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INVESTIGAÇÃO GEOTÉCNICA PARA TALUDES DE RODOVIAS EM

SOLOS EXPANSIVOS

GEOTECNICAL INVESTIGATION FOR HIGHWAYS SLOPES IN


EXPANSIVE SOILS

Marinho, Fernando A. M., Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, São Paulo,
Brasil, fmarinho@usp.br
de Mello, Luiz Guilherme F.S., Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e Vecttor
Projetos Ltda, São Paulo, Brasil, lgdmello@usp.br
Tsukahara, Clara N., VecttorProjetos Ltda, São Paulo, Brasil.

RESUMO

Variações volumétricas são fenômenos inerentes aos solos sendo a alteração do estado de tensão
o responsável pela expansão ou contração dos mesmos. As variações volumétricas podem
ocorrer em solos no seu estado saturado ou não saturado. Aspectos quantitativos e qualitativos
do argilo mineral presente no solo determinam sua condição de solo potencialmente expansivo
(SPE). O entendimento do termo “solo potencialmente expansivo” é essencial para o
desenvolvimento de projetos de engenharia nos solos que podem estar sujeitos a significantes
variações volumétricas. A expansão e contração podem ser responsáveis por trincas no sistema
de drenagem superficial ou interno, pela redução da resistência ao cisalhamento do solo, além
de outros danos. No caso de cortes de rodovias construidas em região de SPE saturados, além da
variação do estado de tensões, este material fica sujeito a variações sazonais do teor de umidade.
Estes cortes podem ser protegidos das variações significativas de umidade e assim minimizar os
seus efeitos deletérios ao talude. Esta proteção, no entanto, deve levar em conta a história de
sucção induzida após a realização do corte. A expansão, bem como a pressão de expansão é
inversamente proporcional ao grau de saturação atingido pelo solo após sua exposição mais
direta ao meio ambiente atmosférico. Desta forma os projetos de taludes em solos expansivos
devem seguir uma sistemática de investigação, estudos de projeto e cálculo e arranjo de obra
que minimizem as variações sazonais, não só depois da sua conclusão, mas também e
fundamentalmente durante a execução da própria obra. O presente artigo trata da investigação
geotécnica de solos susceptíveis a contração e expansão como fruto da variação da sucção do
solo, e como suas características afetam o projeto de taludes em rodovias.

ABSTRACT

Volume changes are a phenomena inherent to soils and the change in the stress states are the
responsible for expansion or contraction of the soil. The volume changes may occur in saturated
or unsaturated soils. Quantitative and qualitative aspects of clayey mineral present in the soil
determine their condition of potentially expansive soils (PES). The understanding of the term
"potentially expansive soil" is essential to the development of engineering projects in the soil
which may be subject to significant variations in volume. The expansion and contraction may be
responsible for cracks in superficial or internal drainage system, for the reduction of shear
resistance of the soil and other damages. In the case of cuts of highways built in saturated region
of PES, in addition to the variation of the stress state, this material is subject to seasonal
variations of the water content. These cuts can be protected from significant water content
variation and thus minimize their deleterious effects to the slope. This protection, however,
must take into account the history of suction induced after the completion of the cut. The
expansion, as well as the pressure of expansion is inversely proportional to the degree of
saturation achieved by soil after his most direct exposure to the atmospheric environment. Thus
the projects of slope in expansive soils should follow a systematic research, design and
calculation studies, and arrangement of work that minimise seasonal variations, not only after
their completion, but also and mainly during the execution of the work itself. This article deals
with the geotechnical investigation of soils susceptible to contraction and expansion as a result
of the variation of soil suction, and how their characteristics affect the design of slope on
highways.

1. INTRODUÇÃO

Projetos de obras de engenharia em regiões onde ocorrem solos potencialmente expansivos


devem levar em conta os diversos aspectos relacionados com os fenômenos envolvidos com a
indução da expansão. A expansão destes solos está intimamente relacionada com a condição
ambiental onde o mesmo se encontra e depende fundamentalmente da alteração do equilíbrio
dinâmico que o perfil de solo possui antes da intervenção antrópica.

Danos causados por solos potencialmente expansivos ocorrem no mundo todo, causando
problemas em estradas, ferrovias, tubulações, canais, edificações e áreas pavimentadas. No
Brasil solos expansivos podem ser encontrados em diversas regiões (e.g. Vargas, 1989). Além
dos solos potencialmente expansivos, as rochas sedimentares argilosas, principalmente as
rochas brandas, são também sensíveis a variações ambientais e ocorrem com significante
abundância no Brasil conforme reportam Marques et al. (2005).

