Você está na página 1de 6

Universidade de São Paulo

Faculdade de Educação
Sociologia da Educação I
Professora Kimi Tomizaki

Aluna: Renata Bertoni Bazan


Nº USP: 8031819
Período Noturno

Periferia: questões incidentes sobre o olhar sociológico

São Paulo
2017
A sociologia a partir de Durkheim e Simmel 

            A sociologia sendo a Ciência responsável por estudar as sociedades tem como
uma de suas principais ferramentas de pesquisa a Educação. Para Durkheim a sociedade
é coercitiva e é ela que enquadra o comportamento dos homens; dentro disso a educação
tem papel fundamental; as gerações exercem influência uma sobre as outras e entre elas
podemos destacar a influência dos adultos sobre as crianças e adolescentes. Para o
autor, a educação é um produto da sociedade na qual ela está inserida e por isso suas
práticas tem variado através dos séculos. Os sistemas de educação são formados e
influenciados por características sociais do período em que está inserido, como fatores
religiosos, políticos, desenvolvimento tecnológico, entre outros, e por isso é preciso
analisar a educação através da História.  
Outro ponto importante é que Durkheim percebe que a educação varia entre as
classes sociais e regiões (por exemplo, a educação do campo x cidade) e apesar de
considerar que exista uma diferença de aptidões entre as crianças e adolescentes que as
levam a caminhos diferentes (trabalhos que exigem desenvolvimento intelectual x
trabalhos mecânicos e/ou braçais) o autor defende que tal diferenciação não deve ser dar
por diferença entre as classes sociais e por isso ele propõe uma escola Francesa a que
todos teriam acesso ao mesmo tipo de educação, sendo que o que diferenciaria seria o
esforço individual. Ao pensar dessa forma Durkheim ignora que as crianças, ao
entrarem na escola, já carregam um capital cultural construído através das relações
familiares, exteriores e ao que elas tem acesso (mídias, livros, teatro, música...).  
Além de ser responsável por formar os cidadãos, a educação tem papel
fundamental em inculcar ideias que são indispensáveis para manter certa
homogeneidade nas sociedades, porém, também assegura certa diversidade pois são
necessários cidadãos com diversas especializações. A partir dessa visão, o "ser social"
não se apresenta desde o nascimento e não é formado de forma espontânea, é a própria
sociedade (e a educação, que serve à sociedade) que forma os homens a partir de suas
regras morais, religiosas e políticas, freando seus instintos individuais.  
Georg Simmel, sociólogo contemporâneo à Durkheim traz uma posição diferente
do que foi aqui exposto. Sua obra é considerada fragmentada e ele busca definir qual é o
objeto de estudo da sociologia, defendendo o porquê esta deve ser considerada uma
ciência. Para o autor a sociedade é uma "abstração", o que ele quer dizer com isso é que
a sociedade não está "fora" dos indivíduos; ela existe nas interações que ocorrem entre
eles (sendo elas duradouras ou não).  
 Precursor da microssociologia, Simmel defende que ao se distanciar dos
indivíduos em análise é possível enxergar a imagem da sociedade impressa
neles; inúmeras relações e interações vistas de forma isolada podem ser consideradas
insignificantes, mas ao serem inseridas em formalizações abrangentes sustentam a
sociedade como a vemos. Ao mesmo tempo, não é correto pensar que a realidade social
possa ser compreendida apenas através dos fenômenos individuais, eles apenas
sustentam a sociedade como a conhecemos.  
Para o autor, a sociedade está permeada de indivíduos que se ligam uns aos
outros e se influenciam de forma recíproca, de forma que o que é produzido em cada um
não pode ser explicado apenas a partir de si mesmo. As gerações também trazem
heranças que se misturam aos indivíduos e são nesses pontos em que Simmel e
Durkheim apresentam semelhanças em suas teorias. 
Por fim, Simmel define que a sociologia não possui nenhum objeto de estudo
próprio que já não tenha sido visto por outras ciências existentes, pois, o homem como
ser social e a sociedade como portadora de todo evento histórico possui um caminho
comum a todas a todas elas. 

Relação entre classe, cultura e educação. 

