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Psicologia dos Grupos

e Subjetividade
Autor: Prof. João Eduardo Coin de Carvalho
Colaboradores: Profa. Amarilis Tudela Nanias
Profa. Maria Francisca S. Vignoli
Profa. Ronilda Iyakemi Ribeiro
Professor conteudista: João Eduardo Coin de Carvalho

João Eduardo Coin de Carvalho é formado em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo,
onde também obteve os títulos de mestre e doutor. Tem pós‑doutorado pelo Departamento de Antropologia da Johns
Hopkins University, Baltimore, EUA (apoio Fapesp) e foi professor‑visitante na Facultad de Psicología de la Universidad
Nacional de Córdoba, Argentina (Bolsa Santander). É professor‑titular da Universidade Paulista, líder das disciplinas
de Psicologia Social, supervisor de estágios na Área de Grupos e Comunidades – Curso de Psicologia –, pesquisador da
vice‑reitoria de pós‑graduação e pesquisa e líder do Grupo de Pesquisas Psicologia e Saúde (UNIP‑CNPq). É também
professor‑colaborador da Universidade Federal de São Paulo no Grupo Neurossono (Depto. de Neurologia), Setor de
Neuro‑humanidades (Depto. de Neurologia) e do Programa de Pós‑Graduação em Medicina Interna e Terapêutica
(Depto. de Medicina). Tem artigos, livros e capítulos de livros publicados sobre Psicologia Social e Psicologia Social
Comunitária, especialmente sobre representações sociais, identidade, imaginário e métodos qualitativos, dedicando‑se
nos últimos anos às relações entre saúde e práticas comunitárias.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

C331p Carvalho, João Eduardo Cohin de

Psicologia dos grupos e subjetividade. / João Eduardo Cohin de


Carvalho. – São Paulo: Editora Sol, 2014.

128 p., il.

Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e


Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XIX, n. 2-030/14, ISSN 1517-9230.

1. Materialismo dialético. 2. Grupos e subjetividade. 3. Processos


grupais. I. Título.
CDU 301.151

© Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou
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Material Didático – EaD

Comissão editorial:
Dra. Angélica L. Carlini (UNIP)
Dra. Divane Alves da Silva (UNIP)
Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR)
Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT)
Dra. Valéria de Carvalho (UNIP)

Apoio:
Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD
Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos

Projeto gráfico:
Prof. Alexandre Ponzetto

Revisão:
Cristina Z. Fraracio
Lucas Ricardi
Andréia Andrade
Sumário
Psicologia dos Grupos e Subjetividade

APRESENTAÇÃO.......................................................................................................................................................7
INTRODUÇÃO............................................................................................................................................................7

Unidade I
1 MATERIALISMO DIALÉTICO..............................................................................................................................9
2 IDEOLOGIA.......................................................................................................................................................... 12
3 A REALIDADE HISTÓRICA E SOCIAL DOS PAÍSES LATINO‑AMERICANOS.................................. 16
3.1 A Psicologia dos Grupos no embate das questões sociais................................................... 16
3.2 A Psicologia Sócio‑Histórica............................................................................................................. 22
4 NOVOS TEMAS PARA O PENSAMENTO CRÍTICO EM GRUPOS: LINGUAGEM E
IMAGINÁRIO.......................................................................................................................................................... 24
4.1 Questões de fundamento e metodológicas................................................................................ 24
4.2 Linguagem................................................................................................................................................ 25
4.3 Concepções sobre o imaginário...................................................................................................... 28
4.3.1 Imagem e (des)razão.............................................................................................................................. 28
4.3.2 O imaginário radical............................................................................................................................... 30
4.3.3 O imaginário social................................................................................................................................. 32
4.3.4 O imaginário e os grupos sociais....................................................................................................... 33
4.3.5 O imaginário grupal................................................................................................................................ 34
4.3.6 Operando sobre a dinâmica dos grupos......................................................................................... 35

