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DIREIT O

CIVIL – CAROLINE ANDRIOT T I

60018 AULA23 - DIREIT O CIVIL IV - PENHOR PART E 2

1. MODALIDADES ESPECIAIS DE PENHOR VOLUNTÁRIO

C om relação a todas as m odalidades deve-se m arcar a característica da

desnecessidade de desapossam ento do bem , já que a regra é a de que o bem

perm aneça com o devedor, ao contrário do penhor com um .

1.1 PENHOR RURAL

O penhor rural pode ser agrícola ou pecuário, a depender da atividade ao qual

se relaciona (agricultura ou pecuária), previsto a partir do art. 1.438 do C ódigo C ivil

(C C ). O C ódigo relaciona alguns objetos que podem ser objeto de penhor, tais com o:

Art. 1.442. Podem ser objeto de penhor:


I - máquinas e instrumentos de agricultura;
II - colheitas pendentes, ou em via de formação;
III - frutos acondicionados ou armazenados;
IV - lenha cortada e carvão vegetal;
V - animais do serviço ordinário de estabelecimento agrícola.
(...)
Art. 1.444. Podem ser objeto de penhor os animais que integram a atividade
pastoril, agrícola ou de lacticínios.

C um pre salientar que caso os anim ais sejam utilizados para a produção de

carne, o penhor será instituído na m odalidade m ercantil industrial, nos term os do art.

1.447 do C C :

Seção VI
Do Penhor Industrial e Mercantil
Art. 1.447. Podem ser objeto de penhor máquinas, aparelhos, materiais,
instrumentos, instalados e em funcionamento, com os acessórios ou sem eles;
animais, utilizados na indústria; sal e bens destinados à exploração das salinas;
produtos de suinocultura, animais destinados à industrialização de carnes e
derivados; matérias-primas e produtos industrializados.

Em síntese, se o penhor for relacionado à atividade agrícola, tem os o penhor

agrícola, caso relacionado com a atividade pecuária, tem os o penhor pecuário. Ainda,

não s e e xige a t r adiç ão mat e r ial da coisa, além de acarretar no dir e it o do

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c r e do r de ins pe c io nar o objeto do penhor, considerando que não perm anece com o
possuidor direto, já que se encontram depositadas com o de ve do r pr o pr ie t ár io

(de po s it ár io ), que garante a obrigação por m eio do penhor de seus objetos.

O utrossim , a constituição do penhor é realizada através do r e gis t r o no RGI

(Registro Geral de Im óveis) das coisas em penhadas, o que confere m aior garantia

(publicidade e força) aos objetos dados em garantia para exercício da atividade

agrícola ou pecuária.

Adem ais, por alteração legislativa de 2013, o C C prevê que o prazo do penhor

não pode ser superior ao da obrigação garantida, m odificando a redação anterior que

estabelecia prazos específicos.

Menciona-se ainda a possibilidade de em issão de cédula rural pignoratícia pelo

devedor, a qual representa e garante a dívida, de m odo a fom entar a atividade

agrícola ou pecuária, em razão da m aior facilidade de concessão de crédito. O tem a é

previsto no Decreto-Lei nº 167/67.

Do m esm o m odo, é possível a superposição de garantias, considerando que

eventual hipoteca do prédio não obsta o penhor rural, sendo sequer necessário o

aceite do credor hipotecário para seu estabelecim ento, ressalvado o direito de

preferência na excussão, nos term os do art. 1.440 do C C :

Art. 1.440. Se o prédio estiver hipotecado, o penhor rural poderá constituir-se


independentemente da anuência do credor hipotecário, mas não lhe prejudica o
direito de preferência, nem restringe a extensão da hipoteca, ao ser executada.

Sobre o tem a, vê-se o seguinte julgado quanto à im penhorabilidade da pequena

propriedade rural sob exploração fam iliar, contra a qual é inoponível o crédito de

cédula rural pignoratícia por exceção legal ao direito de sequela.

