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X STPC SEMINÀRIO TECNICO

XSTPC-ST-03
DE PROTEÇÂO E CONTROLE 17 a 20 de outubro
de 2010
RECIFE – PERNAMBUCO - BRASIL

ESTRATÉGIAS ORGANIZACIONAIS PARA INTEGRAÇÃO E OTIMIZAÇÃO DOS RECURSOS DAS ÁREAS DE


PROTEÇÃO E DE ESTUDOS ELÉTRICOS

Antonio Felipe da Cunha de Aquino (*) Benedito Adelino Souza da Silva


Alexandre Garcia Massaud Fernando Aquino Viotti Mauro Pereira Muniz
Operador Nacional do Sistema Elétrico – ONS

PALAVRAS-CHAVE

Estudos elétricos; Proteção de sistemas elétricos; Sistemas Especiais de Proteção – SEP; Proteções de caráter
sistêmico; Critérios para estudos elétricos.

RESUMO

O objetivo deste trabalho é o de evidenciar a importância da integração das áreas de estudos e proteção para o
aumento da robustez dos sistemas elétricos. O artigo apresenta as principais atividades realizadas em cada área e
identifica aquelas de maior interdependência, ou seja, cuja execução depende de ações de ambas as áreas. Para
estas últimas, o trabalho aborda os riscos ou inconvenientes que podem resultar da falha no fluxo de informações
entre as áreas. Como contribuição principal, o artigo sugere ações que visam a melhoria dos processos
desenvolvidos nas áreas de estudos e proteção e apresenta iniciativas já adotadas pelo Operador Nacional do
Sistema Elétrico – ONS que vêm apresentando bons resultados.

1.0 - INTRODUÇÃO

Os sistemas elétricos foram formados para fazer frente às crescentes necessidades do ser humano. De fato, o
crescimento das nações modernas esteve sempre apoiado na contínua expansão de seus sistemas elétricos.
Sobre este tema, Elgerd afirma, em seu livro Teoria de Sistemas de Energia Elétrica, que “os grandes sistemas
elétricos existentes em todas as nações modernas representam os maiores e mais caros sistemas feitos pelo
homem” (1).

A constatação acima aponta para duas importantes características dos sistemas elétricos modernos: alta
complexidade e necessidade de grandes investimentos. A alta complexidade dos sistemas elétricos de potência
está associada à diversidade dos elementos que o compõem, assim como às dimensões dos mesmos que
constituem gigantescos sistemas dinâmicos. Além disso, a operação dos sistemas elétricos impõe outros desafios,
relacionados à necessidade de otimizar a utilização dos recursos energéticos disponíveis em cada região, tendo
em vista critérios de segurança eletro-energética e econômicos. O outro aspecto marcante dos sistemas elétricos
modernos são os elevados investimentos necessários para sua expansão, o que demanda longos períodos para
amortização do capital investido.

Na prática, a viabilidade econômica da expansão dos sistemas elétricos depende da adoção de critérios de
segurança eletro-energética. Restrições de caráter ambiental e físico também impõem condicionantes importantes
à expansão do parque de geração e dos sistemas de transmissão. Em função destes aspectos, não é possível
construir sistemas elétricos totalmente imunes a problemas de natureza elétrica e energética. Sempre haverá
algum risco de não atender à carga, seja por razões elétricas (perturbações, indisponibilidades) ou por problemas
de natureza energética (hidrologia desfavorável, por exemplo).

Usualmente, a expansão dos sistemas elétricos é feita com base no critério denominado de (n-1). Segundo esse
critério, os requisitos mínimos estabelecidos para suprimento às cargas, bem como os relativos aos equipamentos
e às instalações da rede elétrica, não devem ser violados para casos de perdas de apenas um elemento na rede.

Não obstante a expansão dos sistemas elétricos esteja baseada no critério de planejamento (n-1), na prática os
mesmos estão sujeitos à perda de múltiplos elementos. Como o dimensionamento dos sistemas elétricos para
perdas múltiplas é inviável, por conta das razões explicitadas acima, fica a questão: Como garantir a robustez
necessária na operação dos sistemas elétricos, considerando que o sistema está sujeito a distúrbios para os quais
não foi planejado?

