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LEGISLAÇÃO ADUANEIRA E TRIBUTÁRIA

CAPÍTULO 2 - EM QUE SISTEMA JURÍDICO-


TRIBUTÁRIO SE CONTEXTUALIZA A
LEGISLAÇÃO QUE REGE A TRIBUTAÇÃO DO
COMÉRCIO EXTERIOR?
Alan Martins

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Introdução
Você estudou no primeiro capítulo que todo o sistema jurídico brasileiro se baseia na Constituição Federal, que
veicula as normas hierárquicas superiores, e isso inclui o sistema tributário.
Abaixo da Constituição, as diretrizes são traçadas por normas gerais de caráter nacional estabelecidas nas
chamadas leis complementares, a exemplo do Código Tributário Nacional, que tem esse status. Para as leis
ordinárias, fica a instituição dos tributos no âmbito das competências de cada ente federativo (União, Estados,
Distrito Federal e Municípios).
Será que compreender o sistema constitucional tributário, as normas nacionais infraconstitucionais e aquelas
que instituem os tributos, já garante o necessário à compreensão do sistema tributário brasileiro?
Quais as normas fundamentais do sistema jurídico-tributário estabelecidas na Constituição? Que normas gerais
fundamentam a instituição dos tributos?
Responder a essas perguntas é fundamental para um bom desenvolvimento do estudo que você fará, nos tópicos
que ainda virão, quanto a diversos tributos relacionados à legislação aduaneira e tributária no âmbito
internacional.
Portanto, a partir de agora, você vai ampliar a visão do sistema jurídico-tributário no âmbito do qual se
contextualiza a legislação que rege a tributação internacional e do comércio exterior.
Bom estudo!

2.1 O sistema constitucional tributário


O capítulo I do título VI da Constituição Federal trata do Sistema Tributário Nacional. As normas desse sistema
constituem o fundamento de validade de toda a legislação tributária infraconstitucional (abaixo da Constituição),
ou seja, toda a legislação tributária deve seguir, sem contrariar, os princípios e normas constitucionais.
Esse sistema constitucional tributário compreende as:
• competências tributárias (parcelas do poder de tributar conferidas a cada um dos entes federativos
(União, Estados, Distrito Federal e Municípios), a exemplo do poder conferido à União para instituir e
legislar a respeito do Imposto de Importação.
• limitações ao poder de tributar (limites impostos ao poder de tributar com o objetivo de evitar abusos
no exercício das competências pelas pessoas políticas, sendo elas os princípios e as imunidades). Por
exemplo, o princípio da legalidade, que exige lei para instituir um tributo, e a imunidade dos templos de
qualquer culto, norma que proíbe a tributação das entidades religiosas.

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VOCÊ SABIA?
O capítulo do Sistema Tributário Nacional também é dedicado às repartições das receitas
tributárias entre as pessoas políticas, cujo objetivo é propiciar o equilíbrio federativo,
mediante repartições de receitas tributárias estabelecidas por intermédio de normas que
obrigam as pessoas políticas a partilharem com outras os resultados de suas arrecadações de
tributos (MARTINS, 2017, p. 57). Por exemplo, o repasse de 25% do ICMS do Estado para os
Municípios, segundo o critério denominado “índice de participação dos municípios”. Esse tema
não é de grande relevância para a legislação aduaneira e tributária, mas precisa ser
mencionado para ficar completa a visão do Sistema Tributário Nacional.

Portanto, o Sistema Tributário Nacional pode ser representado pelo seguinte esquema:

Figura 1 - Representação esquemática do Sistema Tributário Nacional.


Fonte: Elaborada pelo autor, 2018.

Assim, podemos partir para o estudo das competências e limitações ao poder de tributar, as “engrenagens dessa
máquina” de que se extraem os fundamentos jurídico-constitucionais da legislação aduaneira e tributária.

2.1.1 Competências tributárias e limitações constitucionais ao poder de


tributar
No âmbito do regime federativo brasileiro, construído a partir do artigo 1º da Constituição Federal (união
indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal), o poder de tributar é dividido entre as pessoas
políticas por meio competências conferidas pela Constituição a União, Estados, Distrito Federal e Municípios.

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Figura 2 - Competências tributárias: União, Estados, Distrito Federal e Municípios.
Fonte: Maxx-Studio, Shutterstock, 2018.

Essa divisão de competências tributárias serve para que cada ente federativo tenha suas fontes próprias de
receitas e possa fazer valer a autonomia que lhe é conferida no âmbito da organização político-administrativa do
Estado (CF, art. 18).
Trata-se, portanto, de um sistema em que a competência para criar cada tributo é estabelecida na Constituição,
incumbindo aos entes políticos instituir os tributos de suas respectivas competências.
Mais adiante, no tópico 2.2, você poderá aprofundar o conceito e as espécies de tributo. De forma simplificada,
tributos são importâncias em dinheiro, arrecadadas pelas pessoas políticas com base na lei e na Constituição, a
cujo pagamento estão obrigados os particulares (pessoas físicas e pessoas jurídicas). Existem cinco espécies de
tributos previstas na Constituição e que podem ser arrecadadas pelas pessoas políticas. Clique nos itens a seguir
para ver quais são eles.


Impostos

Taxas

Contribuições

Contribuições de melhoria

Empréstimo compulsório

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Então, sempre que ouvir falar em impostos, taxas, contribuições, contribuições de melhoria e empréstimo
compulsório, você estará escutando uma referência a espécies de tributos.
Competências privativas e concorrentes
As pessoas políticas só podem criar e legislar a respeito dos tributos que lhes forem expressamente outorgados
pela Constituição. Ou seja, não é a Constituição que institui os tributos, apenas confere competências às pessoas
políticas para que o façam, cada qual por meio de suas respectivas leis.
Essa atribuição constitucional de competência pode se dar em caráter exclusivo a determinada pessoa política
(União, Estado, Distrito Federal ou Município), o que se denomina competência privativa ou exclusiva. Por
exemplo, são privativas da União as competências para os seguintes tributos: Imposto de Importação (II),
Imposto de Exportação (IE), Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), Imposto de Renda (IR),
Contribuições para o PIS e Cofins, Cide-combustível e Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante
(AFRMM). E é privativa do Estado a competência para o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços
(ICMS).
Por outro lado, a competência pode ser conferida a todas as pessoas políticas ao mesmo tempo, o que se designa
por competência concorrente ou comum. Bons exemplos são as taxas, que podem ser instituídas por qualquer
um dos entes federativos, desde que tenha sido o responsável pela prestação de um serviço público de sua esfera
de atribuições ou exercício regular do poder de polícia que seja de sua competência (concessão de alvarás,
licenças, fiscalização de atividades etc). É assim que, mais uma vez exemplificativamente, compete à União
instituir e cobrar a Taxa de Utilização do Sistema de Comércio Exterior (Siscomex).
Em qualquer caso, seja competência privativa ou comum, não se admite que um ente federativo ultrapasse os
limites de sua competência ou invada aquela que foi conferida a outros entes da federação.
Competência da União para legislar em caráter nacional
Para exercerem as suas competências tributárias, os entes federativos também se submetem a uma legislação de
caráter nacional, estabelecida pela União, mediante lei complementar, segundo atribuição que lhe é
constitucionalmente atribuída para dispor sobre conflitos de competência, regular limitações ao poder de
tributar e estabelecer normas gerais de direito tributário (CF, art. 146).
Sobre as limitações constitucionais ao poder de tributar, em que consistem e quais são elas?
Limitações ao poder de tributar
Sobre as limitações ao poder de tributar, discorre Sabbag (2017, p. 1), quando explica que:

“As limitações ao poder de tributar são, em última análise, qualquer restrição imposta pela CF às
entidades dotadas de tal poder, no interesse da comunidade, do cidadão ou, até mesmo, no interesse
do relacionamento entre as próprias entidades impositoras.
Nos arts. 150, 151 e 152 da CF, encontram-se as limitações ao poder de tributar, que são: legalidade,
isonomia, irretroatividade, anterioridade, proibição do confisco, liberdade de tráfego, imunidades,
além de outras limitações”.

Como se vê, coerente com a estrutura do sistema tributário nacional inicialmente apresentada neste tópico,
entre as limitações constitucionais ao poder de tributar estão os princípios e as imunidades tributárias, que
serão estudados sucessivamente, na sequência.

2.1.2 Princípios constitucionais tributários


Princípios são normas de estatura superior que veiculam valores fundamentais do Sistema Tributário Nacional,
impondo limites ao exercício do poder de tributar. Constituem, portanto, vedações constitucionalmente
impostas aos entes tributantes, isto é, às pessoas políticas União, Estados, Distrito Federal e Municípios.

Em termos mais precisos, ao mesmo tempo que confere às pessoas políticas a competência (poder para instituir

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Em termos mais precisos, ao mesmo tempo que confere às pessoas políticas a competência (poder para instituir
e cobrar os tributos), a Constituição impõe freios para que não haja abusos no exercício dessa competência.
Esses freios são impostos pelas normas denominadas princípios tributários, que devem ser observados por
qualquer lei que esteja abaixo da Constituição Federal, bem como por qualquer agente público encarregado de
arrecadar e fiscalizar tributos.
Sobre esses princípios, vamos conhecer aqueles que guardam maior relação com a legislação aduaneira e
tributária, lembrando sempre que são vedações impostas aos entes da federação (União, Estados, Distrito
Federal e Municípios).
Princípio da legalidade (CF, art. 150, I): é vedado exigir o aumento de tributo sem que lei o estabeleça.
Contudo, existem exceções ao princípio previstas na própria Constituição, relativas a tributos que podem ter
suas alíquotas modificadas por ato do Poder Executivo.
Entre essas exceções, no campo da tributação do comércio exterior, os impostos sobre importação (II), sobre
exportação (IE) e sobre produtos industrializados na importação (IPI - importação) podem ter as suas alíquotas
alteradas por ato do Poder Executivo, inclusive para aumento (CF, art. 153, § 1º). Também por ato do Poder
Executivo, a Cide-combustível pode ter suas alíquotas reduzidas e restabelecidas (CF, art. 177, § 4º, I, “b”).
Para uma melhor compreensão, a regra geral é de que o Poder Legislativo precisa aprovar uma lei para
aumentar um tributo. Porém, já ocorreu de haver necessidade de o Poder Executivo aumentar o Imposto de
Importação como medida para desestimular a importação de automóveis e incentivar a indústria automobilística
brasileira. Para tanto, considerando-se que o Imposto de Importação está entre as exceções ao princípio da
legalidade, não precisou de lei, bastando uma norma do Poder Executivo, que pode ser um decreto do Presidente
da República ou até uma Resolução da Câmara de Comércio Exterior (Camex).

VOCÊ QUER VER?


O filme Robin Hood, de Ridley Scott (2010), baseado em uma lenda inglesa, retrata bem o
momento histórico da Magna Carta, considerada a primeira constituição da história da
humanidade e a origem dos direitos fundamentais. No documento, um dos principais pleitos
dos barões ingleses ao Rei João Sem Terra foi o de que o rei não pudesse mais criar tributos
sem que um conselho formado por representantes do clero e da nobreza fosse previamente
consultado (origem também do princípio da legalidade tributária).

Princípio da anterioridade (CF, art. 150, III, “b” e “c”): constitui limitação ao poder de tributar que tem por
objetivo evitar que as pessoas sejam surpreendidas com a tributação. Clique na interação a seguir para entender
melhor este princípio.

Anterioridade do exercício ou anual (alínea “b”): é vedado cobrar tributos no mesmo exercício financeiro em
que haja sido publicada a lei que instituiu ou aumentou o tributo.

Anterioridade nonagesimal (alínea “c”): é vedado cobrar tributos antes de decorridos 90 dias da data em que
haja sido publicada a lei que os instituiu ou aumentou.

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Em regra, esses dois princípios devem ser aplicados cumulativamente, de modo que o novo tributo ou aquele
com aumento só poderá ser cobrado no exercício seguinte, desde que decorridos pelo menos noventa dias.

Por exemplo, se um Estado da federação aprovar uma lei aumentando o ICMS, a partir da data em que essa lei for

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Por exemplo, se um Estado da federação aprovar uma lei aumentando o ICMS, a partir da data em que essa lei for
publicada, esse Estado deverá aguardar o exercício seguinte e, cumulativamente, que se passem 90 dias, até que
possa começar a cobrar o imposto com aumento. Antes desse prazo, todas as importações continuarão pagando
o ICMS sem aumento.

Figura 3 - O princípio da anterioridade prevê aguardar 90 dias até que a nova alíquota possa ser cobrada.
Fonte: Gena96, Shutterstock, 2018.

