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B Brasil

RELATÓRIO NACIONAL

Juventude e Integração Sul-Americana:


caracterização de situações-tipo e organizações juvenis
Relatório Nacional do Brasil 1
B
B
Juventude e Integração Sul-Americana:
caracterização de situações-tipo e organizações juvenis

RELATÓRIO NACIONAL DO BRASIL

Rio de Janeiro, novembro 2007

Coordenação e instituições responsáveis

Apoio
Juventude e Integração Sul-Americana:
caracterização de situações-tipo e organizações juvenis

RELATÓRIO NACIONAL DO BRASIL

Uma publicação Ibase e Pólis

Apoio Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro


Centro de Pesquisas para o Ana Karina Brenner (coord.)
Desenvolvimento Internacional (IDRC) Lia Dias de Alencar

Movimento Hip Hop de Caruaru/Pernambuco


Instituição responsável
Adjair Alves (coord.)
Pólis
Rosilene Alvim (coord.)

Coordenação geral Revolta do Buzu (movimento de estudantes


Anna Luiza Salles Souto e Pedro Pontual secundaristas de Salvador)
Júlia Ribeiro de Oliveira (coord.)
Coordenação técnica / Elaboração do relatório Ana Paula Carvalho
Helena Wendel Abramo
Sindicato de Trabalhadores em Telemarketing
de São Paulo
Equipes por situação-tipo Maria Carla Corrochano (coord.)
Érica Nascimento
Acampamento Intercontinental da Juventude do
Fórum Social Mundial/Porto Alegre
Nilton Bueno Fischer (coord.) Fotos
Ana Maria dos Santos Corrêa Flávio Conde
Márcio Amaral Samuel Tosta
Vanor Correia
Cortadores de cana do interior do estado de São Paulo
José Roberto Pereira Novaes (coord.) Projeto gráfico e diagramação
Flávio Conde Dotzdesign
Roberta Maiane
Tais Zeitune A publicação não foi editada, tendo sido
respeitado o estilo da autora.

4 Ibase | Pólis
ÍNDICE

INTRODUÇÃO 6
1. ESTADO DA QUESTÃO NO BRASIL 8
1.1 HISTÓRICO 9
1.2 DIAGNÓSTICOS 11
1.3 AS DEMANDAS DOS JOVENS 20
2. SITUAÇÕES-TIPO ESTUDADAS 24
2.1 MANIFESTAÇÕES DOS ESTUDANTES SECUNDARISTAS CONTRA O AUMENTO
DA TARIFA DO ÔNIBUS 24
2.2 OS TRABALHADORES JOVENS DO CORTE MANUAL DA CANA-DE-AÇÚCAR 25
2.3 GRUPO DE HIP HOP 26
2.4 TRABALHADORES DO TELEMARKETING E A DEMANDA POR TRABALHO 26
2.5 FÓRUM DE JUVENTUDES DO RIO DE JANEIRO – FJRJ 27
2.6 O ACAMPAMENTO INTERCONTINENTAL DA JUVENTUDE (AIJ) DO FÓRUM SOCIAL MUNDIAL
(FSM): EXPERIÊNCIA DE UMA NOVA GERAÇÃO POLÍTICA 27
3. ANÁLISE CONSOLIDADA DAS SITUAÇÕES-TIPO 30
3.1 CONSTITUIÇÃO E IDENTIDADE JUVENIL 30
3.2 AS DEMANDAS E O MOTE DA ATUAÇÃO 40
3.3 AÇÕES AFIRMATIVAS E VALORIZAÇÃO DA DIVERSIDADE 66
4. PERCEPÇÕES DOS ATORES E/OU MEDIADORES DAS DIFERENTES SITUAÇÕES-TIPO
SOBRE OS TEMAS RECORRENTES NAS AGENDAS PÚBLICAS CONTEMPORÂNEAS 70
5. FORMAS DE ATUAÇÃO E EXPRESSÃO PÚBLICA DAS DEMANDAS 72
5.1 INTERLOCUTORES/ MEDIADORES 78
6. AS POLÍTICAS RESPONDEM ÀS DEMANDAS? 82
6.1 TRABALHO 84
6.2 PARTICIPAÇÃO 86
6.3 AS POLÍTICAS PÚBLICAS DE JUVENTUDE 86
BIBLIOGRAFIA 88

Relatório Nacional do Brasil 5


INTRODUÇÃO

O objetivo mais geral desta pesquisa, tal como está no espaço público; quais atores as sus-
desenvolvido em seu projeto, é contribuir para que tentam e em que tipos de canais de mo-
as demandas dos jovens ganhem visibilidade, pautem bilização e negociação; se há semelhan-
as agendas públicas e gerem novas iniciativas, ças entre as demandas, para que seja
enriquecendo o campo da luta por direitos no país e na possível a construção de pautas e redes
região do Mercosul e perscrutando as possibilidades em comum. A metodologia adotada foi a
de constituição de plataformas comuns na luta por de eleger algumas situações em que fos-
direitos envolvendo jovens. se possível aprofundar essas verificações,
não com a perspectiva de construir um
quadro descritivo ou analítico que des-
Há uma pista sugerida no projeto pres- se conta do universo das mobilizações ju-
supondo que as necessidades, as de- venis ou que pudesse representá-lo, mas
mandas e os desejos dos jovens fizeram que, aprofundando o olhar sobre situa-
surgir um espaço de políticas públicas ções concretas, pudesse configurar algu-
de juventude (que comporta ações, pro- mas pistas de entendimento e formular
gramas e instituições especificamente novas questões que enriquecessem o de-
construídas para formulação e execução bate aqui proposto.
dessas ações), nos últimos anos, neste As possibilidades de respostas a es-
pedaço do continente americano. As in- sas questões também dependem dos
terrogações se colocam a partir daí e in- contextos nacionais nos quais esses pro-
dagam, principalmente, até que ponto a cessos são desenvolvidos. Neste rela-
abertura desse espaço tem logrado estru- tório sobre o Brasil, antes de entrar na
turar uma pauta dos direitos a serem ga- análise das situações estudadas, realiza-
rantidos aos jovens. Qual tem sido a visi- remos uma breve localização do contex-
bilidade alcançada pelos atores juvenis to nacional.
e, mais especificamente, qual tem sido
a disponibilidade para a incorporação
de suas demandas na agenda pública?
As demandas apresentadas pelos jovens
têm logrado incidir no conteúdo das polí-
ticas a eles dirigidas? Qual é a força políti-
ca que a noção do jovem como um sujei-
to singular de direitos tem adquirido nas
sociedades latino-americanas?
É claro que essas questões pressu-
põem a necessidade de verificar com
mais acuidade como se configura a atu-
ação juvenil em torno de certas deman-
das, em que direção elas têm apontado
e que peso têm adquirido. A proposta da
investigação realizada foi, portanto, bus-
car compreender quais são as deman-
das dos jovens que têm tido interferência

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Relatório Nacional do Brasil 7
1. ESTADO DA QUESTÃO NO BRASIL
No Brasil, o tema da juventude encontrou inflexões 1.1 HISTÓRICO
significativas nas últimas décadas. Até os anos 1970,
foi enfocada, principalmente, por meio da avaliação Foi, nesse sentido, durante todo o sécu-
de sua capacidade de ser vetor de modernidade lo 20, um componente do debate político,
e transformação política e comportamental: a mas não propriamente como um tema re-
juventude era identificada com o segmento de jovens lativo ao debate sobre as políticas públi-
escolarizados das classes médias que podiam viver cas ou relativo ao debate sobre os direitos
a moratória e a escolarização secundária e superior; sociais. A emergência do tema das políti-
o interesse político se dirigia para o papel que cas públicas de juventude, e dos direitos
(principalmente, por meio dos movimentos estudantis, que devem ser garantidos aos jovens, data
da contracultura e do engajamento em partidos de cerca de dez anos atrás, de certo modo
políticos de esquerda) jogava na continuidade ou na acompanhando uma tendência presente
transformação do sistema cultural e político. há mais tempo em outros países do nosso
continente. O processo brasileiro guarda,
contudo, algumas particularidades.
A partir desse período, ocorre uma grande Aqui, as ações desencadeadas pe-
modificação. Os movimentos estudantis las agências da Organização das Nações
retomam a possibilidade de organização e Unidas (ONU) a partir do Ano Interna-
manifestação pública e participam ativa- cional da Juventude, em 1985, não ti-
mente da luta pelo fim do regime militar veram a mesma repercussão que em
instaurado em 1964. Mas, em seguida, no outros lugares, produzindo pequeno im-
processo de redemocratização, vão per- pacto na formulação de programas ou
dendo paulatinamente visibilidade e legiti- organismos específicos de políticas para
midade social. Ao mesmo tempo, emerge, esse segmento. Naquele momento, o
como um tema social, a questão dos “me- tema em relevância não era o da juven-
ninos de rua”: como motivo de pânico, en- tude, mas o da infância.
gendrando ondas de repressão e violência Durante todo o último quartel do sécu-
contra os menores de idade em situações lo passado, o foco da preocupação ficou
diversas de abandono e desvio, e como centrado na questão das crianças e dos
bandeira de luta e mobilização social, en- adolescentes em situação de risco, que
volvendo uma série de atores dos setores emergiu como um tema de extrema gravi-
progressistas (entre juristas, funcionários dade e desencadeou tanto uma onda de
públicos, militantes de movimentos so- pânico social como uma importante mo-
ciais e comunitários), demandando a de- bilização em torno da defesa dos direitos
fesa dos direitos dessas crianças para que desses segmentos.1 Isso polarizou o deba-
passassem a ser tratadas como sujeitos de te no que diz respeito à juventude, fazen-
direitos e não como elementos perigosos do com que o termo, por muito tempo, se
para a sociedade. referisse ao período da adolescência, mui-
tas vezes como algo indistinto da infância.
1
Engendrando ações da sociedade
civil e do Estado e resultando no A juventude, propriamente dita, ficou
Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA), que se tornou instrumento
de fora do escopo das ações e do deba-
fundamental para implantar a idéia de te sobre direitos e cidadania. Nesse pe-
crianças e adolescentes como sujeitos
de direitos. ríodo, a juventude foi tematizada apenas

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com base em sua ausência ou apatia, em atores de âmbitos distintos e em diferentes
contraste com as gerações passadas, en- arenas públicas: gestores locais buscando
gajadas e propositivas. se articular e aumentar sua força política e
O que parece valer a pena ressaltar orçamentária; ONGs e entidades da socie-
é que a juventude, como tema político, dade civil aumentando o escopo de suas
emerge depois do processo de redemo- ações e procurando constituir redes para
cratização da sociedade brasileira, de- propor e executar políticas públicas; fun-
pois do momento de debate mais intenso dações empresariais e organismos de coo-
sobre a consolidação dos direitos de ci- peração internacional financiando projetos
dadania, que se corporificou no proces- da sociedade civil e programas públicos;
so da Constituinte no fim da década de núcleos acadêmicos e instituições ligadas
1980. Os sujeitos desse processo foram à ONU realizando pesquisas para diagnós-
os movimentos sociais que se articula- ticos e fomentando espaços públicos de
ram (a maioria nos anos 1970, mas al- debate; parlamentares instituindo comis-
guns antes), sobretudo, pela retomada sões públicas no âmbito legislativo para o
da democracia e pela constituição de po- acompanhamento e a proposição de políti-
líticas setoriais (como educação, saúde cas públicas e estabelecimento de marcos
e trabalho). Entre eles, estavam os cha- legais para o tema.
mados “novos movimentos sociais”, com Particularmente, nos últimos cinco
novas identidades e pautas, e em torno anos, esse processo se intensificou com a
de condições singulares, como os mo- configuração de atores e espaços mais ar-
vimentos de negros e mulheres. É, tam- ticulados e visíveis e a recente criação de
bém, nesse período, que emerge a pauta uma estrutura nacional para o desenvolvi-
dos direitos das crianças e dos adoles- mento de políticas especificamente pensa-
centes. Boa parte dos conselhos mais das para a juventude. É possível identificar
consolidados, no âmbito do governo fe- algumas vertentes que contribuíram para
deral, resulta da articulação e da con- a criação do ambiente que permitiu, final-
solidação desses movimentos e de suas mente, que a juventude emergisse como
bandeiras na esfera pública. tema de política do Estado.
No entanto, nesse momento, a juven- Por um lado, a pressão de diferentes
tude não se colocou como questão políti- atores juvenis, principalmente aqueles vin-
ca, como tema para os direitos e para as culados aos partidos progressistas e de es-
políticas públicas. Ficou, como tema, fora querda, assim como por certos atores e
do processo, embora muitos jovens e or- movimentos juvenis (as entidades estudan-
ganizações juvenis tenham participado tis, de um lado, os movimentos culturais e
ativamente da luta pela redemocratização identitários, de outro), para a participação
e muitos jovens tenham participado da nos governos de caráter democrático e po-
construção dessas pautas no interior de pular que conquistaram âmbitos executi-
outros movimentos. vos locais e estaduais. A principal deman-
Nos últimos dez anos, o debate sobre da era a criação de organismos gestores
a juventude e, principalmente, sobre po- para a formulação e execução de políticas
líticas públicas para o segmento aumen- específicas para a juventude e a participa-
tou bastante, envolvendo uma miríade de ção nesses processos.

Relatório Nacional do Brasil 9


Ao mesmo tempo, diferentes tipos de o tempo livre. Concomitantemente, ações
grupos juvenis, principalmente os ligados foram estruturadas para dirimir, resga-
a atuações culturais e comunitárias, co- tar ou prevenir os problemas engendrados
meçaram a estabelecer diálogo com os pelas situações de vulnerabilidade, princi-
poderes públicos para reivindicar espa- palmente a violência, as doenças sexual-
ços e ações voltadas para suas ativida- mente transmissíveis e a gravidez precoce,
des, como a criação de festivais, shows, que os afastavam da vivência juvenil. Dife-
centros comunitários e/ou culturais, ofi- rentes ações nas áreas de saúde, educa-
cinas de formação em linguagens cultu- ção e cultura vão construindo os eixos pe-
rais, desenvolvimento de programas es- los quais programas e projetos pilotos se
pecíficos de saúde, ação comunitária etc. organizam como repertórios comuns. São
É possível dizer que foi, principalmente, esses eixos que orientarão muitos dos pri-
a ação desses e de outros grupos juve- meiros programas governamentais, não
nis em diferentes espaços de interlocu- raro realizados em forma de parceria entre
ção com o poder público que começou Estado e ONGs.
a montar a pauta atual de políticas mul- Iniciativas desenvolvidas por agên-
tissetoriais e diversificadas de juventude cias da ONU (como Organização das Na-
para além das tradicionalmente incorpo- ções Unidas para a Educação, a Ciência e
radas aos programas partidários, como a Cultura – Unesco; Programa das Nações
educação e segurança. A apresentação Unidas para o Desenvolvimento – PNUD;
de demandas nos centros de referência Fundo de População das Nações Unidas
de juventude, nas assembléias de orça- – FNUAP) ajudaram a construir e conso-
mento participativo, nos congressos de lidar (por meio de pesquisas, seminários,
cidade, nas conferências municipais con- oficinas de capacitação, trocas de experi-
vocadas pelos organismos gestores foram ências em fóruns internacionais e apoios a
tornando visíveis questões específicas e, programas e projetos de cooperação técni-
assim, a lógica de necessidades singula- ca) certos conceitos e certas diretrizes de
res alcançou algum grau de reconheci- ação nesse repertório, principalmente nos
mento por parte de outros atores sociais. temas de educação e saúde.
Numa outra linha, o desenvolvimen- A partir de determinado momento,
to de projetos pela sociedade civil, entre atores políticos (basicamente aqueles li-
ONGs e entidades de apoio dos mais di- gados a partidos de esquerda, como o
versos tipos, apoiadas por organismos de Partido dos Trabalhadores – PT – e o Par-
cooperação internacional e por fundações tido Comunista do Brasil – PCdoB) en-
empresariais, também compõe um acer- campam o assunto, dispostos a transfor-
vo de experiências na conformação do en- mar a juventude em tema de relevância
tendimento das respostas a serem dadas política nacional. Vários processos são
às questões identificadas nesse segmento. desencadeados, sendo um dos mais sig-
Fundamentalmente, com base em uma vi- nificativos o desenvolvimento do Projeto
são da necessidade de operar um resgate Juventude, entre 2003 e 2004, quando o
da dívida social com os segmentos pobres Instituto Cidadania promoveu amplo pro-
ou vulneráveis da juventude, esses atores cesso de discussão envolvendo organi-
buscaram recuperar a possibilidade de jo- zações juvenis, pesquisadores e pesqui-
vens terem acesso a certos serviços, de- sadoras, representantes de movimentos
mandando o direito a “viver a juventude”, sociais, de ONGs, de fundações empre-
o que significava, em grande medida, usu- sariais, gestores, intelectuais etc., em
fruir da moratória que jovens de classes uma série de seminários, oficinas e ple-
médias e altas já usufruíam, com progra- nárias, produzindo pesquisas e publica-
mas de formação educativa e/ou de retor- ções com o propósito de elaborar um do-
no à escola, além da possibilidade de viver cumento de referência e uma proposição

10 Ibase | Pólis
de políticas de juventude para o país. Na eles. É desse modo, também, que a idéia
verdade, tal processo já foi desenvolvido da existência de direitos da juventude co-
em resposta a uma sinalização emitida meça a ser esboçada, embora ainda não
pelo recém-eleito presidente Lula, a par- tenha adquirido consistência política real,
tir de sua disposição de tomar o tema da como veremos adiante.
juventude como uma de suas preocupa-
ções centrais.
É assim que, em 2003, o governo fe- 1.2 DIAGNÓSTICOS
deral, pela primeira vez no país, instalou
um canal para a articulação dos seus O debate público sobre juventude se con-
programas setoriais de juventude (com centrou muito mais nas possibilidades e
a criação de um grupo de trabalho inter- nos entraves para a participação dos jo-
ministerial), que resultou na criação de vens nos processos de reconstituição de-
um arcabouço institucional específico mocrática – e nos modos de resgatá-los
para políticas de juventude em 2005: a das situações de risco e vulnerabilida-
Secretaria Nacional de Juventude, com de em que se viram crescentemente en-
caráter de articulação entre as políticas volvidos – que nas suas necessidades e
desenvolvidas pelos diferentes ministé- nos seus direitos. Não é possível dizer
rios, e o Conselho Nacional de Juventu- que havia, nesse sentido, uma pauta já
de (Conjuve), órgão de articulação entre consolidada de demandas ou de reivin-
governo e sociedade civil, consultivo e dicações relativas aos direitos dos jovens
propositivo. Ao mesmo tempo, o governo quando os aparatos institucionais para a
federal definiu a execução de um grande formulação de políticas públicas de ju-
programa nacional de inclusão dirigido ventude foram montados. Havia um acer-
a jovens entre 18 e 24 anos em situação vo multifacetado e bastante desarticula-
de vulnerabilidade social (fora da escola do de questões publicamente expressas,
e do trabalho, sem ter ainda concluído o de propostas e experiências-piloto (tan-
ensino fundamental). Apesar desse pro- to no âmbito governamental como no das
cesso estar, ainda, no início, foi o maior ONGs), mas poucos espaços de articula-
avanço na consolidação pública do tema ção e negociação dessas demandas. Res-
até aqui. taram, assim, muitos hiatos e muitas po-
Em 2003, foi também criada a Fren- lêmicas mal enfrentadas a respeito da
te Parlamentar de Juventude na Câmara composição dessa pauta.
Federal, que organizou uma série de au- É possível dizer que a construção da
diências públicas em torno do tema, as- pauta de direitos a serem garantidos pelo
sim como um seminário e uma conferên- Estado (e exigidos pelos atores da so-
cia nacional voltados para a estruturação ciedade civil) ainda está sendo feita, as-
de um Plano Nacional de Juventude, sim como está em debate a definição da
convertido em projeto de lei em tramita- perspectiva que orienta a constituição
ção. Os parlamentares envolvidos nes- do paradigma dos jovens como sujeitos
sa frente também têm tido atuação signi- de direitos. O processo de construção de
ficativa na aprovação dos decretos e das uma “política nacional de juventude” en-
leis propostas pelo governo federal para a tre poder executivo, legislativo e socieda-
criação dos órgãos e programas dirigidos de civil está sendo feito em meio a esse
a esse segmento. acelerado, mas ainda frágil, processo de
Houve diálogo e certa articulação en- debate público. A formulação de progra-
tre os processos, o que contribuiu para mas com investimento orçamentário sig-
a criação de uma pauta política em tor- nificativo por parte do governo federal e
no do tema, apesar da diferença de âm- a montagem de estruturas institucionais
bitos, de escopos e de perspectivas entre têm interferido nesse processo. Como

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lembram Marília Sposito, Hamilton Harley tude separado do da infância e da ado-
de Carvalho Silva e Nilton Alves Souza, lescência baseada em argumentos que
“a conformação de políticas e programas questionam a existência de diferenças
públicos não sofre apenas os efeitos de significativas entre essas fases do ciclo de
concepções, mas pode provocar modula- vida que justifiquem a conformação de
ções nas imagens dominantes que a so- políticas, equipamentos, estrutura institu-
ciedade constrói sobre os sujeitos jovens” cional e marco legal diferenciados para a
(Sposito; Silva; Souza, 2006). juventude, além da oportunidade política
Deve ser ressaltado que cresceu de “desviar” recursos, financeiros e políti-
muito, nos últimos anos, a legitimidade cos (de militância), do campo da infância
política do tema e o espectro de atores para o da juventude, uma vez que a pri-
que se acercam desse campo de ações meira foi definida, constitucionalmente,
e debates, como o movimento sindical, como prioridade nacional. A terceira linha
o Movimento dos Sem Terra (MST), mo- de questionamentos diz respeito à pos-
vimentos de mulheres, pela liberdade de sibilidade de tomar “a juventude” como
orientação sexual, além do crescente nú- segmento para além das diferenças e de-
mero de ONGs, fundações empresariais, sigualdades internas, tão profundas que
instituições religiosas etc. Mesmo assim, explodiriam a possibilidade de pensar em
há ainda invisibilidade e incompreensões direitos gerais da juventude ou de políti-
a respeito do tema tanto quanto interro- cas universais a ela dirigidas.
gações e polêmicas nas formas de abor- A última linha tem sido desenvolvi-
dagem, até mesmo relacionadas à pró- da no interior do próprio campo de de-
pria pertinência da constituição desse bate sobre as políticas de juventude, em
campo de atuação. Há desde uma inter- torno da crescente produção de dados,
rogação genérica sobre a validade para reflexões e manifestações sobre os dife-
o fortalecimento dos princípios da demo- rentes aspectos e as diferentes situações
cracia e da universalidade dos direitos, que compõem o imenso “mosaico” que
da afirmação das singularidades identi- é o universo juvenil brasileiro. Ela se as-
tárias (e, nesse sentido, por que fortale- socia ao debate relacionado às definições
cer mais um movimento identitário?), até contemporâneas sobre a condição juve-
diferentes tipos de dúvidas ou contesta- nil ou sobre “o conceito de juventude” to-
ções da “consistência” da singularidade mado para definir as ações políticas. É in-
juvenil para a produção de uma alterida- teressante verificar que o item “conceito
de política significativa. de juventude” tem entrado em todos os
Com relação a esse último ponto, documentos e processos de debate vol-
existem pelo menos três linhas de contes- tados para a definição das políticas e dos
tação. Primeiro, o questionamento sobre rumos de atuações política dos jovens,
a possibilidade de construção de uma o que pode, de certo modo, revelar um
identidade política com base em uma processo de definição de um novo para-
condição passageira e não permanente, digma em torno do qual o tema pode ser
como são as identidades relacionadas a pensado e enfrentado.
fases do ciclo da vida (diferentes, nesse Parece relevante, aqui, localizar duas
sentido, da condição fundada no gêne- questões sobre as quais parte desse de-
ro ou na raça/etnia). Em segundo lugar (e bate “conceitual” tem se processado.
esta tem sido uma das mais fortes fontes Uma delas diz respeito à posição relacio-
de resistência manifestadas por parte dos nada à necessidade de considerar dife-
atores envolvidos no campo da defesa renças e desigualdades que percorrem
dos direitos de segmentos vulneráveis), a o segmento, reafirmada na insistência
discussão sobre a pertinência de consti- em usar o termo no plural – “juventu-
tuição de um campo relacionado à juven- des” – para evitar o risco de naturalizar

12 Ibase | Pólis
uma condição que é social e historica- ção, longa e plena, de conteúdo próprio,
mente construída e para não reprodu- o que confere à condição juvenil uma
zir desigualdades ao tomar o todo pela dupla dimensão a ser considerada – a
parte. Assim, boa parte do esforço atu- preparação para a vida futura e a expe-
al dos diagnósticos e do debate se diri- rimentação da vida presente. Aqui, con-
ge à consideração de diferenças e de- tudo, é preciso dizer que ainda predomi-
sigualdades, assim como boa parte do na, na postura da maior parte dos atores
esforço político se dirige à busca de in- e na formulação das políticas destinadas
corporar no processo de construção das aos jovens, o paradigma da juventude
arenas de debate atores juvenis dos dife- como período preparatório:2 “esta visão
rentes segmentos. No entanto, ainda não do jovem como sujeito em preparação
está equacionado, no debate, o que é si- e, portanto, como receptor de formação,
milar e o que é diferencial na juventude. é o eixo que predomina em quase to-
No plano conceitual, avança-se na bus- das as ações a ele dirigidas, combinada
ca para estabelecer uma diferença entre aos mais diferentes paradigmas, não só
condição, que diz respeito ao modo como nas políticas públicas estatais” (Abramo,
uma sociedade constitui e atribui signi- 2005b). Como aponta Livia De Tommasi
ficado a esse momento do ciclo de vida, em texto de análise sobre o trabalho de
e que alcança abrangência social maior ONGs brasileiras com jovens, “a abor-
quando referida a uma dimensão histó- dagem principal é aquela orientada pela
rico-geracional, e situação, que revela idéia de formação” (Tommasi, 2004).
o modo como tal condição é vivida com Além disso, a relação que os adultos (os
base nos diversos recortes relaciona- militantes, técnicos e “funcionários” das
dos às diferenças sociais – classe, gêne- ONGs) estabelecem com os jovens, em
ro, etnia etc. (Abad, 2003; Sposito, 2003; qualquer projeto desenvolvido, é a de
Abramo, 2005 a e b). Porém, no plano “educadores” (Abramo, 2005).
político, ainda é muito incipiente o debate Há, contudo, um esforço despendido
sobre o que é comum à juventude e, por- por parte de vários atores no sentido de
tanto, de quais seriam as pautas comuns construir outra abordagem, que pode ser
aos jovens brasileiros. observado no documento publicado pelo
Há, também, outra questão relati- Conselho Nacional de Juventude:
va ao entendimento do significado da Mas a vivência juvenil na contem-
condição juvenil contemporânea. Se há poraneidade tem se mostrado mais
compreensão generalizada sobre sua complexa, combinando processos
transformação no atual momento histó- formativos com processos de ex-
rico, há diferenças de interpretação dos perimentação e construção de tra-
sentidos dessa mudança, principalmen- jetórias que incluem a inserção no
te em torno do entendimento sobre o ca- mundo do trabalho, a definição de
ráter da moratória, sobre se há acentu- identidades, a vivência da sexuali-
ação ou diluição desse fenômeno, se a dade, da sociabilidade, do lazer, da
tendência é o adiamento generalizado fruição e criação cultural e da parti-
da entrada na vida adulta ou o estabele- cipação social. [...] Assim, a tendên- 2
Por exemplo, isso pode ser visto na
definição constante de um dos diag-
cimento de uma relação peculiar de in- cia ao prolongamento e à multiplici- nósticos mais importantes realizados
recentemente: “Esta decisão está
serção e experimentação. Dito de ou- dade de dimensões da vida juvenil relacionada ao conceito de juventude
tro modo: se o conteúdo da transição se provocariam a consideração de dois aqui adotado, como fase de transição,
em que cada sociedade define um
faz como passagem de uma etapa a ou- eixos de visão sobre os jovens: sua tempo socialmente necessário para a
transformação dos jovens de “depen-
tra (da infância à idade adulta, da esco- vida presente (a fruição da juventu- dentes” em “adultos” autônomos e
produtivos. As atividades dos jovens,
la ao trabalho, como etapas sucessivas de) e sua projeção para o futuro (os desse modo, remetem à preparação e
e opostas) ou se é muito mais o desen- modos pelos quais deixam de ser ao aprendizado para o cumprimento
dos papéis de ‘adulto’ na sociedade”
volvimento de uma trajetória de inser- jovens para se tornarem adultos). (Waiselfisz, 2004).

Relatório Nacional do Brasil 13


Desse modo, não só as possibilida- le que, partindo da postulação do jovem
des de formação para o exercício da como sujeito de direitos, busca examinar
vida adulta têm que ser considera- o que constitui a singularidade da con-
das, mas também as possibilidades dição juvenil e quais são os direitos que
para a vida juvenil. Disso decorre a dela emergem e que devem ser garanti-
importância de considerar essa mul- dos por meio de políticas públicas.
tiplicidade das dimensões (Novaes; A maior parte dos documentos dirigi-
Cara; Silva; Papa, 2006). dos para o debate das políticas públicas,
apesar de afirmarem a postulação dos jo-
De todo o modo, esse é um debate vens como sujeitos de direitos e a neces-
que informa e, ao mesmo tempo, se en- sidade de incorporar a participação dos
riquece com a definição das políticas e jovens tanto nos processos sociais mais
dos diagnósticos que orientam sua for- amplos como na própria definição e im-
mulação. Esse é, também, um ponto no plementação das políticas a eles dirigidas
qual academia, técnicos de informação, (como protagonistas na busca de solu-
gestores e militantes de diversos campos ções para sua vida e para a comunidade,
têm se encontrado – e confrontado –, como agentes estratégicos para o desen-
ajudando a construir as representações volvimento ou como sujeitos fundamen-
em torno das quais as disputas políti- tais para a transformação, dependen-
cas se processam. Nesse processo, tem do da vertente), desenham as questões
crescido a produção de informações, da juventude que devem ser enfrentadas
pesquisas e reflexões sobre a juventu- pela sociedade, gerando respostas de
de brasileira, embora muito ainda tenha políticas públicas principalmente, pela
que ser feito. É preciso superar a natu- segunda senda acima enumerada.
reza episódica dos estudos realizados e Um rápido exame de parte desses
criar espaços mais permanentes de re- documentos nos revela as questões dese-
flexão que permitam gerar acúmulo de nhadas no debate atual sobre a juventu-
conhecimento, assim como afinamento de brasileira.
das informações sobre as múltiplas e di- A primeira questão ressaltada é o
ferentes questões que afetam os jovens. peso demográfico da população juve-
No interior do debate, diversos são nil brasileira, argumento inicial e evi-
os pontos de partida para o delineamen- dente da importância e magnitude do
to das questões da juventude. Um de- tema: segundo dados do Instituto Bra-
les é o que foca nas condições e possi- sileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
bilidades da participação dos jovens na em 2005, o país contava com cerca de
conservação ou transformação da socie- 35 milhões de pessoas entre 15 e 24
dade e seus traços dominantes, exami- anos (representando 19% da população
nando, valores, opiniões, atuação social do país); computada a faixa entre 15 e
e política para avaliar como os jovens 29 anos, os números sobem para mais
podem vir a interferir no destino do país de 50 milhões de jovens, representando
e também nas questões singulares que mais de um quarto (27%) do total dos
os afetam. Outro ponto importante é o brasileiros.3
3
Quando o debate se instituiu, em que toma a juventude como contingen- A análise demográfica ganha rele-
meado dos anos 1990, o recorte
etário adotado pela maior parte dos
te demográfico e busca verificar as ca- vância, também, por meio da referência
atores e das instituições foi o de 15 a racterísticas das situações de inclusão e ao fenômeno da “onda jovem” – alarga-
24 anos, tomando as referências das
agências da Organização das Nações exclusão dos diferentes subgrupos de jo- mento momentâneo da faixa etária ju-
Unidas. Mas quando a estrutura ins-
titucional federal é criada, em 2005, vens, e das vulnerabilidades que os afe- venil na virada do século 20 para o 21,
toma como definição a faixa mais
larga, ampliada até os 29 anos. No
tam especialmente, para concluir sobre constituindo, naquele momento, a popu-
entanto, a maior parte dos dados con- os focos prioritários para as políticas so- lação juvenil como o grupo qüinqüenal
solidados pelos institutos de pesquisa
se refere ao primeiro recorte. ciais necessárias. Há, também, aque- mais numeroso da estrutura etária bra-

14 Ibase | Pólis
sileira (cf. Madeira, 1998; Rua, 1998). reestruturação produtiva, o “desmonte
Esse fenômeno foi (e ainda é) ampla- do estado pelo neoliberalismo”, a des-
mente citado como fator constituinte da responsabilização do poder público com
emergência da juventude na agenda pú- relação à questão social são entendidos
blica, uma vez que acentua a pressão como fatores de aprofundamento da de-
que os jovens exercem sobre o mercado sigualdade e da geração de novas for-
de trabalho e os serviços oferecidos pelo mas de exclusão, num processo que
Estado (educação, saúde etc.), tal como atinge, especialmente, os jovens.
aparece no Documento-base para a I As altas taxas de desemprego e a
Conferência Nacional de Juventude: precariedade da ocupação profissional
Esse grupo etário nunca foi (e nem dos jovens apontam as dificuldades de
será, desde que se mantenham as inclusão que a juventude brasileira tem
tendências demográficas) tão nu- de enfrentar: no começo da década, em
meroso, em termos absolutos, como 2001, a taxa de desemprego aberto es-
é hoje. Essa onda jovem tem gera- tava em torno de 18% e a média brasi-
do, ao mesmo tempo, preocupação leira era de 9,4%. Naquele ano, cerca
e esperança. A preocupação é por- de 3,7 milhões de jovens estavam sem
que o Estado não se preparou para trabalho, representando 47% dos de-
receber adequadamente esse enor- sempregados do país.
me contingente de jovens. A oferta Nesse sentido, tem sido chamada a
de bens e serviços públicos é insu- atenção para a singularidade da experi-
ficiente para atender toda a deman- ência histórica dessa geração quanto às
da (Secretaria Nacional da Juventu- dificuldades de construir perspectivas de
de, 2007). vida e processar a inserção social (pro-
cessos constituintes da juventude) num
Muitos têm buscado ressaltar a pos- momento histórico que se verifica o agra-
sibilidade de ver como oportunidade esse vamento das desigualdades e da exclu-
bônus populacional, apostando no re- são, ou seja, as dificuldades relativas a
torno de contribuição que essa geração entrar numa sociedade onde cabe cada
pode dar à sociedade se receber adequa- vez menos gente. Para alguns (ver, por
do investimento para o desenvolvimento. exemplo, Abramo e Novaes) é essa expe-
Há, porém, quem questione o peso riência geracional que faz com que os jo-
do argumento, alertando para o fato vens tenham passado a ocupar “o centro
de que os jovens já tiveram maior peso das questões que comovem o país” (Ins-
na composição da população do país e tituto Cidadania, 2004).
nunca foram incorporados com facilida- Em todos os documentos e diagnós-
de ao mercado de trabalho, assim como ticos, os dados indicando as diferen-
nunca se alcançou cobertura comple- tes situações de exclusão, assim como
ta dos serviços oferecidos pelo Estado, de risco e vulnerabilidade social, são
nem mesmo dos serviços educacionais os mais acionados para compor o qua-
(Porchmann, 2004). Fundamentadas dro de questões da juventude e de ar-
num outro tipo de percepção, as neces- gumentos a respeito da urgência em de-
sidades e questões dos jovens são com- senvolver repostas que a resgate dessas
preendidas como componentes da dívi- situações. A questão da vulnerabilidade
da social histórica que o país tem com e do risco é entendida tanto pela chave
as classes desapossadas e, particular- do resultado de processos cumulativos
mente, como conseqüências do mode- de exclusão como pela de características
lo econômico adotado nas últimas déca- comportamentais associadas à idade:
das. A falta de crescimento econômico, “Exibir acentuada vulnerabilidade à for-
a crise no universo laboral gerada pela mação de hábitos e padrões de compor-

