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Universidade Estadual de Campinas

Instituto de Artes
Tópico Especial: Debates Musicais - 2021

Mariana Talamini
RA 221901

Como os debates sobre descolonização vêm afetando as práticas musicais


e/ou a pesquisa sobre música/musicares?

A formação das universidades no Brasil começa entre as décadas de 20 e 30


com a junção de cursos superiores. A Universidade Federal do Rio de Janeiro, por
exemplo, foi a primeira a surgir em 1920, através da união entre a Escola
Politécnica, a Faculdade de Medicina e a Faculdade de Direito. Para debater a
estruturas das universidades brasileiras, é importante citar o estudo de Maria Lúcia
Müller (2003), como fez Carvalho (2006), que discorre sobre uma política estatal
que surgiu no começo do século XX, a qual era explicitamente racista e teve como
objetivo a destituição de professoras e professores negros dos cargos de diretores
das escolas primária e técnicas. Müller apontou que, já no início da década de 30,
as netas de ex-mulheres escravizadas haviam sido expulsas da profissão de
professoras e a escola se tornou ainda mais branca. Carvalho (2006, p. 96)
relaciona essas políticas, implementadas pelo Instituto de Educação no Distrito
Federal na Era Vargas, com a formação das universidades:

(...) a cultura geral racista que expulsou as normalistas e os


professores negros das escolas públicas do Brasil perpassava
também o imaginário daqueles que trinta anos depois
institucionalizaram o nosso ensino superior.

Portanto, o autor afirma que o estabelecimento da universidade brasileira sob


o signo da brancura é um fato histórico, visto que qualquer possibilidade em
competir pelas vagas abertas nas universidades, por parte dos docentes negros e
negras, foi totalmente impedida com a expulsão destes das escolas públicas, fruto
de um projeto político de embranquecimento do Brasil.
Dito isso, é válido compreendermos, também, de que modo houve a
manutenção da segregação racial dentro das universidades, ao longo de pelo
menos 80 anos, visto que somente em 2002/2003 uma ação afirmativa possibilitada
por uma lei estadual no Rio de Janeiro estabeleceu que:

(...) 50% das vagas dos cursos de graduação das universidades


estaduais sejam destinadas a alunos oriundos de escolas públicas
selecionados por meio do Sistema de Acompanhamento do
Desempenho dos Estudantes do Ensino Médio Sade. Essa medida
deverá ser aplicada em conjunto com outra, decorrente de lei
aprovada em 2002, a qual estabelece que as mesmas universidades
destinem 40% de suas vagas a candidatos negros e pardos.
(Moehlecke, 2002, p. 209)

Carvalho (2006) afirma que a postergação da discussão sobre o privilégio


branco em detrimento da pouca ou nenhuma presença de docentes e discentes
negros e negras na universidade e o silenciamento sobre os conflitos raciais,
evitando definir um estado de conflito étnico e racial e apresentando-o como aberto
e transitório, em processo de resolução, foram mecanismos que deram continuidade
à segregação.
Com as ações afirmativas como as cotas raciais e sociais nas universidades
públicas e como um embate à estrutura colonial que a universidade foi estabelecida,
o pensamento decolonial passa a ter mais espaço em lugares antes destinados
majoritariamente aos brancos. Entretanto, é importante destacar que os estudos
decoloniais não surgem somente com as cotas, haja vista a produção do sociólogo
Guerreiro Ramos que faz uma árdua crítica:

(...) à violência epistêmica das ciências sociais no Brasil com as


negras e os negros brasileiros, defendendo um pensar sociológico
desde o Brasil, comprometido com a emancipação da população
negra brasileira e da sociedade brasileira. (Cardoso da Silva, 2017.)

A partir de Quintero, Figueira e Elizalde (2019), compreende-se


decolonialidade como a problematização da colonialidade, sendo esta caracterizada
por um padrão de poder que provocou consequências profundas na constituição das
sociedades latino-americanas, pois modelou suas instituições e reproduziu uma
dependência histórico-estrutural, desenvolvendo uma estratificação sociorracial que,
ainda que os brancos fossem uma minoria, eles tinham poder e domínio sobre as
maiorias indígenas, afrodescendentes e mestiços. Como pontuam Quintero,
Figueira e Elizalde (2019):

Esses grupos majoritários não tiveram acesso ao controle dos meios


de produção e foram forçados a subordinar a produção de suas
subjetividades à imitação dos modelos culturais europeus. Em outras
palavras, a colonialidade do poder tornou historicamente impossível
uma real democratização nessas nações. (2019, p. 6)

