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A CULTURA E AS CULTURAS,

Introdução à Antropologia
Cultural
WEBMissionary
Antes de ler este material saiba que ele foi digitado em português de Portugal,
por isso contém algumas palavras e expressões que não existem em português
do Brasil. Tente ler este material aproveitando o seu conteúdo, que é de
altíssimo nível para quem estuda missões interculturais.

1
ÍNDICE
0. 0 MUNDO EM QUE VIVEMOS, 5

0. 1. o mundo natural e o mundo artificial, 6

0.2. As idéias e as Coisas, 8

1. A ANTROPOLOGIA CULTURAL, 11

1.1. A Antropologia Cultural: o seu ponto de vista,

objetivo e especificidade. Relações com outras ciências humanas e


sociais, 12

1. 1. 1 A ANTROPOLOGIA CULTURAL E A ANTROPOLOGIA SOCIAL.

ETNOLOGIA, ETNOGRAFIA E HISTóRIA. A ANTROPOLOGIA FISICA, 12

1, 1 .2. 0 CAMPO DE AÇÃO DA ANTROPOLOGIA CULTURAL, 14

O LABORATóRIO DO ANTROPóLOGO, 21

2.1. A cultura e as culturas, 22

2.1.1. CONCEITO DE CULTURA. 0 HOMEM E AS SUAS OBRAS. AS


QUALIDADES DISTINTIVAS DA CULTURA. DO BIOLóGICO AO
CULTURAL E DO CULTURAL AO BIOLÓGICO, 22

2.1.2. 0 HOMEM, A CULTURA E A SOCIEDADE, 25


2
2.2. Componentes da cultura, 32

2.1.2. 0 HOMEM. AS SUAS ORIGENS, 32

2.2.2. OS DIFERENTES «STOCKS IRRACIAIS» E SUA DISCRIMINAÇÃO

GEOGRÁFICA, 44

2.2.3. NATUREZA E CULTURA. NATUREZA-AMBIENTE E CULTURA.

DESAFIO E RESPOSTA, 57

2.3. A estruturação da cultura. 59

2.3.1. UNIDADES ELEMENTARES DA CULTURA. TRAÇOS E

COMPLEXOS CULTURAIS, 59

3
2.4. Aspectos universais da cultura, 67

2.4. 1. A TECNOLOGIA CULTURAL OU A ETNO-TECNOLOGIA

CULTURAL, 67

2.4.2. A ECONOMIA: SISTEMAS DE AQUISIÇÃO E DE PRODUÇÃO DE

BENS, ORGANIZAÇÃO ECONÓMICA, 69

2.4,3. A ORGANIZAÇÃO E A ESTRUTURA DA SOCIEDADE, 74

2.4.4. 0 CONTROLO SOCIAL, 84

2.4.5. AS REPRESENTAÇÕES COLECTIVAS, 96

2.5. 0 dinamismo cultural, 112

2.5.1. ASPECTOS ESTÁTICOS E DINÂMICOS DA CULTURA, 112

2.5.2. MECANISMOS DE MUDANÇAS CULTURAIS. MECANISMOS

INTERNOS E EXTERNOS, 114

3. A ANTROPOLOGIA CULTURAL PORTUGUESA, 119

3.1. Alguns aspectos históricos, 120

3.2 Nomes da Antropologia Portuguesa, 122

4. TRABALHOS PRíMICOS, 123

4.1. Leitura de textos, 124

4.2. Visitas, 131


4
4.3. Desmontagem e explicações de festas, ritos,

acontecimentos do quotidiano, etc- 136

GLOSSÁRIO, 138 AUTORES CITADOS, 140 BIBLIOGRAFIA, 141

5
O MUNDO EM QUE VIVEMOS
0 mundo humanizado

0.1. 0 mundo natural e o mundo artificial

«0 Real ? É aquilo que resiste, insiste, existe irredutivelmente, e se dá,


ao mesmo tempo que se furta, como gozo, angústia ou castração.»

Serge Leciaire, Desmascarar o real

0 mundo que nos rodeia é constituído por objetos, imagens, símbolos. 0


homem define-se como linguagem, inscreve-se na sociedade, é um ser
social que tende e se realiza na gregaridade; e a sociedade inscreve-se
nele, marca-lhe o corpo e o espírito nos hábitos, nos gostos, nos gestos.
Os seus sentidos captam o mundo através de esquemas de
interpretação, tornando-o mais próximo, enquadrando-o, domesticando-
o.

«Enquanto realidade ainda não reconhecida e classificada pelo homem, a


natureza revela-se como o puro Inóspito. Que acontece quando não há
um projecto humano medianeiro entre nós e a natureza? É o reino da
absoluta incomunicabilidade. Perante os nossos olhos deslizam
configurações instáveis, que são incompreensíveis e angustiantes.»

Ernesi Grassi, Arte e Mito

É esse o modo de ser e o destino que o homem criou para si ao tornar-se


um animal simbólico: transformar a natureza, modificá-la, acrescentá-la,
dominá-la, para exorcizar(*) o medo e a angústia que o incomunicável
parece provocar-lhe. Por isso o homem humaniza a paisagem que é o
seu suporte, transformando a matéria bruta em objectos familiares,
6
sinalizando um mundo hostil com uma rede de comunicação conhecida
que sobrepõe ao mundo natural. As imagens que temos do mundo, os
símbolos com que o podemos representar, interpõem-se
sistematicamente na nossa percepção: o tipo de cultura que
interiorizamos oferece-nos um mundo ordenado, diferente, surgindo
como percepção sensível, imediata, um universo de sensações e imagens
que ratificam constantemente o novo como (re)conhecido.

«Suspirou profundamente e arrojou-se - havia uma paixão nos seus


movimentos que justifica a palavra - ao chão, aos pés do carvalho.

Sob toda a transitoriedade do Verão, gostava de sentir debaixo do corpo


o espinhaço da terra - pois assim se lhe afigurava a dura raiz do
carvalho - ou, por sucessão de imagens, o lombo de um grande cavalo
que ia cavalgando; ou a coberta de um navio agitado
- qualquer coisa, na verdade, contanto que fosse firme, pois sentia
necessidade de alguma coisa a que pudesse amarrar o seu incerto
coração, o coração que lhe dava arrancos no peito.»

Virgínia Woolf, Orlando

Imagens culturais interpõem-se entre o homem e o mundo e este surge-


lhe transformado, feito de percepções e «alucinações»(*) que se
apresentam como sensações do vivido no momento.

Tecnicamente, o mundo natural é o mundo intocado, sem intervenção


do homem,- o mundo humanizado, transformado pela sua ação, é o
mundo artificial.

Mundo natural e mundo artificial

Na realidade, a percepção do mundo natural não é tão natural como


parece, pois este é filtrado pelos quadros culturais, pelas imagens e
pelas ideias pré-concebidas que cada cultura fornece ao indivíduo; o
mundo natural é sempre humanizado, pois aí se inclui sempre uma
7
representação do homem que o percepciona. Porém, existe a paisagem
não-humanizada, aquela onde o homem não marcou a sua passagem,
nada modificou.

0 processo de transformação do mundo natural em mundo artificial nem


sempre resulta em sobrevalorização do seu rendimento; instituições
como a agricultura aumentam o rendimento da natureza em relação às
necessidades do homem; instituições religiosas proibitivas de ingerir
certos alimentos naturais - como leite e certa carne de animais - podem
subaproveitar a natureza. É conhecido o papel da poluição industrial
sobre uma natureza progressivamente degradada.

FORÇA BIOLÓGICA

(HOMEM)

CULTURA

MUNDO NATURAL

MUNDO ARTIFICIAL 0

Esquema do sobreaproveitamento do mundo natural através da cultura


A energia humana (força biológica) exercendo-se sobre a natureza cria o
mundo artificial através da cultura (tudo o que o homem acrescenta à
natureza), aumentando-lhe o rendimento - sobreaproveitando-o.

FORÇA BIOLóGICA

(HOMEM)

CULTURA

MUNDO NATURAL
8
MUNDO ARTIFICIAL

Esquema de sub-aproveitamento do mundo natural através da cultura

A cultura, aqui, diminui o espaço de utilização do mundo natural pelo


homem; o mundo natural está subaproveitado. Nem sempre a cultura
surge como progresso económico.

0.2. As idéias e as coisas

0 mundo artificial não é apenas o resultado da produção humana de


objectos materiais
- produzidos pela mão ou pelo seu complemento, essa segunda mão do
homem, que é o utensílio -, é também o resultado de objectos sociais e
de objectos espirituais que determinam o sentido dos projectos de
transformação da natureza.

MUNDO NATURAL

coisas materiais

Artefatos

MUNDO ARTIFICIAL

coisas espirituais

Sócio-fatos

Mentefatos

0 mundo da mão e o mundo. do cérebro (in Mesquitela Lima, Int, à


Antropologia Cultural)

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Os objetos do mundo da mão são os artefatos, objetos produzidos a
partir da matéria, objetos materiais como, por exemplo, um cesto, um
barco ou um vaso de cerâmica; os sociofactos são os objectos sociais
criados para regular a prática social dos membros duma comunidade,
como um interdito, uma norma de comportamento, um aperto de mão,
uma cerimónia de casamento. Os sociofatos sã o puros objectos de
comunicação que só têm funcionalidade quando exclusivamente
praticados pelos actores sociais. Os mentefatos são objectos espirituais
produzidos pelo espírito; tal como os sociofatos pertencem ao mundo do
cérebro, não implicando, necessariamente,’ a comunicação social, a vida
em grupo, para existirem e serem produzidos - uma canção, um poema,
uma lei científica são mentefatos.

Objectos, imagens, símbolos, ideias - ideias e coisas - constituem o


mundo da cultura produzido pelo homem. As coisas permitem-lhe usar
o mundo em seu proveito, e as ideias compreendê-lo, aproximar-se dele
através da sua grelha de leitura sócio-cultural(*). Não é só a paisagem
natural que fica progressivamente humanizada,- a leitura da visão do
mundo natural tem variado através dos tempos e continua a variar de
cultura para cultura, de ideologia para ideologia, conforme os
paradigmas científicos vigentes, as crenças e as religiões; a paisagem do
universo percebido pelo liberal do século XIX não é a

mesma que foi percebida pelo homem do mundo clássico; o mundo do


místico não é o mesmo do cientista. 0 universo social humano determina
a apreensão da natureza ambiente.

10
É este o mundo que nos rodeia, um mundo de idéias, um mundo de
coisas. 0 homem produtor de objectos, símbolos e conceitos, rodeia-se
de uma intrincada rede simbólica de comunicação que reproduz, no
exterior, a complexidade do seu próprio sistema nervoso; através dos
outros (receptores de mensagens) situa-se a si mesmo como sujeito
(emissor de mensagens) e determina, fora de si, o seu lugar no mundo
social e físico. Representa o seu papel dentro dum mundo artificial que
não deixa de se tornar mais complexo, acumulando continuamente
novos elementos de cultura porque as culturas emigram com os homens
e deixam traços no mundo inteiro. As invenções, as descobertas e as
práticas mais eficazes são adoptadas pelos povos mais diversos e a
cultura constitui-se como cumulativa.

«Que esta história cumulativa não seja privilégio de uma civilização ou


de um período da história, é convincentemente mostrado pelo exemplo
da América. Este imenso continente vê chegar o homem em pequenos
grupos de nómadas atravessando o estreito de Behring favorecido pelas
últimas glaciações, numa data talvez não muito anterior ao 20. ‘ milénio.
Em vinte ou vinte e cinco mil anos, estes homens conseguiram uma das
mais admiráveis demonstrações de história cumulativa que existiram no
mundo: explorando a fundo as fontes do novo meio natural, domesticam
(ao lado de determinadas espécies animais) as espécies vegetais mais
variadas para a sua alimentação, os seus remédios e

os seus venenos - facto nunca antes igualado -, promovendo


substâncias venenosas, como a mandioca, ao papel de alimento base,
outras ao de estimulante ou de anestésico coleccionando certos venenos
ou estupefacientes em função das espécies animais sobre as quais
exerce uma acção electiva: finalmente, levando determinadas indústrias
como a

tecelagem, a cerâmica e o trabalho de metais preciosos ao mais alto grau


de perfeição. Para apreciar esta obra imensa, basta medir a contribuição
da América para as civilizações do Mundo Antigo. Em primeiro lugar, a
batata, a borracha, o tabaco e a coca (base da anestesia moderna) que, a
títulos sem dúvida diversos, constituem quatro pilares da cultura
ocidental,- o milho e o amendoim que deveriam revolucionar a economia
africana antes talvez de se generalizarem no regime alimentar europeu -
em seguida, o cacau, a baunilha, o tomate, o ananás, o pimento, várias
espécies de feijão, de algodões, de cucurbitáceas. E, finalmente, o zero,
base da aritmética e, Indirectamente, das matemáticas modernas, era
conhecido e utilizado pelos Mayas pelo menos meio milénio antes da sua
descoberta pelos sábios indianos, de quem a Europa o recebeu por
intermédio dos Árabes. Talvez por esta mesma razão o seu calendário
fosse mais exacto que o do mundo antigo.

...................................................................................
................................

Se o critério adotado tivesse sido o grau de aptidão para triunfar nos


meios geográficos mais hostis, não havia qualquer dúvida de que os
esquimós por um lado e os beduínos por outro levariam as palmas. A
Índia soube, melhor do que qualquer outra civilização, elaborar um
sistema filosófico-religioso, e a China, um gênero de vida, capazes de
reduzir as consequências psicológicas de um desequilíbrio demográfico.
Há já treze séculos, o Islão formulou uma teoria da solidariedade de
todas as formas da vida humana, técnica, económica, social e espiritual,
que o Ocidente só muito recentemente deveria encontrar, sob certos
aspectos, com o pensamento marxista e o nascimento da etnologia
moderna. Sabemos o lugar proeminente que esta visão profética
permitiu ocupar aos Árabes na vida intelectual da Idade Média.

0 Ocidente, dono das máquinas, testemunha conhecimentos muito


elementares sobre a utilização e os recursos desta máquina suprema
que é o corpo humano. Neste domínio, pelo contrário, tal como naquele
outro que a ele se liga, o das relações entre o físico e o

moral, o Oriente e o Extremo Oriente possuem sobre este um avanço de


vários milénios, produzindo vastas acumulações teóricas e práticas que
são o yoga na Índia, as técnicas do sopro chinesas ou a ginástica
visceral dos antigos Maorís. ( ..)

Em tudo o que diz respeito à organização da família e à harmonização


das relações entre o grupo familiar e o grupo social, os Australianos,
atrasados no plano económico, ocupam um lugar tão avançado em
relação ao resto da humanidade que é necessário, para compreender os
sistemas de regras por eles elaboradas de maneira consciente e

reflectida, apelar para as formas mais refinadas das matemáticas


modernas. Na verdade, foram eles que descobriram que o casamento
forma a talagarça sobre a qual as outras instituições sociais são apenas
rendilhados ( ... ) os grandes sistemas políticos da África antiga, as
suas construções jurídicas, as suas doutrinas filosóficas durante muito
tempo
escondidas do Ocidente, as suas artes plásticas e a música, que
exploram metodicamente todas as possibilidades oferecidas para cada
meio de expressão, são outros tantos índices de um passado
extraordinariamente fértil. Este pode ser directamente testemunhado
pela perfeição das antigas técnicas do bronze e do cobre, que
ultrapassam de longe tudo o que o Ocidente praticava nesse domínio, na
mesma época.»

Claude Lévi-Strauss, Raça e História

Cada cultura é sempre um código cifrado de significantes, de que a


comunidade partilha, se bem que dum modo diverso, o código de
decifração. Este código vai sendo sucessivamente alterado com novas
aquisições e aproximações da realidade. 0 mundo artificial tende hoje a
um carácter planetário, regendo-se por hábitos e padrões onde a
diferença se torna mais rara,- ao mesmo tempo há um movimento
crescente de aproximação patenteada pelas organizações internacionais
como a 0. N.U. e tantas outras. Como se o homem tivesse cada vez mais
consciência de que esse mundo artificial poderoso e

perigoso, cobrindo mais do que o seu planeta, seja o patamar da sua


destruição.

«0 mundo começou sem o homem e acabará sem ele. As instituições, os


costumes e os hábitos que eu teria passado a vida a inventariar e a
compreender são uma eflorescência passageira de uma criação em
relação à qual não possuem qualquer sentido senão, talvez, o de
permitir à humanidade desempenhar o seu papel. Longe de ser este
papel a marcar-lhe um lugar independente e de ser o esforço do homem
- mesmo condenado
- a opor-se em vão a uma degradação universal, ele próprio aparece
como uma

máquina, talvez mais aperfeiçoada que as outras, trabalhando no


sentido da desagregação de uma ordem original e precipitando uma
matéria poderosamente organizada na direcção de uma inércia sempre
maior e que será um dia definitiva. Desde que ele começou a respirar e a
alimentar-se até à invenção dos engenhos atómicos e termonucleares,
passando pela descoberta do fogo - e excepto quando se reproduz - o
homem não fez mais do que dissociar alegremente biliões de estruturas
para reduzi-Ias a um estado em que elas já não são susceptíveis de
integração. Sem dúvida que ele construiu cidades e

cultivou campos,- mas, quando pensamos neles, estes objectos são, eles
próprios, máquinas destinadas a produzirem inércia a um ritmo e numa
proporção infinitamente mais elevada que a quantidade de organização
que implicam. Quanto às criações do espírito humano, o seu sentido não
existe senão em relação a ele, e elas confundir-se-ão com a desordem
quando ele tiver desaparecido. Se bem que a civilização, encarada no
seu conjunto, possa ser descrita como um mecanismo prodigiosamente
complexo em que seríamos tentados a ver a oportunidade que o nosso
universo teria de sobreviver se a sua função não fosse senão fabricar o
que os físicos chamam entropia, isto é, inércia. Cada palavra trocada,
cada linha impressa, estabelecem uma comunicação entre dois
interlocutores, tomando estacionário um nível que se caracterizava
anteriormente por um

afastamento de informação, portanto, uma organização maior. Em vez de


antropologia, seria necessário escrever «entropologia», o nome de uma
disciplina dedicada ao estudo, nas suas manifestações mais elevadas,
deste processo de desintegração.

No entanto, existo. » Claude Lévi-Strauss, Tristes


Trópicos
Marcado no corpo e no espírito pelo seu próprio processo de evolução e
desenvolvimento, o homem não sabe outra forma de estar no mundo;
quando recusa e tenta afastar-se deste mundo simbólico que o afastou
definitivamente do mundo natural - e da realidade - cai no vazio social
pois a sua recusa em ser o intérprete do mundo natural é visto pela
sociedade como loucura,- a cultura fez uma tal leitura do nosso mundo
que o

homem não se reconhece nele; é a incomunicabilidade total e


consciente.

« Toda a escrita é uma porcaria. As pessoas que saem do indeciso para


tentar precisar seja o que for do que se passa no seu pensamento, são
uns porcos.

Toda a gente literária é porca, especialmente a dos tempos de hoje.


Todos aqueles que têm pontos de repetição no espírito, num certo lado
da cabeça, em

locais bem localizados do seu cérebro, todos aqueles que são mestres da
língua, todos aqueles para quem as palavras têm um sentido, todos
aqueles para quem existem altitudes de alma e correntes no
pensamento, aqueles que são o espírito da época, e que denominaram
essas correntes do pensamento, eu penso nas suas precisas
necessidades, e nesse movimento de autómato que atira a todos os
ventos o seu espírito - são uns porcos.»

Antonin AQaud, Le Pése-Nerfs

10
o z,

.... ......
(@ A_ ANTROPOLOGIA CULTURAL

0 Museu Antropológico não é, necessariamente, o ponto de chegada da


Antropologia

1.1. A Antropologia Cultural: o seu ponto de vista, objectivo e


especificidade. Relações com outras ciências humanas e sociais

1. 1. 1. A ANTROPOLOGIA CULTURAL E A ANTROPOLOGIA SOCIAL.


ETNOLOGIA, ETNOGRAFIA E HISTóRIA. A ANTROPOLOGIA FíSICA

A Antropologia constitui-se como ciência autónoma em torno de três


teorias: no século XIX, com o evolucionismo darwiniano(e); na primeira
metade do século XX, com o funcionalismo(*) e a partir da década de 60,
com o estruturalismo(*).

Define-se como o estudo da origem e evolução do homem numa


perspectiva biológica, do âmbito das ciências da natureza. Será este o
campo de estudo da Antropologia Física, quando outras perspectivas de
estudo passam a caber no universo da Antropologia. Na realidade, o
próprio método de estudo da Antropologia Física, recorrendo à
comparação de testemunhos ósseos, fósseis e instrumentais, e a mesma
conclusão do homem como produtor de cultura, motor da sua
progressiva adaptação e transformação, obrigam à ramificação do estudo
do homem. A Antropologia Física utiliza a metodologia das ciências da
natureza, o método indutivo no século XIX, e a experimentação rigorosa
no século XX. 0 estudo, em trabalho de campo, com observação
participante da parte dos investigadores, fez surgirem duas vias
diferentes de perspectivarão no estudo das comunidades humanas: uma
que tem como objecto genérico a cultura, incidindo sobre o estudo de
objectos materiais, e outra que tem como objecto os fenómenos sociais,
as instituições. A primeira via pertence à Antropologia Cultural e a
segunda à Antropologia Social.

A Antropologia Física desenvolve-se dentro do darwinismo que acabará


por ser o seu grande fundamento teórico; o corpo da Antropologia Física
enriquece-se com contribui-

12
ções de antropólogos americanos, alemães, franceses e da Península
Ibérica. Os antropólogos ingleses e americanos desenvolvem o
funcionalismo, numa perspectiva de estudo das instituições dos povos
«primitivos actuais»,- a geração de funcionalistas da primeira metade do
século cria escola e empurra o academismo escolar e a investigação
inglesa e americana para a Antropologia Social. Em França, os mesmos
objectivos de estudo de comunidades primitivas eram visados pela
ciência dos povos e dos seus costumes - a Etnologia - e pela Etnografia,
levantamento sistemático de hábitos, crenças, folclore, testemunhos
culturais e sociais.

Existe hoje um certo sentido tradicionalista de academismo, próprio de


cada país, e o mesmo objecto - o homem como ser cultural - é estudado,
por vezes recorrendo aos mesmos métodos, por antropólogos culturais,
sociais e por etnólogos.

Permanecem vagas distinções de objectivos, nas definições dos diversos


ramos: Antropologia Social, o estudo do homem social e cultural;
Antropologia Cultural, o estudo do homem como produtor de cultura,-
Etnologia, o estudo da origem e evolução dos povos primitivos a partir de
material etnográfico; Etnografia, a descrição de usos e costumes dos
povos.

Se a Antropologia Física teve dificuldade em separar-se do campo de


estudo da Paleontologia e da Pré-história, o mesmo acabaria por
acontecer com a Etnologia e a Antropologia Cultural em relação à
História. Se bem que a História Nova tenha recebido da Antropologia
noções importantes como a longa duração e área cultural, a História não
pode identificar-se com estas duas ciências, já que a característica
fundamental da História é o tempo, o que não sucede na Antropologia e
Etnologia que se orientam para o homem integral, fora do tempo.

Estes problemas de identidade que se levantam na construção das


disciplinas e ciências do homem ultrapassam-se pela especificidade dos
seus métodos e pelo recurso à interdisciplinaridade. Antropologia Física,
Social e Cultural podem, em conjunto ou separadamente, estudar o
homem em geral, intemporal e anónimo.

Sendo o homem um ser simultaneamente individual, cultural e social, é


necessário o concurso de disciplinas e ciências que consigam explicá-lo
como ser integral.

HOMEM

SER INDIVIDUAL

SER CULTURAL

SER SOCIAL

Antropologia Física

Antropologia Cultural

Antropologia Social/Sociologia

Antropometria

Craniometria

Genética

Paleontologia Humana

Antropologia Racial

Etno1og@a, Emografia

ra a
Ergologia A@(jijeoIogia

Tecnologia Pré história

Folclore

Emo musicologia

História

Etno-SocioIogi

Política

Estética

Moral

Direito

Economia

Religião

Mitologia

Arte

Demografia
Esquema das ciências humanas e sociais (In M. lima, «Int. à
Antropologia Cultural»

13
1. 1.2. O CAMPO DE ACÇãO DA ANTROPOLOGIA CULTURAL
*/*
Herdeira dos conceitos de cultura, civilização e progresso criados pelo
Iluminismo e, ainda, de todo um enorme material recolhido nos três
séculos de imperialismo marítimo europeu, a Antropologia Cultural
centrou-se na constatação da diferença das outras raças e culturas em
relação às do homem branco colonizador. É, pois, uma Antropologia do
homem branco que se institui como ciência positiva(*), distinguindo-se
das outras ciências sociais e humanas pelo seu objecto - o homem como
produtor cultural - e

pelo seu método - o trabalho de campo (recolha de elementos através da


inserção do antropólogo na comunidade a estudar).

É neste sentido segregacionista que surgem os primeiros trabalhos


antropológicos do americano Lewis Henry Morgan e do inglês Eciward B.
Tylor: a tarefa da Antropologia seria estabelecer «pelo menos uma escala
grosseira de civilização», ou seja, definir para as civilizações, tal como
Darwin fizera para as espécies, uma escala evolutiva desde «os
seivagens» às «nações civilizadas». Os «selvagens» tornam-se, assim, o
objecto privilegiado da Antropologia, enquanto das nações «civilizadas»
saem os sujeitos desse estudo e a avaliaçã o das populações. As
primeiras Sociedades de Antropologia surgem em Paris (1838) e Londres
(1843) em pleno «take-off» do capitalismo industrial: as colónias
sobreexploradas em crescentes espaços com as expediçõ es de
exploração científica e ocupa cão política, fornecem as indispensáveis
matérias-primas baratas para o surto produtivo. É só’, porém, após o
Congresso de Berlim e a 1.1 Partilha de África que a Antropologia surge
aos governos como o instrumento indispensável para a dominação eficaz
dos países ultramarinos; tal é o objectivo claramente expresso nas
instruções para os administradores coloniais ingleses.

«0 melhor processo para se atingir a pacificação é empregar uma


acção combinada de força e política. Convém recordar que nas guerras
coloniais, que infelizmente nos impõe, regra geral, a insubmissão das
populações, é indispensável só destruir em último caso, e, mesmo neste,
destruir para reconstrui .r de novo. (...)

A CÇÃO POLíTICA.- - A acção política é de longe a mais importante,- ela


retira a sua

força do conhecimento do país e dos seus habitantes; é neste sentido


que devem orientar-se todos os esforços dos comissários coloniais. É o
estudo das raças que ocupam uma região, que determina a organização
política que se lhe vai impor, os mei .os a empregar para a sua
pacificação. Um oficial que consegue elaborar uma carta etnográfica
suficientemente exacta do território que ele comanda, está bem próximo
de obter a completa pacificação, seguida da organização que melhor lhe
convier.

Todos os aglomerados, indivíduos, raças, povo, tribo ou família


representam uma

soma de interesses comuns ou opostos. Se há hábitos e costumes a


respeitar, há também conflitos e ódios que convém aproveitar no nosso
interesse... Cortar o cabecilha e

sossegar a massa, afastada por conselhos pérfidos e afirmações


caluniosas.- é o segredo duma pacíficação. » instruções de Galieni para a
pacificação, enviadas aos administradores civis e militares e chefes das
colónias

inglesas, 1898

A vocação de segregação e a sua prática ideológica permitem ao inglês


Bronislaw Malinowski(*), criador do funcionalismo moderno, dizer que:
«A Antropologia ensina ao administrador colonial como tirar a terra ao
nativo, segundo os costumes nativos.»

A crítica que se efectua ao Darwinismo Social(@) inclui-se num


movimento desigual, mas de negação sistemática do optimismo
positivista e ainda do desenvolvimento da epistemologia(c). 0
funcionalismo de B. Malinowski incide nas características universais da
cultura humana e justifica as diferenças culturais pela influência
histórico-geográfica. Já mesmo antes do final da Segunda Guerra
Mundial, do processo de descolonização e

da actualização da Antropologia elaborada pelo estruturalismo, novos


conceitos tinham invadido a Antropologia.- dinâmica cultural,
etnocentrismo, racismo.

É, porém, com a descolonização e a consequente diminuição da área de


exploração dos antropólogos, que as escolas de antropologia tradicionais
se vêem obrigadas a procurar, nos seus próprios países, material de
estudo. Os Estados Unidos da América que tinham estudado os índios
Americanos, a América Latina e a Inclonésia viram-se agora para as
pequenas comunidades rurais americanas, tradicionalistas, com
marcadas remi-

14
niscências nas suas instituições, da sua origem sueca, holandesa,
russa, polaca ou irlandesa. A Inglaterra, vendo-se obrigada a deixar as
colónias e o seu campo de acção privilegiado - as ilhas do Pacífico -
estuda o seu meio rural e as franjas urbanas, mantendo sob concessão
temporária trabalhos de investigação esporádicos na América do Sul e
no Próximo e Médio Oriente.

Algumas áreas permitem ainda o tradicional trabalho de campo do


antropólogo, como é o caso da Austrália, do Mato Grosso brasileiro, da
Nova Zelânclia e de algumas ilhas do Pacífico. Mas este campo
privilegiado da Antropologia Cultural, as sociedades sem escrita
(ágrafas), pequenas e tecnologicamente simples, começam a entrar no
universo dos mitos.

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Harrison Ford (que nos filmes de Spielberg é Indiana Jones, o


antropólogo americano) como John Book em «A Testernunha» insere-se
numa comunidade Amish-o reduto de investigação da Antropologia são
hoje as comunidades conservadoras deste tipo.

«Então, quem poderia estudar livremente hoje em dia a vida real do Irão,
do Camboja e do Alganistão? Não falo dos observadores ocidentais, mas
dos etnólogos autóctones e nacionais.- que «jovem nação» não veria aí
uma forma de espionagem ou de subversão?

Assim, pouco a pouco, as terras da antropologia foram retiradas ao


antropólogo. »

Jean Duvignaud, in Sciences Humaines. La Crise, Mag. Litt. Nov. 83


0 objectivo da Antropologia Cultural não se transformou; mantém-se
como o estudo do homem nas suas semelhanças e diferenças,
levantando as variáveis e invariáveis cullurais quer por meio de trabalho
de campo, quer através de métodos mais próximos da Antropologia
Social como os inquéritos a populações e as entrevistas e amostragens
sociais.

Entretanto, o debruçar-se sobre a sua própria cultura levou os


antropólogos a indiciarem um conjunto de novos problemas que passam
a fazer parte da sua investigação, como o problema de civilizados e
primitivos, selvagens, progresso, etc.

«A palavra «primitivo» designa aqui o estado tecnoeconómico dos


primeiros grupos humanos, isto é, a exploração do meio natural
selvagem. Cobre por conseguinte todas as sociedades pré-históricas
anteriores à agricultura e à criação de gado e, por extensão, aquelas
que, muito numerosas, prolongaram o estado primitivo na História até
aos nossos dias. Os etnólogos há muito que criticam este termo que é
constantemente contradito pelos factos sociais, religiosos ou estéticos e
que, por esta razão, tomaram uma coloração pejorativa; contudo, não o
abandonaram, à falta'de um termo que designasse de maneira global os
povos sem escrita, afastados das «grandes civilizações». Aparece, todavia,
mais frequentemente, enquadrado por aspas. »

A. Leroi-Gourhan, 0 Gesto e a Palavra, 1

15
0 objecto e o método da Antropologia Cultural J

A Antropologia Cultural estuda as culturas, pois o seu objecto específico


é o homem como produtor de objectos culturais (materiais e simbólicos.)
Hoje em dia, na perspectiva do funcionalismo e do estruturalismo, este
objecto identifica-se, em última análise, com a «trama das relações de
parentesco», origem de todas as outras instituições e produções
materiais e simbólicas.

0 método teve de se modificar com o desenvolvimento técnico e a


progressiva burocratização e mecanização dos meios técnicos e
humanos, na sequência duma nova forma de intervir.

«Só os povos subdesenvolvidos parecem ser capazes de aguentar, com


paciência e

tolerância, a presença indiscreta, aparentemente ociosa e sempre um


pouco patemalista, do antropólogo. E significativo que dos estudos
levados a efeito no Reino Unido alguns dos mais importantes tenham
tido por objecto comunidades da Irlanda e do País de Gales - a orla celta
menos favorecida e menos próspera.

A antropologia social de comunidades que, como as mediterrânicas, são


parte de uma

grande civilização e de tradições naci .onai.s estabelecidas de longa


data, levanta ao antropólogo problemas inéditos e modifica o âmbito das
suas actividades. 0 antropólogo social «clássico» era, idealmente, um
estudioso que depois de umas leituras gerais de teoria sociológica,
mitologia e folclore, ia viver durante dois ou trê s anos com uma tribo,
isolada na savana africana ou numa ilha do Pacífico, falando uma língua
e tendo uma religião próprias, conhecida quando muito por um ou dois
missionários e por um ou dois administradores, com muito poucos
contactos com o mundo exterior e, porque sem escrita e sem
monumentos duradouros, considerada sem história.
Era este o material clássico do antropólogo e nele se afinaram os seus
métodos de trabalho. A pequena comunidade isolada, uma vez
dominada a língua, revelava-se no seu quotidiano, por observação
directa, sem uso de questionários formais ou de métodos estatísticos
elaborados. As características fundamentais da comunidade - a sua
econo-

mia, a sua cultura material, os seus sistemas de família e parentesco, a


sua estrutura política, a sua religião e os seus valores morais - @àm
aparecendo a pouco e pouco na textura das relações sociais, até ser
possível ao antropólogo construir um modelo coerente que i.ntegrava
todos estes aspectos.

Os resultados destes trabalhos antropológicos revelaram ao mundo


estudioso «civilizado» sociedades de características muito diferentes das
que este conhecia e, mesmo que os métodos de investigação ou a
sofisticaçã o teórica do antropólogo deixassem por vezes a desejar, a
novidade dos seus factos chegava para justificar o seu trabalho.
Historiadores, sociólogos, filósofos, psicanalistas, estetas, poetas até,
foram buscar a este

manancial de factos material para novas comparações e especulações. E


o público leitor mais vasto veio-se apercebendo também do relativismo
dos valores da sua própria cultura - sobretudo em tópicos de
popularizaçã o fácil, como as relações entre os sexos, a partir, por
exemplo, dos livros de Margaret Mead. (.. J

A contribuição específica do antropólogo é de dois tipos.- por um lado


fornece uma análise detalhada do sistema de família e parentesco e do
sistema de valores morais que lhe está associado, enquadrando-os na
estrutura social total, com base em observação empírica que nenhum
outro estudioso está preparado para fazer; por outro lado, ao considerar
tópicos que são aparentemente do domínio de outros especialistas, fá-lo
a partir da maneira como esses tópicos se revelam na prática
quotidiana.- ligados entre si em

incidentes únicos, produto da interacção de normas e circunstâncias,


constituindo aquilo a que Mauss chamou «factos soci .ai.s totai.s», os
momentos das relações sociais de que participam aspectos que outros
especialistas consideram isoladamente - económicos, legais, religiosos,
morais, etc. - mas de que o antropólogo, ao apreendê-los ao vivo, nas
suas interrelações, consegue revelar o significado sociológico.

A experiência das sociedades primitivas, obrigando o antropólogo a


observação constante, detalhada e sem benefício de estudos prévios,
auxilia-o agora a observar com ri .gor e sem parti-pris as
cambiantes de emoção e comportamento que lhe permitem compreender
e relatar a fábrica social das pequenas comunidades «civilizadas» e,
sobretudo, os sistemas de valores morais por que se regem.

16
No panorama das ciências sociais contemporâneas o antropólogo ocupa
assim um

lugar peculiar. Por um lado o seu método impõe restrições de dimensão


ao seu material.só uma pequena comunidade ou um pequeno grupo
dentro de uma grande comunidade se prestam a ser estudados por este
método lento, longo, com poucas entrevistas estruturadas e que exige
um conhecimento profundo das pessoas envolvidas. Por outro, esse
conhecimento profundo, quando realmente obtido, permite uma
descrição muito mais verdadeira e detalhada da comunidade que as
baterias de testes dos sociólogos de questionário - para não falar nos
exerci@ios dos economistas fazendo sociologia ou nas especulações dos
legistas.

Para usar uma analogia, como todas as analogias não perfeitamente


apta, o antropólogo é comparável ao artesão tradicional,- os restantes
cientistas sociais, aos operários e

técnicos que, numa fábrica, manufacturam, agora, industrialmente, o


mesmo produto. Como o artesão, o antropólogo tem um prazer criador
mais completo com o seu trabalho que os outros especialistas e, desde a
matéria-prima ao produto acabado, conhece melhor a realidade com que
lida. Os outros especialistas dividem entre si conhecimentos de vária
ordem que, às vezes, o antropólogo não possui ., mas o antropólogo é
o ú nico que considera a realidade in totto e está apto a lhe aperceber o
nexo interior.»

José Culileiro, Prefácio de Honra e Vergonha, J. G. Peristiany, Ed. C.


Gulbenkian

0 trabalho de campo, actualmente, assenta num modelo de intervenção


que pode resumir-se nas seguintes fases:

1. - Escolha e definição do lugar de intervenção (no Relatório final, a


monografia do trabalho, estes elementos darão inicio à situação
geográfica, morfologia e infraestruturas);

2. - Levantamento dos factores de homogeneidade, geográficos e


morfológicos---que se polarizam nos centros regionais; ritmos de vida e
identificação de habitantes (em relação com as designações geográficas
como alto, baixo, monte, planície, etc.);

3. - Representação da população activa por ramos de actividade para


saber indícios de mentalidade urbana e rúral, e grau de evolução.

As técnicas utilizadas são habitualmente as técnicas de trabalho de


grupo, em amostragens significativas, experimentais e activas
(observação participante), com debates em grupo, criatividade, jogos de
simulação, etc. Seleccionam-se alguns grupos e um grupo-teste (modelo
controlado, incluindo jovens da região) com elementos extremos de
acordo com as actividades, áreas, idades, etc.

Este modelo de intervenção é seguido da análise dos dados recolhidos. A


análise incide sobre os códigos, do dito e do não-dito, procurando
identificar, através de expressões comuns a certos grupos, a
predominância dos valores sociais da comunidade que surgem na
linguagem dicotomicamente, como virtude/eficácia, ser/ter,
precaução/previsão, etc. Parte-se, assim, do princípio que nos grupos
amostragem e no grupo modelo se reflectem as características da
linguagem geral, quer por apropriação dum grupo social, quer por
representar realmente a mentalidade cultural geral ‘

Nas sociedades mediterrânicas, a dicotomia utilizada pelos antropólogos


foi, no caso referido por José Cutileiro(e), honra/vergonha. No resultado
da análise de dados, a monografia surge acompanhando de perto o
modelo apresentado, como se pode retirar da leitura do texto que segue.

«0 material sobre o qual se baseia a discussão que se segue foi recolhido


durante o trabalho de campo, necessário para um estudo mais vasto, em
1965 e 1967 A coniu111dade alentejana onde este trabalho foi realizado
chamar-se-á aqui Vila Velha e será muito sumariamente descrita. Trata-
se de um grupo de seis povoações pequenas que, com cerca de nove mil
hectares de terra que as rodeiam, consti .tuem uma freguesia. Em
1966 contava cerca de mil e seiscentas almas, mas a população (que
aumentara entre 1868 e
1940) estava (e está ainda) a diminuir como resultado de emigração para
centros urbanos portugueses e para países mais industrializados da
Europa Ocidental. Embora à volta das povoações a propri .edade esteja
muito fragmentada e cerca de metade das famílias residentes possua
terra, só cerca de vinte e cinco proprietários locais não necessitam
trabalhar em terras que não sejam suas ou suplementar, por outros
meios, os rendimentos

17
destas. E as grandes casas agrícolas da região que absorviam, até há
pouco tempo, quase toda a mão-de-obra local, pertencem a uma dezena
de famílias quase todas residentes numa vila próxima. Estas famílias
possuem entre si 54% da área da freguesia e auferem 55% do
rendimento colectável da mesma. 42% do rendimento colectável cabe
aos três principais latifundiários. As principais produções da freguesia
são o trigo, a azeitona e a lã de alguns rebanhos.

A sociedade está pois muito estratificada e as famílias ligadas à terra


podem dividir-se em famílias de latifundiários (os grandes lavradores,
residentes fora, mas quase todos bem presentes por administração
directa, visitas diárias, relacões de apadrinhamento, intervenção na
Casa do Povo e na Misericórdia, etc.), de proprietários (os pequenos
lavradores locais independentes), de seareiros (que cultivam terras de
parceria, pagando um terço ou um quarto da colheita, geralmente, aos
proprietários dos direitos de exploraCão da terra) e de trabalhadores
rurais.

Sobre certos aspectos estamos diante de várias comunidades


sobrepostas e isso é claro quando se analisa a composição dos
casamentos - quem casa com quem. 0 mercado matrimonial dos
trabalhadores rurais restringe-se quase só à sua aldeia e às duas
aldeias mais próximas,- o dos seareiros cobre a freguesia e inclui parte
de uma freguesia vizinha, com povoações próxi .mas. Os proprietários
casam dentro do concelho e em concelhos limitrofes. 0 mercado
matrimonial dos latifundiários cobre a província inteira e

inclui, por vezes, famílias ricas, de outras províncias. Na medida em que


a família, parentesco e afinidade têm relações directas com o sistema de
valores morais em discussão, estes factos são importantes.

Os valores da honra, como diz Campbell no seu ensaio, são egoístas e


particularistas. A protecção dos interesses do próprio e da sua família é
fundamental e há poucas normas de comportamento para com os outros
que sej .am de aplicabilidade geral. Em Vila Velha, honrar pai e
mãe é um dos poucos mandamentos da Lei de Deus que é também um
mandamento da comunidade. Sendo a natureza humana decaída e a
luta pela vida difícil--- velhos e velhas, sobretudo pobres, são por vezes
descurados pelos filhos - mas tal comportamento é sempre acerbamente
comentado. À medida, porém, que a posição das pessoas, em relação ao
núcleo familiar, se afasta, as obrigações de honestidade -

para nem sequer falar de honra - proporcionalmente diminuem. Os


deveres para com parentes próxi .mos são maiores que os deveres para
com parentes afastados mas, em ambos os casos, mais escassos e
menos bem definidos que os deveres para com os membros do grupo
familiar. Os amigos merecem parte da deferência concedida a familiares
mas as obrigações da amizade não são sagradas como, idealmente, as
impostas pela família e prestam-se portanto a manipulações que podem
pôr a amizade em causa. «Amigos, amigos, negócios à parte» significa
exactamente que, ao negociar com amigos, um homem vê-se perante o
conflito entre o seu dever egoista de tirar toda a vantagem possível dos
outros e as obrigações igualitárias e abnegadas da amizade. Para lá de
parentes e

amigos estão os estranhos mas, mesmo com estes, se lida de diferente


maneira, consoante a distância estrutural a que se encontram.

Quando, a seguir à Guerra Civil de 1936-1939, toda Vila Velha


contrabandeava para Espanha, mandavam-se às vezes sacos cheios, no
terço supen .or com café e nos dois terços inferiores com terra. A
mercadoria era paga na entrega, no campo e de noite, e a natureza da
operação não permitia ao destinatário final lesado queixar-se. Na
ausência de sanções legais possíveis, só uma obrigação moral impediria
este tipo de comportamento. Mas os espanhóis são, de todos os seres
humanos que os habitantes de Vila Velha conhecem, os que mais
estranhos lhes são e essa obrigação moral não se aplicava a eles.

Estes dois aspectos.- a) importância dos deveres familiares com a


obrigação ideal de um homem (ou uma mulher) pôr o interesse da sua
família nuclear acima de quaisquer outros;

b) estratificação social bem marcada, com o poder político e económico


nas mãos de

uma pequena mi .nori.a e com uma grande maioria competindo na


procura dos favores, muitas vezes agudamente necessários mas de que
há sempre uma oferta reduzida, dessa minoria - são as duas
características da estrutura social que é necessário ter em conta para
compreender o sistema ideal de valores e as distorções que esse sistema
sofre nasua aplicação prática.

18
Idealmente, um homem é soberano e independente e detém a
responsabilidade de uma família. Deve ser corajoso sem ser temerário,
firme nos seus propósitos sem ser obstinadamente teimoso, e dotado de
bom senso e sabedoria da vida que lhe permi .tam estabelecer
compromissos sem, aparentemente, sacrificar a sua independência. 0
acesso aos direitos e deveres da hombridade (qualidade de ser homem)
faz-se pelo casamento. Um homem solteiro permanece para sempre um
«rapaz» e o status moral de um «rapaz» é inferior ao de um homem.
Quando um grupo de homens vacila perante um empreendimento,
mostrando tibieza ou falta de sentido das responsabilidades, ouve-se às
vezes um deles dizer: «Então, somos homens ou somos rapazes?»

A entrada no casamento traz, todavia, consigo um número de riscos dos


quais o mais importante é o risco de uma diminuição de reputação,
devido ao comportamento irregular da mulher ou, menos grave, das
filhas. A atitude em relação aos celibatários, que nunca podem gozar do
prestígio acessível a um homem casado, tem que ser compreenoida
nestes termos.- o celibatário não tomou a sua quota-parte das
responsabilidades e dos riscos de ser homem. Quando o celibatário tem
acesso a mulheres casadas não aparentadas com ele - como é o caso dos
padres - a atitude toma-se ainda mais dura. Ilustra-a o dito de um
pequeno proprietário numa discussão com um padre: «Eu, os filhos que
faço, têm o meu nome.»(’) 0 prestígio de um homem, a sua reputação, a
sua honra - embora a palavra seja raramente usada - o que faz dele «um
homem de vergonha», dependem tanto dele como da sua família e é
considerando a família e não apenas os seus membros, isoladamente,
que podemos compreender cabalmente este sistema de valores.

0 status de qualquer familia depende de factores morais e de factores


materiais. Idealmente, a dicotomia dos sexos é clara neste ponto: cabe
ao homem assegurar a sobrevivência material e, se possível, a
prosperidade da família; cabe à mulher garantir que permaneça intacta
a sua integridade moral. A insolvência do marido e o adultério da
mulher são as situac(5es~limite que fazem naufragar uma família. E, tal
como a mulher adúltera deve deixar a sua aldeia ou a sua vila, também
o proprietário insolvente vai muitas vezes vIver para outro sítio. A
reprovação da comunidade é forte demais, em ambos os casos, para
poder ser suportada'face a face. Um homem solvente, cuja mulher é fiel
e cujas filhas são castas, goza do mínimo de prestígio necessário para
poder andar de cara levantada e ser aceite, sem troca nem reprovação,
pelos outros

Cada família real procura aproxi.mar-se deste modelo ideal, mas é


evidente que a tarefa é mais fácil para as famílias mais prósperas.
Quanto mais rico um homem é, maior a base material do seu prestígio,
quanto mais virtuosas as mulheres da sua casa - e a prosperidade ajuda
a manter os padrões de comportamento identificados, nesta sociedade,
com virtude - maior a base moral.

Assim, enquanto o sistema de valores ideal parece ser o mesmo para


todos os grupos da sociedade, as possibilidades de viver de acordo com
ele variam substancialmente segundo a posição de cada família na
estratificação social. Há, em todas as sociedades, uma distânci'a que só
os santos conseguem percorrer, entre valores e normas ideais e a prática
da vida quotidiana, mas, nesta sociedade, a maior ou menor
aproximação do ideal não é determinada apenas por características
pessoais mas também por condicionantes estruturais que a delimitam,
grosso modo, para grupos inteiros da população. Este ponto é muito
importante: ricos e pobres vivem diferentemente não por terem códigos
ideais diferentes mas por ser mais fácil aos ricos aproximarem-se do
código e ser, às vezes, necessário aos pobres afastarem-se
diametralmente dele. As implicações deste estado de coisas são
profundas.
A independência ideal de um homem e a honralvergonha com ela
associadas são afectadas sempre que ele necessita de se socorrer da
protecção de outro, colocado mais acima na escala do poder. -0 código
ideal de valores comum a ambos, pressupõe uma igualdade, também
ideal. Não há ordens ou classes, sancionadas por autoridade Divina ou
autoridade Real que possuam, ou sejam consideradas pelos seus
membros e pelo
@1) Alguns padres houve, há duas ou I rês gerações, que deixaram
descendentes a que deram o nomeou que foram, pelo menos,
reconhecidos de facto Encontram-se padres na ascendência de
latifundiários, proprietários e seareiros Estes padres que tinham
«mulher» e «familia», eram geralmente estimados pois preferia-se a sua
situação à do padre que, sem «mulher» e sem «fanulia>@, era imed
atamente suspeito de depredar nas mulheres de outros homens Nunca
se esperava que um padre fosse casto: quando não dava azo a nenhuma
suspeita de convivio amoroso com mulheres era suspeitado de
homossexualidade

19
resto da população como possuindo privilégios que intrinsecamente as
distingam do resto da população. Filho da filosofia da Revolução
Francesa, o Alentejo de hoje é «terra livre e alodiab), habitada por
homens que «nascem livres e iguais em direitos» e que têm consciência
disso. Há um plano de existência e de consciência em que o trabalhador
rural se considera igual ao latifundiário. Mas essa igualdade ideal é
contradita por um sistema económico, social e político que não só
estabelece grandes disparidades de riqueza como coloca um homem, em
muitos contextos da vida, na dependência de outros. E essa
dependência, não obstante os benefícios que possa por vezes acarretar
ao dependente, diminui a sua estatura moral. Como se diz em Vila
Velha.- «Isso que eu peço não é favor - minha vergonha me custa. »

A honra e a vergonha da gente de Vila Velha não apresenta assim os


aspectos dramáticos da honra e da vergonha dos sarakatsani gregos,
dos cabílios da Argélia, dos bedulnos do Deserto Ocidental do Egipto ou
dos andaluzes da província de Ronda. Mas os princípios fundamentais
são os mesmos: primado da família e, para segurança desta, importância
da prosperidade, aqui geralmente em terras (noutros lugares em terra ou
em gado) e importância do comportamento sexual das esposas e das
filhas. Tais pri .ncípi.os que têm sido associados com sociedades
pequenas de recursos materiais e morais limita- dos, em que a subida
moral ou material de uns acarreta forçosamente a descida de outros,
encontram-se, para além de Vila Velha, em toda a sociedade portuguesa,
não havendo, parece-me,’ a este respeito, grandes diferenças entre a
população rural e a população urbana, ou recentemente urbanizada,
das cidades,

A distincão neste contexto entre o citadino e o provinciano, numa


sociedade em que até há pouco tempo as cidades eram sobretudo
mercados ou portos de escoamento de produtos agrícolas, em que a
pouca indústria existente era artesanal ou semi-artesanal e em que
empresários e operários completavam muitas vezes pela agricultura ou
pela horticultura os seus rendimentos, não é tão funda que atinja os
dois aspectos fundamentais tratados nesta discussão.- a estrutura ideal
da família e o sistema de valores morais com esta associado. »

José Cutileiro, ob. cil,

20
C2,---OlIABORATóRIO DO ANTROPÓLOGO

2. 1. A cultura e as culturas

A cultura e as culturas

«A cultura é a grande engrenagem da satisfação pelo sucedâneo.»

Herbert Marcuse

2. 1. 1. CONCEITO DE CULTURA. 0 HOMEM E AS SUAS OBRAS.

AS QUALIDADES DISTINTIVAS DA CULTURA, DO BIOLóGICO AO


CULTURAL E DO CULTURAL AO BIOLóGICO

«Apenas vivemos para manter a nossa estrutura biológica; desde o ovo


fecundado que somos programados para este único fim, e toda a
estrutura viva não tem outra razão de ser, do que ser. Mas para ser ela
apenas tem como meio de utilizar o programa genético da sua espécie.

22
Ora este programa genético no Homem tem como conclusão um sistema
nervoso, instrumento das suas relaçõ es com o meio inanimado e
animado, instrumento das suas relações sociais, das suas relações com
os i .ndivíduos da mesma espécie que povoam o nicho onde ele vai
nascer e desenvolver-se. A partir daíele encontra-se inteiramente
submetido à organização deste meio. Mas o nicho não penetrará e não
se fixará no seu sístema nervoso a não ser de acordo com as
características estruturais deste. 0 sistema nervoso responde
primeiramente às necessidades urgentes, que permitem a manutenção
da estrutura do organismo. Depois disto responde ao que chamamos
‘@ouIsões-, o princípio do prazer, a procura do equilíbrio biológico. (..)

Permite em seguida, devido às suas possibilidades de memorização,


portanto de aprendizagem, conhecer o que é favorável ou não à
expressão dessas pulsões, tendo em conta o código imposto pela
estrutura social que o gratifica, segundo os seus actos, por uma
promoção hierárquica.

As motivações pulsionais, transformadas pelo controlo social que resulta


da aprendizagem dos automati .smos socioculturais, controlo social que
fornece uma nova expressão à gratificação, ao prazer, estarão enfim
também na origem do jogo do imaginário. ---Imaginário-, função
especificamente humana que permite ao homem, contrariamente às
outras espécies animais, de acrescentar, informar, de transformar o
mundo que o rodeia. ( .. ) Faculdade de criação imaginária que possui a
espécie humana, a única a permitir-lhe a fuga gratificante a uma
objectividade dolorosa. Esta possibilidade, ela deve-a à existência de um
córtex associativo capaz de criar novas estruturas, novas relações
abstractas, entre os elementos memorizados no sistema nervoso.»

H. Laborit, UHomme Imaginant, 1970

Numa perspectiva biologista, o homem produz cultura porque possui


um sistema nervoso complexo, desenvolvido em funcão do
estabelecimento de trocas (materiais e mensagens) com o meio e os
outros homens - os seres inanimados e animados,- logo, o homem
possui o sistema nervoso (o dispositivo mediador entre o interior e o
exterior) dum animal que é social porque é também produtor e transmite
os conhecimentos atravês da aprendizagem. 0 seu dispositivo de relação
com o mundo inclui a zona cortical do cérebro onde se aloja o
imaginário.