Relatório Nacional do Brasil 15


tamento de risco, bem como à morte por mentos juvenis. Embora muitos setores
causas externas e a formas diversas de permaneçam ancorados numa perspec-
morbidade – devido à maternidade pre- tiva de abordagem criminalizadora da
coce, uso de drogas, acidentes de trân- juventude (em alguns casos, num pro-
sito, violência física, AIDS” (Rua, 1998).4 cesso de radicalização, como atestam
É possível dizer que essas são as ques- os ataques ao ECA5 e as proposições
tões que polarizam o empenho de en- de redução da idade de responsabilida-
frentamento tanto por parte do governo de penal), outros buscam respostas no-
como por parte dos atores que desen- vas para o dilema de enfrentar o proble-
volvem projetos de ação social dirigidos ma sem transformá-lo na única maneira
a jovens. Uma série de indicadores tem pela qual os jovens aparecem como me-
sido construída para definir e permitir a recedores de atenção por parte da so-
focalização desses segmentos como al- ciedade e do Estado, sem transformar os
vos prioritários de ação pública. jovens pobres na versão atualizada das
A questão do envolvimento dos jo- “classes perigosas”. Afirmações são de-
vens com a violência, como autores e ví- senvolvidas para reforçar a necessária
timas, aparece como o tema mais dra- ampliação do escopo do foco da atenção
mático na composição das questões. Os do Estado e produzir uma abordagem
dados de mortalidade, tomados como fundada no cumprimento dos múltiplos
os principais indicadores desse envol- direitos, construindo pontes e conexões
vimento, iluminam o tamanho do pro- entre as políticas estruturantes e aquelas
blema e se tornam parte constitutiva do emergenciais e compensatórias, e para
argumento central a partir do qual as superar a reprodução da abordagem di-
ações dirigidas aos jovens podem ga- cotômica estabelecida no país a respeito
nhar legitimidade como alvo a ser atingi- da juventude.
do. A preocupação com o tema cresce, No entanto, essa é, ainda, uma das
é onipresente, e sua magnitude torna- polêmicas mais profundas na formatação
se eloqüente. Em 2002, a Unesco pu- do entendimento sobre a necessidade
blicou documento apontando que a taxa de políticas para jovens. Boa parte do es-
de homicídios entre a população juvenil forço atual de construção dos novos pro-
era de 54,5 para cada 100.000, contra gramas e das novas políticas para jovens
21,7 para o resto da população. Os prin- acontece com base nesse paradigma.
cipais atingidos são os jovens do sexo Há, muito disseminado, entendimento de
masculino, negros e moradores de regi- que é na vulnerabilidade e exposição aos
ões com pouca infra-estrutura e presen- riscos que reside a singularidade da ju-
ça de grupos criminosos. O envolvimen- ventude e que por isso devem ser gera-
to com o crime e, principalmente, com o das políticas específicas. Isso pode ser
narcotráfico é uma das principais faces visto neste trecho de recente e importan-
do problema, seguido da suspeição e re- te documento de avaliação de um progra-
pressão por parte dos aparatos policias, ma federal dirigido aos jovens:
que constitui outra fonte de relações vio- Recentemente, no entanto, a deman-
lentas. Outro dado significativo revela da por políticas para juventude tem
que mais de 50% das pessoas com pri- um sentido mais preciso, em que o
vação de liberdade no país têm entre 20 ‘problema da juventude’ se articula
4
Ver, também, documentos mais e 29 anos. em torno de segmentações socioeco-
recentes, como o capítulo V do livro Há, contudo, crescentemente, pre- nômicas, raciais e de classe, das mu-
Brasil: o estado de uma nação,
publicado pelo Ipea, em 2005, e ocupação em não construir uma abor- danças recentes no mercado de tra-
organizado por Fernando Rezende e
Paulo Tafner. dagem da juventude como problema e, balho e da associação entre violência
5
Estatuto da Criança e do Adoles- principalmente, não reforçar a estigma- e falta de oportunidades de educa-
cente, marco legal de referência aos
direitos da infância e adolescência. tização que se abate sobre certos seg- ção e trabalho. Neste sentido, trata-

16 Ibase | Pólis
se agora de uma demanda por ações Para a composição do quadro de ne-
focalizadas, uma vez que o público- cessidades e questões da juventude são
alvo das mesmas tende a ser definido tomados, com larga margem de impor-
em termos de ‘necessidade, pobreza tância, os dados sobre a situação educa-
ou risco’ (Cardoso et al, 2006). cional, principalmente os que permitem
indicar os avanços e as entraves na eleva-
É importante ressaltar que, como ção da escolaridade da juventude brasilei-
já anunciamos acima, começam a ga- ra, que apresenta índices bem abaixo dos
nhar atenção as informações que permi- de outros países do continente: na média,
tem mapear as diferenças e desigualda- menos de oito anos de estudo.
des entre os jovens. Os atores juvenis do Nesse tema, é coincidente a consta-
campo têm insistido para que a juventu- tação do avanço na cobertura educacio-
de rural não fique apartada do debate so- nal e nos anos de escolaridade com re-
bre os diagnósticos e as proposições po- lação às gerações passadas (o número
líticas. Embora representem apenas 19% de estudantes passa de 11,7 milhões em
da população juvenil brasileira, persisten- 1995 para 16,2 milhões em 2001). En-
te presença de atores significativamen- tre 1995 e 2001, o número de pessoas
te consolidados têm logrado superar essa de 15 a 24 anos que freqüentavam a es-
invisibilidade e pontuar suas questões, cola cresceu 38,5%, o que corresponde
que abrangem, simultaneamente, dife- ao acréscimo de 4,5 milhões de jovens à
renças internas (por exemplo, as existen- condição de estudantes.
tes entre jovens de famílias de pequenos Mas, mesmo assim, o país ainda não
proprietários rurais e os trabalhadores as- oferece aos jovens oportunidades ade-
salariados) e semelhanças com questões quadas para a educação. Há problemas
vividas pelos jovens do meio urbano. de oferta de educação pública nos graus
Outras singularidades também ocu- médio e superior, persistindo dificuldades
pam espaço: as diferenças raciais, so- para que amplas parcelas de jovens per-
bre as quais o debate começa a se am- severem na trajetória escolar, assim como
pliar da denúncia das desigualdades para graves problemas de qualidade do ensino.
a formulação de ações afirmativas que Apesar do crescimento de freqüên-
permitam resgatar a dívida histórica, e as cia, mais da metade dos jovens (em tor-
questões de gênero, que ganham amplia- no de 60%) já não está na escola. No ano
ção de enfoques a partir da militância de de 2005, 18,4 milhões de jovens entre 15
grupos de jovens mulheres que propõem e 29 anos não haviam concluído o ensino
inflexões novas em temas como os dos básico e não estavam freqüentando ne-
direitos sexuais e reprodutivos. Além des- nhuma escola. Desses, 12,5 milhões não
ses, há os temas emergentes ainda inci- tinham sequer concluído o ensino funda-
pientes, mas que têm logrado conquistar mental. Apenas a metade, aproximada-
atenção significativa a partir de uma for- mente, chega ao ensino médio. Além dis-
te militância de pequenos grupos, como so, a defasagem idade/série permanece
os relativos à liberdade de orientação se- como grave problema, atingindo cerca de
xual e aos grupos com deficiência. Outra 60% dos jovens estudantes.
dimensão que envolve um esforço de ex- Na maior parte dos documentos, tra-
plicitação quando se trata de pensar os ta-se de verificar em que medida o direi-
parâmetros para a elaboração de políti- to fundamental à educação está sendo
cas é a da consideração das diferenças atendido, além de examinar de que modo
nas faixas etárias internas à categoria ju- as diferenças de acesso à educação são
ventude, principalmente no que diz res- condicionadas pelas desigualdades (e as
peito à diferença entre adolescentes e jo- reforçam) existentes entre os diferentes
vens adultos. segmentos juvenis.

Relatório Nacional do Brasil 17


A relação com a escola varia com a A maior parte do debate a respeito
situação de classe, sexo, raça/etnia, local do trabalho dos jovens está voltada para
de moradia e momento do ciclo de vida: a discussão sobre as razões do desem-
a renda familiar tem relação muito direta prego e seus efeitos na vida dos jovens,
com as possibilidades de continuidade de tais como as decorrências relacionadas
estudo; os jovens negros têm menor es- ao envolvimento com as situações de ris-
colaridade que os brancos (uma diferen- co, especialmente as atividades ilícitas e
ça de cerca de 1,7 anos); a freqüência a criminalidade. A compreensão genera-
à escola diminui da infância e primeira lizada da questão baseia-se na associa-
adolescência para a juventude (enquanto ção entre pobreza da família e a neces-
94,7% das crianças freqüentam alguma sidade dos jovens buscarem trabalho,
instituição de ensino, o percentual dos tomando tais dados como indicadores da
jovens ente 15 e 17 anos que freqüen- desigualdade social.
ta a escola é inferior a 50% na maior par- Embora haja fartura de dados a esse
te das unidades da Federação). Mas são respeito, ainda há questões pouco visí-
os rapazes que parecem encontrar maio- veis e debatidas nesse tópico. Em pri-
res dificuldades no percurso escolar: não meiro lugar, a constatação da impor-
só são a maioria dos jovens analfabetos, tância que o tema do trabalho assume
como apresentam escolaridade menor para a juventude brasileira, majoritaria-
que a das moças. E são os jovens que vi- mente vinculada ao mundo do trabalho
vem no campo os que menos estudam. (Guimarães, 2005). Essa é uma das di-
Parte da crítica identifica que o mo- mensões a partir da qual as diferenças
vimento de reordenação do sistema entre adolescentes e jovens se eviden-
educativo, que trouxe alterações cur- ciam: conforme avança a idade, dimi-
riculares e correção de fluxo, produ- nui o número de estudantes e aumenta
ziu um aumento da oferta desprovido o de jovens envolvidos com o mundo do
de qualidade e de condições de fun- trabalho. Segundo os dados da Pesqui-
cionamento da escola pública (Sposito, sa Nacional por Amostras de Domicílios
2003). Desse modo, não apenas o au- (PNAD) de 2005, a condição de estu-
mento da escolaridade, mas também a dante mostrou-se válida para 81,7% dos
reversão da qualidade do ensino apare- adolescentes de 15 a 17 anos e para
cem como metas amplamente consen- 31,6% do grupo dos jovens entre 21 e
suais a serem atingidas para o cumpri- 24 anos. Contrariamente, a taxa de jo-
mento do direito dos jovens. vens economicamente ativos (trabalhan-
Há polêmicas, porém, no entendi- do ou procurando emprego) aumenta de
mento do peso que a escolaridade tem 52% entre os adolescentes para 81%
no processamento da inclusão social dos na faixa dos 18 aos 21 anos e para 92%
jovens desta geração. Se é a educação entre os de 21 a 24 anos.
universalmente entendida como dimen- São muito comuns as percepções de
são fundamental e prioritária para a vida que os jovens trabalham por necessidade
dos jovens, há posições lembrando que de garantir a sobrevivência, que a condi-
ela tem perdido sua força como garan- ção de trabalhador atinge mais fortemen-
tia de inclusão e vetor de mobilidade so- te os mais pobres e menos escolarizados
cial, assim como muitos atores chamam e que, quando podem, os jovens retar-
a atenção para o fato de que não satis- dam a entrada no mundo do trabalho. No
faz a todas as necessidades e demandas entanto, há dados que levantam outras
da vida dos jovens. Continua sendo, sem questões. A porcentagem de jovens que
a menor sombra de dúvida, o campo de são economicamente ativos gira em tor-
maior investimento público no que se re- no de 80% em quase todas as faixas de
fere aos jovens. renda. As exceções ficam com os extre-

18 Ibase | Pólis
mos: 73% entre os jovens de mais baixa po de jovens, sendo que 7% deles parti-
renda e 72% entre os de renda mais alta. cipavam de grupos de música, dança e
Já quando se considera o nível de esco- teatro. Em 2003, um mapeamento rea-
laridade, as mais altas taxas de jovens na lizado pela Prefeitura Municipal de São
população economicamente ativa (PEA) Paulo identificou que dos 1.609 grupos
estão entre os de mais baixa escolarida- com participação de jovens, 35,8% dedi-
de (84% entre os jovens com até a quar- cavam-se a formas diversas de manifes-
ta série do ensino fundamental) e os de tações artísticas.
escolaridade mais alta (82% entre aque- As interpretações que ganham peso no
les que têm o ensino superior). As maio- país entendem que o lazer apresenta-se:
res desigualdades aparecem com rela- Como tempo sociológico no qual a li-
ção à possibilidade de encontrar trabalho berdade de escolha é preponderante
e à qualidade do trabalho encontrada: e que se constitui, na fase da juven-
nessa faixa etária, o índice de desempre- tude, como campo potencial de cons-
go aumenta na proporção inversa à ren- trução de identidades, descoberta de
da (cai de 47% nas duas primeiras faixas potencialidades humanas e exercí-
de renda para 27% na última). O mesmo cio de inserção efetiva nas relações
com relação à escolaridade: somente en- sociais. [...] No espaço-tempo do la-
tre os jovens com ensino superior é que zer, os jovens consolidam relaciona-
a proporção de jovens trabalhando supe- mentos, consomem e re-significam
ra (quase dobra) a de desempregados ou produtos culturais, geram fruição,
procurando emprego: 54% trabalhando, sentidos estéticos e processos de
22% já desempregados e mais 6% pro- identificação cultural. [...] Nos espa-
curando o primeiro emprego. ços de lazer, os jovens podem encon-
No entanto, ainda é tímida a preocu- trar as possibilidades de experimen-
pação com a qualidade do trabalho dos tação de sua individualidade e das
jovens, uma vez que o debate fica pola- múltiplas identidades necessárias ao
rizado entre posições que defendem o convívio cidadão nas suas várias es-
retardamento da entrada dos jovens no feras de inserção social. As diferentes
mundo do trabalho – enquanto se com- práticas de experiência coletiva em
pleta sua escolarização – e os que bus- espaços sociais públicos de cultura e
cam afirmar a perspectiva de garantir o lazer podem ser consideradas como
direito ao trabalho. verdadeiros laboratórios onde se pro-
Nos últimos anos, o que emerge cessam experiências e se produzem
como maior preocupação é o segmen- subjetividades (Dayrell; Brenner; Car-
to dos que não estudam nem trabalham, rano, 2005).
– definido como a população em situa-
ção de maior exclusão e vulnerabilidade Porém, ainda é pouco incorporada
–, que se transformaram no público-alvo a idéia de que a dimensão cultural deve
prioritário para as ações emergenciais e ser tomada como direito a ser garantido.
as políticas sociais. Geralmente, é vista como meio de apro-
Há, revelada por estudos qualitati- ximação do público juvenil por meio do
vos e pelas demandas de grupos juvenis uso de linguagens desenvolvidas no in-
de conformação cultural, uma crescente terior das culturas juvenis ou como ele-
percepção da importância das dimensões mento de desenvolvimento de recursos
da cultura e sociabilidade na vida dos jo- pedagógicos no interior de programas de
vens que devem ser consideradas para formação para os jovens. Assim, ativida-
a formulação das políticas. Na pesquisa des culturais para jovens têm sido valori-
Perfil da Juventude Brasileira, 15% dos zadas como bons instrumento para ele-
entrevistados participavam de algum gru- vação da auto-estima, para afirmação do

Relatório Nacional do Brasil 19


protagonismo juvenil e, em grande medi- com participação juvenil, revelou que
da, como recurso de anteparo ao envol- mais da metade deles (52,1%) é forma-
vimento dos jovens com a violência. da exclusivamente por jovens e que em
Com relação ao tema da participação, 46,4%, embora também haja adultos,
há, ainda, uma visão cindida – ou pelo eles formam a maioria. Além do grande
menos dúbia – na sociedade brasileira. número de grupos, chama a atenção a
Por um lado, se manifesta a preocupação diversidade de motivações que levam à
com a baixa participação dos jovens, as- organização desses grupos. A maior par-
sentada numa percepção ainda muito di- te (35,8%) se reúne em torno de dife-
fundida sobre uma apatia e um desinte- rentes manifestações artísticas, mas par-
resse político existente nesta geração. Por celas significativas se reúnem em torno
outro lado, e esta é a principal percep- da religião (14,4%), do lazer (13,7%),
ção entre os atores que compõem o cam- da ação social (12,6%), dos esportes
po do debate a respeito das políticas de (7,3%), da política partidária (6,9%), da
juventude, há a constatação da existên- educação (3,1%), da etnia (2,1%), da
cia de uma grande vontade de participar, sexualidade (1,3%) e de pessoas com
da diversidade de formas que a participa- deficiência (0,7%).
ção pode ter e do papel protagônico que
os jovens têm assumido e podem assu-
mir na definição das repostas que o país 1.3 AS DEMANDAS DOS JOVENS
deve formular. Nesse sentido, tem cres-
cido muito a predisposição para acolher Além das identificações das questões e
a participação dos jovens, embora com necessidades dos jovens apontadas pe-
muitas limitações. los dados estatísticos constantes nos
Algumas informações permitem ver diagnósticos, é possível produzir, tam-
que um número significativo de jovens bém, um levantamento sobre as deman-
tem participado de espaços de mobiliza- das e os desejos expressos pelos jovens
ção e debate: em 2003, o 48º Congresso brasileiros. Podemos contar com duas
da União Nacional dos Estudantes (UNE) vertentes de informação: por um lado,
reuniu 15 mil estudantes, sendo que 10 demandas identificadas em situação de
mil eram delegados que representavam pesquisa (o que poderia ser interpreta-
alunos de todo o país. A Conferência Na- do como desejos dos jovens), captadas
cional de Juventude, convocada pela Câ- em processos de consultas, pesquisas
mara Federal e realizada em Brasília, em quantitativas e qualitativas. Por outro, as
2004, reuniu 2 mil jovens, de várias par- demandas expressas por diferentes ti-
tes do país. O Festival Nacional da Ju- pos de atores juvenis, as expressões pú-
ventude Rural, organizado pela Confe- blicas de atores coletivos em espaços
deração Nacional dos Trabalhadores da sociais e políticos, tanto aquelas publi-
Agricultura (Contag), em 2007, reuniu cizadas em cartas, documentos, mobi-
5 mil jovens. Os acampamentos dos fó- lizações e ações de pressão pública por
runs sociais locais e mundial têm reunido entidades, organizações e movimentos
milhares de jovens no Brasil, chegando, juvenis, como as listas de reivindicações
na última versão do Acampamento Inter- resultantes de processos de consulta/
continental de Juventude (AIJ), em Porto construção de pautas coletivas por inte-
Alegre, a 35 mil jovens. grantes de grupos, entidades e associa-
Várias pesquisas recentes têm a am- ções juvenis, tais como nos seminários
plitude da diversidade dos motes de par- e oficinas do Projeto Juventude, do Vo-
ticipação dos jovens. O mapeamento re- zes Jovens, de fóruns municipais e ou-
alizado pela Prefeitura de São Paulo, que tros tipos de fóruns e redes, seminário
identificou a existência de 1.609 grupos nacional etc.

20 Ibase | Pólis
As questões que podem ser desen- levantamentos; a continuidade dos estu-
volvidas aqui, principalmente para inves- dos e a qualidade da educação, drogas,
tigar até que ponto as demandas dos jo- miséria e saúde são outros problemas re-
vens têm orientado a construção das feridos, mas têm ordens diferentes de
pautas públicas, são: até que ponto esses citação em cada uma delas. Por outro
níveis coincidem e quais as diferenças lado, educação, trabalho e cultura e lazer
entre os diversos planos de formulação? aparecem como temas que interessam e
Quais ganham legitimidade e força social? mobilizam os jovens.
A quais o Estado busca responder? Quais Também é coincidente a análise de
são as assumidas e incorporadas por ou- que as demandas se configuram mais no
tros atores? Quais são as polêmicas exis- campo das questões sociais que na di-
tentes em torno delas? mensão relativa às liberdades políticas,
Para levantar o que aparece como indicando que a experiência histórica da
preocupação, interesse ou desejo (que po- geração que vive a juventude na passa-
deriam ser considerados como informa- gem do milênio inclui, no seu âmago, as
ções para perceber as demandas latentes) dificuldades relacionadas à inserção so-
dos jovens brasileiros, podemos lançar cial. Como foi observado no relatório final
mão dos resultados de duas pesquisas da pesquisa Ibase/Pólis:
feitas recentemente: Perfil da Juventude A pouca enunciação espontânea a
Brasileira, realizada, em 2003, pelo Insti- demandas por garantia de direitos ci-
tuto Cidadania no bojo do Projeto Juventu- vis, tais como aquelas que se rela-
de, e Juventude Brasileira e Democracia: cionam com o direito à participação
participação, esferas e políticas públicas, na vida pública, e a forte referência a
realizada, em 2005, pelo Instituo Brasilei- demandas sociais insatisfeitas ates-
ro de Análises Sociais e Econômicas (Iba- tam o estágio de espoliação urba-
se) e pelo Instituto Pólis. Embora tenham na ao qual a maioria dos jovens está
usado metodologias e universos diferentes submetida. Nesse contexto, o que se
(a primeira realizou pesquisa quantitativa evidencia é que a consciência de di-
com 3.500 jovens de meio rural e urbano, reitos para esses jovens é mais ime-
em pequenas, médias e grandes cidades; diatamente percebida no plano da
a segunda realizou pesquisa quantitativa ‘questão social’ do que na esfera dos
com 8 mil jovens e pesquisa qualitativa, direitos relacionados com a vida cívi-
com rodas de diálogos, envolvendo 913 jo- ca e as liberdades fundamentais (Ri-
vens de sete regiões metropolitanas), as beiro; Lânes; Carrano, 2005).
duas nos dão informações sobre os jovens
em geral, que podem ser confrontadas A interpretação dos dados da pesqui-
com aquelas advindas dos processos que sa Perfil da Juventude Brasileira também
envolveram os jovens organizados ou dis- caminha nesse sentido:
postos a participar dos processos de deba- Pode-se dizer que os jovens estão an-
te e consulta. tenados com seu tempo histórico, em
A primeira observação feita a par- que muito do debate político e das
tir da leitura cotejada dos resultados das mobilizações sociais e disputas se pro-
duas pesquisas é que há conclusões duzem em torno dos direitos sociais,
muito semelhantes. São coincidentes os ameaçados de diferentes modos pelas
resultados sobre o que mais preocupa os transformações desencadeadas na es-
jovens: violência (e outras questões rela- fera da economia e da política nos últi-
tivas à segurança) e desemprego (e ou- mos anos (Abramo, 2005a).
tras questões relativas às dificuldades Com relação às demandas apresenta-
enfrentadas no mundo do trabalho) ocu- das por organizações, movimentos juvenis
pam primeiro e segundo lugar nos dois em processos de discussão, fóruns etc., é

Relatório Nacional do Brasil 21


preciso dizer que, a partir dos anos 1990, Kellogg, que resulta no Redes e Juventu-
começam a ocorrer encontros de jovens des). Ao mesmo tempo, encontros, ofici-
vinculados a certos setores para estrutu- nas e seminários promovidos por agên-
rar possíveis formas de organização e par- cias internacionais, como aquelas ligadas
ticipação no interior de organizações mais à ONU, também incluíram a participação
amplas ou para debater temas específicos, de jovens em projetos desenvolvidos por
prática já comum nos setores estudan- ONGs, principalmente nos tema de saú-
tis (que contam com uma série de redes de e sexualidade, meio ambiente, direitos
e estruturas de articulação local, regional humanos, prevenção à violência, gênero
e nacional, como congressos da UNE, da e raça. Tomadas como referências de de-
União Brasileira dos Estudantes Secunda- mandas para políticas públicas e ações da
ristas – Ubes – e das correspondentes en- sociedade civil (embora, nesse caso, en-
tidades estaduais; Conselhos Nacionais de volvendo mais adolescentes que jovens
Entidades de Base – Coneb; encontros de propriamente), as pautas dos encontros
estudantes universitários por áreas etc.). são, fundamentalmente, os projetos envol-
Entre as organizações religiosas, essa vendo o protagonismo de jovens.
prática também é mais consolidada. Des- Esses processos, de linhas paralelas,
de 1995, a Pastoral da Juventude, por produziram listas de demandas e propos-
exemplo, discute políticas públicas para a tas ainda pouco desenvolvidas e explici-
juventude. No campo sindical, o processo tadas e muito timidamente publicizadas.
se inicia em meado da década de 1990: o Poucas geraram processos significativos
primeiro encontro nacional da juventude de mobilização ou reivindicação pública.
da Central Única dos Trabalhadores (CUT) Foi a partir do ano 2000 que ocor-
ocorre em 1996, apesar de ter se intensi- reram, mais intensamente, certas expe-
ficado mais recentemente. No meio rural, riências de encontros de grupos e orga-
o processo parece mais consolidado, com nizações juvenis, oriundos de diferentes
encontros periódicos e documentos ela- setores, em duas vertentes: em torno do
borados pela Confederação Nacional dos debate e da criação de canais para polí-
Trabalhadores na Agricultura (Contag), Fe- ticas públicas e juventude, como já assi-
deração dos Trabalhadores na Agricultura nalamos anteriormente, e em torno das
Familiar do Estado (Fetrafe) etc. lutas anticapitalistas, como os acampa-
Outros segmentos e movimentos têm mentos dos fóruns sociais – mundial, bra-
iniciado processos de encontro e debate, sileiro e do Nordeste.
como o da juventude negra, que realizou, Para termos uma rápida visão a res-
este ano, sua segunda conferência, e o peito desse conjunto de demandas, usa-
movimento hip hop, que já realizou dois mos como fonte um relatório elabora-
encontros nacionais no interior do Fórum do por um grupo de trabalho do Conjuve
Social Mundial. com base nos seguintes documentos:
Nesses encontros, além do levanta- Projeto Juventude (Instituto da Cidada-
mento de bandeiras específicas dos jo- nia, 2004); Vozes Jovens (Banco Mun-
vens, ocorrem processos de formação dial, 2004); Seminários e Audiências Pú-
política, discussão das bandeiras mais blicas do Plano Nacional da Juventude. A
gerais do setor ao qual estão vinculados e primeira observação nesse relatório é:
de temas gerais da política nacional. A demanda principal é a demanda de
Por outro lado, durante todo a última inclusão social, sendo a escola e o tra-
década, foram realizados encontros de re- balho considerados como fundamen-
des de ONGs envolvendo jovens atendi- tais para essa inclusão. Nesse sentido,
dos em seus programas e/ou pertencentes a garantia de uma educação públi-
a grupos comunitários apoiados por elas ca de qualidade para todos aparece
(por exemplo, a iniciativa da Fundação como a grande demanda prioritária.

22 Ibase | Pólis
A desigualdade no acesso à educação das decisões e do controle das políticas
é citada como fator fundamental de públicas.
manutenção de outras desigualdades. A demanda por transporte aparece
constantemente, com expressões varia-
A importância do tema educação das na cidade e no campo: ½ passe para
pode ser percebida, também, pela ordem estudantes; ½ passe para jovens; ½ pas-
e pelo volume de itens relacionados ao se para estudantes ou jovens para ati-
tema na maior parte dos documentos re- vidades além da escola; passe livre; ga-
sultantes dos processos de consulta das rantia de transporte rural para a escola;
demandas juvenis: é sempre a primei- transporte para circulação entre proprie-
ra mesa nos processos de debate, o pri- dades e municípios no meio rural, neces-
meiro item nos documentos e o que reú- sário para trabalho e sociabilidade; pas-
ne maior quantidade de reivindicações e se livre para pessoas que não conseguem
contribuições. primeiro emprego etc.
O trabalho, no entanto, tem ocupado A demanda por cultura se traduz em
lugar cada vez maior nas demandas, mas demanda por equipamentos culturais di-
de um modo diferente do ocupado pela versificados e com infra-estrutura; ma-
educação. Com menos clareza e insistên- nutenção dos equipamentos existentes;
cia na ordem das reivindicações, o de- incentivo e valorização da produção cul-
semprego aparece como um dos fatores tural dos jovens; formação e capacitação
mais importantes a denunciar a preca- na área da cultura; possibilidade de apos-
riedade em que se encontra a juventude, tar na cultura como modo de inserção
explicitada pelas altas taxas de desem- econômica; descentralização das ações e
prego entre os jovens. Desse modo, são dos equipamentos culturais (inclusão das
acionadas diversas bandeiras articula- periferias); apoio para intercâmbio cultu-
das à busca de enfrentamento do desem- ral; democratização do acesso à cultura.
prego, particularmente a necessidade No tema relacionado ao esporte e la-
de criar mecanismos para a superação zer, são citados a criação de espaços e
das discriminações sofridas pela condi- programas dirigidos aos esportes pratica-
ção juvenil, como a questão da inexperi- dos pelos jovens; a ampliação de áreas
ência que dificulta o acesso ao primeiro de lazer; programas voltados para desen-
emprego. Demandas de apoio ao empre- volvimento e não só para competição ou
endedorismo juvenil e às alternativas de especialização; espaços e programas no
economia solidária estão cada vez mais meio rural e nas periferias das cidades.
presentes nas reivindicações. Aparecem, Com relação a esse ponto, é preci-
também, demandas relacionadas à possi- so dizer que se há congruências entre as
bilidade de articulação entre escola e tra- muitas necessidades identificadas pelos
balho – muito fortemente, a de educação diagnósticos, entre as demandas laten-
profissional pública e de qualidade. tes captadas pelas pesquisas e aquelas
É importante notar que, associa- expressas publicamente pelos jovens, há
dos a essa questão, documentos dos ato- também alguns deslocamentos de peso
res juvenis têm apresentado, de forma e ângulos entre os diferentes planos. Por
destacada, a demanda por crescimento exemplo, a questão do trabalho aparece,
econômico ou por outro modelo de desen- aqui, como tema mais demandado que
volvimento, afirmando que a resolução das enfrentado por atores juvenis e gestores.
questões dos jovens só pode ser processa- Os temas relacionados à cultura e ao direi-
da se considerada nessa perspectiva. to à circulação ainda não aparecem como
Outra grande demanda diz respeito pontos tão sensíveis ou urgentes entre os
à participação dos jovens em várias di- jovens nem como temas dignos de maior
mensões, principalmente a de participar atenção por parte dos gestores.

Relatório Nacional do Brasil 23


2. SITUAÇÕES-TIPO ESTUDADAS
Para verificar, com mais cuidado, o sen- to dos manifestantes e da repercussão e
tido dessas demandas, analisaremos os amplitude alcançadas. Essa manifestação
estudos de situações-tipo nas quais elas se vincula, também, a outras semelhan-
se ancoram. No caso do Brasil, decidi- tes ocorridas em outras capitais brasilei-
mos eleger seis situações, descritas a se- ras, revelando forte disposição de mobili-
guir, com o objetivo de investigar as ques- zação dos jovens estudantes em torno da
tões aqui assinaladas. demanda do direito à circulação.
Além da reivindicação pelo congela-
mento da tarifa, outras necessidades fo-
2.1. MANIFESTAÇÕES DOS ram levantadas, como extensão da meia
ESTUDANTES SECUNDARISTAS passagem para os estudantes nos fins
CONTRA O AUMENTO DA TARIFA de semana, feriados e férias; garantia da
DO ÔNIBUS meia passagem para estudantes de cur-
sos pré-vestibulares, supletivos e pós-gra-
A Revolta do Buzu – Salvador duação (mestrado e doutorado); gratui-
– Bahia – agosto e setembro dade da primeira via do cartão de meia
de 2003 passagem (Smart Card); revitalização do
JÚLIA RIBEIRO DE OLIVEIRA E Conselho Municipal de Transporte e me-
ANA PAULA CARVALHO lhoria dos transportes.
Vários atores estiveram envolvidos,
A série de manifestações em resistência principalmente entidades estudantis de
ao aumento do valor da tarifa do trans- amplitude regional e nacional (UNE, Ubes
porte público, de agosto a setembro de e a Associação dos Estudantes da Bahia –
2003, em Salvador, conhecida como A Abes), os grêmios das escolas estaduais
Revolta do Buzu, foi protagonizada, prin- e as organizações político-partidárias,
cipalmente, pelos estudantes secundaris- como as juventudes partidárias e as orga-
tas, em sua maioria das escolas públicas nizações de inspiração anarquista. Hou-
da cidade, e incorporou estudantes de ní- ve divergência sobre a condução do movi-
vel universitário, de cursinhos preparató- mento, o que revela diferenças de postura
rios para vestibular e de ensino técnico. política e de compreensão sobre a defini-
Esse movimento surpreendeu pela ção da demanda, o caráter da representa-
massividade (reuniu cerca de 20 mil es- ção e o sentido político do acontecimento.
tudantes) e pelo vigor com que foi sus- A divergência revelou-se, fundamental-
tentado. Manteve-se por aproxima- mente, na postura em torno da negocia-
damente 20 dias, com assembléias e ção da demanda com o poder público
manifestações públicas (concentrações local: parte das lideranças (ligadas às enti-
e passeatas), paralisando vias principais dades gerais e aos partidos políticos) deci-
de circulação, causando alto impacto na diu aceitar a proposição do poder público,
vida da cidade e nas suas relações políti- posição não aceita por muitas lideranças
cas. É considerado um marco na história locais e pela massa dos estudantes que
local das organizações, dos grupos estu- continuaram a mobilização, que se esva-
dantis e dos jovens que dela fizeram par- ziou, depois de muitos dias, sem lograr o
te, sobretudo pelo grau de envolvimen- atendimento da reivindicação.