Retomando concepções de Durkheim outrora expostas é possível traçar um


paralelo com o artigo de Edison Bertoncelo. Para Durkheim a origem social não deveria
ser determinante para definir o futuro de uma criança, e por isso ele defende uma escola
Francesa onde todos teriam a mesma oportunidade e qualidade de
ensino. Bertoncelo afirma que ainda hoje a origem social é fator importante na
realização escolar de crianças e adolescentes. A presença da família possui enorme peso
no percurso educacional através do investimento e aplicação de estratégias que
permitem os jovens a seguir caminhos similares ao de seus pais, principalmente quando
nos referimos à classes médias e elevadas.  
No meio popular, a continuidade dos estudos para além da escola (ensino médio
completo) é algo que se mostra muitas vezes improvável por variados motivos, sendo
um deles a impossibilidade de investir e a diferença na qualidade do ensino público x
privado. Nesse sentido a meritocracia não se provou real, pois a escola não é um meio
de ascensão social para os que se "esforçarem", a diferença ao acesso dos diferentes
capitais (cultural, econômico, social e simbólico, como define Bourdieu) será sempre
uma barreira aos meios populares. 
Para Bourdieu, o capital cultural são bens simbólicos que as sociedades
selecionam e valorizam e por isso são desejados e possuídos. A isso ele se refere como
uma "alta cultura", que estaria em posse das classes sociais elevadas, facilitando
a trajetória escolar daqueles que tem acesso à ela. Nesse sentido o sociólogo defende
que os agentes (crianças, adolescentes) interiorizam disposições de comportamentos,
o habitus, orientando escolhas de suas vidas no campo em que se organiza a vida social
a qual ele está inserido. Ou seja, a estrutura social teria forte peso nas escolhas dos
agentes. 
Em O Manifesto do Partido Comunista, Marx classifica a sociedade burguesa
(que surge a partir da Revolução Francesa) de forma dual, colocando a burguesia x
proletariado. A burguesia, detentora dos meios de produção, acaba sendo também a
classe dominante e reguladora de toda a sociedade, pois, a partir do momento em que
assumiu o controle, tudo que sustentava o antigo regime cai por terra, e ela passa a
definir até as práticas de consumo, tendo grande influência na construção
do "habitus" da sociedade capitalista. Para o autor a educação também é determinada
pela sociedade, sendo assim, está sob o controle da classe dominante e por isso uma de
suas defesas dentro da Revolução Proletária é que a educação seja pública e gratuita,
com o intuito de eliminar o trabalho infantil nas fábricas e trazer a igualdade social.
Pensando nos aspectos expostos e trazendo-os à tona para analisar alguns
resultados da pesquisa da Perseu Abramo “Percepções e Valores políticos nas
periferias de São Paulo” foi possível identificar que a visão dos entrevistados sobre a
educação é de que ela é um meio de ascenção social que pode ser alcançado através do
esforço.

Sem um grande aprofundamento de como realmente funciona a política no país


(divisão das esferas municipal, estadual e federal) e da luta de classes (burguesia x
proletariado), os entrevistados se colocam na mesma situação de seus empregadores, ou
seja, explorados pelos políticos que não dão retorno e só os exploram através dos
impostos. Há uma grande desvalorização do que é público e sempre que possível as
famílias investem na educação por acreditar que através dela será possível conquistar
um bom emprego e ter acesso a bens de consumo (altamente valorizados na
comunidade). A meritocracia tem lugar fundamental tanto na educação quanto no
trabalho; os entrevistados acreditam que “com o esforço pessoal é possível chegar lá” e
um dos maiores objetivos locais é a ascenção social (almejam ser patrões, possuindo seu
próprio negócio), o simples fato de terem acesso a uma moradia e melhores condições
do que tiveram na sua infância faz os entrevistados acreditarem que eles estão inseridos
na classe média, pois, os “pobres” seriam aqueles desprovidos desses meios.

Dessa forma, pois possível depreender que os participantes da pesquisa não


possuem consciência da exploração que sofrem pela classe burguesa, Marx esperava
que o proletariado, ciente da expropriação dos meios de trabalho se uniriam e se
rebelariam contra o Estado e a burguesia, mas isto não aconteceu. A mídia de hoje faz
com que a responsabilidade de suas dificuldades sejam atreladas apenas às esferas
políticas, super valorizando o que vem da esfera privada (como a educação, saúde). Em
suas concepções, o que vem do meio privado é bom pois “eles estão pagando e tem
direito de cobrar qualidade”, enquanto o que é público não.
Bibliografia

DURKHEIM, Emile. A educação, sua natureza e sua função. In: Educação e


Sociedade. São Paulo: Ed. Melhoramentos, (s/d), p. 33-56. 
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O Manifesto do Partido Comunista. Editora
Vozes, 1988 (com introdução de Marco Aurélio Nogueira). 
SOUZA, Jessé de. A construção social da subcidadania. Belo Horizonte: Editora
UFMG, 2012.

Você também pode gostar