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Tudo ao Mesmo Tempo:


Realidade ou Ilusão?
Everything at the Same Time: Reality or Illusion?

“Todo al Mismo Tiempo”: ¿Realidad o Ilusión?

Ana Maria
Nicolaci-da-Costa

Pontifícia Universidade
Católica do Rio de
Janeiro
Artigo

PSICOLOGIA: CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2011, 31 (3), 602-615


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PSICOLOGIA:
CIÊNCIA E PROFISSÃO, Ana Maria Nicolaci-da-Costa
2011, 31 (3), 602-615

Resumo: Na modernidade, o tempo desempenhava um papel central. Hoje, o consenso é o de que esse papel
cabe ao espaço. Apesar dessa unanimidade, no entanto, há muitas divergências quanto ao que caracteriza
o espaço na atualidade. Tendo em vista que essas divergências se baseiam quase exclusivamente naquilo
que os autores podem observar e não em resultados de pesquisa e também levando em consideração que
alguns desses autores tendem a olhar para o mundo atual com olhos modernos, foi realizada uma pesquisa
para examinar como o espaço é concebido por jovens. Os resultados revelaram que os participantes da
pesquisa se percebiam circulando livremente por um espaço que já havia se tornado liso (sem fronteiras
ou barreiras) tal como aquele descrito por Deleuze e Guattari. A mesma pesquisa também gerou resultados
inesperados: permitiu examinar de perto uma dimensão temporal que ocupa lugar de destaque no mundo
contemporâneo, a de simultaneidade. Tal exame, por sua vez, identificou a emergência de um novo conceito
de simultaneidade que, associado ao emprego de algumas estratégias, torna possível para os jovens de hoje
afirmar convictamente que são capazes de realizar várias tarefas ao mesmo tempo.
Palavras-chave: Espaço. Tempo. Contemporaneidade. Jovens.

Abstract: During modern times, time played a leading role. Nowadays, the consensus is that space occupies
this key position. In spite of this unanimity, however, there is a lot of disagreement as to what characterizes
space in our days. Given that most arguments are based almost exclusively on what the authors can observe
and not on research results and also given that some of these authors still tend to observe the present world
with modern eyes, research was conducted to inspect how young people conceive space. Results showed
that those who participated in the research saw themselves circulating freely in a space that had already
become “smooth” (without frontiers or barriers), such as that described by Deleuze and Guattari. The same
research also produced unexpected results. It made possible to closely examine a temporal dimension which
has become central in the present world: that of the “simultaneous” occurrence of a number of events.
Such inspection, on its turn, revealed the emergence of a new concept of “simultaneity”. Such a concept,
associated with the employment of a few strategies, allows youngsters to say with conviction that they are
able to perform several tasks “at the same time”.
Keywords: Space. Time. Contemporary days. Youngsters.

Resumen: En la modernidad, el tiempo desempeñaba una función central. Actualmente, el consenso es el


de que esta función le toca al espacio. A pesar de esa unanimidad, sin embargo, existen muchas divergencias
en cuanto a lo que caracteriza el espacio en la actualidad. Teniendo en cuenta que esas divergencias se
basan casi que exclusivamente en lo que los autores pueden observar, y no en resultados de investigación,
y también llevando en consideración que algunos de esos autores tienden a mirar el mundo actual con
ojos modernos, se ha llevado a cabo una investigación para examinar cómo el espacio es concebido por
los jóvenes. Los resultados han revelado que los participantes de la investigación se sorprendían circulando
libremente por un espacio que ya se había tornado “liso” (sin fronteras o barreras), exactamente como aquel
descripto por Deleuze & Guattari. La misma investigación también ha generado resultados inesperados. Ella
ha permitido examinar desde cerca una dimensión temporal que ocupa lugar de destaque en el mundo
contemporáneo: la de la “simultaneidad”. Dicho examen, a su vez, ha identificado la emergencia de un
nuevo concepto de “simultaneidad” que, asociado al empleo de algunas estrategias, vuelve posible que los
jóvenes de hoy afirmen con convicción que son capaces de llevar a cabo varias tareas “al mismo tiempo”.
Palabras clave: Espacio. Tiempo.Contemporaneidad. Jóvenes.

Ao longo de séculos, a relação entre tempo percurso mais rápido e/ou permitiam que
e espaço foi percebida como relativamente distâncias maiores pudessem ser cobertas.
estável. Espaço era aquilo que podia ser O ser humano estava, contudo, restrito
percorrido com maior ou menor rapidez por à exploração dessas fontes; não as podia
um ser humano ou um animal fazendo uso de controlar nem produzir.
suas próprias formas de locomoção; tempo,
por sua vez, era aquilo de que se necessitava A partir da virada do século XVIII para o
para realizar tal percurso. Além de utilizar as XIX, com as sucessivas descobertas de fontes
próprias pernas, o homem podia recorrer a de energia inanimada (vapor, eletricidade,
outras fontes de energia. Estas, a exemplo da petróleo, etc.), cuja produção e utilização
força animal ou de forças da natureza como passou a poder controlar, o homem ganhou
ventos e correntes marítimas, tornavam o o comando do tempo, e a relação tempo-