24 Ibase | Pólis
A identificação da questão do trans- põe a cada trabalhador o corte de 10 to-
porte como política que abrange toda neladas de cana por dia. Para cumprir a
a família – e a sociedade de modo ge- meta, o corpo precisa de resistência físi-
ral – foi um dos principais argumen- ca, daí a necessidade de trabalhadores
tos utilizados e o que fez os estudan- jovens nos canaviais. O ritmo de trabalho
tes sustentarem as manifestações por é alucinante: os trabalhadores ficam no
tanto tempo e receberem grande apoio limite da capacidade física, os proble-
da população. Os trabalhadores, de mas de saúde pelo excesso de trabalho
maneira geral, professores e até mes- se agravam e não são raras as ocorrên-
mo alguns policiais e motoristas de ôni- cias de acidentes fatais. As demandas,
bus reconheciam a importância do ato, nesse sentido, dizem respeito às condi-
mesmo diante do imenso transtorno ções de trabalho e se configuram, tam-
causado na cidade. bém, no desejo de um trabalho melhor.
Não há, aqui, identidade ou organização
ancorada na categoria juventude, a não
2.2 OS TRABALHADORES ser em situações e dimensões circuns-
JOVENS DO CORTE MANUAL DA critas (sociabilidade nas regiões de ori-
CANA-DE-AÇÚCAR gem, marcas corporais, desejos de con-
sumo e expectativas de mudança de
Jovens migrantes canavieiros: vida que carregam consigo). Os atores
entre a enxada e o facão com que se relacionam são os Sindica-
JOSÉ ROBERTO PEREIRA NOVAES tos de Empregados Rurais e a Pastoral
dos Migrantes.
A expansão recente da agroindústria ca- É importante salientar que os jovens
navieira – ao combinar mecanização e migrantes canavieiros – com ou sem par-
trabalho manual – ampliou a deman- ticipação sindical ou em movimentos so-
da de trabalho temporário, procurando ciais – se relacionam com dois conjuntos
para o corte manual da cana,o trabalha- de demandas: o trabalho na agricultura
dor migrante sazonal, principalmente os familiar e o trabalho assalariado.
jovens rapazes, que são potencialmente Mesmo sem a existência de um ator
mais produtivos. O foco do estudo des- juvenil envolvido nesta situação-tipo, a
ta situação tipo são esses jovens, perten- escolha se justifica pela atualidade do de-
centes a famílias de agricultores pobres bate público que tem colocado em pau-
do Nordeste, onde as oportunidades de ta a produção do etanol e seus benefícios
trabalho são escassas. Por isso, migram como fonte energética e que, via de re-
e buscam na safra da cana uma oportu- gra, não se detém na questão do trabalho
nidade concreta de obter renda para si e (do fator humano) nas plantações cana-
assegurar a sobrevivência da sua família vieiras. Por outro lado, jovens trabalhado-
na agricultura. Sua demanda é, central- res assalariados da cana são quase invisí-
mente, a de trabalho. veis no debate sobre políticas públicas de
O corte manual da cana é um traba- juventude. Se os jovens rurais já se res-
lho duro e extremamente desgastante. O sentem do lugar que seus problemas es-
padrão de produtividade das usinas im- pecíficos ocupam na hierarquia das

Relatório Nacional do Brasil 25


demandas juvenis, podemos dizer que a ção de equipamentos para o atendimen-
juventude dos trabalhadores assalariados to de suas necessidades (escola, centro
da cana é recorrentemente ignorada. cultural, cursos profissionalizantes) e de
outros jovens da comunidade. Seus inter-
locutores são, nesse sentido, autoridades
2.3 GRUPO DE HIP HOP e representantes do poder público local.
Há, também, uma forte relação de con-
A Família do Morro do Bom Jesus flito com as forças policiais, e o tema da
(FMBJ) – Caruaru – Pernambuco violência sofrida é constante.
ROSILENE ALVIM E ADJAIR ALVES

O hip hop tem se desenvolvido como 2.4 TRABALHADORES DO


uma das mais expressivas e vigorosas TELEMARKETING E A DEMANDA
culturas no interior da qual se organizam POR TRABALHO
os jovens vivendo em situação de exclu-
são e discriminação na sociedade brasi- Demandas de jovens no mun-
leira. Apesar de ter aparecido (e ainda ser do do trabalho urbano: jovens,
majoritariamente) como um fenômeno li- sindicato e trabalho no setor de
gado aos jovens negros das periferias das telemarketing
grandes metrópoles do Sudeste do país, CARLA CORROCHANO E ÉRICA NASCIMENTO
extrapola, hoje, esses contornos e se tor-
na referência e canal de expressão tam- O setor de telemarketing é um dos que
bém para jovens de outras regiões e con- mais têm crescido, nos últimos anos, no
figurações urbanas. A Família MBJ surgiu bojo das mudanças provocadas pelo avan-
no início dos anos 2000, em um bairro ço das tecnologias da informação, pela
pobre da cidade de Caruaru, no interior privatização dos setores de telecomuni-
de Pernambuco, estado do Nordeste do cação e adoção da terceirização. Repre-
Brasil, como uma espécie de comissão senta um nicho de mercado de trabalho
coordenadora de uma dúzia de grupos para os jovens, principalmente para aque-
de hip hop do bairro. les oriundos de famílias de baixa renda
Sua demanda principal é a inclusão e que lograram alcançar uma escolariza-
e o reconhecimento social, buscando, ção maior que a de seus pais, concluindo
fundamentalmente, a superação da dis- o ensino médio. O trabalho como operador
criminação e da exclusão por serem po- de telemarketing representa, muitas vezes,
bres, negros e moradores de regiões so- o primeiro emprego formal e se configu-
cialmente desprestigiadas. Porém, essa ra como uma saída para a forte demanda
demanda congrega várias outras, como por um trabalho que permita a concilia-
educação mais inclusiva e de qualida- ção com a continuidade dos estudos (em
de, acesso a um trabalho digno, condi- função da jornada ser de 6 horas). As du-
ções para a produção e expressão cultu- ras condições e a desvalorização do tra-
ral, possibilidade de construção de uma balho (ritmo intensivo, alto nível de estres-
perspectiva de vida que não seja minada se, assédio moral, baixos salários), porém,
pela violência (criminal e policial). engendram lutas sindicais específicas e
As formas de atuação estão funda- abrem a discussão sobre a qualidade do
das, principalmente, na expressão artísti- trabalho e a demanda por um trabalho de-
ca (o rap, os grafites, o break), por meio cente, ainda pouco desenvolvida no cam-
da qual expressam demandas, denúncias po de debate sobre a juventude.
e visão de mundo, visando construir al- Os atores presentes são os sindica-
ternativas centradas, principalmente, na tos da categoria (existem dois em São
busca por conquista/melhoria/transforma- Paulo. O escolhido para a pesquisa foi

26 Ibase | Pólis
o Sindicato dos Trabalhadores em Tele- projetos, participar dos debates e incidir
marketing – Sintratel –, que se apresen- na formulação de políticas. Na formação
ta como um “sindicato tão jovem quanto atual, congrega dez entidades com pre-
sua categoria”) e os coletivos juvenis das sença mais permanente, além de um nú-
centrais sindicais, principalmente a CUT, mero não preciso de colaboração even-
à qual o Sintratel é filiado. Foram anali- tual. Tem como principais bandeiras a
sados, neste estudo, tanto a expressão discussão sobre as políticas públicas de
das desmandas dos jovens trabalhadores juventude e a participação dos jovens em
como a dos sindicalizados e suas lideran- espaços de definição e elaboração des-
ças jovens e adultas. O resultado permi- sas políticas. Além de participar de certos
te constatar as mesmas polêmicas e os âmbitos onde tal debate se desenvolve,
mesmos debates que marcam o cenário realiza, periódica e itinerantemente, “En-
nacional a respeito do tema do trabalho contros de Galeras”, com o objetivo de
para os jovens, revelando, principalmen- desenvolver a discussão dos temas e das
te, que a configuração das demandas e demandas com os jovens em locais próxi-
do entendimento do trabalho como um mos aos bairros onde eles moram.
direito dos jovens está, ainda, em pro- As demandas dos jovens que par-
cesso de disputa e formatação. ticipam de projetos, a forma como elas
têm sido consideradas no debate públi-
co e de que modo a constituição de um
2.5 FÓRUM DE JUVENTUDES DO ator como FJRJ tem possibilitado que os
RIO DE JANEIRO – FJRJ jovens se configurem como sujeitos de
participação política na definição das po-
ANA KARINA BRENNER líticas a eles dirigidas são questões de-
senvolvidas nesse estudo.
Desde meado dos anos 1980, vem se
compondo um campo de ações de or-
ganizações da sociedade civil (principal- 2.6 O ACAMPAMENTO
mente ONGs, mas também entidades INTERCONTINENTAL DA JUVENTUDE
ligadas a movimentos sociais e entida- (AIJ) DO FÓRUM SOCIAL MUNDIAL
des empresariais) voltado para crianças (FSM): EXPERIÊNCIA DE UMA NOVA
e adolescentes em situações variadas de GERAÇÃO POLÍTICA
desvantagem social (principalmente, os
moradores de favelas e bairros das peri- NILTON BUENO FISCHER, ANA MARIA DOS
ferias urbanas), que desenvolve “projetos SANTOS CORRÊA E MÁRCIO AMARAL
sociais” de diferentes escopos, mas cen-
trados na perspectiva de um “resgate das O Acampamento Intercontinental da Ju-
situações de vulnerabilidade e risco” e no ventude foi um espaço organizado por jo-
oferecimento de alternativas de inclusão vens durante a realização das edições
e desenvolvimento de vínculos de cida- do Fórum Social Mundial em Porto Ale-
dania. Nos últimos anos, aumentou o nú- gre. Foi, em primeira instância, propos-
mero de projetos desse tipo voltado para to como um modo de garantir e ampliar a
jovens e cresceu o envolvimento desses participação dos jovens nesse importan-
atores no campo do debate a respeito te acontecimento dos movimentos empe-
das políticas de juventude. nhados na afirmação da possibilidade da
O Fórum de Juventudes do Rio de transformação do mundo. Porém, carac-
Janeiro (FJRJ) se estruturou, no início terizou-se, na sua realização e posterior
dos anos 2000, com a perspectiva de proposição, como um território juvenil de
congregar militantes e jovens atendidos práticas e experiências dos mais diversos
pelas entidades responsáveis por esses grupos e movimentos juvenis em torno de

Relatório Nacional do Brasil 27


diferentes demandas na direção de “um pectiva e do roteiro de investigação co-
outro mundo possível”. Surpreendeu pela muns, cada uma das situações foi pesqui-
capacidade de convocação (reuniu 2 mil sada de um modo singular, em função da
jovens na primeira edição, em 2001, e peculiaridade do caso e dos recursos dis-
35 mil na quinta edição, em 2005) e pelo poníveis. Alguns obstáculos e, principal-
vigor utópico, ensejando o desenvolvi- mente, a limitação de tempo impuseram a
mento de uma série de proposições ex- necessidade de realizar recortes e rearran-
perimentadas na prática, tais como a de- jos no planejamento original. Em alguns
mocracia direta, a economia solidária e a casos, entrevistas desmarcadas em cima
auto-gestão. da hora não puderam ser, de novo, pro-
Reuniu diversos movimentos e gru- gramadas. Algumas contaram com maior
pos juvenis: partidos e movimentos as- possibilidade de pesquisa documental, se-
sociados a um posicionamento político gundo a existência de fontes mais ou me-
de esquerda, MST, entidades de repre- nos disponíveis. Outras tiveram que fazer
sentações estudantis e sindicais, pas- uma reconstituição histórica, por se tratar
torais da juventude, jovens de militân- de fato ocorrido há alguns anos, ou con-
cias e organizações autônomas ligadas taram com material de outras relações de
a temáticas sociais e culturais específi- investigação, devido à relação do pesqui-
cas (movimento hip hop, punks etc.), jo- sador com o objeto ser de longa data.
vens de movimentos antiglobalização e Em alguns casos, a disputa pelas ver-
anticapitalistas, diversos grupos de ins- sões e interpretações do fato investigado
piração anarquista etc. O acampamen- exigiu cuidados redobrados e ocupou boa
to favoreceu a convergência desses dife- parte do esforço interpretativo. Também
rentes grupos, mantendo sua identidade é importante dizer que cada equipe de
e seu posicionamento, sem criar uma investigação apresentou um tipo de pro-
síntese única, mas uma leitura diversifi- blematização, que tentaremos apresen-
cada, fortalecida por meio de práticas so- tar no decorrer deste relatório. As cita-
ciais alternativas ao capitalismo que fo- ções a esses estudos aparecerão com as
ram amplamente discutidas e postas em referências do autor e do ano indicados
voga, caracterizando um espaço de con- na bibliografia. Para mais detalhamentos,
gruência de intencionalidades e, ao mes- podem ser consultados os relatórios dos
mo tempo, de diálogo de diversidades. respectivos estudos.
O ator estudado nessa pesquisa foi O esforço de investigação e análise
o Comitê Organizador do Acampamen- apresentados neste relatório, com base
to (COA), formado por jovens de diferen- nos estudos das situações acima des-
tes comissões de organização do acampa- critas, estão voltados para compreen-
mento e cerca de uma dezena de jovens der as demandas dos jovens e as carac-
do estado do Rio Grande do Sul, respon- terísticas dos atores que as sustentam:
sáveis pela organização de todas as edi- como se expressam tais demandas e
ções nacionais, assim como pela sistema- que mobilizações engendram; que ato-
tização da experiência. Eles acabaram por res as sustentam, que tipo de organiza-
constituir um grupo com demanda e pro- ção e com que identidade as sustentam;
posição política próprias, o que deu forma- como são ou não absorvidas pela socie-
tação à experiência dos acampamentos. dade, que apoios e oposições desenca-
O presente relatório foi elaborado com deiam, como são ou não respondidas
base nas informações e reflexões elabora- pelas políticas públicas dirigidas aos jo-
das nesses seis relatórios de situações-tipo vens (PPJUV); quais os temas recorren-
desenvolvidas no Brasil. Cada uma delas tes, as diretrizes divergentes, em que
foi desenvolvida por uma equipe diferente, redes se constituem, que relações de
em uma cidade diferente. Apesar da pers- apoio e oposição encontram.

28 Ibase | Pólis
Outros pontos importantes de inves-
tigação e reflexão estão relacionados às
seguintes indagações: de que modo es-
ses atores e suas demandas ostentam
uma identidade ou acento juvenil e qual
é o peso e sentido desse conteúdo. No
exame dessas questões, tentaremos,
também, localizar as invisibilidades e
interdições existentes, as polêmicas de
interpretação e de proposição de res-
postas, tanto em termos das políticas
como das possibilidades de organiza-
ção e mobilização.

Relatório Nacional do Brasil 29


3. ANÁLISE CONSOLIDADA DAS SITUAÇÕES-TIPO
3.1 CONSTITUIÇÃO E outro lado, é possível verificar que, funda-
IDENTIDADE JUVENIL mentalmente, trata-se de jovens dos “se-
Uma das primeiras questões que se im- tores populares”, com exceção dos que
puseram, no exame das situações-tipo, a acorrem ao Acampamento Intercontinen-
partir da proposição da pesquisa, estava tal da Juventude e se dedicam à sua or-
relacionada à identidade juvenil dos ato- ganização, onde parece predominar os jo-
res em foco: quais atores se caracterizam vens das classes médias.
como juvenis? Até que ponto essa identi- A idade das lideranças os localiza
dade é central ou ancora a atuação públi- como jovens, a não ser no caso do Fórum
ca? Os segmentos podem ser recortados do Rio de Janeiro, onde os que “puxam”
com base nessa categoria? Que sentidos o fórum já não se caracterizam como jo-
e que valoração os atores aqui considera- vens, mas como educadores, técnicos,
dos dão à identidade juvenil? militantes etc. Porém, de forma geral, as
Pode ser interessante tentar compre- lideranças têm, atualmente, uma idade
ender o que os diferentes estudos nos di- um pouco mais elevada que a média do
zem a respeito da “constituição juvenil” segmento (embora no começo da consti-
nos diferentes planos (da composição do tuição da organização ou na mobilização
segmento, da identidade social e da iden- em foco, no caso da Revolta do Buzu e
tidade acionada politicamente pelos ato- da FMBJ, estivessem na mesma faixa).
res) e refletir sobre em que medida as Para além da localização etária, qua-
demandas aqui estudadas se apresen- se todos os sujeitos estudados pela pes-
tam ou não como demandas juvenis – ou quisa se sentem jovens e se identificam
da juventude –, assim como sobre o lu- como tais, ou assim acontecia no momen-
gar da juventude no cenário da mobiliza- to em que ocorreram os eventos estuda-
ção social e política atual. A observação dos, com exceção dos trabalhadores de
de alguns elementos caracterizadores cana. No entanto, há matizes e problema-
dos segmentos também pode nos aju- tizações importantes nessa identificação
dar a desenvolver o debate sobre as de- juvenil que merecem ser vistas com cui-
sigualdades existentes entre as diferentes dado. Assim, desde já, torna-se necessário
juventudes, além de possibilitar a identi- ressaltar a existência de possíveis diferen-
ficação de pontos e traços comuns que ças nesse aspecto entre as lideranças e os
permitam falar de uma condição juvenil demais jovens entrevistados em algumas
e de uma experiência geracional singu- das situações-tipo.
lar. Dessa forma, poderemos pensar na De modo geral, os jovens entrevistados
possibilidade de constituição de direitos e (nem sempre os líderes) valorizam a juven-
plataformas comuns. tude e seus atributos, relacionados a um
No conjunto configurado pelos seg- conteúdo que remete a um senso comum:
mentos das situações-tipo aqui estudadas, ser jovem é ter mais disposição, saúde e
a constituição “estatística” da composição ânimo, poder viver a diversão, ter um futu-
ou presença dos jovens é evidente, a não ro pela frente, namorar, ter mais relações
ser no caso dos trabalhadores de cana, no com amigos, ter posturas e sentimentos li-
qual a constituição etária é menos majo- gados à alegria, ao desejo e à possibilidade
ritária e visível, apesar de crescente. Por de experimentar e se aventurar.

30 Ibase | Pólis
Os entrevistados citam, também, certos casos, existem tensões em torno
questões negativas, como drogas e vio- da oportunidade de fundamentar aí sua
lência, crime e narcotráfico, assim como expressão política.
a falta de oportunidades, principalmente Alguns se constituem e se apresen-
de trabalho. Em várias situações, apare- tam explicitamente como atores juve-
ce o fato de enfrentarem visões negativas nis, como é o caso do Sintratel, do hip
na sociedade e em suas relações mais hop, do Fórum de Juventudes do Rio de
diretas (comunidades, ambiente de tra- Janeiro e dos que militam em torno do
balho, famílias) por serem associada à ir- Acampamento Intercontinental da Ju-
responsabilidade e falta de experiência. ventude, configurados no COA – embo-
No caso do hip hop, a questão ganha re- ra, nesse caso, haja uma modificação
levância, pois os jovens se sentem pro- que transforma o sentido dessa
fundamente discriminados e “apartados” identidade.
pela associação negativa estabelecida Em resumo, pode-se dizer que, nas
entre juventude, pobreza, raça e condi- diferentes situações-tipo estudadas, a
ção de moradia. composição social do segmento é evi-
Entre as lideranças entrevistadas, do dente ou majoritariamente “juvenil” em
ponto de vista do conteúdo da identida- termos da caracterização etária – o que
de juvenil, o senso comum citado aci- não significa que a identidade social
ma é compartilhado. No entanto, outro central seja necessariamente essa, nem
“senso comum da esquerda” é agrega- que a identidade política ostentada nos
do: ser jovem é ter rebeldia, questionar processos de organização e mobilização
e ter disposição para participar e propor esteja aí ancorada. Ou seja, nem sem-
transformações. Partilham, também, a pre os atores que expressam publica-
visão de que a maioria da atual geração mente a demanda do segmento são jo-
de jovens “trai” essa “essência” juvenil, vens e, mesmo que sejam, nem sempre
pois, como “filhos do neoliberalismo”, se apresentam politicamente como tais.
se mostram acomodados, consumistas, Isso implica perceber que não é neces-
competitivos, ideologicamente aprisio- sariamente com atores com esse recorte
nados pela mídia etc. Essa visão contém que os jovens vão procurar estabelecer
uma derivação, que entende a juventu- identificações ou conexões na forma de
de como um “produto do capitalismo”, redes, plataformas etc., embora em vá-
consumidora de um tipo específico de rios casos isso aconteça.
consumo ligado ao lazer, à indústria cul- Os manifestantes da Revolta do
tural e à industria da moda. Buzu, na cidade de Salvador, em 2003,
No caso dos atores estudados, a eram, principalmente, estudantes secun-
identidade juvenil está presente de um daristas e pertencentes aos setores popu-
modo ou de outro (com exceção daque- lares. A mobilização foi deflagrada e sus-
les implicados com os trabalhadores mi- tentada basicamente por estudantes das
grantes sazonais para o corte da cana), escolas públicas, recebendo, posterior-
embora deva-se lembrar que nem sem- mente, o apoio de estudantes das escolas
pre essa é a identidade preferencialmente particulares, de estudantes universitários
acionada e valorizada politicamente. Em e de ensino técnico.

Relatório Nacional do Brasil 31


Segundo a Superintendência de Estu- portância da participação feminina nas
dos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), mobilizações, apenas quatro dos entre-
em 2003, haviam 181.234 estudantes vistados são mulheres.8
matriculados no ensino médio público na No caso da Revolta do Buzu, a identi-
cidade de Salvador e grande parte desse dade dos atores acionada pública e politi-
contingente é oriunda de famílias de baixa camente é, em primeira instância, a estu-
renda (das classes C, D e E). Além disso, dantil, embora a auto-identificação como
dados do IBGE de 2005 mostram que, na jovens seja também bastante manifes-
Região Metropolitana de Salvador, 39,4% ta (é possível ver isso nas imagens e de-
das famílias são sustentadas somente por clarações da época, registradas no docu-
mulheres, e os jovens se deparam com mentário, e também nas entrevistas, nas
a necessidade de complementar a ren- quais o termo juventude aparece espon-
da doméstica, quando não são os próprios tânea e freqüentemente ao lado do de es-
provedores do sustento de suas famílias.6 tudante). Mas há duas tensões impor-
Os dados de pesquisa da Unesco tantes que devem ser ressaltadas aqui: a
de 2002 indicam que mais da metade primeira é que boa parte dos integrantes
(62,6%) dos estudantes secundaristas de do movimento consideram que a força e
Salvador tinham, naquele ano, mais de a importância residem no fato de terem
18 anos de idade; indicam, também, que apresentado uma demanda que não era
54,4% deles são mulheres e que apenas apenas juvenil ou estudantil, mas de toda
17,3% se declaram brancos (42,2% se a sociedade. A segunda é que as pergun-
declaram negros e 30% mestiços) (Abra- tas a respeito de “ser jovem” geraram es-
movay; Castro, 2003).7 tranhamento entre os entrevistados (lide-
As imagens (as fotografias e o docu- ranças do movimento), como se isso não
mentário em filme) do episódio da Revol- tivesse nenhuma importância na recupe-
ta do Buzu tornam essa caracterização ração do sentido do acontecimento, sen-
evidente: são rostos de jovens de classes do que alguns deles também expressa-
populares, muitas meninas, a maioria ne- ram a opinião de que essa classificação
gros ou afrodescendentes, os que mais “apequena” seu significado.
aparecem nas mobilizações e nos micro- Há possibilidades distintas de inter-
fones das assembléias, com símbolos e pretação desse estranhamento, mas pode
gesticulação que revelam referências cul- ser interessante aventar algumas pistas:
turais diversas que vão da história da es- em que medida a identidade estudan-
querda (a imagem de Che Guevara, um til contém ou suplanta a identidade juve-
livro sobre 1968) ao hip hop (atestado nil na constituição dos atores? A identida-
pela forma típica de gesticulação ao faze- de estudantil é mais antiga e amplamente
rem suas declarações). A mobilização foi aceita e reconhecida na sociedade brasi-
deflagrada e sustentada, principalmente, leira, muito mais que a “recente” catego-
por estudantes das escolas públicas, re- ria juvenil, como constituinte de uma al-
6
Retirado do site da SEI: <www.sei. cebendo, posteriormente, o apoio de es- teridade política. Exemplo disso é que a
ba.gov.br>. Acesso em: 6 set. 2007.
Fonte: SEC/MEC/Inep. tudantes das escolas particulares. UNE tem assento em mesas de negocia-
7
A pesquisa apresenta a seguinte As lideranças entrevistadas também ção e conselhos de controle de políticas
distribuição etária entre os alunos
matriculados no ensino médio em apresentam caracterização semelhan- há mais tempo e com mais conforto que
Salvador: 10, 6% entre 14 e 15 anos;
26,8% entre 16 e 17 anos; 26,1% te: podemos ver que, na época do acon- outros “atores juvenis”. Por outro lado, é
entre 18 e 19 anos; e 36, 5% com
mais de 20 anos. tecimento, a idade estava entre 14 e 27 importante levar em conta a existência de
8
Essa sub-representação é, em anos e que a origem social era variada: clivagens em função da composição dos
parte, resultado de imprevistos no
planejamento inicial da pesquisa, alguns pais com profissões de nível uni- campos políticos locais: talvez, a resistên-
mas também denota o desequilíbrio
entre a participação das mulheres
versitário (como engenheiros) e outros cia de certos atores a se reconhecerem
na base e nos cargos de direção das com inserções bastante precárias. Com como uma categoria juvenil tenha a ver
entidades estudantis (ver Oliveira;
Carvalho, 2007). relação ao gênero, apesar da visível im- com o desejo de não compor com os ato-

32 Ibase | Pólis
res que acionam tal identidade (aqueles às condições de trabalho, além disso,
que, hoje, estão integrados ao Movimento atribui-se aos jovens maior capacida-
pelo Passe Livre – MPL –, por exemplo, de de assimilar o treinamento básico
não têm nenhuma identidade com os ato- necessário (cuja duração é de cerca
res que, ligados a certas ONGs e a funda- de 4,4 semanas) e, principalmen-
ções empresariais, acionam o tema da ju- te no caso daqueles oriundos de fa-
ventude em Salvador). De todo o modo, mílias de baixa renda, de suportar as
resta uma tensão entre a valorização da pressões para o cumprimento de me-
identidade estudantil e a identidade “po- tas de atendimento. [...] Do ponto de
pular”, que se relaciona, como veremos, vista dos contratantes, profissionais li-
com a divergência de visões a respeito do gados às classes de maior rendimen-
conteúdo central da demanda e da con- to não teriam predisposição para se
dução estratégica do movimento. submeter às situações de pressão
Os trabalhadores de telemarketing para o cumprimento de metas (Corro-
são, predominantemente, jovens e muitos chano; Nascimento, 2007).
encontraram no setor o primeiro empre-
go. Segundo os dados da PNAD de 2005, Entre os jovens trabalhadores entrevis-
os operadores de telemarketing na fai- tados, a idade média ficou nos 23,4 anos:
xa dos 16 aos 24 anos representam 52% Como parte do jogo de identidades,
do total de trabalhadores do setor. Alar- todos os entrevistados se considera-
gando-se para a faixa de 15 até 29 anos, ram jovens – uns por conta da idade,
chegam a 72,5%. A categoria é, também, alguns pelos sentimentos com rela-
predominantemente feminina (70% do ção à vida, outros por causa das prá-
setor) (Oliveira Júnior; Trevisan, 2006). ticas de lazer e brincadeiras –, do
De modo geral, os operadores são mesmo modo que foram unânimes
membros das classes populares, cujos em argumentar que também pos-
pais estão ligados a profissões de baixa suem características de adultos, sem-
especialização e tiveram pouco acesso à pre as relacionando às suas ativida-
educação formal ou ampla. O nível de es- des de trabalho ou sindicais
colaridade é, para a maior parte, de en- (Corrochano; Nascimento, 2007).
sino médio, sendo que em torno de 22%
dos atendentes têm nível superior. Para os sindicalizados, assim como
Essa grande presença de jovens para as lideranças, a média de idade sobe
constitui o setor como um “nicho” para a um pouco: 27,6 anos. Esse é um dos fato-
juventude no mercado de trabalho: res mais significativos para a identificação
De acordo com Selma Venco (2006), juvenil como ator em relevância. O Sintra-
a contratação da mão-de-obra juve- tel teve, inclusive, sua diretoria ocupada
nil neste setor se explicaria por con- por sindicalistas bastante jovens.9 É nes-
ta da baixa exigência de qualifica- se contexto que essa identidade passa a
ção formal (ensino médio concluído ser “ostentada” explicitamente, implican-
e conhecimento básico de informáti- do em renovação de bandeiras, formas de
ca) da parte das empresas, enquan- atuação e linguagem. Esse é, na verdade,
to que, da perspectiva dos jovens, o um ponto no qual se apóiam: conhecem
atrativo do setor está na jornada de as demandas, a linguagem e a postura
trabalho semanal de 36 horas, que dos jovens, podem produzir identificação
os permite, aparentemente, conciliar com eles. Baseiam, também, sua valoriza-
o trabalho com os estudos. [...] Para ção no interior do movimento sindical nes-
os empregadores, a justificativa para sa identidade/capacidade, tornando-se re- 9
O presidente dessa gestão tinha,
a alta contratação de mão-de-obra ju- ferência para o trabalho com juventude então, 23 anos. Foi ele que se tornou,
também, o primeiro presidente do
venil está na facilidade de adequá-la dentro da CUT. coletivo de juventude da CUT.

Relatório Nacional do Brasil 33


O Sintratel, na verdade, se apresen- obra entre os trabalhadores do corte ma-
ta como “um sindicato tão jovem quan- nual nas grandes empresas sucroalcoo-
to sua categoria”, e a identidade juvenil é leiras do Estado de São Paulo. Em função
tomada como elemento de afirmação da dos padrões de produtividade exigidos, a
sua singularidade como ator, como mar- força física dos jovens aparece como um
ca da especificidade de atuação e como dos critérios de contratação, ainda que
mote de conquista de espaço político: não assumido explicitamente pelos con-
Ser um ‘sindicato jovem’, na interpre- tratadores. A presença juvenil se faz visí-
tação dos membros do Sintratel, sig- vel nos rostos e nos símbolos ostentados
nifica ser uma entidade formada por nos corpos desses trabalhadores, como
jovens e ter estes como público-alvo. documentado em imagens registradas
Mais do que isso, denota o desenvol- pela equipe de pesquisa no campo de
vimento de um tipo de atuação que é trabalho. Em pesquisa anterior, realizada
constituída e expressa valores, com- em 2005, foi feito um levantamento em
portamentos, práticas sociais e mo- um grupo de carteiras de trabalho (1.269
dos de sentir e pensar o mundo que carteiras) entregues pelos trabalhadores a
estão associados diretamente à con- uma empresa de contabilidade, na cida-
dição juvenil. Isso implica uma es- de de Cosmópolis, para a finalização do
pécie de compreensão ‘essencializa- contrato temporário de trabalho (procedi-
da’ da capacidade de representação: mento realizado no fim da safra da cana).
no entendimento de suas lideranças, A observação das datas de nascimento
só sendo jovens os dirigentes conse- dos trabalhadores revelou que 47,4% de-
guem expressar, se comunicar e mo- les tinham entre 17 e 25 anos e 16,8%
bilizar os jovens trabalhadores (Corro- entre 26 e 29 anos.
chano; Nascimento, 2007). As características dos jovens entre-
vistados para esta pesquisa confirmam
Outros atores desse campo também as outras indicações sobre o segmen-
assumem a identidade juvenil como um to: são, na grande maioria, migrantes
recorte específico na organização sindi- de regiões rurais de estados do Nordes-
cal: os coletivos juvenis de sindicatos de te do país, de famílias de agricultores,
outras categorias e das centrais sindicais, com pequenas propriedades (ou arren-
como o Coletivo Nacional de Juventude dando pequenas extensões de terra) que
da CUT e a Força Jovem da Força Sin- encontram imensa dificuldade para se
dical. No entanto, é importante registrar manterem como unidades produtivas;
que, para as lideranças sindicais juvenis algumas famílias venderam suas terras
ligadas à CUT (como era o caso do Sin- e vivem em periferias de cidades da re-
tratel), a identidade juvenil é secundária gião de origem, em busca de trabalho
com relação à identidade de classe. Seu no campo ou na cidade, que é extrema-
campo de atuação e articulação principal mente escasso em ambos os casos. São
é, portanto, o sindicato, a partir do enten- quase todos homens, alguns casados e
dimento de que as especificidades da ju- com filhos.10 Têm baixa escolaridade, a
ventude trabalhadora são significativas maioria não completou o ensino funda-
e devem ser incorporadas, mas, assim mental; quase todos ingressaram pre-
como as temáticas de gênero, sexualida- cocemente no mundo do trabalho, na
de e raça, são secundárias diante da luta maior parte das vezes, no trabalho agrí-
capital versus trabalho. cola da família.
10
Quanto às jovens que migram, a
maior parte vai para ajudar os maridos Na situação relativa ao corte da cana, Assim como no caso do telemarke-
na “reprodução do cotidiano”, cuidan-
do da roupa e da comida. Algumas
não há dados precisos que comprovem, ting, esse setor acaba aparecendo como
aspiram encontrar um trabalho com- mas há percepção da existência de um uma espécie de “nicho de trabalho” para
plementar em outros setores e uma
oportunidade de retomar os estudos. processo de “juvenilização” da mão-de- jovens com baixa escolaridade e baixo

34 Ibase | Pólis
capital social (respeitadas as diferenças vio nem de identidade com os jovens re-
entre um caso e outro). Como esclarece sidentes nesses bairros (muitos deles, fi-
José Roberto Pereira Novaes: lhos de trabalhadores migrantes que já
Entre tais trabalhadores migrantes há se estabeleceram na região e buscam
outro aspecto diferenciador: ser jo- oferecer alternativas de trabalho e de
vem faz diferença. O que não signifi- vida para a segunda geração). Tal iden-
ca apenas ter força, resistência física. tidade também não é acionada pelos
Significa, também, ter uma especí- atores presentes: nem sindicatos nem
fica disposição para o trabalho ala- pastorais os agregam segundo esse re-
vancada pelo momento do ciclo de conhecimento (ao passo que alguns de-
vida quando – via de regra – prevale- les participam de grupos de jovens, in-
ce a busca, o desejo de ‘ser alguém clusive da Pastoral da Juventude, nas
na vida’, motivação indispensável cidades de origem). Nenhum deles tem
para os jovens enfrentarem a rotina e espaço ou trabalho dirigido especifica-
a disciplina no trabalho. Afinal, para mente aos jovens, embora atendam e in-
esses jovens, filhos de agricultores corporem jovens em suas atuações.
nordestinos, o trabalho é o único ca- Ainda que não tenhamos dados esta-
minho para a realização de projetos tísticos que possam nos dar informações
pessoais e familiares. mais precisas sobre aqueles que se arti-
Certamente o critério etário não é cla- culam em torno do hip hop ou têm nele
ramente explicitado pelos arregimen- suas referências, sabemos que ele diz
tadores de mão-de-obra. Porém, não respeito, principalmente, a “jovens ne-
é difícil comprovar a hipótese de que gros moradores de bairros periféricos”.
a idade tornou-se um critério no re- Não temos, também, estatísticas sobre
crutamento de mão-de-obra para o a população juvenil dos bairros do Mor-
corte da cana. Trata-se de uma evi- ro do Bom Jesus e do bairro do Centená-
dência que salta aos olhos: nos ôni- rio, da cidade de Caruaru, mas o levan-
bus que saem do Nordeste para as tamento feito por esta pesquisa com os
usinas de São Paulo, nos canaviais e jovens do grupo que compõem a Famí-
nos alojamentos das usinas (Novaes, lia MBJ (13 jovens dos dois bairros cita-
J., 2007). dos, cada um de um grupo de rap) indi-
ca que a idade varia entre 18 e 29 anos,
Com relação à identidade juvenil, no sendo que a maioria tem até 21 anos.
caso desses trabalhadores, parece haver Apenas dois não se consideram afrodes-
uma situação dual. Nas cidades de ori- cendentes e apenas um integrante é mu-
gem, se ainda solteiros, vivem com suas lher. Cinco deles já não estudam e o grau
famílias e são considerados jovens, com de escolaridade, baixo, varia: há uma di-
hábitos de sociabilidade e lazer bastan- visão, quase igual, entre os que não con-
te caracterizadores dessa condição. No cluíram o ensino fundamental, os que já
período em que estão no interior de São concluíram o ensino médio e os que ain-
Paulo como trabalhadores sazonais, pra- da estão cursando esse nível de ensino.
ticamente perdem essa identificação, Nenhum deles chegou à universidade.
que só se manifesta, com pouca explici- Apenas três têm vínculo empregatício e
tação, como vimos, na força física e em salário fixo, e cinco deles já têm filhos.
certas marcas corporais, assim como na A identidade juvenil é forte entre os
disponibilidade para um controle acen- integrantes do hip hop. Está articula-
tuado do empregador. Vivendo por seis da às identidades de raça, de condição
meses em alojamentos coletivos nas pe- econômica e de local de moradia, dizen-
riferias das cidades da região produtora do respeito ao “conjunto de sua vida”:
de cana, não constroem laços de conví- nomeiam-se, o tempo todo, como jovens

Relatório Nacional do Brasil 35


(pobres, pretos e da periferia). No esfor- ligados aos projetos desenvolvidos pelas
ço de produzir a reversão da valoração ONGs, assim como dos jovens das co-
negativa que enfrentam na sociedade, munidades que são convocados para os
a auto-afirmação funciona como instru- Encontros de Galeras, varia entre o iní-
mento que inclui a valorização da etnia, cio da adolescência e a primeira meta-
do pertencimento social e da identida- de da casa dos 20 anos. Já as lideranças
de etária. que mantêm e conduzem o FJRJ são, ge-
As identificações e oposições ajudam ralmente, uma década mais velhos, ocu-
a perceber a singularidade juvenil. Ape- pando a posição de educadores, técnicos
sar de afirmarem o pertencimento à co- ou militantes das ONGs, numa condição
munidade (à periferia, nos seus termos) e de já adultos, salvo duas exceções – dois
à raça e etnia negra, e ancorarem nesses militantes de entidades diferentes, um
conjuntos os elementos de valorização e com 17 e outro com 24 anos de idade.
as lutas contra a discriminação, também Com relação ao ator, a identidade ju-
assinalam nesses conjuntos o enfrenta- venil está expressa no nome, embora
mento de tensões intergeracionais: citam haja ambigüidade interna: as lideranças
preconceitos e desvalorizações vividas que puxam e dão organicidade ao fórum,
no interior da comunidade e com os fa- que definem as atividades, não são os
miliares, além de relatarem dificuldades “jovens dos projetos”, segmento que bus-
de relação com outros atores do movi- cam organizar e expressar, mas os edu-
mento negro. Por outro lado, se “compa- cadores das ONGs que, na maioria, já se
ram”, para evidenciar contrastes e desi- identificam como adultos. No entanto, o
gualdades, a outros jovens: aqueles de espaço que buscam ocupar é o estrutu-
classe média, a playboyzada. Para eles, rado em torno do apelo à identidade ju-
a identidade juvenil faz parte de um con- venil: o de representantes dos jovens das
junto “integrado” e deixa pouca margem comunidades no processo de formulação
para identificação com uma noção gené- de políticas públicas para jovens. Assim,
rica de juventude. Isso permite a relação o estudo identifica a existência de certo
com aqueles segmentos juvenis que tam- constrangimento provocado pela diferen-
bém se localizam numa condição social ça de idade (manifestado mais pelos pró-
semelhante (para os quais o termo “peri- prios adultos do que pelos jovens), e pelo
feria” confere identidade) ou numa pers- deslocamento nessa identidade. Essa
pectiva de transformação próxima à deles tensão, no entanto, pode encontrar reso-
(se não está muito evidente no caso da lução na medida em que os espaços para
FMBJ, a citação da presença de grupos o processamento desse debate têm sido
de hip hop em outros movimentos e ou- definidos como espaços não puramente
tras articulações – como no caso do AIJ – de representação dos jovens, mas como
aponta para isso). espaços intergeracionais de formulação e
No caso do Fórum de Juventudes do controle sobre as políticas de juventude.
Rio de Janeiro, o segmento que os orga- Porém, outra questão permanece rele-
nizadores buscam mobilizar, representa- vante aqui: na “divisão” de posições, em
do no público que convocam para os En- que medida os jovens do projeto, em vez
contros de Galeras, é o dos jovens das de protagonistas , não estão constituídos
comunidades, ou jovens da periferia, de como público-alvo do fórum?
setores sociais populares, de baixa ren- No caso do Acampamento Intercon-
da, moradores de locais com índices so- tinental da Juventude, a situação é di-
ciais de pobreza e violência. Nesse senti- ferenciada. Não temos dados a respeito
do, muito parecido com a caracterização do perfil etário nem socioeconômico dos
social do segmento implicado no estudo acampados, mas as observações apon-
do hip hop. A idade daqueles que estão tam para grande diversidade de origem

36 Ibase | Pólis
social, cultural e de tipo de militância dos tidade está no mote e na convocação
jovens que acamparam ao longo de suas do acontecimento, expressa no nome e
cinco edições, com a presença, até mes- com uma elaboração conceitual a res-
mo, dos outros segmentos aqui estuda- peito registrada em documentos. Pas-
dos: jovens de movimentos estudantis, do sa, no entanto, por uma transformação
hip hop e outros grupos culturais, de enti- ao longo do tempo, com base em ques-
dades sindicais urbanas e rurais, do MST, tionamentos provocados pelos integran-
jovens de projetos desenvolvidos por tes do COA, que acabam por substituir
ONGs e de redes articuladoras desses o termo pelo de “nova geração política”.
projetos, das juventudes partidárias, de O termo juventude, de todo modo, con-
pastorais religiosas, de movimentos anar- tinua sendo usado – e com destaque –
quistas e anticapitalistas, de punks etc. em toda convocação e expressão públi-
Uma observação de uma militante do ca do acontecimento.
hip hop (e integrante do COA) no III AIJ, Na primeira formulação, no docu-
quando aconteceu, no interior do acam- mento de convocação do primeiro AIJ,
pamento, a Cidade do Hip Hop, pode há uma localização conceitual da juven-
ser ilustrativa dessa questão: para ela, tude como o momento da vida em que
a maioria dos jovens que participava do se faz escolhas, inclusive as ideológicas,
acampamento era de classe média e uni- fundamental para viver experiências e
versitários; também é significativa a afir- debates políticos que incidam sobre o
mação de que “trazer o jovem negro, fa- posicionamento político. É a juventude,
velado e ativista do movimento hip hop genericamente, a chamada a se congre-
para dentro do Fórum Social Mundial, gar e a se mobilizar contra o capitalismo
para o acampamento, foi difícil”. Nesse e o neoliberalismo, pelo papel que pode
sentido, a proposta da constituição da Ci- desempenhar no FSM por meio da afir-
dade do Hip Hop foi a de dar mais visi- mação dos valores da solidariedade e da
bilidade aos jovens da periferia, tirando- participação. No documento convocató-
os do posto de ouvintes das discussões e rio do segundo AIJ, a ancoragem na sin-
colocando-os como participantes.11 gularidade política da juventude também
A composição dos integrantes do é explícita e aparece como fundamento
Comitê Organizador do Acampamento de sua proposta: afirmam que “a juven-
(o ator estudado pela pesquisa) vai nes- tude tem seu próprio tempo, sua pauta e
ta direção: além dessa militante do hip seu próprio modo de se expressar”.
hop, moradora de um bairro de periferia O desenvolvimento da proposta do
de Porto Alegre, os outros componen- acampamento, que vai alargando e trans-
tes são, quase todos, estudantes uni- formando sua perspectiva, torna mais
versitários de classe média, com larga complexas as definições e convocações
experiência de militância no movimen- da juventude (em determinado momen-
to estudantil ou em partidos de esquer- to, por exemplo, busca convocar mais ex-
da (principalmente o Partido dos Traba- plicitamente jovens engajados de setores
lhadores – PT) e, alguns, quando surge populares, tanto urbano como rural). Mas
e se desenvolve a proposta do AIJ, com traz, sempre, o objetivo de dar à socieda-
cargos na máquina pública de governos de uma visibilidade diferencial da juven-
populares do Rio Grande do Sul. Boa tude (como veremos a seguir), propiciar
parte deles tem pais com inserção mili- uma experiência política relevante e de-
tante, com história no movimento estu- senvolver formas de atuação para o seg-
dantil e/ou nos partidos de esquerda. mento definido como juvenil.
Com relação à identidade juvenil dos A partir de certo momento, a oportu-
atores, o caso do AIJ tem de ser com- nidade de se ancorar no conceito de ju-
Depoimento de Malu Vianna para
11

preendido com mais detalhes. A iden- ventude é questionada por integrantes Thais Zimbwe (ver Zimbwe, 2005).