Existem, contudo, exceções ao princípio que impactam diretamente na tributação internacional e do comércio
exterior entre elas as listadas na interação a seguir. Clique para ver.
Tributos que não se submetem a nenhuma anterioridade e podem ser cobrados imediatamente (CF, art.
150, § 1º): impostos sobre importação (II), exportação (IE) e operações financeiras (IOF).
Tributos que não se submetem à anterioridade do exercício e precisam aguardar apenas noventa dias:
Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico sobre
Combustíveis (Cide-combustível).
Tributos que não se submetem à anterioridade nonagesimal e precisam aguardar apenas o exercício

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Tributos que não se submetem à anterioridade nonagesimal e precisam aguardar apenas o exercício
seguinte: imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza (IR) em relação à fixação de sua base de
cálculo.

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Devem ser observados, ainda, mais quatro princípios aplicáveis aos tributos que serão estudados na sequência
desta disciplina.
Os dois primeiros guardam grande relação entre si. São os princípios da capacidade contributiva e da
progressividade. Segundo o princípio da capacidade contributiva, sempre que possível, os impostos terão
caráter pessoal e serão graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte (CF, art. 145, § 1º).
Relaciona-se a esse preceito o princípio da progressividade, tipicamente vinculado aos impostos de caráter
pessoal, notadamente o Imposto de Renda, cujas alíquotas progressivas vão aumentando, gradativamente,
conforme aumentam os rendimentos obtidos pelos contribuintes.

Figura 4 - Tabela de incidência mensal do Imposto de Renda da Pessoa Física.


Fonte: BRASIL, 2018.

O terceiro é o princípio da irretroatividade da norma tributária (CF, art. 150, III, “a”): a lei tributária não
retroagirá para atingir fatos geradores ocorridos anteriormente à sua vigência. Dessa forma, se houve um
aumento ou redução da alíquota do imposto de importação sobre determinado produto, a nova alíquota não
poderá ser aplicada às importações ocorridas anteriormente à vigência da nova lei.
E, finalmente, deve ser mencionado o princípio do não confisco (CF, art. 150, IV): constitui vedação à
instituição de tributos que não sejam razoáveis, que tenham carga tributária desproporcional e excessiva. (STF –
ADIN 551/RJ).
Embora existam outros princípios constitucionais tributários, são esses os que mais se aplicam à legislação
aduaneira e tributária.

2.1.3 Competência tributária e imunidades


Dando continuidade ao estudo das limitações ao poder de tributar, são chamadas imunidades tributárias as
exonerações de tributos previstas na Constituição Federal, mediante normas que estabelecem situações em que
as pessoas políticas ficam proibidas de exercer suas competências tributárias, ou seja, de instituírem e cobrarem
tributos.
Sob um outro ponto de vista, a cada imunidade tributária corresponde o direito de uma pessoa física ou jurídica
não ser tributada.

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VOCÊ SABIA?
As imunidades tributárias não se confundem com as isenções. As imunidades estão previstas
na Constituição e compreendem hipóteses de vedação ao exercício de competências tributárias
(exemplo: imunidade constitucional dos templos de qualquer culto). Já as isenções têm
natureza de exclusão do crédito tributário e constituem hipóteses de dispensa legal do
pagamento do tributo, ou seja, estão previstas na legislação infraconstitucional (exemplo: a
isenção de Imposto de Renda às pessoas físicas que obtenham rendimentos mensais inferiores
a R$ 1.903,98).

As imunidades podem ser classificadas em subjetivas e objetivas. Na imunidade subjetiva, a pessoa política não
pode tributar determinadas pessoas, como é o caso da imunidade dos templos de qualquer culto (CF, art. 150, VI,
“b”). Já na imunidade objetiva, o que não pode ser tributado é o bem ou direito objeto da tributação, a exemplo
da imunidade do livro, jornal ou periódico e do papel destinado à sua impressão (CF, art. 150, VI, “d”).
Em uma outra classificação, além das imunidades tributárias gerais, previstas no artigo 150, inciso VI, da CF, a
Constituição também estabelece as imunidades específicas, assim chamadas porque se aplicam apenas em
tributos específicos, a exemplo da imunidade do ICMS (CF, art. 155, § 2º, X, “a”) e de outros tributos nas
exportações.

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Figura 5 - A Constituição Federal contemplou as exportações brasileiras com imunidades em relação a vários
tributos.
Fonte: Stephen Finn, Shutterstock, 2018.

As imunidades, na condição de vedações ao exercício das competências tributárias, estão dirigidas à União, aos
Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios. Vamos, agora, conhecer as imunidades gerais e aquelas específicas
de tributos incidentes sobre o comércio exterior.
Imunidade recíproca (CF, art. 150, VI, “a”): trata-se da vedação a que União, Estados, Distrito Federal e
Municípios instituam “impostos sobre patrimônio, renda e serviços uns dos outros”, que se estende, também, “às
autarquias e às fundações instituídas e mantidas pelo Poder Público no que se refere ao patrimônio, à renda e
aos serviços, vinculados às suas finalidades essenciais ou às delas decorrentes” (CF, art. 150, § 2º). Por outro
lado, não se aplica aos “serviços relacionados com exploração de atividades econômicas regidas pelas normas
aplicáveis a empreendimentos privados, ou em que haja contraprestação ou pagamento de preços ou tarifas pelo
usuário” (CF, art. 150, § 3º).
Isso significa dizer que a imunidade recíproca atinge os entes federativos e suas autarquias, a exemplo do INSS
ou do Banco Central, e as empresas estatais tipicamente prestadoras de serviços públicos, a exemplo da Infraero
e dos Correios. Por outro lado, não se beneficiam da imunidade aquelas empresas que atuam no mercado,
exercendo típica atividade econômica, a exemplo do que ocorre com a Petrobras e o Banco do Brasil.
Imunidade dos templos (CF, art. 150, VI, "b"): compreende os impostos sobre o patrimônio, a renda e os
serviços, desde que relacionados com as finalidades essenciais das referidas entidades (CF, art. 150, § 4º). Veja
que essa imunidade é subjetiva porque o termo “templo” foi utilizado pela Constituição no sentido de entidade
religiosa.
Imunidade dos partidos políticos, entidades sindicais, de educação e de assistência social (CF, art. 150,
VI, “c”): são imunes a impostos sobre patrimônio, renda ou serviços os grupos listados a seguir. Clique para ver.

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Os partidos políticos, inclusive suas fundações.

As entidades sindicais dos trabalhadores.

Instituições de educação e de assistência social sem fins lucrativos.

