é utilizada para todos os locais com autode-
terminação, nem todas as «comunas» eram associações revolucionárias. Por vezes a comuna
funcionava como uma associação de paz; o senhor da cidade confirmava o costume local e ga-
rantia o direito da comunidade em escolher os seus próprios funcionários, em dirigir um tribu-
nal, ter um tesouro público e, ocasionalmente, legislar com a autorização do príncipe. Em al-
gumas cidades, o estatuto de membro de uma associação parece ter estado limitado aos habi-
tantes mais ricos, mas, na maioria delas, englobava todos os cidadãos do sexo masculino.

A maior parte das cidades eram dominadas por uma oligarquia de mercadores ricos, embora a
veracidade desta afirmação estivesse dependente do tamanho da cidade e do grau de diferenci-
ação económica dentro dela. Particularmente nas cidades que tiveram origem no território de
um bispo, os ministeriales e os proprietários de terra nobres faziam parte da elite, apesar de
muitos deles terem acabado por se dedicar ao comércio. O termo «patrício» é, por vezes, utili-
zado para referir um grupo governativo da cidade, mas tem um significado mais preciso: um
grupo de «pais» (patres), cujas famílias possuíam alódios dentro da cidade e não apenas as ca-
sas e os estabelecimentos. Sobretudo nas cidades do norte da Europa, este grupo tinha privilé-
gios especiais. O elemento nobre era mais forte nas primeiras cidades de Itália, Espanha, da
França mediterrânica e da Germânia, mas em lado algum estava completamente ausente.

Na Germânia, a vida urbana teve início nas antigas cidades romanas da Rhineland, que eram
centros de bispados. Algumas dessas cidades serviam-se das lutas dos bispos com os imperadores
Henrique IV e V como pretexto para a rebelião, aliando-se a quem quer que lhes prometesse
mais. Da mesma forma, por volta do início do século XII, a maioria delas já tinham atingido,
pelo menos, um reconhecimento limitado enquanto comunas.

A mais bem documentada cidade germana deste período é Colónia. Embora no início do sécu-
lo XII a comuna e o arcebispado escolhessem, cada um, alguns funcionários, por volta de 1200 a
oligarquia de mercadores do Richerzeche (clube rico) ou meliores (os melhores) era de tal forma
dominante que os órgãos normais do governo da cidade perdiam importância ao lado dela. Ha-
via um colégio de scabini (Schõffen, os que procuram leis), que eram, originalmente, funcionários
do senhor da cidade.

Na maioria das cidades do noroeste da Europa, excepto na Germânia e na Flandres, os scabini

104/160 Capítulo 10
foram substituídos por jurati ou jurés, homens ajuramentados que eram funcionários da asso-
ciação da cidade. Por vezes, os melhores governavam directamente enquanto grupo, mas em
situações normais controlavam apenas o colégio dos procuradores de leis. Nas cidades fla-
mengas, as oligarquias que controlavam a associação tomavam simplesmente o controlo sobre a
comissão de procuradores de leis, alterando primeiro o número e mudando depois a sua com-
posição. Em zonas dos Países Baixos, os procuradores de leis detinham um poder mais efectivo.

Na Germânia, no final do século XII e início do século XIII, os procuradores de leis eram substituí-
dos por um conselho que exercia o controlo real Embora os procuradores de leis lutassem para
não serem absorvidos pelos conselhos, provinham ambos do mesmo grupo social: os mercadores ri-
cos, juntamente com alguns proprietários de terras e ministeriales do senhor da cidade. No en-
tanto, ao contrário dos procuradores de leis, os conselhos tinham um número fixo de membros
que eram escolhidos através de um processo eleitoral. Também estavam mais independentes do
senhor da cidade do que os procuradores de leis. A escolha do conselho era feita por meio de me-
canismos complexos; geralmente, utilizava-se a eleição feita pela anterior comissão de magis-
trados, a confirmação pelo senhor da cidade ou a combinação destes dois métodos. Os conse-
lhos da cidade tinham, geralmente, mandatos de apenas um ano e os membros não podiam suce-
der-se a si próprios. No entanto, a maioria das cidades tinha mais de um conselho e a restrição
à reeleição podia ser rodeada pela tomada de um lugar na outra comissão. Os cargos tendiam a ser
rotativos entre os membros de uma oligarquia. Um exemplo famoso é a comissão «Trinta e
Nove» da Ghent do século XIII, que consistia em três conselhos rotativos e autocooptativos de
treze membros. Muitas das maiores cidades tinham um ou mais burgomestres ou presidentes
da câmara como chefes oficiais do Governo, mas esse cargo era detido apenas por um ano e
possuía um carácter largamente honorifico.

O termo Reichstadt (cidade imperial) foi utilizado pela primeira vez por Frederico II, em mea-
dos do século XIII, para designar cidades que eram propriedade imperial. Isto era um meio
para permitir que o imperador as empenhasse aos senhores locais. O subgrupo de cidades im-
periais livres era constituído por cidades episcopais que tinham escapado ao controlo dos bis-
pos, encontrando-se agora sob a protecção directa do Império. Ao contágio das cidades impe-
riais normais, este grupo, que incluía algumas das maiores cidades da Alemanha, controlava
as suas próprias milícias e fortificações, conduzindo uma política independente.

A França medieval tinha três zonas básicas de desenvolvimento urbano. O norte e o leste, as
regiões mais próximas da Flandres e da Germânia, possuíam cidades poderosas, muitas delas
com indústrias, que tinham tido origem em associações de habitantes dirigidas contra o senhor
da cidade e que, portanto, ganharam um elevado grau de autonomia. No sul da França as cida-

Capítulo 10 105/160
des eram governadas por síndicos ou cônsules. Os síndicos tinham pouco poder, mas os côn-
sules, que começaram por aparecer nas cidades do norte de Itália, eram verdadeiros conselhei-
ros da cidade, apesar de ainda se encontrarem subordinados ao senhor da cidade. No século
XIII, os cônsules foram retirados sobretudo da pequena nobreza. Na sua forte componente no-
bre, a sociedade urbana da França mediterrânica era semelhante à italiana, continuando o tipo
de cidade romana. Alguns senhores das cidades tinham o direito de confirmar ou anular a elei-
ção dos cônsules, mas, geralmente, não os podiam nomear, acabando estes por limitar o poder
dos senhores das cidades. Na França central existiam cidades«livres». Os seus cidadãos ti-
nham considerável liberdade individual, mas as corporações tinham apenas algumas liberda-
des elementares e não privilégios administrativos ou jurídicos. A maioria das cidades do do-
mínio real eram deste tipo. Os reis capetos reprimiram as comunas quando elas começaram a
aparecer, mas tentaram enfraquecer os outros senhores pela confirmação de comunas nas ci-
dades deles. Sobretudo a partir do início do século XIV, a monarquia tendeu a fundir as co-
munas e as cidades livres de domínio real num outro tipo de cidade, as «boas cidades», que
escolhiam os seus próprios magistrados, mas funcionavam sob rígida supervisão real.

AS GUILDAS

A guilda é uma associação ou corporação de pessoas que geriam colectivamente um aspecto


da sua actividade. Os membros faziam juramentos de assistência mútua e de obediência aos
regulamentos da guilda. As mais antigas de que se tem conhecimento eram confrarias de caridade
formadas com o intuito de promover o culto da Virgem Maria ou de um santo patrono. As guil-
das cobravam taxas que eram utilizadas para ajudar a sustentar os membros mais pobres, as
viúvas e órfãos, facultando um funeral apropriado aos que dele cadenciavam.

A maior parte das cidades do norte da Europa tinham guildas de mercadores e de artesãos. Pa-
ris tinha no século XII guildas de talhantes, vendedores de peixe e padeiros. É possível que nes-
sa altura também tenham existido organizações de outras actividades, mas só podem ser docu-
mentadas a partir do século XIII. Algumas guildas de artesãos abrangiam diversas ocupações
numa mesma organização, enquanto outras eram mais especializadas. Os tecelões, por exem-
plo, trabalhavam normalmente por conta dos mercadores de lã. Cada artífice (tosquiador, fia-
dor, pisoador, tintureiro) aplicava a sua especialidade particular ao tecido sob a supervisão da
guilda de mercadores. Mesmo depois de as guildas de mercadores terem perdido poder políti-
co para as organizações de artesãos, as «comissões de tecidos» locais supervisionavam a pro-
dução, já que nenhum trabalhador podia manufacturar uma peça de tecido completa do princí-

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pio ao fim. Os membros de guildas, como os sapateiros, não eram ricos, mas eram mais inde-
pendentes do que os trabalhadores de tecidos. Compravam o couro aos curtidores, que tinham
a sua própria organização, e faziam um produto acabado que vendiam ao consumidor.

Depois de os conselhos terem assumido o poder nas cidades, a maior parte dos governos do
norte eram controlados, no século XIII, por guildas de mercadores, enquanto as cidades italia-
nas possuíam usualmente regimes baseados em organizações de artesãos. Os grupos das guil-
das tinham direito a um determinado número de lugares no conselho. As guildas de ofícios
eram cuidadosamente hierarquizadas, consoante o seu prestígio, uma vez que nem todas eram
constituídas por artesãos. Florença, por exemplo, tinha sete guildas “maiores”, uma das quais
era a dos juízes e dos notários. Por volta de 1293 já tinha reconhecido cinco guildas «médias»
e nove «menores». Cada guilda tinha um conjunto de membros diversificado, desde mercado-
res ricos, que controlavam os abastecimentos, aos artesãos mais pobres. Depois de os regimes
de artesãos terem alcançado o poder nas cidades do norte, durante o século XIV, as guildas
deste tipo assumiram o controlo da maior parte das administrações urbanas.

Enquanto se surgiam diferentes níveis entre as guildas, na maior parte delas também se desen-
volviam hierarquias internas de mestres, trabalhadores e aprendizes. Os aprendizes eram jo-
vens colocados ao serviço de um mestre nos primeiros anos da juventude, logo após terem ad-
quirido alguma escolaridade. O aprendiz começava por fazer alguns trabalhos subalternos na
oficina, aprendendo a pouco e pouco as especialidades do ofício. A duração da aprendizagem
variava de guilda para guilda e mesmo de cidade para cidade, indo de um mínimo de dois
anos, exigido para carpinteiros, a oito anos ou mais para ferreiros especializados. Depois de
terminar o treino, um aprendiz trabalhava à «jornada». Quando um mestre precisava de mais
mão-de-obra contratava pessoas ao dia ou à semana e quase não existindo contratações fixas.
Um trabalhador podia poupar dinheiro e tentar tornar-se num mestre, mas por volta do final
do século XIII, isso era difícil e muitos trabalhadores passavam toda a vida como contratados
ao dia. Um jovem bem relacionado podia, contudo, simplesmente rodear a fase de trabalhador
e tornar-se um mestre após a aprendizagem.

Um mestre era um membro de pleno direito da guilda. Tinha direito de possuir a sua própria
oficina, de empregar trabalhadores e de treinar aprendizes. De início, o novo mestre tinha de
apresentar aos outros mestres da guilda a sua «obra», como por exemplo um pedaço de tecido
trabalhado com as especificações técnicas que eram exigidas pela guilda dos tecelões. Por
volta do século XIV, muitos ofícios já não exigiam a apresentação da obra ou então utiliza-
vam-na apenas como pretexto para excluir pessoas indesejáveis; no século XIII, a maioria das
organizações de artesãos davam prioridade para estatuto de membro aos filhos de mestres que

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já faziam parte da guilda, ou fazendo a obra a apresentar por eles ou baixando os requisitos de
entrada para novos mestres. Isto não significava que apenas os mestres conseguiam arranjar
trabalho, mas sim que, para as pessoas de fora da guilda, existia um limite que não consegui-
am ultrapassar e os forçava a viver com as incertezas do trabalho temporário. O problema da
hereditariedade do estatuto de mestre tornou-se mais grave no século XV.

Os governos urbanos da Europa medieval exerciam um controlo rígido sobre a actividade dos
artesãos. A maioria das guildas podia regulamentar os seus próprios salários, horas e condi-
ções de trabalho e inspeccionar as obras dos seus membros. Muitas vezes, contudo, os conse-
lhos das cidades também emitiam regulamentos, sobretudo em relação aos ofícios cujos pro-
dutos eram exportados, tais como os têxteis, e que necessitavam do trabalho de inúmeros es-
pecialistas antes de serem enviados. Quando os tecidos ou outros produtos passavam na ins-
pecção das autoridades competentes, podendo então ser exportados, colocava-se-lhes um selo
para certificar a sua boa qualidade. Uma vez que as cidades eram amuralhadas e o acesso feito
através de portões controlados, as inspecções revelavam-se bastante eficazes. Neste aspecto,
as cidades e as guildas eram extremamente cuidadosas, porque a reputação e mercado de to-
dos podia ser arruinado por um único trabalhador que fizesse mercadoria medíocre que esca-
passe à detecção. Claro que a preocupação com a qualidade era, frequentemente, um pretexto
para limitar o mercado de exportações aos membros de uma elite. É difícil determinar até que
ponto a preocupação com a qualidade era genuína, pois em todo o lado se encontrava paterna-
lismo e estreita cooperação entre a guilda e as autoridades da cidade.

AS CIDADES E O DESENVOLVIMENTO DE UMA ECONOMIA INTERNACIONAL

A Europa do século XIII tinha áreas urbanas que estimulavam a produtividade agrícola, ofere-
ciam ocupações a quem a economia rural não conseguia sustentar e desenvolviam bens regio-
nais especializados passíveis de serem trocados. Devido à criação de vilas por Alfredo o
Grande, e seus sucessores, a Inglaterra era, no século X e início do século XI, a zona mais ur-
banizada do norte da Europa, mas depois da conquista normanda a vida nas cidades atrofiou-
se. As cidades inglesas cresceram menos rapidamente nos séculos XII e XIII do que as do
continente, uma vez que os governantes normandos e angevinos favoreceram os seus domíni-
os em França. No século XII, sobretudo depois de os monges cistercenses se terem estabeleci-
do e terem criado campos de pastos para ovelhas no Yorkshire, a Inglaterra começou a expor-
tar mais lã do que tecidos, principalmente para a França e para a Flandres.

As cidades flamengas eram, inicialmente, mais pequenas do que as inglesas, mas cresceram

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depois de 1050. Os lanifícios flamengos e do norte de França tornaram-se os mais valiosos da
Europa. A área ao longo da costa do mar do Norte, da Flandres até à Normandia, tornou-se
uma zona industrial, com grandes cidades, cada uma delas com os seus próprios tecidos.

As cidades mediterrânicas tinham um mercado interno substancial e facilitavam o acesso dos


produtos do norte a Bizâncio e ao mundo islâmico. Veneza vendia as matérias-primas do vale
do Pó e os produtos trazidos do norte da Europa aos bizantinos, em troca de sedas e especiari-
as. Pouco se sabe das cidades interiores italianas, mas o mercado de Pavia atraía os europeus
do norte, e uma carta de foral de 952 menciona uma «ordem de mercadores» em Milão. As
sedas, que mais tarde se concentrariam em Lucca, eram feitas em Brescia no século X. Roma,
a maior cidade do Ocidente cristão, atraia os peregrinos que gastavam grandes fortunas para
adquirirem relíquias para as suas igrejas. O poder económico e político das cidades da Toscâ-
nia e da Lombardia cresceu no final do século XI e no século XII. Negociavam com o Orien-
te, mas mantiveram sempre ligações com o norte da Europa.

A maioria das cidades do norte e do centro da Itália tinham cônsules antes de 1125. As cida-
des emitiam as suas próprias moedas, regulamentavam os seus mercados, estabeleciam porta-
gens e administravam o contado (a área rural que rodeava a cidade). A elite governativa das
cidades era originária dos arredores rurais e, no início do século XI, alguns governos obriga-
vam-nos a viver parte do ano dentro da cidade, onde podiam ser melhor controlados.

AS FEIRAS

O elo entre as economias do Mediterrâneo e do mar do Norte foi possibilitado pelas feiras. No
início do século XII, os condes da Champanha estenderam a sua protecção aos mercadores
que entravam nos seus territórios e, por volta de 1180, já se tinha desenvolvido um ciclo de
seis feiras em quatro cidades importantes. Estavam distribuídas ao longo do ano, com interva-
los entre elas de modo a permitir que os mercadores as visitassem. As feiras parecem ter sido
estabelecidas para atrair o comércio têxtil no norte da França e da Flandres, mas transforma-
ram-se no último quartel do século XII, quando apareceram os primeiros mercadores italia-
nos. Os mercadores das cidades germanas começaram a frequentar as feiras, do mesmo modo
que os mercadores de Barcelona e das principais cidades do sul da França.

Nas feiras da Champanha operaram-se melhoramentos nas técnicas comerciais e na utilização


do dinheiro. Embora as cidades, dentro de um mesmo reino ou principado, fossem muitas ve-
zes rivais, os seus mercadores uniam-se e organizavam associações para o comércio com o es-
trangeiro. Tratavam dos negócios uns dos outros, apresentando uma frente comum quando um

Capítulo 10 109/160
membro se via em dificuldades com as autoridades. O súbito crescimento do comércio inter-
nacional no século XII encontrou os mercadores sem os meios adequados para as trocas, pois,
com excepção da Inglaterra, a cunhagem não era um monopólio do rei e muitos principados, e
mesmo cidades, tinham as suas próprias emissões de moeda. A troca em dinheiro era uma
parte essencial dos negócios das feiras, mas parece ter-se efectuado um considerável número
de trocas em géneros, uma vez que era perigoso transportar grandes quantidades de prata ao
longo de uma perigosa viagem por terra. Instrumentos notariais, promissórias pagáveis numa
feira posterior e transferências por vales foram utilizados para facilitar a troca de dinheiro e
produtos. A «carta de feira» designava uma nota promissória negociável. Um mercador reco-
nhecia a sua dívida para um outro, pagando-a numa feira mais tarde no ano. As notas podiam
ser transferidas do devedor de um mercador para o credor de um outro A última semana de
cada feira era dedicada à clarificação de obrigações por liquidar. A última feira do ano, a de
Troyes, funcionava como uma ocasião para pagar as obrigações ainda em dívida, embora al-
gumas pudessem ser transferidas para o ano seguinte. Nas feiras desenvolveram-se tribunais
para tratar dos litígios de dívidas, acabando por surgir também uma lei mercante geral. Em In-
glaterra chamavam-se tribunais pie powder, de acordo com os pés poeirentos dos mercadores
de longo curso (pieds poudrés.). Uma vez que os Governos dos mercadores lesados exerciam
represálias sobre os cidadãos da nacionalidade daqueles que não tinham pago as suas dívidas,
e a comunidade de mercadores não era muito grande, as faltas não constituíam um problema
verdadeiramente sério. Os contratos feitos noutros locais eram, muitas vezes, pagos num dos
representantes da Banca italiana dentro da cidade-feira. As feiras da Champanha continuaram
a ser importantes até serem suplantadas, no final do século XIII, pelas viagens directas das ga-
leras de Génova até ao mar do Norte.

A BANCA E O CRÉDITO

Na base de uma qualquer estrutura económica encontram-se os meios pelos quais ela atrai os
recursos e concede crédito. A «Lei Mosaica» proibia os «irmãos» de cobrarem juros um ao
outro. Até às perseguições dos judeus por S. Luís, os cristãos e os judeus não eram, todavia,
considerados irmãos, pelo que os judeus podiam cobrar juros aos cristãos. O crédito judeu foi,
assim, muito importante nas primeiras fases do desenvolvimento comercial do Ocidente.

O crédito ocasional era alargado, tanto localmente como nas feiras, por muitos europeus do
sul. Os termos «cahorsino» e «lombardo», segundo a cidade francesa de Cahors e da Lombar-
dia, tornaram-se sinónimos dos emprestadores de dinheiro que cobravam abertamente juros.

110/160 Capítulo 10
Alguns príncipes estabeleceram taxas de juro legais (uma taxa comum era 2 pence por libra
por semana ou 43,5% anualmente), mas as pessoas que se preocupavam com as suas almas,
bom nome e que desejavam ser enterradas em terreno consagrado não as podiam cobrar. Os
lombardos e os naturais de Cahors funcionavam, frequentemente, como penhoristas, empres-
tando a taxas de 20% a 40%. Apesar disso, o número de emprestadores de dinheiro que viam
os seus negócios falhar era extremamente alto. Os lombardos e cahorsinos depressa suplanta-
ram os judeus no negócio de emprestar dinheiro durante o século XIII, devido sobretudo à
perseguição destes pelos reis da Europa ocidental, começando por Filipe Augusto.