Assim, o homem produz cultura como modo de sobrevivência que se


efectua em grupo. Mas não é apenas produtor, também é portador de
cultura pois é susceptível de aprendizagem: nasce vazio de cultura, mas
com um dispositivo biológico que lhe permite adquiri-Ia.

Dizer que o homem é um animal cultural significa que ele é produtor de


objectos materiais e simbólicos e também herdeiro da memória do
grupo, pois qualquer sociedade só se realiza e perpetua através da
cultura - ---a cultura fornece a matéria-prima de que o indivíduo faz a
sua vida- (Ruth Benedict) (e). Ao nascer, o indivíduo interioriza quer
espontânea quer violentamente os modelos do grupo e enquadra o seu
comportamento de base biológica nos comportamentos socioculturais,
que se tornam automatismos socioculturais.

Nasce num determinado nicho ecológico e numa determinada


comunidade, ou seja, recebe como herança as técnicas de acomodação e
transformação da natureza que a sua comunidade foi acumulando como
resposta ao desafio do meio ambiente e, ainda, as regras socioculturais
sobre os quais se constitui o funcionamento da comunidade.

Nem toda a herança cultural é necessariamente uma resposta de


sobrevivência ao meio, porque todas as respostas culturais assentam em
projectos mentais e estes dependem do imaginário individual ou de
grupo.

0 mesmo ambiente pode suscitar respostas diversas, e, ambientes


diversos, respostas semelhantes. Por isto as culturas humanas se
multiplicam e só se podem reduzir a características universais da
cultura, modelos que se fundamentam em factores biológicos da espécie.

23
Diferentes respostas culturais ao mesmo obstãculo: a captação de
peixes

Sem pôr de lado os fundamentos biológicos da capacidade cultural, a


perspectiva psicanalítica da cultura identifica o objecto cultural (a
cultura) com a sublimação, ou sei.a, a procura dum objecto perdido (o
desejo), através de substituições sucessivas. 0 longo período da infância
(juvenilização) do homem irá determinar os quadros de comportamento
de toda a vida humana: é o medo da perda do objecto (vivido com a
perda da mãe no acto de nascimento, da perda do seio da mãe, medo da
perda do sexo, etc.), o medo de ficar só, no escuro, a incapacidade de
suportar as tensões, que explicam a civilização. Cada objecto que o
homem cria, cada símbolo, cada narrativa ou obra de arte é um outro
objecto de substituição, representando um universo de sistemas de fuga
a uma realidade que se receia, criando assim um outro universo
imaginário com realidades substitutas mais gratificantes ou que
permitem imaginar que é senhor da realidade.

Tal como a criança, o homem utiliza o objecto substituto como terapia


de cura da sua angústia de ausência do objecto real, principalmente se
encontra através do objecto que cria, o substituto do objecto perdido ou
seja, alimento e prazer.

«Considerando antes de tudo os aspectos da cultura humana ( ... )


verificamos que eles oferecem características comuns. Ligam um
indivíduo a outro, são a armadilha empregue pelo homem desde criança,
para nã o ficar só. Devemos então dizer também que ---aquilo que Deus
criou em primeiro lugar foi o medo?” Certamente - se não esquecermos
que esta angústia é o produto do passivo amor pelo objecto, da nossa
infância, do

24
nosso desejo de ser amado. Nascidos prematuramente (longo período da
infância) penduramo-nos a qualquer elemento do mundo exterior que
nos traga satisfação.

Talvez ninguém me possa contradizer se eu disser que, em última


análise, a ---civilizaçao e um sistema de instituições edificadas em
função da segurança. - Para a criança isso significa segurança
relativamente ao ---eu- e aos perigos libidinais (0). »

Geza Roheim, Origine et fonction de Ia culture

A cultura surgiria, assim, como uma compensação, uma terapia - toda a


cultura humana seria uma anormalidade (pois é anormal o caso
patológico, quando o indivíduo se verifica incapaz de agir de acordo com
as pulsões e procura sistemas de fuga à realidade). Resultaria de vários
processos de fuga, através do imaginário, criando objectos substitutos,
materiais ou simbólicos, obras de arte, mitos e utensílios.

Qualquer que seja a perspectiva de abordagem da origem da cultura,


esta não surge como sistema fechado de grupos isolados em si próprios;
a cultura itinera, viaja com os homens, passa de grupo para grupo e as
invenções mais eficazes vão sendo recolhidas. A cultura é sempre
cumulativa das ideias e coisas em circulação.

Essa acumulação de capital cultural é sempre social; o indivíduo pode


transportá-la -

e acrescentá-la - em vida, se se tornar criador. Porém, ao morrer, o seu


capital cultural desaparece consigo, não o transmite biológica
/geneticamente,- os seus filhos (re)comecarão a aprendê-lo de novo- só a
sociedade, os outros, o podem herdar como “informação”.

0 homem nasce apenas com o capital biológico. Mas o homem morre só.
A cultura é esse universo de objectos materiais e simbólicos, carregados
de sentido e
informação, herdados pela comunidade e por esta transmitidos aos seus
membros, que se tomam seus portadores - e eventualmente seus
produtores - em vida.

2.1.2. 0 HOMEM, A CULTURA E A SOCIEDADE

0 triângulo biocultural

SER BIOLóGICO

A cultura é um sistema de troca, pois exige produtores e consumidores e


só se explica pela sociedade. É para a organizar e manter a sua coesão
que a cultura ganha um sentido que também é ---venclido- aos
elementos do grupo social. É este sentido, esta perspectiva global e
parcial sobre as coisas que surge como a realidade.

«E entretanto, as coisas continuam a existir. É o homem que as analisa,


as separa, as enclausura e nunca de forma desinteressada. De início,
frente ao aparente caos do mundo, ele classificou, construiu as suas
gavetas, os seus capítulos, as suas estantes. Introduziu a sua ordem na
natureza para poder agir. E, depois, acreditou que esta ordem era a da
própria natureza, sem se aperceber que era a sua, que estava
estabelecida com

os seus próprios critérios, e que esses critérios resultavam da actividade


funcional do sistema que lhe permitia tomar contacto com o mundo: o
seu sistema nervoso.»

Laborit, ob. cit.

C. eC.-2 25
A sociedade tem portanto um papel a representar: transmitir com um
sentido, a informação cultural de que é depositária, porque o homem só
se define como tal inserido numa sociedade e numa cultura. Robinson
Crusoé(e) na sua ilha isolada restaurou a sua cultura memorizada para
uma sociedade imaginária; os meninos-lobos da índia ou o menino-
selvagem, vítima, em França, da tentativa de inserção na sociedade
humana, são apenas projectos de homem e não reconhecem como sua a
sociedade humana que rejeitam.

Menino-selvagem (No filme de Truffaut)

Todas as sociedades constituem, historicamente, os mecanismos


institucionais de inserção da criança na cultura do grupo social a que
irá pertencer.

Ao processo uni .versal pelo qual uma criança aprende, a partir do


nascimento, a ajustar o seu comportamento à cultura da sua sociedade,
chama-se endoculturação ou incultutacão. Paralelamente parece
funcionar um outro mecanismo de insercao, este de disciplina social, a
socializaçã o, processo de aquisição de conhecimentos, modelos, valores
e símbolos (atitudes sociais) adequados ao seu lugar na hierarquia
social. Na linguagem da Psicologia americana, a criança com a
socialização, aprende ospapéis sociais dos estatutos que irá assumir.

Endoculturação e socialização são dois processos, separados apenas


para estudo; na criança realizam-se ao longo do processo de
aprendizagem que destinam - de forma violenta pois vão contra as
pulsões da criança - o lugar do seu novo membro na sociedade. De
acordo com os seus futuros estatutos sociais, a criança receberá a fatia
cultural que lhe permite preencher o seu lugar. São, portanto,
mecanismos de reprodução social (e),

0 extracto seguinte de Nuno Bragança apresenta um caso de uma


criança com evidentes lacunas de endoculturação, pondo em risco a sua
disciplina social.
« Um dia peguei em uma caneta, em um tinteiro e em uma folha de
papel, e fui sentar-me a uma pequena mesa em um pequeno gabinete, e
escrevi no alto da folha e em letras grandes:

U OMÃ1 OE DA VA PUL US Depois chupei o rabo da caneta, que sabia a


lavado e a polido, e escrevi por baixo e em letras pequenas o seguinte.-

LI omãi qe dava pulus era 1 omãi qe dava pulus grades. El pulô tantu qe
saiu pêlo tôpu. Isto feito, levei o papel ao meu tio Maurício, que estava
sempre a ler jornais. 0 tio Maurício olhou para o meu, escrito e foi-se
embora com ele sem me dar palavra. Dois dias mai.s tarde reuniu-se o
/// Conselho de Família por causa do Pequeno.»

Nuno Bragança, in A noite e o Riso

26
A criança tem dificuldade em rejeitar os modelos culturais e sociais que
lhe são impostos, pois que, recusando-os, nega a própria família, o seu
único lugar de segurança. Estes modelos vêm carregados de violência
simbólica (revestidos da autoridade que permite canalizar a mensagem,
legitimando-os). No texto, a autodeterminação da crianca, aprendendo a
ler sem ajuda, não é mais do que a imitação dum modelo a seguir, o tio
Maurício.

Como resposta a esta necessidade de inserção dos seus membros, a


sociedade estabeleceu instituições que, dum modo mais ou menos fixo e
por etapas, são introduzidas no

percurso do crescimento daqueles, determinando a sua maturação e


aceitação sociocultural.

Uma vez mais encontramos os três eixos do homem: o biológico, o social


e o cultural. Desde que nasce, uma estrutura de instituições acompanha
a maturação biológica do indivíduo, determinando a sua maturação
psicológica: a família, na 1.’ e 2.’ infância; a escola desde a 1.’ infância
no jardim-escola e até à idade de adulto, em muitos casos,, o bando
juvenil da adolescência que ganha muita importância para os desvios
sociais, pois àt se colhem outros modelos e valores. Para dar sentido
social à maturação biológica, quando adulto, surgem as instituições
profissionais, o casamento e as instituições de lazer que preenchem as
necessidades de sublimaçã o e de afirmação do poder que as outras
instituições não permitam. Com a maturacão biológica e psicológica - ou
seja, quando está cumprido este percurso bio-social - o indivíduo tem
formada a sua personalidade.

SER l’ - 2@ INFANCIA ADOLESCÊNCIA MAIORIDADE >


PROFISSÃO BIOLóGICO CASAMENTO

ESCOLA BANDO - LAZERES MATURACAO


PSICOLóGICA---”’
PERSONALIDADE

A inserção sociocultural: a acomodação

Cultura e Personalidade

A personalidade surge como um produto da sociedade, da cultura e da


hereditariedade, fundamentalmente exterior ao indivíduo. A
personalidade forma-se do confronto entre o indivíduo e os outros.

«A minha verdade, o meu carácter e o meu nome estavam nas mãos dos
adultos,aprendera a ver-me com os olhos deles; eu era uma criança,
esse monstro que eles fabri-

cavam com as suas quei .xas. Ausentes, deixavam atrás de si o olhar,


misturado à luz; eu

corria, eu saltava através desse olhar que me conservara a natureza de


neto modelo, que continuava a oferecer-me os brinquedos e o universo.
Na minha bela redoma, na minha alma, os pensamentos giravam-me,
qualquer pessoa podia seguir-lhe os manejos.nenhum canto de sonho.

No entanto, sem palavras, sem forma nem consistência, diluído nessa


inocente transparência, uma transparente certeza estragava tudo.- eu
era um impostor. Como representar a comédia sem sabermos que
representamos? ( ..)
0 pior é que os adultos me cheiravam a cabotinice. As palavras que me
dirigiam eram rebuçados; mas entre si falavam em tom completamente
diferente. Além disso, acontecia-lhes romper contratos sagrados, eu fazia
o meu beicinho mais adorável, aquele de que estava mais seguro, e
então diziam-me com voz verdadeira.- « Vai brincar para mais longe,
garoto, estamos a conversar.»

Jean-Paul Sartre, As palavras


27
A estrutura da personalidade assenta na cultura,- é através dela que o
indivíduo determina o que é verdadeiro e falso, o normal e anódino, o
que é obrigação ou interdito, o certo e o errado,- determina a sua
consciência e a terapia inconsciente que irá utilizar para esconder o
conflito criado entre as suas pulsões e a realidade social.

«Mas é necessário precisar o que se entende por formação do sistema


nervoso, isto é, em resumo, por sistema educativo.

Evidentemente que os meios sociais são muito diferentes.- há poucos


pontos de con-

tacto entre uma criança nascida nos bairros de lata de Nanterre e uma
outra nascida numa família burguesa do 16 ‘ Bairro (Paris). A influência
do meio, num e noutro caso, acabará por criar, quase sempre, como
resultado, automatismos de comportamento, de J.uízos, de pensamento,
como se diz, que tanto num como noutro caso não serão mais do que
automatismos. Os que são adquiridos no meio burguês são geralmente
favoráveis a

uma ascensão hierárquica, passando a maior parte das vezes por uma
escola. Fornecem àquele onde são inculcados, uma linguagem, uma
atitude, hábitos, juízos de acordo com

a estrutura hierárquica de dominância, mas não é garantido que


favoreça a criatividade, a originalidade do pensamento. ( ...)

Com a passagem dos anos ( ... ) fico assustado com os automatismos


que é possível criar, à vontade, no sistema nervoso duma criança. Ser-
lhe-á necessária, na sua vida adulta, uma sorte excepcional para se
evadir desta prisão, se é que ela o consegue ( .. ) E se os seusjuízos,
com o tempo, lhe fizerem rejeitar violentamente estes automatismos, é
porque um outro discurso lógico responde melhor às suas pulsões e
fornece um quadro mais favorável à sua gratificação. »
Laborit, ob. cit.

A personalidade engloba, pois, todos os aspectos do indivíduo na sua


dimensão biológica, social e cultural, o consciente e o inconsciente,- a
sua estrutura biológica herdada e

a estrutura sociocultural adquirida.

«A personalidade é a soma total dos modos de comportamento actuais


ou potenciais do organismo determinados pela hereditariedade e o meio.
Nasce e desenvolve-se através da interacção funcional dos quatro
principais sectores sobre os quàis os modos de comportamento se organi
.zam: o sector cognitivo (inteligência), o sector conotativo (carácter), o
sector afectivo (temperamento), e o sector somático (constituição). »

H.J. Eysenck, The structure of the Human Personality

A personalidade modela-se pelos paradigmas (9) e pelos padrões de


comportamento que circulam na sociedade e no grupo.

«A sociedade Arapesh pune todo aquele suficientemente insensato para


se meter numa cena de violência ou implicar-se num assunto
desonroso, que caia na imprudência de se deixar ferir na caça, ou ao
qual falte o juízo a ponto de se tomar o centro do insulto público pela
sua mulher. Esta sociedade que considera que cada um deve ser doce e
servil e que quer ignorar a violência, não conhece qualquer sanção
contra aquele que a utiliza. Mas insiste em agir contra aqueles que, por
ignorância ou estupidez, a provocam.

Quando a ofensa é benigna - como quando um homem se mete numa


rixa dos vizinhos - apenas o seu tio maternal virá pedir indemnização.

Ao fim e ao cabo esse pobre filho da sua irmã não sofreu já um


ferimento e perdeu o seu sangue? Mas se, pelo contrário, ele questionou
duma forma indigna em público com * sua mulher, ou com umjovem
parente com o qual o ouviram trocarinsultos, então é todo * grupo da
aldeia ou das aldeias que toma o assunto em mãos, sempre empurrados
pelos tios maternais, executores oficiais do castigo. @ ...)

Mas, contra o homem verdadeiramente violento, a sociedade não tem


nenhum recurso. Tal tipo de homem enche os seus semelhantes de uma
espécie de terror sagrado. Contrariados, eles ameaçam deitar fogo à sua
própria cabana, partir os potes e

28
recipientes e deixar para sempre a região. Os pais e os vizinhos,
consternados com a ideia de serem assim abandonados, suplicam ao
homem para não partir e não os deixar, para não destruir os seus
próprios bens - e acalmam-no dando-lhe tudo o que ele dese,ia. É
apenas porque toda a educação dos Arapesh tende a minimizar a
violência e a

confundir os móbiles com que a sociedade pode subsistir, castigando os


que provocam a violência e aqueles que a sofrem em vez daqueles que
na realidade a cometem.»

M. Mead, Moeurs et Sexualité en Océanie

Sartre, em « As Palavras», faz notar a tomada de consciência sobre o


meio, consciência tardia neste caso, mas que acabará por se impor.

0 homem pode, diz Laborit, ter a sorte de se evadir das malhas


prisionais dos automatismos em relação ao meio - a aprendizagem da
cultura e a disciplina social - que progressivamente o manipulam.

0 indivíduo é, acima de tudo, os outros, aquilo que aprende da memória


colectiva do grupo, como bem demonstra Margaret Mead com o estudo
da comunidade indonósia dos Arapesh. Verdadeiro computador que
reage automaticamente em grande parte da sua vida, julgando que
decide e controla os seus próprios comportamentos em função das suas
gratificações individuais. Mas pode surpreender em si mesmo esse
comportamento como interiorizado; uma tomada de consciência da teia
social pode favorecer a elaboração - novamente inconsciente - de um
novo sistema de fuga.- sair da procura da gratificação social pela
gratificação da diferença e da criatividade. De qualquer modo, uma
paragem do condicionamento marcadamente social arrasta a um outro
condicionamento de sublimação, ou ao início de uma desmontagem dos
automatismos que é um

outro processo de terapia. 0 homem reage criando novas linhas de fuga,


de sublimação em sublimação.

Esta tomada de consciência passa pela verificação de que o nosso


comportamento, que consideramos normal, não o é necessariamente. Há
aspectos universais do comportamento humano: aqueles em que o
fundamento biológico o caracteriza como comportamento da espécie. Os
gestos de saudação, o sorriso, o coçar a cabeça, certos gestos de
dependência, são comportamentos universais e, ern muitos casos,
compartilhados por outros primatas.

Comportamentos universais

Só o interdito do incesto é um fenômeno cultural universal e, com ele, a


definitiva inslituição do casamento, Porém, a grande maioria dos
automatismos culturais e sociais são historicamente localizáveis num
tempo e num lugar. Há uma grande variedade de culturas e,
necessariamente, de variantes culturais. Essa constatação torna-se
principalmente relevante com a expansão dos países ibéricos, desde
Pêro Vaz de Caminha que pode considerar-se o primeiro antropólogo
(amador) português.

29
«A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons
rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura.
Nem estimam nenhuma coisa cobrir nem mostrar suas vergonhas; e
estão acerca disso com tanta inocência como têm em mostrar o rosto.
Traziam ambos os beiços de baixo furados e metidos por eles ossos
brancos, de compridão duma mão travessa, e de grossura dum fuso de
algodão, e agudos na ponta como furador.

Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e o que lhe fica entre o beiço e
os dentes é feita como roque de xadrês, e em tal maneira os trazem ali
encaixados que lhes não dá paixão, nem lhes torva a fala, nem comer
nem beber.»

Carta de Pêro Vaz de CamInha a D. Manuel /, 1500

Qualquer sociedade aberta à dinamização cultural verifica este


relativismo de culturas, a diferente utilização do corpo, dos objectos e a
própria inversão (0) de valores.

Se o homem pode reconhecer os outros como homens - caso de Pêro Vaz


de Caminha - admitirá essa relatividade cultural e esse será o primeiro
passo para a desmontagem das suas próprias crenças. Estranhar o
outro é reconhecer o quanto podemos ser estranhos para os outros.

Cultura e Linguagem

A comunicação é comum à grande maioria dos seres vivos. Mas só o


homem tem linguagem verbal, oral e escrita construída socialmente a
partir da experiência colectiva,neste sentido o homem é linguagem.

«A partir de uma fórmula idêntica à dos primatas, o homem fabrica


utensílios e símbolos, uns e outros representantes do mesmo processo,
ou, melhor, necessitando no cérebro do mesmo equipamento
fundamental; tudo isto leva a considerar, não só que a linguagem é tão
característica do homem como o utensílio, mas ainda que se trata da ex-
pressão da mesma propriedade humana, exactamente como trinta
diferentes sinais vo-

cais do chimpazé são o exacto correspondente mental das varas


encaixadas para chegar a uma banana suspensa, isto é, nos
chimpanzés, a linguagem é tão pouco linguagem quanto as varas
encaixadas são uma técnica propriamente dita. »

Leroi-Gourhan, 0 Gesto e a Palavra, 1

Há pois uma identidade completa entre a actividade motriz do mundo da


mão (que não pode existir sem projecto mental) e a actividade verbal -
são um único facto tipicamente humano, um único tipo de fenômeno
mental, expresso pelo corpo e pelos sons. 0 raciocínio e a linguagem
ligam-se às operações técnicas e com elas nasce o mundo social da mão
(a técnica) que evolui em função do simbolismo sonoro e gráfico que irá
conduzir à escrita, quando simultaneamente o homem atinge a técnica
do fogo e a conquista imperialista do espaço.

Utensílios e linguagem estão ligados neurologicamente: ao surgirem


novas técnicas -

novas séries operatórias de gestos e conceitos, muitas das quais se


tornam automáticas e se materializam em cadeias de produção -,
igualmente surgem novas séries de organização sintáctica, fornecidas
pela memória. De novo se levanta a relação estabelecida entre o cérebro
e o meio, representado pela complexidade crescente do sistema nervoso
na evolução do homem.

As primeiras linguagens estavam fundamentalmente ligadas à expressão


do concreto, garantindo a comunicação das séries operatórias
simbólicas de acção narrativa; assim surgem os mitos e a arte pictórica.

Posteriormente, a linguagem atinge a função de expressar sentimentos


fundamentalmente ligados ao sentido religioso, complementando-se a
linguagem simbólica verbal com a linguagem figurativa. Ao fixar-se na
escrita, a linguagem terá de empobrecer os

30
meios de expressão irracionais, mas ganhará em lógica e coerência
interna do discurso, desligando-se cada vez mais do mundo material que
tenta representar. Com a difusão da escrita, as variantes individuais
decrescem progressivamente, o organismo bolectivo ultrapassa o
individual - e aparece materializado na cidade, no país.

Entre os diferentes elementos de comportamento social, a linguagem


oferece um lugar privilegiado e está em relação com a sobrevivência da
espécie. Porém, na vida moderna estão-se a perder a maioria dos
símbolos sociais (não há adornos e vestuário característicos da classe
social, da profissão, do sexo, das etnias; a participação real nas
cerimônias colectivas como paradas, procissões, diminui ou
desaparece,- as noções de tempo e

espaço uniformizam-se), e do mesmo modo há uma uniformização social


da linguagem de relação, quer gestual quer verbal. Tudo tende a uma
mega-etnia universal - j .a se verifica isto na divisão mundo
ocidental, russo e chinês - - a humanidade, o colectivo, tende a construir
uma sociedade onde são isolados alguns produtores de técnicas e
símbolos para organizarem o programa das massas. 0 mínimo de
liberdade individual, de manutenção duma linguagem de relação que
ainda anima tanto o biológico como o social, está cada vez mais
restringido, para o homem comum, aos anos que rodeiam a

maturação sexual. Do mesmo modo, nas super-organizadas sociedades


colectivas dos insectos é esse o único período em que, para uma
limitada minoria representativa, se

verifica uma certa independência de comportamento.

A: Códigos culturais universois B: Códigos culturais de comportamento


divulgado C: Códigos culturais de comportamento massificado

31
«É difícil ajuizar acerca do estádio em que se encontra a humanidade
actual, em que apenas uma geração separa mui .tos dos seus
representantes do tempo dos artesãos, dos lavradores, das bodas de
aldeia, dos teatros ambulantes, enfim, de todo um aparelho social cujos
vestígios influenciam ainda uma parte importante do globo. E contudo,’
de ano para ano, a exteriorização acentua-se, existindo já milhões de
homens que representam qualquer coisa de novo para o etnólogo. Estes
homens dispõem de um número mínimo de práticas sociais
indispensáveis para garantir o seu movimento quotidiano, de uma
infraestrutura de evasão pessoal pré-condicionada pelas férias pagas,
pelas estradas, pelos hotéis ou pelos parques de campismo, por umas
quantas semanas anuais em

que se encontram num estado de «liberdade canalizada»; uma


superstrutura superficial permite-lhes ultrapassar os ritos de passagem,
como nascer, casar-se ou morrer com o

mínimo indispensável de emoção ou de encenação. A sua parte de


criação pessoal torna-se inferior à de uma lavadeira do século XIX,
enquanto a sua função produtiva se resume à de uma engrenagem
exacta, com o despertar, as deslocações e o trabalho perfeitamente
cronometrados. (... ) Com efeito, estes homens possuem uma
participação social idêntica à dos seus antepassados ( ... ) pela janela da
televisão e pelos lábios dos transistores (... ) Mas a con-

trapartida é o risco social de uma hierarquização sociaIprovavelmente


mais acentuada do que em épocas anteriores; uma estratificação por
«selecção racionah) virá a separar da massa os elementos raros a fim de
os i .nvesti.r na posição de fabricantes de evasão teleguiada. Uma
minoria cada vez mais restrita virá a elaborar, não só os programas
vitais, políticos, administrativos ou técnicos, mas também as rações
emocionais, as evasões épicas, a imagem de uma vida que se tomou
totalmente figurativa, pois a vida social real pode, sem grandes abalos,
ser substituída por uma vida social meramente figurada. Uma tal via
existe desde a primeira narrativa de caça do Paleolítico, e mais ainda
depois do primeiro romance ou da primeira narrativa de viagens. »

Leroi-Goufhan, ob. cil.

ldentificada crescentemente com o ritmo e a evolução da cultura, a


linguagem tende a separar cada vez mais o homem dos seus
fundamentos biológicos. São essas diferenças individuais, os códigos
ainda não completamente desumanizados, no sentido de ainda
assumirem sintomas de criação própria, que o antropólogo pretende
levantar e reanimar.

2.2. Componentes da cultura

2.2. 1. 0 HOMEM. AS SUAS ORIGENS

Aparecimento da vida: o Universo

«Vivemos, (...) como que numa partícula de pó que gira em tomo de uma
estrela banal, no canto mais remoto duma galáxia escura.

E, se somos um ponto de imensidão do espaço, ocupamos também um


instante no

fluir das eras. Sabemos agora que o nosso universo - ou, pelo menos, a
sua encarnação mais recente - tem entre 15 e 20 mil milhões de anos. 0
tempo decorrido desde a
Grande Explosão (Bíg Bang).

32
No início deste universo não havia galáxias, nem estrelas, nem planetas,
nem vida, nem Civilizações, apenas uma bola de fogo uniforme e
radiante que preenchia todo 0

espaço. A passagem do caos da Grande Explosão para o cosmos que


comecamos a

conhecer é a mais terrível transformação da matéria e da energia que


tivemos o privilégio de vislumbrar. E, até que encontremos seres mais
inteligentes noutras paragens, somos nós a mais espectacular de todas
as transformações - os descendentes remotos da Grande Explosão,
dedicados à compreensão e à posterior transformação do cosmos de que
provimos. »

Carl Sagan, Cosmos, Gradiva

0 universo em expansão

0 planeta Terra

«A Terra condensou-se a partir dos gases e poeiras interestelares há


cerca de 4,6 mil milhões de anos. Sabemos, pelo registo fóssil, que a
origem da vida tem lugar pouco depois, provavelmente há cerca de 4 mil
milhões de anos. As primeiras coisas vivas não eram de modo nenhum
tão complexas como um organismo unicelular, que já é uma

forma de vida altamente sofisticada.

AS primeiras tentativas foram muito mais modestas. Nesses primeiros


tempos, as des-

cargas eléctricas das tempestades e os raios ultravioletas do Sol


quebraram as moléculas simples, ricas em hidrogénio, da atmosfera
primitiva e os seus fragmentos recombinavam-se espontaneamente em
moléculas cada vez mais complexas.
Os produtos desta química primitiva dissolviam-se nos oceanos,
formando uma espécie de caldo orgânico de complexidade cada vez
maior, até que um dia, absolutamente por acaso, surgiu uma molécula
capaz de fazer cópias grosseiras de si própria, usando outras moléculas
do caldo como «módulos». Este foi o primeiro antepassado do ácido
desoxirribonucleico, mais conhecido por ADN, a «molécula-molde» da
vida terrestre. Tem a forma de uma escada enrolada em hélice, em que
cada um dos degraus pode ser formado por 4 blocos diferentes, os quais
constituem as letras do código genético. Estes blocos, chamados
«nucleótidos», dão as instruções hereditárias para a construção de
qualquer organismo.

Todas as formas de vida da Terra possuem um conjunto de informações


diferentes, escritas essencialmente na mesma linguagem. »

Carl Sagan, ob. cit.

0 código dos organismos: Molécula de ADN

33
A vida, «propriedade pela qual corpos individuais se multiplicam», surge
praticamente com a formação da Terra, parecendo indicar que são
precisamente essas condições de formação do planeta que podem
acarretar, embora por acaso, a organização desta.

Os restos fósseis - desde as partículas do cosmos inicial que nos surgem


sob a forma de fotões - permitem estabelecer uma escala de evolução da
vida, embora lacunar, desde os primeiros ultravírus, de estrutura
cristalina, inorgânica, mas necessitando de organismos vivos para se
desenvolverem, até às espécies actuais. «A vida é filha do Universo», diz
H. Reaves.

« Tinha a Terra dado três biliões de voltas em redor do Sol quando


apareceram à superfície do mar partículas de aparência anódina, na
fronteira entre o químico e o biológico uni.celular, que os seus
descendentes haviam de vir a chamar ultravírus. Com uma discrição
que convém admirar, estava a produzir-se um fenômeno
extraordinariamente improvável para um espírito racional e, no fim de
contas, insensato: a vida. (...)

Ao fim de um bilião de anos de vida oceânica, quando se abre o primeiro


capítulo do nosso álbum - o primário -, os vírus tinham conseguido
tomar-se peixes, crustáceos, escorpiões de três metros de comprido; a
proliferação das formas animais é já prodigiosa. Como decoração vegetal,
temos de nos contentar com algumas algas e, sobre a

terra, o deserto. (...)

Enfim, um ser vivo arriscou-se fora da água, não um animal: sem dúvida
uma dessas algas que o refluxo abandonava na vasa das margens terá
encontrado o meio de ir vivendo entre as duas marés. E pouco a pouco,
no espaço de trezentos milhões de anos, avançaram pela terra dentro
florestas pantanosas de fetos gigantes, atingindo às vezes a

altura de trinta metros, exuberantes e sempre verdes. Na sombra e no


silêncio dessas florestas, alguns caracóis traçavam os seus primeiros
sulcos no musgo, e libélulas do tamanho de falcões deslizavam nas
águas. Os insectos, nossos parentes, e os moluscos, começavam a sua
existência colateral. ( ...)

E eis então que gérmenes de anfíbios resolvem viver a sua primeira


idade da independência.- o ovo inventa a casca, o réptil liberta-se da
água, vai conquistar a terra. (...)

Entretanto, uns pequenos quadrÜpedes, pouco maiores que ratos ou


ratazanas, tinham entrado discretamente. Uma existência timorata entre
as patas dos monstros tê-los-ia ensinado a ser prudentes? Conservavam
os seus ovos no ventre até que o novo ser saísse do invólucro, de forma
a deitá-los no mundo já crianças pré-fabricadas. 0 medo tinha-lhes
igualmente dado o sentido da família e da sociedade.- tomavam conta
dos filhos... estes mamíferos eram bem dignos de sobreviver e de nos
transmitir o progresso através dum buraco de rato. ( ...)

Há quatro ou cinco biliões de anos que a pequenina Terra gira no


espaço. À escala dos «seis dias» da criação, o hominídeo e o seu sílex
apareceram dois minutos antes do fim do sexto dia, e a história que fica
para contar, de Cro-Magnon até aos nossos dias, dura dois segundos. »

Jean Duché, 0 Animal Vertical

É com base na estratificação das rochas, previamente datadas, e dos


testemunhos fósseis que aí se inserem, que a datação se torna possível.
Definem-se, então, de acordo com o tipo de estratos de rocha,
osperíodos da terra, e de acordo com a fauna e a flora predominantes ao
longo dos períodos, as eras.

A era mais antiga, sem vestígios orgânicos, mas que por dedução se
admite ter tido a existência dum tipo de vida menos complexo que o dos
primeiros invertebrados a deixarem traços, é a Era Crl;otozóica, da «vida
oculta», que inclui o período pró-câmbrico,nesse período teriam surgido
já as algas verdes que ao produzirem oxigénio deram origem à atmosfera
- o céu da Terra.

A Era Paleozóica, da vida primitiva, identifica-se com a Era Primária,


caracterizada pelo aparecimento abundante, nos mares, dos organismos
invertebrados, nomeadamente as trilobitas que quase desaparecem nos
finais do período cambriano dando origem a

grande parte das rochas sedimentares,- com os espongiários, dominam


a vida marinha.

34
No final da Era Paleozóica as plantas marinhas adaptam-se à vida na
terra; diminuem as trilobitas e surgem os peixes com placas e escamas,
os peixes placodermes.

Trilobitas

kl_

Peixes placodermes

Reconstituição da vida marinha primitiva

Com o aparecimento dos peixes, nomeadamente os placodermes, a


solução da sobrevivência aponta para uma nova via, a da simetria
lateral.

Há dois grandes dispositivos de «sucesso biológico» das espécies: o


dispositivo radial de procura e captação de alimentos, levando as
espécies que o utilizam a limitar a locomoção (espongiários,
celenterados, vermes, moluscos, crustáceos ou equinodermes),
atingindo, no caso da medusa, um verdadeiro «sucesso biológico» . Esta
pôde sobreviver até ho’ie sem qualquer outro tipo de adaptação.

Outro dispositivo é o de simetria bilateral segundo o qual o corpo do


animal se dispõe atrás do orifício alimentar, criando um campo anterior,
constituído pelos órgãos de preensão da cabeça, ou, noutros casos,
incluindo os membros anteriores como dispositivo de relacão. É este
dispositivo, a criação do campo anterior, que determina as chamadas
formas superiores de vida.

Este dispositivo surge já nos peixes placodermes e a sua estrutura


parece manter-se, na generalidade, em todas as linhas de evolução das
espécies que escolheram a simetria bilateral. Os placodermes possuem
já todos os elementos dos vertebrados até ao homem.- caixa rígida do
crânio protegendo o cérebro e rodeando a boca (neste caso uma
ventosa), órgãos locomotores ligados à base do crânio, e membros
inferiores. 0 crânio não surge como suporte de mandíbulas, já que a
boca é uma ventosa, mas este conJunto irá ser determinante na
evolução do crânio nas várias espécies.

0 homem e a medusa, surgindo com um intervalo onde se inserem dois


milhões de espécies com adaptações diversas, representam os dois
extremos mais conseguidos dos dois tipos de sobrevivência.

A simetria bilateral: tipos dum mesmo dispositivo

A Era Mesozóica (Secundário) caracteriza-se pela conquista da terra


pelos organismos vivos, evoluindo até aos grandes sáurios, aves com
dentes, e grandes insectos. É ainda no Secundário que surgem os
animais de sangue quente, as primeiras aves e mamíferos. Esses
mamíferos, os roedores, apresentam já o dispositivo do mamífero que se
manterá no homem: refúgio para reprodução e reserva de víveres,
infância prolongada dos filhos levando a cuidados cada vez mais
sofisticados de protecção e tratamento da prole, dispositivo de campo
anterior adaptado ao tipo de procura de apreensão de alimentos, ou

seja, provocando a evolução da caixa craniana e dos membros


anteriores.

A Era Cenozóica, há 65 milhões de anos, inclui os períodos Terciário e


Quaternário, iniciando-se este último há pouco mais de um milhão de
anos. No Terciário passam a dominar os grandes mamíferos e grandes
herbívoros. No mar, os répteis marinhos foram-se extinguindo, sendo
substituí dos pelos répteis anfíbios, pelas baleias e pelas morsas.

35
As espécies tomam as formas actuais que terão no Quaternário. É no
Terciário que surge o homem, talvez há cerca de sete milhões de anos.

Duração de cada período (milhões de anos)

Períodos 1. Duração total (em milhões de anos)

.0
2o

Quaternário

Terciário

fferos

621

631

1!@

o. A ma.

Cretacico

Jurássico

Triasi1co

72 L;@@
ves pteis

46

181

4923(

.0

Pè,m,co

Carbonico

Inferior

Devónico

Silúrico

Ordovicico

Cambrico

5028(

a ré

30 @LO

5036(
LO 410

^ W 1k1O@k qt vertebrados

qP primitivos

404

60510

1 MIS- (Z) inverteb

primit

rados lvos

1j1@

Quadro genealógico da evolução dos fósseis

A adaptação em função da transformação do meio ambiente irá, pois,


centrar-se no dispositivo de procura e captação de alimentos, na caixa
craniana e nos mem-

bros, principalmente os anteriores. Nesta adaptação definem-se duas


vias funcionais: desenvolvi niento dos membros anteriores como
elemento da estrutura de preensão ou, noutros casos, como estrutura
da locomoçã o e da procura.

As vias funcionais do dispositivo de procura e captação de alimentos: a,


b, c - campo facial exclusivo; d, e, f - campo facial e manual combinados.
(in L.-Gourhan, «0 Gesto e a Palavra» 1j
36
A

Diferentes tipos funcionais do dispositivo bilateral: A - coluna da


esquerda: estrutura

craniana em relação com posição e dentição B - coluna central: a mão C


-coluna da direita: posição em

atitude de préensão (In L.-Gourhan, ob. cit.)

«A biologia explica, pelo menos sumariamente, a transformação das


espécies, combinando o jogo de elementos genéticos com a selecção
natural. Pode acrescentar-se que o efeito cumulativo das adaptações ao
meio conduz, no decurso dos tempos, a uma organização cada vez mais
eficaz do sistema nervoso. A passagem do meio aquático ao meio aéreo,
a apan .cão, nos fins da era secundária, da homeotermia que dá às aves
e aos mamíferos possibilidades consideráveis de adaptação em relação
às dos animais de sangue frio, vão renovando o registo sobre que se
aplica a aplicação funcional. 0 sistema nervoso é o beneficiário mais
aparente da evolução, o que dá um significado extraorgânico, visto que
resulta no cérebro humano. Este resultado que apenas foi possível para
uma única linhagem não é concebível se não houver na origem, num
nível muito baixo do mundo vertebrado, condições favoráveis bastante
gerais e, depois, cada vez mais restritas, à medida que nos aproximamos
dos tempos actuais. É, pois, numa base biológica muito lata e muito
profunda que se encontra o ponto de partida, e somente esquecendo os
milhões de espécies que só imperfeitamente realizam as condições
favoráveis sucessivas se poderá falar da linhagem humana. A primeira e
a mai .s i.mportante dessas condições, acabámos de ver, é a
constituição do campo anterior e afecta a maioria das espécies animais e
a totalidade dos vertebrados. (...)

De maneira independente da divisão taxonómica das classes e ordens, o


mundo dos vertebrados partilha-se entre duas tendências funcionais,
aquela em que o membro anterior está votado de maneira praticamente
exclusiva à locomoção e aquela em que intervém de maneira cada vez
mais estreita no campo anterior >de relação.»

Leroi-Gourhan, ob. cit.

37
Os mamíferos

De acordo com o lipo de alimentação, aparecem nos mamíferos dois


tipos principais de adaptações: os ungulados, comedores de produtos
ricos em celulose (herbívoros’, e os mamíferos com um regime alimentar
variável como os primatas, os roedores, os des-

dentados, os insectívoros, os cetáceos, os carnívoros, os quirópteros. Nos


ungulados -

e, por motivos diversos, nos cetáceos - o campo anterior não inclui a


intervenção dos membros na preensão, ao contrário dos outros
mamíferos cujo campo facial e campo manual passam a intervir por
processos variados.

Evolução dos mamíferos

Os elementos que estruturam este dispositivo de captação de elementos


são a suspensão craniana, a organização mecânica da coluna vertebral e
dos membros, a dentição, a mão, e o cérebro tornado o coordenador
dum sistema nervoso mais complexo. Exceptuando o último elemento -
sistema nervoso complexo com cérebro coordenador -

esta estrutura já tinha sido ensaiada no final do Primário: alguns répteis


tinham ascen-

dido à posição quacrúpede levantada (como o cão), com colunas que


transportavam o animal acima do solo, deixando de rastejar: o pescoço
alongara-se e o animal mexia a cabeca - a mão também evoluíra
ligeiramente. Porém, o cérebro era mínimo e a linha evolutiva acaba por
interromper-se, sendo retomada milhões de anos depois com o
aparecimento dos mamíferos, no final do Secundário.

Esta estrutura, ao surgir de novo com os mamíferos, vai caracterizar os


mamíferos caminhadores e os mamíferos preensores. Os caminhadores
são os herbívoros com extremidades especializadas para a marcha,- nos
preensores o campo anterior inclui uma mão de cinco dedos, herdada
dos anfíbios da era primária através do primeiro mamífero insect'ivoro, e
o esqueleto ganha uma maior maleabilidade de movimento.

A construção craniana assenta na lei da divisão entre o crânio cerebral e


o crânio dentário.

38
Os Primatas: Cinomorfos, Antropomorfos e Hominídeos

0 grupo mais arcaico dos Primatas é o dos Lemurídeos ou Lémures,


ainda próximos dos insectívoros, chamados semi-símios ou «falsos
macacos»,’ têm extremidades com unhas, mas incompletamente
adaptadas à preensão.

Há-os ainda em Madagáscar, na África, no sul da india e na Malásia,


como descendentes de grupos já extintos.

0 grupo dos Símios divide-se em dois tipos, os platirríneos, com unhas e


garras, pouco adaptados às árvores, e os catarríneos. É neste último
grupo que se incluem os cinomorfos, símios propriamente ditos, com
cauda, de marcha quadirúpede, vivendo nas árvores, e os
antropomorfos, sem cauda, maior caixa craniana e com marcha
digitígrada. Os antropomorfos incluem os chimpanzés africanos, os
gibões da india e da Malásia, os orangotangos de Boméu e da Samatra e
os gorilas da África.

Os hominídeos ou antropícleos partilham com os antropomorfos a


posição sentada, o

polegar oponível e a semilibertação da abóbada craniana. São espécies


diferentes dos antropomorfos que evoluíram paralelamente no tempo, a
partir dum tronco comum, o procônsul, diversificando-se a certo ponto
do percurso. 0 procônsul pode ser considerado o antepassado comum
de todos os Primatas superiores, incluindo o homem.

Dele partem a linha dos Antropícleos e a dos Driópteros que se


diversificam nos antropomorfos actuais, gorila, chimpanzé, gibão e
orangotango. Antropícleos e Antropomorfos ganham a sua adaptação
actual no Quaternário.

OrangO Gorila Chimpanzé


1 1 1

Homo sapiens Época actual

A evolução dos Primatas

arborícolas

Austrolopitecídeos

Oreopitecos ?

Pongíd _11@ 1 k,ão

HoZZiZos

Queniopitecos? Ramapitecos?

NDriopitecídeos 9 @’oôo

Grupo do procônsul

pr

Mioceno
13 milhões
de anos

Muito provavelmente entre meados e finais do Terciário, primatas


primitivos muito semelhantes aos gibões - o único antropomorfo que é
bípede no solo, conseguindo o equilíbrio pelo balançar dos braços -
teriam abandonado o meio arborícola, encurtado os braços
(comprimento dispensável no solo), adquirindo uma coluna vertebral
que passou sustentar o crânio em equilíbrio, e adaptando o pé à marcha
- teria surgido então um primata muito próximo do australopiteco.
Do Australopiteco ao Homem Actual: provas da evolução do homem e da
sua evolução cultural

No final do Terciário surgem em África grupos primatas bípedes


possuindo utensílios,estes primeiros homens que, de resto, surgem
como um ramo antropícleo sem continuidade - foram chamados
australopitecos, plesiantropos, parantropos e zinjantropos, formando a
família dos Australantropos. Deslocam-se em posição extremamente
vertical, têm braços de comprimento médio e fabricam utensílios por
percussão perpendicular a

partir de seixos rolados, os seixos partidos ou pebble. A alimentação era,


em parte, car-

nívora. Possuíam um cérebro muito pequeno. São os primeiros


hominícleos que se co-

nhecem, pois o seu cérebro já está adaptado a um ser que fabrica


instrumentos. Ao surgirem, os primeiros hominídeos surgem já como
homens que apontam para o homo sãpiens, o que leva o antropólogo
Leroi-Gourhan a abandonar a designação de australopiteco (macaco do
sul) pelo de australantropo.

39
«Temos vindo a assistir ao longo desenvolvimento da raça humana.
Vimos que a filiacão do homem ao símio pode ser hoje considerada como
muito problemática e que é necessàri .o apelar para um hipotético
antepassado bípede situado aquém da bifurcação que isola os
pitecomortos dos primatas bípedes. Os caracteres humanos são, com
efeito, irredutíveís aos dos símios pois que toda a evolução, do peixe ao
gorila, mostra que a

posição é uma característica fundamental.- os macacos, e todos eles,


são caracterizados por uma posi .cão mista, quadrópede e sentada,
com a adaptação do pé a estas condições. Os antropídeos são
fundamentalmente caracterizados por uma posição mista, blpede e
sentada, com rigorosa adaptação do pé a esta posicão.

Esta diferençãJe posição podia parecer acessória, no entanto, é ela a


causa das dife-

rencas essenci .ai.s entre os dois tipos de seres que possuem uma mão
de polegar oponível. Os antropIdeos não devem só à posição vertical o
facto de terem a mão livre durante a locomoção, mas também o terem
um rosto curto com caninos frágeis e um cérebro liberto das
condicionantes de suspensão da caixa craniana. Na sequência de
libertações sucessi .vas, a do cérebro estava já realizada no mais velho
testemunho, no australopiteco, que, como vimos, deveríamos denominar
«australantropw). Assim, por mais longe que se procurem os vestígios do
homem-macaco, só encontrámos, até à data, homens. De entre eles, os
mai .s recuados sã o extraordinários. Dos pés ao pescoço não vemos

sérias diferencas do homem actual, a construção é já totalmente


humana; tem uma cabeça que j .a não é a de um macaco, mas sim o
rosto de um homem ainda não humanizado. 0 conjunto facial enorme e
achatado, sem testa, une-se a uma caixa craniana pequena e
arredondada, provida de uma crista óssea, onde se encaixam os
músculos de um maxilar gigante. 0 cérebro que move esta criatura, bem
mais desconcertante que o banal antropopiteco sonhado por Gabriel de
Mortillet, é comparativamente maior do que o de um gorila, sendo, no
entanto, minúsculo relativamente ao nosso e com um peso
aproximadamente duas vezes menor. A inteligência não está só ligada ao
volume cerebral, mas à organização das partes do cérebro: um enorme
cérebro de macaco, igual ao de um homem, funcionaria como o cérebro
de um macaco - melhor: como o de um gorila (pois conteria mais células
nervosas) - mas de maneira alguma como o de um

homem. Ora o australopiteco já não tem um cérebro de macaco, mas, o


que é talvez mais embaraçante, um cérebro de homem com uma face
extraordinariamente primitiva. Evidentemente que o estudo
pormenorizado do cérebro dos homens fósseis não é realizável, mas
possuímos, pela moldagem da cavidade craniana, a imagem do cérebro
oculto pelas meninges, imagem essa suficiente para estabelecer as
proporções das diferentes partes e prever as pri .ncipai.s
ci.rcunvoluções. Uma paleontologia cerebral é, em

certa medida, possível e foi praticada várias vezes de há meio século


para cá.

Através de numerosos trabalhos, sabemos como funciona o cérebro dos


mais diversos animais e do homem. Este conhecimento é ainda muito
imperfeito, mas, para toda a região superficial, a mais fácil de explorar
cirúrgica e electricamente, os dados são numerosos e coerentes. Esta
região abrange grande parte do córtex cerebral, ao nível do qual se
desenrolam os fenômenos mais importantes da vida de relação.
Éjustamente a imagem, um pouco delicada, do córtex cerebral que nos
dá as moldagens endocranianas dos fósseis. Embora não podendo
esperar a elaboração de um quadro completo das manifestações
intelectuais dos australantropos, dos arcantropos ou dos paleantropos,
podemos, através do duplo recurso à moldagem e à fisionomia actual,
reconstituir uma imagem, já bastante consistente, das possibilidades do
cérebro

No homem, a abóbada craniana corresponde à superfície real do


encéfalo, permitindo-nos dizer, de maneira segura e precisa, que a
evolução cerebral mais nítida dos australantropos aos paleantropos é o
aumento da superfície do córtex nas regiões médias frontoparietais.

Esta verificação implica consequências de grande importância, pois


mostra que, se a

evolução corporal humana se conclui bastante cedo, a evolução cerebral


apenas começa no zi.n1.antropo. E, ainda, que as diferenças intelectuais
entre os grandes símios e os mais

antigos homens devem ser procuradas onde o contraste é maior, isto é,


nas especificidades do córtex médio. »

Leroi-Gourhan, ob. cit. 1

40
Inicia-se, então, o processo de hominização não necessariamente numa
linha contínua, mas surgindo, à distância, como se o fosse. Este
processo assenta fundamentalmente no fabrico de utensílios, tal como
este assenta na capacidade simbólica, capaz de conceber mentalmente o
projecto dos utensílios; a prática da produção dos instrumentos e a
paralela criação de zonas cerebrais, no córtex, de projecto e controlo do
fabrico manual, apresenta-se como o motor da hominização, implicando
um conjunto de transformações corporais que resultam na bioedia:
coluna vertical e crânio em equilíbrio sobre a coluna, adaptação do pé à
marcha, tórax e bacia óssea para acomodação de órgãos internos na
posição vertical e, finalmente, libertação da mão.

Bipedia

t > CRESCIMENTO DO CÉREBRO, ENROLIBERTAÇÃO


DA > UTENSíLIOS LADO DENTRO DO CRÂNIO

MÃO

A produção de utensílios permite uma crescente sofisticação da


oponibilidade do polegar, já definida nas áreas correspondentes no
cérebro do Pitecantropo, o primeiro homem a nascL@,r com área
específica orientada para a técnica.

A linguagem, indispensável à vida em grupo e à transmissão das séries


gestuais de produção de utensílios, irá determinar o desenvolvimento do
córtex pró-frontal,- o desenvolvimento das técnicas é acompanhado pelo
desenvolvimento do frontal craniano e a libertação da testa. A partir da
libertação da parte anterior do cérebro, assume grande importância o
papel da sociedade em relação à espécie. A cultura e a sociedade
substituem agora a evolução biológica: a evolução deixa de serbiológica
epassa a sercultural.

0 que caracteriza o homem - e se vai definindo no processo de


hominização - é o facto de produzir utensílios e usar a linguagem,-
desde o seu aparecimento e ao longo do Quaternário, a evolução
biológica do homem aponta para a solução de um ser produtor de
cultura. Há uma nítida relação entre os estádios da sua evoluçã o
cerebral e os estádios culturais, confirmados pela capacidade craniana
em crescimento nítido e pelo número de sulcos que vão cavando as
caixas cranianas dos homens fósseis. Ao surgir o

«homo sapiens», terminando a evolução da caixa craniana e definindo-se


o homem actual, todos os homens nascem capazes de aprender as
mesmas séries gestuais e simbólicas que permitem o aparecimento da
civilização. 0 homem é, então, definitivamente susceptível de ser
portador e produtor de cultura, em sociedade. A evolução biológica
parece interromper-se.

0 estabelecimento desta relação entre a produção de utensílios e a


evolução biológica determina-se através da teoria da evolução e das
provas fósseis e dos traços culturais. A determinação da evolução
biológica assenta em dois factores.- a teoria da evolução de Charies
Darwin (1809-1892) e o mecanismo que a sustenta, a selecção natural
ensaiada teoricamente por Larnarck em 1809.

Segundo Darwin, a natureza é prolífera e por esse facto nascem mais


animais e plantas do que aquelas que têm possibilidade de sobreviver.
Decorre daí que o meio ambiente selecciona as variedades que, por puro
acaso, são mais adaptadas à sobrevivência, nesse momento e nesse
meio. As mutações que então se verificam - alterações repentinas na
hereditariedade - transmitem-se à descendência. As mutações são o eixo
da teoria da evolução. 0 ambiente selecciona entre as mutações aquelas
que aumentam as possibilidades de sobrevivência, do que resulta uma
nova organização de vida, dando origem a uma nova espécie.

Ao longo da evolução, morrem as formas de vida mal adaptadas ao


ambiente, e as adaptações, que parece surgirem por acaso, por ensaio e
erro, vão-se fixando, com o
tempo, em tipos de mutações favoráveis.

Na obra “A origem das espécies-, Darwin ultrapassa o conceito de fixidez


dos organismos (que na via espiritualista significava que Deus tinha
dado origem às criaturas tal como estas eram conhecidas pelos
contemporâneos) e surge o conceito de dinamismo histórico.

41
As provas utilizadas por Darwin foram testemunhos fósseis de
mamíferos da América do Sul e das ilhas Galápagos onde tinham vivido
separadamente do continente americano. A teoria da evolução
assentava, ao tempo, na intuição e não podia aplicar-se a
experimentação. Hoje, a evolução da Genética veio dar validade à teoria
e desenvolver-se a filogenia experimental que estuda rigorosamente as
transformações dos organismos em relação com o meio, legitimando e
actualizando a teoria de Darwin. A filogenia experimental vive da
interdisciplinaridade com ciências naturais e humanas como a Anatomia
e Fisiologia Humana e Comparada, a Psicologia, a Pré-história, a
Paleontologia e a Genética.

