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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

ESCOLA DE MÚSICA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM MÚSICA

MÚSICA INDÍGENA NO BRASIL COLONIAL

Trabalho apresentado à professora Dra. Mara


Menezes, como parte do conteúdo curricular
da disciplina MUS 542 – A Educação Musical
no Brasil.

Pablo Pérez Donoso

Salvador
Abril/2016
Introdução
O presente trabalho foi realizado como parte das exigências da disciplina MUS 542 – A
Educação Musical no Brasil, do Programa de Pós-Graduação em Música da Escola de Música
da UFBA. Nele procuro discutir algumas informações apresentadas durante a disciplina que
chamaram a minha atenção. Aproveito para focar em questões mais específicas pois considero
que as mais amplas já foram tratadas de forma satisfatória e discutidas em sala de aula. Ao
longo do trabalho evito descrever acontecimentos, nomes ou datas de forma detalhada,
acredito que essas informações podem ser encontradas facilmente e muito melhor explicadas
nos livros de história da música no Brasil.
O tema central das discussões aqui abordadas é a música indígena no Brasil colonial. Os
argumentos que apresento focam no confronto de ideias sobre a visão de “música” dos nativos
frente a dos portugueses e na complexidade de relações que se desprendem delas. É discutido
também o conceito de “deculturação musical” apresentado por Kiefer (1976) e Vasco Mariz
(2005), criando um diálogo com autores de outras áreas que também estudam esses processos.
Inicialmente crio um contexto geral com a intenção de situar o leitor no universo
histórico/temporal, e mostrar o encontro de cosmovisões sobre os acontecimentos. Em
seguida discuto a questão musical indígena e as consequências da invasão portuguesa para
com ela e finalizo analisando a postura de alguns autores em relação ao processo de
“deculturação musical”.

Contexto
Ainda nos dias de hoje existe uma série de divergências históricas no que se refere ao
período que antecede as colonias europeias na América, uma delas está tão enraizada no
pensamento colonial - do qual apenas conseguimos começar a sair - que por muito tempo
passou desapercebida e inclusive chegou a se naturalizar na nossa fala. Denominamos a
chegada dos europeus na América de “descobrimento” durante tanto tempo que parece que de
fato fomos convencidos de que isso era algo incontestável. Com as mudanças politicas e
sociais que tem acontecido no nosso continente, especialmente na América do Sul, a revisão
histórica entrou na pauta como uma necessidade de enxergar o que aqui aconteceu desde a
perspectiva do sul do mundo1.
Nesse sentido, o professor Paulo Chaves (2013), em entrevista para um canal de televisão
nacional, comenta: “Na realidade, Portugal não descobriu o Brasil, ele ocupou, invadiu,
submetendo dessa maneira diversas nações indígenas”. Dessa forma se tenta demonstrar que
para um processo de revisão da história as nomenclaturas são bastante relevantes pois se trata
da visão de acontecimentos que, nas suas posteriores ramificações, chegaram a mudar a
história do mundo e deram inicio a um novo paradigma do qual ainda podemos perceber
fortes resquícios (ANJOS, 2011, p. 263).
È desde essa perspectiva que pretendo, ao longo deste trabalho, elaborar uma compreensão
1 Uma “epistemologias desde o sul”, como foi chamada por Boaventura de Sousa Santos, trabalhada
minuciosamente por autores como Álvaro Garcia Linera e Alejo Carpentier.
do que aconteceu musicalmente no período conhecido como “época colonial” no Brasil, mas
para isso é necessário, inicialmente, criar um contexto mais geral. O formato que o Brasil
tomou depois da invasão portuguesa envolve diretamente três grupos: os nativos ou
“indígenas” – denominados assim pelos colonizadores; os africanos, trazidos para estas terras
para serem escravizados; e os portugueses.
No ano de 1500 cerca de três milhões de nativos habitavam o território que hoje
conhecemos como Brasil, esses povos eram divididos entre diversas nações entre os que
destacavam quatro grupos maiores: os tupis, os macro-jês, os aruaques e os cariris (CHAVES,
2013). A chegada dos portugueses mudou de forma dramática a vida desses povos em todo
sentido: territorial, social, politico, econômico e cultural2.
A vinda de povos africanos no Brasil aconteceu entre os séculos XVI a XIX por meio de
um processo de escravidão implantado pela coroa portuguesa e o sistema político-econômico
dominante no mundo ocidental – de fato, a escravidão foi a base do sistema econômico
colonial ou “capitalismo primitivo” (ANJOS, 2011, p. 263). Segundo Anjos (2011, p. 262), o
Brasil “[…] é a unidade política contemporânea que registra as maiores estatísticas de
importação forçada de contingentes populacionais africanos” no período colonial.
África, um extenso continente, consideravelmente maior que a América do Sul, é
comumente reduzido a um só lugar ou uma só cultura nas falas cotidianas. Mas essa ideia se
esvazia rapidamente quando são analisadas as rotas do chamado “tráfico negreiro” e se
constata uma diversidade tão grande que é muito trabalhoso saber ao certo as raízes étnicas
dos atuais afrodescendentes no Brasil3. Isso somado a ações deliberadas dos colonizadores de
misturar povos, culturas e línguas diferentes com o objetivo de evitar rebeliões.
Essa diversidade entre povos indígenas e africanos, que foi negada de forma estratégica por
muito tempo, determinou as complexas relações que mantiveram os três grupos em questão
durante o período colonial. Inclusive nos dias atuais é possível observar a influência da
configuração dessas relações, que vem da época colonial, nas esferas sociais, políticas e
econômicas. No campo musical também não foi diferente e é o que será discutido a
continuação.