Relatório Nacional do Brasil 37


do COA com base no entendimento da Considerando as informações cita-
juventude como uma “criação” funcio- das acima, é possível verificar que na
nal para o capitalismo e a cultura do con- maior parte dos segmentos de atores es-
sumo, e também por não desejarem se tudados, a composição social refere-se
manter na “posição subordinada” que o ao pertencimento às “classes popula-
termo confere dentro das organizações res” ou a famílias de baixa renda, em-
mais amplas: “E esse termo juventude é bora tal definição seja pouco precisa e
muito capitalista. A juventude é uma cria- comporte situações de recurso e qualida-
ção do capitalismo, a gente está queren- de de vida diferenciados. Mas, de qual-
do romper com esse sistema”.12 A refle- quer modo, é possível dizer que é nessa
xão apresentada pelo COA era de que localização social que esses segmentos,
essas conceituações de juventude já não assim como suas lideranças, se carac-
serviam para definir a experiência que vi- terizam em quase todos os casos, com
venciavam, uma vez que o protagonismo exceção do AIJ, que contém uma com-
no acampamento ia além da questão etá- posição bastante diversificada.13 Embo-
ria. Nesse sentido, percebia-se um esgo- ra não possamos tratar o universo desta
tamento do termo. pesquisa como uma amostra represen-
É possível aventar que o distancia- tativa da juventude brasileira organiza-
mento relacionado à identificação com a da ou envolvida em algum tipo de mobi-
“categoria juvenil” também se relaciona lização social e política, essa constatação
com as tensões desenvolvidas com ou- parece reforçar o que outras percepções
tros atores que acionam a identidade ju- já apontaram: uma mudança que vem se
venil (como aqueles ligados aos partidos configurando, desde a década de 1970,
políticos), num processo semelhante ao com relação à origem social dos atores
mencionado no caso de Salvador. juvenis em cena na sociedade brasilei-
Os integrantes do COA desenvolvem ra – da predominância de atores de clas-
reflexões sobre o conceito de “nova ge- se média para a de atores de setores po-
ração política” baseadas, principal- pulares. Mesmo entre os estudantes, que
mente, na noção de uma postura polí- protagonizaram majoritariamente a parti-
tica diferenciada, que inclui princípios cipação juvenil até os anos 1960, agora
como a horizontalidade nas relações, é visível a diversidade de composição so-
a prática da democracia direta e o va- cial, pelo menos no caso dos secundaris-
lor da experimentação e da ação dire- tas. Até que ponto isso modifica a pauta
ta como modo de concretizar as formu- desses atores? Que novas questões são
lações ideológicas. Em 2005, no quinto introduzidas com base nessa condição
AIJ, é esse termo que passa a ser usa- social? Isso tem relação com o peso das
do nos documentos. Porém, é preci- demandas relativas à inserção social na
so notar que, a despeito dessa elabo- mobilização dessa geração juvenil?
ração dos integrantes do COA, o termo Em geral, é possível dizer que a iden-
juventude ainda permanece vigente na tidade juvenil está presente, de um modo
identidade dos atores que constroem os ou outro, embora com ênfases e expres-
acampamentos, refletido, em primeira sões diferentes e, em alguns casos, gran-
instância, na própria permanência do de ambigüidade. Aqui cabe, certamente,
termo na denominação do acampamen- a lembrança de que não há identidades
to, e que também se manifesta no de- únicas. Para muitos segmentos e atores,
senvolvimento de iniciativas de convo- a identidade juvenil é uma dentre um
12
Trecho de entrevista de um dos cação de articulações fundadas nessa conjunto de outras, embora bastante sig-
integrantes do COA
13
Embora haja jovens de “classe
identidade, como demonstra a tentativa nificativa para a maior parte. Assim, ape-
média” tanto entre os manifestantes de impulsão de uma Rede Brasileira de sar de não ser para todos os segmentos,
estudantis como entre os dirigentes
sindicais. Movimentos Juvenis. nem para todos os indivíduos dentro de

38 Ibase | Pólis
um segmento, a identidade juvenil é a to ou pela segmentação de uma identida-
central. No caso dos estudantes secun- de que se pretende maior e mais “funda-
daristas, é bem provável que a identida- mental” (de classe ou da sociedade), por
de estudantil suplante ou recubra a iden- conferir uma “distorção” a esses propósi-
tidade juvenil, pelo menos no momento tos (o conteúdo capitalista da categoria ju-
da mobilização, acionada a partir do es- ventude) ou, ainda, por conferir uma po-
paço escolar e por atores configurados sição “subordinada” ao ator que assim se
como estudantes. identifica no interior de outras organiza-
O “conteúdo juvenil” também pode ções. Por outro lado, percebe-se que al-
afetar algumas dimensões da vida mais guns atores têm buscado se apoiar nessa
que outras: por exemplo, no caso dos tra- identidade para criar e ocupar espaços de
balhadores migrantes no corte de cana, participação política. No âmbito deste es-
manifesta-se no âmbito familiar e no la- tudo, essa posição parece ser mais pre-
zer, na sociabilidade entre amigos, mas sente que a anterior.
não na relação com o trabalho (não se De todo modo, pode-se dizer que as
vêem nem são vistos como jovens, a não referências às tensões intergeracionais
ser quando ressaltam a questão da força (presentes em todas as pesquisas) tam-
física que os torna especialmente “aptos” bém apontam um “sentimento de per-
para esse trabalho). tencimento à categoria juventude”, nem
No caso dos jovens trabalhadores de que seja pela percepção de uma dispu-
telemarketing, parece haver uma ambi- ta de sentidos atribuídos a jovens ou uma
güidade na identificação relacionada ao disputa de espaços (laborais e políticos).
trabalho: ao mesmo tempo que se vêem No entanto, é importante ter em vista que
como jovens, e ressaltam a dimensão ju- nem sempre a questão geracional se con-
venil de suas vidas (planos, comporta- figura na principal oposição ou no foco
mentos, posturas, dimensão de experi- produtor de tensão nas relações: outras
mentação etc.), e como trabalhadores oposições aparecem, como posições de
jovens, diferentes dos trabalhadores classe, outras juventudes, poder públi-
adultos (o que se revela, até mesmo, no co, polícia, empresários, outros atores do
modo como são tratados no trabalho ou próprio campo de luta, certas formas de
nos sentidos que atribuem ao trabalho fazer política etc.
em suas vidas), apresentam como res- Há, ainda com relação às diferen-
salva que o trabalho traz “atributos adul- ças entre jovens e lideranças no que diz
tos”, como responsabilidade, possibili- respeito às diferentes valorações sobre a
dade de arcar com seus gastos, prover identidade juvenil, outras questões: a pre-
o próprio sustento. Já entre os jovens do sença de diferença etária, mesmo peque-
hip hop, o conteúdo do trabalho (ou sua na, entre uns e outros pode incidir nessas
necessidade) aparece incorporado à vi- diferenças? O tempo de amadurecimento
vência juvenil: trata-se, inclusive, de en- das lideranças briga com a identidade ju-
contrar caminhos no mundo do trabalho venil e coloca problemas para a continui-
justamente a partir da potencialidade de dade da representação? Isso implica na
criação juvenil. busca de ocupação de outros espaços,
Embora não seja consensual, é possí- não juvenis, pelas lideranças que amadu-
vel perceber também, no conjunto dos es- recem? Ou seja: cabe perguntar em que
tudos, a relevância do elemento juvenil na medida o “amadurecimento” das lideran-
composição identitária dos atores e a indi- ças introduz medidas diferentes de valori-
cação de uma valorização dessa identida- zação da identidade juvenil.
de em muitos deles. As contraposições se Essa questão remete a outro pon-
relacionam ao receio da desqualificação to, mais ligado às formas de organização,
de seus propósitos pelo apequenamen- mas que também tem incidência sobre o

Relatório Nacional do Brasil 39


que estamos tratando aqui: como se faz se aprofunda. Parte significativa da refle-
a renovação de quadros nessas organiza- xão e das polêmicas desenvolvidas nas
ções que se definem como juvenis – qual interpretações das situações-tipo gira em
é o ritmo da renovação e que implicações torno da pergunta sobre a singularidade
tem para a memória e a continuidade da juvenil das demandas e do valor e lugar
organização e das lutas ? Os componen- que assume tal inflexão.
tes passam e a organização mantém sua Nossos relatórios trazem uma diver-
identidade juvenil ou a organização muda sidade de planos pelos quais as questões
de identidade à medida que seus inte- das demandas podem ser lidas: as de-
grantes envelhecem? Que implicações isso mandas sentidas e expressas pelos “jo-
traz para a possibilidade de consolidação vens como indivíduos” nas entrevistas; as
de estratégias de ação a longo prazo, as- demandas que os atores juvenis afirmam
sim como de redes que necessitam de um que percebem ser as dos jovens ou que
tempo de maturação para estabelecerem assimilam das análises a respeito das ne-
pautas e ações comuns? cessidades dos jovens; as demandas ex-
É interessante reparar, por outro pressas publicamente pelos atores jo-
lado, que há congruências de percepção vens, empunhadas como reivindicações
dos elementos constitutivos da identida- ou bandeiras de luta. Parece interessante
de juvenil mesmo entre situações mui- examinar cada um desses níveis, quan-
to distantes entre si (tanto na valoração do for possível. Porém, antes de passar
positiva quanto na negativa), indican- a essa análise, é preciso reafirmar que
do que a noção sobre o que é juventu- aquilo que move os jovens a se organizar,
de encontra certa consistência social. mobilizar e atuar em espaços públicos
De certo modo, pode-se dizer que juven- nem sempre pode ser configurado como
tude é, hoje, uma categoria socialmen- demandas, reivindicações ou bandeiras
te reconhecida. Isso tem possibilitado de luta, explicitamente formuladas na lin-
o auto-reconhecimento dos atores nos guagem política usual.
apelos públicos a essa identidade, as- Podemos constatar que em algumas
sim como uma resposta positiva à con- das situações-tipo estudadas foi difícil lo-
vocação configurada nos espaços públi- calizar se existia uma demanda e qual
cos e canais de interlocução fundados era. Em alguns casos, o mote da atuação
nessa identidade: conferências e fóruns está mais vinculado à busca de conquis-
de juventude, assembléias juvenis dos tar espaço de participação ou visibilidade
orçamentos participativos, conselhos (ou transformar a visibilidade negativa)
municipais e estaduais de juventude, o que propriamente apresentar uma rei-
Conjuve, o AIJ e os acampamentos asso- vindicação, desenvolver uma luta em tor-
ciados aos fóruns sociais etc. no dela ou exigir seu cumprimento. Já no
Esses podem ser indícios de que há caso do AIJ, por exemplo, a mobilização
possibilidades de constituição de articula- tem o mote de resistência ao modelo vi-
ções entre os diferentes atores pela cha- gente de sociedade e da proposição (por
ve da categoria juventude, embora, pro- meio da experimentação na prática) de
vavelmente, não se incorpore todos eles. uma transformação mais geral (e menos,
propriamente, da apresentação de uma
ou várias reivindicações).
3.2 AS DEMANDAS E O MOTE Importante também é dizer que al-
DA ATUAÇÃO guns atores não apresentam uma, mas
várias demandas conjuntamente, mais ou
Se a identidade juvenil dos atores se im- menos articuladas entre si. Alguns têm
pôs como questão, com relação às de- uma demanda central, à qual outras são
mandas o debate sobre essa identidade anexadas (como no caso dos estudantes

40 Ibase | Pólis
com a educação e dos sindicalistas com Há uma grande e generalizada va-
o trabalho), outros apresentam deman- lorização da educação, tanto no sentido
das indissociavelmente ligadas entre si, de direito de cidadania como no de ele-
como parece ser o caso do grupo de hip mento fundamental para propiciar melho-
hop. Por isso, optamos por apresentar res oportunidades no mundo do trabalho.
as informações e os comentários, nesta Há, contudo, uma crítica ao sistema edu-
parte do relatório, não por situação-tipo, cacional, que é percebido como desigual,
mas por demanda, verificando se e como discriminatório, distante do universo real
cada uma aparece em cada segmento, dos jovens e carente de recursos de in-
se e como é empunhada pelos diferentes vestimento público. Segundo Júlia Ribeiro
atores. Isso pode nos ajudar a verificar as de Oliveira e Ana Paula Carvalho:
pistas sobre as mais freqüentes e, tam- Eles denunciam que o modelo de
bém, sobre as consonâncias e diferenças proteção e educação da socieda-
de abordagens. de brasileira, inserido em uma pro-
Já sabemos, pelas pesquisas, pelos posta de desenvolvimento econômi-
levantamentos e pelas observações an- co excludente, não garante os direitos
teriores, que os jovens têm diversas de- juvenis – isto é, do indivíduo em for-
mandas em diferentes áreas: inclusão so- mação, amadurecimento e momento
cial, educação, trabalho, saúde, diversão, de fazer escolhas – e pouco oferece
cultura; segurança, participação. Tal mul- para formação integral do jovem hoje
tiplicidade pode ser constatada e pode (Oliveira; Carvalho, 2007).
acrescentar elementos à reflexão a res-
peito do conteúdo da condição juvenil e No documento de convocação do pri-
dos modos em que seus direitos podem meiro AIJ, a luta contra “o desmonte da
vir a ser definidos. educação” pelo neoliberalismo também
Há escalas de importância entre aparece como uma das bandeiras em torno
as demandas, que nem sempre são as das quais a juventude pode se congregar
mesmas para todos os segmentos e ato- na luta contra esse modelo de sociedade.
res: algumas têm entendimento e acei- O direito à educação (a partir de várias
tação quase consensual (como é o caso bandeiras) gera manifestações públicas,
da demanda por educação), outras são mobilizações de diferentes ordens (entre
polêmicas – no entendimento de seu as entidades e os movimentos estudantis,
significado, na consideração da oportu- evidentemente, mas também entre outros
nidade e justeza de serem levantadas atores, como a Família MBJ, cuja primei-
como bandeiras e nas respostas encon- ra intervenção comunitária se fez em torno
tradas –, como é o caso da demanda da recuperação do espaço de uma esco-
por trabalho. la pública no bairro) e, normalmente, vem
em primeiro lugar nas pautas e listas de
Educação reivindicações de quase todos os atores ju-
A demanda por educação é a mais referi- venis, até mesmo no caso dos atores sin-
da e, talvez, a única presente em todos os dicais. Significativo, nesse sentido, é o fato
segmentos. Diversos tipos de questões re- de que uma carta assinada por jovens de
lacionadas à educação são citados pelos diferentes centrais sindicais (Central Geral
atores, tanto no plano das demandas pes- dos Trabalhadores – CGT –, CUT e Força
soais dos entrevistados como nas bandei- Sindical), apresentando dez pontos básicos
ras explícitas e públicas, e estão incluídos para as políticas de educação e emprego
nas pautas dos diferentes atores juvenis. no Brasil, traga em nove pontos referência
É, também, uma das poucas demandas à necessidade de elevação de escolarida-
nas quais a expressão em termos de direi- de e educação profissional entre os jovens
to é mais constante, quase natural. (Corrochano; Nascimento, 2007).

Relatório Nacional do Brasil 41


A educação é, também, elencada como parte significativa dos esforços
como tema privilegiado em todos os es- para montar estratégias de desenvol-
paços e processos de debate sobre as vimento de trajetórias profissionais
questões da juventude: está presente (visíveis tanto entre trabalhadores de
nos encontros dos coletivos juvenis sindi- telemarketing, que buscam a forma-
cais, nos Encontros de Galeras do FJRJ, ção superior enquanto trabalham –
no temário discutido no AIJ. A referência ou que escolhem esse setor porque
mais geral é a da necessidade de garan- a jornada de seis horas permite tal
tia de continuidade e ampliação da esco- conciliação – como entre trabalhado-
laridade, de mais qualidade na educação res do corte da cana, que demandam
ofertada, de mais verbas e investimen- formatos específicos de educação
tos para a educação, de necessidade de que abrigue os migrantes sazonais).
uma adaptação dos conteúdos e forma-
tos da escola à realidade dos alunos. O vínculo da formação educacional
As demandas por educação se ex- com a perspectiva de inclusão profissional
pressam com distintas configurações, é muito grande entre os jovens entrevista-
mas se referem, principalmente, ao au- dos, tanto pelo fato de avaliarem as pró-
mento da escolaridade, à possibilida- prias condições (chances) encontradas no
de de acesso e permanência na escola, mercado de trabalho em função da esco-
e à qualidade da educação a que se tem laridade que possuem, como pelas expec-
acesso. No caso dos jovens do telemarke- tativas e perspectivas que querem cons-
ting, que alcançaram o grau médio de es- truir: a continuidade da formação escolar
colarização, apresentam a demanda de vista como modo de conquistar melhores
acesso ao ensino superior (à universida- oportunidades de trabalho. Essa formu-
de pública ou a mecanismos de baratea- lação está muito presente entre os jovens
mento/financiamento da sustentação de trabalhadores, mas também aparece entre
um curso em instituição privada). Com os jovens do hip hop.
relação aos jovens canavieiros, ainda se No caso dos trabalhadores do corte
trata da possibilidade de terminar o ensi- de cana, que têm a experiência recorren-
no fundamental e fazer o ensino médio. te do abandono escolar por causa do tipo
As questões do acesso e da perma- de trabalho que realizam (na agricultu-
nência podem se traduzir, também, em ra familiar ou nos canaviais), há um reco-
duas demandas mais concretas que apa- nhecimento generalizado da importância
recem em mais de uma situação com dos estudos, pois todos pretendem voltar
contornos variados: a estudar. Há um grande desejo de me-
o transporte para se deslocar até o lhor qualificação para, fundamentalmen-
estabelecimento de ensino, na con- te, encontrar um emprego melhor. Nes-
figuração de controle do preço do se sentido, a demanda é por um tipo de
transporte coletivo, na meia passa- educação que não se inviabilize por cau-
gem ou, ainda, no passe livre, como sa do trabalho. Para além de uma educa-
aparece na Revolta do Buzu, mas ção de alternância considerando os tem-
também em citações de jovens de pos das safras agrícolas, teria que ser
outros segmentos, como no caso dos estruturada uma alternância que incluís-
trabalhadores de telemarketing se a migração temporária:
(esse ângulo será desenvolvido no Mas o ritmo e a jornada de trabalho
próximo item); a que estão submetidos nos cana-
a criação de alternativas para conci- viais provoca grande desgaste físico,
liar trabalho e escola, referida a di- que inviabiliza pelo cansaço a conti-
mensões contidas nas políticas rela- nuação dos estudos, mesmo diante
cionadas à educação e ao trabalho e da possibilidade dos cursos noturnos.

42 Ibase | Pólis
[...] Assim, do ponto de vista dos jo- me dar esse emprego? Que vai achar
vens migrantes canavieiros, a deman- que eu tenho condição de ocupar
da por educação não se resume à ga- esse emprego? Nenhum. Depois,
rantia de vagas em escolas. Implica você sai da escola, conclui seus es-
em garantia de transporte, mudanças tudos, se é filho do rico tem logo um
de calendário escolar tradicional, gra- emprego bom ou tem dinheiro para
de curricular adequada e, finalmen- abrir seu próprio negócio. Aí, os es-
te, na implantação de um programa tudos desse jovem têm importância.
educacional que se estruture por mó- Mas, e o filho do pobre? Qual a con-
dulos, que seja flexível e emergencial, dição que você tem para produzir
que traga consigo a possibilidade dos seu conhecimento ou para pôr em
jovens canavieiros estudarem tan- prática os conhecimentos que você
to no Nordeste como em São Paulo, construiu? Culturalmente, a escola
tanto na entressafra quanto na safra não contribui para o reconhecimen-
(Corrochano; Nascimento, 2007). to do jovem da favela. A própria for-
ma como ela apresenta a cultura do
Entre os jovens do hip hop aparece, jovem da favela é negativa (“JC”, Ju-
com muita ênfase, o direito a uma educa- ventude Sangrenta).
ção não discriminatória e, também, pro-
fissionalizante; uma educação adaptada A demanda pela instalação de uma
à realidade dos jovens da periferia, que escola básica no bairro e o envolvimen-
seja capaz de dialogar com suas referên- to na recuperação de um prédio públi-
cias e produções culturais. Segundo a co abandonado para esse fim foi um dos
análise apresentada no relatório, esses jo- principais motes de atuação da FMBJ,
vens têm consciência da importância do instigado pelo professor que, já nesse
conhecimento como instrumento de afir- momento, atuava como apoiador/media-
mação social, mas explicitam uma de- dor do grupo. É encarado como conquis-
cepção com a escola que podem acessar. ta, mesmo que não tenha sido desenvol-
Afirmam que essa educação não é inclu- vido o projeto integral, o fato dos jovens
siva porque não os prepara para o merca- idealizarem para a escola mudanças no
do de trabalho, nem oferece chances re- projeto pedagógico e abertura da institui-
ais de escolha e de desempenho de uma ção para referências e ações dos grupos
profissão digna. A citação de um dos en- culturais dos jovens e da comunidade.
trevistados é muito elucidativa: O tema da educação também apare-
A escola? Bom, ela é importan- ce citado no estudo sobre o Fórum de Ju-
te, mas não para o jovem da favela, ventudes do Rio de Janeiro em três situ-
muito menos se ele for negro. Não ações: como preocupação que mobiliza
da forma como ela está aí. Veja bem os jovens envolvidos nos projetos (garan-
o que eu quero dizer, não é que a tia de educação de qualidade); como ex-
escola não tenha importância para pressão pública, arrolada (de forma mui-
mim. A questão é: o jovem da fave- to sintética) como uma das demandas de
la tem uma educação de qualida- políticas de juventude no documento pu-
de oferecida pela escola? E educa- blicado pelo fórum, na forma de “espaços
ção recebida da escola é garantia construídos pela e para a juventude para
para esse jovem de que ele vai ar- diversão, cultura, educação”; e como um
rumar um bom emprego? Não! Nem dos temas de discussão de um Encon-
uma coisa, nem outra! Eu, por exem- tro de Galeras (onde foram apontadas
plo, gostaria muito de ter um empre- demandas como construção de escolas,
go, ser reconhecido pelo meu traba- melhoria da qualidade do ensino, melhor
lho. Mas qual o empresário que vai preparação para professores).

Relatório Nacional do Brasil 43


Educação é, evidentemente, um dos quatro novas universidades estaduais;
principais direitos explicitados na Revolta passe livre para estudantes na cidade;
do Buzu, na medida em que reivindica o meia passagem nas linhas intermunici-
direito à circulação para, em primeira ins- pais; controle do aumento das mensali-
tância, garantir o direito de freqüentar a dades das universidades privadas.
escola,14 embora não esgote – e, segundo No site da Ubes, atualmente, encon-
algumas interpretações – nem centralize tramos as seguintes linhas de atuação:
o sentido desse acontecimento. Mas, de aprovação do Fundo de Educação Básica
qualquer modo, os atores estão definidos (Fundeb); inclusão obrigatória das disci-
pela égide dessa dimensão, sua identida- plinas de filosofia e sociologia; passe es-
de se configura a partir da relação com a tudantil; campanha pelo aumento da fi-
educação.15 São estudantes, e seus ato- liação ao sistema eleitoral do país para os
res trazem uma pauta bastante elaborada jovens entre 16 e 18 anos (que não são
de demandas nesse campo. obrigados a votar).
As bandeiras dos grêmios das esco- Comparando esse temário das enti-
las de ensino médio que deflagraram o dades gerais e as manifestações ocor-
movimento eram, então, genericamente ridas nos últimos anos que alcança-
referidas a questões sobre a qualidade ram maior adesão e visibilidade, pode
da educação e as condições de estudo, ser interessante interrogar se o direito
o acesso à cultura e ao lazer e, também, à educação mobiliza realmente quan-
o direito de se organizarem nas escolas do ancorado em bandeiras mais con-
e fora delas. As bandeiras das entida- cretas dirigidas à permanência e conti-
des gerais, como a União de Estudantes nuidade no sistema escolar dos jovens
da Bahia (UEB) e a UNE, citadas pelos de setores mais despossuídos, dizendo
entrevistados, em 2007, apesar de agre- respeito à possibilidade econômica de
garem temas mais gerais da sociedade garantir esse direito: transporte, mensa-
(como mudanças na política econômi- lidade, moradia, subsídio e possibilida-
ca do país e a defesa da Amazônia), es- de de cursar gratuitamente escolas de
tão centradas em diversos planos para nível superior. Como diz um jovem, que
assegurar ensino público e de qualidade foi líder secundarista: “a gente conse-
para todos: investimento de 7% do Pro- guia fazer uma passeata em defesa da
duto Interno Bruto (PIB) na educação educação, mas não conseguia manter
(para, principalmente, permitir a expan- aquela passeata noutro dia e noutro dia
são de vagas nas universidades públicas (Oliveira; Carvalho, 2007). Assim, an-
e assegurar a permanência dos estudan- coraram a luta numa reivindicação con-
tes na universidade); defesa da universi- creta e referida, principalmente, à ca-
dade pública de qualidade; regulamen- pacidade econômica de sustentar o
tação do ensino privado; aprovação do acesso à educação, e conseguiram mo-
Projeto de Lei 6.489/2005, que trata de bilização mais expressiva.
mensalidades de universidade; demo- É possível perceber que, para al-
cratização dos meios de comunicação. O guns segmentos, a demanda é, também,
site da UNE, atualmente, ressalta a de- por uma educação que “caiba na vida” e
manda pela reforma universitária e apre- que faça sentido para a vida juvenil. Além
senta campanhas contra a mercantili- disso, vale observar que há dificuldades
14
Como afirma o relatório, com o
aumento da passagem de ônibus, “o
zação do ensino e pelo uso do software para aderir a programas educativos que
segmento estudantil se sentiu dire- livre nas universidades. exigem que o jovem volte a estruturar sua
tamente prejudicado em seu direito
de freqüentar a escola” (Oliveira; As bandeiras da UEB, em 2007, cita- vida em função da freqüência à esco-
Carvalho, 2007).
15
Como explicita a musiqueta entoada
das nas entrevistas, são: ampliar o valor la, abandonando outros âmbitos que as-
nas passeatas: “Sou, sou estudante que o governo federal investe nas univer- sumem importância para eles (trabalho,
eu sou; eu quero estudar, Imbassahy
não quer deixar”. sidades; construção e financiamento para produção cultural etc.).

44 Ibase | Pólis
De todo o modo, educação parece ser essa formulação de direito à cidade seja
a demanda juvenil mais aceita e incorpo- de apenas alguns atores. Está, historica-
rada por outros atores, vista como a ban- mente, ligada à demanda por direito ao
deira juvenil por excelência, para a qual transporte para estudantes. No caso aqui
existe maior número de políticas públicas estudado (Revolta do Buzu), o que pa-
e projetos da sociedade civil, mesmo que rece ter começado como uma derivação
insuficientes e com diretrizes e condições do direito à educação ganhou significado
de execução criticadas pelos atores. mais amplo, embora controverso, como
Um exame mais detalhado das for- veremos a seguir.
mas com que essa demanda se expres- As discussões relativas ao passe livre
sa pode ser interessante para pensar em e à meia passagem já constavam como
seu significado como direito universal e, demandas históricas das organizações
ao mesmo tempo, singular; ou, em ou- estudantis, que entendem ser essa reivin-
tra chave, direito geral e, ao mesmo tem- dicação uma garantia de acesso à educa-
po, juvenil: educação é um direito que ção. Em Salvador, os estudantes tinham,
diz respeito a todos os cidadãos, mas é em 2003, direito à meia passagem (por
especialmente central em certos perío- meio de um cartão eletrônico que dá di-
dos da vida, como na juventude. Diz res- reito a dois deslocamentos por dia letivo,
peito a todos os segmentos de jovens e o Smart Card). A discussão sobre as ne-
demanda uma política com dimensão de cessidades de mobilidade dos jovens vin-
resposta universal e estruturante. Porém, culada a outros usos da cidade estava
para atender efetivamente as demandas presente nas pautas dos coletivos estu-
concretas das diferentes e desiguais situ- dantis. A interpretação dos entrevistados,
ações vividas pelos jovens, precisa con- no entanto, é a de que foi somente com
siderar tais diferenças e oferecer-se com a Revolta do Buzu que essa demanda foi
uma gama variada de execução, como colocada como reivindicação a fim de ga-
atesta o caso da singularidade da deman- rantir o acesso à educação, ao lazer e à
da dos jovens migrantes sazonais. Como cultura, mas também o direito de ir e vir,
aponta Dina Krauskopf, é preciso que a e o direito ao trabalho.
dimensão universal esteja localizada na O estopim da mobilização não foi
idéia de um direito universal a ser garan- propriamente o passe estudantil, mas o
tido de forma específica, segundo as dis- aumento da tarifa do transporte públi-
tintas e desiguais situações nas quais vi- co, definido pela prefeitura da cidade.
vem os jovens, e não em uma noção de A primeira e principal demanda dos es-
situação universalmente homogênea de tudantes era o retorno do valor da tarifa
juventude, centrada na possibilidade de para R$ 1,30. Ao longo das manifesta-
viver a moratória (dedicação à prepara- ções, especialmente durante as assem-
ção), que não se realiza para todos os jo- bléias realizadas, outras demandas fo-
vens, porque isso acaba por gerar novas ram agregadas à proposta original: meia
situações de exclusão (Dina Krauskopf passagem nos fins de semana, feriados
apud Abramo, 2005). e férias; meia passagem nos transpor-
tes alternativos; meia passagem para es-
Demanda por circulação tudantes de cursinhos pré-vestibular, de
É interessante verificar que o direito à cir- educação profissional e de pós-gradua-
culação, que por vezes se estende à idéia ção; meia passagem nas linhas intermu-
de direito à cidade, tem aparecido de for- nicipais; gratuidade da 1ª via do Smart
ma crescente entre os jovens. É o mote Card; revitalização do Conselho Munici-
de algumas das mais expressivas mani- pal de Transporte; melhoria dos trans-
festações públicas desencadeadas por jo- portes, ampliação da frota e do número
vens do país nos últimos anos, embora de linhas.

Relatório Nacional do Brasil 45


A discussão sobre passe livre, tam- a aceitaram, reiterando a demanda rela-
bém levantada por alguns atores, não foi tiva ao preço, permanecendo mobiliza-
considerada como politicamente possível dos nessa reivindicação por muitos ou-
de ser assumida pelo movimento naque- tros dias.
le momento. Depois dessa mobilização, Para as lideranças das entidades ge-
seguida por uma série de manifestações rais, a aceitação da negociação signifi-
(mais ou menos massivas e impactantes) cava grande conquista política em pelo
em outras cidades do Brasil, a bandeira menos três dimensões: importantes de-
ganhou mais força, gerando, inclusive, a mandas estudantis tinham sido atendidas
conformação de outro ator, o MPL (Movi- (principalmente as que ampliavam o be-
mento pelo Passe Livre). Contudo, não é nefício da meia passagem para outras ca-
uma bandeira consensual (a Ubes não a tegorias de estudantes e o sentido do seu
encampou, por exemplo, nem todas as ju- uso, incluindo outras atividades além da
ventudes partidárias). escola); a mobilização já tinha produzi-
Parece importante refletir sobre a po- do um reconhecimento político da força
lêmica que se configurou no curso do dos estudantes, fortalecendo a disposi-
acontecimento e que tem conseqüências ção para a participação e a organização;
tanto para o seu desenrolar como na in- a produção de um impacto político gran-
terpretação que se faz aqui sobre o senti- de, com o desgaste do partido no poder e
do da demanda. do “carlismo” na Bahia.
Embora acionada e sustentada pe- Para além da interpretação sobre a
los estudantes, proposta num contexto correção de uma ou outra posição, di-
em que as lideranças buscavam meios vergência sobre a valoração das reivin-
de mobilizá-los pela melhoria da qualida- dicações (e do que deveria ser conside-
de do ensino, parte essencial da expres- rado inegociável nelas) pode nos ajudar
são da Revolta do Buzu apontava para o a identificar diferenças na atribuição de
fato de que o reajuste da tarifa de ônibus, sentido à demanda: as lideranças estu-
contra o qual ergueu-se o movimento, in- dantis de entidades gerais (UNE, Ubes)
cidia sobre todos os membros das famí- acentuam o caráter estudantil e juvenil;
lias. Portanto, não se configurava como os outros, a “dimensão geral”, social ou
demanda apenas estudantil ou juvenil, de classe.
mas como bandeira social, “voltada para A questão da demanda do direito à
os interesses de toda a sociedade e, es- circulação e à cidade pode ser toma-
pecialmente, daqueles que ganhavam 1 da também numa outra senda de refle-
(um) salário mínimo ou menos” (Oliveira; xão para desenvolver o debate sobre o
Carvalho, 2007). conteúdo juvenil das demandas e, ain-
Mesmo assumindo como legítimas da, sobre o próprio conteúdo da singu-
as bandeiras que ampliavam o uso do laridade juvenil. Ou melhor, ajudar a ver
passe estudantil, muitas lideranças como demandas gerais podem apre-
(principalmente as ligadas aos grêmios) sentar acentos ou inflexões juvenis mui-
situaram-nas em ordem secundária à do to palpáveis. O direito à circulação é
congelamento da tarifa, que dava o sen- de todos, mas foi levantado e sustenta-
tido social mais amplo ao movimento. do por jovens a partir da situação juvenil
Esse foi o ponto da disputa e divisão no como necessidade que aparece acentu-
movimento. Enquanto as lideranças das ada nessa fase da vida pelos vários pla-
entidades gerais (UNE, Ubes etc.) nego- nos de atividade em que os jovens es-
ciaram com a prefeitura um acordo em tão envolvidos e que se desenvolvem em
torno dessas últimas reivindicações, boa diferentes espaços da cidade: primeiro,
parte das lideranças dos grêmios e mui- a educação, mas também o trabalho, a
tos (a maioria?) estudantes nas ruas não cultura e a diversão, a sociabilidade etc.