À medida que o comércio se tornava mais complexo, os emprestadores necessitavam de um


mecanismo que os protegesse contra os devedores faltosos. A Igreja começou a defender que
o estabelecimento de uma taxa de juro era intolerável, mas que os honorários pela compensa-
ção do risco e do trabalho eram lícitos. Assim, por volta do século X, os italianos iniciaram os
contratos de sociedade tomando uma ideia dos muçulmanos e dos gregos. Na commenda, um
sócio passivo investia três quartos do dinheiro necessário para uma viagem e um sócio activo
investia um quarto, dividindo os lucros igualmente. Segundo o collegantia, as partes investi-
das eram dois terços e um terço, e a divisão dos lucros era feita em metades.

A banca teve várias origem: no empréstimo de dinheiro por sociedades, nos cambistas, nas
feiras e na «banca mercantil». Por volta dos finais do século XII em Génova e noutras cidades
italianas alguns cambistas aceitavam depósitos pagáveis a pedido (investindo-o entretanto) e
transferiam pagamentos entre os seus próprios clientes e entre os clientes uns dos outros. Isto
facilitava as transferências de fundos entre feiras ou entre estados, sem a utilização de moeda.
As sociedades anónimas apareceram em Itália no século XIII: os mercadores reuniam recur-
sos, compravam partes fixas que eram negociáveis e ficavam com uma parte dos lucros pro-
porcional ao investimento. Muitas destas sociedades tinham antecedentes: o capital dos sócios
originais chamava-se corpo, enquanto o sopracorpo era providenciado por investidores poste-
riores e pelo reinvestimento dos lucros. Os investidores recebiam juros dos seus investimentos
sob a forma de dividendos, mas a estes chamavam-se «ofertas», para fugir às restrições à usu-
ra. Os depósitos do sopracorpo não eram, de um modo geral, pagáveis consoante pedidos a
curto prazo. Muitas companhias arriscavam financiar a ascensão dos príncipes do norte da Eu-
ropa e, como garantia para os enormes empréstimos, recebiam o direito de cobrar impostos e
operar casas de cunhagem, além de concessões comerciais, tais como licenças de exportação
isentas de alfandega e monopólios sobre a exportação de determinados produtos.

O DINHEIRO E A CUNHAGEM DE MOEDA

Capítulo 10 111/160
As transformações da Idade Média Central basearam-se no aumento da moeda disponível, em
parte devido a novas minas de prata da Misnia, Sardenha e, sobretudo, Boémia, que promoveu
um aumento de cunhagem ao longo do último quartel do século XII. O influxo de metais pre-
ciosos em barra do Leste bizantino e islâmico também foi importante. Parte dele provinha de
roubos durante as Cruzadas, mas muito também resultava do comércio legitimo, uma vez que
a Europa ocidental manufacturava, em 1100, artigos que eram desejados no Oriente, ao passo
que as anteriores exportações se tinham resumido a matérias-primas e escravos.

A base da cunhagem, desde a era carolíngia, tinha sido o penny de prata. Os xelins e as libras
eram dinheiro de contagem, não correspondendo a moedas, enquanto o penny de prata não se
adequava a grandes transacções. No início do século XIV as cidades de Veneza e de Florença
emitiram moedas de prata mais valiosas. Uma outra solução foi a retoma da cunhagem do
ouro no Ocidente. Os muçulmanos pagavam em ouro, recebendo prata ocidental em troca de
algodão, especiarias e tecidos de luxo, tendo algumas moedas de ouro bizantinas e muçulma-
nas continuado a circular em Itália. Em 1231, o imperador Frederico II, cujos súbditos comer-
ciavam com os muçulmanos, emitiu a sua Augustalis, a primeira moeda de ouro cunhada no
Ocidente desde os finais da era merovíngia. Veneza emitiu o seu ducado de ouro em 1248, se-
guida, em 1252, pelo januino de Génova e pelo influente florim de Florença. Em 1257, S.
Luís emitiu a «coroa» de ouro, equivalente a meia libra. Henrique III de Inglaterra seguiu lhe
os passos, mas o comércio de Inglaterra com o Mediterrâneo era tão diminuto que a moeda
não vingou e aquele país só conseguiu emitir uma moeda de ouro bem sucedida em 1344.

O sucesso das cunhagens em ouro sugere que, pelo menos já em 1200, o balanço do comércio
com o Oriente favorecia a Europa. O equilíbrio sofreu alguns reveses quando, em meados do
século XIII, a conquista mongol cortou os abastecimentos normais de ouro africano aos egíp-
cios. Como os mongóis negociavam apenas em prata, esta era bastante procurada no mundo
muçulmano e, em meados do século, o ouro estava sobrevalorizado no Ocidente e a prata no
Oriente. À medida que a prata se deslocava para leste, as reservas de metal começaram a de-
clinar, provocando a desvalorização da moeda de prata no Ocidente.

O COMÉRCIO DO MAR BÁLTICO E O NORTE

As regiões que se centravam no mar do Norte e no Mediterrâneo estavam servidas pelas feiras
da Champanha. A região que compreendia o Báltico, a Rússia e a Escandinávia começou a
desenvolver-se, desempenhando, depois de 1300, um papel crucial no abastecimento de maté-
rias-primas para a Europa ocidental. As cidades germanas que participaram na expansão nór-

112/160 Capítulo 10
dica estabeleceram associações regionais, que foram unificadas no final do século XIII numa
única «Hansa Germana. Lubeck, fundada por Henrique o Leão, dominava a Hansa, pois a sua
localização fazia dela o ponto de união entre o comércio do mar do Norte e do Báltico. A ilha
de Gotland tinha dominado o comércio ocidental com a Rússia, mas em 1200 os germanos e
os gotlandos mantinham, conjuntamente, uma companhia em Novgorod. Compravam peles,
mel e cera, vendendo tecidos flamengos nos mercados orientais. Em meados do século XIII os
germanos tinham uma companhia em Bergen, na Noruega, que viria a tornar-se tão importan-
te para o comércio do peixe como Novgorod era para as peles e, mais tarde, para as madeiras.

No início do século XIII foram fundadas várias cidades ao longo da costa báltica, daquilo que
é agora a Alemanha oriental e a Polónia. À medida que os germanos colonizavam o interior,
entre o rio Elba e o rio Oder, tornando essa zona mais produtiva a nível agrícola, as cidades
do Báltico tornavam-se importantes na Hansa, exportando cereais da Prússia e da Polónia
para o Ocidente. Embora a organização formal da Hansa tenha evoluído gradualmente, as ci-
dades da associação já eram capazes de empreender acções comuns no final do século XIII.

AS MULHERES DURANTE A IDADE MÉDIA CENTRAL

Existem pouca informação sobre a situação das mulheres das classes média e baixa antes de
1200. Tinham mais liberdade de acção do que as mulheres aristocráticas incluindo, frequente-
mente, a liberdade de poderem escolher os seus maridos, mas a independência era conseguida,
muitas vezes, com o sacrifício da segurança económica. Muitas mulheres tinham empregos,
ou fora de casa, ou mais habitualmente, ajudando os seus maridos na loja da família ou nos
campos. A tecelagem era uma ocupação essencialmente feminina nas áreas rurais durante o
início da Idade Média, mas tornou-se uma profissão masculina nas cidades, quando se desen-
volveu o tear horizontal. Empregavam-se como enfermeiras e, sobretudo, como padeiras.
Quando as mulheres e os homens eram contratados para o mesmo trabalho, as mulheres, de
um modo geral, recebiam menos do que os homens.

As mulheres urbanas raramente apareciam na vida pública. Embora em algumas cidades pu-
dessem ser membros de guildas, na Idade Média Central a sua situação declinou quando a
oferta de mão-de-obra masculina nas cidades excedeu a procura de produtos. As mulheres não
eram funcionárias das guildas, mas depois de o estatuto de membro de uma guilda ter desen-
volvido características hereditárias, podiam transmitir o direito de mestre aos seus filhos.
Muitas guildas permitiam que uma viúva seguisse o ofício do marido, o que demonstra que se
esperava que as mulheres participassem no negócio da família, de modo a poderem aprender

Capítulo 10 113/160
os seus aspectos essenciais. A não ser que fossem emancipadas, as mulheres só podiam nego-
ciar através dos seus guardiães masculinos, o marido, pai ou irmão, mas, na prática, esta limi-
tação era muitas vezes ignorada. Fontes medievais sugerem que a maioria das mulheres de ne-
gócios independentes nas comunidades rurais eram de classe média ou baixa.

Durante a Baixa Idade Média parece ter havido falta de mulheres, tendo os homens de ofere-
cer dotes substanciais para conseguirem obter esposas com propriedades. Sobretudo a partir
do século XII, contudo, o valor do dote da mulher subiu vertiginosamente na maior parte da
Europa, enquanto o donativo do marido diminuiu. Especialmente em Itália, os pais atrasavam
a emancipação dos seus filhos, chegando mesmo a comprometer as suas heranças, para pode-
rem dar às raparigas dotes suficientemente lucrativos, para lhes arranjarem maridos conveni-
entes. Esta tendência, que poderá ter sido originada por um equilíbrio na proporção de sexos,
causou problemas sérios nas relações familiares durante a Baixa Idade Média.

Na Idade Média Central, a Europa experimentou uma expansão populacional sem preceden-
tes. A procura de alimentos nos mercados urbanos, combinada com a disponibilidade de moe-
da, contribuiu para o desaparecimento das propriedades orientadas para a mera subsistência.
Nas cidades, a maior oferta de mão-de-obra foi utilizada para produzir grandes quantidades de
produtos manufacturados exportáveis. Os têxteis de lã eram a mais importante dessas manu-
facturas, mas os produtos de luxo também eram produzidos para vendida no estrangeiro e a
europeus ricos. O capitalismo comercial, que iria dominar a economia europeia antes da Revo-
lução Industrial, foi criado durante a Idade Média Central. A sofisticação do mundo dos negó-
cios da Idade Média Central e a crescente complexidade dos governos secular e eclesiástico
foram consequência das transformações tecnológicas e de uma revolução educacional, que apro-
fundou o conhecimento dos letrados, expandindo os rudimentos da literariedade a um nível
que seria, até para Carlos Magno, verdadeiramente inconcebível.

114/160 Capítulo 10
A maturidade de uma civilização: a Baixa Idade Média, 1270-1500

Os dois últimos séculos do período «medieval» testemunharam mudanças de tal magnitude


que muitos são os que afirmam que 1300, e não o tradicional ano de 1500, é que marca, na
verdade, o início da era «moderna». Os problemas económicos que se tinham surgido durante
o século XIII, agravados agora pelas pragas, guerras e más colheitas do século XIV e XV,
culminaram numa grande crise. Os problemas sociais, nomeadamente a pobreza e o desem-
prego, aumentaram tanto nas cidades como nas áreas rurais. No entanto, apesar disto, as trans-
formações nos sistemas e técnicas comerciais conduziram a um aumento do nível de vida, tor-
nando disponíveis mais e variados produtos em todas as zonas da Europa. Estabeleceu-se uma
verdadeira rede comercial regional interdependente.

Um período de guerras intermitentes e brutais devastou as zonas rurais europeias. Princípios


legais tinham fornecido o pano de fundo para o grande aumento de poder das monarquias na-
cionais, durante os séculos XII e XIII. Apesar de se terem dado grandes avanços na adminis-
tração pública e na manutenção de registos, no século XIV e XV os governos reais não conse-
guiram impedir um grande colapso da ordem pública.

As guerras dinásticas da Baixa Idade Média foram tão ruinosamente dispendiosas que os prín-
cipes se viram obrigados a pedir ajuda aos seus súbditos para pagarem as contas. Em algumas
áreas, embora não em todo o lado, as assembleias de cidadãos serviam-se das necessidades fi-
nanceiras do Estado para conseguirem concessões que institucionalizavam um papel consulti-
vo do Governo para os súbditos e seus representantes.

Os desenvolvimentos intelectuais acompanharam estas mudanças. Os estados seculares domi-


navam, agora, as igrejas, mas o braço eclesiástico continuou a desempenhar um importante
papel político. Os críticos da Igreja, tanto laicos como homens do clero, pronunciaram-se so-
bre uma enorme variedade de assuntos doutrinais, devotando também grande atenção àquilo
que consideravam ser as preocupações seculares de um corpo espiritual.

Escrevia-se muita literatura nas línguas vernáculas, mas o começo da cultura humanista em
Itália assinalou uma transformação da natureza do latim e de outros estudos clássicos que iri-
am ter um profundo impacte nos programas educacionais do próximo meio milénio.

Capítulo 13 115/160
13 - Reorientação económica e crise social na Baixa Idade Média

Pag 439 do livro

AS ORIGENS DE UM PROBLEMA A LONGO PRAZO

As condições políticas contribuíram decididamente para a crise económica do final do período


medieval. A inflação tornou-se um problema cada vez mais sério. Sobretudo depois de l297,
os reis franceses desvalorizavam frequentemente a sua moeda para poderem fazer face às
emergências do tempo de guerra. Os príncipes também começaram a praticar a guerra econó-
mica. Os reis ingleses, por exemplo, colocaram embargos na exportação da lã, que era neces-
sária para as cidades flamengas, de forma a tentarem forçar os condes da Flandres a renegar a
aliança com os franceses. As devastações das guerras também atingiram a economia, sobretu-
do na França. Os exércitos reais eram formados principalmente por mercenários, pagos pelos
seus capitães com o dinheiro que haviam recebido dos reis, sob contrato. Embora a guerra
aberta fosse prejudicial para a agricultura e para o comércio, os frequentes períodos de tréguas
eram piores, uma vez que os exércitos desocupados eram deixados soltos no campo, para pi-
lhar e destruir. A cobrança real aumentou em todo o lado e os impostos tornaram-se opressi-
vos nas cidades, que tinham de reconstruir e fortalecer as suas fortificações. Os impostos pa-
pais eram levados a novos e refinados níveis. A cobrança de impostos contribuiu para uma
falta séria de metal precioso no século XV, o que prejudicou a liquidez da economia.

No entanto, o problema fundamental não era político mas sim ecológico. A maior parte da ex-
pansão das terras aráveis, no final do século XIII, tinha sido feita para regiões pouco férteis ou
montanhosas, que não eram próprias para a agricultura. Essas terras só podiam ser utilizadas
alguns anos de cada vez. A população continuou a aumentar e, por volta de 1300, a maioria
dos agricultores não tinha terra suficiente que lhes permitisse sustentar uma família.

Sobretudo em Inglaterra, os arrendatários «normais» ou não livres eram protegidos pelos cos-
tumes senhoriais das extorsões arbitrárias, o que não acontecia com os arrendatários livres.
Muitos agricultores livres tinham pequenas propriedades, enquanto as propriedades dos ser-
vos tanto podiam ser pequenas como grandes. O valor das rendas das terras também variava
tremendamente dentro de uma mesma aldeia, com as rendas dos arrendatários livres a tende-
rem a ser mais elevadas que as dos servos. Tais condições criaram uma procura de terra tão
extrema que os arrendatários acabavam por aceitar quaisquer condições. Muitos arrendatários
da Toscânia estavam de tal forma endividados com os seus senhores que, mesmo nos sítios de

116/160 Capítulo 13
rendimentos elevados, não conseguiam saldar as suas dívidas.

A população começou a diminuir em zonas do sul da Europa desde a segunda metade do sé-
culo XIII, embora noutros locais a expansão continuasse a um ritmo ainda mais rápido. O de-
clínio de população é evidente no campo, antes de o ser nas cidades, uma vez que estas ainda
atraíam a população rural. Uma vez que as taxas de mortalidade eram mais elevadas nas cida-
des do que nas zonas circundantes rurais, as áreas urbanas dependiam da imigração para con-
seguirem manter populações equilibradas. No entanto, as guildas de muitas cidades começa-
ram a restringir o acesso ao estatuto de mestre. O trabalho para os trabalhadores à jornada tor-
nou-se raro e a pobreza no século XIII passou a ser um grave problema.

Estes problemas foram exacerbados por um clima cada vez mais adverso. Na primeira metade
do século XIII parece ter havido mais más colheitas do que no século XII, mas os anos de
1290 assistiram ao início de uma fase de clima frio e húmido, semelhante ao da era carolín-
gia. As estações de crescimento encurtaram e os anos de más colheitas tornaram-se frequen-
tes. O clima também se tornou errático, havendo anos de chuvas torrenciais que eram segui-
dos por períodos de seca. As inundações do início do século XV no mar do Norte desfizeram
muito do trabalho de desbravamento de terras que tinha sido feito nos séculos XI e XII. Uma
série de más colheitas começou em 1310 e culminou em 1315, quando praticamente todas as
colheitas do norte da Europa foram destruídas por chuvas torrenciais. Os preços dos cereais
subiram em flecha, passando a haver uma fome generalizada. A má nutrição de 1315 deu ori-
gem, em 1316, à peste, pois muitos estavam demasiado fracos para resistirem à doença. Ape-
nas por volta de 1325 se voltou a atingir o anterior nível de produtividade. Em 1340, seguiu-
se uma outra fome, afectando o Mediterrâneo da mesma forma que o norte.

A PESTE NEGRA

As fomes, as pragas e os desastres causados pelos humanos criaram problemas sérios. A «pes-
te negra» de 1348-1349 foi uma grande catástrofe. A peste «bubónica» foi apenas uma de três
epidemias que surgiram em 1348. Começou na China, tendo sido trazida para Génova através
das pulgas que vinham nos navios e que se alojavam no pêlo de ratos castanhos. Por volta do
início do Verão de 1348, já se tinha espalhado pela França central e, no final de 1349, pela In-
glaterra e Países Baixos. Alastrou-se depois para o nordeste, para a Escandinávia e Europa es-
lava. Apareciam pústulas nas virilhas ou nos sovacos. Se rebentassem, a morte era inevitável;
se não, a recuperação era possível. Em termos humanos, a peste foi um desastre. Poucas re-
giões foram poupadas, e a maioria delas perdeu entre um quarto a um terço da população. A

Capítulo 13 117/160
mortalidade era mais alta nas cidades, muitas das quais perderam metade dos seus habitantes.
Muitas aldeias inteiras deixaram de existir.

A catástrofe não terminou em 1349. Houve pragas em 1358, 1361, em 1368-1369 (severa nos
Países Baixos) e uma outra, em 1374-1375, que foi particularmente grave em Inglaterra. A
partir daí, as pragas abrandaram, surgindo apenas uma outra em 1400, que afectou toda a Eu-
ropa. Uma geração separou esta última de uma peste em 1438, mas entre essa e as de 1480
ocorreram epidemias frequentes. A Inglaterra sofreu, pelo menos, sete epidemias entre 1430 e
1480, a maioria das quais nos anos de 1430 e 1470.

O IMPACTE DAS PESTES: O SECTOR AGRÍCOLA

As pestes afectavam, obviamente, os mais fracos - as crianças e os velhos - mais severamente


do que os jovens e os adultos de meia-idade. Embora as taxas de natalidade aumentassem
após cada praga, tentando os pais substituir os filhos perdidos, muitas dessas crianças eram le-
vadas em pestes posteriores, antes de conseguirem amadurecer e ter os seus próprios filhos. A
mortalidade das pestes foi agudizada pelo facto de muitos agricultores terem migrado para as
cidades, onde se juntavam ao número de trabalhadores temporariamente empregados, aumen-
tando as probabilidades de serem atingidos pela epidemia que se seguisse. Embora as cidades
tivesse perdido parte da população (as da Hansa alemã constituíam excepções), havia uma
maior percentagem de população a viver em cidades em 1500 do que em 1300. A migração e
a devastação da guerra combinaram-se com as pestes para levar a população rural a declinar
mais severamente do que a população urbana.

As pestes ocorriam geralmente durante os meses quentes, quando as colheitas estavam a ser
ceifadas, o que provocava falta de cereais. Assim, os preços subiam abruptamente logo após
uma peste. Seja para tirar partido dos preços momentaneamente elevados ou, simplesmente,
para evitar morrerem à fome, os empregadores de trabalho agrícola pagavam ordenados avul-
tados para terem trabalhadores. O Estatuto Inglês dos Trabalhadores fixou o ordenado legal
naquele que era pago em 1346. Foram emitidos estatutos semelhantes na França e em vários
principados alemães. Em Inglaterra, vários tribunais tentaram, até ao final dos anos de 1370,
com algum sucesso, aplicar o Estatuto dos Trabalhadores. O quadro geral, no entanto, era o de
um rápido aumento dos ordenados dos trabalhadores agrícolas na segunda metade do século
XIV, seguido de uma tendência de nivelamento ao longo de grande parte do século XV.

