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UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

DEPARTAMENTO DE MATEMÁTICA
DISCIPLINA: ÁLGEBRA PARA O ENSINO MÉDIO I E II
PROFª: JÔ MENEZES
TEXTO PARA REFLEXÃO: O USO DA HISTÓRIA NA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA

1. Introdução
Nesta reflexão, pretende-se discutir as possíveis formas de abordagem da História da
Matemática no processo de ensino e aprendizagem, utilizando-a como fontes para elaboração de
atividades de ensino.
Concebe-se o uso da História no ensino de matemática sempre numa perspectiva de resgate
das situações problematizadoras que conduzam os estudantes à redescoberta da matemática através
das informações históricas que revestem essas situações. Com base nas referidas situações, pode-se
favorecer a formalização dos conceitos matemáticos pelo aluno, por causa das informações
históricas interpretadas apresentarem as estruturas cognitivas dos mesmos, as quais são
incorporadas à formalização dos conceitos matemáticos, apoiadas nas atividades de redescoberta.
Para Marrow (1975), a história como conhecimento é inseparável do historiador, pois sua
participação ativa na elaboração de documentos históricos cria condições e meios para a
compreensão das descobertas do passado. O conhecimento que temos hoje provém de diferentes
grupos sócio-culturais que se organizaram e desenvolveram intelectualmente de acordo com suas
necessidades, interesses e condições de sobrevivência, levados pela mobilidade característica da
sociedade humana.
A compreensão da matemática como uma ciência leva a algumas questões:
 Qual a relação da matemática com a história? A matemática faz parte de um
aglomerado de informações do arcabouço cultural da humanidade, que com o
desenvolvimento da consciência humana assumiu determinada forma, e com isso o
caráter de ciência. Para reconhecer o status científico da matemática, precisa-se
recorrer ao seu desenvolvimento estrutural via busca de informações contidas no
passado de sua construção evolutiva.
 Qual a utilidade da história para a matemática? Para Bicudo (1992, p. 22) serve para
explicar o fato de serem ou terem sido os matemáticos profissionais os mais
importantes historiadores da matemática;
 Como a história da matemática pode ser utilizada no ensino da matemática?

2. História da matemática e ensino de matemática: relações metodológicas

Já existem algumas pesquisas em História da Matemática que apresentam sugestões de


alternativas para superar as dificuldades de professores e alunos no ensino-aprendizagem, com
ênfase no caráter investigatório do processo de construção do conhecimento matemático. Mendes
(2002) cita alguns exemplos:
 Prado (1990) desenvolveu uma proposta de Educação Matemática com base na
ordem histórica da produção do conhecimento, a partir do princípio genético e a lei
biogenética fundamental de HAECKEL, cuja idéia básica é que o aprendizado
efetivo requer que o aprendiz retrace os principais passos na evolução histórica do
assunto estudado;
 Jardinetti (1994) analisando livros didáticos de matemática, atentou para os subsídios
para a compreensão da função metodológica da investigação histórica dos conceitos
matemáticos enquanto recurso vital para elaborar e executar procedimentos
dinâmicos e relacionais de matemática;
 Estrada (1993) enfatiza o papel da história como agente facilitador da aprendizagem
segundo quatro opções de uso: biografia dos matemáticos, desenvolvimentos
temáticos, significados de termos matemáticos e estudos de textos do passado;
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 Ferreira et alii (1992) concebe a história como alternativa metodológica
considerando noções de forma e rigor de cada época, acionando as habilidades
matemáticas do aluno;
 Miguel (1993) apresenta uma compilação de várias concepções antigas, para
investigação, discussão, sintetização e reconstrução pelo aluno de noções
matemáticas, antes vistas como definitivas sem o aspecto histórico;
 Fossa (1995a) traz a concepção de uso da história a partir da redescoberta.
 Paradidáticos como Aprendendo pelas raízes e Contando a história da matemática e
Tópicos de história da matemática para a sala de aula, trazem atividades que
evidenciam o caráter investigatório e construtivo no ensino de matemática através da
história.
 No site somatemática, cujo consultor é Luiz Imenes, vemos uma aplicação do livro
Descobrindo o Teorema de Pitágoras utilizando a contextualização.