Unidade II
5 GRUPOS E SUBJETIVIDADE........................................................................................................................... 41
5.1 Conceituação.......................................................................................................................................... 41
5.2 Uma história das ideias sobre grupos........................................................................................... 43
5.2.1 A Psicologia Social dos pequenos grupos...................................................................................... 45
5.2.2 A dinâmica de grupo de Kurt Lewin................................................................................................ 47
5.2.3 As psicoterapias de grupo.................................................................................................................... 48
5.2.4 Dos grupos diagnósticos à Psicanálise: as críticas de Pontalis e Guattari....................... 50
5.2.5 A Psicologia Social das categorias sociais..................................................................................... 55
5.3 A Teoria das Representações Sociais (TRS) de Serge Moscovici......................................... 57
5.3.1 O pensamento do senso comum: os grupos pensam?............................................................. 57
5.3.2 Objetivação e ancoragem..................................................................................................................... 60
5.3.3 Teoria das Representações Sociais e grupos................................................................................. 61
5.3.4 Teoria das Representações Sociais, imaginário e grupos........................................................ 63
5.4 Identidade................................................................................................................................................ 66
5.4.1 Identidade‑metamorfose..................................................................................................................... 66
5.4.2 Identidade e ideologia........................................................................................................................... 68
5.4.3 Identidade e grupos................................................................................................................................ 68
6 PROCESSOS GRUPAIS..................................................................................................................................... 69
6.1 Classificando os grupos sociais....................................................................................................... 72
6.2 Os grupos operativos........................................................................................................................... 73
7 PSICOLOGIA SOCIAL E MUDANÇA............................................................................................................. 76
7.1 Grupos e transformação social........................................................................................................ 76
7.2 A comunidade......................................................................................................................................... 79
7.3 Psicologia Social Comunitária......................................................................................................... 82
7.3.1 Introdução.................................................................................................................................................. 82
7.3.2 Histórico da Psicologia Social Comunitária.................................................................................. 82
7.3.3 O papel da formação profissional para a ação comunitária.................................................. 86
7.3.4 As práticas da Psicologia em comunidades.................................................................................. 90
7.3.5 Os fundamentos da Psicologia Social Comunitária................................................................... 94
7.3.6 A Psicologia Social Comunitária e o Serviço Social no mundo globalizado................... 99
8 PSICOLOGIA NAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE SAÚDE E DESENVOLVIMENTO SOCIAL............102
8.1 Psicologia e políticas públicas........................................................................................................102
8.2 Subjetividade e práticas de prevenção em saúde coletiva.................................................106
8.3 A contribuição da Psicologia para as ações no Sistema Cras/Suas................................108
8.4 Formação profissional do psicólogo social...............................................................................110
APRESENTAÇÃO

Por meio desta disciplina você terá acesso aos fundamentos para as práticas com grupos em
perspectiva crítica que têm orientado essas ações na América Latina, especialmente no Brasil. Para
isso, são apresentados os referenciais de análise de contextos grupais e comunitários, assim como são
situados e discutidos os processos psicossociais de prevenção e promoção de saúde e cidadania e suas
relações com a atual realidade brasileira.

Ao final deste percurso, você deverá ser capaz de:

• reconhecer e compreender os pressupostos filosóficos, históricos e sociais que dão suporte às


práticas com grupos;

• identificar e analisar os fenômenos humanos de ordem psicossocial nos grupos, instituições e


comunidades, de acordo com as tradições e a especificidade da realidade social e econômica
latino‑americana;

• discriminar as metodologias de pesquisa e prática com grupos, tendo como referência a tradição
latino‑americana e sua interface com a Psicologia Social e Comunitária, a Saúde Comunitária e
ainda com ciências afins, como História, Sociologia e Antropologia.

INTRODUÇÃO

Estudar os fenômenos grupais e suas relações com a subjetividade é entrar num debate nem
sempre óbvio sobre como essas duas instâncias, individual e coletivo, estão relacionadas. Fruto de
uma perspectiva ideológica, isto é, efeito das condições sociais e históricas nas quais todos nós
estamos inseridos, o entendimento que tem mais adeptos, que lidera o senso comum sobre essa
relação, defende vigorosamente a compreensão de que cada indivíduo é o responsável final por seus
sucessos e fracassos, capaz de usar a razão (e a oportunidade) para encontrar as melhores e mais
valiosas soluções para seus problemas. Quando não, trata‑se de localizar sua incapacidade, seja ela
de que ordem for: cognitiva, física, moral – ou, pior, social, étnica, de gênero. O grupo, nesse caso,
é entendido como constituído de efeito dos indivíduos, mero agregado de semelhantes que estão
juntos por interesse ou destino.

No entanto, numa perspectiva crítica, aquela que irá orientar as nossas discussões nesta
disciplina, indivíduos e grupos estão necessariamente interconectados. Sem os grupos não é
possível pensar nos indivíduos. As histórias dos grupos, os lugares que ocupam nos jogos sociais,
como são representados e como representam o mundo antecipam a presença de cada indivíduo,
que já nasce num contexto em que os grupos é que condicionam sua existência. Todo indivíduo é
alguém devido aos grupos aos quais está relacionado. Ainda assim, o processo de construção da
subjetividade não exime o indivíduo da busca por autonomia e protagonismo, entendendo que a
relação com os grupos se institui, de fato, como relação entre indivíduos e estas implicam, além
de categorias sociológicas e antropológicas, também e necessariamente, dimensões psicológicas
como o afeto.
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Esta disciplina propicia a oportunidade para discutirmos a inserção do profissional de Serviço
Social num campo que vem desafiando a visão estereotipada quanto às suas práticas. O diálogo com
as políticas públicas, além das questões políticas e técnicas que desafia, também tem sido pautado
por uma integração importante com outros campos de conhecimento, especialmente, da Assistência
Social com a Psicologia. Essa condição, longe de esvaziar a especificidade da formação do assistente
social, demanda familiaridade e apropriação de conceitos, saberes e práticas que, mesmo já presentes
na formação, assumem outro lugar, apontando para a construção de novas posições profissionais e
políticas, marcadas pela interdisciplinaridade. A atuação em grupos e comunidades no contexto das
políticas públicas de saúde e assistência social significa indicar um lugar para a prática que escapa aos
limites do tradicional e vislumbra a construção de ações que desafiam entendimentos prontos sobre
quem é o indivíduo. Qual é sua história? Quais são seus interesses e desejos? Quais são os grupos a que
pertence? Quais as relações presentes nesses grupos?