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espaço foi profundamente alterada. Para dar uma hierarquia e de uma sequência temporal
somente alguns exemplos das consequências cuja finalidade era garantir o progresso (nunca
que tiveram, tais descobertas: (a) deram de todo alcançado porque sempre remetido
origem à implantação e disseminação do ao futuro).
processo de industrialização, que aumentou
vertiginosamente o ritmo da produção, Em meados da segunda metade do século XX,
(b) foram responsáveis pelo aparecimento o avanço das tecnologias de telecomunicação
de trens, automóveis e outros meios de (então ainda caracterizado primordialmente
transporte, cada vez mais rápidos, que pela integração de diferentes pontos do
reduziram o tempo necessário para qualquer mundo via satélite) permite a difusão da
deslocamento espacial, (c) possibilitaram a instantaneidade, ou seja, da aceleração
criação de novos meios de telecomunicação, limite do tempo (já atingida antes de forma
como o telégrafo e o telefone, que permitiram restrita, como mencionado acima). Embora
o contato instantâneo entre pessoas a instantaneidade só atinja seu ápice após
geograficamente distantes. o advento da internet e dos celulares,
no final do século XX e início do XXI, o
Acima de tudo, essas mesmas descobertas tempo longo da modernidade perde sua
foram responsáveis pelo surgimento de supremacia. Cede lugar, segundo a literatura
uma nova era – a modernidade – que teve especializada de cunho pós-modernista ou
a aceleração do tempo como uma de suas de orientação sociotecnológica1 (Bauman,
características mais proeminentes (Bauman, 2000/2001; Harvey, 1989/1999; Ling &
2000/2001; Harvey, 1989/1999; Sennett, Yttri, 2002; Rheingold, 2003; Sennett,
1998/1999). Bauman chega a afirmar que “... 1998/1999), ao presente imediato, porém
a modernidade é, talvez mais que qualquer contínuo, que flui de um instante a outro, e
outra coisa, a história do tempo” (Bauman, ao futuro de curto prazo que, muitas vezes,
2000/2001, pp. 128-9). se confunde com esse presente contínuo. É
inaugurado um novo período conhecido por
Esse tempo moderno, ao qual Bauman faz várias de denominações: pós-modernidade,
referência, era um tempo diferente daquele hipermodernidade, supermodernidade,
imediatista que vigora hoje. Era um tempo modernidade líquida ou, simplesmente,
longo, efetivamente dividido em passado, contemporaneidade (Bauman, 1997/1998,
presente e futuro, um tempo no qual se usava a 2000/2001; Harvey, 1989/1999; Jameson,
experiência passada (própria ou coletiva) para 1991/1997; Nicolaci-da-Costa, 2005;
levar a cabo o planejamento de sequências Sennett, 1998/1999; Virilio, 1984/1999).
de etapas com vistas a algum objetivo em um
futuro distante (Bauman, 2000/2001; Harvey, Nesse novo período (não importa o rótulo
1989/1999; Sennett, 1998/1999). O presente que receba), ocorre outra mudança radical
era apenas um estágio de uma longa jornada. na relação tempo-espaço. A instantaneidade
Já o espaço moderno, que servia de pano congela o tempo, transforma-o em uma
de fundo para o desenrolar desse tempo, sucessão de momentos sempre presentes;
1 era compartimentado de acordo com as já o espaço é libertado de seu confinamento
Literatura dedicada funções específicas às quais se destinava. Tais moderno. As fronteiras e barreiras que
à análise dos
impactos sociais da compartimentos ou subdivisões, por sua vez, separam seus inúmeros compartimentos são
difusão das novas eram ciosamente separados uns dos outros derrubadas, diluídas ou tornadas inoperantes
tecnologias da
informação e da por linhas divisórias, fronteiras ou barreiras. por tecnologias que atravessam muros,
telecomunicação. Tudo visava à manutenção de uma ordem, de superam obstáculos e ignoram fronteiras.

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É isso o que Jameson aponta ao argumentar Já a segunda tendência, pós-moderna,


