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Para muitos críticos, a obra de Machado
de Assis poderia ser dividida em dois
momentos bem distintos: as obras
pp de juventude, com forte influência do
Romantismo, e seu progressivo
amadurecimento até chegar ao Realismo
de suas obras de maturidade. Entre estas, pp
p
p

Machado de Assis as mais destacadas e consideradas são


ñ 
   
(1881),
pp 
  (1891) e 

(1899).p


     
  p p
A história de 
pode ser facilmente localizada,
datada e resumida: no Rio de Janeiro do Segundo Império ±
a primeira cena narrada é claramente datada: "[...] o ano era
de 1857"; capítulo 3 ("A Denúncia") ±, Bentinho, filho de um já
falecido fazendeiro e deputado, vê-se às voltas com a iminência
de ter de cumprir a promessa que sua mãe, D. Glória, fizera
quando de seu nascimento: torná-lo padre. O menino percebe
que isso o separaria de sua "primeira amiga": a menina
Capitolina, ou simplesmente Capitu, filha de um modesto
funcionário público ± Pádua, seu vizinho. Após longa sucessão
de artimanhas para libertá-lo da promessa feita, Bentinho e
Capitu casam-se numa tarde chuvosa de março de 1865. O p
casamento não dura muito:
o ciúme de Bentinho leva ao seu esfriamento e inevitável
dissolução. O casal finge uma viagem à Europa; lá ficarão Capitu
e o filho do casal, Ezequiel. Capitu morrerá sem voltar ao Brasil.
Ezequiel voltará, já moço, para uma breve visita ao pai que,
velho e casmurro, irá recebê-lo friamente. Pouco tempo depois, o
rapaz parte para terras distantes em uma viagem de estudos,
durante
a qual também morrerá. Uma história banal ± banalíssima, como
diria o agregado José Dias, amigo dos superlativos.p
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Anote!p
Não é a história contada que faz de 

 uma grande obra literária. O modo pp
como é contada é muito mais importante que
a história em si, ou seja, o romance é mais
importante que a história que ele conta.p
p

A        p pp


Se o modo de contar é mais importante que a história em si,
nossa atenção deve concentrar-se no foco narrativo por meio do
qual essa história é contada. E, aqui, é fundamental não
confundir a voz que fala no romance ± o narrador ± com a voz do
autor. Não podemos esquecer que tudo o que está na obra
passou por um complexo processo de invenção. O autor nos pp
apresenta o mundo e nos conta uma história, atribuindo aos
elementos que compõem sua obra (principalmente o foco
narrativo) determinados valores
e significados que devem ser percebidos por quem pretende
compreender o texto. p
p
Para lembrar:p
No Realismo de Machado de Assis, é
fundamental distinguir o autor e o narrador.
O modo de apresentação do "real" instituído pp
pela ficção é mais importante do que esse "real"
propriamente dito, gerando uma tensão entre
a percepção que o narrador tem do real e o
suposto real em si.p p

O Realismo de Machado de Assis é, talvez, o Realismo das


diversas formas de percepção do real. Daí a importância que
o foco narrativo assume em muitas de suas obras, sempre pp
subordinando o que se conta à condição psicológica de quem
conta. Aí está a chave para a compreensão de 
.p

D     p pp


Algumas cenas de 
revelam temas significativos
e recorrentes na obra de Machado de Assis, além do estilo
utilizado na construção de sua narrativa.
O capítulo 3 é o ponto de partida de toda a trama da primeira
parte do romance. José Dias, em meio a uma reunião familiar,
cobra de D. Glória, mãe de Bentinho, uma posição a respeito
da iminente internação do menino em um seminário de padres ± pp
uma promessa feita quando o garoto nasceu. Faz isso porque
percebera a aproximação cada vez mais intensa entre o menino
e a filha do vizinho, Capitu. Bentinho, que se escondera atrás da
porta, ouve toda a conversa. O narrador comentará após uma
longa seqüência de capítulos: p
p
"Verdadeiramente foi o princípio da minha vida."p
pp
p

p
Anote!p
A cena, além de indicar o nó da narrativa por
muitos capítulos, demonstra um significado pp
recorrente na literatura machadiana: o indivíduo
que se defronta com o que socialmente se
espera dele e o conflito que daí surge.p
p