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Deve-se reconhecer que a resposta à questão acima aponta para a gestão adequada da operação dos sistemas
elétricos. Na prática, a garantia do bom desempenho dos sistemas elétricos depende fortemente dos processos de
planejamento e programação da operação. Em particular, dentre os processos associados à operação dos
sistemas, os estudos elétricos e a proteção têm papel de destaque. De fato, os estudos elétricos permitem
identificar fragilidades no sistema, recomendando ações de controle e proteção que reduzem os riscos de
ocorrência de perturbações ou que, pelo menos, minimizem os efeitos de perturbações que não possam ser
evitadas. Por outro lado, deve-se ressaltar que a efetivação das ações mencionadas depende do envolvimento das
áreas de proteção, responsáveis pela análise e implementação das ações nos sistemas de proteção e controle.

Neste sentido, o objetivo deste trabalho é o de evidenciar a importância da integração das áreas de estudos e
proteção para o aumento da robustez dos sistemas elétricos, considerando a inviabilidade de dimensioná-los para
contingências múltiplas. De fato, os especialistas das áreas de estudos e proteção enfrentam o desafio de
compensar parte da expansão do sistema não realizada por conta das restrições indicadas anteriormente. Resulta
daí o seu grande desafio e importância.

O trabalho tem como foco o Sistema Interligado Nacional – SIN e está organizado em quatro seções. Na Seção 2
são apresentados aspectos de segurança operacional, tendo como foco as atribuições das áreas de estudos e
proteção do Operador Nacional do Sistema Elétrico – ONS. A Seção 3 identifica as atividades que apresentam
maior interdependência entre as áreas de estudos e proteção e aborda os riscos ou inconvenientes que podem
resultar da falha no fluxo de informações entre as áreas. Na última seção apresenta-se um conjunto de sugestões
para a melhoria dos processos que envolvem as áreas de estudos e proteção, assim como algumas iniciativas que
já são adotadas pelo ONS e que vêm apresentando bons resultados.

2.0 - SEGURANÇA OPERACIONAL DO SIN

No contexto da segurança operacional do SIN, as ações do ONS e demais agentes do setor elétrico brasileiro
destinam-se ao aumento da capacidade do sistema de suportar contingências extremas, freqüentemente causadas
por defeitos múltiplos, por defeitos singelos com desligamentos múltiplos ou por sucessivos desligamentos de
elementos da transmissão (2).

Neste sentido, as ações do ONS e dos demais agentes podem ser classificadas com base em três vertentes:

a. Medidas para evitar ou minimizar a freqüência de ocorrência de grandes perturbações;


b. Medidas para evitar a propagação de grandes perturbações;
c. Medidas para reduzir o tempo de restabelecimento do sistema após grandes perturbações.

Na prática, as ações preventivas e corretivas adotadas com vistas ao aumento da segurança operacional baseiam-
se em resultados de estudos elétricos de diferentes tipos. Posteriormente, análises complementares das equipes
de proteção são realizadas para adaptar as ações necessárias aos sistemas de proteção e controle disponíveis,
considerando requisitos de desempenho rigorosos. Ressalta-se que os sistemas de proteção e controle –
essenciais para a integridade física das instalações, equipamentos e componentes – influem diretamente nos
níveis de segurança operacional (3).

De uma forma geral, as empresas do setor elétrico alocam recursos para o desenvolvimento das atividades
descritas anteriormente, distribuindo profissionais nas áreas de estudos elétricos e proteção de sistemas elétricos.
As principais atividades desenvolvidas em cada área estão descritas nos próximos itens, tendo como foco a
atuação de empresas operadoras de sistemas elétricos, em particular o ONS.