Como citado anteriormente, a colonialidade forçou não-brancos à


subordinação de suas produções de subjetividades, mas isso não quer dizer que
não existam subjetividades decoloniais que são e foram símbolos de resistência a
esse processo destruidor e homogeneizador de culturas e identidades. Contudo,
não basta reconhecer que houve resistência, os estudos e ações decoloniais, além
de confrontar a colonialidade, possibilitam que a gente rejeite a história única, a
história contada pelos brancos. Chimamanda Ngozi, em sua palestra O perigo de
uma história única (2009), discorre sobre como o poder influencia no modo pelo qual
as histórias são contadas, por quem, quando e quantas vezes são contadas. Ngozi
complementa que a história única é criadora de estereótipos e o problemas deles
não é ser uma mentira, mas serem incompletos. Portanto, a ausência de pessoas
não brancas dentro de um espaço responsável pela produção intelectual do
conhecimento e, ainda que não impedido legalmente a presença de pessoas não
brancas, não proporcionar uma equidade de acesso a esse espaço, visto a
construção baseada na colonialidade e escravização de não-brancos que a
sociedade brasileira foi construída, é fazer a manutenção do racismo e contar uma
história a partir de quem está no topo da pirâmide do poder.
De uma perspectiva das ciências sociais, Carvalho (2006) descreve o comum
cenário dos debates raciais em sala de aula entre alunos e professores brancos, a
partir de modelos de homens brancos. Na música por muito tempo não foi diferente,
pois não houve a reflexão crítica sobre as relações raciais, nem mesmo de gênero,
dentro das práticas musicais. Esse racismo institucionalizado fomenta um
apagamento de homens e mulheres negras, marcadores sociais que formam uma
encruzilhada de opressões, como aponta Marilda Santanna e Mônica Freire (2020)
no contexto de mulheres intérpretes negras, destacando que estas insurgem em
uma Música popular brasileira plural, mas nunca democrática.
Refletindo e buscando algumas indicações sobre o modo pelo qual as
práticas musicais e a pesquisa sobre música/musicares vêm sendo afetadas pelos
debates decoloniais, retomo o conceito de colonialidade discorrido por Cardoso da
Silva (2017) como:

(...) reprodução das relações coloniais e do imaginário racista após a


administração/independência colonial, mantendo intacta a hierarquia
colonial fundamentada pela ideia de raça, nas qual
euro-descendentes se mantêm no topo a subalternizar mulheres e
homens negros e indígenas.

A partir das reflexões anteriores, compreendo que as ações decoloniais vão


de encontro à valorização dos saberes e cosmogologias das mulheres e homens
negros e indígenas, essas ações trazem à tona pesquisas em música como a
“Vozes Negras de A a Z: Alaíde Costa e Zezé Motta”, de Marilda Santanna, Ana
Carolina Suzart da Conceição e Paula Cristina Gomes Silvestre, e também “O fazer
musical do carimbó de Santarém Novo: música, política e a construção de um
patrimônio cultural brasileiro” de Lorena Avellar de Muniagurria. Ambas vão de
encontro a povos e práticas subalternizadas por muito tempo. Vale ser explicitado
que o debate decolonial não propõe uma pesquisa sobre povos que foram
marginalizados, mas pesquisas que coloquem em evidência a grande contribuição
que pessoas não-brancas historicamente fizeram e fazem para o que hoje
chamamos de Estado-Nação, Brasil, para o que chamamos de cultura e música
brasileira. Não propõe pesquisas que que estudam o negro “com o propósito
evidente ou a intenção mal disfarçada de considerá-lo um ser distante, quase morto,
ou já mesmo empalhado como peça de museu” como declarou Guerreiro, em 1995,
no Jornal Quilombo. Os estudos decoloniais nos protegem e libertam do perigo de
uma história única sobre um país tão plural e diverso.

Bibliografia

ADICHIE, C. N. O perigo de uma história única. São Paulo: Companhia das Letras,
2019.
CARDOSO DA SILVA, N. M. Guerreiro Ramos: um pensamento brasileiro decolonial
na década de 50-60 do século XX. Analéctica, v. 3, n. 23, 1 Jul. 2017.

CARVALHO, J. J. de. O confinamento racial do mundo acadêmico brasileiro. Revista


USP, [S. l.], n. 68, p. 88-103, 2006. DOI: 10.11606/issn.2316-9036.v0i68p88-103.
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http://www.cult.ufba.br/enecult/anais/edicao-2019-xv-enecult/. Acesso em: 26 de jun.
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ELIZALDE, Paz Concha. FIGUEIRA, Patricia. QUINTERO, Pablo. Uma breve


história dos estudos decoloniais. Arte e colonialidade: n.3. São Paulo: MASP
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