46 Ibase | Pólis
A própria necessidade de experimenta- Compreendida e consentida18 pelos
ção e de ampliação das referências, de poderes instituídos como um direito sin-
construção de redes de sociabilidade, gular dos jovens referido à educação (e
leva os jovens a desejarem circular por respondida como subsídio para a garantia
diferentes lugares da cidade. Talvez, por do direito de freqüentar a escola), os mo-
isso, tenha se tornado ponto crucial para vimentos têm expressado, também, ou-
as demandas dos jovens. tros componentes que dizem respeito a
É importante anotar que essa de- outras dimensões da vida dos jovens. A
manda aparece citada por outros jovens demanda relativa à possibilidade de cir-
nesta pesquisa: a meia passagem (as- culação remete a outras gamas de direi-
sim como a meia-entrada em cinema) tos, como o acesso à cidade (o direito de
é citada como direito dos jovens pelos ir e vir), à educação, aos bens culturais,
trabalhadores do telemarketing; a “pos- ao esporte, lazer e trabalho. A questão
sibilidade de livre circulação16 sem as da mobilidade, assim, revela-se condição
barreiras impostas pelo tráfico de dro- para garantia de todos os outros direitos.
gas estabelecido em suas comunida- Além disso, é possível ver aqui uma
des de origem” é identificada como uma disputa pelo significado do que é ser jo-
demanda do jovens do FJRJ; como de- vem, pois a afirmação do direito a realizar
manda expressa pela prática instaura- outras atividades além da formação es-
da pelos jovens do hip hop;17 e também colar, aponta a importância de considerar
está presente entre os jovens do meio que a vida juvenil é composta por múlti-
rural, onde não só a falta ou precarieda- plas dimensões, que requerem respos-
de de transporte escolar aparece como tas múltiplas. Nesse sentido, a diferença
uma das dificuldades para a continuida- de formulação entre subsídio do transpor-
de dos estudos, mas também a deman- te para estudantes ou subsídio para os
da por meios de se deslocar para ati- jovens também revela uma diferença de
vidades de lazer, para a sociabilidade, entendimento sobre quais são os direitos
namoro etc. se revela no desejo de com- considerados legítimos para os jovens ou
prar uma motocicleta com o dinheiro ga- aqueles de quais o Estado deve (ou pode)
nho pelos jovens migrantes na safra da se ocupar. Como um direito “auxiliar” ao
cana quando voltam para suas cidades direito à educação, encontra grande con-
no Nordeste. Não é à toa, aliás, que a cordância e apoio; como direito à circu-
moto seja um símbolo de consumo juve- lação, ao lazer, à experimentação, mui-
16
Note-se que, em momento algum,
nil com tanto apelo. to menos. O que reforça a percepção de qualquer dos entrevistados, seja
A necessidade de circulação pela que, para muitos atores e para a maior jovem ou liderança, tocou no tema
do passe livre, que tem sido uma
cidade revela, também, aquilo que foi parte dos atores no poder público, o direi- das mais importantes bandeiras de
reivindicação dos movimentos juvenis
pontuado em outros momentos des- to essencial que deve e pode ser garanti- (relatório FJRJ).
te estudo: a importância da experimen- do aos jovens é o direito à educação. 17
Como demonstra a fala de um dos
líderes: “aqui na periferia, a gente
tação e da ampliação das redes de re- A posição que os diferentes atores as- procura passar a idéia de que ser
jovem é saber curtir a vida sem se
lações e referências nessa fase da vida. sumem com relação à questão tem a ver, envolver com a marginalidade. O
jovem periférico não está preso à sua
Esse também é um ângulo ainda pou- portanto, com as diferentes compreen- quebrada, ele está sempre circulan-
co incorporado pelos atores e pelas po- sões acerca da singularidade juvenil, acer- do por todos os espaços da cidade;
aí, ele está sempre observando as
líticas: embora demandem equipamen- ca da noção sobre os direitos essenciais coisas, aprendendo com elas e se
inspirando nelas. Ele tem inteligência
tos e atendimentos descentralizados nos e o papel que cabe ao Estado na sua ga- e a vida é sua escola. Ele quer se
divertir, mas está aprendendo com
bairros ou nas comunidades, os jovens rantia, mas também com a posição que tudo o que está ao seu redor.” (DJ
não querem ficar aí “confinados’, que- ocupam como atores e seu papel institu- Nino – Entrevista, concedida em 29
de junho de 2004, que faz parte do
rem poder fruir os equipamentos, os es- cional: parte da discordância de lideran- relatório A família do Morro do Bom
Jesus – Alves, Alvim, 2007)
paços e as oportunidades de outros pon- ças ligadas a entidades gerais em assumir 18
Na medida em que é reconhecida
tos da cidade, querem, portanto, ter o a bandeira de “passe livre”, assim como como bandeira legítima e que gera
diferentes tipos de resposta a seu
direito à “cidade”. a de subsídio para todos os jovens em vez atendimento.

Relatório Nacional do Brasil 47


de só para os estudantes, está ligada à im- rentes interpretações sobre o sentido e o
portância que a emissão das carteirinhas peso que deve ter no debate sobre a ju-
têm para a sustentação de sua identidade ventude, assim como das respostas que
e estrutura organizacional. Por outro lado, podem ser acionadas. Para muitos ato-
a posição contrária às mesmas bandeiras res, o trabalho é percebido mais como
por parte de muitas lideranças juvenis li- uma necessidade que denuncia as desi-
gadas aos partidos de esquerda está rela- gualdades e os impasses do modelo eco-
cionada à posição como gestores de exe- nômico vigente que como direito a ser
cutivos locais, pensando a partir da lógica garantido aos jovens
da capacidade dos cofres públicos arca- Com relação à idéia de “direito” asso-
rem com esse tipo de subsídio. ciado ao trabalho, a formulação que apa-
rece mais freqüentemente diz respeito
Trabalho aos “direitos trabalhistas”, valorizado pe-
A demanda por trabalho está presente los jovens, explicitado e constituído como
para todos os jovens dos segmentos estu- bandeira e mote de luta dos atores rela-
dados como questão bastante importan- cionado aos jovens trabalhadores.
te. Demanda que se apresenta com sen- Segundo Maria Carla Corrochano e
tido, intensidade e urgência variada e, Érica Nascimento, o tema tem se de-
principalmente, com recursos diferentes senvolvido no país com base em uma
para a sua resolução, gerando, também, ótica dominante, mas é atravessado por
formulações e ensejando diferentes tipos polêmicas:
de estratégias individuais e coletivas para É principalmente em torno dos índi-
o enfrentamento do problema. ces de desemprego que a deman-
Está presente, de forma urgente e in- da por trabalho de jovens emerge na
tensa, entre os trabalhadores da cana, cena pública brasileira. Inicialmen-
que se submetem à dureza do corte ma- te, não é o salário ou as condições
nual e da migração sazonal justamente de trabalho a que os jovens estão su-
por não encontrarem alternativas de tra- jeitos que mobiliza atores e interven-
balho no local de origem; entre os inte- ções. No interior da constituição de
grantes do hip hop, que relatam a dificul- um campo de políticas públicas di-
dade de encontrar alternativa de inserção rigidas a jovens que vem se consoli-
produtiva; entre os jovens dos projetos dando desde meado dos anos 90, as
reunidos no FJRJ, que citam o acúmulo ações e seus objetivos concentram-
de expedientes que necessitam acionar se em buscar maneiras de enfrentar
para garantir alguma renda (entre elas, a situação de desemprego (Corrocha-
as bolsas e os apoios oferecidos nos pro- no; Nascimento, 2007).
jetos); entre os operadores de telemarke-
ting, que se submetem à dureza desse É importante lembrar que, muitas
tipo de trabalho. Mesmo os líderes estu- vezes, o trabalho aparece mais como
dantis, que não arrolam o tema em suas um dos modos de enfrentar a violência
pautas, quando perguntados sobre as do que como um direito das gerações
principais dificuldades enfrentadas pelos mais jovens. Por outro lado, a aborda-
jovens hoje, afirmam que elas estão rela- gem da questão fica centrada, na maior
cionadas ao trabalho. parte das vezes, na baixa formação edu-
A maioria dos atores pesquisados cacional formal e profissional dos jovens
também identifica o trabalho como tema brasileiros como fator determinante da
de grande importância para os jovens, montagem do problema (basta lembrar
embora apenas em alguns casos o tema a centralidade do tema da educação nos
se traduza em reivindicações ou se cons- documentos das centrais relativos ao
titua em mote de mobilização. E há dife- trabalho dos jovens). E, desse modo, seu

48 Ibase | Pólis
mitigamento deve ser enfrentado, fun- Uma das observações interessantes
damentalmente, no campo da melhoria nesse sentido é que os jovens deman-
das condições de educação e formação dam “não apenas trabalho, mas trabalho
dos jovens. Assim, ao lado de deman- decente”, como conclui o estudo sobre
das por geração de emprego e renda, os jovens no telemarketing (Corrochano;
ganham centralidade as demandas por Nascimento, 2007). É recorrente a ex-
educação e formação de várias ordens. pressão do desejo de outro trabalho, de
Para muitos, trata-se não de pensar em um trabalho melhor, de melhorias no tra-
ações de apoio à entrada no mundo do balho que se exerce ou de um trabalho
trabalho, mas de garantir a criação de digno. No entanto, há poucas formula-
condições que permitam aos jovens con- ções explícitas e públicas nesse sentido,
tinuar os estudos em vez de trabalhar, gerando parcas mobilizações e respostas.
apoiando-se na consideração de que o Como apontam os dois estudos focados
que faz diferença para os jovens é a for- no tema do trabalho, apenas recente e ti-
mação escolar. midamente os aspectos relacionados às
O estudo sobre telemarketing apon- condições de trabalho, jornada e salários
ta que outras percepções têm sido ex- dos jovens têm aparecido no debate pú-
postas no debate (citando mais especifi- blico e gerado mobilização de atores. No
camente a publicação feita pelo Conjuve, entanto, são ainda poucas as respostas
em 2006, e o relatório da Organização de ações governamentais.
Internacional do Trabalho – OIT –, em No caso dos trabalhadores do cor-
2007), principalmente atentando para o te de cana, por exemplo, as entrevistas
lugar que tem o trabalho na vida dos jo- feitas levaram à interpretação de que
vens e para os diferentes significados que o trabalho é necessário para garantir a
pode assumir. Além disso, o estudo apon- vida para si e sua família e para a rea-
ta a necessidade de ultrapassar a polari- lização de sonhos de consumo, princi-
zação entre perspectivas de reter o jovem palmente os relacionados a atividades
fora do mundo do trabalho, ou apoiar sua de sociabilidade, lazer e aparência jo-
entrada, e de preocupar-se com a quali- vem (aparelho de som, moto, roupas).
dade de sua relação com o trabalho e o Seu sentido está ligado, também, ao de-
desenvolvimento de iniciativas para a ga- sejo de experimentar e se emancipar,
rantia dessa qualidade. de alterar a posição subordinada den-
A opinião dos entrevistados acompa- tro da família e garantir possibilidades
nha as percepções e polêmicas vigentes de transição para a vida adulta (estrutu-
a respeito do tema. No entanto, nas en- rar a própria casa). Assim, é recorrente
trevistas, muitos jovens expressam que o a explicitação de que o trabalho na cana
trabalho assume um sentido de neces- é a única saída (e, por isso, é valoriza-
sidade não apenas em função da ren- do – eles, por exemplo, não concordam
da imediata (para ajudar o orçamento da com a proposta de fim do corte manual
família ou para propiciar a obtenção de da cana), mas todos desejam sair dele
itens de consumo, de lazer, de formação para um trabalho melhor (menos duro e
etc.), mas como componente fundamen- esgotante) ou para viver a condição de
tal de construção de uma trajetória de in- agricultor em melhores condições. Esse
serção profissional aliada à escolaridade, é o único segmento no qual a deman-
que auxilia na formação da experiência, da por trabalho parece vir em primeiro
na localização no mundo do trabalho e lugar, na frente de todas as outras, até
na formação de redes de contato. Logo, mesmo da educação.
aparece também como aspiração e com- As demandas por trabalho, nes-
ponente estratégico na demanda por in- se caso, apresentadas pelos atores com
serção social. quem os jovens se relacionam (sindicatos

Relatório Nacional do Brasil 49


rurais e Pastoral do Migrante), se reve- viais paulistas, trata-se de aprimorar
lam em diferentes planos: para alterar as os mecanismos de controle da me-
condições do trabalho no corte da cana, tragem e do peso da cana cortada,
a mudança do padrão de produtividade de reduzir o padrão de produtividade
e o controle sobre as condições de traba- imposto pelas usinas no corte manu-
lho, assim como atenção à saúde do tra- al para retirar os trabalhadores de um
balhador; para a construção da possibi- ritmo alucinante de trabalho. Esse rit-
lidade de conseguir um trabalho melhor, mo desafia os limites da capacidade
aumentar a escolaridade e a qualificação, física, tornando os jovens vulneráveis
com a possibilidade de conciliação en- às doenças e à virtualidade de mortes
tre trabalho e estudo, seja para mudar de prematuras. Tais medidas poderiam
ramo ou para assumir outras funções nas evitar as cruéis conseqüências da pa-
empresas sucroalcooleiras; para a possi- radoxal convivência entre situações
bilidade de se estabelecer como agricul- de trabalho indigno e a retórica dos
tor nas terras de origem, apoios específi- prêmios e da auto-estima
cos para produção familiar que possam (Novaes, J., 2007).
ser acessados pelos jovens. Como obser-
va José Roberto Pereira Novaes, a de- No caso dos jovens do hip hop, os en-
manda relativa às ações de fiscalização trevistados se referem às dificuldades para
das Delegacias Regionais do Trabalho para encontrar trabalho em função da baixa es-
evitar infrações dos direitos dos trabalha- colaridade, da baixa qualidade da escola-
dores e das trabalhadoras previstos em lei, ridade alcançada e da falta de profissio-
acordos e convenções coletivas, tanto no nalização, agravadas pelas discriminações
meio sindical, quanto nos espaços gover- (racial, de local de moradia e de identi-
namentais ou nas ONGs, é algo novo: dade cultural – há um relato de discrimi-
Só foi muito recentemente incluí- nação no trabalho pela associação entre
do entre demandas ligadas à juven- ser rapper e ser “maloqueiro”). Nas falas,
tude. Mesmo que – quando se fala aparece, também, a percepção que a falta
em trabalho de jovens no campo fora de alternativas empurra jovens para bus-
da agricultura familiar – os exemplos car saídas de auto-sustentação na “via do
mais recorrentes sejam situações ca- crime”. Há a percepção de que a educa-
racterizadas como ‘trabalho infantil’ ção alcançada, mesmo com o ensino mé-
e o ‘trabalho escravo’, podemos dizer dio, não os habilita para encontrar tra-
que a situação dos jovens canavieiros balho digno, nem possibilita aos jovens
começa a ganhar alguma visibilidade margem de escolha de profissionalização
(Novaes, J., 2007). ou emprego. O trabalho, assim, aparece
quase como “privilégio da “burguesia”.19
No estudo sobre os trabalhadores da Há vários relatos apontando que o pou-
cana, conclui: co trabalho encontrado é desqualificado,
É preciso que se ampliem e se diver- precário, irregular, de baixa remuneração.
sifiquem as possibilidades de inser- Nesse sentido, se expressa também uma
ção produtiva para que as migrações demanda por trabalho “digno” (como está
de jovens passem a ser escolhas me- na fala de um deles), e a saída perseguida
nos compulsórias. Se diminuírem os tem sido a da profissionalização por meio
fatores que caracterizam a disparida- da própria produção cultural: a busca de
de regional, os jovens nordestinos se se profissionalizar pelo rap e pelo grafite.
19
“Enquanto a burguesia tá traba-
lhando / Meu filho com uma faca está apresentarão nos canaviais paulistas O tema aparece nas letras de rap (que é
roubando / Se não for eu, sempre
aparece mais um / Não tem comida
em menor número e, por conseguin- a forma por excelência de expressão de
na panela, entra na casa e mata um” te, estarão menos vulneráveis e serão suas questões), como neste trecho: “Que-
(trecho do rap Que vida é essa..., de
Tiziu, Poder Negro). menos descartáveis. [...] Nos cana- remos é trabalhar e não meter o ‘oitão’,

50 Ibase | Pólis
ganhar o nosso com dignidade, viver nos- ção trouxe importantes aprendizados so-
sas vidas sem criminalidade, ser um pai bre as potencialidades e os desafios da
de família pobre e honrado, e não querer implementação de outro modo de relação
ser um ladrão pobre e fracassado”. econômica e sobre a demanda por possi-
O trabalho também está presente na bilidades de inserção econômica dos jo-
pauta do AIJ, na medida em que é parte vens em bases de relação não capitalistas.
das demandas dos grupos e movimentos Os integrantes do COA – que por um
juvenis que integram os acampamentos bom tempo se dedicaram quase integral-
e o FSM, assim como na prática exerci- mente à realização dos AIJ, subordinando
tada durante os AIJ pelo desenvolvimen- tempo de formação e inserções no mun-
to de experiências de economia solidária do do trabalho a essa organização –, agora
(tomada como uma bandeira). No entan- que já não estão mais dedicados à militân-
to, aí já está com um sentido de transfor- cia no COA, envolveram-se na construção
mação, como via de construção de outro de alternativas pessoais de trabalho afina-
modelo econômico de produção. das com as bandeiras desenvolvidas du-
Em documento do AIJ estabelece-se: rante a experiência e com os “princípios
O objetivo de trabalhar com ações de um novo mundo” (economia solidária,
que sejam uma alternativa real ao ca- recursos alternativos etc.).
pitalismo, onde neste espaço insti- No caso dos jovens do telemarketing,
garemos a organização de uma eco- é onde a demanda por trabalho, na sin-
nomia autogestionária, cooperativa, gularidade da juventude, está mais expli-
democrática e justa, estando esse citamente desenvolvida, embora alcan-
tema também relacionado a diversos ce ênfases e ângulos diferentes por parte
eixos de trabalho e discussão, como dos jovens trabalhadores, por parte dos
sustentabilidade ambiental, soberania jovens sindicalistas e por parte das insti-
alimentar, comércio justo e solidário, tuições do movimento sindical, como as
educação econômica, saúde, gênero, centrais sindicais:
etnia, entre outros. Nos discursos dos jovens trabalhado-
res, esteve implícita a reivindicação
Baseado nesses princípios e buscan- por trabalho decente quando se pon-
do ‘outra lógica econômica’, foram im- dera as críticas aos baixos salários
plantadas, nos acampamentos, práticas e à pressão por produtividade, bem
como a vigência de uma moeda social (o como a dois dos efeitos perversos da
sol), grupos de trocas solidárias e a poten- terceirização do setor – a alta rotativi-
cialização e o fomento de grupos autoges- dade e a redução dos benefícios ofe-
tionários e cooperativados por meio do for- recidos. As reclamações, no entanto,
necimento de produtos para as praças de dirigem-se às condições de trabalho,
alimentação. E, conjuntamente com es- não ao fato de estarem trabalhando,
sas práticas, existia a discussão conceitu- pois o trabalho aparece como um va-
al da temática, problematizando a questão lor importante: está associado à inde-
do consumo e buscando ampliar o debate pendência financeira e, especialmen-
sobre economia solidária. Uma das con- te, à possibilidade de construírem
vicções é a de que para criar outra for- melhores condições de inserção futu-
ma de produção é preciso, também, criar ra (Corrochano; Nascimento, 2007).
nova concepção de ‘cultura de consumo’. 20
É interessante observar que os
Certamente, houve limites no fornecimen- Em outro trecho, observam que o jovens nomeiam o que estão consi-
derando experiência: para além do
to dos produtos, pouca estrutura dos gru- trabalho faz sentido, também, porque registro em carteira, que aparece com
pos autogestionários e cooperativados, agrega experiência e aprendizado, assim mais freqüência, a importância de ser
“apresentado” ao mundo do trabalho,
pouca adesão à moeda social, mas a ex- como amplia as redes que ajudam a sua de conhecer seu espaço, suas regras,
enfim, de ser socializado em seu inte-
periência dessas práticas de implementa- inserção laboral.20 rior (Corrochano; Nascimento, 2007).

Relatório Nacional do Brasil 51


Os problemas sentidos no trabalho demandas ainda está em construção.
têm a ver com: Os coletivos juvenis das centrais sindi-
A falta de confiança na indicação para cais têm localizado como problema a ser
os cargos de liderança nas empresas enfrentado o fato dos jovens serem um
ou, ainda, o desrespeito por parte dos segmento particularmente afetado pela
adultos aos chefes mais novos, vis- reestruturação produtiva e com menor
to que os jovens são percebidos, fre- participação no sindicalismo. Por isso,
qüentemente, como ‘inexperientes’, parte da energia está voltada para:
‘irresponsáveis’ ou ‘incapazes’. [...] A ampliação dos espaços dos jovens
Além disso, muitos jovens considera- no sindicalismo, seja porque querem
ram que seus direitos não são respei- publicizar suas singularidades, seja
tados no ambiente do trabalho. O que porque almejam estender suas con-
a maior parte deles entende como ‘di- tribuições para além de coletivos es-
reitos trabalhistas’ mescla conquistas pecíficos ou, ainda, porque não pre-
gerais dos trabalhadores, como o re- tendem ser percebidos apenas como
cebimento do salário e do vale-trans- ‘dirigentes do futuro’, alvos de forma-
porte, as férias anuais e o Fundo de ção constantes para renovação dos
Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) quadros dos sindicatos (Corrochano;
e outras relacionadas ao trabalho em Nascimento, 2007).
telemarketing, como a proibição do
assédio moral, as pausas para des- Com relação à questão do trabalho,
canso, para lanche e uso do banheiro muitos deles enxergam como limitado o
(Corrochano; Nascimento, 2007). papel do sindicato na geração de novos
postos de trabalho, embora reconheçam
A carteira assinada é muito valoriza- que a demanda por trabalho para jovens
da, uma vez que permite a garantia dos deve ser uma das bandeiras. Nesse sen-
direitos trabalhistas, além de atestar a ex- tido, as pautas parecem estar ainda em
periência exigida para iniciar o desenvol- construção: além de bandeiras genéri-
vimento da trajetória de trabalho. cas como demandas de políticas de ge-
É possível perceber que a carga horá- ração de emprego e renda para os jovens
ria também se configura como demanda e, em muitos documentos, fazendo refe-
dos jovens: rência explícita ao Programa Nacional do
A existência de postos de trabalho Primeiro Emprego (PNPE), demandando
com cargas horárias que permitam seu aprimoramento e aprofundamento,
conciliar trabalho e estudo. Para esses apresentam preocupação com a explora-
trabalhadores, a jornada semanal re- ção dos jovens nos ambientes de traba-
duzida é um dos pontos mais atrativos lho; dificuldade para assumirem postos
do setor, visto que o estudo é perce- de chefia nas empresas; e precarização
bido como instrumento para a obten- dos estagiários.
ção de postos de trabalho mais qualifi- No entanto, no caso do ator principal,
cados e, por conseqüência, melhores o Sintratel, há uma inflexão diferenciada:
condições de vida para esses jovens Registra-se um esforço na sua histó-
e suas famílias. Além disso, essa ne- ria de atuação de incluir bandeiras
cessidade avança e se acentua com de luta que combatam a precarização
a chegada ao Ensino Superior (Corro- do trabalho em telemarketing, bem
chano; Nascimento, 2007). como de criar estratégias de amplia-
ção da participação juvenil valendo-
Com relação aos atores sindicais, a se do uso de linguagens e formas de
percepção a respeito da singularidade contato mais informais (Corrochano;
da juventude no tema do trabalho e suas Nascimento, 2007).

52 Ibase | Pólis
Há um investimento na formulação pode estar relacionado ao surgimen-
de demandas específicas relativas às con- to de doenças e pouco se interessam
dições de trabalho dos jovens no setor. A por atividades de prevenção
pauta pública inclui a demanda de gera- (Corrochano; Nascimento, 2007).
ção de primeiro emprego, a luta pela regu-
lamentação do estágio, a proteção à saú- Uma percepção parecida reforça a
de e ao assédio moral e sexual, a redução proposição de desenvolver o tema do as-
da jornada e piso salarial. Além disso, há sédio moral com jovens trabalhadores.
o oferecimento de benefícios na forma de Por desconhecerem seus direitos no am-
cursos de qualificação e convênios com biente de trabalho, ficam mais expostos
escolas de idiomas, facilidades para ba- às pressões e constrangimentos daqueles
rateamento das mensalidades e a monta- que ocupam cargos de chefia.
gem de um banco de currículos. No en- Uma reflexão associada pode ser ano-
tanto, suas mobilizações estão, de modo tada aqui: a de que, em todos os segmen-
geral, menos voltadas para a geração de tos estudados, o tema da saúde aparece
novos empregos e mais direcionadas à vinculado ao trabalho, tanto no caso dos
construção de políticas que contribuam jovens do telemarketing como no dos tra-
para melhorar as condições de trabalho, balhadores da cana, relacionado ao des-
combatendo a precarização dos postos gaste excessivo (físico e mental) produzi-
em telemarketing, e a um esforço de pro- do pelo tipo e pelas condições de trabalho,
piciar mais qualificação. A primeira ban- além de doenças associadas (com decor-
deira de luta do Sintratel foi a negociação rências fatais no caso da cana).
do piso salarial da categoria. Uma das lu- No entanto, no caso dos trabalhadores
tas atuais mais importantes (realizada em de corte de cana há uma complexidade:
um amplo processo de negociação com o seus integrantes são os únicos que citam a
Ministério do Trabalho e Emprego – MTE – demanda por atendimentos e equipamen-
e sindicatos patronais) se dá em torno da tos de saúde (como hospitais) nas cidades
aprovação de uma norma regulamentado- onde moram suas famílias. Mas, o que
ra que abranja aspectos relacionados à se- de fato está em jogo para eles é contornar
gurança e saúde dos profissionais em te- problemas de saúde até – pelo menos – o
lemarketing.21 É interessante verificar que, fim da safra, uma vez que ficar doente ou
no caso do Sintratel, a experiência, a iden- se acidentar (o que é muito comum na si-
tidade e a demanda juvenil estão intrinse- tuação em que trabalham) pode signifi-
camente ligadas: car o desemprego ou a diminuição do ga-
A inclusão da saúde no ambiente do nho (que é por produção). Talvez, por isso
trabalho como uma bandeira relacio- mesmo, não seja comum ouvir demandas
nada aos jovens se justificaria porque explícitas sobre acesso a equipamentos de
se trata de uma profissão que acar- saúde, embora seja mote de ação por par-
reta grande desgaste físico e mental te dos atores que representam seus inte-
e expõe ao risco de doenças por es- resses (pastoral e sindicatos).
forço repetitivo ou psicossomáticas, Nos dois casos, essas questões ge-
sobretudo porque boa parte dos pro- ram demandas e impulsionam ações de
fissionais em telemarketing concilia denúncia e proposição de políticas pelos
mais de um trabalho ou a atividade atores que representam os trabalhadores.
profissional com o estudo. Uma das É interessante pensar que o tema tem es-
lideranças argumentou que a saúde tado ausente dos debate sobre políticas
deve ser o centro da atuação sindical de juventude que, nesse campo, se con- 21
Anexo II da Norma Regulamen-
tadora 17 (NR-17), aprovada pela
quando se trata de trabalhadores jo- centram sobre questões ligadas à sexuali- Portaria 9 do Ministério do Trabalho e
vens, porque eles são os que menos dade e a problemas advindos de compor- Emprego, assinada em 30 de março
de 2007 e que passou a vigorar em 2
percebem que o ambiente de trabalho tamentos de risco. de julho do mesmo ano.

Relatório Nacional do Brasil 53


Cultura ser considerado por aqueles que estão
A demanda por cultura, muitas vezes as- buscando novas formas de mobilizar a ju-
sociada à diversão e à sociabilidade, está ventude brasileira.
presente (algumas vezes de forma diluí- No âmbito do sindicalismo, a cultu-
da) em quase todos os segmentos. ra (com a diversão e, às vezes, com a in-
Em alguns casos, aparece como de- ternet) também se estrutura como servi-
manda expressa, vinculada, associada ço demandado ou valorizado pelos jovens
ou explicitada por outras, como educa- e como benefício oferecido pela organiza-
ção e passe estudantil: a demanda por ção. O Sintetel (o outro sindicato que re-
extensão de seu uso nas férias e nos fins presenta a categoria dos trabalhadores
de semana se dirige ao direito do jovem de telemarketing), por exemplo, planeja
de acessar atividades de lazer, cultura e a construção de um espaço de convivên-
esporte, segundo a formulação das enti- cia e atividades culturais (espécie de café
dades e lideranças. No entanto, mesmo com lan house) dentro do sindicato, com
aqui, não é claramente tida por todos os acesso à internet e direcionado aos jo-
atores envolvidos nesse tipo de mobiliza- vens trabalhadores em telemarketing.
ção como uma demanda “em si”: a ga- É importante registrar que, no caso
rantia do acesso à cultura no fim de se- dos jovens trabalhadores do telemarke-
mana ou nas férias para os estudantes ting, atividades culturais e de diversão,
aparece, na fala do dirigente da UNE, equipamentos como bibliotecas e espa-
como demanda que faz sentido relacio- ços de cultura, lazer e esporte nas peri-
nada à educação, como experiência que ferias são citados, freqüentemente, como
complementa a formação escolar do es- direitos e sugestões de políticas públicas
tudante. Para outros atores, contudo, a importantes para os jovens ao lado da
cultura é arrolada como item específico educação e do trabalho.
ao lado da educação e do lazer, como di- Na experiência do AIJ, a cultura apa-
reito dos jovens, e não apenas dos estu- rece, como questão, de diferentes manei-
dantes. Aliás, é importante perceber que ras. É uma das principais bandeiras dos
os jovens citam a cultura como direito movimentos e das organizações juvenis
mais freqüentemente que outros atores que acorrem aos acampamentos (arrola-
não juvenis. da ao lado de educação e trabalho), inclu-
A cultura, muitas vezes, aparece tam- sive dos que estão no centro de sua organi-
bém como estratégia de agregação e mo- zação: grupos e movimentos culturais estão
bilização dos jovens ou como recurso de citados como parte do “segundo anel” de
comunicação no interior dos objetivos de organização (ver Fischer; Corrêa; Amaral,
organização dos atores, como parece ser 2007), e vale lembrar que uma integran-
o caso dos sindicalistas. O Sintratel, par- te do hip hop está no COA. Por outro lado,
ticularmente, se singulariza pelo uso “efi- é um dos eixos centrais de sua constituição
caz” dessas atividades como forma de como experiência, na expressão da diversi-
reunir e chegar aos jovens (as assem- dade e na experiência da troca, ambas di-
bléias-baladas, por exemplo). A organi- mensões bastante valorizadas. Quando se
zação de atividades culturais e esportivas propõem como “cidade das cidades”, uma
pelo sindicato é uma das primeiras mar- das definições que o acompanha é a de ser
cas da “juvenilização” da diretoria quan- um espaço multicultural, “uma cidade cos-
do ela assume essa identidade como mopolita, poliglota, multicultural, multirra-
marca central. Interessante é a observa- cial e multissocial”. Quando, no segundo
ção anotada por Maria Carla Corrochano AIJ, um documento de avaliação enume-
de que o hip hop é tido pelas lideranças ra as experiências que se pretendeu imple-
e pelos dirigentes sindicais como mode- mentar, a cultura aparece assim definida:
lo de atuação cultural e política que deve “feita pela troca de experiências e visões de

54 Ibase | Pólis
mundo dos diferentes participantes, de di- O diferencial entre o que o governo faz
versas origens, uma prática onde todos par- e propõe é que os jovens demandam
ticiparam como produtores de cultura” (ver essa herança da experiência dos AIJ:
Fischer; Corrêa; Amaral, 2007). um espaço físico que contemplasse a
Interessante perceber que, para além criação de um telecentro, uma incu-
de uma atividade do acampamento, a cul- badora e um posto de venda de ini-
tura passa a ser considerada eixo estru- ciativas cooperativadas, um espaço
turante: em 2005, deixa de ser o tema de de atividades culturais [...] um espa-
uma comissão, como era desde 2001, ço gestionado por jovens, direciona-
para ser considerada do principalmente a jovens, através do
elemento da identidade cultural dos qual fosse possível expressão cultural
participantes. A proposta, então, e geração de emprego e renda
era promover espaços de expressão (Fischer; Corrêa; Amaral, 2007).
cultural, tendo a cultura como eixo
transversal. A comissão de progra- Para o hip hop, a cultura é tema e
mação passa a ter esta preocupa- bandeira central, arena e instrumento pe-
ção: dinamizar e possibilitar diferen- los quais se constituem como atores. Como
tes expressões culturais para além da lembram Adjair Alves e Rosilene Alvim, o
apresentação em palcos próprio hip hop se define como “cultura
(Fischer; Corrêa; Amaral, 2007). de rua”. A demanda, aqui, abrange ampla
gama de dimensões. Passa pela importân-
Essa reunião cultural é, também, um cia do resgate dos diversos níveis de an-
dos elementos que mais visibilidade confe- coragem social – a cultura negra, a cultu-
rem ao experimento, exatamente por essa ra nordestina, a cultura da periferia, todas
exposição da diversidade e da experimen- ocupando posição de subordinação e dis-
tação libertária. Nesse sentido, o acampa- criminação na sociedade brasileira –, tor-
mento torna-se referência cultural para os nando-se elemento de afirmação e cultivo
jovens da cidade de Porto Alegre, que viam para produzir uma reversão na valorização
nele um espaço de congregação, território social de sua constituição como sujeito,
de liberdades, de festa, de badalação. Esse uma superação do preconceito. É uma luta
foi um elemento que fez com que o AIJ simbólica pelo reconhecimento, como ana-
apresentasse outra faceta para a cidade, lisam Adjair Alves e Rosilene Alvim.
muitas vezes ‘desfocada’ de sua propos- Passa, também, pela construção do
ta, e fosse mostrado como um novo ‘Woo- hip hop como constelação de referências
dstock’. Esse sentido será tema de reflexão para os jovens de seu segmento (pobres
e campo de disputa com a mídia. Os ato- e negros das periferias), que buscam ofe-
res (COA) buscaram ressaltar a dimensão recer não apenas elementos positivos
transformadora do encontro cultural frente de construção de identidade e fortaleci-
a uma visão desqualificadora da dimensão mento de auto-estima, mas sinalizações
“festiva” atribuída pela mídia. de comportamento individual e coletivo,
Além disso, os entrevistados (inte- além de enquadramentos para o compar-
grantes do COA) pretendem um efei- tilhamento de uma “visão de mundo”, de
to de interferência da experiência do AIJ uma conscientização social e política.
na formulação de outra possibilidade de Gera demandas concretas relativas a
pensar políticas de cultura, como no caso ações e políticas culturais: tanto equipa-
dos Pontos de Cultura (programa do Mi- mentos para fruir e produzir cultura na ci-
nistério da Cultura). Essa demanda se ex- dade e nos bairros, como para reverter o
plicita na fala de um dos integrantes, in- sentido ou aprimorar outras políticas ofe-
clusive na sua diferença com aquilo que recidas aos jovens. Entre as demandas
parece ofertado pelo poder público: que a FMBJ apresentou aos poderes

Relatório Nacional do Brasil 55


locais (e conquistou) estava a constituição Segurança
de um espaço para reunião e desenvolvi- Citada como preocupação por jovens de
mento de suas atividades culturais. Essa, quase todos os segmentos, sua expressão
na verdade, parecia a demanda concreta como questão e como mote de mobiliza-
mais imediata dos integrantes dos grupos ção é mais referida em duas situações:
que conformaram a FMBJ: “a questão da a dos jovens do hip hop e a dos jovens
manutenção dos projetos, em virtude de dos projetos do Rio de Janeiro. Nos dois
que eles precisavam comprar tinta para casos, é a violência policial que apare-
as oficinas de grafites, equipamentos ele- ce como tema principal. A violência pro-
trônicos, aluguel do espaço físico para duzida pelo crime organizado, que atrai e
reuniões, água, luz e alimentação, pare- atinge jovens, é tema bastante recorren-
cia ser a questão mais imediata” (Alves; te dos jovens do hip hop, principalmente
Alvim, 2007). Por outro lado, a deman- na expressão pública realizada através de
da por escola, para eles, se qualifica na suas músicas, como denúncia da falta de
medida em que consiga incluir a questão perspectivas para os jovens das perife-
cultural, em que se abra para respeitar a rias e como alerta para que os jovens não
identidade e abrir diálogos a respeito de “escolham esse caminho”.
suas referências culturais, e na medida No caso do Rio de Janeiro, a questão
em que possa comportar suas atividades da violência aparece de forma especial. É
e contribuições nesses sentidos também. um dos principais problemas que afetam
A produção cultural se torna, igual- os jovens, inclusive no seu direito à circu-
mente, meio para construir a inserção so- lação, uma vez que jovens de uma comu-
cial, e a possibilidade profissional: os pro- nidade dominada por uma facção crimi-
jetos atuais de todos os integrantes da nosa correm se vão a outra dominada por
FMBJ passam pelo esforço de construir outra facção risco – suspeitos de perten-
alternativas de profissionalização e gera- cerem a uma delas, de estarem levando
ção de renda com base na produção cul- recados ou outras tarefas. Esse é um dos
tural. Na análise de Adjair Alves e Rosi- motivos que parece explicar a dificuldade
lene Alvim, aqui se trata da cultura como de juntar em atividades – e mesmo nos
“possibilidade de redistribuição”. Encontros de Galeras – jovens de diferen-
No caso dos trabalhadores rurais, em- tes bairros e comunidades. Foi tema de
bora as entidades gerais, como a Contag, debate do Fórum de Juventudes do RJ
formulem em seus documentos demandas pelo menos em três ocasiões: como um
no sentido de criação de programas des- dos temas do encontro vivenciado pela
tinados a atender demandas de esporte, pesquisadora, em junho deste ano; num
cultura e lazer nos assentamentos rurais, encontro para tratar da questão da re-
nas comunidades quilombolas, de ribeiri- dução da maioridade penal no momento
nhos e comunidades de agricultura fami- em que muitos atores, defensores dos di-
liar, os jovens entrevistados, enquanto tra- reitos humanos no Brasil, tentam articu-
balhadores sazonais na região produtora, lar oposição à iniciativa desenvolvida no
não chegam a formular reivindicações em Congresso Nacional para reduzir a idade
termos de acesso ao esporte e ao lazer. A da responsabilização penal; e por ocasião
hipótese mais óbvia é que as restrições na da realização dos Jogos Pan-america-
área de educação e de inserção produtiva nos no Rio de Janeiro, também em 2007,
em suas vidas são tão evidentes que aca- para debater iniciativa do poder público
bam por silenciar demandas consideradas federal, que organizou uma “guarda cívi-
menos prementes: “O tempo é curto para ca” para atuar no evento como guia para
curtir a juventude, pra ser jovem. Chega o os espectadores composta por adoles-
sábado e você já vai pensando na segun- centes das áreas da cidade mais afetadas
da-feira” (Novaes; J., 2007). pela violência.