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Elas são denominadas imunidades não-autoaplicáveis, pois, nesses casos, a Constituição faz a exigência de que
sejam atendidos os requisitos de lei. Além disso, uma vez que, sob o fundamento de que cabe à lei
complementar regular limitações constitucionais ao poder de tributar (CF, art. 146, II), o Supremo Tribunal
Federal entende que os requisitos das imunidades em questão são estabelecidos em lei complementar (ADI
566622 e ADIs 2028, 2036, 2228 e 2621).
Imunidades dos livros (CF, art. 150, VI, “d”): são imunes a impostos os livros, jornais, periódicos e o papel
destinado à sua impressão. Essa imunidade se refere apenas a impostos, não se aplicando a outras espécies de
tributos. É conhecido como imunidade cultural ou informativa, por proteger livros, jornais ou periódico de
qualquer natureza ou temática, desde que voltados para a difusão de cultura ou informação.
Durante muito tempo, perdurou a controvérsia quanto à aplicação da imunidade aos livros veiculados em meio
eletrônico ou digital. Depois de muitos anos, o Supremo Tribunal Federal se pronunciou e, a partir de uma
interpretação evolutiva da norma, acompanhando a evolução da tecnologia, consolidou a jurisprudência no
sentido de que a imunidade se aplica plenamente:
“A imunidade tributária constante do artigo 150, VI, d, da Constituição Federal, aplica-se ao livro eletrônico (e-
book), inclusive aos suportes exclusivamente utilizados para fixá-lo” (STF, RE 330817 – com repercussão geral
reconhecida).
“A imunidade tributária da alínea “d” do inciso VI do artigo 150 da Constituição Federal alcança componentes
eletrônicos destinados exclusivamente a integrar unidades didáticas com fascículos” (STF, RE 595676 – com
repercussão geral reconhecida).

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Figura 6 - O STF reconheceu a imunidade tributária do livro eletrônico e também dos dispositivos eletrônicos
utilizados para a sua leitura.
Fonte: Sergey Nivens, Shutterstock, 2018.

Veja que não há distinção quanto à origem do livro em papel ou eletrônico, nem do papel, suporte ou dispositivo
de leitura, de modo que a imunidade atingirá os tributos devidos nas importações que vierem do exterior.
Imunidade musical refere-se a fonogramas e videofonogramas musicais produzidos no Brasil contendo obras
musicais ou literomusicais de autores brasileiros e/ou obras em geral interpretadas por artistas brasileiros
, bem como os suportes materiais ou arquivos digitais que os contenham, salvo na etapa de replicação industrial
de mídias ópticas de leitura a laser (CF, art. 150, VI, “e”).
Na imunidade musical, diferente do que ocorre em relação à imunidade cultural ou informativa, há várias
exigências no sentido de que a obra tenha caráter nacional, a começar por ser produzida no Brasil, o que exclui
totalmente a aplicação essa imunidade na importação de obras musicais que tenham sido produzidas no
exterior.

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VOCÊ O CONHECE?
Ivan Guimarães Lins, nascido em 16 de junho de 1945 e conhecido pelo nome artístico de Ivan
Lins, é músico e compositor e um grande ícone da Música Popular Brasileira. Juntamente com
outros intérpretes e compositores brasileiros, tais como Marisa Monte, Lenine e Francis Hime,
ele esteve presente na votação do Senado Federal que aprovou Proposta de Emenda à
Constituição - PEC 123/2011 (Senado Federal, 2013). Conhecida como PEC da Música, deu
origem à Emenda Constitucional nº 75/2013, que incluiu a “imunidade musical no texto da
Constituição Federal”.

Além das imunidades tributárias gerais do artigo 150, inciso VI, da CF, a Constituição também contempla as
chamadas imunidades específicas, correspondentes a todas aquelas aplicáveis a tributos determinados.
Algumas se referem especificamente ao comércio exterior, mais precisamente, às exportações.
Nesse sentido, a Constituição Federal estabelece a não incidência de diversos impostos e contribuições sobre as
exportações. São elas:

Quadro 1 - Imunidades tributárias nas exportações.


Fonte: Elaborado pelo autor, baseado em BRASIL, 2018.

Portanto, no sistema tributário brasileiro, coerente com a ideia econômica de manutenção da balança comercial
favorável, isto é, maior volume de exportações do que importações, a Constituição concentra a tributação nas
importações, ao mesmo tempo em que estabelece a não incidência de vários tributos sobre as exportações
(imunidades específicas).

2.2 Teoria Geral do Direito Tributário I


O que é tributo? Quais suas classificações e espécies? O que importa para a tributação no campo internacional e
comércio exterior? A seguir, você vai encontrar as respostas a essas perguntas.

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2.2.1 Conceito de tributo
O tributo é legalmente conceituado no artigo 3º do Código Tributário Nacional como “toda prestação pecuniária
compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilícito, instituída
em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada” (CTN, art. 3º).
Esse conceito legal pode ser dividido em elementos conceituais, clique nas abas a seguir.

Prestação pecuniária

É uma prestação em dinheiro que um devedor (contribuinte ou responsável) deve cumprir


perante o credor (Fisco ou Fazenda Pública).

Compulsória

Cumprir a obrigação tributária é um dever, e não uma faculdade, do contribuinte.


Em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir

Reforça o caráter pecuniário da prestação.


Que não constitua sanção de ato ilícito

O tributo, cujos fatos geradores são atos lícitos (legais), não se confunde com as multas e
penalidades, que constituem sanções (punições) de atos ilícitos (infrações).

Instituída em lei

Em coerência com o princípio da legalidade tributária (CF, art. 150, I), o tributo só pode ser exigido
ou aumentado por intermédio de lei.

Cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada

A autoridade administrativa não pode sob nenhum pretexto ou justificativa deixar de cobrar o
tributo quando isso lhe seja determinado por lei.

Podemos dizer que tributo é um gênero que possui várias classificações e espécies. Vamos conhecer?

2.2.2 Tributos e suas classificações


Quanto à competência, os tributos subdividem-se em federais, estaduais e municipais. Clique na interação a
seguir para saber mais sobre cada um deles.
Federais
Competência da União (exemplos: Imposto de Renda e Contribuições para o PIS e a COFINS).
Estaduais
Competência dos Estados e do Distrito Federal (exemplos: ICMS e IPVA).

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Competência dos Estados e do Distrito Federal (exemplos: ICMS e IPVA).
Municipais
Competência dos Municípios e do Distrito Federal (exemplos: IPTU e ISS).
Uma classificação delineada no Código Tributário Nacional exclusivamente para os impostos utiliza como
critério a natureza econômica do fato gerador, a saber:
• impostos sobre o comércio exterior: impostos sobre importação (II) e exportação (IE);
• impostos sobre o patrimônio e a renda: impostos sobre a propriedade territorial rural (ITR), a
propriedade predial e territorial urbana (IPTU), a transmissão de bens imóveis (ITBI) e a renda e
proventos de qualquer natureza (IR);
• impostos sobre a circulação e a produção: imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e sobre
circulação de mercadorias e serviços de transporte e comunicação (ICMS).
Porém, com a promulgação da CF em 1988, a jurisprudência do STF passou a se orientar no sentido de que essa
classificação não mais se sustenta, por se valer critérios infraconstitucionais não recepcionados pela
Constituição Federal de 1988.

