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Disciplina: Funções – FUNZ1

Profª Ana Rebeca M. Castillo - ana.rebeca@ifsp.ed


Texto: Ferramentas potentes1
(...) Ao investigar um caso específico, David pergunta ao legista assistente sua opinião sobre os
suspeitos em potencial. “Não faço a menor ideia”, responde o assistente, que continua: “Mas sabe
o que não entendo?” David responde: “Logaritmos?” Então, reagindo ao olhar de Maddie, ele diz:
“O quê? Vai me dizer que você entende!”
O diálogo resume bem como muitas pessoas se sentem quanto aos logaritmos. A nomenclatura
peculiar é apenas parte do problema. A maioria das pessoas nunca os usa depois do ensino médio,
pelo menos não conscientemente, e ignoram que os logaritmos existam nos bastidores do dia a
dia.
O mesmo serve para outras funções tratadas na álgebra II e nos fundamentos do cálculo.
Potenciação, funções exponenciais – qual o sentido disso tudo? Meu objetivo neste capítulo é
ajuda-lo a admirar a utilidade de todas essas funções, mesmo se você nunca teve a possibilidade
de apertar os botões equivalentes a elas na calculadora.
Um matemático precisa dessas funções pelo mesmo motivo por que um construtor precisa de
martelos e furadeiras. As ferramentas transformam as coisas. O mesmo acontece com as funções.
Na verdade, os matemáticos geralmente se referem a elas como transformações, justamente por
isso. Mas em vez de madeira e aço, os materiais sobre os quais as funções trabalham são números
e formas e, às vezes, até mesmo outras funções.
Para demonstrar o que quero dizer, vamos desenhar o gráfico da equação y = 4 – x2. Você talvez
se lembre de como funciona. Você desenha uma imagem do plano xy com o eixo x na horizontal e
o eixo y na vertical. Então, para x, você calcula o y correspondente e os une num ponto único no
plano xy. Quando, por exemplo, x é 1, a equação aponta y = 4 – 12, que equivale a 4 – 1, ou 3.
Assim, (x, y) = (1, 3) é um ponto no gráfico. Depois de calcular e encontrar alguns outros pontos,
surge a seguinte imagem.

A forma em arco da curva se deve à ação de alicates matemáticos. Na equação para y, a função
que transforma o x em x2 se comporta como única ferramenta para encaixar e extrair os números.
Quando aplicados ao mesmo ponto num segmento do eixo x (que você poderia visualizar numa
placa plana de ferro), os alicates dobram e alongam este pedaço, formando o arco mostrado na
imagem anterior.
E que papel o 4 exerce na equação y = 4 – x2? Ele funciona como um prego para o quadro na
parede, pois ergue o arco inclinado em 4 unidades. Como ele eleva todos os pontos à mesma
medida, é conhecido como função constante.

1
Texto adaptado de: Strogatz, S.H. A matemática do dia a dia: transforme o medo de números em ações eficazes para sua vida.
Rio de Janeiro: Elsevier, 2013, p. 57-61
Disciplina: Funções – FUNZ1
Profª Ana Rebeca M. Castillo - ana.rebeca@ifsp.ed
Esse exemplo ilustra o caráter ambíguo das funções. Por um lado, são ferramentas: o x2 dobra um
pedaço do eixo, e o 4 o eleva. Por outro, são como partes: o 4 e o –x2 podem ser considerados
componentes de uma função mais complicada, 4 – x2, assim como fios, baterias e transistores são
componentes de um rádio.
Assim que você começa a pensar desta maneira, notará que as funções estão em todos os lugares.
O arco curvo da figura anterior – tecnicamente chamado de parábola – é a assinatura da função
quadrada x2 trabalhando nos bastidores. Procure por ela quando estiver bebendo água de uma
fonte ou assistindo a um arremesso em arco de uma bola de basquete rumo ao cesto. (...)
As parábolas e as constantes estão associadas a uma classe mais ampla de funções – as
potenciações da forma xn, na qual a variável x é elevada a uma potência fixa, n. Para uma parábola,
n = 2; para uma constante, n = 0.
Alterando os valores de n, obtemos outras ferramentas úteis. Elevar, por exemplo, x à primeira
potência (n = 1) gera uma função que parece uma rampa, uma inclinação reta crescente ou
decrescente, que se chama função linear, porque seu gráfico no plano xy é uma linha. Se você
deixar um balde na chuva constante, a água coletada no fundo se elevará linearmente.
Outra ferramenta útil é a potenciação inversa, 1/x2, correspondente ao caso em que n = -2. (A
potência se transforma em -2 porque a função é um quadrado inverso; o x2 aparece no
denominador.) Essa função é boa para descrever como as ondas e forças se atenuam ao se
espalharem nas três dimensões – por exemplo, como um som diminui ao se afastar da fonte.
Potenciações desse tipo são os componentes que cientistas e engenheiros usam para descrever o
crescimento e diminuição em suas formas mais amenas.
Mas quando você precisa de uma dinamite matemática, é hora de usar a função exponencial, que
descreve todos os tipos de crescimento explosivo, desde uma reação em cadeia nuclear até a
proliferação de bactérias numa placa de Petri. O exemplo mais comum é a função 10 x, na qual 10
é elevado à potência x. Não confunda essa função com a potenciação. Aqui, o expoente (a potência
x) é a variável, enquanto a base (o número 10) é uma constante – já numa potenciação, como x2,
é o contrário. Essa mudança faz muita diferença: à medida que o x aumenta, uma função
exponencial de x aumenta ainda mais rápido que qualquer potenciação, independentemente de
qual seja a potência. O crescimento da função exponencial é incrivelmente rápido.
Por isso é tão difícil dobrar ao meio uma folha de papel mais de sete ou oito vezes. Cada dobra
aproximadamente duplica a espessura da folha, provocando um crescimento exponencial.
Enquanto isso, o comprimento da folha diminui pela metade a cada dobra, assim encolhe
exponencialmente. Para uma folha comum de caderno, depois de sete dobras, ela se torna mais
espessa que comprida, por isso não pode ser dobrada novamente, independentemente da força de
quem o faça. Para que uma folha de papel seja considerada legitimamente dobrada n vezes, o
bloco resultante precisa de 2n camadas em linha reta, o que não pode acontecer, se a folha dobrada
for mais espessa que comprida.
O desafio era considerado impossível até que Britney Gallivan, caloura do ensino médio, o resolveu
em 2002. Ela começou escrevendo uma fórmula
𝜋𝑇 𝑛
𝐿= (2 + 4)(2𝑛 − 1)
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que previa a quantidade máxima de vezes, n, que um papel de determinada espessura T e
comprimento L podia ser dobrado numa só direção. Note a ameaçadora presença da função
exponencial 2n em dois lugares – uma referente à duplicação da folha a cada dobra, outra à redução
do comprimento.
Usando a fórmula, Britney concluiu que precisaria usar um rolo especial de papel higiênico com
quase 1,2 km de comprimento. Ela comprou o papel e, em janeiro de 2002, foi a um shopping em
sua cidade natal, Pomona, na Califórnia, e desenrolou-o. Sete horas mais tarde, e com a ajuda dos
pais, ela quebrou o recorde mundial ao dobrar o papel pela metade 12 vezes! (...)