que, tal como na esquizofrenia, atualmente alega que praticamente todas as formas
todos vivemos boa parte de nossas vidas de separação herdadas da era moderna
em um eterno presente no qual temos estão sendo diluídas ou derrubadas com o
experiências múltiplas e fragmentadas. auxílio das mesmas TICs que, como já foi
Como consequência, segundo ele, “nossa dito, atravessa muros e supera obstáculos.
vida cotidiana, nossas experiências psíquicas, Como resultado, a contemporaneidade seria
nossas linguagens culturais são hoje dominadas caracterizada por aquilo que Deleuze e
pelas categorias de espaço e não pelas de Guattari (1980/1997) chamaram de espaço
tempo, como o eram no período (...) do alto liso, no qual nossa movimentação está se
modernismo” (Jameson, 1991/1997, p. 43). tornando cada vez mais fácil, ou fluida, para
usar a terminologia de Bauman, (2001)
Não é, contudo, somente Jameson (1991/1997)
que registra tais mudanças espaciais. Estas são Tais visões conflitantes, aliadas ao fato de
objeto de registros recorrentes na literatura que, na maior parte das vezes, esses autores
sobre o mundo de hoje (novamente, esteja
– todos eles socializados na modernidade
essa literatura alinhada às teorias pós-
(ou seja, na era pré-digital)2 – baseiam suas
modernas ou seja ela de origem socio-
reflexões naquilo que podem observar, e não
tecnológica). Há, mesmo, um relativo
necessariamente em resultados de pesquisas,
consenso no tocante à supremacia das
despertaram nosso interesse em investigar
categorias espaciais sobre as temporais nos
como os jovens de hoje, que já cresceram
nossos dias (Nicolaci-da-Costa, 2005).
em um mundo pós-moderno e digital, veem
esses múltiplos espaços.
Esse relativo consenso, contudo, diz respeito
exclusivamente à importância das categorias
Dito de outro modo, tendo em vista o
espaciais, isso porque o quadro que se
quadro que se apresentava a partir do que
apresenta no que concerne às configurações
dizem aqueles que pensam os espaços
espaciais na contemporaneidade se mostra
contemporâneos, nosso interesse residia em
muito complexo, plural e confuso. Há
muitas divergências sobre as características conhecer como percebem esses mesmos
de diferentes tipos de espaço (sejam estes espaços aqueles que simplesmente sempre
físicos, virtuais ou híbridos) bem como sobre viveram neles. Do que estes se dão conta?
o papel que desempenham na atualidade
(Nicolaci-da-Costa, 2005, 2009). Em busca de respostas para essa pergunta, foi
realizada uma pesquisa (Nicolaci-da-Costa,
De forma bastante resumida, pode-se 2009) com jovens que, desde tenra idade,
dizer que essas divergências seguem duas estão acostumados a circular constantemente
tendências principais. A primeira, certamente por diversas vertentes de todas as três grandes
oriunda de uma visão moderna, indica que categorias de espaço contemporâneas
está havendo multiplicação de arranjos (físicos, virtuais e híbridos). O objetivo era
espaciais na contemporaneidade, para a qual o de, por meio de entrevistas abertas, fazer
2 Prensky (2001)
os chama de contribui o surgimento dos espaços gerados um levantamento das percepções que eles
imigrantes pelas novas tecnologias da informação e têm tanto do espaço físico quanto dos
digitais para
diferenciá-los telecomunicação (TICs). Tal como acontecia espaços pelos quais circulam ao fazerem
dos nativos na era moderna, essa multiplicação pressupõe uso das novas tecnologias de informação e
digitais, que já
cresceram na era separações por meio de diferentes tipos de comunicação, com as quais estão sempre
digital. fronteiras, barreiras e congêneres. muito familiarizados.

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Os resultados, já minuciosamente discutidos Participantes


em Nicolaci-da-Costa (2009), revelaram que
os participantes da pesquisa se percebiam O recrutamento dos participantes foi feito de
circulando livremente por um espaço que acordo com os seguintes critérios: (a) todos
já havia se tornado liso, como preconizavam deveriam ser estudantes com idades entre
Deleuze e Guattari (1980/1997). Nele não 18 e 25 anos, pois estes são usuários de
havia fronteiras, barreiras ou outras linhas praticamente todas as tecnologias disponíveis
divisórias a serem transpostas. Apesar desse no mercado, (b) todos os jovens deveriam
alisamento, no entanto, eles claramente pertencer às camadas médias ou altas,
conheciam as especificidades de cada um porque o acesso a essas tecnologias pode
deles. Tratava-se de um espaço liso, mas ser dispendioso e (c) todos os participantes
certamente não homogêneo, tal como aquele deveriam minimamente ter celular próprio
descrito por Deleuze e Guattari. e fazer uso de um computador residencial.
Restrições a sexo ou profissão foram julgadas
Para nossa surpresa, as revelações não desnecessárias.
pararam aí. Além de tornarem visíveis essas
novas noções de espaço, os depoimentos Com base nesses critérios, foram selecionados
coletados nessa pesquisa também permitiram 20 jovens a partir de indicações de amigos e
examinar de perto uma dimensão conhecidos. A todos foram atribuídos nomes
temporal que ocupa lugar de destaque na fictícios para a preservação de seu anonimato.
contemporaneidade: a de simultaneidade. Tal Sua média de idade era de 21 anos.
exame, por sua vez, mostrou o que está por
trás de um comportamento que é visto como Coleta de dados
característico dos jovens de nossos dias: a
realização de várias tarefas simultâneas. Antes A coleta de dados foi realizada por meio
de apresentar esses últimos resultados, ainda de entrevistas individuais realizadas online
não tornados públicos, faz-se necessário (Nicolaci-da-Costa, Romão-Dias, & Luccio,
descrever, mesmo que brevemente, como
2009) através do popular programa de
foi realizada a pesquisa.
bate-papo em tempo real MSN Messenger.
O uso de entrevistas online apresentou
A pesquisa duas vantagens: além de tornar a pesquisa
interessante e natural para os participantes,
Em todas as suas etapas, a pesquisa foi
permitiu que fossem investigados aspectos
norteada pelos princípios e procedimentos
de seu uso de diferentes espaços que não
do método de explicitação do discurso
poderiam ter sido levantados por meio de
subjacente (MEDS), um método qualitativo
entrevistas presenciais convencionais. Os
especificamente elaborado para estudos
entrevistados demonstraram estar muito à
exploratórios. No MEDS, a coleta de dados é
feita principalmente por meio de entrevistas vontade, pois estavam muito familiarizados
abertas em contextos informais (Nicolaci-da- com esse tipo de bate-papo. Tal como
Costa, 2007). Tendo em vista que contextos estipulado pelo MEDS, não houve qualquer
informais existem tanto na vida real quanto solicitação para que alterassem sua rotina de
na virtual, essas entrevistas podem ser levadas conversa online (deixando de executar outras
a cabo a partir de entrevistas face a face ou tarefas durante a entrevista, por exemplo).
de entrevistas online (Nicolaci-da-Costa,
Romão-Dias, & Luccio, 2009). No caso desta Todas as entrevistas tiveram como base um
pesquisa, foi feita a opção pelas últimas. roteiro estruturado construído especialmente

