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ELETRICIDADE E RESPONSABILIDADE

ELECTRICITY AND LIABILITY

PEDRO FALCÃO1

RESUMO: Trinta anos depois da aprovação do diploma que consagra em Portugal o regime da
responsabilidade civil do produtor, em transposição da Diretiva 85/374/CEE do Conselho, o presente texto
aprecia o confronto entre a aplicação deste regime e a do regime previsto nos arts. 509.º e 510.º do Código
Civil no contexto do fornecimento de energia elétrica.

PALAVRAS-CHAVE: fornecimento de energia elétrica; responsabilidade do produtor; responsabilidade


do detentor.

ABSTRACT: Thirty years after the approval of the portuguese law on producer liability, transposing the
Council Directive 85/374/CEE, the present text analyses the confrontation between this regime and the
regime established in arts. 509.º and 510.º of the Civil Code in the context of electricity supply.

KEYWORDS: electricity supply; producer liability; system keeper liability.

SUMÁRIO: I. Introdução. II. A Eletricidade como Produto. III. Responsabilidade do Produtor e


Responsabilidade do Detentor de Instalação Transmissora de Energia Elétrica: 1) Considerações Gerais; 2)
Produtor e Detentor; 3) Danos Ressarcíveis. IV. Aplicação dos Regimes. V. Contrato de Fornecimento de
Energia Elétrica e Concurso de Responsabilidades. VI. Conclusões.

1
Adjunto de Ensino, a prestar atualmente serviço na Faculdade de Direito de Coimbra. Pós-graduado em
Direito dos Contratos e do Consumo, mestre e doutorando em Direito Civil na mesma Faculdade.

À memória do Senhor Doutor João Calvão da Silva.

REVISTA DE DIREITO DA RESPONSABILIDADE – ANO 1 - 2019 1012


I. Introdução

Trinta anos volvidos sobre a aprovação do Decreto-Lei n.º 383/89, de 6 de novembro, diploma
que transpôs a Diretiva 85/374/CEE do Conselho, de 25 de julho de 1985, relativa à aproximação
dos ordenamentos dos Estados Membros em matéria de responsabilidade decorrente de produtos
defeituosos, o presente estudo propõe-se apreciar o confronto entre a aplicação deste regime e a
do regime previsto nos arts. 509.º e 510.º do Código Civil (CC) no contexto do fornecimento de
energia elétrica.

Referimo-nos ao contexto do fornecimento, pois a aplicabilidade neste âmbito de ambos os


regimes — o da responsabilidade do produtor e o da responsabilidade do detentor de instalações
de transporte e distribuição de eletricidade — pressupõe a atividade de fornecimento, já que, por
um lado, a energia elétrica é posta em circulação pelo produtor com esse objetivo e que, por outro,
só há danos causados pelas instalações de energia elétrica a que se refere o art. 509.º porque a
eletricidade por elas mobilizada lá transita com vista ao fornecimento, ainda que não tenha
necessariamente de causar danos na esfera do fornecido para que o respetivo regime se aplique.

Será, por isso, importante perceber: a qualificação da eletricidade como produto; as diferenças e
semelhanças entre os tipos de responsabilidade em análise; a identificação dos responsáveis; os
danos ressarcíveis ao abrigo de cada um dos regimes; as vantagens e desvantagens para o lesado
da aplicação de um e de outro.

Relevante será também apreciar a organização e funcionamento do Sistema Elétrico Nacional


(SEN), para compreender a posição de cada sujeito que o compõe na cadeia de fornecimento e
assim atualizar (ou confirmar) a identificação do produtor e circunscrever (ou reinterpretar) o
momento de entrada da eletricidade em circulação, tal como fixados por Calvão da Silva, para
efeitos da aplicação do Decreto-Lei n.º 383/89.

Uma breve explicação sobre o contrato de fornecimento de energia elétrica encerrará esta análise,
pelo facto de as suas características muito particulares permitirem colocar a hipótese de aplicar,
também relativamente ao operador da rede, que não é parte no contrato de fornecimento
propriamente dito mas promitente da prestação do seu serviço em condições de segurança, a
inversão do ónus da prova prevista no art. 11.º/1 da Lei dos Serviços Públicos Essenciais (LSPE)2.

2
Lei n.º 23/96, de 26 de julho, que cria no ordenamento jurídico alguns mecanismos destinados a proteger
os utentes de serviços públicos essenciais (fornecimento de água, energia elétrica, gás natural e gases de
petróleo liquefeitos canalizados, serviço de comunicações eletrónicas, serviços postais, recolha e tratamento
de águas residuais, e gestão de resíduos sólidos urbanos), várias vezes alterada, a última das quais pela Lei
n.º 10/2013, de 28 de janeiro.

REVISTA DE DIREITO DA RESPONSABILIDADE – ANO 1 - 2019 1013


Neste caso, em que o dano é causado na fase final do fornecimento, parecem surgir perante o
utente lesado a responsabilidade extracontratual do produtor e o concurso entre as
responsabilidades extracontratual e contratual do detentor. Iremos ver em que termos nas
próximas páginas.

II. A Eletricidade como Produto

Ainda que se admita a discussão física em torno da conceção da eletricidade como coisa3, parece-
nos que deve hoje dar-se o debate jurídico por encerrado e por estabilizada tal conceção, pelo
menos no nosso ordenamento.

Com efeito, vários são os autores, os julgadores e os regimes a reconhecer a qualificação da


eletricidade como coisa, como produto, como mercadoria.

São célebres no nosso ordenamento jurídico as observações que Manuel de Andrade fez a este
propósito, classificando como coisas corpóreas «as forças naturais, como a electricidade, que se
revelam aos sentidos humanos, só de per si ou com o auxílio de instrumentos idóneos, e que
satisfaçam os requisitos gerais do conceito jurídico de coisas»4. Requisitos estes que, cremos, se
acham preenchidos: sendo efetivamente armazenável, ainda que em quantidade limitada5, a
eletricidade, idónea para a satisfação de interesses humanos, manifesta uma existência autónoma
e suscetível de apropriação exclusiva.

No mesmo sentido, também Oliveira Ascensão se referiu à eletricidade como integrando o leque
de coisas corpóreas que «não são visíveis, mas não deixam de se revelar aos sentidos»6, assim
como Carlos Ferreira de Almeida aludiu a «redes de transporte de coisas corpóreas, tais como a
água, o gás e a eletricidade»7.

Os próprios diplomas legais, setoriais e outros, confirmam este entendimento.

O Decreto-Lei n.º 29/2006, de 15 de fevereiro, que consagra as bases da organização e


funcionamento do SEN8, define comercialização como «a compra e venda de eletricidade a
clientes, incluindo a revenda» (art. 3.º/i), da mesma forma que o Regulamento de Relações

3
Na sua apreciação jurídica do problema, Ángel Sánchez Hernández analisa em pormenor os aspetos físicos
da eletricidade, concluindo que «la electricidad no es “cosa”, sino un “estado” especial de condensación
de una onda energética que entraña movimiento o vibración de carga energética en los electrones de un
hilo conductor, sin que quepa, por ser de consumo inmediato, ser aislada y recogida para su
almacenamiento» (HERNÁNDEZ, 1996, 171).
4
ANDRADE (1992), 227.
5
Cfr. SILVA (2011), 124 e ZUCCARINO (2016), 11.
6
ASCENSÃO (2000), 352.
7
ALMEIDA (2016), 218.
8
Diploma várias vezes alterado, a última das quais pela Lei n.º 42/2016, de 28 de dezembro.

