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EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – UNIJUÍ


VICE-REITORIA DE GRADUAÇÃO – VRG
COORDENADORIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA – CEaD

Coleção Educação a Distância


Série Livro-Texto

Walter Frantz

SOCIOLOGIA
DO DESENVOLVIMENTO I

Ijuí, Rio Grande do Sul, Brasil


2010
1

EaD
2010, Editora Unijuí Walter Frantz
Rua do Comércio, 1364
98700-000 - Ijuí - RS - Brasil
Fone: (0__55) 3332-0217
Fax: (0__55) 3332-0216
E-mail: editora@unijui.edu.br
www.editoraunijui.com.br
Editor: Gilmar Antonio Bedin
Editor-adjunto: Joel Corso
Capa: Elias Ricardo Schüssler
Designer Educacional: Magna Stella Cargnelutti Dalla Rosa
Responsabilidade Editorial, Gráfica e Administrativa:
Editora Unijuí da Universidade Regional do Noroeste
do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí; Ijuí, RS, Brasil)

Catalogação na Publicação:
Biblioteca Universitária Mario Osorio Marques – Unijuí

F836s Frantz, Walter.


Sociologia do desenvolvimento I / Walter Frantz. –
Ijuí : Ed. Unijuí, 2010. – 98 p. – (Coleção educação a
distância. Série livro-texto).
ISBN 978-85-7429-861-0
1.Sociologia. 2. Sociologia – Desenvolvimento. 3. De-
senvolvimento. 4. Desenvolvimento – Processo. I. Títu-
lo. II. Série.
CDU : 308
316

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EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

Sumário

CONHECENDO O PROFESSOR ................................................................................................5

APRESENTAÇÃO ...........................................................................................................................7

UNIDADE 1 – A Sociologia do Desenvolvimento ................................................................... 11

UNIDADE 2 – A Questão do Desenvolvimento ..................................................................... 19

UNIDADE 3 – O Desafio da Interpretação e da Explicação


da Questão do Desenvolvimento ..................................................................... 27

UNIDADE 4 – A Questão da Cooperação no Processo de Desenvolvimento ..................... 49

UNIDADE 5 – Recapitulando: enfoques teóricos sobre desenvolvimento .......................... 73

CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................................... 81

REFERÊNCIAS ............................................................................................................................ 95

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EaD Walter Frantz

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EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

Conhecendo o Professor

Walter Frantz

Possui graduação em Ciências Naturais (1974) e Pedagogia


(1975) pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio
Grande do Sul – Unijuí. Doutorado em Ciências Educativas: Soci-
ologia, Pedagogia e Ciências Políticas, pela WWU – Universidade
de Münster, Alemanha (Westfälische-Wilhelms Universität, 1980).
Além disso, fez estudos de especialização em administração de
empresas cooperativas, pelo Instituto Chileno de Educação Coo-
perativa, em Santiago do Chile, e estudou economia cooperativa
no Instituto de Cooperativismo da Faculdade de Economia da
Universidade de Münster. Tem experiência na área de Sociologia,
com ênfase em Sociologia da Educação e do Desenvolvimento,
atuando com os seguintes temas: associativismo, cooperativismo,
educação em associações e organizações cooperativas e desenvol-
vimento local. Participou da gestão da Cooperativa Agropecuária
e Industrial -Cotrijuí (1985-1991). Exerceu a função de reitor da
Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do
Sul – Unijuí (1993/98); presidente da Fundação de Integração,
Desenvolvimento e Educação do Noroeste do Estado do Rio Gran-
de do Sul Fidene (1993/98); presidente do Fórum dos Conselhos
Regionais de Desenvolvimento do Estado do Rio Grande do Sul
(1994/96). Professor titular da Unijuí: Departamento de Ciências
Sociais e Programa de Pós-Graduação em Educação nas Ciências.

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EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

Apresentação

Caras alunas, caros alunos, a elaboração do presente texto tem o intuito de contribuir
para o debate sobre o processo de desenvolvimento em nossas aulas. Trata-se de um texto de
apoio ao estudo sobre desenvolvimento. O tema é objeto de leitura crítica no componente
curricular Sociologia do Desenvolvimento. Pretendo chamar a atenção para alguns aspec-
tos, mas que precisam ser aprofundados por meio de mais leituras, dependendo da necessi-
dade profissional ou da curiosidade intelectual de cada um. O texto foi produzido,
reordenando e incorporando apontamentos de aulas, aproveitando partes de textos por mim
elaborados anteriormente como material de aula. Enfim, busquei também reelaborar ideias
e trazer para o debate a visão de outros autores.

Primeiramente quero adiantar que as abordagens teóricas não esgotam a explicação


dos fenômenos da experiência de cada um. A realidade social é maior que o foco teórico de
sua abordagem. Por isso, para além da leitura sobre teorias a respeito do desenvolvimento,
ainda resta muito espaço para o debate e o questionamento crítico.

O texto de aula pretende, principalmente, chamar a atenção para alguns aspectos,


sem ignorar que existem outras leituras, outras visões e diferentes concepções sobre de-
senvolvimento. Sei que não é possível esgotar o debate e nem tenho essa pretensão ou essas
condições. Tenho minha visão. Sou também desafiado a ler sempre, a confrontar minhas
experiências com as diferentes teorias e debates, na condição de cidadão interessado no
tema e na problemática do desenvolvimento da sociedade.

O debate sobre desenvolvimento é uma questão ampla e aberta e não pode ser levado
a efeito com pretensões de ditar a última palavra, pois essa não existe. Por isso, para além da
leitura do presente texto, ainda resta muito espaço para o debate e o questionamento crítico
em interlocução com outros autores. Na condição de cidadãos, sempre somos desafiados a
nos inserirmos na dinâmica do espaço de debate.

Tenho a pretensão de apoiar e motivar a reflexão sobre desenvolvimento, especialmen-


te como um processo social. Essa reflexão deve acontecer a partir da experiência de cada um
ou de cada uma, em interlocução com diferentes autores, por intermédio de suas aborda-
gens teóricas. Cada qual deve buscar o aprofundamento da problemática do desenvolvi-
mento das sociedades por meio de leituras. O texto tem apenas o intuito e a função de
estimular o gosto pela leitura e pela reflexão sobre desenvolvimento. É um texto auxiliar
que deve motivar leituras subsequentes. Ou melhor, tenho a pretensão de alcançar isso.
Espero poder consegui-lo!

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EaD Walter Frantz

O meu objetivo e desejo, ao elaborar o presente texto, portanto, foram o estímulo à


reflexão sociológica e a contribuição ao debate sobre desenvolvimento. Acredito que esses
também sejam os objetivos e o desejo de vocês. Vou procurar fazer isso mediante temáticas
referenciais, abordando as questões do desenvolvimento, da sociologia do desenvolvimento,
da discussão teórica do desenvolvimento e dos novos olhares sobre caminhos de desenvolvi-
mento. É importante, aqui, explicitar e repetir aos leitores que o contexto histórico das
abordagens é amplo e, portanto, precisa ser objeto de mais leituras.

Um lembrete importante: a leitura e a escrita compõem o núcleo central do estudo


deste componente curricular. Com essas duas práticas espera-se estimular a reflexão crítica
e a construção de conhecimentos. Da soma dessas duas práticas espera-se que resultem
aprendizagens, conhecimentos e visão crítica. A capacidade de reflexão crítica e a aprendi-
zagem devem ser estimuladas pela leitura e escrita. São atividades individuais, mas que nos
remetem ao diálogo, à interlocução, ao debate com diferentes autores. Certamente a leitura
e a escrita estão entre as experiências de vida mais significativas para o desenvolvimento de
nossos projetos pessoais como estudantes.

A leitura e a escrita são práticas que marcam nossa personalidade, nosso modo de ser
e de nos constituirmos sujeitos e atores sociais. São, portanto, elementos centrais do proces-
so de formação da cidadania e da profissão. Os seus reflexos na dinâmica da vida social, no
mundo da cultura, da política ou da economia, podem ser profundos, quer pela sua prática
quer por sua ausência. Certamente nossas vidas serão marcadas para sempre pela presença
ou pela ausência das práticas de leitura e da escrita. A leitura e a escrita são espaços cons-
tituintes de nosso modo de ser.

Por isso, mais uma vez, quero reforçar que as práticas da leitura e da escrita constitu-
em instrumentos valiosos de relacionamento com o mundo que nos cerca. São essenciais à
análise e interpretação do mundo, isto é, das relações sociais. Elas também revelam-se ins-
trumentos valiosos de construção dos nossos espaços sociais e de atuação neles e sobre eles.
O domínio e o uso desses instrumentos potencializam ou limitam a nossa ação, nos espaços
sociais da vida. A necessidade de compreender o mundo no qual vivemos é condição básica
para o processo do nosso desenvolvimento pessoal e da sociedade da qual fazemos parte.
Enfim, aqui começa o desenvolvimento de uma sociedade – pelo aprendizado, pela educa-
ção –, capacitando para a política, para o trabalho, para a cultura.

Todos têm suas experiências específicas de aprendizado. Para uns essa experiência é
mais prazerosa que para outros. Às vezes, dependendo das circunstâncias, essa experiência
se revela quase uma violência, uma agressão, um risco de constituir certos traumas com a
aprendizagem. Tenho observado isso ao longo dos anos de docência. Como desconstruir
uma eventual experiência negativa de aprendizagem? Isso nem sempre é fácil! Certamente

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EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

uma possibilidade está nas práticas da leitura e da escrita, no desenvolvimento do gosto


pela leitura e escrita, ativado pela curiosidade de querer conhecer e de se inserir no mundo
ativamente.

Assim, a leitura e a escrita podem constituir fatores-chave de um processo de


desconstrução de experiências negativas com a aprendizagem. Por isso, a leitura não deve
ser feita com rapidez e sob pressão, como se fosse apenas uma obrigação, ao final do semes-
tre. Aqui não vale tanto a quantidade, mas a qualidade. Para que a leitura e a escrita sejam,
de fato, instrumentos de construção de conhecimento e de contribuição à aprendizagem, no
campo das Ciências Sociais, devem conduzir à reflexão crítica e autocrítica. Isso se alcança
com paciência e persistência. Proponho a vocês o exercício paciente e persistente da leitura
e da escrita. Hoje, talvez mais do que nunca, somos desafiados à interlocução com quem
busca entender as dimensões, a dinâmica e os sentidos do desenvolvimento da sociedade
humana. E isso pode ser feito pela leitura! Convido vocês a fazerem da leitura e da escrita os
seus caminhos de inserção crítica e ativa no mundo que habitamos, para buscar compreen-
der o mundo que construímos, através de gerações! Aqui, vale ação e reflexão!

Construímos a nossa realidade social por intermédio de muitas gerações, partindo dos
mais diferentes lugares do nosso planeta, movidos a participar, ainda que quase sempre
alienados da dinâmica histórica do contexto político e econômico da expansão do sistema
econômico competitivo capitalista. Ao longo dessa trajetória de gerações foi-nos sempre
acenado com a possibilidade de integrarmos esse sistema e de construirmos, por dentro dele,
por meio da competição, nossos espaços de vida, produzindo alimentos, ocupando as flores-
tas, os campos e as terras férteis do nosso país. Na direção desses sonhos fizemos todos os
esforços, geração após geração. Hoje, para uma grande parte da população, essa possibili-
dade de integração está muito reduzida, quase inexistente, e sua situação social é depri-
mente.

Foram muitos os que vieram carregados pela esperança de melhores condições de vida.
A esperança por uma vida melhor não foi menor ao longo dos 500 anos de lugar na História
ocidental, para muitos outros, que não precisaram vir até o cenário da colonização, pois
esta foi até eles, indo de encontro as suas necessidades e interesses. Reconhecer essa histó-
ria implica reconhecer os diversos aspectos que a compõem e que se apresentam, hoje, como
potencialidades de um desenvolvimento nacional socialmente mais justo.

Algumas das marcas profundas de nossa História ainda não se apagaram e estão pre-
sentes no íntimo de nosso modo de ser e de fazer as coisas. No reconhecimento dessas mar-
cas certamente está a raiz da discussão sobre desenvolvimento local. São as marcas históri-
cas de um capital social que as gerações seculares de brasileiros souberam construir pela
sua capacidade associativa e cooperativa em superar o passado. São marcas de lugares

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EaD Walter Frantz

sociais que se capitalizaram como potencialidades e diferenças, que nos distinguem e identi-
ficam nos cenários mais amplos da humanidade. São marcas de nossa História, daquilo que
podemos definir como sendo nosso desenvolvimento nacional. São marcas que se transfor-
mam, pela ação da consciência, em forças políticas, em mobilização social, em capital social.

Diante do reconhecimento da realidade social, abre-se o campo das visões de mundo,


das ciências e das teorias a respeito do desenvolvimento, do progresso da humanidade.

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EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

Unidade 1

A SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO
O homem, por meio de suas relações com os demais seres
humanos, é capaz de construir consciência de si e dos outros,
Sugestão de leitura
especialmente, pelas relações no campo da economia, da políti- A quem trabalha com adoles-
ca, da cultura, da educação. A partir disso elabora suas concep- centes e jovens recomendo ler
o livro de Michel Lacroix, O
ções, suas hipóteses ou teorias sobre a vida em sociedade. A So-
Culto da Emoção. Rio de
ciologia se constitui pelo esforço de análise e interpretação des- Janeiro: José Olympio, 2006.

sas relações. Ela é produto desse conhecimento pela convivência


social e se expressa em teorias, análises e interpretações. Teorias
sociais, entretanto, são referências abstratas que orientam a lei-
tura e a compreensão da realidade social. Muitas são as teorias
de interpretação e explicação da realidade social. Teorias nunca
conseguem dar conta de toda a realidade e esta, por sua vez, não
pode ser ajustada às teorias. Afinal, teori as são esforços
explicativos de compreensão da realidade, mas não são as reali-
dades. As realidades sociais são dinâmicas, desafiando à
teorização. O mundo no qual habitamos é muito complexo e de-
safiador em sua análise e interpretação!

Em que mundo se vive, hoje? Como se constitui nossa rea-


lidade, atualmente? Hoje, cada vez mais, a lógica capitalista or-
dena e conforma os diferentes indivíduos no campo da economia,
da política, da cultura, da educação: uniformiza a singularidade
de cada um, apesar das diferenças dos territórios e da história de
cada povo; cria e desenvolve um modo novo e universal de pen-
sar e agir. Cada vez mais as pessoas são construídas (conforma-
das) pelos valores da lógica capitalista. Da lógica capitalista nasce
uma ampla estrutura de controle social que não se reduz apenas
ao poder de apropriação da mais-valia econômica, mas na apro-
priação do próprio modo de ser das pessoas. Corre-se o risco de
unidimensionalizar a vida: cada vez mais os aspectos econômi-
cos orientam e dão sentido à vida. Tudo o que estiver fora do
sentido da dimensão econômica da vida perde em importância

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EaD Walter Frantz

para o modo atual de se viver. A ordem econômica é o eixo aglutinador das pessoas (Mészáros,
2009). A ordem econômica existe como um sistema de valores que exerce um controle sobre
todos que dela participam. O consumo é estimulado pelo capital e não mais pelas necessi-
dades da vida, a ponto de a vida obedecer mais aos interesses do capital pelo consumismo
do que a ela própria. Importa mais parecer do que ser.

Diante de tal situação, muitas pessoas acabam se resignando e buscam, individual-


mente, o seu lugar “ao sol” do sistema. Não se trata apenas de uma alienação, mas de
uma relação de submissão “consentida”, que reduz a dimensão da condição humana. Não
é um estado de pobreza material, mas de pobreza espiritual e intelectual, de aceitação e
acomodação. Certamente trata-se de um estado de perplexidade, de impotência, de um
desarmamento dos indivíduos de sua condição de atores históricos, de construtores da
sociedade.

Na visão de Bauman (2001), vem ocorrendo atualmente um processo da desinte-


gração social, de derrocada dos “laços e redes humanas”, que abre o caminho para que
os “poderes globais” (leia-se corporações da lógica do capital) tenham sempre mais po-
der de ação. Observa o autor que os poderes globais constroem suas forças pelo rastro do
desmantelamento dos laços e redes sociais. Nos espaços sociais e econômicos destruídos,
floresce a cultura do individualismo e, assim, abre-se o espaço para a afirmação da lógi-
ca do capital. O capital ocupa, cada vez mais, os espaços da economia e da cultura. A
lógica do capital “ordena” os diferentes indivíduos no campo da economia, da política,
da cultura e, desse modo, uniformiza a singularidade de cada indivíduo, apesar das dife-
renças dos territórios e da história de cada povo. À sombra do capital desenvolve-se um
modo novo e universal de pensar e agir que, porém, em seus resultados práticos, especi-
almente no mundo da economia, não consegue abrigar com dignidade a todos os seres
humanos.

De acordo com o sociólogo Manuel Castells (1998, p. 27), nas últimas décadas “vários
acontecimentos de transcendência histórica têm transformado a paisagem social da vida
humana. A revolução da tecnologia da informação é o “vetor ” dessas transformações. Uma
revolução tecnológica, centrada em torno às tecnologias da informação, está modificando a
base material da sociedade a um ritmo acelerado”.

Na opinião de Castells, um novo mundo está tomando forma, fazendo surgir uma
nova estrutura social dominante, uma nova economia e uma nova cultura, sendo as mu-
danças sociais tão profundas quanto os processos de transformação econômica e tecnológica.
A nova economia organiza-se em torno de redes globais de capitais, gestão e informação. O
acesso ao conhecimento tecnológico constitui a base da produtividade e da competência.

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EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

A nova forma de capitalismo se caracteriza por maior competitividade, por maior flexi-
bilidade na organização do trabalho e pela debilitação de suas tradicionais organizações de
defesa. Na economia global interdependente novos competidores aparecem no cenário para
disputar cotas da produção, do comércio, do capital e do trabalho, estabelecendo-se uma
base multicultural de interdependência econômica.

O capitalismo prospera em todo o mundo e aprofunda sua penetração nos países, nas
culturas e nos âmbitos da vida das pessoas. Agora todo o planeta está organizado em torno
de um conjunto de regras econômicas, em boa medida, comuns. Afirma Castells que é pela
primeira vez na História que o modo capitalista de produção determina a relação social em
todo o planeta. É global e se estrutura geralmente em torno de uma rede de fluxos financei-
ros. Está incorporado na cultura e na tecnologia mais que em outras épocas. A tecnologia
da informação e a capacidade cultural para a sua utilização tornam-se essenciais para o
processo produtivo, para a produtividade e a competitividade, em que é preciso inovação e
flexibilidade.

Segundo Castells, no entanto, as sociedades não são só resultado da transformação


tecnológica e econômica. Ao lado dessas alterações ocorreram também movimentos sociais,
em todo o mundo, desejosos de mudanças nas condições de vida. São movimentos que
manifestam muitos questionamentos sobre as mudanças em andamento, influenciando tam-
bém a formação da nova sociedade.

Hoje, diante do fracasso econômico e da frustração social dos grandes sistemas, vive-
se um “vazio político e ideológico”. Não existe um projeto global para a maioria da popula-
ção, para quem é cada vez mais seletivo o caminho da competição pelo mercado de concor-
rência capitalista. Dentro dessa ordem que privilegia os interesses do capital, porém, isto é,
a acumulação de bens e riquezas, também são produzidas contradições que podem levar à
constituição de forças capazes de contribuir para a alteração das condições de vida por
meio de movimentos sociais. Os indivíduos reconstroem as possibilidades de se fazerem su-
jeitos e atores políticos na mobilização, no movimento, na experiência social.

Buscar compreender o mundo em transformação é tarefa da Sociologia. A sua compre-


ensão é condição básica para poder participar ativamente do processo de desenvolvimento
da sociedade. A Sociologia pode contribuir para que a sociedade, isto é, os seres humanos,
tomem consciência de si mesmos e de seus problemas. É pela Sociologia que se busca expli-
car e compreender a atuação dos seres humanos, a partir das relações que estabelecem entre
si no processo de construção da vida. Exatamente nesse ponto de partida, contudo, é que
começa a polêmica que se expressa em diferentes teorias explicativas a respeito da convi-
vência social ou contradições, no campo da economia, da política, da cultura, da educação,
enfim, nos espaços da dimensão humana.

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EaD Walter Frantz

Das relações sociais nascem estruturas, organizações sociais, voltadas a diferentes


aspectos da vida humana. A isso podemos chamar de desenvolvimento. Trata-se de processo
complexo e polêmico, um fenômeno que engloba Economia, História, Geografia, política,
cultura, ciência, tecnologia, etc. É um processo que abrange também as relações dos seres
humanos com a natureza e as relações sociais entre si, orientadas por aspectos da vida
social, seja da economia, da política, da cultura, etc. Trata-se de um processo social que
contém necessidades, interesses, contradições por meio dos quais os seres humanos cons-
troem seus espaços de vida. Explicar tudo isso é tarefa da Sociologia, especialmente o pro-
cesso do desenvolvimento. Existem diferentes definições de desenvolvimento. Do esforço de
compreensão desse processo nascem as diferentes teorias sobre desenvolvimento. Afirma-se
um campo de conhecimento: a Sociologia do Desenvolvimento, que procura entender e ex-
plicar como esse fenômeno humano se processa historicamente.

A Sociologia do Desenvolvimento é um campo de investigação que se afirmou no sé-


culo 20, portanto é relativamente novo. A discussão sobre desenvolvimento tomou corpo,
especialmente, após a Segunda Guerra Mundial, por volta da segunda metade do século
passado, quando se ampliou o foco do debate, incorporando dimensões não econômicas
(Wallerstein, 2006).

A Sociologia do Desenvolvimento, como um campo decorrente da Sociologia Geral, cons-


tituiu-se no contexto da expansão da sociedade capitalista, especialmente a partir do capita-
lismo industrial e de sua internacionalização. Na América Latina e no Brasil, portanto, a
discussão sobre desenvolvimento se aprofundou, especialmente, no contexto das discussões
da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe – Cepal. O quadro de mudanças e
transformações passou a desafiar os teóricos das Ciências Sociais, no sentido de se entender a
direção do processo de expansão da urbanização, vinculada ao avanço do capitalismo. A
partir desse esforço de entendimento estruturou-se a Sociologia do Desenvolvimento.

No histórico da constituição da Sociologia do Desenvolvimento, portanto, cabem fe-


nômenos sociais como: a industrialização e o surgimento de novas potências industriais; a
afirmação do capitalismo monopolista, apropriando-se do mercado e pondo fim à livre con-
corrência; o surgimento de novos Estados, envoltos em conflitos políticos, ideológicos, cul-
turais, econômicos; a transformação dos processos produtivos, por meio da modernização
tecnológica, provocando resultados positivos e negativos, como a riqueza, a pobreza, a
desestruturação de processos produtivos milenares, a europeização do mundo, dos merca-
dos, da cultura, da política, da economia, do pensamento; a submissão do campo à cidade;
o consumo de massa; a globalização (Hartfiel, 1976).

De modo sucinto, segundo Hartfiel, pode-se aceitar a afirmação de que a industriali-


zação da economia e a internacionalização do sistema capitalista levaram ao surgimento
da Sociologia do Desenvolvimento. A necessidade de explicar, de compreender os fenôme-

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EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

nos da expansão capitalista e da industrialização, no sentido de sua afirmação ou negação,


levou à elaboração de diferentes teorias sociológicas sobre desenvolvimento. Existem dife-
rentes teorias a respeito do desenvolvimento, ou seja, diferentes opiniões e ideias – isto é,
explicações – com relação ao fenômeno do desenvolvimento das sociedades. Teorias procu-
ram explicar fenômenos. Essas explicações se enquadram em paradigmas, isto é, em mode-
los explicativos, em grandes linhas explicativas, que se fundamentam em visões teóricas
amplas, como a estrutural-funcionalista e a histórico-crítica. Aqui, vale lembrar o esforço de
explicação teórica do imperialismo e da dependência.

Nas teorias sobre o desenvolvimento estão as concepções de sociedade que orientam


sobre a direção do processo de desenvolvimento. A Sociologia do Desenvolvimento não é
apenas o estudo das teorias a respeito do desenvolvimento. Não é apenas a constatação das
mudanças, mas a análise dos processos, das forças em ação e reação, dos fatores que levam
à mudança e da compreensão de seu direcionamento que interessa à Sociologia do Desen-
volvimento. A Sociologia se serve das teorias para esclarecer os processos de desenvolvimen-
to, a direção do fenômeno de alteração das estruturas sociais. Os questionamentos da Soci-
ologia do Desenvolvimento, com relação às mudanças e alterações de uma estrutura social,
implicam conceitos que orientam sobre a direção do desenvolvimento.

A Sociologia do Desenvolvimento busca conhecer e discutir ideias e teorias a respeito


do desenvolvimento, como um processo social de dimensão política, cultural, econômica e
ambiental. Busca entender a direção do desenvolvimento de uma sociedade. Segundo Hartfiel
(1976), a Sociologia do Desenvolvimento consiste na aplicação sistemática de teorias, de
questionamentos, de métodos de pesquisa à realidade social com o intuito de análise e en-
tendimento do sentido das mudanças que nela se processam. Estruturas sociais passam por
mudanças e a Sociologia do Desenvolvimento procura entender a direção dessas alterações.
Por isso, esta ciência pode ser definida como um instrumento de análise e interpretação da
dinâmica social. Por meio da Sociologia do Desenvolvimento, segundo o autor, procura-se
entender os processos sociais que levam à alteração de estados materiais e espirituais, à
alteração de relações de forças, em uma estrutura social. Procura-se entender o seu desen-
volvimento, isto é, o que vai por dentro de processos que alteram estruturas sociais.

Afirma Hartfiel que é comum que se inicie o estudo sociológico do desenvolvimento


pela comparação das estruturas sociais, econômicas e políticas de diferentes sociedades, de
sociedades industrializadas e não industrializadas, tendo no processo de desenvolvimento
das modernas sociedades industrializadas uma referência para a análise da situação nas
sociedades subdesenvolvidas ou consideradas em desenvolvimento. Essa visão eurocêntrica
e tendo o processo de industrialização como referência marcou, profundamente, o debate
sobre desenvolvimento. Dela decorrem diferentes abordagens teóricas sobre modernização.

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EaD Walter Frantz

A Sociologia do Desenvolvimento se afirmou, especialmente, ao procurar analisar e


interpretar os fatores condicionantes das situações de desenvolvimento e subdesenvolvi-
mento das sociedades de diferentes países. Passou-se a questionar a relação entre socieda-
des consideradas desenvolvidas e classificadas como subdesenvolvidas, perguntando pela
existência ou não de condicionantes ideológicos, econômicos e técnicos entre desenvolvi-
mento e subdesenvolvimento. Procurou-se identificar e analisar as interdependências, os
conflitos, as adaptações e reações que decorrem do encontro das diferentes sociedades, de
seus diferentes interesses e condições materiais e culturais.

Hartfiel (1976) observa que, em razão das carências materiais persistentes nas regiões
de desenvolvimento, a Sociologia do Desenvolvimento, em seu começo, preocupava-se qua-
se que exclusivamente com os fenômenos sociais, políticos e culturais, colaterais ou
consequentes do desenvolvimento econômico. A atenção dos estudiosos voltava-se à di-
mensão econômica, decorrente da importância dada à questão do crescimento econômico e
à expansão da economia.

Dessa forma, argumenta Hartfiel, os resultados insatisfatórios do questionamento e das


medidas voltadas ao desenvolvimento econômico têm incrementado entre os estudiosos, a
convicção da necessidade de abordagem multidimensional na Sociologia do Desenvolvimen-
to, discutindo-se, cada vez mais, as relações entre sistemas culturais de valores e normas;
estrutura política; estrutura social; comportamento de procriação; organização familiar; pos-
tura de trabalho e o desenvolvimento industrial-tecnológico-econômico. Cada vez mais con-
sideram-se fatores não econômicos no estudo dos processos de desenvolvimento. Assim, ana-
lisa-se a relação entre cultura, ideologia e visão de mundo. Estudam-se as funções dos fatores
não econômicos locais no processo de desenvolvimento e os efeitos sociais da relação de de-
pendência – econômica, política ou cultural – que provocam tensões nas sociedades em de-
senvolvimento ou, eventualmente, à adaptação aos interesses do exterior, inclusive levando à
perda da cultura tradicional local pela assimilação de valores e comportamentos estrangeiros.

A definição do que vem a ser desenvolvimento, no contexto histórico contemporâneo


da humanidade, reveste-se cada vez mais de polêmica. Desenvolvimento é um processo com-
plexo em virtude das relações sociais a ele inerentes. É composto pelos mais diversos aspec-
tos da vida humana. O desenvolvimento é um processo que contém dimensões culturais,
expressas no comportamento das pessoas, nas explicações dos fatos, nas afirmações de va-
lores. Os conceitos de desenvolvimento gozam de alguns aspectos comuns, no entanto,
diante de suas práticas concretas, verifica-se uma dispersão de opiniões e posições.