Mendes (2001) desenvolveu um trabalho no qual abraçou a idéia de FOSSA no que se refere
a uma proposta baseada na redescoberta. Assim na mesma busca-se redirecionar o ensino da
trigonometria numa perspectiva investigatória centrada na construção do conhecimento com base na
história, recorrendo às orientações anteriores quanto ao uso de atividades. As limitações da proposta
são a necessidade de mais exercícios e uma preparação anterior do professor.

3. Algumas funções atuais do uso da história no ensino da matemática

Para Miguel (1993, p.106), quando os professores lançam mão do uso da história da
matemática em sala de aula, eles são estimulados por uma diversidade de opiniões vinculadas à
função que eles esperam que seja cumprida pela história da matemática no processo pedagógico.
Essas opiniões, se analisadas detidamente, revelam a existência de doze funções a elas vinculadas,
que são:

 A história como fonte de motivação para o ensino-aprendizagem da matemática ou


História – Motivação
Aqui, espera-se que a história da matemática desempenhe um papel motivador no ensino-
aprendizagem desta disciplina. Alguns matemáticos, entre eles, Hassler, Simons e Wiltshire, são
citados por Miguel (1993, p.62) como partidários dessa opinião e têm seus principais argumentos
enunciados: Hassler diz que o conhecimento da história dos processos matemáticos que estão sendo
aprendidos pelo aluno despertará o interesse dos mesmos pelo conteúdo do ensino. Simons
argumenta que a história da matemática e as recreações despertam e mantém o interesse pela
matéria. Wiltshire afirma que para se ter algum interesse por um certo processo é necessário
conhecer um pouco de sua história e do benefício que se pode obter desse conhecimento.
D’Ambrósio sublinha o fator motivador, quando afirma que “torna-se cada vez mais difícil
motivar alunos para uma ciência cristalizada. Não é sem razão que a história vem aparecendo como
um elemento motivador de grande importância.” (1996, p.31).
Miguel (1993, p.63) vê na posição sustentada pelos partidários desta corrente uma exaltação
do poder motivador da história que se deve ao que ele define como história-anedotário. Esta seria
um contraponto aos momentos formais do ensino, que exigem grande dose de concentração e
esforço por parte do aprendiz. A história-anedotário exerce esta função relaxante inclusive pelo fato
de ser um conteúdo externo ao conteúdo matemático propriamente dito e de não ser cobrado nas
provas. Esse autor coloca em dúvida o papel motivador da história apoiando-se em dois
argumentos. O primeiro deles se reporta ao ensino da própria História e às experiências dos
professores desta disciplina com relação à motivação de seus alunos.
O segundo argumento, de caráter mais técnico, apóia-se na teoria psicológica da motivação
que relaciona: O ambiente, as forças internas do indivíduo (como necessidades, desejos, vontade,
interesse, impulso, instinto), e o objeto que atrai o indivíduo por ser fonte de satisfação da força
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interna que o mobiliza. Deste modo, a motivação é o processo que relaciona necessidade, ambiente
e objeto e que predispõe o organismo para a ação em busca da satisfação da necessidade.
Souto desenvolveu um estudo, focalizando o significado da relação entre história e ensino da
matemática existente entre alguns professores do ensino fundamental. O mesmo autor desenvolveu
um estudo, focalizando o significado da relação entre história e ensino da matemática existente
entre alguns professores do ensino fundamental. As primeiras unidades de significados foram
reduzidas a seis agrupamentos que mostram as idéias convergentes dos discursos dos mesmos.
Entre essas idéias, encontra-se a história como um fator de motivação na sala de aula de
matemática. Os referidos professores argumentam que a história gera no aluno o interesse, a
atenção e a curiosidade durante as aulas. Souto (1997, p.355) afirma “a ênfase nesses efeitos que a
história é capaz de produzir nas aulas de matemática nos leva a crer que os professores que utilizam
episódios históricos em suas aulas o fazem com o intuito de motivar os alunos para a aprendizagem
matemática”.
Entre essas idéias, encontra-se a história como um fator de motivação na sala de aula de
matemática. Os referidos professores argumentam que a história gera no aluno o interesse, a
atenção e a curiosidade durante as aulas. Repetiu Souto, aqui eu tirei.

