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TRABALHO: CIÊNCIA E TÉCNICA

por Gabriela B. Munin – História - NA3

DARMON, Pierre. Médicos e assassinos na “Belle Époque”: a medicalização do crime. Rio de


Janeiro: Paz e Terra, 1991

Em seu livro “Médicos e assassinos na ‘Belle Époque’”, Pierre Darmon traça uma
análise sobre o processo da medicalização do crime e dos estudos científicos sobre as
características associadas à inclinação criminosa.
A escolha do período coincide com as grandes descobertas científicas do mundo
moderno, dispostas na Exposição Universal de Paris, em 1889. É lá que Darmon inicia sua
investigação sobre a medicalização do crime.

Na Exposição Universal de 1889, houve uma seção de ciências antropológicas, cujo


objetivo era demonstrar a existência de um tipo humano destinado ao crime e estigmatizado
por sua organização morfológica. Entre outros médicos, estavam presentes Cesare Lombroso,
Ferri, Tenchini e Firodispini, que apresentaram suas teorias expondo crânios de criminosos,
alienados e epilépticos.

Em Craniologistas e frenologistas – As origens do positivismo, Darmon esclarece que


a craniologia pretendia relacionar o desenvolvimento intelectual à estrutura da caixa
craniana. Esta ciência ganhou força a partir dos trabalhos de Camper, Gall, Owen e
Blumenbach, que demonstram teorias diferentes.
O autor dá grande importância a Franz Joseph Gall, que se interessou em particular
pelo caso dos alienados e dos criminosos. Para Gall, a pena não deveria ser estabelecida em
função do delito, mas do criminoso.

Em meados do século XIX, a craniologia ganha força e popularidade. Juntamente,


cresce o interesse por crânios e cérebros. Dá-se uma verdadeira caça a essas novas relíquias;
crânios de personalidades ilustres são adquiridos em toda a Europa, como o de Descartes,
Kant, Bach, Mozart, Shakespeare, o que corresponde a uma espécie de fetichismo que deu
origem a um grande número de lendas. Mas esse interesse também deu origem a uma enorme
quantidade de observações.
É fundada a Sociedade de Autópsia, cujo objetivo é facilitar o estudo do cérebro,
considerado como órgão da função intelectual. De uma maneira geral, associou-se a
inteligência à complexidade das circunvoluções cerebrais e ao peso do encéfalo, teoria que se
viu fortemente abalada quando do descobrimento de cérebros geniais, como os de Gambetta
e do Dr. Laborde, que possuíam um peso muito inferior ao que seria normal a um gênio

A partir do segundo capítulo, Darmon volta sua atenção aos estudos de Cesare
Lombroso e seu “criminoso nato”, que também realizou estudos sobre a mulher criminosa, a
prostituição, o gênio e os epilépticos.
Em 1885, Lombroso conhece o ápice de sua carreira, como presidente do Primeiro
Congresso Internacional de Antropologia Criminal, onde pôde impôr suas concepções como se
fossem dogmas, dando às suas teorias o caráter positivista que imperou no início de seus
estudos. Cesare Lombroso chega a demonstrar tendências a ver criminosos natos por toda
parte e ataca o sistema penal em seus fundamentos através da negação da responsabilidade
criminal.
Entretanto, a ideia de ocupar-se menos do crime que do criminoso não era nova.
Lombroso teve diversos precursores, desde a antiguidade clássica, como Aristóteles, até os
pensadores dos séculos XVI e XVII, como Cardan, mas principalmente os médicos do século
XIX. Alguns nomes que deram corpo às teorias do criminoso nato, à craniometria e à
fisiognomonia foram Pinel, Pritchard, Ferrus, Dr. Lauvergne, Morel, entre outros.
Lombroso diz sistematizar essas teorias em sua obra “O Homem Criminoso”. Na
verdade, os médicos anteriores a ele se preocuparam em estudar as anomalias psíquicas dos
criminosos, Lombroso se ocupou mais da organização física destes. Na primeira parte, ele se
ocupa da embriologia do crime, onde constata que os germes da loucura moral e do crime se
encontrariam nos primeiros anos de vida. A segunda parte da obra consagra-se à anatomia
patológica e antropometria do crime, ao estudo da sensibilidade física do homem criminoso
que, segundo Lombroso, vive em uma espécie de anestesia e vários capítulos são dedicados às
tatuagens, gírias e incidência de epilepsia nos criminosos.