1- A pequena propriedade rural, ainda que oferecida anteriormente em hipoteca


ao mesmo credor, não pode ser penhorada para pagamento de cédula rural
pignoratícia, não honrada com o penhor inicialmente contratado. 2 - Em harmonia
com o disposto no art. 5º, XXVI, da Constituição da República, a nova redação do
inciso VIII (antigo inciso X) do art. 649 do CPC suprimiu a anterior exceção legal,
afastando qualquer dúvida: nem mesmo eventual hipoteca é capaz de
excepcionar a regra que consagra a impenhorabilidade da pequena propriedade
rural sob exploração familiar. 3 - Recurso especial desprovido. (REsp 684.648/RS,
Rel. Ministro RAUL ARAÚJO, QUARTA TURMA, julgado em 08/10/2013, DJe

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21/10/2013)

1.2 PENHOR INDUST RIAL E MERCANT IL

Na m odalidade, o objeto do penhor é relacionado com o desenvolvim ento

industrial, incluídos os anim ais destinados ao abate e à produção de carne, excluídas as

hipóteses de penhor agrícola ou pecuário.

Do m esm o m odo, não exige a tradição da coisa (desapossam ento) e há o direito

de inspeção do credor, que não detém a coisa em depósito com o devedor, o qual a

m antém sob custódia e possui o dever de perm itir a inspeção do credor. Além disso,

constitui-se pelo registro no RGI da situação dos bens em penhados e perm ite-se a

em issão de cédula de crédito industrial ou m ercantil (Decreto-Lei nº 413/69), com vistas

a fom entar o m ercado das atividades desenvolvidas

C um pre ressaltar que, da m esm a form a com o ocorre com o penhor rural ou

agrícola, no penhor m ercantil ou industrial tem os exceções ao art. 1.431, o qual

estabelece o penhor apenas para coisas m óveis.

Art. 1.431. Constitui-se o penhor pela transferência efetiva da posse que, em


garantia do débito ao credor ou a quem o represente, faz o devedor, ou alguém por
ele, de uma coisa móvel, suscetível de alienação.
Parágrafo único. No penhor rural, industrial, mercantil e de veículos, as coisas
empenhadas continuam em poder do devedor, que as deve guardar e conservar.
Art. 1.432. O instrumento do penhor deverá ser levado a registro, por qualquer dos
contratantes; o do penhor comum será registrado no Cartório de Títulos e
Documentos.

Nesse sentido que o C ódigo am plia a exigência de que o penhor seja registrado

no RGI, tendo em vista a possibilidade de existência de bens im óveis por acessão, com o

as plantações no penhor agrícola e em outras m odalidades de penhor especial.

C onsiderando as diversas exceções à disciplina geral do penhor com um

dispostas no C C , a exem plo das vistas acim a, parte da doutrina entende que toda a

m atéria de direitos reais de garantia deveria ser relida para um a unificação, levando

em conta que tam bém nem m esm o a hipoteca se estabelece som ente para bens

im óveis, e nem o penhor apenas para bens m óveis. Dessa form a, sustenta que o estudo

deveria ser voltado para as finalidades das garantias, e não considerando unicam ente

a natureza dos bens.

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Retom ando o tem a do penhor m ercantil ou industrial, salienta-se que a

alienação dos bens depende de autorização do credor, já que sem a qual o negócio é

inoponível ao credor pignoratício.

1.3 PENHOR DE DIREIT OS E T ÍT ULOS DE CRÉDIT O

O C ódigo C ivil estabelece que podem ser em penhados direitos suscetíveis de

cessão e relativos à coisa m óvel, im plicando que não poderiam ser objeto de penhor os

direitos reais sobre bens im óveis, com o os direitos relativos à sucessão aberta,

considerando que o C C os considera com o bens im óveis. De outro lado, cita-se com o

suscetíveis de penhora os direitos de autor e direitos de patente.

Q uanto à possibilidade de penhora de bens futuros, denom inados recebíveis,

vale notar que o C C estabelece a possibilidade de penhora de direitos, existentes ainda

que não executados, o que faz com que, segundo a doutrina, seja possível por m eio da

transferência dos bens com probatórios da titularidade do direito, notadam ente visando

ao fom ento de novas em presas (startups), m ediante a concessão de crédito com

garantia nos direitos que seria gerados pelo seu desenvolvim ento. Para essa parcela da

doutrina, a possibilidade estaria nos arts. 483 e 1.431 do C C .

Art. 483. A compra e venda pode ter por objeto coisa atual ou futura. Neste caso,
ficará sem efeito o contrato se esta não vier a existir, salvo se a intenção das
partes era de concluir contrato aleatório.
Art. 1.431. Constitui-se o penhor pela transferência efetiva da posse que, em
garantia do débito ao credor ou a quem o represente, faz o devedor, ou alguém por
ele, de uma coisa móvel, suscetível de alienação.

Para constituição do penhor de direitos e títulos exige-se o registro no C artório de

Títulos e Docum entos (C TD), ou em registros especiais, a depender da natureza do

direito (por exem plo o INPI para direito de patente), e não no RGI com o para as outras

m odalidades estudadas.