 A história vista como uma fonte para seleção de problemas práticos, curiosos,
informativos e recreativos a serem incorporados nas aulas de matemática ou História-
Recreação.
Esta visão da história da matemática é uma derivação recente da História-Motivação. De
fato, segundo Miguel (1993, p.64) “a busca de esquemas motivadores às aulas de matemática via
utilização da história desloca-se mais recentemente de um plano no qual eles são entendidos de
forma meramente episódica e externa ao conteúdo do ensino para outro em que esta motivação
aparece vinculada e produzida no ato cognitivo da solução de um problema”.
Para Swetz, citado por Miguel (1993, p.66), a resolução de problemas históricos motiva o
aluno, pois esclarece e reforça conceitos, reflete as preocupações práticas ou teóricas das diferentes
culturas em diferentes momentos históricos, entre outros argumentos. Para ele não é suficiente
comentários sobre biografias dos matemáticos e cita cinco motivos que o levam a crer que os
problemas históricos motivam:
 possibilitam o esclarecimento e o reforço de muitos conceitos que estão sendo ensinados;
 constituem-se em veículos de informação cultural;
 refletem as preocupações práticas ou teóricas das diferentes culturas em diferentes momentos
históricos;
 constituem-se em meio de aferimento da habilidade matemática de nossos antepassados;
 permitem mostrar a existência de uma analogia ou continuidade entre os conceitos e processos
matemáticos do passado e do presente.
A argumentação de Miguel contra este o ponto de vista dos que se esforçam para vincular
história e problema é semelhante àquela que foi feita em relação à história-motivação.
Segundo ele “o aspecto motivador de um problema não reside no fato de ser ele histórico ou
até mesmo de ser problema, mas no maior ou menor grau de desafio que este problema oferece, no
modo como este desafio é percebido pelo aprendiz, no tipo de relações que se estabelecem entre
este desafio e os valores, interesses e aptidões socialmente construídos por ele, etc.”

 A história como uma fonte de objetivos para o ensino da matemática ou História-


Objetivo
Os defensores deste ponto de vista julgam que é possível encontrar na história apoio para
que se atinja com os alunos objetivos pedagógicos de caráter semelhantes aos enunciados abaixo:
A compreensão de que a matemática é uma criação humana. Com respeito a este objetivo
D’Ambrósio (1996, p.10) afirma que a história serve para situar a matemática como uma
manifestação cultural de todos os povos em todos os tempos, como a linguagem, os costumes, os
valores, as crenças e os hábitos, e como tal diversificada nas suas origens e na sua evolução.
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A percepção de que as necessidades práticas, sociais, econômicas e físicas freqüentemente
servem de estímulo ao desenvolvimento de idéias matemáticas. Aqui cabe salientar que para que
este objetivo se cumpra se faz necessário que o professor não se apóie numa concepção platônica da
história da matemática, pois tal concepção atribui à história da matemática o papel de reprodução do
processo racional das descobertas matemáticas, eliminando os fatores sociais. Neste aspecto,
Ferreira (1992, p.32) diz que fatores sócio-culturais permitem entender como as diferentes culturas
determinam a criação, a formalização e a assimilação do conhecimento matemático.
A percepção de que a curiosidade estritamente intelectual pode levar à generalização e
extensão de idéias e teorias. Novamente, o professor adepto da concepção platônica terá dificuldade
em fazer cumprir este objetivo, pois essa concepção coloca o aluno numa atitude passiva para com a
aquisição do conhecimento matemática, não lhe sendo possível ‘criar’ matemática.