Segundo Perrot (2001, p. 191), recorre-se “a um mesmo termo para designar fenôme-
nos não somente diferentes, mas antagônicos”. Aos processos de desenvolvimento subjazem
vetores de forças contrárias entre si. A dificuldade da conceituação reflete a dificuldade da

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EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

prática. Aos estudiosos do fenômeno do desenvolvimento cabe


“discernir a extrema sutileza das significações socioculturais da-
das às práticas por aqueles que são os seus autores” (p. 200).

Não me parece necessário fazer citações específicas aqui a Sugestão de leitura

respeito dessa diversidade de entendimentos. Lembro tão somen- Ignacy Sachs. Rumo à
ecossocioeconomia: teoria e
te a existência de divergências com relação à explicação e prática do desenvolvimento.
conceituação do desenvolvimento com o propósito de orientar a São Paulo: Cortez, 2007.

atenção do leitor ou da leitora, especialmente, para buscar no-


vos textos de leitura.

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EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

Unidade 2

A QUESTÃO DO DESENVOLVIMENTO
Sachs (2000) avalia que as últimas quatro décadas do século 20 poderiam ser chama-
das de “era do desenvolvimento”, mas diz que ela está chegando ao fim. Segundo este autor,
no início dessa era está o discurso de posse do presidente dos EUA, Harry S. Truman, em 20
de janeiro de 1949, quando chamou o hemisfério sul de “subdesenvolvido” e proclamou a
intervenção para que pudessem os “subdesenvolvidos” seguir o modelo do norte.

Na época Truman proclamou (Sachs, 2000, p. 59):

É preciso que nos dediquemos a um programa ousado e moderno que torne nossos avanços
científicos e nosso progresso industrial disponível para o crescimento e para o progresso das
áreas subdesenvolvidas.

Sachs (2000, p. 15) chama a atenção para o fato de que, “desde o início, pauta oculta
do desenvolvimento não era nada mais que a ocidentalização do mundo”. A Sociologia do
Desenvolvimento surgiu nesse contexto para dar conta de entender, analisar, interpretar os
fatos e, enfim, tentar explicar o processo de desenvolvimento. Para Sachs,

o “desenvolvimento” foi, por várias décadas, aquela idéia que [...] guiava as nações emergentes em
sua viagem pela história do pós-guerra. Ao se libertarem do jugo colonial [...] proclamavam como
posição primordial o desenvolvimento. [...] para atingir aquela meta, todos os esforços e todos os
sacrifícios foram e são justificáveis... no entanto, a luz insiste em recuar, cada vez mais, na escuridão.
[...] O conceito de desenvolvimento é como uma ruína na paisagem intelectual. Ilusões e reveses,
fracassos e crimes foram seus assíduos companheiros e todos eles relatam uma mesma estória: o
desenvolvimento não deu certo. Além disso, as condições históricas que lançaram o conceito à proe-
minência se esvaeceram: o desenvolvimento ficou defasado. E, sobretudo, as esperanças e ambições
que lhe fizeram alçar vôo estão hoje exaustas: o desenvolvimento tornou-se obsoleto (2000, p. 11).

Hoje, o processo de desenvolvimento da sociedade ainda está em discussão, ou me-


lhor, em rediscussão. Essa questão tomou novo fôlego em meio à crise financeira mundial,
especialmente, a partir de 2008. Discute-se e rediscute-se o papel do Estado, do mercado, de
outras forças sociais que se constituem ao longo do processo de desenvolvimento. O papel
do Estado esteve relacionado, nos últimos anos, em última instância, ao combate ao desem-
prego, ao processo de desenvolvimento dos países periféricos, fora do centro da industriali-
zação. Agora, porém, retorna ao debate o seu papel de controle, diante das consequências
da crise financeira mundial.

19
EaD Walter Frantz

Historicamente, contribuíram para a discussão sobre desenvolvimento diversos acon-


tecimentos e fatores, tais como: a descolonização e a independência, estimulando projetos
de desenvolvimento nacional; as diferenças entre as economias nacionais, a disparidade
social dos povos, as diferenças regionais, que fizeram surgir interpretações, explicações,
teorias e práticas políticas, e a concentração da renda e da riqueza nos países industrializa-
dos. O conceito de desenvolvimento nasceu atrelado à problemática da distribuição de bens
e riquezas entre as nações, do acesso diferenciado à renda das pessoas e a discussão sobre
desenvolvimento tem origem nas crises econômicas, provocadas pela aceleração e
desaceleração do crescimento econômico; especialmente a grande depressão de 1930 e a
crise atual fizeram brotar a discussão sobre o papel do Estado no crescimento econômico,
por meio de investimentos públicos, políticas anticíclicas e controle das crises sociais.

Escreve Sachs (2000, p. 12) que “a ruína ainda está de pé e ainda domina a paisagem
como um marco divisório. Embora multipliquem-se as dúvidas e paire um desconforto geral
sobre o assunto, o debate desenvolvimentista ainda permeia não só as declarações oficiais,
como também, e até mesmo, a linguagem dos movimentos populares”.

O tema e a problemática do desenvolvimento ainda constituem um dos grandes núcle-


os de debate na atualidade. A questão, entretanto, é antiga, embora estejam ocorrendo
novas abordagens, novos debates. O que está acontecendo de novo, no espaço do desenvol-
vimento, diz respeito a sua explicação, em termos teóricos e em termos de práticas de desen-
volvimento. Mais na teoria do que na prática, os velhos conceitos de desenvolvimento estão
superados. Está aberto o caminho, por essa via, também para a reconstrução das práticas, a
par de novos conceitos.

Por dentro da problemática do desenvolvimento cresce um debate que se torna sempre


mais crítico e profundo, base para novos conhecimentos e novas práticas. Apesar de tantos
problemas e desafios, o campo da dinâmica social do desenvolvimento é um dos lugares de
maior aprendizagem social, a qual constitui uma das dimensões do próprio desenvolvimen-
to. Com certeza essa aprendizagem os homens a estão realizando, acima de tudo, a partir
das dificuldades, das contradições, inerentes a esse processo social de desenvolvimento. Não
se trata de um campo de concordâncias teóricas ou práticas, pois, no espaço da problemáti-
ca social do desenvolvimento, as discordâncias e as contradições são, ainda, profundas. Os
desafios que nascem da problemática do desenvolvimento, no entanto, estão postos às di-
ferentes ciências, à política, à economia, à cultura e à educação. A aprendizagem acontece
como um produto da divergência, pois na concordância pouco se aprende.

Esse cenário de divergências tem também as mais diferentes raízes históricas, seja a
partir dos conhecimentos ou das ideologias, dos interesses privados, de indivíduos ou gru-
pos, seja dos interesses públicos, dos cidadãos ou instituições. Poderíamos afirmar que no

20
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

espaço social da dinâmica do desenvolvimento os homens se encontram com suas necessi-


dades, desejos, interesses, conhecimentos, suas razões e emoções, suas limitações e contradi-
ções, e deles fazem a base para as políticas e as práticas de desenvolvimento. No mundo con-
temporâneo isso se reforça com a própria crise da modernidade, isto é, com a crise das certezas,
das verdades, das ciências, dos modelos, dos grandes sistemas políticos e econômicos.

Muitas das certezas que nos foram repassadas pela educação, pela comunicação, por
intermédio de nossas convivências sociais, já não contêm mais as respostas aos problemas
atuais. No lugar das respostas que foram dadas, hoje emergem dúvidas. Isso também está
acontecendo com relação ao desenvolvimento. Basta lembrar a teoria dos estágios sobre o
desenvolvimento econômico de W. W. Rostow, que já serviu de fundamentação para políticas
e práticas de desenvolvimento, mas que hoje já não é mais aceita.

A discussão e os conflitos sobre rumos para as sociedades centralizam as atenções


especialmente a partir dos séculos 18 e 19. As raízes dessa discussão estão nas palavras-
chave desse período: Revolução Francesa, Revolução Industrial, Revolução Científica, Mo-
dernização, Movimento Operário, etc. As origens filosóficas e sociais dessa discussão po-
dem ser encontradas no Renascimento e no Iluminismo. As transformações trazidas pelo
Renascimento moldaram o pensamento moderno e, da mesma forma, as concepções de de-
senvolvimento.

Até a modernidade o desenvolvimento das sociedades era visto e explicado como algo
ligado aos desígnios divinos, mas, enfim, o que se entende por moderno? De modo sucinto,
pode-se dizer que o conceito “moderno” implica reconhecer a razão no lugar da revelação,
em ter a razão como nova fonte de poder: a ciência no lugar da fé. Ou seja, colocar o ser
humano como ator da sociedade. Então, em que consiste a modernidade? A modernidade
constitui o reflexo disso na sociedade: a esperança no poder dos seres humanos. O interesse
no lugar da necessidade como nova base para a economia. A liberdade como possibilidade
de novos laços sociais. A sociedade moderna é fundada na economia do interesse e da liber-
dade dos indivíduos. Na modernidade o desenvolvimento passou a ser visto como produto
da ação dos seres humanos. Isto é, resumidamente, modernizar-se quer dizer: explicar de
forma racional as coisas. Isso implica a secularização do pensamento, reconhecer na divisão
do trabalho o princípio da diferenciação funcional e estrutural da sociedade. Essa visão
também levou à inovação do sistema produtivo, pois permitiu o desenvolvimento de novos
conhecimentos, de diferentes campos científicos. Levou também à normatização da vida
social, política e econômica, a partir do poder dos seres humanos.

O Renascimento foi um movimento filosófico e artístico que ocorreu nos séculos 15 e


16. Foi um movimento filosófico de redescoberta do humanismo greco-latino, isto é, de valo-
rização do ser humano como fator mais importante do conhecimento filosófico e artístico.

21
EaD Walter Frantz

Foi um movimento de transformação do pensamento medieval em direção ao pensamento


moderno. O pensamento renascentista buscou espaço na razão mais que na revelação, isto
é, coloca o ser humano no centro de sua existência social. Passou-se a explicar as coisas
humanas pela ação dos próprios humanos. O ser humano começou, assim, a analisar a
sociedade em suas contradições, a desenvolver um pensamento social utópico de um mun-
do com regras sociais mais justas e humanas. A vida dos seres humanos aparece como resul-
tado das condições materiais e políticas e não de sua fé ou de sua consciência individual,
como ocorria na Idade Média. O desenvolvimento passou a ser um espaço para a ação dos
seres humanos.

O Iluminismo desenvolveu uma percepção mecanicista da ordem social. Os iluministas


buscavam explicar a realidade social com base no modelo das ciências naturais, isto é, no
modelo de conhecimento a partir da observação, da experimentação e da acumulação de
dados. Buscavam uma fundamentação material para o conhecimento e uma explicação
humana para os fatos da existência. Mais que um movimento, o Iluminismo foi um modo de
pensar e interpretar o mundo e a existência ocorreu como consequência de uma revolução
na visão e concepção da vida humana, que transformou a concepção dos seres humanos a
respeito do mundo que habitavam: a descoberta de leis universais da natureza e a compre-
ensão de que o ser humano fazia parte dessa natureza. Consequentemente, se afirmou o
entendimento de que a sociedade humana é governada por leis sociais gerais corresponden-
tes às leis científicas da natureza. Assim sendo, a compreensão de si mesmo e da sociedade
por parte do ser humano só podia ser alcançada pelos métodos científicos da observação e
da dedução, que permitiam captar os princípios do “comportamento” da matéria.

A crença na materialidade da vida e no poder da ciência orientou a formação do pen-


samento moderno, do pensamento positivista. Comte, o pai do positivismo, fazia uma inter-
pretação evolucionista da sociedade. O último estágio de sua evolução seria o estágio cien-
tífico, correspondente à sociedade industrial. A influência desse pensamento sobre o con-
ceito e a prática política de desenvolvimento foi muito marcante, dando sustentação ao
processo industrial. Como exemplo disso pode-se citar a relação entre economia e meio
ambiente, isto é, a questão ecológica.

Sacralizou-se a ciência como o caminho da certeza. As ideias de progresso, racionalismo


e vitória do ser humano sobre a natureza exerceram todo seu encanto sobre a mentalidade
da época. A vida parecia submeter-se aos ditames do ser humano esclarecido. Se esse pensa-
mento racional e científico se mostrava válido para explicar a natureza e controlá-la, ele
poderia abarcar também a sociedade, vista como um componente da natureza. A sociedade,
igualmente, poderia ser explicada, conhecida e controlada. A discussão científica trouxe o
debate sobre o método científico. A ciência se fundava, portanto, como um conjunto de
ideias que diziam respeito à natureza dos fatos e aos métodos para compreendê-los.

22
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

No campo político, o Iluminismo afirmava a necessidade de uma nova ordem à socie-


dade dos séculos 17 e 18. Propunha transformar a sociedade feudal, eliminar os seus privilé-
gios e restrições que a ordem feudal impunha aos interesses econômicos e políticos emer-
gentes com o advento do mundo capitalista. O pensamento da ilustração defendia a ideia
de que a economia era regida por leis naturais de oferta e procura. A oferta e a procura, isto
é, as relações de mercado, tendiam a estabelecer, de maneira mais eficiente do que os decre-
tos reais, o melhor preço, o melhor produto e o melhor contrato, por meio da livre concorrên-
cia. Reconhecia-se, portanto, a capacidade da autodeterminação do ser humano na sua
capacidade de pensar e de escolher, de opinar e agir. No campo da economia, esse reconhe-
cimento de si mesmo se traduzia na luta por liberdade de ação: liberdade de mercado. No
plano político, afirmou-se o princípio da livre escolha dos governantes, segundo o ideal de
um Estado que representasse a vontade popular.

A partir dessas concepções os seres humanos conquistaram um lugar mais ativo em


suas vidas e fizeram as suas grandes revoluções que guardam noções específicas de desen-
volvimento. Consolidou-se, assim, o caminho para o amplo progresso científico e a Segunda
Revolução Industrial ou a chamada Revolução Científica, ao final do século 19. Podemos
registrar pelo menos quatro grandes revoluções a partir do momento em que o ser humano
se descobre sujeito da História:

– A Revolução Francesa: política

– A Revolução Industrial: econômica

– A Revolução Científica: descobertas

– A Revolução Socialista: o projeto das massas

As revoluções abriram janelas pelas quais as pessoas passaram a olhar o mundo de


modo diferente, descobrindo-se sujeitos. O desenvolvimento, visto pela janela das revolu-
ções, tornou-se um processo, contendo forças, ações, necessidades e interesses. Forças em
ação e interação. A direção do processo é dada pelo movimento dessas forças em interação
e confronto, pelos interesses e necessidades em ação, tais como acumulação de capital,
acesso a bens, poder, qualidade de vida, etc.

O tema do desenvolvimento, na atualidade, talvez seja ainda um dos assuntos que


mais atravessa as discussões políticas, que têm na base visões e concepções sobre os seres
humanos e suas organizações. As necessidades e os interesses dos seres humanos constitu-
em o alicerce desse debate. O fenômeno do desenvolvimento, em consequência disso, forma
um processo central em suas vidas, sendo a base de um campo teórico complexo e conflitivo.

Das práticas do processo de desenvolvimento decorrem dinâmicas sociais múltiplas,


dando sustentação a diferentes e paradoxais políticas. Por intermédio dessas dinâmicas a
vida se qualifica ou desqualifica, em todos os seus sentidos. Pela observação da dinâmica do

23
EaD Walter Frantz

fenômeno do desenvolvimento, na busca de seu entendimento, de sua explicação, elabo-


ram-se conceitos e teorias. São elaborações de sua consciência, de seus interesses, da capaci-
dade de comunicação sobre os fatores e os elementos constitutivos do processo de desenvolvi-
mento, enfim, de sua compreensão e explicação por parte dos que nele estão envolvidos.

O que é, afinal, desenvolvimento? Como acontece? Quem são seus atores? Essas são
algumas perguntas primárias no sentido da compreensão desse fenômeno social. Afirma
Sachs (2000, p. 12) que o desenvolvimento precisa ser abordado não apenas em seus aspec-
tos técnicos ou como uma forma de conflito de classes. Para ele, o desenvolvimento deve ser
abordado “como um tipo específico de atitude mental”.

O desenvolvimento é um fenômeno que precisa ser colocado em cenários históricos


amplos da humanidade, pois é inerente à própria humanidade, diz respeito ao processo de se
tornar humano. Existe um quadro referencial maior, dentro do qual se movem, nascem os
fenômenos sociais. Esse quadro é composto pela economia, pela política, pela cultura, etc.
Nesse quadro estão as forças componentes do desenvolvimento. A partir dele nascem os
conceitos e as teorias sobre desenvolvimento, no entanto não é um quadro dado, não são
cenários dados. É um quadro construído e reconstruído, constantemente, por forças sociais.
Nesse quadro os fatos são diversos, contraditórios, relacionam-se pela dinâmica das neces-
sidades, dos interesses e objetivos. A história desse quadro social precisa ser estudada e
interpretada, constantemente, em virtude de sua dinâmica. Não há uma explicação cabal e
única. Abre-se um leque de explicações e interpretações: fonte de teorias.

O desenvolvimento é um processo que se dá nesse quadro como produto das relações


sociais do campo da cultura, da política, da economia, etc. Desenvolver-se não significa
seguir um rumo previamente inscrito na vida social, mas exige a construção das próprias
condições dessa vida social. Por isso, não se pode desconhecer as especificidades de cada
cenário da realidade social. Esses cenários são compostos pela economia, pela política e
pela cultura de cada povo. A partir deles nascem os conceitos e as teorias sobre desenvolvi-
mento.

O desenvolvimento é um processo social empírico e complexo que envolve aspectos téc-


nicos, políticos, econômicos e culturais, portanto tem muito a ver com os valores de uma
sociedade. Destaca Sachs (2000, p. 12) que “o desenvolvimento é muito mais que um simples
empreendimento socioeconômico; é uma percepção que molda a realidade, um mito que con-
forta sociedades, uma fantasia que desencadeia paixões”. Como tal, segundo o autor,

ascendem e entram em declínio independentemente de dados empíricos ou conclusões racionais;


aparecem e desaparecem, não porque provou-se que estavam certos ou errados, mas sobretudo
porque, em um determinado momento, estavam repletos de promessas e, em outro, tinham se
tornado irrelevantes (p. 12).

24
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

De modo bem generalizado pode-se frisar que o desenvolvimento implica um processo


de alteração das estruturas sociais, a partir de certos fatores, que podem estar, especialmen-
te, no campo da economia, da política, da cultura, e que produzem uma dinâmica de forças
sociais em ação. Esses fatores podem ser de natureza interna ou externa às estruturas em
mudança. Envolve um movimento de alteração estrutural de uma realidade, de uma situa-
ção social dada. É um fenômeno descrito pelas diferentes ciências. Desafia a todos os cam-
pos científicos, a todas as ciências. É abordado, normalmente, por meio de um enfoque
teórico determinista ou dialético, como um fenômeno vinculado, historicamente, à Revolu-
ção Industrial. Tem em seu núcleo a inovação tecnológica, condicionada pelos interesses
econômicos de seus sujeitos. Essa visão está sendo, no entanto, objeto de debates polêmi-
cos, decorrentes da preocupação com a sustentabilidade do desenvolvimento.

O caminho do desenvolvimento contemporâneo está vinculado, predominantemente,


ao processo industrial capitalista. Como tal, traz em seu bojo como motor a inovação
tecnológica, condicionada pelos interesses econômicos, bem como as lutas sociais que en-
volvem a produção e a distribuição das riquezas.

Nesse contexto, a Sociologia do Desenvolvimento estuda as manifestações desse pro-


cesso de alteração das bases produtivas da humanidade e o destino do produto do trabalho,
seu impacto sobre a vida dos seus atores e sobre as estruturas sociais: o desenvolvimento em
si, a mudança social, as transformações sociais, o crescimento econômico, etc. Aos cientis-
tas sociais interessa a maneira como ocorrem essas transformações. Isso significa que o
problema central das Ciências Sociais é a dinâmica da História. Pergunta-se: O que move as
sociedades? Onde está a força que as impulsiona? De onde vem essa força? Quais explica-
ções é possível encontrar para o fenômeno do desenvolvimento de uma sociedade? As Ciên-
cias Sociais nasceram desse esforço interpretativo e explicativo.

25
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

Unidade 3

O DESAFIO DA INTERPRETAÇÃO
E DA EXPLICAÇÃO DA QUESTÃO DO DESENVOLVIMENTO
Pode-se constatar diferentes orientações explicativas com relação às transformações
sociais estruturais, especialmente nos países “em desenvolvimento”, ou no assim chamado
“terceiro mundo”. Certamente essa maior inquietude para a busca de explicações provém
das contradições às quais as sociedades desses países estão expostas. As contradições e os
problemas provocam a necessidade de entendimento e de explicação.

Octávio Ianni, por exemplo, ao fazer uma discussão sobre a Sociologia latino-ameri-
cana, identifica e aponta três grandes orientações básicas de explicação, procurando com-
preender o fenômeno do desenvolvimento. Cada orientação enfoca de maneira diferente (e
isso as distingue) as relações entre os seres humanos e o sistema socioeconômico, político e
cultural. Elas representam as principais interpretações históricas da dinâmica dos sistemas
sociais. São diferentes formas de conceber o mundo, ou seja, diferentes focos explicativos.

Uma orientação explicativa tem raízes na teoria da economia clássica. Aliás, não se
pode estudar a questão do desenvolvimento sem ir às questões fundamentais da economia,
isto é, à produção e distribuição dos bens e riquezas. Analisar e interpretar o modo como os
seres humanos produzem e se apropriam das riquezas é fundamental para o estudo socioló-
gico do desenvolvimento de uma sociedade.

Octávio Ianni classifica essa orientação explicativa como uma visão liberal. Essa ex-
plicação “concebe o sistema econômico como autônomo e suscetível de dinamizar-se inter-
namente, dependendo da ordenação, ponderação e aceleração dos seus componentes bási-
cos” (1971, p. 88).

Afirma Ianni que de acordo com os economistas clássicos Adam Smith e David Ricardo,
o desenvolvimento seria produto do crescimento econômico, isto é, da integração dinâmica
de três componentes estruturais do sistema: a divisão do trabalho, a acumulação de capital
e a inovação tecnológica. Estes seriam os elementos centrais do processo de desenvolvimen-
to, a qual se daria pelo aumento da produtividade do trabalho. A produtividade seria obtida
pela acumulação de capital e pela inovação tecnológica. A realidade social seria uma tota-
lidade, fundada nas questões econômicas. Predomina a visão econômica, havendo uma cer-
ta compreensão mecanicista de desenvolvimento presente nessa teoria. Nesse processo até
a ciência foi submetida ao mecanismo do sistema, deixando de ser crítica. O ser humano
tem um espaço secundário nesse processo de desenvolvimento.

27
EaD Walter Frantz

Os outros fatores do sistema social, como as instituições, a cultura, o poder político, a


estrutura populacional, as classes sociais ou outros mais, estariam em uma posição de de-
pendência com relação aos componentes estruturais hegemônicos, isto é, de natureza eco-
nômica. Essa orientação prega que, no livre jogo do mercado, os componentes estruturais
produzem o desenvolvimento. Essa teoria está na raiz de muitas explicações sobre o fenô-
meno do “subdesenvolvimento”.

No contexto das dificuldades e das frustrações sociais do desenvolvimento, especial-


mente em países periféricos, nasceu a discussão sobre o “subdesenvolvimento”, caracteriza-
do como crescimento econômico insuficiente e instável; mercado reduzido; alto grau de
analfabetismo; instabilidade política; elevadas taxas de natalidade e de mortalidade infan-
til; baixa produtividade; economia predominantemente primária; insuficiência de capital e
de recursos naturais.

A respeito da situação de “subdesenvolvimento” nos países periféricos foram desenvol-


vidas diferentes explicações teóricas: a teoria da modernização foi a mais marcante delas e
orientou os procedimentos de políticas públicas por parte de seus governos. A situação de
“subdesenvolvimento” exigiu a intervenção do Estado, tanto dos Estados nacionais quanto
dos países centrais e seus mecanismos de atuação internacional, refazendo-se as relações
entre as nações pelas políticas monetárias e fiscais e pela ajuda ao desenvolvimento.

Foi a partir da Segunda Guerra Mundial, no entanto, que ocorreu um despertar mais
intenso e polêmico para o debate da situação do subdesenvolvimento, a sua superação pela
revolução ou pela industrialização. Surgem dessa situação as práticas de políticas públicas,
orientadas por:

• teorias revolucionárias;

• teorias desenvolvimentistas.

Aqui, é importante distinguir os conceitos de Estado e de governo:

• o Estado é o instrumento de políticas públicas;

• os governos são constituídos por grupos de interesse que propõem a ação política, as
políticas públicas, de acordo com a sua orientação teórica ou ideológica.

No contexto das políticas de desenvolvimento e das teorias explicativas sobre a pro-


blemática do desenvolvimento ocorre a divisão entre os países, classificados como:

• ricos e pobres;

• industrializados e agrícolas;

• desenvolvidos e subdesenvolvidos;

28
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

• do norte e do sul;

• modernos e atrasados;

• de primeiro mundo e de terceiro mundo;

• em vias de desenvolvimento.

É interessante observar que na atualidade, diante do processo de globalização que, de


certo modo, faz desaparecer o sentido da classificação anterior, começa-se a falar da socie-
dade dos 2/3, isto é, da sociedade que tem, de um lado, 20% das pessoas com a posse de 80%
das riquezas e, de outro, 80% das pessoas com acesso a apenas 20% das riquezas (Martin;
Schumann, 1998).

Diante desta realidade desaparece a divisão de países e firma-se a noção de divisão


entre as pessoas. Isto altera, certamente, muitas das questões políticas e culturais relacio-
nadas ao desenvolvimento, à questão da distribuição de renda no mundo e ao problema das
oportunidades sociais. O fenômeno dessa disparidade social se globaliza e desaparecem as
fronteiras físicas e nacionais entre a riqueza e a pobreza. A riqueza e a pobreza ganham
novas fronteiras, nascem novas relações sociais e políticas, exigindo novos conceitos e no-
vas dinâmicas sociais de desenvolvimento. Passa-se a novas classificações e a novos agru-
pamentos dos países. Emerge a necessidade de novas teorias explicativas e de novas políti-
cas de desenvolvimento.

De acordo com Arrighi (1997), os países se agrupam em:

• Núcleo orgânico: em que se realizam as atividades “cerebrais”, associadas ao fluxo de


inovações, à introdução de novos métodos de produção, novas fontes de suprimento, no-
vas formas de organização, etc.

• Semiperiferia: seriam os países que conseguem industrializar-se sem se desenvolver, con-


seguem crescer, mas apenas para permanecer no mesmo lugar, relativamente ao núcleo
orgânico. Arrighi identifica duas estratégias de desenvolvimento semiperiférico no século
20: a dos países latino-americanos/sul da Europa (pró-sistêmicos) e a dos países da esfera
soviética (antissistêmicos):

• Periferia: África e outros nas mesmas condições.

Diante disso, duas grandes questões são colocadas: uma teórica, indicando para uma
necessária explicação, e outra política, apontando para a necessidade de uma ação:

• Como se chegou a isso?

• E como se sai dessa situação?

29
EaD Walter Frantz

De acordo com Ianni, a orientação explicativa para o desenvolvimento, ou melhor,


para o subdesenvolvimento, busca interpretar a estagnação e as limitadas possibilidades de
desenvolvimento nos próprios países do “terceiro mundo”. Os componentes fundamentais
dessa explicação pertencem ao campo econômico: não existe suficiente incentivo para o
uso de capital, em razão do mercado restrito; o mercado é limitado pela baixa produtivida-
de; a baixa produtividade é fruto de pouco uso de capital na produção.

Trata-se de uma explicação “circular ”, fechando-se um círculo explicativo vicioso de


causas e efeitos: o país é pobre porque falta investimento, falta investimento porque o país é
pobre. Para que haja desenvolvimento é preciso romper o círculo vicioso sobre o qual a
economia dos países subdesenvolvidos se fecha em si mesma. É necessário buscar a ruptura
desse círculo, abrindo-se aos fatores externos. Para romper esse círculo há necessidade de
um empreendedor, um tipo adequado de homem para dirigir a produção: o empresário.