São muitas as propostas para minimizar os efeitos induzidos pelos solos potencialemente
expansivos. Entre elas podemos citar: estabilização química, substituição do solo, aterro de
confinamento, uso de estacas, lajes rígidas, barreiras de umidade, tranformação biológica, entre
outras. A escolha da solução deve considerar os fenômenos que estão envolvidos com a
possibilidade do solo expandir, que por sua vez depende do tipo de obra de engenharia.

Os solos potencialmente expansivos expandem ou contraem quando ocorre variação de


umidade. Estas variações são induzidas por fatores climáticos associados ou não com os ações
antrópicas. No caso de taludes os fenômenos indutores de problemas estão associados com:
alívio de tensões, ressecamento e/ou aumento de teor de umidade. Os problemas relacionados
com taludes em solos expansivos podem envolver grandes ou pequenos volumes de solo. Os
dois casos podem gerar problemas sócio-econômicos que devem ser evitados ou minimizados.
Mesmo os solos de baixo potencial de expansão podem gerar situações adversas para vários
tipos de obras de engenharia e taludes são uma delas.

O presente trabalho apresenta a conceituação da solução e a solução de engenharia dada a um


problema de estabilidade de talude envolvendo solo potencialemente expansivo nas margens das
rodovias Bandeirantes e Anhangüera em São Paulo, Brasil.
2. COMPORTAMENTO DOS SOLOS POTENCIALMENTE EXPANSIVOS

De acordo com Bolt (1956) o mecânismo de expansão pode ser divido em dois: um relacionado
com aspectos mecânicos e outro associado com aspectos físico-químicos. Na Figura 1 está
ilustrado os dois mecanísmos sugeridos por Bolt (1956), durante o descarregamento de um
ensaio edométrico feito inicialmente com volume constante. A expansão mecânica (m.) é em
geral pequena, já a expansão físico-química (f.q.) ocorre nos solos com características
mineralógicas específicas. Os minerais do grupo da esmectita são os que mais induzem
expansão físico-química. Salienta-se que neste tipo de ensaio o descarregamento é drenado e
sendo assim é permitido a absorção de água pelo solo. Neste tipo de ensaio existe variação de
teor de umidade, mas o grau de saturação é constante e igual a 100%.

Figura 1 – Representação esquemática de ensaio edométrico em solo potencialmente expansivo


saturado, indicando a expansão mecânica (m.) e físico-química (f.q.)

Grande parte dos solos potencialmente expansivos é de origem sedimentar e sobre adensado.
Estes solos possuem baixa permeabilidade e, ao serem descarregados quando da execução de
um corte para talude, o alívio de tensões converte-se em sucção. Diferente do ensaio edométrico
o descarregamento é praticamente não drenado. A sucção (Ψ) induzida é dada por:

(1 + 2 K 0 )σ v'
ψ ≅ p' = [1]
3
Esta sucção contribui para a estabilidade temporária do talude. No entanto, Taylor & Smith
(1986) sugerem que o equilíbrio acontece mais rápido do que prevê a teoria do adensamento
unidimensional de Terzaghi. Kirkpatrick et al. (1986) mostram que a sucção irá tender a se
dissipar tão logo a mesma seja induzida, pelo alívio de tensões. Sendo a forma mais simples de
dissipação aquela devida à absorção de água, e conseqüente expansão volumétrica. Se o
processo no campo é tal que não exista fonte de água livre um processo mais complexo
acontece. Este processo provavelmente depende da permeabilidade e coeficiente de
adensamento do solo. Kirkpatrick et al. (1986) concluem que a dissipação da sucção se reduz
com o grau de pré-adensamento do solo.

A sucção gerada poderá se dissipar com o tempo, dependendo de diversos fatores tais como:
tipo de solo, histórico de tensões alem do nível de alívio de tensões. Adicionalmente, a sucção
poderá aumentar superficialmente caso o talude se mantenha exposto a uma condição ambiental
que favoreça a evaporação, induzindo seu ressecamento. No caso de solos com elevado grau de
pré-adensamento uma pequena redução no teor de umidade (por evaporação) leva a um
significante aumento de sucção. O ressecamento pode levar à dessaturação (entrada de ar) e a
ocorrência de trincas. Após o solo sofrer ressecamento uma eventual absorção de água irá causa
sua desintegração.
A desintegração é fruto do aumento da pressão de ar ocluso presente no solo (e.g. Schmitt et al.,
1994). Com a entrada do ar a eventual tentativa da água de penetrar irá ter como conseqüência o
aumento da pressão de ar e a destruição da estrutura do solo quando a pressão de ar torna-se
superior a tensão de tração do solo. A desintegração leva a uma rápida erosão e a rupturas
superficiais e de pequena expressão no talude. O fenômeno é recorrente, com nova exposição de
material “fresco” e aliviado ao tempo.