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Comerciais do Setor Elétrico (RRC)9 define comercializador como «entidade cuja atividade
consiste na compra a grosso e na venda a grosso e a retalho de energia elétrica» (art. 3.º/2/h), o
que atesta o reconhecimento da eletricidade como coisa, suscetível de propriedade e translação
(cfr. art. 874.º CC).

Nos diplomas do consumo, vemos a Diretiva 1999/44/CE do Parlamento Europeu e do Conselho,


de 25 de maio de 1999, relativa a certos aspetos da venda de bens de consumo e das garantias a
ela relativas10, a qualificar a eletricidade como bem móvel corpóreo para depois a excluir da noção
de bem de consumo (cfr. art. 1.º/2/b), e o Decreto-Lei n.º 24/2014, de 14 de fevereiro, que
consagra o regime dos contratos celebrados à distância e fora do estabelecimento comercial, a
referir-se também à eletricidade como coisa móvel corpórea, incluindo-a na definição de bem
quando posta à venda em quantidade limitada (cfr. art. 3.º/a).

Consentaneamente, também a jurisprudência reconhece esta posição: o Ac. TRC de 09-03-2010,


Proc. n.º 590/1999.C1 (Regina Rosa)11, por exemplo, refere que «o contrato de fornecimento de
energia eléctrica é um contrato de compra e venda de coisa móvel (energia eléctrica), mediante o
pagamento de um preço» (ponto I do sumário).

Na jurisprudência comunitária, a concecção da eletricidade como mercadoria aparece no Ac.


TJUE de 27-04-1994, Proc. n.º C-393/92 (Gemeente Almelo e o. contra Energiebedrijf IJsselmij
NV)12, que é inequívoco ao afirmar que «não se contesta em direito comunitário, nem, aliás, nos
direitos nacionais, que a electricidade é uma mercadoria na acepção do artigo 30.º do Tratado» (§
28).

Não é estranho, por isso, considerar a eletricidade como produto, o que aliás é assumido no art.
2.º da Diretiva 85/374/CEE, e incluí-la no âmbito de aplicação do Decreto-Lei n.º 383/89.

Foi o que fez Calvão da Silva, entendendo que o legislador nacional dispensou na transposição o
esclarecimento que o referido art. 2.º deixa na sua parte final («a palavra “produto” designa
igualmente a electricidade»), «porquanto no direito português é pacífica a qualificação da
electricidade como coisa material ou coisa corpórea»13.

9
Regulamento n.º 561/2014 da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), alterado pelo
Regulamento n.º 632/2017 da mesma entidade.
10
Diploma revogado, com efeitos a partir de 1 de janeiro de 2022, pela recentíssima Diretiva (UE)
2019/771, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 20 de maio de 2019, relativa a certos aspetos dos
contratos de compra e venda de bens.
11
Descarregado em www.dgsi.pt.
12
Descarregado em www.curia.eu.
13
SILVA (1999), 608.

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III. Responsabilidade do Produtor e Responsabilidade do Detentor de Instalação
Transmissora de Energia Elétrica

1) Considerações Gerais

O produtor é «responsável, independentemente de culpa, pelos danos causados por defeitos dos
produtos que põe em circulação» (art. 1.º do Decreto-Lei n.º 383/89). O detentor de instalação
elétrica destinada ao transporte e distribuição de eletricidade14, que a utilize no seu próprio
interesse, «responde tanto pelo prejuízo que derive da condução ou entrega da electricidade [...],
como pelos danos resultantes da própria instalação, excepto se ao tempo do acidente esta estiver
de acordo com as regras técnicas em vigor e em perfeito estado de conservação» (art. 509.º/1 CC).

Trata-se, portanto, de dois regimes de responsabilidade objetiva, o primeiro fundado no risco


inerente à produção técnica moderna, o segundo fundado no risco associado ao exercício de uma
atividade especialmente perigosa em razão da natureza da fonte energética veiculada.

Num contexto de desenvolvimento industrial, de complexificação do processo produtivo e de


massificação do consumo, entenderam as Comunidades Europeias reforçar a proteção do
consumidor15, obrigando o produtor a responder, diretamente e independentemente de culpa, por
danos causados pelos defeitos dos produtos que coloca no mercado, defeitos esses
comprometedores da segurança com que legitimamente se deve poder contar16, tendo em conta
todas as circunstâncias, nomeadamente a apresentação do produto, a utilização que razoavelmente
se possa fazer dele e o momento da sua entrada em circulação (cfr. art. 6.º/1 da Diretiva
85/374/CEE e art. 4.º/1 do Decreto-Lei n.º 383/89).

Defeitos catalogados pela doutrina como sendo de conceção, de fabrico, de informação ou de


desenvolvimento: os primeiros respeitantes à fase de projeto, em que a conceção ou idealização
do produto não observa o estado da ciência e da técnica, enfermando toda uma série; os segundos
emergentes da fase de fabrico, em que, na execução de um projeto correto, falhas mecânicas e/ou
humanas determinam o caráter ilegitimamente inseguro de alguns exemplares de uma série; os

14
Concordamos aqui, nomeadamente, com Menezes Leitão, que entende estar em causa neste regime
apenas a responsabilidade dos detentores de instalações de condução ou entrega de eletricidade ou gás, e
não de outras instalações também ligadas a atividades do sistema elétrico ou do setor do gás natural, como
a produção, que não estão expressamente referidas na lei e não envolvem maiores riscos do que quaisquer
outras instalações industriais (cfr. LEITÃO, 2017, 386 e 387). Em sentido contrário, VARELA (2017), 712.
15
Consumidor em sentido amplo, todos nós, por definição, como disse o Presidente americano (cfr.
KENNEDY, 1962, 1), uma vez que o regime da responsabilidade do produtor se destina, em geral, à proteção
de todos os que contactam com produtos defeituosos e perigosos, muito embora transpareça no art. 8.º do
Decreto-Lei n.º 383/89 (no segmento respeitante aos danos em coisas) e Calvão da Silva não deixe de notar
um propósito de tutela do consumidor em sentido estrito (cfr. SILVA, 1999, cit., 706).
16
E cujo grau deve aferir-se de acordo com as expectativas objetivas dos consumidores, tendo em conta a
segurança que normalmente podem esperar em determinado setor de consumo e considerando o estado da
ciência e da técnica ao tempo da colocação do produto no mercado. Cfr. SILVA (1999), cit., 633 e ss..

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terceiros consubstanciados na falta ou inadequação das informações que devem acompanhar o
produto, relativas à sua utilização e aos perigos que dela podem advir, atendendo aos
conhecimentos científicos e técnicos da época em que aquele é colocado no mercado; e os últimos
referentes a riscos incognoscíveis perante o estado da arte ao tempo da entrada do produto em
circulação, e que, por essa razão, não responsabilizam o produtor (cfr. art. 5.º/e do Decreto-Lei
n.º 383/89)17.