Ianni (1971) classifica essa visão como sendo de natureza imperialista. Desse modo, os
fatores de desenvolvimento acabam sendo os motivos, as aspirações, a mentalidade do gru-
po dirigente da economia, a abertura à inovação, a mentalidade criadora, o espírito capita-
lista de ação e a busca do lucro. Na figura do empresário empreendedor está a força propul-
sora do desenvolvime nto. Os outros fatores são dependentes: capital e trabalho.
Secundarizam-se os demais fatores de um processo de desenvolvimento.

A terceira explicação sobre desenvolvimento está fundamentada na dialética, no an-


tagonismo, tendo o ser humano como senhor de seu futuro, concretizado pelo trabalho acu-
mulado de gerações. Marx é o maior representante dessa teoria. As forças produtivas com-
põem a mola propulsora do processo que acontece pela superação dos estágios inferiores de
desenvolvimento. No centro desse processo está a contradição e a luta de classes. Por isso,
Ianni (1971) denomina essa terceira orientação explicativa de revolucionária.

Na visão marxista, o progresso da humanidade mostra-se inerente à dinâmica do de-


senvolvimento das forças produtivas. Na raiz do processo de desenvolvimento das forças
produtivas há um conflito entre forças de produção, nas relações sociais de produção: um
conflito pela propriedade dos meios de produção e da produção. Pela interpretação tradicio-
nal, sob a ótica marxista, dessa situação decorrem os rumos do desenvolvimento da socieda-
de: se as classes trabalhadoras conquistarem o poder de Estado, instituirão o socialismo; se
os monopólios capitalistas assumirem o poder político, imporão o Estado corporativo.

Diante das experiências revolucionárias do século 20 e das práticas de democracia em


diferentes sociedades, como se recoloca essa questão, nas circunstâncias contemporâneas,
seja em termos de avanço tecnológico ou de globalização da economia? Exigem os fatos
uma revisão dessa visão tradicional?

30
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

A teoria marxista tem por objetivo revelar o determinismo social da base econômica
e, como tal, reconhece um papel central à classe trabalhadora no processo de desenvolvi-
mento da sociedade. A teoria marxista é conhecida como teoria crítica. Raymond Geuss
(1988, p. 9) observa que teoria crítica “é uma teoria reflexiva que dá aos agentes um tipo
de conhecimento inerentemente produtor de esclarecimento e emancipação”. Nesse caso,
os envolvidos têm a possibilidade de se tornarem os atores e sujeitos do processo de desen-
volvimento.

A Escola de Frankfurt faz distinção entre teorias científicas e teorias críticas. A dife-
rença se faz em três grandes dimensões, na afirmação de Geuss (1988, p. 91):

a) Quanto ao seu fim, a teoria científica tem como fim a manipulação do mundo exterior,
constituindo-se em instrumento dessa manipulação. A teoria crítica, por sua vez, visa “à
emancipação e ao esclarecimento, ao tornar os agentes cientes de coerções ocultas, liber-
tando-se assim dessas coerções e deixando-os em condições de determinar onde se en-
contram seus verdadeiros interesses”.

b) Quanto a sua estrutura “lógica” ou “cognitiva”, a teoria científica é “objetificante”, isto


é, pode-se distinguir entre a teoria e o objeto a que esta se refere. Ao contrário, a teoria
crítica é reflexiva, isto é, ela própria é uma parte do objeto. Poder-se-ia dizer que a teoria
científica manipula, externamente, o objeto a ser conhecido. A teoria crítica procura reve-
lar o que vai por dentro do fenômeno a ser estudado e do qual ela faz parte.

c) Quanto ao tipo de evidência, a teoria científica requer confirmação empírica por meio da
observação e da experimentação. Para a teoria crítica é aceitável se resistir a um processo
de avaliação pela reflexão.

A teoria crítica da Escola de Frankfurt buscou desenvolver o pensamento marxista


incorporando as ciências sociais empíricas. A Escola de Frankfurt tem sua origem nas preo-
cupações de pensadores sociais e filósofos como Max Horkheimer, na década de 20, ao
reconhecer o valor das Ciências Sociais para o pensamento marxista. Segundo Geuss (1988,
p. 9), a Escola de Frankfurt procura exercer a crítica ao positivismo e reabilitar a reflexão
como uma categoria de conhecimento. Pode-se afirmar que o positivismo recusa a reflexão
quando sustenta “que toda cognição deve ter essencialmente a mesma estrutura cognitiva
que a ciência natural” (p. 9). O núcleo central da teoria crítica, de acordo com Geuss (p.
10), é a crítica à ideologia. A ideologia impede a percepção e o conhecimento, por parte dos
agentes sociais, de sua real situação e de seus interesses na sociedade. Por ideologia enten-
de-se as convicções das pessoas, os conceitos que esses empregam, as disposições e atitudes
psicológicas que demonstram, seus motivos, desejos, valores, etc.

31
EaD Walter Frantz

Em seu começo, nas décadas de 30 e 40, a Escola de Frankfurt

conservou a esperança de progresso inerente à concepção marxista da história e, ainda que a


idéia de um proletariado necessariamente revolucionário tivesse sido há muito abandonada, a
idéia de revolução continuou a fornecer um vago pano de fundo para a compreensão política,
por parte da teoria crítica, de seu papel e de suas metas (Honneth, 1996, p. 243).

A teoria crítica buscou incorporar ao pensamento marxista da história, de conheci-


mento da sociedade, a constatação de que a racionalidade das condições objetivas das for-
ças de produção não se traduzia em consciência revolucionária do proletariado. A integração
da classe operária ao sistema capitalista tardio, segundo autores da Escola de Frankfurt,
teria deixado a teoria marxista sem seu grupo social-alvo.

Então, como explicar, a partir de Marx, o progresso da sociedade? O desenvolvimento


das forças produtivas, diante das constatações empíricas, contém ainda as possibilidades de
superação/de revolução? Onde estaria lastreada a ideia de progresso, de revolução? A ideia de
progresso, de revolução, de se mudarem as relações sociais por meio de uma revolução políti-
ca, vinculada à visão do materialismo dialético, ainda é válida diante dos fatos concretos das
experiências da história do século 20? De onde nasceu o totalitarismo? Como explicá-lo? Cer-
tamente, não poderia ser resultado do conflito da contradição entre as forças de produção. De
acordo com intelectuais frankfurtianos, o totalitarismo foi entendido como resultado da “di-
nâmica interna de formação da consciência humana” (Honneth, 1996, p. 242).

A versão clássica da teoria marxista da história entende que o desenvolvimento das


forças produtivas é o mecanismo central do progresso social. A racionalidade (conhecimen-
to) está ancorada nas forças produtivas, corporifica-se nas forças de produção. Isso come-
çou a mudar com as observações/preocupações de Horkheimer e Marcuse, ao se darem con-
ta da diferença entre a situação objetiva do proletariado e sua consciência: classe em si e
classe para si, isto é, consciência de classe e ação política. Os conflitos de classe, que deve-
riam ocorrer em razão da contradição e das condições econômicas, permanecem latentes,
não se manifestam como motor da História.

De acordo com Honneth (1996, p. 242), intelectuais como Horkheimer e Marcuse “não
acreditavam mais que a racionalidade corporificada nas forças de produção, na sociedade
contemporânea, também se expressasse na consciência revolucionária do proletariado”.
Influenciados por pensadores marxistas independentes de Viena, chamados de austro-mar-
xistas, do final do século 19, passaram a defender a posição teórica de que “as estruturas
institucionais de uma sociedade devem ser compreendidas como fixações momentâneas de
acordos realizados dentro dela pelos vários grupos de interesses, em consonância com seus
respectivos potenciais de poder ” (p. 244). No contexto dessa discussão teórica ganha espa-
ço a ideia da comunicação entre os grupos sociais, da ação comunicativa.

32
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

As duas primeiras orientações explicativas sobre desenvolvimento são de natureza


conservadora, fundadas em uma compreensão positivista de mundo e no determinismo eco-
nômico. Afirmam elas o presente, expresso pela sociedade industrial capitalista. A orienta-
ção dialética interpreta a realidade como inacabada. O presente se esgota, isto é, se supera
pela contradição inerente, tendo o homem um papel fundamental nesse processo, especial-
mente a classe trabalhadora. Por isso essa teoria explicativa teve tanta aceitação nos países
“subdesenvolvidos”, pois afirmar o seu estado social e econômico, no sentido de sua conser-
vação, não podia interessar aos sujeitos conscientes.

Enquanto na Renascença o homem se colocava no centro da História e projetava a


sociedade industrial capitalista como seu futuro, na visão revolucionária da História o ho-
mem se assumia como construtor de seus próprios caminhos.

Na orientação explicativa marxista o desenvolvimento passou a ser visto como um


processo com alternativas de futuro, como um processo de escolha, de opção política. O
desenvolvimento econômico passou a ser entendido como algo político, dependente das
relações de poder e de classe. O desenvolvimento é um produto das relações de poder. Poder
com relação à produção e distribuição dessa produção.

A ação humana é inerente ao processo de desenvolvimento. Não há como falar de


desenvolvimento sem reconhecer na agência humana o seu núcleo histórico. Os seres hu-
manos são os atores do desenvolvimento,

homens em sociedade, homens que interagem entre si (...) e desenvolvem através desses contatos
(civilização) uma vontade coletiva, social; homens que irão entender os fatos econômicos, julgá-
los e adaptá-los à sua vontade, de modo que essa vontade se torne a força propulsora da econo-
mia, aquilo que molda a realidade objetiva (Sztompka,1998, p. 300).

Argumentar que os seres humanos fazem a História, que são os atores do desenvolvi-
mento, implica oferecer um espaço à cultura no processo de desenvolvimento. Nas socieda-
des contemporâneas, pelo processo da democratização, essa ação humana passa a ser, cada
vez mais, ampla, descentralizada e participada. Pela porta da democracia amplia-se a com-
preensão do conceito e da prática do desenvolvimento. Noções tradicionais de desenvolvi-
mento são superadas, em favor da criatividade e capacidade inovativa de cada comunidade.

Afirma Kliksberg (2001, p. 106-107) que “há um novo debate em ativa ebulição no
campo do desenvolvimento. (...) Há uma revalorização no novo debate de aspectos não
incluídos no pensamento econômico convencional. (...) é o reexame das relações entre cul-
tura e desenvolvimento”. Essa visão implica o reconhecimento da supremacia da política
sobre a economia, levando à superação do conceito de crescimento econômico como desen-
volvimento. De acordo com este autor (p.107), “políticas baseadas em planos que margina-

33
EaD Walter Frantz

lizam aspectos como os mencionados demonstram limitações muito profundas”. O desen-


volvimento não é apenas resultado de caminhos técnicos, mas de processos políticos e, por
isso, é preciso “ rediscutir a visão convencional do desenvolvimento e integrar novas dimen-
sões (...) as possibilidades de o capital social e a cultura contribuírem para o desenvolvimen-
to econômico e social” (p. 107).

Reconhecer a agência humana como propulsora do desenvolvimento abre espaço à


cultura, à educação, aos valores. Como decorrência, recoloca o problema do desenvolvi-
mento nos espaços locais, nas proximidades humanas, nas relações entre as pessoas. No
processo do desenvolvimento local é imprescindível o reconhecimento da multiplicidade e
diversidade das potencialidades humanas.

Assim, o desenvolvimento local pode ser entendido como uma reação aos grandes
processos, predominantemente fundados no incentivo ao crescimento econômico. Um exem-
plo pode ser a política de incentivos à monocultura em muitas regiões que, pela sua integração
econômica a interesses externos, destruiu as bases de muitos valores locais, inclusive a ca-
pacidade de trabalho. Seria possível falar de desenvolvimento nessa situação, ainda que
houvesse um crescimento do peso econômico da região no contexto da economia nacional?

De acordo com Buarque (apud Boisier, 2000, p. 165), o desenvolvimento local se ca-
racteriza pelo seu impulso endógeno que “dentro da globalização é uma resultante direta
da capacidade de os atores e de as sociedades locais se estruturarem e se mobilizarem, com
base nas suas potencialidades e na sua matriz cultural”.1 Incorporadas novas dimensões e
ampliados os conceitos, as definições de desenvolvimento, ampliam-se também os significa-
dos e as formas de instituição do processo de desenvolvimento. O desenvolvimento local,
para além de seu sentido estratégico, traduz um esforço por reconstruir laços sociais e iden-
tidades, rompidos ou diluídos, em processos de abrangência muito amplos.

Por dentro da problemática do desenvolvimento cresce um debate que se torna sempre


mais crítico e profundo, base para novos conhecimentos e novas práticas. Apesar de tantos
problemas e desafios, o campo da dinâmica social do desenvolvimento é um dos lugares
sociais de maior aprendizagem. Com certeza essa aprendizagem os seres humanos a estão
alcançando, acima de tudo, a partir das dificuldades, das contradições inerentes a esse pro-
cesso social de desenvolvimento. Não se trata de um campo de concordâncias teóricas ou
práticas, pois, no espaço da problemática social do desenvolvimento, as discordâncias e as
contradições são, ainda, profundas. Os desafios que nascem da problemática do desenvolvi-
mento, no entanto, estão postos às diferentes ciências, à política, à economia, à cultura, à
educação. As condições para uma aprendizagem estão presentes pois esta é, antes, um pro-
duto da divergência que da concordância.

1
Tradução do espanhol feita por este autor.

34
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

Esse cenário de divergências tem também as mais diferentes raízes históricas, seja a
partir dos conhecimentos ou das ideologias, dos interesses privados, de indivíduos ou de
grupos, ou dos interesses públicos, dos cidadãos ou de instituições. Poderíamos afirmar que
no espaço social da dinâmica do desenvolvimento os seres humanos se encontram com suas
necessidades, desejos, interesses, conhecimentos, suas razões e emoções, suas limitações e
contradições, e deles fazem a base para as políticas e as práticas de desenvolvimento. No
mundo contemporâneo isso se reforça com a própria crise da modernidade, isto é, com a
crise das certezas, das verdades, das ciências, dos modelos, dos grandes sistemas políticos e
econômicos.

Muitas das certezas que nos foram repassadas pela educação, pela comunicação, por
intermédio de nossas convivências sociais, já não contêm mais as respostas aos problemas
atuais. No lugar das respostas que nos foram dadas, hoje existem dúvidas. Isso também
pode estar acontecendo com relação ao desenvolvimento. Basta lembrar a teoria dos estági-
os sobre o desenvolvimento econômico de W. W. Rostow (1971), que já serviu de fundamen-
tação para políticas e práticas de desenvolvimento, mas hoje é questionada.

As incertezas, as dúvidas sobre a validade ou não das práticas de desenvolvimento


permitem recomeçar, abrem caminhos para a sua reconstrução. As práticas do desenvolvi-
mento devem ter como fundamento a comunicação, a liberdade da pergunta, da crítica, da
participação, do compromisso com a esperança de quem sonha com dias melhores. A re-
construção não começa com respostas prontas, com certezas ou verdades: ela se inicia pela
dúvida, pela experiência dos erros, pela coragem da crítica e da autocrítica.

Diante das experiências de desenvolvimento que a humanidade fez, ao longo das últi-
mas décadas, por meio dos sistemas capitalistas e comunistas, tendo na modernização de
suas economias pela industrialização o seu eixo central, nasceram algumas das suas ques-
tões mais polêmicas: Qual o caminho a seguir? Como promover o desenvolvimento? Por
quais meios e forças? O que leva ao desenvolvimento? O que é preciso fazer? Perdeu
centralidade o enfoque exagerado no campo econômico, no campo da política de planeja-
mento técnico, abrindo-se espaço para o campo da educação e da cultura.

Não existem mais respostas prontas ou certezas que venham de fora. As respostas
precisam ser buscadas nas experiências de vida de cada um. Precisam ser construídas, por
meio das palavras do diálogo, do debate, da argumentação, com o que vem de fora. Palavras
são como pontes que ligam pensamentos, experiências, interesses e necessidades com os
outros. A liberdade da dúvida traz a liberdade da pergunta, a liberdade de iniciar novos
caminhos, novas experiências. O progresso, o desenvolvimento de melhores condições de
vida só pode ser atingido com a liberdade da crítica, do debate, da comunicação.

35
EaD Walter Frantz

Na construção do futuro valoriza-se a educação. Observa Morin (2000, p. 16), no


entanto, que “é necessário que todos os que se ocupam da educação constituam a vanguar-
da ante a incerteza de nossos tempos”. Valoriza-se, assim, não apenas a educação, mas
também o papel e a responsabilidade social do educador. Ao contrário do que se possa ima-
ginar, no futuro, à educação e aos educadores são reservados lugares importantes no pro-
cesso de organização social.

Na condição de pensador social e educador, Hugo Assmann (1998, p. 28) adverte que
“sem profundas conversões antropológicas, traduzidas em consensos políticos democratica-
mente construídos, não surgirá uma convivialidade humana na qual não falte nem a rique-
za de bens disponíveis, nem a fruição da sabedoria de saber conviver nas diferenças”. Talvez
seja essa a grande tarefa da humanidade para as próximas décadas (ou exigiria isso sécu-
los?): a de construir e reconstruir as condições de uma metamorfose social que assegure a
vida para os homens e toda a natureza. Tarefa difícil e complexa, sem dúvida, mas necessá-
ria e decisiva, e para a qual a educação se constitui um caminho a ser redescoberto e alarga-
do para a construção do conhecimento necessário, do comprometimento de todos com as
urgências sociais e os desejos do homem e as necessidades da natureza.

A discussão sobre o desenvolvimento produziu e vem produzindo os mais diferentes


enfoques teóricos de explicação. As explicações teóricas serviram, ao longo do tempo, às
mais diversas políticas para o desenvolvimento. Nos países do assim chamado Terceiro Mundo
a discussão do desenvolvimento, tradicionalmente, realizam-se por intermédio de uma abor-
dagem histórica. Pela abordagem das teorias imperialistas tradicionais, a explicação tinha o
seu foco voltado para os países centrais, para as metrópoles, em direção às periferias. A
partir de teóricos como André Gunder Frank (1980), a explicação parte da periferia para o
centro, focando as relações de dependência. As condições de subdesenvolvimento nos paí-
ses periféricos passaram a ser entendidas como consequência do desenvolvimento nos paí-
ses centrais. Especialmente na América Latina, estabeleceu-se uma longa discussão, a par-
tir da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe – Cepal –, dando suporte às
políticas de desenvolvimento nacional, firmadas na substituição das importações e com vis-
tas a desenvolver estruturas hegemônicas de acumulação que permitissem eliminar a de-
pendência externa. Um outro núcleo de discussão, enraizado no mesmo contexto, tendo
como um dos seus principais articuladores Fernando Henrique Cardoso, alimentou o debate
teórico sobre a dependência: a teoria da dependência.

No centro dessas discussões sempre esteve a industrialização. O estágio e o nível de


industrialização de uma economia era a medida do grau de desenvolvimento de uma socie-
dade. Isso continua sendo, em boa parte, a base do pensamento sobre desenvolvimento
ainda hoje. A expressão disso é a guerra fiscal entre Estados da República Federativa do
Brasil.

36
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

O conceito de “desenvolvimento”, entretanto, baseado no processo de industrializa-


ção, diante dos fatos históricos esvaziou-se da força dos enfoques teóricos, especialmente
das teorias de modernização.

Segundo Perrot (2001, p. 192),

com mais e mais freqüência, proíbe-se a utilização do termo “desenvolvimento” sozinho, sem
qualificá-lo expressamente, pois, na conjuntura atual, e sobretudo depois de 40 anos de experiên-
cias de desenvolvimento, o caráter de evidência do passado ligado às ações empreendidas em seu
favor foi seriamente abalado.

A “crise” da discussão teórica começou a ser “superada” com a recuperação do senti-


do do desenvolvimento por meio de sua adjetivação pelos termos “sustentável”, “humano”,
“endógeno”, “ regional”, etc. A superação dos enfoques tradicionais nasceu pela afirmação
da constatação da complexidade do fenômeno.

O desafio de chegar ao desenvolvimento passa pela viabilização dos adjetivos que, na


verdade, se constituem na substância do fenômeno. Deixam de existir modelos, centros
hegemônicos, diversificando-se os caminhos pelo reconhecimento das múltiplas experiências
regionais ou setoriais. No lugar dos modelos surgem as experiências. Ganham força as políti-
cas regionais de desenvolvimento. A diversidade de caminhos passa pelos campos dos adjeti-
vos, apoiados nas diferentes áreas do conhecimento, e pela interdisciplinaridade das ciências.

A adjetivação do termo “desenvolvimento”, buscando resgatá-lo para o campo da po-


lítica, para o espaço do debate público, para as ações das políticas públicas, recoloca a
discussão sobre o “lugar ” e o “modo” de sua instituição. A discussão revela novos atores
sociais, novas concepções de espaço público. Atrelado ao mundo da economia, o processo
de desenvolvimento era tido como uma exigência de esforço para os países periféricos. Com
a crise do desenvolvimento industrial, tanto nos países centrais capitalistas quanto nos de
economias estatais, centralmente planejadas, a discussão ganha, também, novos rumos
geográficos. Ao modo “como deve ser alcançado o desenvolvimento”, juntam-se novos lu-
gares “onde” deve ocorrer a realização da “adjetivação” do desenvolvimento. A ideia de
“subdesenvolvimento” como expressão das condições de vida em países periféricos passa a
ser incorporada às práticas de desenvolvimento em países centrais. Surgem questionamentos
práticos sobre a sua efetivação, por exemplo:

a) onde é produzida a poluição e onde é preciso diminuí-la para alcançar níveis suportáveis
de desenvolvimento da qualidade de vida?

b) onde é preciso prestar atenção às questões humanas e ambientais?

c) onde é preciso buscar a redução do consumo para viabilizar a sustentabilidade política


das relações econômicas, a sustentabilidade das condições de vida pelo uso dos recursos
naturais não renováveis?

37
EaD Walter Frantz

d) onde é preciso reduzir o risco do uso da energia atômica, da irradiação nuclear?

e) onde é preciso cortar ou acrescentar fatores para “subir ” ou “descer ” na escala da distri-
buição de renda?

No contexto desse quadro de questionamentos ocorrem também novas perguntas com


relação ao papel da educação, da ação do Estado, da política e do crescimento econômico
no processo de desenvolvimento. Qual é a natureza do desenvolvimento que hoje é propor-
cionado pelas condições objetivas da política, das relações de poder na economia, da visão
de mundo, da cultura hegemônica de valores? Qual é processo real de desenvolvimento
inerente ao fenômeno da globalização?

Hoje é possível identificar dois grandes movimentos planetários em termos de desen-


volvimento:

a) um que vai no sentido da dominação, pelo risco da alienação,

b) outro que vai no sentido da emancipação, pela capacidade de resistência.

De acordo com Perrot (2001, p. 194):

O desenvolvimento real, isto é, aquele que finalmente e de forma largamente dominante se


manifesta pelas atividades e relações sociais concretas, caracteriza-se pela transformação das
riquezas naturais, sociais e simbólicas em bens e em serviços mercantis para a demanda solvente,
isto é, para aqueles, e somente eles, que podem exprimir uma demanda e, fato capital, que estão em
posição de pagar os bens e os serviços atendidos. O desenvolvimento é, então, esse imenso movi-
mento planetário de transformações das relações sociais, das reservas naturais, em capital fi-
nanceiro pela via do mercado mundial. A fim de chegar-se a esse resultado, foi necessário expro-
priar inumeráveis grupos e indivíduos de suas relações sociais, de suas redes interpessoais, de
suas reservas, de seu saber local. O desenvolvimento, nesta ótica realista e não normativa, é antes
de tudo uma relação social de dominação.

A tendência de superação das abordagens tradicionais do desenvolvimento, no entan-


to, não impede que a sua problemática seja reduzida, muitas vezes, a dimensões práticas
como o “mercado”, a “tecnologia”, a “técnica do planejamento”, o “fator consumo”. Exis-
tem ainda aqueles que reduzem a noção de desenvolvimento à de crescimento econômico e
para tal necessitam apenas encontrar os modelos e os instrumentos necessários para sua
viabilização. Diante disso, Perrot (2001, p. 197) pergunta: Que catástrofe esperamos para
nos colocarmos as questões de fundo, em vez de procurar falsas respostas a questões que nos
recusamos a colocar em debate?

O risco de “ redução” da problemática do processo de desenvolvimento a tais fatores


está implícito em uma visão teórica e política do fenômeno, largamente presente nas práti-
cas de gestão de projetos de desenvolvimento: visão mecanicista do processo de desenvolvi-
mento fundada em concepções positivistas de organização e funcionamento das socieda-

38
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

des. É uma visão que aprisiona e submete a criatividade dos seus atores, não lhes deixando
espaço para a prática de alternativas à lógica do desenvolvimento atrelado ao crescimento
econômico.

Na opinião de Perrot (p. 198),

... é a visão do desenvolvimento no interior das paredes do individualismo, do lucro a todo preço,
da con cepção for mal do tempo e do tr abalho, da ideologia evolucion ista, da p seudo-
“ racionalidade” econômica, da domesticação agressiva da natureza, do universalismo abstrato,
etc. Com efeito, tudo isso é uma armadilha que retém as representações do desenvolvimento num
quadro cognitivo imutável. É verdade que, desde que o desenvolvimento existe, tem havido críti-
cas e sugestões concernentes aos meios de fazê-lo chegar melhor e mais rapidamente possível
para o bem-estar de todos e de cada um, como o quer a fórmula. Porém a lógica fundamental
subjacente ao desenvolvimento dominante, lógica que agrupa a ideologia perniciosa de recupe-
rar o tempo perdido na realidade da exploração, raramente é colocada em discussão.

Escreve ainda Perrot (p. 197):

No Norte, é grande a tentação de preparar todos os meios para relançar o crescimento, de fazer-
se mais do que sempre se fez. No entanto, produzir mais a mesma coisa torna a acentuar os
problemas e a proibir-se de mudar de perspectiva de forma radical. (...)

Para uma sociedade que se diz evoluir muito rapidamente, é mesmo estranho que os 40 anos de
desenvolvimento e de crescimento, que desembocaram nas situações anteriormente evocadas,
até agora não tenham conseguido colocar seriamente em questão o modelo de desenvolvimento
fundado no crescimento.

Quando se parte da ideia de que existem modelos a serem postos em pratica, está-se
no caminho da redução da problemática do desenvolvimento. Modelos inibem a criação;
experiências a estimulam. Modelos carregam em si a ideia da verdade, da certeza; experiên-
cias permitem a crítica, a dúvida, a criação. Possibilita a manifestação da diversidade e da
criatividade dos indivíduos. O desenvolvimento é um fenômeno que se constrói pela diversi-
dade e pelo confronto de experiências individuais e coletivas. Nas experiências existem es-
paços de criação para os seus atores. Na adoção de modelos, esses espaços são fragilizados,
imobilizados. A superação do risco de “ redução” está na abertura à criticidade, ao
questionamento, à participação.

De acordo com Manuel da Silva e Costa (2001, p. 13):

Um dos maiores dilemas, quer da economia capitalista, quer da organização burocrática, foi a
formação do individualismo, esvaziando o indivíduo da sua alma, isto é, da sua emotividade e
subjectividade. Tanto a nova divisão técnica do trabalho industrial como a organização funcio-
nal no seio das burocracias modernas ignoram o indivíduo, com seus projectos e anseios, com as
suas identidades, valores e significados.

39
EaD Walter Frantz

No contexto atual de globalização e de dificuldades sociais, a organização cooperati-


va continua sendo uma prática social valorizada e validada. Os indivíduos, ao se associa-
rem, lhe emprestam importância econômica, política e social, no sentido de sua afirmação
como sujeitos e atores sociais ativos. Retomam o cooperativismo como um projeto de espe-
rança, como um espaço concreto de organização, um instrumento coletivo de encaminha-
mento de suas economias, estimulando o desenvolvimento de novas relações sociais.

Para muitas pessoas ou grupos sociais, hoje, a cooperação torna-se, novamente, ele-
mento fundamental à construção de seus espaços de vida, pois a organização cooperativa,
para além da expressão material, desenvolve também expressões culturais, políticas e soci-
ais que se somam aos interesses, objetivos e necessidades de seus associados. A organização
cooperativa adquire um significado mais amplo que a simples função de encaminhamento
de operações técnicas e instrumentais das economias individuais associadas.

A dimensão cultural de um empreendimento cooperativo está nos valores, nas cren-


ças, nas normas e costumes inerentes às práticas sociais cooperativas. São componentes
que incidem sobre o funcionamento de uma organização. A recuperação dessa dimensão
cultural e de seus significados não econômicos certamente constitui uma potencialização
do capital social, uma possibilidade social agregadora e integradora da organização coope-
rativa diante do fenômeno da globalização.