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para a pesquisa. Esse roteiro era composto necessário. Do roteiro, faziam parte 22 itens
por itens a partir dos quais deveriam e vários subitens sobre o uso de diferentes
ser formuladas as perguntas durante a tecnologias. A seguir, são listados alguns deles,
própria entrevista de modo a preservar especialmente relevantes para a presente
as características de conversas informais. discussão: (a) o que o entrevistado/a tinha
Embora estruturado, o roteiro era usado de em volta do computador; o que usava ao
forma flexível durante as entrevistas, o que mesmo tempo em que o computador; (c) o
significa dizer que a ordem dos itens podia que nunca usava ao mesmo tempo em que
ser alterada de modo a manter o fluxo de o computador; (d) em qual cômodo da casa
associações do entrevistado. estava, (e) onde estava seu celular; se tinha
televisão por perto e se estava ligada; se o
O roteiro era dividido em duas partes. A som estava ligado; se estava fazendo mais
primeira era composta de perguntas objetivas alguma coisa além de estar no computador;
sobre cada um dos participantes, tais como: o que estava usando naquele momento
idade, o que estudava, há quanto tempo no computador; se havia mudado alguma
usava a internet e há quanto tempo usava coisa desde o envio do print screen; (f) o
celular. que costumava usar ao mesmo tempo:
computador, celular, telefone fixo, televisão,
Já a segunda parte era composta por itens/ som, televisão, chat; como lidava com isso;
perguntas de cunho mais investigativo (g) como se sentia fazendo várias atividades
e subjetivo. Esses itens se baseavam na ao mesmo tempo no computador; (i) como
observação dos hábitos que os jovens têm se sentia fazendo várias atividades ao mesmo
de usar, constante e, no mais das vezes, tempo fora dele; (j) com quantas pessoas
simultaneamente, diferentes tecnologias costumava falar no MSN; caso o número
– interativas ou não – que lhes facultam variasse, a que se devia essa variação; naquele
o acesso a diferentes tipos de espaço. momento, com quantas pessoas estava
Intencionalmente, no entanto, nesses itens, falando além do entrevistador.
nenhuma menção era feita a categorias
espaciais. Queríamos investigar se estas Análise dos dados
surgiriam espontaneamente, o que indicaria
que os entrevistados tinham consciência de Todos os depoimentos foram salvos e
seu trânsito por diferentes espaços. copiados em arquivos do Microsoft Word para
facilitar seu manuseio. Seguindo as técnicas
Logo no início da entrevista, era solicitado do MEDS, primeiramente foi levada a cabo
que o entrevistado/a enviasse ao entrevistador a análise interparticipantes, na qual todas as
(pelo próprio MSN ou por email) um print respostas de todos os entrevistados/as foram
screen3 da tela de seus computadores para reunidas a partir dos itens/perguntas feitos. As
que pudéssemos examinar quantas janelas respostas a cada item foram analisadas como
estavam abertas para quais programas (ou um bloco. Desse modo, obteve-se uma visão
ambientes). O print screen servia como de conjunto que possibilitou a identificação
3 Um print screen disparador da entrevista. e a categorização das respostas recorrentes
é uma espécie de
foto da tela do nos discursos dos entrevistados. Na segunda
computador obtida Logo após, eram feitas perguntas calcadas nos etapa – a da análise intraparticipantes –
pressionando a
tecla Print Screen itens do roteiro, quase sempre acompanhadas foram examinadas as respostas de cada um
e posteriormente de perguntas de aprofundamento (por quê?, em busca de possíveis inconsistências ou
colando em outro
ambiente como, por como?, quando?, onde? e semelhantes), contradições reveladoras de algum discurso
exemplo, no Word. que podiam ser introduzidas sempre que subjacente. Estas não foram encontradas. Nos

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depoimentos, havia somente os titubeios câmeras digitais e congêneres. A essas


e reticências típicos de quem está falando aparelhagens, misturavam-se livros para
sobre algo pela primeira vez. Assim sendo, os trabalhos de faculdade e objetos de todo o
resultados abaixo têm como base somente a tipo, de ursinhos de pelúcia a camisinhas.
análise interparcicipantes.
Nossa atenção estava concentrada no uso
Resultados sobre a concepção que faziam dos computadores e dos inúmeros
aparelhos – interativos ou não – que podiam
de simultaneidade
conectá-los a outros espaços físicos ou
virtuais (e, por isso, foram batizados de
Uma leitura superficial nos teria levado à
aparelhos-portais; Nicolaci-da-Costa, 2009).
simples constatação daquilo que Tapscott
Queríamos saber o que faziam online e com
(1997) já afirmava acontecer nos primórdios
que frequência usavam os demais aparelhos-
da difusão das tecnologias digitais e vem
portais, juntamente ao computador ou não. O
sendo mostrado repetidamente pela mídia
fato de termos podido realizar as entrevistas
e por outros pesquisadores (a exemplo
enquanto os jovens estavam em seus
de Palfrey & Gasser, 2008): que crianças
próprios quartos fazendo aquilo que fazem
e jovens ficam entediados com facilidade
rotineiramente (ou seja, enquanto usavam o
e, por isso, gostam de fazer várias coisas
computador e outros aparelhos disponíveis)
simultaneamente.
provou ser muito produtivo. Como já foi
dito, além da apreensão das noções espaciais
Uma análise detalhada das tarefas que
apresentadas acima, tal procedimento de
nossos entrevistados diziam executar ao
virtualmente entrar em seus quartos também
mesmo tempo, no entanto, mostrou muito
facultou visualizar o que está por trás do
mais do que isso. Revelou claramente
discurso de que fazem tudo ao mesmo tempo,
algumas estratégias e um novo conceito
por eles constantemente repetido com
de simultaneidade que tornam possível o
convicção. Identificar como lidavam com toda
discurso das multitarefas simultâneas.
essa parafernália tecnológica, contudo, exigiu
que fossem estabelecidos alguns critérios de
Cabe agora apresentar essa análise, que
agrupamento, que irão organizar a exposição
tem origem em uma releitura dos mesmos
que se segue.
depoimentos que permitiram identificar
as noções espaciais mencionadas acima.
Para começar, serão descritas algumas
O que faziam nos computadores
características do contexto físico no qual as
Foram usadas duas fontes de informação
entrevistas foram realizadas.
sobre o que os participantes da pesquisa
faziam nos computadores: os print screens
Contexto físico das entrevistas
solicitados no início das entrevistas e os
depoimentos dos participantes ao longo
Praticamente todos os entrevistados
destas. As informações coletadas a partir
concederam as entrevistas a partir de
de cada uma dessas fontes serão discutidas
seus quartos, nos quais os computadores
separadamente.
eram o centro das atenções. Segundo
seus próprios relatos, nesses mesmos
(a) O que revelavam os print screens
quartos, invariavelmente, havia muitas
outras aparelhagens: impressoras, celulares,
Uma simples inspeção da barra de tarefas
telefones fixos, equipamento de som, iPods,
que aparecia nos print screens que nos foram