Consagrando-se, compreensivelmente, o momento da introdução de tais produtos no mercado


como aquele a partir do qual é possível a responsabilização do produtor ao abrigo deste regime.

Com efeito, não faria sentido responsabilizar o produtor pelos danos causados por defeitos de
produtos que não colocou voluntariamente no mercado, por achar que não estavam em condições
de entrar no circuito comercial, mas somente após a sua entrega material a terceiro, momento a
partir do qual deixa de ter controlo sobre os riscos do produto18. E, por isso mesmo, pode o
produtor eximir-se de responsabilidade (art. 5.º do Decreto-Lei n.º 383/89) se provar que «não
pôs o produto em circulação» (al. a)), que, «tendo em conta as circunstâncias, se pode
razoavelmente admitir a inexistência do defeito no momento da entrada do produto em
circulação» (al. b)) ou que «não fabricou o produto para venda ou qualquer outra forma de
distribuição com um objectivo económico, nem o produziu ou distribuiu no âmbito da sua
actividade profissional» (al. c)).

Ao abrigo deste regime, pode então o produtor de energia elétrica ser responsabilizado pelos
danos causados pela eletricidade defeituosa que coloca no mercado. Importa por isso perceber a
que defeitos nos devemos referir e qual o momento da entrada em circulação deste produto.

Calvão da Silva referiu amperagem e voltagem inadequadas e aumentos significativos de


frequência ou de tensão como defeitos, e considerou a passagem da eletricidade pelo contador
como o momento da sua entrada em circulação para efeitos da aplicação do regime da
responsabilidade civil do produtor19.

Os problemas relativos à qualidade da eletricidade que encontramos hoje caracterizados no


Regulamento da Qualidade de Serviço do Setor Elétrico e do Setor do Gás Natural (RQS)20 e na

17
Cfr. SILVA (1999), cit., 655 e ss.. Entre outros aspetos, o autor salienta o facto de, fruto de um especial
dever no tráfico que recai sobre o produtor desde a colocação do produto em circulação e que o
responsabiliza a partir do momento em que o perigo se torna conhecido ou previsível, aquele estar obrigado
a uma vigilância contínua do produto e a intervir adequadamente para evitar a sua materialização num dano,
promovendo «advertências e informações ao público, a recolha do produto para correcção ou mesmo a sua
retirada definitiva do mercado» (662).
18
Cfr. SILVA (1999), cit., 669.
19
Cfr. SILVA (1999), cit., 610 e 611.
20
Regulamento n.º 629/2017 da ERSE.

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norma NP EN 5016021 (v.g. cavas de tensão, sobretensão, tremulação, distorção harmónica)
suportam a apreciação feita pelo autor a este respeito. E qualquer deles representará um defeito
integrável no quadro da responsabilidade civil do produtor, na medida em que seja efetivamente
suscetível de pôr em causa a segurança com que legitimamente o consumidor deve poder contar
relativamente à sua pessoa e bens, o que cabe ao julgador avaliar em face das circunstâncias do
caso.

Quanto ao momento de entrada da eletricidade em circulação, também não vemos razão para
discordar do autor: o produto é colocado no mercado, isto é, disponibilizado ao consumidor,
aquando da sua entrega numa instalação de utilização.

O regime dos danos causados por instalações de energia elétrica, por sua vez, visa colocar o risco
da mobilização desta fonte de energia especialmente perigosa na esfera dos sujeitos que dessa
atividade retiram as maiores vantagens, ou seja, aqueles que têm a direção efetiva das instalações
que a tais atividades se destinam e as utilizam no seu próprio interesse.

Não se trata de responsabilidade por danos causados por defeitos da eletricidade colocada em
circulação, mas por danos que decorram da condução ou entrega da eletricidade ou resultantes da
própria instalação elétrica a tal destinada: danos «devidos ao mau funcionamento do sistema de
condução ou entrega ou aos defeitos da própria instalação»22.

Percebe-se, todavia, que em determinados casos a aplicabilidade dos regimes pode coincidir. O
caso, por exemplo, da entrega de eletricidade em sobretensão a um utente, causando danos ao seu
computador pessoal, que este utiliza predominantemente para fins particulares: dano que deriva
da entrega da eletricidade e que simultaneamente tem origem num defeito deste produto, que afeta
um bem destinado a uso privado, permitindo assim a convocação de qualquer dos regimes.

Mas já não o caso da pessoa que sofre eletroplessão devido ao desprendimento de um cabo de
transporte de energia elétrica em alta tensão, por se considerar, por um lado, que a morte resultante
não teve origem num defeito da eletricidade em si, e, por outro, pelo facto de esta eletricidade não
se encontrar ainda em circulação, na aceção do Decreto-Lei n.º 383/89. Terá nesta situação
aplicabilidade o regime dos arts. 509.º e 510.º CC, tendo de averiguar-se se, à data do acidente, a
instalação estava ou não em conformidade com as regras técnicas em vigor e em perfeito estado

21
Norma de origem europeia aprovada pelo Comité Europeu de Normalização Eletrotécnica, que define as
características da tensão fornecida pelas redes de distribuição pública de energia elétrica.
22
VARELA (2017), cit., 713.

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de conservação, ou se o desprendimento se deveu a força maior, respondendo o respetivo detentor
em caso negativo23.

Exploraremos melhor as situações em que ambos os regimes se podem aplicar quando abordarmos
a hipótese do concurso da responsabilidade extracontratual e contratual do operador da rede no
quadro do fornecimento de energia elétrica a clientes finais.

2) Produtor e Detentor

Nos termos do art. 2.º do Decreto-Lei n.º 383/89, produtor é «o fabricante do produto acabado,
de uma parte componente ou de matéria-prima, e ainda quem se apresente como tal pela aposição
no produto do seu nome, marca ou outro sinal distintivo» (n.º 1), bem como «aquele que, na
Comunidade Económica Europeia e no exercício da sua actividade comercial, importe do exterior
da mesma produtos para venda, aluguer, locação financeira ou outra qualquer forma de
distribuição» (n.º 2/a), e também «qualquer fornecedor de produto cujo produtor comunitário ou