2.1 – Atribuições das áreas de estudos elétricos

Em geral, as atribuições das áreas de estudos elétricos influenciam de forma significativa a segurança operacional
dos sistemas elétricos. Dentre as atribuições das áreas de estudos podem ser destacados as seguintes (2):

a. Avaliação do desempenho de novas instalações e do seu impacto sobre a segurança do sistema


elétrico: estudos necessários à integração de nova instalação ao SIN; compreendem todas as análises
necessárias para respaldar o período inicial de operação da nova instalação e para avaliar seu impacto sobre
o sistema; visam a assegurar a qualidade do atendimento, a confiabilidade e a segurança elétrica; resultam
desses estudos as diretrizes para elaboração das instruções de operação, a definição de ajustes de proteção
de natureza sistêmica e a proposição/revisão de ações automáticas para controle de emergências;

b. Recomposição: estabelecimento de diretrizes e medidas que abreviem o restabelecimento das cargas após
perturbações;

c. Comissionamento de novas instalações: estabelecimento de diretrizes para o comissionamento de novas


instalações quando da realização de ensaios com repercussão sistêmica ou que sejam importantes para a
aferição e identificação de parâmetros e modelos de componentes do sistema elétrico;

d. Otimização de controladores: avaliação da necessidade de reajustes nos controladores automáticos


associados aos equipamentos do sistema elétrico, assim como a definição da necessidade de novos
controladores; viabiliza a manutenção ou elevação da segurança operativa e a conseqüente ampliação do

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grau de utilização do sistema;

e. Serviços ancilares: análises técnicas com foco no uso dos requisitos de sistema relativos aos serviços
ancilares (operação como compensador síncrono, participação no Controle Automático de Geração – CAG e
black-start) para novas usinas ou a demanda por esses serviços para as usinas em operação;

f. Reserva de Potência Operativa – RPO: quantificação e a alocação da reserva de potência operativa nas
unidades geradoras do sistema;

g. Controle de carga-freqüência: avaliação do desempenho e a identificação das melhores estratégias de


controle carga-freqüência.

As análises realizadas envolvem estudos de diferentes tipos, quais sejam: (i) de fluxo de carga, (ii) de dinâmica
eletromecânica (estabilidade eletromecânica, estabilidade a pequenas perturbações, interações entre controles),
(iii) de transitórios eletromagnéticos, entre outros.

2.2 – Atribuições das áreas de proteção

Apresenta-se a seguir as principais atribuições das áreas de proteção de sistemas elétricos (3). De uma forma
geral, todas as ações têm impacto na segurança operacional dos sistemas elétricos.

a. Avaliação de desempenho dos sistemas de proteção: estabelece a sistemática para a coleta de dados e a
elaboração da estatística de desempenho dos sistemas de proteção, dos Sistemas Especiais de Proteção –
SEP e dos esquemas de religamento automático das linhas de transmissão;

b. Estudos de curto-circuito: manutenção da base de dados das impedâncias utilizadas para cálculo das
grandezas elétricas impostas ao sistema em condições de defeitos, independentes ou simultâneos; estabelece
as diretrizes para a elaboração de estudos de curto-circuito, de verificação da capacidade de interrupção
simétrica dos disjuntores e para a determinação das impedâncias equivalentes do sistema para estudos
elétricos em geral;

c. Sistemas Especiais de Proteção – SEP: estabelece o processo para implementação dos SEP, compostos
de Esquemas de Controle de Emergência – ECE e de Esquemas de Controle de Segurança – ECS, e
concebidos por meio dos estudos elétricos e o processo de acompanhamento da implantação desses
esquemas;

d. Diagnóstico dos sistemas de proteção e controle: estabelece as diretrizes para a realização de diagnóstico
dos sistemas de proteção e controle das instalações para a elaboração de plano de ação para implantação
das melhorias consideradas necessárias, bem como para a gestão da execução desse plano de ação;

e. Registro de perturbações: estabelece as diretrizes para a manutenção do banco de dados de registradores


de perturbação de curta duração e para o levantamento do grau de supervisão para perturbações de curta
duração; determina as necessidades de implantação de novos registradores ou a substituição de registradores
existentes; estabelece a sistemática para a transferência dos registros de perturbações coletados;

f. Proteções de caráter sistêmico: trata do processo de implantação, ajustes e gerência das proteções de
sobretensão, sobrefreqüência, subfreqüência, bloqueio por oscilação e disparo por perda de sincronismo, cujo
objetivo é proteger o sistema elétrico de fenômenos de caráter sistêmico;

g. Análise das ocorrências e perturbações: consiste na investigação da origem, da causa, da propagação e


das conseqüências dessas ocorrências e perturbações, abrangendo o comportamento do sistema, o
desempenho dos sistemas de proteção e controle, o desempenho dos esquemas de religamento automático
de linhas de transmissão, o desempenho dos SEP.

