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PROVISÓRIA & IMPROVISADA

Maristela Bleggi Tomasini

PROVISÓRIA &
IMPROVISADA

2020
PROVISÓRIA & IMPROVISADA

Para o Rogério
PROVISÓRIA & IMPROVISADA

C
ores, riscos e palavras são os ingredientes. A
receita, saudades. No improviso, o segredo de
viver todos os dias a tua ausência. De provisório, a
vida: definitivamente.

Provisória & Improvisada reúne uma coleção de imagens e


textos que, enquanto vivias, iam todos para ti. Tua morte, todavia,
não pode me impedir de continuar a buscar o teu olhar. Porque
eras o destinatário de todos os meus pensamentos, palavras e
obras, fossem eles santos ou profanos.

Prolongada despedida. Estranha perversão que criou este


catálogo de dores: impotente consolação. Porque meu luto precisa
de todas as cores e todos os sentidos ocultos nas palavras, para que
seja exclusivamente teu.
PROVISÓRIA & IMPROVISADA

SIMPLES EXCLUSÃO
EM SINISTRO
MUITO EMBORA
NÃO ASSIM
SÃO AZUIS
VAIDOSAS
ESTRANHO ORÁCULO
NEM QUE SEJA
O QUINTO ELEMENTO
PROVISÓRIA & IMPROVISADA

SIMPLES EXCLUSÃO
PROVISÓRIA & IMPROVISADA
PROVISÓRIA & IMPROVISADA

P
ensei que era tarde, que eu estava tão cansada, sem
inspiração e sentindo calor. Mas olhei a folha de
papel, alisei-a para sentir a leve aspereza que a torna
tão absorvente, toquei-a depois mais forte, esperando para
descobrir o invisível que já estava desenhado ali. Olhei os lápis
coloridos e me deu vontade. É assim que acontece. O cansaço vai
embora, começo a riscar e a colorir o que não vejo, não sei, não
imagino. Expectadora do que virá, do que me esforço por
desconhecer. Estranho processo.

Lembrei então de que era assim com a gente. Bastava o menor


olhar, um toque, um som, e nos entendíamos. Não como eu e tu,
mas como um produto dessa dualidade que se desintegrou com a
tua deserção. Melhor quando silenciosamente. Do mesmo jeito
que me entendo agora com as cores, com o papel e com as letras
das palavras. Por uma dessas perversões do espírito, é pelas cores,
riscos e palavras que te reconstruo como ausência.

Que faço então? Invento flores amarelas que não são flores,
mas sinos que tocam sem parar, loucamente, em todas as direções.
Quem sabe poderás ouvi-los, ainda que não possas vê-
los? Imagino que tocam com som de taças de cristal, delicadas
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taças que só servem para um único brinde e depois se partem,


inúteis.

Sei que não existes mais. E sei que isso é estúpido, é gratuito
e é absoluto. Tenho ciência e consciência da tua morte, mas não
quero que seja assim. Porque eu posso confrontar o absurdo. E
porque éramos e sempre fomos absurdos os dois.

Sei que a pacata conformidade existe. Também sei de cor


todos os lugares comuns dos que se conformam. Conheço as
frases feitas. Mas simplesmente não quero me acostumar à tua
partida. Poderia, se quisesse. Mas não quero. Prefiro me habituar à
dor e à saudade do que conviver com a conformidade, com o deus
que quis assim, com o era previsto, com o tudo tem fim. A questão
não é esta, a dita verdade dos fatos, a realidade da tua morte, etc.
Isso é apenas o que é dado a todos, a todos que são não eu:
simples exclusão.
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EM SINISTRO
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E
xiste algo de sinistro em alguns lugares. Diria que
também há algo de sinistro em certas combinações
de cores, como nas melodias, naquelas de certos
tons menores que parecem chorar. O sinistro, por sua vez, tomado
como substantivo, poderia bem ser uma categoria, — um lugar,
quem sabe —, ultrapassando a função acessória que lhe é assinada
como simples adjetivo. Afinal, às vezes é preciso extrair de uma
palavra tudo o que ela tem a oferecer.