23
Importa, não obstante, abordar a este propósito duas questões: por um lado, perceber se o dano é causado
pela instalação ou se decorre da condução da energia elétrica, o que influi na consideração da hipótese de
exclusão da responsabilidade específica das situações de danos causados por instalações (cfr. art. 509.º/1
CC in fine); por outro, perceber até que ponto se poderá falar de força maior quanto ao desprendimento do
cabo, o que, em qualquer dos cenários anteriores, possibilitaria o afastamento da responsabilidade (cfr. art.
509.º/2 CC).
Vaz Serra acaba por ser um pouco equívoco nesta matéria, ao afirmar que «para se aplicar a
responsabilidade objectiva, seria necessário que o dano fosse devido aos efeitos da electricidade ou do gás,
derivados de uma instalação para condução ou entrega de electricidade ou gás, ou da própria instalação»
(SERRA, 1960, 142). Se o autor quis, como parece, distinguir os efeitos da eletricidade derivados da
instalação condutora dos efeitos da própria instalação (aliás na esteira da lei alemã que inspirou este
regime), o exemplo que utilizámos parece dever enquadrar-se na primeira destas hipóteses, caso em que o
detentor apenas poderá mobilizar a força maior como causa de exclusão da responsabilidade.
Mas não é o desprendimento do cabo, naturalmente com corrente, a concretização de um perigo especial
que se prende com o estado de conservação da própria instalação? Parece-nos que sim, mas, mesmo que
assim se considere, só v.g. um fenómeno atmosférico excecional (cfr. Ac. STJ de 12-07-2018, Proc. n.º
802/14.0TBTNV.E1.S1, Fátima Gomes, www.dgsi.pt), um facto do lesado ou um facto de terceiro (cfr.
VARELA, 2017, cit., 713) afastarão a responsabilidade do detentor, já que, em circunstâncias normais, um
cabo não se desprende de uma estrutura regular e em perfeito estado de conservação.
Ponderou-se, na origem deste regime, se o desprendimento do cabo, mesmo devido a causa de força maior,
devia ou não responsabilizar o detentor. O argumento favorável prendia-se com a especial perigosidade
envolvida na situação, que justificaria ainda assim a responsabilização, tal como se achava determinado na
Haftpflichtgesetz, que ainda hoje exceciona estes casos da possibilidade de alegação e prova da ocorrência
de força maior (§ 2). Todavia, não tendo tal orientação, constante do anteprojeto de Vaz Serra, vingado no
articulado definitivo do Código de 1966, o argumento não procederá.
Um último aspeto relevante respeita à apreciação generalizada deste e de outros problemas afins à luz do
regime do art. 493.º/2 CC, que consagra uma responsabilidade subjetiva agravada a recair sobre aquele
que, no exercício de uma atividade perigosa por sua natureza ou pela natureza dos meios utilizados, cause
danos a outrem, salvo se provar ter feito tudo o que as circunstâncias exigiam para os prevenir. Um regime
que facilita a prova da culpa, pelo facto de a presumir, mas que deveria, na melhor das hipóteses, ter
aplicabilidade subsidiária neste contexto (na medida em que o valor dos danos exceda os limites de
ressarcibilidade fixados no art. 510.º, no entendimento do Ac. TRC de 04-04-2017, Proc. n.º
1347/15.7T8GRD.C1, Sílvia Pires, www.dgsi.pt), em razão da especialidade do regime previsto no art.
509.º, que já penaliza o lesante com o mesmo fundamento (risco da atividade perigosa). Cfr. VARELA
(2017), cit., 595 e ss., quanto a problema idêntico no âmbito dos acidentes de viação.

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importador não esteja identificado, salvo se, notificado por escrito, comunicar ao lesado no prazo
de três meses, igualmente por escrito, a identidade de um ou outro, ou a de algum fornecedor
precedente» (n.º 2/b).

Trata-se assim do produtor real — responsável pela criação do produto, fabricando o produto
acabado, uma parte componente deste ou a matéria-prima —, do produtor aparente — que, aos
olhos do consumidor, aparece como produtor pela aposição no produto de um seu sinal distintivo
— ou do produtor presumido — que se presume como tal por importar o produto (acabado, parte
componente ou matéria-prima) do exterior da União Europeia para o distribuir, ou por fornecer o
produto sem a identificação do respetivo produtor comunitário ou importador, a não ser que revele
a sua identidade ou a de algum fornecedor anterior24.

O regime consagrado nos arts. 509.º e 510.º CC, por sua vez, responsabiliza «aquele que tiver a
direcção efectiva de instalação destinada à condução da energia eléctrica ou do gás, e utilizar essa
instalação no seu interesse» (art. 509.º/1).

Responsabiliza, portanto, no que toca à energia elétrica, os sujeitos do SEN a quem foi atribuída
a exploração da rede de transporte e das redes de distribuição, isto é, o Operador da Rede de
Transporte (atualmente a REN — Redes Energéticas Nacionais, SGPS, S.A.), o Operador da
Rede de Distribuição em Alta Tensão e Média Tensão (atualmente a EDP Distribuição — Energia
S.A.), e os Operadores das Redes de Distribuição em Baixa Tensão (atualmente, na maioria dos
casos, também a EDP Distribuição).

Mas será o operador da rede, detentor da instalação de transmissão de energia elétrica,


simultaneamente produtor?

Se considerarmos que integra a cadeia de produção, na linha de Calvão da Silva25, devemos


concluir que sim. E uma tal conclusão implica, em certos casos de danos decorrentes da entrega
de eletricidade a clientes finais (v.g. sobretensão), a potencial responsabilização do operador da
rede a diferentes títulos: a título extracontratual, na veste de produtor, por morte ou lesão pessoal
do utente ou dano causado a um bem de consumo deste (cfr. arts. 1.º e 8.º do Decreto-Lei n.º
383/89); a título extracontratual, como detentor de instalação destinada à entrega de energia
elétrica, por ter dado causa aos mesmos danos no decurso desta entrega (cfr. art. 509.º/1 CC); a

24
Cfr. SILVA (1999), cit., 545 e ss..
25
Nas palavras do autor: «bem vistas as coisas, os que têm a direcção efectiva da rede de transporte e
distribuição de energia devem configurar-se como produtores no sentido do Dec.-Lei n.º 383/89, pois o
produto que chega ao consumidor é por eles moldado em termos finais e definitivos. Sabe-se, na verdade,
da necessidade de passar a energia para alta tensão, a partir da produção, por forma a reduzir a intensidade
da corrente e assim reduzir as perdas. Sabe-se, por outro lado, que junto aos centros de consumo,
essencialmente por razões de segurança, volta a reduzir-se a tensão para valores mais baixos, até se obter a
voltagem apropriada, em baixa tensão, para o consumidor» (SILVA, 1999, cit., 610).

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título contratual, enquanto promitente da entrega da eletricidade no âmbito do contrato de uso das
redes celebrado com o comercializador a favor do utente26, por incumprimento da obrigação de
abastecer em segurança (cfr. art. 6.º/2/a RRC).

E será mesmo assim?

Calvão da Silva concebeu o operador da rede como integrante da cadeia de produção e o momento
de entrada da eletricidade em circulação como aquele em que esta é entregue ao utente para ser
utilizada. Assim, de facto, há uma identidade entre o sujeito operador da rede, que é também
detentor da instalação, e a figura do produtor, justificando as considerações antecedentes.

Vejamos.

O Sistema Elétrico Nacional representa o conjunto de sujeitos, infraestruturas e normas que


sustentam e enquadram o processo de fornecimento de eletricidade em Portugal.

Operam no âmbito do SEN, entre outros sujeitos, produtores, transportador, distribuidores e


comercializadores, compondo uma cadeia de fornecimento cujos elos estão, em regra,
juridicamente (functional unbundling) ou até patrimonialmente separados (full onwnership
unbundling) por imposição legal, para salvaguarda da concorrência e incentivo ao investimento27.

Tal constrangimento faz com que o comercializador, única entidade habilitada a celebrar um
contrato de fornecimento com o utente e a, por esse intermédio, colocar a energia elétrica à sua
disposição, não possa produzir nem entregar essa eletricidade para utilização, da mesma forma
que ao transportador e aos distribuidores estão vedadas a comercialização e a produção.