Alguns indícios económicos sugerem que, por mais lamentáveis em termos humanos que os
desastres fossem, funcionaram como uma correcção do excesso populacional até cerca de

118/160 Capítulo 13
1370. À medida que as terras ficavam vagas, as rendas e os preços destas caíam. Este facto
constituiu uma oportunidade para aqueles que tinham capital disponível, nomeadamente os
homens da cidade que pretendiam investir em propriedades. Apesar das flutuações a curto
prazo, que criavam alternâncias de escassez e de abundância, os preços dos cereais aumenta-
ram até aos anos de 1370, no norte da Europa, e até 1390 em Itália. Daí em diante, as colhei-
tas elevadas inundaram o muito reduzido mercado nas cidades, criando uma crise de excesso
de produção. A partir de 1400, os preços começaram a oscilar em diferentes direcções: os pre-
ços dos bens manufacturados subiram, enquanto a carne, o queijo, o vinho, o azeite e a cerve-
ja diminuíram apenas ligeiramente, mas os cereais caíram abruptamente. Embora todos os
agricultores tenham sido afectados, o impacte mais grave foi sentido pelos pequenos e médios
proprietários, que tinham de lidar com elevados custos laborais e cuja margem de lucro era
menor do que a dos senhores. Como tal, muitos migraram para as cidades.

Os preços dos cereais ainda foram atingidos por dois outros factores. Para fazer face à crise,
algumas cidades começaram a armazenar cereais na altura em que os preços estavam baixos e
a utilizá-los para alimentar as massas nos períodos de escassez. Mais importante ainda foi o
desenvolvimento de um comércio de longa distância. As grandes cidades italianas tinham sido
alimentadas, durante séculos, pelos cereais oriundos do norte de África e das ilhas costeiras e,
mais recentemente, das áreas ao longo do mar Negro. As cidades flamengas, por volta de
1200, tinham-se tornado tão dependentes dos cereais franceses como o eram da lã inglesa. A
Hansa alemã trazia, em meados do século XIV, grandes carregamentos de cereais para o noro-
este da Europa. As frotas de navios duplicaram de tamanho durante o século XIV e novamen-
te entre 1400 e 1450. Era mais barato para os mercadores urbanos de cereais obter carrega-
mentos de regiões distantes e trazê-los para os mercados por barco do que fazê-lo em animais
de carga e carros por estradas terrestres. O desenvolvimento dos transportes e a concentração
dos mercados nas cidades podem, assim, ter sido tão responsáveis como os excedentes de pro-
dução na manutenção dos preços baixos dos cereais. Os interesses económicos dos produtores
e dos consumidores raramente estavam sincronizados; os preços baixos dos cereais prejudica-
vam os agricultores mas eram benéficos para os habitantes das cidades.

Muitos agricultores reagiam aos baixos preços dos cereais migrando para as cidades, mas ou-
tros limitavam-se a mudar de colheitas. Os preços dos vegetais não desceram e algumas pro-
priedades começaram a modificar a «monocultura de cereais» clássica, de modo a incluir fei-
jões e ervilhas. Uma vez que começava a aparecer muita terra vaga por falta de trabalhadores,
uma resposta óbvia era convertê-la em terra de pasto, o que significava mais carne e produtos
lácteos na alimentação do que anteriormente. A libertação da pressão populacional sobre a

Capítulo 13 119/160
terra, sobretudo depois de 1370, contribuiu para uma dieta mais equilibrada, o que, por sua
vez, significava que a resistência às pestes era mais elevada. A nutrição melhorada afectou os
pobres e os ricos. A alimentação regular nos hospitais, para os pobres e para os doentes, in-
cluía uma grande variedade de carnes, que eram normalmente oferecidas duas ou três vezes
por semana, sopas e vegetais, bem como o omnipresente pão. Embora as pestes tivessem sido
uma tragédia humana, os ajustamentos que foram feitos conduziram a um nível de vida mais
elevado para os sobreviventes e seus descendentes.

O IMPACTO DAS PESTES: AS CIDADES

Praticamente todas as cidades passaram por um influxo de trabalhadores oriundos das áreas
rurais e as guildas tomaram-se cada vez mais restritivas. Algumas delas faziam do estatuto de
mestre um factor hereditário, mas a maioria limitavam-se a restringir o número de pessoas
que podiam entrar, chegando, por vezes, a estabelecer taxas de entrada para os estrangeiros.
Por volta do século XV, as associações de trabalhadores à jornada existiam já em várias cida-
des, destinando-se àqueles que não tinham esperança de entrar nas guildas.

Os mestres artesãos não eram simples artífices. O estatuto de mestre era em muitas guildas
uma distinção social, qualificando um determinado cidadão para cargos públicos. A produtivi-
dade per capita subiu depois das pestes e os preços da maioria dos bens manufacturados eram
bastante elevados. Isto beneficiou os mestres, que tinham uma fonte disponível de mão-de-
obra, à medida que o ritmo de trabalhadores migrados para as cidades aumentava. Embora os
salários dos trabalhadores à jornada tivessem subido ligeiramente no final do século XIV, des-
ceram em relação aos aumentos gerais do custo de vida no século XV.

As cidades tinham de assegurar um abastecimento regular de alimentos. Desde que as comu-


nas da Toscânia e da Lombardia tinham ganho a sua independência, pela subordinação da no-
breza local à cidade, haviam passado a governar áreas substanciais fora das muralhas da cida-
de. Durante a Baixa Idade Média, algumas cidades no sul dos Países Baixos, na Alemanha e
na Suíça conseguiram, em determinado grau, seguir o exemplo, chegando mesmo, em alguns
casos, a criar cidades-Estado. O proteccionismo industrial era motivo, em muitos casos, para
os habitantes da área rural adjacente serem proibidos de fazer certos tipos de tecidos, que
eram a especialidade dos trabalhadores das cidades.

Eram várias as razões para o declínio da indústria têxtil em centros como Florença e Ypres,
embora continuassem a fabricar grandes quantidades de tecidos de alta qualidade. Primeiro
surgiram mais tipos de tecidos: as tradicionais lãs pesadas estavam restringidas a um mercado

120/160 Capítulo 13
de luxo, mas os «tecidos leves» começavam a aparecer por exportação, devido a uma crescen-
te melhoria das vias de comunicação. Em segundo lugar, grande parte dos tecidos mais leves
eram agora fabricados em centros rurais ou em pequenas cidades. Alguns agricultores adopta-
ram a tecelagem como um trabalho em part-time e algumas cidades permitiram manufacturas
têxteis, cujos regulamentos não eram tão rígidos como nos centros têxteis mais antigos.

As indústrias têxteis para exportação desenvolviam-se agora em Inglaterra, nos Países Baixos
de leste e no sul da Alemanha. Os reis ingleses - desconhece-se se como forma de angariar di-
nheiro ou de desencorajar a exportação de lã - começaram a cobrar elevados taxas alfandegá-
rias e, à medida que a exportação de lã declinou, a dos tecidos manufacturados aumentou. Por
volta de meados do século XV, os tecidos de qualidade ingleses, que eram mais baratos e li-
geiramente mais leves do que os mais finos tecidos flamengos, tinham já conquistado uma
parte do mercado do norte da Europa. As cidades do sul da Alemanha também começaram a
expandir o fabrico de tecidos, sobretudo do fustão, uma mistura de algodão e linho. O traba-
lho da seda, que tinha sido durante séculos o monopólio da cidade italiana de Luca, difundiu-
se com a migração dos trabalhadores para o norte da Europa. O trabalho do linho expandiu-se
para o norte, tanto nas áreas rurais como nas cidades, oferecendo roupas mais baratas para um
vasto mercado. O linho da Vestefália era particularmente conceituado. Ravensburgo, perto de
St. Gall, atingiu uma breve prosperidade através da «Grande Companhia de Ravensburgo»,
que monopolizava a exportação dos linhos rurais da região em volta do lago Constance, estan-
do também envolvida no negócio do cânhamo e do algodão.

O PROBLEMA DA POBREZA

Embora o nível de vida estivesse a subir juntamente com a produção per capita, a pobreza era
um grave problema na Baixa Idade Média. É difícil medir a extensão da pobreza na Alta Ida-
de Média. Segundo os padrões modernos, praticamente todos viviam na miséria. As transfor-
mações económicas da Idade Média Central, sobretudo o crescimento populacional, significa-
va que enquanto muitos enriqueciam outros ficavam mais pobres. Isto é particularmente ver-
dade para as pessoas cujas parcelas de terra estavam demasiadamente subdivididas, não per-
mitindo um nível de vida capaz. As frequentes fomes exacerbaram o problema, mesmo no sé-
culo XII. Os documentos da Igreja estão cheios de pedidos para cuidar dos pobres, mas na ter-
minologia latina da época «pobre» está mais próximo de «fraco» do que de «sem recursos
económicos», sendo difícil estabelecer comparações. Além disso, mesmo no início da Idade
Média era feita uma distinção entre aqueles que eram pobres no sentido bíblico - viúvas, ór-

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fãos e fisicamente incapacitados - e aqueles que estavam fisicamente capazes de trabalhar. A
pobreza que resultava da ausência de trabalho e de ordenados demasiado baixos para sustentar
a família raramente era alvo das instituições de caridade antes do século XIV.

As cidades no final da Idade Média tinham uma elevada incidência de pobreza. As autorida-
des tornavam-se mais conscientes do problema e a existência de fontes quantificáveis permi-
te-nos medir a sua extensão. As isenções de impostos que eram dadas com a justificação de
pobreza sugerem que, pelo menos um terço da população, vivia na margem da subsistência na
maioria das cidades, sendo em muitas mais de metade.

A grave inflação deu origem a um grupo cuja existência mal tinha sido reconhecida anterior-
mente: os trabalhadores pobres em oposição aos não trabalhadores. Trabalhavam intermiten-
temente, uma vez que muito do trabalho era sazonal e, à medida que as guildas encerravam, o
acesso ao mercado era severamente limitado. Tais trabalhadores não conseguiam, muitas ve-
zes, produzir o suficiente para se sustentarem a si mesmos continuamente ao longo do ano.

As esmolas tornaram-se mais comuns na Baixa Idade Média do que anteriormente. Enquanto
que no início do século XIV a maior parte das instituições de caridade mal conseguiam fazer
face aos pedidos do indigente, os donativos eram maiores depois de 1348 e as contas demons-
travam frequentemente um balanço positivo. Tais estabelecimentos, a maioria deles situados
nas cidades, forneciam aos indigentes cereais, pão, carne e sapatos. Algumas guildas estabele-
ciam casas de esmolas para cuidar de membros indigentes e dos seus dependentes e descen-
dentes. Mesas dos Pobres e Bolsas Comuns foram criadas por pessoas laicas e por igrejas. A
maior parte delas mantinha e revia anualmente listas de pessoas que eram elegíveis para rece-
ber assistência. Muitos «hospitais» eram mais hospícios para os pobres e apoio para os viajan-
tes do que instituições para os doentes. Alguma caridade era simbólica, como seja a alimenta-
ção dos pobres pelos mosteiros nos dias festivos.

A SOCIEDADE E O GOVERNO NAS CIDADES

Em meados do século XIV a maioria dos governos das cidades eram controlados por organi-
zações de artesãos. Embora os membros dos conselhos se revezassem, por volta do século XV
os mesmos nomes voltavam depois de uma «licença» imposta de um a três anos. Um mandato
de um ano era comum para magistrados nas cidades do norte, enquanto os mandatos de dois a
seis meses se praticavam mais em Itália. Embora a rotação de conselheiros pareça sugerir uma
descontinuidade na administração, a maior parte das cidades do final do século XIII possuía
um quadro de funcionários profissionais que exerciam as funções durante muitos anos. Por

122/160 Capítulo 13
volta de 1400 a maior parte dos secretários possuía, pelo menos, o estatuto de mestre de artes
e muitos conselheiros tinham estudado leis. Nas maiores cidades, os delegados, que eram sim-
ples copistas, eram nomeados pelos secretários e não pelo conselho da cidade, oferecendo, as-
sim, um elemento de continuidade entre regimes.

A maior parte das revoluções urbanas do século XIV não eram sublevações de massas. A che-
gada ao poder de regimes de artesãos raramente constituía uma «democracia». Depois de as
guildas terem tomado o poder, no século XIV, os membros do antigo patriciado que deseja-
vam participar na vida pública tinham de fazer, geralmente, uma inscrição pro forma numa
guilda que tivesse direito a um ou mais lugares no conselho da cidade. À excepção do caso da
rebelião de Ciompi em Florença, em 1378, nenhuma revolta da Baixa Idade Média atiçou os
ricos directamente contra os pobres, embora algumas facções ricas se servissem da histeria
das massas. As alianças familiares e as rivalidades também eram importantes no estabeleci-
mento de lealdades nas disputas sobre o governo da cidade. As oligarquias urbanas eram fe-
chadas, mas não impenetráveis através da riqueza ou do casamento. Com vista às frequentes
rotações dos conselhos, o grupo governativo era, necessariamente, bastante largo, chegando a
constituir, na maior parte das cidades, 10% a 15% da população. Nem mesmo a oligarquia de
Veneza era excepção. Em 1297 os nomes das novas casas, cujos membros residiam na cidade
há uns meros duzentos anos, e as velhas casas, de linhagens mais antigas, foram inscritos
num Livro Dourado. Apenas estas famílias podiam deter cargos; no entanto, por volta do sé-
culo XV, estes incluíam um largo número de pessoas, algumas das quais eram tão pobres que
tinham de utilizar os salários dos cargos municipais para conseguirem fazer face às despesas.

As funções dos governos das cidades do final do período medieval incluíam o saneamento, as
ruas, a assistência aos pobres e a indústria (na qual o governo da cidade costumava agir em
conjunto com as guildas). As cidades protegiam as industrias e/ou proibiam os cidadãos de
importar bens manufacturados que fossem fabricados na cidade, ou então impunham-lhes ta-
xas reguladoras. As cidades colectavam multas, taxas de mercados, compras de cidadania,
rendas sobre terras das corporações da cidade e taxas cobradas a grupos específicos, tais como
os cambistas e usurários. Mas as despesas aumentaram no século XIV. Sobretudo depois dos
anos de 1330, a maior parte dos orçamentos das cidades eram dedicados à manutenção das
muralhas da cidade. A colecta destes rendimentos era, normalmente, concessionada aos co-
bradores de impostos. Embora os impostos indirectos atingissem os pobres, uma vez que a co-
mida estava, de um modo geral, sujeita a eles, os mais altos incidiam sobre os artigos de luxo,
tais como o vinho. A cobrança directa pelas cidades tornou-se mais comum no século XV, so-
bretudo em Itália, onde era geralmente avaliada de acordo com a riqueza estimada.

Capítulo 13 123/160
O orgulho cívico era muito forte e encorajado pelas autoridades em cerimónias públicas. Uma
das mais famosas era o Casamento do Mar, que decorria em Veneza para celebrar a vitória
naval de 997, que assegurou aos venezianos o controlo do Adriático. As festividades culmina-
vam quando o doge atirava um anel para a água, simbolizando o elo indissociável da cidade
com o mar. Praticamente todas as cidades tinham festividades em honra do santo patrono. Nas
procissões havia uma forte hierarquização das guildas, das confrarias religiosas e sociais e dos
dignitários. O sentimento de identidade também se estendia aos arredores, bairros e paróquias,
muitos dos quais tinham os seus próprios tesouros, para assistência aos pobres.

A NOBREZA NA BAIXA IDADE MÉDIA

A identificação da nobreza com a cavalaria desfez-se no final do século XIII. Enquanto os ca-
valeiros armavam outros cavaleiros o grupo manteve-se estreitamente definido mas, no século
XIII, os reis franceses reclamaram o direito de armar cavaleiros. Filipe IV de França recom-
pensou os seus favoritos armando-os cavaleiros; um caso digno de nota foi quando ele armou
cavaleiro o seu talhante, depois da batalha de Courtrai. Tornou-se, contudo, mais vulgar os
reis venderem os títulos de nobreza e os motivos da compra depressa deixaram de ser sociais:
durante o século XV, em França e em Castela, os nobres obtiveram o reconhecimento do prin-
cípio de que estavam isentos do pagamento de impostos.

Também se tornou possível ascender à nobreza através do serviço pessoal ao príncipe. Duran-
te o século XV, à medida que os governos das cidades francesas ficavam sob controlo real,
verificou-se o começo da «nobreza de manto», uma nobreza distinta da mais antiga, a «nobre-
za de espada». Desenvolveu-se então a diferença entre, por um lado, os cavaleiros e os gentis-
homens, que permaneciam relacionados com a linhagem antiga, e a nobreza que podia ser
comprada e era entendida com um estatuto inferior. As famílias nobres mantinham um códi-
go de cavalheirismo cada vez mais elaborado, que se encontrava totalmente em desacordo
com as brutais realidades militares da época. Patrocinavam torneios e os reis alimentavam
esse tipo de sentimentos; os mais prestigiados clubes nobres da Europa eram a Ordem da Jar-
reteira, fundada em 1348 pelo rei Eduardo III de Inglaterra, e a Ordem da Estrela, estabelecida
como imitação da Jarreteira pelo rei João o Bom de França.

Embora os senhores tivessem beneficiado da falta de terra do final do século XIII (que elevou
o seu preço), as rendas em declínio, os preços das terras e os elevados ordenados agrícolas,
depois de 1348, atingiram-nos economicamente. Muitos nobres tentaram recuperar algum
equilíbrio económico ligando-se pelo casamento às famílias ricas das cidades. Assim, enquan-

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to anteriormente parte da ascensão à nobreza tinha acontecido com prósperos proprietários, a
maioria dos novos promovidos no final da Idade Média, eram homens da cidade. Agora, se os
proprietários subiam de estatuto era, geralmente, através da consolidação de várias proprieda-
des, seguindo-se o casamento dentro de famílias com antepassados mais distintos.

O domínio dos nobres sobre a profissão militar também foi abalado. A maioria dos exércitos
medievais utilizavam tanto a infantaria como a cavalaria, mas até ao final do século XIII a ca-
valaria foi, sem dúvida, o corpo de elite. No entanto, a crescente importância da guerra de cer-
co e as milícias das cidades começavam a dar relevo à infantaria. A batalha de Courtrai foi a
primeira derrota de um grande exército de cavaleiros por um exército composto unicamente
por soldados a pé. O arco contribuiu para a crescente proeminência da infantaria nas guerras
do século XIV. É mencionado pela primeira vez no século XII e, em 1252, era exigido como
equipamento militar de todos os proprietários ingleses e dos homens ricos da cidade. Em In-
glaterra o arco acabou por suplantar a besta, a qual persistiu durante no continente.

AS GRANDES REVOLTAS

Com o desmoronar da autoridade na Baixa Idade Média, a violência tornou-se uma ocorrên-
cia banal e impossível de conter. Reavivou-se a vendetta e as famílias agruparam-se em asso-
ciações de «paz». Alguns historiadores interpretaram estes conflitos como guerras entre clas-
ses sociais, mas parece ter havido outras forças envolvidas, mais significativas do que um
mero antagonismo entre ricos e pobres. Grande parte do problema devia-se à ausência de uma
definição de «classe» social. Uma classe é um grupo de pessoas com critérios fixos para os
seus membros. Durante parte do período medieval, a nobreza inseriu-se nesta definição, à ex-
cepção de Inglaterra, mas aí também durante o século XV. A Europa medieval tinha uma so-
ciedade de «estatuto» e não de «classes», à excepção da nobreza. Assim, um insulto podia ser
mais grave do que uma agressão física; também os vilões, que tinham mais terras do que os
seus vizinhos livres, eram atormentados pela perpetuação do seu estatuto de não livres, por
meio de pagamentos simbólicos.

É erróneo assumir que toda a violência resultava da opressão, da mesma forma que é errado
assumir que ela era sempre determinada por aspectos económicos. Muitas lutas davam-se en-
tre diferentes grupos de pessoas ricas que procuravam ganhar ou assegurar poder. As rebe-
liões nas cidades alemãs instigavam, frequentemente, as guildas e os burgueses mais ricos
contra os nobres, embora, por vezes, os artesãos se aliassem aos nobres contra os burgueses.
As cidades que tinham um próspero comércio de longa distância, tais como Breslau, Leipzig,

Capítulo 13 125/160
Nuremberga e Regensburgo, permaneceram patrícias, excluindo os artesãos do poder. Outras
rebeliões eram políticas e algumas eram revoltas de contribuintes.