As provas fósseis, restos ósseos da evolução do homem, permitiram


definir as características que se vão “materializando- ao longo do tempo:
os testemunhos ósseos, datados, permitem verificar a bipedia, o
crescimento da capacidade craniana e da evolução do córtex nos sulcos
dos crânios, o aumento do crânio em detrimento da face que vai
encurtando, a crescente fragilidade dos ossos cranianos em relação a
outros primatas, o encurvamento convexo da placa occipital em
consonância com o orifício occipital, avançando em plano oblíquo de trás
para a frente e para o alto,- finalmente, a disposição da bacia, para
cima, para segurar as vísceras em posição vertical.

Em estrito paralelismo surgem, no tempo, as provas culturais, sofrendo


uma evolução que resulta da - e faz resultar a - evolução biológica. A
mão exterior do homem - o utensílio - acompanha-o no tempo e no
espaço, j .azendo com os restos ósseos. As provas da evolução cultural
do homem corroboram a sua evolução biológica e, esta, a sua evolução
cultural.

Quando o homem entra no Neolítico, a evolução biológica é substituída


pela evolução cultural.

Ao sair do Neolítico, o progresso do homem assenta na técnica. Porém, o


técnico e o artesão serão desprestigiados e segregados pela sociedade
que será crescentemente dominada pelas atitudes simbólicas.

0 prático e o técnico, detentores do saber técnico da produção, são


ultrapassados pelo saber teórico, pelo poder simbólico.

M passagem do Neolítico, essencialmente rural, à Idade dos metais,


coincide com o

desenvolvimento de um dispositivo que é a sua consequênci'a


progressiva ,a ---civilização ---, no sentido estrito, quer dizer, a
intervenção da cidade no funcionamento do organismo &tfiico. (... ) A
civilização é caracterizada por um esquema funcional e não por
características morfológicas claras desde a sua origem. Este esquema
corresponde a um grupo de aldeias organicamente ligadas a uma
aglomeração que desempenha o papel de capital.

Um tal dispositivo supõe uma hierarquização social afirmada, e


concentração da autoridade e do capital de grão entre as mãos de uma
elite constituída pelo poder simultaneamente militar e religioso. 0 facto
mais importante do ponto de vista técnico -económico é a entrada em
cena do artesão, porque sobre ele repousa toda a evolução técnica.

A civilização repousa sobre o artesão e a situação deste no dispositivo


funcional cor-

responde a factos que a etnologia definiu ‘ da /.t incompletamente.


A sua função é, entre as funções fundamentais, a que se presta menos
às valorizações honoríficas. A través de toda a história e em todos os
povos, esmo quando a sua função se integra estreitamente no
sistema religioso, ele fica para trás. Porrelação à ---santidade-do
sacerdote, ao “heroismo - do guerreiro, à ---coragem - do caçador, ao ---
prestigio - do orador, à ---nobreza - das tarefas rurais, a sua acção é
simplesmente ---hábil---. É ele que materializa o

que há de mais antropiano no homem, mas ressalta, da sua longa


história, o sentimento de que ele apenas representa um dos dois pólos, o
da mão, nos antípodas da meditação. Na origem da discriminação que
ainda hoje fazemos entre o ---intelectual- e o ---técnico-, encontramos a
hierarquia estabelecida nos Antropianos entre acção técnica e
linguagem, entre a obra ligada ao mais real das realidades e a que se
apoia sobre os símbolos. »

A. Leroi-Gourhan, Le geste et Ia parole, vol.

42
EVOLUÇAO BIOCULTURAL (A TÉCNICA)

TÉCNICA

1.’ ESTÁDIO

2.’ ESTÁDIO

3.0 ESTÁDIO

4.’ ESTÁDIO

Percussão

Percussão

Percussão

Percussão

perpendicular.

perpendicular.

perpendicular.

perpendicular.

Utensílio sobre

Percussão

Percussão

Percussão
núcleo.

tangencial.

tangencial.

tangencial.

Utensílios/ núcleo.

Núcleo preparado.

Núcleo preparado.

Utensílios sobre

Utensílios s/lasca.

lasca.

Utensílios s/lâmina.

LITENSíLIOS

CHOPPER

CHOPPER

CHOPPER

Lascas, c/costas,

DE PEDRA
(seixo partido)

Biface.

Biface

c/entalhe.

Lasca clactonense.

Lasca clactonense.

Lasca clactonense

Ponta foliácea; c/

Lasca laminar.

Lasca laminar

encaixe.

Machado.
2.2.2. OS DIFERENTES «STOCKS RACIAIS» E A SUA DISCRIMINAÇAO
GEOGRAFICA

«Stock racial» e cultura. 0 problema dos civilizados e dos primitivos

0 que identifica o humano é a característica universal da cultura - uma


nova ordem que se institui sobre a natureza e que se organiza com leis,
regras e símbolos. Todos os descendentes do -homo sapiens” nascem
com idêntica capacidade técnica e simbólicaunicamente as
circunstâncias históricas e o meio podem explicar os diferentes estádios
civilizacionais ou de perspectiva cultural. Não há uma cultura universal,
mas culturas correspondendo às exigências do imaginário dos grupos.

A itinerância é também uma constante humana, dado que as variações


do clima ao longo do Quaternário o exigem, e, assim, a dinâmica
cultural e a difusão a partir de centros torna-se uma das regras da
cultura.

As migrações humanas

Só um grupo muito isolado poderia conservar uma cultura relativamente


isenta d influências externas. Tem havido constantes trocas culturais
que explicam não só a

expansão de fenômenos culturais que surgem no Próximo Oriente, como


a criação de gado, mas também o progresso que desses contactos
decorre.

Levanta-se, porém, o problema das culturas que surgem ao homem


ocidental como

primitivas” - o próprio conceito de primitivo pressupõe que o sujeito


actual da escrita se autoconsidere “civilizado”. É de novo a abordagem
do homem branco que no século XV inicia o seu imperialismo marítimo
e colonial sobre o resto do mundo ainda por conhecer. A civilização
europeia sai da Idade Média e inicia o grande comércio internacional. A
África, dum modo geral, atingira também o feudalismo senhorial e/ou o
imperialismo político e económico, canalizando para a Europa o ouro
indispensável para o comércio europeu. A Ásia, bastante desconhecida
dos europeus, mas entrevista a partir das viagens dos comerciantes
venezianos durante a vigência do império mongol, era considerada um
continente pagão, misterioso, mas de cultura muito sofisticada.

44
A descoberta da América representa um aspecto totalmente inédito nas
relações humanas, surpreendendo o explorador europeu: por um lado,
um mesmo continente, descoberto em toda a sua longitude num períedo
de tempo muito próximo, apresenta .espantosos contrastes culturais
num povo aparentemente homogéneo na sua diferença em relação ao
europeu- eram as duas grandes civilizações ricas e sofisticadas, o Peru
dos Incas e o Império Mexicano dos Aztecas, com os seus satélites, os
países dominados e sernibárbaros como os Toltecas. Por outro lado,
depara-se-lhe uma imensa população itinerante, num estádio cultural
de colheita e de agricultura errante ou de caça com arco e flecha, uma
cultura tecnologica mente muito limitada que, aprioristica mente, é
considerada como primitiva. Este primitivismo é-lhe atribuído pelo seu
comportamento “moral” e não pelo seu grau civilizacional; os -índios-
são amigáveis, andam nus, estão em contacto directo com a Natureza,
recordando ao europeu o comportamento ingénuo do par primitivo do
Paraíso Terreal; essa cultura torna-se um símbolo dum antecedente
histórico.

A América oferece ao homem branco - e oferecerá ainda com o


conhecimento das culturas ameríndias da América do Norte - um
verdadeiro museu de culturas estranhas, produzidas por homens não-
cristãos e de cor diversa. No entanto, não é toda a cultura que é
rejeitada, mas apenas a religião. Tal como as crianças, os homens
americanos não conheciam a verdadeira religião - o cristianismo - mas
não eram culpados por isso. Talvez se inicie aqui a tendência a
considerar os outros povos que tinham desconhecido a verdade da fé
cristã, como infantis e atrasados.

Com o desenvolvimento do comércio internacional e a luta pelo


predomínio político e económico das nações europeias, a América e a
África são colonizadas e a atitude de domínio procura os seus
fundarnentos no racismo.

Racismo e Etnocentrismo
Não é a prática da escravatura, que caracteriza o imperialismo da Idade
Moderna, a responsável pela noção de hierarquias rácicas.

A análise minuciosa de características morfológicas - e mesmo


psicológicas - distintivas de outros homens não surge num contexto de
racismo, mas, sim, de exotismo. 0 racismo, a atitude que admite uma
superioridade psicológica atribuída a uma superioridade biológica,
começa a impor-se apenas no século XIX, quando o colonialismo se
torna uma política de ocupação. Surge, então, uma minuciosa tipologia
de raças assente numa área de distribuição geográfica e na cor da pele,
além de outros menores aspectos morfológicos como o tipo do cabelo,
dos olhos, do nariz, da boca e das maçãs do rosto, etc.

Definem-se três grandes grupos rácicos, a raça branca (leucoderme),


caucasóide (com origem e difusão a partir do Cáucaso, identificando-se
com uma hipotética expansão dos povos de língua indo-europeia); a raça
amarela (xantoderme), mongolóide, com centro difusor na Ásia Central, e
a raça negra (melanoderme), negró ide, do continente negro, a África.

Centros e áreas de difusão dos grupos raciais

45
Admitindo que o conceito de raça pode assentar numa diferença
puramente morfolágica entre um único grupo de homens, uma só
espécie, a primeira verificação que se

impoe e que não existe nenhum grupo racial puro, mas uma
miscigenação (a). De todos os grupos, aquele que surge como mais
miscigenado é o grupo branco, onde tanto os

tons de pele como as outras características morfológicas cobrem um


leque que inclui as dadas como pertencendo a outras raças; no grupo
branco encon@ram-se tons de pele que vão desde o branco leite dos
nórdicos até ao moreno escuro quase “negro” de muitos mediterrânicos e
ao “bronze” dos indianos.

Para se admitir uma tipologia, tem de dar-se preferência à designação de


«stock racial» que implica a existência teórica dum grupo central ao qual
se atribuem as características morfológicas que a realidade desmente.

CAUCASóIDES

ou LEUCODERMES

«Stocks raciais» e hibridos principais (in Mesquitela Lima e Outros, «Int.


à Antropologia»)

« Todos os homens actuais pertencem a uma única espécie, a do Homo


Sapiens, Na realidade toma-se impossível ao antropólogo encontrar
elementos que possam isoladamente caracterizar uma raça - quer
morfologia do esqueleto, do crânio, dos músculos, da cor da pele ou
caracteres do sistema piloso. Quase nunca o conjunto de caracteres que
se atribuem a tal ou tal raça humana se encontram, ao mesmo tempo,
reunidos num mesmo individuo.- é impossivel fixar as características
das grandes unidades raciais do mundo.

Prefere-se a classificação de agrupamentos étnicos e não raças no


sentido zoológico do termo. Em última análise, as classificações não têm
realidade e não correspondem a categorias precisas; sem dúvida que é
cómodo falar de raças brancas, amarelas, negras, de raças de cabeça
alongada, de cabeça curta, de cabelos lisos, de cabelos crespos -

exi.stem raças que apresentam uns ou outros destes caracteres -, mas


pretender sistematizar um conjunto de caracteres é uma quimera ou
uma brincadeira infantil.»

Hovalecque, Dictionnaire des Seiences anthropologiques

Na realidade, o problema que se levanta com o racismo não é o duma


alegada superioridade do homem branco sobre os homens de outra cor e
cultura - a Antropologia desmontou essa alegação com aparente
facilidade -, mas sim, como e em que condições se verificou a
racialização do Ocidente que desencadeou uma atitude quase
generalizada não só entre os países colonizadores, mas também, como
reacção, entre as nações colonizadas: hoje existe um racismo negro e
amarelo muito evidente.

«Quer em França quer em Inglaterra, a palavra «raça» começou a mudar


de significado por volta de 1800. Anteriormente o termo foi utilizado
primei .ramente no sentido de «linhagem»; as diferenças entre raças
derivavam das circunstâncias da sua história e,

46
embora se mantivessem através das geracões, não eram fixas. Esta
aplicação, na Inglaterra, foi reforçada pelos modos de fala bíblicos,
porque embora a tradução da Bíblia feita pelo rei Jaime não usasse a
palavra «raç a» para se referir aos homens, Foxe, em
1570, escrevia sobre «a raça e os descendentes de Abraão» e, mais tarde,
Milton ahidi@9 à «raça de Satã». As razões pelas quais a palavra
comecou a ter uma utilização crescente merecem um estudo separado,
mas esse facto deve estar associado ao alargamento dos contactos
humanos tomado possível pelo melhoramento nos meios de transporte e
comunicação.

No século XIX o termo «raça» veio a significar uma qualidade física


inerente. Os outros povos passam a ser vistos como biologicamente
diferentes. Embora a definição continuasse incerta, as pessoas
começaram a pensar que a humanidade estava dividida em raças.
Tinha, portanto, de se explicar a razão destas diferenças raciais. Seriam
umas raças supen .ores a outras? Ou suceder-se-iam as raças na
liderança da humanidade? Ou teria cada raça uma contribuição peculiar
a dar à humanidade? Em qualquer caso, tratava-se sempre de descobrir
a natureza da raça. (... ) A utilidade política da classificação racial para o
colônialismo dos últimos quartéis do século XIX é tão óbvia que leva
alguns investigadores a passar por alto a profundidade e extensão em
que o processo de racialização foi influencíado pelas inspirações e erros
de intelectuais que tentavam extrair algumas conclusões da nova e
espantosa informação que lhes vinha parar às mãos. )»

Michael Banton, A Ideia de Raça, Ed. 70

0 início da racialização como inconsciente ideológico, parte do


Darwinismo: tenta-se aplicar a teoria da evolução das espécies em geral,
à evolução (mutação) das raças humanas.

«Por darwinismo social entende-se a aplicação à sociedade dos


princípios que se crê terem sido estabelecidos por Charles Darwin. Para
o presente debate as suas características princípais são as que implicam
uma modificação ou uma imediata inversão das proposições da tipologia
racial.

A teoria dos tipos, na sua forma mais pura, estabelece que por debaixo
das variações superficiais na constituição humana há um número
limitado de tipos permanentes de diferente origem. A miscigenação não
tem qualquer efeito, já que os híbridos são no fim de contas estéreis. A
diversidade das formas humanas torna difícil a aceitação desta doutrina,
e muitos dos seus expoentes admitiram algumas possibilidades de
mudança. As suas afirmações implicavam, normalmente, que houve em
tempos raças puras e que os cruzamentos estavam a chegar à
degeneração. Diversas versões da teoria apresentavam o antagonismo
inter-racial como um facto implantado na natureza das racas, ou, pelo
menos, na das raças que tiveram êxito. ( ..)

Em contraste com o pessimismo de homens como Gobineau, os


darwinistas pensavam que a operação da selecção natural criaria raças
puras a partir da diversidade que então era dominante; e mui .tos deles
mantiveram que, se se adoptassem medidas de eugenismo, a mudança
biológica poderia estar do lado do progresso humano. L.)

Os conceitos básicos do darwinismo social L.) são quatro. Primeiro,


variabilidade.não há dois seres vivos iguais. As espécies modificam-se ao
longo do tempo, de modo que não existem tipos permanentes. Segundo,
hereditariedade.- as caractensticas individuais não são adquiridas por
adaptação, mas sim herdadas dos antepassados. Este princípio era
olhado como limitando o poder do indivíduo para realizar determinados
fins e
como enfraquecedor do significado das causas morais nos assuntos
humanos. Terceiro, fecundidade excessiva.- a demonstração de que
eram gerados muitíssimos mais organismos que os necessários para a
manutençã o e até expansão da espécie, destruiu as noções mais
antigas da existência de uma economi .a divina da natureza. Quarto,
seleccão: a tese de que certos indivíduos, por causa de variações
acidentais, se veriam favorecidos pelo processo selectivo, parecia basear
a evolução na sorte em vez de nos desígnios supranaturais, e revelava-se
perturbadora para os que pensavam em termos antigos. A adequação
biológica não se julgava em termos de mérito, mas simplesmente em
termos de sucesso em deixar uma progénie mais numerosa. »

M. Banton, ob. cit.

47
0 racismo é, portanto, uma atitude de rejeição de um grupo humano por
outro, a partir de diferenças biológicas que se associam a diferenças
psicológicas. É uma atitude que tem muito a ver com valores e crenças
muito profundas: no caso do racismo do homem branco contra o homem
negro, instala-se a tendência a associar a cor negra com o mal, o vício,
contrapondo-se a cor branca à claridade, à luz, à razão, ao bem.

Contrariamente, no homem negro, o branco é a ociado à morte ko


cheiro do homem branco é o da vegetação morta»); numa ainda mais
sofisticada forma de segregação, os

chineses vêem o homem branco como excessivamente vermelho e


concupiscente.

Portugueses num biombo japonês.

A estes apontamentos de exotismo segregacionista vem juntar-se a


relação de exploracão na sequência do colonialismo do século XIX; o
homem branco exorciza a sua culpa com as teorias da superioridade
racial, levantando provas a partir de alegadas diferenças biológicas e
culturais:
1.’ - Superioridade biológica: os negros e os judeus (estes por
hibridismo) apresentam doenças congénitas e hereditárias, além dum
tipo de sangue inferior, diminuindo as capacidades psicológicas e
morais;
2.’ - Superioridade cultural: todas as grandes civilizações foram
produzidas pela raça branca. Para corroborar estes argumentos são
estudados grupos de negros americanos, onde se

verifica a predominância de certas doenças, muito menos frequentes em


grupos de homens brancos; baterias de testes à capacidade intelectual
de grupos negros americanos comprovam o baixo coeficiente intelectual
dos testados em relação à média dos homens brancos.

As velhas civilizações do Egipto e da Suméria são consideradas como


centros difusores de todas as culturas antigas e a civilização grega, de
origem indo-europeia, torna-se paradigma da cultura branca.

Estas convicções vêm a determinar uma prática racista que iria criar
complexos de superioridade nos brancos e de inferioridade nos negros,
que provocariam uma atitude de contra-racismo utilizando argumentos
semelhantes. Ainda hoje o racismo é um elemento da mentalidade geral
que, com maior ou menor intensidade, acaba por surgir em

situações de conflito de nações.

48
« Todos pensam que eu sou um canibal Mas bem sabem o que são as
línguas

Todos vêem as minhas gengivas rubras Mas quem as tem brancas


Vivam os tomates

Todos dizem que agora virão Menos turistas Mas bem sabem Não
estamos na América e de qualquer maneira Somos todos tesos

Todos dizem que a culpa é minha e têm medo Mas vejam Os meus
dentes são brancos não rubros Eu não comi ninguém

As pessoas são más e dizem que eu engulo Os turistas assados

Ou talvez grelhados Assados ou grelhadosperguntei Ficaram calados e


olha ram com medo para as Minhas gengivas Vivam os tomates

Todos sabem que um país arável tem agricultura Vivam os vegetais

Todos garantem que os vegetais Não alimentam bem o agricultor E que


eu sou forte demais para um subdesenvolvido Miserável insecto vivendo
dos turistas Abaixo os meus dentes

Todos de repente me cercaram Prenderam Prostraram Aos pés da justiça

Canibal ou não canibal Fala Ah! Julgas que és muito esperto E pões-te
todo orgulhoso

Agora vamos ver o que te acontece Qual é a tua última palavra Pobre
homem condenado

Eu gritei vivam os tomates


Os homens eram cruéis e as mulheres curiosas sabem Havia uma no
círculo que espreitava Que com a sua voz raspante como a tampa de
uma panela Grita va Chiava Abram-no ao meio Estou certa de que o
papá ainda está lá dentro

Como as facas estavam rombas


0 que é compreensível entre vegetarianos Como os Ocidentais Pegaram
numa lâmina Gillette E pacientemente Crisss Crasss Floccc Abriram-me
a barriga

Encontraram lá uma plantação de tomates Irrigada por riachos de vinho


de palma

Vivam os tomates»

Quologuem yambo, Quando os dentes dos negros falam, Mali

0 TEMPO DO MARTI 1RIO

«0 Branco matou o meu pai.


0 meu pai era orgulhoso
0 Branco violou minha mãe A minha mãe era bela
0 Branco curvou meu irmão sob o sol dos caminhos
0 meu irmão era forte
0 Branco virou para mim As suas mãos rubras de sangue

Negro

E com a sua voz de Senhor: Eh, boy, uma cerveja, um guardanapo,


água!»

David Diop, Senegal

Entretanto, o desenvolvimento das investigações da procura de


argumentos a favor da superioridade branca acaba por destruir o
argumento das doencas rácicas, pois descobrem-se doenças hereditárias
noutros grupos humanos, desta vez em grupos brancos, como no caso
de descendentes de bretões franceses emigrados para os Estados Unidos
no século XVI 1. 0 estudo de doencas hereditárias leva a isolar o
elemento contaminador de toda a descendência, o que se consegue
fazendo a retrospectiva familiar do grupo, até

so
encontrar, no passado, o momento e o indivíduo que contraiu a doença:
o que se considerava uma doenca rácica transforma-se numa doença
individual, transmitida no seio de uma família aos seus descendentes, e
salientando-se, posteriormente, num grupo muito alargado de elementos
familiares. Sempre que uma doença se transmite hereditariamente em
grupos fechados que não se misturam com outros grupos, como os
judeus e

os negros, nomeadamente os escravos transportados para as colónias, a


doenca parece surgir como característica desse grupo. Mas, levantado o
elemento transmissor podem isolar-se igualmente os seus descendentes,
estabelecendo mapas genealógicos - e não, evidentemente, rácicos. 0
sistema de linhagens africanas permitiu o aparecimento de doenças em
extensos grupos de parentesco.

0 argumento da superioridade cultural acaba por ser destruído com o


desenvolvimento da História das civilizações antigas. Depois de
levantamentos em África, na Ásia e na América, concluiu-se que todos
os ---stocks raciais- tinham produzido civilizações difusoras de
importância semelhante. Se se pode considerar que o Egipto e a Suméria
dinamizaram toda a área do Próximo Oriente - e as civilizações da
margem do Mediterrâneo como a grega, a fenícia e a etrusca - outras
civilizações como as do Rio Amarelo e Rio Azul, na China, puderam
dinamizar a Ásia, demonstrando a força civilizacional do stock
mongolóide nesse continente. Na América, as civilizações inca, maia e
azteca atingem maturidade técnica e institucional, em muitos pontos
mais sofisticada que os modelos apresentados pelo grupo caucasóide.
No continente negro, o papel difusor da cultura é representado pela
civilização do Zimbabué. Em todas estas civilizações se encontram
grandes construçõ es, metalurgia, olaria sofisticada e tecelagem, escrita,
cálculo, minuciosa organização política e concepções do mundo que
permitem o desenvolvimento de

cosmogonias, da arte e da pró-ciência.


Um argumento igualmente importante para desmontar a superioridade
cultural de qualquer “stock racial” é a verificação da existência de
culturas consideradas tecnicamente inferiores em qualquer dos grupos
já referidos. Assim, ao lado da imponente civilização romana e
gravitando no mesmo grupo, a modesta cultura castreja; no período da
civilização inca, os grupos de caçadores corno os Tupi e Arauaque do
Brasil,- no Mali, a grande civilização urbana do bronze e do ferro dos
séculos XII e XIV, enquanto os Boximanes continuam na Idade da
Pedra. Todos os “stocks raciais” ‘produziram, em circunstâncias de
autonomia relativa, civilizações que se consideram superiores ou
inferiores, seja qual for o critério que se utiliza para as escalonar.

As Civilizações dos stocks raciais a) Caucasóide: Egipto; b) Caucasóide:


aldeamento castrejo; c) Mongolóide: d) Mongoiõide: Incas actuais; e)
Negróide: Mali; f) Negrõide: Boximanes.

Peru (Incas);

51
A alegada superioridade das culturas não pode atribuir-se às
capacidades psicológicas duma raça, tanto porque não podem
concretizar-se grupos humanos que correspondem ao conceito de raça,
como porque os critérios de superioridade e inferioridade baseiam-se no
desenvolvimento tecnológico e não numa capacidade de resposta a
situações específicas. As culturas tecnologicamente simples que foram
apresentadas, representam apenas aspectos duma cultura que se
especializou em sectores diversos: a aldeia germânica é de levante,
simples, correspondendo a povos seminómadas, famosos - tal como os
homens dos castros - pela sua metalurgia nitidamente superior à grega
ou romana; o povo tupi, caçador e nómada da floresta, especializou-se
na domesticação de plantas venenosas donde retirava veneno para as
suas flechas e azagaias,- os Boximanes conseguem descobrir água no
deserto e captá-la onde quer que ela exista, nos frutos, no estôJ

mago de animais, na maior profundidade. É acompanhando o critério


apresentado pelo racismo - civilizações técnicas superiores com escrita e
cálculo - que o levantamento de civilizações ditas superiores e inferiores
serve para a sua desmontagem.

Apesar de o racismo ter sido condenado após a segunda guerra mundial,


apesar da
1 Unesco proclamar a sua condenação, ele permanece, encapotado
ou declaradamente,

na mentalidade actual. Atitude predominantemente irracional surge em


situações emocionais de medo ou insegurança.

Nos Estados Unidos, a Constituição proclama a igualdade dos cidadãos


perante a lei, sem distinção de cor da pele.

ARTIGO X111 (Aprovado em 1865)

Mão existirá nos Estados Unidos ou em território sujeito à sua jurisdição


nenhuma forma de escravatura ou de servidão involuntária, salvo
tratando-se de punição de um crime e tendo sido o autor deste
legalmente condenado.»

ARTIGO XIV (Aprovado em 1866)

«São cidadãos dos Estados Unidos e do Estado onde residem todas as


pessoas nasci das ou naturalizadas nos Estados Unidos e sujeitas à sua
jurisdição. É vedado aos Estados fazer ou executar leis que restrinjam as
prerrogativas e garantias dos cidadãos dos Estados Unidos, privar
alguma pessoa da vida, liberdade ou propriedade sem observância dos
trâmites legais ou recusar a qualquerpessoa de suajurisdição a
igualdade perante a lei. »

Consiituição dos @@stados Unidos da América

No entanto, é por todos sabido a segregação que tem imperado e impera


neste país, nomeadamente nos Estados do Sul que pertencem à vencida
Confederação dos Estados Sulistas durante a Guerra da Secessão. Na
maior parte das vezes e apesar da lei geral mantêm-se leis particulares
de cada estado, permitindo a segregação.

Apelando para o direito à organização, constituem-se grupos armados e


justiceiros, que ainda se mantém em vigor, pretendendo defender a
pureza anglo-saxónica da infiltração de sangue negro ou mestiço.

Uma das mais famosas organizações racistas dos Estados Unidos é a


Ku-Klux-Klan.

52
Manifestações raciais nos Estados Unidos

Outros países mantêm, abertamente, através de leis e consagrando-o na


própria Constituição, o direito à segregação, como a África do Sul, onde
aliada à segregação da cor

da pele se junta a segregaçao religiosa.

ÁFRICA DO SUL

Nota governamental de 1958.-

«Um polícia está autorizado a passar busca à residência de qualquer


jovem africano menor de 18 anos, sem necessitar de um mandado para
tal e a qualquer hora razoável do dia ou da noite, caso tenha motivos
para suspeitar que este esteja a cometer o delito criminal de residir com
o seu pai sem a necessária licença.

Todos os africanos com idade superior a 16 anos devem possuir um livro


de referências. Qualquer polícia pode, quando bem entender, exigir de
um africano a apresentação do mesmo. Caso este não o puder exibir por
o ter esquecido em casa, será culpado de delito criminal e punido com
uma multa mínima de 20 rands (um rand equivale a 53 escudos e meio)
ou prisão durante um mês.

Para um africano que seja advogado e exerça a sua profissão, emite-se


um livro de referências de cor diferente, mas igualmente poderá ser
intimado a qualquer momento a apresentá-lo e será culpado de um
delito criminal caso deixe de fazê-lo.

Um inspector de trabalho pode, em qualquer momento, cancelar o


emprego de um africano durante o qual estivera empregado, mesmo que
o seu patrão se oponha a tal medida. Um africano cujo emprego foi
assim cancelado pode ainda ser afastado da cidade onde trabalha e
proibido de regressar à mesma por um período prescrito por este
inspector do trabalho.»

Lei Baniu: Artigos

Segregação racial na África do Sul

53
GUILHERME ISMAEL, EM LONDRES

Quando centenas de jovens negros e alguns brancos transformaram, no


início desta semana, as ruas de Handsworth, nos subúrbios de
Birmingham, num autêntico campo de destruição, a opinião pública
britânica voltou a acordar com espanto para um dos seus mais graves
problemas sociais. E, no entanto, a história é antiga.

Já no chamado «Verão Quente» de 1981, precisamente em Handsworth,


as mesmas multidões de jovens ocuparam as ruas lançando-
- numa onda de violência que, dessa vez, iria alastrar para outras
zonas tais como Liverpool e Brixton (no sul de Londres), onde vivem as
maiores comunidades negras e também onde os problemas são maiores,
sendo o desemprego a situação normal de qualquer jovem acabado de
terminar o seu curso secundário.

Apesar de exemplos anteriores, para o público em geral, estas súbitas e


incontroladas erupções de violência surgem como que caídas do céu e as
razões parecem, por vezes, algo obscuras. Aquando dos incidentes do
«Verão Quente» de 1981, o governo ordenou um inquérito sobre o
assunto - as

i.nvestigações acabaram por revelar que a violência era, apenas,


consequência do modo como viviam as minorias étnicas na Grã-
Bretanha e, em especial, as comunidades negras. Péssimas condições de
habitação, desemprego, discriminação racial na tentativa de encontrar
uma carreira profissional, com o consequente isolamento provocado por
essas condições. Tudo isto vinha cri .ar uma sensação de
frustraçãojunto dos j.ovens que, no início da vida, se viam desocupados
nas ruas, tendo apenas como solução de recurso, muitas vezes, a venda
e o consumo de drogas.

Incidentes peculiares

Os actuais incidentes de Handsworth são, de qualquer modo,


peculiares. A comunidade tinha festéiado, no fim-de-semana, o seu
carnaval anual. Não se registaram 1.nci.-

dentes apesar da participa cão de milhares de pessoas. Segundo as


autoridades policiais, a situação pareci .a calma e não se detectavam
tensões entre a comunidade e a polícia que tinha recebido instruções
para participar e cooperar nos festejos de carnaval. No entanto, segundo
habitantes da zona, tratava-se apenas de uma paz fictícia, apenas um
adiar dos conflitos.

Na realidade, a pedido da própria população da zona, as autoridades


tinham vindo a aumentar o policiamento devido aos problemas
levantados pela venda e consumo de drogas duras. Só que, segundo
elementos da comunidade negra, o modo como esse policiamento era
feito e a atitude da polícia deixavam muito a desejar, aumentando as
tensões. Daí que tenha bastado apenas um pequeno incidente para que
se despoletasse toda uma onda de violência que acabou por se tomar
incontrolável.

Segundo se conseguiu apurar, tudo começou numa zona conhecida por


Lozelles Road, quando a polícia deteve um asiático, devido a um
problema de trânsito. 0 modo como o polícia se dirigiu ao indivíduo em
questão fez que diversos ]ovens negros, que se encontravam na rue,
interviessem a seu favor. 0 clima, a partir daí, ficou tenso e, duas horas
depois, grupos de jovens Ú7cendiávam, uma grande sala de bingo.
Quando a polícia e os bombeiros tentaram interferir, foi-lhes dito pelos
jovens que deixassem arder o edifício. Iniciaram-se então os confrontos
que alastraram pelas ruas, com multidões de jovens saqueando e
incendiando lojas e fazendo barricadas com automóveis.

Na manhã seguinte e acal-

mados temporariamente os ânimos, o aspecto das ruas era o de uma


cidade bombardeada, uma cidade onde, de súbito, tivesse passado uma
onda de devastação. No réscaldo, assinalavam-se dois mortos e o facto
de ter sido a comunidade indiana a que mais sofreu com os incidentes,
uma vez que é proprietária da maior parte das lojas da zona. Contudo,
como se tornou claro, não se tratou de um confronto étnico, uma vez
que não se registaram ataques diferenciados.

Racismo é realídade

De um modo geral, os britânicos são sensíveis a este tipo de problemas.


Basta recordar que, por exemplo, na zona da Grande Londres, cerca de
50 por cento da população é constituída por mi »non.as étnicas, seja de
ne-

gros ou asiáticos. Algumas autoridades locais de Londres ou Liverpool


dão uma atencão especial a essas questões, criando organismos
específicos destinados a acompanhar e a ajudar as minorias a
resolverem os seus problemas e a enfrentarem o racismo latente que
qualquer comunidade enfrenta no dia-a-dia.

Assim, os britânicos estão mais ou menos conscientes das dificuldades


que enfrenta um jovem negro, ou asiático, quando pretende procurar
uma colocação profissional. Em Handsworth, nos arredores de
Birmingham, apenas um em cada três negros está empregado, Por outro
lado, a zona onde se passaram os distúrbios é considerada como em
condição precária, apesar de, após os incidentes do Verão de 1981, as
autoridades terem resolvido dirigir-lhe uma maior atenção. Por outro
lado, o raci .smo é uma

54
realidade - e não é por acaso que ainda no ano passado o Conselho da
Grande Londres (GLC) desencadeava uma enorme campanha contra o
racismo na capital.

Quando acontecem incidentes como os de Birmingham, há como que


um relembrar de situações anteriores. Os políticos despertam para os
problemas das minorias étnicas e começam a surgi .r novos projectos
de acção. No entanto, desta feita, tudo Indica que o governo não se
encontra muito virado para ter em consideração a raiz dos problemas.
Se em 1981 foi ordenado um inquérito rigoroso com vista a perceber a
origem da violência e as suas repercussões sociais, agora que o governo
da sr.’ Thatcher não parece disposto a seguir o mesmo caminho,
considerando os Incidentes apenas como obra de criminosos que têm de
ser detidos. Para o primeiro-ministro e para o seu novo ministro do

Interior, DougIas Hurd, não é o desemprego ou a precária situação


social que estão na origem das perturbações em Birmingham.

Esvaziar de signíficado social

Contudo, o que parece claro desta atitude do governo, é a sua tentativa


de esvaziar de qualquer significado social os acontecimentos de
Birmingham, de modo a retirar à oposição qualquer possibilidade de
obter da situação dividendos políticos com repercussões eleitorais. E
isto, uma vez que a sr. ‘ Thatcher tem estado ultimamente sob fogo
cerrado da oposição e dos sindicatos que cri.ti.cam a sua i.ncapacidade
em resolver o problema do desemprego que atinge graves dimensões.

A realização ou não de um Inquérito será, ainda, tema de um debate


aceso, uma vez que, durante o congresso dos

sociais-democratas, realizado esta semana, a questão de Birmingham foi


tema de discussão, com os delegados exigindo esse inquérito e ana-

lisando precisamente a situação das minorias étnicas. Uma atitude


também tomada pelo Partido Trabalhista que, no entanto, surge agora
com uma posição muito mais cautelosa que a dos sociais~democratas.

Assim, no rescaldo de Birmingham, apenas resta a estratégia política de


cada um

dos partidos, enquanto que as comunidades étnicas continuarão a viver


com os seus problemas, com ou sem a ajuda de algumas das
autoridades locais que, essas sim, têm de enfrentar o dia-a-dia dos seus
habitantes. E isto num ambiente que continua a

ser de uma tensão sempre latente, agravada pela situação de


desemprego, com tudo o que lhe é decorrente.

0 Jornal, 13.9.85

Conflito racial no Reino Unido

Manifestação anti-racista em Paris

55
«A bem dizer não há discriminação racial no Brasil como havia nos
Estados Unidos. Nunca se trata um homem ou uma mulher de cor por
«negro sujo». E, no entanto, quase todos os negros são pobres e uma boa
parte dos pobres são negros ou mestiços. Quanto mais miserá veis são
as fa velas mais escura é a pele. Felizmen te, no po vinho, o ódio racial é
estritamente desconhecido.»

Pierre Blanchei, in Le Nouvel Observateur, 11/17 Jun. 85

0 homem e os homens

«Sou um homem que sonha que é uma borb(,,-,ta, ou uma borboleta que
sonha que é um homem?»

Para se situar no mundo, o homem necessita de se inserir em padrões


de comportamento mais ou menos rígidos que lhe são inculcados como
modelos de verdade. Encontra-se num universo onde as relações entre
os vários grupos e entre estes e a natureza se explicam por normas, leis,
interditos, hábitos, crenças, valores. Parece que este mecanismo quase
chauvinista(e) se teria tornado indispensável para o funcionamento do
indivíduo na sociedade, surgindo ern todas as sociedades conhecidas. É
inevitável que esta atitude de confianç a para com o conhecido - e de
repúdio para com o desconhecido, o outro, - se caracterize como um
olhar de desconfiança para com o exterior, levando à rejeição do
desvio, em relação às crencas e às regras, para evitar a confusão e a
des-

crença nos próprios valores e limites - é o etnocentrismo.

Esta atitude, que é fundamentalmente psicológica, releva da própria


aprendizagem social e pode levar a uma outra de rejeição de aspectos
culturais inéditos e estranhos, ou mesmo ao repúdio puro e simples de
toda uma cultura alheia.

«A atitude mais antiga e que repousa, sem dúvida, sobre fundamentos


psicológicos sólidos, pois que tende a reaparecer em cada um de nós
quando somos colocados numa

situação inesperada, consiste em repudiar pura e simplesmente as


formas culturais, morais, religiosas, sociais e estéticas mais afastadas
daquelas com que nos identificamos. «Costumes de selvagens», üsso não
é nosso», (mão deveríamos permitir isso», etc., um sem número de
reacções grossei .ras que traduzem este mesmo calafrio, esta mesma
repulsa, em presença de maneiras de viver, de crer ou de pensar que
nos são estranhas. De,9te modo a Antiguidade confundia tudo o que não
participava da cultura grega (depois greco-romana) sob o nome de
bárbaro; em seguida, a civilização ocidental utilizou o termo «selvagerro)
no mesmo sentido. Ora por detrás destes epítetos dissimula-se um
mesmo juízo: é provável que a palavra bárbaro se refira
etimologicamente à con-

fusão e à desarticulação do canto das aves, opostas ao valor significante


da linguagem humana ‘- e selvagem, que significa «da floresta», evoca
também um gênero de vida animal, por oposição à cultura humana.
Recusa-se, tanto num como noutro caso, a admitir a própria diversidade
cultural, preferindo-se repetir da cultura tudo o que esteja conforme à
norma sob a qual se vive.

Este ponto de vista ingénuo, mas profundamente enraizado na maioria


dos homens, não necessita ser discutido uma vez que esta brochura é
precisamente a sua refutação. Bastará observar aqui que ele encobre
um paradoxo bastante significativo. Esta atitude do pensamento, em
nome do qual se rejeitam os «selvagens» (ou todos aqueles que
escolhemos considerar como tais) para fora da humanidade,
éjustamente a atitude mais marcante e a mais distintiva destes mesmos
selvagens. Sabemos, na verdade, que a

noção de humanidade, englobando, sem distinção de raça ou


civí1izac'@o, todas as formas da espécie humana, teve um aparecimento
mui 1to tardio e uma expansão limitada.
Mesmo onde ela parece ter atingido o seu mais alto grau de
desenvolvimento, não existe qualquer certeza - tal com a história recente
o prova - de se ter estabelecido ao abrigo de equívocos ou de regressões.
Mas, para vastas fracções da espécie humana e

durante dezenas de milénios, esta noção parece estar totalmente


ausente. A humanidade acaba nas fronteiras da tribo, do grupo
linguístico, por vezes mesmo, da aldeia,- a tal

56
ponto que um grande número de populações ditas primitivas se
designam por um nome

que significa ws homens» (ou por vezes - digamos com mais discrição -
os «bons», os «excelentes», os «perfeitos»), implicando assim que outras
tribos, grupos ou aldeias não participem das virtudes - ou mesmo da
natureza - humanas, mas são, quando muito, compostos por «maus», «
perversos», «macacos da terra», ou «ovos de piolho». Chegando-se
mesmo, a maior parte das vezes, a privar o estrangeiro deste último grau
de realidade fazendo dele um «fantasma» ou uma «aparição».

Assim acontecem curiosas situações onde os interlocutores se dão


cruelmente réplica. Nas Grandes Antilhas, alguns anos após a
descoberta da América, enquanto os espanhóis enviavam comissões de
investigação para indagar se os indígenas possuíam ou não alma, estes
últimos dedica vam-se a afogar os brancos feitos prisioneiros para
verificaram através de uma vigilância prolongada se o cadáver daqueles
estava, ou não, sujeito à putrefacção.»

Claude Lévi-Strauss, Raça e História

A atitude etnocêntrica é uma constante da humanidade que só a


habituação aos outros pode atenuar. 0 etnocentrismo pode levar ao
racismo quando à tónica cultural, de rejeição da cultura, se acrescenta a
rejeição da cor da pele. A evolução das comunicacões e a cultura de
massas, permitem um contacto com o mundo e com outras culturas que
ajudam a despoletar os elementos etnocêntricos da mentalidade. Os
contactos culturais, a dinamização das culturas e a planetização da vida
parecem encaminhar o

homem de qualquer cultura a ser apenas um homem entre homens e


não o centro do mundo. São esses homens que a própria Antropologia
ainda estuda com critérios saídos da cultura ocidental.

0 etnocentrismo alimenta-se da estranheza face a padrões culturais


diferentes: a ave depena-se viva, pois apodrece rapidamente.

2.2.3. NATUREZA E CULTURA. NATUREZA -AMBIENTE E CULTURA,

DESAFIO E RESPOSTA

A enorme variedade de respostas culturais, a multiplicidade de padrões


de cultura, explicam-se pela variedade do meio ambiente, dos problemas
diversos que esse meio ambiente coloca ao homem - o que se relaciona
com o imaginário que a comunidade adquiriu - e, assim,
fundamentalmente, com os condicional ismos históricos dessa
comunidade.

57
Um solo pobre pode permitir o desenvolvimento de técnicas adequadas
ao seu aproveitamento - caso de solos argilosos, junto de rios de cheias
que levantam o problema da captação e disciplina da água das cheias -
dos paradigmáticos exemplos históricos das civilizações dos grandes
rios, que desenvolverarri técnicas hidráulicas e de agrimensura
concomitantes com os problemas que eram levantados pela riqueza dos
aluviões arrastados em águas turbulentas e desastrosas para as
colheitas desde que não fossem disciplinadas pelos diques e canais.

Em outros casos, solos pobres, arenosos ou pedregosos, em áreas com


falta de água, permitiram uma exploração dum solo de superfície -
situação vulgar no continente africano das zonas tropicais - de produção
limitada e carenciada mas o único processo adequado a esse tipo de
solo. De acordo com os problemas levantados pelo meio ambiente dentro
duma perspectiva da sua exploração pelo homem, surge o tipo de
cultura. A criação de gado foi favorecida pela situação específica da
existência de gargantas montanhosas onde com maior facilidade a caça
podia ser encurralada, sujeita a uma passagem estreita; nas zonas
geográficas onde a maioria dos herbívoros têm um sistema de fuga
caracterizado pela dispersão, como a grande maioria dos antí lopes, a
criação de gado deste tipo de animais não pôde surgir. É o desafio da
natureza que permite a resposta cultural do homem, mas a técnica é
sempre adequada ao tipo de problema levan~ tado à resolução técnica.

Por vezes, as soluções encontradas são semelhantes porque a própria


observação da natureza permite ao homem tirar conclusões idênticas;
noutras casos, o mesmo problema encontra soluções diversas.

Soluções idênticas, povos diferentes

Em todo o lado o homem encontra soluções técnicas para o domínio da


natureza ambiente. A Antropologia pôde definir leis - tendências da
cultura - manifestadas pelo crescimento da técnica. A tendência mais
evidente é a da crescente dependência da cultura, manifestada por
todas as sociedades humanas desde a hominização- o homem passou a
substituir a sua dependência biológica pela dependência cultural,
criando necessidades culturais que chegam a tornar-se predominantes.

Uma segunda tendência é a natureza cumulativa da cultura, pois o


homem mantém técnicas de exploração da natureza, mesmo após ter
ultrapassado esse estádio técnico (as técnicas de caça do Paleolítico e a
exploração da caça mantêm-se a par com a agricultura; estas continuam
na Idade dos Metais até hoje); esta tendência tem como conse-

quência uma crescente aceleração da exploração do planeta e do


consumo dos recursos naturais, implicando a destruição do nicho
ecológico especifico do homem e a sua even-

tual estrutura biológica.

Desde o Neolítico, com a crescente complexidade das operações técnicas


e divisão de trabalho, surge uma outra tendência, a da percentagem
decrescente do conhecimento industrial, impondo uma organização e
cooperação humana no trabalho e uma diminuição do conhecimento
global de cada indivíduo (um só homem conhece a técnica de produzir
um barco ou uma canoa e pode produzi-lo por si mesmo - para produzir
um navio é necessário o concurso de milhares de técnicos, de saberes e
de homens). Uma última lei

58
indicia a característica mais específica da cultura do homem, a lei da
conservação do tempo e da energia muscular humana- toda a cultura
tende a poupar o esforço e o tempo individual e social.

Estas quairo @e'@s do conheúmen@o cU@ura@ co@ocam o proUerna do


des@'mo do `nomem como espécie. Na realidade, o animal vertical que é
o homem produziu-se a si mesmo através da prática da mão e da
linguagem. Ser homem é produzir instrumentos e simbolos,- as
tendências indicadas põem em risco a própria essência do homem,
Inserido num

universo cultural e num mundo artificial, o homem afasta-se cada vez


mais da natureza, destruindo o seu nicho ecológico e, se este evoluir,
condicionará a sua própria evolução: a humanidade torna-se cada vez
mais um ser colectivo, incapaz de sobreviver sem uma multidão de
outras células sociais, perdendo pouco a pouco a sua capacidade de
sobrevivência individual. Finalmente, a linha evolutiva da sua mão
exterior (o instrumento) con-

firma a economia do esforço humano, de que é exemplo paradigmático a


maquinofactura a partir da Revoluçã o Industrial, alterando o cicio vital
do homem com as invenções dos transportes, da luz artificial e das
comunicações. 0 homem tende a deixar de utilizar, não apenas a sua
mão natural e arcaica, fonte de toda a sua cultura, permitindo que
cresça à sua volta todo um universo mecânico que ele já não controla,
como está a ponto de limitar o uso da linguagem com o progresso nas
comunicações, pois o discurso é ultrapassado pela imagem. 0 homem
deixa de ser o produtor técnico desde o

momento que entra na tecnologia.

0 homem técnico e o homem industrial

A etapa actual da civilização - progressivamente planetária -, a era dos


computadores e das comunicações, surge como o final de linha duma
espécie que especializou a

mão e a linguagem; a espécie humana deixa de necessitar dos dois


elementos fundamentais que lhe deram a sua especificidade; os
circuitos integrados produzem-se a si mes-

mos, elaborando todas as séries materiais e simbólicas que só o homem


produzia. No seu universo tecnológico, sem necessitar de produzir
directamente e limitando a sua lin- guagem a um código cifrado, o
homem poderá perder os seus membros e tornar-se um verme jacente,
emitindo sinais da mente para transistores especializados.

2.3. A estruturação da cultura

2.3.1. UNIDADES ELEMENTARES DA CULTURA.

TRAÇOS E COMPLEXOS CULTURAIS

A Antropologia cultural, como qualquer ciência, cria os seus próprios


conceitos destinados à descrição e compreensão do seu objecto, ou seja,
das culturas.

Partindo da definição de certas estruturas mais vastas, como área


cultural e complexo cultural, organiza todo um edifício conceptual - um
modelo descritivo - que pretende corresponder ao objecto em estudo.

59
0 conceito básico é o conceito de traço cultural, a mínima porção de
cultura (material ou imaterial) descrita como indivisível. 0 traço cultural
é a pedra-base do edifício consIru ído pela Antropologia Cultural. São
traços culturais, objectos unitários como um utensílio, uma arma, um
objecto de adorno ou, ainda, um rito religioso ou mágico, uma lei, uma
norma, uma canção.

Traços culturais significativos de padrões culturais

Porém, cacia iraço cultural, se bem que objecto indiviso e unitário,


permite registar elementos de composicao, de forma, de fabrico. Nos
tracos apresentados destacam-se elementos como o toucado da
estatueta, a posição das mãos, o tipo de entrançado da cesta de verga,
os desenhos geométricos do vaso. Uma análise detalhada permite
assinalar um

sem número de pormenores des ‘te tipo - itens culturais - que


facilitam a leitura duma descrição e a identificação do objecto.

Habitualmente, os traços culturais integram-se numa cadeia produtiva


significante, quer dizer, organizam-se em séries de objectos que
respondem a uma função; complexo cultural é a expressão que se utiliza
para identificar o agrupamento de objectos unidos pela mesma função.

Identificado o complexo onde se insere o traço, o objecto ganha


significado.

Complexos culturais: a-armas de pedra; lo-cinzóis; c-vasos rituais

60
A noção de complexo cultural está ligada à ideia de área cultural, zona
onde se verifica a existência de um dado complexo cultural, cumprindo
determinada função e implicando certa actividade. A actividade cultural
caracteriza-se pela técnica de produção.

A cultura, o espaço e o tempo

0 tempo cultural não corresponde ao tempo cronológico, do mesmo


modo que o espaço cultural não cobre, necessariamente, o espaço
geográfico.

0 espaço e o tempo culturais medem-se pelas significações


socioculturais, pela prática cultural que revelam. A unidade do tempo
cultural pode corresponder a séculos, mesmo a milhares de anos, no
caso do Paleolítico,- mantém-se um tempo cultural enquanto se
verificam complexos culturais determinantes na cultura. 0 espaç o
cultural mede-se em função de outro espaço cultural que surge como
ponto de referência.

E o homem que domestica o tempo e o espaço, a sua medida tem de ser


feita a partir dos símbolos que o representam em cada cultura. Por isso,
podemos ainda hoje falar de povos que se encontram na «Idade da
Pedra» e encontrar espaços culturais descontínuos dentro de um só
país, conforme certas regiões estão de acordo com uma cultura ou outra,
o que é muito significativo na distinção entre cultura urbana e rural -
espaço urbano e rural.

Para determinar o espaço cultural, ou seja, caracterizar a cultura, parte-


se do conceito de configuração cultural.

RELAÇÃO HOMEM/MEIO Configuração sociocultural

A configuração cultural duma sociedade parte do triângulo biocultural,


modelo de interpretação onde todos os lados dum triângulo equilátero
têm peso idêntico e sofrem interligações- não se admite um lado do
triângulo a não ser para organização do estudo, pois na realidade há
interpenetrações constantes. 0 processo de interligação varia de
sociedade para sociedade, permitindo a multiplicidade de culturas.

Um dos lados do triângulo corresponde à relação Homem lAmbiente,


referindo o tipo de respostas culturais e sociais que o homem
concebeu,para responder ao desafio do meio ambiente implicando as
instituições técnicas e económicas produzidas pelo grupo social. 0 lado
indicado como HomemlHomem refere as relações sociais e políticas, ou
seja, a estratificação social e, eventualmente, a organização política. A
relação Homem/Homem obriga a todo o tipo de estudo dos grupos
sociais, familiares, etários, estratificação social, etnias, etc.

Finalmente, o terceiro lado responde à relação Homem lSobrenatural,


obrigando ao levantamento de todo o imaginário do grupo, ritos, mitos,
religião, crencas, teoria, etc ‘

Terminada a estrutura do triângulo, tem-se a configuração da


comunidade em estudo, tal como ela se organiza nos seus principais
aspectos, permitindo a definição dos padrões culturais específicos de
cada comunidade. Padrão cultural é pois a configuração cultural que
assenta nas relações estreitamente codificadas que o homem mantém
com o meio físico, a sociedade e o sobrenatural, o que inclui o estudo
das produções técnicas e simbólicas, transmitidas pelos mecanismos da
aprendizagem.

61
« (... ) a integração espacial do homern que descansa na sua cabana
pouco difere da do texugo na sua toca, ou que o reconhecímento social
se situa próximo dos códigos que permitem aos pássaros estabelecer as
suas relações coni base em sinais existentes na plumagem. Mas já se
ultrapassou a fronteira entre o espaço vivido pelo texugo e o

espaço simbolicamente construído pelo homem, entre o adorno do tetraz


e o uniforme simbólico do oficial superior, entre o canto do rouxinol e a
melodia sentimental. No caso do homem, trata-se de comportamentos
vividos através de filtros de imagens e, se é necessário ter consciência de
que elas nascem a níveis profundos, toma-se inútil e paradoxal
pretender mantê-las nesse nível por excesso de preocupação lógica. (... )
0 facto humano por excelência não é tanto a criação do utensílio mas
talvez a domesticação do tempo e do espaço, ou seja, a criação de um
tempo e de um espaço humanos.»

/A. Leroi - Gourhan, ob. cit., 2

A criação espáciO-temporal é também a criacão da cultura: ela


acompanha sem inter-

ao,, e so com rupções as etapas da hominizac ‘ ‘ o homo sapiens


que o homem cria um

espaço e um tempo controláveis através de ritmos baseados nos


próprios ritmos da natureza - o dia e as estaçõ es do ano -, que acabará
por expressar em calendários, horários e medidas.

Esta domesticação do tempo e do espaço resultará, por sua vez, no


controle e domesticação do próprio homem.

Sendo sociais, regulando cada comunidade, o espaço e o tempo


humanizados não coincidem em todas as culturas,- há tempos que
podem ser considerados mais ou menos atrasados de acordo com
critérios seleccionados.
Áreas culturais, círculos e cicios culturais. Centros de cultura e culturas
marginais

As culturas distribuem-se no espaço: a primeira preocupação duma


comunidade é definir um território, separando-se de outras culturas e
comunidades,- o etnocentrismo surge nos povos primitivos em função
da necessidade de identidade num dado território e cultura. Com o
alargamento do território ou a assimilação de outras comunidades, a
cultura acompanha a expansão dos homens. Este processo habitual de
expansão cultural processa-se em círculos a partir dum ponto fixo,
aquilo a que metodolog ica mente se chama círculos culturais. 0 centro
produtor da cultura, a sede original é o centro cultural, o espaço onde os
elementos culturais se encontram mais puros e mais arcaicos, já que é o
contacto com outras culturas e outras invenções que permite a evolução
cultural; quanto mais se afasta do centro mais evolui a cultura,
enriquecida com novos elementos e novas situações face a novos meios
ambientes. 0 centro cultural, tendo encontrado uma solução de vida,
tende a tornar-se conservador- o afastamento progressivo do centro
quebra esta atitude de conformismo a hábitos e regras culturais.