Olho para essa imagem e imagino que atrás dessas montanhas


negras está Nunca Mais, a cidade para onde partiste. Elas são
montanhas de ferro, imensas, que não se deixam tocar no frio nem
no calor. E lá sempre faz muito frio ou muito calor. As águas são
profundas e venenosas, para que nada nelas tenha vida. Não são
águas mães, são águas madrastas, são águas que abortam em lugar
de gerar. O céu, por sua vez, tem fim. Ele não permite que se voe
nele, e possui nuvens de cantos quadrados, para machucar quem
quer que se atreva a vencer os espaços que ele preserva. O ar é
pesado: nele não se respira, vive-se a suspirar. Em Sinistro, não há
terra firme. É impossível ficar de pé, e nada lá se equilibra
perfeitamente. Tudo isso é o Sinistro, categoricamente falando,
um lugar que existe, sim, na minha subjetividade. E como posso
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compreendê-lo, posso descrevê-lo. Posso ainda viver nele, como


tenho feito, desde que partiste. Habituei-me a Sinistro. Não há
alternativa senão habituar-me a essa paisagem, porque estou
convicta de que Caronte, sempre que perde o rumo, passa por
aqui, rumo a Nunca Mais.
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MUITO EMBORA
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C omecei a desenhar com certo cuidado até, na


expectativa de descobrir que flores viriam.
Nenhuma saiu da ponta do lápis. E depois,
nenhuma tampouco saiu da ponta do pincel. Mexi com as cores,
fui e voltei pelas folhas e pelas hastes. Iluminei e escureci o fundo.
Nenhuma flor. Tenho para mim que, desta vez, não houve flores,
muito embora o viço das folhas. Muito embora esperasse por elas.
Muito embora já seja noite, e muito embora eu saiba que, mesmo
que houvesse flores, tu não estás mais aqui para recebê-las de
mim.
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NÃO ASSIM
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PROVISÓRIA & IMPROVISADA

A
rranquei as flores e joguei no cesto sem limpar a
terra que havia no fundo. Porque não daria tempo,
não daria mais tempo.

Não agora.

Não hoje.

Não assim.
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SÃO AZUIS
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SÃO AZUIS

I
mpulso noturno. A tal vontade de pintar. Me entrego
aos pinceis e às águas. É o meu jardim de flores
inventadas no qual descubro que troncos secos também
florescem, mesmo sob céus febris.
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VAIDOSAS
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PROVISÓRIA & IMPROVISADA

P
orque há flores que demoram mais para se arrumar.
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ESTRANHO ORÁCULO
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PROVISÓRIA & IMPROVISADA

J
anelas abertas para um céu aos pedaços, gavetas
fechadas que parecem abertas, cortinados indecisos que
cobrem e descobrem. Coisas que, estou certa, já
habitavam esses papéis que, para mim, jamais estão em branco.
Minha sina é essa impositiva tarefa de revelar coisas que já
estavam todas escondidas no nada. Meio culposamente, sempre
apressada, em luta com a negligência do desenho, com a imperícia
dos traçados a pincel, com a imprudência de trazer à tona segredos
talvez. Obsessiva ocupação que me toma as mãos e a mente.
Depois me pergunto se não faço do papel um estranho oráculo, ao
qual consulto para saber de ti, habitando agora o infinito nada
Obsessiva ocupação para reinventar, todos os dias, a tua morte.
Porque dela é a culpa de todas as coisas restarem assim tão
confusas e inexplicadas. Mistério.
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NEM QUE SEJA


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PROVISÓRIA & IMPROVISADA

P
ara que saibas que, por mais tristes que sejam as
flores e por mais cinzas que haja no fundo, é
possível que haja laços infinitos.

Nem que seja apenas no domínio da arte.

Nem que seja só na minha imaginação.


PROVISÓRIA & IMPROVISADA

O QUINTO ELEMENTO
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N
em a água, nem a terra, nem o ar, nem o fogo do
sol puderam sequer sugerir uma simples marina,
para lembrar a paisagem de que gostavas tanto.
Porque, como elementos, estão confusos, inconsoláveis,
desorganizados, desencontrados, procurando pelo teu olhar.
PROVISÓRIA & IMPROVISADA

Provisória & Improvisada – Porto Alegre — 2021


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Memória, Poéticas visuais — Maristela Bleggi Tomasini