O cenário da sociedade contemporânea, após as revoluções, apresenta acontecimen-


tos que precisam ser analisados e entendidos. São fenômenos que expressam o processo de
desenvolvimento. São componentes de seu contexto e, portanto, lhe são inerentes. Entre
esses fenômenos que precisam ser estudados e interpretados podem ser citados:

• A crise da modernidade: a crise de paradigmas, o fim das certezas, a frustração das expec-
tativas das revoluções.

• O esgotamento do paradigma clássico de desenvolvimento: o papel do Estado, a acumula-


ção do capital baseada no trabalho, a indústria poluente, a homogeneização do processo
de desenvolvimento.

• A reestruturação global da economia: reconversão tecnológica, centralizada no conheci-


mento, acumulação pela tecnologia.

• A nova economia: informacional e interdependente.

• A globalização: novas relações sociais, políticas e econômicas.

• A ameaça de uma crise ecológica sem precedentes na história da civilização atual.

• A capacidade científica e tecnológica nunca vista em oposição às condições sociais de


vida de uma grande parcela da humanidade.

40
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

• A facilidade das comunicações como novo poder da sociedade civil (Internet).

• A crise de legitimidade do capitalismo: dificuldade de respostas sociais, tendo sua legitimação


política ameaçada.

• A crise das organizações operárias/trabalhadoras (sindicatos).

• A crise do capitalismo expressa por escândalos de manipulação de balanços, de pareceres


fraudulentos de auditores, da queda de confiança nos mercados futuros.

Quais seriam as forças sociais, diante das frustrações e dos fracassos das revoluções,
que podem interligar os componentes múltiplos do processo de desenvolvimento de uma
sociedade? Quais seriam essas forças no processo da globalização? Como isso seria possível
pelas iniciativas dos projetos e iniciativas locais e regionais: Seriam as redes de cooperação?
Seria o nascimento de uma economia mais cooperativa?

A dinâmica social de um processo de desenvolvimento nas sociedades estratificadas é


complexa, isto é, diversa e contraditória. Isso é especialmente válido para sociedades de eco-
nomia capitalista. A dinâmica expressa as relações dos homens com a natureza, por meio das
relações entre os seres humanos, condicionadas por suas necessidades e seus interesses. No
caso de uma economia de mercado capitalista, a lógica que se impõe às relações é a do lucro,
da acumulação do capital. Assim sendo, as necessidades e os interesses das pessoas passam a
ser componentes secundários da lógica econômica, levando-as a reações que podem ser cons-
tatadas nas legislações, na organização de sindicatos, de partidos políticos, de cooperativas e
outras formas de defesa dos interesses e de atendimento das necessidades humanas. Por esse
viés, pode-se concordar com a ideia de que o desenvolvimento de uma sociedade vem condiciona-
do pela dinâmica da força das suas contradições. Aqui temos a raiz de um pensamento crítico
em relação à economia da lógica capitalista que propugna por uma economia do humano.
Atualmente essas reações têm como escoadouro o debate sobre economia cooperativa ou so-
lidária como base de um desenvolvimento mais sustentável.

O século 20, embora tenha apresentado uma capacidade incomparável de produção


de riquezas, legou às futuras gerações graves problemas ambientais e profundas frustrações
e tensões sociais. Apesar de ter apresentado um enorme crescimento econômico, uma pros-
peridade global sem precedentes na História da humanidade, a distribuição de renda entre
as nações e entre os seus habitantes tornou-se problemática e causa de muita intranquilidade.
Os assustadores problemas sociais e humanitários, cada vez mais, geram guerras, genocídios
e violências inesperadas. O século 20 legou a fraqueza das instituições supranacionais e o
risco ambiental em expansão.

O século 20 terminou com enormes conquistas no campo da ciência e da tecnologia:


a humanidade está de posse de um conhecimento jamais tido, que poderia significar possi-
bilidades de real solução de seus mais cruciantes problemas. Por detrás dessa situação, no

41
EaD Walter Frantz

entanto, revela-se ainda uma profunda contradição de poderes, relacionados ao conheci-


mento e aos saberes, à consciência e à organização das forças políticas: o poder da ciência
e o poder da democracia. O encanto da técnica, do desenvolvimento tecnológico, do conhe-
cimento, sob o egoísmo do indivíduo, predominou no processo de desenvolvimento ao longo
dos séculos 19 e 20. O desafio é reverter esse quadro sem negar o desenvolvimento humano.
A economia, dentre as ciências, é uma das que mais sofreu com o aparelhamento ideológico
e a submissão a interesses de grupos.

Além disso tudo, no século 20, ocorreram mudanças fenomenais, sob diversos aspec-
tos: ocorreu um crescimento da população de 1,7 bilhão para 6 bilhões de habitantes; a
expectativa de vida nos países industriais passou de 45 para 75 anos no período de 1900-
1985; a expectativa de vida nos países periféricos passou de 25 para 63 anos, no mesmo
período; a partir de 1940 ocorreu uma diminuição de 40 vezes o risco de morte no parto; no
início do século 20, 9 de cada 10 pessoas viviam no campo; especificamente na França,
entre 1896 e 1998, ocorreu um aumento da produtividade em até 16 vezes, permitindo a
decuplicação do PNB, porém com um aumento de apenas 20% na mão de obra, enquanto,
no planeta, o Produto Nacional Bruto – PNB – foi multiplicado 17,5 vezes, o PNB per capita
aumentou 5 vezes. Os dados revelam um processo acentuado de concentração de renda,
embora acompanhado também por uma pequena melhoria de renda, certamente em virtude
do crescimento tecnológico. Caso se fizesse uma distribuição igualitária do PNB global,
daria a cada habitante do planeta a quantia de cinco mil dólares (Sachs, 2001).

O que se verificou, no entanto, foi uma deterioração da distribuição de renda. Martin e


Schumann (1998) trazem projeções e dados de estudos sobre desemprego e exclusão social
que permitem especular com a ameaça da sociedade dos dois décimos. Isto é, no futuro, para
o funcionamento da economia mundial serão necessários apenas 20% da população ativa.
Apontam para o declínio do poder de compra, do rendimento líquido médio, para a supressão
de milhões de empregos na Europa, apesar do crescimento do volume global das riquezas.

Afirmam os autores que

... os grupos alemães não criam praticamente postos de trabalho suplementares no estrangeiro:
a maior parte das vezes, contentam-se em comprar empresas locais, após o que “ reciclam” o
pessoal e abastecem os mercados locais. (...) os encargos sociais na Alemanha de forma alguma
explodiram nestes últimos anos: em 1995, a sua parte no Produto Interno Bruto (PIB) era até
inferior ao que era vinte anos antes. (...) Diminuir as despesas do Estado, baixar os salários,
suprimir abonos e subsídios (...) o cerne do programa é sempre o mesmo. E em toda a parte o
protesto termina numa resignação (Martin; Schumann, 1998, p. 13).

Esta parece ser uma das questões mais graves da atualidade: o risco da resignação,
embora ainda pouco percebido como tal. Qual seria o sentido ou o significado dessa resig-
nação em sociedades de economias desenvolvidas? Certamente trata-se de um estado de

42
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

perplexidade, de impotência, de um “desarmamento” dos indivíduos de sua condição de


atores históricos, de produtores da sociedade. Esse desarmamento pode significar a “desa-
propriação” dos laços sociais de pertença.

Em 1900 os futuros países industrializados tinham três vezes mais renda per capita
que os futuros países do Terceiro Mundo. Em 1990 essa diferença chegou a sete vezes: entre
o 1/5 mais rico e o 1/5 mais pobre da população mundial existe uma escala de 74 pontos,
isto é, os mais ricos têm 74 vezes mais participação na renda global. Nesse cenário, cerca de
1,3 bilhão de pessoas vivem com um dólar ou menos por dia, 800 milhões de pessoas estão
subnutridas, 30% da força de trabalho mundial está desempregada ou subempregada e 250
milhões de crianças estão sendo usadas como mão de obra. Esse quadro oferece uma som-
bria condição social e humanitária ao planeta, inclusive nos países mais ricos. Nos países
industrializados existem graves problemas sociais, com exclusão social cada vez maior. Nos
EUA 461 pessoas estão presas, cumprindo pena de no mínimo um ano, para cada 100.000
habitantes. Ao todo, entre Europa e EUA, somam-se quase 2 milhões de presidiários. Essa
referência não deve servir de justificativa ou consolo para os outros países, mas revela a
dimensão dos problemas nas sociedades contemporâneas, apesar do crescimento econômico.

A situação contemporânea é de crescimento econômico e transformação tecnológica


sem precedentes, porém a condição social de grande número de pessoas é dramática. Como
se pode explicar essa situação contraditória? Em primeiro lugar, isso revela que o crescimen-
to econômico em si não traz, automaticamente, o desenvolvimento. Em segundo lugar, pro-
va que os efeitos positivos do crescimento econômico são limitados, diante das estruturas
sociais existentes. O pensamento predominante, no entanto, ainda continua sendo que o
crescimento econômico traz o desenvolvimento. No núcleo desse pensamento está a ideia
de que o desenvolvimento de uma sociedade se expressa pela sua capacidade de produzir e
consumir, reduzindo-se o ser social ao econômico.

Sachs (2001), entretanto, chama a atenção para a confusão de ver oposição entre
crescimento econômico e desenvolvimento, diante da afirmação de que o desenvolvimento
não está contido, automaticamente, no crescimento econômico. Este último, de acordo com
Sachs, obtido do modo mais sustentável possível, é condição necessária ao desenvolvimen-
to. Segundo ele, é mais fácil mexer nos acréscimos do PNB, em função da distribuição, do
que redistribuir bens e rendas em uma economia estagnada.

Nas palavras do autor, somos desafiados a distinguir, em meio ao cenário descrito,


entre diferentes tipos de crescimento econômico:

a) crescimento selvagem, destruidor do meio ambiente e com custos sociais elevados;

b) crescimento socialmente benigno – pleno emprego –, mas com considerável degradação


ambiental;

c) crescimento ambientalmente benigno, mas socialmente destrutível.

43
EaD Walter Frantz

De acordo com Sachs (2001, p. 158), “o crescimento econômico, se repensado de for-


ma adequada, de modo a minimizar os impactos ambientais negativos, e colocado a serviço
de objetivos socialmente desejáveis, continua sendo uma condição necessária para o desen-
volvimento”.

Observa Sachs que as redes de seguridade social são importantes, porém elas não
podem ser uma solução duradoura de distribuição de renda. É preciso encontrar estrutu-
ras e soluções contínuas de desenvolvimento que não permitam a privação, a exclusão
social. O autor propõe centrar o debate no pleno emprego e em seus equivalentes, tais
como o autoemprego, as pequenas empresas etc. Afirma que um crescimento impulsiona-
do apenas pelo mercado não conseguirá restabelecer, por si só, uma situação satisfatória
no mercado de trabalho. Segundo este autor (2001, p. 159), é urgente “centrar o debate
no pleno emprego (...) tratando, mais especificamente, das estratégias de crescimento
impulsionadas pelo emprego”. Propõe buscar o crescimento pelo emprego, “orientado pelas
necessidades” e não tanto pelo mercado, focando os serviços sociais, os serviços de saú-
de, os serviços de educação, etc. Para Sachs as estratégias de desenvolvimento devem ser
orientadas pelas necessidades das pessoas que são diferentes dos componentes das estra-
tégias de desenvolvimento impostas pelo mercado: uma economia orientada pelas neces-
sidades absorve muita mão de obra, portanto estratégica na geração de mais lugares de
trabalho.

Sachs afirma que as variedades benignas de crescimento são melhores que o crescimen-
to selvagem: pior que ser explorado é não ser explorado (2001, p. 158). Em outras palavras, a
exclusão do mundo do trabalho é o pior resultado social de um processo de crescimento. É
preciso fazer circular os bens e não os homens, não transformando a força de trabalho em
mercadoria. Sachs reconhece que isso é muito difícil de ser traduzido em políticas.

De acordo com Sachs (2001, p. 159), o desenvolvimento genuíno requer “soluções”


que atendam a três fatores:

1) sensibilidade social;

2) prudência ambiental;

3) viabilidade econômica.

Afirma Sachs (p. 159-160) que o desenvolvimento genuíno deve obedecer ao impulso
imperativo ético de:

a) solidariedade sincrônica com a geração atual;

b) solidariedade diacrônica com as gerações futuras.

44
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

O desenvolvimento genuíno deve estar embasado em um contrato social, democrati-


camente estabelecido, completado por um contrato natural. Pelo contrato natural procura-
se reatar relações respeitosas dos seres humanos com a natureza, procura-se religar o ser
humano e a natureza. No contrato natural o ser humano se redescobre parte integrante da
natureza.

Sachs condiciona o desenvolvimento à vida humana; não separa economia da políti-


ca, das emoções e da tragédia humana. Afirma que o “desenvolvimento é assunto de todos,
e que, em se tratando dele, as pessoas comuns devem ter voz ativa. (...) o desenvolvimento
deve deixar de ser monopólio dos tecnocratas, burocratas e acadêmicos, para alcançar a
praça do mercado” (2001, p. 160). Na sua visão, o desenvolvimento “pertence ao âmbito da
política democrática” (idem, p. 160).

Diante de experiências frustradas de se obter desenvolvimento pela via do crescimento


econômico, Sachs afirma que

a chave para a reconciliação do crescimento econômico com o desenvolvimento social reside no


campo da política – a capacidade de fornecer ao processo de desenvolvimento a orientação
necessária, na forma de um projeto democraticamente construído, e de projetar um sistema de
regulamentação das esferas pública e privada de nossas vidas (2001, p. 161).

De acordo com Sachs (p. 161), “o potencial de desenvolvimento de um país depende,


em primeiro lugar, de sua capacidade cultural de pensar de forma endógena sobre seus
futuros desejáveis”. Quando Sachs se refere a um sistema de regulamentação das esferas
pública e privada e de um compromisso entre as necessidades das pessoas e o mercado,
destaca que três questões precisam ser tratadas:

1) a harmonização dos objetivos sociais, ambientais e econômicos;

2) a promoção de parcerias entre todos os interessados no processo de desenvolvimento: os


cidadãos e as organizações da sociedade civil, o mundo empresarial e um Estado enxuto,
mas operante (a chamada economia negociada);

3) a articulação dos espaços de desenvolvimento, partindo dos locais até chegar aos espaços
globais, passando pelos espaços regionais e nacionais.

Sachs chama a atenção para o fato de que ao tratar do desenvolvimento é preciso dar
especial atenção à interface entre a economia nacional e a economia global, pois este é o
ponto mais sensível do desenvolvimento, exigindo regulamentação nacional e internacional.

A discussão sobre desenvolvimento sustentável, de certo modo, hoje se universaliza,


despertando sempre mais debates. Cresce a preocupação com o equilíbrio das condições de
vida no planeta Terra. Essas preocupações não são apenas relacionadas ao meio ambiente

45
EaD Walter Frantz

natural, mas também dizem respeito às condições sociais de vida. Certamente este é um dos
aspectos positivos da globalização. Trata-se de um problema mundial que exige um debate
global, sem fugir do local, do individual. É um debate que desafia a razão e a emoção de
todos. Subjaz à discussão também uma questão de consciência, uma questão ética. A
sustentabilidade não é apenas uma questão técnica, de uso correto dos recursos da natureza,
mas uma questão de ética, especialmente na política e na economia. Assim como ocorre na
economia, também a natureza não suporta mais o descaso em relação ao seu uso. As possibi-
lidades de paz entre os homens e as nações dependem de uma consciência social e ética na
política de produção e distribuição dos bens e riquezas, em condições de sustentabilidade.

Um dos desafios maiores na atualidade, no processo de desenvolvimento, é o de sub-


meter a economia à política, a política à ecologia, a tecnologia à ética e às necessidades do
homem e não apenas à racionalidade do capital, do lucro.

É preciso superar a ideologia da técnica no processo do desenvolvimento, produzindo


clareza sobre o uso da tecnologia adaptada, sustentável ambientalmente e socialmente jus-
ta. Os objetivos sociais devem predominar sobre os econômicos.

A civilização contemporânea tem uma enorme dívida social e ecológica. Fala-se, cada
vez mais, em risco social, em risco ambiental. Esses riscos se manifestam pela violência
social, pelo medo e pela angústia diante da dinâmica da vida social, pela poluição, pela
morte dos rios e lagos, etc. É aqui que entra a preocupação com o desenvolvimento integra-
do e sustentável. O desenvolvimento sustentável é um processo de longo prazo e de grande
complexidade na sua efetivação.

É preciso entender a relação positiva entre o homem e a natureza, com vistas à sobre-
vivência dos dois. É necessário combinar recursos naturais, recursos humanos e conheci-
mento, gerar vantagens comparativas em relação à situação atual. É preciso encontrar uma
relação sustentável entre ecologia e economia.

Afirma Binswanger (2001, p. 41), economista e pesquisador suíço, que

o conceito de desenvolvimento sustentável deve ser visto como uma alternativa ao conceito de
crescimento econômico, o qual está associado a crescimento material, quantitativo, da econo-
mia. Isso não quer dizer que, como resultado de um desenvolvimento sustentável, o crescimento
econômico deva ser totalmente abandonado. Admitindo-se, a priori antes, que a natureza é a base
necessária e indispensável da economia moderna, bem como das vidas das gerações presentes e
futuras, desenvolvimento sustentável significa qualificar o crescimento e reconciliar o desenvol-
vimento econômico com a necessidade de se preservar o meio ambiente.

De acordo com este autor (p. 43), a teoria econômica, de modo geral, considera o
capital e o trabalho como os únicos fatores de produção e define o produto nacional de uma
sociedade como sendo o resultado da combinação desses dois fatores, desprezando “a natu-

46
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

reza e todos os serviços naturais que são essenciais para toda produção material”. O desco-
nhecimento do capital natural e dos serviços da natureza – a reciclagem e a renovação – tem
como referência o modelo teórico da economia tradicional da época pré-industrial. Tratava-
se de uma economia baseada no uso de recursos renováveis, abandonada há tempo pela
prática industrial moderna.

Na economia tradicional não era preciso perder tempo com os processos naturais de
reciclagem e renovação, pois a natureza, por meio dos fluxos circulares da ecologia, tomava
conta da questão da sustentabilidade.

As coisas se complicam, no entanto, com a introdução de um novo fator de produção,


a mudança técnica, representada pela pesquisa científica, pelo aperfeiçoamento do proces-
so industrial, pela melhoria gerencial, pela dinamização dos fluxos de informação, pela edu-
cação, pelo treinamento, aumentando-se a produtividade. De acordo com Binswanger (2001,
p. 46), “o excedente de crescimento, todavia, é apenas parcialmente o resultado do aumento
da eficiência nos processos de produção devido à destreza humana resultante de pesquisa e
desenvolvimento. Outra parte deve ser computada a um crescente uso da natureza”, ao uso
intensivo da natureza que, muitas vezes, leva a uma exploração destrutiva dos recursos
renováveis da natureza. Em consequência, esgotam-se certos recursos não renováveis. Esse
processo pode ser intensificado pela poluição e destruição ambiental, em razão dos efluentes
industriais lançados à natureza, sem condições de renovação pelos fluxos naturais de
reciclagem.

O desenvolvimento sustentável exige que se estude a relação entre a economia moder-


na e a natureza, a fim de descobrir que muitas formas de produção modernas não podem
mais contar com as dádivas da natureza, com os serviços naturais da reciclagem. A supera-
ção das forças da natureza pela moderna industrialização pode provocar perdas irreparáveis
da substância ecológica. Alerta Binswanger (2001, p. 47) que “estamos sob o risco não
somente de ameaçar o sistema de sustentação da vida da geração presente, como também
de diminuir as oportunidades de gerações futuras contarem com a natureza como base para
o seu desenvolvimento econômico e social”. Evitar essa tendência fatal exige um desenvol-
vimento integrado, isto é, um desenvolvimento que incorpore uma ética de comportamento
que se faz presente nas relações do triângulo da vida – indivíduo, natureza e sociedade – e
cujos valores são o respeito ao outro, a solidariedade com o outro e a cooperação com o
outro.

Na concepção de Binswanger (p. 47) é preciso corrigir o mal-entendido da teoria eco-


nômica tradicional e a política econômica dela decorrente, não levando em consideração
apenas o trabalho e o capital como fatores de geração de riquezas, mas também devem ser
levados em conta os fatores da natureza. No processo de produção não devem ser repostos

47
EaD Walter Frantz

apenas os fatores trabalho e capital, mas também a natureza. Segundo ele, na produção
com a agregação da mudança técnica é preciso reconhecer que “o processo econômico cria
não somente os bens e serviços do produto social, mas também influencia – positiva ou
negativamente – o estado e a qualidade do meio ambiente que, por sua vez, constitui uma
parte essencial da qualidade de vida humana”. A essência do desenvolvimento integrado e
sustentável é a política econômica que se preocupa não apenas com a reprodução do capi-
tal e do trabalho, mas igualmente com a reprodução dos fatores naturais de produção, com
as funções da natureza que sustentam o desenvolvimento social e econômico. O uso da
natureza no processo econômico precisa ser compensado, precisa ser retornado de alguma
maneira.

Destaca Binswanger (2001, p. 47) que isso pode ser feito de duas maneiras: “Ou uma
fatia do produto social é devolvida à natureza, o que significa que devemos gastar dinheiro
em determinadas atividades econômicas dirigidas à manutenção de serviços naturais, ou
tentamos preservar a substância da natureza sacrificando parte das possibilidades de usar
recursos naturais”.

Enfim, existe uma contradição profunda entre o moderno processo de desenvolvimen-


to e a natureza, que se expressa pelo desconhecimento, pelo desrespeito, pelo comporta-
mento ganancioso e desequilibrado dos homens em relação aos recursos naturais. A
sustentabilidade implica um processo profundo de transformação cultural, política e econô-
mica, em relação ao uso da natureza, do capital e do trabalho em favor da produção de bens
materiais de vida. O processo de sustentabilidade deve ser fundador e instaurador de uma
nova cultura, de uma nova política, de uma nova economia, em favor da qualidade de vida,
resultado do respeito ao homem e à natureza.

Um desafio que nasce disso tudo: a construção de uma concepção teórica de uma
formação social em bases culturais, políticas e econômicas que possa acolher a liberdade
individual e a necessidade do coletivo como dimensões de realização da felicidade do ser
humano. Enfim, um sistema em base cooperativa.

48
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

Unidade 4

A QUESTÃO DA COOPERAÇÃO
NO PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO
A prática cooperativa é uma questão fundamentalmente econômica, porém torna-se
uma questão política, social e cultural na medida em que assume importância econômica
para seus associados ou para a economia em geral. A organização cooperativa pode ser
vista como uma das expressões mais concretas do movimento de alternativa para a humani-
dade, diante da frustração e do fracasso dos grandes sistemas de organização econômica e
social nascidos da modernidade.

Segundo Wallerstein (2006, p. 24), por volta do século 16 uma economia-mundo capi-
talista emergiu como um sistema histórico. No contexto da afirmação de uma ordem capita-
lista, algumas mudanças começaram a ocorrer em decorrência da constituição de novos
atores e forças sociais. As rebeliões e oposições assumiram, cada vez mais, o caráter de
movimentos antissistêmicos. Apesar da repressão a essas manifestações, as forças conserva-
doras passaram a aceitar mudanças, porém dentro da ordem, diante do risco de perder o seu
poder de controle. Afirma o autor que as forças conservadoras deram-se conta de que algo
diferente acontecia, em relação às rebeliões e revoltas anteriores. Receavam que a afirma-
ção de novos atores e forças sociais pudessem vir a se constituir em movimentos
antissistêmicos, em sementes de mudanças qualitativas na estrutura do sistema-mundo ca-
pitalista. Isto fez com que aceitassem a “normalidade das mudanças”, porém como oportu-
nidade de contê-las ou reduzir seu ritmo. Para Wallerstein (2006, p. 26), a aceitação da
“normalidade das mudanças” produziu como resposta o surgimento de três novas institui-
ções: as ideologias, as ciências exatas e os movimentos sociais. O autor afirma que elas
formam as bases institucionais da sociedade moderna.

Na concepção de Wallerstein uma ideologia é mais do que um modo de interpretar o


mundo (Weltanschauung). Para ele, a ideologia é um modo de interpretar o mundo, mas formu-
lada com objetivos políticos conscientes. Nesse sentido, três ideologias foram desenvolvidas no
século 19: o conservadorismo, o liberalismo e o marxismo. Essas ideologias eram mundo-
sistêmicas. Foram declarações acerca de como abordar politicamente a “mudança normal”.

Afirma Wallerstein que os programas políticos, nascidos das três ideologias, constitu-
em apenas uma parte do que se precisa para tratar a “mudança normal”. As propostas con-
cretas dos programas políticos exigiam um conhecimento sólido das realidades sociais vi-

49
EaD Walter Frantz

gentes. Sem saber como o mundo funcionava era impossível recomendar o que fazer para
melhorar seu funcionamento. O conhecimento torna-se importante para saber o que mudar
ou conservar. Diante disso, as ciências nascem e se institucionalizam como poder, especial-
mente, do mundo da economia capitalista.

A institucionalização da ciência social aconteceu por intermédio do “estudo empírico


do mundo social com a intenção de compreender a “mudança normal” e ter assim condi-
ções de afetá-la. A ciência social não foi o produto de pensadores sociais isolados, mas a
criação de um corpo coletivo de pessoas que, a partir de estruturas específicas, visavam
alcançar fins específicos” (Wallerstein, 2006, p. 28). A ciência se institucionaliza como ex-
pressão da “normalidade das mudanças”.

Segundo Wallerstein (2006, p. 30),

como as ciências sociais se tornaram crescentemente um instrumento do governo inteligente de


um mundo em que a mudança era normal e, por conseguinte, de limitação do alcance dessa
mudança, quem buscava ir além dos limites estruturados pela burguesia mundial recorreu a
uma terceira instituição, os movimentos.

Afirma o autor que esses movimentos foram a terceira e última inovação institucional
do sistema-mundo. Têm como referência o período histórico que vai do final do século 18 –
Revolução de 1789 – às primeiras décadas do século 19 – Revolução de 1848. Os movimen-
tos sociais – socialista, nacionalista, cooperativo – desse período histórico planejavam a
política de transformação social. Especialmente, desde a metade do século 19, pode-se as-
sistir a uma ascensão gradual de movimentos antissistêmicos, dentre os quais os movimen-
tos cooperativos.

Segundo o autor, todavia, embora apelassem a valores universais, não se constituíram


em estruturas mundiais que levassem à revolução, isto é, à superação do sistema-mundo
capitalista. A força crescente dos movimentos antissistêmicos não apenas provocou a re-
pressão, mas também a tentativa de suprimir esses movimentos mediante concessões e
cooptação – enquadramento “legal” pelo poder dominante ou aliciamento de seus quadros
dirigentes.

Sob muitos aspectos o movimento cooperativo pode ser enquadrado como reação das
classes populares no sentido de se oporem ao sistema-mundo capitalista, no entanto, em
virtude das limitações de seus associados, suas necessidades, seus interesses e aspirações
em uma economia de consumo, sempre mais atraente, as estruturas operacionais de coope-
ração são, facilmente, inseridos no sistema de poder dominante, com algumas vantagens.
Como estruturas produtivas de grupos isolados as organizações cooperativas são facilmente
cooptadas, em grande parte, pelo sistema dominante. O movimento cooperativo tem dificul-
dades de se afirmar como ideologia e poder de um novo sistema-mundo.

50
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

Apesar disso, com certeza cada um de vocês já se deu conta de que é impossível com-
preender os fenômenos particulares, com profundidade, sem analisar o contexto global nos
quais eles acontecem. Os fenômenos menores ou particulares ocorrem em estruturas sociais
maiores. Os seres humanos constroem grandes estruturas no campo da cultura, da educa-
ção, da política ou da economia, que se constituem em sistemas ou modelos às ações indivi-
duais ou grupais.

As incertezas, as dúvidas sobre a validade ou não das práticas de desenvolvimento


permitem recomeçar, abrem caminhos para a sua reconstrução. As práticas do desenvolvi-
mento devem ter como fundamento a comunicação, a liberdade da pergunta, da crítica, da
participação, do compromisso com a esperança de quem sonha com dias melhores. A re-
construção não começa com respostas prontas, com certezas ou verdades; ela se inicia pela
dúvida, pela experiência dos erros, pela coragem da crítica e da autocrítica. A liberdade da
dúvida traz a liberdade da pergunta, a liberdade de iniciar novos caminhos, novas experiên-
cias. O progresso, o desenvolvimento de melhores condições de vida, só pode ser produzido
com a liberdade da crítica, do debate e da comunicação.

