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TJDFT - 1a Vara da infância e da Juventude do Distrito Federal

Seção de Medidas Socioeducativas - SEMSE


A violência policial na voz dos adolescentes em conflito com a lei

Vários autores assinalam que a truculência da polícia apresenta raízes históricas. Para
Stenberger e Cardoso (2005:17), as práticas violentas são provenientes ‘do ideário de
combate ao inimigo, usado desde os anos 1920 em larga escala nas organizações policiais’,
posteriormente reforçado durante a ditadura militar (1964-1985) com a doutrina de
segurança nacional. Com a desculpa de combater o Comunismo, as Forças Armadas
passaram a exercer o controle do monopólio de repressão política e ideológica no país,
reordenando as polícias, especialmente a militar, para conter e perseguir internamento os
adeptos da nova ordem. de volta ao Estado Democrático, tal doutrina foi ‘transposta para a
luta contra a criminalidade, em que o criminoso é um inimigo que precisa (para ser melhor
combatido) ser tratado sem a proteção dos direitos civis e, se possível, ser abatido’
(PINHEIRO; SADER, 1986:87 apud SALLAS, 1999:294 apud TJDFT 2011:17)

Antes da segunda metade do século XX, o policiamento moderno adotava o modelo


proativo, caracterizado por estreitos vínculos entre policiais e comunidade (ROLIM, 2006,
apud TJDFT 2011:17-18)

Na visão de Skolnick (1966 apud COSTA, N. 2004), a adesão do policial às normas legais
variaria de acordo com o perigo a que é exposto. Assim, o policial pode empregar o uso da
força de acordo com a ameaça a que se sente submetido, ou quando a sua autoridade é
questionada ou desrespeitada. Ainda para o autor, nas camadas populares, o policial acaba
agindo com mais rigor ou com excesso de poder e arbitrariedade, porque as julga a partir de
critérios subjetivos e da condição de classe ou de cor, considerando-as criminosas em
potencial que colocariam em risco não só a ordem social, como a sua (policial) própria vida.
Para com as elites, ele tende a ser mais civilizado, porque teoricamente essas pessoas não
oferecem nenhum risco à sua segurança. Porém, quando o policial não percebe o prestígio
e o poder pertencentes a classes sociais privilegiadas, tende a manter a atitude de
truculência. (TJDFT 2011:19)

A condição de exclusão da maioria da população e a desconfiança no trabalho dos policiais


contribuem para que eles sejam identificados como agentes de repressão e não de
proteção. Esse caráter repressivo foi expresso por adolescentes autores de ato infracional,
usuários de drogas, em artigo sobre o lugar do pai nas relações familiares. Para Penso;
Ramos; Gusmão (2005:1) esses jovens perceberam a polícia como o ‘pai de botas’, porque
ao invés de proteger, têm a função de ‘bater, espancar e maltratar’ (TJDFT 2011:20) cabe
então uma reflexão sobre a figura do pai e o homem na sociedade em geral.

Sallas et al (1999), em pesquisa sobre a juventude curitibana na faixa etária de 14 a 20


anos, assinala aspectos importantes da visão juvenil com relação à violência policial. Na
escala de 1 a 10, a instituição Polícia recebeu nota mediana de satisfação (4,99), estando
acima do Congresso, Governo e Partidos Políticos, porém abaixo da Família, Escola, e
Igreja.(TJDFT 2011:21)

Fernandes (1988, apud SALAS et al, 1999) afirma existir o ‘discurso da suspeita’, ‘no qual o
cidadão pobre passa a ser vigiado e percorrido por um olhar persecutório seletivo e
adestrado’. Seus componentes são: ‘1) a mobilidade do olhar: a identificação do suspeito e
a ação que supõe ir atrás do suspeito; 2) o adestramento do olhar: o feeling para perceber a
culpa do suspeito; 3) o atuar: trata-se da forma e da técnica utilizada para a abordagem’.
Em outras palavras, para a autora, tal discurso põe tanta ênfase no instinto, na intuição dos
policiais que eles seriam capazes, por meio de um único olhar, de distinguir, por exemplo,
se o jovem está sob efeito de drogas ou se vai adquiri-la. Concorre para tamanha
constatação o ato de observar a aparência do jovem: seu caminhar, as roupas
diferenciadas, o corte de cabelo, a linguagem o jeito, entre outros. (TJDFT 2011:22)

Chevigny (1995, apud MACHADO; NORONHA, 2002) assevera que quando a violência é
praticada contra pessoas que se colocam como trabalhadores, pais e mães de família
honestos, cumpridores de seus deveres, tal violência é tida como inaceitável, ilegítima. No
entanto, quando atos violentos são praticados contra os ditos infratores, ‘foras-da-lei’, a
violência passa a ser aceitável e legítima. A percepção de perda de controle sobre a
criminalidade faz com que setores da sociedade desenvolvam comportamentos autoritários,
apoiando excessos da polícia contra responsáveis por delitos grandes ou pequenos (TJDFT
2011:23)