3.0 - INTERDEPENDÊNCIA ENTRE AS ÁREAS DE ESTUDOS ELÉTRICOS E DE PROTEÇÃO

As atividades realizadas nas áreas de estudos elétricos e proteção são bastante diferentes, conforme apresentado
na seção anterior. Todavia, há que se destacar um conjunto de atividades para as quais há forte interdependência
entre conhecimentos das duas áreas. Ou seja, aspectos específicos de proteção são fundamentais para a
realização de estudos elétricos, como é o caso dos estudos pré-operacionais dos quais derivam definições para a
integração de novos empreendimentos. Da mesma forma, dos resultados os estudos elétricos derivam importantes
definições para o ajuste e a coordenação dos sistemas de proteção de caráter sistêmico ou mesmo para o ajuste
das proteções intrínsecas dos equipamentos.

Esta seção apresenta algumas atividades das áreas de proteção e estudos elétricos que, para serem
desenvolvidas adequadamente, dependem de conhecimentos de ambas as áreas. Para cada atividade são
abordados os riscos ou inconvenientes que podem resultar da falha no fluxo de informações entre as áreas.

3.1 – Proteções de perda de sincronismo (trip por oscilação)

A característica principal dos sistemas elétricos de potência é que suas máquinas síncronas operam em
sincronismo. Da mesma forma, em sistemas elétricos conectados por meio de interligações, as transferências de
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energia entre os mesmos só são possíveis quando as máquinas síncronas de ambos os sistemas estão em
sincronismo.

Contudo, contingências nos sistemas elétricos interligados – tais como curtos-circuitos eliminados pela abertura de
linhas de transmissão – podem levar as unidades geradoras à perda de sincronismo. Nestes casos, uma vez
caracterizada a iminência da perda de sincronismo, faz-se necessária a rápida abertura da interligação, sob pena
de submeter os sistemas a grandes excursões de tensão e corrente.

Tradicionalmente, a detecção do fenômeno de perda de sincronismo é feita através da comparação de valores de


impedância medida com uma característica pré-definida, através da função de perda de sincronismo (78)
normalmente disponível em relés de distância.

Os ajustes da característica das proteções de perda de sincronismo é uma tarefa bastante crítica para a segurança
operacional. A escolha adequada destes ajustes permite reduzir variações no sistema, minimizando
conseqüências indesejáveis para as concessionárias e consumidores de energia elétrica. Um ajuste inadequado
pode resultar em perturbações de grandes dimensões.

A determinação dos ajustes de proteções de perda de sincronismo depende de inúmeras simulações dinâmicas.
Depende também de conhecimentos específicos do funcionamento dos relés de perda de sincronismo, no que se
refere às estratégias para detecção do fenômeno e às possíveis interferências com outras funções de proteção.
Ou seja, na prática a determinação de ajustes e a implantação de relés de perda de sincronismo são atividades
que dependem de forte interação entre as áreas de estudos e proteção de sistemas elétricos.

Falhas no processo em questão conduzem ao aumento dos riscos de atuações incorretas, recusas de atuações ou
retardo na separação de áreas já fora de sincronismo, provocando maior extensão do distúrbio.

3.2 – Critérios para estudos elétricos

Os critérios para estudos elétricos resultam da experiência na realização de estudos e são constantemente
revistos, ampliados e modificados com base na evolução das técnicas de planejamento, projeto e operação dos
sistemas, bem como na legislação e regulamentação vigentes (4).

Neste sentido, a contínua avaliação do desempenho de sistemas de proteção pode fornecer subsídios importantes
para o estabelecimento de critérios consistentes para a expansão e a operação dos sistemas elétricos. A base de
dados estatísticos de desligamentos forçados permite identificar os eventos de maior probabilidade de ocorrência,
fornecendo informações relevantes para os especialistas que desenvolvem estudos elétricos.