Não existem mais respostas prontas ou certezas que venham de fora. As respostas
precisam ser buscadas nas experiências de vida de cada um, nas experiências dinâmicas de
cada sociedade. Precisam ser construídas, por meio do diálogo, do debate, da argumenta-
ção, com o que vem de fora. Por intermédio de ação grupal e cooperativa aproxima as pesso-
as, desenvolve identidades, valores e comportamentos. Cooperativas carregam em si o po-
tencial do diálogo, da ação entre pessoas com os mesmos interesses e necessidades. Organi-
zações cooperativas carregam dentro delas um potencial de capital social que pode ser ati-
vado na construção de espaços materiais e sociais de vida.

Nesse sentido, a organização cooperativa é um lugar privilegiado, podendo constituir-se


em um grupo criativo e inovador no processo de desenvolvimento de uma comunidade. Trata-se
de algo, no entanto, a ser construído. É decorrência de uma vontade política. Na concepção de
Arruda, como grupo criativo e inovador a cooperação tem como ponto de partida

... a diversidade do conjunto de talentos, capacidades, competências que constituem a singulari-


dade e a criatividade de cada um. O método é colocá-las em comum, buscando construir laços
solidários de colaboração no interior da comunidade, de modo a desenvolver quanto possível os
talentos, capacidades e competências coletivas. (...) Trata-se, como no caso de cada pessoa, de
desenvolver a comunidade no sentido de tornar-se sujeito consciente e ativo do seu próprio desen-
volvimento (1996, p. 23).

É neste processo criativo que se torna possível estabelecer os elos dinâmicos entre o
desenvolvimento local e o associativismo, produzindo-se os sentidos e os conteúdos práti-
cos desses dois conceitos.

51
EaD Walter Frantz

Aquilo que foram as “certezas” buscadas pelo desenvolvimento, ao longo de décadas,


deixou de ser certezas, especialmente diante dos seus limites e dos resultados colhidos: con-
centração demasiada de renda, destruição ambiental, limitação dos recursos naturais, con-
tradição entre racionalidade tecnológica da economia e bem-estar social, crescimento eco-
nômico e desemprego. A retomada do crescimento, atualmente, não se traduz, necessaria-
mente, em novos postos de trabalho. Está em crise o modelo de desenvolvimento fundado no
crescimento econômico. As “certezas” estão abaladas, o discurso de décadas sobre desen-
volvimento perdeu seu encanto. Não há mais como reconhecer uma relação direta entre o
crescimento econômico e a melhoria das condições de vida.

A crise está também no centro das economias centrais. Nada lhe escapa, mesmo nos
lugares mais seguros em termos de crescimento econômico. Afirma Perrot que:

... se considerarmos agora a situação da Europa e dos países do Atlântico Norte, nesses últimos
anos a “crise desenvolvimento” tem estado em debate. Esta crise se manifesta essencialmente
através da queda das taxas de crescimento [...] A crise do desenvolvimento atinge atualmente não
somente os países do Terceiro Mundo (...), mas também os países altamente industrializados do
Norte, questionando mais do que nunca a educação para o desenvolvimento e a formação para
o desenvolvimento (2001, p. 195-197).

Com relação ao desemprego, mesmo no mundo considerado desenvolvido do Norte,


cada vez mais acentuado, argumenta Perrot:

Este atinge tantas pessoas atualmente que a fissura Norte-Sul se encontra, resguarda-
das as devidas proporções, no coração dessas sociedades, e engendra déficits sociais, franjas
de miséria que são ocupadas pelos excluídos do jogo social, e medos com relação a um futuro
ao mesmo tempo incerto e desprovido de pontos de referência inteligíveis. Ironicamente, du-
rante décadas, o integrismo técnico-científico impôs sua lógica, querendo que desenvolvi-
mento rimasse com racionalidade tecnológica. Hoje temos de admitir que o desemprego, lon-
ge de ser conjuntural, está, ao contrário, inscrito no coração da racionalização tecnológica
tomada como um objetivo em si mesma e, por isso mesmo, no modelo de desenvolvimento
ocidental. (...) a simples retomada do crescimento não significará automaticamente a reabsorção
do desemprego. (...) Acabou-se o sonho da automatização, que suprimiria as tarefas mais
ingratas para o homem, mantendo-se os empregos e aumentando a produção (p. 195).

Especialmente, o século 20 foi marcado por dois grandes sistemas políticos e econômi-
cos, isto é, dois grandes modelos de desenvolvimento que marcaram profundamente a vida
dos seres humanos: capitalismo e socialismo. Trata-se de sistemas com pretensão de terem
as certezas, as verdades. O núcleo desses dois sistemas era a produção e a distribuição dos
bens e riquezas entre os seres humanos e seus discursos têm suas raízes nas ideias da
modernidade: vencer a pobreza, estabelecer a igualdade e a liberdade.

52
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

De modo simplificado, pode-se afirmar que o modelo de desenvolvimento capitalista


está centrado nos interesses dos indivíduos e o modelo de desenvolvimento socialista tem
como foco central de suas ações as necessidades dos seres humanos.

Assim, a crise dos dois grandes sistemas/modelos tem a ver com a frustração das pro-
messas da modernidade. Com a crise do socialismo a economia de mercado capitalista se
afirmou e consolidou, especialmente, como mecanismo de coordenação da produção e da
distribuição da produção. Constituiu-se em sistema hegemônico da economia contemporâ-
nea. Existem, entretanto, flagrantes sinais de crise, sobretudo diante das dificuldades
ambientais e sociais, relativas à produção e distribuição de bens e mercadorias. Os limites
do mei o ambi ente e dos recursos da nature za; o acirramento da compe ti ção; o
aprofundamento da concentração de capitais; o excesso de produção, em contradição com
a exclusão econômica e social de grande parce la da população; os de safios da
sustentabilidade política e da segurança do sistema, fazem nascer críticas e questionamentos,
cada vez mais fortes, com relação à lógica da economia capitalista.

Diante disso, parece haver uma crise de proposta política global. Na verdade parece
não existir proposta política, atualmente, em termos globais, que inspire confiança em dire-
ção ao futuro. Esse vazio está muito relacionado com a decepção política e o fracasso eco-
nômico e social das experiências feitas na modernidade dos grandes sistemas. Apesar do
sucesso da economia de mercado capitalista, os seus resultados são frustrantes em termos
sociais. Do mesmo modo, o fracasso das experiências de economia socialista, centralmente
planejadas, resultou em decepção para uma grande parcela da humanidade. Em
consequência, quando se trata de um olhar para o futuro, a humanidade está confrontada
com imensos desafios no que diz respeito aos seus modelos de desenvolvimento. A experiên-
cia capitalista com o seu sucesso econômico frustrou as expectativas sociais da maioria. A
experiência socialista com seu fracasso econômico jogou na perplexidade grande parcela da
população. Para a maioria da humanidade parece faltar um projeto de futuro.

Dessas experiências de frustração e perplexidade brotam perguntas em direção ao fu-


turo. A “crise” da discussão teórica, em parte, começou a ser “superada” com a recuperação
do sentido do desenvolvimento, por meio de sua adjetivação pelos termos “sustentável”,
“humano”, “endógeno”, “ regional”, etc. Deixam de existir modelos, centros hegemônicos,
diversificando-se os caminhos pelo reconhecimento das múltiplas experiências regionais ou
setoriais. No lugar dos modelos surgem as experiências e ganham força as políticas regio-
nais de desenvolvimento. Recebem destaque os movimentos sociais na arena política do
desenvolvimento das sociedades.

Quem já não teve uma experiência de participação em algum movimento social? Com
certeza todos tiveram, especialmente por que a maioria dos alunos, normalmente, vêm de
camadas sociais marcadas pela desigualdade de acesso ao estudo, ao emprego, à saúde, à
moradia, à terra, ou faz parte de uma minoria desrespeitada ou excluída.

53
EaD Walter Frantz

A desigualdade social põe em jogo movimentos sociais e estratégias de combate a esse


desequilíbrio social. Pode-se afirmar, então, que o movimento social faz parte da dinâmica
do processo de desenvolvimento de uma sociedade. Movimentos sociais se constituem em
torno de necessidades ou interesses a serem defendidos ou promovidos. Essa afirmação an-
terior permite concluir pela diversidade de sentidos e significados dos movimentos sociais,
ao longo da história da dinâmica social da vida humana. O conceito de movimento social é
uma categoria teórica controvertida, pois, em seus movimentos ao longo do tempo e dos
lugares, sofre transformação de significado. Segundo Gohn (1992, p. 16), no seio desses
movimentos forma-se a cidadania coletiva, que “se constrói como processo interno, no inte-
rior da prática social [...], constituindo novos atores/sujeitos históricos, saídos das camadas
populares. Hoje, diante do risco de crise dos processos participativos e da criminalização
dos movimentos sociais, quais os desafios? Gohn (p. 114), ao tratar da crise dos movimentos
sociais nos anos 90, formula a hipótese de ações educativas de massa como possibilidade de
reversão do risco de “descrença na ação coletiva”.

Como conceito sociológico de descrição e interpretação é interessante citar alguns de


seus aspectos históricos. É uma categoria sociológica criada por volta de 1840 para desig-
nar o surgimento do movimento operário europeu. De alguns anos para cá, reina uma crise
conceitual no campo da temática do movimento social. Até o início de 1960 movimento
social significava algo revolucionário; referia-se à suposta capacidade revolucionária do
proletariado. Movimento social precisava ter “ racionalidade organizativa”; não podia ser
espontâneo. Era algo racional, organizado, baseado em premissas científicas, com metas
definidas e com estratégia. Os sindicatos e partidos de esquerda representavam esse tipo de
organização. Tudo o mais não era “movimento social”.

No final de 1970 Alain Touraine passou a se referir a movimentos sociais típicos da


sociedade pós-industrial: movimentos sociais de gênero, de pacifismo, de ecologismo, de
nacionalismos. Em todo movimento social há um modo de ação coletiva que expressa uma
relação social conflitiva. O movimento social operário é o exemplo clássico de relação
conflitiva, porém existem outros movimentos carregados de conflitos específicos, pontuais,
nem sempre em conflito com as estruturas fundamentais da sociedade: movimento estudan-
til, movimento dos direitos humanos, pela paz, pela igualdade de direitos das mulheres, etc.
Estes são denominados de novos movimentos sociais.

Muitos desses movimentos desafiam as estruturas institucionais, modos de vida e de


pensar e estão ligados à mudança social. Muitas mudanças na sociedade têm sua origem
neles. Nos últimos anos esses movimentos ficaram mais “temáticos”. Aqui, importa, ou me-
lhor, interessa abordar, especialmente, o movimento cooperativo no processo de desenvolvi-
mento da sociedade.

54
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

O mundo está passando por grandes e profundas transformações. Isso todos nós já
sabemos e sentimos. Essas transformações penetram em nossas vidas. Nem sempre percebe-
mos isso claramente, tornando-nos, facilmente, vítimas desse processo. Compreender esse
processo histórico, agir sobre ele, é uma das mais urgentes tarefas posta a cada um de nós,
individual e associativamente.

Escreveu Giddens, apud Sztompka (1998, p. 14):

Vivemos uma era de mudanças sociais impressionantes, marcada por transformações radical-
mente diferentes daquelas dos períodos anteriores. O colapso do socialismo de tipo soviético, o
declínio da distribuição bipolar do poder mundial, a formação dos sistemas globais de informa-
ção, o aparente triunfo do capitalismo em um tempo em que as divisões globais se aguçam e os
problemas ecológicos assumem proporções muito mais amplas – todas essas e outras questões
confrontam as ciências sociais e têm de ser por elas confrontadas.

Dessas constatações podem nascer novas perspectivas, novos lugares sociais podem
ser construídos no campo da política, na esfera da economia, abrigando novas relações
sociais, embasadas no associativismo, na cooperação.

Segundo Assmann (1998, p. 28), as experiências capitalistas e socialistas não soube-


ram levar em conta as necessidades elementares e a liberdade dos desejos, o respeito aos
interesses e o impulso às iniciativas do ser humano. Afirma que “os seres vivos entrelaçam
necessidades e desejos (...). Os socialismos “ reais” não souberam levar isso em conta, traba-
lhando unilateralmente com a priorização das necessidades elementares. Por outro lado, o
capitalismo sempre foi mestre em manipular desejos e postergar a satisfação das necessida-
des elementares”.

É nesse espaço entre a lógica capitalista e o fracasso das experiências socialistas que,
a meu ver, se recoloca a questão do cooperativismo como uma prática social de dimensão
econômica, política e cultural, tendo como denominador comum o sentido do humano. Não
se trata de discutir se o cooperativismo é uma terceira via ou não. Trata-se de reconhecer e
garantir nele um instrumento prático que devolva aos indivíduos o espaço da participação,
da decisão solidária e responsável no encaminhamento da produção e distribuição das ri-
quezas. Nesse processo os homens deverão traçar os seus rumos, tendo apenas como cláu-
sula pétrea de seus acordos e contratos o sentido humano de suas ações.

Entre esses desafios pode-se incluir o reexame do princípio cooperativo nas relações
econômicas. Organizações cooperativas são fenômenos que nascem da articulação e da
associação de indivíduos que se identificam e aliam por interesses ou necessidades, buscan-
do o seu fortalecimento pela instrumentalização, com vistas a objetivos e resultados, pre-
ponderantemente, de ordem econômica. A cooperação é, em seu princípio constituinte, um
acordo racional de sujeitos sobre algo, isto é, a economia. O acordo da cooperação diz

55
EaD Walter Frantz

respeito aos interesses e necessidades perante a produção e distribuição de bens e riquezas,


no entanto contém elementos sociais, culturais e políticos, incorporados ao seu sentido
econômico. Destes elementos decorre uma natureza local que permite reconhecer uma rela-
ção entre a organização e o funcionamento de uma cooperativa e o processo de desenvolvi-
mento local.

Assim, pela via cooperativa, renasce o local como base do processo de desenvolvimen-
to. Entre o desenvolvimento local e a natureza da organização cooperativa, como expressão
dos interesses e necessidades de seus associados, como extensão de suas economias – ca-
racterizada pela associação e pela instrumentação empresarial – existe uma distância me-
nor. As organizações cooperativas podem ser reconhecidas como expressão das ações locais
de desenvolvimento. Mais que o local, porém, a organização cooperativa carrega dentro
dela a força política que permite recolocar o homem e não o capital no centro da dinâmica
da economia. Não se desconhece a função do capital na organização cooperativa e no pro-
cesso de desenvolvimento, mas se reconhece a necessidade da primazia da centralidade hu-
mana. Estas, entretanto, são potencialidades que dependem muito da vontade política dos
sujeitos envolvidos.

Femia (apud Sztompka, 1998, p. 300), ao comentar as posições de Gramsci em sua


leitura de Marx, afirma que este

postula como fator dominante da história não os fatos econômicos brutos mas o homem, homens
em sociedade, homens que interagem entre si (...) e desenvolvem através desses contatos (civiliza-
ção) uma vontade coletiva, social; homens que irão entender os fatos econômicos, julgá-los e
adaptá-los à sua vontade, de modo que essa vontade se torne a força propulsora da economia,
aquilo que molda a realidade objetiva.

Essa visão implica o reconhecimento da supremacia da política sobre a economia e


conduz à pergunta sobre as referências aos caminhos políticos contemporâneos em relação
ao futuro. O associativismo, fundando organizações econômicas cooperativas, pode repre-
sentar um dos mais promissores desses caminhos. O caminho da concorrência, da competi-
ção, sob a lógica da acumulação do capital, certamente, para a maioria da população, é um
dos caminhos mais estreitos de seu desenvolvimento, em relação ao futuro, em direção ao
melhor.

De acordo com Arruda, “se espalha pelo mundo o sentimento sempre mais enraizado
de que o setor privado hegemônico não consegue gerar um mundo de bem-estar e felicidade
para todos e cada um dos cidadãos, povos e nações” (1996, p. 5).

Para a maioria da população é cada vez mais seletivo o caminho da competição pelo
mercado concorrencial capitalista. É cada vez mais difícil a inserção na economia capitalista,
de forma direta. A economia capitalista está cada vez mais fundada nas tecnologias de ponta

56
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

e não no trabalho humano. A sobrevivência das pequenas economias depende, cada vez mais,
de novas formas de organização, de novas tecnologias de produção, de novos mecanismos de
comercialização, de novos mercados, porém menos dominados pela lógica dos interesses do
capital. É preciso organizar, construir poder de ação, poder de controle de certos fatores de
decisão pela criação de redes cooperativas. É necessário construir as relações econômicas de
um mercado cooperativo. É preciso recuperar a base associativa da organização econômica.

De acordo com Arruda (1996, p. 24), é preciso

repensar, portanto, o mercado como uma relação social, entre seres humanos, apenas mediada por
dinheiros e produtos; repensar a empresa e as instituições como comunidades humanas; deslocar o
eixo da existência humana do ter para o ser; identificar e cultivar a capacidade de cada pessoa e
comunidade de ser sujeito consciente e ativo do seu próprio desenvolvimento, estes são alguns dos
grandes desafios ligados ao renascimento da humanidade no milênio que se avizinha.

Quando se afirma a supremacia da vontade política sobre a economia é importante distin-


guir a vontade dos seres humanos da “vontade” do capital. Não se pode confundir a vontade de
quem está alienado de sua dimensão humana a serviço do capital com as necessidades dos seres
humanos. Estar alienado da dimensão humana não significa estar desapropriado, apenas, de
bens materiais necessários à vida. Pelo contrário, alguém pode estar de posse de bens materiais,
mas encontrar-se em processo de desumanização, isto é, estar privado dos bens espirituais do
respeito ao outro, da solidariedade, da cooperação. A redução das necessidades dos seres huma-
nos à “necessidade” do lucro, isto é, à lógica do capital, pode reduzir a dimensão humana da
economia. O processo do desenvolvimento local permite levantar a hipótese da ampliação da
dimensão humana da economia pela maior identidade dos seus agentes.

Em meu entendimento, desse contexto podem nascer as possibilidades de um novo


cooperativismo, fortalecido pela avaliação crítica de suas práticas. Na reflexão, na análise
crítica, na avaliação do sentido e da importância de seu acontecer, está um dos elementos
de garantia de estabilidade organizacional e institucional, de validade social do
cooperativismo. Quando falha a reflexão, a crítica, a avaliação, correm perigo a estabilidade
e a validade das instituições, especialmente no caso de cooperativas. Corre perigo o projeto
cooperativo, como um espaço de organização democrática, de participação, de qualificação
política e técnica de seus integrantes. Um dos fundamentos do cooperativismo é a democra-
cia. É uma das variáveis da cooperação econômica. Não é um fim em si mesmo, mas é seu
meio, sem o qual o projeto cooperativo se fragiliza.

Entendo a prática cooperativa como um lugar social e econômico, a partir do qual os


seres humanos se fazem sujeitos de seu próprio destino, desde que não se desvie essa prática
de sua razão: a economia do humano. A construção da economia do humano, em bases
cooperativas, talvez, continua sendo um dos maiores desafios postos aos homens. Afirma
Lévy (1998, p. 47) que

57
EaD Walter Frantz

nada é mais precioso que o humano. Ele é a fonte das outras riquezas, critério e portador vivo de
todo o valor. (...) é preciso ser economista do humano, (...) É necessário igualmente forjar instru-
mentos – conceitos, métodos, técnicas – que tornem sensível, mensurável, organizável, em suma,
praticável o progresso em direção a uma economia do humano.

Os instrumentos de construção da economia do humano deverão ser forjados pela via


do associativismo, pela organização cooperativa, mais que pela competição. A economia do
humano pode ser entendida como uma das expressões mais próximas do desenvolvimento
local.

Na prática do cooperativismo este foi, muitas vezes, tão adverso aos interesses e ne-
cessidades de seus associados quanto a própria realidade competitiva do mercado capitalis-
ta. Isso sempre aconteceu quando a racionalidade da cooperação foi instrumentalizada e
submetida à lógica do capital. Em algumas situações as práticas de cooperativas chegaram
a se constituir em verdadeiras bombas de sucção dos recursos de uma região, em favor de
outras, por meio de projetos de “colonização” ou pela incorporação de empreendimentos em
dificuldades. Nesse caso, as práticas cooperativas geraram efeitos destrutivos no processo
de desenvolvimento local.

Hoje, entretanto, o cooperativismo se renova, como capacidade de reação e organiza-


ção da sociedade civil, diante dos desafios que a evolução social e as políticas sociais e
econômicas lhe impõem. De um instrumento de políticas de governos, em contextos anteri-
ores, o cooperativismo se afirma como espaço de organização e instrumento de atuação de
diferentes grupos sociais, com sentido e objetivos econômicos específicos, sem, no entanto,
desconhecer a sua inserção e responsabilidade social maior. Transparece o esforço por uma
afirmação de identidade própria, desvinculando-se de usos e compromissos oficiais. É o
reflexo da compreensão do novo papel que a sociedade civil deve exercer, hoje, no contexto
das instituições e organizações, especialmente diante da sociedade política, de seus interes-
ses e compromissos, cuja expressão maior foi, nos séculos 19 e 20, o Estado Nacional. Desse
modo, o cooperativismo retoma as suas potencialidades no processo de desenvolvimento
local.

De acordo com Arruda (1996, p. 7),

é neste processo que ganha enorme importância a práxis de um cooperativismo autônomo,


autogestionário e solidário, que inova no espaço da empresa-comunidade humana e também na
relação de troca entre os diversos agentes; nosso argumento é que a sociedade precisa superar a
relativa inércia a que se submeteu, superando a cultura da reivindicação e da delegação, como
suas alienadoras práticas paternalistas e assistencialistas, por uma cultura do auto-desenvolvi-
mento, da autoajuda e da complementaridade solidária; o associativismo e o cooperativismo
autogestionários, transformados em projeto estratégico, podem ser os meios mais adequados
para a reestruturação da sócioeconomia na nova era que se anuncia.

58
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

A organização cooperativa, ao tirar o indivíduo de seu mundo particular, relacionan-


do-o com os outros pelos laços sociais da cooperação, construindo espaços coletivos, des-
perta a responsabilidade social e a solidariedade, elementos fundamentais ao desenvolvi-
mento do ser humano e de seus espaços de vida. A organização cooperativa tem esse sentido
da construção do coletivo que lhe advém da natureza associativa.

As organizações cooperativas representam importantes espaços sociais. Nesses luga-


res sociais as pessoas desenvolvem sentimentos, ideias, valores, comportamentos, conheci-
mentos, aprendizagens, estruturas de poder de atuação, mediante os quais se comunicam e
se influenciam. A organização cooperativa abriga um complexo sistema de relações sociais
que se estruturam a partir das necessidades, das intenções e interesses das pessoas que
cooperam. Da dinâmica dessas relações nascem ações no espaço da economia, da política,
constituindo-se, assim, as práticas cooperativas em processos educativos e em processos de
poder.

A organização cooperativa, além do seu sentido econômico, constitui-se, assim, em


uma escola, na qual se gera conhecimento, produz-se aprendizagem a respeito da vida na
realidade social, certamente com profundos reflexos no processo de educação mais amplo
da sociedade, deitando nela raízes de muitos de seus valores e comportamentos sociais.

A organização cooperativa é ao mesmo tempo um lugar de negócios e um lugar de


produção de conhecimento, de aprendizagem e de educação. O conhecimento, a aprendiza-
gem, a educação, ocorrem nas práticas políticas de comunicação e negociação, na busca
das informações, nas práticas da comercialização dos produtos. As organizações cooperati-
vas sempre foram desafiadas por operações técnicas de produção, armazenagem, industria-
lização e comercialização, isto é, por questões vinculadas à economia dos seus associados,
porém também sempre existiram os desafios de ordem política, de natureza cultural e social.

Hoje as organizações cooperativas continuam, cada vez mais, sendo confrontadas e


exigidas pelas muitas transformações de ordem política, de natureza cultural e social, pelas
quais passa a sociedade. Especialmente o fenômeno da intensificação da globalização traz
muitos novos desafios. Isso exige também de seus associados e dirigentes sempre novos
conhecimentos, mais capacidade de articulação, maior identificação coletiva e responsabi-
lidade social. Todos são confrontados, cada vez mais, com novos e maiores problemas, dian-
te das transformações em curso.

No meu entendimento, na prática cooperativa podem-se desenvolver sentidos não


apenas instrumentais, em termos de economia, mas que tenham significados para a vida das
comunidades de sua inserção operacional. Na comunicação do trabalho cooperativo está a
possibilidade de uma inteligência coletiva e criativa com reflexos, certamente, no desenvol-
vimento local.

59
EaD Walter Frantz

A importância das organizações cooperativas no desenvolvimento local, em termos


práticos, pode ser reconhecida em aspectos de sua organização e funcionamento, pela
estruturação e viabilização de espaços econômicos para seus associados. O reconhecimento
dos principais aspectos econômicos pode ser percebido pelas práticas de orientação da pro-
dução; pela assistência técnica permanente; pela agregação de valor; por meio de processos
de transformação da produção; pela relação com os mercados existentes ou pela abertura de
novos mercados. Outros aspectos de importância econômica da organização cooperativa
para o processo de desenvolvimento local, certamente, estão relacionados à estabilidade do
capital investido, isto é, a possibilidade de movimentação do capital cooperativo é quase
nula; o grau de alienação é menor, desde que os associados estejam dispostos a continuar
investindo no local; a circulação local dos recursos financeiros gerados é, certamente, maior
que a de outras empresas. Relacionados aos objetivos e aos aspectos de ordem econômica
estão os significados dos aspectos políticos da organização cooperativa: informação, conhe-
cimento, participação, transparência e poder. Somados aos aspectos de ordem mais política,
constituindo-se em elementos importantes do capital social de uma organização cooperati-
va, podem ser também contabilizados resultados sociais e culturais: solidariedade, identida-
de, comunicação, laços sociais, educação, aprendizagem, segurança econômica e social,
responsabilidade social, etc.

Enfim, essa relação de causa e efeito entre associativismo, organização cooperativa e


desenvolvimento local não se dá de modo tão mecânico, determinístico, decorrente de suas
atividades. No bom funcionamento de uma cooperativa existe a produção de efeitos positi-
vos e de influências sobre o desenvolvimento local. Essa relação de causa e efeito, no entan-
to, deve também ser assumida por uma decisão política a favor do desenvolvimento da co-
munidade de inserção. O reconhecimento da responsabilidade social do cooperativismo no
processo de desenvolvimento está expresso em seus princípios. Um dos princípios reconheci-
dos, hoje, é o da responsabilidade social com a comunidade de inserção.

Certamente um dos desafios maiores para a humanidade neste início do século 21 é


restabelecer o primado da política sobre a economia, do homem sobre o capital. A economia
cooperativa solidária parece conter essas possibilidades de reconstrução das relações eco-
nômicas entre os homens. As relações sociais de cooperação e de solidariedade são inerentes
à natureza humana. O movimento cooperativista procura fundamentar os princípios da or-
ganização cooperativa do trabalho, como produção e distribuição de riquezas, nessa con-
cepção de ser humano: um ator social cooperativo.

A economia cooperativa e solidária talvez possa vir a ser um novo espaço social, polí-
tico, cultural, de onde nasça uma nova proposta de sociedade que consiga abrigar os 80%
da população que têm acesso a 20% da riqueza produzida. Trata-se de construir um espaço
político de atuação sobre o presente em direção ao futuro das nações e dos povos.

60
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

Edgar Morin (1998, p. 350) afirma que “o horizonte deste fim de século nos parece
muito incerto” e, diante dessa sua visão de incertezas, levanta, ao mesmo tempo, a possibi-
lidade e a improbabilidade de duas hipóteses extremas: a da catástrofe e a da metamorfose
social que, no seu dizer, seria um novo nascimento da humanidade.

Alerta Edgar Morin (2000, p. 76) que “todos os humanos, desde o século vinte, vivem
os mesmos problemas fundamentais de vida e de morte e estão unidos na mesma comunida-
de de destino planetário”. A finitude geográfica e a vida de nosso planeta, a fragilidade de
nossas individualidades, no contexto da competição e das transformações em curso, im-
põem limites e orientações à ação do homem. Cada vez mais nossos espaços naturais e
sociais de vida são interdependentes. A solidariedade e a cooperação se mostram mais como
necessidades que como meras opções.

Afirma Morin (2000, p. 113) que “a partir do século XX, a comunidade de destino
terrestre impõe de modo vital a solidariedade”. Pierre Lévy (1999, p. 44), por sua vez, alerta
que “a riqueza das nações depende hoje da capacidade de pesquisa, de inovação, de apren-
dizado rápido e de cooperação ética de suas populações”.