O apelo aos fenômenos grupais e sociais, àquilo que marca a ação dos indivíduos e que está para além
da sua existência singular ganha contornos e importância para a ação profissional e se apresenta como
campo de crítica e intervenção. Na história brasileira, como em toda a história, e na latino‑americana,
essa preocupação vem ainda marcada pelo compromisso político com a transformação da sociedade e
pelo confronto com condições de exclusão e sofrimento social. No seu encontro com os principais temas
da Psicologia Social no Brasil e na América Latina, você é convidado (e desafiado) a refletir sobre como a
ação profissional em grupos e comunidades pode ser mais do que apenas um exercício de conhecimento
e de técnica, mas também parte de um movimento de crítica e transformação da sociedade.

Assim, as discussões sobre os fundamentos e as práticas com grupos caracterizam uma das vertentes
mais importantes e promissoras da ação do profissional de Serviço Social, especialmente quando
associada a compromissos éticos e políticos com a transformação social. Situada no quadro atual das
políticas públicas brasileiras de saúde (SUS) e assistência social (Suas), a prática deve não apenas levar
ao atendimento de demandas específicas, mas produzir transformações nas relações instituídas nos
contextos em que ocorrem.

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PSICOLOGIA DOS GRUPOS E SUBJETIVIDADE

Unidade I
Fundamentos históricos e filosóficos para os trabalhos com grupos e comunidades

Nesta unidade, você terá contato com os princípios do marxismo (materialismo dialético), a filosofia e
o método propostos por Karl Marx para compreensão da realidade e descobrirá como esses ensinamentos
serão tomados, nas práticas com grupos, como instrumentos privilegiados para interpretar o cenário de
subdesenvolvimento e exclusão que caracteriza a América Latina e suas populações, bem como interferir nele.

1 MATERIALISMO DIALÉTICO

Karl Marx (1818‑1883), filósofo, cientista social e historiador alemão, é um dos mais importantes
e influentes pensadores ocidentais. Com suas ideias sobre as relações entre subjetividade, sociedade,
economia e política, influiu decisivamente na construção do ideário socialista que alcançou todo o
planeta a partir do século XIX. Marx debruçou‑se sobre os fundamentos das relações sociais e encontrou
numa leitura muito particular da história humana a chave para compreender e criticar o modo de
produção capitalista. Por meio da dialética como forma de pensar a realidade, explicou sua instituição e
a sustentação do capitalismo, assim como buscou as pistas para superar as contradições do capitalismo
e seus efeitos, como opressão e sofrimento das populações.

Figura 1 – Karl Marx

A origem da discussão sobre a concepção de dialética, como entendida e utilizada por Karl Marx, é a
obra do filósofo alemão Hegel, que a desenvolveu durante o século XIX. Hegel reconheceu a importância
e a função da contradição naquilo que é instituído pelos homens e pela sociedade. Seu principal
9
Unidade I

fundamento é a ideia de que todas as produções humanas contêm, já na sua proposição, sua própria
contradição. Dessa forma, para a solução desse conflito original, ele propõe como caminho a instituição
de novas proposições. As proposições – ou momentos – desse ciclo foram nomeadas por Hegel como
tese, antítese e síntese.

A origem da dialética é identificada nas partes de um diálogo, e, para Hegel, esta é um método de
raciocinar segundo o qual, para analisar uma ideia/proposição (a tese), é preciso encontrar uma nova
ideia/proposição, que deve contrapor‑se à primeira (a antítese) e denunciar a contradição (que já está
ali). Esse esforço exige ainda a busca da superação da contradição inerente a essas duas primeiras
propostas (a síntese).

O método marxista, concebido em meados do século XIX, constitui‑se a partir da intuição de Marx e
Engels quanto a trazer a teoria das contradições de Hegel – esse método de raciocinar sobre a realidade
– para auxiliar no entendimento de uma sociedade marcada pelas grandes mudanças trazidas da
civilização industrial moderna. Henry Lefebvre (2010, p. 22) confere a Marx e a seu método características
essenciais e decisivas para produzir esse entendimento:

[...] a retirada dos fatos e das ideias de seu aparente isolamento, a descoberta
de que tudo se relaciona, o seguimento do movimento conjunto que se
esboça através de seus aspectos dispersos, a resolução de contradições a fim
de atingir (por um súbito progresso) uma realidade ou um pensamento mais
elevados, mais amplos, mais complexos e mais ricos.