56 Ibase | Pólis
No entanto, nessa situação-tipo, pa- mília MBJ. Um dos motivos citados pelos
rece que uma das dimensões da violên- entrevistados para a conformação do gru-
cia – a produzida pelo crime organiza- po foi mostrar para a sociedade que eles
do contra os próprios jovens moradores não eram bandidos. Como mostra um
das favelas – está interdita nesse espaço, dos jovens entrevistados, quando aponta
não sendo tratada em nenhum momento, as “bandeiras” de cada grupo de hip hop
nem nos debates organizados nos encon- que compõem a articulação da FMBJ,
tros, que ficaram centrados sobre o tema esse tema é um dos mais presentes:
da violência policial contra os jovens. A A questão da violência praticada con-
pesquisadora se interroga sobre o sentido tra os jovens do morro, porque a polí-
dessa ausência, aventando o receio de cia quando subia o morro não queria
provocação de represálias sobre os pró- saber quem era quem. Subia atiran-
prios jovens. do e derrubando portas de barracos,
O tema da redução da maioridade batendo na gente, numa demonstra-
penal também está presente para as li- ção de pura brutalidade contra os jo-
deranças de outros segmentos, como no vens, que era aquele lado mais obs-
caso das lideranças estudantis, mas não curo enfrentado pela juventude. Essa
apareceu como mote de atuações, embo- era a mensagem da Juventude San-
ra saibamos que as entidades estudan- grenta, que tinha como objetivo de-
tis estejam engajadas nos movimentos de nunciar e lutar contra a violência do
resistência contra a redução, assim como sistema e também do crime. Bando-
certas entidades sindicais e os movimen- leiros do Agreste, que procura mos-
tos vinculados ao hip hop. trar as ações de grupos de extermí-
No caso dos jovens do hip hop, a vio- nios, que agem nas caladas da noite
lência policial é vivida como um dos mais tirando a vida de nossos jovens e pais
contundentes fatores de discriminação e de família no morro. A Voz do Morro,
desrespeito aos direitos de cidadania. “A retratando o lado da infância perdida
questão da violência, da identidade nega- no crime (MC JC).
da, está sempre presente na leitura que o
rapper faz sobre a forma como o sistema, Sua estratégia de luta, além da de-
representado pela polícia e pelas institui- núncia da violência sofrida sempre pre-
ções sociais, lêem a realidade” (Alves; Al- sente nas músicas e nos grafites, é a do
vim, 2007). Eles se sentem perseguidos e fortalecimento e da valorização de sua
agredidos por serem jovens negros, mora- identidade e de sua produção cultural.
dores de bairros com altos índices de vio- Buscam construir outro modo de serem
lência e por serem visto através desse es- reconhecidos socialmente. Nesse senti-
tereótipo pela polícia e abordados como do, o trabalho social que realizam nas co-
se fossem todos, “naturalmente”, envolvi- munidades em que vivem também co-
dos com o crime. Como agravante, o pró- labora para essa estratégia. Avaliam que
prio rap é considerado por muitos como conquistaram uma força maior, sentem
música de bandido e a identificação com que puderam superar o preconceito exis-
o hip hop também se torna elemento de tente na própria comunidade e consegui-
“criminalização”. Suas histórias pesso- ram a diminuição da criminalização do
ais acumulam experiências concretas de hip hop produzida pela policia. Ou, como
agressões, de violência física e simbólica. diz um dos jovens:
Por isso, um dos trabalhos de interlocução A família MBJ ajudou na construção
mais difícil é, justamente, com a polícia. de uma proximidade maior com a co-
A questão da violência é tão impor- munidade. Aqui está a nossa força.
tante para o hip hop que está no centro Sem a comunidade a gente não pros-
da motivação para a organização da Fa- segue. Então, esse era o primeiro

Relatório Nacional do Brasil 57


passo da Organização Família MBJ: elas se intensificam quando se tra-
superar as dificuldades quanto à for- ta do indivíduo. Talvez não os lideres
ma como a comunidade vê os jo- da Família MBJ, mas os liderados,
vens da própria comunidade. E foi quando estão sozinhos, acabam ain-
com as ações da família MBJ que a da vítimas dessas ações truculentas
gente foi quebrando os preconceitos (Alves; Alvim, 2007).
dentro e fora da comunidade. Hoje,
muitos pais de família chegam perto Portanto, a questão permanece como
para valorizar o trabalho que seu pró- luta constante. Nesse tema, os jovens pa-
prio filho desenvolve na comunidade. recem precisar mais de aliados e media-
O trabalho social que a gente man- dores: adultos de fora da comunidade que
tém dentro da comunidade, traba- os defendam e resgatem de situações de
lho educativo, sobretudo, ajudou a su- arbitrariedade policial e façam apelos a re-
perar as dificuldades. As pessoas na cursos jurídicos para coibir a violência.
rua olham pra gente de forma positi- A questão da violência também apa-
va, dando os parabéns pelo trabalho rece em outros segmentos. Nos discursos
e dando força para continuar. É inte- das lideranças da CUT, a violência foi ci-
ressante ver como a família MBJ ad- tada como um dos temas a ser incorpora-
quiriu tanto prestígio. Por exemplo: do nas agendas dos coletivos de juventu-
não estou aqui dizendo que a polícia de e dos sindicatos por causa dos índices
é 100%, mas até da polícia a gente que revelam a vulnerabilidade juvenil, as-
tem ganhado o respeito. Antigamen- sim como pela falta de oportunidades no
te, eles paravam a gente, bastava nos mercado de trabalho que os exporia ao
ver. Hoje, não, eles admiram o traba- aliciamento do tráfico de drogas. Cabe di-
lho da gente. Isso é uma coisa que a zer, nesse sentido, que muitas deman-
gente conquistou e que jamais vamos das apresentadas pelos jovens recebem
perder (depoimento de Suspeito, in- o “qualificativo” de sua importância na
tegrante da FMBJ inserido no relató- medida em que se mostram associadas à
rio. Alves; Alvim, 2007). “aproximação” dos jovens com fenôme-
nos da violência.
Uma das questões a ser pensada é
em que medida essa valorização alcança- Um outro mundo possível
da pelo reconhecimento produzido pela A demanda por outra forma de organiza-
atuação cultural e social se estende a to- ção do mundo está presente em todas as
dos os jovens da mesma condição ou fica lideranças das situações focadas, umas
restrito aos componentes das bandas. mais estruturadas em torno de visões polí-
Conforme analisam Adjair Alves e tico-ideológicas partidárias, outras menos.
Rosilene Alvim: No caso das lideranças de entidades
Embora Suspeito, no depoimento co- estudantis e sindicais, muitas filiadas a
letado em campo, tenha destacado partidos de esquerda ou de centro-es-
mudanças quanto a determinadas querda, outras próximas e em diálogos
formas de violência sofridas pelos jo- freqüentes com essas visões, as formu-
vens, possivelmente ele tenha falado lações mais freqüentes vão pela deman-
em termos do coletivo, uma vez que da de repensar o modelo de crescimento
a Polícia Militar, sempre que chega- econômico, de acabar com as desigual-
va ao morro, não respeitava se os jo- dades e exclusões, de superar a forma
vens estivessem em reuniões do co- de produção capitalista; de superar o
letivo. Eles invadiam o recinto para modelo de globalização, o “novo impe-
revistá-los. [...] Se, por um lado, es- rialismo” e o neoliberalismo; de reverter
sas ações não se repetem, por outro a cultura baseada no consumo e no in-

58 Ibase | Pólis
dividualismo; de garantir a paz e os di- dução da experiência do acampamento:
reitos humanos, as liberdades políticas e a economia solidária como forma de pro-
a democracia. dução econômica e social; a preservação
Fazem a ligação dessas perspectivas ambiental (traduzida em práticas como
de transformação mais global e estrutural alimentação orgânica e bioconstrução); a
com demandas específicas: vários desses livre comunicação e o uso de tecnologias
atores têm buscado explicitar essa ligação da informação baseada em softerwares li-
nas pautas, principalmente por meio da in- vres; a diversidade cultural e de orienta-
serção do ponto relativo à necessidade de ção pessoal (sexual, religiosa etc.); e a
repensar o modelo de desenvolvimento autogestão, a democracia direta e a rela-
para a promoção de políticas de inclusão ção de horizontalidade como princípios de
que respondam às demandas dos jovens. organização social e política.
No caso do combate ao desemprego, a co- É nesse sentido que as lideranças (os
nexão aparece como fundamental. Nas de- integrantes do COA) entendem e tradu-
mandas apresentadas pelas entidades ge- zem sua demanda. E consideram que a
rais à educação, aparece a luta contra o presença das “diferentes demandas” dos
princípio do privado versus o público, con- diversos atores, que também constituem
cretizada por meio dos eixos do combate à a experiência do acampamento, são re-
“mercantilização da educação” e à “inva- significadas quando incorporam tais prin-
são imperialista” no ensino privado (eixos cípios e quando os jovens saem da expe-
de atuação da UNE). riência agregando tais princípios às suas
No FJRJ também encontramos, em pautas. Ao mesmo tempo, se revela nas
um documento que lista seus objetivos e decepções geradas pelas últimas experi-
suas contraposições, o repúdio a “todos ências do AIJ, quando avaliam que, por
os projetos e todas as políticas públicas muitos jovens não aderirem a tais princí-
que não tenham a perspectiva de trans- pios, a experiência tenha se descaracteri-
formação social”. No hip hop, há a refe- zado como proposta.
rência à necessidade de derrubar o siste- Por outro lado, é possível ver que es-
ma, de fazer a revolução. sas definições criaram pontos de tensão
No AIJ, essa é a “bandeira central”. com outras lideranças juvenis, que con-
É importante reparar que a demanda ge- sideram tais bandeiras demasiado van-
ral de transformação não aparece para os guardistas, com pouca capacidade de
integrantes do COA como síntese ou con- permitir a “unificação” dos movimen-
junto das diversas demandas apresenta- tos juvenis. Para essas lideranças, a idéia
das pelos atores que ali se reúnem, mas da unificação das pautas ou uma síntese
como determinada perspectiva de trans- das diferentes demandas, tal como a pro-
formação do mundo. Talvez a idéia de sín- posta inicial do acampamento, aparecia
tese estivesse presente no início, mas a como mais factível e eficaz. Talvez, aqui
configuração da bandeira da “possibilida- esteja embutida uma divergência relati-
de de outro mundo” que deve ser posto va ao projeto de transformação do mun-
em prática já apresenta, na verdade, um do. Nem todos os princípios empunhados
conjunto de princípios que devem organi- pelo COA são conicidentes com os alicer-
zar esse “outro mundo”. O enquadramen- ces do “outro mundo” que os integrantes
to geral do que se combate é o mesmo dos partidos de esquerda almejam.
dos outros atores da esquerda: a busca
de reversão do capitalismo e do neolibe- Visibilidade
ralismo, do modelo de globalização, do in- Para além das demandas nomeadas
dividualismo e do consumismo. Porém, a como tais, consideramos importante in-
proposição está fundada em certos princí- cluir a observação de que uma questão
pios, o tempo todo reafirmados pela pro- que aparece de modo importante para

Relatório Nacional do Brasil 59


muitos atores (para uns mais explícita nos meios de comunicação ao aconte-
e centralmente, para outros menos) é a cimento, principalmente à massividade
busca de visibilidade como mote de atu- e combatividade das mobilizações. Eles
ação e, até mesmo, da constituição como avaliam que esse foi um elemento impor-
ator social. Busca que pode estar dirigida tante para o crescimento da adesão ao
à superação de uma invisibilidade e/ou movimento e para o espraiamento pos-
da negatividade de certas situações ou terior para outras cidades. Ela também
questões juvenis: esse é, mais explicita- foi uma arena importante da disputa pro-
mente, o caso do hip hop, mas também, cessada, já no próprio curso do aconteci-
num sentido mais relativo, o do AIJ, do mento, sobre a deflagração, o sentido da
Sintratel e dos estudantes. O desejo de bandeira central e a direção e capacida-
produzir determinada imagem de si mes- de de condução do movimento.
mo e do segmento que representam, de No caso do telemarketing, a força do
diferentes modos, pode ser interpretado Sintratel parece vir da visibilidade que lo-
como demandas ou estratégias para alte- grou construir dentro do meio sindical, ti-
rar o campo simbólico de representações picamente juvenil, como estratégia para
sobre a juventude ou de certos segmen- ganhar espaço e pôr o tema da juventude
tos da juventude. dentro desse meio.
Para o hip hop, por exemplo, trata-se Um objetivo que se persegue, as-
de reverter uma visibilidade negativa, de sim, é o controle sobre a visibilida-
reverter os preconceitos impressos como de produzida pela própria ação. Desse
via fundamental para processar a inclu- modo, ganham relevância as estratégias
são social (ou processar a inclusão numa para lidar com a mídia: por um lado, a
outra chave) e afirmar-se como sujeito. produção de embates com a mídia con-
Essa é, praticamente, a questão central, vencional; por outro, a criação de ca-
o que organiza sua identidade e atuação, nais alternativos de informação. No caso
como já apontamos nos itens anteriores. do AIJ, essa foi uma estratégia planeja-
“A questão da visibilidade estava na base da, considerada como eixo fundamental
de tudo, porque juntos, a gente conseguiu de organização. No caso da Revolta do
unir os jovens que curtiam o movimen- Buzu, a disputa pela visibilidade produ-
to dando maior poder de pressão ao movi- zida se deu, também, entre os próprios
mento. Isso só veio acontecer com a cria- atores (a produção de um documentá-
ção da família MBJ” (Alves; Alvim, 2007). rio, em filme, sobre o evento, por exem-
Um dos sentidos assumidos pelo plo, é considerada como sustentadora
AIJ está ligado à questão de se constituir de uma das interpretações e combatida
como espaço juvenil de grande visibilida- por certos atores).
de, tanto para os grupos ideológicos do Por contraposição, um dos proble-
qual se sentem fazendo parte (os integran- mas dos jovens migrantes trabalhadores
tes do Fórum Social Mundial) como para a da cana é o de que seus dilemas (rela-
sociedade. Por isso, um acampamento no cionados ao desgaste quase mortal que
centro da cidade, em uma praça pública, o padrão de produtividade imposto por
contém a tentativa de apresentar uma ju- esse modelo de produção) estão invisí-
ventude diversificada, militante, capaz de veis no debate que se processa sobre
se engajar na proposição de outro mundo o etanol como nova matriz energética.
possível (buscando reverter, assim, ima- Logo, não têm lugar nas ações de fiscali-
gens correntes sobre apatia, desmobiliza- zação que os atores governamentais de-
ção e acomodação ao status quo). senvolvem no setor (que, segundo José
No caso da Revolta do Buzu, os es- Roberto Novaes, concentram-se na fis-
tudantes tinham muita noção do impac- calização do trabalho infantil e do traba-
to político causado pela visibilidade dada lho escravo), no âmbito dos debates dos

60 Ibase | Pólis
jovens sindicalistas e nos debates mais É importante dizer que as experiên-
gerais sobre as questões e necessidades cias de mobilização constituídas pela Re-
dos jovens. Nesse caso, é uma invisibili- volta do Buzu e pelos AIJs revelaram, aos
dade que precisa ser rompida. próprios jovens e à sociedade, de forma
surpreendente, a disposição e o engaja-
Participação mento dos jovens e a massividade desse
Para alguns atores, um mote muito im- engajamento. O número de manifestantes
portante é a abertura de espaços de par- de Salvador (cerca de 20 mil), e sua garra,
ticipação, seja como demanda expres- mantendo-se mobilizados, por aproxima-
sa (por exemplo, o caso do FJRJ, com damente 20 dias, com manifestações pú-
relação aos espaços institucionais para blicas que impactaram a cidade, dão a di-
a formulação de PPJUV, ou o caso do mensão de uma juventude nada alienada
AIJ, cuja primeira demanda é justamen- ou acomodada. No caso do acampamen-
te a de propiciar a participação dos jo- to, não só o número dos participantes (de
vens no Fórum Social Mundial), seja 2.500 a 35 mil, da primeira à ultima edi-
como perspectiva de atuação (como no ção) como a extensão da diversidade de
caso dos jovens sindicalistas, que esta- atores que acorreram à experiência supe-
belecem entre suas principais diretrizes raram, sucessivamente, as expectativas.
a construção e conquista de espaços no Essas experiências fornecem o retrato de
interior de suas organizações). um engajamento até então pouco visível
De modo geral, a participação consti- nessa dimensão. Em ambos os casos, é
tui uma perspectiva básica para todos os possível pensar que produzem marcas na
militantes e todas as lideranças dos mo- experiência de uma geração.
vimentos e organizações juvenis em dois Para além dessas dimensões gerais
planos: a ampliação da participação dos relativas à questão da participação, em
jovens nos processos sociais e políticos e, dois casos ela aparece mais explicitamen-
principalmente, nas organizações a que te como demanda na constiutição do ator.
pertencem (configurando estratégias para Primeiramente, no Fórum de Juven-
estimular o engajamento de jovens nas tudes do Rio de Janeiro, que se constitui
suas entidades, em campanhas etc.); e como espaço de articulação de organi-
ampliação da participação dos jovens ato- zações e de jovens em torno do tema da
res nos espaços de poder constituídos ou juventude. A participação se apresenta
nos espaços de articulação dos proces- como demanda central, dirigida aos pro-
sos de transformação em curso. cessos e espaços instaurados no cam-
Há referências, também, a uma de- po das políticas de juventude: “O Fórum
manda geral de aumentar a possibilidade de Juventudes tem como principal ‘ban-
de participação dos jovens na medida em deira’ a discussão sobre as políticas pú-
que eles são, muitas vezes, desqualifica- blicas de juventude e a participação dos
dos pelas instituições, como aparece no jovens em espaços de definição e ela-
estudo da Revolta do Buzu: boração destas políticas” (ver Brenner,
Os entrevistados, no entanto, ao re- 2007). Tal objetivo está fartamente ex-
latarem suas dificuldades em ser jo- presso nos documentos encontrados. A
vem, revelam que, na realidade, gos- pista explorada no estudo é, porém, a de
tariam de ser reconhecidos como que essa bandeira aparece como justifi-
pessoas que podem oferecer sua cativa retórica repetida por jovens e lide-
contribuição onde quer que estejam: ranças, mas que não encontra ação prá-
numa reunião de bairro, de esco- tica correspondente.
la, na organização de algum evento, A busca de participação se configura
mesmo que não esteja voltado para em pelo menos três níveis: incluir a parti-
os jovens (Oliveira; Carvalho, 2007). cipação dos jovens que são público-alvo

Relatório Nacional do Brasil 61


de programas (ou “usuários” de políti- sem pauta organizada de conteúdos, o
cas) no debate e na incidência das ações que faz com que os conteúdos sejam da-
a eles dirigidas; ampliar a participação do dos pelas pautas dos poderes públicos
tema da juventude nas próprias organiza- que formulam as políticas.
ções em que estão inseridos; e conquis- É interessante notar que a ênfase na
tar ou apoiar a participação desse ator conquista do espaço de participação, em
(FJRJ) e de seus integrantes nas instân- detrimento da elaboração das pautas de
cias de formulação e deliberação de po- direitos, parece ser uma característica de
líticas de juventude (como no Conjuve, outros atores juvenis: como já observa-
na Comissão de Políticas Públicas da As- do em outras ocasiões, acontece também
sembléia Legislativa do Rio de Janeiro – com as juventudes partidárias, que apre-
Alerj –, e no processo de constituição do sentam elaboração e investimento maior
Conselho Estadual de Juventude do Rio na tentativa de abrir, conquistar ou ocu-
de Janeiro). par espaços de participação (em órgãos
Nesse sentido, uma primeira proble- de gestão, em estruturas organizacionais,
matização apresentada na análise des- em redes de articulação) que de propor
se ator diz respeito à real potencialização pautas específicas. Também com os cole-
que a participação juvenil consegue reali- tivos sindicais juvenis, em certa medida,
zar, uma vez que quem dirige e desenvol- isso parece acontecer, como anotam Ma-
ve as atividades permanentes não são os ria Carla Corrochano e Érica Nascimento:
“jovens dos projetos”, mas os militantes Quanto aos sindicalizados e às lide-
das ONGs. Os primeiros participam, na ranças juvenis, as demandas concen-
verdade, dos Encontros de Galeras, que tram-se na ampliação dos espaços
acontecem mais espaçadamente. E, se- dos jovens no sindicalismo, seja por-
gundo o estudo realizado, quem define, que querem publicizar suas singulari-
fundamentalmente, as pautas de deba- dades, seja porque almejam estender
tes, quem propõem os métodos e quem suas contribuições para além de co-
convoca os encontros são, também, “os letivos específicos ou, ainda, porque
adultos” do FJRJ, indicando que os jo- não pretendem ser percebidos ape-
vens permanecem mais como público da nas como ‘dirigentes do futuro’, al-
ação do fórum do que como protagonis- vos de formação constantes para re-
tas. Assim, a percepção da pesquisadora novação dos quadros dos sindicatos.
é a de que os jovens valorizam a atuação Uma das lideranças jovens chega a
nesse coletivo mais como possibilidade sugerir, inclusive, cotas nas direções.
de ampliação de sua experiência (circular Se a criação de coletivos é percebida
por lugares novos, entrar em contato com como avanço tanto por jovens quanto
pessoas e instituições diferentes), am- por adultos, ela nem de longe parece
pliando a “vivência de juventude” e, tam- suficiente para atender às demandas
bém, o capital social, que por um objetivo por espaço dos jovens sindicalistas.
claro de incidir nas políticas. A pesquisa- Nesse sentido, mais do que inserir
dora ressalta que os jovens entrevistados as pautas juvenis no sindicalismo, o
não sabem sequer localizar claramente o grande desafio que está posto é a su-
que são políticas de juventude. peração do ‘conflito geracional’ que
Parece que o FJRJ não apresen- se instala à medida que lideranças jo-
ta uma pauta pública com as demandas vens alargam sua atuação. Entretanto,
para serem respondidas pelas políticas é importante ressaltar que a luta por
públicas (nem uma definição mais explí- maior espaço no sindicato não vem
cita de quais seriam essas demandas). atrelada à percepção da necessidade
A sensação, assim, é que a atuação está de construção de uma pauta juvenil
mais centrada na busca de participação nos ambientes de trabalho ou de

62 Ibase | Pólis
políticas de trabalho para jovens, ou as situações. Por um lado, isso nos ajuda
seja, a luta por espaço não vem as- a sustentar a idéia da existência de uma
sociada à luta por direito ao trabalho multiplicidade das dimensões da condi-
(decente) das jovens gerações (Corro- ção juvenil. Por outro, nos coloca ques-
chano; Nascimento, 2007). tões a respeito de onde se ancora sua sin-
gularidade. Se há demandas recorrentes,
O tema da participação, por outro ân- em que medida apontam para a constitui-
gulo, também encontra centralidade no ção de eixos gerais? Pode-se dizer que re-
AIJ: sua própria constituição é fruto de velam conteúdos comuns da condição ju-
uma demanda de garantia e ampliação da venil? Nesse caso, quais são as diferenças
participação da juventude no Fórum So- de formulação que indicam desigualda-
cial Mundial, estruturando uma possibili- des no modo como se apresentam como
dade de hospedagem e participação sem carências? O fato de comporem temas co-
ser, necessariamente, por meio de repre- muns (como educação, trabalho, cultu-
sentação institucional (no FSM a inscrição ra, circulação) implica a possibilidade de
era por entidade), assim como de inclusão constituir motes ou alvos de luta comuns,
dos temas da juventude no fórum. gerais o suficiente para estruturar pautas
Essa perspectiva se mantém e se ou lutas unificadas? Ou os acentos e as in-
amplia. Para além da conquista de es- flexões são tão grandes que inviabilizam
paço de participação, trata-se, cada vez a apresentação unificada? Em outras pa-
mais, da transformação do próprio modo lavras: poderão sustentar a construção de
de participar, de fazer política: postulan- pautas da juventude? O que indica que
do outra relação da política com a cultu- tais demandas formem conjuntos articula-
ra, com o comportamento e com a vida, dos pela singularidade de sua inflexão ju-
consubstanciada na idéia de experimen- venil e não pela de outras identidades que
tação dos princípios e das diretrizes. O também vivenciam (de classe, de etnia, de
grande sentido de sua atuação vai ser, condição de moradia etc.) ?
então, a proposição de outra forma de As perguntas, que foram sendo fei-
participar e construir o mundo social, tas ao longo do exame das demandas
efetivando os princípios de autogestão, desses jovens, têm a ver, em boa parte,
democracia direta em vez de representa- com a existência ou não de uma especi-
tiva e o estabelecimento de relações hori- ficidade juvenil das demandas: em que
zontais e não verticais: medida são juvenis? São juvenis porque
A grande contribuição e ‘novidade’ são específicas da juventude ou porque
que tínhamos para oferecer era a idéia são sentidas e empunhadas por jovens?
de uma militância fora de partidos e São juvenis apenas na forma de expres-
de aparelhos, que você voltava à ação são e mobilização e não no conteúdo?
direta, às práticas (software livre, eco- Ou porque são mais presentes – ou fa-
nomia solidária etc., e à construção de zem mais sentido – nesse momento da
circuitos alternativos em vez de seguir vida? Ou, ainda, porque expressam o lu-
uma agenda vinculada à política elei- gar e o significado que têm nas suas vi-
toral. (Fischer; Corrêa; Amaral, 2007). das como jovens?
É bom relembrar que há uma valo-
Considerações sobre as demandas rização diferente por parte de cada ator
estudadas sobre o conteúdo juvenil da deman-
Lançando um olhar geral sobre as deman- da. Alguns fazem disso um ponto de for-
das presentes nessas situações, podemos ça (Sintratel, hip hop), outros vêem nisso
notar que cada segmento ou ator apre- uma diminuição da importância e bus-
senta várias demandas e que há deman- cam mostrar que suas bandeiras vão
das que estão presentes em quase todas além do âmbito juvenil, como no caso da

Relatório Nacional do Brasil 63


Revolta do Buzu, em que seus protago- de, uma vez que essa dimensão é ressal-
nistas levantaram como ponto de força tada pelos atores do telemarketing.
do movimento o fato da reivindicação não De modo geral, parece possível con-
ser só dos estudantes, mas de toda a po- cluir que as demandas dos jovens, na
pulação e o fato de estarem reivindicando maior parte, dizem respeito a necessida-
uma conquista significativa não só para des gerais, mas apresentam inflexão ju-
eles, como para suas famílias. Portanto, o venil porque seu conteúdo tem um acen-
protagonismo dos jovens, nesse caso, re- to específico referido ao modo como os
side não no fato da reivindicação ter ca- jovens vivem a condição (no trabalho
ráter juvenil, mas na “adequação” (ou e com relação à discriminação e à vio-
oportunidade) para empunhá-la, para se lência, por exemplo). Outras demandas
mobilizarem com a contundência neces- também são gerais, porém mais “sen-
sária (por terem menores compromissos tidas” pelos jovens, pelo momento da
com o trabalho, serem “historicamente” vida em que estão (como podemos ver
participativos, ativos, de briga). no caso da educação profissionalizan-
Outros atores atribuem importância te, da necessidade de conciliar escola e
ao conteúdo juvenil da demanda, mas trabalho, a possibilidade de fruir e pro-
de forma subordinada às questões maio- duzir cultura, a circulação pela cidade).
res (de classe, no caso das lideranças ju- Outras, ainda, encontram especificida-
venis da CUT, por exemplo). Assim, suas de na forma como podem ser respondi-
demandas aparecem como singularida- das ou acessadas pelos jovens pelo for-
des de demandas maiores, definidas pela mato, pela linguagem, pelos espaços
estrutura das relações de produção. de desenvolvimento etc. E há, também,
Em alguns casos, consideram que a aquelas que são realmente específicas
bandeira ou expressão juvenil (ou de cer- (exclusivas) dessa faixa etária, como as
to segmento da juventude) pode revelar que dizem respeito a processos que só
ou interpretar as questões gerais (da so- ocorrem nessa fase da vida (relativas a
ciedade ou de um grupo ou classe so- certas demandas de saúde vinculadas a
cial) a partir de uma ancoragem muito processos do desenvolvimento fisiológi-
localizada na experiência concreta. Esse co ou do momento do ciclo de reprodu-
parece ser o caso do hip hop. Deman- ção, demandas relativas a marcos legais
dando reversão do modo como são trata- de acesso à cidadania, como inclusão
dos na condição de jovens pobres e pre- nos processos institucionais de direitos
tos, se apresentam como porta-vozes de políticos ou de deveres como serviço mi-
comunidades (no sentido de “comuni- litar etc.). Desse modo, parece que faz
dades de destino”) maiores: “somos nós sentido, de modo genérico, pensar na
a voz da periferia”. Suas demandas são existência de demandas juvenis, embo-
juvenis na medida em que se referem a ra muito debate público ainda tenha que
condições que vivem enquanto jovens, ser feito sobre seu conteúdo. Porém, o
mas que iluminam carências, exclusões quanto elas podem compor pautas unifi-
e discriminações que dizem respeito a cadas da juventude é outra questão.
segmentos maiores. Outro ponto a ser considerado é que,
Outras demandas, embora sejam vi- do mesmo modo como vimos na introdu-
vidas como necessidades que apresen- ção deste relatório, há um peso grande
tam inflexões juvenis significativas (como para as chamadas demandas de inclusão
a especial exploração impingida, no tra- social ou, em outras palavras, as reivindi-
balho, a jovens do corte da cana), não cações relativas a direitos sociais.
encontram expressão pública que aborde É importante fazer uma reflexão mais
essa singularidade. Em outros casos, ao detalhada a respeito desse caráter social
contrário, nisso se ancora sua visibilida- das demandas. A predominância de de-

64 Ibase | Pólis
mandas de inclusão social acontece por mas, ou inflexões de temas, ainda pou-
uma “regressão do político”, como inter- co incorporados: incluir cultura e lazer,
pretam alguns? Por que os jovens de hoje por exemplo, como tema de importância
têm demandas menos nobres, generosas maior que a encontrada hoje, amplian-
e utópicas que os de gerações passadas? do a noção do direito à cidade; abrir no-
Por que são esses os temas que expres- vas frentes de luta na postulação da idéia
sam as contradições que vivem e que se de trabalho decente, forçando a conside-
transformam em problemas políticos cen- ração de novas combinações entre as di-
trais no modelo econômico e social exclu- ferentes dimensões que compõem a vida
dente que vivemos? atual; e, nesse sentido, ampliar a própria
Não é que as demandas políticas, concepção a respeito de direitos funda-
ou as subjetivas, estejam ausentes. As mentais vigentes na sociedade.
“questões subjetivas” vêm implicadas em Por outro lado, parece instigante per-
questões de identidade social e cultural, guntar como a reunião de diversidade de
de gênero e raça, assim como da própria demandas se relaciona com a possibilida-
identidade juvenil. As questões relativas à de de montar uma agenda única. A idéia
dimensão propriamente política vêm im- de uma conjunção de bandeiras diver-
bricadas na demanda por participação, sas está presente, embora com profundi-
por incidir nos debates e definições de dades distintas, no AIJ, na Família MBJ –
políticas e pelos questionamentos e pe- reunião de várias bandas, cada uma com
las proposições sobre as formas de “fazer sua bandeira, mas fortalecendo-se num
política”, sobre os modelos de represen- conjunto – e, de certo modo, nas mani-
tação, de democracia e de gestão (AIJ). festações da Revolta do Buzu, quando
Nesse sentido, é possível dizer que se pensa que não se trata de uma única,
as demandas concretas estão bastante li- mas de várias manifestações que valoram
gadas às demandas simbólicas, e que é diferentemente cada uma das reivindica-
nesse imbricamento que podem ser per- ções do movimento.
cebidas as inflexões juvenis nas questões Já apontamos que certos atores juve-
sociais ou nos direitos universais. nis vêem negativamente essa postura (da
Por outro lado, é preciso ressaltar a di- multiplicidade de direções impressas nas
mensão política que as questões sociais mobilizações) e valorizam a questão da
têm nessa conjuntura histórica, na medi- unidade e direção única do movimento.
da em que remetem às desigualdades es- Para o COA, estamos em uma nova forma
truturadas e mantidas pelo modelo de de- de fazer política, que contém princípios
senvolvimento, pelo “sistema” (nos termos políticos muito consistentes.
do hip hop), pela “ordem neoliberal” (nos Quais são as limitações de uma e ou-
termos do AIJ). O vínculo das demandas tra perspectiva? Quais são, assim, as pos-
concretas de inclusão social com as pro- sibilidades de criar pautas comuns para
posições de transformação mais geral do além do arrolamento de demandas pon-
mundo, processadas por boa parte do ato- tuais (as famosas listas de demandas
res, aponta nessa direção. Pode, nesse em que se transformam os documentos
sentido, ajudar a revelar contradições do que saem dos encontros, fóruns e confe-
modelo de desenvolvimento? rências)? Qual a chance dessas listas se
Assim, cabe considerar que essas transformarem em eixos de luta e diretri-
demandas apresentadas do ângulo da ju- zes de políticas?
ventude podem trazer contribuições ao No entanto, para perseguir essas
debate geral sobre os direitos negados e questões, é importante ver não só as de-
aqueles a serem conquistados. Se pude- mandas explicitadas pelos jovens, mas
rem ser consideradas, podem ampliar a quais entram nas pautas mais gerais e
pauta das reivindicações, incluindo te- de outros atores. Por esse ângulo,