26
Enquanto contrato a favor de terceiro, o contrato de uso das redes, que, neste caso, formaliza o acesso
da instalação do cliente do comercializador à rede a que se encontra ligada, confere àquele cliente o direito
de exigir a prestação do operador da rede e de a exigir, naturalmente, em condições conformes às regras
setoriais aplicáveis — no caso, a entrega da eletricidade em segurança. Cfr. infra, V.
27
Exigência do mercado interno da eletricidade, reforçada na Diretiva 2009/72/CE, do Parlamento Europeu
e do Conselho, de 13 de julho de 2009 (terceiro pacote comunitário para a energia), com base na ideia de
que «sem a separação efectiva entre as redes e as actividades de produção e de comercialização [...], há um
risco inerente de discriminação, não só na exploração da rede, mas também no incentivo às empresas
verticalmente integradas para investirem adequadamente nas suas redes» (considerando 9).
Excecionam-se desta separação os casos minoritários dos Operadores das Redes de Distribuição em Baixa
Tensão que atuem como Comercializador de Último Recurso ao abrigo do art. 73.º/4 do Decreto-Lei n.º
29/2006 e os que sirvam menos de 100.000 utentes (cfr. art. 36.º/8 do mesmo diploma), seguindo as
orientações da Diretiva: «a fim de não impor encargos financeiros e administrativos desproporcionais aos
pequenos operadores das redes de distribuição, é conveniente autorizar os Estados-Membros a isentar as
empresas em causa, se for caso disso, das exigências jurídicas de separação da distribuição» (considerando
29).

REVISTA DE DIREITO DA RESPONSABILIDADE – ANO 1 - 2019 1021


Produção esta que consiste na geração de eletricidade a partir de fontes energéticas primárias, que
é depois vendida, grosso modo, a comercializadores, nomeadamente através da celebração de
contratos bilaterais ou da participação em mercados organizados (MIBEL)28.

Acontece que, sendo embora vendida pelo produtor (tal como configurado no quadro normativo
do SEN) para revenda aos clientes do comercializador, a eletricidade só é colocada no mercado,
no sentido de disponibilizada para utilização final, quando é entregue ao utente. O que confirma,
nas hipóteses de responsabilidade a que aludimos, o caráter multifacetado da posição do operador
da rede.

3) Danos Ressarcíveis

Temos vindo a sugerir que as situações de coincidência de aplicabilidade dos regimes em


confronto pressupõem a verificação da morte ou lesão pessoal do utente ou de danos causados a
um seu bem de consumo. Isto por serem estes os únicos danos ressarcíveis ao abrigo do regime
responsabilidade civil do produtor: «os danos resultantes de morte ou lesão pessoal e os danos em
coisa diversa do produto defeituoso, desde que seja normalmente destinada ao uso ou consumo
privado e o lesado lhe tenha dado principalmente este destino» (art. 8.º do Decreto-Lei n.º 383/89).

Ou seja, os danos patrimoniais e/ou não patrimoniais decorrentes da violação do direito à vida ou
integridade pessoal do lesado, e os danos patrimoniais consubstanciados na deterioração ou
destruição de coisa diferente do produto defeituoso, normalmente destinada a uso não profissional
e assim principalmente utilizada pelo consumidor29, sendo embora expressamente ressalvada a
possibilidade de, quanto aos demais danos, mobilizar-se «a responsabilidade decorrente de outras
disposições legais» (art. 13.º). Não esquecendo a franquia prevista no art. 9.º, que determina,
relativamente aos bens de consumo afetados, a indemnização apenas dos danos cujo valor exceda
os 500 Eur.

Já na responsabilidade por danos causados por instalações de energia elétrica não existe
propriamente uma tipificação dos danos ressarcíveis30, havendo todavia um limite máximo ao
quantum indemnizatório.

28
Para uma explicação mais completa da atividade de produção de energia elétrica, veja-se FALCÃO (2019).
29
Não abrangendo, defende Calvão da Silva, os prejuízos resultantes desse dano, como lucros cessantes ou
a privação do uso, nem os danos puramente patrimoniais (cfr. SILVA, 1999, cit., 700).
30
Exceção feita aos danos causados por utensílios de uso de energia (v.g. eletrodomésticos ou máquinas
industriais), excluídos nos termos do n.º 3 do art. 509.º CC. Situação que não deve confundir-se com aquela
em que o dano é causado já no interior da habitação ou do estabelecimento do lesado, através do quadro
elétrico, isto porque, por um lado, a lei apenas exclui expressamente os danos causados por utensílios de
uso de energia (cfr. Ac. TRC de 10-09-2013, Proc. n.º 548/11.1TBOPH.C1, Freitas Neto, www.dgsi.pt) e,
por outro, porque se trata de instalações cuja implementação é controlada, em certos casos mesmo
certificada pela Direção-Geral de Energia e Geologia, e que se destinam a ser alimentadas pela Rede
Elétrica de Serviço Público (cfr. art. 4.º do Decreto-Lei n.º 96/2017, de 10 de agosto, alterado pela Lei n.º

REVISTA DE DIREITO DA RESPONSABILIDADE – ANO 1 - 2019 1022


São assim ressarcíveis todos os danos patrimoniais e/ou não patrimoniais causados pela condução
ou entrega da eletricidade ou pela própria instalação, incluindo os relativos a bens destinados a
qualquer fim (privado ou profissional), estabelecendo a lei como limite máximo da indemnização,
para cada acidente, quando não haja culpa do responsável, o capital mínimo do seguro obrigatório
de responsabilidade civil automóvel (cfr. arts. 510.º e 508.º/1 CC — 7.290.000 Eur31), «salvo se,
havendo seguro obrigatório, diploma especial estabelecer um capital mínimo de seguro, caso em
que a indemnização tem como limite máximo esse capital» (art. 510.º CC)32.

IV. Aplicação dos Regimes

Partindo do que ficou dito, apreciamos agora as vantagens e desvantagens para o lesado da
aplicação de cada um dos regimes que temos vindo a analisar, deixando para o tópico seguinte a
problematização da influência que o concurso de responsabilidades do operador da rede no âmbito
do contrato de fornecimento pode ter em matéria de vantagens.

A vantagem que se manifesta logo à partida é comum aos dois regimes e respeita, evidentemente,
à desnecessidade de prova da culpa.

As diferenças que podem ajudar a concluir por um regime mais vantajoso relativamente ao outro,
quando a sua aplicabilidade coincide, naturalmente, situam-se assim no campo dos danos
ressarcíveis, dos limites à indemnização e das causas de exclusão da responsabilidade.