Bentinho/narrador dirá, ao retomar o fio dos acontecimentos


daquela tarde: p p
p
"Com que então eu amava Capitu, e Capitu a
mim? Realmente, andava cosido às saias dela,
mas não me ocorria nada entre nós que fosse pp
deveras secreto. [...] Tudo isto me era agora
apresentado pela boca de José Dias, que me
denunciara a mim mesmo."p
p

D   p pp


Uma das técnicas utilizadas por Machado de Assis em
suas obras de maturidade é a digressão: interrompe-se
o fluxo narrativo, o narrador dirige-se ao leitor e comenta algo
pp
que aparentemente desloca o assunto de que se vinha tratando.
No caso de 
, esse artifício cumpre alguns
propósitos complementares: p

' Parece querer disfarçar ou atenuar, pelo humor implícito, a


importância e a gravidade do projeto narrativo que está em
curso. p

' Também nos lembra, pela interrupção explícita, que a narração


de tudo o que foi vivido e está sendo apresentado ao leitor
é posterior e, por isso, está sujeita ao fluxo do pensamento
e à perspectiva do narrador/Bentinho, que revê sua história.
É uma maneira sutil de confirmar a importância do foco narrativo. p

Isso pode ser visto no capítulo 9, "A Ópera". Um velho tenor


expõe ao narrador sua teoria: "A vida é uma ópera e uma grande
ópera". Da exposição minuciosa resulta a idéia de que a vida
que vivemos na Terra não passa da encenação de uma grande
peça musical, um drama cuja história foi criada por Deus, sendo
música e encenação assinados por Satanás. Daí "alguns
desconcertos", repetições e imperfeições variadas que
empanam o brilho da virtual obra-prima divina. p
p
Anote!p
Aceitando a teoria do tenor, o narrador
parece querer chamar a atenção do leitor para
a inevitabilidade dos acontecimentos que irá
narrar ("Cantei um duo terníssimo, depois um
trio, depois um quatuor...", clara referência pp
aos futuros ± e supostos ± triângulo amoroso
Bentinho/Capitu/Escobar e quarteto
Bentinho/Capitu/Escobar/Sancha). No lugar
do reconhecimento do papel ativo do
personagem, a metáfora teatral agenciada pelo
narrador sugere a inexorabilidade de um destino
já traçado. p p

l         p pp


Machado inventou, antes de tudo (antes de uma história,
poderíamos dizer), uma voz narrativa, um ponto de vista por
meio do qual se narra uma história. Essa voz é a do próprio
personagem central, Bento de Albuquerque Santiago, que irá
narrar, já velho (e apelidado significativamente de "Dom
Casmurro"), a história de sua vida, começando por sua infância
e adolescência (quando era chamado de Bentinho). O narrador,
portanto, é o personagem central modificado pelo tempo.
Com esse artifício, Machado faz dois deslocamentos em pp
relação ao suposto "real": p

' Como o narrador é um personagem, toda a narrativa está


condicionada à sua própria visão dos acontecimentos. p

' O personagem faz a sua narrativa em um tempo muito


posterior ao dos acontecimentos narrados. p
p
pp
Para lembrar:p
A compreensão de 
passa por
conhecer o personagem que narra e o ponto
de vista por meio do qual faz sua narrativa. Ou
seja: entender 
é entender o
modo pelo qual Machado de Assis cria o
personagem
Bento de Albuquerque Santiago que, como
Dom Casmurro, narra sua vida enquanto
Bentinho. Tudo o mais está subordinado e tem
sua existência ficcional condicionada a esse
sistema narrativo. p p

l           p pp


Um apelido e uma casa enquadram o que se vai narrar. O livro
não começa pela história propriamente dita, mas por dois
capítulos que situam e explicam o ponto de vista que enquadrará
toda a narrativa. Ainda que adotem um tom quase
despretensioso, esses capítulos apresentam dados
fundamentais para a compreensão do romance. Neles, o
narrador nos conta como recebeu o apelido de "Casmurro", título
do romance, e as circunstâncias que o fizeram contar, por
pp
escrito, sua história.
O apelido, dado por um conhecido do bairro que insistia em
recitar versos para o narrador semi-adormecido no trem, serve
de caracterização do personagem/narrador, a idéia de "homem
calado, metido consigo", segundo o que o próprio narrador
explica da alcunha recebida. p
p
Anote!p
De fato, o romance parece fruto de alguém que,
a partir de certa altura da vida, limitou sua
participação e contato com o mundo externo, pp
passando a investir sua energia psíquica e
disponibilidade emocional no seu mundo interior.
Uma introspecção que levaria à narração para
que esta pudesse, segundo nos diz, "me
reconstituir os tempos idos". p
p