 A história vista como uma fonte de métodos adequados de ensino da matemática ou


História-Método
Os defensores deste ponto de vista acreditam que os professores podem encontrar na história
da matemática métodos pedagogicamente adequados à abordagens de conteúdos em sala de aula.
Tal ponto de vista não é recente tendo sido defendido por Aléxis Claude Clairaut (apud MIORIM,
1998, p.46) em sua proposta de renovação do ensino de matemática através de sua obra Eléments de
Géométrie (1741). MIORIM (1998, p. 49) explicita que Clairaut em sua obra manifestava
preocupação com as dificuldades que os estudantes encontravam nos Elementos de Euclides e, por
isso, buscava um método que pudesse além de motivar, auxiliar o estudante na compreensão do
conteúdo.
Preocupado em romper com a tradicional apresentação dos conhecimentos geométricos por
meio de um método que pudesse ao mesmo tempo motivar e auxiliar na compreensão,
Clairaut encontrou na história o fio condutor para sua obra. Não o fez, entretanto, através da
restituição detalhada das descobertas geométricas, mas por meio de um caminho – que
poderia Ter sido aquele percorrido pelos descobridores- que apresentasseessas descobertas
como soluções encontradas pelos homens na tentativa de resolver os problemas que a eles
se apresentarem. Por entender que os mais antigos problemas- como a própria origem da
palavra geometria parece indicar- estavam relacionados à questão de medida de terras,
escolheu esse tema como o elemento gerador das descobertas geométricas. Partindo de
determinadas situações-problema envolvendo a noção de medida, e dos limites e
dificuldades encontradas para resolvê-las, Clairaut vai aos poucos, em uma linguagem
agradável, desenvolvendo as principais definições e propriedades geométricas. À medidia
que que o estudovai se aprofundando, a ligação com as questões práticas vai
desaparecendo. (MIORIM, 1998, p.46)

 A história vista como um instrumento que possibilita a desmistificação da matemática e


a desalienação de seu ensino ou História-Desmistificação.
Os partidários desse ponto de vista acreditam que os cursos regulares de matemática
transmitem uma concepção equivocada de uma matemática harmoniosa, pronta e acabada. A
história da matemática, segundo estas pessoas, seria um instrumento adequado para se desfazer tal
equivoco.
Miguel (1998, p.34) aponta Kline como um dos defensores desta tese fazendo a seguinte
citação:

os cursos regulares de matemática são mistificadores num aspecto fundamental. eles


apresentam uma exposição do conteúdo matemático logicamente organizada, dando a
impressão de que os matemáticos passam de teorema a teorema quase naturalmente, de que
eles podem superar qualquer dificuldade de que os conteúdos estão completamente prontos
e estabelecidos(...). as exposições polidas dos cursos não conseguem mostrar os obstáculos
do processo criativo, as frustrações e o longo e árduo caminho que os matemáticos tiveram
que trilhar para atingir uma estrutura considerável.
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 A história vista como um instrumento de formalização de conceitos matemáticos ou
História-Formalização.
Partidário deste ponto de vista, Ferreira et alli (1992, p.32) diz que ao desenvolver o
processo de conhecimento de um determinado conceito, o estudante passa a ter a necessidade de
formalizá-lo. Ferreira atribui à linguagem um papel importante no processo da formalização de
conceitos. Diz ainda que o ‘formal’ de um conceito não deve ser visto como algo pronto e acabado
e sim como um caminho a ser traçado para se chegar ao conceito. Para Ferreira formalizar significa
construir um conceito, obtendo assim uma aprendizagem significativa.
Encarando a história como um instrumento que favorece a formalização de conceitos
matemáticos pelo aluno, Mendes (2001, p.12) argumenta que “quando as informações históricas
são interpretadas elas se incorporam à estrutura cognitiva dos alunos, conduzindo-os a um processo
de elaboração mental que favorece a abstração dos conceitos matemáticos estudados”