3. ASPECTOS DO LOCAL

O projeto em estudo consiste de um talude de corte rodoviário localizado em área não


urbanizada, com histórico anterior e recorrente de rupturas menores e implementação de
medidas estabilizadoras paliativas mau sucedidas (p.ex. drenos horizontais profundos), onde os
processos de instabilização/erosão estão diretamente associados à característica expansiva do
solo presente no local.

A estratigrafia original do local é formada por uma camada superficial, pouco espessa, de solo
laterítico avermelhada, sobreposto a duas camadas distintas de materiais silte argilosos com
diversos planos de fissuramento, denominados Solo A e Solo B, conforme caracterizados na
Figura 2a. Observa-se ainda a configuração incial do perfil antes do corte para a implementação
da rodovia. Sobreposto aos solos da estratigrafia original observa-se presença de aterros antigos,
que consistem em provável bota fora de solos variados. Na Figura 2b tem-se uma visão geral do
talude em estudo.

Figura 2: (a) Perfil geológico (b) Local


Para melhor visualizar as caracteríticas dos solos estudados apresenta-se na Figura 3 os dois
blocos retirados do local, onde observa-se a presença de uma familia de fissuras.

Figura 3 (a) Solo A (b) Solo B

Interpreta-se que o processo de instabilização desse talude iniciou-se com o desconfinamento


dos materiais potencialmente expansivos desde a época da construção da rodovia,
potencializado pela ocorrência de lençol freático elevado no interior dos materiais expansivos
(Solo A) presentes na região. Desde essa época o talude foi submetido a inumeros ciclos de
secagem e umedecimento, em ciclos diarios e sazonais, sem cuidados executivos específicos
para contrapor a característica expansiva do subsolo.

Conseqüentemente, ao longo do tempo esses solos expansivos gradativamente aumentaram e


reduziram de volume com a variação de umidade, acarretando num processo de
“empastilhamento” ou desintegração, e tiveram suas propriedades iniciais de resistência ao
cisalhamento reduzidas. Chuvas intensas ocasionais favoreceram seu carreamento (erosão),
gerando a progressão do processo de instabilização, que chegou a abranger toda a berma inferior
do talude, conforme ilustrado na Figura 2b.

Para melhor conhecer o comportamento dos solos da região, foram realizados ensaios de
laboratório compostos de ensaio de expansão e ensaio de cisalhamento direto, e assim orientar a
concepção e as decisões de projeto.

4. CARACTERÍSTICAS GEOTÉCNICAS DOS SOLOS

Os solos envolvidos no presente trabalho classificam-se entre os solos de médio e alto potencial
de expansão, de acordo com o índice de plasticidade e índice de atividade, conforme ilustrado
na Figura 4.
Figura 4 – Carta de plasticidade e índice de atividade apresentando o sistema de classificação
para SPE.

No Solo A, foram realizados dois ensaios de expansão, um na condição natural da amostra (S=
98%) e após secagem prévia do material (S=67%), com a finalidade de avaliar a variação das
condições de expansividade do material em função da variação de seu grau de saturação. Por
simplicidade optou-se pelo ensaio de expansão seguida de carregamento para a obtenção da
pressão de expansão. Os resultados dos ensaios na amostra A estão apresentado na Figura 5. Os
ensaios de expansão levaram à interpretação de pressões de expansão de 45 e 250kPa,
respectivamente na condição natural e após a secagem.

Figura 5 – Resultados dos ensaios de expansão e determinação da pressão de expansão.

Na Figura 6 é apresentada a correlação entre a pressão de expansão e o peso específico seco,


além dos dados experimentais obtidos com a amostra A no seu estado natural e seca ao ar, é
apresentada uma relação empírica obtida por Santos e Marinho (1990). Observa-se que existe
um aumento significativo da pressão de expansão quando a amostra foi seca.
Figura 6 – Variação da pressão de expansão com o peso específico seco para a amaostra natural
e seca ao ar.

O Solo B, apesar de ser classificado como alto potencial de expansão baseado em ensaios de
caracterização, não apresentou qualquer indício de expansividade. Salienta-se que o grau de
saturação incial deste solo foi de 93%.