Relatório Nacional do Brasil 65


é preciso dizer que a capacidade de in- de entre atores e organizações “adultas”,
cidência dos atores juvenis na monta- e entre certos gestores do poder público
gem das pautas públicas é ainda bas- (verificado na criação de canais de partici-
tante baixa. pação, como conselhos etc.). Na verdade,
Demandas relativas à educação en- é possível pensar que há mais facilidade
tram de forma quase consensual na pauta para incorporar a participação dos jovens
de inúmeros atores como a mais legítima e do que as demandas que eles apresen-
essencial para os jovens e como modo de tam. Embora, aqui, seja preciso refletir so-
resolução para as outras demandas. bre qual tipo de participação se concreti-
Trabalho: embora genericamente lo- za. Trata-se de propor a participação dos
calizado como um dos problemas a jovens como modo de formação para a ci-
atingir mais duramente os jovens (o dadania das novas gerações? Como agen-
desemprego entra como diagnósti- tes do desenvolvimento de ações públicas
co que explica outros problemas da ou cívicas? Como introdutores de inova-
juventude, como violência e falta de ção nas estruturas às quais se incorpo-
perspectivas; a necessidade de tra- ram? Como arautos de novas culturas po-
balhar entra como denúncia da de- líticas? Como representantes das questões
sigualdade; a discriminação por fal- juvenis? Ou como elos qualificados para se
ta de experiência como problema a chegar ao público juvenil?
ser enfrentado), como demanda de
resolução entra, mais efetivamen-
te, na pauta dos atores vinculados ao 3.3 AÇÕES AFIRMATIVAS E
mundo do trabalho (sindicatos). Mas VALORIZAÇÃO DA DIVERSIDADE
o “direito ao trabalho” não está, ou
está muito pouco, incluído. As con- Em primeiro lugar, parece importante di-
dições de trabalho (a qualidade ou a zer que os temas ganham peso e impor-
“decência” do trabalho) entram timi- tância muito diferenciadas segundo as
damente, e apenas por meio dos ato- distintas situações-tipo, revelando que
res sindicais. se constituem como questão mobilizado-
Cultura: entra secundariamente e, ra para alguns setores e atores mais que
principalmente, como tema subsidi- para outros.
ário de outros: complementar à edu- De modo geral, entre os entrevista-
cação ou como anteparo dos jovens dos, pode-se perceber aceitação e valo-
à violência. Há uma tendência cres- rização geral da diversidade, embora não
cente de pensar a cultura como via al- em todos os aspectos. Em certos casos e
ternativa de geração de renda e ocu- para certas lideranças, diversidade apa-
pação. Também é, muitas vezes, rece mais na forma de uma tolerância
considerada elemento importante, vin- consentida (no sentido de “cada um es-
culada à juventude, por atores de con- colhe seu caminho”) ou de uma resposta
figuração mais geral (as centrais sin- considerada “politicamente correta”, con-
dicais, por exemplo), na perspectiva forme foi constatado entre as lideranças
de estabelecer modos de aproximação estudantis com relação ao tema da orien-
com os jovens que desejam organizar. tação sexual. De todo o modo, pode-se
Em nenhuma dessas vertentes, como falar, numa aceitação do direito à diferen-
podemos ver, há absorção do direito à ça e, em certos casos, numa adesão pro-
cultura como direito essencial. positiva da diversidade como valor.
A igualdade de gênero é a mais am-
Já a demanda por participação é plamente aceita e se torna demanda ex-
a que tem encontrado mais capacida- pressa e/ou alvo de ações por parte de
de de ser incorporada: tem legitimida- alguns atores. No caso dos estudantes,

66 Ibase | Pólis
embora já tenha sido anotado em ou- tencente ao FJRJ, a dificuldade, por par-
tro lugar a permanência de descompas- te desses atores, de inserir o tema da
so entre a participação das mulheres nas juventude como nova pauta de reivindi-
mobilizaçãos e nos cargos de liderancas cações, uma vez que tanto os militantes
das entidades,22 esse é um direito afirma- GLBTT quanto os negros estariam muito
do com convição pelos entrevistados. As “amarrados” a causas específicas e não
linhas de ação para sua promoção cons- perceberiam a razão de falar sobre ju-
tam na proposição de várias entidades. ventude além de sua causa principal.
Não encontramos, no entanto, nenhuma No caso do setor de telemarketing, as
bandeira empunhada explicitamente en- questões de gênero, raça e orientação se-
tre os atores destes estudos. xual são temas presentes de forma signi-
O tema da orientação sexual é o que ficativa na própria composição da cate-
parece causar maior dificuldade de acei- goria. São, desse modo, temas explícitos
tação dos trabalhadores da cana até as para a atuação sindical, principalmente
lideranças estudantis. No entanto, en- as questões de gênero e orientação se-
gendra configuração de ações afirmati- xual. Curiosamente, a questão de raça é
vas ou estabelecimento de relações com menos presente:
atores constituidos por essa identidade: Embora a pesquisa tenha registra-
podemos perceber isso por meio da re- do maior participação de jovens e
ferência à tentativa do FJRJ de estabele- adultos que se autodeclararam par-
cer relações com o Fórum de Gays, Lés- dos ou pretos (64%) e o telemarke-
bicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais ting seja um setor que emprega pro-
(GLBTT); na importância que adquiriu o fissionais negros, ações afirmativas
tema nos últimos AIJs com a constituição ou experiências de discriminação
do Planeta Arco-íris; e na configuração de vinculadas ao segmento foram pou-
uma linha de ação dentro do Sintratel. co apresentadas pelos entrevistados.
Para o FJRJ, há referência explíci- A discriminação racial foi comentada
ta, embora bastante genérica, ao direi- apenas por uma jovem trabalhado-
to à diversidade, tal como está registrado ra, que assegurou ter sido preterida
em um de seus documentos, na forma no espaço escolar por ser negra, e
de repúdio à “discriminação de raça, gê- por uma liderança do Sintratel, que
nero, orientação sexual, classes, gera- relatou que ações discriminatórias fi-
ção, religião e pessoas com deficiência”. guram entre as queixas que os tra-
Parece interessante, porém, examinar balhadores encaminham para o sin-
no FJRJ como aparecem as tentativas dicato. [...] Já as temáticas gênero
de construir relações nesse campo (um e orientação sexual estiveram mais
dos entrevistados informou que o fórum presentes neste estudo por con-
ainda tenta aproximar representantes do ta das particularidades sociológicas
movimento GLBTT, citou ainda o dese- da situação-tipo aqui estudada, uma
jo de ver participando do fórum um dos vez que o setor de telemarketing tem 22
Lançando um olhar sobre a ques-
movimentos do Rio de Janeiro mais ar- como características a predominân- tão da valorização da diversidade de
gênero no interior das organizações
ticulados em torno da questão dos pré- cia da mão-de-obra feminina e a que se destacaram na manifestação
de 2003 e cujos representantes
vestibulares populares, que é o Pré-ves- contratação de trabalhadores de dis- foram entrevistados, naquele
tibular para negros e carentes – PVNC) tintas orientações sexuais. [...] As li- período, havia grande presença
feminina, como é possível verificar
e, ao mesmo tempo, os limites dados deranças sindicais do ator privilegia- entre as pessoas entrevistadas pelos
jornais e documentários da época.
pela dificuldade desses atores consituí- do neste estudo, o Sintratel, também No entanto, a presença feminina
entre as lideranças das organizações
dos em torno da afirmação de identida- realçaram o significativo número de e dos coletivos juvenis foi bastante
des muito discriminadas de assumirem profissionais mulheres e de diferen- inferior à masculina. Nas eleições
para entidades como a UNE e Abes,
outras pautas além das suas originais; tes orientações sexuais no setor de ou para o grêmio do colégio Iceia,
porém, constata-se a emergência de
ou como identifica um entrevistado per- telemarketing e argumentaram que novas atrizes na cena pública.

Relatório Nacional do Brasil 67


buscam desenvolver parcerias com A diversidade é, genericamente, uma
entidades e movimentos sociais re- bandeira do AIJ, que busca concretizá-la
lacionados às questões de gênero e na própria prática da atuação: “o ‘direito
dos direitos sexuais. Uma dessas ini- de ser diferente’ se expressava com todo
ciativas é o engajamento de lideran- vigor, com toda contundência, com toda
ças do Sintratel nos coletivos GLBTT vontade em ‘tornar concreto’ esse ou-
e de gênero da CUT, oferecendo tro mundo possível anunciado em outras
como contribuição ao debate o cruza- partes e espaços do FSM” (Fischer; Cor-
mento das temáticas sexualidade, gê- rêa; Amaral, 2007). Seus atores avaliam
nero, juventude e mundo do trabalho que o AIJ ganha impaco político quando
(Corrochano; Nascimento, 2007). aprende a fazer da diversidade sua maior
força. “Reconhecidamente como territó-
Os jovens não-sindicalizados entrevis- rio de direitos, o AIJ possibilitava a visibi-
tados, porém, não aludiram espontanea- lidade, por exemplo, da juventude negra,
mente a esses temas. da juventude da periferia, da diversidade
O tema da deficência é outro que sexual, das mulheres, entre outros” (Fis-
provoca reações diferenciadas causa cer- cher; Corrêa; Amaral, 2007). Tais ditrei-
tos constrangimentos entre os jovens tra- tos compõe, assim, parte essencial das
balhadores. No caso dos trabalhadores bandeiras reunidas no AIJ. Porém, mais
no corte da cana, como uma das per- que isso, é pela experimentação da reu-
cepções de maior drama que pode atin- nião e da troca entre as diversas singula-
gir um indivíduo (será pela incapacida- ridades que a importância da diversida-
de de trabalho que ela acarreta?); no de se afirma: seus atores avaliam que um
caso dos trabalhadores de telemarketing, dos aprendizados da experiência do AIJ
destacam-se, de um lado, os comentá- é que o diálogo das diversidades se cons-
rios dos entrevistados sobre o precon- trói mais sob a ótica das ações concretas,
ceito que os deficientes ainda sofrem no diretas e possíveis, que da mera afirma-
convívio social, de outro lado, as críticas ção ideológica. Assim, entre os atores es-
endereçadas às empresas que contra- tudados, é no AIJ que a diversidade apa-
tam profissionais com deficiência porque rece como bandeira explícita.
a legislação impõe. Merece destaque, do
mesmo modo, a percepção de um jovem
trabalhador sobre os direitos conquista-
dos por deficientes no que tange à aces-
sibilidade e inclusão social como van-
tagens. Já os estudantes mostraram-se
bastante solidários com seus pares com
deficiência. Analisam a questão do pon-
to de vista dos direitos (concretizados
nas políticas públicas) e da invisibilida-
de do jovem com deficiência (pelo Esta-
do, pela sociedade). Reconhecem que o
jovem com deficiência sofre duplamente
(por ser jovem e pelas necessidades es-
peciais), mas que suas especificidades
os diferenciam como qualquer outro tra-
ço específico:“São tão diferentes quan-
to aqueles que se dizem normais. É uma
questão de se respeitar a diferença”.

68 Ibase | Pólis
Relatório Nacional do Brasil 69
4. PERCEPÇÕES DOS ATORES E/OU MEDIADORES
DAS DIFERENTES SITUAÇÕES-TIPO SOBRE OS
TEMAS RECORRENTES NAS AGENDAS
PÚBLICAS CONTEMPORÂNEAS

Uma primeira observação a fazer é que poucos desses o oxigênio”. Aqui, é interessante notar a
temas são realmente recorrentes entre as situações- ausência de qualquer menção ao etanol
tipo estudadas. A questão da violência, na verdade, (álcool como combustível): “Seria impor-
é a que aparece mais presente, como já assinalamos tante, em outra pesquisa, aprofundar essa
ao separá-la como demanda a ser examinada mais discussão indagando até que ponto a pre-
profundamente, uma vez que aparece como questão ocupação ecológica nas áreas rurais se li-
expressa e enfrentada por diversos atores. Cabe dizer mita ao âmbito da produção familiar e da
que, nesta parte da entrevista, foi também o tema que luta pelo acesso à terra, não entrando re-
mais sucitou intervenções. almente na pauta do trabalho assalariado”
(Novaes, J., 2007).
Curiosamente, a sexualidade apare-
Por outro lado, meio ambiente e ecologia ce como tema apenas em alguns casos,
aparecem de modo esporádico, na forma causando constrangimentos e estranha-
de preocupação genérica, nas falas dos mento (como no caso dos estudantes).
estudantes e outros entrevistados, como Torna-se curioso reparar que os próprios
na vertente encontrada entre as lideranças jovens, muitas vezes, dão um conteúdo
estudantis: “o tema relacionado à ecologia de irresponsabilidade ou promiscuidade
e meio ambiente evidencia preocupação ao comportamento sexual juvenil. Contra-
com um futuro que está próximo, quando riamente, é a área comportamental vista
não só a ‘vida do planeta’, mas do próprio com maior valorização entre os trabalha-
jovem está comprometida caso não sejam dores da cana, que anotam a maior liber-
tomadas medidas urgentes (governamen- dade para se falar do tema hoje em dia.
tais, empresariais e individuais)”. Mas, em O tema da sexualidade, associada
nenhum dos casos, a questão ambiental à saúde, aparece espontaneamente en-
aparece como mote de aglutinação organi- tre os jovens trabalhadores urbanos re-
zativa ou de mobilização. ferida como uma temática que necessi-
O caso dos trabalhadores do cor- ta ser incorporada nas agendas sindicais,
te da cana merece ser examinado com especialmente no telemarketing, onde há
mais cuidado. Nota-se que nos documen- grande número de jovens trabalhadores.
tos das organizações que falam de inser- Uma das sindicalizadas do Sintetel rela-
ção produtiva de jovens na agricultura, via tou que a preocupação com a saúde dos
de regra, há menções ao ideário ecológico jovens não deve se restringir às doen-
traduzido como “empreendimentos ecolo- ças decorrentes do ambiente do trabalho,
gicamente sustentáveis”, por exemplo. Os mas abranger a prevenção de doenças
entrevistados explicitaram um conjunto de sexualmente transmissíveis e de gravidez
percepções sobre o tema, como “ter mais não planejadas por meio de cursos nas
cuidado com a poluição”; “tem que pre- empresas ou de oficinas nos sindicatos.
servar muito”, “tem que pensar melhor”; Vale ressaltar, ainda, que dois dos jovens
“transtorno no meio ambiente cada dia fizeram relação do tema com a definição
destrói mais; “o aquecimento acaba com da orientação sexual: um deles atentan-

70 Ibase | Pólis
do para o “livre arbítrio para a escolha”; o
outro, argumentando que a homossexua-
lidade é produto da ausência dos pais na
educação dos filhos (Corrochano; Nasci-
mento, 2007).
Nesse sentido, embora não haja ele-
mentos suficientes para produzir nenhu-
ma interpretação mais consistente a esse
respeito (pois a ausência desses temas
pode ser fruto apenas dos atores e das
demandas escolhidos no escopo deste
projeto), pode-se anotar a pergunta so-
bre se esses temas não têm sido mais
presentes nos projetos destinados aos jo-
vens, que resultam de estímulos e finan-
ciamentos por parte de organizações de
cooperação, que propriamente deman-
das que mobilizam jovens.

Relatório Nacional do Brasil 71


5. FORMAS DE ATUAÇÃO E EXPRESSÃO
PÚBLICA DAS DEMANDAS

Outro eixo implicado no debate sobre as possibilidades senvolvimento de uma ação específica e
da interferência dos jovens diz respeito a formas de eventual, mas que acabam assumindo
participação. Muito desse debate gira em torno de existência e identidade política própria
quais seriam os traços que poderiam caracterizar (por exemplo, o COA).
os estilos de atuação política dessa geração. As Com relação ao modo como se orga-
observações colhidas neste estudo não nos autorizam nizam: aqueles que se constituem como
a aprofundar tal caracterização, mas sim a explorar entidades de representação assumem as-
algumas das questões presentes. Uma delas é, pectos de organização com maior grau
justamente, o questionamento da possibilidade de de formalidade e hierarquia, a partir da
desenhar uma caracterização genérica das formas constituição de direções e cargos com di-
atuais de organização e atuação dos jovens, ou a ferentes atribuições de papéis e poder in-
existência de uma tendência de conformação de um terno. Em outras, há formas mais fluidas
“novo estilo” como superação de outro “velho” ou ou, como diz um dos integrantes da Fa-
“tradicional”. Mais uma vez, parece que o possível mília MBJ, com “uma estrutura deses-
de ser dito, nesse quesito, é que existem vários estilos truturada”, seja porque são grupos in-
que coexistem e, na verdade, disputam entre si, sem formais, ou menos estáveis, seja porque
que seja possível verificar predominância de uns buscam, conscientemente, estabelecer
sobre outros. outras formas de relação de participação,
explicitada, por exemplo, pelos mem-
bros do COA. É possível, de todo o modo,
Os estilos de atuação também podem ser perceber que a necessidade de forma-
verificados quando observamos o modo lidade e as vantagens da informalidade,
de constituição dos atores e as arenas es- a valoração negativa ou positiva da insti-
colhidas para atuação. tucionalidade, a função ou pretensão de
No conjunto aqui considerado, apa- representação e os fundamentos da legi-
recem entidades de representação de timidade das lideranças variam bastante
23
É importante ver que, aqui, a categorias (como as estudantis e as sin-
organização e atuação se fazem para
e constituem temas de discussão, de ten-
lograr, ao mesmo tempo, inserção dicais) em âmbito local (grêmios, sindi- são e conflito entre os atores juvenis.
social coletiva e individual.
24
Somando 13 representantes mas
catos), regional (UEB) ou nacional (UNE, A Família do Morro do Bom Jesus se
referido a cerca de 60 jovens, quando Ubes, centrais sindicais); aqueles que se estruturou como um coletivo de diversos
computados os integrantes dos
grupos: “A família, então, surge da constituem como seções jovens de or- grupos de hip hop de dois bairros da cida-
necessidade de mostrar o que se pas-
sa no morro, mas de forma que fosse ganizações maiores (coletivos juvenis de de de Caruaru. Segundo seus integrantes,
possível perceber que tudo tem a ver
com tudo. Isso não podia ser feito
centrais sindicais, juventudes partidá- se juntaram para reunir forças, ampliar a
por um grupo só. Então, você veja: rias); grupos que se articulam em torno voz e produzir uma interferência pública
a Obsessão ia apresentar apenas a
questão do racismo. Um jovem negro de identidades ou referências culturais maior, potencializando a capacidade de
como o “Preto-RF”, falando que é dis-
criminado por ser da favela. O que se (hip hop) e que podem ter atuação local ação. Ao mesmo tempo, buscam fornecer
podia pensar? Que era um recalcado,
frustrado, que se queixa de não ter
(como a FMBJ) ou nacional (como cer- uma estrutura de apoio para cada um dos
tido êxito na vida e culpa o racismo. A tas articulações do hip hop que partici- participantes.23 A FMBJ se constitui, as-
Juventude Sangrenta falando dos pais
de família assassinados no morro pela param dos AIJ); fóruns e redes que arti- sim, como uma espécie de conselho dire-
polícia ou morrendo no crime, o que
iriam dizer? Uns marginais querendo culam organizações juvenis, assim como tor formado por um representante de cada
defender os criminosos. Mas, aí,
você tem a família, todo mundo junto
aquelas que incluem ONGs que dirigem banda de rap do Morro Bom Jesus,24 com
dizendo tudo isso, um grupo grande, ações a jovens (como o FJRJ); e, ain- a função de pensar as ações em conjun-
mais de 60 jovens. Quando a gente
faz os shows na Praça do Centenário, da, atores que se constituem para o de- to: funciona como o “cérebro” das ações

72 Ibase | Pólis
no hip hop no bairro. Não há direção ou os grafites) que “colocam sua voz”, que
representação instituída; distribuem en- se expressam publicamente, que se co-
tre si as tarefas sem hierarquias definidas. municam com aqueles que querem atin-
É claro que alguns se destacam numa re- gir com sua atuação.
lação de liderança, inclusive para as rela- O segundo plano é o da “atuação
ções externas, que não é formalizada. comunitária”, em que buscam interfe-
Nesse conselho, discutem e acertam rir no atendimento das demandas (ex-
posições e posturas que devem assumir pressas nas músicas) para os jovens dos
coletivamente e as orientações que que- seus bairros e, ao mesmo tempo, das de-
rem passar para os jovens do hip hop e mandas para a realização das atividades
do bairro em geral, mas sem decidir so- constitutivas do primeiro plano: a escola e
bre as posições que cada grupo toma na o espaço para o desenvolvimento da pro-
sua atuação particular. Como observam os dução cultural; a negociação das possibi-
pesquisadores, “parece não haver preo- lidades de ocupação do espaço público
cupação com a manutenção de uma con- para a realização de suas atividades etc.
formidade de discurso ou de ação: cada As demandas são dirigidas, des-
um é cada um”, expressão corrente en- se modo, tanto a dimensões bastante
tre seus integrantes (Alves; Alvim, 2007). abstratas, tais como a “sociedade” ou
Essa também parece ser a forma como se “o sistema”, quanto aos interlocutores
pensam, “orientadores de posição” frente mais próximos e concretos – ou seja,
aos jovens das suas comunidades: “Nós, aos representantes locais do poder pú-
do hip hop, procuramos alertar os jovens blico ou às direções dos equipamentos
dos perigos da vida bandida, mas cada públicos existentes.
um é livre para escolher os caminhos que Questionamentos sobre a legitimida-
quer. No rap a gente mostra esses dois la- de das “lideranças institucionalizadas”
dos da vida” (trecho do depoimento de nas entidades e sobre a necessidade de
Suspeito. Alves; Alvim, 2007, p. 27). relações mais horizontais também estão
Nesse sentido, a FMBJ se coloca, ao presentes, enfaticamente, na Revolta do
mesmo tempo, como grupo específico e Buzu. Há uma observação interessante
como expressão de um movimento dentro no relatório desse estudo de que o acon-
do hip hop. Neste momento, buscam se tecimento consistiu em várias manifesta- desce toda a juventude do morro,
bairros Centenário, São Francisco,
constituir como uma ONG, para potencia- ções e não em uma única e gigantesca. Salgado, Cohabs, enfim, aquela mul-
tidão de jovens repetindo os refrões
lizar o desenvolvimento de projetos (artísti- Isso está relacionado ao fato de que não das bandas. Isso sim é pressão! Os
cos e de atuação com a comunidade). foi um movimento inteiramente planejado pais desses jovens tudo ali, apoiando
o grito deles. Essa era a intenção. E aí
As formas de atuação se apresentam, e orquestrado por uma liderança unifica- você tinha, do outro lado da cidade,
seja no São Francisco, seja no Alto da
basicamente, sobre dois planos: o primei- da, embora esse seja um ponto polêmico Balança, os parceiros que colam com
a gente, fazendo suas paradas, sozi-
ro é o da “expressão artística”, cultural, na suas interpretações. Tal polêmica é, nhos também. Então, vamos juntar
através das músicas, da dança e do grafi- na verdade, extensão das diferentes e di- todo mundo, “Poder Negro” no São
Francisco, falando do que se passa
te: esse é o modo de atuação fundamen- vergentes orientações que manifestaram na quebrada por lá, e “Alerta Pro
Sistema” disparando o verbo contra o
tal, a base de sua existência como ato- tanto em torno da demanda (do que era sistema do lado do Salgado e do Alto
da Balança. Então, foi essa a nossa
res, o modo como fazem a disseminação central e inegociável nela), como já vimos estratégia para fazer valer nosso grito
de sua visão de mundo. É pelas músicas antes, quanto em torno da “forma de fa- de liberdade (JC, fragmento do Diário
de Campo, 23 de junho de 2007.
(nos shows, nos CDs, com as danças e zer política”. Alves; Alvim, 2007).

Relatório Nacional do Brasil 73


O questionamento da legitimidade A diferença de compreensão do va-
das lideranças e das formas de represen- lor da unificação também é um ponto de
tação foi um dos pontos mais densos dos tensão na experiência do Acampamen-
conflitos internos. Nesse questionamen- to Intercontinental da Juventude e refle-
to genérico (como, de certo modo, ocorre te as diferentes perspectivas dos atores
na FMBJ) está presente o questionamen- que constituem seu comitê organizador.
to da legitimidade das lideranças consti- Nos primeiros AIJs, em cuja convocação
tuídas no papel de direção das entidades estavam mais presentes jovens ligados a
gerais (UNE e Ubes), e também se rela- entidades estudantis e juventudes parti-
ciona com o questionamento do papel de dárias, a perspectiva era a de lograr uma
direção assumido por integrantes das ju- unificação das pautas e das lutas das di-
ventudes partidárias. Muitos estudantes ferentes organizações juvenis, propon-
mobilizados não se sentem como tendo do a assinatura de um manifesto contra
instituído tais lideranças e não reconhe- o neoliberalismo e a construção de um
cem sua legitimidade de representação calendário de mobilização intercontinen-
de seus interesses. Reclamam a possi- tal da juventude, com ações e campa-
bilidade de constituir, nas assembléias e nhas unificadas. Depois, à medida que
de forma mais direta, seu representantes os acampamentos vão assumindo um
(momentâneos e com mandatos muito conteúdo de experimentação dos princí-
definidos) para a negociação com o po- pios de um outro mundo, a perspectiva
der público. da síntese única dá lugar à proposta de
A divergência também se manifes- congregação de diferentes, que pode po-
ta com relação à necessidade ou não de tencializar e propiciar a irrupção do novo
imprimir uma condução mais direciona- e do transformador. Essa postura se forta-
da à mobilização, de instituir um coman- lece à medida que os integrantes do COA
do centralizado – o que, na perspectiva desenvolvem uma postura política mais
das direções das entidades e dos parti- afinada com esses princípios e um ques-
dos políticos, era essencial para a eficá- tionamento da prática de militância dos
cia da mobilização no atendimento da partidos políticos e movimentos “tradicio-
demanda, assim como para o saldo polí- nais” (como está expresso no relatório).
tico e organizativo que se poderia lograr. Isso, evidentemente, produz tensões com
Já outros valorizaram a capacidade de outras lideranças juvenis. Pode-se pensar
replicação e multiplicação espontânea que aparecem, aqui, dois tipos de pers-
do movimento, que aparece como um pectiva, diferentes com relação à congre-
dos motivos do vigor e da massividade gação de forças: há uma diferença entre
do acontecimento, expressando a juste- estar junto e construir princípios comuns,
za de sua bandeira e a potencialidade reunindo bandeiras diversas, e unificar as
de atuação dos jovens estudantes. bandeiras e formas de atuação.
Essas divergências se corporificaram Um modo diferente de participar e
como divisão do movimento quando as desenvolver a atuação política é uma
“bases” (unidas a lideranças “indepen- das principais proposições do COA,
dentes” dos grêmios locais) não aceita- como já dissemos rapidamente em pon-
ram a negociação levada a cabo pelas li- to anterior: esse novo modo está ba-
deranças das entidades gerais, nem as seado em práticas de horizontalidade,
orientações para cessar as mobilizações descentralização, rotatividade nas repre-
e cumprir o acordo com a prefeitura. Mas sentações no COA, preocupação em dis-
elas também estão relacionadas a per- cutir o processo, não verticalização das
cepções genéricas sobre os modos de fa- decisões, longas assembléias para dis-
zer política, que se reproduzem em ou- cutir e posicionar-se enquanto acampa-
tras situações. mento. O princípio de não ter lideranças

74 Ibase | Pólis
únicas para representarem tanto o COA cebida nos inúmeros pequenos grupos
como o FSM fazia parte do conceito de dispersos em diferentes arenas.
horizontalidade. A prática da autogestão É elucidativo, neste ponto, registrar as
se expressava no microespaço da com- dificuldades e limitações que essa pers-
posição do COA e na gestão de todo es- pectiva encontra: por um lado, as dificul-
paço do AIJ. A denominação de “Cidade dades da democracia direta e a exigência
das Cidades”, em 2003, foi destacada de dedicação quase exclusiva que os in-
nos documentos não como tendo uma tegrantes do COA têm de dar à experiên-
“pretensão de totalidade”, mas como cia; por outro, a dificuldade de aplicar tais
um respeito à diversidade da organiza- princípios (autogestão, democracia direta,
ção (em bairros), coordenada por um relações horizontais) numa “cidade” de 35
conselho de gestão e não por uma única mil pessoas. A isso se soma a dificuldade
pessoa (tipo ‘prefeito’). Há, por exemplo, de adesão dos participantes dos acampa-
um documento do AIJ que fala em “rein- mentos aos princípios propostos (que se
ventar a militância juvenil”. manifesta na dificuldade de praticá-los),
Percebemos uma lógica democráti- produzindo problemas que levaram os in-
ca ligada mais à participação dire- tegrantes do COA a avaliarem uma “invia-
ta que à representatividade, e essa é bilidade da proposta” nessas condições.
uma importante mudança de lógica Parece importante ressaltar que as
apresentada por este grupo no sen- críticas e diferenças com relação a práti-
tido de construir novas relações po- cas e concepções dos partidos políticos
líticas. Logicamente, esse princípio e “organizações tradicionais” também
vai apresentar limites relacionados apresentam conexão com as diferentes
com essa participação, pois parte posturas relacionadas ao poder público.
do pressuposto de envolvimento dos Os atores aqui considerados apresentam
atores do processo, fato que nem diferentes avaliações a respeito da “políti-
sempre se concretizou na prática ca” e dos partidos políticos.
(Corrochano; Nascimento, 2007). Em alguns casos, é muito grande o
receio da cooptação por parte de repre-
É interessante anotar que esses ato- sentantes do poder público ou de mili-
res nomeiam essa lógica de participa- tantes partidários, gerando uma postura
ção, aliada ao estilo de atuação (de ação de recusa de interlocução ou de afasta-
direta e de pôr em prática as idéias e os mento dos canais de relação com o po-
princípios) como o de uma “nova gera- der público. Em outros, é justamente a
ção política”, indicando tanto uma ten- eles que os atores se dirigem preferen-
dência dos jovens a propor e aderir a cialmente. Em alguns casos, há alta va-
essa postura quanto no sentido de afir- lorização da organização partidária. Por
mação de uma tendência de renovação exemplo, no sindicalismo, o vínculo e a
das formas de fazer política. Mas a re- formação partidária de lideranças sindi-
sistência de muitos atores, inclusive ju- cais jovens é percebido como acrescen-
venis, em assumir tal perspectiva, sus- tando qualidade política e ampliação de
pende a possibilidade de falar numa perspectivas à organização sindical, as-
tendência de superação. Como já men- sim como possibilitando a ampliação das
cionado, trata-se de uma perspectiva possibilidades de relações e interlocu-
que disputa com outras, mais consolida- ções em vários planos de atuação.
das nos partidos e em certas organiza- Por isso, cabe aqui fazer uma di-
ções. O que talvez seja interessante per- gressão reflexiva. Por um lado, parece
ceber é que o AIJ dá maior visibilidade importante identificar um processo de
e fortalecimento político a essa postura questionamento bastante profundo da
“nova”, antes apenas pontualmente per- prática política dos “atores tradicionais”

Relatório Nacional do Brasil 75


(principalmente os ligados a partidos po- e cooptação entre atores do “outro cam-
líticos e entidades estudantis e sindicais) po”, como no caso dos financiamentos
por parte de outros jovens (articulados de grupos juvenis ou ONGs por parte de
em torno de identidades, questões cul- instituições como o Banco Mundial.
turais, inserção comunitária, projetos de Há situações em que, realmente, pa-
ONGs – por exemplo, a FMBJ – e, numa rece haver cisões muito fortes entre dois
outra chave, de inspiração autogestio- “campos” distintos de atores juvenis. O
nária, como os integrantes do COA), as- quão profundo é esse fosso? Que conse-
sim como por parte de jovens que par- qüências traz para as possibilidades de
ticipam de grandes mobilizações (como criação de fóruns e articulações comuns?
no caso dos estudantes da Revolta do Como evitar que apenas atores juvenis de
Buzu). Encontramos manifestações mui- um desses diferentes campos se façam
to evidentes de desconfiança; medo de presentes nos canais de interlocução e
cooptação e manipulação; rechaço da nos espaços de decisão a respeito das po-
pretensão de representação em proces- líticas de juventude?
sos de negociação, rechaço da busca de Com relação às arenas de constitui-
dar direção aos movimentos a partir de ção dos atores e de seus focos de atua-
uma constituição de posição de mando ção e interlocução, também há grande va-
fora (ou anterior) à própria mobilização. riação. Se alguns atores se constituíram
Principalmente, com relação aos parti- a partir da proposição ou do estímulo de
dos políticos, uma crítica à lógica “elei- agentes do Estado, ou pela perspectiva
toreira” e um receio de serem usados de participar de instâncias do poder pú-
(suas mobilizações, seus posicionamen- blico, nem todos têm esse foco. Do mes-
tos públicos) para esse fim. Há, tam- mo modo, não é em todos os casos que
bém, por parte de alguns desses atores, as demandas, buscas de atendimento ou
uma crítica ao “oficialismo” assumido proposições de transformação se dirigem
pelas juventudes de partidos de esquer- ao poder público. Nem todas se configu-
da que participam de gestões públicas ram como demandas de políticas públicas
que procurariam, assim, “abafar” as crí- ou como demandas de políticas de juven-
ticas e as demandas que possam produ- tude. No entanto, também é possível dizer
zir desgastes aos governantes. que, em todos os casos, há relações com
Por outro lado, vemos atores juvenis, o poder público em torno de suas bandei-
organizados em torno de ideários político- ras ou atuações, que há pontos de inter-
partidários e de estruturas institucionali- secção e desdobramentos relativos a polí-
zadas de representação com uma avalia- ticas públicas.
ção bastante diferente a respeito da im- Às vezes, as demandas se dirigem a
portância de dar organicidade, unidade um ator ou a uma organização mais am-
e direção política mais clara às deman- pla que se propõe a lutar por direitos, que
das e mobilizações juvenis. Entre esses desenvolve atividades de apoio e ofere-
atores, encontramos manifestações mui- ce benefícios, como no caso dos sindica-
to fortes de valorização da organização e tos (quando os jovens pedem aos sindica-
participação dos jovens e preocupações tos que propiciem convênios para cursos
com as possibilidades de despolitização de qualificação com desconto, por exem-
que as críticas apresentadas pelo “outro plo); ou, ainda, se apresentam como de-
campo” contêm: os questionamentos a mandas de inclusão no âmbito da organi-
respeito da democracia representativa e zação, como é o caso dos coletivos juvenis
da organização partidária aparecem, para dos sindicatos, demandando inclusão da
esses jovens, como fazendo caldo de cul- juventude na pauta e na estrutura organi-
tura para posições autoritárias e de direi- zativa das centrais sindicais, e dos militan-
ta. E apontam perigos de manipulação tes das ONGs, que militam no Fórum de

76 Ibase | Pólis
Juventudes do Rio de Janeiro e pedem a ser necessário estabelecer alguns pon-
ampliação da importância do tema da ju- tos prioritários de discussão e ação, con-
ventude no interior de suas organizações. siderando as necessidades dos jovens e
Na maioria das vezes, há uma com- as questões que estão na pauta pública”
binação desses planos: os atores têm de- (Brenner, 2007).
mandas dirigidas ao poder público e de- Na verdade, essa tensão está refle-
mandas de ampliação na participação tida na controvérsia a respeito da ori-
das estruturas de organizações e movi- gem desse ator. Aliás, essa controvérsia
mentos mais amplos (ou demandas de também dá pistas sobre as diferentes vi-
transformação das relações políticas na sões a respeito do seu lugar e significa-
prática de suas entidades e seus movi- do, assim como sobre a importância po-
mentos), combinadas a demandas mais lítica do campo das PPJUV. Para alguns,
gerais relativas à transformação da socie- a origem vem de outra tentativa de arti-
dade, do modelo econômico e social e culação (com o nome de Rede Jovens
dos valores culturais. em Movimento), estimulada pela parti-
Assim, é possível perceber que os cipação de vários militantes no II FSM,
jovens têm se mobilizado por diversas com a proposição de “discutir o emer-
questões e em planos múltiplos, não so- gente tema da juventude, suas deman-
mente em torno de políticas públicas, das e as ações públicas voltadas para
nem totalmente ao largo delas; nem in- essa população”, mobilizando jovens
teiramente focados no Estado, nem dan- para construir uma pauta coletiva (a par-
do as costas a ele. Assim, não parece tir da discussão de seus interesses e
possível assinalar uma tendência co- suas necessidades) e colocá-la na agen-
mum nesse sentido. da pública, cobrando do poder público
O Fórum de Juventudes do Rio de soluções aos problemas e às demandas
Janeiro também parece seguir o estilo levantados pelos jovens. Essa rede não
de uma “estrutura desestruturada”, mas conseguiu se consolidar. Em seu lugar
aqui a ambigüidade com relação à forma- (na versão de uns) ou como continuida-
lidade parece ser foco de tensões: as li- de (na versão de outros), é formada ou-
deranças sentem falta de uma estrutura tra, em 2003, a partir da convocação de
de organização, algo que se assemelhas- um agente público e com uma proposta
se a uma secretaria executiva, mas, ao de articulação mais ampla, tanto em ter-
mesmo tempo, não querem criá-la, por mos sociais (da gestão pública à iniciati-
considerarem que isso poderia burocra- va privada e organizações não-governa-
tizar demais as relações, “engessando” o mentais) quanto territoriais (se propunha
fórum em uma estrutura burocrática. O como um Fórum Regional de Políticas
temor maior é que uma estrutura assim Públicas de Juventude do Sudeste do
organizada possa acabar com a esponta- país). Essa rede também não se conso-
neidade desejada pelos integrantes adul- lida, não conseguindo adesão de várias
tos. Tal espontaneidade de organização das organizações da primeira proposta.
também aparece vinculada à indefinição Um ano depois, nova rede é organizada,
de uma pauta de discussão e de ação, desta vez com o nome do Fórum de Ju-
“traduzida na possibilidade de ter agen- ventudes do Rio de Janeiro, puxada por
da sempre aberta a temas emergentes no uma entidade nova no tema da juventu-
cotidiano, nunca ocupada por temas pre- de no cenário carioca, com o “objetivo
viamente estabelecidos”. Esse parece ser de reunir jovens das organizações parti-
um dos temas mais controversos no in- cipantes para discutir políticas públicas,
terior do próprio grupo, como assinala a pois esse era um tema que estava na
pesquisadora Ana Karina Brenner, pois pauta do dia devido ao processo que se
“alguns dos seus membros acreditam desenrolava nacionalmente”.