Centro e círculos culturais

62
A área onde predomina unia forma de vida idêntica chama-se área
cultural,- a área cultural coincide com determinada região natural, pois
é aí que as mesmas respostas culturais coincidem com os problemas
apresentados pelo meio. A área cultural pode apresentar gradações do
mesmo tipo de cultura e incluir ciclos culturais, onde apenas se mantêm
padrões culturais básicos ou um estilo de vida coincidente com os
grandes complexos culturais. Apesar da manutenção dos padrões
culturais mais significativos, surgem igualmente culturas marginais que
anunciam a ruptura dos principais padrões ou mesmo das estruturas
culturais.

Culturas marginais são culturas que sobrevivem à margem da cultura


oficial reproduzida pelos mecanismos de aprendizagem oficiais,- são
culturas de margem que reagem à cultura institucional, resultando
habitualmente de extractos étnicos diversificados, ou de margens
excessivamente afastadas do centro produtor, sobrevivendo em meios
naturais diversos. Descentralizadas, as culturas marginais exploram as
contradições e conserva-

dores da cultura oficial, organizando-se em volta de um novo modelo de


cultura. Actualmente podem considerar-se culturas marginais - e
marginalizadas - as culturas populares.

arginal, Ciganos: antiga cultura m,

sobrevivendo em todo o mundo

Culturas nacionais

“A minha pátria é a língua portuguesa”, FERNANDO PESSOA

Na realidade não existem verdadeiras culturas nacionais dado que em


cada sociedade subsistem culturas marginais, subculturas e
coniraculturas (culturas marginais que pretendem substituir a cultura
oficial). Dum modo geral, hoje ern dia, nenhum pais se identifica com
uma única nação, uma única cultura, ou mesmo uma etnia, incluindo
várias comunidades com heranças culturais próprias. 0 elo de ligação
entre as nações, fundamento determinante na coesão das nações e dos
países, é a língua. 0 idioma carreia gestos culturais - corporais e vocais
-, subtilezas de entoação e simbolismo que criam uma certa identidade
de comportamentos a nível nacional; porém, é bem conhecido que uma
mesma língua é utilizada diferentemente no campo e na cidade ou nos
vários grupos sociais e, ainda, nas diferentes áreas que compõem um
país.

É quase uma convenção falar-se em cultura nacional - mesmo medindo-


se a personalidade-base dos jovens -,- há sim, um certo sentido da
cultura, a maior parte das vezes de criação artificial a partir da educação
oficial e das determinações políticas consubstanciadas nos projectos
nacionais. Padrões culturais comuns dão certo ar de identidade à
cultura, quando comparada com outras.

63
«A raça portuguesa, por mais decaída que a consideremos pelo
abastardamento dos elementos que a formaram, é ainda hoje considera
velmen te menos absorvível do que absorvente. Que essa raça realmente
existe é para mim uma verdade que debalde têm por vezes contestado
alguns dos nossos próprios e pessimistas etnógrafos.

Não é pela dedução secamente científica dos atavismos e das


hereditariedades dos grandes agrupamentos humanos, nem tão-pouco
pelos seus caracteres anatómicos, senão pelos elementos psicológicos da
sua mentalidade, que hoje historicamente se diferenciam, se dividem e
subdividem as raças. Neste ponto de vista, que é aquele em que me
coloco, o Português consti .tui.um tipo i.ntei.ramente especial no
grupo indo-europeu.

Ele é sentimentalista, idealista, galã, dado a aventuras e a viagens como


o Preste João, como Femão Mendes, como o Infante Dom Pedro, como
Camões. É sóbrio e é rijo. Tem o dom sociável e fecundo de amar e de se
fazer amado, e é singular a sua facilidade de adaptação a todos os meios
biológicos e sociais, bem como a sua enorme força de resistência à
fadiga, à fome, a todas as privações da vida e a todas as hostilidades da
Natureza. De resto, propenso à rebeldia, leviano, gastador, volúvel e
inconstante. Durante o século X VII, depois de célebre pelos seus
grandes feitos de guerra, de na vegacão e de conquista, era proverbial
em Espanha a sua ---melosidad y derretimiento- em

amores. Quevedo dizia que de portugueses não ficariam torresmos no


fogo do inferno, porque, havendo lá mulheres, os Portugueses
derreteriam completamente, não deixando como vestígios mais do que
uma nódoa no chão.

Na nossa História Trágico-Marítima, livro composto, sob um título de


convenção retórica, pelas autênticas narrativas marítimas dos nossos
soldados e marinheiros da India -

livro sem rival em nenhuma outra literatura do mundo -, conta-se que


os náufragos de um dos nossos galeões se encontraram na costa de
Moçambique com uma hoste guerreira de negros -selvagens, da qual se
reconheceu que fazia parte um soldado português, que alguns anos
antes, por ocasião de outro naufrágio, ali dera à costa e ficara cativo. Em
pouco tempo ele aprendeu a língua da tribo, impusera-se à obediência
dos nómadas que o haviam capturado e fizera-se inteiramente tão negro
como eles. Eis um característico espécime da raça.

0 mesmo poder de adaptabilidade, que no sertão de África o fizera um


preto, teria igualmente feito dele em Londres um «genflemam) e em Paris
um «dandy».

Um dos seis ou oito primitivos fundadores do Jockey Club em Paris era


português. Um dos mais excêntricos dos pansienses registados na
conhecida galeria de Champofleury era português. 0 elegante cavalheiro
e o dono dos mais belos cavalos que ainda no fim do século passado
escarvavam o solo de Longchamps, no Bois de Boulogne, era português.
0 mais elegante palacete dos Campos Elísios, notávelpelo seu tipo
arquitectónico, no estilo do Segundo Império, famoso pela sua escadaria
de ônix, no qual ao presente se acha instalado um dos mais selectos
«cercles» de Paris, o Vauclers Club, foi construido pela viúva de um
janota portuense, hoje condessa de Donesmark, por afinidade prima
milionária de Bismarck.

Raras são as interrupções em que Portugal tem deixado de ter um


representante seu no Jockey Club, e bem assim no Instituto de França.
Um desses «clubmen» português pagou de uma vez, segundo consta das
«Memórias» de Henri Villemessant, fundador do «Fígaro», cem mil francos
pela nota de uma ceia que ofereceu aos seus consócios e que ele
terminou atirando à rua com toda a baixela da mesa.

A par destes atestados de puro chique, os Portugueses devem à


congénita rusticidade da sua robusta constituição e do seu aguerrido
temperamento o privilégio de terem sido os melhores soldados de
Napoleão na campanha da Rússia e de serem ainda hoje os mais
invencíveis soldados de África.

Nas escolas estrangeiras são em geral distintamente notados os


estudantes portugueses. Há dois anos dízia-me em Lausana o director
da Escola Normal que eram conhecidos pela sua aplicação e pelo seu
talento todos os operán.os pensi.oni.stas do Estado que ali estavam em
curso de aperfeiçoamento. Tinham rapidamente aprendido a falar
alemão

e francês.

64
Tem-se a impressão que os Portugueses precisam de emigrar para
desenvolverem todos os recursos da sua nativa e latente capacidade.
Porquê? Porque na sua terra a casta dos políticos, «a mais vil de todas as
castas», como diz Paul Adam, predomi .na; absorve as energias
nacionais na mísera ambição e na reles intriga de partidos,- revoluciona;
revolve até os seus mais profundos alicerces o equilíbrio social- perturba
e enxovalha a serenidade da aplicação e do trabalho; em nome de uma
quimérica igualdade com que incendeia a brutalidade das multidões,
decapita e destrói a influência ponderadora das «elítes», e deturpa,
avilta, emporcalha tudo, afogando num cataclismo de lama a dignídade
de um país inteiro. Mas não é da pútrida infecção da política, é da sã
resistência da raça que eu hoje me ocupo.»

Ramalho Ortigão, «A Raça», in As Farpas

Porém, uma análise elaborada como esta de Ramalho Ortigão, a partir


de observação empírica e não-científica, arrisca resultar num simples
relatório de lugares-comuns, fortemente impregnados da ideologia
decorrente. Este texto de Ramalho Ortigão é invulgarmente ideológico: o
conceito de raça que é veiculado pelo autor, é típico deste final do
século XIX - os Portugueses são mesmo incluídos no grupo linguístico
indo-europeu, como se de raça se tratasse. As características rácicas
servem para explicar padrões culturais e temperamentos que se
atribuem à totalidade dos Portugueses -- a própria emigração surge
como espírito de aventura e já se insinua a contraditória mitologia de
«militar valente, de brandos costumes». Na realidade, a tentativa de
definir uma cultura nacional aparece, na maioria das vezes, como um
argumento à união de grupos antagónicos - os nacionais - contra o
exterior.

«Durante muito tempo certas formas de melancolía foram consideradas


como especificamente inglesas; era um dado médico e também uma
constante literária. Montesquieu opunha o suicídio romano, conduta
moral e política, efeito conseguido duma educação adequada, ao suicídio
inglês que devia ser considerado como uma doença ]’a que ws Ingleses
matam-se sem que se possa imaginar nenhuma razão que os leve a isso;
eles matam-se mesmo no meio da felicidade». ( .. ) No início do século
XIX, Spurzheim fará a síntese de todas estas análises num dos últimos
textos que lhes é consagrado. A loucura na Inglaterra «mais frequente
que em qualquer outro lugar», não é mais do que o tributo da liberdade
que aí reina, e da riqueza por todos repartida. ( .. ) Para nós, o essencial
de uma análise como esta, não é a crítica da liberdade, mas sim a
utilizaçã o da noção que para Spurzheim designa o meio não natural
onde são favorizados, ampliados e multiplicados os mecanismos
psicológicos e fisioló gicos da loucura.»

M. Foucault, Histoire de Ia Folie, Plon, 1961

Padronização cultural: coesão cultural e realidade cultural como


totalidade. A noção de estrutura e função

Perfeitamente detectados do exterior, cada cultura apresenta um


conjunto de «modelos ideais» que representam a opinião geral sobre o
modo de se comportar em certas situações. Estes modelos ideais não
são estritamente seguidos por todos os grupos sociais, pois só alguns
deles tendem a utilizá-los sistematíca mente, enquanto outros grupos,
mesmo tendo consciência da sua existência, não os incorporam no seu
comportamento. De resto, estes modelos variam de sociedade para
sociedade. Estes modelos ideais assentam na observaçã o do passado da
cornunidade, cristalizados em comportamentos que idealmente devem
nortear os indivíduos e, portanto, raramente correspondem aos modelos
de comportamento real levantados pelo sociólogo ou pelo antropólogo.
Por vezes, o modelo ideal apresenta-se como um objecto de desejo, não
correspondendo em nenhum caso ao comportamento real. De qualquer
modo, tanto num

como noutro caso, os modelos ideais têm a função de desencorajar


certos comportamentos que se afastam demasiado daquele que eles
propõem; quando o modelo ideal se torna desactualizado tende a
desaparacer e é substituído por outro.
65
0 padrão cultural duma sociedade ou o complexo de padrões culturais
que permitem individualizá-la, ganham um sentido próprio em função
destes modelos ideais; a cultura ganha uma certa coesão a nível de
imaginário e de discurso, mas a sua realidade é o con-

junto de comportamentos dos vários grupos sociais; a padronização


cultural deve alicercar-se sobre os comportamentos reais e não sobre os
comportamentos atribuídos a um

modelo ideal que fazem parte das intenções da comunidade e não da


sua realidade; porém, há sempre um sentido expresso no imaginário
ideal que serve de limite e de explicação do sentido de muitos
comportamentos.

A cultura oficial, institucionalizada pelos mecanismos oficiais, recorre a


muitos dos modelos ideais, o que não só explica o seu quê de
artificialismo e superficialidade, como o facto da parte de inoperância
que produz a sua aplicação na vida prática. Entretanto, é responsável
pela segregação de padrões seculares tradicionais que passam a
participar de subculturas marginais. E o caso das velhas profissões
como «curandeiros», «Inerbanários», «endireitas» que foram
desvalorizados pela prática da medicina oficial, mesmo que, por vezes,
provem a sua eficácia - «não é médico o que cura, mas o que tem o
diploma».

0 alargamento da escolaridade obrigatória tende a impor com mais êxito


a padronização oficial logo a partir duma técnica de linguagem e um
léxico específico que permite o esvaimento dos falares tradicionais e
esbate as linguagens de classe, ao mesmo tempo que despadroniza os
gestos da linguagem. Entretanto, a cultura oficial distribui-se em

fatias culturais e nem todos os grupos são atingidos e favorecidos


igualmente pela cultura - a realidade cultural mantém um universo
cultural dentro dum espaço supostamente coeso.
Padrões culturais em extinção

0 funcionalismo não aceita a noção de indeterminação de sentido de


alguns padrões culturais,- dado que toda a sociedade é uma organizaçáo
a partir de necessidades básicas, estas acabam por produzir instituições
como a economia, a organizaçáo social, o

controlo social, a educação, que constituem um sistema onde todos os


elementos são solidários. Recusa, portanto, a noção de antagonismo
entre as instituições, ou mesmo

no seio dessas instituições. A coesão cultural é conseguida pelas


próprias instituições que regulam a vida colectiva e ganham sentido em
si mesmas, respondendo a necessidades primárias como a alimentação,
a reprodução e a protecção - sobrevivência do colectivo.

Recusa, portanto, dada a coerência interna das suas instituições, a


possibilidade duma cultura assimilar elementos exóticos, estruturando-
os ao seu próprio sentido. Cada padrão cultural, cada objecto, cada
costume, cada crença tem uma função a desempenhar na sociedade,
uma função vital que desempenha uma parte indispensável no sistema.
Rejeita-se assim a teoria do difusionismo que reconhece a existência de
certos centros culturais que teriam difundido e alargado a sua cultura.

A corrente estruturalista procura encontrar o sentido dos conjuntos


culturais, definindo estruturas que estão próximas das noções de
padrões culturais. Nas estruturas existem elementos fixos e elementos
móveis; o desaparecimento dos primeiros acarreta a

66
destruição da estrutura e a constituição de uma nova. Só os elementos
fixos e imutáveis da estrutura lhe dão o seu sentido próprio. Os
«apports» culturais vindos do exterior não só podem incluir-se como
elementos novos de uma estrutura, sem lhe destruirem o sentido, como
podem constituir estruturas novas que permanecem em relação de
união ou antagonismo com velhas estruturas. Pode perfeitamente
conceber-se a estrutura económica da troca directa existindo
paralelamente a uma estrutura capitalista. Os padrões culturais que se
sobrepõem na sociedade que as comporta, permitem a concepção de
uma sociedade de subgrupos e múltiplos comportamentos, respondendo
entretanto cada um

deles a um modelo prático de vida que pode ser teoricamente unificado


pelos modelos ideais. Mesmo praticando a troca directa, o modelo de
enriquecimento do capitalismo pode interferir no imaginário do outro
grupo.

0 estruturalismo concebe a sociedade como um campo de conflitos onde


várias estruturas se cruzam, entendem ou antagonizam, num modelo de
ordem e desordem, criativo de progresso e inovação.

2.4. Aspectos universais da cultura


2.4. 1. A TECNOLOGIA CULTURAL OU A ETNO-TECNOLOGIA
CULTURAL

A tecnologia cultural é a análise das tradições técnicas que não incluem


a tecnologia industrial. 0 seu campo de acção é pré-industrial. Analisa-
se a tecnologia que ainda não foi contaminada por valores tecnicistas da
sociedade industrial e onde o pensamento mítico é ainda predominante.

Eivada ainda de arcaísmo, a tecnologia cultural analisa o tipo de relação


dialéctica entre a cultura técnica e o meio natural, entre o meio
geográfico e as possibilidades técnicas ou tecnológicas das sociedades;
analisa ainda os fenômenos de aceitação e rei .ei-
cão de inovações técnicas introduzidas por contactos culturais e por
aculturação. Todas as culturas estão sujeitas não apenas às
insuficiências do meio ambiente como ainda às que provêm de outras
culturas; porém, esta acção e reacção frente a «apports» culturais faz-se
selectivamente: as culturas aceitam e rejeitam inovações de modo
idiossincrático(-P).

As sociedades organizam-se em sistemas socioculturais, compreendendo


uma infraestrutura básica que inclui as suas respostas técnicas ao
desafio da natureza: o modo de producão económico e o conjunto de
técnicas adaptam-se ao meio ambiente e determinam o aparecimento de
uma superstrutura que inclui as representações colectivas que,
naturalmente, se adaptam às estruturas económico-técnicas. Entre a
superstrutura e a infraestrutura desenvolve-se assim um movimento
dialéctico: a infraestrutura determina a superstrutura e esta controla a
infraestrutura por intermédio das instituições.

Sistema socioculturall S,E.-Superstrutura


11. -Infraestrutura

As sociedades mais apetrechadas tecnologica mente tendem a dominar


as sociedades menos apetrechadas, do que resulta que as inovações
técnicas penetram, na maioria dos casos, através do campo idelógico-
político, ou sei.a, através da superstrutura.

67
As culturas mais bem adaptadas ao seu meio ambiente são muito
resistentes às inovações técnicas vindas do exterior, pois compreendem
um sistema cultural muito especializado em função dessa adaptação
que cria quadros mentais de rejeição a qualquer mudança.

Não pode esquecer-se que todas as estruturas se organizam e interligam


num sistema sociocultural, mantidos pela inculturação. Pelo contrário,
quanto menos adaptada e menos especializada é uma cultura, mais
sujeita se encontra a inovações culturais e, ao mesmo tempo, está
menos sujeita ao etnocentrismo, já que este funciona como uma barreira
cultural frente aos outros. As culturas especializadas tendem a manter-
se subconservadoras, evoluindo rnuito lentamente, agravando-se o
conformismo por ideologias conservadoras. São casos paradigmáticos as
culturas rurais, especializadas em técnicas tradicionais, invulneráveis a
inovações e mudanças, já que as suas respostas técnicas lhes surgem
como eficazes para a sobrevivência. Um terceiro caso é o dos sistemas
culturais que se especializam em transporte e circulação de mercadorias
e ideias, «veículos de riquezas e conhecimentos científico-técnicos»
(Mesquitela Lima), sem os incorporarem no seu próprio sistema.
Levanta-se esta dúvida para o caso histórico-português.

Classificação socioeconõmica das técnicas

«Não podendo esta classificação ser puramente tecnológica, mais do que


dar à definição um julgamento estético (rusticidade) é preferível tomar
como pivot um termo socioeconômi .co que implique pelo menos uma
parte das consequências tecnológicas. Parece-me que o pivot procurado
corresponde ao artesanato em sentido amplo, isto é, um

estado social em que determinados indivíduos votam o seu tempo a


técnicas de fabricação (metalurgia em particular), sendo este tempo
recompensado por uma contrapartida em espéci .e ou em espéci .es
correspondentes à não-aquisição alimentar resultante da sua actividade
de fabricação. A nocão de artesanato faz intervir a sociedade global
simultaneamente no plano das instituições sociais e das operações
económicas, tendo os graus sucessivos de complexidade social como
corolário (e como elemento componente) a libertação gradual do tempo
de fabricação dos indivíduos especializados. Épropriamente relacionar a
hierarquia técnica com o meio favorável, e verificar que o «grupo técnico»
não pode ser separado da sociedade total. Neste plano poderão
considerar-se as divisões seguintes.-

1) pré-artesanal: no plano da fabricação, a sociedade não distingue


alguns dos seus

membros e, teoricamente pelo menos, todos os indivíduos (ou casais)


podem assegurar a parte da fabricação que corresponde às suas
necessidades fundamentais. Esta expressão corresponde melhor que
«muito rústico» ao que queria caracterizar na ---poca em que escrevi pela
primeira vez este capítulo.

2) proto-artesanal: sem deixar de assumir a parte maior da sua


aquisição alimentar, um ou alguns indivíduos fabricam objectos que
correspondem às necessidades fundamentais do grupo. Este último
assegura a compensação, normalmente em espécie. Proto-artesanal
poderia substituir «rústico», mas a partir daqui a terminologia só se
sobrepõe particularmente.

3) artesanal-isolado: a este nível os indivíduos tomam-se especialistas a


tempo inteiro (o que não exclui algumas actividades de aquisição
alimentar, mas esta última passa a um plano menor). Os artesãos são
pouco numerosos, / .nseridos individualmente no grupo.

4) artesanal-agrupado: os artesãos formam grupos, associados em


unidades de pro~ dução, num sector citadino que lhes é próprio, ou,
nalguns casos, em aldeias separadas, como acontece com os oleiros.
Distinguem-se dos proto-artesãos rurais que, em aldeias inteiras,
consagram uma parte do tempo à fabricação, sendo o resto votado aos
trabalhos de aquisição alimentar.
5) industrial: os indivíduos estão agrupados hierarquicamente no seio
duma empresa de médias ou grandes dimensões e cujos meios de acção
são exteriores aos executantes.

É evidente que estas categorias conti .nuam a ser permeável .s,


uma relativamente à outra, num duplo sentido. Num grupo que atingiu
o tipo artesanal-isolado ou mesmo

industrial, alguns factos de fabricação continuam a ser factos de massas


de indivíduos por sexos (a costura ou a cerâmica em muitos casos, etc.).
De igual modo pode-se constatar que há casos de transição entre tipos
como o de artesãos isolados numa comunidade rural, os quais nalguns
planos constituem um agrupamento com outros artesãos isolados das
comunidades vizinhas. »

A. Leroi-Gourhan, 0 Gesto e a Palavra, 1

68
2.4.2. A ECONOMIA: SISTEMAS DE AQUISIÇÃO E DE PRODUÇAO DE
BENS, ORGANIZAÇAO ECONóMICA

«Por toda a parte onde quer que fixemos o nosso olhar não foram só as
superfícies e a

fertilidade do solo, mas sim os meios disponíveis para o seu


aproveitamento - inteligência, eficácia e sentido de economia dos
homens -, que determinaram o campo alimentar.

São esses meios que sabem encontrar sempre terra nova no sentido
mais amplo do termo, isto é, novos métodos de aproveitamento do solo e
novos recursos da agricultura. A terra nova que, para ampliação do
espaço alimentar do homem, tem de ser conquistada e desbastada,
encontra-se em pn .melro lugar nas cabeças dos homens e dos
povos. »

F. Aereboe, 0 Problema da Alimentação dos Povos e o Aumento da


Produção da Agricultura

Se as técnicas agrícolas são produto do imaginário técnico do homem,


tem de se ter em conta, em primeiro lugar, o seu tipo de intestino que o
orienta para a absorção de carne e de cereais. É, porém, o processo de
hominização que, produzindo o homem técnico, lhe permite ultrapassar
o estádio de caça e colecta de alimentos através da domesticação
paralela do mundo animal e vegetal.

«Quatro grandes e decisivas ampliações do espaço alimentar tiveram até


agora lugar na terra. Uma quinta ampliação poderá sobrevir no decorrer
do próximo século.

A primeira ampliação do espaço alimentar teve lugar com a transição da


economia de caça para a economia de prados.

A segunda ampliação verificou-se com a transição da economia nómada


para a econo-

mia sedentária e a agricultura.

A terceira ampliação foi a da transição da primitiva agricultura para a


moderna. À quarta ampliação do espaço alimentar poderemos chamar a
da produção sintética dos alimentos. Assenta na descoberta científica de
que as plantas precisam de certas substâncias alimentares para o seu
desenvolvimento, em especial de azoto, ácido fostórico, potássio e cálcio.
Podemos produzir essas substâncias alimentares fora da agricultura: em
minas e em fábricas. Transportando~as depois para os campos, damos a
estes a capacidade de produzir alimentos em quantidades múltiplas das
que produziam na simples base da sua fertilidade natural.

A quinta ampliação seria a da produção totalmente sintética dos


alimentos. Certos valores alimentares podem já ser sinteticamente
produzidos. A ciência química encontra-se nos umbrais da possibilidade
de produção sintética de alimentos, e há-de transpor esses umbrais
antes de decorrer meio século. »

Fritz Baade, Economia Mundial da Alimentação

Há, porém, problemas quando se levanta uma classificação como a


apresentada. Este tipo de classificação funciona va lorativa mente,
fazendo surgir o processo de aproveitamento do espaço alimentar em
estádios equivalentes a um progressivo melhoramento das técnicas e
dos resultados económicos. Porém, se se admitir que a distribuição de
bens alimentares estava facilitada no estádio da caça/colecta, uma
classificação deste tipo deixa de ter sentido. Tem características
etnocêntricas, de selecção de modelo de desenvolvimento, a noção do
atraso dum estádio em relaçã o ao anterior ou seja, desde o momento
que o modelo de desenvolvimento seja o da máxima renta@ilidade.

«A caça e a colecta têm todas as suas forças na sua fraqueza. Os


movimentos periódicos e as limitações da riqueza e da população são
simultaneamente imperativos da prática económica e soluções de
adaptação criativas. São de qualquer forma necessidades feitas virtudes
pois no quadro de tais condicionamentos a abundância toma-se
possível. A mobilidade e a moderação põem os objectivos dos caçadores
ao alcance das suas possibilidades técnicas. E assim que um modo de
produção fundado em técnicas rudimentares pode ter um alto
rendimento. A vida do caçador não é assim tão dura como pode parecer
ao observador menos avisado. Em alguns aspectos a economia reflecte
os dados rudes da ecologia, mas estes dados ela inverte-os
completamente.

69
De acordo com testemunhos etnológicos recentes, os caçadores-
colectores - mais particularmente os que vivem em meios marginais -
consagram em média três a cinco horas diárias (números válidos para
um trabalhador adulto) na produção da sua alimen tacão. Em matéria
de tempo, têm emprego de bancários, e trabalham nitidamente menos
que os operários industriais que desejosos estariam de obter uma
semana de trabalho de
21 a 35 horas! Estudos recentes feitos aos custos de trabalho entre os
agricultores do ti;oo neolítico permitem comparações interessantes.
Assim, entre os Hanunóo, um adulto médio, homem ou mulher,
consagra 1200 horas por ano à agricultura... seja em média 3 horas e 20
minutos por dia. Note-se que estes números não dão conta nem da
preparação, nem dos cuidados com os animais domésticos, nem da
cozinha ou de outras actividades de subsistência a que se dão estas
tribos das Filipinas. ( ...)

Poderão neste ponto fazer-se algumas observações acerca do lugar que o


facto económico ocupa na organização social das sociedades
tradicionais.

A auto -subsistência aparece-nos como sendo o quadro económico em


que se elaboram o modo de produção e o modo de circulação dos bens.
Modo de produção directo, implicando relações de produção de carácter
pessoal e imediato. Modo de circulação sem troca e edificado a partir das
relações pessoais que confirma e prolonga.

0 papel determinante das condições econômi .cas não aparece


imediatamente pois estas sociedades assentam numa estrutura material
fraca que, em proporção, dá uma importância maior aos fenômenos
intelectuais. 0 que desencorajá o economi .sta que procurar um
determinismo económico imediato é que o sistema de circulação dos
bens que observa se elabora por intervenção de um fenômeno não
material.

Desde que a economia de auto-subsistência esteja ameaçada pela


aparição de trocas comerciais, a sociedade que sobre ela se edifica tende
a ser preservada pela neutralizacão das contradições que penetram no
seio do grupo. A eventual desaparição da economia de auto-subsistência
leva à aparição de novas relações sociais estabelecidas em função de
uma pertença a categori .as soci.ais hierarquizadas (e não mais em
função de relações individuais) e de novas relações entre classes
edificadas sobre um modelo transformado das relações anteriores.

As noções de parentesco e de ancianeidade perpetuam-se através destas


transformações e adquirem a força de uma ideologia familiar e religiosa.

A sociedade passará da economia directa à economia feudal apoiando-se


nesta ideologia durante todo o período em que, sendo já hierarquizada,
ela ainda não chegou ao estádio de controlo da terra pela classe
dominante.

As noções de idade e de parentesco, pelas contradições que lhes são


inerentes, trazem em si os elementos destas transformações. A aparente
fixidez destas sociedades deve-se ao facto de que a observação se situa o
mais frequentemente ao nível da organização clânica. Enquanto forem
preservadas as condições de auto-subsistência, estas socíedades
multiplicam-se, alargam-se e repetem-se por segmenta(,ão sem que a
organização das células constitutivas se transforme de forma
significativa.

E no plano demográfico e geográfico que o seu dinamismo é visível. Por


isso criam, elas próprias, as condições da sua transformação, tomando
possível o contacto com um grupo económico complementar, ou
tomando-se elas próprias complementares.»
Marshall Sahiins, Stone Age Economics, 1972

Entretanto, se bem que não se possa admitir uma imagem-das


sociedades colectoras e

caçadoras como uma «sociedade famélica que assegura dificilmente a


sua sobrevivência, apesar de um trabalho encarnicado», é um facto que
o inevitável esgotamento da caça e

das pradarias condena as comunidades à itinerância - e ao estádio da


agricultura de prados. Com a agricultura de fixação resultante e
resultado da primeira e segunda revoluções urbanas, aumenta a
produtividade da terra, mas diminui a produtividade do trabalho, o que
irá permitir, apesar desse abaixamento de produtividade do trabalho,
um aumento de produção e uma libertação de horas de trabalho geral
que passam a ser ocupadas por sectores secundários e terciários,
tornando muito mais complexo o sistema social. Nas economias de caça
e colheita, a terra é apenas um objecto de trabalho, enquanto que na
economia agrícola, a terra é também meio de trabalho e terra de cultura

70
onde se investem novos trabalhos, novas especial izações, uma nova
cooperação -

vedação, arranjo dos solos, aclubagem, esfolhamento, etc. 0 cicio da


agricultura é anual
- impõe calendários precisos, obriga a uma cooperação estável e
prolongada dos homens.

Nas econornias de caçadores resultam relações sociais fracas e


descontínuas e um fraco controlo de homens e de mulheres; na
economia agrícola as relações são vitalícias, quando não hereditárias,
pois exigem-no as prestações a pagar pelo crédito do primeiro período
das sementeiras que não é de rendimento imediato; este crédito
indispensável para quem inicia um cicio agrícola implica o domínio da
anterioridade, com papel de destaque para os mais velhos na função de
controlo e repartição dos stocks, dos dependentes e das mulheres.

Com a agricultura advém também, a nível político, a gerontocracia e, a


nível ideológico, o culto dos antepassados e o estabelecimento de
genealogias.

Técnicas agrícolas e instrumentos agrícolas

As instituições económicas, os sistemas de produção, não surgem


autonomamente mas, sim, diluem-se noutras instituições,
nomeadamente a social. Esta dependência era

particularmente notória nas sociedades primitivas, onde as instituições


económicas se diluíam numa instituição mais importante que era a
troca de mulheres, ou seja, na prática de casamentos exogamicos e
sistemas de aliança.

«( ... ) Tomaremos como ponto de partida a célula social tradicional que


pode ser descrita como um conjunto de indivíduos de ambos os sexos
vivendo agrupados num
espaço comum, ou deslocando-se em conjunto, sob a autoridade de um
homem vivo, reputado de eminente, e mantendo entre si relações de
parentesco. Uma tal célula, que chamaremos comunidade, retira a sua
subsistência da caça, da colecta, da agricultura, da pecuária, ou de uma
combinação qualquer destas actividades.

A principal característica económica duma tal comunidade é a sua auto


-subsistência.- o

grupo produz a totalidade dos bens necessários à sua perpetuação e


cresci .mento a parti .r dos recursos naturais que estão directamente à
mão. Veremos como este carácter de susbsistência, uma vez que se
elabora nesta base o edifício social, tende a ser artificialmente
preservado contra as transformações implicadas pelas relações de troca
complementares com as outras economi as.

Esta comunidade pode ter existência isolada ou estar integrada, seja


num conjunto mais vasto de comunidades homólogas igualmente de
auto -subsistência, seja eventualmente no seio de uma sociedade
política mais complexa e hierarquizada.

71
As outras características económicas da comunidade, no sentido em que
a definimos, são as seguintes.-

- acessibilidade de todos os membros da comunidade às matérias-


primas e à terra;

simplicidade dos meios de produção, isto é, dos meios naturais e


artificiais accionados para produzir os bens de consumo;

- complexidade relativa das técnicas de produção;


- divisão do trabalho em função do sexo e da idade;
- circulação dos bens de subsistência em função de uma hierarquiá
social baseada na nocão de ancianeidade. ( ..)

Num tal sistema, as mulheres casadas trabalham para os seus esposos


que entregam o

produto de ambos aos anciãos, os quais o redistribuem ao conjunto da


comunidade directamente ou por intermédio dos homens casados.

Se neste ponto prestarmos atenção apenas às relações entre os anciãos


e os jovens, podem-se definir dois modos de circulação dos bens:

- uma prestação dos jovens aos anciaos;


- uma redistribuicão dos anciãos aos jovens. Este esquema, que não é i
.magi .nári.o, revela portanto uma relação de dependência entre duas
categorias de indivíduos, que se caracteriza pelo facto de que uma
recebe prestações da outra e portanto controla a totalidade da produção
do grupo.

0 problema que se põe é o de saber.-»

Claude Meiliassoux, Cahiers dÉtudes Africaines, 1960, Paris

«Assím, se o mais velho controla as trocas matrimoniais, não é porque


controla o produto social (em muitos casos este produto não tem
afectação matrimonial), mas porque controla as mulheres do seu grupo
e porque estas mulheres, por causa da proibição do i.ncesto, não
possuem nenhum valor sexual no interior do seu grupo. Nesta
perspectiva, o controlo dos produtos (em particular dos excedentes
quando estão afectos às trocas matrimoniais) surge claramente como
uma consequência do controlo primordial das mulheres do grupo.

No fim desta análise, o que finalmente parece caracterizar as relações


sociais na sociedade de linhagem é uma dupla realidade complementar.-
por um lado, a transformação das mulheres do grupo em «mercadorias»
destinadas à troca e de que só os mais velhos têm o controlo, e, por
outro, o correlativo espoliamento, dos mais novos, obrigados a trabalhar
para os mais velhos, dado que só estes, pondo em circulação uma
mulher do grupo, lhes podem fornecer, em paga, uma esposa.»

Alain Marie, Relações de parentesco e relações de produção nas


sociedades de linhagem,

in «A Antropologia Económica» dir. François Pouillon

0 problema do surgimento da troca económica

A vida social é, já em si, um sistema de trocas que pode extravasar o


próprio território, como se verifica pelo casamento exogâmico.

Já no Paleolítico se detectam vias comerciais de instrumentos, levando a


crer num comércio expansionista a partir das pedreiras que forneciam o
sílex para os utensílios -

onde os stocks encontrados ultrapassam de longe qualquer necessidade


local de abastecimento.

Porém, o verdadeiro comércio, ultrapassando a troca directa e utilizando


um objecto intermediário de valor relativamente fixo - que será a moeda
-, parece surgir apenas com o advento da metalurgia. A fundição de
metais (cobre, ouro, prata e liga do bronze) surge nas montanhas, junto
dos veios de minério; as civilizações dos grandes rios, com capital,
capacidade de utilização e, em breve, com necessidade de organizar a
sua defesa e os seus exércitos imperialistas com armas de bronze,
situam-se nas planícies aluviais: caso do Egipto, da Suméria e de outras
civilizações urbanas como a chinesa. Quando os reis militares da
Suméria organizam expedições para a captura do metal e lápis-lazúli,
estão a criar as condições do futuro imperialismo económico das cidades
acádias, sumé-

72
rias e egípcias, de que são casos paradigmáticos o império de Sargão e
de Ramsés 11. 0 império acádio acabará por enfrentar as expedições
militarizadas do Egipto, à procura do minério. Em pouco tempo o metal
é, além de moeda de troca, o produto comercial mais valorizado do
mundo antigo, surgindo na orla das grandes civilizações agrícolas, nas
culturas de margem dedicadas quer à mineração e fundição (civilizações
da Ásia Menor), quer à troca comercial entre as grandes áreas culturais
e nas culturas do corredor palestiniano, como troca. 0 Próximo Oriente
surge como um laboratório onde pode estudar-se a evolução dos
sistemas de aquisição e produção de bens. É aí que surge a
domesticação do gado e das plantas vegetais, cujas técnicas emigram
para o Ocidente e Médio Oriente; é igualmente nos leitos dos rios que se
desenvolve a agricultura baseada na captação das águas das cheias,
arrastando consigo a segunda revolução urbana das grandes cidades,
com teogonias mistas herdadas da justaposição dos mitos das fratrias
exogámicas que se tinham organizado em fortificações urbanas
complementares de agricultores e pastores. Se na primeira revolução
urbana a regra era a troca directa, com a segunda revolução o

metal circula rapidamente e a moeda propriamente dita acabará por


surgir.

A revolução metalúrgica, ao mesmo tempo que cria uma nova sociedade


onde o artesão passa a ser seqreqado, lança o comércio internacional na
rota da procura do minério
- império comercial que seguirá o caminho da expansão da escrita,
alicerce primeiro de dominação.

Os povos surgem como agricultores ou pastores, mas pouco a pouco


estas actividades incluem-se no espaço urbano, passando a produzir
para a cidade. Redes de cidades burocráticas ou mercantis dominam
todo um espaço circundante que lhes fornece produtos agrícolas e
pastoris. 0 sistema político-jurídico a que se chama feudalismo, está
habitualmente associado a uma agricultura de subsistência e de
prestação de serviços ao senhor da terra; surge em várias culturas
aristocráticas, habitualmente em regime de ocupação do território por
um

invasor que constitui então a «classe» dominante, pela qual se distribui a


terra. Nestas parcelas. de terra entregues para cultivo a camponeses-
vassalos, a base económica é a agricultura e a criação de gado, mas
mantém-se um comércio itinerante feito habitualmente por comerciantes
do corredor palestiniano ou caravaneiros de várias origens nómadas.

No Feudalismo europeu, com características específicas na relação


senhor-vassalo, o comércio mantém-se, até ao século XII, limitado a
umas poucas cidades como Veneza e outras cidades do Mar do Norte,
enquanto uma economia de subsistência se adapta melhor a uma época
de violência e invasões; a partir do século XII, a Europa abre-se de novo
ao comércio interno e externo, mantendo a base agrícola como
fundamental. A Idade Moderna, com comércio mundial, arrasta o
continente europeu para a racionalização da agricultura, ou agricultura
moderna, mercê de novas técnicas de cultivo, de adubação, de escolha
de terras adequadas a produtos em monocultura e, nomeadamente, a
aclimatização de produtos agrícolas americanos.

Quando se atinge a 4.’ fase da ampliação do espaço alimentar, este


crescimento agricola alia-se às novas técnicas industriais. Pela primeira
vez na história, a economia assenta nas técnicas de transformação, no
sector secundário e não no sector primário; a

evolução para os produtos sintéticos é sintomático desta inversão


económica. 0 mundo irá conhecer um novo sistema de produção de
bens, herdeiro de todas as práticas capitalistas da Idade Moderna, mas
implicando um novo universo económico que cria um novo

etnocentrismo: a tese do desenvolvimento e subdesenvolvimento das


nações. 0 desenvolvimento associa-se ao crescimento do sector
secundário - transformador - dado que mesmo em pleno crescimento
económico o desenvolvimento do primário é muito lento e o sector
terciário mantém-se praticamente na mesma. 0 modelo de
desenvolvimento atribui, portanto, valor essencial ao crescimento das
indústrias e tecnologia, avaliando o produto per capita em quantidade
de aço consumido e produzido. Consideram-se, portanto, países
subdesenvolvidos aqueles que tem o sector secundário pouco
desenvolvido e cuja produção per capita não atinja a produção em aço
ou em dólares, estabelecida para padrão a partir dum índice abaixo dos
países desenvolvidos.

Esta distinção é, já hoje, criticada pelos sociólogos, mas mantém-se com


toda a sua

força na economia e no próprio senso-comum. C.eC-4


73
«0 crescimento quantitativo não corresponde sempre a um progresso
humano, nem mesmo a um progresso económico, no sentido mais vago
e amplo da palavra progresso. Uma economia de guerra, com um
desenvolvimento considerável da produção de armas e munições,
provocaria um crescimento da produção que hesitaríamos em chamar de
progresso. Concebemos dois casos de crescimento sem progresso
económico.- quando os bens produzidos não correspondem a uma
melhor satisfação das necessidades dos indivíduos, e quando o
crescimento económico geral se traduz por uma distribuição mais
desigual do produto nacional. »

Raymond Aron, Dezoito lic(5es sobre a sociedade industrial, Presença

A economia capitalista mantém todas as outras economias em paralelo:


não há um

espaço capitalista em si, mas um conjunto de espacos mais ou menos


sobrepostos de outras práticas e trocas económicas, rede complexa de
aquisição e produção de bens puramente abstracta que cria desejos
secundários no homem programando-os para uma posterior série
produtiva.

0 sistema capitalista, eminentemente racional nos seus propósitos


económicos, reduz-se a uma rede simbólica onde os produtos perderam,
há muito, o seu valor real.

2.4.3. A ORGANIZAÇÃO E A ESTRUTURA DA SOCIEDADE

«Se juntarmos frangos de diferentes descendências, pode-se observar


que começam imediatamente a lutar uns contra os outros. Passados
alguns dias as lutas diminuem de frequenci.a e por fim o grupo vive
pacificamente. Se observarmos mais atentamente verificamos que
durante as lutas se estabelece uma hierarquia. Os frangos lutam
sucessivamente uns com os outros e graduam-se hierarquicamente
entre si segundo um critério de vitória ou derrota. Um frango «a» que
vença os frangos «b», «c» e «d» é de futuro superior a estes. Passa a ter
direitos prioritários sobre a comida, sobre o lugar preferido de dormida e
pode p icar um frango hierarquicamente inferior se este lhe disputar a
sua precedência sobre o lugar da comida. Se por sua vez o frango «b»
vence os frangos «c» e «d», torna-se-lhes imediatamente superior,
formando-se assim hierarquias lineares. Apesar de tudo há ainda
relações mais complexas. Assim, o frango «d», com uma posição inferior
a «a», «b» e «c», pode casualmente conseguir uma vitória decisiva sobre
«a». Daqui resulta que « d» permaneça à mesma subordinação a «b» e «c»,
mas em posição superior a «a».

Uma hierarquia deste tipo evita as disputas agressivas permanentes; é


um meio de controlo da agressividade. Nos vertebrados superiores, os
membros mais altos da hierarquia têm a seu cargo tarefas específicas ao
serviço do grupo. ( ...)

A diversificação das tarefas dos membros de hierarquia superior exige


uma série de características, entre as quais se destacam, nos animais
superiores, as qualidades sociais e a experiência juntamente, com a
força física e a agressividade. A posição hiérarquica de um babuíno ou
de um macaco não é de modo algum resultado de uma agressividade
desenfreada. Não é o animal especialmente agressivo que sobe ao posto
máximo hierárquico, mas sim o que sobretudo é pacífico e sabe ganhar
as simpatias dos outros. ( ..)

São as qualidades sociais que decidem sobre a posição hierárquica e


não apenas a agressividade que pretende conquistar uma posição. A
posição hierárquica depende da aceitação dos outros membros do grupo
e nunca é concedida a um animal que seja exclusivamente agressivo.
Tudo isto se aplica apenas a primatas que vivem em condições naturais.

Nas condições limitadas da vida do jardim zoológico, são os tiranos que


conseguem posições hierárquicas elevadas.

0 facto de até hoje ter sido impossível levar à prática o modelo de uma
sociedade sem hierarquias - a abolição radical de hierarquias
estabelecidas também não nos aproximaria em nada deste ideal, pois
novos sistemas hierárquicos se desenvolvem rapidamente
- mostra que provavelmente deparamos aqui com uma disposição inata,
que transpo@tamos sob a forma de herança primata. Nos grupos
individualizados, são as qualidades

74
humanas, tais como espírito de sacrifício, amor ao próximo, sabedoria,
que decidem a

Posição hierárquica definitiva, e não exclusivamente a agressividade.


Num rupo indivi-

9 dualizado pequeno, onde todos os seus membros se conhecem


relativamente bem, é muito difícil a alguém simular estas qualidades.

0 mesmo não se passa nas comunidades anónimas.

................................................................. (... ) a segunda disposição que


é condição básica para a formação de uma ordem hi .e-

rárquica, ou seja, a disposição para aceitar a subaltemização, baseada


no respeito pelos membros hierarqui .camente superiores (respeito
enquanto combinação dos conceitos de «honra» e «medo» ... »)

Eibl-Eibesfeidt, ob. cil.

A Etologia admite que os sistemas hierárquicos e a tendência à


organização de hierarquias no ser humano releva duma disposição
filogeneticamente adquirida, ou seja, o que hoje surge como disposição
inata, teria surgido ao longo da evolução como um processo para
controlar a agressividade dos membros de um grupo e baseia-se,
precisamente, nas qualidades de apaziguamento daqueles que ganham
posição no grupo, portanto, que detêm qualidades tidas como sociais.

As instituições sociais e formas de agrupamento socioculturais: grupos,


classes, classes de idade, associações, linhagens, clãs, grupos étnicos,
etnias, nações, A família

Admitindo o peso do fundamento biológico nos comportamentos sociais,


parece ser um facto que a sociedade se estruturou em função do
estabelecimento de regras e interditos,- o interdito nuclear foi o interdito
do incesto, fazendo irromper a cultura no interior da natureza.

«Este problema da proibição do incesto apresenta-se à reflexão com toda


a ambiguidade que, num plano diferente, se dá conta do carácter
sagrado da própria proibição. Esta regra, social pela sua natureza de
regra, é ao mesmo tempo pré-social num duplo sentido: primeiro, pela
sua universalidade, em seguida, pelo tipo de relações às quai .s
ela impõe a sua norma. Ora, a vida sexual é, ela própria, duplamente
exterior ao grupo. Ela exprime no mais alto grau a natureza animal do
homem, e atesta, no próprio seio da humanidade, a sobrevivência mais
característica dos instintos,- em segundo lugar os seus fins são, de novo
duplamente, transcendentes: visam a satisfação, quer dos desejos
individuais dos quais se sabe suficientemente que são dos menos
respeitosos dentre as convenções sociais, quer das tendências
específicas que igualmente ultrapassam, posto que noutro sentido, os
fins próprios da sociedade. Notemos, no entanto, que se a
regulamentação das relações entre os sexos constitui uma irrupção da
cultura no seio da natureza, de um outro modo a vida sexual é, no seio
da natureza, um começo da vida social.- porque, entre todos os
instintos, o instinto sexual é o único que, para se definir, tem
necessidade da estimulação doutrem. Devemos retomar este último
ponto; ele não fornece uma passagem, ela própria natural, entre a
natureza e a cultura, o que seria inconcebível, mas explica uma das
razões pelas quais é no terreno da vida sexual, de preferência a qualquer
outro, que a passagem entre as duas ordens pode e deve
necessariamente operar-se. Regra que constrange aquilo que, na
sociedade, lhe é mais estranho,mas ao mesmo tempo regra social que
retém, na natureza, o que é susceptível de ultrapassá-la’ - a proibição do
incesto está, ao mesmo tempo, no limiar da cultura, na cultura, e, em
certo sentido - tentaremos mostrá-lo -, é a própria cultura. »

Lévi-Strauss, Anthropologie Structurale, Pion, 1968

Em todas as épocas e em todas as sociedades surgem regras que


regulamentam a relação entre os sexos, de que o casamento exogâmico
se torna exemplar. Ao criar a regra, o interdito, cria-se uma nova ordem
que nã o existia na natureza e surge a cultura. Cerimónia por excelência
no aspecto biológico, ela torna-se também a primeira cerimônia do
mundo social.

75
«0 casamento (que implica a linguagem) é a primeira cerimônia
verdadeiramente humana. Como muito bem diz Dévereux, ele tem por
função (biológica) «mascarar a hostilidade sob a aliança, afirmar o
entendimento para evi .tar uma luta». Talvez porque seja uma questão
de ter de trabalhar em conjunto. E por um novo abuso de linguagem que
esta cerimônia fundadora, que representa permanentemente a comédia
das origens, é qualificada de rito. Com efeito, os deuses raramente estão
presentes neste acordo tão tipicamente humano, que os cristãos se
obstinam em celebrar ao pé do altar. Significativamente, o casamento é
de todos os ritos ditos de passagem, aquele que menos merece este
nome, pois os deuses evitam intrometer-se,- o que não poderia ser o
caso do nascimento ou da morte. Não é menos verdade que o casamento
é a cerimônia por excelência em sentido biológico.- ela transforma
profundamente a demonstração cerimonial da potência de um macho
dominador em dominação de um sistema simbólico igualitário. »

Luc de Hensch, Poul- une anthropologie fondamentale

Desde o aparecimento da sociedade que o homem se organiza em grupos


funcionais do ponto de vista produtivo e estritamente social, grupos de
aliança e casamento, de parentesco, de linhagem, de idade. 0 núcleo das
associações de parentesco e linhagem é a família primitiva, mãe, filho e
irmão da mãe. Numa linhagem que reúne várias gerações segundo laços
de parentesco efectivo, distingue-se outro tipo de grupos: as asso-

ciações de homens ou de mulheres e os grupos de idade.

11 4~

Associação masculina

Mantendo no seu interior grupos unidos pelos casamentos, com a união


das fratrias complementares - facto inevitável com o alargamento das
alianças - surge o clã, com tonalidade política, já que têm papel político
predominante os anciaes representantes das famílias das duas fratrias;
o clã, unindo tradições a maior parte das vezes antagónicas, aparece
com uma realidade cultural. 0 conjunto de vários clãs, unidos para
eventuais efeitos político-militares, forma uma etnia,- porém, a
característica mais marcante duma etnia é a partilha da mesma língua e
dum panteão religioso com pontos comuns.

A noção de nação no sentido moderno só surge verdadeiramente no


século XIX, herdando a vaga significaçã o que lhe era atribuída na Idade
Média. Uma nação é um grupo alargado, um povo que tem língua e
tradições comuns que o distinguem dos outros povos, tradições essas
habitualmente associadas a uma história comum. 0 distintivo da nacao
e o nome e pode existir sem ter definido o seu território. Conta-se, em
todo o m

undo , um número superior a doze mil etnias e todas elas se


reconhecem num passado histórico a partir dum fundador, real ou
lendário.

«Se definirmos idealmente as sociedades segmentárias como sociedades


sem poder político centralizado, como conjuntos compostos por
subconjuntos que não são complementares nem estão hierarquizados do
ponto de vista económico ou político, mas apenas justapostos, e se nos
lembrarmos que estes subconjuntos - tribos, clãs, linhagens ou aldeias -
se organizam e comunicam entre si por meio do modelo do parentesco,
se definem como grupo de parentes e definem as suas relações
reciprocas como relações

76
de parentesco (por filiação, assimilação, trocas matrimoniais),
constataremos que o que caracteriza especificamente as sociedades de
linhagem é menos a ausência de tracos característicos de outros tipos de
sociedade - centralização, hierarquização, especialização profissional,
desenvolvimento de grupos, castas ou classes, definidos pela sua
posiçao num si .stema de relações de produção, aparecimento de um
aparelho político e administrativo especializado - que a presença
espectacular, exclusiva, do parentesco.

Para além do parentesco, não há nada,- aliás, ele está em todo o lado.
Por outras palavras: o que caracteriza estas sociedades ditas ---de
linhagem- não é tanto a presença do parentesco como instituição,
representação e racionalização, como modelo aos três níveis da
organização, da lógica e da ideologia - porque esta presença se encontra
em todas as sociedades -, como o facto de o parentesco surgir
imediatamente aqui como modelo exclusivo.

.................................................................

Para a Etnologia clássica, se o parentesco se manifesta a todos os níveis


da realidade social, familiar, económica, política, religiosa, ideológica,
como um conjunto de relações efectivas e como esquema de organização
e inspiração; se, além disso, aparece sempre como o nível da realidade
que explica os outros (vive-se em conjunto, trabalha-se em conjunto,
come-se em conjunto, casam-se e não se casam entre si, faz-se parte da
mesma unidade política, compartilham-se as mesmas crenças, etc., ---
porque- se é parente elou aliado), é porque o parentesco é o
denominador comum que permite explicar o funcionamento de cada um
dos níveis e analisar a sua articulação.

Consequentemente, muito longe de ser apenas uma figura


superstrutural, seria de facto a infraestrutura na qual se baseia todo o
edifício sociocultural, e o materialismo deveria depor as armas perante
as sociedades ---primitivas -.)@
Alain Mario, Relações de parentesco e relações de produção nas
sociedades de linhagem, in “A Antropologia

Económica”, dir. Francois Powilon, Edições 70, Perspectivas do Homem

A família

Para o estruturalismo, a família primitiva é, portanto, constituída pelo


triângulo mãe-filho-tio materno e caracteriza-se por ser o núcleo da
estrutura de parentesco, origem da cultura e da sociedade humanas. É
pois, acima de tudo, não um grupo biológico, mas um grupo social.

«A palav,-a família tem hoje dois sentidos.- o primeiro, que é um sentido


fraco, designa o grupo de parentes mais ou menos próximos, que não
coabitam, que podem estar dispersos no espaço, mas que estão unidos
por um sentimento mais ou menos forte de uma comunidade de sangue
ou aliança. ( ... ).