Música indígena no Brasil colonial: deculturação?


Quando os portugueses chegaram, não somente encontraram uma grande quantidade de
povos espalhados pelo que hoje é o Brasil mas também costumes, tradições e práticas dos
mais variados tipos, ou, resumindo, uma cosmovisão alheia a tudo que eles estavam
acostumados. Mencionada como o primeiro dos relatos sobre os povos que habitavam estas
terras, a Carta a El Rey Dom Manuel escrita em 1500 por Pero Vaz de Caminha – também
conhecida como “carta de Caminha” – surpreende pela menção à importância que eventos

2 Por ser este um trabalho de dimensões reduzidas não aprofundarei tanto em detalhes de cunho quantitativo.
3 Esta constatação parte da uma análise detalhada das rotas dos navios negreiros e suas implicações que pode
ser encontrada no trabalho de Anjos (2011).
sonoros tinham para essas pessoas.
“E olhando-nos, assentaram-se. E, depois de acabada a missa, assentados nós à
pregação, levantaram-se muitos deles, tangeram corno ou buzina e começaram a
saltar e a dançar um pedaço” (CAMINHA, 1968 apud KIEFER, 1976, p. 9).

Certamente a comoção dos colonizadores foi grande pois é o que comumente nos acontece
quando estamos diante de experiências novas, mas também porque existe um choque de
conceitos. Cada cultura constrói sua própria visão sobre os acontecimentos e práticas às que
estão acostumadas, assim: o que é música para um pode não significar nada para o outro. O
conceito de “música” desde a perspectiva ocidental provavelmente difere da denominação que
os povos nativos davam aos eventos nos quais utilizavam o som como matéria-prima.
Inclusive nos dias de hoje a etnomusicologia discute sobre o significado que a palavra
“música” tem para as diferentes culturas.
Kiefer (1976, p. 10) menciona a Jean de Léry como a primeira pessoa a documentar, em
1557, utilizando notação musical ocidental, a música dos nativos. O autor também cita a
impressão que este teve ao escutá-los:
“Essas cerimônias duraram cerca de duas horas e durante esse tempo os quinhentos
ou seiscentos selvagens não cessaram de dançar e cantar de um modo tão
harmonioso que ninguém diria não conhecerem música” (LÉRY, 1972 apud
KIEFER, 1976).

Chama a atenção que Léry mencione uma cerimônia na qual se cante de uma forma tão
bem elaborada, durante tanto tempo e ainda assim ele finalize dizendo que não parece que
eles não sabem música. O conceito de “música” que os colonizadores carregavam demandava
que esta acontecesse em lugares específicos, em momentos específicos, com determinados
atores e instrumentos e regulado por um sistema de regras específico. Léry finaliza dizendo:
“[...] ainda hoje quando recordo essa cena sinto palpitar o coração e parece-me a estar
ouvindo”. Certamente os jesuítas tiveram outra impressão e catalogaram essas manifestações
de “lascivas” e “diabólicas” (KIEFER, 1976, p. 10).
É quase impossível falar da música dos povos nativos durante a colonização sem
mencionar o papel que os jesuítas tiveram. Pelos relatos de Léry citados anteriormente
poderíamos deduzir que os nativos possuíam naquela época um sistema ou formas de ensino e
aprendizagem de música. Ainda assim, quem tem contato com a história da educação musical
no Brasil já ouviu falar que não existia educação musical nestas terras antes dos jesuítas.
Somos resultado de um complicado sincretismo e nossa visão histórica merece ser mais
complexa.
Tanto Kiefer (1976) quanto Vasco Mariz (2005) vão em contramão dessa complexidade e
apresentam a música indígena como a que menos aportou ao processo de construção da
“música brasileira”. A visão destes dois autores está marcada pela ideia romântica das “três
raças” que “aportam” para dar como resultado o “tipo brasileiro”. A questão indígena, então,
se reduz a uma série de acontecimentos guiados pelas iniciativas evangelizadoras da Igreja
Católica e a posterior “deculturação” da grande maioria deles.
A “deculturação” musical dos nativos, segundo Kiefer (1976, p. 12) se deu a causa da ação
evangelizadora dos jesuítas. O autor entende o processo de “deculturação” como a prevalência
de uma cultura sobre outra por questões de supremacia cultural.
“Como decorrência da ação 'civilizatória' dos jesuítas, a música dos índios,
expressão de povos mais fracos culturalmente, cedeu lugar à música européia”
(KIEFER, 1976, p. 12).