61/2018, de 21 de agosto), e não de uma «instalação eléctrica que o consumidor de energia tenha feito, por
sua conta e risco, para utilização dela» (LIMA e VARELA, 1987, anotação ao art. 509.º, 525).
Para além de que, como bem refere Vaz Serra, o utente tem a instalação elétrica porque não pode deixar de
a ter, sendo esta essencial à entrega da eletricidade para utilização, atividade de que os operadores das redes
retiram o maior benefício, justificando que arquem com o correspondente risco (cfr. SERRA, 1960, cit.,
142). Se, depois de executada devidamente a instalação, o utente a adultera, tal facto deverá então ser
considerado para efeitos de exclusão da responsabilidade do detentor.
É também hoje clara a noção de que as instalações dos utentes, consoante o tipo de cargas que lhes estão
associadas, são também suscetíveis de causar perturbações na rede (v.g. distorções harmónicas), razão pela
qual o RQS determina que «as entidades com instalações elétricas ligadas às redes são responsáveis pelas
perturbações por si causadas no funcionamento das redes ou nos equipamentos de outras instalações
elétricas» (art. 26.º). Parece-nos, todavia, que, sendo os operadores das redes responsáveis pelo adequado
funcionamento destas (cfr. arts. 32.º/2/c, f e g, 34.º/1/a, e 62.º/2/b, d e e RRC), desde que o utente faça um
uso normal da eletricidade, enquadrado com as características de fornecimento contratadas, nenhum efeito
poderá retirar-se desse uso quanto à responsabilidade do operador.
31
Cfr. art. 12.º do Decreto-Lei n.º 291/2007, de 21 de agosto, alterado pelo Decreto-Lei n.º 153/2008, de 6
de agosto, e Comunicação da Comissão 2016/C 210/01, publicada no Jornal Oficial da União Europeia de
11 de junho de 2016.
32
A obrigatoriedade do seguro está prevista nas bases XXV da concessão da Rede Nacional de Transporte,
XXIII da concessão da Rede Nacional de Distribuição e XXV da concessão da Rede de Distribuição em
Baixa Tensão (anexadas ao Decreto-Lei n.º 172/2006, de 23 de agosto, várias vezes alterado, a última das
quais pela Lei n.º 114/2017, de 29 de dezembro), mas, não existindo ainda diploma que fixe o referido
capital mínimo, terá aplicabilidade o previsto na primeira parte do art. 510.º.

REVISTA DE DIREITO DA RESPONSABILIDADE – ANO 1 - 2019 1023


Com efeito, se o regime da responsabilidade do produtor circunscreve os danos ressarcíveis à
morte ou lesão pessoal do consumidor e aos danos sofridos em bens de consumo deste que não o
defeituoso, o regime do art. 509.º aplica-se relativamente a todo o tipo de danos sofridos pelo
lesado, na sua pessoa ou em quaisquer bens, afetos a qualquer finalidade.

Não consagrando restrições quanto ao tipo de danos ressarcíveis, o regime dos arts. 509.º e 510.º
limita todavia a indemnização ao valor do capital mínimo do seguro obrigatório de
responsabilidade civil automóvel, por remissão do art. 510.º para o art. 508.º/1, ao passo que o
regime da responsabilidade do produtor, que já previu um máximo indemnizatório global, nos
casos de morte ou lesão de várias pessoas causada por produtos idênticos que apresentassem o
mesmo defeito (cfr. art. 9.º/1 da versão originária do Decreto-Lei n.º 383/89), mantém hoje apenas
a franquia de 500 Eur no que toca à indemnização de danos em coisas. Claro que, havendo
fundamento para responsabilizar o operador da rede com base na culpa, obsta-se a tais limites.

No que toca a causas de exclusão da responsabilidade, o produtor pode eximir-se pela prova de
que não colocou o produto em circulação, de que o defeito provavelmente não existia aquando da
entrada do produto no mercado, de que não o produziu ou distribuiu no âmbito da sua atividade
profissional nem com um objetivo económico, de que o defeito se deve ao cumprimento de
normas imperativas, de que o estado da arte no momento da entrada em circulação do produto
não permitia detetar o defeito, de que, tratando-se de parte componente, o defeito resulta da
conceção do produto em que foi incorporada ou das instruções que o acompanhavam, ou pela
prova da ocorrência de um facto culposo do lesado suscetível de excluir (ou, ao menos, reduzir)
a responsabilidade33, mas não mediante a prova do contributo para o dano de um facto de terceiro
(cfr. art. 7.º/2 do Decreto-Lei n.º 383/89)34.

Diferentemente do que acontece relativamente ao detentor da instalação elétrica, cuja


responsabilidade apenas será afastada, em qualquer circunstância, pela prova de uma causa de
força maior (cfr. art. 509.º/2 — v.g. a descarga de um raio «especial»35, mas já não o apoio de
cegonhas ou outras aves nas redes36)37, de um facto do lesado ou de um facto de terceiro, e, quanto

33
Cfr. SILVA (1999), cit., 733.
34
Na ideia de impedir que o produtor se escude na cadeia distributiva para se furtar à responsabilidade. O
que já poderá legitimamente acontecer se o facto do terceiro, culposo ou não, for causa exclusiva do dano.
Cfr. SILVA (1999), cit., 736 e 737.
35
Cfr. Ac. STJ de 08-11-2007, Proc. n.º 06B2640 (Pires da Rosa), www.dgsi.pt.
36
Cfr. Ac. STJ de 03-10-2013, Proc. n.º 3584/04.0TVLSB.L1.S1 (Maria dos Prazeres Pizarro Beleza),
www.dgsi.pt.
37
Embora não mencionada na Diretiva ou no Decreto-Lei de transposição, a força maior deve ser também
admitida como causa de exclusão da responsabilidade do produtor, à luz dos trabalhos preparatórios do
regime e em razão do seu não afastamento expresso nos referidos diplomas. Cfr. SILVA (1999), cit., 737 e
738.

REVISTA DE DIREITO DA RESPONSABILIDADE – ANO 1 - 2019 1024


aos danos causados pela própria instalação, pela prova de que esta se encontrava em conformidade
com as regras técnicas em vigor e em perfeito estado de conservação (cfr. art. 509.º/1 in fine).

De resto, afastada a necessidade de preenchimento do pressuposto da culpa, caberá ao lesado, em


qualquer dos casos, a prova dos restantes pressupostos da responsabilidade civil para que a sua
pretensão indemnizatória se sustente.

Veremos a seguir a razão pela qual nos parece que o operador da rede pode ser responsabilizado
contratualmente no âmbito do fornecimento de energia elétrica a clientes finais e as vantagens em
que essa circunstância traz ao utente lesado.

V. Contrato de Fornecimento de Energia Elétrica e Concurso de Responsabilidades

Vimos já, quando abordámos a organização do SEN, que se, por um lado, ao operador da rede é
vedada a comercialização de energia elétrica (cfr. arts. 24.º/3 e 35.º/4 do Decreto-Lei n.º 29/2006),
por outro, o comercializador não pode proceder à sua entrega física aos utentes com quem contrata
o fornecimento (cfr. art. 43.º do mesmo diploma).

Esta a razão pela qual o contrato de fornecimento de energia elétrica não pode ser classificado
simplesmente como contrato de compra e venda, muito embora uma das prestações corresponda
efetivamente a este tipo contratual, nem como contrato de fornecimento tout court38.

Sendo certo que a prestação pode ser realizada por terceiro (cfr. art. 767.º/1 CC), neste caso, em
que a entrega da eletricidade é um exclusivo do operador da rede, não só o credor não pode obstar
a que tal suceda, por acordo expresso ou por alegação de prejuízo (cfr. art. 767.º/2 CC), como a
prestação tem forçosamente de ser realizada pelo terceiro.