Universal e racional, materialista e determinista, estabelecido a partir de Hegel, o método marxista,


também chamado de materialismo dialético, propõe que a análise aprofundada de um objeto (a vida
econômica, por exemplo) desvela elementos contraditórios, contradição essa entendida como motor
da realidade.

Esse método não teve sua importância reconhecida por outros filósofos, como Descartes ou Kant,
além de Hegel. Diferente de outros métodos voltados para conhecer as produções e os acontecimentos
humanos, o materialismo dialético inclui a compreensão de que a realidade que é objeto de estudo é
uma realidade em movimento, e esse movimento também é sujeito à análise. Nesses termos, o método
reconhece a singularidade de cada objeto e a necessidade de alcançar as leis próprias que orientam esse
objeto.

Diferente da dialética de Hegel, porém, que indica ser possível uma definição lógica da contradição
como presença universal, o método dialético empregado por Marx objetiva encontrar as contradições
particulares, o movimento próprio de cada realidade. Aqui, o uso do método submete‑se à realidade
estudada.

A presença e a importância da contradição não é uma ideia que possa ser compreendida de imediato,
não é obvia nem “natural”. Vamos ver o argumento de Marx, que já carrega seu interesse na compreensão
da realidade “material”, especialmente nas dimensões econômicas dessa realidade. Segundo Marx (apud
LEFEBVRE, 2010), as contradições do pensamento fundamentam‑se, em última instância, nas coisas,
10
PSICOLOGIA DOS GRUPOS E SUBJETIVIDADE

naquilo que é objetivo e real (e na produção humana). A impossibilidade do pensamento humano de


capturar, de uma só vez, as coisas reais conduz a tentativas de alcançar a realidade que irão deparar‑se
necessariamente com essas contradições. Tais contradições referem, como aspectos inseparáveis do
mesmo processo, a partes que não podem ser entendidas senão mediante pareamento e confronto.

Um exemplo: o estudo do consumo e da distribuição de produtos não pode ser realizado sem se
procurar compreender o modo de produção em si, isto é, a maneira pela qual num determinado momento
histórico e social, as sociedades estão organizadas para produzir riqueza. Outro exemplo: como entender
o proletariado sem incluir suas relações com a burguesia, isto é, a presença da submissão de classe e o
desejo de consumir? São aspectos contraditórios que não podem ser compreendidos separadamente.

Figura 2 – Os indivíduos são submetidos às condições tecnológicas e econômicas

Karl Marx, em sua obra mais importante, O Capital (2008), aplicou a concepção dialética à
sociedade, associando a essa condição processual, histórica, uma dimensão materialista. Considerou
que as mudanças nas relações econômicas, motivadas pelo desenvolvimento tecnológico, levaram nesse
processo dialético, a mudanças sucessivas que se dão não apenas no campo econômico, mas também
no âmbito das ideias, dos costumes e das instituições, ou seja, no entendimento de Marx, as mudanças
ocorridas no âmbito das relações econômicas acabam alcançando também as relações sociais; o modo
de produção da economia modifica as relações sociais e, como consequência direta, estabelece novas
maneiras de ser em sociedade, de constituir‑se como sujeito social a cada vez.

Tomando como momento privilegiado de análise as mudanças ocorridas após a Revolução Industrial,
Marx discute os conflitos entre operários e patrões que assombravam a Europa do século XIX. De um
lado, encontra‑se o grupo de proletários. Se na Roma antiga esse era o indivíduo pobre que apenas
valia por ser capaz de ter filhos, modernamente, o proletário é aquele que vive de salário, que sobrevive,
segundo Marx, da venda da sua força de trabalho, fonte de riqueza. Do outro lado, estão os patrões,
os proprietários das fábricas, dos meios de produção, os industriais, que produzem riqueza a partir do
trabalho alheio. Nesse momento histórico, caracterizado do ponto de vista dos modos de produção
como capitalismo, Marx argumenta que enquanto a classe explorada seria favorável a mudanças, a
classe dominante resistiria a elas. O conflito entre os interesses de classe no capitalismo, registrado na
tensão entre os trabalhadores e a elite econômica, deveria levar a uma nova condição que superaria a
contradição:
11
Unidade I

Em uma fase superior da sociedade comunista, quando houver


desaparecido a subordinação escravizadora dos indivíduos à divisão do
trabalho e, assim, a oposição entre trabalho intelectual e trabalho manual;
quando o trabalho tiver se tornado não apenas um meio de vida, mas o
requisito precípuo da vida; quando, com o desenvolvimento diversificado
dos indivíduos, suas forças produtivas tiverem se incrementado também,
e todas as fontes de riqueza coletiva jorrarem com abundância – só
então o horizonte estreito do direito burguês poderá ser totalmente
suplantado, e a sociedade poderá inscrever em sua bandeira: “A cada
um, de acordo com suas habilidades; a cada um de acordo com suas
necessidades” (MARX, 2012, p. 107‑8).