No século XIV houve três revoltas importantes de camponeses, todas ligadas às cidades. Em
1323, quando o conde da Flandres revogou os privilégios de Bruges em Sluis, irrompeu uma
revolta que depressa alastrou às zonas rurais. A liderança passou para as mãos de camponeses
prósperos, apoiados pelos endinheirados de Bruges. Mais tarde, a rebelião adquiriu um carác-
ter radical, com pregadores a exigir a abolição das distinções sociais e o conde acabou por pôr
fim à revolta com a ajuda do rei francês. Uma rebelião que começara por uma questão de pri-
vilégios para os mercadores ricos transformara-se numa sublevação contra a ordem social.

Noutro caso, o rei francês João II e outros nobres foram capturados em 1356 pelos ingleses e
detidos sob um enorme resgate. Os camponeses levantaram-se contra o pagamento. As atroci-
dades cometidas levaram à sublevação geral da Ile-de-France. Os seus líderes estabeleceram
contactos com o governo da comuna de Paris, mas foram esmagados em Junho.

Em 1381 o Parlamento inglês instituiu o terceiro imposto de cabeça em quatro anos e irrom-
peu a rebelião no Essex. Acompanhado por homens da cidade, o exército rebelde dirigiu-se
para Londres, onde assassinaram o arcebispo de Cantuária e o chanceler do rei. Os rebeldes
exigiam o fim da servidão e das rendas baixas. O rei Ricardo II, com 14 anos de idade, enca-
beçou o exército rebelde, mas tal não passou de um engodo, pois ele conduziu-os para fora da
cidade, onde foram aniquilados. Tal como noutras rebeliões, os registos dos confiscos suge-
rem que a maior parte dos participantes vivia bem. A servidão extinguiu-se em Inglaterra du-
rante o século XV, mas somente porque os senhores pareciam preferir o arrendamento.

Com uma única excepção, as rebeliões urbanas apresentavam ainda menos relações com clas-
ses sociais do que as rurais. Em meados dos anos de 1330, a Inglaterra estava a aliciar o conde
flamengo numa aliança contra o rei francês. Para forçar o conde, o rei Eduardo III impôs um
embargo às exportações de lã. Isto precipitou uma crise nas cidades flamengas, cujas indústri-
as têxteis dependiam da lã inglesa, que se estendeu ao resto da Flandres. O conde foi expulso
e Van Artevelde, o chefe dos revoltosos, deteve o poder até pouco antes de ser assassinado,
em 1345. A rebelião constitui um episódio na história do nacionalismo flamengo e na luta
contra a influência francesa na Flandres e não dos trabalhadores contra os aristocratas.

Na base de algumas das rebeliões do século XIV encontra-se a noção de que a cobrança direc-
ta de impostos era iníqua, e que estavam a atingir níveis nunca antes vistos. No seu leito de
morte, o rei Carlos V aboliu a taille, que era praticada, em parte de França, sobre a pessoa e
os outros que residiam com ele. Confrontados com o tesouro vazio, os regentes do seu jovem

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filho Carlos V reimposeram-na, o que provocou rebeliões em Paris e em Rouen.

A rebelião de ciompi (cardadores de lã) irrompeu em Florença em 1378, quando Salvestro


de Medici, um inimigo aristocrático do governo, entrou para o conselho. Embora os rebeldes
viessem de todos os grupos, incluindo da aristocracia, a insatisfação para com a influência
da guilda da lã era um factor importante. Muitos dos ciompi eram fiadores de lã que só podi-
am trabalhar na cidade durante o Inverno, pois eram necessários como mão-de-obra agrícola
no Verão. Exigiram uma revisão dos impostos e o fim dos direitos disciplinares da guilda da
lã sobre os trabalhadores. Também pretendiam uma nova guilda do popolo minuto (o peque-
no popolo), cujos membros pudessem ser eleitos para cargos de direcção. Este regime durou
até 1382, quando a antiga oligarquia voltou ao poder.

AS ROTAS E TÉCNICAS DO COMÉRCIO: OS ITALIANOS E O SUL

Os italianos dominavam as rotas para o leste grego, muçulmano e mongol desde antes das
Cruzadas. Os principais centros eram Veneza e Génova. Os venezianos tinham sido os princi-
pais beneficiários da Quarta Cruzada, mas a restauração dos gregos em Constantinopla deu
vantagem aos genoveses, que estabeleceram bases na região do mar Negro. A mais importan-
te rota terrestre para a Ásia começava na cidade grega de Trebizonda, na margem sul do mar
Negro, seguindo depois a rota das caravanas para Tabriz, Samarcanda e China. Do Irão, os
europeus também podiam navegar para o oceano Indico, a partir de Ormuz. O resultado foi
um notável aumento na quantidade de produtos orientais nos mercados ocidentais.

Durante o século XIV os asiáticos tornaram-se mais hostis para com os ocidentais. Em 1335,
os governantes mongóis da Pérsia foram substituídos por muçulmanos nativos e, em 1368, a
dinastia Ming expulsou todos os estrangeiros da China. A rota do mar Negro perdeu a sua im-
portância nas especiarias, já que estas eram cada vez mais trazidas através do Egipto. A cir-
cum-navegação portuguesa de África, no final do século XV, significou o fim do monopólio
egípcio e que os produtos eram agora disponíveis directamente da Ásia.

O comércio dos cereais, que tinha sido essencialmente local antes do século XIV, tornava-se
agora um importante a longa distância, tanto nas áreas do Mediterrâneo como do Báltico. Os
genoveses transportavam carregamentos da Crimeia e da Ucrânia e Veneza vendia cereais da
Macedónia e da Anatólia em Creta e em Chipre. As companhias florentinas também importa-
vam cereais. Os frutos, sobretudo os secos, também entraram no comércio de longa distância,
bem como as nozes e as amêndoas, que eram muito procuradas pelas pastelarias finas.

Capítulo 13 127/160
AS ROTAS E TÉCNICAS DO COMÉRCIO: OS ITALIANOS E O NORTE

As técnicas comerciais mudaram radicalmente na Baixa Idade Média. Em 1278, os genoveses


começaram a fazer viagens directas aos portos do mar do Norte, geralmente quatro vezes por
ano. A sua mais importante mercadoria era o alúmen, uma vez que até 1459 as minas dos ge-
noveses em Foceia constituíam a única fonte conhecida deste mineral, que era utilizado como
mordente na tinturaria. Os italianos mantinham há muito tempo colónias mercantes residentes
nas cidades do Próximo Oriente, mas no início do século XIV alargaram esta prática aos prin-
cipais portos do norte: Southampton, Londres e, sobretudo, Bruges. Controlavam a maior par-
te do comércio do sul com o norte da Europa. Os reis ingleses e os condes flamengos concedi-
am-lhes privilégios nos seus portos, dando-lhes isenção de algumas portagens e, principal-
mente, “freedom from arrest”. Os italianos confinavam-se à exportação e à importação, pois,
nestas áreas não podiam vender directamente aos consumidores, tendo de passar pelos corre-
tores locais. O contacto por mar entre a Flandres e a Itália levou ao declínio das feiras da
Champanha. As feiras que cresceram foram as de Antuérpia, de Francoforte e de Leipzig, e a
de Génova, que lidava com a maior parte do comércio italiano até o rei Luís XI estabelecer a
feira de Lião, e proibir os mercadores franceses de comerciarem em Génova. À medida que os
luxos de uma geração se tornavam as necessidades da seguinte, os frutos do Mediterrâneo, as
especiarias e as tintas exóticas tornaram-se comuns em todo o lado.

As letras de câmbio, desenvolvidas pelos italianos no século XIII, tornaram-se o principal


meio para transferência de fundos internacionais nos séculos XIV e XV. Um homem de negó-
cios utilizava a sua moeda nativa para comprar uma letra que valeria o valor facial indicado
de uma moeda estrangeira. A letra era dirigida a um credor ou sócio do comprador e não po-
dia ser cobrada antes de passar um determinado tempo, geralmente seis meses, devendo ser
paga num porto estrangeiro, na maioria dos casos na sua moeda local. As letras de câmbio não
teriam sido concebidas sem a existência de um contacto frequente e regular entre portos. Em-
bora pudesse ser utilizada para pagar produtos em trânsito, era também um meio de emprestar
e investir dinheiro com a aplicação de juros, sem violar a proibição da Igreja contra a usara.
Por volta de 1400, existia um mercado de dinheiro conduzido por corretores profissionais,
com cotações regulares disponíveis nas cidades comerciais.

Os italianos também foram responsáveis por outras inovações técnicas. Em 1300, já utiliza-
vam cheques para transacções locais. Em 1400, os cheques e as letras de câmbio eram transfe-
ríveis por endosso. Os seguros marítimos desenvolveram-se antes de 1250 em Génova, espa-
lhando-se depois por toda a Itália. A contabilidade com dupla entrada foi utilizada, pela pri-

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meira vez, no final do século XIII. As colunas paralelas, registando cada transacção sob débi-
tos e créditos, registavam as obrigações e bens das firmas e possibilitava a verificação dos ne-
gócios em qualquer altura. Os livros de contas de dupla entrada eram parciais, envolvendo
apenas ramos específicos, não se estendendo à representação geral da situação da firma, o que
não deixava de constituir um notável avanço.

Uma vez que os estrangeiros eram vulneráveis à hostilidade nativa, as firmas rivais tratavam
frequentemente dos negócios umas das outras. À medida que a noção de obrigatoriedade limi-
tada para dívidas se espalhava, as pessoas que estavam envolvidas com estrangeiros manti-
nham contas com os cambistas locais para que os pagamentos pudessem ser feitos através de
transferências sem a utilização de espécie. Algumas cidades, como Barcelona e Estrasburgo,
tinham uma casa de câmbio municipal ou um Banco público, enquanto outras simplesmente
financiavam os cambistas. Devido às súbitas desvalorizações da moeda durante o século XIV
e ao impacte da grave falta de metal precioso na economia europeia, o que causou uma séria
contracção no crédito depois de 1370, os cambistas tinham de ser pessoas com uma conside-
rável competência técnica, capazes de avaliar o valor das moedas ao longo de uma série de
anos. Tomavam dinheiro em depósito e investiam-no, mantendo uma reserva limitada, tal
como acontecia com os grandes banqueiros. Vendiam e especulavam sobre a moeda domésti-
ca e, acima de tudo, sobre as estrangeiras. Os cambistas desempenhavam, nos centros do nor-
te, as mesmas funções que as casas banqueiras em Itália.

No entanto, as técnicas comerciais no norte da Europa continuaram primitivas em compara-


ção com as italianas. As sociedades raramente se faziam além da comenda, que os italianos
utilizavam desde o século XII. Preservaram métodos mais antigos de registos de contas e de
contabilidade. Sobretudo depois de os mercadores da Hansa alemã terem obtido o direito de
possuir uma colónia residente em Bruges, os mercadores de diferentes cidades da Hansa agi-
am frequentemente como correspondentes uns dos outros, mas não utilizavam as letras de
câmbio. Enquanto os italianos emprestavam dinheiro, especulando sobre a taxa de câmbio, os
nórdicos especulavam com a taxa de mortalidade através da renda de anuidade: uma pessoa
que precisasse de dinheiro recebia um empréstimo em troca de um pagamento anual garantido
durante o tempo de vida do emprestador. O risco do emprestador era que ele podia morrer
sem conseguir reaver o total do empréstimo e os seus herdeiros não tinham qualquer direito à
renda; por outro lado, se o emprestador vivesse muito tempo, podia conseguir obter um lucro
considerável. Os pais utilizavam este método para assegurar dotes aos seus filhos. Os Gover-
nos municipais também vendiam rendas pelo tempo de vida do comprador e, desta forma,
chegaram à emissão dos títulos obrigacionistas. Também existiam rendas perpétuas que vin-

Capítulo 13 129/160
culavam os herdeiros.

A HANSA ALEMÃ

No seu auge, no século XIV, a Hansa alemã incluía mais de oitenta cidades da Rhineland ger-
mana, da Saxónia e, sobretudo, da costa do mar Báltico. A coligação tinha uma assembleia
onde os assuntos de interesse comum eram discutidos, mas os boicotes económicos eram o
único meio de fazer cumprir os desejos da maioria sobre os membros que não queriam coope-
rar. Os alemães tinham colónias residentes em Novgorod na Rússia, em Bergen na Noruega,
em Londres e, mais importante ainda, em Bruges.

O grande tamanho dos navios da Hansa fez que fosse possível uma crescente internacionaliza-
ção do comércio, podendo transportar-se mais carregamentos e mais produtos. Os alemães
compravam peles, madeira e outros produtos florestais aos escandinavos e aos russos e cereais
do leste germano. Os Estados da Europa ocidental eram muito dependentes dos transportes
alemães, uma vez que grande parte do mercado para os têxteis ingleses e dos Países Baixos se
situava agora na Alemanha, já que o sul da Europa produzia a maior parte dos seus tecidos. O
poder da Hansa começou a declinar no século XV, embora tivesse sido capaz de travar uma
guerra bem sucedida contra os ingleses e continuasse a excluir os holandeses do Báltico.

O declínio de Bruges, devido a problemas internos na Flandres e ao assoreamento do Zwin, o


elo de ligação com os portos marítimos, era evidente por volta de 1470. A ascensão de An-
tuérpia como o principal porto dos Países Baixos colocou a Hansa em directa competição com
os alemães do sul, que tinham melhores acessos àquela através do Reno.

Na Baixa Idade Média, a Europa industrial do noroeste tornou-se muito dependente dos italia-
nos para produtos de luxo e dos alemães para os cereais, produtos da floresta e outras merca-
dorias. Curiosamente, os italianos não se aventuraram para norte de Bruges e os alemães tive-
ram um papel irrisório no comércio do Atlântico até meados do século XV. O nexo do comér-
cio italiano com a Alemanha situava-se principalmente no sul. Os mercadores alemães sequi-
am para Veneza, onde se mantinham alojamentos para eles. Isto era mais conveniente para a
maioria dos italianos do que o comércio com os hansardos em Bruges.

MULHERES, CRIANÇAS E A FAMÍLIA NA BAIXA IDADE MÉDIA

As estruturas familiares também se alteraram em resposta às crises do final da Idade Média.

130/160 Capítulo 13
Muito se tem escrito sobre a relativa importância da família alargada e da família nuclear, mas
ambas foram muito significativas. O conhecimento do funcionamento interno das famílias
conjugais é limitado, uma vez que raramente se deixavam registos escritos, a não ser que hou-
vesse disputas em tribunal. A família conjugal tratava, normalmente, dos seus próprios assun-
tos, incluindo a educação das crianças.

FAMÍLIAS, RIXAS E GOVERNO CIVIL

Tal como no início do período medieval a família teve um papel na paz e na guerra, o mesmo
aconteceu nos séculos XIV e XV, quando o desmoronamento da ordem pública depois da pes-
te negra conduziu ao reavivar das vendettas. A maioria das famílias definiam os seus laços bi-
lateralmente e, uma vez que os aparentados, tal como os parentes de sangue, eram considera-
dos como pertencentes à família, sendo frequentes as segundas núpcias, o grupo familiar aca-
bava por ser bastante grande. A probabilidade de um membro da família se meter em sarilhos
e, como tal, envolver os seus parentes era muito grande. Muita da violência existente era per-
petrada pelos jovens, embora estes agissem frequentemente sob as ordens de um homem mais
velho da família. As hostilidades podiam prolongar-se durante gerações, tornando-se os go-
vernos das cidades impotentes para acabar com a violência.

Estudos recentes demonstram que muitos conflitos nas cidades, que em tempos se pensou te-
rem origem em trabalhadores contra empregadores ou guildas pobres contra as ricas, eram afi-
nal lutas entre diferentes facções de famílias aristocráticas. As rivalidades tinham, por vezes,
origem nas atitudes para com o príncipe ou o senhor da cidade, mas, muitas vezes as questões
eram puramente pessoais, remontando a uma ofensa ou agressão feita no passado.

Sobretudo no século XIII, eram as linhagens que controlavam os Governos das cidades, tanto
no norte como no sul. Algumas destas linhagens começaram como unidades familiares, tor-
nando-se mais tarde confederações artificiais que constituíam redes de clientes. Os alberghi
(casas) de Génova eram alianças que consistiam em cerca de oitenta famílias distintas. Algu-
mas delas agiam como associações de caridade, prestando auxílio aos pobres, mantendo fun-
dos para dotes de raparigas pobres do clã e investindo o tesouro comum em títulos públicos.

As «casas» genovesas participavam em cargos municipais e, de um modo geral, tinham as


suas próprias igrejas através do controlo que possuíam nos bairros. O facto de a maioria dos
bairros urbanos conterem tanto famílias pobres como ricas deve-se, em parte, à existência de
ricos líderes políticos a viverem em grandes casas rodeadas pelas pequenas habitações dos
seus clientes. Sobretudo em Itália, mas também em algumas cidades do norte, havia uma con-

Capítulo 13 131/160
siderável vida social centrada em torno da praça pública; as grandes famílias tentavam con-
trolar o acesso às suas praças comprando as propriedades que as rodeavam.

O CASAMENTO E A FAMÍLIA

Quando se contraía casamento, as propriedades mudavam de mãos. Até ao século XII, o noi-
vo tinha o costume de pagar um preço de noiva aos pais dela. Mas a competição por homens
elegíveis tornou-se tão intensa que as famílias das raparigas se viam obrigadas a oferecer in-
centivos financeiros para lhes arranjarem maridos. Os dotes tornaram-se a norma e o preço da
noiva diminuiu substancialmente. O dote era controlado pelo marido durante o casamento,
mas, se ele morresse primeiro, permanecia nos bens da mulher e era passado para os herdeiros
de sangue dela. Uma vez entregue o dote de uma mulher italiana pela sua família, ela deixava
de ter qualquer direito sobre as propriedades dos seus pais quando eles morressem - passavam
para os seus irmãos -, mas, em zonas do norte da França e dos Países Baixos, ela e o marido
tinham a hipótese de devolver o dote para, depois, poderem partilhar do total das propriedades
com os irmãos dela. Os dotes no final do século XII eram bastante grandes, mas os do século
XIV atingiam proporções inacreditáveis. Em Itália, o pai tinha o direito de reter a propriedade
dos seus filhos homens para pagar os enormes dotes das filhas. Isto significava que os casa-
mentos dos rapazes eram protelados, enquanto as raparigas se casavam normalmente no fim
da adolescência. Desenvolveu-se o costume de homens amadurecidos casarem com mulheres
muito mais novas, recebendo grandes dotes dos seus sogros. Em Florença estabeleceu-se um
fundo especial, com vencimento de juros, onde os pais podiam investir desde a infância das
suas filhas, para lhes providenciar um dote substancial ao atingirem a idade de casar.

As relações emocionais e financeiras entre esposos eram muito mais recíprocas no norte da
Europa. À excepção da aristocracia, os maridos e as mulheres tendiam a estar mais próximos
no nível etário do que em Itália, sendo a idade do primeiro casamento mais tardia, por volta
dos 20 para ambos os sexos. O casamento adolescente é mencionado ocasionalmente na lite-
ratura do norte, mas apenas entre a aristocracia, que tentava, em alguns casos, cimentar alian-
ças entre famílias, prometendo os filhos em casamento desde tenra idade. Com a excepção do
Languedoc, a maioria dos dotes eram de volume mediano, querendo isto dizer que os rapazes
não se viam privados, nem mesmo temporariamente, das suas heranças. Em muitas zonas do
norte da Europa existiam regimes legais de propriedade conjunta ou comum, onde os bens do
casal eram divididos, por ocasião da morte de um deles, entre o esposo sobrevivente e os her-
deiros de sangue descendentes. Isto protegia as viúvas e mesmo os viúvos. Mesmo que os es-

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posos sobreviventes não obtivessem uma parte dos bens do casal em posse directa, tinham,
em praticamente todo o lado, o direito vitalício de usufruir um quarto a um terço, embora a
posse permanecesse vinculada aos herdeiros.