O contrato configura-se assim, rigorosamente, como um contrato misto de compra e venda e


prestação de serviço por terceiro, cabendo ao comercializador, única contraparte do utente no
contrato, a venda da eletricidade e a promessa da prestação do serviço pelo terceiro operador da

38
São estas, no entanto, as classificações usuais, sugeridas por autores como MARTINEZ (2017, 25 e 26),
LEITÃO (2018, 15), VASCONCELOS (2017, 86) ou ALMEIDA (2016, 129 e 130). Ainda que com ligeiras
ressalvas: Pedro Romano Martinez, por exemplo, observa em nota que «o contrato de fornecimento de gás,
como muitos contratos de fornecimento, não corresponde a uma situação paradigmática de compra e venda,
até porque, as mais das vezes, pressupõe prestações típicas de outros contratos, [...] constituindo contratos
mistos» (MARTINEZ, 2017, 26, nota 1). Dando exemplos dessas outras prestações, o autor faz, todavia,
referência ao aluguer do contador, proibido desde 2008 (cfr. art. 8.º/2/a LSPE), e à obrigação de prestar
serviços como reparações, reparações estas que, no caso do fornecimento de energia elétrica, constituem o
objeto de contratos autónomos (v.g. o serviço Funciona da EDP), não confundíveis com o que estabelece a
prestação do serviço público essencial (cfr. art. 122.º/5 RRC).

REVISTA DE DIREITO DA RESPONSABILIDADE – ANO 1 - 2019 1025


rede, consubstanciada na instalação e manutenção do contador, na entrega da eletricidade e na
medição do consumo39.

Esta promessa de facto de terceiro40 surge, no entanto, garantida pela celebração entre o
comercializador e aquele operador de um contrato de uso das redes enquanto contrato a favor de
terceiro.

Por força deste contrato a favor de terceiro, scilicet, da cláusula a favor de terceiro consagrada
no contrato de uso das redes «para efeitos de acesso às redes das instalações [...] dos clientes do
comercializador» (ponto 1 do Anexo I do Despacho n.º 18899/2010, publicado no Diário da
República de 21 de dezembro de 201041), fica o operador da rede, promitente no âmbito deste
contrato, devedor da respetiva prestação relativamente ao utente beneficiário, que terá o direito
de exigi-la nas devidas condições42. Condições estas que se encontram previstas no art. 6.º RRC,
ao determinar que «no exercício das suas atividades, os sujeitos intervenientes no SEN devem
observar as obrigações de serviço público estabelecidas na lei» (n.º 1), nomeadamente «a
segurança [...] do abastecimento» (n.º 2/a).

39
Mantemos, de todo o modo, a designação contrato de fornecimento pelo facto de ser essa a designação
adoptada nos diplomas europeus e nacionais do setor, assim como na transversalmente aplicável LSPE, e
que traduz aquela que é a característica fundamental deste contrato: estabelecer a compra e venda
continuada de uma coisa mediante o pagamento periódico de um preço. Para uma análise aprofundada da
classificação e regime deste contrato, veja-se FALCÃO (2019), cit..
40
Uma verdadeira promesse de porte-fort, já que o comercializador tem necessariamente de assegurar o
resultado prometido, pois nenhum sentido terá o contrato de fornecimento se não se garantir a entrega do
bem a fornecer.
Apesar das alterações introduzidas no Regulamento de Acesso às Redes e às Interligações do Setor Elétrico
(Regulamento n.º 560/2014 da ERSE) pelo Regulamento n.º 620/2017 da mesma entidade, passando a
dispor-se que «os clientes ou quem os represente [...] devem celebrar um Contrato de Uso das Redes com
o operador da rede a que as suas instalações se encontrem ligadas» (atual art. 9.º/1 — itálico nosso), quando
a versão originária fazia referência a comercializadores (cfr. revogado art. 9.º/5), parece-nos que tal não
afasta o instituto da promessa de facto de terceiro da configuração do contrato de fornecimento de energia
elétrica, uma vez que o art. 142.º/5 RRC, integrante de um diploma que sofreu alterações na mesma altura,
mantém a isenção do utente relativamente à celebração daquele contrato e que o art. 102.º/5 RRC continua
a determinar que o contrato de uso das redes deve ser «celebrado entre comercializador ou comercializador
de último recurso e o operador da rede de distribuição».
41
Diploma que aprova as condições gerais dos contratos de uso das redes celebrados com os
comercializadores em regime de mercado e com o Comercializador de Último Recurso.
42
A justificação para a exigibilidade da prestação reside no facto de se tratar de um contrato a favor de
terceiro proprio sensu, isto é, de um contrato mediante o qual uma das partes se obriga perante a outra a
realizar uma prestação a favor de um terceiro que adquire o direito de a exigir, e não de um contrato com
prestação a terceiro, em que o beneficiário não adquire o direito de exigir a prestação do promitente,
podendo apenas recebê-la enquanto seu destinatário, algo que se esclarece por interpretação da vontade das
partes, por consideração dos usos ou atendendo à finalidade do contrato (cfr. SERRA, 1955, 52 e ss.).
Considerando que o utente goza de um direito a contratar que envolve todas as condições necessárias ao
seu exercício, incluindo, portanto, a prestação a cargo do operador da rede (cfr. Ac. TRC de 17-11-2015,
Proc. n.º 87/15.1YRCBR, Maria João Areias, www.dgsi.pt), e que tem direito a compensações automáticas
por inobservância dos padrões de qualidade de serviço a que está vinculado aquele operador, parece clara
a configuração do contrato de uso das redes como autêntico contrato a favor de terceiro.

REVISTA DE DIREITO DA RESPONSABILIDADE – ANO 1 - 2019 1026


Ora, podendo o utente exigir do operador da rede, enquanto detentor da instalação transmissora
de energia elétrica, a entrega da eletricidade, e exigi-la em condições de segurança, enquanto
titular do respetivo crédito por força da relação de cobertura formalizada no contrato de uso das
redes, poder-se-á dizer que o operador da rede, ao violar esta obrigação, incorre em
responsabilidade contratual, que concorrerá com a sua responsabilidade extracontratual.

Configura-se, assim, uma hipótese de concurso de responsabilidades, classicamente abordada


segundo uma de duas orientações: o cúmulo de regimes, permitindo, numa única acção, a escolha
do regime mais conveniente ou a conjugação de normas dos dois regimes, ou a mobilização de
ambos em acções paralelas; e o não cúmulo, privilegiando o regime da responsabilidade
contratual, que consumiria o da responsabilidade aquiliana em razão do princípio da autonomia
privada43. Parecendo-nos razoável a solução que permite a conjugação favorável ao lesado de
normas próprias de cada um dos regimes44, já que se tratará afinal, nas palavras de Mafalda
Miranda Barbosa, de um «concurso de títulos de fundamentação de uma mesma pretensão
indemnizatória»45, não obstante se reconheça a radicalidade, nestes casos, do ilícito contratual,
uma vez que só há fornecimento inseguro porque há relação de fornecimento (princípio da
consunção).