Pierre Lévy, filósofo e sociólogo, dedicado ao estudo e interpretação dos tempos atuais,
mediante suas análises nos permite concluir pela importância do associativismo e do
cooperativismo no contexto das mudanças e transformações pelas quais passa a sociedade
moderna. Em suas análises da realidade social contemporânea, constata que

a evolução da técnica, o progresso da ciência, as turbulências geopolíticas e os elementos alea-


tórios dos mercados dissolvem os ofícios, pulverizam as comunidades, obrigam as regiões a se
transformar, as pessoas a se deslocar, mudar de lugar, de país, de costumes e de língua. A
desterritorialização muitas vezes fabrica a exclusão ou rompe os laços sociais. Quase sempre
confunde as identidades, pelo menos aquelas que fundavam sobre pertenças ou “ raízes”. Resul-
tam um terrível desajuste, uma imensa necessidade de coletivo, de laço, de reconhecimento e de
identidade (Lévy, 1999, p. 42).

Nesse contexto surge o desenvolvimento local como mecanismo e necessidade de rein-


tegração social. Essas afirmações e reflexões de Pierre Lévy nos permitem também retomar a
questão do associativismo, do cooperativismo, em plena globalização transformadora, pro-
porcionando discorrer sobre uma globalização cooperativa.

A globalização predominante hoje é a da competição, imposta de cima para baixo, e é


modelada pelos interesses corporativos das grandes empresas multinacionais e pelos inte-
resses geopolíticos dos países ricos e fortes. É possível, no entanto, perceber também uma
globalização cooperativa – nascida da finitude geográfica do planeta, das dificuldades de
inserção econômica pela competição, do desenvolvimento dos conhecimentos e de sua apli-

61
EaD Walter Frantz

cação às condições de vida. É uma globalização que deve ser construída por indivíduos e
sociedades que se tornam sujeitos ativos e conscientes, pessoal e coletivamente, do seu
próprio desenvolvimento.

Talvez esteja no espaço da cooperação – em termos de políticas econômicas, sociais e


ambientais – uma oportunidade de contribuição para a sobrevivência da humanidade que,
segundo Edgar Morin, estaria na encruzilhada por uma opção pela catástrofe ou pela trans-
formação de suas práticas destruidoras das condições de vida no planeta Terra. Talvez esteja
na cooperação uma nova oportunidade para o encaminhamento de soluções para tantos
problemas sociais que ainda nos acompanham ao final de tanto tempo de economia, funda-
da na concorrência e na individualidade, na racionalidade e nos interesses do capital.

O cooperativismo parece exercer uma especial atração quando são constatadas difi-
culdades socioeconômicas. Não se trata, entretanto, de um “ retorno no caminho” da histó-
ria da humanidade. Historicamente, podemos verificar que os homens se voltam aos meca-
nismos associativos e cooperativos para dar encaminhamento aos seus problemas de ordem
material, especialmente. Está em afirmação uma nova consciência a respeito dos fatos e dos
fenômenos sociais da atualidade, das instituições e organizações humanas, da natureza,
tais como: ecologia, meio ambiente, políticas públicas, economia de mercado, papel do Es-
tado, cooperação.

O associativismo e o cooperativismo representam, sem dúvida, modelos de organiza-


ções sociais mais justos para produzir e distribuir riquezas, especialmente em nossas socie-
dades latino-americanas. A organização cooperativa pode significar, em nossas condições,
estruturas e espaços de poder econômico e político mais próximos da população. Essa ca-
racterística do cooperativismo, porém, só pode ser alcançada e assegurada pela permanente
comunicação e educação de seus integrantes; pela qualificação de seus associados, dirigen-
tes e funcionários, e pela participação política e econômica de todos os associados na ela-
boração dos planos e execução dos projetos de suas cooperativas.

A organização cooperativa, como reação, deve conter a energia da liberdade, da ousa-


dia de construir alternativas, novos caminhos, privilegiando o homem e a economia do hu-
mano.

No contexto da globalização, no qual o trabalho, como núcleo da estrutura social,


sofre grandes transformações tecnológicas e organizativas, o cooperativismo como prática
econômica aparece, novamente, a exemplo de outros períodos difíceis da história do traba-
lho, como importante instrumento de articulação e de (re)integração da população nas es-
truturas sociais das comunidades e, especialmente, no processo de produção, a favor de
uma economia mais humana.

62
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

De acordo com Lévy (1999, p. 47),

nada é mais precioso que o humano. Ele é a fonte das outras riquezas, critério e portador vivo de
todo o valor. (...) É por isso que defendemos que é preciso ser economista do humano, que é bom
cultivá-lo, valorizá-lo, variá-lo e multiplicá-lo, e não esbanjá-lo, destruí-lo, esquecê-lo, deixá-lo
morrer por falta de cuidados e de reconhecimento.(...) É necessário igualmente forjar instrumen-
tos – conceitos, métodos, técnicas – que tornem sensível, mensurável, organizável, em suma,
praticável o progresso em direção a uma economia do humano 1 .

O desenvolvimento, como expressão de algo melhor, de progresso, implica mudanças


nas relações técnicas e nas relações sociais, no entanto, nas sociedades estratificadas, na
prática, os resultados do processo de desenvolvimento, como expressão de progresso, não
têm sido universalizados. A noção de progresso e a definição de desenvolvimento, em tais
sociedades, são mais condicionadas pela qualificação das relações técnicas, submetidas à
lógica do capital, que pelas relações sociais de produção e distribuição dos bens e das rique-
zas produzidas. Por isso, nessas circunstâncias, o desenvolvimento expressa um fenômeno
da vida humana que se vive como um imperativo ou como um desejo, uma esperança, de-
pendendo do lugar que se ocupa no contexto das relações sociais, portanto, como algo
muito diferente para uns e para outros.

Aos que buscam a viabilização da acumulação de seu capital investido o processo de


desenvolvimento torna-se um imperativo pela via do crescimento econômico. O sucesso da
acumulação constitui o núcleo desse desenvolvimento.

Aos que lutam por melhores condições de vida, o desenvolvimento é a materialização


de uma necessidade de seus corpos ou dos desejos de suas capacidades de transpor os limi-
tes das dificuldades naturais ou sociais da existência. No fundo, nessas dimensões pode-se
identificar um sentido de dominação ou de emancipação, respectivamente.

O que quer dizer tudo isso? Quer dizer que, nos espaços da existência individual e
social dos seres humanos, o processo de desenvolvimento tem significados diversos. Não é
a mesma coisa para todos. Os seres humanos ocupam lugares diversos no contexto das
relações sociais. No processo de desenvolvimento os seres humanos partem de lugares
diferentes, em direções diferentes. Quer dizer que não se trata de algo apenas objetivo,
com sentido comum, acima das individualidades ou das identidades do agrupamento soci-
al. Acima de tudo não se trata de algo essencialmente técnico, embora nas práticas do
processo de desenvolvimento as tecnologias, as operações técnicas, ao lado do conheci-
mento, das questões políticas, ocupem também um lugar importante. Não há neutralida-
de no campo da aplicação dos conhecimentos, das ciências. Nas atividades da aplicação

1
O grifo é nosso.

63
EaD Walter Frantz

dos conhecimentos desenvolvem-se relações de poder com relação à natureza e com rela-
ção aos homens: um processo de desenvolvimento pode ser caracterizado e avaliado a
partir dessas relações.

Na convivência dos seres humanos, no entanto, mesmo em sociedades estratificadas,


estes não produzem apenas relações contraditórias, de competição. Durkheim, citado por
Rodrigues (1978), faz referência às relações de solidariedade orgânica, de cooperação or-
gânica. Em projetos voltados ao desenvolvimento, fundados em participação, abertos ao
controle e avaliação da população-alvo, as diferenças de sentido tendem a ser menores. As
práticas democráticas conduzem a processos de desenvolvimento com bases políticas cada
vez mais comuns.

Afirma Hugo Assmann (1998, p. 28) que “a humanidade chegou numa encruzilhada
ético-política, e ao que tudo indica não encontrará saídas para a sua própria sobrevivência,
como espécie ameaçada por si mesma, enquanto não construir consensos sobre como in-
centivar conjuntamente nosso potencial de iniciativas e nossas frágeis predisposições à so-
lidariedade”. No lugar da competição como força do desenvolvimento recolocam-se os me-
canismos cooperativos.

De acordo com Marcos Arruda,

... a busca de identidade e de um sentido para a existência humana, no plano subjetivo, caminha
lado a lado com a busca de formas de organizar a economia e as trocas nacionais e internacio-
nais que promovam o ser humano, respondam às suas necessidades fundamentais, e gere um
equilíbrio dinâmico com o meio ambiente. Se espalha pelo mundo o sentimento sempre mais
enraizado de que o setor privado hegemônico não consegue gerar um mundo de bem estar e
felicidade para todos e cada um dos cidadãos, povos e nações.

Por outro lado, a tentativa de colocar nas mãos do Estado a hegemonia das decisões e o controle
total sobre a economia, a sociedade, também se provou historicamente inviável e indesejável
(1996, p. 5).

Diante disso, ainda na visão de Arruda,

... ganha enorme importância a praxis de um cooperativismo autônomo, autogestionário e soli-


dário, que inova no espaço da empresa-comunidade humana e também na relação de troca entre
os diversos agentes; (...) o associativismo e o cooperativismo autogestionários, transformados
em projeto estratégico, podem ser os meios mais adequados para a reestruturação da socio-
economia na nova era que se anuncia (1996, p. 8).

Hoje, penso estarmos sendo desafiados à construção de novos referenciais para nossa
atuação nesse mundo em transformação. Para a maioria da população se coloca o desafio
da construção de um novo projeto de sociedade. Para a maioria da população, é cada vez
mais seletivo o caminho da competição pelo mercado de concorrência capitalista. É cada

64
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

vez mais difícil a inserção na economia capitalista, diretamente. A economia capitalista


está cada vez mais fundada nas tecnologias de ponta e não no trabalho humano. A sobrevi-
vência das pequenas economias depende, sempre mais, de novas formas de organização, de
novas tecnologias de produção, de novos mecanismos de comercialização, de novos merca-
dos, porém menos dominados pela lógica dos interesses do capital.

A cooperação é um movimento que vai do lugar privado, individual, a um lugar co-


mum, coletivo, do qual nasce, portanto, uma dimensão pública. Toda a cooperação produz
um bem público. Esta é a mais implícita relação entre desenvolvimento local e associativismo.
Por isso, a organização cooperativa parece ser uma das expressões mais adequadas ao mo-
vimento de alternativa para a humanidade, diante da frustração e do fracasso dos grandes
sistemas. Para reconhecer essa possibilidade, porém, é fundamental que na organização
cooperativa se ofereça aos indivíduos o espaço da participação, da decisão solidária e res-
ponsável no encaminhamento da produção e distribuição das riquezas. É indispensável que
a política se sobreponha à economia pelo desenvolvimento de processos de participação,
pela constituição de sujeitos e atores sociais críticos e criativos, porém cooperativos. É pre-
ciso superar a globalização concorrencial em favor de uma globalização cooperativa.

Afirma Sachs (2001) que a globalização foi usada como pretexto para a liberalização,
em desfavor dos mais fracos, ao se impor regras iguais para situações desiguais. O autor
pede equidade nas relações internacionais: esse é o princípio que parece ter caído no esque-
cimento. O princípio da equidade deve ser recordado como fundamento das relações inter-
nacionais.

O autor conclui a sua reflexão sobre o crescimento econômico e o progresso social


com a seguinte observação:

Há cerca de sessenta anos, o desenvolvimento surgiu como uma idéia-força a orientar a recons-
trução do pós-guerra e, logo em seguida, o processo de descolonização – sem dúvida alguma, a
mais importante mudança geopolítica do século – para tornar-se, lado a lado com a preservação
da paz, a pedra-de-toque da filosofia de ação das Nações Unidas. Desafortunadamente, o hiato
entre a retórica e a realidade se alargou, em anos recentes, à medida que a difusão do evangelho
neoliberal ia conseguindo minar a própria credibilidade do conceito. No entanto, não apenas os
países em desenvolvimento do Sul, mas também os países industrializados do Norte, precisam
retomar o caminho do desenvolvimento, assegurando a expansão das liberdades positivas e
promovendo as “soluções que atendam às três frentes” (Sachs, 2001, p. 163).

Quais são essas três frentes? As frentes da sensibilidade social, da prudência ambiental
e da viabilidade econômica. O autor vê com otimismo essa possibilidade de se construir
soluções. Afirma ele (2001, p. 163) que “as condições materiais para nos encaminharmos
nessa direção são melhores que nunca”. No nosso entender, sob uma perspectiva também
otimista, pode-se perceber a possibilidade da construção de uma rede de responsabilidade

65
EaD Walter Frantz

social, de atuação social responsável, com dimensões globais, a partir do cooperativismo.


Uma nova economia social de mercado, tendo no cooperativismo seu fundamento cultural,
social e político, poderá ser a base para os novos caminhos tão necessários à humanidade.

Marcos Arruda (1996, p. 22) assim se posiciona:

O desafio do auto-desenvolvimento consiste em que cada pessoa, por meio da ação sobre o
mundo e os outros, por meio da educação, da pesquisa e da reflexão sobre si própria e suas
relações, se construa sempre mais sujeito consciente e ativo do seu próprio desenvolvimento.

Educar-se passa a ser assumir a responsabilidade de fazer progredir cada aspecto, qualidade,
atributo, faculdade, da própria pessoa, enquanto ser que só existe em relação com as várias
dimensões de si próprio, com o Outro – pessoas e coletividades – e com a Natureza.

Ainda de acordo com Arruda (p. 23), “na busca de auto-desenvolvimento da comuni-
dade, (...) há que estimular tanto o desabrochar das capacidades individuais quanto aque-
las que resultam da complementaridade e da sinergia gerada pelo pensar e agir em comum
dos participantes”.

Entre esses desafios pode-se incluir o reexame do princípio cooperativo nas relações
econômicas. Organizações cooperativas são fenômenos que nascem da articulação e da
associação de indivíduos que têm idênticos interesses ou necessidades, buscando o seu for-
talecimento pela instrumentalização, com vistas a objetivos e resultados, normalmente, de
ordem econômica. A cooperação é, em seu princípio constituinte, um acordo racional de
sujeitos sobre algo, isto é, a economia, e os seus interesses e necessidades ante a produção
e distribuição de bens e riquezas, no entanto contêm elementos sociais, culturais e políti-
cos, incorporados ao seu sentido econômico.

Nesse sentido, a organização cooperativa é um lugar privilegiado, podendo constituir-


se em um grupo criativo no processo de desenvolvimento de uma comunidade. A coopera-
ção tem como ponto de partida

a diversidade do conjunto de talentos, capacidades, competências que constituem a singularidade e a


criatividade de cada um. O método é colocá-las em comum, buscando construir laços solidários de
colaboração no interior da comunidade, de modo a desenvolver quanto possível os talentos, capacida-
des e competências coletivas.(...) Trata-se, como no caso de cada pessoa, de desenvolver a comunidade
no sentido de tornar-se sujeito consciente e ativo do seu próprio desenvolvimento” (Arruda,1996, p. 23).

É nesse processo criativo que se estabelecem os elos dinâmicos entre o desenvolvimen-


to local e o associativismo.

Penso que desse contexto podem nascer as possibilidades de um novo cooperativismo,


fortalecido pela avaliação crítica de suas práticas. Entendo a prática cooperativa como um
lugar social, a partir do qual os seres humanos se fazem sujeitos de seu próprio destino,

66
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

desde que não se desvie essa prática de sua razão: a economia do humano. O cooperativismo,
depois de muitas e diversas experiências, se revigora como prática social, especialmente no
campo da economia popular e, como problemática social, retorna ao espaço do debate teó-
rico da academia, da pesquisa.

A organização cooperativa pode ser um dos caminhos mais significativos de inserir


esforços pessoais e institucionais, no sentido do processo de desenvolvimento local ou
regional. É preciso ter consciência dessa relação e sentir-se comprometido, buscando-se
as práticas desse caminho. Por dentro da problemática do desenvolvimento cresce um de-
bate que se torna sempre mais crítico e profundo, base para novos conhecimentos e novas
práticas. No espaço da cooperação podemos encontrar um lugar social de educação e de
aprendizagem.

Aprendizagem os seres humanos obtêm, acima de tudo, a partir das dificuldades, das
contradições, inerentes às práticas do desenvolvimento e da cooperação. Nem o
cooperativismo e nem o processo de desenvolvimento são campos de concordâncias teóricas
ou práticas. São campos polêmicos e nisso não há nenhum problema. Os desafios que nas-
cem da problemática do desenvolvimento e da cooperação estão postos às diferentes ciênci-
as, à política, à economia, à cultura e à educação.

O fenômeno da associação, com o sentido de aproximação, identidade, solidariedade,


colaboração, cooperação, entre pessoas ou grupos sociais, pode-se estender do campo das
ideias até as práticas sociais, sejam elas práticas da cultura, da política ou da economia. No
conceito de associação está implícita a ideia de movimento em direção ao outro, no entanto
não é apenas um movimento de aproximação. No movimento de aproximação estão tam-
bém as experiências, as intenções, os interesses das pessoas que se aproximam. A associa-
ção é um movimento carregado pela intenção de quem se movimenta, de quem se aproxima,
daí o seu sentido social, pois a intenção vai em direção ao outro pela comunicação. Por isso,
a associação implica comunicação e diálogo. Os objetos da comunicação e do diálogo são,
pois, as intenções, os interesses das pessoas. Na base das intenções e interesses estão as
necessidades e os desejos. Pela comunicação se ajustam os interesses e as intenções das
pessoas. Na dinâmica da comunicação do processo associativo constrói-se a força e o senti-
do comum do movimento social de quem se aproxima e dos que se identificam. Assim sendo,
na identificação aglutina-se a força que se dinamiza pela comunicação. A ação comunica-
tiva como uma relação que, sem desrespeito às diferenças, dinamiza a aproximação, a coo-
peração das pessoas, conduz energia, força e produz ações de poder. Na associação, pela
comunicação, constrói-se poder de ação. Este se realiza, socialmente, pela cooperação
instrumentalizada e organizada.

67
EaD Walter Frantz

É interessante observar dados de uma pesquisa2 que realizamos com os associados da


Cooperativa Agropecuária & Industrial Ltda – Cotrijuí. Perguntados se a organização coo-
perativa representaria poder, força, 91,1% dos entrevistados responderam que sim, 5,7% res-
ponderam que apenas em parte e 3,2% responderam que não representa força ou poder. As
razões alegadas para essa compreensão se fundamentam em 60,6% no sentido associativo
da cooperativa, isto é, os associados percebem em suas relações associativas um poder de
ação. Trata-se de uma compreensão de associativismo com finalidade cooperativa, nesse
caso, no espaço da economia. Especialmente a economia de produzir, armazenar, industri-
alizar e comercializar produtos agrícolas.

O associativismo, com sentido cooperativo, é um fenômeno que pode ser observado


nos mais diferentes lugares sociais: na empresa, na família, na escola, na comunidade, etc.
Predominantemente, no entanto, a cooperação é entendida com sentido econômico e en-
volve a produção e a distribuição dos bens necessários à vida. Convém observar que, em si,
a cooperação é um fenômeno que pode também ocorrer entre agentes do crime, promovendo
atividades ilegais e contrárias aos interesses da sociedade e do bem público. Assim, a coope-
ração em si, como fenômeno social, precisa ser avaliada pela dimensão de seu sentido, pelo
significado social do processo cooperativo. Aqui, consideramos os fenômenos associativos e
cooperativos sob o aspecto da inclusão social e do bem público que, como tais, se traduzem
em desenvolvimento local.

Sob essa ótica compreensiva, o desenvolvimento local é resultado de um processo po-


lítico. Isso amplia e complexifica a dimensão do processo. Por exemplo, não permite confun-
dir desenvolvimento local com a instalação de um empreendimento econômico, de uma
empresa, de uma iniciativa econômica, tendo sua centralidade em um produto. Certamente
isso pode e deve fazer parte do processo de desenvolvimento local, no entanto a questão é
mais complexa.

Para introduzir uma reflexão sobre desenvolvimento local talvez seja conveniente ques-
tionar sobre o próprio sentido do termo local. Esta palavra implica, inicialmente, a noção de
espaço geográfico e encerra a ideia de limite, de proximidade física. Em se tratando de pro-
ximidade de pessoas, a noção geográfica passa a ter sentido sociológico. O espaço geográ-
fico passa a ser um local de encontro, de aproximação, de identidade cultural, em termos de
valores e comportamentos. Aproxima-se da noção de comunidade. Nessa dimensão, o local
e o associativo se entrelaçam como fenômenos’ sociais. Novos significados são construídos.
Nesse sentido, o termo local parece dar mais ênfase às pessoas que às organizações. Adquire
um sentido político. O sentido político da valorização e do desenvolvimento desses aspectos
“locais” deve ser a inclusão social, o bem público na comunidade.

2
Pesquisa realizada em 2000/2001 com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs).

68
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

É comum, no entanto, o termo “local” vir associado não só a pequenos espaços geo-
gráficos, mas também a um determinado ambiente cultural, a um lugar de vida, de econo-
mia menos complexa, mas não necessariamente menos desafiadora ou problemática. O ter-
mo “local”, muitas vezes, vem associado ao mundo rural, seja em termos de cultura ou de
economia.

Markus Brose (1999, p. 49) afirma que a compreensão do que seja desenvolvimento
local “surge do entendimento de que o meio rural, exatamente por não ser apenas agrícola,
engloba também as pequenas cidades que apesar de constituírem o espaço urbano, estão,
via de regra, essencialmente, ligadas ao meio rural, dele dependendo para sobreviver e para
ele prestando todo tipo de serviços”. Brose faz uma relação entre local e rural. Na definição
do que seja desenvolvimento local aproxima Economia, Geografia física e Geografia social.
Nessa relação introduz conceitos sociais e físicos, introduz a noção de proximidade, a di-
mensão de tamanho. A noção de local contém a ideia de proximidade física e social. Desen-
volvimento local é produto da relação desses conceitos e dimensões, portanto um conceito
relativo, flexível e elástico. Brose cita como indicadores do desenvolvimento local:

• a manutenção e a criação de postos de trabalho;

• o início de novas atividades econômicas;

• a pluralidade na agricultura familiar;

• a estabilidade na renda familiar;

• a manutenção de uma paisagem rural equilibrada;

• a ativa participação da população nas decisões nos seus espaços econômicos;

• as novas formas de gestão pública.

Sergio C. Buarque (2002, p. 25) conceitua desenvolvimento local “como um processo


endógeno de mudança, que leva ao dinamismo econômico e à melhoria da qualidade de
vida da população em pequenas unidades territoriais e agrupamentos humanos”. Assim,
por desenvolvimento local pode-se entender a melhoria das condições locais de vida de uma
população, em todas as suas dimensões. O desenvolvimento é um processo fundado em
relações associativas que conduzem à “participação da população nas decisões nos seus
espaços econômicos” (Brose, 1999, p. 49). Sob esse aspecto existem relações de causa e
efeito entre o associativismo, a cooperação e o desenvolvimento local.

Potencialmente, o associativismo e a cooperação podem induzir ao desenvolvimento


local, principalmente quando as organizações cooperativas garantem espaço à participação
dos associados, não apenas na parte econômica, mas também estimulam o crescimento
cultural e político dos associados. Aqui se entende o político como a capacidade de partici-

69
EaD Walter Frantz

pação, de construção e de compreensão dos espaços públicos em uma comunidade. O con-


ceito de política está relacionado com a capacidade de reação das pessoas diante dos pro-
blemas e desafios da vida. Por isso, o associativismo e a organização cooperativa também
têm um sentido político. Na mesma pesquisa citada anteriormente, 46,9% dos associados
definiram a sua compreensão de cooperativismo a partir do campo político, isto é, associativo.

Enfim, entende-se por política a responsabilidade social com o meio ambiente e a


ecologia, que se traduz em melhoria de qualidade de vida: vida em todos os sentidos da
existência humana. O desenvolvimento é um fenômeno da existência humana. As preocu-
pações com a vida encerram questões da cultura, da política e da economia. O desenvolvi-
mento local ganha aqui a sua importância: pode-se aceitar a ideia que seja um processo
mais perto da vida e das pessoas. É algo que está mais para as pessoas que para outras
coisas. O processo do desenvolvimento de uma pessoa, comunidade, região ou país passa
por questões como valores e comportamentos, diante da natureza e da sociedade, relações
sociais na economia, responsabilidade social na política, empenho na qualificação, etc. A
recuperação ou a afirmação dessas dimensões do desenvolvimento é algo que ainda está em
construção, seja na prática ou nas concepções teóricas. Cada vez mais, no entanto, perce-
bidas como desafios a todos.

O desenvolvimento é um fenômeno social que contém um “movimento em direção ao


melhor ” e o associativismo expressa a relação entre indivíduos com interesses comuns na
busca de uma melhor qualidade de vida. Indivíduos se associam a partir de interesses co-
muns que podem desencadear ações de cooperação com reflexo no desenvolvimento local.
O desenvolvimento local emerge como o efeito das relações de cooperação, especialmente
no campo da economia e da preservação ambiental.

Indivíduos se associam em razão de algo que têm em comum. A associação expressa


uma relação dinâmica, uma relação em movimento, em direção a um lugar melhor pela coo-
peração. Nesse movimento social vai-se da associação à cooperação, pela organização, com
vistas à instituição de ações, visando à concretização dos interesses comuns. A associação
cooperativa é entendida como um movimento que vai do lugar privado, individual, a um lugar
comum, coletivo. Este é o sentido político do processo, do qual nascem as organizações coo-
perativas. Assim, o sentido político da associação sobrepõe-se ao operacional da organização.

Os efeitos sociais das ações cooperativas são mais amplos que os objetivos dos
cooperantes. Sob essa dimensão a cooperação produz um bem público. A cooperação sem-
pre produz um bem público, ela revela uma dimensão pública. Esta é a mais implícita e
primeira relação entre desenvolvimento local, associativismo e cooperação. Os efeitos da
cooperação podem, inclusive, interessar aos não associados em uma comunidade. Traduz-
se em efeitos que podem ir da cultura à economia.

70
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

Pela presente reflexão sobre desenvolvimento local, associativismo e cooperação, pro-


cura-se investigar possíveis relações entre as práticas desses fenômenos sociais. Na verdade,
trata-se de temas conhecidos e práticas velhas, mas com abordagem sob novo ângulo de
discussão. Em que consistem o velho e o novo? Consistem na certeza e na incerteza, no
absoluto e no relativo, no autoritário e no diálogo, na obediência e na participação.

Trata-se de fenômenos sociais, dos quais o desenvolvimento contém um “movimento


em direção ao melhor ” e o associativismo e o cooperativismo, como movimentos, apresen-
tam uma relação de indivíduos com interesses comuns. Estão numa relação de causa e
efeito: potencialmente, as práticas do associativismo e da cooperação contêm o desenvolvi-
mento local.

Para atuar sobre o desenvolvimento, mesmo que local, antes de tudo é necessário que
se compreenda o que está ocorrendo no mundo contemporâneo. No processo das transfor-
mações em curso não existe uma ruptura entre o local e o global. O que existe, segundo
Becker e Bandeira (2000, p. 13), é

uma tendência de passagem das megadecisões, das macropolíticas, dos grandes projetos de
desenvolvimento como forma predominante para uma crescente participação das micro e
mesodecisões, micro e mesopolíticas e dos pequenos e mesoprojetos, que levam à definição e
constituição de múltiplas formas de inserção subordinada ou autônoma de cada lugar no proces-
so global de desenvolvimento.

Para que seja uma inserção autônoma é preciso descobrir-se, nesse contexto, como
ator social, como sujeito, e conhecer o lugar que nele se ocupa e quais as possibilidades de
ações concretas. É preciso construir espaços comuns para essas ações, e esta é uma decisão
política dos sujeitos. A construção desses espaços, por consequência, dá-se em bases
associativas e as organizações cooperativas são um modelo ideal para a instrumentalização
de ações concretas. Entre a ação cooperativa e o desenvolvimento local existe uma relação
potencial de causa e efeito entrelaçando as duas práticas.

Especialmente no pensamento da cultura política, todavia, a competição emerge


como elemento básico do processo de desenvolvimento. Quem já não ouviu falar que de-
vemos ser mais bem preparados para a competição? Quando se trata de competir, ficamos
sempre muito atentos com as exigências e os desafios que resultam dessa situação. Sob
esse aspecto, existem relações de causa e efeito entre o associativismo e o desenvolvimen-
to local. Potencialmente, o associativismo contém o desenvolvimento local. Por desenvol-
vimento local entendemos a melhoria das condições de vida de uma população, em todas
as suas dimensões. O desenvolvimento, desse modo, é um processo fundado em relações
sociais associativas.