O perfil dos suspeitos está em consonância com a literatura especializada. A maioria é


composta por negros e pardos, trajando vestes características (bonés, roupas folgadas),
pobres e moradores da periferia (da cidade de São Paulo) (TJDFT 2011:27)

A abordagem policial se caracterizou pela grande ausência na identificação formal dos


policiais (86%). Contudo, os adolescentes relataram que 70% dos agentes eram policiais
militares, 27% policiais civis e o restante pertencente à Guarda Civil Metropolitana - GCM.
Para 95% dos entrevistados houve violência durante a abordagem 51% de ordem física,
43% psicológica e 1% sexual. Os locais de maior incidência dos atos violentos foram: rua
(71%), outros (15%) - os quais não foram identificados pela pesquisa - e casa (9%). (TJDFT
2011:28)

Embora o levantamento não tenha especificado grande parte dos tipos de violência física,
foram citados: o uso de algemas (72%), casos de tortura e a danificação de documentos ou
materiais pessoais dos jovens (aproximadamente 30%). Neste último caso, estavam
incluídos documentos comprobatórios do cumprimento das medidas em meio aberto sob
supervisão do próprio CEDECA Interlagos. O abuso de autoridade também apareceu por
meio da invasão de domicílio sem mandado de busca (42%), ferindo não somente lei
específica (Lei 4898, de 9 de dezembro de 1965), como o art. 5º, inciso LXI da Constituição
Federal (1988), que permite apenas a prisão em situações de flagrante delito ou sob ordem
judiciária, com exceção dos casos que configuram crime militar (TJDFT 2011:28)

O motivo mais indicado, pelos jovens, para o cometimento de ato infracional referiu-se ao
suprimento de gastos pessoais (27,4%) com vestuário, diversão, entre outros. Já para os
responsáveis, a motivação predominante foi a influência de terceiros (35,6%), popularmente
denominados de más companhias (TJDFT 2011:38)
Um dos exemplos mais simples de abordagem citado por funcionários da Academia de
Polícia Civil (2008) envolve os seguintes passos: em havendo a suspeição, os policiais se
apresentam para o cidadão e dão voz de comando ‘parado, polícia’; em seguida ordenam
que o suspeito fique de costas, coloque as mãos na cabeça e abra as pernas. Estando
parcialmente imobilizado, o policial se aproxima e só então procede à revista; encontrando
arma, retira-a, avisa aos colegas e a seguir algema o revistado. É solicitado silêncio durante
toda a abordagem e, ao final, são explicitados os motivos da verificação. Essa é uma
técnica que se baseia no uso progressivo da força e no respeito à dignidade humana
(TJDFT 2011:39)

A presente pesquisa revelou que, no universo de 513 adolescentes atendidos, 23,4%


(n.=120) admitiram ter sofrido excessos durante a abordagem policial. Os excessos ou atos
violentos mais praticados pelos policiais, na fala dos jovens, foram: tapas (17,9%), socos
(14,6%), chutes (14,1%) e xingamentos (12,3%), conforme gráfico 1. Foi verificado ainda
um número considerável de ameaças (9,6%), de arma policial apontada para os jovens
(8,3%) e de pisões (6,3%). Ressalte-se que outros atos praticados contra os adolescentes,
embora com menor incidência, foram bastante graves, tais como: sufocamento (3,7%), tiros
contra o jovem (1%) e pauladas (0,8%). (TJDFT 2011:40)

‘Foi um civil num fiat aí ele me pegou, me jogou no carro dele, me bateu lá dentro e depois
me deitou no chão, botou a arma nas costas e começou a me dar chute e mandava eu olhar
pra ele, me dava tapa na cara e tudo. Aí chegou um camburão, aí quando o camburão
chegou um me pegou pela orelha, outro me deu um tapa nas costas e me jogou dentro do
carro e algemaram. Aí quando saía das ruas assim, passava nos quebra-mola no pulo aí
me batia assim, tacava a cabeça no carro. (relato de jovem. (TJDFT 2011:41-42)

‘Ah, exagerado né! A gente tá rendido, não tem mais o que fazer, não tem pra onde correr,
e os caras querem bater na gente’ (TJDFT 2011:42)

‘Eu sei que ele é PM, autoridade, mas eles num tava no direito de ficar tocando no meu
corpo daquele jeito. Podia pegar em qualquer lugar, no meu braço, na minha perna, mas,
uai, vai pegar lá! Eu não aceitei. (TJDFT 2011:42)

‘Eles seguraram aqui ó (aponta pra garganta), apertando e perguntando coisa pra mim, aí
segurando aqui que não tinha nem como falar… fiquei com falta de ar, chega fiquei mole e
caí no chão lá… e eu oxe como é que eu vou falar? Sendo que não tem nem como.’(TJDFT
2011:43)

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