Quando as informações que derivam dos desligamentos forçados não são convenientemente consideradas,
aumentam os riscos de se adotar critérios inadequados, desassociados da realidade do sistema, reduzindo a
segurança operacional ou provocando limitações indesejáveis e não consistentes com a operação do sistema.

3.3 – Determinação de ajustes para verificação de sincronismo

As manobras de fechamento de anel ou paralelo provocam distúrbios no sistema elétrico e podem trazer
problemas para unidades geradoras – especialmente termoelétricas – dependendo das condições verificadas
antes da manobra. Na prática, é possível minimizar os distúrbios verificados nas referidas manobras através da
limitação da defasagem angular e do desvio de freqüência medidos nos terminais do disjuntor a ser fechado.

Para cada manobra, os valores máximos para a defasagem angular e para o desvio de freqüência resultam de
resultados de inúmeras simulações dinâmicas. Para que seja possível realizar as manobras de forma segura,
respeitando as limitações recomendadas pelos estudos elétricos, utilizam-se relés de verificação de sincronismo.
Estes dispositivos de proteção medem a defasagem angular e o desvio de freqüência nos terminais do disjuntor a
ser fechado e autorizam ou não seu fechamento.

Falhas no processo de determinação e implantação de ajustes de verificação de sincronismo podem submeter o


conjunto turbina-gerador de unidades geradoras a impactos excessivos, reduzindo a vida útil dos equipamentos.

3.4 – Religamento monopolar

A motivação para utilização do religamento monopolar reside no fato de que, em circuitos de alta e extra-alta
tensão, a maioria dos defeitos envolve apenas uma das fases e a terra. Nesse esquema de religamento a
eliminação dos defeitos monofásicos é feita através da abertura apenas da fase sob falta (abertura monopolar).

Para viabilizar a abertura monopolar, o esquema de proteção deve permitir a identificação precisa da fase sob
defeito. Além disso, os disjuntores do circuito a ser religado devem estar preparados para abertura e fechamento
individual de seus pólos. Para conclusão da manobra, depois de decorrido o tempo morto faz-se o religamento
apenas da fase que foi efetivamente desligada. Durante o ciclo do religamento monopolar (abertura monopolar,
tempo morto e fechamento monopolar), permanecem em serviço as fases sãs do circuito, sem que ocorra a
interrupção total do fluxo de energia na linha (5).

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Há que se considerar que operação com uma das fases desligada – durante o período de tempo morto – impõe
circulação de correntes desequilibradas no sistema. Neste caso, faz-se necessária a determinação das correntes
de desequilíbrio nas diversas condições operativas, permitindo a identificação dos efeitos da circulação destas
correntes nos elementos do sistema elétrico, em particular nos sistemas de proteção. Neste caso, observa-se forte
interdependência entre as atividades das áreas de estudos elétricos e de proteção.

Falhas no processo em questão conduzem ao aumento de riscos de atuações incorretas de proteções durante o
período de fase aberta do esquema de religamento monopolar.

3.5 – Sistemas Especiais de Proteção - SEP

Conforme abordado anteriormente, embora a expansão dos sistemas elétricos esteja baseada no critério de
planejamento (n-1), na prática os mesmos estão sujeitos à perda de múltiplos elementos. Como o
dimensionamento dos sistemas elétricos para perdas múltiplas é inviável, utilizam-se na operação dos sistemas
elétricos ações automáticas para controle de emergências.

Na prática, as ações automáticas para controle de emergência são realizadas por Sistemas Especiais de Proteção
– SEP. Estes sistemas promovem ações que visam à eliminação ou minimização de restrições operativas, tais
como limitações de transferências energéticas entre sistemas.

A concepção das ações automáticas para controle das emergências resulta de estudos elétricos baseados em
inúmeras simulações. Na prática, para que as ações automáticas concebidas apresentem o desempenho
esperado são necessárias análises das equipes de proteção, visando à implementação adequada do SEP.