Este sentido da palavra família não é apenas um resíduo de um passado


que tende a desaparecer.- a família extensa ou patriarcal das épocas
antigas. Ele corresponde a uma

realidade do nosso tempo: uma rede de relações e de entreajuda entre


os casais recém-casados e os outros. Confiando nas observações feitas
em powos-chave da América do Norte podemos acreditar que estas redes
eram sobrevivências condenadas. Investigações recentes (em França.-
Agnès Pitou, Louis Roussel; nos Estados Unidos: Tamara Haraven)
mostraram que, pelo contrário, elas correspondem a necessidades da
sociedade contemporânea, em particular ao enfraquecimento da
sociabilidade, da vizinhança...

0 segundo sentido da palavra família é, no entanto, mais forte, mais


frequente e mais ingénuo. É o primeiro que nos vem espontaneamente à
cabeça. Designa a unidade muito fechada, formada pelo pai, a mãe (o
casal) e os filhos. Subentende uma relação senti mental intensa entre
estes elementos.

Tomada no segundo sentido, a palavra família toma-se invasora, e tende


a substituir na linguagem comum as outras palavras vizinhas, por vezes
sinónimas, o casal, a casa, a raça, linhagem, etc. É desta família que
correntemente se diz, sem temer qualquer equí voco, que está
ameaçada, em crise, em mutação, etc.»

Philippe Ariós, La famille, “Philosopher”, Fayard, Paris, 1980

77
0 funcionalismo salienta as funções da família como a reprodução e a
produção económica. Dum modo geral, é unidade de reprodução e
produção, mas este último caso não é permanente, tal como se verifica
nas sociedade primitivas.

Nas sociedades patrilineares o núcleo familiar mais restrito é a família


conjugal, pai, mãe e filhos- a família alargada ou extensa corresponde,
então, a uma unidade de produção e inclui um ramo de avôs e ainda os
filhos e netos de todos os casais.

I@@5 -homem
0 -mu!her

-casamento -germanidade

ci) Família primitiva; b) famíflia conjugal; c) família extensa

Na sociedade pós-industrial a família deixa de ser uma unidade de


produção e torna-se, fundamentalmente, uma unidade de consumo e de
reprodução biológica.

A regra actualmente mais difundida no casamento é a do casamento


monogâmico - 2 cônjuges, um homem e uma mulher. Algumas religiões
e estados permitem, porém, o

casamento poligâmico, que apresenta duas modalidades, sendo a


primeira a mais comum: o casamento po11@Inico (um homem e várias
mulheres). Ao casamento de uma mulher com vários homens chama-se
poliândrico.

ci) Tipo de casamento poligínico; b) Tipo de casamento poliândrico


Parentesco. Filiação e alianças matrimoniais, Sistemas de parentesco

Mais ainda do que a família, o parentesco é uma trama social que nunca
corresponde a um comportamento biológico: a explicação das múltiplas
proibições que estão na base de todo o sistema de parentesco é
marcadamente social. 0 ponto de partida para a organização do
parentesco é o interdito do incesto: ao renunciar aos direitos sexuais
sobre a mae, irmas ou filhas, os homens de certa comunidade
conferem~se direitos sobre as

mulheres de outras comunidades; é a troca de mulheres que passa a


instaurar a troca social e económica entre grupos exogâmicos.

As primeiras formas de parentesco são matrilineares, organizam-se de


acordo com a

família primitiva, privilegiando a família da mãe, e instaurando os


direitos dos tios maternos. A forma patrilinear de parentesco - linha do
pai - é consequência da adequação a

78
formas mais complexas das relações sociais e da economia, com a
criação de gado e a

agricultura; tal não obsta a que nas duas formas sejam sempre os
homens a exercer o controlo de acesso às mulheres. Neste sistema a
autoridade é exercida pelo pai e pelo marido. Há ainda sistemas de
parentesco bilineares, repartindo-se a autoridade e certos direitos
específicos, em função dos bens distribuídos, a representantes dos dois
elementos do parentesco.

A filiação aparece então como uma convenção social e os filhos não são
necessariamente consanguíneos - a própria consanguinidade depende
dos critérios sociais, pode ser atribuída a todos os parentes ou
privilegiar alguns casos.

Nas sociedade arcaicas, as relações de parentesco funcionam como


relações de produção, como relações políticas, e determinam ainda uma
configuração de tipo religioso, baseado nas genealogias.

«0 parentesco é uma relação social; nunca coincide completamente com


a consanguinidade, quer dizer, com o parentesco biológico. Se o
parentesco fosse considerado no seu sentido biológico, cada indivíduo
teria, efectivamente, um número muito elevado de parentes; remontando
ao passado, o número de parentes duplicaria em cada geração (2 pais, 4
avós, 8 bisavós, etc.) e todos aqueles que descendessem de um ramo ou
doutro de qualquer destes múltiplos pares de avós seriam, portanto,
parentes em graus diversos. No fundo, e desde que se rebuscasse
suficientemente longe, todos os membros duma dada sociedade
(sobretudo quando pequenas) seriam, pois, parentes. Assim diluído,
indiferenciado e generalizado, o parentesco não poderia ser uma base de
classificação dos indivíduos no seio de grupos de parentesco diferentes e
até opostos e, consequentemente, não poderia ser um princípio de
organização social. (... ) Lévi-Strauss, especialmente, demonstrou que @
parentesco constitui um sistema organizado em redor de uma ---
estrutura mínima- ou -átomo de parentesco-, de que as
alianças matrimoniais são, do mesmo modo que a filiação, um dado
imediato. Com efeito, todas as sociedades conhecem a proibição do
incesto. Esta proibição não é mai .s do que o inverso negativo de
uma exigência positiva, de uma prescrI .cão uni.versal.- é preciso
procurar mulheres fora do grupo dos parentes.

A obrigação de procurar o cônjuge fora do grupo de filiação (exogamia)


toma, portanto, indispensável o estabelecimento de relações de
parentesco através de alianças matrimoniais com outros grupos de
diferente filiaçã o. Como frisa CI. Lévi-Strauss ( ... ) a

proibição do incesto ---sipnifica que, na sociedade humana, um homem


não pode obter uma mulher senão doutro homem que lhe cede uma
filha ou uma irmã---. 0 parentesco por alianças matrimoniais é,
portanto, um elemento exterior que se excerta no parentesco
propriamente dito. É parte integrante do que se chama, geralmente,
sistema de parentesco ou, se se quiser recorrer à perspectiva estrutural
delineada por CI. Lévi-Strauss, ---sistema de parentesco-alianças”,
entendendo-se que, sempre que se fala de parentesco- em geral, se
incluem quer as relações de filiação (relativas a um ascendente comum)
quer as relações de alianças matrimoniais (geradas pela necessidade de
casamento fora do grupo de filiação). Por outras palavras, um grupo de
filiação não pode existir e perpetuar-se a menos que entre em alianças
matrimoniais com outros grupos de filíacão que lhe forneçam as
reprodutoras (as esposas). Neste sentido, o parentesco, na acepção
estrita do termo (laços de filiação), é função do parentesco por alianças
matri-

monlais. »

Marc Augé, Les domaines de Ia parenté, Maspero, Paris, 1975

0 parentesco não é apenas uma organização social, é também um código


ideológico, chave para a interpretação de todas as sociedades, pois
explica o funcionamento dos grupos sociais, os valores aceites e os
comportamentos, mesmo que pouco explícitos.

0 parentesco só é transmitido por filiação unilinear (ou unilateral), ou


seja, por um dos pais, com exclusão do outro: se é o pai que transmite o
parentesco, a filiação é patrilinear (ou agnática),- se é a mãe, a filiação é
matrilinear ou uterina, e os filhos, no primeiro caso, pertencem ao
parentesco do pai e, no segundo caso, ao parentesco da mãe. Há
também o tipo de filiação indiferenciada, a filiação cognática, em que o
parentesco tanto se transmite pelo pai como pela mãe, e a dupla filiação
unilinear em que as filiações unilaterais se justapõem, regendo cada um
dos parentes determinados direitos.

79
As estruturas de parentesco só perdem a sua posição dominante na vida
social quando surgem as estruturas de classe.

«Este estudo insere-se numa investigação levada a cabo sobre o sistema


de parentesco existente em Chãos, uma aldeia na região da Beira Baixa,
podendo, no entanto, os resultados apresentados serem considerados
representativos para toda a região. Ao longo deste trabalho proceder-se-
á a uma análise do mecanismo social que, no quadro das relações de
parentesco, determina definitivamente a simetria ou a assimetria de
relacionamento entre duas pessoas, através do tratamento por ---você-
oule do tratamento por tu _.

No contexto das relações ínterindívíduaís exteriores aos laços de


parentesco, estes dois tipos de tratamento correspondem a dois tipos de
comportamento determinantes no si .stema português de
relacionamento: de deferência, ou reserva, e de familiaridade. Tanto um
como outro funcionam como formas de relação e de significação
integradas em todos os níveis das relações diádicas. Assim que a criânca
começa a aprendera falar, estabelece de imediato a distinção entre o
tratamento por ---você- e o tratamento por
11 tu”. A partir daí, o emprego de uma ou de outra destas formas de
tratamento decorrerá sem que se verifique qualquer tipo de hesitação, se
bem que, em determinadas situações concretas, estas regras possam ser
transgredidas intencionalmente.

Na Beira Baixa, a forma vocálica de tratamento por ---você - é feita


através da utilização do termo ---vossemecê---. Trata-se de uma
contracção de ---Vossa Mercê-, usada na ter~ ceira pessoa. 0 tratamento
por ---tu-, como o nome indica, é feito através do termo ---tu-,
0 termo ---você-, que é uma sequnda'con tracção de ---vossemecê-,
utilizado como equivalente deste nos meios urbanos, representa, do
ponto de vista regional, uma forma de tratamento descortês e
depreciativo, que está inclusivamente mais próxima do tratamento por
---tu---. É através da utilização do tratamento por ---você- que se opera
o desvio entre o tratamento por ---você - e o tratamento por ---tu - em
situações de conflitos violentos, e não através do emprego do termo ---
tu---. Temos assim que, face à especificidade deste tratamento e
considerando não se tratar de uma forma operatória propriamente dita,
não lhe será feita qualquer referê ncia na enumeração dos diversos
casos de desvio das regras de tratamento mencionados, no que diz
respei .to ao si.stema de relacionamento referente às relações de
parentesco.

Nas situações de desvio das regras de tratamento, o desvio em relação


ao contexto glohal do tratamento por ---você- não se verifica pelas
mesmas razoes que o desvio em relação ao tratamento por ---tu -. Com
efeito, tratar por ---você - alguém que poderia normalmente ser tratado
por ---tu ---pode significar o desejo de tomar mais evidente uma certa
distância social, no sentido de valorizar o interlocutor. Podemos
assina,`ar, a título exemplificativo, que o desvio relativamente ao
tratamento por ---você- (uti1i@Zado em vez do tratamento por ---tu-)
remete, na maiorparte dos casos, para estratégias que têm mais a ver

com as características sociais do próprio interlocutor (estatuto, prestígio


social, etc.) do que com as características individuais de ordem mais
marcadamente psicológica. Enquanto que tratar por ---tu- uma pessoa
em relação à qual se deveria manifestar uma atitude de respeito -
expresso pela utilização do tratamento por ---você- - exprime a vontade
de marcar um distanciamento social de carácter negativo em relação à
pessoa em questão. 0 emprego do ---tu- em vez do ---você- é feito de
forma subtil e tende a e videnciar a subordinação do interlocutor, sem
que isso implique necessariamente uma situação de conflito. Por outro
lado, convém sublinhar que, contrariamente ao emprego do tratamento
por 11 você- no lugar do tratamento por ---tu- - que, conforme já
vimos, surge frequentemente como consequência da posição social do
interlocutor - o

emprego do ---tu ---, em vez de ---você ---, no caso já assinalado, é na


maior parte das vezes mais individualizado, estando associado às
características pessoais dos interlocutores e à sua história
interindividual.

Na Beira Baixa, a idade não constitui só por si um factor determinante


capaz de conduzir sistematicamente ao tratamento por ---você- ou por
---tu---. Esta situação tem a ver

com o pri.ncípio global, segundo o qual se deve exprimir um sentimento


de deferência em relação às pessoas mais velhas: ---não se falta ao
respeito a quem é mais velho ---, e ainda como o facto de se considerar
normal a adopção de uma relação de familiaridade face às pessoas mais
jovens ou que se encontram na mesma faixa etária.- ---tratam-se por
“tu,,

80
quando se conhecem de garotos- ou ---não se tem o mesmo respeito com
as pessoas mais novas como se tem com as pessoas mais velhas---. No
entanto, este facto só em

parte se verifica. Porque, quer no contexto global social ou no quadro


mais restrito das relações de parentesco, podemos constatar que se, por
um lado, a diferença de idades funciona em todos os aspectos como um
factor que contribui para tratar por ---você- as

pessoas mais idosas, nem sempre implica necessariamente o tratamento


por ---tu- em

relação aos mais novos.

No contexto social geral, exterior às relações de parentesco, a atitude de


respeito ou de reserva, que consiste em utilizar o tratamento por ---
você-, é obrigatória nos seguintes casos: em relação a pessoas estranhas
à aldeia (excepção feita para as camadas mal .s

jovens) ou a todos aqueles com os quais não existe qualquer laço


familiar; e, ainda, de uma forma subjacente, em relação a todas as
pessoas que possuam um estatuto social mais elevado, quer este esteja
devidamente formalizado ou se] .a apenas de ordem moral ou de
prestígio. Relativamente ao tratamento por ---tu-, esta forma está
reservada a todas as pessoas que pertenceram a uma mesma geração e
que cresceram juntas, e às gerações seguintes.

No quadro das relações de parentesco, o tratamento por ---você- é


obrigatório para om ospais (paie mãe) e os avós. Da mesma forma, é
costume tratarpor ---você- todos os restantes parentes consanguíneos
das gerações anteriores à do interlocutor, assim como os seus cônjuges,
o padrasto e a madrasta, o sogro e a sogra. Neste último caso, o

tratamento por ---você- é recíproco. No enquadramento da mesma


geração, tratam-se normalmente por ---tu- os parentes mais chegados,
os primos e o respectivo cônjuge. Mas já se adopta o tratamento por ---
você- em relação aos cônjuges dos parentes mais próxi.mos e aos
pri.mos, aos parentes mai.s chegados do cônjuge e aos próprios
cônjuges, assim como ao pai e à mãe do genro ou da nora. Em todos
estes exemplos, as fórmulas referentes ao tratamento por ---você- e por
---tu- são recíprocas. No que diz respeito às gerações seguintes, é usual
tratar por ---tu- todos os descendentes em linha directa, o enteado e a
enteada, embora os respectivos cônjuges sejam normalmente tratados
por
11 você”. Também se dá o tratamento por ---tu- aos sobrinhos e às
sobrinhas consanguíneos e por afinidade, assim como aos respectivos
filhos, utilizando-se o tratamento por
11 você- em relação aos seus cônjuges. Ao longo dos exemplos
apresentados, as formas de tratamento não são recíprocas, com
excepção para o caso dos cônjuges de sangue e

por afinidade. Todos os restantes familiares mai.s próxi.mos do cônjuge


e os respectivos cônjuges se tratam reciprocamente por ---você---. E isto
independentemente de quaisquer critérios baseados na idade ou na
geração.

De modo geral, podemos afirmar que se tratam por ---tu- todas as


pessoas que cresceram juntas e fazem parte de um mesmo grupo.

No seio da mesma geração, as formas de tratamento são geralmente


recíprocas, excepto quando se verifica uma grande diferença de idades
que dá origem a um distanciamento que, por sua vez, se traduz no uso
do ---você---. Este caso pode dar-se inclusivamente com parentes muito
chegados, como, por exemplo, com os primos direitos, fazendo com que
os mais novos tratem os mais velhos por ---você- e que os mais velhos
tratem os mais novos por ---tu---. Mas também se pode dar o caso de se
estabelecerem relações mais reservadas entre adultos aparentados de
uma mesma geração - querpertençam ao mesmo grupo etário ou tenham
idades diferentes - o que se pode ficar a dever a razões de vária ordem:
mudança de.estatuto social, falta de contactos, etc. Daí resulta uma
mudança nos comportamentos adoptados, que conduz geralmente ao
uso

recíproco do tratamento por ---você---. Estas modificações verificadas na


forma de tratamento, que podem ocorrer ao longo da existência dos
indivíduos parecem obedecer a

factores relacionados com um forte empenho em melhorar as relações


interindividuais.

Podemos assim constatar que é costume tratar por ---você- todos os


parentes (excepção feita para o cônjuge e para os filhos dos parentes
mais chegados do cônjuge), quer sel.am parentes de sangue ou por
afinidade - e, neste último caso, independentemente da diferença de
geração ou de idades. Consequentemente, a geração ou a diferença de
idades nem sempre implicam o tratamento por ---tu-, funcionando
sempre, no entanto, no caso do tratamento por ---você---. Dito de outra
maneira, podemos afirmar que a reci-

procidade de tratamento não se verifica em relação aos consangulneos


das gerações se-

guintes ou aos respectivos cônjuges, nem em relação aos consanguineos


das gerações anterlores.

81
Em contrapartida, verificamos que o tratamento é recíproco: aquando do
tratamento por ---tu- no seio de uma mesma geração consanguínea,
através do tratamento por
11 você- entre o ---ego - e os cônjuges dos respectivos consanguineos
pertencentes a gerações anteriores, por um lado, e aos consanguíneos
do cônjuge e aos respectivos cônjuges, por outro (excepto, conforme já
vimos, no caso dos filhos dos parentes mais próximos do cônjuge a que
o ---ego - dá o tratamento de ---tu-, ao contrário do que acontece com os
respectivos cônjuges). Assim, quando se trata de graus de parentesco
por afinidade, o tratamento por ---você- é recíproco, independentemente
do critério de geração, enquanto o tratamento por ---tu- é recíproco
apenas no espaço de uma mesma geração.

Podemos afirmar, em jeito de conclusão, que o critério da diferença de


idades não é decisivo, em relação à forma de tratamento por ---você- ou
por ---tu-, nos casos dos parentes consanguineos das gerações
seguintes. Num certo número de casos, as pessoas de gerações e de
idades diferentes tratam-se por ---você- umas às outras. É o que sucede
com o cunh ado ou cunhada e com o genro ou a nora. Ao passo que, no
que diz respeito, por um lado, às relações de parentesco consanguíneo
ascendente - incluindo os cônjuges - e, por outro, às relações de
parentesco consanguíneo descendente -

com exclusão dos cônjuges - se verifica a intervenção do factor geração


dando origem a formas de tratamento não recíprocas: tratamento por ---
você-lpor ---tu---.

Mas se o critério de geração parece estar efectivamente na base da


reciprocidade e da não reciprocidade das fórmulas de tratamento
adoptadas entre familiares, este factor de correlação só pode ser
definitivamente determinado quando o momento em que se estabelece o
laço de parentesco entre dois indivíduos corresponde a uma das
seguintes correlações entre gerações: criança Icriança, adultolcriança,
adultoladulto.
Com efeito, é no momento em que é forjado o grau de parentesco que se
determina em definitivo a simetria ou a assimetría de relacionamento
entre duas pessoas, através do uso de ---você- oule do ---tu---. A relação
inicial criancalcriança gera inequivocamente a reciprocidade do
tratamento por ---tu- e a relação inicial adultolcriança dá origem, de
forma decisiva, à não -reciprocidade ---você-l-tu- entre os indivíduos em
questão. 0 que acontece é que o primeiro caso evocado reflecte a
situação dos parentes próximos e dos primos da mesma geração; o
segundo reproduz a relação dos parentes de sangue pertencentes a
gerações anteriores e dos respectivos cônjuges, relativamente aos
parentes de sangue de gerações seguintes e aos filhos dos familiares
mais chegados ao cônjuge. Mas, nos casos em que o grau de parentesco
se estabelece inicialmente entre dois indivíduos já em idade adulta -
quer pertençam ou não à mesma geração ou tenham idades
aproximadas - o tratamento por ---você 11 será, então, sem excepção, a
forma adoptada por ambas as partes.

Entre outros casos, o dos sobrinhos e sobrinhas por afinidade, por um


lado, e o dos respectivos cônjuges, por outro, ilustram claramente o
facto de o tipo de relacionamento depender da relação de idades
referente ao ciclo de vida criançaladulto, que corresponde à fase inici.al
em que se estabeleceu o grau de parentesco entre dois indivíduos. De
facto, mesmo quando os sobrinhos e as sobrinhas (em primeiro grau e
em segundo grau) pertencem à mesma geração dos respectivos cônjuges
e estão igualmente distanciados em relação aos tios ou ti .as, a forma de
tratamento adoptado para com esses parentes da geração seguinte não é
a mesma.- os filhos dos parentes chegados e os filhos dos parentes mai
.s próximos do cônjuge tratam-se por ---tu- de um modo recíproco,
enquanto os respectivos cônjuges se tratam reciprocamente por ---
você---. É de assinalar que, nestes mesmos casos, os laços entre tio - ou
tia - e sobrinho - ou sobrinha -

(em primeiro ou segundo grau) foram estabelecidos numa altura do ciclo


de vida em que entre eles existia uma relação adultolcriança, enquanto
na primeira categoria enunciada a relação de parentes com os côn]
.uges da segunda foi determinada pelo contexto de uma relação
adultoladulto (ver diagrama). Pudemos, aliás, constatar que esta mesma
regra se aplicava aos casos, de resto absolutamente excepcionais, em
que os laços que unem o tio - ou tia - aos sobrinhos e às sobrinhas
respectivos, foram estabelecidos numa fase em que estes últimos eram
já adultos. Nos casos observados, os tios e as tias davam o tratamento
por ---você- aos sobrinhos e sobrinhas respectivos, os quais teriam, no
entanto, sido tratados por ---tu- se fossem mais novos.

Por outro lado, a norma de relação de idade referente ao momento em


que se estabeleceram os laços de parentesco torna-se ainda mais
evidente se recorrermos à seguinte

82
constatação.- se bem que os padastros e as madrastas tratem por ---tu-
os seus enteados sempre que a sua relação teve início bastante cedo,
verifica-se que recorrem ao tratamento por ---você- quando a definição
das suas relações de parentesco ocorre numa idade já adulta.»

Quadro dos comportamentos relativos ao tratamento por «você» e por


«tu»

Grau de parentesco

Colateralidade

Níveis gerais

Você

Tu

NR

Conclusão

Parentes em

Linha de

1.’ grau de

descendência

consanguíneos
directa

Tratamento

1.

-1

por ---você-

2.-

-1

recíproco

1o

i+i

Consanguíneos
Linha de
2.4.4. 0 CONTROLO SOCIAL

A organização política e formas de poder político

«Os animais podem ser sociáveis e agressivos. À primeira vista, este


facto parece difícil de harmonizar, pois se o congénere para além dos
impulsos de aproximação pode despertar ao mesmo tempo outros de
rejeição, isto parece provocar um conflito irresolúvel. Na realidade, todos
os ani .mai.s que vi.vem em agrupamentos fechados têm de se con-

frontar com esta problemática, e seria necessária uma série de


invenções para resolver este problema. Entre outras coisas teriam de ser
«inventados» rituais de apaziguamento e de vinculação. Observando
os animais sociáveis verificamos que a maioria dos seus n .tuai.s servem
ao apaziguamento do mesmo modo que entre nós o sorriso. Eventuais
situações de tensão são despoletadas por meio de gestos amistosos. (
... ) Nós, seres

humanos, temos ainda o hábito de suavizar o impacto de notícias


desagradáveis com

desculpas ou gestos amistosos. 0 apaziguamento da agressivídade é


uma tarefa central dos rituais sociais. (...)

Na verdade há um forte impulso para a sociabilidade, que nos é inato.


Todos estes mecanismos de vinculação ao grupo são filogeneticamente
muito antigos e tudo parece confirmar que se desenvolveram mão em
mão com os cuidados para com a prole. Com esta «invenção» as aves e
os mamíferos adquiriram, independentemente uns dos outros, a
capacidade de prestar apoio mútuo e, assim, de formarem
agrupamentos altruístas, que disputam em conjunto a luta pela
sobrevivência.

0 apoio mútuo adquire deste modo um papel cada vez mais significativo
na evolução dos organi .smos superiores. Dos agrupamentos familiares
nasceram as grandes famílias, as hostes, e por fim os agrupamentos
anónimos fechados dos mamíferos e dos seres humanos. Os meios de
vinculação permaneceram, no fundo, sempre os mesmos e derivam
quanto à sua origem essencialmente do reportório dos tipos de
comportamento que vi.nculam mãe-filho. A relação mãe-filho foi
filogeneticamente, e é no desenvolvimento individual, o centro
cristalizador de toda a vida social. (... ) Através da relação pessoal mãe-
filho desenvolvem os seres humanos a confiança original sobre a qual se
desdobra a nossa atitude sociável fundamental e, assim, de um modo
geral, a capacidade para o «engagement» social.

Resumindo, podemos verificar que há acima de tudo normas inatas para


o nosso com~

portamento ético. Em toda a parte é considerado assassinato, por


exemplo, quando se

mata uma pessoa com a qual se está relacionado. Aquilo que vincula as
pessoas é que van.a de cultura para cultura.»

lrenaus Eibl-Eibesfeidt, ob. cit.

As normas que orientam a sociedade, controlando o comportamento


individual e colectivo - tal como os valores primeiros constituídos a
partir da dualidade agressividade /sociabilidade - têm uma componente
biológica que evolui a partir do comportamento social dos mamíferos
superiores, mas surgem fundamentalmente como normas culturais,
variando de cultura para cultura, de acordo com as condições históricas.

Na base, mantém-se a necessidade de controlar a agressividade dos


elementos do grupo, que possam, eventualmente, pôr em risco a sua
manutenção. No entanto, a própria sobrevivência da comunidade obriga
a que se canalize a agressividade dos seus membros para um objectivo
comum e, na realidade, o estado quase permanente da comunidade
primitiva é a guerra. Internamente permite-se qua a agressividade resida
em

elementos escolhidos como o chefe, os guerreiros e, dum modo geral,


nas instituições especializadas.

0 controlo social é o conjunto de meios ou processos pelos quais uma


determinada comunidade impõe aos seus membros um certo número de
regras de conduta de acordo com os princípios e valores que esse grupo
considera socialmente aceitáveis.

As instituições que se responsabilizam pela produção e circulação de


normas de controlo social são a Moral (normas de vida em comum,
segundo a prática do autodenominado Bem), o Direito, a Justiça e o
Estado.

84
Tendo como espírito orientador a Moral, o Direito define as normas que
estabelecem o

enquadramento social de cada um, estabelecendo-lhes direitos e


deveres. Moral, Justiça, Direito e, posteriormente, o Estado derivam
todos eles da dívida de sentido que a

comunidade sente em relação com o sobrenatural, pois todas as


comunidades se sentiram sempre incapazes de admitir a criação das
suas normas no interior do grupo, preferindo admitir a intervenção
sobrenatural dum demiurgo lendário, dum deus ou espírito, para com o
qual a sociedade se sente em dívida.

0 Estado

«A ideia que gostaríamos de desenvolver aqui, é, com efeito, a de que a


chave do problema do Estado se deve procurar do lado das raizes
profundas do facto religioso. Compreender por que razão os homens se
afirmaram universalmente devedores, porque é que as sociedades
pensaram obstinadamente que as suas razões de ser dependiam de
outra coisa que não deles próprios, é compreender porque foi possível o
Estado num dado momento do devir humano-social.»

Marcel Gauchet, A divida do sentido e as raízes do Estado, in «Guerra,


Religião e Poder» Ed. 70

Nas sociedades arcaicas de tipo totémico, os homens tinham plena


consciência do perigo da centralização do poder nas mãos de um chefe.
Para o evitar criaram práticas que, se por um lado instituíam o poder
num chefe, por outro o anulavam constantemente. A comunidade
primitiva tem já definido o seu território, fixo ou móvel, isto é, possui
uma unidade política e o uso exclusivo desse espaço - o que em
contrapartida determina o espaço político dos seus vizinhos.

Nesse espaço reservado, a comunidade é independente e senhora de si


própria, é indivisa, pois todos os indivíduos sabem fazer tudo, não há
hierarquia de posse, quer material quer de saber,- poder-se-ia dizer que
na sociedade totémica todos os elementos são iguais pois todos
participam do poder e características do seu totem: são irmãos, são uma
fratria. A comunidade primitiva é simultaneamente totalidade e unidade
e opõe-se a que algum dos seus membros a represente e a controle,
assumindo-se como unidade, representante do todo. Por isso, a filosofia
dos primitivos atribui ao chefe quatro funções, das quais apenas uma
delas lhe proporciona, eventualmente, um certo poder:

1. - 0 chefe é o fazedor da paz, árbitro que concilia e reconcilia os


elementos do grupo usando da sua capacidade de oratória - motivo pelo
qual foi elegido como chefe.

2. - 0 chefe é generoso, tem como obrigação distribuir todos os bens que


produz ou recebe- sistematicamente submetido a pilhagem pelos
membros do grupo é o que menos bens possui.

3. - 0 chefe tem o dom da palavra. Esta função, que surge teoricamente


como fundamental, resulta completamente inútil na prática pois, se o
chefe tem necessariamente de perorar sobre todos os acontecimentos, o
grupo não tem obrigação nem interesse em ouvi-]o - o que pratica
ostensivamente. Assim é-lhe negada a possível coercividade do discurso.
De resto, não tendo qualquer outro poder a servir o poder do discurso,
este não se materializa.

4. - 0 chefe tem o direito a quatro mulheres, épolígamo; tendo mais


mulheres que qualquer outro elemento do grupo, é o dono das
mulheres. Esta única concessão que a comunidade lhe oferece, tem
como contrapartida o usufruto do trabalho suplementar efectuado pelas
mulheres do chefe - o que significa para a comunidade um acréscimo
colectivo de bens, pois os bens do chefe são redistribuídos pela
sociedade. 0 chefe, em

tempos de crise alimentar, torna-se o único responsável pelo grupo que


praticamente deixa de trabalhar esperando ser mantido pelo trabalho do
chefe e das suas mulheres.

Assim, na sociedade primitiva as mulheres são o preço que a


comunidade paga por um exercício, de resto não-coercivo, do poder; mas
mesmo este facto surge como um inves-

timento de que o grupo tira dividendos.

«As sociedades primitivas? 0 que são? São sociedades sem Estado.


Forçosamente falar de sociedades sem Estado é ao mesmo tempo
enunciar as sociedades com

Estado... A ausência de Estado nas sociedades primitivas não é uma


falta, não acontece por elas estarem na infância da humanidade e
portanto, incompletas, ou por não serem

85
suficientemente grandes, adultas, maiores, é pura e simplesmente
porque elas recusam o Estado em sentido amplo, Estado definido na sua
figura minimal que é a relação de poder. Por isso, falar das sociedades
sem Estado ou das sociedades contra o Estado, é falar das sociedades
sem Estado, forçosamente; a passagem propriamente não existe, ou
então é à partida possível; e a questão que se entronca nesta é: donde
sai o Estado, qual é a origem do Estado? 0 primeiro acto do homem
de poder é exigir um tributo, um tributo daqueles sobre quem exerce o
poder. 1

Dir-me-eis então.- «Porque obedecem eles ? Porque pagam o tributo ?» E


esta é a questão da origem do Estado, precisamente. Não sei muito bem
mas há na relação de poder algo que não é apenas da ordem da
violência. Isto seria demasiado fácil porque resolveria imediatamente o
problema! Porque é que há Estado? Porque num dado momento, num
ou noutro lado, um tipo ou um grupo de tipos dizem.- «Nós temos o
poder e vocês vão obedecer». Mas aqui podem passar-se duas coisas: ou
os que ouvem dizem «sim, é ver-

dade, vocês têm o poder e nós vamos obedecer-vos», ou então «não, não,
vocês não têm o poder e a prova é que não vamos obedecer» e poderão
tomar os outros por malucos ou matá-los. Ou se obedece ou se não
obedece,- e é preciso que tenha havido este reconhecimento do poder
para o Estado aparecer aqui .e acolá, nas diversas sociedades. De
facto a questão da origem desta relação de poder, da origem do Estado,
desdobra-se no

sentido em que existe uma questão a partir de cima e outra a partir de


baixo.-

A questão de cima é.- o que é que faz com que algures, num dado
momento, um ti;0o diga «sou eu o chefe e vocês vão obedecer»? É a
questão do topo da pirâmide.

- A questão de baixo, da base da pirâmide, é: porque é que a gente


aceita obedecer, se não é um tipo ou grupo de tipos que detêm uma
força e capacidade de violência suficiente para fazer reinar o terror no
mundo. Portanto, é porque há outra coisa; esta aceitação da obediência
remete a outro lado. Não sei muito bem a quê; sou pesquisador, por
tanto pesquiso. »

Pierre Ciastres, Entrevisla, 1974

Determinar os factores que estão na origem do Estado é um dos


problemas fundamentais das ciências do homem. A perspectiva
biologista situa esse problema na disposição filogenética para a
obediência e lealdade.

«A obediência à autoridade foi e é em diversas culturas um valor ético.


Ainda hoje as ordens espirituais exigem uma sujeição cega e a
disposição de Abraão de matar o seu filho paira ainda sobre a nossa
cultura ocidental como um símbolo de terror. Apesar de tudo a
obediência cega à autoridade é recusada cada vez mais. ( ...)

Contudo, até nas culturas em que este ideal é defendido toma-se


possível, em condi-

is, que a disposição da obediência se imponha à compaixão. Milgram


comções especia provou-o através de uma série de experiências
notáveis. Convidou pessoas de diferentes grupos profissionais a
participarem numa experiência fictícia. Foi dito aos convidados que se
pretendia examinar, através de determinadas experiências, a influência
de estímulos punitivos sobre o processo de aprendizagem. A seguir foi-
lhes mostrada uma pessoa que, num quarto vizinho, se encontrava
amarrada numa cadeira e em cujos braços estavam colocados
eléctrodos. A tarefa destas pessoas consistia em transmitir choques
eléctricos punitivos, através de um aparelho que se encontrava num
quarto vizinho, sempre que o indivíduo amarrado cometesse um erro,
tendo-lhe sido dito que a intensidade do choque aumentava de erro para
erro. Para este efeito, o aparelho dispunha de uma escala de trinta
botões, marcados de quinze a quatrocentos e cinquenta volts. Os
últimos botões tinham ainda a marca de «perigoso». Quando um grupo
de pessoas foi interrogado sobre o desfecho desta experiência foram
todas unânimes em dizer que quase nenhuma delas iria ao ponto de
utilizar o último grau da estimulação. Tinham a certeza que se oporiam
a isso. Apenas 0, 1 por cento declarou que executariam obedientemente
a expenencia até ao fim. A realidade divergiu assustadoramente desta
previsão de índole cultural. Apesar do aumento da intensidade dos
choques ser acompanhado por queixu~ mes transmitidos por um
gravador do quarto contíguo («está-me a doer», «não aguento mais», etc.),
62,5 por cento das pessoas obedeceram às indicações do orientador da
experiência. Aquelas que obedeciam entravam claramente num conflito
interno ( ... )acabando por propor ao orientador que terminasse a
experiência. No entanto, quando este retorquiu que deviam prosseguir,
faziam-no, rindo histericamente e acentuando que

86
não se responsabilizavam pelo que pudesse suceder. A disposição
para obedecer diminuía com a ausência da autoridade. ( .. ) As
experiências de Milgram provam que muito provavelmente as
disposições inatas se sobrepõem às impregnações culturaís., A
tendência de obedecer revelado nestas experiências é uma inclinação
perigosa do homem.»

1. Eibi-Bibesfeidt, ob. cit.

De qualquer modo interessa saber o processo utilizado pelos chefes para


assumirem a mediação entre o sobrenatural, que era pertença do grupo
através da vivência totémica, e a comunidade; saber como os chefes se
tornaram mandatários do sobrenatural, que passa a residir neles, quer
como familiares do deus, quer como porta-vozes das suas decisões e
interesses. 0 Estado só pode surgir quando a comunidade deixa de ser
indivisa, isto é, quando a sociedade se divide entre os que executam o
poder e aqueles que o sofrem. 0 Estado surge, então, como órgão
separado do poder político, numa sociedade fragmentada.

A sociedade conservou-se indivisa num território rodeado por outras


comunidades igualmente indivisas e todas de pequenas proporções
demográficas; a sociedade totémica nunca pode crescer excessivamente
pois arrisca perder a totalidade e a unidade e daí a sua recusa a
inovações e ao Estado que ponham em risco o equilíbrio entre os
pequenos grupos indivisos continuamente em guerra. É a guerra - o
«facto da comunidade primitiva ser uma sociedade para a guerra» (P.
Clastres) que faz dela uma sociedade sem estado, pois este é contra a
guerra, que leva sempre a uma constante dispersão.

Mas, a comunidade primitiva contém em si a estrutura que determina o


Estado: a religião. A religião e o estado são processos de ordenação e
inteligibilidade sobre a sociedade, A sociedade não se concebe sem uma
origem exterior - um exterior não-humano, necessariamente superior,
pois nenhum homem admite um outro como capaz dessa criação. A
religião tem como fundamento o sentido da criação da sociedade,- do
mesmo modo o Estado. A exterioridade do fundamento social precede o
Estado e a religião. Tornam-se fundamento da Lei que também se aceita
como exterior. Esse exterior é o sobrenatural, a origem: a origem da lei,
do saber, da unidade totémica; será também a origem do poder
absoluto. A sociedade está pois em dívida para com o sobrenatural que a
criou. A religião surge para gerir essa dívida: o Estado insinuar-se-á
nessa gerência, quando se torna o garante da Lei e do sagrado. Não
podendo apropriar-se do que é inapropriável enquanto exterior,
enquanto saber, o chefe e o Estado tornam-se o saber. 0 Estado defi- ne-
se então como uma instituição de controlo porque é o intérprete, o que
sabe, numa sociedade que extravasou do território e que, crescendo
numericamente, permitiu o seu aparecimento.

No Estado há um território que engloba uma sociedade e uma cultura e


ainda, especificamente, uma ordem jurídica aceite e aplicável aos
habitantes desse território; com o Estado, o Direito define-se como
controlo social de tipo progressivamente lai co, enquanto é nele
que passam a residir certos rituais sacralizantes que lhe permitem
aparecer como o intérprete da dívida de sentido para com o
sobrenatural.

«A vontade, a responsabilidade, o poder, é algo de louco, de perigoso e,


hoje, de irrísório. É o que os deuses enviam à raça dos homens para os
perder. As massas, desde a mais antiga mitologia e a mais antiga
história, deixaram sempre, através de uma ironia secreta que os heróis
se precipitassem como vítimas expíatórias, saboreando o espectá~ culo
da sua morte.»

Jean Braudiliard, La gauche divine, Grasset, 1985

As hierarquias e as categorias sociais

«Logo que as relações sociais ultrapassam as relações de parentesco,


intervêm entre os indivíduos e os grupos numa competição mai .s ou
menos aparente.- cada um visa orientar as decisões da colectividade no
sentido dos seus interesses particulares. 0 poder «político» surge, em
consequência, como um produto da competição e como meio de a
conter.

87
0 poder - por muito difuso que seja - implica uma dissimetria no seio
das relações sociais. Se estas se estabelecessem na base de uma perfeita
reciprocidade, o equilíbrio social seria automático e o poder estaria
condenado a definhar. ( ...)

0 poder reforça-se com a acentuação das desigualdades, que são


condição da sua manifestação, tal como ele é condição da manutenção
delas. Assim o exemplo das sociedades «primitivas» que já foram
qualificadas de igualitárias revela, simultaneamente, a generalidade do
facto e a sua forma mais atenuada. Segundo o sexo, a idade, a situação
genealógica, a especialização e as qualidades pessoais, estabelecem-se
nelas preemi .nênci.as e subo@dinações.»

G. Balandier, Antropologia Política

Outro factor que determina, em paralelo, o fortalecimento do poder do


estado e as hierarquias sociais é a necessidade dos trabalhos colectivos,
nomeadamente na construção e nos trabalhos agrícolas. De qualquer
modo, as hierarquias sociais só se concebem dentro do binário Estado
/hierarquias sociais, aspecto que se reforça com a conquista de
territórios e a instauração de classes ou castas dominantes sobre os
povos vencidos, habitualmente povos agricultores. Todos estes factores
permitem a progressiva dessacralizacão do poder, que deixa de
necessitar do fundamento religioso.

«As sociedades primitivas não concebem a ordem como obra de um


poder único, mas como uma reunião de diversidades. Com frequência as
suas cosmogonias ensinam que ao caos inicial se sucedeu a separação
dos contrários, luz e trevas, terra e água, e apresentam a ordem como a
força que liga esses contrários, mantendo-os a um mesmo tempo
diferentes e complementares. No pensamento mítico parece também que
a ordem teve necessidade de divisões para reinar. A unidade é politónia,
conjugação de vozes múltiplas. A autoridade pertence aos chefes que
exercem o poder, mas também a conselhos, a sociedades ocultas, a
associações conhecidas, a oráculos, a classes de idade, a linhagens
rigorosamente disti .ntas mas encadeadas umas nas outras por regras
tradicionais. (...)

Nas sociedades compostas por linhagens para além das quais não há
chefe comum, e que por essa razão são chamadas acéfalas, segmentadas
ou atomísticas, esse equilíbrio deve-se ao papel dos chefes de linhagem
reunidos em conselho e resolvendo as even- @uais contestações, ao dos
responsáveis pelas cerimônias e ritos da comunidade, as máscaras por
exemplo, ao das classes de idade, etc., que se encadeiam
indefinidamente. As autoridades equilibram-se entre si.

Nas sociedades submetidas a uma chefia, o poder do rei ou do chefe


depara-se com inúmeras autoridades, sem as quais não pode existir
nem exercer. Uma vez designado, o rei não pode todavia exercer o poder
sem ter em conta todas as autoridades que se exercem sobre a
sociedade.- conselhos, autoridades religiosas, oráculos, senhores da
terra, chefes e grupos militares, assembleias populares, sociedades
secretas, associações conhecidas, classes de idade, linhagens, etc., de
que as múltiplas vontades são outros tantos freios ao que doutra forma
se arriscaria a ser o arbitrário real. Nas sociedades primitivas em que
existe um poder central, as autoridades fazem um contrapeso ao poder. (
J É nas sociedades em que a natureza do poder é principalmente
religiosa que a autoridade pode tender a concentrar-se nas mãos do
detentor do poder. 0 rei do Egipto, vigário de Deus, ele próprio Deus,
Agamémnom, os reis cristãos, estão investidos de uma autoridade
demasiado ligada ao eterno para não tender a tornar-se não arbitrária,
porque limitada pela lei religiosa que a funda. (... ) As sociedades
modernas confundem facilmente unidade e uniformidade. 0 seu ideal é
suprimir as diferenças, é a igualdade dos indivíduos em direitos e
deveres. 0 Direito visa estabelecer essa igualdade.

É diferente nas sociedades primitivas, como vimos, pois elas não


concebem a ordem como uma uniformidade mas como uma reunião de
diversidades. Acham-se compostas de tribos, de castas, aldeias,
linhagens, rigorosamente distintas, mas encadeadas por interditos e por
alianças.

Deste ponto de vista, e contrariamente ao que por vezes é ensinado, a


indiferenciação não caracteriza as sociedades primitivas, ela é o ideal
das sociedades modernas.

A aculturação jurídica faz passar as sociedades de um estado


diferenciado, mas coerente, a um estado indiferenciado. ( ... )»

Michei AiIo@, LAcculturation Juridique, Encyclopédie de Ia Piéiade


As categorias sociais existem, pois, em todas as sociedades conforme as
especializações, as idades, o sexo e a função. Porém, as hierarquias
sociais implicam a existência dum poder que as perpetue ou garanta. Na
sociedade primitiva há categorias sociais, mas não hierarquias.

As hierarquias sociais surgem, já nos povos «primitivos» por conquista -


do poder ou do território. Estas hierarquias primitivas apresentam-se
quase sempre como castas e os mitos podem surgir para lhes garantir o
domínio.

Lévi-Strauss estudou a partir de 1941 grupos brasileiros do Mato


Grosso. Um desses grupos, os Caduveo são descendentes de um povo,
os Mbayas, que se organizavam em

castas: no cume da escala social os nobres, divididos em nobres


hereditários e recentemente enobrecidos e, ainda, em ramos mais velhos
e ramos mais novos. Seguiam-se os guerreiros, os escravos e os clientes.
Os nobres faziam ostentação da sua qualidade através de requintadas
pinturas do corpo que representavam brasões, fundamentavam a sua
importância social e o seu parasitismo económico sobre os clientes e os
escravos no mito do povo a que pertenciam. Na realidade, o deus-criador
tinha distrib uído pelos grupos as suas funções sobre a Terra e
esquecera-se deles. Atribuira-lhes, então, a função de comandar e
dominar a humanidade. 0 mito mantinha-se nos seus descendentes
apesar da importância social ter diminuído, mantendo ainda escravos
para se manterem. A necessidade de limitar esta hierarquia obrigava-os
a praticar vulgarmente o aborto e o infanticídio, recolhendo e adoptando
crianças de outros povos que não acediam, naturalmente, à mesma
casta dos pais adoptivos.

Em muitas espécies superiores existem hierarquias; no homem elas


precisarão de um

enquadramento humano para subsistirem ou se desenvolverem, o poder


simbólico, pois a simples força é insuficiente.
Um acto de violência pode criar hierarquias sociais quando as
sociedades totómicas deixam de ser indivisas, surgindo as castas em
função da conquista; porém, é o fundamento simbólico do poder que
permite a sua manutenção; um dos fundamentos das hierarquias
sociais é o saber, porém o saber teórico e não o saber técnico que a
civilização subalterniza. 0 mito ou a ideologia encarrega-se de garantir a
sobrevivência das hierarquias, verdadeiras extensões do Estado no
controlo das populações.

89
A propriedade

«Na base do conforto moral e físico do homem encontra-se a percepção


puramente animal do perímetro de segurança, do refúgio fechado»
(Leroi-Gourhan); quando o homem se apropria do espaço, fá-lo, sempre
que possível, em termos de gratificação individual. A propriedade mal
existe na sociedade totémica onde a distribuição dos bens é a regra; é
colectiva nas sociedades de linhagens, pertencendo a famílias ou
linhagens. É, porém, um sinal do poder quando o controlo sobre a
propriedade física se alarga para os homens que a cultivam. A civilização
traz consigo o regime de clientela que trabalha em condições variáveis a
terra que pertence a outros. A detenção da propriedade surge, assim,
como um controlo social, pois determina o destino da mão-de-obra e
permite a existência de grupos sociais parasitários de outros grupos a
nível de trabalho. Mais do que qualquer outro, o direito de propriedade é
o núcleo de todo o Direito do homem.

Uma aldeia huambo, no Congo. Os huambo são agricultores; cultivam,


temporariamente uma parcela de floresta abatida em conjunto e
transformada em clareira; cada família, de acordo com as regras da
linhagem, obtém uma parcela que cultiva; é sua enquanto permanecem
na clareira. Mas, é à linhagem que compete a alimentação colectiva
quando o rendimento individual falha. 0 dispositivo de controlo social -
os velhos, representantes da linhagem - utilizam o sistema de
propriedade para manterem o controlo social.

PO

Proucl'hon. Utópico francês que criou os fundamentos da contestação à


manutenção da propriedade, de acordo com a sua divulgada frase: «A
propriedade é um roubo.» As grandes contestações populares assentam
sempre na negação do direito à propriedade, habitualmente, sob o
slogan: «A terra a quem a trabalha,»

90
A educação

A educação permite a reprodução social da cultura e dos papéis sociais.


Desde o seu aparecimento que a sociedade tem de criar mecanismos de
transmissão de cultura; nas sociedades primitivas esse papel era
destinado aos mais velhos, homens e mulheres.

Quando se dá a privatização da propriedade e com ela a privatização da


família, a sociedade já organizada pelo Estado cria instituições de
reprodução cultural que já sur-

gem como instituições de reprodução soçial, já.que a cultura passa a ser


distribuída em fatias, distribuindo paralelamente as funções sociais que
irão corresponder a cada um, de acordo com a competência.

Nas sociedades primitivas e ainda nas de linhagens, a educação social


termina com o rito de passagem, a última prova ou provas que o
adolescente terá de enfrentar para provar que merece ser adulto. Essas
provas incluem provas de coragem e provas de conhecimento, são um
verdadeiro exame teórico e prático que encerra todo o saber que pode
circular no grupo. Há saberes especializados que não são transmitidos a
todos, mas apenas ao grupo dos feiticeiros. 0 feiticeiro é a primeira
verdadeira profissão que surge na

sociedade primitiva.

Jovens no rito de passagem, Tanzônia

Esta transmissão da cultura era essencialmente oral e prática, pois não


havia escrita. A transmissão utilizava fundamentalmente mitos que
incluíam todo o saber técnico, social e sobrenatural da comunidade. 0
mito e todo o tipo de saber transmitido utilizava a repetição e,
eventualmente, o ritmo musical para reter o conhecimento; palavra,
canto, e
mesmo a dança, estavam geralmente unidos nas tradições orais.

A invenção da escrita e do cálculo percorrem um caminho de


dominação. Os transmissores do saber, os escribas, os professores,
perderam o estatuto social dos feificeiros da tribo; são simples elementos
de relação entre as hierarquias sociais, quase sempre com uma posição
social ambígua, mas mais próxima das hierarquias inferiores do que das
superiores. Os saberes teóricos mais ligados à religião - e assim as
ciências e as artes -

passam a ser ministrados nos templos, pois deter esses conhecimentos é


entrar no domínio do sagrado.

A escrita e o cálculo são instrumentos de controlo, permitem definir e


fixar os impostos e contribuições- os escribas são habitualmente os
funcionários do poder que levanIam as contribuições. Quanto mais
cresce o número de contribuintes, quanto mais alargado se torna este
sector do terciário, tanto mais vulgarizada e oficializada surge a
educação oficial.

As instituições destinadas à reprodução da sociedade multiplicam-se


com a complexidade social, a educação maternal, ainda predominante
até ao século XIX, desaparece

91
pouco a pouco. A sociedade organiza um sofisticado sistema de
distribuição de cultura que, se bem que fundamental para a sua
sobrevivência, é visto acima de tudo como disciplinador das futuras
secções sociais empenhadas no sistema de produção.. a educação é um
mecanismo especializado na reprodução dos grupos sociais, impedindo
que uns

cresçam mais do que o indispensável para as necessidades do sistema.

Mãe boximane (Caiaari, África), transportando o seu filho consigo, na


sua actividade de recolha de alimentos

«0 que é actualmente a vida em família de uma criânca, com o pai e a


mãe que trabalham ? Creche, escola, estudos, as jukeboxes, o ci
.nema: por todo o lado criancas da sua

idade e adultos que não são os seus pais, que entram em conflito com
eles e entre si, que dizem e fazem outras coisas. Os heróis encontram-se
no cinema ou na televisão, nas bandas desenhadas e não em redor da
mesa familiar. Investimento mais directo do que nunca nas figuras
históricas. As figuras dos pais, professores primários, professores,
padres, também sofrem a erosão dos fluxos capitalistas. ( ... ) o
capitalismo é de facto um

orfanato, um celibato, submetido à regra do equivaler. 0 que o suporta


não é a figura do grande castrador, é a figura da igualdade.- igualdade
no sentido de comutatividade dos homens e das mulheres, dos objectos,
dos lugares, dos órgãos.»

J F, Lyotard, Capitalismo Energúmeno

Aula na cadeia, século XIX

92
A educação cria o «habitus» - «um produto da interiorização dos
princípios de um arbitrário cultural capaz de se perpetuar depois de
cessar a Acção Pedagógica (que é uma imposição, por um poder
arbitrário, de um arbitrário cultural) perpetuando assim nas várias
práticas os princípios do arbitrário interiorizado.» (Bourdieu e Passeron,
«La Reprocluction»). Os métodos podem evoluir através dos tempos, mais
ou menos permissivos, porém a educação tem de cumprir sempre o seu
papel de controlo social, disciplinando os alunos e criando-lhes quadros
de docilidade que se mantêm ao longo da vida, pois foram interiorizados
no momento próprio na Escola. As,estratégias actuais resultam num
efeito de ressonância (o aluno é apenas um eco da palavra do professor)
e numjogo de espelhos, uma normalização geral do conteúdo a partir da
homogeneização da leitura, da palavra e da escuta.

Perpetuadora das hierarquias sociais, a educação surge como


inculcadora de um saber que é o da cultura dominante e do seu valor. 0
próprio exame que nunca é excluído na disciplina social, surge com o
seu duplo papel de controlo cultural e social: «0 exame -

diz Foucault - combina as técnicas da hierarquia que vigia e as da


sanção que normaliza.»

A sexualidade

«As relações, reais e simbólicas, conscientes e inconscientes, entre


homens e mulheres nas sociedades primitivas constituem para o
etnológo um campo de reflexão verdadeiramente apaixonante. Porquê?
Porque a vida social interna da comunidade, repousa, no essencial, não
tanto sobre as relações entre os homens e as mulheres (truismo sem
interesse) mas sobre o modo muito particular por que essas culturas
apreendem e pensam a diferenca dos sexos nos seus mitos e mais
ainda, nos seus ritos. Explicando mais claramente.- nas sociedades
primitivas, por vezes marcadas, sob certos aspectos de masculinidade,
até de culto de virilidade os homens encontram-se, no entanto, em
posição defensiva face às mulheres, visto que reconhecem - mitos, ritos
e vida quotidiana o atestam suficientemente - a superioridade das
mulheres. Determinar a natureza desta superioridade, medir o seu
alcance, discemir os meios utilizados pelos homens para se protegerem
das mulheres, examinar a eficácia desses meios.- tudo isto re@uerenà
um

longo e sério estudo.