PAIS E FILHOS

É difícil fazer generalizações sobre a educação, uma vez que a relação dos pais com os filhos
variava entre o mimo e a brutalidade. A maioria das crianças eram criadas de uma forma mais
rígida do que actualmente, com o pai a ser, mais do que a mãe, a figura de autoridade. Muitas
crianças eram claramente desejadas pelo casal, valorizadas e alimentadas no máximo das ca-
pacidades e entendimento dos pais. Os pais que tinham posses contratavam amas, que podia
ter mais impacte na formação emocional da criança do que eles. Os pais mais pobres, que não
podiam contratar amas, mantinham os seus filhos em casa e, como tal, parecem ter tido uma
proximidade emocional mais íntima com eles do que os pais de famílias ricas.

Por volta dos 7 anos de idade, muitos rapazes e algumas raparigas iam para a escola, que, an-
tes do século XI, era, em geral, nos mosteiros. Daí em diante, as catedrais, as fundações men-
dicantes e uma variedade de escolas fundadas por entidades privadas ou pelos municípios tor-
naram a educação disponível para muitas mais pessoas. Sobretudo nas cidades, praticamente
os filhos de todos os mercadores e de muitos artesãos faziam, pelo menos, a escola primária.
As elevadas taxas de mortalidade significavam que muitas crianças não chegavam à maiorida-
de com ambos os pais ainda vivos. As crianças italianas eram entregues, normalmente, à fa-
mília do pai falecido; se a mãe desejasse continuar a estar com eles, tinha de ficar na casa dos
seus sogros, não podendo voltar a casar ou retornar para a sua própria família. A situação era
bastante mais fluida no norte da Europa, onde as crianças eram criadas, de um modo geral,
pelo progenitor sobrevivente, a não ser que o padrasto, no caso de um segundo casamento da
mulher, não quisesse os filhos dela. Nesse caso, ela teria de os entregar aos parentes do pai.
Muitos viúvos entregavam a custódia dos seus filhos aos seus familiares femininos, mas ou-
tros mantinham-nos, já que muitas ocupações eram desempenhadas em casa e as crianças po-
diam fazer trabalhos úteis à medida que iam crescendo.

A admissão como aprendiz, normalmente para os rapazes, embora também admitissem rapa-
rigas, era feita nos anos da adolescência, depois complementada a escola primária. No norte
da Europa, o rapaz ficava geralmente alojado com a família do seu mestre, mas em Itália era
mais comum ele voltar para casa dos pais ao fim do dia. Outros jovens da classe baixa e mé-
dia eram colocados ao serviço doméstico. As raparigas das classes mais elevadas eram feitas

Capítulo 13 133/160
damas-de-companhia, enquanto os rapazes eram escudeiros. Isto significava que os laços da
criança com a sua família eram frequentemente distantes, sobretudo nas cidades.

À medida que as famílias alargadas se tornavam mais influentes, no final da Idade Média, es-
perava-se que tomassem conta dos órfãos dos seus membros. Para aqueles que não tinham
familiares, algumas cidades estabeleceram asilos para enjeitados. Os orfanatos representam
um considerável avanço, mostrando que as autoridades estavam conscientes do problema. A
maioria dos Governos das cidades também se encarregavam da administração dos bens dos
órfãos, nomeando guardiães ou tutores para os gerirem.

A ilegitimidade é difícil de documentar estatisticamente, mas é mencionada com tanta natu-


ralidade nas fontes, que nos leva a pensar tratar-se de algo bastante comum. Os bastardos,
que estavam em desvantagem em relação aos filhos legítimos, por vezes eram transformados
em criados do pai e dos filhos legítimos. Em algumas zonas, os filhos ilegítimos podiam her-
dar bens da mãe, mas nunca directamente do pai, a não ser que ele os legitimasse.

AS MULHERES NA FORÇA DE TRABALHO

Enquanto as mulheres nobres e as das classes urbanas mais elevadas estavam confinadas à
gestão das suas famílias, tomando um papel activo no negócio da família apenas por ocasião
da ausência do marido, as mulheres da classe média e baixa tinham, em muitos casos, empre-
gos, assistindo os seus maridos ou agindo independentemente. Muitas mulheres de mercado-
res eram bem educadas, uma vez que a maioria das escolas primárias estavam abertas a am-
bos os sexos. Grande parte do trabalho nos ofícios que envolviam cuidados de saúde e prepa-
ração de alimentos, tais como o fabrico do pão e da cerveja, era feito por mulheres. Sobretu-
do em Inglaterra, muitas mulheres do campo complementavam os rendimentos das suas famí-
lias como cervejeiras, enquanto os seus maridos trabalhavam nas terras. Eram pessoalmente
excluídas da possibilidade de se tornarem mestres na maior parte das guildas, mas o estatuto
de mestre podia ser transmitido pela linha feminina. As viúvas de mestres eram autorizadas,
na maioria dos casos, a prosseguir com os ofícios dos seus maridos, caso tivessem trabalhado
em conjunto com eles, mas somente enquanto permanecessem sem marido.

As mulheres por vezes obtinham salários iguais por trabalho igual, mas não na maioria dos
casos e, de um modo geral, era-lhes dado trabalhos sem qualquer qualificação. Dados das
guildas de Paris, de 1296 e de 1313, apresentam algumas mulheres em muitos ofícios, mas o
mais vulgar era serem criadas domésticas, costureiras, fiadoras, ourives, fabricantes de velas,
hospedeiras, merceeiras, chapeleiras e estalajadeiras. À medida que as guildas, dominadas

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pelos homens, se tornavam vez mais oligárquicas, tomando controlo sobre os Governos das
cidades, restringiam o papel das mulheres e, por volta de 1500, as mulheres estavam confi-
nadas, essencialmente, a profissões que podiam ser exercidas em casa.

O trabalho da mulher proporcionava um rendimento suplementar ao do marido. Dentro da


casa, os trabalhos tendiam a ser específicos a cada sexo. Os homens desempenhavam as tare-
fas mais pesadas da quinta ou do artesanato, enquanto as mulheres cuidavam da horta. Eram
elas quem tratava da preparação dos alimentos e da educação das crianças, à excepção dos ra-
pazes adolescentes, que tendiam a seguir os seus pais para os campos ou para as lojas. Uma
vez que as famílias com dois rendimentos eram muito comuns, sobretudo no norte da Europa,
tanto os homens como as mulheres ficavam debilitados economicamente com a morte de um
esposo. Isto explica por que razão no norte da Europa ambos os sexos tendiam a casar-se no-
vamente; as segundas núpcias para os homens eram comuns em Itália, mas as viúvas costu-
mavam permanecer solteiras. Todavia, a morte de um esposo causava mais facilmente dificul-
dades económicas à mulher do que ao homem, que podia simplesmente continuar a exercer a
sua profissão. A maior parte dos costumes faziam com que as viúvas tivessem de partilhar os
bens do marido com os seus filhos e com os seus outros herdeiros de sangue, o que significa-
va que o seu nível de vida baixava. Alguns maridos tomavam medidas para circunscrever as
leis de herança, deixando, por exemplo, terras ou rendimentos ao cuidado da mulher. Uma
técnica comum era a de comprar rendas de anuidade para as esposas, filhas solteiras e filhos
em ordens religiosas. Isto garantia-lhes um rendimento, mas o principal permanecia com os
parentes de sangue para ser transmitido aos herdeiros legítimos.

Registos de auxílios aos pobres mostram um número desproporcionado de mulheres com fi-
lhos, comparado com homens. As mulheres que não se casavam novamente, podiam ficar à
mercê da caridade dos seus parentes. Outras conseguiam trabalhos ocasionais como fiadoras,
amas e criadas domésticas. Algumas viam-se forçadas a recorrer à prostituição.

A Europa atravessou, assim, uma reestruturação fundamental nos dois últimos séculos medie-
vais. As regiões tornaram-se economicamente interdependentes e as vias de comunicação de-
senvolveram-se de tal modo que só viriam a sofrer pequenas modificações no século XVIII.
Os problemas «modernos» da pobreza e do desemprego apareceram pela primeira vez com o
vínculo ao mercado, substituindo o vínculo ao senhor.

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14 - Governo e Política na Baixa Idade Média

GUERRA, PAZ E POLÍTICA

A ITÁLIA DEPOIS DOS ANGEVINOS

O fim do Império Hohenstaufen e o desmantelamento do de Carlos de Anjou deixaram um


vazio de poder na Itália. As cidades-Estado de Veneza, Milão e Florença tomaram o controlo
gradual da maior parte do norte de Itália. A retirada dos papas para França, depois de 1305,
deixou a Romagna mergulhada no caos. Inocêncio VI decidiu reconquistá-la, mas os seus sol-
dados tiveram de passar duas décadas a «pacificar» a área.

Enquanto os Governos das cidades italianas tinham sido repúblicas oligárquicas no século
XIII, a maior parte deles passaram a ficar sob o controlo de um senhor depois de 1300. En-
quanto bastião do sentimento guelfo, Florença ficava em perigo sempre que um imperador
germano ia a Itália ou se os partidos guibelinos tomavam o poder noutras cidades toscanas.
Por várias vezes Florença teve de reagir contra ameaças externas, convidando um estrangeiro
para ser o senhor da cidade. Nápoles era governada, no início do século XIV, pelo rei Roberto
o Sábio, um descendente de Carlos de Anjou, enquanto a Sicília era dominada por um ramo
da Casa de Aragão. A Roberto sucedeu em Nápoles a sua neta Joana I, mas o trono foi con-
testado por Luís o Grande da Hungria, um rival da Casa de Anjou. Desordens intermitentes
prolongaram-se até o rei Ladislau da Hungria se estabelecer em Nápoles, depois de 1404. O
crescente poder de Ladislau levou as cidades do norte a formarem uma coligação contra ele.
Morreu em 1414, e, por volta de 1435, Afonso V de Aragão retirou os angevinos do poder,
governando Nápoles como rei e unindo depois essa cidade à Sicília.

Veneza até ao século XV não teve ambições no continente. Estranhamente manteve institui-
ções aristocráticas que eram também republicanas. Génova era economicamente poderosa,
mas politicamente impotente; era dominada por facções nobres, mas rivais, estando, em dife-
rentes alturas, sob o poder de Milão, a mais poderosa cidade continental do norte da Itália. A
família Visconti, que controlava Milão, conduziu uma vigorosa política expansionista. Eles e
os governantes Della Scala de Verona eram guibelinos, fazendo da Lombardia um bastião
desse partido, enquanto a Toscânia era, de um modo geral, controlada pelos guelfos. Nenhu-
ma cidade italiana desta época se conseguia defender-se com uma milícia de cidadãos, pelo
que os Governos contratavam capitães mercenários (condottieri). Em 1399, na época de Gi-

136/160 Capítulo 14
angallazzo Visconti, a quem foi dado o cobiçado título de duque pelo imperador Venceslau,
parece ter existido a ameaça real de que Milão pudesse dominar os outros Estados, mas essa
mesma ameaça foi extinguida com a morte de Giangallazzo. O seu filho mais novo, Filippo
Maria, assumiu, em 1412, o controlo da cidade depois de uma luta de poder, governando ha-
bilmente como duque. O mais famoso condottiere, Francesco Sforza, casou com a filha de
Filippo Maria, sucedendo-lhe como duque em 1450.

Depois do final dos tumultos ciompi em 1382, Florença foi governada por uma rígida e está-
vel oligarquia mercante. Durante as ameaças dos milaneses e depois de Ladislau de Nápoles,
Florença tomou ou comprou a soberania de vários centros secundários do norte da Itália, no-
meadamente Pisa e Laghorn. Geralmente em aliança com Veneza, Florença prosseguiu as lu-
tas com Milão. Em parte como reacção aos embaraços militares, o mercador e banqueiro Co-
simo de Medici tornou-se, em 1433, chefe da oligarquia florentina. Exilou alguns dos seus
oponentes, cobrou impostos punitivos a outros e manipulou as eleições para o priorado. Em-
bora tenha detido poucos cargos, a sua rede de patronatos deu-lhe o controlo de toda a Flo-
rença até à sua morte em 1464. Em 1454, Cosimo reverteu a política tradicional da cidade,
aliando-se a Milão, que também estabeleceu uma paz separada com Veneza. Como con-
sequência, a Itália viveu um período de calma generalizada, até à invasão francesa de 1494.

PRÍNCIPES E POLÍTICA NA ALEMANHA PÓS-HOHENSTAUFEN

Nenhuma monarquia nacional se desenvolveu na Alemanha durante a Baixa Idade Média. A


fragmentação territorial era extrema no Ocidente, mas a Alemanha oriental tinha vários Esta-
dos bem administrados: os ducados da Baviera e da Áustria, o Estado dos cavaleiros teutóni-
cos na Prússia e a marca de Brandenburgo. A Boémia foi governada pelos alemães depois de
1305. Na fronteira de leste do império, a Hungria e a Polónia eram grandes reinos com mo-
narquias fracas. Depois de o imperador Alberto da Áustria ter sido assassinado em 1308, os
barões alemães afastaram-se dos Habsburgos, escolhendo o duque do Luxemburgo, que go-
vernou como Henrique VII. Henrique foi o primeiro príncipe germano desde Conradino, em
1268, a tentar reconquistar a Itália. Foi coroado imperador em 1312, mas depressa se retirou,
tendo apenas conseguido agitar as rivalidades entre guelfos e guibelinos. O feito duradouro
de Henrique VII foi ter conseguido que o seu filho, João, fosse reconhecido como rei da Boé-
mia. A dinastia de Luxemburgo governou a Boémia até 1438.

Por volta de 1313, os príncipes alemães estavam divididos entre facções pró e anti-habsbur-
gos. Uma vez que João da Boémia era ainda muito novo, os inimigos dos Habsburgos esco-

Capítulo 14 137/160
lheram Luís IV, duque da Baviera, o primeiro membro da família Wittelsbach a usar a coroa
imperial. Os outros optaram pelo Habsburgo Frederico da Áustria. Depois de Luís ter derro-
tado definitivamente Frederico, em Muhldorf, na última batalha travada na Alemanha sem a
utilização de armas de fogo, os barões alemães uniram-se a Luís. O papa João XXII tomou a
causa Habsburgo e Luís respondeu dando refúgio aos oponentes do papa.

Luís, desejoso de explorar a perseguição dos franciscanos por João XXII, acusou-o de here-
sia. Invadiu a Itália e recebeu a coroa imperial das mãos de um franciscano que ele tinha no-
meado papa. Os barões alemães apoiaram-no: na Declaração de Rense afirmaram que a digni-
dade real era detida directamente a partir de Deus e que o escolhido como rei não precisava
da confirmação do papa. Luís levou esta declaração mais longe, dizendo que a pessoa escolhi-
da como rei tornava-se imperador sem necessitar da aprovação do papa. Mas Luís desagradou
aos príncipes da Alemanha ocidental quando se aliou aos ingleses contra os franceses. Os ba-
rões retaliaram, elegendo Carlos do Luxemburgo, rei da Boémia, como rei dos Romanos em
1346. Luís morreu no ano seguinte e Carlos consolidou a sua autoridade no sul da Alemanha
confirmando as possessões dos apoiantes dos Habsburgos.

Depois da viagem a Roma para a coroação imperial, Carlos IV praticamente esqueceu a Itália.
Em 1356, depois de consultar os príncipes, promulgou a Bula Dourada. Este documento re-
conhecia que os príncipes eram supremos nos seus domínios. Para evitar conflitos futuros so-
bre a eleição imperial, o imperador estabeleceu uma comissão eleitoral de sete membros: os
arcebispos de Mainz, Trier e Colónia e quatro príncipes laicos - o conde palatino do Reno, o
duque da Saxónia, o margrave de Brandenburgo e o rei da Boémia. Uma comissão eleitoral já
tinha vindo a eleger imperadores desde o século XIII, mas nunca tinha sido composta por es-
tes príncipes em particular. A exclusão dos Habsburgos da Áustria e dos duques de Wittelsba-
ch da Baviera, inimigos de Carlos IV, iria causar sérios problemas no século XVII.

Carlos IV foi sucedido pelo seu filho mais velho, Venceslau, que reverteu a política pró-fran-
cesa do pai, casando a sua irmã Ana com o rei Ricardo II de Inglaterra. Os nobres não o apre-
ciavam; embora fosse rei da Boémia, tinha a reputação de ser anti-eslavo. O seu reinado tes-
temunhou o começo do problema hussita e o aguçar das tensões entre as coligações urbanas e
os nobres. Venceslau era um bêbado, acabando por ser deposto como imperador em 1400,
por uma coligação de barões (permaneceu como rei da Boémia até à sua morte, em 1419). O
novo governante, Rupert III do Palatinado, um Wittelsbach, era hábil, mas a sua base territo-
rial não era a mais adequada para um imperador. Os eleitores viraram-se então para o segun-
do filho de Carlos IV, Sigismundo. Este também era rei da Hungria através do seu casamento
com Maria, filha do rei angevino Luís o Grande. As movimentações territoriais de Sigismun-

138/160 Capítulo 14
do na Alemanha tiveram consequências de longo alcance. Quando se extinguiu a dinastia as-
caniana da Saxónia, em 1422, ele deu o ducado, como feudo confiscado, à família Wettin e a
marca de Brandenburgo a Frederico de Hohenzollern, burgrave de Nuremberga. Casou a sua
filha e única herdeira, Isabel, com o Habsburgo Alberto da Áustria. As propriedades do Lu-
xemburgo passaram, assim, para os Habsburgos, que, nesta época, possuíam não só a Áustria
mas também a Caríntia, a Carniola e o Tirol.

Alberto seria o primeiro de uma linha contínua de imperadores Habsburgos. O seu sucessor,
Frederico III era um hábil diplomata que reuniu gradualmente todos os domínios dos Habs-
burgos (as propriedades da família tinham sido divididas depois de 1365). Administrou bas-
tante bem os territórios da sua casa, empregando grandes sábios, como o humanista e futuro
papa Eneias Sílvio de Piccolomini. Perdeu os reinos luxemburgueses da Boémia e da Hungria
para as dinastias nativas, mas os Habsburgos iriam recuperar a Hungria no século XVI. A
mais famosa aliança de Frederico foi o casamento do seu filho Maximiliano com Maria, filha
do duque Carlos o Ousado da Burgúndia, que também governava os Países Baixos. Os des-
cendentes de Maria e de Maximiliano, na Alemanha, Hungria, Países Baixos e Espanha, iriam
desempenhar um importante papel nos assuntos internacionais do século XVI.

AS AUTORIDADES REGIONAIS E AS INSTITUIÇÕES NO IMPÉRIO DA BAIXA


IDADE MÉDIA

A Suíça foi uma criação política importante da Baixa Idade Média. Os Habsburgos governa-
vam os Cantões de Uri, Schweiz e Underwalden. À medida que o poder Habsburgo se desva-
necia no início do século XIV, os cantões tornaram-se mais independentes. A primeira cidade
a aliar-se à confederação foi Lucerna, em 1331, seguida por Zurique, a maior cidade da re-
gião, e por Berna. As comunidades que se juntaram à confederação mantinham o seu governo
interno. A ameaça Habsburgo foi reavivada mais tarde, mas os suíços asseguraram a sua in-
dependência ao derrotarem em 1386 os austríacos em Sempach. A Suíça foi a mais bem suce-
dida das coligações regionais na Alemanha do final da Idade Média. Uma vez que não existia
nenhum poder central efectivo na Alemanha ocidental, as cidades formaram ligas defensivas
contra os barões que procuravam manter as suas pretensões através da pilhagem. A Liga do
Reno, por exemplo, era uma associação regional que incluía tanto cidades como senhores,
prometendo ajuda mútua contra aqueles que quebrassem a paz.

Conforme ia ficando claro que a Alemanha não podia ser governada por uma coligação de
príncipes nem por um imperador, começaram a surgir sentimentos nacionalistas. Muitos su-

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geriam uma «reforma imperial», que daria ao imperador mais poderes enquanto preservava a
autonomia local dos príncipes. Na realidade, a desunião e desordem crónicas da Alemanha
ocidental começaram a ser ultrapassadas na segunda metade do século XV: mais príncipes
adquiriram o reconhecimento da primogenitura e da indivisibilidade das suas heranças e os
proprietários impuseram impostos que se aplicavam a todo o principado, ignorando as preten-
sões de isenção das comunidades privilegiadas.

A RÚSSIA E O LESTE

Os mongóis em 1240 controlavam a maior parte da Rússia, embora disputassem o poder com
os suecos e com os cavaleiros teutónicos. As divisões internas dos mongóis, nos anos de
1360, enfraqueceram-nos e o seu poder declinou abruptamente durante o reinado do grão-du-
que Basílio I de Moscovo. Um dos seus sucessores, Ivan III deixou de pagar tributo aos mon-
góis, anexou Novgorod, casou com uma princesa bizantina e iniciou relações com os poderes
ocidentais. Em 1547, o seu neto Ivan IV o Terrível proclamar-se-ia czar.