Em Do delírio positivista à sedução sociológica, Pierre Darmon nos mostra o processo


de mudança gradual na obra de Cesare Lombroso. Os estudos com maior caráter sociológico
de Lombroso, foram sobre:

- O criminoso nato subproduto do atavismo e da degenerescência, onde se constata


que o comportamento é fruto de um processo de degenerescência caracterizado por uma
interrupção no desenvolvimento infantil. Segundo ele, a criança tem normalmente os germes
da loucura moral e do crime, mas seria moldada pela sociedade. O criminoso seria um sujeito
que não conseguiu esse molde da sociedade, portanto se torna uma espécie de “criança
grande”. Essa falha no desenvolvimento seria consequência de doenças como a epilepsia, a
sífilis e os traumatismos.

- A nosologia do crime, que nada mais é do que a classificação da criminalidade.


Lombroso expõe dois tipos de criminalidade, uma decorrente de “anomalia orgânica” e uma
decorrente de “causas externas ao organismo”. Uma é própria dos criminosos por “anomalia
orgânica nata” e “anomalia orgânica adquirida”. A outra é o resultado de influências sociais,
morais, climáticas e dietéticas.

- O assassino, o louco e o gênio, onde se faz uma comparação entre os três e se


descobre que no gênio não é difícil encontrar alguns sintomas característicos do criminoso
nato ou do louco, por exemplo, uma ideia fixa, preconceitos, manias, pensamento rápido...
Porém, no gênio, a imaginação é corrigida pela razão e senso prático.

- A mulher criminosa e a prostituta, onde Lombroso estuda algumas características


próprias das mulheres. Para Lombroso, a mulher é naturalmente cruel, mentirosa, desleal e
ciumenta, porém seu senso de religiosidade e piedade são muito desenvolvidos e ela sempre
se redime por seu instinto materno. A criminosa nata e a prostituta, então, ignorariam o
instinto maternal.

Sobre as mudanças na obra de Cesare Lombroso, Pierre Darmon conclui: "Sem negar
os princípios de sua doutrina, Lombroso introduziu nela múltiplas nuanças. Essa reviravolta
disfarçada não impediu que o criminoso nato ganhasse fama e se tornasse, no espaço de dois
ou três decênios, um dos grandes personagens da arena médica.”

Em Os fastos satânicos da Escola Positivista, último capítulo analisado aqui, Darmon


nos mostra os diversos sucessores de Lombroso.
Na Itália, os doutores Virgílio, Ottolenghi, Bono, Giacomini, Carrara, Marro, o
antropólogo Sergi, os juristas Ferri e Garofalo, ampliam a obra do mestre. Outros nomes
importantes de citar foram Prof. Benedikt, que realizou uma série de medições dos crânios
criminosos, Dra. Pauline Tarnovsky, que fez pesquisas semelhantes em mulheres delinquentes
e prostitutas e Dr. Perrier, que consagra sua vida inteira a medir tudo o que se possa em um
criminoso.

Em resumo, os estudos de Cesare Lombroso, apesar de diversos erros, tiveram um


impacto considerável sobre o corpo médico e uma força enorme para fazer progredir o
pensamento científico. Resultaram num frenesi de medições, impulsionando inclusive a
invenções materiais, como engenhosos aparelhos antropométricos e invenções teóricas, como
foi o caso dos novos párias, por exemplo o “vagabundo nato” de Benedikt e o “pobre nato” de
Alfredo Niceforo, até a perseguição do tipo criminalóide nas artes e na literatura.