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enviados já dava a dimensão do número de participantes da pesquisa revelaram fazer do


tarefas nas quais os entrevistados aparentavam computador. Seguem-se bons exemplos.
encontrar-se engajados simultaneamente via
computador. Sempre havia várias janelas Luciana diz que normalmente conversa com
abertas, a maior parte delas para programas 4 ou 5 interlocutores “ao mesmo tempo”. Já
interativos assíncronos, como o Orkut, ou Marcos revela que fala com a média de 3 a
“se eu NÃO síncronos, como o MSN Messenger. Também 5 pessoas “simultaneamente”, “mas pode ser
estou fazendo havia janelas abertas para documentos do 1 ou 7 ou mesmo 8...mas ai fica confuso e
tudo (ao Word, para o YouTube, para blogs, para o chato... dai eu deixo conversas morrerem ate
mesmo
tempo)... aí iTunes, para programas de download, etc... voltar ao agradavel numero 3”. 4
me sinto meio Examinemos alguns exemplos.
entediada”. Para a maior parte dos entrevistados, fazer
Fernanda
dá um Durante a entrevista, segundo o print screen várias coisas simultaneamente no computador
testemunho que nos enviou, Julia conversava com a é mais do que a norma, é o desejável. Julia,
análogo: entrevistadora e com outras duas pessoas no por exemplo, diz: “se eu NÃO estou fazendo
“... se tiver
com menos MSN. Além disso, tinha abertos o Orkut, o tudo (ao mesmo tempo)... aí me sinto meio
coisa eu fico Outlook, um site, o Windows Media Player entediada”. Fernanda dá um testemunho
achando e o Word. Joy falava com cinco pessoas no análogo: “... se tiver com menos coisa eu fico
alguma coisa
inutil pra fazer MSN e tinha abertos o Orkut, o Word e o achando alguma coisa inutil pra fazer , ... ai
, ... ai (aí) iTunes. Marcos tinha abertos o Windows (aí) abro o jogo de paciencia e coisas do tipo”.
abro o jogo Explorer, o Windows Media Player, um site
de paciencia
e coisas do e conversava com nove pessoas pelo MSN. Não é difícil perceber que esse fazer tudo
tipo”. ao mesmo tempo parece ter se tornado um
Esses exemplos mostram que, no mínimo, valor positivo entre eles. É visto como uma
eles usavam ativamente o MSN para se capacidade inédita, por eles desenvolvida,
conectar ao entrevistador e a vários outros da qual se orgulham. Márcia Valéria dá um
interlocutores. Além disso, seus print screens testemunho nesse sentido ao dizer que:
mostravam que também visitavam perfis do “(nessa correria q é a nossa nos dias de
Orkut, usavam o Word ou o Power Point hoje , temos que nos adaptar a fazer várias
(provavelmente, para fazer trabalhos para coisas ao mesmo tempo.” Alguns admitem
a faculdade), viam vídeos no YouTube, abertamente que tal capacidade os faz
ouviam música ou se engajavam em outras sentirem-se poderosos. É assim que Isabela se
atividades. sente: “(no computador) pô.. parece q eu sou
bem poderosa.. pq consigo fazer várias coisas
(b) O que os entrevistados relatavam ao mesmo tempo e nuan (não) deixar niguem
esperando pra falar.. (ela obviamente se refere
O registro estático dos print screens não ao MSN) acho q sei administrar bem as minhas
nos permitia diferenciar a importância que coisas.. nunca é demais.. igual coração de
esses diversos programas tinham para os mãe sabe.. sempre cabe mais uma pessoas
entrevistados e quais eles realmente usavam falando, ou mais um site.. sei lá...”.
4 Todos os com frequência. Os relatos que os jovens
depoimentos serão
reproduzidos fizeram, no entanto, mostraram claramente Uso simultâneo do computador e de
exatamente como que o MSN Messenger tinha um peso muito outros aparelhos
foram escritos pelos
entrevistados. Estes, maior do que todos os outros, De fato, o
por sua vez, tiveram bate-papo online estava presente de forma No espaço de seus quartos, não é somente
seus nomes mudados
para preservação do
destacada em todas as entrevistas, sendo a no computador que os entrevistados podem
anonimato. atividade predominante no uso que os realizar atividades múltiplas. Diversos