GREGOS, MUÇULMANOS E MONGÓIS

O Império bizantino, reconstituído em 1261, compreendia a zona noroeste da Ásia Menor,


grande parte da Trácia e da Macedónia e algumas ilhas e territórios da Grécia. No entanto,
nunca foi capaz de restaurar um governo controlado por Constantinopla; em vez disso, teve
de confiar em apanágios que eram concedidos a membros da família imperial. Os imperado-
res não eram poderosos e, como tal, tinham de se servir de mercenários, que eram caros e
pouco fiáveis. A frota bizantina tinha praticamente deixado de existir, estando o império de-
pendente dos italianos, sobretudo dos genoveses, para o transporte e a defesa naval. As pres-
sões exercidas pelos turcos e por Carlos de Anjou, combinadas com o crescente poder dos
proprietários de terras, conduziu a lutas de poder e a guerras civis.

No início do século XIII as áreas orientais controladas pelo Islão caíram para Gengiscão, e
apenas a morte do seu filho fez abrandar o avanço mongol. Em 1253, o neto de Gengis, Hula-
gu, voltou a dirigir-se para ocidente, saqueando Bagdade e massacrando os seus habitantes,
incluindo o califa. Dirigiu-se depois para a Síria, mas voltou para a Pérsia por causa da morte
do seu irmão, o Grande Khan.

O mais poderoso Estado islâmico durante a Baixa Idade Média foi o Egipto. A família de Sa-
ladino, os aiúbidas, continuaram a governar o Egipto até 1250 e a Síria até 1260. O verdadeiro

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poder pertencia aos mamelucos, que tinham começado por ser escravos não muçulmanos trei-
nados como tropas de cavalaria. Foram depois convertidos ao Islão e emancipados. As desor-
dens entre facções de mamelucos continuaram até 1260, quando Baibars, um turco do corpo
de guarda pessoal do sultão, aniquilou um exército mongol perto de Nazaré, o que quebrou o
avanço mongol na Síria, salvando o Egipto. De volta para o Egipto, Baibars assassinou o últi-
mo sultão aiubida, usurpando o título. Depois da queda de Bagdade, o irmão do califa fugiu
para o Cairo, onde Baibars o fez califa. Os mamelucos foram essenciais no fim da ameaça dos
cristãos europeus para o Islão. Baibars tomou os principais pontos fortes dos cruzados na Sí-
ria, e estabeleceu um sultanato que incluía o Egipto, a Palestina, o norte da Síria e a costa oci-
dental da Arábia, controlando assim as rotas do mar Vermelho. Os sultões mamelucos eram
violentos, cobravam impostos altíssimos aos seus súbditos e não promoviam a cultura. Alguns
eram iletrados, e parecem não ter compreendido a necessidade de encorajar o comércio e a
agricultura. Mais tarde o Magrebe separou-se do Egipto, e tanto em Marrocos como na Argé-
lia e Tunísia governavam dinastias independentes.

O Egipto do início do século XIV experimentou um declínio económico. Damieta não foi re-
construída depois da Quinta Cruzada, tendo a indústria têxtil declinado. A cunhagem do ouro
foi substituída pela da prata e as rotas comerciais do Oriente deixaram o Cairo, tendo sido
dispersas pelo norte de África, incluindo o Magrebe. A regulamentação do comércio pela ad-
ministração egípcia estagnou-o. Houve algum crescimento na segunda metade do século, à
medida que as rotas comerciais começaram a voltar para o mar Vermelho pelo golfo da Pér-
sia. O Egipto tornou-se no final do século XIV o principal centro do comércio de especiarias,
voltando os mercadores ocidentais outra vez a Alexandria e ao Cairo.

OS TURCOS OTOMANOS

O Oriente foi durante vários séculos devastado por ondas de invasores turcos. Os turcos oto-
manos tomaram o seu nome de Osman, que governou um emirado na Ásia Menor no início
do século XIV. Orkhan, o sucessor de Osman em 1326, expulsou os bizantinos da Ásia Me-
nor. Os gregos, depois da morte do imperador Andrónico III ficaram enfraquecidos por ques-
tiúnculas dinásticas intermináveis. Os governantes bizantinos utilizavam frequentemente a
promessa de uma união com a Igreja de Roma para obterem ajuda militar do Ocidente. João
V dirigiu-se a Roma para fazer essa promessa, de modo a obter ajuda contra os turcos, que
avançavam pelos Balcãs. Mas, mesmo quando o estava a fazer, o patriarca de Constantinopla
incitava os crentes ortodoxos a resistirem à mudança.

Capítulo 14 141/160
No reinado de João V os turcos estabeleceram-se na Europa. Murad I tomou o título de sul-
tão e conquistou a Grécia e a Sérvia. João V viu-se obrigado a fornecer serviço militar a Mu-
rad, descendo Bizâncio ao estatuto de Estado cliente. A Hungria era agora o bastião defensi-
vo da Europa contra os turcos. Quando o sucessor de Murad, Bajazid I cercou Constantino-
pla, a Cruzada de Nicópolis veio em auxílio da cidade. A força por detrás da Cruzada era Fi-
lipe o Ousado, duque da Burgúndia e conde da Flandres, através da sua mulher. Financiou
um exército de cavaleiros galantes, que foram massacrados pelos turcos.

A expansão otomana para ocidente foi temporariamente quebrada, não pelos europeus, mas
pelo mongol Timur o Coxo. Derrotou os turcos em Ancara, mantendo Bajazid cativo até à
morte. A reacção inicial do Ocidente em relação aos mongóis foi a de tentarem que eles se
lhes aliassem numa cruzada contra os muçulmanos, esperança que era veiculada pela atitude
dos chefes mongóis. Timur podia ter atacado o Ocidente, mas virou-se para leste, com o intui-
to de atacar os chineses. O Império de Timur não lhe sobreviveu, mas durante algum tempo o
poder turco ficou enfraquecido. O imperador bizantino, Manuel II tentou, em vão, aliciar o
apoio ocidental. Em troca de ajuda militar, João VIII concordou com a união das igrejas, que
foi celebrada na catedral de Florença em grego e latim. De novo esse gesto se limitou a susci-
tar o antagonismo de Constantinopla e da Rússia e a 29 de Maio de 1453 os turcos tomaram
Constantinopla. Trebizonda, no mar Negro, o último posto avançado grego no Leste, caiu em
1461. O Império romano tinha caído definitivamente.

A INGLATERRA E A FRANÇA ANTES DA GUERRA DOS CEM ANOS

Eduardo I foi o governante mais influente no desenvolvimento dos tribunais ingleses e da lei
comum desde Henrique II. Os tratados legais da época defendiam que a justiça derivava, em
última instância, da pessoa do rei, e utilizavam a lei romana para sustentar esta afirmação.
Em 1278, Eduardo emitiu o Estatuto de Gloucester: as ordens dos tribunais privados ou de-
pendências jurídicas tinham de mostrar «por que mandato» as aplicavam. A não ser que con-
seguissem provar que os seus antecessores haviam mantido tribunais no tempo de Ricardo I,
presumia-se que os tribunais se reuniam em derrogação da prerrogativa real. A sub-feudaliza-
ção foi proibida pelo estatuto de 1290; em vez disso, os feudos deveriam ser vendidos ou da-
dos, para que o novo proprietário devesse serviços feudais ao senhor do vendedor e não ao
vendedor. As cidades foram obrigados, pelo Estatuto dos Mercadores de 1283, a manter re-
gistos escritos das dívidas. A justiça começava a centralizar-se e a normalizar-se.

Assim, não é surpreendente que nos anos de 1290 se tenha desenvolvido oposição a Eduardo

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I quando ele se envolveu em dispendiosas guerras: por volta de 1282 subjugou os galeses e
depois deu essa região ao seu filho mais velho. Desde essa época que o herdeiro do trono in-
glês possui também o título de «príncipe de Gales». Eduardo esperava anexar a Escócia, mas,
quando as iniciativas diplomáticas falharam, acabou por se deixar envolver numa série de
guerras inconclusivas. Em 1314, os escoceses esmagaram o exército de Eduardo II em Ban-
nockburn, pondo fim às esperanças inglesas de controlar a Escócia.

A principal luta dava-se em França. O reinado de Filipe IV o Belo foi o ponto de viragem. A
maioria dos contemporâneos de Filipe consideravam-no uma figura simbólica, uma vez que
ele permanecia silencioso no conselho real, mas existem provas do seu envolvimento pessoal,
a ponto de se poder afirmar que ele controlava cuidadosamente a política. Esperava juntar os
grandes feudos da Coroa ao domínio real. Casou com a herdeira da Champanha e utilizou a
força militar contra a Flandres. Servindo-se do reconhecimento de Henrique III da suserania
francesa sobre a Gasconha, enviou oficiais de justiça para essa região, com o objectivo de ou-
virem os apelos dos tribunais ingleses. Em 1297, lutou contra os ingleses e contra os flamen-
gos numa breve, inconclusiva e dispendiosa guerra. O tratado que terminou com esta guerra
estipulava que o futuro Eduardo II de Inglaterra casaria com Isabel, filha de Filipe IV. Em
1311 os barões forçaram Eduardo a aceitar um comité baronal, o ordenador dos Lordes. A
oposição era liderada por Thomas, conde de Lancaster, primo do rei. Os Lancaster estariam
no coração da rivalidade entre a Coroa e os barões durante o resto do período medieval. Tho-
mas desperdiçou a sua vantagem e revelou-se militarmente incompetente. Em 1322 Eduardo
aniquilou os seus oponentes, executou Lancaster, e governou até 1327, quando foi deposto e
assassinado num golpe liderado pela rainha Isabel e pelo seu amante, o conde Roger Morti-
mer, que governou através do seu filho adolescente Eduardo III. Eduardo tomou controlo da
sua própria administração em 1330, matou Mortimer e confinou a sua mãe num castelo.

Eduardo III alimentou a cavalaria quixotesca, que era defendida pela Ordem da Jarreteira. As
despesas das suas guerras dinásticas com a França forçaram-no a admitir as pretensões do
Parlamento sobre as finanças reais, enquanto anteriormente ao seu reinado o Parlamento esti-
vera, essencialmente, envolvido em assuntos legais e respeitantes aos estatutos.

A GUERRA DOS CEM ANOS (1337-1453)

Os três filhos de Filipe o Belo tinham morrido sem deixarem descendentes, fazendo que a di-
nastia dos capetos se extinguisse na linha masculina. De modo a impedir a ascensão ao trono
de Eduardo III de Inglaterra, que era o filho da filha de Filipe o Belo, o conselho real inven-

Capítulo 14 143/160
tou uma Lei Sálica. Esta fazia alegadamente parte da lei dos francos sálicos, segundo a qual a
Coroa, ao contrário de outro tipo de propriedades, não podia passar para herdeiros através da
linha feminina. Os barões escolheram, então, como o novo rei, Filipe VI, sobrinho de Filipe
IV pela linha masculina, que foi o primeiro da dinastia dos Valois. Eduardo III não estava em
posição de reagir, chegando mesmo a prestar homenagem a Filipe VI. Mas depressa mudou
de ideias, irrompendo a guerra em 1337.

A Guerra dos Cem Anos durou, intermitentemente, até 1453, terminando com a expulsão dos
ingleses de todo o território francês, excepto da cidade de Calais, que mantiveram até 1558,
como base para as exportações de lã. Eduardo seguiu a política tradicional inglesa de isolar a
França por meio de alianças com os príncipes das fronteiras norte e leste. Num esforço para
obrigar o conde flamengo Luís II a abandonar os franceses, Eduardo III embargou a lã para a
Flandres, o que provocou desemprego generalizado de artesãos têxteis. Luís fugiu para Fran-
ça e as grandes cidades levaram a Flandres a estabelecer uma aliança com os ingleses, levan-
tando o embargo. Eduardo III assumiu em 1340, em Ghent, o título de rei de França.

Os ingleses não possuíam a força necessária para uma invasão da França, mas, em 1340 ven-
ceram uma batalha naval ao largo da costa flamenga de Sluis. Nesse mesmo ano, as tropas
inglesas e contingentes de vários principados dos Países Baixos tentaram em vão tomar
Tournai, que era considerada o ponto de entrada para França. Em Setembro de 1340, estabe-
leceu-se uma trégua que durou até ao final do ano de 1345.

Quando se retomaram as hostilidades, os franceses emboscaram o exército inglês liderado


pelo próprio rei, em Crécy. O núcleo inglês cedeu à cavalaria francesa, mas os cavaleiros fo-
ram aniquilados pelas de flechas que partiam dos flancos. A derrota francesa foi absoluta. O
rei fugiu e muitos nobres pereceram. No entanto, os ingleses contentaram-se com pilhagens,
porque tinham poucas tropas no terreno. Em 1355 o Príncipe Negro, o filho mais velho de
Eduardo III, liderou os exércitos ingleses no continente. Em 1356 o novo rei francês, João II
o Bom, encurralou os ingleses em Poitiers de forma semelhante à utilizada pelo seu pai em
Crécy e os franceses voltaram a atacar o núcleo inglês com a cavalaria. Desta vez o rei e mui-
tos nobres franceses foram feitos prisioneiros e detidos sob resgate em Inglaterra.

Em 1360 o Tratado de Brétigny cedeu a Gasconha aos ingleses, em plena soberania, e aceitou
um substancial resgate por João II, metade do qual foi pago; em troca, Eduardo III abdicou da
sua pretensão em ser rei de França. A primeira fase da guerra foi um sucesso para os ingleses:
é improvável que Eduardo III tenha pensado seriamente em tornar-se rei de França, mas dese-
java a posse da Gasconha. No entanto, os franceses começaram a reconstruir as suas forças
sob o novo rei, Carlos V e o seu marechal Bertrand Duguesclin.

144/160 Capítulo 14
Carlos V conseguiu um sucesso diplomático ao casar, em 1369, o seu irmão mais novo, Filipe
o Ousado, com Margarida de Male, a herdeira da Flandres. No final de 1368, Carlos começou
a virar-se para a Gasconha, em violação do Tratado de Brétigny, pelo que Eduardo III reto-
mou o título de rei de França. De seguida os franceses invadiram a Gasconha.

Ricardo II, o filho do Príncipe Negro (que entretanto morrera), sucedeu ao seu avô com ape-
nas 10 anos de idade, ficando sob regência dos seus tios. Em 1382, João de Gaunt, duque de
Lancaster, o filho mais velho sobrevivente de Eduardo III, reclamou o trono de Castela por
direito da sua mulher, filha do rei Pedro o Cruel, e passou aí vários anos. Gaunt apoiara o jo-
vem rei e a sua ausência permitiu aos oponentes do regime liberdade de movimentos. Em
1387 vários nobres, apelidando-se de «lordes apelantes», que controlavam o Parlamento, dis-
pensaram alguns conselheiros próximos do rei, mas em 1389 Ricardo tomou o controlo do
governo e dispensou os lordes apelantes. Não fez nada de radical até 1397, embora tomasse
medidas subtis contra os aristocratas que apoiavam os lordes apelantes. De repente, atacou os
seus opositores políticos, não só os que sabia serem-no como aqueles de quem apenas des-
confiava. Ricardo cometeu, no entanto, um erro nas suas relações com a casa de Lancaster,
pois, quando João de Gaunt morreu, exilou o seu filho Henrique, conde de Derby, confiscan-
do as suas terras. De facto, quando teve de se deslocar à Irlanda para sufocar uma revolta,
Henrique de Derby regressou de França com um exército, obteve o apoio da aristocracia e
capturou Ricardo. O rei foi forçado a admitir éditos contra ele e abdicou do trono; o Parla-
mento ofereceu a Coroa a Henrique (Henrique IV) de Lancaster e Ricardo foi feito prisionei-
ro. De acordo com a versão oficial, deixou-se morrer à fome em 1400.

REVOLUÇÃO E RESOLUÇÃO: O FIM DA GUERRA DOS CEM ANOS

Henrique IV enfrentou problemas em Gales e uma sublevação dos barões, agravados por pro-
blemas de saúde e pela oposição aberta do seu filho. Para além de negociações com barões
franceses dissidentes, pouco fez para prosseguir com as ambições inglesas na Gasconha. Hen-
rique V, foi um rei muito mais activo do que o seu pai. Enquanto as pretensões de Eduardo III
ao trono francês tinham sido um artifício político para obter a Gasconha, Henrique V estava
convencido de que Deus o tinha chamado para ser rei de França. O momento era oportuno
para uma ofensiva inglesa, pois o rei Carlos V tinha sido sucedido em 1380 pelo seu filho,
para quem era necessário um regime de menoridade. Carlos VI foi dominado nos seus primei-
ros anos pelos impopulares conselheiros do seu pai, conhecidos pejorativamente como mar-
mousets («diabretes»). Em 1392 Carlos sofreu o primeiro de uma série de ataques de loucura

Capítulo 14 145/160
e os marmousets foram afastados. O tio do rei (o duque da Burgúndia), o seu irmão mais novo
(o duque de Orleães) e a rainha Isabel da Baviera passaram a controlar o governo, formando-
se facções em redor dos dois duques. O nome «Armagnac» é associado ao de Orleães, de
acordo com o conde Bernardo de Aimagnac, um dos líderes do partido no sul da França. Du-
rante os momentos de lucidez, Carlos confiava no partido de Orleães; quando enlouquecia,
era a Burgúndia que governava. Nunca houve uma proposta para a deposição do rei.

Tanto Orleães como a Burgúndia serviam-se dos seus períodos de controlo da administração
para alimentarem os seus interesses fora da França. Orleães assumiu as pretensões que os
condes de Anjou tinham em Itália desde os anos de 1260. Com mais sucesso, Filipe o Ousa-
do da Burgúndia, tornou-se em 1348 conde da Flandres, através da sua mulher. Ele e os seus
descendentes construíram gradualmente um Estado que, por volta de 1433, quase cercou o
domínio real francês com uma faixa de território que se estendia da Holanda e da Flandres,
no noroeste, até ao ducado e condado da Burgúndia, no sudoeste. Grande parte do dinheiro
que financiava a diplomacia da Burgúndia provinha dos cofres da Coroa francesa.

A rivalidade entre Orleães e a Burgúndia transformou-se em guerra aberta em 1407, quando


o duque de Orleães foi assassinado em Paris por malfeitores contratados por João o Destemi-
do, filho e sucessor de Filipe o Ousado. Os dois partidos transformaram Paris num mar de
sangue no Verão de 1413. Henrique V de Inglaterra tirou partido do caos para fazer uma ali-
ança secreta com o duque da Burgúndia, invadindo a França em 1415. No mês de Setembro
desse ano, na batalha de Agincourt, os arqueiros ingleses tornaram a vencer a cavalaria fran-
cesa. Henrique consolidou as suas pretensões na Normandia.

As campanhas prosseguiram inconclusivamente até 1419, quando o filho mais velho de Car-
los VI deixou Paris, enquanto a facção dos burgúndios permanecia na capital controlando o
rei. Mais tarde, nesse ano, os servidores do delfim vingaram a morte do duque de Orleães,
assassinando João o Destemido numa conferência de paz. O novo duque burgúndio, Filipe o
Bom aliou-se a Henrique V contra o delfim. O resultado foi o Tratado de Troyes, em Maio
de 1420. Henrique V tornava-se regente do envelhecido Carlos VI, sucedendo-lhe como rei
e casando com a sua filha Catarina. Isto deserdava o delfim, que se retirou para o sul. Em
1421, Henrique e Catarina tiveram um filho. No ano seguinte, morreram Carlos VI e Henri-
que V, sendo o suposto herdeiro das duas Coroas o bebé Henrique VI. João, duque de Bed-
ford, o irmão mais velho de Henrique V, tornou-se o regente da criança em França. Era um
homem hábil e, por volta de 1428, os ingleses controlavam a maior parte do noroeste da
França. Nesse ano, contudo, os ingleses foram bloqueados no cerco de Orleães, não se arris-
cando a mover-se para sul do rio Loire com Orleães ainda nas mãos dos Valois. Neste mo-

146/160 Capítulo 14
mento crítico, Joana d'Arc, uma camponesa de Domrémy, conseguiu convencer o delfim
Carlos de que vozes divinas lhe haviam dito que ela fora enviada para levantar o cerco; e ela
assim fez em Maio de 1429. Os exércitos franceses começaram a recuperar outras cidades e,
a 17 de Julho de 1429, com Joana presente, o delfim foi coroado rei Carlos VII na catedral
de Rheims. Daí em diante, a situação militar estagnou. Joana d'Arc foi capturada pelos bur-
gúndios em 1430 e queimada como bruxa no ano seguinte, não voltando a acontecer nada de
conclusivo até 1435. Depois, no Tratado de Arras, o duque da Burgúndia estabeleceu a paz
com Carlos VII. As negociações de paz continuaram, chegando mesmo a arranjar-se um ca-
samento em 1444, entre Henrique VI e Margarida de Anjou, uma sobrinha de casamento de
Carlos VII. Mas os franceses apressaram as operações militares e por volta de 1453 tomaram
a Normandia e a Gasconha e a guerra terminava.