71
EaD Walter Frantz

As preocupações perpassam todos os estágios de preparo e participação do processo


competitivo. Ninguém duvida da necessidade da educação para a competição, porém o de-
senvolvimento é um processo também fundado em relações sociais associativas, das quais
podem nascer formas cooperativas. A organização para o desenvolvimento tem seus funda-
mentos na associação de todos aqueles que se constituem os sujeitos desse processo. Na
identificação e na prática dessas relações está, certamente, hoje, um dos maiores desafios,
diante da noção do senso comum sobre a importância e a função da competição. É preciso
reverter o mito da competição que está entranhado na cultura e no pensamento político da
maioria das pessoas.

Na realidade da economia de mercado não existem apenas os aspectos competitivos.


Muitos são os fatores associativos em empreendimentos econômicos e que podem sustentar
organizações cooperativas. De acordo com Kliksberg (2001, p. 109), na nova discussão so-
bre o desenvolvimento existe a necessidade de captar a complexidade da realidade social. O
associativismo faz parte dessa complexidade da realidade social. É possível que se possa
recuperar, pelo associativismo, o conceito e a prática de mercado, aprisionado e submetido
à lógica do capital.

Segundo Armando de Melo Lisboa (2001, p. 48), “a pretensão de eliminar completa-


mente o mercado, instituição social anterior ao capitalismo, foi uma das maiores estupide-
zes do velho socialismo que se esvazia. Um dos desafios contemporâneos é construir merca-
dos socialmente controlados”.

Em síntese, pode-se aceitar a ideia de que a prática da cooperação fundamenta e ins-


taura relações de mercado, quando controladas pela organização associativa de seus ato-
res, isto é, pelo trabalho humano, com sentido e efeitos sociais mais amplos que a concor-
rência e a individualidade.

72
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

Unidade 5

RECAPITULANDO:
Enfoques Teóricos Sobre Desenvolvimento
Como já foi mencionado, existem diferentes teorias a respeito do desenvolvimento,
isto é, diferentes opiniões e ideias com relação ao fenômeno do desenvolvimento das socie-
dades. Teorias procuram explicar fenômenos.

Assim, temos as teorias desenvolvimentistas, as teorias dualistas, as teorias de inspira-


ção positivista ou marxista. Sob o enfoque das abordagens teóricas desenvolvimentistas e
dualistas o desenvolvimento aparece como um alvo a ser alcançado, portanto um estágio de
um processo natural que se alcança pela mudança social. As teorias desenvolvimentistas
guardam em sua base a ideia do evolucionismo, isto é, de que as sociedades se desenvolvem
seguindo um determinado caminho social predeterminado, de forma lenta e contínua, pas-
sando por diferentes estágios até atingirem a fase industrial. As teorias dualistas aceitam a
ideia da coexistência de duas estruturas sociais: uma “desenvolvida” e outra “atrasada”. As
estruturas “atrasadas” se modificam e transformam, atingindo estas o desenvolvimento a
partir de um contato com a estrutura “desenvolvida” e da sua influência sobre elas.

Temos as explicações sociológicas do desenvolvimento, fundadas nas abordagens teó-


ricas de Marx e Weber, os quais incorporam aspectos da história as suas explicações de
desenvolvimento da sociedade. Marx explica o desenvolvimento da sociedade a partir do
materialismo dialético, isto é, das contradições sociais inerentes.

O desenvolvimento é um fenômeno que acontece de modo diverso, fundado em causas


e impulsos diversos. Historicamente é possível identificar a influência de alguns aspectos
históricos importantes, por exemplo, no processo de desenvolvimento econômico de países
centrais:

• Papel do Estado: investimento e protecionismo.

• Reforma agrária.

• Mercados cativos (ex-colônias).

• Relações comerciais crescentes: pela guerra, pela paz.

• Continuidade de governos.

• Investimentos em educação.

73
EaD Walter Frantz

A ideia da modernização via industrialização por longo tempo dominou a discussão


histórica sobre desenvolvimento. A partir dessa discussão foram desenvolvidas diferentes
teorias. O núcleo das teorias da modernização defende a ideia de que existem países atrasa-
dos que ainda não venceram as etapas de um desenvolvimento que tem como base a indus-
trialização e que existem países que já percorreram essas etapas. O desenvolvimento de uma
nação dependeria, portanto, do percurso dessas etapas. Uma política voltada ao desenvolvi-
mento deveria promover a integração entre as regiões atrasadas e as desenvolvidas por meio
de relações econômicas – mercado. Sob essa ótica Rostow escreveu seu livro Etapas do De-
senvolvimento Econômico.

Especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, com a preocupação de promover


o desenvolvimento, passou-se a discutir sobre a inserção das economias periféricas na eco-
nomia mundial, tendo como foco a modernização de suas estruturas produtivas. Ampliou-
se o horizonte da discussão, até então orientada pelo debate sobre crescimento econômico,
embora condição necessária, mas insuficiente para a promoção do progresso social, enten-
dido este como resultado do “acesso universal à educação, liberdades civis e participação
política” e não apenas “pela satisfação de necessidades básicas, tais como nutrição, saúde
e habitação”. A discussão passou do debate sobre a “superação da pobreza absoluta” à
discussão sobre a “superação da pobreza ou privação relativa” (Bernstein, 1996, p. 197).

Essas preocupações, evidentemente, conduziram à consideração de aspectos cultu-


rais, educacionais, políticos, inerentes às sociedades das economias periféricas. Isto é, pas-
saram a ser alvo de discussão também aspectos internos a essas sociedades, não restritos ao
campo da economia e às relações econômicas entre as nações. Até então a discussão passa-
ra pelas relações econômicas entre as nações, ou seja, entre as economias colonizadas – do
assim chamado Terceiro Mundo ou países “subdesenvolvidos” – e as economias industriali-
zadas, isto é, dos países “desenvolvidos”. Uma das referências dessa discussão é a teoria
econômica das vantagens comparativas, de David Ricardo. A ideia central dessa teoria é a
de que um país deveria especializar-se em produzir aquilo que lhe permitisse uma vantagem
comparativa de custos em relação aos outros. No caso, aos países da América Latina cabe-
ria produzir alimentos e matérias-primas que pudessem ser trocados por produtos industria-
lizados (Bielschowsky, 2000). Essa discussão sobre vantagens comparativas, evidentemen-
te, tinha suas raízes no debate sobre as relações colonialistas que se haviam afirmado entre
as nações. Pode-se concluir, portanto, que as teorias da modernização têm suas raízes histó-
ricas nesse debate sobre as relações econômicas colonialistas.

O colonialismo se caracteriza pela ocupação, pela força e por longo prazo, por parte
de um país, denominado metrópole, de outro país ou de um território, denominado de colô-
nia. Historicamente, essa relação de ocupação foi muito praticada pela Europa e, mais tar-
de, pelos Estados Unidos, na África, América Latina ou Ásia. O período colonial do final do

74
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

século 19 e início do século 20 passou a ser conhecido por “era do imperialismo”, quando o
esforço por conquistar colônias atingiu o seu auge. Várias teorias, buscando explicar as
causas que levavam as nações industrializadas à conquista de colônias, foram apresenta-
das à época.

Segundo os autores dessas teorizações, “nesse estágio tardio da evolução capitalista,


o controle do capital estava se concentrando cada vez mais em poucas mãos, o que deixava
muito pouco poder de compra no mercado interno para os bens que podiam ser produzidos.
Devido a essa baixa de consumo, o capital começava a ser exportado, em vez de investido
no seu próprio país, e em regiões subdesenvolvidas, que podiam conter valiosas matérias-
primas, esse capital precisava da proteção de um governo colonial” (Kiernam, 1996, p. 102).
Para isso, em muitas regiões foram instituídos governos, de fora para dentro – caso da África
– e, em outras regiões, governos locais foram cooptados – caso da América Latina (Fernandes,
1975).

Os motivos do colonialismo, portanto, eram econômicos: necessidade de matérias-pri-


mas para as fábricas dos países colonialistas e de mercados para os seus produtos. Por via do
colonialismo foram construídas relações de dependência, nos campos da política, da econo-
mia e da cultura. A Segunda Guerra Mundial representou, na prática, um golpe final para
o colonialismo. A descolonização, porém, não significou independência, especialmente no
campo da economia. As relações de dependência construídas foram, inclusive, aprofundadas.

No contexto do debate sobre as relações econômicas colonialistas foram desenvolvi-


das as chamadas teorias imperialistas, que procuravam dar conta do desenvolvimento do
capitalismo mundial, isto é, procuravam explicar as relações colonialistas entre as nações.
Por isso, esse debate guarda uma importância como referência histórica em relação às expli-
cações teóricas, posteriores, sobre desenvolvimento (modernização e dependência): a for-
mação de “bolsões”, setores, infraestrutura ou enclaves “desenvolvidos”, oriundos da expor-
tação de capital para suprir as necessidades das metrópoles.

O conceito de imperialismo começou a ser usado, especialmente, para tratar do desen-


volvimento do capitalismo mundial, envolvido em lutas por territórios, matérias-primas e
mercados, estabelecendo-se um conflito entre as grandes potências capitalistas. A Primeira
Guerra Mundial, especialmente, pode ser interpretada como uma consequência dessa fase
de ambições e disputas imperialistas (Hobsbawm, 1995).

Os teóricos de esquerda, especialmente, passaram a usar o conceito como categoria


central de suas análises sobre as relações dos países centrais capitalistas industrializados
com os países periféricos independentes, principalmente das ex-colônias ou das próprias
colônias. O pensamento liberal, no entanto, deu menos importância ao conceito. Afirma

75
EaD Walter Frantz

Arrighi (1997, p. 380) que “as teorias marxistas do imperialismo tinham uma tese/hipótese
em comum: o imperialismo era o resultado do desenvolvimento capitalista e uma expressão
da sua maturidade”.

Entre as principais contribuições teóricas que procuram explicar as relações imperia-


listas, ao final do século 19 e início do 20, estão as explicações de Lenin e Rosa Luxemburgo.
Para Lenin os elementos básicos que caracterizam o imperialismo são a formação de mono-
pólios e a exportação de capital, com a finalidade de garantir a maximização de lucros em
um mundo dividido em esferas de influência por parte das metrópoles. A ação imperialista,
portanto, está relacionada à concorrência entre os capitais das diferentes nações do capita-
lismo desenvolvido pelo acesso a matérias-primas e, assim, à possibilidade de maiores lucros
na relação comercial com as colônias. Rosa Luxemburgo tem como tese explicativa do im-
perialismo o subconsumo. Isto é, para ela o comércio com regiões “subdesenvolvidas” é
importante para evitar crises de superprodução nas metrópoles e o desmoronamento do sis-
tema capitalista em si. As nações colonizadas e as dos países exportadores de matérias-
primas seriam, por isso, também garantia como mercados consumidores (Wöhlcke et al, 1977).
Os grandes conflitos mundiais, no entanto, levaram a alterações estratégicas da expansão
capitalista. O quadro das relações internacionais sofreu alterações estratégicas. Isso provo-
ca também a necessidade de novas explicações, por parte das Ciências Sociais.

Depois de 1945 o mapa internacional foi redesenhado por movimentos anti-colonialistas e pelo
fim do império colonial, bem como pela hegemonia dos Estados Unidos no mundo capitalista e
sua rivalidade com a União soviética na busca de aliados entre os estados independentes da Ásia
e da África. Neste contexto global, o desenvolvimento no sentido transformador e transitivo [...]
tornou-se um objetivo maior de governos e de organismos internacionais [...] e surgiu, nas ciên-
cias sociais, como um campo de especialização (Bernstein, 1996, p. 197).

Ainda que de modo abreviado, as Grandes Guerras e a crise econômica de 1929 podem
ser vistas como contexto de ruptura e dissociação das economias colonizadas, do cenário
econômico mundial. Esses acontecimentos levaram as economias imperialistas a se ocupa-
rem consigo mesmas, prioritariamente. É importante, aqui, lembrar que algumas economias
terceiro-mundistas, especialmente no espaço do período entre as duas guerras mundiais, por
força das circunstâncias, desenvolveram certos setores por meio da assim chamada política
de “substituição nacionalista de importações”, isto é, pela produção de mercadorias em
seus países, que antes eram importadas dos países industrializados e buscavam consolidar
um caminho para o desenvolvimento. Desse modo, então, ocorreu uma industrialização,
somando-se estruturas da fase agroexportadora com as atividades da “substituição nacio-
nalista de importações”, promovida por capitais nacionais. Vale lembrar que algumas eco-
nomias periféricas haviam construído estruturas industriais de apoio às atividades de expor-
tação, em períodos anteriores, e, ao final da Primeira Guerra Mundial, haviam também po-

76
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

dido ampliar e melhorar suas estruturas produtivas como efeitos de uma política de desvalo-
rização cambial. Isto é, as importações tornavam-se mais caras e isso favorecia a indústria
local. Isso, sem dúvida, favorecia as políticas nacionalistas de industrialização, sob controle
das elites dos capitais nacionais.

Vencidos os problemas e refeitas as forças, porém, necessidades e os interesses das


economias centrais do capitalismo industrial desencadearam uma política de esforços de
reintegração das economias periféricas, do assim denominado Terceiro Mundo, pela moder-
nização de importantes setores de suas estruturas produtivas. A reintegração, porém, agora,
acontecia pelo caminho da associação de capitais nacionais e estrangeiros. As economias
periféricas passavam a ser integradas ao contexto das economias centrais pela industriali-
zação nacional, associada a capitais estrangeiros. Nasce uma nova forma de dependência,
em meio a uma modernização das estruturas produtivas, tendo como motor a industrializa-
ção local, ainda que dependente. O desenvolvimento econômico passava a depender de
finanças e tecnologias externas. Ao mesmo tempo, iniciava-se também um processo rápido
de urbanização nessas sociedades de economias em desenvolvimento, pressionando à alte-
ração das velhas estruturas sociais.

Os novos esforços de modernização expressavam uma aliança entre os interesses de


elites econômicas nacionais com os interesses de investidores estrangeiros, isto é, com o
capital estrangeiro, porém, ainda, com diferentes identificações nacionais. Essa aliança pro-
duziu o modelo periférico de “desenvolvimento associado”, somando-se capitais nacionais
e estrangeiros. Constituem-se, por consequência, novos núcleos de poder com reflexos na
cultura, na educação, na política, etc. Uma pressão pelo afastamento de políticos ou gover-
nos nacionalistas começa a tomar corpo. O modelo do desenvolvimento dependente associ-
ado teve seus reflexos também no campo da política, configurando-se novas bases de sus-
tentação das suas estruturas.

Nesse contexto histórico, nascem diferentes teorias de modernização1 que buscam


explicar como, por que e de que forma esse desenvolvimento associado pode contribuir ao
progresso econômico e social, nas periferias. Existem, portanto, diferentes posições teóricas
com relação ao processo do desenvolvimento, embora todas tenham a modernização como
caminho. Pode-se dizer que temos certas “matrizes de pensamento econômico” sobre os
caminhos que levariam ao desenvolvimento pela modernização, tais como a teoria dos está-
gios de crescimento econômico de W. W. Rostow e a teoria desarrollista de pensadores sociais
latinoamericanos como Raúl Prebisch, Aníbal Pinto e Jan Kñakal.

1
As teorias de modernização, de modo geral, “formulam o desenvolvimento como um processo de difusão, adoção e adaptação, a partir
de um ambiente externo favorável, e explicam o subdesenvolvimento através de barreiras da tradição que são intrínsecas aos países
pobres” (Bernstein, 1996, p. 198).

77
EaD Walter Frantz

As abordagens de Rostow, um clássico do pensamento econômico conservador tradici-


onal, são uma referência para o debate sobre modernização e desenvolvimento logo após a
Segunda Guerra Mundial, a partir das economias industrializadas. Na América Latina, no
entanto, nesta época, ganhou importância o debate promovido pela Comissão Econômica
para a América Latina e o Caribe – Cepal,2 que levou a uma conceituação denominada de
“teoria desarrollista”, suporte teórico de políticas desenvolvimentistas nacionais (Wöhlcke
et al, 1977).

Uma das teorias da modernização mais conhecidas – a teoria dualista – defende a ideia
de que existem estruturas socioeconômicas dissociadas nos países do terceiro mundo – ainda
não desenvolvidos – de tal modo que um setor não tem nada a ver com o outro ou tem apenas
relações muito limitadas. Em consequência disso, apresentam setores com diferentes estágios
de desenvolvimento e sem influência mútua. É preciso integrar esses setores. A organização
de relações econômicas modernas via mercado abriria caminho ao desenvolvimento.

O processo de desenvolvimento é entendido como uma penetração muito linear do modo de


produção capitalista em setores vistos como “pré-capitalistas”. Assim, os países do terceiro mun-
do se encontrariam em fase de transição do subdesenvolvimento para o desenvolvimento, repe-
tindo, de certa forma, o desenvolvimento das nações industrializadas hodiernas (Wöhlcke et al,
1977, p. 8).

A política desenvolvimentista – “teoria desarrollista” – decorre do esforço pela moder-


nização, na América Latina, pela combinação otimizada de fatores internos e externos de
desenvolvimento, com o objetivo de sustentar uma sociedade economicamente dinâmica,
progressista em termos sociais, burguês-democrática, porém populista. Sua orientação es-
tratégica de desenvolvimento estava orientada para dentro, isto é, procurava dinamizar os
setores econômicos internos da sociedade de modo a superar a situação dualista. Visava a
um processo de desenvolvimento autocentrado, de condução nacional. A dinâmica do de-
senvolvimento deveria primeiramente ser suportada pelo setor industrial, a ser ampliado
nessa segunda fase (dependente) da substituição de importações. “No plano da prática po-
lítica, essa concepção chamava-se de ‘desarrollismo hacia adentro’; previa uma subordina-
ção da dinâmica exógena de desenvolvimento a objetivos internos de desenvolvimento, sen-
do que o suporte nacional do desenvolvimento deveria gradativamente substituir o impulso
estrangeiro” (Wöhlcke et al, 1977, p. 9).

Com os impasses gerados pela modernização, em meados da década de 60, nasceu a


preocupação política e teórica por uma alternativa à teoria da modernização. A teoria da
dependência nasce no berço desse impasse social, político, teórico e econômico, em busca

2
No componente curricular Sociologia do Desenvolvimento II, as abordagens da Cepal serão objeto específico de estudo.

78
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

da superação do debate sobre o problema da modernização. As suas maiores contribuições


teóricas vieram da América Latina com a denominação de teoria da dependência. Existem
várias explicações teóricas nesse sentido, que têm em comum “a noção de que a dependên-
cia é importante, embora não único, fator para a explicação de subdesenvolvimento e que
desenvolvimento e subdesenvolvimento representam processos sincrônicos, entrelaçados”
(Wöhlcke et al, 1977, p. 14).

A teoria da dependência propõe uma explicação: o desenvolvimento nos países perifé-


ricos acontece pela relação dependente que estes têm com o capital internacional e não
mais pela substituição de importações de produtos estratégicos. Grupos internacionais, con-
trários à substituição das importações, passam a ser favoráveis à industrialização da perife-
ria, porém pela via da relação dependente, isto é, grupos internacionais instalam-se na pe-
riferia, o capital nacional se associa. Daí a denominação de modelo de desenvolvimento
associado dependente. A economia se internacionaliza, sob a política de controle e do pla-
nejamento nacional, distinguindo-se do processo da globalização.

De acordo com Fiori (2005, p. 1), a questão central da discussão sobre dependência
“sempre foram as relações concretas entre o desenvolvimento capitalista industrial tardio e
periférico da América Latina (sobretudo) e o avanço da acumulação capitalista nos países
centrais (...)”. A partir dessas preocupações, os seus teóricos “procuraram estudar a forma
peculiar que assumiam, fora dos centros originários do capitalismo, as relações entre as
classes, as ideologias e o manejo concreto do poder dos Estados e de suas políticas públi-
cas”. No estudo desses aspectos está o seu caráter sociológico.

Afirma Fiori (2005, p. 4) que as crises econômicas internacionais estão a mostrar “que
hoje, ainda mais do que nos anos sessenta, os espaços econômicos nacionais encontram-se
integrados e dependentes da dinâmica do capitalismo mundial ditada por seus principais
centros de decisão”. Diz o autor (p. 4) que, pouco a pouco, pelos debates, seja na academia
ou na política, vai-se “ redescobrindo o ponto central das preocupações do que alguns che-
garam a chamar de “teoria da dependência”.

O conceito de globalização “procura dar conta de uma nova ‘formatação’ capitalista


gerada nas últimas décadas pelo incessante processo de acumulação e internacionalização
dos capitais. (...) esta nova ‘formatação’ econômica, envolve aspectos e dimensões
tecnológicas, organizacionais, políticas, comerciais e financeiras que se relacionam de ma-
neira dinâmica gerando uma reorganização espacial da atividade econômica e uma claríssima
re-hierarquização de seus centros decisórios” (p. 4).

A discussão sobre dependência, entretanto, será aprofundada na segunda etapa deste


componente curricular sobre Sociologia do Desenvolvimento.

79
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

Considerações Finais

Tantas vezes já ouvimos falar que vivemos em uma época de crise, entendida esta
como a manifestação de certezas abaladas. Como tal, não se trata de uma crise destruidora,
mas de uma “destruição criadora”, da qual brota energia para algo novo. Essa crise também
atravessa as questões da cooperação e do desenvolvimento, refletindo-se em suas próprias
conceituações divergentes, porém com uma convergência comum. Desenvolvimento e coo-
peração passam a ser entendidos, cada vez por mais pessoas, como fenômenos complexos
que não envolvem apenas crescimento econômico. O desenvolvimento econômico não dei-
xa de implicar também crescimento da economia. O fundamento das práticas cooperativas é
a economia, como capacidade de produção e poder de distribuição de seus resultados. A
questão central parece não ser a negação dessa relação entre crescimento econômico e
desenvolvimento social, mas o questionamento da redução dos dois fenômenos a uma rela-
ção de certeza. O crescimento, promovido pela lógica da acumulação do capital – o lucro –
, sem levar em consideração os demais aspectos da produção e distribuição de bens e rique-
zas, está sendo, cada vez mais questionado como caminho para a sustentabilidade social e
ambiental.

Segundo Touraine (1998, p. 10) “a afirmação de que o progresso é o caminho para a


abundância, a liberdade e a felicidade e que estes três objetivos estão fortemente ligados
entre si, nada mais é que uma ideologia constantemente desmentida pela história”.

A economia de mercado capitalista se afirmou e consolidou como mecanismo de coor-


denação da produção e da distribuição da produção. Constituiu-se em sistema hegemônico
da economia contemporânea. Existem, no entanto, flagrantes sinais de crise, especialmente
diante das dificuldades ambientais e sociais relativas à produção e distribuição de bens e
mercadorias. Os limites do meio ambiente e dos recursos da natureza, o acirramento da
competição, o aprofundamento da concentração de capitais, o excesso de produção, em
contradição com a exclusão econômica e social de grande parcela da população, os desafios
da sustentabilidade políti ca e da segurança do sistema, fazem nascer críticas e
questionamentos, cada vez mais fortes, com relação à lógica da economia capitalista.

Morin, sociólogo francês, referindo-se ao mundo contemporâneo, afirma que a huma-


nidade vive um horizonte incerto. Diante dessa sua visão de incertezas, levanta, ao mesmo
tempo, a possibilidade e a improbabilidade de duas hipóteses extremas: a da catástrofe e a da
metamorfose social. Esta, contraposta à catástrofe, no seu dizer, seria um novo nascimento
da humanidade (Morin, 1998, p. 350).

81
EaD Walter Frantz

Pode-se dizer que, sob certos aspectos, hoje, a humanidade está de posse de conheci-
mento científico e técnico suficiente para executar qualquer uma dessas hipóteses. A opção,
porém, por realizá-lo ou não, ou mesmo deixá-lo acontecer, passa, certamente, também,
pelo campo da economia, da política, da cultura, da moral e da ética e da educação. Da
capacidade de organização e de reação, diante dos desafios, nascem as oportunidades de
desenvolvimento.

O desenvolvimento é um fenômeno social complexo no qual todos os seres humanos


estão inseridos, de um modo positivo ou negativo. Abarca todos os sentidos da vida e cuja
realidade desafia a todas as áreas do conhecimento humano. Envolver-se com a busca do
entendimento e a própria prática de um projeto de desenvolvimento exige a capacidade de ir
além das áreas específicas da formação profissional de cada um. Exige a capacidade da
busca permanente do conhecimento.

Por ser o desenvolvimento um fenômeno social, começa com os indivíduos envolvidos. É


um fenômeno que, por isso mesmo, também tem a ver com a formação de cada um e com os
seus valores. É um produto da formação, isto é, entre a formação dos cidadãos e o desenvolvi-
mento de uma sociedade existe uma intrínseca relação que deve ser sustentada pela ética.

A formação profissional, a partir do aluno e da escola, é um dos mais significativos


esforços pessoais e institucionais no sentido da inserção no processo de desenvolvimento
local, regional ou nacional. É preciso ter consciência dessa relação e sentir-se comprometi-
do com ela. É no espaço desse compromisso e responsabilidade social que a cidadania de
cada um toma corpo e dinâmica em um processo coletivo a favor do desenvolvimento sus-
tentável.

Inserir-se no processo de desenvolvimento, a partir desses esforços, significa vitalizar


as relações de um triângulo, que D’Ambrósio (2001, p. 111) chama de triângulo da vida,
formado pelas relações entre o indivíduo, a natureza e a sociedade, cujos valores são o
respeito, a solidariedade e a cooperação com o outro. Nesse processo, por essas relações,
acontece educação e aprendizagem. Os homens constroem conhecimento e se educam nos
espaços concretos das relações sociais.

A vitalização e a dinamização das relações e dos valores do triângulo da vida, no meu


entender, devem ser a base de todo o processo pedagógico, de aprendizagem e do processo
de gestão política do desenvolvimento. Na fronteira da dinâmica desse processo estão as
pessoas e as instituições: isto é, cada um está na dinâmica do processo, como indivíduo e
como ator social de uma organização e de uma associação humana.

Qual a característica dessa associação humana? Como se constrói a natureza do hu-


mano? Tornamo-nos humanos nas relações com os outros. De acordo com D’Ambrósio, isso
acontece por meio:

82
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

– do respeito pelo outro com todas as suas diferenças de opiniões, valores, ideologias, etc.;

– da solidariedade com o outro na satisfação das necessidades da vida em geral;

– da cooperação com o outro na preservação do comum (o processo de desenvolvimento


exige algo em comum).

A qualificação profissional, a formação, que construirmos pelos nossos esforços indivi-


duais solitários, pela convivência dinâmica e construtiva entre cidadãos, poderá ser nossa
maior contribuição pessoal e grupal a um processo de desenvolvimento sustentável da hu-
manidade que está em cada um de nós, em nossas organizações, em nossa região, em nosso
país. A humanidade começa e se realiza em cada um de nós, a partir das relações e dos
valores do triângulo da vida, por intermédio da educação e da formação.

Nas relações do triângulo da vida entre o indivíduo, a sociedade e a natureza, está a


fundamentação de um processo de desenvolvimento pessoal e coletivo. O desenvolvimento
deve ser um processo de humanização e este se constrói pelas relações sociais, no campo da
cultura, da política, da economia, etc.

Nas relações entre o indivíduo, a sociedade e a natureza estão os valores de uma ética,
sem a qual a existência humana se dilui, corrompendo-se, degradando-se em egoísmo, em
insegurança e em violência.

Hoje, o desafio para um novo caminho de desenvolvimento é muito grande, diante das
necessidades das pessoas. Esse desafio é posto a cada um, em termos individuais e coletivos.
É um desafio que situa a educação no centro do debate entre os cidadãos sobre as políticas
públicas, sobre as estratégias e ações em favor da vida.

Marcos Arruda diz que:

O desafio do auto-desenvolvimento consiste em que cada pessoa, por meio da ação sobre o
mundo e os outros, por meio da educação, da pesquisa e da reflexão sobre si própria e suas
relações, se construa sempre mais sujeito consciente e ativo do seu próprio desenvolvimento.
Educar-se passa a ser assumir a responsabilidade de fazer progredir cada aspecto, qualidade,
atributo, faculdade, da própria pessoa, enquanto ser que só existe em relação com as várias
dimensões de si próprio, com o Outro – pessoas e coletividades – e com a Natureza (1996, p. 22).

De acordo com Arruda (1996, p. 23) “na busca de auto-desenvolvimento da comunidade,


(...) há que estimular tanto o desabrochar das capacidades individuais quanto aquelas que resul-
tam da complementaridade e da sinergia gerada pelo pensar e agir em comum dos participantes”.

A educação envolve as pessoas, desde a sua individualidade até a sua responsabilida-


de social, tendo esta como fundamento da coletividade. Fazer-se cidadão educador no pro-
cesso de desenvolvimento exige ética, coerência, compromisso de discurso, valores e com-
portamentos, orientados pelos conhecimentos adquiridos e propagados. Não há educador
sem educação, isto é, só se educa quando se é educado.