A proposta metodológica de Marx que sustenta sua crítica ao capitalismo veio ao encontro dos
interesses das classes trabalhadoras, orientando e inspirando movimentos que se transformaram
em revoluções contra “o capital”, mais especialmente contra a dominação das elites, a opressão
dos trabalhadores, a desqualificação do trabalhador como produtor de riqueza. A sustentação da
desigualdade e da opressão não se mostrava, como Marx indicou, apenas na força. Também estava/
está entranhada nas ideias, nas crenças e nas nossas representações. Para entender esse processo de
dominação e controle, o marxismo vai incluir entre suas categorias de análise o conceito de ideologia,
oferecendo um sentido bastante singular a uma concepção que também tinha história.

Saiba mais

Se você ficou interessado na obra de Marx, veja também:

MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto do partido comunista. Porto Alegre:


L&PM, 2012.

2 IDEOLOGIA

O termo ideologia aparece com importância para a Filosofia e as Ciências Sociais há pouco mais de
um século, mas sua história pode ser rastreada nas culturas grega e romana. Seu sentido mais corrente
é o que trata daquilo que afasta os homens e as sociedades da “realidade”, mais especificamente dos
determinantes que nos fazem compreendê‑la. Essa concepção ainda “bruta” vai precisar ser lapidada
e transformada em campos como o da Filosofia, da Sociologia, da Política e mesmo da Psicologia, por
autores que se propuseram a enfrentar as dificuldades de dar suporte teórico a um conceito que articula
a materialidade da vida à sua dimensão “imaterial”, ao campo do conhecimento e das ideias.

De acordo com Chauí (1997), é possível falar de ideologia utilizando uma conceituação fraca e outra
que poderia ser nomeada como forte. Nesse sentido fraco, ideologia diz respeito ao conjunto de ideias
que nós mesmos, nossos grupos e sociedades utilizamos e que irá configurar nossa visão do mundo (ou
cosmovisão). Seu valor está no ser aquilo que sustenta o pensamento e o comportamento humanos

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PSICOLOGIA DOS GRUPOS E SUBJETIVIDADE

construídos por meio das relações entre os homens e transmitido entre as gerações pela cultura e suas
instituições, isto é, pela linguagem, pela arte, pelas produções artísticas, científicas, religiosas, na escola,
no trabalho, no dia a dia.

A definição forte está diretamente associada à crítica construída na perspectiva marxista e que
a apresenta como possuindo um sentido necessariamente negativo. Nesse caso, a ideologia é como
uma falsa consciência produzida e sustentada pela classe dominante e que se presta a encobrir os
determinantes da dominação exercida por tal classe, como uma neblina que não nos deixa perceber a
realidade. Como efeito da ideologia, estará o caráter natural da dominação, associada não a condições
histórico‑sociais, mas a circunstâncias que podem ser buscadas em princípios que são entendidos como
universais e imutáveis. A ideologia dominante explica como “natural”, por exemplo, a supremacia de
determinados grupos, a incompetência de um determinado grupo étnico, enfim, as diferenças que
justificam a exclusão de indivíduos e grupos do poder de conduzir e controlar seus corpos, sua riqueza e
suas vidas. Desse modo, a ideologia sustenta a desigualdade e pretende calar aqueles que se veem fora
do jogo da sociedade. Apresenta como responsabilidade do indivíduo aquilo sobre o que ele não pode
responder e que se encontra em outra instância, fora de seu controle.

Figura 3 – A ideologia é como uma névoa que não permite ver a realidade

Um exemplo: na escola pública, não é incomum ouvir‑se que determinada criança tem problemas, que
é incapaz de aprender, que é preguiçosa. Se há alguma concessão, é na transferência da responsabilidade
do insucesso para a família, normalmente caracterizada como “desestruturada”. Ora, não entra nesse
jogo, na compreensão desse acontecimento, que a “inadequação da criança” é o outro lado da moeda,
confortavelmente escondido pelo viés ideológico. isto é, que se trata aqui, de fato, da “inadequação
da escola”. Esse outro lado pode ser verificado, não muito longe, no contexto das políticas públicas de
educação, das tremendas dificuldades enfrentadas por essa instituição, do entendimento governamental
que tira a educação do lugar privilegiado para a construção da autonomia e da cidadania.

Como a ideologia – constituída de ideias, entendimentos e princípios – é construída e sustentada?


Quais são seus mecanismos? Qual é seu processo?

De acordo com Guareschi (1998), a ideologia constitui‑se como prática discursiva e material, isto
é, ela se estabelece no campo das ideias, nos discursos, nas conversas. Também se faz nas práticas
cotidianas, na repetição dos papéis sociais, na educação escolar, nas práticas familiares e sociais. Numa
13
Unidade I

sociedade marcada pela extraordinária presença dos meios de comunicação, é transmitida não apenas
por revistas, jornais, TV, mas também e intensamente pela internet, pelas redes sociais, nas quais vivemos
mergulhados no cotidiano. Desse modo, a ideologia é literalmente apreendida e, assim, legitimada
(THOMPSON, 2001).