Relatório Nacional do Brasil 77


As questões implicadas nessas di- Aqui está implícita a percepção de
ferentes “fundações”, e que também que há uma distância bastante grande
remetem a divergentes fundamentos entre as PPJUV e as “reais demandas
da atuação, segundo a problematiza- dos jovens”. Retomaremos esse ponto
ção apontada no relatório, se relacio- mais adiante.
nam, principalmente, a duas questões:
primeira, ter nascido de atores juvenis
– ou que se articulam em torno do tema 5.1 INTERLOCUTORES/ MEDIADORES
da juventude – constituídos no campo
da sociedade civil, ou a partir de ges- A dificuldade de nomear ou identifi-
tores e em espaços organizados pelo car mediadores, que aparece tanto na
poder público; segunda, construir sua FMBJ quanto na Revolta do Buzu, tam-
agenda em torno de uma pauta de de- bém pode estar vinculada à dificulda-
mandas com base nos interesses e nas de já referida de aceitar a constituição
necessidades dos jovens que, então, de lideranças formais. A dificuldade de
devem produzir mobilizações de pres- estabelecer relações de confiança em
são para a formulação de políticas pú- quem possa “falar por eles” ou fazer
blicas pelo poder público, ou construir pontes de relação política está pousada
sua agenda em torno das pautas pro- no receio de serem cooptados e usados
postas como políticas públicas de ju- politicamente.
ventude, buscando interferir em sua Por outro lado, há dificuldades de
formulação nos espaços institucionais aproximação de outros movimentos e
criados com esse objetivo. outras organizações (ou de suas dire-
Nessa problematização está presen- ções adultas). Apesar da crescente per-
te uma avaliação de que atores consti- cepção da existência de atores juvenis,
tuídos dessa maneira, por vício de ori- e até mesmo da surpresa positiva diante
gem e de perspectiva, não conseguem de certos acontecimentos impactantes
colocar as verdadeiras demandas dos promovidos por jovens, há muita difi-
jovens, uma vez que se limitam aos pa- culdade de estruturação de relações de
râmetros dados pelas políticas propos- apoio a eles sem que sejam feridos seus
tas pelos gestores. Está presente, tam- desejos de autonomia e independência
bém, a avaliação de que a criação desse política. Em certa medida, porque ainda
“campo” em torno das políticas de ju- vigoram percepções desqualificadoras
ventude, com o investimento na abertura da capacidade de atuação e de assumir
de espaços específicos na máquina pú- posições responsáveis ou politicamen-
blica, produz uma substituição de atores te relevantes (há uma queixa muito ge-
coletivos juvenis por gestores juvenis. neralizada dos jovens militantes nesse
Isso desvia o foco da atuação dos atores sentido, da sensação de sofrerem des-
da mobilização social para a ocupação qualificações por parte de outros atores
de espaços de poder. Nesse sentido, a ou mesmo das direções das organiza-
demanda por participação desenvolvida ções mais amplas em que estão inseri-
pelo FJRJ seria uma demanda por par- dos). Nesse distanciamento revelam-se,
ticipar do campo institucionalizado das também, muitas dificuldades em consi-
PPJUV, sem lograr, no entanto, uma am- derar as demandas desses atores como
pliação da participação dos jovens usuá- relevantes ou pertinentes.
rios nesse processo, nem a inclusão das De todo o modo, o saldo, em termos
demandas por eles formuladas. Ou, num de relações de mediação e interlocução
outro modo de dizer, se constitui pau- não parece muito rico, embora apareçam
tado pela institucionalidade política, em relações fortes que se tornam bastante
vez de conseguir pautá-la. significativas em cada um dos casos.

78 Ibase | Pólis
No estudo da FMBJ, o principal me- Acadêmico de História e em partido
diador do grupo é o próprio pesquisador, político, sua postura foi de animador,
que foi professor de um dos integran- isto é, daquele que provoca a refle-
tes do grupo na época de sua fundação. xão coletiva e busca uma identidade,
Essa relação com um professor que per- uma ‘alma’ para o grupo, levando os
cebe, se interessa e cria uma relação estudantes a reconhecerem seu pa-
de interlocução, de apoio e se constitui pel de sujeitos políticos (Oliveira,
como referência para grupos de hip hop Carvalho, 2007).
(e outros grupos culturais) não é única.
No caso da FMBJ, o professor atua dan- No curso dos acontecimentos, os es-
do apoio, individual e coletivo, aos inte- tudantes tiveram, além da simpatia da po-
grantes do grupo, busca mediar a relação pulação em geral, apoio de várias enti-
com certas instituições, como a polícia e dades e vários movimentos sociais, entre
o poder local, estrutura relações com ou- eles o Movimento dos Sem Teto de Salva-
tros setores, por exemplo, com a universi- dor (MSTS), a Federação das Associações
dade e os órgãos de imprensa. de Bairros de Savaldor (Fabs), o Movimen-
Embora eles se sintam bastante soli- to dos Trabalhadores Desempregados e o
tários e com pouco apoio real no percur- “Conselho de Acessibilidade” (Cocas).
so de buscar produzir intervenções na No caso dos trabalhadores da cana,
comunidade e conquistar certos direitos, os mediadores são, na região paulista da
entraram em relação com vários atores produção sucroalcooleira, os sindicatos
institucionais (nem sempre avaliadas po- rurais e a Pastoral do Migrante (mais es-
sitivamente): direção da escola, polícia, pecificamente, nesta pesquisa, o Sindi-
primeira-dama, arquidiocese. Percebe- cato dos Empregados Rurais de Cosmó-
se que essas relações são sempre pon- polis e Região de Campinas e a Pastoral
tuadas por certa tensão, construída pela do Migrante de Guariba), embora ne-
desconfiança de haver uma intenção de nhum dos dois tenha, como já foi anota-
cooptação política ou de estabelecimento do antes, um trabalho voltado especifica-
de uma relação clientelista por parte dos mente para jovens. O sindicato media a
atores políticos que se dispõem a entrar relação dos jovens com as usinas princi-
em relação com eles. palmente em torno da luta pelo cumpri-
O professor que apóia e estimula, mento dos direitos trabalhistas. A maior
ajudando a construir a reflexão acerca da parte dos jovens procura o sindicato de
própria atuação, também aparece entre forma eventual: quando necessita de as-
os estudantes da Revolta do Buzu. Nesse sistência médica, quando os sindicatos
estudo, as pesquisadoras relatam: fazem a negociação com os patrões nas
Houve grande dificuldade em identi- paralisações das turmas e nas greves da
ficar pessoas que atuaram como ‘me- categoria, quando o sindicato fiscaliza
diadores institucionais’, sobretudo as condições de trabalho. Alguns parti-
devido à resistência dos jovens mani- cipam mais intensamente e se integram
festantes em aceitar qualquer tipo de aos sindicatos. Mas há posições diferen-
liderança ou mediação, propriamen- tes a respeito de sua importância.
te dita. Alguns professores foram cita- O trabalho pastoral consiste em dar
dos, como Raphael Cloux, menciona- apoio e prestar solidariedade aos migran-
do naturalmente pelos estudantes do tes que chegam na região de Ribeirão
colégio Iceia e lembrado pelo presi- Preto. É um trabalho de acompanhamen-
dente do grêmio do Central. Durante to dos migrantes e de suas famílias, no
a entrevista, ficou evidente que, não qual cabe tanto a evangelização, as cele-
obstante sua idade na ocasião (20 brações, as atividades culturais e os en-
anos), seu engajamento no Centro contros para conscientização dos

Relatório Nacional do Brasil 79


trabalhadores sobre os seus direitos. Em tes do PCdo B, partido ao qual estão fi-
momentos de crise – sejam de doen- liados lideranças de entidades estudantis
ças, enterros, brigas familiares, gravidez como a UNE.
– costuma-se recorrer à pastoral. Embora No caso do AIJ, também é funda-
não tenha um trabalho específico voltado mental para o estabelecimento das rela-
para os jovens nessa região, a pastoral: ções de apoio e negociação com o poder
Coloca em sua agenda de ‘conscien- público, as afinidades partidárias: en-
tização’ o que considera ‘os proble- quanto a Prefeitura de Porto Alegre foi do
mas dos jovens’, isto é, relacionados PT, essas relações puderam ser constru-
à desintegração da família, à gravi- ídas de modo muito mais solidário; nas
dez precoce, às doenças sexualmen- últimas versões, com o governo de outro
te transmissíveis, à violência e ao uso partido, fica muito mais difícil, e a relação
de drogas. Desenvolvendo seu traba- com a polícia, principalmente, se torna
lho por meio de reuniões, atividades muito mais tensa.
culturais e ações sociais, a Pastoral Em muitas situações, as relações
dos Migrantes tem atraído muitos jo- que atores “adultos” estabelecem assu-
vens para os seus quadros. mem mais o sentido de propiciar espa-
ço ou relação de formação para os jovens
No caso do Sintratel, o principal in- “aprenderem a fazer política” (ou apren-
terlocutor na expressão da demanda por derem sobre os conteúdos programáticos
trabalho decente, é a central sindical a da organização mais ampla) que negociar
qual está filiado (CUT): bandeiras ou perspectivas de atuação
Assim como também é nas instâncias (como nos casos das centrais sindicais e
cutistas que as lideranças do sindi- dos partidos políticos). Em outra verten-
cato colaboram para construir pautas te, a relação de apoio que muitas ONGs
de juventude.25 [...] Fora do espaço e organizações de cooperação estabele-
cutista, o Sintratel tem estabelecido cem é a de ajudar a montar projetos de
diálogo apenas com prefeituras de intervenção como um modo de formar
gestões de esquerda, como no caso para a cidadania e participação ativa. O
da gestão Marta Suplicy em São Pau- apoio, no fundo, está mais direcionado ao
lo (2001-2004), que gerou até a par- aprendizado do “protagonismo” do que
ceria de formação de jovens no Pro- à intervenção propriamente dita (ou seja,
grama Bolsa Trabalho, anteriormente interessa menos o que o jovem propõe
citada, e na gestão petista de Emídio ou demanda que o aprendizado que ele
de Souza (2004-2008), no município adquire no processo). Em ambos os ca-
de Osasco, onde há um projeto em sos, vemos que os conteúdos apresenta-
desenvolvimento direcionado à quali- dos pelos atores jovens possuem pouca
ficação de jovens em telemarketing . relevância na relação de mediação. Pou-
ca chance, então, para que a interlocu-
É possível intuir que, muitas vezes, os ção se faça em torno das demandas ou
interlocutores são estabelecidos por afini- das bandeiras. Mais comumente, é sobre
dades político-partidárias de seus dirigen- a potencialidade da participação juvenil
tes com os de outras entidades e organi- que a relação se estabelece.
zações, como no caso dos estudantes da Com relação às articulações e cone-
Revolta do Buzu: a relação com o Sindi- xões com outros atores, encontramos um
25
Registra-se, já na constituição do
Coletivo Nacional de Juventude da cato dos Bancários (onde realizam a as- mosaico diferenciado de possibilidades:
CUT, a participação de um dirigente
do Sintratel, o então presidente sembléia mais acirrada, onde se consoli- alguns atores procuram as redes e articu-
Marcos Roberto Emílio. Atualmente,
nota-se o envolvimento de membros
da a divergência acerca da continuidade lações de seus “campos maiores”, como
do sindicato nos coletivos de saúde, ou não da mobilização) tinha a ver com o no caso dos jovens sindicalistas, que pri-
meio ambiente, de questões raciais e
de gênero. fato de que, em sua direção, há militan- vilegiam as conexões com atores sindi-

80 Ibase | Pólis
cais e outras organizações das classes
trabalhadoras; mas é importante notar
que eles têm, também, procurado estar
presentes nos canais de articulação “ju-
venis”, principalmente aqueles voltados
para a questão das políticas de juventu-
de (os coletivos juvenis têm assento nos
conselhos de juventude, como o Conju-
ve). Importante reparar que o ator privi-
legiado para a pesquisa dos trabalhado-
res de telemarketing, o Sintratel, também
faz conexões políticas importantes com
outros setores baseados em “singularida-
des”, como mulheres e militantes dos di-
reitos de orientação sexual.
Os atores estudantis (principalmen-
te os de caráter nacional) têm alto grau
de articulação com diferentes setores
da sociedade, inclusive com assento em
vários canais de articulação com o po-
der público (não só os “de juventude”, e
nem só os de “educação”). Não foi pos-
sível, porém, aferir quais dessas redes
ou conexões eles privilegiam. Como vi-
mos, há controvérsias mas, de modo ge-
ral, é possível dizer que existe tanto uma
orientação para articulação com a “po-
pulação” quanto com os “jovens”. Eles
têm tido participação significativa em to-
dos os momentos de encontro, debate,
seminários, fóruns, campanhas, acam-
pamentos etc.
Nesses dois casos, entidades estu-
dantis e sindicais, as articulações tam-
bém se fazem pelo recorte ideológico e
político-partidário (a escolha dos interlo-
cutores, parceiros e dos espaços de ar-
ticulação). Por outro lado, não parecem
ter investido na presença em articulações
promovidas por organizações não-go-
vernamentais de cooperação internacio-
nal. Também não parecem estar presen-
tes de modo mais orgânico nas redes e
nos fóruns mais informais que buscaram
se articular em torno do tema da juventu-
de (como o Pró-Fórum de Movimentos e
de Organizações Juvenis). Será que isso
pode indicar processos de montagem de
campos de articulações distintos entre os
atores juvenis?

Relatório Nacional do Brasil 81


6. AS POLÍTICAS RESPONDEM ÀS DEMANDAS?
Há políticas públicas em todas as grandes áreas Vemos, por exemplo, que a deman-
levantadas pelos jovens, mas não necessariamente da por ensino superior público e gratui-
com o enfoque ou a particularidade levantada pelas to ainda se formula como demanda tan-
demandas. Algumas áreas são consideradas com muito to na aspiração dos jovens entrevistados
maior peso e volume do que outras. E há demandas (como entre os jovens do telemarketing)
muito fortes entre os jovens que não parecem ganhar quanto nas linhas de atuação da UNE,
atenção ou formulação de respostas consistentes. que luta contra a mercantilização do en-
sino e pela regulamentação das escolas
privadas. Nesse sentido, porém, não te-
Educação é a que reúne maior núme- mos elementos suficientes para verifi-
ro de ações, programas, equipamentos e car como esses atores avaliam as políti-
investimento desenvolvidos por todos os cas desenvolvidas pelo governo federal
níveis do Estado (municipal, estadual e relativas à questão, a exemplo do Pro-
federal) e por instituições da sociedade grama Universidade para Todos (ProU-
civil. É, talvez, a única que configura uma ni) e das cotas para estudantes oriundos
“política estruturante” e com a formula- das escolas públicas. Sabemos, no en-
ção de responder a um direito universal. tanto, que UNE e Ubes têm tido assento
Isso se relaciona, como vimos, com a no- em conselhos de programas de educa-
ção amplamente partilhada (por jovens, ção e desenvolvido ações conjuntas com
atores juvenis, não juvenis e pela opinião o governo federal. O Projeto Rondon, por
pública) da educação como um direito – exemplo, é uma política do governo fe-
e como um direito particularmente impor- deral formulada a partir de uma deman-
tante para os jovens, condição de garan- da da UNE.
tia de todos os outros direitos. As demandas por uma escola “que
As respostas existentes, no entanto, caiba na vida” e que interesse aos jo-
não atendem às demandas nem com re- vens parece ser a que ainda encon-
lação à quantidade (principalmente no tra dificuldade de ser debatida e trans-
que se relaciona às vagas no ensino su- formada em política. Concretamente, a
perior público, à educação profissionali- demanda, muito explicitada, pela pos-
zante e ao ensino médio), nem na orien- sibilidade de conciliar escola e traba-
tação das diretrizes (principalmente no lho (não só no projeto pedagógico ou
que diz respeito ao investimento na qua- na formulação de educação profissio-
lidade do ensino público médio e fun- nalizante, mas na conciliação de ativi-
damental, assim como no profissional; e dades simultâneas pelos jovens) ainda
ao estilo da educação desenvolvida, por encontra parcas respostas. Talvez cai-
exemplo, no caso das reclamações dos ba perguntar se a tendência, crescen-
jovens do hip hop de que a escola exis- te e recente, de definir como público-
tente não é capaz de incluir os jovens das alvo prioritário das chamadas políticas
periferias), nem nos formatos em que as emergenciais os “jovens que não estu-
singularidades dos segmentos as formu- dam nem trabalham”é uma opção equi-
lam (como a necessidade de ter formatos vocada, pois deixa de fora a possibilida-
mais acessíveis para jovens em situação de de articular trabalho e escola como
especial, como os do meio rural). demandado pelos jovens.

82 Ibase | Pólis
As possibilidades de superar essa li- Em Salvador, o benefício foi institu-
mitação estão relacionadas à capacida- ído em 1983, proporcionando aos estu-
de de considerar, mais a fundo, as di- dantes do município o desconto de 50%
versidade de situações, as demandas no pagamento da passagem de ônibus
dos jovens e à capacidade de formular exclusivamente para os seus desloca-
respostas com formatos suficientemen- mentos à escola. Depois da mobiliza-
te flexíveis para atender às particulari- ção de 2003, ganharam o direito de usar
dades. É claro que isso não é nada fá- a meia passagem em outros períodos,
cil num país com o tamanho geográfico além do escolar, assim como aumentou
e populacional do Brasil, com a diversi- a categoria de estudantes beneficiados:
dade e desigualdade que contém. Isso hoje, têm direito ao benefício alunos ma-
significa, na verdade, considerar que a triculados em instituições públicas ou
necessidade de aumentar o investimen- particulares de ensino fundamental, mé-
to na educação vai além do aumento de dio, superior, suplência, cursos de pós-
verbas para a estrutura e a garantia da graduação de mestrado e doutorado, ca-
qualidade do ensino, implicando, tam- dastrados no Sindicato das Empresas de
bém, a importância de sofisticar os diag- Transporte de Passageiros de Salvador
nósticos sobre as singularidades juve- (SETPS) que estejam freqüentando re-
nis e as demandas apresentadas, e de gularmente as aulas, que possuam ida-
formular repostas diversificadas que lo- de mínima de 7 anos e residam a mais
grem maior ‘adesão” dos jovens aos pro- de um quilômetro da escola.
gramas oferecidos. Essa tem sido, contudo, uma das
Com relação ao direito de circulação, demandas que mais embate têm pro-
as respostas existentes estão configura- duzido entre jovens e poderes públi-
das na concessão de diferentes formas cos, principalmente na disposição dos
de passes estudantis e de fornecimento estudantes em rejeitar as proposições
de transportes especiais para acessar a de aumento da tarifa (em Vitória, capi-
escola em casos especiais (por exemplo, tal do Espírito Santo, em 2005, foram
os veículos escolares – ônibus e barcos vitoriosos ao barrar o aumento). Aqui
– no meio rural, com oferta ainda lon- se instala um debate sobre se os jovens
ge de atingir a demanda, especialmen- devem ter esse tipo especial de subsí-
te em certas regiões). Tais políticas são dio e em quais circunstâncias: a maior
definidas no nível municipal e apresen- parte dos gestores se dispõem a bancar
tam variação muito grande. Segundo le- o subsídio apenas como forma de ga-
vantamento não-exaustivo feito para este rantir o direito à educação (considerado
estudo, apenas Rio de Janeiro e Cuiabá como o essencial e dever do Estado), e
tinham passe livre; em Brasília, os alu- não para outros fins. Nesse sentido, po-
nos pagam um terço da tarifa; em Curiti- demos dizer que o direito mais genérico
ba e Belo Horizonte, a meia passagem só à circulação e à cidade, tal como for-
existe para quem comprova renda fami- mulado em certas expressões, não está
liar baixa. Outras cidades conferem meia incorporado nem respondido.
passagem a estudantes que moram a
certa distância da escola.

Relatório Nacional do Brasil 83


6.1 TRABALHO peito à promoção do trabalho decente
para os jovens ou às possibilidades de
Como já nos referimos muito amplamen- conciliação de trabalho e escola.
te, o trabalho dos jovens tem aparecido O Programa Nacional de Primei-
mais como um recurso de denúncia da ro Emprego foi um dos primeiros progra-
desigualdade do que como uma política mas de amplitude pensado especifica-
de enfrentamento da questão. mente para jovens no governo federal,
No tema do trabalho, podemos di- mas encontrou limitações para sua con-
zer que há uma série de ações, mas ain- cretização. Hoje, apresenta-se reformula-
da não é possível perceber nem a con- do, estando em extinção justamente a di-
figuração de um conjunto articulado de mensão de apoio à criação de vagas (por
diretrizes que componha uma “políti- meio de medidas de incentivo fiscal às
ca”, nem que as ações estejam orienta- empresas que contratam jovens), cres-
das pela concepção de garantia de um cendo de importância a dimensão dos
direito. Pode-se perceber que os pro- consórcios sociais, que combinam quali-
gramas são propostos mais como ações ficação profissional e o estabelecimento
emergenciais dirigidas a setores mais de metas de inserção de jovens no mer-
vulneráveis que como variadas formata- cado de trabalho. Vale ressaltar que esse
ções a comporem uma política estrutu- programa, na dimensão de apoio à inser-
rante na área. Significativo disso é que ção dos jovens, assim como outros simi-
muitas ações são desenvolvidas por pas- lares (como o do governo do Estado de
tas da assistência social, e não do traba- São Paulo), foi avaliado de modo distin-
lho. Assim, em muitos programas, a pro- to por jovens, lideranças juvenis, demais
posição de ações envolvendo os jovens atores e especialistas. Atores juvenis do
com o trabalho aparecem mais como meio sindical estiveram envolvidos nos
um dos modos de enfrentar a violência debates públicos de sua formulação e ex-
que como um direito das gerações mais pressaram, em documentos, a demanda
jovens. De acordo com o estudo sobre de sua extensão e de seu aprimoramento.
o telemarketing, boa parte das ações Centrais sindicais também se pronuncia-
têm tempo e público determinados, cir- ram favoráveis ao programa. No entanto,
cunscrevendo-se a programas de cará- muitas foram as críticas, principalmente
ter pontual. Também não se observa a por parte daqueles que apostam na pers-
proposição de ações que considerem a pectiva do retardamento da entrada dos
diversidade de relações que a heteroge- jovens no mundo do trabalho e na con-
neidade do segmento juvenil estabelece centração do investimento público na ga-
com o trabalho, o estudo ou com ambas rantia e elevação da escolaridade dos jo-
as esferas simultaneamente (Corrocha- vens. As redefinições de suas diretrizes
no; Nascimento, 2007). e seus formatos, no entanto, não passou
No plano do governo federal, há al- por processo de avaliação e debates pú-
gumas ações dirigidas à geração de blicos envolvendo os atores juvenis.
emprego e renda, mas o acento prin- Por outro lado, várias ações de estí-
cipal é dado a políticas de aumento da mulo ao empreendedorismo são desen-
escolaridade e de educação ou qua- volvidas, com ações de financiamento e
lificação profissional (há uma miríade capacitação especiais para jovens, inclu-
de programas nessa área, desenvolvi- sive no meio rural (por exemplo, o Pro-
da por diferentes pastas e combina- naf-Jovem), onde se desenvolve, tam-
da a outras várias atividades, sem que, bém, um programa de acesso à terra
porém, se abriguem sob diretrizes co- para jovens (Nossa Primeira Terra). Há,
muns). Mas, conforme já anotamos an- porém, declarações da dificuldade sobre
teriormente, quase nada que diga res- a possibilidade de todos os segmentos

84 Ibase | Pólis
de jovens trabalhadores poderem aces- to da discriminação de gênero e raça no
sar tais programas, como vemos nas re- campo da educação, no campo do traba-
flexões de José Roberto Novaes (2007). lho não parecem ter aparecido com con-
Essa observação tem estado em outros sistência no caso da juventude. Menos
estudos, que apontam que somente cer- ainda com relação à discriminação por lo-
tos segmentos de jovens conseguem se cal de moradia, tão citada como proble-
valer desse tipo de apoio. ma pelos jovens.
Em outra vertente, têm sido desenvol- Um último plano pode ainda ser con-
vidas linhas de apoio a iniciativas de eco- siderado. Muitos atores, até mesmo ju-
nomia solidária entre jovens, o que vem venis, apontam para a limitação dos Es-
ao encontro de várias demandas dos jo- tados na capacidade de responder aos
vens engajados na proposição de modos problemas de trabalho e emprego, uma
alternativos ou de transformação das so- vez que são produzidos pelo modo de
ciedades, como no caso dos idealizado- produção e pelo modelo de desenvolvi-
res do AIJ. mento vigente, condicionados, inclusive,
Também, como já vimos antes, aspec- às dinâmicas internacionais do capita-
tos relacionados às condições de trabalho, lismo. Nesse sentido é que as deman-
à jornada e aos salários dos jovens apare- das relativas ao trabalho têm sido reme-
cem de maneira muito tímida no debate tidas à necessidade de interferência no
público e estão praticamente ausentes no modelo de desenvolvimento, assim como
campo das ações governamentais. no ritmo do crescimento. Pode ser in-
Com relação à demanda de combi- teressante refletir, assim, sobre ques-
nação trabalho e estudo, conforme já foi tões levantadas neste estudo a respeito
dito no item sobre educação: de setores que “absorvem” mão-de-obra
Parece evidente que as respostas ain- juvenil, constituindo-se mesmo em ni-
da são insuficientes. Ainda que nos chos de mercado de trabalho para jo-
últimos anos possam ser observados vens: o corte da cana e o telemarketing.
avanços significativos, eles são limita- Nos dois casos, embora por ângulos dis-
dos quando se trata de construir polí- tintos, trata-se de setores em expansão,
ticas específicas no campo do traba- compreendidos como eixos de desenvol-
lho. Se é fato que os jovens desejam vimento e crescimento econômico, apoia-
ampliar sua escolaridade (e aqui vale dos em tecnologias modernas e, no caso
observar, sem serem ingênuos, pois da produção do etanol, como alternati-
eles sabem que a educação não resol- va de uma produção não ambientalmen-
ve tudo), eles também reivindicam tra- te agressiva. Nos dois casos, geram pos-
balho e condições de trabalho. Assim, tos de trabalho formais para jovens. Mas
a demanda é por trabalho (decente) e o que têm representado, para os próprios
educação. Ora, grande parte das polí- jovens, como respostas de uma inclu-
ticas está muito mais direcionada para são “decente” no mundo do trabalho? O
a elevação da escolaridade e oferta de que significa quanto às possibilidades de
qualificação profissional. Assim, a ou- construção de uma trajetória “decente”
tra metade de questões levantadas de inserção laboral?
pelos jovens aqui investigados ainda Esses dois casos podem ser toma-
encontra-se sem resposta. dos para afirmar que, se por um lado,
as respostas relativas a trabalho para
Outra dimensão que aparece ainda os jovens dependem do modelo de de-
pouco considerada é a do enfrentamen- senvolvimento e do crescimento econô-
to das situações de discriminação vividas mico, por outro, as respostas “estrutu-
pelos jovens no mundo do trabalho: se já rais” têm que ser acompanhadas por
existem formulações para o enfrentamen- outras políticas que sejam capazes de

Relatório Nacional do Brasil 85


fiscalizar e controlar as condições dos 6.3 AS POLÍTICAS PÚBLICAS
trabalhos dos jovens e permitir a con- DE JUVENTUDE
tinuidade de sua formação e qualifica-
ção simultaneamente à inserção, com Os estudos coincidem ao assinalarem o
o objetivo de permitir o desenvolvimen- desconhecimento de muitos jovens so-
to de sua trajetória profissional. Esse é bre o termo “políticas públicas de ju-
mais um ângulo que pode nos ajudar ventude”, o que não significa, contudo,
a construir a idéia da necessidade de o desconhecimento ou desinteresse re-
uma “inflexão” juvenil nas políticas uni- lativo a políticas públicas dirigidas aos
versais, a idéia da importância da con- jovens: em quase todos os casos, os
sideração da especificidade na formula- jovens têm demandas de políticas públi-
ção das diretrizes universais ou, ainda, cas que respondam a suas necessida-
da necessidade de articulação (e não des. Já entre as lideranças dos diferen-
só adição) entre as políticas estruturan- tes segmentos, o termo está presente.
tes e as emergenciais. Alguns deles estão envolvidos na sua
formulação ou acompanham o debate
travado nos canais montados para esse
6.2 PARTICIPAÇÃO fim (como é o caso do Sintratel, dos co-
letivos juvenis das centrais sindicais, das
Em certo sentido, parece que são as de- entidades estudantis de âmbito nacio-
mandas por participação as que mais nal). Em outras situações, como vimos,
têm encontrado respostas específicas as políticas de juventude são a razão de
(ou mais aceleradamente) por parte dos existência do próprio ator, como o Fórum
poderes públicos. A criação de órgãos de Juventudes do Rio de Janeiro, ou há
institucionais no governo federal, assim conhecimento e perspectiva de interfe-
como nos planos municipais e estadu- rência em sua formulação (como entre
ais, que incluem tanto a incorporação de os integrantes do COA). Em outros ca-
atores juvenis entre seus gestores quan- sos, o reconhecimento de sua impor-
to a criação de canais de participação e tância vem na forma de uma crítica da
a convocação de fóruns e conferências ausência de PPJUV, apesar da existên-
de debate e proposição de políticas, in- cia de um organismo gestor (como no
dica a criação de respostas concretas a caso do hip hop), que revela, na verda-
essa demanda por participação nos apa- de, uma crítica à diretriz imprimida pelo
ratos públicos. gestor.26 Mas nem todos os atores se dis-
É preciso, contudo, perguntar sobre põem (ou acreditam ter acesso) a parti-
o alcance e o sentido dessa participa- cipar dos canais de formulação.
ção. De modo geral, embora seja ainda Resta, aqui, a mesma pergunta que
cedo para fazer avaliações conclusivas, pode ser feita nos itens acima: de que
26
A gente tem reclamado, por
exemplo, da Secretaria da Juventude, pois o processo todo é muito recente modo as PPJUV dialogam com as de-
sobre a ausência de políticas públicas (tem pouco mais de dois anos no plano
locais para juventude. A secretaria
mandas dos jovens? Os gestores que as
tem se restringido apenas à realização federal), pode-se dizer que há uma ten- formulam levam em consideração tais
de eventos, mesmo assim restritos
à juventude da classe rica. Para a dência a incorporar mais a participação demandas? De que modo escutam ou
periferia mesmo, não tem sido feito
nada, nenhum projeto. Se eu fosse “colaborativa” no plano da execução das recolhem tais demandas? Os espaços
chamado para opinar sobre o uso políticas governamentais que a partici-
do dinheiro público em políticas de
de interlocução (os fóruns, os conse-
juventude, primeiramente acabaria pação na definição das demandas que lhos) têm tido alguma incidência nessa
com essa coisa de fazer só para uma
classe. Não interessa; se é para o devem ser respondidas. elaboração?
bem, eu investiria em todos os setores
da sociedade. Os jovens precisam Talvez faça sentido perguntar até que
de educação profissionalizante.
Então, vamos investir nisso (DJ Nino,
ponto vigora uma lógica no modo como
fragmento de entrevista contida no está sendo montada a institucionalidade
Relatório sobre o hip hop. Ver Alves;
Alvim, 2007). responsável pelas políticas públicas de

86 Ibase | Pólis
juventude (as secretarias ou coordenado- garantidos pelo Estado, também é fato
rias de juventude nos executivos – mu- que logrou muito pouco definir os conte-
nicipal, estadual e nacional), pela qual a údos específicos das políticas para além
representação da juventude no governo do estabelecimento de uma linguagem
se faz por meio da nomeação de um ges- singular e da incorporação de sujeitos jo-
tor jovem. Portanto, a interlocução real se vens nos seus processos. Nesse senti-
fará internamente ao governo, supondo- do, se contribui para afirmação da noção
se que esse gestor conhece e traduz as dos jovens como sujeitos de direitos em
demandas juvenis. nossa sociedade, contribui pouco para a
Uma questão que pode ser explici- definição da “pauta de direitos” que diz
tada diz respeito a uma problematiza- respeito aos jovens. E, talvez, para avan-
ção levantada no estudo sobre o FJRJ: as çar nesse sentido, tenha-se que mudar o
políticas de juventude teriam temas espe- modo de formulação e avaliação das po-
cíficos que diferem das demandas reais líticas, abrindo maior espaço para a com-
dos jovens e das questões em torno das preensão das diferentes situações vividas
quais se mobilizam outros atores juvenis, pelos jovens e para o debate em torno
forjados na mobilização social anterior das demandas que eles apresentam.
à criação do “espaço de PPJUV”? Mas, Entretanto, também é possível ver a
aqui, caberia perguntar: quais são as de- criação das PPJUV e de seus espaços
mandas reais que escapam às PPJUV? institucionais de formulação e execução
As demandas reais dizem respeito às po- como respostas a demandas de certos
líticas universais e não específicas? atores juvenis (juventudes partidárias e or-
Por outro lado, os estudos sobre ganizações ligadas ao movimento estudan-
telemarketing, cortadores de cana e hip til e às pastorais), com a percepção a res-
hop consideram que há demandas espe- peito dos “problemas” de inclusão social
cíficas da juventude, que implicam em identificados no segmento jovem. Há que
políticas específicas, mas que remetem a se ponderar que muitos atores juvenis lu-
direitos universais – como trabalho e edu- taram pela constituição desses espaços e
cação. E que só podem ser resolvidas, só para serem considerados na formulação
podem ser respondidas integralmente se de políticas. Como essas demandas são
atenderem às especificidades da juventu- incorporadas – e quais atores são incor-
de e se cruzadas com suas especificida- porados nos espaços de participação – é
des internas. Ou seja, há a necessidade outra questão. Pode-se pensar que certos
de aprofundar o olhar sobre as especifici- atores foram mais incorporados que as de-
dades da juventude, sobre sua diversida- mandas; que há pouco investimento – tan-
de e, ao mesmo tempo, sobre os direitos to por parte dos representantes do poder
universais implicados nessas demandas público quanto de muitos dos atores juve-
específicas. Além disso, deve-se ampliar nis – na formulação política e no debate
o leque dos direitos (e das políticas) a se- público sobre as demandas. Isso reforça
rem considerados. certa ocupação de espaços sem conteú-
Para além dessas distintas visões, do, por parte de atores jovens, e a tendên-
que certamente têm a ver com as espe- cia de formular as diretrizes dos progra-
cificidades dos sujeitos e atores pesqui- mas baseados em análises diagnósticas e
sados, vale avançar na reflexão sobre o sensos políticos comuns sobre as neces-
campo das políticas públicas de juven- sidades dos jovens sem que as demandas
tude. Se é certo que a montagem des- tenham muito peso nessas formulações.
se campo trouxe visibilidade inédita à Mas nem tanto por uma “insensibilidade”
questão da singularidade da juventude, dos poderes públicos, como pela posição
da importância de considerar os jovens que os próprios atores juvenis foram ocu-
como sujeitos de direitos que devem ser pando nesse cenário.

Relatório Nacional do Brasil 87


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