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aparelhos-portais podem ser utilizados Como já foi visto, são muitos os entrevistados
com o computador. Esse tipo de uso é que mantêm a televisão ligada enquanto usam
aparentemente frequente, tanto que, quando o computador. Mariana está entre eles. Afirma
perguntada sobre o que nunca usa ao mesmo que, para ver televisão e usar o computador
tempo que o computador, Mariana chega a ao mesmo tempo, ela tenta dividir a atenção
pensar um pouco antes de responder: “não e que estabelece prioridades de acordo com
sei...uso td (tudo) ao msm (mesmo) tempo... seu interesse imediato. Em suas próprias
ja me acostumei... (é) como se eu estivesse
palavras: “tento dividir a atenção...mais (mas)
fazendo uma só coisa”.
o que ganha a atenção é o q mais interessar
no momento.” Luiza faz algo análogo: “a
Manter a televisão ligada enquanto usam o
televisão eu vejo... olho pro computador
computador é um hábito comum entre os
quando alguém me chama pelo msn, por
participantes da pesquisa. Rafael diz: “eu ligo
ex...”. Enquanto isso, Alexandre explica o
o pc (computador) e ligo a tv ao msm (mesmo)
tempo sempre”. Marcos revela que, enquanto que faz. Diz: “agora estou respondendo uma
usa o computador, deixa a televisão ligada pesquisa no msn e vendo o jogo do milan...rs...
e fica “escutando programas de es porte,ou estou aki concentrado no msn mas ouvindo o
vendo jogo,... normalmente tem tv,pc e as jogo... se vejo q a entonação do narrador muda
vezes videogame ligado ao mesmo tempo...”. eh pq eh lance importante, aí paro e olho”.
Em outras palavras, eles dividem a atenção
Já no que diz respeito aos celulares (ou entre o computador e a televisão de acordo
telefones fixos), a maioria afirma que é difícil com prioridades que podem mudar de um
conjugar seu uso com o do computador (eles momento para o outro.
não parecem usar o recurso de viva-voz ou
os fones de ouvido dos aparelhos celulares). Conjugar o uso de celulares ou telefones fixos
Alguns, no entanto, se esforçam para superar (sem usar viva-voz) com o uso do computador
esse obstáculo. Patrícia, por exemplo, revela é mais complicado. Como mencionado acima,
conseguir usar o celular e o computador ao alguns alegam que falam no celular enquanto
mesmo tempo, mas acrescenta que dói o digitam ou usam o mouse. Outros, no entanto,
pescoço. Rafael também diz que: “fica meio reconhecem que isso é quase impossível. Por
dificil de usar o mouse, o teclado e o celular isso, sem abandonar o discurso de que fazem
ao msm (mesmo) tempo, afinal só tenho
tudo ao mesmo tempo, admitem que largam
duas mãos...”.
o computador temporariamente para falar no
celular ou no telefone fixo. Alexandre fornece
Estratégias para fazer tudo ao um bom exemplo. Diz: “normalmente qndo
mesmo tempo (quando) eu to no cel (celular) eu saiu (saio)
do pc (computador),e qndo desligo retorno
Outros entrevistados deram depoimentos ... tel fixo,eu tbm (também) saiu do pc ...”.
muito mais detalhados tanto a respeito de Lucas faz o mesmo. Durante a entrevista,
seu uso do MSN quanto da utilização de
ele falava no MSN com a entrevistadora e
aparelhos-portais concomitantemente ao
com mais outras pessoas. O celular tocou
computador. O conjunto desses depoimentos
e ele atendeu. A entrevistadora perguntou
fez emergirem claramente as principais
como conseguiu dar conta de tanta coisa.
estratégias das quais esses jovens lançam mão
Ele respondeu: “fácil... parei tudo... atendi o
para conseguir fazer tudo ao mesmo tempo.
São elas: o estabelecimento de prioridades, a cel... e depois retomei o MSN”. E, assim, ele,
divisão da atenção e a alternância de tarefas. inadvertidamente, revelou o uso da terceira
Examinemos cada uma delas. estratégia mencionada acima: a alternância.

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Alternar entre uma tarefa e outra é obviamente entrevistados conseguiram dissertar com
o que permite que esses jovens façam facilidade. O mesmo, contudo, não acontece
tantas coisas ao mesmo tempo, a exemplo no caso da alternância. Como Lucas, acima,
de conversar simultaneamente com vários eles deram indicadores claros de seu uso.
interlocutores no MSN. Os depoimentos de Nenhum dos entrevistados, entretanto, fez
Lucas são bastante elucidativos, embora ele menção explícita à alternância de tarefas,
não demonstre ter consciência da alternância