Esse processo, que pode ser reconhecido como brutal e violento, uma vez que implica a imposição
de ideias, valores e comportamentos (o hoje), assim como de possibilidades (o futuro), também tem
grandes sutilezas. Sua instituição se faz de tal forma que os indivíduos não se dão conta de seu aspecto
construído e tutorado, tomando como “natural” o que foi produzido circunstancialmente, apoiado por
interesses de classe e de grupos específicos, mas de forma que oculte tais interesses e a contradição na
qual estão apoiados. Como resultado desse processo, a crítica à ideologia é tarefa imensamente complexa
que muitas vezes tem se mostrado ineficaz. Embora necessária, a mera apresentação da contradição não
desfaz o “feitiço” ideológico, isto é, ainda que haja disposição para confrontar a ideologia, reconhecida
sua presença e os equívocos a que ela nos leva, isso é um desafio para a razão e também para as paixões.

De um lado, não é difícil compreender que a repetição de certo entendimento sobre a vida e sobre
suas funções, associada a uma “bonita moldura”, é capaz de promover tal sustentação da ideologia.
Esses entendimentos, enraizados e apresentados como “naturais”, têm uma inércia, isto é, são como
objetos pesados, difíceis de serem movidos, contrariados, de saírem do campo de conhecimentos que
nos organiza e dirige. Poderemos verificar essa dificuldade, numa perspectiva estritamente psicológica,
se compreendermos que abrir mão dessas “certezas” também é abrir mão, um tanto, de nós mesmos, de
nossas identidades, uma condição que nos assusta e carrega para longe a incerteza dos efeitos ideológicos.

Também, numa perspectiva filosófico‑política e estratégica, os próprios críticos podem ser


responsabilizados pelas dificuldades de contrapor‑se à ideologia dos grupos dominantes. Isso porque, de
acordo com Guareschi (1998), eles podem ter tomado esse embate a partir de princípios que precisam
ser desafiados. Por exemplo, no seu apego à razão como caminho exclusivo desse confronto, por uma
teleologia em relação às determinações históricas desse embate, isto é, a descoberta e o desvelamento da
ideologia dominante como parte de um caminho sem volta, especialmente o desprezo pelo pensamento
não cartesiano e por categorias como afeto, desejo e prazer.

A revisão crítica dessa posição pode ser vista, por exemplo, em obras que buscam incluir essas
categorias e promover sua inclusão definitiva num conflito que não pode ser ganho sem considerar o
imponderável. Silvia Lane e Bader Sawaia, por exemplo, são representantes desse esforço na Psicologia
Social brasileira e na elaboração de conceitos que fazem essa conexão, como o de sofrimento ético‑político
(SAWAIA, 1999), recuperando a dimensão afetiva na construção e na manutenção das mazelas sociais.

Poderíamos acrescentar aqui que a ideologia também se produz por meio do compartilhamento de
imagens que sustentam esses entendimentos e ideias, assim como as práticas cotidianas. As imagens, ou
aquilo que tem dimensão imagética e que está também nas palavras, no discurso, no comportamento
ainda são potentes para conduzir a ideologia. Os estudos sobre o imaginário, numa perspectiva crítica
como a do filósofo Cornelius Castoriadis (1986), podem auxiliar a compreender essa presença, assim
como os trabalhos desenvolvidos a partir da Teoria das Representações Sociais, proposta pelo psicólogo
social Serge Moscovici (2010).
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PSICOLOGIA DOS GRUPOS E SUBJETIVIDADE

Exemplo de aplicação

Você consegue perceber, por exemplo, a presença da ideologia nas notícias publicadas pelos grandes
conglomerados de mídia – jornais, redes de televisão, revistas semanais?

Finalizando, leia o poema O rei que mora no mar, de Ferreira Gullar:

O rei que mora no mar

Diz a lenda que na praia


dos Lençóis no Maranhão
há um touro negro encantado
e que esse touro é Dom Sebastião.

Dizem que, se a noite é feia,


qualquer um pode escutar
o touro a correr na areia
até se perder no mar

onde vive num palácio


feito de seda e de ouro.

Mas todo encanto se acaba


Se alguém enfrentar o touro.

Isso é o que diz a lenda.


Mas eu digo muito mais:

Se o povo matar o touro,


a encantação se desfaz.

Mas não é o rei, é o povo


que afinal desencanta.

Não é o rei, é o povo


que se liberta e levanta
como seu próprio senhor:

Que o povo é o rei encantado


no touro que ele inventou.

Fonte: Gullar (2002).

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Unidade I

Nos versos de Ferreira Gullar, recuperando a maravilha da cultura popular do Maranhão, notamos a presença
de algo que nós mesmos construímos e que nos aprisiona, que é assustador e mágico. É só no confronto com
este que parece o que nos controla, “o rei”, que podemos sair do encanto e nos libertar. Assim é com a ideologia:
só o confronto e a crítica permanente podem oferecer saída para a dominação e instituir a liberdade.