Neste contexto, quer se aplique integralmente o regime da responsabilidade contratual,


quer se mobilizem deste regime apenas as regras mais vantajosas para o utente lesado,
uma delas seguramente há-de aplicar-se: a do art. 11.º LSPE (ónus da prova)46.
Introduzida no diploma com a alteração operada pela Lei n.º 12/2008, de 26 de fevereiro,
a norma desloca para o profissional o ónus da prova de todos os factos relativos ao

43
Cfr. COSTA (1998), 560 e ss..
44
A ação híbrida de que fala Almeida Costa, considerando-a injusta e perversora da orgânica dos regimes
pelo facto de permitir ao lesado beneficiar das normas que em cada um dos domínios considere mais
favoráveis, «afastando as que nos respectivos sistemas — estabelecidas em paralelo e que com elas formam
conjuntos orgânicos — repute desvantajosas» (COSTA, 1998, cit., 562).
Solução todavia admitida por Pinto Monteiro, ao lado da simples opção entre regimes, já que «neste sentido
deporá o facto, por um lado, de não poder afirmar-se uma distinção essencial ou de natureza última entre
as duas formas de responsabilidade, parecendo subjacente à lei a ideia de uma unidade substancial entre
ambas, que não será prejudicada pelos aspectos específicos que a responsabilidade contratual apresenta»
(MONTEIRO, 1985, 431) e que, «por outro lado, facultar ao lesado a escolha entre os regimes que melhor o
protejam, no caso concreto, é a solução que melhor se ajusta ao princípio do favorecimento da vítima,
princípio esse que enforma o quadro legal» (idem, ibidem, 432).
Na jurisprudência, cfr. Ac. STJ de 02-06-2015, Proc. n.º 1263/06.3TVPRT.P1.S1 (Maria Clara
Sottomayor), www.dgsi.pt. Lê-se no aresto: «em regra, como a responsabilidade contratual é mais favorável
ao lesado, a jurisprudência aplica o princípio da consunção, de acordo com o qual o regime da
responsabilidade contratual consome o da extracontratual, solução mais ajustada aos interesses do lesado e
mais conforme ao princípio geral da autonomia privada» (ponto III/2).
45
BARBOSA (2017), 20.
46
Em cujo n.º 1 se lê que «cabe ao prestador do serviço a prova de todos os factos relativos ao cumprimento
das suas obrigações e ao desenvolvimento de diligências decorrentes da prestação dos serviços a que se
refere a presente lei».

REVISTA DE DIREITO DA RESPONSABILIDADE – ANO 1 - 2019 1027


cumprimento das suas obrigações, incidindo «sobre todas as matérias atinentes à
prestação do serviço, desde que e na medida em que impliquem a sua conduta ou
actuação»47.
Uma norma que, embora se dirija ao prestador do serviço, que, nesta sede e na aceção da
LSPE, é apenas o comercializador48, aparece inequivocamente estendida pelo
Regulamento de Relações Comerciais do Setor Elétrico aos operadores das redes: «cabe
aos operadores das redes e comercializadores a prova de todos os factos relativos ao
cumprimento das suas obrigações e diligências inerentes à prestação dos serviços
previstos, nos termos da lei dos serviços públicos essenciais» (art. 7.º — itálico nosso).
Fica, deste modo, particularmente facilitada para o lesado a prova dos pressupostos da
responsabilidade, já que impenderá afinal sobre o operador da rede a prova, não só de que
o incumprimento, a confirmar-se, não procede de culpa sua (o que já resultaria das regras
gerais e é aqui sublinhado), como também de que não houve sequer incumprimento,
restando ao utente lesado a prova do dano e, no limite, do nexo causal, dependendo da
interpretação que se faça do referido art. 11.º. Não será, porventura, excessivo considerar-
se integrada na prova dos factos relativos ao cumprimento das suas obrigações a de que
a entrega da eletricidade nas condições em que foi realizada foi indiferente à produção do
dano alegado.
Não obstante seja desnecessária a prova da culpa para que se efetive a responsabilidade
(objetiva) do detentor da instalação transmissora de eletricidade, não deixa de revelar-se
vantajosa a mobilização deste argumento, desonerador do lesado.
Quanto à responsabilidade do produtor, parece-nos que, neste caso específico e perante
este estado de coisas, ficará longe das alegações do utente.

VI. Conclusões

A análise precedente evidenciou o caráter multifacetado da posição jurídica do operador da rede


no advento de um conflito de interesses fundado na ocorrência de danos causados pelo uso de
energia elétrica.

Tornou claro que, no contexto do fornecimento deste bem, o operador da rede assume
simultaneamente a veste de produtor (na medida em que contribui para o produto acabado, tal
como colocado em circulação) e de detentor da instalação que realiza a entrega física da

47
SIMÕES e ALMEIDA (2012), 210.
48
Cfr. FALCÃO (2019), cit..

REVISTA DE DIREITO DA RESPONSABILIDADE – ANO 1 - 2019 1028


eletricidade ao utente (na medida em que tem a direção efetiva da referida instalação e a utiliza
no seu próprio interesse).

Neste quadro, acabámos por verificar que, se a sua responsabilização enquanto produtor não tem
limites de ressarcibilidade quanto à integridade pessoal do lesado, tem já uma importante restrição
relativamente aos danos em coisas, uma vez que apenas repara danos causados em bens de
consumo do lesado que não o bem defeituoso e desde que acima de 500 Eur.

A sua responsabilização como detentor da instalação destinada à entrega da eletricidade, por sua
vez, obedecendo ao limite quantitativo previsto no art. 510.º CC, não conhece todavia restrições
quanto ao tipo de danos ressarcíveis.

Parece assim ser mais vantajosa para o lesado a responsabilização do operador da rede como
detentor, ideia que surge reforçada com a possibilidade de tal responsabilidade concorrer com a
sua responsabilidade contratual49, enquanto promitente da respetiva prestação em condições de
segurança, por força da obrigação de serviço público que também sobre ele impende e que a tal o
vincula.

Somos assim levados a concluir que, não obstante as notas protetivas do regime consagrado no
Decreto-Lei n.º 383/89, o utente terá maiores vantagens em convocar o regime dos danos causados
por instalações transmissoras de energia elétrica, que lhe permitirá, na medida em que tal não
exceda o limite do art. 510.º, o ressarcimento integral dos danos sofridos, na sua pessoa e/ou nos
seus bens, sejam estes de que tipo forem. Particularmente em sede de concurso de
responsabilidades, já que, nesse caso e independentemente do sistema admitido, o referido limite
desaparecerá, assim como o ónus da prova dos pressupostos da responsabilidade com exceção do
dano (e eventualmente do nexo causal), por força da aplicação aos operadores das redes do art.
11.º LSPE, prevista no art. 7.º RRC.

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ANDRADE, Manuel A. Domingues de, 1992, Teoria Geral da Relação Jurídica, Vol. I,
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49
Apenas se refere a hipótese de concurso de responsabilidades relativamente ao detentor por ser nessa
veste, e não na de produtor, que o operador da rede se obriga a efetuar a entrega física da eletricidade ao
utente no contexto do contrato de uso das redes, vinculando-se necessariamente, não só à realização dessa
prestação principal, mas também ao cumprimento dos correspondentes deveres acessórios de proteção
relativamente à pessoa e património daquele utente. Deveres esses que, neste caso e considerando o
problema que estamos a tratar, surgem expressamente reforçados pela obrigação consagrada no RRC de
realizar a referida prestação em condições de segurança.

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