Límitar-se~á de momento, a indicar como a relação estrutural que une a


guerra e a sociedade primitiva determina, ao menos em parte, a relação
entre os sexos. Esta soci .edade é, na essência, guerreira. 0 mesmo é
dizer que qualquer homem é aí um guerreiro e

que a divisão sexual das tarefas faz da actividade guerreira uma função
masculina. 0 homem deve estar, pois constantemente disponível para a
guerra; de tempos a tempos fá-la efectivamente. É sabido que, em gerai
a guerra primitiva é pouco mortífera, salvo, é claro, no caso especial das
sociedades guerreiras. Nem por isso é menos verdade que, dada a
eventualidade constantemente presente da guerra, a possibilidade de
risco, dos ferimentos ou da morte, está previamente inscrita no destino
masculino. 0 homem da sociedade primitiva encontra-se, pois, por
definição, marcado pela sua condição.- em maior ou menor grau, ele
existe para a morte. Durante o combate, aquela não ati .nge senão
um número reduzido de indivíduos; mas antes da batalha, é igualmente
ameaçadora para todos. Pela medição da morte, existe, pois, uma
relação íntima, uma vi .zi.-

nhança essencial entre «masculínidade e morte».

Em contrapartida, que se passa com as mulheres? Recordemos a ideia,


tão sumária quanto tradicional, da mulher como «bem» precioso que os
homens passariam o tempo a trocar, a fazer circular. (..)

A propriedade essencial das mulheres, que lhe define integralmente a


natureza, é a de assegurar a reprodução biológica e, além disso, social,
da comunidade.- as mulheres trazem ao mundo os filhos.

Longe de existirem como objecto de consumo ou como sujeito explorado,


elas são, ao

contrário, produtoras daqueles de que a sociedade não pode prescindir


sob pena de desaparacer.- isto é, dos filhos, como futuro imediato da
tribo, como seu destino longínquo. (... ) A feminilidade é a maternidade,
primeiro com função biológica, mas principalmente como domínio
sociológico exercido sobre a produção de filhos.- depende
exclusivamente das mulheres quer haja ou não haja descendência. E é
isso que assegura o

domínio das mulheres sobre a sociedade.

93
Noutros termos desenvolve-se aqui uma proximidade imediata entre
«vida e feminilidade», de acordo com o que a mulher é na essência ser-
para-a -vida. Desde logo se evídencia, na sociedade primitiva a diferenca
entre o homem e a mulher: como guerreiro, o homem é um-ser-para-a-
morte,- como mãe a mulher é um-ser-para-a- vida. ( ...)

No inconsciente colectivo da tribo (a cultura), o inconsciente masculino


aprende e reconhece a diferença dos sexos como superioridade
irreversivel das mulheres sobre os homens. Escravos da morte, os
homens invejam e temem as mulheres, senhoras da vida. Tal é a
primitiva e primordial verdade que uma análise séria de certos mitos e
ritos revelaria. A mitologia tenta reflectir, subvertendo a ordem real, o
destino da sociedade como destino masculino; os rituais, encenação em
que os homens representam a sua vitória, empenham-se em conjurar,
em compensar, a evidente verdade de que esse destino é feminino.
Fraqueza, desamparo, inferioridade dos homens em relação às
mulheres? É o

que revelam, um pouco por toda a parte, os mitos que fantasiam a idade
do ouro perdida ou o paraíso a atingir como um mundo assexuado,
como um mundo sem mulheres.»

Pierre Clastres, Infortúnio do guerreiro Selvagem, in « Guerra, Religião e


Poder», ob. cit.

De diferente, de temida, a mulher acabará por ser dominada,


nomeadamente a partir da imposição do direito patriarcal, de origem
pastoril, onde cabe ao pai e posteriormente ao marido, o direito de seu
proprietário. De facto, o aparecimento de povos criadores de gado, povos
pastores que circulavam em regime de nomadismo com os seus
rebanhos e habitualmente sem mulheres, faz surgir a repetida
observação do valor do gado-procriador (carneiro, touro-de-criação), ou
seja, um único ou poucos exemplares suficientes para um grande
rebanho ou manada. 0 desprestígio da mulher acompanha a prática dos
pastores que habitualmente matam os filhos femininos mantendo
apenas os masculinos, elementos funcionais no grupo.

Ao fixarem-se, sobrepondo-se às grandes civilizações agrícolas pela


conquista, é o direito dos povos pastores que acabará por impor-se
desde o 2.1 milénio a.C. 0 condicionamento da religião de tipo agrário e
da sexualidade será um dos fundamentos do domínio do homem que,
concretamente, se efectiva com o direito patriiinear que se mantém no
Ocidente sempre que predomina o Direito Romano. Um dispositivo de
condicionamento da sexualidade vai-se criando ao longo dos tempos,
com a moral cristã, o Direito romano-germano e as práticas quotidianas.

«Stando eu à minha porta, - a úa raça de sol Bira bir um cabalheiro - ci


cabalho corredor.

(Esta era um pai que casou ia filha e ela não gostava dele.

Mas para fazer buntades...)

Preguntou-me se era casada - casadinha sou senhor, Foi o ladrão do


meu pai - que me casou cú pastor... Tinha as costelas cobradas de
mudar os cancelões. E tinha as pernas mji tortas - de passar os
barrancões, E tinha os beiços mt7i grossos de comer os recostrões ...
E a maior falta que tinha - nú tinha pixa nem culhões ...»

Folclore mirandês, in Trabalhos de Antropologia e Etnologia, vol. XX1,


Porto, 1969
Os patins, sapatos elevados e estreitos que a moda impõe às venezianas
desde a Idade Média, resultam do objecto de lhes dificultar a saída, a só
s, à rua, dada a ausência sistemática dos donos de casa.

94
«0 dispositivo de sexualidade tem como razão de ser não reproduzir-se,
mas proliferar, inovar, anexar, inventar, penetrar os corpos de forma
cada vez mais minuciosa e controlar as populações de maneira cada vez
mais global. Portanto, há que admitir três ou quatro teses contrárias à
que supõe o tema de uma sexualidade reprimida pelas formas modernas
da sociedade.- a sexualidade está ligada a dispositivos recentes de
poder; esteve em expansão crescente desde o século XV11; o dispositivo
que a apoiou desde aí não está ordenado à reprodução; foi ligado desde
a origem a uma intensificação do corpo - à sua valorização como objecto
de saber e como elemento nas relações de poder.

Dizer que o dispositivo de sexualidade se substitui ao dispositivo de


aliança não seria exacto. Podemos imaginar que talvez um dia ele venha
a substituí-lo. Mas, de facto, hoje em dia, embora tenda a encobri-lo,
não o apagou nem o tomou inútil. De resto, historicamente, foi em tomo
e a partir do dispositivo de aliança que o de sexualidade se estabeleceu.
A prática da penitência, e depois do exame de consciência e da direcção
espiritual, foi o seu núcleo formador: ora, ( .. )o que em primeiro lugar
esteve em J.ogo no tribunal da penitência foi o sexo, enquanto suporte
de relaçõ es; a pergunta feita era a do comércio permitido ou proibido
(adultério, relação fora do casamento, relação com uma pessoa proibida
pelo sangue ou pelo estatuto, carácter legítimo ou não do acto de
conjunção); depois, a pouco e pouco, com a nova pastoral - e a sua
aplicação nos seminários, nos colégios e nos conventos - passou~se de
uma problemática da relação para uma problemática da «came», isto é,
do corpo, da sensação, da natureza, do prazer, dos movimentos mais
secretos da concupiscência, das formas subtis da deleitação e do
consentimento. A «sexualidade» estava a nascer, a nascer de uma
técnica de poder que estivera, na origem, centrada na aliança. Depois,
funcionou constantemente relativamente a um sistema de aliança, e
apoiando-se nele. A célula familiar tal como foi valorizada no decurso do
século X VIII, permitiu que nas suas duas dimensões principais - o eixo
marido-mulher e o eixo pais-filho - se desenvolvessem os elementos
principais do dispositivo de sexualidade (o corpo feminino, a precocidade
infantil, a regulação dos nascimentos e, sem dúvida, em medida menor,
a especificação dos perversos). Não se deve entender a família sob a sua
forma contemporânea como uma estrutura social, económica e política
de aliança, que exclui a sexualidade ou pelo menos a refreia, a atenua
tanto quanto possível e dela não retém senão as funções úteis. Ela tem
por papel pelo contrário, fixá-la e constituí-Ia como suporte permanente.
Ela garante a produção de uma sexualidade que não é homogénea com
os privilégios da aliança, permitindo ao mesmo tempo que os sistemas
da aliança sejam atravessados por toda uma nova tácti .ca de poder
que até aí ignoravam. A família é o cambista da sexualidade e da
aliança.- ela transporta a lei e a dimensão do jurídico para o dispositivo
de sexualidade; e tranporta a economia do prazer e a intensidade das
sensações para o regime da aliança.»

Michei Foucault, Histoire de Ia Sexualité, 1, Gallimard, 1976

A mulher-objecto

95
A consciência de repressão à sexualidade começa a sentir-se com as
análises de Freud e a libido(*) reprimida será o objecto de estudo teórico
e prático de toda a psicanálise que lhe segue. Da era vitoríana até aos
anos cinquenta, o sexo mantinha-se como um recalcamento, que se
iniciava na própria palavra. As obras de Wilheim Reich e as teorias pan-
sexualistas iriam abalar um pouco a tradição repressiva da sexualidade
que Foucault analisa, E, porém, a subcultura juvenil que se desenvolve
a partir dos anos cinquenta que se torna responsáve( pela crítica
sistemática ao condicionamento da sexualidade.

Antes da literatura se apossar da desmontagem dos mecanismos de


repressão, os jovens reconhecem nos seus ídolos os heróis, -
desmistificadores da hipocrisia social no tocante à sexualidade.

Depois de Elvis Presley, que introduz a libertação da expressão corporal,


o grupo dos Rolling Stones representa a nova era da sexualidade, onde o
corpo e a voz afirmam o direito à sexualidade libertada e, ainda, o direito
à diferença no sexo,

2.4.5. AS REPRESENTAÇOES COLECTIVAS

Mundividência ou concepção do Mundo

«0 homem não pode escapar do seu próprio engano não lhe resta
outro remédio senão o de adoptar as condições da sua própria vida; já
não vive apenas num puro universo físico mas sim num uni .verso
simbólico. A linguagem, o mito, a arte e a religião constituem partes
deste universo: formam os diversos fios que tecem a rede simbólica, a
textura complexa da experiência humana. Todo o progresso em
pensamento e em experiência afina e reforça esta rede. 0 homem já não
se pode en, rentar com a realidade de um modo imediato, não pode vê-
Ia, digamos assim, face a face. A realidade física parece retroceder na
mesma proporção em que avança a sua actividade simbólica. Em lugar
de lidar com as pró prias coi .sas, num certo sentido, conversa
constantemente consigo
mesmo. »

Ernes@ Cassirer, Ensaio sobre o homem, Guimarães, Lisboa, 1969

0 homem imaginante e simbólico cria e transmite uma concepção do


mundo físico e

social; cada cultura, cada época, forja os seus próprios modelos, os seus
paradigmas, em função da experiência que se lhes depara - pois desde o
homo sapiens que qualquer homem é conceptualmente capaz de
conceber modelos interpretativos que apenas variam de acordo com a
imaginação, os paradigmas herdados pelo grupo e mundo exterior.

96
Os paradigmas de posicionamento em relação ao mundo - as concepções
do mundo do grupo que retratam o real não como ele é, mas como é
concebido - agindo dentro dum mundo humanizado como se este fosse a
realidade vivida, criam as mundividências da comunidade. A
mundividência é a actualização da concepção do mundo, a prática social
que decorre do paradigma interpretativo da natureza física e social.

A história pode reduzir-se a um conjunto de concepções do mundo e a


sociologia a um conjunto de mundividências. As sínteses teóricas das
concepções do mundo são recuperadas no presente, tentando explicar
mundividências passadas.

«Qualquer concepção religiosa do mundo implica a distinção do sagrado


e do profano, opõe ao mundo em que o fiel se entrega livremente às suas
ocupações e exerce uma actividade sem consequências para a sua
salvação, um domínio onde o temor e a esperança o paralisam
altemadamente, onde, como à beira de um precipício, o mínimo desvio
no mínimo gesto pode perdê-lo irremediavelmente. Com toda a certeza,
tal distinção nem sempre basta para definir o fenômeno religioso, mas
pelo menos fornece a pedra-de-toque que permi .te reconhecê-lo com a
maior segurança. De facto, seja qual for a definição que se proponha da
religião, é notável que ela envolva esta oposição do sagrado e do profano,
quando não coincide pura e simplesmente com a mesma oposi
.-

cão. A maior ou menor prazo, através de medições lógicas ou de


verificações directas, todos nós somos levados a admitir que o homem
religioso é antes de mais aquele para quem existem dois meios
complementares.- um onde ele pode agir sem angústia nem tremor, mas
onde a sua acção não compromete senão a sua pessoa superficial, outro
onde um sentimento de dependência íntima retém, contém e dirige cada
um dos seus impulsos e onde ele se vê empenhado sem reserva. Estes
dois mundos, o do sagrado e o do profano, apenas se definem
rigorosamente um pelo outro. Excluem-se e supõe-se. ( ..)
0 sagrado aparece ( .. ) como uma categoria da sensibilidade. Na
verdade, é a categoria sobre a qual assenta a atitude religiosa, aquela
que lhe dá o seu carácter específio, aquela que impõe ao fiel um
sentimento de respeito particular, que presume a sua fé contra o espírito
de exame, a subtrai à discussão, a coloca fora e para além da razão.

-É a ideia-mãe da religião ---, escreve H. Hubert. -Os mitos e os dogmas


analisam-lhe o conteúdo a seu modo, os ritos utilizam-lhe as
propriedades, a moralidade religiosa deriva dela, os sacerdócios
incorporam-na, os santuários, lugares sagrados e monumentos
religiosos fixam-na ao solo e enraízam-na. A religião é a administração
do sagrado.»

Roger Caillois, 0 Homem e o Sagrado, Ed. 70

Mitos e Mitologia

As primeiras interpretações do mundo físico e social apontam sempre


para a sua origem,- as primeiras sínteses interpretativas respondem não
apenas à criação do mundo físico, como do mundo social, da sociedade
que as produz. Essas narrativas que remontam aos tempos do caos,
exprimem uma dívida em relação aos demiurgos criadores,- são
verdadeiras fábulas, pois o homem ainda não existia, mas as
personagens, animais, objectos ou deuses, são humanizadas e
actualizadas em função da compreensão do grupo, surgem como
necessariamente familiares à comunidade. Os mitos que encerram um
modelo interpretativo do mundo a partir duma criação que se desenrola
nopassado, são narrados e usados no presente, projectam e caucionam
o futuro pois recriam a estabilidade do cosmos frente ao caos; dão à
comunidade, com o exercício mágico da sua representação e invocação,
a garantia de recriar no espaço profano da sociedade dos homens, um
espaço sagrado onde os deuses ou as forças da natureza invocadas pelo
rito terão de intervir favoravelmente como o fizeram no acto primordial.

A narrativa mítica explica como a sociedade, a cultura, o homem,


surgiram; como surgiu o mundo e o conhecimento. É uma origem que
tem uma explicação dual, pois o mito unifica crenças e homens,
rompendo com o antagonismo de antigas fratrias que se uniram na
prática e na memória.

«Os mitos implicam, o antropomorfismo; são ---fábulas- nas quais


animais, plantas e coisas têm sentimentos humanos, se comportam
como humanos e exprimem desejos humanos. Interpretam o mundo
como produto de uma criação de dramas e aventuras quase humanas. E
tornam-no familiar. Explicar o raio pela cólera de um espírito ou de
deus, é uma forma de se familiarizar com o raio, de o compreender, de o
domesticar já que se pode implorar, convencer e comover o deus. Sabe-
se que aquilo que é a cólera do deus é a nossa própria. Portanto, por
intermédio do mito há um movimento de apropriação do mundo, de
redução do universo a dados inteligíveis pelo homem. ( .. »)

Edgar Morin, 0 Homem e a Morte

C. e C-5 97
A Criação do Mundo

«Antes de todas as coisas era o Caos, depois veio a Terra, sólido e eterno
assento de quanto existe. E Eros, o mais belo dos deuses imortais, o que
anula os membros,
* que, no peito dos deuses e dos homens, incentiva
* espírito e a sabedoria. Do Caos nasceram Érebro e a escura Noite e, da
Noite, se geraram o Éter e a Luz do Dia. Da Terra se gerou, no princípio,
um ser a ela semelhante Capaz de a cobrir por inteiro, o Céu estelar,
oferecendo aos deuses um assento de nunca antes imaginada felicidade.

Dela nasceram ainda as altas montanhas, paradisíacos esconderijos das


deusas, das Ninfas, que moram nos vales das serras. Dela nasceu ainda
o infecundo Oceano, de vagas furiosas - o Rio Imenso, sem a intervençã
o de Eros.»

Hesíodo, Teogonia

Criação do Homem

«0 senhor (Enffi) decidiu produzir o que era útil,


0 senhor cujas decisões são imutáveis, Enfil que faz germinar da terra as
sementes da região, Imaginou separar o Céu da Terra, Imaginou separar
a Terra do Céu... Quando o Céu ficou separado da Terra, Quando a
Terra ficou separada do Céu, Quando o nome do Homem foi
determinado Quando An levou o Céu Quando EnN levou a Terra...

Quando o Céu se afastou da Terra, Quando a Terra foi separada do Céu,


Quando a humanidade foi semeada ... »

Poemas da Criação, Suméria

(No poema grego, de Hesíodo, não há repetição, pois a tradição escrita


era já muito longa; o mesmo não se dá no poema sumério, herdando as
características de repetição típicas duma tradição oral.)
Em vésperas da criação, Visnu, o demiurgo da mitologia do hinduísmo,
flutua com a sua companheira Laksmi, sentados sobre a cobra de mil
cabeças, no meio do mar de leite, Do umbigo de Visnu sai uma flor de
Iótus que leva o deus Brama até ao céu - o criador, que recita, com as 4
bocas, os quatro livros sagrados, os Vedas. Bramam é o Absoluto, o
único; o seu nome é o mesmo do mar de leite e também significa a
Verdade. Tudo o resto é ilusão. Daí as criações do mundo serem
múltiplas, processando-se por cicios, do mesmo modo que o seu
desaparecimento. Só quando o Absoluto se manifesta existe o mundo;
pois ele manifesta-se tornando-se múltiplo e todas as criaturas passam
a existir, não há nem natureza nem alma, nem deuses, nem o próprio
deus. 0 Absoluto estático é Visnu, um dos rostos do Deus pessoal, como
conservador e protector dos mundos, que existem em potência. 0 oceano
de leite, imóvel é o infinito, a totalidade, o uniforme, o não-movimento
absoluto. A serpente é a Eternidade, a ausência de tempo. Quando o
Uno se quer tornar múltiplo emana de si o Poder, que surge como a
deusa companheira, a abundância e a Harmonia. É a primeira dualidade
necessária à existência. Brama que sai do seu umbigo, surge então
como o seu primeiro aspecto divino, que tem um papel concreto a fazer,
o Antepassado primordial. Nas mãos - 4 braços - tem as leis eternas (Os
Vedas) e a boca recita cada um desses livros. A palavra, o conceito, a lei,
surge no mito como anterior ao homem. Brama, antes de iniciar a
criação põe questões: Quem sou eu; sentado neste lõtus? 0 mito indica
que a criação contém já em si o fim, e a criação passa pela meditação
interior.

0 mito explica-se pelo discurso (a linguagem, a lei, a ordem surgem


antes do homem, no mito hindustânico) e pela recriação ritualizada faz
reviver o passado, abrindo um ---círculo mágico” na comunidade que o
ouve (no mito da criação de Visnu, todos os mundos potenciais). Dentro
do círculo da teatralidade do mito, o tempo e o espaço são míticos: a

realidade deixa de ser o mundo actual, recriando-se o espaço e tempo da


criação. Assim, o mito é também emotivo, apela à sensibilidade da
comunidade, abre um espaço e tempo sagrados, pois tem função
ideológica, surge para explicar o lugar de cada um

nessa sociedade, para evitar os conflitos, unindo-os e justificando a


sociedade tal como ela se apresenta. Este aspecto emotivo que
aparentemente predomina no mito, permitiu que etnólogos como Lóvy-
Bruhl considerassem o pensamento mítico como pré-lógico. Hoje realça-
se o aspecto racional, a complexidade e sofisticação desse outro
esquema lógico que o mito representa.

«A maneira de pensar dos povos a que normalmente, e erradamente,


chamamos ---primitivos - - chamemos-lhes antes ---povos sem escrita-,
porque segundo penso, este é que é o factor discriminatório entre eles e
nós - tem sido interpretada de dois modos diferentes, ambos errados na
minha opinião. 0 primeiro considera que tal pensamento é de qualidade
mais grosseirado que o nosso, e na Antropologia contemporânea o exem-

plo que nos vem imediatamente à ideia é Malinowski. Afirmo, desde já,
que tenho a

maior admiração por ele, que o considero um dos maiores antropólogos


e que não pretendo com esta observação diminuir-lhe a contribuição
para o campo da ciência. Contudo, Malinowski tinha a sensação de que
o pensamento do povo que estava a estudar
- e, de uma maneira geral, o pensamento de todas as populações sem
escrita que eram

o objecto de estudo da Antropologia - era ou é determinado inteiramente


pelas necessidades básicas da vida. Se se souber que um povo, seja ele
qual for, é determinado pelas necessidades mais simples da vida -
encontrar subsistências, satisfazer as pulsões sexuais e assim por
diante -, então está-se apto a explicar as suas instituições sociais, as
suas crenças, a sua mitologia e todo o resto.

Esta concepção que se encontra muito difundida, tem geralmente, na


Antropologia, a
designação de funcionalismo.

0 outro modo de encarar o pensamento primitivo - em lugar de


sublinhar que é um

tipo de pensamento inferior, como o faz a primeira interpretação - afirma


que é um típo de pensamento fundamentalmente diferente do nosso.
Esta abordagem à questão concretiza-se na obra de Lévy-Bruhl, que
considerou que a diferença básica entre o pensamento ---primitivo - -
ponho sempre a palavra ---primitivo - entre aspas - e o pensamento
moderno reside em que o primeiro é completamente determinado pelas
representações místicas e emocionais.

99
Enquanto a concepção de Malinowskí é utilitária, a de Lévy-Bruhl é uma
concepção emocional ou afectiva. Ora o que eu tenho tentado mostrar é
que de facto o pensamento dos povos sem escrita é (ou pode ser, em
muitas circunstâncias), por um lado, um pensamento desinteressado - e
isto representa uma diferença relativamente a Malinowski -e, por outro,
é um pensamento intelectual -o que é uma diferença em relação a Lévy-
Bruh1.

0 que tentei mostrar, por exemplo, em ---Totémisme ---ou ---La Pensée


Sauvage ---, é que esses povos que consideramos estarem totalmente
dominados pela necessidade de não morrerem de fome, de se manterem
num nível mínimo de subsistência, em condições materiais muito duras,
são perfeitamente capazes de pensamento desinteressado ‘- ou

seja, são movidos por uma necessidade ou um desejo de compreender o


mundo que os envolve, a sua natureza e a sociedade em que vivem. Por
outro lado, para atingirem este objectivo, agem por meios intelectuais,
exactamente como faz um filósofo ou até, em

certa medida, como pode fazer e fará um cientista.

Vamos agora considerar um mito do Canadá Ocidental sobre uma raia


que tentou controlar ou dominar o Vento Sul e que teve êxito na
empresa.

Trata-se de uma história de uma época anterior à existência do Homem


na Terra, ou seja, de um tempo em que os homens não se diferenciavam
de facto dos animais,- os seres eram meio humanos e meio animais.
Todos se sentiam muito incomodados com o vento, porque os ventos,
especialmente os ventos maus, sopravam durante todo o tempo,
impedindo que eles pescassem ou que procurassem conchas com
moluscos na praia.

Portanto decidiram que tinham de lutar contra os ventos, obrigando-os a


portarem-se mais decentemente.
Houve uma expedição em que participaram vários animais humanizados
ou humanos animalizados, incluindo a raia, que desempenhou um
importante papel na captura do Vento Sul. Este só foi libertado depois
de prometer que não voltaria a soprar constantemente, mas só de vez
em quando, ou só em determinados períodos. Desde então o Vento Sul
só sopra em certos períodos do ano, ou então uma única vez, em cada
dois dias; durante o resto do tempo a Humanidade pode dedicar-se às
suas actividades.

Quando se estuda minuciosamente o material mitológico na forma


exacta em que é narrado, verifica-se que a raia actua com base em
determinadas características, que são de duas espécies. A primeira é
que a raia é um peixe, como todos os seus congéneres espalmados,
escorregadio por baixo e duro por cima. E a outra característica que
permite

à rai.a escapar com sucesso quando tem de enfrentar outros animais, é


que parece mui .to grande vista de baixo ou de cima e extremamente
delgada vista de lado. Um adversário poderia pensar que seria muito
fácil disparar uma seta e matar uma raia, por ela ser tão grande mas
enquanto a seta se dirige para o alvo, a raia pode virar-se ou deslizar
rapidamente, oferecendo apenas o perfil, que, evidentemente, é
impossível de atingir; e é assim que pode escapar.

Portanto a razão por que se escolheu a raia é que ela é um animal que,
considerado de um ou outro ponto de vista, é capaz de responder -
empregando a linguagem da cibernética - em termos de «sim» ou «não». É
capaz de dois estados que são descontínuos, um positivo e outro
negativo. A função que a raia desempenha no mito é - ainda que,
evidentemente, eu não queira levar as semelhanças tão longe - parecida
com a dos elementos que se introduzem nos computadores modernos e
que se podem utilizar para resolver grandes problemas adicionando uma
série de respostas de «sim» e «não».
Apesar de ser obviamente errado e impossível (dum ponto de vista
empírico) que um peixe possa lutar contra o vento, dum ponto de vista
lógico pode-se compreender por que razão se utilizam «imagens» tiradas
da experiência.

Esta é a originalidade do pensamento mitológico - desempenhar o papel


do pensamento conceptual.- um animal susceptível de ser usado como,
diria eu, um operador binário, pode ter, dum ponto de vista lógico, uma
relação com um problema que tam-

100
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bém é um problema binário, Se o vento sul sopra todos os dias do ano, a


vida toma -se impossível para a Humanidade. Mas, se apenas soprar um
em cada dois dias - «sim» um dia, «não» um outro, e assim por diante -
toma-se então possível uma espécie de compromisso entre as
necessidades da Humanidade e as condições predominantes no mundo
natural,

Assim, dum ponto de vista lógico, há uma afinidade entre um animal


como a raia e o típo de problema que o mito tenta resolver. Dum ponto
de vista científico, a história não é verdadeira, mas nós somente
pudemos entender esta propriedade do mito num tempo em que a
cibernética e os computadores apareceram no mundo cientifico, dando-
nos o conhecimento das operações binárias, que já tinham sido postas
em prática de uma maneira bastante diferente, com objectos ou seres
concretos, pelo pensamento mítico.

Assim, na realidade não existe uma espécie de divórcio entre a mitologia


e a ciência. Só o estádío contemporâneo do pensamento científico é que
nos habilita a compreender o que há neste mito, perante o qual
permaneciamos completamente cegos antes de a ideia das operações
binárias se tornar um conceito familiar para todos.»

Lévi-Strauss, Mito e Significado, Ed. 70

Os elementos que compõem o mito são estruturais, pois o mito é uma


estrutura lógica de combinação binária; esses elementos funcionam em
razão de bipolaridade, quer da concepção lógica quer do lugar, do
tempo, das gerações, dos valores, pois o mito alterna sempre dois
princípios que vão construindo a narrativa, que é anti-histórica,
precisamente porque é estrutural. Uma primeira explicação surge com a
narrativa fantástica, uma outra, mais profunda e não desvelada, é a
explicação esotérica, implícita no mito.

Caos/Cosmos Desordem/Ordem Destruição/ Criação Violência/


Apaziguamento, conciliação Velho/Novo (conflito de idades, de gerações,
de tempos) Morte/Vida Baixo/Alto Estreito/ Comprido Terra/Céu Anti-
herói, causador de catástrofes/ Herói, demiurgo Todas estas antinomias
surgem sempre como um todo no mito, fazem parte da estrutura mítica,
são os elementos estruturais, «os mitemas», que permitem a explicação e
a

leitura da narrativa.

Como o mito é uma narrativa sempre actualizada, devido ao seu papel


ideológico de identificação sociocultural, os mitemas são
constantemente materializados em imagens actuais levantadas da
experiência do dia-a-dia e do imaginário colectivo da comunidade. Só a
compreensão das imagens permite que a explicação seja eficaz e o
reconhecimento se efectue. Assim, as imagens, o conteúdo concreto da
narrativa são constantemente actualizados, incluindo os elementos
familiares à comunidade, de acordo com o tempo histórico e o espaço
social, de acordo com as novas interiorizações e representações
colectivas. E nesta perspectiva que o mito tem de recorrer
predominantemente ao empírico, em sociedades que desconhecem a
escrita, tanto para a sua função ideológica de coesão social e disciplina
dos grupos e famílias, como para a explicação racional que tem de advir,
necessariamente, do concreto.

É só com o advento da escrita que os conceitos começam a ultrapassar


as imagens e os símbolos ligados ao concreto: o discurso torna-se
conceptual (racional) e perde a força da emotividade, A diferença entre o
pensamento mítico e pensamento racional está no peso dos conceitos
neste último, que lhe permitem uma maior abstracção e universalidade.

101
Esquema do pensamento mitico(a) e racional(b)

Na realidade, em qualquer situação humana onde predomine a


emotividade, reaparece o pensamento mítico que não é exclusivo dos
povos sem escrita. 0 mito ressurge, criando o seu espaço e tempo
próprios, isolando da realidade histórica, em todos os tempos e em todos
os lugares, em pleno palco da racionalidade. Elementos míticos circulam
na nossa civilização industrial e detectam-se em todos os campos.

«0 bifterck faz parte da mesma mitologia sanguínea que o vinho. É o


coração da carne, a carne em estado puro, e qualquer que dele coma
assimila a si a força taurina. 0 prestl~ gio do bifteck resulta, de toda a
evidência, da sua natureza de carne quase crua: o sangue é nele visível,
natural, denso, compacto e coagulado ao mesmo tempo; pode
perfeítamente imaginar-se a ambrósia antiga sob esta espécie de matéria
pesada, que vai dimínuindo ao ser mastigada, de forma a tomar
simultaneamente bem sensível a sua força originária e a sua
plasticidade de transfusão para o próprio sangue do homem. 0 sangui
,-

neo é a razão de ser do bifteck: os graus de intensidade do seu preparo


são expressos, não em unidades calóricas, mas em imagens oriundas do
sangue: o bifteck é a sangrar (fazendo então lembrar o fluxo arterial do
animal esfolado) ou azul (é o sangue pesado, o

sangue pletórico das veias, que é aqui sugerido pelo violeta, estado
superlativo do ver melho).

L.) Comer o bifteck a sangrar representa, pois, tanto uma natureza como
uma moral.»

Ràand Barthes, 0 Bife e as Batatas Fritas, Mitologias, Signos, ed. 70

Uma recriação mítica, uma narrativa total, encontra-se na obscuridade


de qualquer sala de cinema, na caixa mágica onde se constitui uma
comunidade mítica - os espectadores - reunida em frente de um écran
iluminado, totalmente sintonizada com o irreal que se desenrola no filme
e completamente alheada do tempo e dos espaços reais do mundo onde
se situam fisicamente. Os espectadores colam-se à narrativa com
sentimentos, emoções e racionalidade. Quebrando o espaço mágico da
projecção recuperam o real, tal como os seus antepassados que
participavam de cerimônias idênticas na estru-

tura, embora diversas no conteúdo.

Concerto dos Rolling Stones Para a juventude que acorre aos seus
concertos, os ídolos do rock representam os demiurgos dum «espaço e
tempos sagrados», que desliga do real - que é contestado - o seu público
de fõs. A força do estereótipo heróico dos rockistas, a sua imagem de
forç a, a música violenta e criadora, a contestação das letras, o recriar
da violência dos elementos e do imaginário do criação do mundo pelo
jogo de luzes constituem todo um universo de mitemas clássicos. A
vivência mítica é tão intensa que os concertos por vezes atingem a
violência da destruição total.

102
A mitologia é o conjunto de mitos que se constituem num universo
coerente de explicação para a comunidade. As sínteses mitológicas
surgem quando há assimilação de outras culturas, por aliança,
conquista ou emigraçã o dos homens: a união das tradições míticas, a
própria natureza ideológica do mito impõe uma unidade ou explicação
global, que a síntese tenta estabelecer, criando-se um fio condutor. As
mitologias organizam-se ou tendem a organizar-se em famílias de deuses
que recriam os momentos históricos da comunidade, se bem que sem
historicidade temporal, pois é característico do mito o seu

tempo estrutural.

Religião e Magia

0 modo de estar no mundo do homem define-se num espaço e tempo


que é simultaneamente profano (o do trabalho e da técnica) e sagrado (o
simbólico de relações com o sobrenatural).

Todas as mitologias, teogonias e cosmologias implicam uma ambígua


distinção entre o

profano e o sagrado, o real-natural e o sobrenatural, pois são todas


humanizadas- apesar de serem de ordens diferentes, com o espaço e
tempo próprios, a relação entre eles terna-se possível pela religião e
magia, mais propriamente pelo ritual elaborado pelos intérpretes dos
sinais do sagrado no mundo profano.

0 totem assinala -de resto como qualquer templo religioso-uma brecha


do sagrado no espaço profano

Os rituais - série de gestos e palavras propiciatórias - realizam e recriam


o tempo sagrado, introduzindo no real um tempo e um espace
sobrenatural, por acção do rito.

A estrutura onde se inserem os rituais de criação dum sagrado


primordial é a festa. A festa é, acima de tudo, a passagem do tempo e
espaço profanos para o sagrado, durante o tempo da celebração. A festa
reconstitui o tempo do caos, carregado do sagrado, antes da criação da
ordem, e com esta, dos valores, dos interditos. Com a festa multiplicam-
se os excessos em todos os campos: excesso de ruído, movimento,
comida e bebida, excessos sexuais,- invertem-se os valores pois
imperam os antivalores do caos, e o que era proibido passa a ser a regra,
e o permitido é proibido: esquecem-se os interditos religiosos, o sagrado
investe-se de profano e o profano de sagrado.

A festa é social, resulta dum imaginário colectivo e mítico, contém uma


explicação mítica, mas prolonga no social um fundamento biológico que
leva os animais colectivos a

libertarem as energias acumuladas pelo trabalho de grupo e a


associação de indivíduos em nome do grupo.

Tal como as formigas se embriagam com os pulgões aprisionados em


rebanhos nos seus formigueiros, sempre que há mudança de cicio, a
sociedade humana sente necessidade de compensar os seus conflitos e
frustrações impostas pela disciplina colectiva no momento da festa.

«A festa dura várias semanas, vários meses, entrecortados por períodos


de repouso de quatro ou cinco dias. Muitas vezes são necessários vários
anos para reunir a quantidade
103
de víveres e de riquezas que aíserão não só consumidos ou despendidos
com ostentação mas ainda destruidos e esbanjados pura e
simplesmente, pois o esbanjamento e a destruição, formas do excesso,
inserem-se por direito na essência da festa.

Esta termina naturalmente de modo frenético e orgíaco, num


desregramento nocturno de ruído e de movimento que os instrumentos
mais rudimentares, percutidos a compasso, transformam em ritmo e em
danca.

Compreende-se que a festa, representando um tal paroxismo de vida e


rompendo de um modo tão violento com as pequenas preocupações da
existência quotidiana, surja ao

indivíduo como um outro mundo, onde ele se sente amparado e


transformado por forças que o ultrapassam. A sua actividade diária,
colheita, caça, pesca ou criação de gado, limita-se a preencher o seu
tempo e a prover às suas necessidades imediatas. É certo que ele lhe
dedica atenção, paciência, habilidade, mas, mais profundamente, vive
na recordação de uma festa e na expectativa de uma outra, pois a festa
figura para ele, para a

sua memória e para o seu desejo, o tempo das emoções intensas e da


metamorfose do

seu ser. (..)

Na realidade, a festa é frequentemente tida pelo próprio reino do


sagrado. 0 dia de festa, o simples domingo, é antes de mais um tempo
consagrado ao divino, em que o trabalho é interdito, em que se deve
repousar, gozar e louvar a Deus. Nas sociedades em que as festas não
estão disseminadas pelo conjunto da vida laboriosa, mas agrupadas
numa verdadeira estação das festas, vê-se ainda melhor até que ponto
esta constitui realmente o período da proeminência do sagrado. ( ...)
0 sagrado, na vida corrente, manifesta-se quase exclusivamente por
interditos. Define-se como o «reservado», o «separado»; é colocado fora do
uso comum, protegido por proibições destinadas a evitar qualquer dano
à ordem do mundo, qualquer risco de a desarranjar e de nela introduzir
um fermento de perturbação. Ele aparece assim essencialmente como
negativo. ( ...)

Ora o período sagrado da vida social é precisamente aquele em que as


regras são suspensas e a licença como que recomendada.

0 excesso não se limita então a acompanhara festa de forma constante.


Ele não é um simples epifenómeno da agitação que ela desenvolve. É
necessário ao sucesso das cerimónias celebradas, participa da sua
virtude santa e contribui como elas para renovar a natureza ou a
sociedade. Realmente parece não haver dúvida de que esta é a finalidade
das festas. 0 tempo esgota, extenua. Ele é aquilo que faz envelhecer, o
que caminha para a morte, o que desgasta: é o próprio sentido da raiz
donde são extraídas em grego e em iraniano as palavras que o designam.
Todos os anos a vegetação se renova e a vida social, do mesmo modo
que a natureza, inaugura um novo ciclo. Tudo o que existe deve então
ser rejuvenescido. É preciso recomeçar a criação do mundo.»

Roger Caillois, 0 Sagrado e o Profano

A festa foi perdendo pouco a pouco a sua sacralidade; a partir do século


XVIII, com o fim do Antigo Regime e também da importância da Igreja
como poder ideológico, a festa institucionaliza-se como profana ou
sagrada, perdendo não só essa ambivalência como a força das suas
representações. Com a difusão da ideologia liberal e o crescimento do
capitalismo, os mesmos lazeres e tempos livres são capilalizados e
segregadas as tradições populares. A festa hoje mantém características
de excesso em vários campos, nomeadamente no consumo de objectos,
comida e bebida e do que se tornou o artigo mais significativo da vida
contemporânea, o dinheiro.
S. João no Porto.
0 ruído prolonga-se para alêm das horas de trabalho, noite fora, os
interditos sociais são ultrapassados, há excesso de comida e bebida, em
nome dum santo casamenteiro que substituiu o antigo deus do grão; no
ar o forte cheiro a alho porro mantêm a sua tradicional função de
excitante sexual e protector dos maus espíritos,

104
A festa surge nas fratrias como a saída para a troca das mulheres;
habitualmente inimi -

gas, as fratrias alimentam essa hostilidade pelo antagonismo das


crenças religiosas: cada fratria tem como totem um animal ou objecto de
sinal contrário ao da outra fratria. A aliança e a troca de mulheres só se
efectua em período de festa, quando os interditos são levantados,
incluindo os religiosos que afastavam os dois grupos- só nessa ocasião
os

casamentos e as alianças se tornam possíveis. Findo o tempo da festa,


cada grupo regressa aos seus interditos e as mulheres à sua nova
morada, perdendo as suas crenças e adaptando-se a novas - situação
que só a mulher consegue pois está acima do interdito.

Actualmente, só um fenômeno universal pode ser identificado como


verdadeira festa: a guerra, talvez por que fosse já essa a essência do
homem primitivo, o ser-pa ra-a -morte. A guerra permite os maiores
excessos da civilização: gastos em armas, homens, edificios- todas as
indústrias se orientam para a produção bélica, para a alimentação do
exórcito, violência, ruído, desperdício, destruição e morte,- inversão dos
valores mais significativos da humanidade: é obrigatório matar e
proibido não matar - a deserção, a fuga à actividade bélica é punida com
a morte. É um facto que todas as perversões e corrupções surgem
durante a guerra, pois a inversão de valores é a própria lei da festa.

«A turbulência geraljá não é possível. Ela deixa de se produzir em datas


fixas ou numa vasta escala. Dir-se-ia que se diluiu no calendário, como
que reabsorvida na monotonia, na regularidade necessárias. As férias
sucedem-se então à festa. É certo que continua a

tratar-se de um tempo de dispêndio de livre actividade, de interrupção


do trabalho regulado, mas é uma fase de repouso e não de paroxismo.
Os valores encontram-se completamente invertidos.- num caso, cada
qual parte para seu lado; no outro, todos se reúnem no mesmo ponto.
As férias aparecem como um vazio, pelo menos como um abrandamento
da actividade social. Elas são, simultaneamente, impotentes para
satisfazer o indivíduo. São desprovidas de qualquer carácter positivo.

A felicidade que eles proporcionam é feita em primeiro lugar do


afastamento dos aborrecimentos de que elas distraem, das obrigações de
que elas libertam. Partir de férias é antes de mais fugir às suas
preocupações, desfrutar de um descanso «bem ganho». É isolar-se mais
do grupo em vez de comunicar com ele no instante da exuberância de
cada um, na hora do regozijo de cada um. Por isso as férias não
constituem, ao contrário da festa, a enchente da existência colectiva,
mas a sua estiagem.

Importa então perguntar que agitação de igual amplidão liberta os


instintos do indivíduo, recalcados pelas necessidades da existência
organizada, e desemboca ao mesmo tempo numa efervescência colectiva
de tão vasta envergadura. Parece assim que, desde o aparecimento dos
Estados fortemente constituídos, e cada vez mais nitidamente à medida
que a sua estrutura se afirma, a antiga altemância do regabofe e do
labor, do êxtase e do domínio de si, que fazia renascer periodicamente a
ordem do caos, a riqueza da prodigalidade, a estabilidade do
arrebatamento, se viu substituída por uma altemância de ordem
completamente diferente, mas que à a única no mundo moderno a
apresentar um volume e características correspondentes.- a da paz e da
guerra, a da prosperidade e da destruição dos resultados da
prosperidade, a da tranquilidade regulada e da violência obriga tóriá. »
Roger Caillois, ob. cit.

Ritos e rituais

Várias estratégias simbólicas permitem abrir esta brecha do sagrado no


espaço profano; o rito corresponde a essas estratégias e é codificado pelo
mágico, pelo feiticeiro ou pelo padre - pelo intérprete que certos sinais
permitiram que fosse escolhido - oficializado pela comunidade.
105
Feiticeiro (África), ostentando os seus símbolos de intériorete do sagrado

Dum modo geral o rito é o mito em acção (impor no presente um


passado que propicia o futuro) - o rito age sobre o sagrado e movimenta
no mundo profano a acção das forças propícias, da caça, das colheitas,
da guerra, ou fornece a força animica que se instala nos homens, caso
dos ritos de passagem.

Procissão de diabos em Oruro, na Bolívia, para afugentar o mal

0 rito renova, no presente, parte da criação. A religião organiza-se a


partir da noção de dívida do sentido, que a sociedade sente em relação
aos demiurgos do seu espaço territorial e da sua sociedade.

Os deuses que criaram e deram sentido à sociedade podem e devem


intervir para manter essa sociedade; há no sentido religioso a crença de
que as forças naturais ou divinas são susceptíveis de serem
sensibilizadas aos pedidos e necessidades humanas através de rituais
de súplica e subordinação, que as levam a interceder pela sociedade.

Procissão católica

106
0 ritual mágico difere do ritual religioso, se bem que religião e magia
apresentem conotacões de sentido e ritual, o que permite uma certa
ambiguidade de interpretação, principalmente nos tempos mais
recuados, sem que haja acesso directo a documentos pelo historiador ou
antropólogo. 0 ritual mágico pretende introduzir o sagrado no profano de
forma violenta, coagindo o sagrado a manifestar-se a favor ou contra,
conforme a intenção. 0 mágico através do ritual controla forças
favoráveis que por sua vez controlam forças desfavoráveis, coagindo-as a
agir. É o fundamento de toda a mitologia de gênios bons e maus, de
contos de fadas e duendes.

0 mágico pretende subjugar as forças da natureza desencandeando


antiforças que ele descobre estudando os sinais do sagrado. Esta forma
de conhecimento estabelece-se predominantemente em termos sensíveis
- sobre um mundo sensível, caótico, a forma de intervenção é
igualmente sensível, se bem que simbólica - e nã o racionalizada como o
será a intervenção cientifíca, que, tal como a magia, intervém sobre a
natureza. 0 signo é visto como um indicador, um sinal emitido pela
natureza e não, como na ciência,k um modelo conceptual. Os
intérpretes dos signos da natureza que permitem constituir um aparelho
de domínio sobre ela, os mágicos e feiticeiros, seguem uma preparação
intensa que inclui toda a cultura sagrada do grupo. 0 papel do feiticeiro
é apaziguar tensões e anseios da comunidade, controlar a sua coesão e
descobrir sinais propícios a qualquer tipo de acção da comunidade.

Estabelece, como o padre religioso, a relação entre o natural e o


sobrenatural, o

sagrado e o profano - nesta perspectiva não há distinção de fundo entre


a magia e a

religião, o mágico e o padre.

Figura social, com seu estatuto específico aceite pelo grupo, o feiticeiro
não se integra na sociedade; imbuído do sagrado, rodeado dos seus
espíritos protectores, ele é um homem perigoso, pois o sagrado destrói e
mata. Vive separado do grupo, que receia ser contaminado. Atitudes que
ainda marcam a mentalidade, de modo inconsciente, como o

receio de que um olhar dum agente do sagrado possa ferir ou matar. Os


chefes religiosos e políticos imbuídos do sagrado recusavam-se olhar de
frente os seus súbditos, pois iriam contaminá-los - atitude que se
levanta em quase todas as teocracias, e que a jornalista Oriana Falacci
detectou na sua entrevista com o xá da Pérsia

Sobrevivência de mentalidade mágica em práticas actuais

107
Arte, Folclore, Música e Teatro

«Atitudes e linguagem de relação situam-se nos limites do domínio


figurativo. Ritmos e espaços sociais, atitudes e insignias, conduzem os
membros do grupo à representacão permanente do seu próprio drama
étnico. A vida étnica é toda ela uma figuração, na medida em que o
indivíduo só se pode considerar incorporado no grupo quando assume a
uniformidade dos gestos, de fórmulas e traços vestimentares que
permitem a assimilação da sua natureza de homo sapiens a uma
determinada cultura. Das práticas elementares maqui .nai.s, às práticas
excepcionais, e da vida técnica à vida sócio -religiosa, a cons-

ciência do carácter figurativo aumenta progressivamente para terminar


em operações cerimoniais relativamente às quais o limite entre o acto
social e o acto figurativo é já bastante impreciso.

Seria bastante delicado tentar formular com demasiada precisão uma


hipótese sobre o

momento em que as sociedades passam do cerimonial vívido para a


representação teatral ou a figuração, considerada como essencial, para a
decoração pura e simples. ( ...) Será que bastaria, então, seguir o
fluir do tempo e a escala das hierarquias tecno-económicas para
descobrir o momento em que o religioso social e teatral se separam ?
Trata-se porém de uma ficção, já que, em todas as sociedades, estas
diversas formas coexistem, denotando gradações insensíveis. Quer se
trate de um sacrifício, de um discuro político ou de uma comédia, a
relação entre os indivíduos figurantes e a matéria figurada não é tão
importante como os valores comuns existentes entre figurantes e
espectadores, os quais permitem inscrever um aparelho estético, em
consonância com as convenientes emoçoes, numa cadeia operatória de
carácter religioso ou social.»

A. Leroi-Gourhan, 0 Gesto e a Palavra, 2


A arte, a música e o teatro existem em qualquer sociedade, a partir do
homo sapiens, inseridos num universo social onde predomina o sentido
do sagrado. Se a própria função do adorno e do vestuário é, acima de
tudo, um código simbólico de identificação e relação social, a tatuagem e
os gestos, com a mesma função, vão abrir um campo simbólico e
figurativo que designam o caminho da arte e do teatro.

0 homem representa, como actor social, num espaço onde os seus


gestos e palavras têm um sentido social - na representação mítica não
faz mais do que representar uma

história com os símbolos onde se reconhece. 0 teatro segue a via do


ritual religioso, mas

é próprio do homem simbólico, que aplica as séries de gestos técnicos a


outras funções e actividades, recriando na arte e na música os mesmos
movimentos da técnica. Os primeiros instrumentos de música são os
tubos de osso do Paleolítico Superior, podendo imaginar-se o uso de
flautas apitos e harpas talhadas em madeira, cana ou crina de mamute.

A repetição constante dos movimentos de produção de utensílios, teria


permitido a

descoberta destes instrumentos que se baseiam no mesmo princípio - a


flauta e o tambor. A música, a poesia e o teatro do homem pré-histórico
continuam a ser desconhecidos ao antropólogo, embora toda a estrutura
técnica e simbólica admitam a sua existência,- porém a arte deixou
testemunhos marcantes a partir do Paleolítico Médio. Para Leroi-
Gourhan a arte parietal do Paleolítico Superior narra mitos que o
homem actual não sabe interpretar, mas cuja disposição mitológica é
inegável, identificando-a como uma

arte de narrativa simbólica, e não de tipo mágico como é habitualmente


admitido.
108
Arte do Paleolítico e Arte africana; a interpretaçõo da arte só se torna
possível quando inserida no universo mítico dos produtores artísticos

0 folclore estuda todos os aspectos da cultura popular, contos, poesias,


crenças, romarias, utensílios, danças e canções, sobrevivências de ritos,
etc. É portanto o campo específico da sobrevivência das culturas
tradicionais que canalizaram as práticas duma sociedade em extinção
ou mesmo extinta.

Decoraçõo arte popular e românica

109
Tal como nas sociedades tradicionais, a arte popular combina a tradição
musical com a dança - herança das narrativas rituais, onde a música e a
dança permitiam a passagem para o sagrado através do transe. Os
instrumentos populares tradicionais são habitualmente de sopro como a
flauta de percussão, com cordas, e os tambores - equivalendo às
operações técnicas primitivas do martelar e do serrar.

Em quase todas as culturas surgiu um instrumento musical tradicional,


o rombo, que em quase todos os locais se apresenta com duas calotes
ovais, presas por um cordão.

Do folclore de Lavra, Matosinhos: as «Deixas»

«A questão das «deixas» é um negócio muito complicado. Logo que os


filhos estão casadoiros e os pais se acham demasiado velhos e fatigados
para continuar a dirigir o amanho das terras, trata-se de fazer a «deixa»,
que consiste numa doação. Para maior clareza, ponhamos como
exemplo o caso de uma propriedade «abaloada» (avaliada) em
quatrocentos contos. Em determinada altura «doam» tudo quanto
possuem a um único filho, Tal contrato faz-se mediante várias cláusulas
«sine qua nom):

1) Ao filho a quem é doada a casa, com todas as suas dependências e


campos, é-lhe concedido, «ipso facto», a quarta parte do valor total -
parte esta de que não tem contas a prestar aos irmãos. É sua, e tem por
nome a « cota disponible». No caso suposto, o rapaz seria beneficiado
com cem contos.

2) No próprio acto da doação, o mesmo filho é obrigado a entregar aos


pais, em

dinheiro, metade do valor de toda a propriedade, excluída já a «cota


disponible». Como o não o tem, arranja noiva que lho traga em dote.
Aqui está, finalmente, toda a razão dos wasamentos falados».
Continuando a nossa suposição de uma propriedade avaliada em
quatrocentos contos, o rapaz entregaria 150.

3) Esse filho fica com o encargo de cuidar dos pais, na saúde ou na


doença até à morte deles. Os outros irmãos não terão de pensar nisso.

4) Os pais ficam a gozar de metade do usufruto das terras, e diz-se que


são «reservatários», ou que «têm reserva». Na realidade, são «sócios» do
filho, pois metade pertence-lhes ainda, e a outra metade é do mesmo
filho - que a comprou (cláusula segunda).

0 benefício da «cota disponible» reveste o aspecto de uma recompensa -


pois é aquele irmão que assumirá, daí em diante, a direcção e a
responsabilidade de tudo. A «reserva» é, para os pais, uma verdadeira
«reforma».

5) À morte de um dos velhos, a metade que lhes pertencia é dividida em


dois: uma, para o sobrevivente, outra repartida por todos os filhos sem
excepção.

6) À morte de um segundo cônjuge, o valor que este possuía é


novamente repartido por todos.

As raparigas recebem o que lhes cabe, de preferência em dinheiro, para


formarem o seu dote. Costuma dizer-se que os irmãos é que casam as
irmãs, recebendo, eles, o valor em terras’ - elas, em dinheiro - sendo este
mesmo proveniente, como vimos, do próprio dote das cunhadas
(cláusula segunda).

7) As raparigas solteiras têm, enquanto o forem, direito a «reserva», isto


é, direito a

viver em casa do irmão a quem coube a propriedade dos pais, quer


durante a vida destes, quer após a sua morte. Os outros irmãos
conjugam o que receberam em herança, com o que lhes trazem as
noivas. Instalam-se em «casa de renda», e depois, num esforço lento, vão
trabalhando até poderem comprar propriedade a seu gosto.

Em consequência destas disposições, os pai .s vivem uma velhice


tranquila, e a mesma casa, com todas as suas dependências, mais ou
menos, é transmitida fielmente de pais a filhos, sem correr o risco de ser
dividida, ou de vir a pertencer a outra família.»

Maria Alves Lima, in Matosinhos, Coimbra, 1963

110
Cura do Bicho, feridas e borbulhas malignas no corpo. «Talha-se com as
seguintes palavras, em Perafita, Matosinhos:

Eu que talho?
- Bicho, bichão, aranha, aranhão, Eu talho o bicho de toda a nação Pelo
poder de Deus do milagroso S. Silvrestre Tudo o que faço, preste.» (Idem)
«Mulheres fumadoras» Nos concelhos de Mértola, Alcoutim, Almodôvar e
Lagoa, as mulheres, geralmente depois dos 50 anos, entregam-se ao
vício do tabaco.