Figura 4 – Músicos esquentando tambores para a Festa do Boi

Saiba mais

Veja na internet:

ARQUIVO marxista na internet. [s.d.]. Disponível em: <http://www.


marxists.org/portugues/>. Acesso em: 26 set. 2013.

MEMÓRIA Roda Viva: Marilena Chauí. Produção: Vicente Lomonaco.


São Paulo: Fundação Padre Anchieta, 1999. Disponível em: <www.rodaviva.
fapesp.br/materia/61/entrevistados/>. Acesso em: 20 dez. 2013.

3 A REALIDADE HISTÓRICA E SOCIAL DOS PAÍSES LATINO‑AMERICANOS

3.1 A Psicologia dos Grupos no embate das questões sociais

As discussões sobre o materialismo dialético, a presença e a importância da contradição nos


fenômenos humanos e sobre os processos ideológicos servem para apresentar as ferramentas
teórico‑conceituais e práticas que serão utilizadas contemporaneamente pelos psicólogos sociais
brasileiros e latino‑americanos, matéria‑prima das mais importantes para os estudos e trabalhos
sobre grupos numa perspectiva crítica. A inserção científica e profissional da Psicologia num
contexto marcado por grandes desigualdades sociais e pela dominação de modelos científicos
forjados em outras culturas foi construída por meio de uma profunda mudança no rumo dessa
história, que exigiu e ainda vem exigindo a disposição para o confronto, o debate e o engajamento
político.

16
PSICOLOGIA DOS GRUPOS E SUBJETIVIDADE

Durante muito tempo, a Psicologia no Brasil pôde ser entendida como um espelho das atividades
científicas que se desenvolviam na “metrópole” – entendam‑se aqui os Estados Unidos. Seguindo
esse modelo colonial, nossa produção científica e técnica esteve longe de levar em conta a história
e as realidades vividas pelos povos latino‑americanos, e acadêmicos e universidades dedicavam‑se
com mais ou menos sucesso a repetir as preocupações e os programas das universidades
norte‑americanas, tornando nossos os problemas e interesses produzidos em outros lugares
(SANDOVAL, 2000).

A ultrapassagem crítica desse modelo pronto de reprodução vai apoiar‑se em uma “tomada de
consciência”, se é possível falar assim, por parte dos próprios psicólogos, que passam a incluir no seu
vocabulário técnico‑prático palavras que antes não se pensava que pudessem fazer parte dele. É o caso,
por exemplo, da ideia de subdesenvolvimento, conceito que aponta para as condições de submissão
cultural e econômica construídas e sustentadas pelas relações de dependência com os chamados países
desenvolvidos:

O subdesenvolvimento não é, como muitos pensam equivocadamente,


insuficiência ou ausência de desenvolvimento. O subdesenvolvimento é um
produto ou um subproduto do desenvolvimento, uma derivação inevitável
da exploração econômica colonial ou neocolonial, que continua se exercendo
sobre diversas regiões do planeta (CASTRO, 2003, p. 137).

A entrada desse novo organizador da prática dos psicólogos, segundo Sandoval (2000), vai provocar
uma mudança muito importante no horizonte do que era possível fazer nesse campo, empurrando
definitivamente os psicólogos para uma condição que também produzia estranhamento e incômodo
no meio científico: deixam de ser reprodutores de ideias e pensamentos estrangeiros e passam a
reconhecer‑se como militantes das causas sociais. Em outras palavras, o psicólogo identifica‑se nessa
condição também como um cidadão e crítico das situações sociais nas quais ele próprio vive. Mais do
que isso, suas atividades científicas e profissionais vão ser compreendidas necessariamente como parte
desse contexto.

O confronto com a Psicologia tradicional – ou colonial – vai conduzir a um olhar muito mais
crítico e inconformado para a realidade brasileira e a latino‑americana, e a uma posição científica
que exclui definitivamente o decantado princípio da neutralidade científica e o enfrentamento de
questões que passam a ser centrais na agenda da Psicologia, como as oposições inclusão‑exclusão,
igualdade‑desigualdade, autonomia‑dominação. A descoberta preconizada pela ação científica neutra
de inspiração positivista se oporá a uma prática que busca a transformação e que ganha força como
objetivo fundamental do psicólogo.

Durante as décadas de 1970 e 1980, boa parte da América Latina encontrava‑se sob regimes de
exceção. As ditaduras militares eliminaram direitos civis, suprimiram espaços de debate e a possibilidade
do pensamento discordante, eventualmente apelando para a tortura dos opositores e produzindo o
que, para usar um eufemismo bastante repetido, se chamou de “desaparecidos”, isto é, os indivíduos
identificados que foram mortos por esses regimes.