O processo de concepção e implantação de Sistemas Especiais de Proteção apresenta forte interdependência


entre as áreas de estudos e proteção, sendo bastante crítico para a segurança operacional. Falhas no processo
aumentam os riscos de atuações incorretas, de recusas de atuações, de perda de sincronismo de unidades
geradoras e de corte indevido de carga.

3.6 – Análise de perturbações

O processo de análise de perturbações consiste na investigação da origem, da causa, da propagação e das


conseqüências das perturbações. O processo abrange o comportamento do sistema, o desempenho dos sistemas
de proteção e controle, o desempenho dos esquemas de religamento automático de linhas de transmissão e o
desempenho dos SEP. Como conclusão, a análise permite apontar soluções para os problemas encontrados e
recomendar medidas corretivas e preventivas.

A análise do desempenho do sistema pode demandar estudos específicos que permitam confrontar o resultado
esperado com a cronologia dos eventos verificados nas perturbações. A análise do desempenho dos sistemas de
proteção requer profundos conhecimentos e experiência na área. O processo apresenta forte interdependência
entre as áreas de estudos e proteção e tem impacto direto na segurança operacional, pois permite minimizar os
efeitos de perturbações futuras.

Falhas no processo podem resultar em análises inconclusivas ou sem efeito prático para o aumento da segurança
operacional.

3.7 – Visão geral

A Tabela 1 apresenta um resumo do que foi apresentado nessa seção. A tabela apresenta, ainda, outras
atividades que apresentam forte interdependência entre as áreas de estudos e proteção.

Tabela 1 – Atividades das áreas de estudos e proteção interdependentes

ATIVIDADE EFEITOS DE FALHAS NO


ESTUDOS ELÉTRICOS PROTEÇÃO PROCESSO

Risco de atuações incorretas,


Proteção de perda de sincronismo Conhecimento dos relés
recusas de atuações ou retardo na
(desempenho dinâmico do sistema, (características, ajustes, estratégias
separação de áreas já fora de
minimização dos efeitos de grandes para detecção dos fenômenos,
sincronismo, provocando maior
perturbações) interferências nas demais funções)
extensão do distúrbio
Adoção de critérios inadequados,
Estatística de perturbações
Critérios para estudos elétricos desassociados da realidade do
(freqüência dos defeitos, tempos de
(planejamento e operação de sistemas sistema, provocando maiores
eliminação, freqüência e tipo de
elétricos, determinação de limites) limitações à operação dos sistemas
perdas múltiplas)
elétricos
Ajustes de funções de verificação de Riscos de submeter o conjunto
Determinação de variações instantâneas
sincronismo (máximas defasagens turbina-gerador a condições
potência elétrica em unidades geradoras
angulares e de freqüência) proibitivas de operação

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ATIVIDADE EFEITOS DE FALHAS NO
ESTUDOS ELÉTRICOS PROTEÇÃO PROCESSO

Determinação dos efeitos da


circulação de correntes Riscos de atuações incorretas
Estudos de religamento monopolar
desequilibradas (ajuste de proteções durante o período de fase aberta
de neutro)
Concepção de infra-estrutura dos Riscos de atuações incorretas,
Sistemas Especiais de Proteção - SEP esquemas (desempenho, tempo de recusas de atuações, perda de
atuação, confiabilidade) sincronismo, corte de carga
Análise do desempenho dinâmico do
Análise de perturbações (investigação Análises inconclusivas ou sem efeito
sistema elétrico durante perturbações
da origem, da causa, da propagação e prático para o aumento da
(reprodução da perturbação para apoio ao
das conseqüências) segurança operacional
processo de análise)
Inclusão de parâmetros definitivos dos Resultados equivocados, podendo
Estudos pré-operacionais componentes elétricos na base de levar a conclusões inadequadas ou
dados de curto-circuito a restrições desnecessárias
Determinação de carregamentos máximos Ajuste do relé de distância (funções
Riscos de atuações incorretas
em linhas de transmissão load encroachment)
Cálculos de curto-circuito
Resultados equivocados, podendo
Estudos de transitórios eletromagnéticos e (determinação de equivalentes,
levar a conclusões inadequadas ou
de transitórios eletromecânicos determinação de equivalentes para
a restrições desnecessárias
simulação de defeitos monofásicos)

Além dos exemplos apresentados na tabela anterior há inúmeros outros assuntos que devem estar apoiados no
fluxo contínuo de informações entre as áreas de estudos elétricos e de proteção. Desta troca contínua, depende a
qualidade dos trabalhos desenvolvidos pelas duas citadas áreas, além do uso racional e otimizado dos recursos
disponíveis, muitas vezes escassos.