CASO
Embora a Constituição Federal contemple com imunidade tributária sobre patrimônio, renda e
serviços de muitas entidades com base na classificação quanto à natureza econômica dos fatos
geradores – a saber, União, Estados, Distrito Federal, Municípios, autarquias e fundações
públicas, empresas estatais prestadoras de serviços públicos, templos religiosos, sindicatos de
trabalhadores, partidos políticos e instituições de educação e assistência social sem fins
lucrativos –, muitos Estados sempre cobraram o ICMS na importação de bens para integrarem
o patrimônio dessas entidades.
O fundamento utilizado pelas unidades federativas é de que o ICMS não seria um imposto
sobre patrimônio, mas sobre circulação de bens. Isso levou muitas dessas entidades a
ingressarem na Justiça mediante o ajuizamento de ações contra a cobrança do ICMS na
importação de bens para comporem o seu patrimônio, a exemplo de máquinas, veículos e
equipamentos.
Em uma dessas ações, o processo chegou ao Supremo Tribunal Federal, que, ao julgar o Agravo
Regimental no Recurso Extraordinário nº 225778, decidiu contra a invocação da classificação
econômica dos tributos. Por quê?
O principal argumento do STF foi o de que um critério adotado por norma infraconstitucional,
no caso o Código Tributário Nacional, não pode ser utilizado para afastar a imunidade
tributária de uma entidade filantrópica (instituição de assistência social sem fins lucrativos).
Isso porque, independentemente de a importação constituir uma circulação de bens, o fato do
bem importado passar a integrar o patrimônio da entidade, por si só, já confere a ela o direito à
imunidade. O mesmo vale para todas as demais entidades inicialmente citadas, e não apenas
para as instituições de assistência social sem fins lucrativos.

Existem diversas outras classificações dos tributos, mas não tão aderentes ao tema central desta disciplina.
Porém, uma delas, cujo critério é a finalidade do tributo, possui grande repercussão na legislação aduaneira, por
isso será dedicado um subtópico a ela.

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2.2.3 Espécies tributárias
Embora estejam previstas três espécies de tributos no artigo 5º do Código Tributário Nacional (impostos, taxas e
contribuições de melhoria) e no próprio artigo 145 da Constituição Federal, um estudo atento do texto
constitucional revela a existência de mais duas espécies de tributárias, que são o empréstimo compulsório (CF,
art. 148) e as contribuições, sobretudo as sociais e de intervenção no domínio econômico.
Impostos
O imposto é um tributo de caráter não vinculado, cuja hipótese de incidência consiste na descrição de um fato
qualquer que não seja atuação estatal. Nesse sentido, dispõe o Código Tributário Nacional que: “O imposto é um
tributo cuja obrigação tem por fato gerador uma situação independente de qualquer atividade estatal específica
relativa ao contribuinte” (CTN, art. 16).
Sua incidência se dá sobre fatos signo-presuntivos de riqueza (sinais de riqueza do contribuinte), tais como a
renda no Imposto de Renda (IR) e a propriedade no Imposto sobre a Propriedade Territorial e Predial Urbana
(IPTU), constituindo, segundo Martins (2017, p. 28) “uma receita que se destina ao financiamento de atividades
gerais do Estado, tais como saúde, educação, segurança pública, transporte etc.”
No campo da tributação internacional e do comércio exterior, incidem vários impostos, entre eles: Imposto sobre
Renda e Proventos de Qualquer Natureza (IR), Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), impostos sobre
importação (II), exportação (IE) e produtos industrializados (IPI) e imposto sobre circulação de mercadorias (II);
todos, com exceção do IE, devidos na importação.
Taxas
A taxa pode ter como possíveis fatos geradores o exercício regular do poder de polícia, ou a utilização, efetiva ou
potencial, de serviços públicos específicos e divisíveis, prestados ao contribuinte ou postos à sua disposição
(CTN, art. 77).
A taxa de polícia (de fiscalização) é cobrada quando há o exercício do poder de polícia, também chamado de
poder de fiscalização. Bons exemplos são as taxas para obtenção de alvarás, licenças e autorizações para o
exercício de atividades econômicas.
A taxa de serviço, por sua vez, pode ser cobrada sempre que o Estado, diretamente, presta serviço público
específico e divisível ao contribuinte. É um exemplo a taxa de policiamento de eventos privados, tais como
partidas de futebol. Porém, se o serviço é geral e indivisível, como a segurança pública ostensiva nas ruas de uma
cidade, sua remuneração se dá através dos impostos, e não de taxas.
No âmbito do comércio exterior, registra-se a incidência de várias taxas, podendo-se destacar aqui a taxa
mercante e taxa de utilização do Siscomex.
Contribuições de melhoria
Têm por fato gerador a valorização imobiliária decorrente de uma obra pública (CF, art. 145, III c/c CTN, art. 81).
É um tributo vinculado cujo objetivo é fazer frente ao custo da obra pública, e não encontra aplicação
relacionada à legislação aduaneira e tributária no campo internacional.
Empréstimos compulsórios
Poderão ser instituídos em duas hipóteses: 1) para atender às despesas extraordinárias decorrentes de
calamidade pública, de guerra externa ou sua iminência; e 2) no caso de investimento público de caráter urgente
e de relevante interesse nacional. Igualmente, também se trata de uma espécie tributária sem aplicação no
âmbito da legislação aduaneira e tributária no plano internacional.
Contribuições
São tributos, via de regra, de competência da União. Segundo Martins (2017, p. 42), “as contribuições, de maneira
geral, possuem finalidades constitucionalmente previstas”. Podem ser de variadas naturezas, tais como as de
custeio da seguridade social, intervenção no domínio econômico, interesse de categorias, iluminação pública,
devidas para os regimes próprios de previdência dos servidores públicos, entre outras.
No âmbito do comércio exterior, interessam especificamente as seguintes contribuições:

• Contribuições para a Seguridade Social: custeiam o sistema estatal que compreende Saúde,

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• Contribuições para a Seguridade Social: custeiam o sistema estatal que compreende Saúde,
Previdência e Assistência Social. Previstas no artigo 195, incisos I a IV, da CF. No campo do comércio
exterior, incidem sobre, entre outros fatos geradores, quando devidas pelo importador de bens ou
serviços do exterior. São elas: PIS/Pasep e Cofins vinculadas à importação.
• Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide): sua arrecadação tem por foco permitir a
intervenção do Estado em determinados setores da econômicos. No campo do comércio exterior, podem
ser citadas a Cide-combustível e o Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM).