Adem ais, em sendo o caso, o devedor deve ser notificado sobre a constituição da

penhora, para que realize o pagam ento ao credor pignoratício, e não ao credor

original, visto que sem a notificação o pagam ento é ineficaz com relação ao devedor

originário (art. 1.453 do C C ). O utrossim , o credor pignoratício possui o poder-dever de

cobrar o crédito, nos term os dos arts. 1.454 e 1.455 do C C :

Art. 1.453. O penhor de crédito não tem eficácia senão quando notificado ao

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devedor; por notificado tem-se o devedor que, em instrumento público ou


particular, declarar-se ciente da existência do penhor.
Art. 1.454. O credor pignoratício deve praticar os atos necessários à conservação
e defesa do direito empenhado e cobrar os juros e mais prestações acessórias
compreendidas na garantia.
Art. 1.455. Deverá o credor pignoratício cobrar o crédito empenhado, assim que se
torne exigível. Se este consistir numa prestação pecuniária, depositará a
importância recebida, de acordo com o devedor pignoratício, ou onde o juiz
determinar; se consistir na entrega da coisa, nesta se sub-rogará o penhor.

Salienta-se que a cobrança do direito cujo exercício foi transferido para o credor

pignoratício não é m era liberalidade, m as possui o objetivo de satisfazer a obrigação

principal, portanto dever de o exercer. Assim , quando cobrada a dívida no vencim ento,

se não vencida a obrigação principal, é indispensável que haja o depósito da quantia

para aguardar o vencim ento da obrigação principal, tem po em que o credor

pignoratício poderá usufruir do valor, elevando-se a im portância da satisfação da

obrigação principal.

O penhor de títulos de crédito pode ser dirigido tanto a títulos da dívida pública

quanto a títulos de crédito de particulares, com o notas prom issórias e duplicatas. Exige-

se a tradição da cártula e constitui-se pelo endosso-penhor, por m eio da aposição do

beneficiário no verso ou no anverso da cártula, perm itindo-se, por cláusula especial

estabelecida no próprio título, que este seja penhorado. Vale notar que caso a tradição

da cártula seja realizada sem a observação de constituição de penhor, estaria se

transferindo o próprio direito decorrente e não o exercício com o escopo de garantia.

No ponto, tam bém existe o poder-dever de cobrar o crédito, considerando que

deve exercê-lo tendo em vista o direito do devedor pignoratício ou do terceiro que

presta a garantia e respectiva obrigação principal (art. 1.459 do C C ).

Art. 1.459. Ao credor, em penhor de título de crédito, compete o direito de:


I - conservar a posse do título e recuperá-la de quem quer que o detenha;
II - usar dos meios judiciais convenientes para assegurar os seus direitos, e os do
credor do título empenhado;
III - fazer intimar ao devedor do título que não pague ao seu credor, enquanto durar
o penhor;
IV - receber a importância consubstanciada no título e os respectivos juros, se
exigíveis, restituindo o título ao devedor, quando este solver a obrigação.

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1.4 PENHOR DE VEÍCULOS

A últim a m odalidade de penhor voluntário prevista no C C é o penhor de veículos,

o qual recai sobre qualquer veículo em pregado com o transporte ou condução,

naturalm ente excluídos os navios, em barcações e aeronaves, tendo em vista que, por

expressa disposição legal, consideram -se suscetíveis de hipoteca, excetuando-se a

regra de restrição aos bens im óveis por natureza.

Art. 1.461. Podem ser objeto de penhor os veículos empregados em qualquer


espécie de transporte ou condução.

Vale m encionar que o instituto difere da alienação fiduciária em garantia, já que

nesta há a transferência da pr o pr ie dade ao credor, com vistas a obter o

financiam ento para aquisição de bens de consum o duráveis. Nota-se a propriedade

fiduciária do bem para o credor, m odalidade resolúvel na qual extinta a obrigação

através do pagam ento do bem , transfere-se a propriedade para o devedor.

No penhor de veículos não há a transferência de propriedade, inclusive o

devedor m antém a posse do veículo que é de sua propriedade, nesse sentido o C ódigo

perm ite a em issão de cédula pignoratícia veicular. Dessa form a, a alienação fiduciária

confere m uito m ais segurança ao crédito do credor, já que no penhor de veículos o C C

não estabelece o devedor com o depositário.