4.0 - MELHORIA DOS PROCESSOS DE ESTUDOS ELÉTRICOS E PROTEÇÃO

Tendo em vista o exposto anteriormente e considerando a relevância das atividades desenvolvidas nas áreas de
estudos e proteção para a segurança operacional, apresenta-se a seguir um conjunto de sugestões para a
melhoria dos processos que envolvem as referidas áreas. Por fim, são apresentadas iniciativas que já são
adotadas pelo ONS e que vêm apresentando bons resultados.

4.1 – Estratégias organizacionais

 Rodízio temporário de profissionais: estímulo ao rodízio de profissionais entre as áres de estudos


elétricos e de proteção, com o objetivo de aprofundar a visão sobre os processos desenvolvidos,
identificando eventuais problemas ou falhas nos mesmos;
 Espaço físico comum: sempre que possível, alocação dos profissionais das áreas de estudos elétricos e
proteção em um espaço físico comum, estimulando o fluxo contínuo de informações e experiências.

4.2 – Capacitação profissional

 Desenvolvimento de competências específicas: formação de especialistas com conhecimentos


abrangentes de estudos elétricos e proteção, através do treinamento de profissionais das áreas de
estudos elétricos em assuntos de proteção e vice-versa;

 Desenvolvimento de projetos em parceria: estímulo a parcerias entre as áreas de estudos e proteção,


através do desenvolvimento de projetos em temas como oscilografia de longa duração, medição fasorial,
transitórios eletromagnéticos, etc.

4.3 – Iniciativas do ONS

 Curso de Especialização em Proteção de Sistemas Elétricos: curso realizado pela UFRJ, em parceria
com o ONS e Furnas, a nível de pós-graduação lato sensu, onde já foram treinados mais de 100
engenheiros, muitos dos quais da área de estudos elétricos.

5.0 - CONCLUSÃO

O artigo apresentou e discutiu os desafios da operação dos sistemas elétricos de potência que, embora sejam
planejados segundo critérios de perda simples, estão sujeitos a perdas de múltiplos elementos. O trabalho sugere

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que a gestão adequada dos processos de planejamento e programação da operação, em particular aqueles
relacionados às áres de estudos elétricos e proteção, permite agregar robustez aos sistemas elétricos.

O artigo abordou o forte envolvimento existente entre as atividades desenvolvidas nas áreas de estudos elétricos
e proteção. Foram apresentados exemplos de atividades interdependentes, para as quais o fluxo de informações
entre as referidas áreas é crítico para a segurança operacional. O trabalho conclui que as atividades devem estar
apoiados no fluxo contínuo de informações entre as áreas, pois desta estratégia depende a qualidade dos
trabalhos desenvolvidos, além do uso racional e otimizado dos recursos disponíveis.

Por fim, o artigo apresentou um conjunto de sugestões para a melhoria dos processos que envolvem as áreas de
estudos elétricos e proteção e algumas iniciativas já adotadas pelo ONS que vêm apresentando bons resultados.

6.0 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

(1) ELGERD, O. I. - Introdução à Teoria de Sistemas de Energia Elétrica, Editora Mc-Graw Hill do Brasil Ltda, São
Paulo, 1970.

(2) OPERADOR NACIONAL DO SISTEMA ELÉTRICO – ONS, Procedimentos de Rede, Módulo 21 “Estudos para
reforço da segurança operacional elétrica, controle sistêmico e integração de instalações”, Revisão 1, 05/08/2009.

(3) OPERADOR NACIONAL DO SISTEMA ELÉTRICO – ONS, Procedimentos de Rede, Módulo 11 “Proteção e
controle”, Revisão 1, 05/08/2009.