Carlos VII tem sido criticado pela sua inactividade, mas foi bem sucedido na erradicação dos
ingleses de França sem enfraquecer a posição institucional da monarquia. Nunca apelou para
os Estados gerais. Em vez disso, assegurou a concessão de dinheiro à Coroa em reuniões
com assembleias locais, começando a tributar as aides e a taille sem o consentimento dos
proprietários locais. Em 1461, chegaram novos governantes tanto ao trono francês como ao
inglês. Henrique VI, na sua maioridade, tinha revelado uma instabilidade emocional que se
desenvolveu em insanidade, embora a família real tenha conseguido ocultar o seu verdadeiro
estado. Os barões aproveitaram-se da derrota em França e da incapacidade do rei para se vi-
rarem para Ricardo de Iorque, o descendente do terceiro filho de Eduardo III. A partir de
1455, as facções de Iorque e de Lancaster lutaram abertamente, embora não de uma forma
continuada, naquilo que os historiadores chamaram a Guerra das Rosas, segundo as armas
dos líderes de cada parte: a rosa vermelha de Lancaster e a rosa branca de Iorque. Em 1461,
Eduardo, duque de Iorque, expulsou Henrique VI e governou como Eduardo IV. Henrique
VI retirou-se para França e tentou em 1471 uma invasão. Mas falhou e Henrique foi executa-
do, extinguindo-se a monarquia de Lancaster.

Carlos VII de França foi sucedido pelo seu filho, Luís XI, que é conhecido como o Rei Ara-
nha por causa da sua aparência física, da sua astúcia, desonestidade e tenacidade diplomáti-
cas. Nos primeiros anos do seu Governo sobreviveu a uma guerra civil da «Liga do Bem Pú-
blico», mas a sua mais séria ameaça era o rico e bem administrado Estado da Burgúndia. Luís
serviu-se de Carlos o Ousado, filho de Filipe o Bom, da Burgúndia contra o seu pai. Quando
Carlos se tornou duque esperava obter a Lorena, a Alsácia e a Champanha, que separavam os
seus domínios do norte e do sul. Luís XI isolou progressivamente Carlos dos outros nobres
franceses e, em 1475, separou-o do seu aliado Eduardo IV de Inglaterra, oferecendo-lhe uma

Capítulo 14 147/160
pensão anual que, na prática, o tornava independente do Parlamento. Carlos foi morto na ba-
talha de Nancy em 1477. Os domínios burgúndios passaram, primeiro, para a sua filha Maria
que casou com o futuro imperador Maximiliano de Habsburgo, e depois para os descendentes
do filho deles, Filipe o Garboso, que casou com Joana a Louca, filha de Fernando e Isabel de
Espanha. Em 1482 a Paz de Arras devolveu a Picardia e o ducado da Burgúndia a França.
Luís XI havia adquirido o Maine, Anjou, a Provença e o condado de Bar, quando o último
duque de Anjou morreu em 1480. Em 1491, a Bretanha, o último feudo semi-independente,
caiu para a Coroa quando a sua herdeira se casou com o rei Carlos VIII. Com a excepção de
alguns pequenos enclaves, a França estava unida territorialmente.

A Guerra dos Cem Anos teve consequências importantes tanto para Inglaterra como para
França. Alimentou um crescente sentimento nacional em França, sentimentos que já existiam
em Inglaterra. Todos os príncipes utilizaram propaganda, canções políticas e cerimónias pú-
blicas para inculcar a crença da santidade da monarquia e da nação. Aquilo a que alguns cha-
maram o «Estado teatro» dos duques burgúndios, que se caracterizava pelas suas ordens hie-
rárquicas e rituais elaborados, é um dos exemplos mais evidentes. Um outro é o culto da me-
mória de Carlos Magno como fundador da França, feito pelos três Carlos que governaram a
França, entre 1364 e 1461. Promoveram escritos históricos e memórias que glorificavam a
nação, os seus líderes e as virtudes simbólicas da conduta cavalheiresca das ordens nobres.

A tecnologia militar foi revolucionada nos séculos XIV e XV, sobretudo com a utilização do
canhão e da pólvora, que foram introduzidos no Ocidente nos anos de 1290. Por volta do fi-
nal do século XIV eram utilizados por todos os príncipes e pela maioria das cidades, fazendo
com que, no século XVI, todas as muralhas ficassem obsoletas. O uso das armaduras de pla-
cas, em meados do século XV, começando pelas dos braços e das pernas e depois estenden-
do-se a todo o corpo, tornou os soldados menos vulneráveis, mas também lhes dava menos
mobilidade, aumentando o risco de se ferirem numa queda de cavalo.

Os exércitos tornaram-se bastante maiores durante a Guerra dos Cem Anos, mesmo antes de
Carlos VII de França ter estabelecido um exército permanente em 1438. Alguns soldados
eram voluntários, enquanto outros eram contratados (contratos feitos pelos reis com capitães,
que depois pagavam às suas tropas). Em França, a maior parte das tropas foram reunidas ao
longo da primeira metade do século XIV, através do recrutamento geral, que exigia que todos
os homens fisicamente habilitados, entre os 18 e os 60 anos de idade, servissem em situações
de emergência. Mas, de um modo geral, permitia-se-lhes que comutassem o serviço por um
pagamento em dinheiro e a maioria dos soldados servia apenas nos seus distritos de origem.
O resultado foi que o principal braço de ataque francês continuava a ser a cavalaria, um servi-

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ço que tinha como base a obrigação feudal. Em Inglaterra, pelo contrário, o senhor feudal ra-
ramente era chamado no século XIV e nunca depois de 1385.

A PENÍNSULA IBÉRICA

Depois de 1248 os muçulmanos em Espanha detinham apenas o Estado de Granada. Portugal


já tinha as actuais fronteiras, e Navarra era um reino a oeste dos Pirinéus, governado por uma
dinastia francesa. O resto da península Ibérica estava dividida entre Aragão e Castela. O reino
de Castela era grande mas economicamente atrasado, tendo uma nobreza extremamente pode-
rosa. As guildas eram fraternidades caritativas e não grupos profissionais preocupados com o
mercado. A principal exportação de Castela era a lã-de-merino, que era produzida por uma
ovelha do Norte de África. Em 1273 Afonso X autorizou uma associação de criadores de ove-
lhas, a Mesta, a conduzi-las através de Castela, num percurso regular de pastagem. Isto provo-
cou a erosão das terras cultiváveis, que nunca abundaram em Castela, mas a Mesta transfor-
mou Castela, durante o século XV, no principal exportador europeu de lã de alta qualidade.
Este facto estimulou o comércio naval e terrestre castelhano de outros produtos, nomeada-
mente o mel, o azeite, as peles, a cera de abelhas e o vinho.

A deposição de Afonso X pelas Cortes originou guerra civil e regimes minoritários que culmi-
naram com o rei Afonso XI. Este era um governante poderoso, que limitou o poder dos no-
bres e das cidades, que eram dominados pela aristocracia proprietária. Ultrapassou as Cortes,
cobrando impostos sobre os quais elas não tinha qualquer controlo. Engendrou novos tributos
alfandegários, sobretudo sobre a lã, apoiando-se na alcabala (imposto sobre venda), que ti-
nha sido estabelecida em 5% em 1269, mas era já de 10% em 1377. Afonso repeliu os últi-
mos esforços muçulmanos, proclamando que as Siete Partidas, a compilação de grande parte
da lei romana ordenada por Afonso X no século XIII, tivessem força de lei.

A Afonso XI sucedeu o seu filho Pedro o Cruel, o qual, depois de 1354, teve de combater o
seu meio-irmão bastardo, Henrique de Trastamara. Pedro era apoiado pelas cidades, pela co-
munidade judaica e pela facção dos nobres que defendiam as reformas centralizadoras de
Afonso XI. Henrique era apoiado pelos franceses e apelava ao particularismo nobre e ao sen-
timento antijudaico. Tanto os ingleses como os franceses intervieram na guerra civil de Es-
panha. Pedro obteve a ajuda do Príncipe Negro contra Henrique e contra os franceses. Na ba-
talha de Nájera, em 1367, o príncipe derrotou os franceses, capturando Bertrand Duguesclin.
Esta campanha levou à retomada das hostilidades directas entre Inglaterra e França. Em
1369, num conflito que não envolveu os ingleses, Henrique de Trastamara derrotou e matou

Capítulo 14 149/160
Pedro o Cruel, tomando a Coroa de Castela. Mas os envolvimentos estrangeiros não termina-
ram, uma vez que João de Gaunt (casado com uma filha de Pedro o Cruel) juntou-se a Fer-
nando de Portugal contra a casa de Trastamara. Em 1385 os ingleses e os portugueses derro-
taram o exército castelhano em Aljubarrota e no ano seguinte consolidaram uma aliança per-
pétua. Uma nova dinastia portuguesa instalou-se no trono com João I, que casou com a filha
de João de Gaunt. A outra filha de João de Gaunt casou com o futuro Henrique IV de Caste-
la, o que pôs cobro às pretensões de Lancaster ao trono castelhano.

Aragão, Catalunha e Valência estavam ligados pelo facto de terem o mesmo rei. Aragão era
um reino fechado, com uma monarquia fraca e uma nobreza poderosa, mas os seus reis ti-
nham pretensões ao Governo de Maiorca, da Grécia e das ilhas ao largo da costa italiana. No
século XIV Barcelona era o mais importante porto e centro banqueiro do Mediterrâneo oci-
dental, embora tivesse declinado a favor de Valência, de Sevilha e de Cadiz no século XV.

Castela e Aragão começaram a avançar para a união dinástica quando o tio do rei João II de
Castela foi coroado rei de Aragão em 1412, como Fernando I. Com a morte do seu filho,
Afonso o Magnânimo, Aragão passou para o seu irmão mais novo, João II de Aragão. Por ou-
tro lado, a João II de Castela sucedeu em 1454 o filho Henrique IV o Impotente. Desenvol-
veu-se uma facção em torno de Isabel, a filha do segundo casamento de João II, que, por sua
vez, se casou com Fernando, filho e herdeiro de João II de Aragão. Fernando e Isabel acaba-
ram por governar toda a península Ibérica cristã, excepto Portugal e Navarra, embora Aragão
e Castela mantivessem administrações separadas. Granada, o último posto avançado muçul-
mano, caiu em 1492. O declínio económico da Catalunha e de Barcelona, juntamente com o
crescente poder dos portos de Castela, levou a que os interesses castelhanos predominassem
cada vez mais em Espanha, embora Fernando tivesse governado sozinho até 1516.

A tolerância limitada dos judeus quecaracterizara a Espanha na Idade Média Central foi uma
consequência das guerras civis do final dos séculos XIV e XV, altura em que a Espanha pos-
suía o principal núcleo de judeus a oeste do Reno. Os mendicantes eram os principais perse-
guidores dos judeus, pressionando os reis a arranjarem discussões entre eles e os rabis e pro-
vocando tumultos quando os rabis apresentavam melhores argumentos. A populaça de Sevi-
lha destruiu as sinagogas em 1390, matando centenas de judeus e forçando outros a converter-
se ao Cristianismo. Embora alguns convertidos se tenham tornado perseguidores dos judeus, a
maior parte deles mudava de religião devido ao medo e não à convicção. Eram popularmente
chamados marranos (porcos), suspeitando-se de que se tinham convertido sem sinceridade. A
Inquisição começou em 1480, sob os auspícios de Torquemada, o confessor de Isabel.

150/160 Capítulo 14
O NASCIMENTO DO ESTADO ADMINISTRATIVO

A INGLATERRA

Na Baixa Idade Média o Governo assumiu formas institucionais a um nível nacional em


França e Inglaterra, e nas aldeias e cidades praticamente em todo o lado. Depois de 1200, as
comunidades locais e os seus representantes foram sendo gradualmente incorporados nas es-
truturas das monarquias nacionais, geralmente em assembleias.

Durante o século XV os homens das cidades que possuíam formação académica começaram a
participar nas administrações dos príncipes. Pessoas que começavam nos governos das cida-
des, e que estavam em contacto regular com o príncipe, eram frequentemente «promovidas»
para esse tipo de serviços. Os salários não eram muito elevados, mas a oportunidade de acu-
mulação de diversos cargos, ofertas, patronato e corrupção eram imensas. Desenvolveram-se
administrações para lidar com as finanças e com as relações diplomáticas. Algumas cidades e
príncipes mantiveram embaixadores residentes em capitais estrangeiras. O poder da Igreja
afrouxou com o aumento do número de homens laicos a receberem educação e formação nas
leis. A maioria dos juízes reais, por volta do início do século XIV, eram laicos, embora o do-
mínio clerical tenha durado mais tempo em França.

O ponto fulcral do Governo real era o conselho. Por volta do século XIII, o conselho feudal,
ou Grande Conselho em Inglaterra, era composto por vários milhares de pessoas e raramente
se reunia. Os reis tinham um conselho mais pequeno, formado por conselheiros mais próxi-
mos. Sobretudo depois de o Parlamento se ter desenvolvido a partir do Grande Conselho, no
final do século XIII, o termo «Conselho» passou a referir-se a este grupo. Em 1377, os barões
controlavam este Conselho, que foi chamado Conselho Privado (Privy) no século XV.

A administração central era conduzida pela casa real e pelos departamentos que nela tiveram
origem. Uma vez fora da corte, os departamentos tendiam a cair sob o poder dos barões e os
reis estabeleciam ou favoreciam outros cargos, que permaneciam nas famílias que melhor res-
pondiam à sua vontade. Ao longo do século XII, o poder da chancelaria em Inglaterra depen-
dia mais da personalidade do chanceler e do grau de influência que ele exercia sobre o rei, do
que do cargo em si. Por volta do século XIII, a chancelaria guardava o Grande Selo que era
colocado nos documentos para os validar. A chancelaria saiu da corte no início do século
XIV. À medida que o rei perdia o controlo sobre o Grande Selo, emitiam ordens sob o Peque-
no Selo e o Segredo ou Sinete, que permaneceu na Casa Real até ao final do século XIV.

Capítulo 14 151/160
Embora as finanças do rei estivessem estado, originalmente, centradas na Câmara, esse cargo
foi eclipsado no século XIII pelo Guarda-Roupa (Wardrobe), que tinha começado no reinado
de Henrique II como dependência da Câmara para guardar as roupas e outros valores do rei.
Em 1215 o Guarda-Roupa era o principal departamento financeiro da casa real. O auge do po-
der do Guarda-Roupa surgiu com Eduardo I, quando funcionou como gabinete de guerra, mas
declinou depois de 1340.

O Tesouro Público era o gabinete de contas central. Incluía rendas e outros rendimentos do
domínio real, juntamente com os direitos de «herdades», de terras e direitos régios dos xeri-
fes. Os rendimentos ordinários deveriam, supostamente, ser pagos ao Tesouro Público. Mas,
no final do século XIII, os xerifes receberam ordens para entregar parte dos seus rendimentos
aos cobradores locais do rei, em vez de os levarem para o Tesouro Público. Também podia
acontecer serem enviados para a Câmara ou para o Guarda-Roupa, em vez de irem para o Te-
souro Público. Embora, de um ponto de vista puramente administrativo, isto fosse sensato e
eficiente, tal ultrapassava o Tesouro Público, que estava sob controlo dos barões. Assim, en-
tre 1200 e cerca de 1340, o Tesouro Público declinou significativamente. Foi depois revitali-
zado quando os impostos aprovados pelo Parlamento, em vez dos dinheiros do domínio real,
passaram a ser a principal fonte de rendimentos do rei.

Apesar de os rendimentos dos Governos terem aumentado durante o século XIII, as despesas
ultrapassaram-nos e os reis tiveram de contrair enormes empréstimos. Até 1200, apenas os
aristocratas proprietários de terras eram suficientemente ricos para poderem ser úteis aos reis
como fontes de rendimentos. Os seus vassalos deviam-lhes ajudas e incidentes feudais, mas
eles tentaram evitar pedir ajudas «extraordinárias», que não se pagavam automaticamente e
eram concedidas apenas após negociações sobre a forma como o dinheiro seria gasto. Embo-
ra os nobres continuassem a ser os principais alvos dos oficiais financeiros reais, desenvol-
veram-se meios, depois de 1270, para os reis canalizarem as riquezas dos homens das cida-
des e dos gentios rurais, que não eram seus vassalos directos. Isto começou quando se cria-
ram as alfândegas para as importações e exportações, sobretudo o «maltote» (imposto mau)
sobre a lã, cuja taxa base foi estabelecida em 1275. As alfândegas, no início do século XIV,
podem ter dado conta de cerca de um terço dos rendimentos normais do rei.

A institucionalização do Governo estava directamente ligada ao aumento brutal das despesas


de guerra. A tributação directa a nível nacional ainda era rara em 1300, mas foi aceite como
prática geral um século mais tarde. O século XIV foi crucial no desenvolvimento da tributa-
ção regular. O primeiro imposto percentual sobre propriedade móvel foi estabelecido em
1166, mas nenhum foi cobrado antes do famoso «dízimo de Saladino». O rei João também co-

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brou taxas percentuais em 1203 e em 1207; Henrique III conseguiu sobreviver apenas com
sete tributações de taxas percentuais, mas a partir de 1290 estas foram cobradas com mais
frequência para financiar as guerras francesas de Eduardo I. Uma vez que estes eram rendi-
mentos extraordinários, necessitavam do consentimento, sendo assim cruciais no desenvolvi-
mento do Parlamento. Por volta de 1334, a taxa normal era de um décimo do valor anual para
a propriedade móvel, e um décimo quinto para os imóveis, sobretudo terras. As iniquidades
desta fórmula foram reconhecidas e, em 1370, o Governo lançou taxas de capitação de mon-
tante fixo, abrangendo quem tivesse mais de 14 anos de idade; contudo, a oposição a este sis-
tema foi tão estrondosa que se abandonaram estas taxas em favor dos impostos percentuais.

A FRANÇA

Parte do problema com o imposto capitação residia na noção que era como uma marca de es-
tatuto servil. Este sentimento era ainda mais forte em França do que em Inglaterra. A tributa-
ção deveria ser utilizada apenas para fazer face a emergências, enquanto as despesas normais
do Governo deveriam ser enfrentadas com os recursos do domínio real. A administração real
francesa na Baixa Idade Média também evoluiu para formas «modernas» através do alarga-
mento das competências da corte e da casa real, mas existiam diferenças significativas em re-
lação a Inglaterra. Em primeiro lugar, a França não estava unida territorialmente, o que só
aconteceu no final do século XV, e os reis governavam apenas o domínio real. Embora o Go-
verno francês fosse estruturalmente semelhante ao inglês, era, em 1200, consideravelmente
menos sofisticado. Uma diferença entre os dois reinos é a de que, enquanto a administração
pública inglesa cresceu a partir da Casa Real, tendo a estrutura judicial evoluído do tribunal
real, o mesmo não se passou em França. O departamento de documentação francês esteve nas
mãos do «Guardião do Selo» (Garde du Sceau) até 1318, quando a chancelaria foi reinstituída
depois de ter desaparecido no século XII. O chanceler presidia ao Parlement (o supremo tri-
bunal do domínio real) até 1362, quando o Parlement começou a escolher o seu próprio ofici-
al de presidência. A Chambre aux Deniers (Câmara dos Dinheiros) era o equivalente à Câma-
ra inglesa. Uma Argenterie (Gabinete de Dinheiro), semelhante ao Guarda-Roupa, separou-se
da Câmara dos Dinheiros, mas nenhum dos dois adquiriu a importância que o Guarda-Roupa
tinha para a administração inglesa. Havia um tribunal da Casa Real, o Apelo da Casa Real,
que era um pouco semelhante ao Tribunal do Rei.