O fato de reproduzir na velhice a casa em que passou sua


infância e adolescência também serve de enquadramento e
caracterização do personagem. "O meu fim evidente era atar as
duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência."
Refazer a casa tem o significado de refazer, narrando, o que foi
vivido. Mas a vida vivida, ao contrário da casa, parece não p
aceitar tal proposta de reconstrução e o narrador nos diz que "se
o rosto é igual, a fisionomia é diferente" e acrescenta: "falto eu
mesmo,
e esta lacuna é tudo". p

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Embora Dom Casmurro afirme que o propósito da narração que
inicia é "assentar a mão para alguma obra de maior tomo", fica
claro que se trata de um projeto mais vital do que o mero
exercício de estilo, mais existencial do que o simples treino p
retórico. No capítulo 68, "Adiemos a Virtude", afirmará: p
ppp
"Ora, há só um modo de escrever a própria
essência, é contá-la toda, o bem e o mal. Tal
faço eu, à medida que me vai lembrando e
convindo à construção ou reconstrução de mim
mesmo."p p

Para o narrador, por enquanto, trata-se de recuperar uma época


na qual foi feliz e em que descobriu o amor. Daí o tom de
reminiscência lírica, de evocação do que se seguirá. Resta saber
se ele terá condições de fazer isso. "Escrever a própria pp
essência", "contá-la toda" ou se a busca por conhecer o vivido
não será traida ao longo do percurso.p

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       p pp
A partir do capítulo 3, o romance pode ser dividido em duas
partes assimétricas: p

' Na primeira parte (do capítulo 3 ao capítulo 97), o


narrador/Bentinho conta, sem uma ordem temporal rígida e com
pp
interrupções digressivas, o processo que começa com o
problema central ± a promessa da mãe em fazê-lo padre ± e
termina com
a solução do impasse ± os estudos de Direito e o casamento
iminente com Capitu. p
p
Anote!p
Pode-se dizer que o texto, até então, segue
o padrão dos romances românticos nos quais pp
o móvel da narrativa é a superação de todos
os obstáculos que se interpõem à felicidade
conjugal do herói.p p

' A segunda parte, bem menor do que a primeira (do capítulo


98 ao capítulo 146), narra o casamento de Bentinho e Capitu,
o nascimento de Ezequiel, as crescentes suspeitas do narrador
sobre a fidelidade da esposa (que atingirão seu ápice quando da
morte de Escobar) e o conseqüente exílio de Capitu e Ezequiel. p

Essa parte opera como uma desmontagem da primeira, na pp


medida em que o processo psicológico destrutivo, que aos
poucos toma por inteiro o narrador, obscurece significativamente
a evocação lírica juvenil da primeira parte.
O próprio narrador parece ter consciência da estrutura do livro,
uma vez que comenta, metalingüisticamente, no capítulo 67,
"A Saída": p
p
"[...] Aqui devia ser o meio do livro, mas a
inexperiência fez-me ir atrás da pena, e chego
quase ao fim do papel, com o melhor da
pp
narração por dizer. Agora não há mais que levá-
la a grandes pernadas, capítulo sobre capítulo,
pouca emenda, pouca reflexão, tudo em
resumo."p p

Concluído o romance, toda a parte inicial adquire outra feição.