Este argumento é reproduzido por Vasco Mariz quando diz que “obviamente uma
civilização de nível tão baixo como a de nosso indígena teria de soçobrar ante uma influência
tão poderosa quanto a européia” (2005, p. 34). Os dois autores utilizam este argumento para
justificar duas coisas: 1) a prevalência de uma cultura sobre outra por uma suposta
“supremacia cultural” e 2) a “obvia” facilidade que tiveram os portugueses em dominar e
catequizar os nativos, ou seja “deculturizar”.
No entanto, essas ideias podem ser contestadas. Na atualidade existem pesquisadores que
investigam os processos de colonização em suas diversas esferas, que procuram sair desse
lugar comum do pensamento colonizador, eurocentrista. Para isto, primeiro, devemos pensar
sobre o uso da palavra “deculturação”. Moonen (2008, p. 17) reconhece a necessidade de
mudança constante que as culturas tem e salienta que a mudança cultural em si não é um mal:
“proibir um povo de evoluir espontaneamente, de mudar a sua cultura seria o mesmo como
proibir uma criança de crescer. O resultado seria, inevitavelmente, a morte”. O que é
condenável é quando existem “processos que tornam as culturas tradicionais inviáveis e que
impõem a um outro povo uma cultura alheia, contra a sua vontade”.
Moonen situa a “deculturação” entre esses processos e ainda menciona mais dois: a
“aculturação” e o “etnocídio”.
“a DECULTURAÇÂO […] é a perda total ou parcial da cultura, sem uma
substituição satisfatória por outra. É um fenômeno pouco comum, mas tem ocorrido
no Brasil. Mais frequente é a ACULTURAÇÃO, a mudança cultural que resulta do
contato entre povos com culturas diferentes. Esta mudança pode ser espontânea,
voluntária. Mas muitas vezes a aculturação é dirigida, compulsória, e neste caso é
preferível usar o termo ETNOCÍDIO, que é a destruição proposital de uma cultura, a
proibição de viver de acordo com os padrões e os valores culturais tradicionais,
geralmente com a imposição de uma outra cultura” (MOONEN, 2008, p. 17).

Musicalmente falando o que aconteceu foi que os invasores portugueses perseguindo se


livrar de obstáculos na sua expansão territorial, guiada pela busca de fontes de recursos que
seriam enviados para a Europa, trouxeram ordens religiosas catequizadoras, as quais
enxergaram na música uma forma mais simples – no sentido de custos, logística e demanda de
recursos – para neutralizar os povos que eram donos do território cobiçado. Podemos pensar
que houve “deculturação” em parte; não houve “aculturação” pois as mudanças não foram
espontâneas nem voluntárias; houve sim uma destruição premeditada, proposital de uma
cultura e a consequente imposição da cultura europeia: ou seja, um verdadeiro etnocídio
cultural.
Para concluir, o papel do nativo na construção de um “tipo brasileiro”, se reconhecido
como inferior por alguns autores em relação ao “aporte” das outras duas “raças” que
conformam o Brasil, não possui o menor efeito historicamente falando. Até hoje se discute o
tipo de soberania que os indígenas deveriam ter em territórios que foram invadidos em toda a
América. Alguns países encontraram saídas mais viáveis que outros, outros continuam uma
perseguição sistemática desses povos e outros, como o Brasil, continuam estabelecendo uma
relação patriarcalista com seus nativos.
Além da questão territorial dos índios, que continua pendente no nosso país, existem outras
questões que tocam as áreas culturais: valorização da cultura indígena, divulgação dos seus
conhecimentos musicais em instituições de ensino e aprendizagem de música e procurar, ante
tudo, compreender a visão do nativo. Esses pontos também passam pela formação de um
pensamento crítico diante do material histórico que utilizamos em sala de aula. Enquanto não
revisemos essas questões provavelmente estaremos reproduzindo argumentos sobre as
culturas indígenas que há muito tempo devíamos ter deixado atrás.

Referências
ANJOS, Rafael Sanzio Araújo. Cartografia da diáspora África-Brasil. Revista da Associação
Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Geografia. [s.l.], v. 7, n. 1, número especial, p.
261 – 274, out. 2011.

CHAVES, Paulo. Descobrimento foi, na verdade, uma invasão à terra dos índios. Recife:
G1, 2013. Entrevista concedida a G1 Pernambuco.

KIEFER, Bruno. O período colonial. In: História da música brasileira: dos primórdios aos
inícios do séc. XX. Porto Alegre: Movimento, 1976. Cap. 1, p. 9 – 43.

MARIZ, Vasco. A música do tempo da colônia. In: História da música no Brasil. 6. ed. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. Cap. 2, p. 31 – 47.

MOONEN, F.E. A destruição das culturas indígenas. In: MOONEN, F. E.; MAIA, L. Mariz.
(orgs.). Etnohistória dos índios potiguara. João Pessoa: PRPB/SECPB, 1992. p. 17 – 23.

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