VOCÊ SABIA?
As contribuições sociais também possuem tratamentos antagônicos nos dois polos do
comércio exterior. Ao mesmo tempo em que são objeto de imunidade constitucional quanto às
receitas decorrentes de exportação, elas são exigidas sobre a importação de produtos ou
serviços estrangeiros.

Conhecidas as espécies tributárias e inúmeras das classificações dos tributos, vamos encerrar este tópico com
uma classificação que será, propositalmente, tratado em tópico à parte, uma vez ser muito marcante no âmbito
da tributação do comércio exterior.

2.2.4 Tributos fiscais e extrafiscais


Os tributos, sobretudo os impostos, podem ser classificados quanto às respectivas finalidades. De acordo com
Martins (2017, p. 29), essa classificação “divide os impostos em fiscais (cujo fim exclusivo é arrecadar recursos
para os cofres públicos) e extrafiscais (cuja finalidade precípua não é a arrecadação de recursos, mas sim a
utilização como instrumento estatal de intervenção na ordem socioeconômica – caráter regulatório)”.
A repercussão é muito intensa para a presente disciplina, pois muitos tributos incidentes sobre o comércio
exterior possuem natureza extrafiscal, o que inclusive justifica que constituam exceções aos princípios da
legalidade e da anterioridade.
Para melhor compreensão, veja, por exemplo, o imposto sobre as importações (II). Para que seja possível utilizá-
lo na regulação do comércio exterior, confere-se ao Poder Executivo a possibilidade de alteração de suas
alíquotas sem necessidade de lei, bem como a sua cobrança imediata. Imagine aguardar toda a tramitação
legislativa, a noventena e o exercício seguinte para que, por exemplo, seja majorado o imposto de exportação (II)
sobre um produto essencial que passa por uma crise inflacionária e de desabastecimento interno em razão do
elevado nível de suas exportações. Nesse caso, se confere ao Poder Executivo o poder de aumentar o imposto
sem necessidade de aprovação do Poder Legislativo e em caráter imediato para rápida resposta estatal à crise, a
fim de evitar maiores prejuízos à economia nacional e à sociedade.

2.3 Teoria Geral do Direito Tributário II


Neste tópico, você vai estudar outros aspectos gerais da tributação aplicáveis à legislação aduaneira e tributária:
relação jurídica tributária, hipótese de incidência, fato gerador, obrigação principal e acessória, contribuinte e
responsável, alíquota e base de cálculo, crédito tributário, constituição, lançamento e extinção; todos temas
fundamentais para este ramo legislativo.

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2.3.1 Relação jurídica tributária
A relação jurídica tributária confunde-se com a obrigação tributária, constituindo uma relação jurídica entre um
credor – sujeito ativo (Fisco ou Fazenda Pública) e um devedor – sujeito passivo (Contribuinte ou Responsável)
com referência a um objeto, que é o pagamento do tributo ou penalidade pecuniária (CTN, art. 113, § 3º).

Figura 7 - Relação jurídica tributária.


Fonte: Elaborada pelo autor, 2018.

Estabelecida essa visão estática da obrigação tributária, quase como se fosse uma fotografia, vamos conhecê-la,
agora, sob um ponto de vista dinâmico, tal qual uma filmagem.

2.3.2 Hipótese de incidência e fato gerador


O fato gerador da obrigação tributária é a situação definida em lei como necessária e suficiente à sua
ocorrência (CTN, art. 114).
Assim se define o nascimento da obrigação tributária por meio de uma norma dotada de ambiguidade no sentido
de que o fato gerador pode ser visto sob dois pontos de vista, a seguir.
• Hipótese de incidência: corresponde à descrição legal do fato gerador. Exemplo: o ICMS incide sobre as
importações no momento do desembaraço aduaneiro de mercadorias e bens.
• Fato gerador ou fato jurídico-tributário: efetiva ocorrência da hipótese de incidência, isto é, do fato
descrito na lei tributária. Exemplo: uma mercadoria importada é submetida ao desembaraço aduaneiro.

Figura 8 - Incidência tributária.


Fonte: Elaborada pelo autor, 2018.

Portanto, a ocorrência do fato gerador de que trata o artigo 114 do CTN se dá pela incidência tributária, ou seja, a
ocorrência do fato concreto (fato gerador) descrito na norma tributária (hipótese de incidência).

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2.3.3 Obrigação tributária: principal e acessória
De acordo com o CTN, a “obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objetivo o
pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extingue-se juntamente com o crédito dela decorrente” (CTN,
art. 113, § 1º).

Figura 9 - O pagamento do tributo ou penalidade pecuniária é o objeto da obrigação tributário principal.


Fonte: Barbara Baranowska, Shutterstock, 2018.

Até aqui, você estudou a obrigação tributária principal, cabendo acrescentar sobre a sua constituição em crédito
tributário por meio do lançamento e extinção por meio de vários atos ou fatos descritos no artigo 156 do Código
Tributário Nacional. Antes, porém, deve-se tratar da obrigação tributária acessória.
Obrigações acessórias são prestações positivas ou negativas (CTN, art. 113, § 2º), tais como emissão de
documentos fiscais, escrituração de livros, entrega de declarações, não recebimento de mercadorias sem
documentação fiscal etc.

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Figura 10 - No Brasil, as empresas estão sujeitas a uma quantidade imensa de obrigações acessórias, o que gera
grande custo e dispêndio de tempo.
Fonte: Franck Boston, Shutterstock, 2018.

Estas obrigações acessórias são previstas na legislação tributária “no interesse da arrecadação e da fiscalização”
(CTN, art. 113, § 2º).
Portanto, a regularidade das operações de comércio exterior das operações de comércio exterior pressupõe não
apenas o cumprimento de obrigações principais (pagamento dos tributos), mas, também, das obrigações
acessórias, conforme exemplificado no vídeo a seguir.

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VOCÊ QUER LER?
Atualmente, as obrigações acessórias, tais como as declarações de importação e exportação,
estão passando por um processo de simplificação e unificação no âmbito do Portal Único do
Sistema Integrado do Comércio Exterior (Siscomex). Acessando o Portal Único (http://portal.
siscomex.gov.br) é possível ler sobre a respeito, com destaque para o novo processo de
importação e a Declaração Única de Importação (Duimp).