A corte real em França era, inicialmente, menos feudal do que a inglesa, que consistia nos
vassalos directos do rei, simplesmente porque os primeiros capetos haviam sido menos bem

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sucedidos do que os ingleses na implementação do hábito de corte junto dos barões. Assim, a
Corte francesa tinha sempre muitos conselheiros reais para além dos príncipes. Tal como
acontecera em Inglaterra, um Conselho (Conseil) de conselheiros próximos tomou-se distinto
da Corte (Cour) no final da Idade Média. A Corte preenchia tanto funções judiciais como fi-
nanceiras. Desde 1250 que se reunia oficialmente, e com regularidade, como uma «ocasião»
judicial, e por volta do início do século XIV existia um Parlement. O Parlement francês deve
ser distinguido do Parlamento inglês, com o qual partilhava uma origem comum enquanto
corte; em França nunca evoluiu para além disso, ao passo que o Parlamento inglês se tornou
uma assembleia legislativa. Originalmente, o Parlement tinha jurisdição sobre todos os casos
que envolvessem a prerrogativa real e o direito régio, o domínio, os apanágios dados aos
príncipes de sangue real, a igreja, as comunidades urbanas e todas as pessoas sob a protecção
do rei. Ouvia apelos dos tribunais dos meirinhos e senescais, dos parlements provinciais, da
Câmara de Contas e da Casa da Moeda. Tornou-se altamente profissionalizado, com três câ-
maras (Apelos, Inquéritos e a Grande Câmara Suprema), e com funcionários fixos.

A administração financeira em França também era semelhante à inglesa. Enquanto o braço ju-
dicial do Conselho era o Parlement, a Câmara de Contas era o seu órgão financeiro. A Câma-
ra de Contas existia por volta dos anos de 1270, tendo sido formalmente constituída por um
decreto real em 1320. A Câmara fazia auditorias às contas dos oficiais locais e dos oficiais da
casa real, controlando, inicialmente, os rendimentos extraordinários, que até 1356 consistiam
sobretudo em subsídios de guerra concedidos pelos Estados.

Tal como em Inglaterra, a maior parte dos rendimentos do rei ainda provinha, em 1300, do
domínio, mas a tributação era a principal fonte em 1400. As dispendiosas guerras de Filipe o
Belo forçaram os monarcas a desenvolver novos expedientes. Embora as ajudas feudais fos-
sem devidas, em princípio, apenas pelos vassalos directos, Filipe alargou esta obrigatoriedade
aos seus vassalos de fundo e às cidades com alvarás. Tributou os judeus antes de os expulsar,
confiscou os bens dos cavaleiros templários, que tinham sido os seus banqueiros, desvalori-
zou a cunhagem de moeda e, em 1307, cobrou uma taxa percentual sobre o valor das terras,
dos carregamentos e das mercadorias. Mais importante ainda foi a conversão da obrigação de
todos os franceses em servirem no recrutamento geral num imposto nacional sobre aqueles
que não serviam. Filipe deu início ao serviço de alfândega francês, fixando taxas sobre a ex-
portação de muitos produtos. As taxas de família, no início do século XIV, foram acumuladas
nesta impressionante panóplia, sendo a de 1328 considerada o primeiro imposto fixo nacional
em França. O imposto sobre o sal (gabelle) foi introduzido em 1341.

Em 1356, o rei João II foi capturado na batalha de Poitiers. Para pagar o seu resgate, os Esta-

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dos gerais votaram um imposto de família extraordinário (fouage), impostos sobre venda e
gabelles. Seis «superintendentes gerais» (généraux) foram encarregues de os cobrarem. Sob
cada um, havia duas «pessoas escolhidas» (élus); o seu número aumentou para três no século
XV. Os élus e os généraux eram, originalmente, responsáveis perante os Estados Gerais, mas
passaram a ser nomeados pelo rei depois de 1360. Embora Carlos V tenha abolido a fouage,
esta taxa foi substituída pela taille, que, no norte da França, também era um imposto sobre a
família. No entanto, no sul, a taille, no início do século XV, tornou-se uma taxa sobre a terra,
assumindo este carácter por todo o reino em 1480. O rendimento extraordinário, que foi pos-
sibilitado pelas taxas de 1356, depressa se transformou na mais importante fonte de riquezas
dos reis e, em 1390, criou-se um Tribunal de Ajudas para lidar com elas. Este tribunal, em
vez da Câmara de Contas, era o principal braço financeiro da monarquia no século XV.

DESENVOLVIMENTO DAS INSTITUIÇÕES REPRESENTATIVAS: INGLATERRA

Os príncipes, e não somente os reis, durante toda a Idade Média consultavam os seus súbdi-
tos em relação a assuntos de interesse geral. Desde 1127 que os nobres e as associações jura-
mentadas dos homens das cidades se reuniam na Flandres para aconselhar os condes em rela-
ção a assuntos de interesse público. Por volta do início do século XIII os «anciãos da Flan-
dres» formavam um corpo corporativo, cujo consentimento era necessário para os condes po-
derem agir em assuntos de guerra, diplomacia ou economia política. Vimos que, a começar
por Aragão, no final do século XII os reinos da península Ibérica desenvolveram Cortes, que
se baseavam no princípio semelhante ao que mais tarde sucederia em França.

Todos os vassalos deviam ajudas feudais aos seus senhores. No entanto, apenas um pequeno
número se encontrava em relações feudais com os reis. Os governantes precisavam de cana-
lizar os rendimentos, bem como as especialidades dos grupos que se encontravam fora do
laço feudal. Os príncipes consultavam os mercadores sobre assuntos de cunhagem e de polí-
tica comercial, e os barões sobre assuntos relacionados com a guerra e com a paz. As mais
antigas assembleias «representativas» eram, assim, corpos de consultores cuja composição
social dependia dos tópicos que o governante desejava discutir.

A Magna Carta regulamentava que as ajudas extraordinárias necessitavam da aprovação do


conselho real. Distinguia os grandes barões, que eram convocados individualmente às reu-
niões dos conselhos, dos menores, que eram convocados em grupo pelos xerifes. Não havia
qualquer regulamento em relação a indivíduos, com poder de limitar um eleitorado mais vas-
to. Este conceito legal de poder por procuração ou representação encontra-se na lei romana e

Capítulo 14 155/160
foi adoptado pela prática inglesa durante o século XIII. Tornou possível incorporar as ordens
sociais mais baixas nas reuniões dos conselhos; eles enviavam os seus delegados que os vin-
culavam. A essência das instituições representativas em Inglaterra foi o alargamento das fun-
ções e dos funcionários do Conselho Real, seguida depois de uma separação do Parlamento
do Conselho. Em França, os Estados Gerais desenvolveram-se sem ligação ao Conselho.

O termo «parlamento» aparece pela primeira vez não em registos governamentais mas na
Crónica de Mateus Paris, referenciando um grupo de «parlamentares» por petições e respon-
dentes. O rei chamava quem quer que desejasse para o aconselhar. Sob a forma legal de uma
petição, as pessoas que esperavam apresentavam os seus problemas, que podiam dizer respei-
to a acções legais privadas ou a assuntos de política de Estado que desejavam ver alterados.
Na verdade, ao longo do século XIV, alguns textos referem-se aos Comuns como «peticioná-
rios» e aos Lordes como «juízes». O assunto era depois levado à consideração pelo rei e ao
seu Conselho. O monarca dispensava, de um modo geral, o parlamento antes de dar o seu juí-
zo. As Provisões de Oxford, de 1258, obrigaram o rei a convocar três «parlamentos» por ano,
significando, obviamente, sessões alargadas do Conselho.

A maior parte dos primeiros parlamentos não englobava pessoas que não fossem os princi-
pais arrendatários. Os cavaleiros do condado foram convocados pela primeira vez em 1254.
Tanto eles como os burgueses das cidades foram chamados em 1265 por Simão de Montfort,
que nessa altura detinha o rei prisioneiro e chefiava o Governo real enquanto líder de uma
efémera coligação de barões.

No entanto, não era normal chamar a estes grupos parlamentos até cerca de 1290, quando
Eduardo I começou a convocar parlamentos para se aconselhar. Mas, uma vez que os delega-
dos já estavam presentes para consulta, o rei começou a pedir-lhes para aprovarem conces-
sões de dinheiro como uma simples e mais conveniente forma de tratar dos assuntos necessá-
rios, evitando diferentes conjuntos de negociações. Os Comuns não começaram a participar
regularmente senão a partir do final do reinado de Eduardo II.

Esta nova função do parlamento significava que ele estava habilitado a negar fundos ao rei se
este se recusasse a responder às exigências contidas nas suas petições. Em 1297, na Confir-
mação das Cartas, o Parlamento forçou o rei a confirmar a Magna Carta e a concordar que o
dinheiro, uma vez concedido, não se tornava uma tributação perpétua, mas tinha de ser vota-
do sempre que fosse necessário. Eduardo I concordou que tais ajudas e impostos podiam ser
praticados apenas com o «consentimento comum de todo o reino». O juramento de coroação
do Rei Eduardo II, em 1308, aproximou-se de um estatuto, exigindo que o rei respeitasse «as
justas leis e costumes que a comunidade do vosso reino determinar», e «a comunidade do rei-

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no» significava, quase de certeza, o Parlamento. O Parlamento inglês tomou-se, assim, tanto
um corpo legislativo e judicial como um órgão de votação de impostos. Aqueles que partici-
pavam no Parlamento, através de convocações individuais, seriam chamados Câmara dos
Lordes, e aqueles que representavam os constituintes seriam, mais tarde, a Câmara dos Co-
muns. Os cavaleiros do condado e os burgueses reuniam-se frequentemente por volta de 1320
e de uma forma regular em 1340. Aos lugares dos condados estava inerente um maior prestí-
gio; alguns burgos escolhiam mesmo cavaleiros para os representarem, de modo a obterem
mais influência. Poucas eleições eram «democráticas», tornando-se a selecção dos cavaleiros,
no tribunal do condado, uma ocasião para os grupos locais utilizarem a força para impor os
seus desejos. Os grandes senhores dominavam desta forma os parlamentos medievais, mas a
base institucional para a eventual ascensão dos Comuns já estava estabelecida, sobretudo pela
associação, enquanto um único corpo de dois grupos sociais nobres (cavaleiros e burgueses),
que se sentavam afastados na maior parte das assembleias continentais.

À medida que a consulta se tornou um hábito, as assembleias tendiam a reunir-se regular e


frequentemente. Nas primeiras fases da Guerra dos Cem Anos, entre 1340 e 1360, os Co-
muns serviram-se da sede de fundos do monarca para estabelecer dois importantes princípi-
os: a reparação de ofensa antes da provisão e que o decreto real não pudesse anular um ante-
rior estatuto do Parlamento. Depois de 1407, as bulas de dinheiro tinham de ter origem nos
Comuns. No reinado de Ricardo II, o Parlamento, em cenas que chegavam a violência aber-
ta, impugnava e executava conselheiros reais. Em 1388, o «impiedoso» Parlamento colocou
o rei sob o controlo de cinco «lordes apelantes». Embora Ricardo II tivesse reconquistado a
iniciativa, em 1389 foi completamente incapaz de governar sem o consentimento do Parla-
mento, o que lhe custou o Trono e a vida. Apenas depois de as guerras com a França terem
terminado, em 1453, e sobretudo depois de Eduardo IV se ter tornado um beneficiário fran-
cês, em 1475, é que os reis gozaram de rendimentos suficientes para poderem libertar-se da
dependência do Parlamento durante muito tempo.

O DESENVOLVIMENTO DAS INSTITUIÇÕES REPRESENTATIVAS: A ESPANHA

As Cortes de Aragão tinham duas câmaras ou «braços» (brazos) para os nobres: uma para os
ricos hombres (homens ricos), onde as decisões necessitavam de um voto unânime, e outra
para os hidalgos (fidalgos). Também havia um brazo popular, que representava vinte e duas
cidades e três comunidades rurais. Uma quarta câmara foi adicionada para o clero em 1301.
As Cortes da Catalunha desenvolveu-se de uma forma semelhante, mas com três câmaras

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(apenas uma para os nobres), não se tendo tornado uma ferramenta para a nobreza, talvez por-
que muitos nobres catalães estavam envolvidos no comércio. Ganhou mesmo mais liquidez
financeira do que o Parlamento inglês. Tinha um conselho permanente, o Diputació del Ge-
neral de Catalunya, que se reunia em sessões contínuas, avaliava e cobrava impostos, agindo
como um conselho governativo e como supremo tribunal. No entanto, ao contrário do Parla-
mento inglês, as Cortes catalã não desenvolveu uma iniciativa legislativa, contentando-se,
quase inteiramente, com a representação das preocupações financeiras aos súbditos.

As Cortes de Castela atingiram o auge do poder no final do século XIV. Reuniam-se anual-
mente entre 1385 e meados do século XV. Daí em diante, a sua influência diminuiu abrupta-
mente. As Cortes controlava as finanças e a sucessão ao trono. As cidades castelhanas nunca
foram fortes politicamente e os pequenos nobres conseguiram ganhar o controlo da represen-
tação do Terceira Estado nas Cortes; no entanto, já que os nobres estavam isentos dos impos-
tos, perderam interesse na Cortes, na qual a classe média tinha pouca palavra.

O DESENVOLVIMENTO DAS INSTITUIÇÕES REPRESENTATIVAS: A FRANÇA

As instituições representativas em França não seguiram o modelo inglês. As distinções sociais


eram muito mais agudas em França, onde a nobreza era uma classe legalmente definida que
incluía todas as pessoas de estatuto de cavaleiro, desde os pequenos escudeiros aos príncipes.
Assim, a maioria das assembleias que eram convocadas pelos reis franceses incluíam um ou
mais dos três Estados: clero, nobreza e burguesia. O clero era dominado pelos grandes bispos.
A nobreza incluía grupos que, em Inglaterra, se encontravam geralmente separados: os cava-
leiros e os grandes barões. A burguesia incluía pessoas que viviam em burgos com cartas de
foral e era um grupo mais vasto do que a moderna «burguesia». Mas a estrutura de Estados
privou a burguesia francesa da possibilidade de conjugar forças com a pequena nobreza.

Durante o século XIII, as únicas assembleias de Estados que os monarcas consultaram reuni-
am-se para províncias individuais. A primeira reunião dos Estados Gerais, ou Estados de todo
o reino, deu-se em 1302 para fazer face à emergência causada, nesse ano, pela derrota dos
franceses pelos flamengos na batalha de Courtrai, e também para promover a causa de Filipe
IV na sua disputa com o papa Bonifácio VIII. Os Estados Gerais reuniam-se, frequentemente,
ao longo dos anos de 1340, mas atingiram o auge da sua influência na crise de 1356-1358,
quando foram chamados para votar os impostos para o resgate do rei João II. Os Estados Ge-
rais fizeram da sua aprovação do resgate do rei uma condicionante da aceitação do Governo
real da sua «Grande Ordenação», que decretava reuniões regulares dos Estados. Estes deviam

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escolher os membros do Conselho Real e um comité fixo de quinze elementos controlava o
Governo quando os Estados não se encontrassem em sessão, estabelecendo os impostos, a cu-
nhagem e a política estrangeira. Mas o rei anulou a Grande Ordenação e os Estados Gerais
não voltaram a tentar aliar as bulas de dinheiro à legislação. Quando os Estados Gerais con-
cordaram, em 1360, em converter as colectas para o resgate em taxas permanentes se o rei não
cobrasse mais impostos sem o seu consentimento, a máquina da contribuição nacional saiu
das suas mãos, passando para as do rei.

Durante o século XV, os reis, agora conscientes do que podia acontecer aos governantes, cu-
jas assembleias se tornavam demasiado poderosas, negociavam com as assembleias locais de
Estados evitando convocar Estados Gerais nacionais. As províncias com assembleias de Esta-
dos bem desenvolvidas, chamadas Pays d'Etats (Terras de Estados), tais como Artois e a Nor-
mandia, conseguiam escapar com razoáveis taxas de impostos. Os Pays d'Election, a maioria
dos quais no sul e que estavam directamente sob a jurisdição dos élus, tinham taxas elevadís-
simas. Como o clero e a nobreza conseguiam reclamar a isenção da tributação directa, todo o
fardo da tributação directa era empurrado para cima da burguesia que, ao contrário dos ho-
mens das cidades inglesas, não tinha aliados nas ordens mais elevadas.

QUÃO EFICAZ FOI O GOVERNO DA BAIXA IDADE MÉDIA?

Os governos aumentaram as dimensões das suas burocracias e reuniram somas substanciais


de dinheiro, embora, dadas as constantes guerras e os grandes gastos envolvidos, isso fosse
bastante raro. Em França, o facto de o país estar parcamente unido significava que nenhum
sistema administrativo era válido para todo o lado. Isto não era tão verdade para Inglaterra,
mas na Alemanha existia um Governo nacional apenas no papel, e em Itália nem isso.

Houve uma quebra geral da ordem pública a nível local. Os cronistas queixavam-se de que as
pessoas se estavam a tornar litigiosas e violentas, o que é confirmado pelas estatísticas de cri-
mes violentos. A vendetta foi ressuscitada. Na Flandres, o índice de violência era assustador,
mas era a Inglaterra que tinha a fama de ser o país mais desordeiro da Europa. Isto deve-se,
em grande parte, ao assassínio ou morte em batalha de cinco dos seus nove reis entre 1327 e
1485. Muitos crimes eram perpetrados por grupos nobres, que eram difíceis de perseguir e de
condenar. Muitos nobres protegiam criminosos nos seus domínios, impedindo mesmo os ofi-
ciais públicos locais de os prenderem. As salvaguardas para os acusados, contidas nos decre-
tos e nas regulamentações que haviam sido elaboradas e desenvolvidas desde o século XII em
Inglaterra, também fizeram que fosse bastante difícil para as autoridades condenar os crimi-

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nosos. Os defensores podiam desafiar até trinta e seis potenciais jurados, reabrindo casos sob
diferentes acções legais. Uma vez que os jurados tinham de ser escolhidos entre o cento onde
se realizava o julgamento e eram júris de presença, esse direito limitava-se ao poder de ex-
cluir uma pessoa que tivesse mais probabilidade de optar pela condenação. A corrupção era
flagrante e os jurados tinham, compreensivelmente, uma certa relutância em condenar quando
o castigo normal para os crimes era a forca. Os reis concediam perdões totais, mesmo a cri-
minosos condenados, sobretudo àqueles que se mostravam dispostos a engrossar as fileiras do
exército.

Os xerifes e os juízes itinerantes eram impotentes na contenção da violência, mas houve al-
gum alívio com o estabelecimento de juízes de paz. Eduardo I nomeou «guardiões da paz»
para assistirem o xerife na apreensão de criminosos. Um estatuto de 1327 estabelecia que os
homens bons e cumpridores da lei deveriam receber indiciações e julgar todos os crimes e
abusos em tribunais que se reuniam quatro vezes por ano. Os seus poderes foram gradualmen-
te alargados até que, por volta de 1380, os juízes da paz podiam julgar todos os casos crimi-
nais excepto os de traição. Suplantaram gradualmente os tribunais dos condados e, com a ex-
cepção dos casos mais graves, os juízes itinerantes.

Em França, onde os jurados eram menos utilizados do que em Inglaterra, os juízes parecem
ter aplicado castigos exemplares em alguns casos, enquanto, por outro lado, não conseguiam
aplicar os princípios legais de uma forma consistente. A prisão era utilizada, de um modo ge-
ral, apenas para deter as pessoas que aguardavam julgamento e não como sentença de crime.
A tortura era utilizada principalmente naqueles que não confessavam ou que se recusavam a
apelar. Muitos castigos eram simbólicos, pensados para serem um exemplo intimidante. So-
bretudo depois de 1350, os castigos para as ofensas morais e públicas assumiram um carácter
altamente ritualizado, com grandes procissões públicas até ao local de execução, em circuns-
tâncias que tinham por objectivo a dramatização da gravidade da ofensa, incluindo, frequen-
temente, uma confissão forçada.

A guerra, a reorientação económica e os problemas sociais dominaram por completo, até mes-
mo os recursos alargados do Governo do final do período medieval. No entanto, as institui-
ções estabelecidas para as administrações foram tornadas mais eficientes, mas não se altera-
ram nos seus fundamentos, quando condições mais favoráveis voltaram a surgir no final do
século XV. O Estado «moderno» não era mais eficaz a enfrentar as crises de existência, quan-
do estas eram complicadas por «guerras de religião», do que o seu antepassado medieval tinha
sido capaz de ultrapassar a combinação de pestes e de guerras dinásticas.

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