Pode-se, então, perceber a construção intencional da figura pp
de Capitu como a montagem de uma armadilha narrativa.
Certas características sugeridas na primeira parte têm o papel
de apoiar a traição e o adultério que o narrador da segunda parte
quer nos fazer crer. Os propósitos do narrador poderão então
ficar esclarecidos.p

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pp
A primeira parte do romance relatará basicamente as tentativas
de Bentinho (gerenciadas por Capitu e tendo por coadjuvante pp
José Dias) de livrar-se do seminário. p
p
Anote!p
Ao longo desse percurso, o propósito da linha
narrativa de Bentinho parece ser o de
caracterizar inequivocamente Capitu como uma pp
jovem voluntariosa, ativa, racional, calculista,
que lida facilmente com situações
constrangedoras e que é disposta a tudo para
conseguir seus objetivos.p p

Nesse retrato cresce a imagem de


Capitu construída por José Dias ±
"olhos de cigana oblíqua e dissimulada"
±, que será corrigida por Bentinho,
num lance que aprofunda o caráter
enigmático e talvez destrutivamente
pp sedutor que este quer atribuir à
companheira, para "olhos de ressaca". pp
Uma imagem que lhe interessa compor
no sentido de confirmar o posterior ±
e suposto ± adultério, como se pode
ver no capítulo 31, "As Curiosidades
de Capitu":p
p

Carta de Machado de
Assis a sua mulher pp
p
Carolina

p
"Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui
particular, mais mulher do que eu era homem.
Se ainda não o disse, aí fica. Se disse, fica pp
também.
Há conceitos que se devem incutir na alma do
leitor, à força de repetição."p
p

Toda a caracterização de Capitu por Bentinho parece fazer parte


de um projeto narrativo interessado, que tem seus objetivos e
que se rege por uma sucessão inexorável de evidências
interligadas. p
É o que nos diz no capítulo 18, "Um Plano", quando afirma:p
p
"Conto essas minúcias para que melhor se
entenda aquela manhã da minha amiga; logo
pp
virá a tarde, e da manhã e da tarde se fará o
primeiro dia, como no Gênesis, onde se fizeram
sucessivamente sete."p p

Deve ser destacado também o retrato psicológico que o narrador


faz de si mesmo ± o caráter hesitante, passivo, emotivo e fraco
de Bentinho ±, como a querer marcar o contraste com sua p
companheira. Fica evidente, também, a forte tendência
imaginativa de Bentinho (exposta no capítulo 39, "O Imperador",
e principalmente no capítulo 40, "Uma Égua").p
p
Anote!p
Essa tendência imaginativa será fundamental pp
para pôr em evidência o possível engano do
narrador em relação ao adultério de Capitu.p
p

ÿ c%   $ p pp
As suspeitas em relação a Capitu começam a surgir já na
primeira parte, com uma maliciosa referência feita por José Dias
(capítulo 62, "Uma Ponta de Lago"), que "denuncia" ou revela ±
como já fizera em relação ao amor ±, o ciúme que o próprio
Bentinho não alimentara até então. Os capítulos que narram
a breve vida de casados de Capitu e Bentinho poderão ser lidos
com proveito pelo leitor se ele puder descobrir neles o avesso da
história que se conta. Assim, em contrapartida à sucessão de
evidências de adultério que o narrador nos relata (a semelhança
física entre Ezequiel e Escobar, a presença de Escobar em casa pp
de Bentinho quando este não está, as lágrimas e a explosão
emocional de Capitu no enterro de Escobar etc.), o leitor poderá
detectar nessas mesmas cenas elementos do processo
psicológico de ciúme doentio que, aos poucos, toma conta de
Bentinho. Não será difícil também procurar o avesso dessa
emoção: a inocência de Capitu. De qualquer modo, seria
igualmente inadequado afirmar categoricamente a hipótese
do não-adultério.p
p
Para lembrar:p
Na verdade, o que interessa atentar nesse
romance de Machado de Assis é a essencial pp
ambigüidade que o estrutura. E, mais importante
do que listar os argumentos a favor ou contra o
adultério de Capitu, é perceber o processo de
construção da suspeita de Bentinho.p
p

"O resto é saber se a Capitu da praia da Glória já


estava dentro da de Matacavalos, ou se esta foi pp
mudada naquela por efeito de algum incidente."p
p

O que se pode afirmar pela leitura crítica é que o narrador


montou a narrativa de modo a fazer caber na Capitu de
Matacavalos a Capitu adúltera da praia da Glória e soube fazer pp
dessa hipótese uma conclusão certeira que, de algum modo,
talvez lhe alivie a culpa:p
p
"[...] a minha primeira amiga e o meu maior
amigo, tão extremosos ambos e tão queridos
pp
também, quis o destino que acabassem
juntando-se e enganando-me... A terra lhes seja
leve!"p p