(4) OPERADOR NACIONAL DO SISTEMA ELÉTRICO – ONS, Procedimentos de Rede, Módulo 23.3 “Diretrizes e
critérios para estudos elétricos”, Revisão 1, 05/08/2009.

(5) AQUINO, A. F. C., MASSAUD, A. G., GONÇALVES, D. N., “Utilização do religamento automático tripolar lento
em linhas de transmissão do SIN – Sistema Interligado Nacional: uma experiência bem sucedida”, XX SNPTEE,
Novembro de 2010, Recife/PE.

7.0 - DADOS BIOGRÁFICOS

Antonio Felipe da Cunha de Aquino nasceu em Teresópolis, Brasil, em 13 de Junho, 1974. Concluiu os cursos
de graduação e mestrado em engenharia elétrica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ em 1999 e
2000, respectivamente. Em 2003 concluiu o curso de pós-graduação latu sensu em proteção de sistemas elétricos,
pela UFRJ. De 1999 a 2000 trabalhou como pesquisador no Centro de Pesquisas de Energia Elétrica – CEPEL e
participa como pesquisador colaborador, desde 1999, das atividades do Laboratório de Eletrônica de Potência e
Média Tensão – LEMT, COPPE/UFRJ. Desde 2000 trabalha no ONS na área de análise de sistemas de potência.
Suas áreas de interesse técnico são análise da estabilidade transitória, interligação de sistemas elétricos,
eletrônica de potência, qualidade de energia e FACTS.

Benedito Adelino Souza da Silva nasceu em Angra dos Reis, Brasil, em 01 de Outubro, 1956. Concluiu o curso
de graduação em engenharia elétrica pela Universidade Veiga de Almeida em 1980 e o curso de especialização
em proteção de sistemas elétricos pela UFRJ em 2003, em nível de pós-graduação lato sensu. Trabalhou como
engenheiro de manutenção nas Centrais Elétricas do Norte do Brasil – Eletronorte, no Sistema de Transmissão de
Tucuruí, de 1981 a 1987, como engenheiro de comissionamento na área de comando e controle de sistemas de
proteção em sistemas hidrotérmicos no Norte do Brasil, de 1987 a 1997, e como engenheiro de operação na área
de análise de perturbações para o sistema de transmissão de Mato Grosso, de 1997 a 2000. Desde 2000 vem
trabalhando para o ONS, na área de análise de perturbações e de proteção de sistemas elétricos. Suas áreas de
interesse técnico envolvem Sistemas de Proteção.

Alexandre Garcia Massaud nasceu no Rio de Janeiro, RJ – Brasil em 28 de novembro de 1947. Graduou-se em
Engenharia Elétrica pela Universidade Estadual do Estado do Rio de Janeiro - UERJ em 1971. Entre os anos de
1972 e 1973 trabalhou como engenheiro eletricista na Light SESA. De 1974 a 1977 trabalhou na Eletrosul –
Centrais Elétricas do Sul do Brasil, com análise de sistemas elétricos. De 1978 a 1995 trabalhou na Eletrobras –
Centrais Elétricas Brasileiras, atuando em diversas atividades relacionadas ao planejamento de sistemas elétricos.
Desde então, trabalha no ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico com análise de sistemas elétricos.
Atualmente, é gerente da área de Estudos Especiais do ONS.

Fernando Aquino Viotti nasceu em Belo Horizonte, MG. Graduou-se em engenharia elétrica pela Universidade
Federal de Minas Gerais – UFMG, em 1970. Atualmente é gerente da área de Proteção e Controle do ONS.

Mauro Pereira Muniz nasceu em Niterói, RJ – Brasil, em 08 de outubro de 1961. Graduou-se em Engenharia
Elétrica pela Universidade Federal Fluminense – UFF, em 1985, e mestrado em engenharia elétrica pela
COPPE/UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1991. Entre os anos de 1985 e 2000 trabalhou como
engenheiro eletricista na Promon Engenharia S.A. Desde 2000 trabalha no ONS – Operador Nacional do Sistema
Elétrico com análise de sistemas elétricos. Atualmente, é gerente executivo da área de estudos especiais e
proteção e controle do ONS.

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