Observamos o costume em Mértola, e nas aldeias de Vicenes,


Lombardos, Bicada, Espírito Santo, Álamo, Fornoa, Marrocos e Roncão,
do mesmo concelho; em Pé-de-Boi concelho de Almodôvar; em Vaqueiros
e Martim Longo, no concelho de Alcoutim, e em Ferragudo, no concelho
de Lagoa.

Enquanto nos concelhos de Almodôvar, Mértola e Alcoutim o costume se


mantém muito recatado e é quase geral, nestes dois últimos, o uso de
uma «cachimbeta» para absorção do fumo do tabaco, em Ferragudo
notamos que a mulher se expõe um pouco confiadamente e utiliza o
cigarro enrolado em papel fino e por suas próprias mãos, sendo hábito
fumá-lo à tarde, sentada à porta de casa.

Em Vaqueiros, as mulheres idosas, viúvas ou não, recolhem-se para


tomar o fumo, fazendo-o geralmente à noite, na cama, quando se
deitam. »

Extracto de Mulheres Fumadoras, Margarida Ribeiro, in Trabalhos de


Antropologia e Etnologia, vol. XX1,

Porto, 1969, Faculdade de Ciências

A língua como feni5meno e sistema sociocultural mais significativo

«A linguagem é um produto da cultura mas a sua situação excepcional


de receptáculo e de veículo de transmissão foi particularmente retida
por uma escola que se reclama de E. Sapir e de B. Whorf. A partir daqui
ela é ao mesmo tempo um produto e um factor. Partilhar em comum
uma língua é partilhar representações e atitudes fundamentais que, a
um nivel mais profundo que o conhecimento explícito , definem uma
personalidade; a linguagem é portanto o lugar privilegiado graças ao
qual se definem as relações que ligam a linguagem à cultura. Importa
então perguntar em que planos da linguagem penetramos
verdadeiramente na matriz da sociedade como comunidade linguística.

L.) Povos falando línguas diferentes vivem de facto em mundos de


realidades «diferentes», no sentido em que as Anguas afectam de uma
certa maneira as percepções sensoriais e os hábitos de pensamento.
Dependemos da nossa língua pois ela é a maneira de exprimir tudo o
que conceme à nossa sociedade. É uma ilusão crer que o pensamento
quadra com a realidade independentemente do uso da língua, e que a
língua seja apenas um meio acidental de resolver problemas de
comunicação. 0 «mundo reah) é em grande parte inconscientemente
construído a partir de hábitos linguísticos do grupo. Não há duas
línguas suficientemente semelhantes para representar a mesma
realidade social. Os mundos em que vivem as diferentes sociedades não
são simplesmente o mesmo mundo com etiquetas diferentes. Os hábitos
linguísticos da nossa comunidade predispõem-nos a

certas escolhas de interpretação, manifestadas no comportamento e nas


representações.

0 estruturalismo tem um incontestável valor explicatívo, mas é uma


atitude complementar de uma outra atitude. Isto verifica-se nas duas
acepções que se dá à linguagem. Uma é a acepção restrita. Trata-se
então de sistemas de signos, manifestos por diversos meios técnicos; a
língua é de entre eles o mais diferenciado, mas é preciso acrescentar,
por exemplo, os gestos, os comportamentos, os ritos, as sinalizações.
Estes sistemas permitem estabelecer uma relação dinâmica entre o
indivíduo e o seu próxi .mo, no quadro de um acordo tácito, convenci
.onal e historicamente particular.
Segundo a acepção ampla, a que Lévi-Strauss propõe, a linguagem
torna-se sinónímo de comunicação. Ela é a propriedade da maioria dos
sistemas sociais na medida em que eles se fundam no princípio da
recIprocidade. São então encarados como constituí dos por tecidos
complexos e subjacentes através dos quais se operam transmissões e
círculações (mulheres, mensagens, bens e serviços).

A acepção ampla, tal como é formulada, implica o postulado


estruturalista; a realidade social está organizada de acordo com padrões
a partir dos quais se elaboram os dados observáveis, mas que se não
podem explicitar senão por uma redução e uma abstracção operadas
pelo espinto reflexivo sobre esses dados. 0 sentido amplo postula que
uma

explicação é possível.»

Maurice Houis, Langue et Culture, in Encyclopédie de Ia Piéiade,


Gallimard, 1968

A língua é determinante de um universo de comportamentos que


permite identificar o

grupo que a utiliza. Existe apenas para o grupo que a compreende, é um


fenômeno social, mas no sentido em que é o fenômeno mais amplo de
toda a etnia surge como ver-

dadeiro sistema sociocultural, pois canalisa e subentende subtilezas de


linguagem e comportamento que só são acessíveis aos seus receptores é
tnicos.

A língua surge como um instrumento de coesão, coerência, relação e


transmissão cultural e social e, ao mesmo tempo, de segregação dos
grupos sociais: é no que compreende de estático e dinâmico,
institucional e marginalizado, que permite defini-Ia como sistema
sociocuilural.
Até ao século XIX a linguagem dos povos permite, a partir duma análise
do exterior, determinar as suas vivências e concepções do mundo. Hoje
a linguagem está demasiado determinada pelo contexto cultural e
ideológico e é na literatura que se pode fazer esse levantamento, no que
ela tem de factor inconsciente e interiorizado.

A importãncia da língua: arte africana

2.5. 0 dinamismo cultural

2.5.1. ASPECTOS ESTÃTICOS E DINÂMICOS DA CULTURA

Teóricos do século XIX apresentam já modelos da dinâmica social e


cultural das sociedades humanas,- Augusto Cornte criara a Teoria dos
três estados, teológico, metafísico e

positivo e Karl Marx na «Miséria da Filosofia» definira a dinâmica


sociocultural a partir do

112
crescimento das forças produtivas e da luta de classes. 0 motor da
dinâmica seria o crescimento das forças de produção que, alterando-se,
arrastaria inevitavelmente a modificação do sistema social; sobre estas
duas alterações elaboravam-se as superstruturas políticas, do que
resultava a segregação das classes económicas.

Na segunda metade do século XIX e na primeira metade do século XX,


os antropólogos e os sociólogos que faziam o levantamento e estudo das
terras colonizadas em África, na Ásia, América e Insulindia verificaram a
existência, nas comunidades tradicionais, de fenômenos de dinamização
cultural que provavam definitivamente que nenhuma estrutura
sociocultural é estática. Porém, o tempo e o tipo de alteração variavam
de sistema para sistema, de cultura para cultura. Essa observação
permitiu o aparecimento de conceitos de dinâmica sociocultural como
aculturação, contacto cultural, desfasamento, aceleração cultural,
flutuações e pseudomorfose.

Não só as culturas não evoluem ao mesmo ritmo, como cada cultura


manifesta tendência para aceitação ou rejeição de apports culturais
estranhos ou em contradicão com os seus padrões culturais. Essa
tendência à aceitação ou rejeição de apports exteriores, é quase sempre
concomitante com uma idêntica atitude em relação a modificações
produzidas no seu interior.

Entretanto, em todas as culturas, não há uma verdadeira unidade de


tendências, de progressismo ou conservadorismo; no interior da cultura
são segregados antagonismos e

contradições, no interior ou no exterior das instituições, resultantes das


próprias contradições e antagonismos econômicos, sociais, religiosos e
mesmo étnicos.

Contra uma corrente muito divulgada que admita a existência de


culturas e sociedades sem história, Lévi-Strauss propõe a designação de
«sociedades quentes e sociedades frias».
Sugerimos, algures, que a infeliz distinção entre «povos sem história» e
os outros

poderia ser vantajosamente substituída por uma distinção entre o que


chamaríamos, por necessidade de causa, as sociedades «frias» e as
sociedades «quentes», umas procurando, graças às instituições que se
constituíram, anular de modo quase automático o efeito que os factores
históricos poderiam ter sobre o seu equilíbrio e a sua continuidade,- as
outras interíonzando resolutamente o evoluir histórico para fazer dele o
motor do seu desenvolvimento.»

Lévi Strauss, La Pensée Sauvage, ed. Pion, 1962

Outra verificação permitiu o aparecimento do conceito de


pseudomorfose. Esta verifica-se nas sociedades colonizadas que tentam
libertar-se da cultura do colonizador, mas que inconscientemente
recorrem a elementos retirados do universo que rejeitam, nomea-

damente no campo político, militar e jurídico. Nas sociedades


colonizadas é vulgar o

fenômeno de aculturação, que é a habituação a uma cultura estranha,


habitualmente imposta. A acomodação a nova cultura não significa
necessariamente progresso, produzindo-se um desfasamento cultural
entre cultura-mãe e cultura assimilada. Dum modo geral a aculturação
implica a destruição de todos aqueles aspectos que contrariam a

acção de domínio da cultura mais forte, ou então a cultura colonizada


surge desvirtuada pelo universo cultural do colonizador. É o caso da
produção de esculturas e máscaras dos povos africanos, orientadas para
um crescente mercado e completamente desviadas da sua função
cultural.

Conservantismo e modernização
As respostas culturais de uma dada sociedade provêm sempre duma
relação dialéctica entre os homens e o seu meio geográfico. São estas
respostas culturais que determinam as instituições mais fortes e mais
conservadoras da sociedade, quando a comunidade pôde sobreviver com
o aparelho técnico que produziu. É este sentimento de segurança,
veiculado pela tradição que permite que a resposta a influências do
exterior surjam numa perspectiva idiossincrática(,,).

113
Ao contrário das culturas superadaptadas ao meio, as outras culturas
são mais susceptíveis de se tornarem abertas a influências estranhas.
Como as influências do exterior entram habitualmente através das
instituições ideológicas e políticas, estas sociedades mais desadaptadas
ao aparelho económico e técnico, constituiram igualmente instituições
mais flexíveis.

Num sistema sociocultural a base estrutural que assenta nas relações


da técnica com o meio natural, (economia e técnica), é a infraestrutura-
esta infraestrutura implica a existência de instituições sociais, políticas,
religiosas, científicas, ideológicas - a superstrutura.

Modelo sociocultural (A. Mesquitela Lima, A Cultura Portuguesa, a


Ciência e a Tecnologia)

Infraestruturas que souberam encontrar respostas culturais


extremamente adaptadas ao meio ambiente, possuindo um aparelho
técnico eficaz, produzem uma superstrutura adequada divulgadora dum
modo de estar no mundo que gratifica as populações. A cultura esquimó
surge como eminentemente estática, pois conseguiu produzir estas
condições; do mesmo modo o aparente eslatismo do Egipto Antigo,
prolongando-se com um ar familiar durante quase três milénios,
representa o conservadorismo duma civilização satisfeita com as suas
respostas culturais e simbólicas. Os povos comerciais, que não dispõem
de produtos básicos de subsistência e procuram técnicas de circulação e
venda de produtos de outras culturas e outros povos, estão sujeitas a
constantes alterações no sistema económico, é-lhes indispensável uma
tendência à modernização. Há povos que se especializam mesmo em
tarefas de circulação de produtos, como é o caso de Portugal.

2.5.2. MECANISMOS DE MUDANÇAS CULTURAIS.

MECANISMOS INTERNOS E EXTERNOS

As culturas crescem e evoluem em função do contacto cultural, se bem


que seja indispensável que contenham em si apetência de mudança, ou
seja, é indispensável que haja dinamismo interno, a partir de pulsões
adaptativas(e).

Estes rnecanismos internos são a descoberta e a invenção, o que implica


não apenas a

consciencia do envelhecimento das instituições como a capacidade para


fazer uma ruptura epistemológica aos paradigmas que circulam com a
ideologia. Há também os meca~ nismos psicológicos de dinamização
interna, que determinam a adaptação às influências culturais. A
adaptação pode dar-se em função duma consciente necessidade de
mudança da estrutura técnica e económica ou simplesmente como uma
atitude de imitação do que países considerados superiores fazem
circular.

A situação de contacto cultural pode ser através de simples informação;


a difusão científica, técnica e artística pode resultar em invenções
convergentes para problemas idênticos, pois a mesma situação, havendo
informação teórica idêntica, pode levar ao

paralelisrno ou convergência de invenções. 0 arado parece ter sido uma


invenção convergente em vários locais do globo.

114
0 contacto cultural - e portanto a dinâmica cultural - está muito
dependente desta ocorrer por vontade própria da sociedade, do seu
dinamismo interno, ou por imposição externa. Nos casos de difusão
cultural, há assimilação de «apports» externos, em termos de mudança
da infraestrutura e, alterando-se esta, também se altera a
superstrutura. Nos casos de contacto cultural forçado, como da
aculturação, pode surgir o fenômeno do pseudomorfismo ou a simples
destruição da infraestrutura e da superestrutura, sem que outras, de
acordo com o ambiente geográfico-natural e o imaginário tradicional, os

venha substituir. Surge então o fenômeno de procura de identidade


cultural.

A situação dum sistema sociocultural em relação a informações


culturais de difusão, pode apresentar dois aspectos: no sistema onde
domina o. conservantismo as informações que atingem a superstrutura
(que domina os meios de controlo e difusão interna) são recolhidos e
impedidos de circular na sociedade; este bloqueio cultural pode
corresponder a um entrave à cultura exterior - barreira de ignorância e
etnocentrismo -

característico da sociedade, ou resultar apenas de uma política de


sobrevivência da superstrutura, que controla todas as informações que
possam pôr em perigo a ideologia oficial, o sistema económico-social e o
regime político.

No caso dum sistema sociocultural aberto à modernização, as


informações são fornecidas pela superstrutura à sociedade, através do
sistema de comunicação, da permissão de circulação ou mesmo da
assimilação das novidades às instituições educativas, politicas e sociais.
A circulação das informações pode impelir a mudanças- se as mudanças
atingem apenas a superstrutura - as instituições políticas, ensino,
ciência e técnica -

sem modificação da relação económica com o meio ambiente, a


sociedade pode sofrer reformas; quando as mudanças atingem o sistema
de produção e com ele as relações sociais, a nova infraestrutura implica
toda uma nova superstrutura, uma nova concepÇao do mundo, um
novo sistema sociocultural. Uma nova estrutura sociocultural pode
surgir na sequência de uma revolução.

Contacto cultural por difusão

«Num instante os ciganos transformaram a aldeia. Os habitantes de


Macondo encontraram-se de repente perdidos nas suas próprias ruas,
aturdidos pela feira multitudinária. (... ) Os meninos teimavam para que
o pai os levasse para conhecer a portentosa novidade dos sábios de
Mênfis, anunciada à entrada de uma tenda que, segundo diziam, tinha
pertencido ao rei Salomão. Tanto insistiram, que José Arcádio Suendia
pagou os

trinta reais e os conduziu até ao centro da barraca, onde havia um


gigante de torso peludo e cabeça rapada, com um anel de cobre no nariz
e uma pesada corrente de cobre no tornoselo, vigiando um cofre de
pirata. Ao ser destapado pelo gigante o cofre deixou escapar um hálito
glacial. Dentro havia apenas um enorme bloco transparente, com
infinitas agulhas internas nas quais se despedecava em estrelas de cores
a claridade do crespúsculo. Desconcertado, sabendo que os meni .nos
esperavam uma explicação imediata, José Arcádio Buendía atreveu-se a
murmurar.-

É o maior diamante do mundo. Não - corrigiu o cigano. - É gelo. José


Arcádio Buendia, sem entender estendeu a mão para o bloco, mas o
gigante afastou-a. ---Para pegar, mais cinco reais-, disse. José Arcádio
Buendia pagou, e então pôs a mão sobre o gelo, e menteve-a posta por
vários minutos, enquanto o coração crescia de medo e de júbilo ao
contacto do mistério. Sem saber que dizer, pagou outros dez reais para
que os seus filhos vivessem o prodígio da experiência. A ureliano deu
um passo para diante e pôs a mão, mas retirou-a logo, ---Está a ferver-,
exclamou assustado. Mas o
pai não lhe prestou atenção. Embriagado pela evidência do prestígio,
esqueceu-se da frustração das suas empresas delirantes (... ) Pagou
outros cinco reais e com a mão posta no bloco, como prestando um
juramento sobre o texto sagrado, exclamou.-

-Este é o grande invento do nosso tempo.»

Gabriel Garcia Marquez, Cem Anos de Solidão

115
0 crescimento cultural. As orientações da cultura

0 crescimento cultural é lido em função de critério de produtividade e


bem-estar, no mundo de hoje. 0 critério tecnicista é o critério imposto
pela civilização ocidental ao resto do mundo, mas outros critérios
imperaram ao longo dos tempos em culturas diversas. Durante a
expansão europeia dos séculos XV e XVI, tal como sucedera com a
colonização da Europa após a queda do império romano, o critério de
crescimento cultural era o da cristianização- só se consideravam
civilizados os povos com conhecimento da verdadeira religião. 0 sentido
da civilização do Egipto Antigo era a manutenção da civilização tal como
se admitia ter sido criado nas origens, o que explica a sua relutância a
entrar na civilização do bronze e do ferro.

Em todo o caso, o crescimento cultural tem sempre de contar com a


alternância da ordem e da desordem, no sentido de alteração das
instituições que já não se enquadram nos novos esquemas de vida da
sociedade. É este o sentido habitual do conflito das gera- ções. De
qualquer modo é através de todos os inconformistas com as instituições
socioculturais, os marginais ou marginalizados pela sociedade, que a
sociedade pode evoluir culturalmente. Incluem-se neste caso os
cientistas e técnicos inovadores capazes de ultrapassar os paradigmas
de explicação político-social, científico-técnico e artísticos da cultura
oficial, criando alterações com as suas invenções teóricas e práticas. São
os elementos que, interiorizando o ímpeto de mudança social, se tom@m
capazes de negar as

instituições vigentes, podem alterá-la ou reformá-la.

Os elementos mais vocacionados para assumirem esta posição de


contestação ao sistema são precisamente aqueles que conhecem o
sistema por dentro, que conhecendo-o o podem desmontar, ou seja, os
elementos saídos da superstrutura, ideolólogos, cientistas, técnicos,
professores,- quando esta contestação se organiza em torno de um novo
modelo social, pretendendo substituir todo o sistema sociocultural
vigente, está-se em presença duma Contracultura.

A Contracultura hippy dos anos cinquenta e sessenta foi uma reacção à


guerra do Vietnam e à recusa da burocracia crescente dos “colarinhos
brancos” da sociedade americana. Há sempre uma recusa à
uniformização, à massificação, que se manifesta dentro dos grupos
sociais e étnicos.

«Nos arredores das cidades, as resistências à integração cultural são


mais sensíveis e

ainda há laços que unem os citadínos recentes ao universo que


abandonaram ou que os atrai. Prova disso é este inquérito realizado por
uma equipa de prospecção nas zonas das pequenas casas individuais
das grandes concentrações urbanas. Habitantes anónimos criam um
universo simbólico com a ---decoração de vedações, a ornamentação de
fachadas, as paisagens que incluem as escadas, o jardim, a cerca...
miniaturizações que, a partir de pequenos jardins, sugerem espaços
imaginários---. »

Daniei Lecombe, Le Monde Diplomatique, 1976

As sociedades permissivas actuais, as democracias em particular,


conhecem uma verdadeira obsessão contra a diferença, utilizando vários
processos para impedir a difusão da contracultura ou simples posições
de contestação. Com um aparelho de controlo de massas extremamente
organizado, como é o caso do concurso dos meios de comunicação de
massas, as democracias podem facilmente destruir um movimento de
contestação utilizando a arma de sua vulgarização, desvirtuando-lhe o
sentido con@estatário. É conhecido o significado da utilização das calças
de ganga como esforço de contestação contra a discriminação social
através do vestuário e do cabelo comprido contra as práticas dos
burocratas. Cadeias de produção divulgaram a utilização das calças de
ganga, que passaram a ser produzidas para todos os grupos etários e
sociais - e não compradas, velhas, na Marinha Mercante - fazendo-lhe
perder a força simbólica. Todos os simbolos do movimento hippy
sofreram a mesma capitalização económica e este movimento acabou
por ser dominado por uma via considerada não violenta.

116
Os sociólogos actuais duvidam da eficácia duma Contracultura nas
sociedades industrializadas nos tempos de hoje,- os casos históricos da
Concracultura cristã no mundo romano, impondo-se como cultura
oficial com a queda daquele, é hoje verdadeiramente apenas um caso
histórico.

Na realidade, os sistemas ao divulgarem elementos contraculturais, de


cultura marginalizada, mesmo da cultura popular, tiram dividendos
desse facto, não só económicos, mas igualmente de crescimento. É um
facto inegável que a utilização das calças de ganga por todos os jovens, e
a moda dos cabelos compridos contribuíram para uma indiscriminação
social e uma libertação dos costumes, se bem que muito aquém do
esquema cultural proposto pelo movimento hippy.

Agrupamento hippy nos anos sessenta

A cultura hoje tende portanto à mundializacão, devido ao sistema de


comunicações, aos audiovisuais e à inegável comunicaçao entre os
vários países do mundo, mesmo entre aqueles que por motivos político-
ideológicos aparentam um bloqueio à circulação de informações. A
tendência geral é a da industrialização, verificando-se plenamente, a
nível de todo o planeta, o desaparecimento das minorias étnicas ainda
ciosas das suas culturas tradicionais. Segregadas e artificialmente
isoladas no mundo industrial tendem a perder a sua verdadeira
identidade. A sociedade industrial planetária surge como a maior
sociedade etnocêntrica da história, dificultando a acção de pesquisa das
diferenças culturais, nas quais a Antropologia procura encontrar ainda,
resposta para problemas negativos do crescimento cultural do mundo de
hoje, especialmente o problema da crescente dependência da cultura.

Minorias étnicas segregadas pela civilização industrial

117
«Designou-se por democracia de ---Massas- o traço fundamental que
determina as formações políticas contemporâneas. (.. J Pretendemos
esboçar aqui os seus elementos

pn .ncipai.s,. na democracia de massas já não são os indivíduos, nem os


grupos individuais identificáveis, que constituem os verdadeiros
elementos da política, mas ---totalidades unificadas e uniformizadas---.
Estas surgem sob a forma de duas unidades determinantes:
primeiramente, o enorme aparelho de produção e distribuição da
indústria moderna,- e

em segundo lugar a massa que serve esse aparelho.

0 facto de se dispor de*sse aparelho, ou mesmo das suas posições-


chave, significa que se dispõe das massas,- esta posição de força resulta
automati .camente da divisão do trabalho - éa resultante téçni .ca como
racionalidade do funcionamento do aparelho que englo@a e mantém o
conjunto da sociedade. »

Herberi Marcuse, Teoria das pulsões e liberdade

Que salda?

118
(3. A ANTROPOLQGIA CULTURAL PORTUGUES,@
01

José Leite de Vasconcelos i@W

3. 1. Alguns aspectos hístóricos

A Antropologia científica portuguesa só se constitui no século XIX,


quando a maioria das ciências humanas se definem cientificamente
dentro dos quadros do Positivismo.

Entretanto podem considerar-se muitos trabalhos de observação e


descrição dentro do âmbito antropológico, muito antes desta disciplina
se ter definido com objecto e método próprios.

Podem sistematizar-se dois grupos de documentos e estudos que tratam


de povos e culturas.- o período da literatura de viagens, historiografia e
ciência náutica, desde meados do século XV a meados do século XVII e o
período do liberalismo.

A expansão marítima portuguesa põe em contacto civilizações


desconhecidas ou apenas vagamente apreendidas, como as orientais,
africanas e americanas. E precisamente no século XVI que surge a
palavra civilizar e civilizado, em resultado da situação de contacto
provocado pelas descobertas, e do consequente etnocentrisnio Cluk5 13
assumido pelos descobridores europeus. Os portugueses, a partir da
prática da Ciência Náutica desenvolveram todo um universo técnico e de
observação científica, que está intimamente relacionado com o seu tipo
de expansão: comercial e marítima. Surge um conjunto de ciências de
observação como a Geografia, Climatologia, Zoologia e Botânica
Ultramarinas e, espalhadas em Roteiros, Mapas e Cartas, em obras de
historiografia ultramarina e em relatos de viagens, todo um conjunto de
informações sobre observações antroplógicas e etnográficas. Três obras
tornaram-se clássicas pela informação antropológica sobre culturas e
povos ultramarinos: A Carta ao Rei Manuel (1500) de Pêro Vaz de
Caminha, escrita do Brasil ao rei D. Manuel 1; o «Esmeraldo de situ
orbis» de Duarte Pacheco Pereira (1505-1508) e a «Peregrinação» de
Fernão Mendes Pinto (1570-80).

Porém, tanto capitães de navios, marinheiros cultos e os religiosos que


acompanhavam as descobertas ou viagens comerciais, nomeadamente
franciscanos e jesuítas, deixaram um notável conjunto de obras onde a
observação, o espírito crítico e a isenção duns e a minúcia de outros
ajudam a um estudo sempre renovado de duas culturas em

paralelo: a dos observadores e a dos observados.

Obras com referências antropológicas são ainda, e entre muitas, a «


Crónica do Descobrimento e da Conquista da Guiné», de Zurara, a
«Relação sobre o Congo», de Rui de

120
Pina, o «Jornal da Primeira Viagem de Vasco da Garna», de Alvaro Velho,
«0 Livro d(.., Duarte Barbosa», «A verdadeira informação das Terras de
Preste João das indias» do Padre Francisco Alvares, a « Informação de
algumas causas dos costumes e leis do Reino da China», anónimo, o
«Itinerário», de Antônio Tenreiro, «As lendas da india», de Gaspar Correia,
«0 Tratado sobre a China do Sul», de Galeote Pereira, o «Tratado em que
se

contam muito por extenso as cousas da China, com suas


particularidades e assim do Reino de Ormuz», de Gaspar Cruz e ainda
alguns episódios da « História Trágico-marítima».

0 século XVII, nomeadamente a partir da Restauração, preocupa-se em


criar uma história de Portugal justificativa da sua autonomia. Se bem
que contestada essa história, nomeadamente com Alexandre Herculano,
promoveu um estudo e levantamento das coisas portuguesas, que iriam
incluir aspectos antropológicos, especificamente da Pré-história
portuguesa, efectuados a partir do século XVIII com as Luzes. 0
Liberalismo, nomeadamente o liberalismo romântico de Almeida Garrett
e Alexandre Herculano, iria criar um novo período de documentação
com características antropológicas, no nosso

país. 0 liberalismo pretende fundamentar-se e legitimar-se com o


período que antecede o Estado Absoluto que acabara de destruir. A
Idade Média, a origem das nacionalidades, a origem dos povos, das
nações e do sistema jurídico passam a ser o tema mais procurado pelos
historiadores. A cultura popular, remetida a tradiçõ es originais, é
tratada por Almeida Garrett, numa linha de levantamento etnológico que
já vinha do Iluminismo. Alexandre Herculano inicia também um tema
que fará escola no pensamento português contemporâneo: o tema da
decadência nacional,- dele falarão Antero de Quental, nas

Conferências do Casino, Oliveira Martins e Antônio Sérgio.

A Geração «Socialista» de 1852, ao fazer a crítica do regime regenerador,


considera também aspectos sociológicos portugueses, nomeadamente,
Pedro de Amorim Viana.

0 Romantismo debruça-se também sobre as tradições populares,


nomeadamente a

poesia e danças dos. cancioneiros regionais. É, porém, com o Realismo


que este tema ganha maior interesse e é incorporado na literatura e nas
belas-artes.

É com a introdução da prática do método experimental que surge a


ciência antropológica. A Antropologia surge no universo do positivismo,
tentando afirmar-se como ciência, porém aparece marcadamente
ideologizada pelo nacionalismo. Ao contrário das congéneres europeias
que se afirmam gravitando em torno do domínio colonial das grandes
potências, a Antropologia portuguesa só muito tarde se debruça sobre
os povos e culturas das colónias. 0 seu centro de interesse irá ser a
definição do homem primitivo português, pretendendo encontrar não
apenas uma diferença étnica como uma anterioridade temporal. Não
admira, pois, que os antropólogos portugueses sejam muitas das vezes
pró-historiadores e mesmo médicos. A Antropologia Portuguesa irá
mesmo definir-se estritamente dentro do campo da Antropologia Física,
como o determinou Mendes Corrêa.

«Estudo dos caracteres físicos e psíquicos sobre os três aspectos:


1. - da posição do homem na escala zoológica,
2. - da origem do homem e conhecimento dos primeiros hominídeos,
3. - da classificação das raças, povos e tipos humanos.»
Os trabalhos que mais especificamente entram no campo da
Antropologia Cultural ou da Etnologia surgem ligados à pesquisa
linguística, à recolha folclórica de costumes, contos populares,
cancioneiros e, dentro do âmbito da Geografia Humana e da
Historiografia, costumes e crenças tradicionais.

A verdadeira Antropologia Ultramarina só se destaca a partir de finais de


cinquenta com o Centro de Estudos de Etnologia do Ultramar.

É só a partir do 25 de Abril que se voltam a criar cadeiras de


Antropologia em vários cursos universitários; a Antropologia Cultural
hoje dedica-se especialmente ao levantamento de comunidades
tradicionais, de acordo com o novo objecto antropológico e,
presentemente, para lá das Universiacides, concentra-se nos Museus
antropológicos que pretendem tornar-se verdadeiros centros de estudo e
intervenção, e em revistas da especialidade como é o caso da muito
recente «Meridies», que inclui trabalhos dos antropólogos activos como
Veiga de Oliveira, Mesquitela Lima e Armindo Santos.

C. eC.-6

121
3.2. Nomes da Antropologia Portuguesa

0 primeiro Museu Antropológico é criado por Carlos Ribeiro, que


levantaria o problema do homem português do Terciário, a partir de
sílices levantados no vale do Tejo e

do Sado; se bem que o homem terciário - o « Homo simius Ribeiroi» - não


tenha tido comprovação, a Antropologia Portuguesa criara um público e
um interesse não só nacional como internacional. Surgem então
comissões de Antropologia na Sociedade de Ciências Médicas e na
Sociedade de Geografia em 1879, e em 1880 reúne-se em Lisboa o IX
Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré~histórica.
Em 1893, existindo já a cadeira de Antropologia e Arqueologia Pré-
histórica na Universidade de Coimbra, forma~se o Museu Etnográfico
Português, que virá a chamar-se mais tarde Museu Etnográfico Dr. Leite
de Vasconcelos, e ainda a Sociedade de Antropologia de Coimbra.

Na cidade do Porto, um grupo de antropólogos reúne-se em volta da


Revista «Portugáiia», que será o gérmen da Sociedade Carios Ribeiro.
Antropólogos como Ricardo Severo, Rocha Peixoto, Fonseca Cardoso e
José Fortes, da Revista Portugiália, dariam origem à Sociedade
Portuguesa de Antropologia, que será fundada pelo Professor Mendes
Corrêa. Todos estes antropólogos são simultaneamente Pró-
historiadores e procuram caracterizar as culturas e os povos da Pró-
história Portuguesa, nomeadamente a cultura megalítica. 0 núcleo de
antropólogos da Sociedade Portuguesa de Antropologia era constituído
além de Mendes Corrêa, por Aarão de Lacerda, Luís Viegas e Bento
Carqueja.

A este núcleo inicial juntaram-se praticamente todos os antropólogos


portugueses que desenvolveram esta ciência na primeira metade do
século XX, como José Leite de Vasconcelos, Vergílio Correia, Eusébio
Tamagnini, Baltazar Osário e José Ribeiro Fortes.

Os levantamentos regionais são estabelecidos na perspectiva do estudo


das origens nacionais, nomeadamente da civilização castreja: Martins
Sarmento, Francisco Alves e o Abade de Baçal recolhem material no
Noroeste e no Nordeste; Rocha Peixoto, na Póvoa, e Estácio da Veiga, no
Algarve. Ricardo Severo procura as origens das comunidades do Porto
primitivo e da nacionalidade.

Com a criação do Centro de Estudos Ultramarinos iria abrir-se a


Antropologia do Ultramar, que estuda nomeadamente as culturas e
etnias angolanas. Também na revista criada no Porto por Mendes
Corrêa, «Trabalhos de Antropologia e Etnologia», se levantam culturas
ultramarinas.

Nos anos cinquenta, a Antropologia começa a centrar-se em Coimbra em


volta da acção de investigação e, pela primeira vez, numa tentativa de
organização teórica de Jorge Dias. Oriando Ribeiro, através de estudos
do âmbito da Geografia Humana, contribui com importantes trabalhos
etnológicos sobre a sociedade portuguesa, desde o Neolítico.

Mantém-se, porém, certa indeterminação nos estudos antropológicos.

«Esperemos que, com o desenvolvimento actual dos estudos de


antropologia na Universidade de Lisboa, tal trabalho (relação entre o
sistema de propriedade, família e valores, em Portugal) venha um dia a
ser feito. Até lá teremos apenas como em tantos outros sectores da
sociologia e da história contemporânea portuguesas, sugestões, palpites
e quando muito hipóteses não provadas.

Esta situação é particularmente grave. Se se tratasse de ciências


naturais, de botânica ou astronomi .a, por exemplo, tal fase de
conhecimento faria de nós apenas um país ignorante. Tratando-se de
ciências históricas e sociais, faz de nós um país enganado e presumido,
Na falta de evidência produzida por profissionais, o campo está entregue
aos leigos e aos amadores, pois podem-se escrever asneiras sobre
história e sociedade com muito mais impunidade (e alarmante sucesso)
que sobre pteridófitas ou galáxias. Os ficcionistas, os jornalistas e os
políticos arvoram-se em historiadores e em sociólogos e têm os seus
públicos. ( ... ) E enquanto na Universidade ou fora dela, centros de
investigação adequados não produzam trabalhos que possam concorrer,
no mercado das ideias, com os exercícios dos amadores, a situação
tenderá apenas a piorar. ( ...)

Tal é o caso de alguns profissionais portugueses que, tendo conseguido


sobreviver às estruturas, vão publicando os seus trabalhos. Mas
enquanto as estruturas não permitirem que muita mais gente estude
muito mais o muito que, em matérias de história e sociedade, está por
estudar em Portugal, os esforços desses poucos profissionais não

icientes para podermos ter uma visão correcta de quem fomos e de


quem somos. » serão suf

José Cutileiro, Prefácio a Honra e Vergonha, ob. cit., 1971

122
.. ... .....

Moo
RABALHOS PRÃTICOS

4. 1. Leitura de textos

UMA INSTITUIÇÃO

0 NAMORO EM 1815

«Em 1815podia-se namorar honestamente de umajanela para a outra,


na Rua das Flores, sem que uma patrulha insolente parasse debaixo
para testemunhar a vida íntima dos que lhe pagam. Podia cochichar
delícias a donzela recatada da trapeira para a rua, sem que o amador
extático ao som maviosíssímo daquela voz, receasse o retire-se! brutal
do janizaro. Podia, finalmente, segurar-se o gancho de uma escada de
corda no terceiro andar, subir impavidamente, conversar duas horas
sobre vários assuntos honestos, e

descer, sem o receio de encontrar cortada a rectaguarda por um


selvagem armado à nossa custa, que nos conduz ao corpo da guarda a
digerir a substância da deliciosa entrevista.

Bem-aventurados, pois, os que namoraram em 1815. U J

- Quem é aquele peralvilho que bate à porta da D. Rosa? Temos namoro,


se dermos ouvidos à tia Bemarda Estanqueira, que mora na viela do
Bonjardim, e que tem um olho na balança do simonte, e o outro, que por
sinal é vesgo, na porta da filha do arcediago.

- Que berzabum de escanelado será aquele, que parece que traz


espartilhos! Valha-o a breca que tão teso está! Aquilo não me parece
homem cá do Porto! Parece mesmo um comediante daqueles que berram
umas cantigas na casa das óperas da Batalha... ó tia Joaquina! (a tia
Joaquina era uma vizinha, que estava dobando ao sol) vossemecê não vê
acolá aquele ingarilho que já puxou duas vezes a sineta?
- Já vi.
- Conhece aquela avantesma que me parece mesmo o pecado?
- Conheço... ora se conheço!... Aquele é o sobrinho do senhor Antônio da
Rua das Flores, que me tem dado muito pãozinho. Quando eu ia dantes
levar-lhe os novelos do algodão, aquele menino era cai@(eirinho na casa;
mas pelos modos ele agora estuda para doutor.

- Sim? pois olhe que daquele magricelas não pode sair grande doutor!
Acho que um

homem assim não tem boas as memórias, nem sustâncias para saber lá
aquelas cousas da justiça. .. Ele lá entrou... Quer vossemecê ver que a
delambida da rapariga anda de namoro com ele!...

- Agora!... Se fosse isso, ele não entrava assim ao pino do meio-dia...


acho eu!
- Boa vai ela!... Pois vossemecê pensa que as raparigas de agora são
comoas do nosso tempo? Diz o frei Manuel do Santo Lenho, dos
Carmelitas, quejá não há vergonha nem temor das penas do inferno!... E
quer que lhe diga, tia Joaquina? Quanto mais fidalgas, mais
desavergonhadas!... Inda ontem a minha Eusébia, que está em casa de
uma certa fidalga que vossemecê sabe tão bem como eu, me contou que
a sua ama estava com um inglês à janela a dar-lhe beijos, e que ele lhe
dava beliscões nas pernas. A minha Eusébia deu fé desta pouca-
vergonha, sem querer; e a fidalga também viu que a rapariga deu fé,- e
disse-lhe depois: «Eusébia, nós cá as fidalgas podemos fazer isto que
viste; e

vós outras plebeias, não, porque não tendes nada senão a vossa
honrazinha.» Ora que lhe parece isto? Dá mesmo vontade de lhe
responder: « Vá-se daí, sua porca; se Vossa Excelência tivesso o miolo no
seu lugar não consentia que lhe estivesse um herege lá do fim do mundo
a beliscar as pernas, e a pôr-lhe os beiços no cachaço!» Fora com as
libertinas!
- Tem razão, tia Bernarda ... a religião é cá só para os pobres. As ricas
o que querem é ir à igreja mostrar os asseios ... Disse outro dia um
pregador na Vitória, que a casa de Deus estava sendo uma feira, e que
Nosso Senhorpusera as pelicanas fora do templo. . .

124
A pelicanas são as fidalgas... Olhe lá... aquela sumeiga, que ali mora,
será fidalga?
- Acho que sim. 0 pai era o senhor arcebispo de Barroso, e a mãe ouvi
rosnar que era uma das tais pelicanas...

- Consta que tem muito de seu.


- Muitos bragais, muita prata, não sei quantas moradas de casas, e uma
quinta em Paranhos... Que comer não lhe falta; mas acho que a respeito
disto (pondo o dedo na testa) não regula /a grande cousa... Veio aqui há
dias à minha loja uma mulher de mantilha, ainda frescalhona, e
perguntou-me muitas cousas a respeito da tal rapariga. Quem entrava,
quem saí&, se ela andava pela rua, se tinha muitos asseios, enfim, eu
fiquei com a pedra no sapato, e cá de mim para mim entendi que aquilo
era uma refinada alcaiota. Também hei-de saber quem tu és - disse cá
com os meus botões - e mandei, assim que ela saiu, o meu galeguíto
atrás dela. Veio dizer-me que morava num baixo da Rua Direita, e que
se chamava Ana do Carmo...

- Eu sou da sua ideia... isso era volta de alcofeira, que vinha saber se lhe
poderia entregar alguma cartinha daquele fidalgo que mora à Vitória, e
que tem o nariz apurado para as moças como gato para bofes. Há-de
ser isso...

- E olhe que não era outra cousa!...


- E eu até me parece que já o vi aqui passar uma noite.
- E eu também... Que sinais tem ele?

É um pacabote baixo, com a carinha cor de cereja... É o mesmo, que eu


vi, tem carinha cor de cereja, e os olhos a modos de... São azuis... É
verdade, os olhos são azuis... Era o mesmo em carne e osso... E
vossemecê vIu-o entrar para lá?

- Não o juro. mas acho que entrou...


- Eu também não juro, mas parece-me que o vi .entrar...
- Então é que entrou... Que horas eram? -- Meia-noite, mais quarto,
menos quarto. Era ele... foi há-de haver quinze dias... tia Bernarda...
- Há quinze dias... é isso mesmo... por sinal. ..
- Que estava vossemecê no hospital, tia Joaquina, e não podia ver o que
se passava

na rua - interrompeu uma terceira, que estava fiando a um posti .go.

Quem a chama cá? - disse a velha desmentida. Não posso ouvir


murmurar com mentira... nem me parece católica! Ora meta /a a sua
religião no púcaro e coma dela, ouviu, sua Intrometida? Quem não quer
ouvir não mente descaradamente. E que lhe importa a vizinhança?
- E vossemecê que lhe importa aquela senhora que está muda e queda
em sua casa?
- Se come por ela, ganhe a sua vida lá como puder, e deixe conversar
quem conversa! Que lhe parece, tia Bernarda! Sempre há cada
estafermo neste mundo!...

- Isso há!... - disse a tia Bernarda, retirando-se para o estanco a pesar


dez réis de simonte.

Estafermo será ela! - replicou a honesta fiandeira, Cale-se aí, sua


trapalhona! E você... sua língua de trapos! Desavergonhadal Estupor!
Bêbeda! Pangaia! Feiticeira! Ladra! Ladra é você! E você come pela filha!
E você quando casou já comia pelas suas, e tem quatro que não
conhecem os pais! Ladra, ladra, ladra! Bêbeda, bêbeda, bêbeda!
125
A tia Joaquina rematou a apóstrofe, erguendo-se, e curvando-se um
pouco com as costas para a vizinha, e assentando três palmadas que
provocaram esta resposta do postigo:

- Fora porca! regateira! vai vender sardinhas, grandíssima beberrona!»

Camilo Casielo Branco

CASAMENTO EM VILA NOVA DE GAIA

«0 cortejo noutros tempos fazia-se a pé, com ritual próprio. Poucos


casamentos se faziam de carruagem, mas hoje, até nos mais modestos,
existe a preocupação de fazer figurar muitos automóveis, pois pelo
número destes é que fixa a sua mai .or ou menor valia.

0 préstito entrava pela porta principal, e não pelas laterais, como


actualmente também se faz.

Durante o acto canónico o pároco realiza a cerimônia religiosa unindo as


mãos dos noivos com a sua estola e fazendo troca das alianças, que são
levadas numa salva de prata por uma criança vestida de branco.

0 anel do casamento (ou aliança, como é vulgarmente conhecido) tem


idade anteriora Cristo. É símbolo de união dos esposos, significando
amor recíproco.

- Esse anel é de ouro, de bordos arredondados, por vezes repartido em


duas metades que encaixam uma na outra, tendo no inteior o nome do
nubente e a data do casório.

A aliança usa-se no dedo anular da mão esquerda, como faziam os


Romanos, por entenderem que neste dedo existia uma veia ligada ao
coração.

Se um deles for a viúvo, passará a usar no mesmo dedo a aliança (com o


seu nome) que o consorte trazia.

Se completam 25 anos de casados, passam a usar sobre a aliança um


anel de prata em

comemoração de tais bodas.

Muitas vezes o pároco faz aos noivos uma prédica para lhes lembrar os
seus deveres, lavrando depois na sacristia o respectivo assento, sendo
as despesas pagas pelos padrinhos.

No final, depois de dado o nó, forma-se de novo o corteio para o regresso


a casa da noiva, onde quase sempre se realiza a boda.

À salda da -igreja os amigos e curiosos lançam sobre os nubentes


confeitos, arroz e missanga, que as crianças disputam em grandes
combates, lançando-se entre os convidados e originando cenas alegres e
de riso.

0 regresso, sendo possível, deve ser feito por caminho diferente daquele
que foi utilizado para a ida (para não voltar atrás, desfazendo o que está
feito).

Hoje já usam lançar papelinhos às cores, como fazem noutras hipóteses,


o que representa uma adulteração das costumeiras tradicionais.
0 arroz e os confeitos auguram abundância e progenitura numerosa.
0 costume de lançar arroz deve resultar de uma tradição oriental para
pressagiar uma despensa fartamente fornecida.

Nalgumas freguesias do concelho de Gaia, há já muitos anos, faziam


homenagens aos

noi.vos mais ricos adornando as ruas com arcos de madeira, que


cobriam com papéis coloridos e flores, pendurando neles lenços de seda,
cordões, brincos, fios de ouro e
outros adornos.

Junto dos arcos colocavam duas cadeiras e uma mesa, cobrindo esta
com toalha branca e, aí, em duas salvas de prata, dispunham doces
numa e noutra dois cálices, um

de vinho e outro de água, ficando uma terceira salva vazia.

Para cumprir e dar satisfação àqueles que promoviam a homenagem


(que há muito tempo já não se faz) os recém-casados passavam sob o
arco e iam sentar-se à mesa, comendo doces. Se o não fizessem
conquistavam a antipatia geral.

0 noivo dava depois à noiva o copinho de vinho, que ela bebia, tomando
ele o de água.

126
Os convidados, por sua vez, para ajudarem às despesas da homenagem,
lançavam dinheiro na salva vazia, à medida que passavam.

0 cortejo prosseguia depois até à casa dos pais da noiva, onde se


realizava a boda do casamento.

A certa hora, sem o anunciarem e de certo modo às escondidas,


aproveitando a distracção dos convidados, os noivos com mais posses
saíam em viagem de núpcias, para a

chamada lua-de-mel (diz-se que uma antiga tradição inglesa


determinava que os noi .vos tomassem uma bebida feita com mel,
bebendo-a até que a luz desaparecesse no céu). Actualmente ainda se
cumprem estas pragmáticas.

- Para dar felicidade, é bom para a noiva que ela, no seu dia grande, leve
vestida uma peça de roupa usada e leve escondida em qualquer bolso
uma cabeça de arruda com cinco dentes.

- Mas é de mau gosto que o enxoval dos noivos tenha cores azuis ou a
noiva se apresente com vestidos pretos.

Em certos lugares, porém, entendem que a noiva que vaipara o


casamento deve levar vestida uma peça azul, costume que se julga ter
origem num costume de Israel, onde as noivas usavam uma faixa azul
na borda da saia, para significar pureza, amor e fidelidade.

- 0 povo crê que o casamento será feliz se no dia da boda estiver a


chover mas, em certas freguesias, a felicidade só advém se chover depois
de ter feito sol.

- A mulher grávida não pode ser madrinha de baptizado, pois, se o for, a


criança morrerá.

- As crenças supersticiosas do povo entendem que não se pode casar em


certos dias da semana, que são aziagos (terças, quartas e sextas-feiras),
nem em certos meses (Agosto e Novembro), nem em anos bissextos.

Lá diz o povo: «à terça não cases a filha, nem urdas a teia».


- As roupas da noiva e seus adornos estão sujeitos também a certas
prescrições tradi-

ci onai s.

A noiva veste-se de branco, com um pequeno véu sobre o rosto, levando


na cabeça um diadema de flor de laranjeira, preso no cabelo, símbolo de
pureza e virgindade, costume que se diz remontar ao tempo dos Mouros.

A flor de laranjeira também se usa no peito em jeito de adereco. A noiva,


se não está virgem, não pode levar a flor de laranj eira, pois de
contrário engana a Deus. E também não deve deixar no altar o ramo de
flores que costumam oferecer a N. ‘ Senhora.

- Na boda, as raparigas e rapazes solteiros colocam-se debaixo do véu a


comer bolo de noiva, para casarem, bolo que é partido pelos noivos e por
ela oferecido.

Mas os namoros arranjados na boda não são felizes.


- A noiva não deve fazer a cama para a noite de núpcias.
- A mulher, quando está para lhe nascer um filho, pretende saber com
antecedência qual o sexo, a fim de lhe fazer ou mandar executar as
roupas, pois, se for menina, terão a cor rosa e, se for rapaz, a cor será
azul, forrando-se o berço com as mesmas tonalidades.

Para desvendar o segredo o povo usa uma prática supersticiosa,


utilizando uma peneira, onde se coloca uma tesoura aberta no rebordo.

Suspendem depois a peneira, colocando na parte interior do fundo um


carrinho de linhas e um vintém.
Na tesoura dependuram um terço, ficando a cruz caída sobre a peneira.
Dos lados da peneira colocam-se duas pessoas e cada uma delas
segurará com o indicador da mão direita um arco da tesoura.

Marcam depois a posição de rapaz ou rapariga, num ou noutro lado, e


perguntam:

Peneira de Deus e de todo o mundo Fala-me verdade Pelas três pessoas


da SS.ma Trindade!

A peneira voltar-se-á sozinha para um dos lados, assinalando o sexo. A


prática repete-se por três vezes.

127
Esta superstição da peneira também é utilizada para outras
adivinhações; por exemplo, para saber do êxito de um namoro,

- Entende o povo que «quem casa, quer casa» e, por isso, os recém-
casados devem ter casa própria.

«Entre marido e mulher não metas a colher», é ditado que serve para
mostrar que ninguém deve intrometer-se nos seus problemas - «entre
casados, ninguém se meta».

- Durante a cerimônia do casamento acendem-se duas velas no altar. A


vela que estiver mais frouxa prevê que morre primeiro o nubente que
está colocado desse lado.»

Caséqmento em V N Giiá -- Tradicões de casamento, Car@os Vale, JLjnla


de Invesiigacão do Uliramar, Lisboa, 1965

ENDOCULTURAÇÃO

CARTA AO MEU FILHO

«Quendo Stefano, aproxima~se o Natal e em breve as lojas do centro se


encontrarão apinhadas de pais excitadíssímos que desempenharão a
comédia da generosidade anual - eles, que esperaram com hipócrita
alegria o momento de poderem comprarpara sipróprios,
contrabandeando-os por filhos interpostos, os comboios de miniatura
favoritos, os teatros de fantoches, as flechas de tiro ao alvo e os pingue
pongues domésticos. Eu ficarei a olhai, porque este ano não é ainda a
minha vez, tu és pequeno de mais por enquanto, e os brin quedos
Montessori não me divertem muito, talvez porque não gosto de os meter
na

boca, e de resto as recomendações afirmam que não servem para comer.


Não, tenho de esperar: dois, três, talvez quatro anos. Depois chegará a
minha vez, passará a fase o,) educação maternal, cairá a época do
ursinho e será o momento de começar eu, com @@ suave violência
sacrossanta do pátrio poder, a moldar a tua consciência de civilizado. E
então, Stefano...

Então ofereço-te espingardas. De dois canos. De repetição. Com mira


telescópica. Canhões. Bazucas. Sabres. Exércitos de soldadinhos em
formação de batalha. Castelos com pontes levadiças. Fortes para cercos.
Casamatas, paióis, couraçados, reactores. Metralhadoras, punhais, revó
lveres de tambor. Colts, Winchesters, rifles, Chassepots, noventa e uns,
Garands, obuzes, colubrinas, arcos, /undas, bestas, bolas de chumbo,
catapultas, faláricas, granadas, balázios, espadas, chucos, lanças,
alabardas e ganchos de abordagem; e canhoneiras de calibre oito, as do
capitão Flint (em memória de Long John Silver e de Ben Gun). Adagas,
como as que agradavam a Don Barrejo, e lâminas de Toledo, daquelas
com que se faz o golpe das três pistolas - o estirão enxuto do marquês de
Monflimar -, ou a massa do Napolitano, com que o barão de Sigognac
fulminava o primeiro valentão que tentasse raptar-lhe a sua Isabella; e
depois as achas, as partigiane, as facas de golpe de misericórdia, o driss,
as garrochas, as cimitarras e verretoni, e bastões de fogo, como aquele
que fazia morrer fulminado John Carradine, e quem não se lembra disso
pior para ele. Sabres de abordagem capazes de fazerem empalidecer
Carmoux e Van Stiller, pistolas enfeitadas com arabescos como Sir
James Brook nunca teve (senão, não se teria dado por vencido frente ao
enésimo cigarro sardônico do português), e estiletes de lâmina
triangular, como aqueles com que, enquanto o dia morria com razoável
suavidade em Clignancourt, o discípulo de Sir Williams deu a morte ao
sicário Zampa, uma vez consumado o matricídio na pessoa da velha e
sórdida Fipart, e «peros» de ferro, como o introduzido na boca do
carcereiro [a Ramée enquanto o duque de Beaufort, com os pêlos
remanescentes da barba tomados mais sedutores pelos longos cuidados
de um pente de chumbo, se afastava a cavalo antecipando o sabor da ira
de Mazarino; e bocas de fogo carregadas de pregos, disparando com os
dentes vermelhos de bétel, e espingardas de coronha de madrepórola,
empunhadas em cima de corcéis árabes de pêlo brilhante e pescoço
nervoso; arcos rapidissimos, capazes de porem verde o xerife de
Nottingham, e facas de escalpe, como as possuía Minnehaha ou ffima
vez que és bilingue) Winnetou. Pistolas pequenas e achatadas,
transportadas na casaca,

128
para os tiros do ladr,@o-fidalgo, ou Lugers pesadissimas, inchando o
bolso ou pesando nas axilas, à Michael Shaynne. E mais espingardas.
Espingardas, espingardas de Ringo, de Wild Bill Hitchcock, ou de
Samblgliong, até à sobrecarga final. Armas, em resumo, rneu filho,
muitas armas, só armas. São o que te dará o teu Natal.

«Surpreende-me, senhor» hão-de dizer-me, «0 senhor que milita num


comité para o desari-narnento nuclear e fllrta com os conselhos da paz,
que anda nas rnarchas e cultiva o pacifismo;» Contradigo-me? Pois bem,
contradigo-me (Walt Withman).

Numa certa manhã, eu prometera uma prenda ao filho de uni amigo, e


en Irei no arma zém de Frankfurt à procura de um revólver de tambor.
Olharam-i-ne escandalizados. Não ternos brinquedos de guerra, senhor.
Era de uma pessoa se sentir gelada. Saí mortIficéW() e ia partindo o
nariz em cima de dois homens da Bundeswehr que seguiam pelo
passeio. Voltei à realidade. Não voltaria a enganar-me, daí em diante
basear-me-ia apenas na expen .ência pessoal e desconfiaria dos
pedagogos.