 A história vista como um instrumento que promove a constituição de um pensamento


independente e crítico ou História-Dialética
Os partidários desse ponto de vista vêem a história como um instrumento do pensamento
independente e crítico. Utilizam-na sob um enfoque heurístico e não sob um enfoque euclidiano ou
dedutivista. Não se espera que o aluno tenha qualquer conhecimento anterior, mas somente uma
maturidade matemática, que lhe permita reconstituir fatos da história que revelem tão somente
aquilo que é estritamente indispensável para o andamento do jogo dialético das idéias. Lakatos,
citado por Miguel (1993, p. 99) apresenta como desafio o formalismo matemático através do
enfoque heurístico que dá a história. Em sua tese ele faz uma reconstrução racional da história da
conjectura a respeito da fórmula de Euler-Descartes ( V – A + F = 2 ) para poliedros baseada no
método de provas e refutações: O cenário é uma sala de aula imaginária com professor e alunos
também imaginários (Alfa, Beta, Gama, etc.) interessados pelo problema real do estabelecimento de
uma relação entre o número de vértices (V), o número de arestas (A) e o número de faces (F) dos
poliedros. Assim sendo, surgem reformulações do conceito que está sendo estudado,
aperfeiçoamento do conceito de poliedro, o conteúdo matemático vai ficando cada vez mais preciso
e o conhecimento matemático vai sendo ampliado com a história das idéias. O objetivo é mostrar
que esses conhecimentos surgem de acordo com o desenvolvimento lógico descrito no método da
descoberta da matemática. Vale salientar que a todo o desenvolvimento mostrado nas reconstruções
racionais, Lakatos, em paralelo, mostra os fatos históricos como supostamente ocorreram e os
personagens reais (Descartes, Euler, Cauchy, etc.) envolvidos. É o que define como notas de
rodapé.

 A história é vista como um instrumento promotor de atitudes e valores ou História-


Axiologia
Os partidários desse ponto de vista vêem a história como um instrumento metodológico que
possibilita estimular nos estudantes o desenvolvimento de valores e atitudes positivas.
Normalmente, a matemática é exposta aos estudantes de modo a ocultar dos mesmos as
convergências e/ou divergências dos resultados das experiências realizadas pelos antepassados. Não
há uma preocupação por parte do corpo docente, em mostrar o quão árduo, talvez, possa ter sido o
caminho que grandes matemáticos trilharam na produção do conhecimento. E ademais, emoções,
hesitações, erros, problemas sociais, políticos e econômicos, também foram vivenciados durante a
busca do conhecimento por todos aqueles ditos gênios da humanidade. A história, ao propiciar ao
aluno a tomada de consciência dos problemas, alegrias e tristezas, sucessos e insucessos
vivenciados pelos matemáticos do passado no caminho de suas descobertas, lhe transmite força e
persistência ante situações aflitivas ou difíceis.
Á história revela o conhecimento matemático como resultado de um processo evolutivo.
Esse é um dos cinco grupos de significados atribuídos por Souto (1997, p.357). Segundo Souto,
alguns professores preocupam-se com a necessidade de mostrar aos alunos que a matemática não
nasceu pronta e não foi inventada por uma única pessoa num momento determinado.
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 A história é vista como um instrumento que pode promover a aprendizagem significativa


e compreensiva da matemática ou História-Significação
Acreditam os partidários dessa corrente, que a história é um instrumento que pode promover
a aprendizagem significativa e compreensiva da matemática e pode esclarecer os conceitos e as
teorias estudadas. A reconstrução teórica dessa história, respeitando-se uma ordem cronológica,
proporcionará ao aluno oportunidade de dar significados a aprendizagem, evidenciando os
obstáculos que surgiram na construção do conhecimento, percebendo erros, limites e possíveis
hesitações dos antepassados. Falar em significados e compreensões requer levantamento e a
discussão das razões para aceitação de certos fatos, raciocínios e procedimentos por parte do
estudante. Estes questionamentos, segundo Jones (apud MIGUEL, 1993, p.76) pertencem a três
categorias:
1) Os porquês cronológicos: Razões de natureza histórica, cultural, casual, convencional ou de
outro tipo qualquer que estão na base de sua aceitação. Exemplo: Por que o zero se chama zero?
2) Os porquês lógicos: Questões relativas à compreensão da natureza de um sistema axiomático ou
o desejo de compatibilizarmos entre si duas ou mais afirmações não necessariamente compatíveis.
Exemplo: Por que o produto de dois números negativos é um número positivo?
3) Os porquês pedagógicos: Procedimentos operacionais utilizados em aula, que se justificam mais
por razões de ordem pedagógicas do que histórica ou lógica. Exemplo: Por que o Professor ensina a
extrair o maior divisor comum entre dois números pelo método das subtrações sucessivas e não pelo
da decomposição simultânea?
Assim sendo, para Jones, partidário desse ponto de vista “a história não só pode como deve
ser o fio condutor que amarraria as explicações que poderiam ser dadas aos porquês pertencentes a
qualquer uma das três categorias. É na defesa dessa possibilidade que se revela o poder da história
para um ensino-aprendizagem da matemática baseado na compreensão e na significação.”
Fossa citado por Mendes (2001, p.33), também acredita que o uso da história pode promover
uma aprendizagem significativa. Para ele são possíveis dois modos de uso da história: o uso
ornamental e o uso ponderativo, sendo este último subdividido em uso episódico e uso novelesco.
Para Fossa, o uso ornamental refere-se àquelas informações históricas que aparecem desvinculadas
dos conceitos a serem estudados nos livros didáticos, pois se retirados dos mesmos, não farão falta.
A biografia de matemáticos, por exemplo, não têm relação com o desenvolvimento histórico das
idéias matemáticas que deveriam ser abordadas durante a aula. É no uso ponderativo da história que
podemos encontrar significado na aprendizagem matemática. Cabe ao professor, utilizar as
informações históricas, procurando estabelecer conexões com os aspectos construtivos dos
conceitos matemáticos ligados a tais informações.