Com a finalidade de obter parâmetros geomecânicos para subsidiar as análises de estabilidade a


serem realizadas, foram executados ensaios de resistência (cisalhamento direto) no Solo A e
Solo B. Na Tabela 1 apresentam-se as pressões de expansão obtidas para o solo na condição
natural e os parâmetros de resistência determinados.

Tabela 1 – Parâmetros geotécnicos do solos


Solo pressão de expansão(kPa) γn (kN/m3) Φ´ c´ (kPa)
Solo A 45 19,5 36o 10
Solo B 0 20 24o 22

5. CONCEPÇÃO DO PROJETO

Tendo em vista as condicionantes geológico-geotécnicas associadas à presença do lençol


freático no material caracterizado como expansivo (Solo A), a concepção do projeto de
tratamento e estabilização do trecho de rodovia seguiu a diretriz de convivência com possíveis
problemas de expansão. Cuidados foram tomados para minimizar magnitude da pressão de
expansão, eliminando problemas gerados por ciclos de secagem e umedecimento desse solo
associados à variações pluviométricas sazonais.

A proposição do projeto buscou o confinamento do material expansivo (Solo A) com aterro


argiloso importado, e sem características expansivas, com espessura correspondente a pressão
de expansão na condição natural de 45kPa, isto é espessura de cerca de 2,5m de aterro,
associado a drenos de contato de areia. A remoção completa de todo o solo rompido e uma troca
parcial dos solos expansivos, conformando o talude em geometria igual à anterior ao processo
de deteriorização e rupturas foi proposta, conforme detalhado na Figura 7. A proposição e
verificação da estabilidade da geometria final do talude foi realizada de acordo com as
recomendações da NBR 11682 (1991).

Figura 7 – Solução adotada seção tipica concebida em projeto

Considerando que a expansividade do material, em geral, varia em função da sua densidade e de


seu grau de saturação, aumentando muito quando ele se torna mais seco, recomendou-se ainda
alguns cuidados executivos especiais:

• A terraplenagem ser realizada em período de estiagem, com escavações em nicho


prevendo o tempo para escavações e o reaterro curto, de modo a evitar, ao máximo,
variações no teor de umidade dos materiais potencialmente expansivos (Solo A) existentes
e expostos com a escavação, garantido o adequado desempenho da solução adotada;
• Reaterro mecanizado com altura de camada de solo lançada de no máximo 25cm, a fim de
garantir melhor compactação, densidade, resistência ao cisalhamento e permeabilidade;

6. CONCLUSÕES

O potencial de expansão dos solos com minerais de elevada capacidade de absorção de água
depende da história de tensão destes solos e das condições ambientais as quais os mesmos são
submetidos. No caso de corte em solos expansivos, o alívio de tensão associado com o aumento
da sucção por evaporação (fruto da exposição do talude ao meio ambiente) leva rapidamente a
dessaturação do solo, que por sua vez induz contração. A alteração do grau de saturação
potencializa a expansividade do solo levando a problemas de estabilidade local e eventualmente
global.

A solução para a estabilização de taludes em solos potencialmente expansivo levou me conta os


aspectos tradicionais de equilíbrio limite e ainda os fatores associados com o comportamento do
material frente as condições ambientais imposta pela obra de recuperação. Foi fundamental a
minimização do tempo de exposição do solo as condições climáticas locais.
REFERÊNCIAS

Bolt, G. H. (1956). Physico-chemical analysis of the compressibility of pure clays:


Geotechnique, v. 6, pp. 86-93.

Kirkpatrick, W. M.; Khan, A. J.; Mirza, A. A. (1986) Effects of stress relief on some
overconsolidated clays. Geotechnique. Vol. 36, pp. 511-25. Dec. 1986

Santos, N.B. and Marinho, F.A.M. (1990). Características geotécnicas de solos expansivos
compactados. IX Congresso Brasileiro de Mecânica dos solos e Engenharia de Fundações.
Salvador - pp. 163-177.

Schmitt, L., Forsans, T. and Santarelli, F.J.: Shale testing and capillary phenomena, Int. J. Rock
Mech. Min. Sci. Geomech. Abstr. (London), 31, (1994), 411–427.

Taylor, R.K. and Smith, T.J.: The engineering geology of clay minerals: swelling, shrinking and
mudrock breakdown, In: Proc. Conference Clay Minerals, Durham, 21, (1986), 235–260.

Vargas, M., Gonçalves, H.H.S., Santos, N.B. & Marinho, F.A.M. (1989). Expansive soil in
Brasil. Expansive soil in Brazil. 12 ICSMFE, Rio de Janeiro.Suppl. Contribuition by ABMS. S.
Paulo: ABMS, P.77-81.

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