Tive uma infância forteinente, exclusivamente bélica. escondlH-i7ie


éIr/@@s (bs coisdS, eroboscado, para fazer fogo com a minha espingarda
de repetição, conduzia assaltos corri armas brancas, perdia-me em
batalhas ultra-sangrentas. Em casa, soldadinhos. Exércitos Inteiros,
aplicados em estratégias enervantes, operações que duravam senia-

rias, ciclos prolongadíssimos em que eram mobilizados até os restos do


urso de pelúcia e as bonecas da minha irmã. Organizava bandos de
aventureiros, fazia-me tratar, Por um

punhado de facínoras fidelissimos, por w terror da Piazza Genova»


@agora Piazza Matteotti); rompi com uma formação de «Leões Negros»
para rrie reunir a outro grupo mai s forte, em cujo interior
organizei .depois um pronunciarnento de consequenci .as brutais,
isolado ern Monferrato fui alistado à força pelo Bando do Stradino e sofri
unia cerimónia de iniciação que consI .sti.a em cern pontapés no
traseiro e na prisão por três horas num galinheiro,- combatemos contra
o grupo do Rio Nizza, eles eram uns porcos negros e terri,vei.s, da
primeira vez tive medo e fugi, da segunda apanhei com uma pedrada
nuin dos lábios e fiquei com uma saliência nodosa nele que ainda hoje
se sente com a língua. i`Depois veio a guerra autêntica, os resistentes
emprestavam-nos a Stem por dois segundos e vimos alguns amigos
rnortos com um tiro na testa, mas então estava a tomar-me adulto e
andava ao longo das margens do Belbo para surpreender os jovens à
volta dos dezoito anos a fazer amor, excepto durante os momentos das
primeiras cris@es místicas.)

Desta orgia de jogos de guerra saiu um homem que conseguiu fazer


dezoito meses de serviço militar sem tocar numa espingarda e que
dedicava as longas horas da caserna a severos estudos de filosofia
medieval, um homem acabrunhado por numerosas iniquidades, mas
sempre inocente do monstruoso delito que consiste em amar as armas e
acredrtar na santidade e eficácia da coragem bélica.

Um homeni que só compreende o valor do exerci 1to quando o vê ria


/an/ü dás Ir7uí@dH uões de Vaiont, recuperando assim uma serena e
nobre vocação civil, Oire não tem é/

miouna fé ern guerrasjustas, e aceita apends as guerras civis, nas qual


.s quern corufiate o /az contra vornade, puxado pelos cabelos, por sua
conta e risco, esperando que a gueira éical)e depressa, e só porque está
a honra eni causa e não é possível compoi as coisas por inenos. E creio
dever este meu profundo, sisteruá(ico, cultivado e documentado hor ror
da guerra aos desabafos saudáveis e inocentes, platonicaniente
sanguiriá rios, que me

foram concedidos ria infância, do tuesino inodo que se sai de um


westem @após urna rixa M)lene, daquelas que fazem desmoronar os
muros do saloon, onde se partem mesas e t?spelhos enormes e
estllhacai77 as vidraças) mais educado, bom e descontreido, disposto a
sorrir ao transeunte que nos empurra COM OS Ombros, a socorrer os
iodssariws caídos do moinho - corno Austóteles bem sabia, quando
pedia à tragédia que agitasse diant(, dos nossos olhos roupas vermelhas
de sangue para nos purificar mais a fundo, inediarm, os divinos sais
ingleses da catarse final.

E IrI7agino, pelo contrário, a ínfância de Eichmann. Debruçado, com o


olhar de contabilista da morte, sobre o quebra-cabeças do meccario,
seguindo as instruções do folheto, ávido de compreender tudo da
caixinha multicor do «pequeno qui 1ml .co», sádico ao dispor os
seus utensílios de carpinteiro de brinquedo num cepilho com a largura
de tini palmo e uma serra de vinte centímetros na madeira aplainada.
Temei os jovens que constroem guindastes em ponto pequeno! Nas suas
cabecinhas frias e distorcídas de ruatemáticos de bibe cornioni-nem-se,
entretanto, os complexos atrozes que hão-de trHns-

129
tornar-lhes a idade madura. Em cada monstrozinho que acciona os
agulheiros do seu caminho -de~ ferro em miniatura, vejo o futuro
director do campo da morte! Ai dos que gostam das colecções de
automoveizinhos, que a indústria dos brinquedos lhes propõe,
horrendos, em réplicas perfeitas, com o porta-bagagens que abre e os
vidros que deslizam para cima e para baixo - tertificante, terrificantejogo
para futuros sargentos de um exército electrónico, que hão-de premir
sem paixão o botão vermelho de uma guerra nuclear!

E possível identificá-los hoje. Os grandes especuladores da construção,


os autores de despe]os em pleno Inverno, que formaram a sua
personalidade através do infame Monopólio, habituando-se à ideia da
compra e venda de propriedades imobiliárias e à mani .pulação
desenvolta de maç os de acções. Os velhos Grandet de hoje em dia, que
formaram o gosto pela acumulação e pela vitória na bolsa nos cartões do
jogo. Os burocratas da morte educados pelo meccano, os moribundos da
burocracia que deram início à sua própri»a morte espl.ri.tual nos
carimbos e selos do correio de brinquedo...

E amanhã? 0 que será uma infância a quem o Natal industrial traz


bonecas americanas que falam, cantam e se movem sozinhas;
autómatos japoneses que saltam e dançam sem que a pilha se gaste
jamais, automóveis radiocomandados, cujo mecanismo permanecerá
para sempre ignorado...

Stefano, meu filho, hei-de oferecer-te espingardas. Porque uma


espingarda não é um jogo. E só o elemento potencial de um jogo. A
partir daí tem sempre de se inventar uma situação, um cony .unto de
relações, uma dialéctica de acontecimentos, Terás de fazer «pum!» com a
boca, e descobri .rãs que o j.ogo vale pelo que nele conseguimos
meter, e

não pelo que encontramos já dado. Imaginarás destruir inimigos, e


satisfarás um impulso ancestral que nenhuma camada de civilização
consegui rã jamais anular, a menos que faca de ti um neurótico
pronto para o exame administrativo através do Rorschach. Mas ao
mesmo tempo aprenderás que destruir os inimigos é uma convenção
lúdica, um jogo entre os jogos, e fixarás assim que se trata de uma
prática estranha à realidade, da qual, através do jogo, conhecerás bem
os limites. Ficarás purgado de raiva e tensão, e estarás pronto para
receber outras mensagens, que não corntemplem a morte nem as
destruicÕes, será importante, assim, que morte e destruição te surjam
sempre como dados (1, fântasia, como o lobo do capuchinho vermelho,
que cada um de nós odiou, sem que dê,, ienha nascido qualquer ódio
insensato pelos cães-lobos.

Mas talvez isto não seja tudo, e não será realmente tudo. Não te
permitirei que dispares o teu Coft só a título de descarga nervosa, de
purificaçã o lúdica dos instintos primor diais, ficando para depois a
depuração do acontecido, a pars construens, a comunicação dos valores.
Procurarei dar-te algumas ideias, desde o momento em que comeces a
disparar escondido atrás de um sofá.

Sobretudo, não te ensinarei a disparares sobre os índios. Ensinar-te-ei a


atirar sobre os traficantes de armas e de álcool que estão a destruir as
reservas índias. E sobre os esclavagistas do Sul, e contra esses atirarás
como se fosses um dos homens de Línco/n. Não te ensinarei a disparar
sobre os canibais congoleses, mas sobre os comerciantes de marfim, e
num momento de fraqueza talvez te ensine a cozer numa panela o
doutor Livingstone, 1 suppose. Jogaremos do lado dos Árabes contra
Lavvrence, que além do mais nunca me pareceu um belo modelo de
virilidade para rapazitos decentes, e se jogarmos aos Romanos
estaremos ao lado dos Gauleses, que eram Ceitas como nós,
Piemoweses, e mais educados que esse Júlio César, que terás de
aprender em breve a olhar com desconfiança, porque não se tiram as
liberdades a uma comunidade democrática, em troca, depois de a matar,
de alguns jardins de passeio. Estaremos do lado do Touro Sentado
contra esse indivíduo repugnante que foi o general Custer. Do lado dos
boxers, naturalmente. Mais do lado de Fantomas que de Juve,
demasiado apegado ao dever, para não se recusar, na circunstância, a
bater num argelino. Mas estou a gracejar: ensinar-te-ei, é claro, que
Fantomas era mau, mas não te vou contar, cúmplice da corruptora
baronesa Orczy, que Pimpinela Escarlate era um herói. Era um sujeito
vendeiano que dava aborrecimentos ao bondoso Danton e ao puríssimo
Robespierre, e se a brincadeira for para esses lados, hás-de tomar parte
na tornada da Bastilha.

Serãojogos formidáveis, imagina, e brincaremos juntos/ Ali, querias que


comêssemos croissants? Para a frente, senhor Santerre, façam-se tocar
os tambores, tricoteuses de

130
todo o mundo, trabalhai alegremente! Hoje vamos brincar à decapitação
de Maria Antonieta! Pedagogia perversa? Quem o diz? Os que fazem um
filme acerca do herói Fra Diavolo, lacaio como outro não houve a soldo
dos agrários e dos Bourbons? Alguma vez

ensinou o seu filho a fazer de Carlo Pisacane, ou não permitiu que a


instrução primária e

o poetastro Mercantini o fizessem passar aos olhos dos nossos miúdos


por um louro idiota e amavé1 que se tem que aprender de cor?

E o senhor, o senhor que é antífascista, por assim dizer, desde o


nascimento, brincou alguma vez à Resistência com o seu filho? Alguma
vez se escondeu atrás da cama, fingindo estar nas Lunghe e gritando
atenção, da direita vem aí a Brigada Negra, às armas, às armas, dispara,
fogo sobre os nazis? Não, mas oferece ao seu filho peças de construção e
manda-o com a criada ver filmes racistas, que exaltam a destruição das
nações índias.

Por isso, querido Stefano, hei-de oferecer-te espingardas. E ensinar-te-ei


a jogar a guerras muito complicadas, nas quais a verdade nunca
se'encontre de um só lado, ao longo das quais tenham de se organizar
dias 8 de Setembro: Vai ser_ esgotan te, para os

teus anos mais jovens, vou confundir-te um tanto as ideias, mas hás-de
chegar lentamente às tuas próprias convicções. Depois, em adulto,
pensarás que era tudo uma fábula, captichinho vermelho, gata
borralheira, as espingardas, os canhões, o homem contra o homem, a
bruxa contra os sete anões, os exércitos contra os exércitos. Mas se por
acaso, quando fores grande, tiveres ainda por dentro as figuras
monstruosas dos teus sonhos infantis, as bruxas, os cow-boys, os
exércitos, as bombas, as mobilizações forçadas, talvez não tenhas
assumido, nesse caso, a devida consciência crítica perante as fábulas
nem aprendido a mover-te criticamente no interior da realidade. »
Umberio Eco, Diário Mínimo, 1964

4.2. Vísitas

OS CASTROS DA IDADE DO FERRO PORTUGUESA

«Na margem direita do Tejo, a cultura dos castros manifesta-se mais


típica (1), e, à medida que se avança para o norte do país e Galiza, vão-
se aumentando essas estações cuja arquitectura se tem reconstituído
com mais ou menos exactidão.

Os castros (ests. X VI, X VIII e XIX) eram, em geral, limitados por fossos,
muralhas ou

aterros, dispostos num entrincheiramento simples, duplo, triplo, ou


mesmo quádruplo. Esse entrincheiramento era contínuo ou apenas
interrompido nos lugares tornados de mais difícil acesso pelas condições
naturais. Contornava montes e outeiros, na sua encosta ou coroando os
seus cumes. Delimitava um espaço mai .s ou menos amplo onde se
erguiam as habitações, cuja planta era de forma circular ou
quadrangular.

Nos castros a Sul do Douro, predominam estas últimas,- nos do Norte


aparecem com mais frequência as habitações arredondadas, como nas
Citânias de Briteiros e Sabroso (Taipas). A Cidade Velha de Santa Luzia
(Viana do Castelo - ests. XVI e XVII), o castro de Cendute (Arcos de
Valdevez), o Castelo de Alfenim (Bragança), etc, tinham umas e outras,
como talvez o de Guitões (Matosinhos; est. XIA. Alguns, como o de Vilar
de Viande (Trás-os-Montes), têm as casas com a forma de quadriláteros
cujos vértices são, porém, arqueados, dando ao todo um aspecto
grosseiramente arredondado.

Na Citânia de Briteiros as paredes das habitações eram construídas com


as pedras dispostas em fiadas helicoidais. Tanto a construção das
muralhas, como a das paredes das casas, nos castros, é feita geralmente
com pedra solta, sem o aparelho e o cuidado arquitectónico que existia
nas casas romanas. Vê-se que eram obra de construtores indígenas. Em
Conímbriga (Condeixa-a- Velha) a poderosa muralha é de pedras e
argamassa.

(1) Como vimos, há também castres a S. do Tejo, São, porém, talvez


menos frequentes e as Suas explorações menos frutuosas, salvo em
poucos. Além disso, a cultura reconstituída sobre os do N. é mais tipsea,
Dos casrros de além do Tejo mencionaremos, além dos de Chibanes,
Rolura, e dos

das vizinhanças de Alcácer, Grândola e S. Trago de Cacem, já citados, o


de Castro Verde (perpetuado na toponimia), algumas estações da serra
de Ossa e Alandroal, etc.

131
Em alguns castros, como no de Sabroso, havia no centro das habitações
urna pedra sobre a qual provavelmente se fixava lima haste para
suporte da cobertura da casa. Esta cobertura era talvez de colmo, ou
argila e madeira e, só nos romanizados, seria, multas vezes, de telhas.
Também, em alguns, a porta da habitação se abriria nur77 alpendre ou
vestíbulo (Sabroso, Santa Oleia, etc.). Os pavimentos seri .em o solo
natural, barro sern cozedura, ti@*o1o ou até - apenas nos mais ricos e
romanizados - mosaicos, sendo notáveis os de Conímbriga.

Das muralhas, como das paredes das habitações, raro restam porções
intactas, quase sempre existem apenas pedras dispersas e entulho. Em
Conimbriga, porém, a muralha está em grande parte conservada.

A topografia natural e os entrincheiramentos artificiais tornavam os


castros de difícil acesso a assaltantes. A falta de paz e segurança que os
textos acusam na L usitânia pró-romana e nos primeiros tempos da
época romana, reclamava a existência desses redutos defensivos em que
o velho Indígena se refugiava permanente ou transitoriamente contra os
perigos de incursões de rapina ou de assaltos belicosos.

Em regra, um curso de água, de importância variável, serpeia na


encosta ou no sopé do rnonte, ele asseguraria a água necessária aos
habitantes do povoado, que também dispunham por vezes de fontes e
cisternas. A Conimbriga romana era abastecida de água de Alcabideche
por meio durn aqueduto de alguns quilómetros de extensão; um curso
de água, torrencial, existe, porém, nas proximidades do povoado.

0 mobiliário encontrado entre os restos dos castros, citânias, cividades,


etc., é variável. Em geral trate-se de fragmentos de cerâmica, fibulas,
rnós manuais, percutores, inscrições, moedas, esculturas, etc. Nos
romanizados é frequente encontrarem-se telhas de rebordo (tegulae) e
curvas (imbricese) moedas e Inscrições romanas, vasos de cerâmica de
tipos romanos, etc. Alguns fornecem mesmo espécimes da célebre
cerâmica arretina, também chamada samiana, saguntina ou terra
sigiliata, a qual era caracterizada pelo induto de verniz dum vermelho
coralino que a reveste, e cula origem seria Arretium, na Etniria, no
século f/ ou / a. C., mas passando do século / ao /// da era cristã a ser
imitada no sul de Gália e na Germânia.

Mas para a totalidade ou quase totalidade dos castros não é descabido


procurar as origens remotas em tempos proto -históricos e as de muitos
mesmo em tempos pré-históri cos. Já falámos de vários cuja data
ascende ao neolítico e ao eneolftIco. Alguns apreseniam restos de
sucessivas culturas, como o de Chibanes, já citado, e muitos outros, 0
de Praganta @Cadaval) seria pré-romano e romano, apresentando ambos
muitos restos neolí ti.cos e alguns da época dos meteis; uma sua fíbula
teria caracteres de La Tène. 0 de Castelo Velho da Rocha Forte (Cadaval)
segundo Maximiano Apolino seria pré-romeno. A estação do Outeiro da
Assenta (Obidos), explorada pelo sr. Alves Pereira, forneceu restos pré-
históricos, proto-históricos e romanos. foram classificados na 2. ‘ idade
do ferro, ou da transição para ela, os restos duma fibula e alguns
fragmentos de cerâmica indigena incisa. Na cultura do castro de S.
Martinho (Castelo Branco) o sr. Tavares Proença distinguiu também uma
parte pré-romane. Santa Olaia, Crasto e Chões, estacoes da vizinhança
da Figueira da Foz, exploradas por Santos Rocha foram classificadas por
este arqueó logo do período de La Tène, fornecendo a primeira, em que
os restos deste período estavam intercalados entre restos neolíticos e
romanos e até medievais, abundante cerâmica pintada, para a qual
Santos Rocha tinha aventado uma origem ibero-pónice.- trata-se de
cerâmica ibérica, análoga à da Andaluzia e que contrasta com a
cerâmica índlgena, feita à mão, com decorações incisas e estampadas de
motivos variáveis, que domine na maior parte dos castros do noroeste
peninsular. Em Conímbriga l`Concieixa -a - Velha), sobre os restos
importan tes dum po voado romano, do qual se têm descoberto moedas,
incrições, colunas, mosaicos, cerâmicas, sepulturas, etc., explorou
Vergílio Corrêa uma camada com restos pré-romanos, como fíbulas de
tipos Itálicos Qa Certosa, etc.), cerâmica como a de Santa Olaia, uma
placa de ouro do primeiro período de Ia Têne, etc. Há de Conímbriga
uma fibula anular do tIpo indígena da Península, o
qual é mais frequente em Espanha do que entre nós. Há um espécime
análogo de Chões, estação, já citada, dos arredores da Figueira.»

132
INDúSTRIA E REPRESSÃO SEXUAL NUMA SOCIEDADE PADANA

Neste trabalho, o sociólogo italiano Umberto Eco satiriza célebres


trabalhos de investigação antropológica. 0 extracto presente baseia-se
no « Pensamento Selvagem» de Lévi-Strauss, utilizando os modismos e
conceitos antropológicos mais caros a esse antropólogo. As
preocupações anti-einocêntricas da antropologia moderna surgem aí
bem demarcadas para uma leitura atenta,- porém, tal como amiúde
acontece nurn trabalho ocidental, os critérios de leitura e abordagem de
sociedades estranhas estão carregados da cultura do próprio
investigador - o que é sublinhado com ironia.

0 texto tem de ser lido como uma paródia, de sinal negativo: é uma
expedição melanésia que se debruça com o seu aparelho conceptual e
padrões culturais específicos, sobre a nossa conhecida sociedade
industrial dos anos sessenta - mas incompreensível para os melanésios.

«0 presente estudo escolhe como campo de pesquisa o aglomerado de


Milão, no extremo norte da Península Itálica, um protectorado do
Vaticano do Grupo das Mediterrânicas. Milão encontra-se a cerca de 45
graus de latitude norte do arquipélago da Meianésia e a cerca de 35
graus de latitude sul do arquipélago de Nansen, no oceano glacial
Arctico. Encontra-se, portanto, numa posição quase mediana em relação
às terras civllizadas e, embora fosse facilmente atingível pelas
populações esqui .mós, permaneceu todavia fora dos diversos
itinerários etnográficos. Devo o conselho de uma investigação s obre
Milão ao professor Korao Paliau, do Anthropological Institute das Ilhas
do Almiran- ‘ tado e pude levar a cabo este estudo graças ao generoso
auxílio da Abongen Fotindation of Tasmania, que me forneceu um grant
de vinte e quatro mil dentes de cão destinado a perrnitir-me fazer frente
às despesas de viagem e com o equipamento. Não teria, por outro lado,
podido alinhar estas notas com a devida tranquilidade, reexaminando o
material recolhido no regresso da minha viagem, se o senhor e a senhora
Pokanau, da ilha de Manus, não tivessem posto à minha disposição uma
casa palafitica, isolada em relação ao habitual estrépito dos pescadores
de trepeng e dos mercadores de copta, que toma ram infelizmente
infrequentáveis certas zonas do nosso ameno arquipélago. Não me

teria, de resto, sido possível corrigir as provas e reunir as notas


bibliográficas sem a afec tuosa assistência de minha mulher Aloa, que
amiúde soube interromper a confecção de colares de flores. de pua para
acudir à chegada do bote postal e trazer-me para a cas@I palafitica as
enormes caixas de documentos, que fui pedindo ao Anthropological
Documentation Center de Samoa, que seriam pesadas demais para
mim.

Durante anos, os que se ocuparam com o problema dos usos e costumes


dos povos ocidentais faziam-no movendo-se segundo um esquema
teórico a priori, que bloqueava todas as possibilidades de real
compreensã o. A condenação dos Ocidentais à categoria de povos
primitivos, só porque se dedicaram ao culto da máquina, ainda longe de
um

contacto vivo com a natureza, é apenas um exemplo do arsenal de falsas


opi .ni.oes com que os nossos antepassados julgaram os homens
sem cor e os Europeus em particular. UI-77a infundada posição
histoncista induzia a crença de que todas as civilizações percorrem
ciclos culturais análogos, pelo que, examinando-se, por exemplo, o
comportamento de urna comunidade anglo-saxónica, se admitia que ela
se encontrava essencialmente numa fase anterior à da nossa cultura e
que um desenvolvimento subsequente levaria um

habitante de Glasgow a comportar-se à maneira de um melanésio de


hoje. Devemos à obra Inspirada da doutora Poa Kilipak o facto de termos
apurado, entretanto, melhor o

conceito de «modelo cultural», com todas as conclusões espantosas que


este implica. um habitante de Paris vive segundo um conjunto de
normas e de hábitos que se Integram num todo orgânico e formam uma
determinada cultura, tão válida como H nossa, ainda que com traços
modais diferentes. A partir daqui, abria-se caminho para lima correcta
Interrogação antropológica relativa ao homem sem cor e para uma
compreensão renovHda da civilização ocidental (porque - ainda que me
acusem de relatIvísi---77o cínico - é duma civilizaçã o que se trata,
embora os seus modelos sejam diferentes dos nossos. E não está
provado, se me permitem continuar, que colher cocos trepando com os
pés descalços a uma palmeira constitua um comportamento superior ao
do primitivo, que viala de jei comendo batatas fritas do seu pequeno
saco de plástico).

133
Mas também o'método da nova corrente antropológica podia dar lugar a
graves equívocos; como, por exemplo, quando o investigador,
exactamente por ter reconhecido a dignidade de cultura ao «modelo»
estudado, se limitava a colher sem crítica os documentos históricos
directamente produzidos pelos próprios índigenas submetidos à
descrição, daí deduzindo as características próprias do grupo.

A Pensée Sauvage (ensaio de investigação de campo)

0 dia do indígena milanês desenvolve-se segundo os ritmos solares


elementares. Desperta cedo para se consagrar às incumbências típicas
desta população, colheita de aço nas plantações, cultivo de laminados
metálicos, curtição dos materiais plásticos, comércio de adubos
quimicos com o interior, semeadura de transístores, pastoreio de
Lambrettas, criação de Alfa-Romeos, e assim por diante. Todavia, o
indígena não gosta do seu trabalho e faz o possível por evitar o momento
de lhe dar começo; o que é curioso é que os chefes da aldeia parecem
secundá-lo, eliminando, por exemplo, as vias habituais de transporte,
arrancando os carris dos tramways tradicionais, confundindo a
circulação com largos traços amarelos pintados ao longo das ferraduras
dos caminhos (com uma significação nítida de tabu) e, finalmente,
escavando profundas aberturas nos pontos mai .s i.nesperados dos
trajectos, locais onde numerosos índigenas se precipitam e são
provavelmente sacrificados às divindades locais. É difícil explicar
psicologicamente a atitude dos chefes de aldeia, mas esta destruiçã o
ritual das comunicações liga-se sem dúvida a ritos de ressurreição
(pensa-se obviamente que, sepultando habitantes em série nas vísceras
da terra, da imolação destes, à maneira de outras tantas sementes,
nascerão outros indivíduos mais fortes e robustos). Mas a população
reagiu imediatamente com um claro síndroma neurótico a esta atitude
dos chefes, elaborando um outro culto nascido aparentemente de
geração espontânea, exemplo categórico de exaltação colectiva.- o «culto
do metropolitano de carga» (tube cult). Em certas ocasiões propaga-se
pela cidade «0 Rumor», e os índigenas são possuídos pela fé quase
mística de que um dia enormes veículos se hão-de mover nas vísceras
da terra transportando qualquer indivíduo que o queira a qualquer
ponto da aldeia a uma velocidade miraculosa. 0 Dr. Muapach, membro
particularmente preparado e sério da minha expedição, perguntou-se
assim a determinada altura se «0 Rumor» teria origem em qualquer facto
real, e para o comprovar desceu às cavernas referidas: mas nada
encontrou que sequer remotamente fosse susceptível dejustificar os
dizeres dos indígenas.

0 facto de os chefes da cidade quererem manter a população num


estado de incerteza comprova-o um ritual matutino, a leitura de uma
espécie de mensagem hierática que os chefes fazem chegar às mãos dos
seus súbditos ao romper da madrugada, o Corriere delia Sera: a
natureza hierática da mensagem é sublinhada pelo facto de as noções
que a mensagem comunica serem puramente abstractas e destituídas
de qualquer relação com a realidade; noutros casos, a referência toma-
se, pelo contrário, manifesta, conforme pudemos verificar,
proporcionando assim ao indígena uma espécie de contra-realidade ou
realidade ideal, na qual ele presume mover-se como numa floresta de
colunas vivas, quer dizer, de um modo eminentemente simbólico e
heráldico.

Constantemente mantido neste estado de perda, o indígena vive numa


tensão persistente que os chefes apenas lhe permitem descarregar por
altura das festas colectivas, quando a população se lança em grandes
massas para dentro de construções de forma elíptica, donde sai
ininterruptamente um clamor espantoso.

Inutilmente tentamos entrar numa dessas construções,. com diplomacia


primitiva, mas muito desenvolta, os indígenas impediram-no sempre,
pretendendo que adquiríssemos o direito de acesso por meio de certas
mensagens simbólicas que aparentemente estavam à venda, mas pelas
quais nos era pedido um tal montante de dentes de cão que não
poderíamos pagá-lo sem abandonar a seguir a investigação. Obrigados
assim a acompanhar a manifestação do exterior, começámos por formar
a hipótese, avalizada por rumores sonoros e histéricos, de que se
tratasse de ritos orgásticos; mas a seguir tomou-se-nos clara a horrível
verdade. Nestes recintos, os indígenas dedicam-se, com autorização dos
chefes, a ritos de canibalismo, devorando seres humanos que
adquiriram a outras tri .-

134
bos. A notícia destas aquisições é fornecida pelas habituais mensagens
hieráticas matutinas, nas quais podemos seguir dia após dia uma
verdadeira crónica deste gênero de aquisições gastronómicas; dessas
crónicas sobressai que são particularmente apreciados os estrangeiros
de cor, os de alguns ramos nórdicos e grande quantidade de sul-
americanos. Tanto quanto nos foi possível reconstituir, as vítimas são
devoradas em formações colectivas compostas por diversos indivíduos,
segundo receitas complicadas que se vêem publicamente expostas nas
ruas, onde nos apresentam uma espécie de posologia

não i.senta de reminiscências alquimicas, do tipo «3 a Z) «4 a 0», «2 a 1».


Que o canibalismo não representa, todavia, uma simples prescrição
religiosa, mas um vício difundido, enraizado em toda a população,
demonstram-no as somas enormes que os indígenas parece gastarem na
aquisição dos seus alimentos humanos.

Parece, no entanto, que entre os grupos mais abastados estes banquetes


dominicais suscitam um autêntico terror, de modo que, no momento em
que a maior parte da população se apressa em direcção aos refeitórios
colectivos, os dissidentes entregam-se a

uma fuga desesperada ao longo de todas as vias de saída da aldeia,


chocando desordenadamente uns com os outros, atropelando-se com os
veí culos, perdendo a vida em

confusões sangrentas. Estes últimos milaneses parecem, presos de uma


espécie de menadismo, entreverem como única salvação o caminho do
mar, dado que a palavra que ocorre com maior insistência ao longo dos
êxodos sangrentos é Ia barca.

0 baixo nível intelectual destes indígenas está patente no facto de eles


evidentemente ignorarem que Milão não se encontra sobre o mar; e tão
escassa é a sua capacidade de memorização que todos os domingos de
manhã se entregam à fuga consuetudinária e
precipitada para voltarem em bandos espavoridos à cidade nessa mesma
noite, procurando refúgio nas suas cabanas, prontos a esquecerem a
sua cega aventura desde o dia seguinte.

Por outro lado, desde os primeiros anos de existência, o jovem nativo é


educado de modo a que a confusão e a incerteza sejam colocados como
fundamento de cada um dos seus gestos. Típicos a este propósito são os
«ritos de passagem», que têm lugar em instalações subterrâneas, onde os
jovens são iniciados numa vida sexual dominada por um tabu inibidor.
É característica a dança que aípratiçam, na qual umjovem e uma jovem
se

colocam um em frente do outro, sacudindo as ancas e movendo para


trás e para diante os braços flectidos em ângulo recto, sempre de modo
a que os corpos não se toquem. Já nesta dança transparece o mais total
desinteresse por parte de ambos os participantes, completamente
esquecidos um do outro, de tal modo que, quando um dos dançarinos se
dobra assumindo a posição habitual do acto sexual - mimando as
respecti .vas fases rítmicas -, o outro retrai.-se como que
horrorizado e procura escapar curvando-se por vezes até ao chão,- mas
no momento em que o outro, conseguindo alcancá-lo, poderia servir-se
dele, ele afasta-se de súbito, restabelecendo as distâncias. A a-
sexualidade manifesta da dança (um autêntico rito iníciático orientado
pelos ideais da abstinência total) é, no entanto, complicada por alguns
pormenores obscenos. De facto, o bailador do sexo masculino, em vez de
ostentar normalmente o membro nu e de o fazer voltear entre os
aplausos da multidão (como faria qualquer rapazito nosso ao participar
numa festa da ilha de Manus ou noutro lugar), conserva-o
cuidadosamente tapado (deixo que o leitor imagine que estranha
impressão de repugnância isto produz mesmo no observador com menos
preconceitos). De parte da bailadora, esta não deixa soltarem-se-lhe os

seios, e subtraindo-os à vista dos presentes contribui, como é óbvio,


para a criação de desejos insatisfeitos, que não podem deixar de
provocar frustrações profundas.
0 princípio de frustração como constituinte da relação pedagógica
parece, de resto, funcionar também nas assembleias de anciãos,
igualmente realizadas em subterrâneos, onde aparentemente se celebra
um regresso aos valores morais-naturais elementares.- de facto, uma
dançarina surge lubricamente coberta de variada indumentária, e
gradualmente começa a despi-Ia, mostrando o seu corpo, de tal modo
que o observador é levado a pensar que se prepara assim uma resolução
catártica das emoções despertas, devendo esta sobrevir quando a
dançarina se mostrasse pudicamente nua. Na realidade
- por ordem expressa dos chefes, conforme nos foi dado apurar -, a
dançarina, mesmo no final, conserva uma ou outra peça de roupa
fundamentais, ou pelo menos desaparece quando finge tirá-la, no i
.nstante em que traça o gesto de o fazer, enquanto a

escuridão invade de imprevisto a caverna. De manei .ra que os


indígenas saem destes lugares ainda presos da sua perturbação.

135
Mas a pergunta que o investigador coloca é a seguinte.- serão a
confusão e a frustracão realmente efeito de uma decisão pedagógica
consciente, ou, pelo contrário, concorre

para este estado de coisas, influenciando as próprias decisões dos


chefes e dos sacerdotes, alguma causa mais profunda ligada à própria
natureza do habitat milanês? Terrível pergunta, porque nela se tocam a
dedo as raizes profundas da mentalidade mágica que possui os nativos e
se desce até às matrizes obscenas onde tem origem a noite da alma
desta horda primitiva.»

Umberto Eco, Diário Mínimo

4.3. Desmontagem e explicações de festas,

ritos, acontecimentos do quotidiano, etc. Uma receita de cozinha

A FEIJOADA (Traço cultural)

Há 3 grandes universos de preparação de alimentos: cozidos em água;


assados (na braza, no fogo, no forno) e fritos. Cada um destes processos
corresponde a áreas que proporcionam ou condicionam as respectivas
técnicas.- cozidos, implicam zonas onde a água é abundante, zonas
temperadas ou junto de ág ua doce,- os assados correspondem a
áreas sem vegetação, onde não se utiliza nem água nem gordura para
fritos, típico das zonas quentes e áridas; os fritos obrigam à existência
da gordura e a manutenção dum fogo rápido - é um processo típico do
Mediterrâneo, onde abundam as oliveiras e, desde cedo, o azeite.

Os ingredientes permitem levantar não apenas os produtos materiais


mas ainda os itens culturais que se afirmam em certos processos
técnicos de melhoria da receita.

RECEITA: Feijão branco, cozido em água com carnes secas e/ou


salgadas, chouriços, cenoura, loureiro, cominhos, colorau, pimenta ou
piripiri; refogado de azeite e cebola, depois de ter fervido. Sal.

É um cozido: inclui condimentos típicos da zona atlântica, como


cominhos e loureiro,o conjunto de vegetais (feijão, cenoura, cebola) e a
utilização do azeite implica terras de regadio. 0 feijão - de origem
africana - devia inicialmente ser substituído pelo grão de bico,
característico da Estremadura espanhola e interior transmontano. A
receita pode eventualmente corresponder ao Noroeste ou Nordeste
transmontano (Terra quente) onde se podem juntar estes elementos. A
inclusão de carne seca ou salgada, da parte pobre do animal (orelheira,
pé, toucinho) e a abundância de chouriços (feitos de restos de carne)
caracterizam a feijoada como um prato popular. 0 colorau é um
condimento que só se vulgariza no século XV e a pimenta no século XVI
- são acréscimos posteriores. Do mesmo modo a introdução do frango só
surgiria quando a feijoada se torna um

prato que é apropriado pelas classes ricas, eventualmente com a subida


da burguesia.

0 refogado feito separadamente e introduzido a meio da cozedura é um


item cultural de outras receitas que imigra para a feijoada.

ESQUEMA: FEIJOADA
Uma Romaria: o Senhor de Matosinhos hoje.

PRIMEIRO ASPECTO

Levantar as características duma festa.

Excessos.- de bebida, de comida, de gastos, de ruído. Alimentos


pesados, tradicionais: sardinhas assadas, fogaças, doces de romaria,
pão de Teixeira, farturas. 0 excesso verifica-se essencialmente no gasto
de dinheiro em bugigangas e inutilidades (influência do sistema de
mercado).

Não havendo excesso sexual, nos tempos de hoje, ainda são recentes
(até à década de 30) os casamentos combinados na Feira dos Moços. De
resto como em qualquer romaria os contactos entre rapazes e raparigas
mantêm-se como praxe, e estreiam-se roupas novas.

Inversão de valores: apenas o ultrapassar do horário de trabalho. A festa


realiza-se, nos seus momentos mais importantes, durante as horas de
sono: todo o ruído é permitido- ser sensato na festa não é de aceitar.

0 sagrado e o profano: a festa conjuga os dois elementos. A romaria faz-


se junto da Igreja, que se torna, mais do que um local de culto e
devoção, um lugar de exibição: procura verificar-se, qual o altar que se
apresenta mais bem ornamentado. Todo o profano dos divertimentos
rodeia o espaço sagrado da Igreja- o próprio fogo de artifício,
simbolizando a criação do mundo se torna um espectáculo profano, um
outro excesso de consumo.

Os espaços sociais da festa: aparentemente aberta a todos os grupos, a


festa cria espaços sociais: a Igreja é enfeitada por família eleitas, quase
sempre as boas famílias, que contribuem com dinheiro para as flores.
Há áreas de divertimentos procurados por certos grupos sociais, outras
por outros, que tacitamente se respeitam. (Se os automóveis eléctricos
atraem todos os jovens, nem todos procuram as «cadeirinhas»,- os
apare~ lhos de medir forcas têm um público diferente daquele que
procura os carrocéis.)

Os mesmos dias de duração da festa se distribuem socialmente: os


filhos e filhas «de família» não frequentam a festa ao Domingo, mas
apenas ao Sábado à noite e à Segunda-feira.

137
GLOSSÁRIO

ALUCINAÇÃO

Percepção dum objecto ausente. É considerado um erro de percepção,


porém é um elemento presente em

qualquer tipo de percepção, dado que o homem apreende objectos a


partir da sua relação com imagens que interiorizou e conceitos que
estabeleceu a partir dessas interiorizacões. Toda a percepção inclui,
portanto, um

elemento importante, que é alucinalório.

CHAUVINISMO

Tipo de einocentrismo, que impele a considerar superiores países,


regiões e grupos em relação a outros.

CIÊNCIA POSITIVA

0 Positivismo é uma corrente criada no século XIX por Augusto Cornte;


surge em função da optimista atitude do industrialismo e admitia que a
ciência tinha atingido as possibilidades totais do conhecimento da ver-

dade na Natureza. Essa possibilidade assentava no próprio método


científico, ou seja, na inclução e dedução matemáticas e na observacão-
experimentação. Augusto Cornte dividia a história da mentalidade em
três estados: teológico - durante o qual o fundamento do saber eram os
deuses, aos quais se at@ibuía o papel de causa de todo os fenômenos, o
estado metafísico, que cobrira toda a Idade Média e Moderna e explicava
os fenómenos naturais por causas metafísicas, e, finalmente, no século
do industrialismo e da técnica, o estado positivo, onde surgem as
verdadeiras ciências experimentais, que levantam os segredos da
Natureza por métodos científicos. Este optimismo acabaria por ser
abalado com a crítica ao valor do conhecimento experimental, baseado
nos sentidos, que se descobre serem susceptíveis de enganar o
observador, do mesmo modo que o instrumento invalida a observação a
nível microfísico. Do mesmo modo se estuda a própria evolução da
razão, domi nada pelos paradigmas dominantes na época. 0 positivismo
científico é posto em causa e passa a admitir-se a relatividade do
conhecimento e, acima de tudo, o seu valor temporário.

DARWINISMO SOCIAL

A teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin, implicava a


eliminação dos seres menos adaptados pelos mais adaptados - as
mutações genéticas. No século XIX esta teoria é adaptada à espécie
humana, admitindo os darwinistas sociais que há raças humanas
melhor adaptadas que outras ao ambiente social. É a tentativa de
cientificacão do Racismo e chega a propor a ideia de genocídio das raças
consideradas inferiores.
0 critério de superioridade é o da cultura industrializada ocidental e em
breve se estabelece uma escala com base na cor da pele: superiores os
brancos, depois os amarelos e finalmente os mais inferiores, os negros.

EPISTEMOLOGIA

A epistemologia surge como reflexão sobre a validade das ciências e do


conhecimento científico, em função do desenvolvimento das
matemáticas modernas que criam a noção de conjunto e levam à crítica
da ideia do pensamento lógico ser a caracleríslica da razão, do mesmo
modo a teoria da reialividade, a lei da incerteza de Heisemberg na
microfísica e a verificação da existência de cores, ondas e frequências
que o homem não apreende pelos senfidos, fazem radicar o
conhecimento científico como humano, isto é, a Natureza não é
conhecida, mas interpretada. 0 desenvolvimento do estudo da ideologia
e do papel do inconsciente abalam ainda mais os conhecimentos
científicos, na perspectiva positivista de verdade levantada pelos «dados»
da Natureza.
A ciência surge como uma produção onde os elementos inconscientes e
ideológicos são muito importantes, pois determinam não apenas a
observação e a experimentação, como a explicação final. A Epistemologia
erganiza-se como o saber que se introduz na produção científica,
recriando as condições de produção cientifica para aí levantar os seus
elementos inconscientes e ideológicos, e assim determinar as alterações
que possam ter sido acrescentadas ao conhecimento científico.

ESTRUTURALISMO

Herdeiro de certas concepções de totalidade que começam a surgir na


Biologia, ainda no século XIX, com o organicismo e o estudo da célula, e,
já na primeira metade do século XX, com a Linguíslica de Saussu
re, o estruturalismo é uma forma de estudar a realidade admitindo que
esta se organiza - tal como a percepção -

em totalidades orgânicas, ou seja, em estruturas. A estrutura é um


modelo de interpretação do real, que pretende corresponder a esse real:
levanta~se a partir,de elementos fixos que dão origem a organização da
loialidade e a mantêm como tal.

Na segunda metade do século, partindo dos estudos sociológicos e


antropológicos de Marcel Mauss, o antropólogo Claude Lévi-
Strauss introduz o estruturalismo nos estudos antropológicos,
«descobrindo» a unidade elementar da sociedade humana: as relações de
parentesco a partir do átomo social que é a família primiliva.

Na segunda metade do século, partindo dos estudos sociológicos e


antropológicos de Mareei Mauss, o antropólogo Claude Lévi-
Strauss introduz o estruturalismo nos estudos antropológicos,
«descobrindo» a unidade elementar da sociedade humana: as relações de
parentesco a partir do átomo social que é a família primitiva. A
crítica mais vulgar que se faz ao estruturalismo é a da desumanização
do homem, que desaparece na estrutura, que é, de facto, uma noção
abstracta, um vazio, «um espaco» que percorre o tempo longo das
culluras até ao momento de surgir uma transformação ou modificação
dos elementos fundamentais, esse tempo de destruição da estrutura e
aparecimento de uma nova é o da conjuntura.

Em Antropologia a estrutura corresponde a totalidades culturais.

138
EVOLUÇÃO DARWINISTA

A evolução das espécies admite que as espécies mais adaptadas


sobrevivem, enquanto as menos adaptadas se extinguem, sempre que
surge uma modificação do ambiente. A evolução surge como uma
sucessão de mutações e adaptações ao meio ambiente.

EXORCISMO

Ritual de afastamento de espíritos nocivos que se alojariam no corpo. 0


termo, em psicanálise, representa o

afastamento, do espírito, daquilo que angustia, substituindo-o por algo


que gratifique o sujeito.

FUNCIONALISMO

A teoria funcionalista, de origem inglesa, é sistematizada por Bronislaw


Malinoswki, partindo da noção de função. Todas as instituições
humanas têm como origem necessidades primárias do organismo como
a alimentacão, a reprodução, a homeostasia (manutenção da
temperatura do corpo). 0 estudo de qualquer insfituição remete sempre
para a definição da sua função, que acabará por radicar na função
primária.

GRELHA DE LEITURA EM CIÊNCIAS HUMANAS

As ciências sociais e humanas criaram métodos próprios de acordo com


os seus objectos de estudo. Conforme a perspectiva metodológica e o
tipo de paradigma de explicação (funcionalista, darwinista ou estrutura-

lista), assim surge o modelo de interpretação, que pode ser uma


estrutura, uma dada função ou qualquer um dos conceitos que servem
de interpretação do real social ou cultural, como aculturação,
instituição, etc.
IDIOSSINCRASIA

Em todas as interpretações há elementos pessoais, de origem emotiva,


que relevam da sensibilidade, pois toda a percepção implica uma
motivaçã o, um interesse, um móbil de origem emotiva. Quando na
atitude ou

acção o peso do móbil da sensibilidade pessoal é determinante, a atitude


diz-se idiossincrática.

INVERSÃO DE VALORES

Todas as normas e comportamentos sociais assentam em valores


socioculturais; o ponto de partida da organizacao dos valores parece ser
a dupla bom/mau. A parlir desta base estruturam-se lodos os valores
que se admitem como fundamentais para a manutenção da sociedade e
do indivíduo como ser social. 0 clima da festa cria a inversão dos
valores, aceitando-se como válido, nesse clima de festa, e de acordo com
as tradiçõ es sociais, o exercício do valor contrário ao aceite e a recusa
do valor habitual socialmente aceite. Daí muitos cos-

tumes mantidos em certas festas religiosas e profanas, de inversão de


valores sociais, como a escolha do rei da festa - o menos indicado para
tal; as classes elevadas servirem as menos elevadas; no Carnaval, os
disfarces correspondendo a essa inversão, etc.
LIBIDO

Para Freud a libido é o lugar do inconsciente onde se situam as pulsões


primárias que a sociedade reprova e

todos os recalcamentos que, pela mesma reprovação, o indivíduo se


obriga a fazer. A libido é responsável por lodos os elementos
inconscientes no comportamento humano, tão inconscientes que ele
ignora a sua existên-
cia e, quando surgem, estão modificados.

MISCIGENAÇÃO

Admitindo a existência de raças, de stocks raciais, a partir de qualquer


critério diferencial, a miscigenação representa a mistura dessas raças,
surgindo elementos que incluem elementos morfológicos das duas raças
em

contacto físico, os híbridos.

PULSÕES

Elementos primários da sensibilidade, orientados para a satisfação -


prazer - do indivíduo ou para evitar o desprazer, a dor. As pulsões
tendem a garantir a sobrevivência do indivíduo, são inatas, embora se
possam adquirir pulsões de tipo secundário, a partir de hábitos,
comportamentos adquiridos. As pulsões adaptativas levam o indivíduo a
uma aprendizagem do que lhe possa ser útil à sobrevivência.

PARADIGMAS

São modelos de interpretação e explicação, que, com base nos


conhecimentos da época, dão resposta aos

problemas que se levantam no campo social, político, científico,


económico, cultural, etc. A ciência e os mélodos científicos
correspondem, dum modo geral, ao paradigma explicativo da época. 0
paradigma do Positivismo fazia acreditar que a ciência levantava a
verdade - que o conhecimento científico, desde que assegurado pela
prática do método experimental e pela honeslidade do cientista era
verdadeiro. Os paradigmas de explicação do mundo determinam
igualmente as explicações parciais: do paradigma do geocentrismo
passou-se para o heliocentrismo, e deste para o equilíbrio universal de
Newton, onde assentava o positivismo.

139
REPRODUÇÃO SOCIAL

A Sócio-Análise, corrente da Sociologia actual, identifica a socialização e


a inculturacão como um só fenómeno, de disciplina social, efectuado
pelas instituições da família e da escola. A função destas instituições é,
dum modo que surge como inconsciente, recriar funções sociais, através
da imitação, da disciplina e do próprio sistema de ensino. A reprodução
social é o fenômeno de interiorizacão do papel social através da apreensã
o da fatia cultural que a sociedade proporciona ao indivíduo.

ROBINSON CRUSOÉ

Personagem do autor inglês Daniel Deffõe, colocado numa ilha deserta,


depois dum naufrágio. A sua companhia é um papagaio que ele ensina a
falar. Na ilha, durante muitos anos, só encontra outra companhia, um

rapaz negro a que ele chama Sexta-feira. Toda a cultura transportada


por Crusoé é utilizada na ilha para dela fazer o mundo humanizado a
que se habituara: casa, horta, plantações, etc. 0 exemplo serve para se
admitir que o homem transporta sempre consigo uma cultura - e uma
sociedade -, pois mantém, mesmo só, as normas de conduta que
interiorizara.

AUTORES CITADOS

ARTAUD, ANTONIN

Poeta e dramaturgo francês, eventualmente actor dos seus textos. Para a


sociedade, Artaud foi um drogado e um alienado. Esteve internado em
hospitais psiquiátricos durante longas temporadas, uma delas de nove
ar-m. Nasceu em 1896 e morreu em 1948. A sua obra é então vista
como uma experiência da escrita que pretende esvaziá-la da significação
dada pelo público; permitir que a escrita corresponda ao que o autor
sente e é. E não para o público. Último dos poetas malditos franceses,
foi autor de Le Pése-Nerfs, LArt et Ia Mort, «Heliogabale ou l'Anarchiste
couronné, Le Théatre et son Double, e muitas outras de poesia, ensaio,
dramatologia. Nos anos 20 e 30 entra em vários filmes como Liliom de
Fritz Lang.

BALLANDIER, GEORGES

Etnólogo e antropólogo francês. Promove a teoria da multiplicidade de


culturas e do dinamismo cultural. Algumas obras: Afrique Ambiguê,
1957; Anthropologiques, 1970; Anthropologie Politique, 1969.

BARTHES,ROLAND

(1915-1980) Linguista e semiólogo francês. Divulga o estruturalismo


psicológico; rigoroso e rebelde não se limitou a um só gênero e estudava
para lá dos temas eruditos os temas do quotidiano, para a sua
desmontagem linguística ou semiática.

Algumas obras: Grau Zero da escrita, Mithologies, 1957; Fragmentos de


um discurso amoroso, 1977; A Câmara Clara, 1980.

BENEDICT, RUTH

(1887-1948) Socióloga e etnóloga americana, praticou o trabalho de


campo na América do Norte e do Sul. Os seus Padrões de Cultura
tornaram-se um modelo destas ciências.
CLASTRES, PIERRE

(1934-1977) Etnólogo e antropólogo francês. Permance longamente na


América do Sul recolhendo imenso material sobre os índios Guarani.
Estabelece a tese, contra a análise marxista, de que não é pelo
crescimento da produção que se define o poder político, este controla e
determina a incapacidade do estado e evita o aparecimento dos
excedentes, nas sociedades primitivas.

Algumas obras: A Sociedade contra o Estado, 1974, Estudos de


Antropologia Política, 1980.

EIBEL-EIBESFELIDT, IRENÃUS

Um dos maiores e mais criativos bióiJogos etologistas, numa perspectiva


de análise filogenética das espécies. Realizando estadias prolongadas na
Europa, América e Oceânia, observando e coleccionando documentação
sobre diversas culturas e, aínda, reco41hencio documentos e
observando o comportamento animal, nomeadamente dos mamíferos
superiores, ~ estabelecer hipóteses inovadoras sobre o comportamento
filogenético da espécie humana.

Publica a sãs ou cm colabwadofes imensas obras referenciando


experiências de laboratório ou de trabalho de campo. Amor e c@oVo é
urna sí nt~ de experiências e deduções indispensável para uma leitura
do homem.

EYSENCK, HANS JÜRGEN

Ps~go inglés contemporâneo. Especialista em medidas psicométricas dos


fenômenos psíquicos, procura provar o carácter inato das capacidades
intelectuais. A desigualdade do homem, 1977.

141)
FOUCAULT, MICHEL

Desaparecido em 1984, fo filósofo e historiador francês que perseguiu a


desmontagem do poder em todas as suas obras. A sua obra estuda
todas as instituições onde o poder - que não se limita a concentrar-se no
Estado e nos organismos deste, antes se distribui pelas instituições
sociais - se manifesta: a prisão, a sexualidade, o saber, a linguagem, a
loucura.

Algumas obras: História da Loucura, 1961; As palavras e as Coisas,


1967; A arqueologia do saber, 1969; Hisrória da Sexualidade, de 1976 a
1984.

LABORIT, HENRI

Biologista francês, contemporâneo. Parte da Biologia para a


interdisciplinaridade, investigando as reJações homem/ambiente.

Algumas obras: Do Solao Homem, 1963, 0 Homem imaginante, Ensaio


de Biologia Política, 1970, A pomba assassinada, 1984.

LEROl-GOURHAN, ANDRÉ

Pré-h isto riador, emóiogo e antropólogo francês, contemporâneo. Tem


como objectivo a explicação e compreensão do homem, através da
interdisciplinaridade de conteúdos e métodos. A obra de Leror-Gourhan,
misto de funcionalismo e biologismo é indispensável em qualquer
perspectiva antropológica.

Algumas obras: 0 Gesto e a Palavra, As religiões da Pró-História.

LÉVY-BRUHL, LUCIEN

Sociólogo francês, 1857-1939. Impôs durante quase meio século a sua


teoria da mentalidade pré-lógica dos povos primitivos e selvagens.
Algumas obras: A mentalidade primitiva, 1922, A Alma primitiva, 1927,
A inteligência primitiva, 1936.

LÉVI-STRAUSS, CLAUDE

Emálogo e filósofo francês, criou a noção de estruturalismo


antropológico com a explicação da estrutura do parentesco. Determinou
todo o pensamento antropológico da segunda metade do século XX.

Algumas obras: As estruturas elementares do Parentesco, 1949, Raça e


História, Tristes Trópicos, Mitológicos, 1964-71; 0 olhar afastado, 1983.

MALINOWSKI, BRONISLAW

(1884-1942) Antropólogo e emóiogo inglês de origem polaca. Estudou em


trabalho de campo os melanésios e adaptou a noção de função à
cultura, desenvdvendo o Funcionalismo. Algumas obras: Sexo e
repressão na Sociedade Selvagem, Teoria Crítica da Cultura.

SAI---1LINS, MARSHALL

Antropólogo e etnólogo americano, de Chicago, desmontou o mito da


pobreza económica da sociedade primitiva. Algumas obras: Idade da
Pedra, Idade da Abundância, A economia das sociedades primitivas,
1971, No coração das sociedades, razão utilitária e razão cultural, 19RO
CUTILEIRO, JOSÉ

Antropólogo português contemporâneo, doutorado pela Universidade de


Oxford, é leitor de Antropologia na

Universidade de Londres. Publicou A Portuguese Rural Society, 1971,

LIMA, AUGUSTO MESQUITELA

Antropólogo e emálogo português contemporâneo, professor de


Antropologia na Universidade Nova, de Lisboa. Fez estudos de trabalho
de campo sobre as comunidades angolanas. Ajgumas obras:
Antropologia ou

Entropo1ogia@ Introdução à Antropologia Cultural, com outros autores.

BIBLIOGRAFIA

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ETI1NOLOGIE GÉNÉRALE, dir. Jean Poirier, ENCYCLOPEDIE DE ILA


PLEIADE

ENCICLOPÉDIA EINAUDI, ANTROPOLOGIA

141
TRABALHOS DE ANTROPOLOGIA E ETNOLOGIA, Porto

Revista ANALISE SOCIAL

Obras Específicas

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142
@s;
1987
1 o EDIÇÃO
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