A inobservância de obrigação acessória converte esta em obrigação principal relativamente à penalidade


pecuniária (CTN, 113, § 3º), ou seja, a multa punitiva, aplicada em razão do descumprimento de obrigações
acessórias, constitui obrigação tributária principal.

2.3.4 Sujeição passiva: contribuintes e responsáveis


Sujeito passivo é o devedor da relação tributária, isto é, aquele obrigado ao pagamento do tributo ou da
penalidade pecuniária. Como dispõe o artigo 121, parágrafo único do CTN, o sujeito passivo pode ser:
I – o contribuinte: pessoa com relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador.
Exemplo: o importador no Imposto de Importação (II).
II – o responsável: aquele que, não se revestindo da condição de contribuinte, sua obrigação decorre de
expressa disposição legal. Exemplo: o transportador no caso de mercadoria importada que tiver extraviado.

2.3.5 Alíquotas e base de cálculo


Para o cálculo do valor de cada tributo a ser pago em cumprimento à obrigação tributária principal, a lei
estabelece um critério de multiplicação de uma constante, denominada alíquota, por uma variável, chamada de
base de cálculo.

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Figura 11 - O tributo é calculado pela multiplicação da alíquota (constante) pela base de cálculo (variável).
Fonte: Lisa S., Shutterstock, 2018.

Há duas espécies de alíquotas, em razão das quais também se distinguem as bases de cálculo. Clique na interação
a seguir e veja quais são elas.
Alíquota ad valorem: é um percentual estabelecido em lei. Nesse caso, a base de cálculo é um valor em dinheiro.
Por exemplo, se em um determinado Estado a alíquota do ICMS é 18% e a base de cálculo de uma importação (de
modo geral, o valor da operação) é de R$ 200 mil, o ICMS-importação devido será de R$ 36 mil, pois:
Alíquota (18%) x Base de cálculo (R$ 200 mil) = ICMS (R$ 36 mil)
Alíquota específica: corresponde a um valor por determinada unidade de medida, hipótese em que a base de
cálculo será uma quantidade. Por exemplo, a alíquota da Cide-combustível sobre a gasolina é de R$ 860 por m
etro cúbico. Logo, se uma empresa importa 10 m³ de gasolina, o valor de Cide-combustível a pagar será de R$ 8,6
mil, pois:
Alíquota (R$ 860/m³) x Base de cálculo (10 m³) = R$ 8,6 mil

`
Podemos concluir que, matematicamente, o tributo é sempre calculado a partir da multiplicação de uma
constante por uma variável.

2.3.6 Crédito tributário, lançamento e extinção


Segundo Machado (2017, p. 175), crédito tributário “é o nome que se dá à formalização da obrigação tributária
(dever de pagar o tributo ou a penalidade pecuniária), depois que esta é tornada líquida, certa e exigível pelo
lançamento.”
O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta (CTN, art. 139), razão pela
qual se pode afirmar que crédito tributário e obrigação tributária não são expressões sinônimas.

A obrigação tributária corresponde à relação jurídica que tem por objeto do devedor do contribuinte pagar o

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A obrigação tributária corresponde à relação jurídica que tem por objeto do devedor do contribuinte pagar o
tributo, enquanto o crédito tributário refere-se ao direito do Fisco em receber o tributo devido depois de
formalizada a obrigação.
E, para que o Fisco possa exercer o seu direito, o crédito tributário precisa ser constituído pelo lançamento
tributário, um procedimento administrativo que culmina com um ato final de natureza declaratória da obrigação
tributária preexistente e constitutiva do crédito tributário.

Figura 12 - Relação entre obrigação, crédito tributário e lançamento.


Fonte: Elaborada pelo autor, 2018.

O crédito tributário é constituído pelo lançamento tributário. Compete privativamente à autoridade


administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo,
previsto no artigo 142 do CTN, tendente a:
• verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente;
• determinar a matéria tributável;
• calcular o montante do tributo devido;
• identificar o sujeito passivo; e,
• sendo o caso, propor a aplicação da penalidade cabível (CTN, art. 142).
Existem três modalidades de lançamento previstas no CTN que se distinguem segundo o grau de participação do
Fisco. Clique nas abas a seguir para conhecê-las.

Lançamento de ofício (CTN, art. 149, I)

Efetuado diretamente pela autoridade administrativa, independentemente de qualquer


informação ou ato do sujeito passivo ou de terceiro (grau máximo de participação do Fisco). Além
de alguns tributos, com destaque para o IPTU, está presente no lançamento por auto de infração,
que é um documento lavrado pela fiscalização, cobrando o tributo e aplicando uma multa sobre
contribuintes que, em desrespeito à legislação, tenham deixado de efetuar o respectivo pagamento
no prazo devido.

Lançamento por declaração (CTN, art. 147)

Efetivado pela autoridade administrativa a partir de informações imprescindíveis, declaradas pelo


sujeito passivo ou por terceiro (grau médio de participação do Fisco). Ocorre no caso do Imposto
de Importação devido no âmbito Regime Especial de Tributação, em que a autoridade aduaneira
da Receita Federal faz o lançamento do imposto de importação com base em Declaração de
Bagagem de Viajante Eletrônica (DBV-e) apresentada pelo contribuinte. Mais precisamente,

quando um viajante retorna do exterior, tem que apresentar sua DVB-e. A partir dessa declaração,

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quando um viajante retorna do exterior, tem que apresentar sua DVB-e. A partir dessa declaração,
a Receita Federal vai calcular e cobrar o imposto de importação, completando, dessa forma, o
lançamento por declaração.

Lançamento por homologação (CTN, art. 150)

O sujeito passivo antecipa o pagamento sem prévia análise da autoridade administrativa (grau
mínimo de participação do Fisco). A homologação pela autoridade administrativa pode ser
expressa ou tácita (quando a homologação ocorre automaticamente após cinco anos sem que o
Fisco tenha se manifestado). É assim que se dá o lançamento da maioria dos tributos, a exemplo do
Imposto de Importação, em que incumbe ao contribuinte apurar o seu imposto, apresentar a
Declaração de Importação, submeter-se ao controle aduaneiro e antecipar o pagamento do tributo
devido.