Em verdade,
à qual recorre. Ele diz ser muito simples Discussão
essa espera falar com várias pessoas ao mesmo tempo
desempenha porque “a gente pode direcionar nossa A ausência de menção explícita à estratégia
um papel
atenção... (segundo um ou outro) criterio de de alternar tarefas sugere que os entrevistados
fundamental
na arte de fazer preferência...” Alguns desses critérios ficam dela não tinham consciência, diferentemente
tudo ao mesmo claros no diálogo que se segue. do que acontecia no caso do estabelecimento
tempo. Eles
de prioridades e da divisão de atenção. Tal falta
estabelecem
prioridades Entrevistadora: “vc está fazendo mais alguma de consciência, por sua vez, é provavelmente
mutantes de coisa além d estar no pc?” uma consequência da combinação de três
acordo com
Lucas: “Hm... vendo tv !” fatores principais. São eles: (a) a confusão
seus interesses
imediatos Entrevistadora: “e tem alguém conversando existente no que diz respeito ao significado
e, quando com vc pessoalmente?” de multitarefa, (b) a mitologia de poderes
acontece um
Lucas: “ahh sim... minha mãe tava aqui no especiais da chamada geração multi e (c)
intervalo na
comunicação quarto agora a pouco.” Entrevistadora: “e uma nova concepção de simultaneidade que
(no caso como vc fazia com a sua mãe, o pc e a tv?” incorpora à capacidade humana de dividir
do MSN)
Lucas: “Eu tirei os olhos da TV... e passei a atenção a capacidade do computador de
ou alguma
tarefa online a prestar atenção nela ( minha mãe )... simular a execução de tarefas alternadas como
(uma página como ela não estava falando nada que eu se fossem simultâneas. Esses três pontos serão
a carregar,
considerasse útil... ela ficava com o tempo discutidos abaixo.
um arquivo a
baixar, uma da tv... a espera por mensagens do pc (ou
foto a enviar) seja, do MSN).” As origens da concepção de
demora a ser
concluída, multitarefa e as imprecisões
Em verdade, essa espera desempenha um
alternam para geradas por sua difusão
outra atividade, papel fundamental na arte de fazer tudo ao
porque não
mesmo tempo. Eles estabelecem prioridades
suportam Nos primórdios do desenvolvimento dos
ficar parados mutantes de acordo com seus interesses
computadores, o tempo de uso da unidade
esperando imediatos e, quando acontece um intervalo
(Tapscott, 1997). central de processamento (CPU) era caro, e
na comunicação (no caso do MSN) ou
os equipamentos periféricos (que continham,
alguma tarefa online (uma página a carregar,
por exemplo, os dados a serem inseridos no
um arquivo a baixar, uma foto a enviar)
computador), muito lentos. Assim sendo, a
demora a ser concluída, alternam para outra
CPU tinha que parar a execução de uma tarefa
atividade, porque não suportam ficar parados
esperando (Tapscott, 1997). quando os periféricos (como as leitoras de
cartão ou de fitas magnéticas) estavam em uso.
O interessante é que há uma disparidade
entre o grau de consciência que eles Para otimizar o aproveitamento da CPU, na
demonstram ter dessas diferentes estratégias. década de 1960, foram criados os primeiros
As duas primeiras – o estabelecimento de sistemas operacionais multitarefa (Mounima,
prioridades e a divisão da atenção – são s/d). Então, diferentes programas em batelada
conscientes, dado que sobre ambas os (batch) eram colocados em fila na memória

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do computador para serem executados. Vejamos agora o que diz a Wikipedia que,
Enquanto um deles usava um periférico, diferentemente desses dois dicionários
outro passava a ser processado pela CPU. gerais, tem seus verbetes sempre definidos
O procedimento continuava, de forma por usuários de computadores e da internet
alternada, até que todos os programas da fila na qualidade de contribuintes anônimos. Em
fossem completamente executados. sua versão em inglês (http://en.wikipedia.org),
encontramos outra gradação de significado,
O tempo passou, e os sistemas operacionais dado que o termo multitarefa é expandido para
abarcar comportamentos humanos. É feita
multitarefa se difundiram juntamente aos
uma diferença entre computer multitasking
computadores. O termo multitarefa se tornou
(multitarefa referida ao computador) e human
tão conhecido que passou a constar de vários
multitasking (multitarefa referida a seres
dicionários gerais, como, entre outros, o
humanos). Computer multitasking é definida
Dicionário Aurélio – Século XXI (Ferreira,
como “a execução aparentemente simultânea
1999) e o Dicionário Aulete Digital (2010),
de duas ou mais tarefas pela unidade central
sempre definido tendo os computadores
de processamento de um computador”
como referência. Examinemos o que dizem (minha tradução e minha ênfase). Já human
esses dois dicionários. multitasking recebe uma definição diferente:
“a habilidade que uma pessoa tem de
No Aurélio, o verbete multitarefa é definido executar mais de uma tarefa ao mesmo
como “relativo à capacidade que têm tempo” (minha tradução). Em outras palavras,
alguns sistemas operacionais de simular a Wikipedia registra que seres humanos têm
o processamento simultâneo de mais de a capacidade de fazer mais de uma coisa ao
uma tarefa, graças à divisão do tempo do mesmo tempo, e que computadores com uma
processador entre elas”. Já no Aulete, o única CPU dão somente a ilusão de executar
mesmo verbete tem outra definição: a mais de uma tarefa simultaneamente.
“capacidade que tem um sistema operacional
de computador de executar mais de um A popularização do conceito
programa simultaneamente”. de multitarefa e o mito de uma
geração com super- poderes
Tomando como base as definições dadas
por esses dois dicionários, já podemos Ao sair do campo semântico da informática
detectar o potencial de confusão que o termo e passar a ser aplicado ao comportamento
multitarefa tem. Sem sairmos do domínio de seres humanos, o termo multitarefa
da computação, podemos afirmar que, no acabou se tornando cada vez mais impreciso.
caso de uma única CPU, a definição dada Nesse processo de popularização, o slogan
pelo Aurélio (1999) está correta, e aquela de lançamento do sistema operacional
oferecida pelo Aulete (2010), equivocada, Windows 95 certamente desempenhou um
isso porque, quando existe uma única CPU, importante papel. Lembremo-nos do que
duas tarefas não podem ser executadas ao dizia a propaganda, amplamente veiculada
mesmo tempo, mas somente ser intercaladas para a população em geral em jornais e
para melhor aproveitar a capacidade da revistas da época: o slogan era Assobiando
unidade central de processamento como e chupando cana. A ele se seguia o seguinte
vimos acima. Isso apenas gera a ilusão de texto: “Com Windows 95, a multitarefa no seu
processamento simultâneo de mais de uma PC ficou muito mais fácil. Agora você pode
tarefa. imprimir enquanto você escreve um texto,