Adem ais, exige-se o registro do penhor no C TD e no C ertificado do Registro

Veicular (C RV), provocando tese da doutrina pela alternatividade dos registros, e não na

sua cum ulação para que seja constituído. Nesse sentido, parte entende que é possível

o registro apenas nos cadastros de veículos (DETRAN), em razão do julgam ento do

tem a 349, no qual tal possibilidade foi reconhecida pelo STF, visando à

desburocratização para incentivo da instituição dessa m odalidade de penhor.

Tema 349 (Alienação fiduciária em garantia) - Tese: “É constitucional o § 1º do


artigo 1.361 do Código Civil (...)” (repercussão geral reconhecida no RE 611639,
STF)
Art. 1.361. Considera-se fiduciária a propriedade resolúvel de coisa móvel
infungível que o devedor, com escopo de garantia, transfere ao credor.
§ 1º Constitui-se a propriedade fiduciária com o registro do contrato, celebrado
por instrumento público ou particular, que lhe serve de título, no Registro de
Títulos e Documentos do domicílio do devedor, ou, em se tratando de veículos, na
repartição competente para o licenciamento, fazendo-se a anotação no

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certificado de registro.

Im põe-se ainda para a constituição da penhora que o veículo seja segurado

contra avaria e danos, dado o seu perecim ento natural e riscos inerentes.

Art. 1.463. Não se fará o penhor de veículos sem que estejam previamente
segurados contra furto, avaria, perecimento e danos causados a terceiros.

O C ódigo prevê tam bém o prazo m áxim o de dois anos, prorrogáveis, bem com o

a possibilidade de alienação sem autorização do credor pignoratício, hipótese em que

será considerada vencida antecipadam ente a dívida da obrigação principal. A regra,

portanto, é de que é necessária a autorização com vistas a evitar que isso ocorra.

Art. 1.465. A alienação, ou a mudança, do veículo empenhado sem prévia


comunicação ao credor importa no vencimento antecipado do crédito
pignoratício.
Art. 1.466. O penhor de veículos só se pode convencionar pelo prazo máximo de
dois anos, prorrogável até o limite de igual tempo, averbada a prorrogação à
margem do registro respectivo.

2. PENHOR LEGAL
O C C estabelece nos arts. 1.467 a 1.472 duas m odalidades de penhor legal,

independente da faculdade das partes, nos seguintes term os:

Art. 1.467. São credores pignoratícios, independentemente de convenção:


I - os hospedeiros, ou fornecedores de pousada ou alimento, sobre as bagagens,
móveis, jóias ou dinheiro que os seus consumidores ou fregueses tiverem consigo
nas respectivas casas ou estabelecimentos, pelas despesas ou consumo que aí
tiverem feito;
II - o dono do prédio rústico ou urbano, sobre os bens móveis que o rendeiro ou
inquilino tiver guarnecendo o mesmo prédio, pelos aluguéis ou rendas.

No ponto, Flávio Tartuce sustenta que não deveriam ser consideradas tais

hipóteses de penhor legal, seja por força da lei do inquilinato ou do C DC , tendo em

vista que tais práticas de direito de retenção ou de apropriação seriam

inconstitucionais, já que haveria hipossuficiência de um a das partes que im pediria o

exercício do poder de autotutela.

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Nesse sentido, por ser um m eio direito de defesa, valem as m esm as

considerações quanto à autotutela da posse, na qual devem ser observadas a

proporcionalidade das m edidas e a atenção aos direitos dos consum idores,

considerando que o C DC im pede que sejam expostos a m eios vexatórios de cobrança.

O utrossim , a hipótese deve ser vislum brada de m odo restritivo, considerando ser

exceção do ordenam ento à regra de tutela pelo Poder Judiciário.

C um pre ressaltar que o direito de apropriação deve ser hom ologado

judicialm ente, no sentido de que após a apropriação dos objetos penhorados para

garantir a dívida da hospedagem , o credor deve se socorrer ao Judiciário para obter a

confirm ação de seus atos. Difere no ponto do direito de retenção, na qual a coisa

estava sob sua guarda quando do exercício do direito, que poderá ser exercido até a

satisfação da obrigação, sendo desnecessário apropriar-se, com o na hipótese do

penhor legal, no qual os objetos deverão ser tratados judicialm ente para alienação e

satisfação da dívida.

Por fim , salienta-se que exige-se para a validade do penhor que o credor redija

recibo relacionando os bens apropriados, com vistas a garantir o devedor quanto à

regularidade do penhor.

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