Da mesma forma que decorre da obrigação principal (CTN, art. 139), o crédito tributário desaparece juntamente
com o vínculo obrigacional, ponto muito bem enfatizado por Carvalho (2016, p. 447): “O crédito tributário é
apenas um dos aspectos da relação jurídica obrigacional, mas sem ele inexiste o vínculo. Nasce no exato instante
em que irrompe a obrigação e desaparece juntamente com ela”.
Esse desaparecimento da obrigação tributária e do crédito a ela correspondente se dá em face de
acontecimentos previstos como hipóteses de extinção no artigo 156 do CTN. São elas:
“I - o pagamento;
II - a compensação;
III - a transação;
IV – a remissão;
V - a prescrição e a decadência;
VI - a conversão de depósito em renda;
VII - o pagamento antecipado nos termos do disposto no artigo 150 e seus §§ 1º e 4º;
VIII - a consignação em pagamento;
IX - a decisão administrativa irreformável, assim entendida a definitiva na órbita administrativa, que não mais
possa ser objeto de ação anulatória;
X - a decisão judicial passada em julgado;
XI – a dação em pagamento em bens imóveis, na forma e condições estabelecidas em lei”.
Entre todas, a forma extintiva mais comum é o pagamento, isto é, a quitação do tributo normalmente em
dinheiro, via recolhimento pela rede bancária. No âmbito do comércio exterior, é muito comum a exigência pela
legislação de que tributos sejam pagos por débito automático, o que se dá no ato de registro da DI – Declaração
de Importação.

2.4 Tributação Internacional


No âmbito da tributação internacional, se atribui grande relevância aos acordos internacionais que visam ao
combate à dupla tributação da renda. Nesse campo, o Brasil é signatário de inúmeros acordos internacionais,
com diversos países, razão pela qual interessa retomar o estudo dos tratados.

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2.4.1 O combate à bitributação
Para Costa (2012, p. 67), a bitributação “significa a possibilidade de um mesmo fato jurídico ser tributado por
mais de uma pessoa”. Portanto, quando se fala em combate à bitributação internacional, está se dizendo a
respeito de normas que se contrapõem à dupla tributação de pessoas pelos países.
Com o objetivo de evitar bitributação internacional, ou seja, a dupla tributação da renda, o Brasil firmou acordos
e convenções com vários países do mundo, tais como África do Sul, Alemanha, Argentina, Canadá, Chile, China,
Espanha, França, Portugal, Rússia, entre outros. Esses acordos, em geral, também contemplam medidas de
combate à evasão fiscal.

VOCÊ QUER LER?


No site da Receita Federal, a Subsecretaria de Aduana e Relações Internacionais mantém
atualizada a relação de todos os acordos para evitar a dupla tributação e prevenir a evasão
fiscal firmados pelo Brasil. Disponível em:
<http://idg.receita.fazenda.gov.br/acesso-rapido/legislacao/acordos-internacionais/acordos-
para-evitar-a-dupla-tributacao>.
Na página, além da relação dos acordos, também é possível conferir os decretos legislativos
que os ratificaram, bem como decretos executivos e portarias ministeriais correlatas.

Para fazer valer a força dos tratados, o § 2º do artigo 65 da Instrução normativa RFB nº 1.500/2014, que dispõe
sobre normas gerais de tributação relativas ao imposto sobre a renda das pessoas físicas, prevê que:

“§ 2º O contribuinte que houver recebido rendimentos de fonte situada no exterior, incluídos na base
de cálculo do recolhimento mensal, pode compensar o imposto pago nos países com os quais o Brasil
possui acordos, convenções ou tratados internacionais ou naqueles em que haja reciprocidade de
tratamento em relação aos rendimentos produzidos no Brasil, desde que não sujeitos à restituição
ou compensação no país de origem”.

Portanto, mesmo em relação a países com os quais o Brasil não possui acordos, é possível a compensação do
imposto pago no exterior. E as condições são: 1º) existência de tratamento recíproco no outro país; 2º)
impossibilidade do imposto ser restituído ou compensado na nação de origem.
No próximo capítulo, quando você estudar o Imposto de Renda, o procedimento do contribuinte para não ser
bitributado será melhor detalhado.

2.4.2 Tratados internacionais tributários


Segundo o artigo 96 do CTN, a expressão “legislação tributária” compreende também os tratados e as
convenções internacionais, os quais “revogam ou modificam a legislação tributária interna, e serão observados
pela que lhes sobrevenha” (CTN, art. 98).
Sobre essa norma do artigo 98 do CTN, esclarece Paulsen (2017, p. 171):

“Desse dispositivo, tiramos que os tratados, mesmo quando disponham de modo distinto do que

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“Desse dispositivo, tiramos que os tratados, mesmo quando disponham de modo distinto do que
estabelecem as leis internas, deverão ser observados. Mas a referência feita pelo art. 98 à revogação
da legislação tributária interna é imprópria. Quando o tratado estabeleça tratamento específico para
determinados produtos, países ou blocos, a lei interna geral continua aplicável aos demais casos”.

Porém, para que produzam esse efeito, esses tratados necessitam ser internalizados, isto é, transpostos para a
legislação interna, conforme consagrado na jurisprudência do STF (CR 8279 AgR).
Aliás, a forma de internalização por meio de decreto legislativo já foi estudada no primeiro capítulo desta
disciplina, valendo o mesmo para os tratados em matéria tributária.

Síntese
Neste capítulo, você teve como foco principal o sistema constitucional tributário e a teoria geral do direito
tributário, com breve incursão final sobre aspectos da tributação internacional.
Neste capítulo, você teve a oportunidade de:
• compreender que os princípios e imunidades tributárias são importantes limitações constitucionais ao
exercício das competências tributárias;
• diferenciar as espécies de tributos, as de mais relevância para a legislação aduaneira e tributária no
campo internacional são os impostos, as taxas e as contribuições;
• entender que com o fato gerador nasce a obrigação tributária, cujo crédito correspondente é constituído
pelo lançamento e se extingue juntamente com a obrigação;
• compreender que os tratados internacionais, para valerem no Brasil, precisam ser internalizados no país
mediante ratificação, via decretos legislativos, e podem ser firmados para evitar a bitributação
internacional da renda.

Bibliografia
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de 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>.
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Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L5172.htm>. Acesso em: 02/11/2018.
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Disponível em <www.stf.jus.br>. Acesso em 18 de janeiro de 2019.
CARVALHO, P. B. Curso de direito tributário. 29. ed. São Paulo: Saraiva, 2018.
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MACHADO SEGUNDO, H. B. Manual de direito tributário. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2017.
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PAULSEN, L. Curso de direito tributário completo. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2017

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Receita Federal, 2018. Tabela de incidência mensal do Imposto de Renda da Pessoa Física. Disponível em: <
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______, Subsecretaria de Aduana e Relações Internacionais. Acordos para evitar a dupla tributação. Disponível
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