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enquanto você roda um velho programa em A simultaneidade na era dos


DOS, enquanto você navega pela internet, superpoderes da geração multi
enquanto você faz o que quiser” (Nicolaci-
da-Costa,1998, pp. 49-50). Pa l a v r a s t ê m o r i g e m e m c o n t e x t o s
específicos. Quando esses contextos sofrem
Uma vez absorvida, a noção de que é transformações, seus significados também
possível fazer o impossível – assobiar e podem mudar. Hobsbawn (1962/2006) já
chupar cana ao mesmo tempo – ganhou chamava a atenção para esse fenômeno
autonomia e passou a ser empregada não no que diz respeito às consequências da
mais exclusivamente a computadores, Revolução Industrial. Nicolaci-da-Costa
mas principalmente em relação aos jovens (2009) vem fazendo o mesmo em relação
usuários de tecnologias digitais. A mídia à Revolução Digital, já tendo identificado
foi uma das grandes responsáveis por isso. vários deslizamentos semânticos que resultam
Vejamos alguns exemplos relativamente em novos significados para palavras de uso
recentes de algo que já vem sendo feito há corriqueiro.
alguns anos.
A palavra multitarefa nasceu no contexto
Em 3 de outubro de 2006, a revista Megazine, da computação e, nesse contexto, tinha um
do jornal O Globo, exibia uma matéria de significado específico. Um sistema operacional
capa na qual aos jovens eram atribuídas multitarefa alternava a execução de duas ou
capacidades inéditas. O título era Geração mais tarefas até que todas chegassem ao fim;
assim sendo, tinha-se a ilusão de que haviam
Multi. Logo após, um texto explicativo
sido executadas simultaneamente.
afirmava: “Multifuncionais, multifocais e
multimídia, eles (os jovens) são capazes de
Ao se transformar em uma palavra de uso
estudar e, ao mesmo tempo, ver TV, ouvir
geral, cuja definição consta de dicionários não
música e bater papo no MSN” (minha ênfase).
especializados, seu significado já começou
a ser objeto de equívocos, como o do
Uma reportagem da revista VEJA de 6 de
Dicionário Aulete Digital (2010) anteriormente
agosto de 2008 (pp. 92-93) tinha um título
citado. Sua progressiva popularização só
ainda mais radical para abordar o mesmo fez aumentar a confusão, já anunciada
tema. Lia-se: “Tudo ao mesmo tempo – e por esse dicionário, ao associá-la cada vez
agora”. Novamente, um pequeno texto mais intimamente à concepção de tarefas
explicativo dizia: “Pelo computador e pelo executadas simultaneamente por seres
celular, as crianças conversam com vários humanos, mesmo que isso seja impossível
amigos, jogam videogame e ainda discutem como “assobiar e chupar cana ao mesmo
com os pais. Agora você pelo menos sabe o tempo”.
nome disso: seu filho é multitarefas.”
Ao sugerir que isso é possível, a mídia passa
Ambas as matérias eram ilustradas por a ideia de que os jovens que pertencem à
fotos glamurosas de jovens sorridentes, geração multi são dotados de superpoderes.
cercados de aparatos tecnológicos de última Os jovens se identificam com essas insinuações
geração, aparentando fazer uso de todos e os mais velhos parecem aceitá-las, dada a
simultaneamente. Todas as fotos passavam sua surpresa diante de tantas novidades com
a imagem de jovens dotados de super- as quais muitas vezes são incapazes de lidar
poderes. O mito nelas ganhava concretude. (ou com as quais lidam lentamente).

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Como consequência, podemos observar a execução de tarefas alternadas como se


que vem ocorrendo mais um deslizamento fossem simultâneas. Em outras palavras,
semântico. Emerge uma nova concepção a ilusão de simultaneidade possibilitada
de simultaneidade associada ao conceito de pela alternância de tarefas é transformada
multitarefa, concepção essa que incorpora em simultaneidade real no imaginário
à capacidade humana de dividir a atenção contemporâneo. Tal como na propaganda do
a capacidade do computador de simular Windows 95, o impossível se tornou possível.

Ana Maria Nicolaci-da-Costa


Doutora em Psicologia pela Universidade de Londres. Professora Associada da
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro – RJ - Brasil.
E-mail: anicol@puc-rio.br

Endereço para envio de correspondência:


Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - Departamento de Psicologia
Rua Marquês de São Vicente 225, Gávea Rio de Janeiro, RJ – Brasil. CEP 22543-900

Recebido 7/7/2010, Aprovado 16/5/2011.

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