83
EaD Walter Frantz

A incorporação de cada um de nós ao processo de desenvolvimento, seja como indiví-


duos ou como cidadãos organizados, tem nesse aspecto da educação seu desafio principal.
O desafio primeiro, no meu entender, de um processo de “desenvolvimento como liberdade”,
conforme reivindica Amartya Sen, é o de se fazer cidadão educador. Afirma Sen (2000, p.
320) que “as próprias pessoas devem ter a responsabilidade de desenvolver e mudar o mun-
do em que vivem”. Nisso está a liberdade, a cidadania e a educação. O desenvolvimento é
uma ponte para a vida, em todas as suas formas, que se constrói entre a educação e a
cidadania. Entre as principais formas de vida está a liberdade, expressão da convivialidade
respeitosa e solidária dos homens. Com certeza, ainda hoje, a construção dessa liberdade é
um dos maiores desafios ao desenvolvimento humano e sustentável.

Um desenvolvimento, socialmente aceito e desejado, não suporta a disrupção entre a teoria


e a prática, entre o cidadão e a sociedade, entre o indivíduo e o coletivo. “Como seres humanos
competentes, não podemos nos furtar à tarefa de julgar o modo como as coisas são e o que precisa
ser feito. Como criaturas reflexivas, temos a capacidade de observar a vida de outras pessoas”
(Sen, 2000, p. 321). A responsabilidade social está relacionada às práticas sociais de desenvolvi-
mento que decorrem do conhecimento das condições necessárias à vida social sustentável.

A cada um cabe definir os modos de inserção e atuação na sociedade, tendo em vista


o desenvolvimento pessoal e profissional sob a condição da responsabilidade social. O de-
senvolvimento como liberdade acontece pela construção de conceitos próprios sobre as coi-
sas da vida, em interlocução com os outros, porém sem “subdesenvolver-se” pela ideia da
certeza absoluta de suas afirmações, isto é, sem perder a capacidade da crítica e autocrítica.
Isso significa estar aberto ao diálogo, à busca, à dúvida. Implica fazer do conhecimento e
das teorias, instrumentos de ação inovadora e criadora e não fonte e certeza de respostas.

O desenvolvimento é um fenômeno que não se dá no vazio. É algo concreto. Acontece


na dinâmica social da economia, da política, da cultura, da educação, etc. O processo soci-
al do desenvolvimento incorpora também as relações com o meio ambiente e com a nature-
za. Pode ser um processo com certa “espontaneidade”, mas também é um processo que se
realiza pela política objetiva de indução e condução. Como tal é objeto das políticas públi-
cas, de governos e organismos internacionais.

Segundo Martin e Schumann (1998, p. 30-42), economistas alemães, em 1995, em um


encontro na Califórnia, reuniram-se lideranças expressivas da política e da economia de
todo o mundo para discutir sobre o futuro da humanidade. Uma das suas preocupações (ou
medos) centrais era o risco da exclusão social e econômica.

De acordo com os autores, hoje, 20% da população do mundo controla 86% da riqueza
das nações. Os Estados mais ricos, isto é, um quinto dos Estados do Planeta, produzem
84,7% do produto mundial bruto, e os seus cidadãos efetuam 84,2% das transações econô-

84
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

micas mundiais e possuem 85,5% de toda a poupança interna. Os afortunados desses países
mais ricos guardam para si o privilégio de 85% da utilização mundial da madeira, 75% do
tratamento dos metais e 70% da energia. Diante desse quadro, quais as chances dos mais
pobres, ou melhor, da maioria da humanidade?

Várias são as afirmações de que no futuro serão necessários apenas dois décimos da
população ativa para manter a economia mundial em funcionamento. Profetiza-se que a
indústria seguirá o caminho da agricultura, necessitando apenas uma ínfima parcela dos
trabalhadores ativos para a produção das mercadorias. Estima-se que não haverá necessi-
dade de mais mão de obra.

Além disso, as altas tecnologias de comunicação, o baixo custo dos transportes e o


comércio livre ilimitado, estão a transformar o mundo inteiro em um mercado único. Em
consequência, haverá uma concorrência global cada vez mais exacerbada. Os Estados na-
cionais serão desestabilizados. A substância social dos Estados prósperos estará sendo
consumida a um ritmo ainda maior que a substância ecológica do Planeta. Os Estados
serão obrigados a praticarem reduções de impostos, cargas fiscais menores, pressionados
pelos interesses dos capitalistas. As políticas sociais serão cada vez mais restritas. A parte
das riquezas que os trabalhadores assalariados auferem será cada vez menor. Os lucros au-
mentam. Os subsídios diminuem. “O ritmo da transformação e a redistribuição do poder e
da prosperidade provocam a erosão das antigas unidades sociais mais rapidamente do que
se pode processar o desenvolvimento das novas” (Martin; Schumann, 1998, p. 15). A huma-
nidade avança, sob vários aspectos, para o futuro, em marcha à ré.

O grande desafio, segundo Martin e Schumann, que preocupa os donos do mundo


será como ocupar os habitantes supérfluos. Quem fará esse esforço social? A pressão da
concorrência permitirá que as empresas dos 20% que detém os 80% das riquezas façam esse
esforço? Segundo Brzezinski, conselheiro da Segurança Nacional de Jimmy Carter, “uma
sábia mistura de divertimento estupidificante e de alimentação suficiente permitiria manter
de bom humor a população frustrada do planeta” (Martin; Schumann, 1998, p. 10).

A exclusão social produz sofrimento e medo. Atinge a todos. Com certeza, essa não
poderá ser uma base social segura para o futuro, por mais que os Estados invistam em
policiamento ostensivo, em repressão, ou por mais que os indivíduos construam suas barrei-
ras de proteção e isolamento.

Segundo os especialistas, outras instâncias deverão ocupar-se dos desempregados, pois


as empresas privadas estarão pressionadas pela concorrência cada vez mais intensa. Deverá
se constituir um novo setor “para dar um sentido à existência e garantir a integração: o
voluntariado a favor da coletividade, a participação nas atividades esportivas e nas associa-
ções de todo o tipo” (Martin; Schumann, 1998, p. 11).

85
EaD Walter Frantz

Mais que uma globalização, há uma decomposição global, uma certa uniformização
mundial. Dizia Boutros-Ghali, ex-secretário geral da ONU, “o nosso planeta está sob pres-
são de duas forças monstruosas e antagônicas: a globalização e a fragmentação” (Martin;
Schumann, 1998, p. 35).

Em meio a uma velocidade de informações e visões para todos os lados, há uma sensa-
ção crescente de vazio. “A proximidade e a simultaneidade mediáticas não criam laços cul-
turais e, sobretudo, não garantem a uniformização dos níveis econômicos” (Martin;
Schumann, 1998, p. 29). O cisma econômico da sociedade se agrava mais e mais. Cada qual
busca cuidar de si, de seu quintal. O desenvolvimento como um projeto de um mundo uni-
do, mesmo sob uma orientação ideológica, fundada na liberdade, na igualdade, na
fraternidade, parece ter acabado.

Não parece existir proposta política, em termos globais, atualmente, que permita ins-
pirar confiança para o futuro, diante do sucesso da economia de mercado capitalista e do
fracasso das experiências de economia socialista, centralmente planejadas, resultando em
frustração social profunda. A experiência capitalista com o seu sucesso econômico frustrou
as expectativas sociais da maioria. A experiência socialista com seu fracasso econômico
jogou na perplexidade a maioria. Dessas experiências de frustração e perplexidade, brotam
perguntas em direção ao futuro. “Quais são as regras, quais são as formas de sociedade que
permitirão gerir os problemas ambientais e alimentares e as dificuldades econômicas?”
(Martin; Schumann, 1998, p. 35).

Nesse contexto, coloca-se a todos o desafio da interpretação e compreensão desses acon-


tecimentos, em termos de desenvolvimento da humanidade. Os acontecimentos são expres-
sões concretas de seu desenvolvimento global. Essa dimensão universal inclui, no entanto,
também o particular: O que representa isso tudo para as nossas localidades de inserção mais
imediata, como fica cada um nesse processo, em termos de formação, de trabalho, etc.? Expli-
car e compreender tudo isso não é uma tarefa simples. Exige muita leitura, requer observações
e diálogo com aqueles que pensam diferentemente. Construir certa unidade explicativa na
diversidade das visões, talvez, seja um desafio muito grande, mas que é preciso encarar como
fator motivador de diálogo na busca da compreensão e do conhecimento.

Para compreender todos esses acontecimentos é preciso olhar para o contexto históri-
co, ainda que rapidamente, no qual se estruturaram as concepções anteriores. A compreen-
são começa pelo contexto histórico. Este é o princípio do historismo: “para se compreender
qualquer fenômeno contemporâneo devemos pesquisar suas origens e processo de forma-
ção” (Sztompka, 1998, p. 14). Não se trata do historicismo que se ocupa das pesquisas de
leis evolutivas da sociedade, “leis incondicionais de sucessão que dão à história uma dire-
ção ou um sentido” (Boudon; Bourricaud, 2000, p. 268). Sztompka procura distinguir entre
historicismo e historismo.

86
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

Segundo Sztompka (1998, p. 309), “A idéia de que a história se desenrola por si mesma
segundo um curso predeterminado e na direção de um objetivo preestabelecido tem levanta-
do dúvidas e críticas quase que desde o seu início, mas apenas na segunda metade do sécu-
lo vinte que estudos críticos detalhados do desenvolvimentismo vieram à luz, resultando no
abandono dessa abordagem e sua lenta substituição por uma visão alternativa da mudança
social e do processo histórico”. O historismo rejeita os pressupostos mecanicistas da história
e recoloca o homem, a agência humana, como a força propulsora do processo histórico. Os
principais representantes dessa visão: Marx, Tocqueville e Weber.

Três grandes visões da história marcaram mais profundamente a imaginação socioló-


gica a respeito do fenômeno do desenvolvimento, constituindo-se em estruturas explicativas
para as mudanças sociais: o evolucionismo, as teorias cíclicas e o materialismo.

Uma primeira grande visão explicativa se forma a partir da metáfora orgânica: faz-se
uma analogia entre a sociedade e o organismo biológico que apresenta uma estrutura e um
funcionamento. No estudo da evolução dos organismos se nota partes internas, estruturas
mais fixas – as configurações das totalidades desses organismos – e também modos de fun-
cionamento – funções, dinâmicas. Percebe-se transformações, evoluções. O conceito de cres-
cimento é o núcleo da ideia de evolução, base da teoria sobre mudança social conhecida
como evolucionismo.

Crescimento, de acordo com Sztompka (1998, p. 180) “significa aumento, expansão,


complexificação e diferenciação”. O crescimento supõe um processo de desdobramento de
potencialidades imanentes em uma única direção irreversível, passo a passo, sem poder ser
detido, por estágios, fases. A partir dessa analogia foram desenvolvidas explicações teóricas
a respeito da estrutura e funcionamento das sociedades: teoria dos sistemas, teoria funcio-
nal ou estrutural-funcionalista. “A idéia de sistema denota uma totalidade complexa cons-
tituída de múltiplos elementos ligados por certas inter-relações e separados do ambiente por
um limite” (Sztompka, 1998, p. 27).

Esse modelo sistêmico vem sendo questionado por uma abordagem processual. O con-
ceito de processo denota a compreensão de uma pluralidade de causas. A sociedade passa a
ser compreendida como um processo, como uma cadeia de eventos, não como um estado
constante. A sociedade existe como acontecimento, como uma dinâmica que, quando para,
morre. A realidade social existe entre os indivíduos. O campo interindividual está em cons-
tante movimento. Existem processos de organização e reorganização.

O modelo sistêmico, como instrumento cognitivo, subjaz ainda a muitas teorias


explicativas do funcionamento da sociedade.

O núcleo da teoria evolucionista, segundo Sztompka (1998, p. 190), apresenta as se-


guintes características:

87
EaD Walter Frantz

– a história em sua totalidade tem uma única forma, padrão, lógica, subjacente à infinidade
de eventos aparentemente acidentais e desconexos. Esse padrão pode ser descoberto, per-
mitindo a compreensão e a previsão da História. O objetivo da teoria evolucionista é
reconstruí-lo.

– o objeto em processo de mudança considerado é a sociedade como um todo.

– essa totalidade é concebida como um sistema intergrado.

– o enfoque são as mudanças desse todo, o sistema social.

– a mudança da sociedade é tratada como onipresente, como característica natural, neces-


sária e inescapável da realidade social.

– a mudança é tratada como um processo único.

– a mudança da sociedade é vista como direcional, passando de formas primitivas para de-
senvolvidas.

– a mudança evolucionária é concebida como unilinear, obedecendo a um único padrão.

– essa trajetória evolucionária se divide em estágios.

– a mudança é percebida como gradual, contínua, cumulativa.

– o mecanismo causal é uniforme e universal, verificando-se os mesmos processos em todos


os estágios.

– o impulso inato para a mudança situa-se na “natureza” da sociedade humana.

– a mudança se dá de modo involuntário.

– a mudança é equivalente a progresso.

A ideia da modernização é uma expressão do evolucionismo, do desenvolvimentismo.


Um dos sentidos do conceito de modernização está relacionado à ideia de mudança social
progressiva. Um segundo sentido está relacionado ao fenômeno da modernidade que compre-
ende transformações sociais, políticas, econômicas, culturais e mentais, ocorridas a partir do
século 16. Essas transformações envolvem “processos de industrialização, urbanização, raci-
onalização, burocratização, democratização, ascensão do capitalismo, disseminação do indi-
vidualismo e da motivação para as realizações, afirmação da razão e da ciência e muitos
outros” (Sztompka, 1998, p. 227). Nesse sentido, modernização significa avanço em direção à
modernidade. Esse é o emprego do termo nas principais obras clássicas de Sociologia.

Existe um sentido para o termo modernização que está relacionado às sociedades atra-
sadas ou subdesenvolvidas, comparadas aos países mais adiantados ou desenvolvidos. Este
sentido contém a ideia de movimento: um movimento em direção ao centro das sociedades

88
EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

modernas, a partir das periferias. O conjunto de enfoques dessas abordagens compõe o que
conhecemos por teoria da modernização. A elaboração dessas abordagens começou na me-
tade do século 20, quando a sociedade humana foi “dividida” em três mundos: o Primeiro –
o das sociedades industriais desenvolvidas; o Segundo – o das sociedades socialistas; o Ter-
ceiro – o das sociedades pós-coloniais.

O período de máxima dominação dessas explicações se localiza nos anos 50 e 60 do


século 20. Nos anos 70 e 80 começam a aflorar fortes críticas, levando ao abandono dessas
abordagens. Com o colapso das economias dos países comunistas, ao final dos anos 80, no
entanto, pode ser observado um certo renascimento dessas abordagens de teorias de moder-
nização. Tendo como núcleo do debate o contraste entre o Primeiro e o Segundo Mundo,
essa discussão é conhecida como teoria da convergência. As teorias da modernização e da
convergência podem ser consideradas as últimas contribuições da orientação evolucionista,
entendendo que o desenvolvimento ocorre pelo avanço das sociedades menos desenvolvi-
das, segundo o padrão industrial e os valores da modernidade ocidental capitalista, na ótica
da visão desenvolvimentista; a modernização, no entanto, não considerada como algo es-
pontâneo, mas algo deliberado, segundo modelos. Qual seria o motor dessa deliberação?

• o pensamento evolucionista tradicional?

• o planejamento?

• as elites?

• os efeitos da demonstração?

A teoria da convergência – como um mecanismo de modernização – sustenta certo


determinismo tecnológico ao suscitar formas específicas de organização social, de vida po-
lítica, de padrões culturais, atitudes e crenças. A teoria da convergência trata expressamen-
te da divisão entre o Primeiro e o Segundo Mundos, sustentando que a “lógica do
industrialismo” subjacente, de natureza tecnológica, produzirá inevitavelmente uma recí-
proca afinidade entre suas esferas econômicas, política e cultural.

O avanço tecnológico, segundo essa teoria da convergência, contém implícito um de-


senvolvimento impelido pela inovação, fazendo com que todas as sociedades que buscarem
a industrialização tendam a se aproximar, a homogeneizar. A modernização produz tendên-
cias de convergência entre sociedades. Existem estudiosos que contestam essa convergên-
cia, limitando-se ela à industrialização.

A teoria da modernização recebeu pesada crítica diante dos dados empíricos e de seus
resultados prometidos. Além disso, são feitas críticas diante das questões ambientais e sociais.
Também a teoria da convergência sofreu críticas: por não estar se confirmando a ideia da
mutualidade, da reciprocidade dos dois sistemas; a teoria da convergência não previa a

89
EaD Walter Frantz

quebra abrupta e definitiva do sistema socialista, mas a lenta integração e entrelaçamento


dos dois sistemas; parece ter sido o fator psicológico do efeito-demonstração e não a disse-
minação de alta tecnologia que conduziram à derrocada do sistema socialista.

A teoria dos ciclos “descreve uma imagem alternativa da história. Onde havia dire-
ção persistente, ela vê recorrência; em lugar de inovação constante, ela vê repetição; em
vez de desdobramento ilimitado de potencialidades, ela vê esgotamento periódico de
potencialidades e retorno temporário ao início do processo. A mudança social e histórica
não segue uma reta, mas um círculo” (Sztompka, 1998, p. 249). Ela tem como referência
não a metáfora evolucionista do crescimento orgânico, mas volta-se à experiência das
repetições, retornos e oscilações na vida, como os ciclos astronômicos, ciclos biológicos,
os ciclos políticos, econômicos e sociais. “O caráter generalizado desses fenômenos cíclicos
sugeriu a extensão, para o nível da história, da imagem que lhes é subjacente. O significa-
do da história, sua forma, sua lógica e configuração, passaram a ser interpretados em
termos de ciclos. (...) Ao passo que, no processo direcional, cada fase consecutiva é dife-
rente de todas as fases precedentes, no processo cíclico o estado do sistema em algum
instante futuro será igual (ou basicamente semelhante) a algum estado no passado”
(Sztompka, 1998, p. 250). O movimento pode ser em círculo ou em espiral, em espaços
mais longos ou mais curtos.

Essas visões mantêm uma forte influência sobre o pensamento contemporâneo.


Sztompka, no entanto, apresenta uma quarta visão interpretativa, uma abordagem alterna-
tiva das mudanças que ocorrem na sociedade, que, segundo ele, “deverá suplantar gradual-
mente as três visões tradicionais por ser uma ferramenta mais adequada para a interpreta-
ção das transformações da sociedade contemporânea” (1998, p. 17).

De acordo com Sztompka (1998, p. 15, 17), “existe uma clara direção na mudança das
teorias da mudança; elas evoluem dos esquemas mecânicos desenvolvimentistas, que recla-
mam a inevitalidade, necessidade e irreversibilidade dos processos sociais, para a ênfase na
agência humana, na contingência dos eventos e no caráter aberto do futuro”. A teoria soci-
ológica, a longo prazo, “parece estar se afastando dos grandes esquemas teóricos em dire-
ções mais concretas, de mudanças sociais localizadas no tempo e no espaço e produzidas
por atores individuais e coletivos bem identificados”. Os movimentos sociais são destacados
como agentes de mudança, de transformação da sociedade contemporânea.

A explicação sobre desenvolvimento, a partir de conceitos de Marx, está fundamenta-


da na dialética, no antagonismo, tendo o homem como senhor de seu futuro, concretizado
pelo trabalho acumulado de gerações. As forças produtivas compõem a mola propulsora do
processo que acontece pela superação dos estágios inferiores de desenvolvimento. No cen-
tro desse processo está a contradição e a luta de classes.

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EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

A orientação de explicação dialética interpreta a realidade como inacabada. O presente


se esgota, isto é, se supera pela contradição inerente, tendo o homem um papel fundamental
nesse processo, especialmente a classe trabalhadora. Por isso, essa teoria explicativa teve tan-
ta aceitação nos países “subdesenvolvidos”, pois afirmar o estado social e econômico desses
países, no sentido de sua conservação, não podia interessar aos sujeitos conscientes.

Na visão da dialética marxista da história, o homem se assumia como construtor de


seus próprios caminhos. O desenvolvimento passou a ser visto como um processo com alter-
nativas de futuro, como um processo de escolha, de opção política. O desenvolvimento eco-
nômico passou a ser visto como algo político, dependente das relações de poder e de classe.
O desenvolvimento é um produto das relações de poder. Poder com relação à produção e
distribuição dessa produção.

Para poder dar conta das leituras de interpretações sobre desenvolvimento, embasadas
em visão marxista, é preciso abordar alguns aspectos do pensamento de Marx. Materialis-
mo histórico e materialismo dialético são dois conceitos fundamentais de explicação mar-
xista do mundo, isto é, de seu desenvolvimento. O materialismo histórico representa uma
visão antropocêntrica de mundo e afirma que o modo de produção da vida material condiciona
o conjunto de todos os processos da vida social, política e espiritual.

Por materialismo dialético se entende a doutrina marxista, cuja ideia central é que o
mundo não pode ser considerado como algo acabado, de coisas acabadas, mas é um com-
plexo de processos, em que as coisas e os reflexos delas na consciência, isto é, os conceitos,
estão em incessante movimento gerado pelas mudanças qualitativas que decorrem necessa-
riamente do aumento de complicação quantitativa.

Alguns pressupostos teóricos da visão da época de Marx e que também influenciaram


o seu pensamento:

– na dinâmica social existe um processo regular e previsível;

– a história dos homens deve ser objeto de conhecimento nomológico;

– o estudo da história torna possível a descoberta de significados, padrões e tendências nos


eventos humanos;

– o conhecimento dos significados, das tendências, das “leis sociais”, torna possível aos
homens prever e controlar o próprio destino.

De acordo com Marx, no entanto, não basta interpretar o mundo, é preciso mudar, trans-
formar. No centro do pensamento de Marx está a questão da transformação, da superação.

Seguem alguns aspectos do pensamento de Marx que guardam uma relação com o
pensamento evolucionista da época:

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EaD Walter Frantz

– crença no progresso como direção global do processo histórico; acreditava no aperfeiçoa-


mento constante da sociedade;

– as sociedades são impulsionadas para frente por forças intrassociais imanentes, endógenas.
Elas contêm as forças do progresso e não lhe são exteriores. Estão na ação do homem;

– as sociedades progridem por estágios, por modos de produção;

– as sociedades apresentam uma tendência de complexificação e diferenciação que se deve,


especialmente, à divisão do trabalho.

O pensamento de Marx se distingue do evolucionismo da época a partir de seu con-


ceito de dialética que foi buscar em Hegel. Este propõe uma visão idealista da história,
segundo a qual a força propulsora da história está nas ideias: Geist. Marx incorporou a
ideia da forma dialética, mas rejeitou o seu conteúdo idealista. A força propulsora da histó-
ria vem da base material da vida dos homens. Marx buscou na concepção dialética hegeliana
da história alguns pressupostos:

– a manifestação de um desenvolvimento direcional, progressivo e ascendente na história;

– esse desenvolvimento não é linear; acontece por rupturas, reversões e recuos, de supera-
ções, em forma de espiral que vai e volta, mas avança. A história é um cenário de lutas, de
revoluções;

– esse desenvolvimento não é gradual, uniforme e cumulativo, com rupturas qualitativas a


exemplo de uma escada;

– os estágios desse desenvolvimento se dividem em três partes: ascensão, plenitude e deca-


dência;

– o processo histórico desse desenvolvimento é movido por forças internas, endógenas, isto
é, contém as causas de sua própria transformação;

– as forças internas encontram-se no princípio da negação: as contradições que levam à


autodestruição;

– o processo histórico do desenvolvimento se dá em vários níveis: eventos históricos reais,


condutas humanas concretas.

Na visão hegeliana, esse quadro dialético, no qual se situa a história, é imposto pela
história autônoma de Geist que opera em nível metafísico próprio, refletindo-se apenas nas
situações históricas reais. Os fatos reais são o reflexo do Geist.

Marx inverteu essa visão. Na visão marxista, “a história não é a trajetória de Geist,
mas é a seqüência das mudanças da sociedade humana” (Sztompka, 1998, p. 275). A força
propulsora do desenvolvimento deve ser buscada na atividade humana.

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EaD SOCIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO I

De acordo com Sztompka (1998, p. 275), a imagem marxiana da história foi reconstruída
em três níveis, ao longo dos anos, por meio de diferentes versões do materialismo histórico,
desde os mais dogmáticos até os menos dogmáticos. Afirma Steven Lukes (apud Sztompka,
1998, p. 275): “A tradição marxista não é uma unidade monolítica, mas um terreno disputa-
do”. Diz Sztompka que a reflexão em torno da teoria de Marx segue duas linhas: a que vem
de seus críticos e adversários, seguindo as trilhas das alegadas inconsistências teóricas e a
que vem dos que lhe são favoráveis.

Diante das divergências e críticas, Sztompka (1998, p. 276) pergunta: “Será que os
teóricos posteriores não colheram do trabalho de Marx aspectos ora “estruturalistas” ora
“ativísticos”, ora “historicistas” ora “humanistas”, por considerarem o foco sobre estruturas
e processos ou sobre indivíduos e ações como alternativas mutuamente excludentes, en-
quanto o próprio Marx as tratou como complementares, apreendendo os dois lados da mes-
ma realidade complexa?”

Sztompka (1998, p. 276) parte da posição de que os críticos de Marx tratam de incon-
sistência teórica aquilo que pode ser considerado a força maior da explicação marxista – a
multidimensionalidade – “antecipando na verdade a evolução ulterior da teoria na direção
de uma imagem sintética e multilateral do mundo social”. Para o autor, o materialismo
histórico é uma teoria multidimensional da história, desenvolvida em três níveis/três teorias
parciais interrelacionadas: histórico-universal (a teoria das formações socioeconômicas, no
nível superior), socioestrutural (a teoria da luta de classes, no nível intermediário) e ativístico-
individual (a teoria do indivíduo humano – “ser-espécie” – no nível inferior).

Os três níveis explicativos se complementam/completam: “O mecanismo das mudanças


nas formações socioeconômicas é estabelecido pela teoria das classes sociais. (...) as razões
pelas quais as classes se insurgem e lutam contra outras classes só podem ser encontradas no
nível inferior, na teoria dos indivíduos e suas ações, a qual atribui aos seres humanos certas
propensões, ‘poderes’ e aspirações específicas, e explica por que, em face da alienação e da
privação, eles estão prontos para se mobilizar para a cão revolucionária. Se invertermos com-
pletamente a ordem, três estágios se tornarão visíveis novamente: os esforços emancipatórios
de indivíduos alienados os unem aos que têm interesses econômicos similares, daí resultado a
emergência das classes. O desdobramento da luta entre as classes culmina em revolução soci-
al, da qual resulta a mudança de toda a formação econômica” (Sztompka, 1998, p. 278).

Que implicações subjazem a essa tríplice interpretação teórica? Em que direção vai,
segundo Marx, o desenvolvimento da história da humanidade?

Primeiro: no nível histórico-universal Marx vislumbra a emergência de uma sociedade


comunista – abundância de bens econômicos, abolição da propriedade privada e o desapa-
recimento do Estado. Nesse nível Marx vê um forte determinismo, passando por estágios até
chegar ao comunismo.

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EaD Walter Frantz

Segundo: no nível socioeconômico Marx vislumbra uma sociedade sem classes. Aqui
Marx vê um grau mais fraco de determinismo.

Terceiro: no nível ativístico-individual Marx almeja a realização da liberdade plena.


Nesse nível Marx vê mais voluntarismo, livre escolha, determinações ideológicas, etc.

Enfim, diante da complexidade do fenômeno social do desenvolvimento, pode-se citar


algumas ideias de Marx que se relacionam ao processo de desenvolvimento da história da
humanidade:

– a ideia evolucionista, de algum modo, está também presente pelos diferentes modos de
produção;

– o homem faz a história;

– existe um certo determinismo que se expressa pela evolução das forças produtivas e pela
luta de classes;

– a abordagem histórica permite uma visão das tendências na evolução da sociedade e isso
consente um certo controle do próprio destino (desenvolvimento);

– não basta interpretar o mundo, é preciso transformá-lo;

– crença no progresso, no aperfeiçoamento;

– o desenvolvimento é resultado de um processo dialético.

Para finalizar associo-me a John Perkins com uma pergunta provocadora: Como pode-
mos encontrar coragem para desafiar o nosso modo de pensar e agir que sempre aceitamos
como uma verdade absoluta, mesmo quando parece claro que o sistema construído e funda-
mentado por esses conceitos está prestes a destruir a si mesmo?

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