 A história como um instrumento que possibilita o resgate da identidade cultural ou


História-Cultura
Os partidários desse ponto de vista procuram resgatar, através da história da matemática, a
identidade cultural de uma sociedade. O nome mais representativo desta concepção é Paulus
Gerdes1, professor e pesquisador moçambicano citado em Miguel (1993, p.81). Gerdes preocupou-
se com o papel que a matemática desempenharia no sistema educacional moçambicano, após a
extinção do regime colonial imposto a este país por Portugal, e muito contribui para que o uso da
história no ensino pudesse ser enfocada sob um novo ponto de vista. No entanto, jamais referiu-se
explicitamente à necessidade de uso da história no ensino.
Ressaltamos aqui que o uso da história sob esse ponto de vista possui um valor pedagógico,
porém não aplicáveis ao grupo social ao qual pretendemos desenvolver nosso trabalho.
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4. Outras considerações e sugestões ao professor
É preciso fazer uma reflexão sobre o conteúdo das atividades sem transformá-las num
manual; um conhecimento anterior sobre o conteúdo a ser apresentado aos alunos; algumas
atividades devem ser realizadas fora da sala de aula com orientação do professor. O material
também deve ser providenciado com antecedência para evitar imprevistos; o professor deve
estimular o hábito das anotações para aproveitá-las no momento oportuno.

5. Conclusão
Tendo sido apresentados e argumentados os diferentes pontos de vistas sobre a história da
matemática como um recurso metodológico para as aulas de matemática, seguem algumas
considerações sobre o assunto.
A busca por um recurso metodológico para as nossas aulas de matemática é movida em
grande parte pela necessidade que sentimos de fazer com que a matemática que se ensina seja
assimilada com significado e compreensão por parte do aluno. Ensinar com significado, através da
história da matemática consiste em proporcionar ao aluno condições para que ele pense e
compreenda o conteúdo que está sendo ministrado A reflexão sobre a própria prática pedagógica
aliada aos argumentos aqui delineados levou a tal conclusão. Sendo assim existe uma inclinação a
dedicar os estudos futuros ao exame detalhado da concepção que aqui se chamou de História-
Significação e dos caminhos que deverão ser tomados para que tal concepção se realize na prática.
Por outro lado, entende-se o quão seria inovador e emocionante para o aluno, conhecer, por
exemplo, as tragédias e as venturas dos matemáticos eminentes. Entendemos o quanto um problema
histórico como os problemas babilônicos cujas soluções são dadas através da técnica de completar
um quadrado geométrico contribuiria para obtermos melhores resultados e mais atenção às aulas de
matemática por parte dos nossos alunos. Embora achemos que tais formas de trabalhar a história
sejam necessárias, mas não suficientes, pensamos que a concepção neste trabalho intitulada como
História-Motivação merece também um exame mais detalhado nos nossos estudos futuros mesmo
porque ela é, entre os professores de ensino fundamental, a concepção dominante.

6. Referências do texto

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