17
Unidade I

Figura 5 – Imagens de desaparecidos políticos em Córdoba, Argentina (2012)

No Brasil, a Ditadura Militar foi instaurada em 1964 e encerrada em 1985. Sua presença nos meios
culturais e acadêmicos foi avassaladora, ocasionando cassações, exílios e a morte de muitos indivíduos
tidos como oponentes do regime, “subversivos”, que pretendiam mudar a condição política do país.
Isso não impediu completamente que a voz dos grupos discordantes pudesse ser ouvida, apesar de a
censura ter mutilado e impedido muitas obras de se tornarem públicas. Tal situação pôde ser vista, por
exemplo, nas ações de grupos teatrais, como o Teatro de Arena em São Paulo, o Grupo Opinião, ligado
ao Centro de Cultura Popular da UNE, e o Teatro do Oprimido, com autores como Oduvaldo Vianna Filho,
Maria Adelaide Amaral, Plínio Marcos e Gianfrancesco Guarnieri. Na música, também são muitos os
autores que produziram obras de resistência, críticas ao Regime Militar, entre eles Geraldo Vandré, Chico
Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gonzaguinha.

A canção Cálice (1973), de Chico Buarque de Hollanda e Gilberto Gil, é um bom exemplo de música
de resistência, ao mesmo tempo que revela o cuidado para driblar a censura:

Cálice

Pai! Afasta de mim esse cálice


Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga


Tragar a dor e engolir a labuta?
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa?
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

18
PSICOLOGIA DOS GRUPOS E SUBJETIVIDADE

Pai! Afasta de mim esse cálice


Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como é difícil acordar calado


Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada, pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai! Afasta de mim esse cálice


Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

De muito gorda a porca já não anda (Cálice!)


De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, Pai, abrir a porta (Cálice!)
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade?
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Pai! Afasta de mim esse cálice


Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Talvez o mundo não seja pequeno


Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça!
Minha cabeça perder teu juízo.
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça

Fonte: Buarque; Gil (1978).

19
Unidade I

Observação

A Ditadura Militar no Brasil produziu e ainda produz efeitos.

A Comissão Nacional da Verdade, instalada em maio de 2012,


investiga as violações dos direitos humanos por agentes do Estado
entre 1946 e 1988.

Figura 6 – Reunião pública da Comissão Nacional da Verdade (2013)

A opressão política também alcançou os meios acadêmicos e científicos brasileiros. Via de regra,
os intelectuais eram os primeiros a ser perseguidos e exilados. Sintomaticamente, essa condição abriu
portas para a disseminação de conceitos e práticas técnicas e científicas identificados com o status quo,
isto é, como o poder vigente.

Os modelos hegemônicos de ciência, aqueles que poderiam propagar‑se “livremente”, abraçavam


no campo das Ciências Humanas e Sociais ideais que apresentavam uma versão do cientista e de suas
questões que privilegiavam a neutralidade científica ou, ainda, o seu distanciamento das questões
políticas. Nesse caso, o cientista deveria exercer uma ação “estritamente acadêmica” ou, no máximo,
compreender sua produção como voltada para o “bem comum”, o “bem‑ estar da sociedade”, a
“felicidade da nação”.

No que diz respeito à psicologia latino‑americana, a oposição aos governos totalitários conduziu
inúmeros psicólogos ao confronto, ao desafio dos modelos hegemônicos vigentes e à proposta
de novas formas de produzir conhecimento que pudessem, “subversivamente”, transformar a
sociedade. É o caso da peruana Gladys Montecinos, das venezuelanas Maritza Montero e Maria
Auxiliadora Banchs, do cubano Fernando González Rey e do espanhol radicado em El Salvador,
Ignacio Martín‑Baró.

20
PSICOLOGIA DOS GRUPOS E SUBJETIVIDADE

Figura 7 – A Ditadura Militar no Brasil

Nesse contexto, a Psicologia, especialmente a Psicologia Social no Brasil, pode ser reconhecida a partir
de uma história que se inicia, sintomaticamente, com uma crise. A crise da Psicologia Social, identificada
por pensadores desde a década de 1960, refere‑se ao confronto entre um modelo de Psicologia que
defendia uma prática neutra e de aplicação tecnológica, na esteira da Psicologia americana, e um
modelo que se apresentava vinculado ao contexto histórico‑social, em que se desenrola a vida dos
indivíduos; uma Psicologia com forte componente crítico e político.

Nesse embate, que se estendeu pelos anos 1970, o psicólogo social Aroldo Rodrigues, será
identificado como porta‑voz de um desses polos. Rodrigues produz a sua obra científica a partir de um
referencial histórico e epistemológico que caracteriza os conceitos e as práticas da corrente principal da
Psicologia americana. Numa perspectiva que pode ser descrita como psicológica e fundamentalmente
experimental (FARR, 2010), Rodrigues será o principal representante dessa posição, que entende uma
separação necessária entre Psicologia e Política, compreendida aqui no seu braço participativo e crítico.
Ainda que voltado para a produção de um conhecimento que considerava a realidade brasileira e a
solução de problemas sociais – o que o levou, inclusive, à elaboração de uma tecnologia social –, a
oposição da qual foi alvo ao longo da década de 1970 respondia às crescentes exigências de grupos
de acadêmicos brasileiros do campo da Psicologia preocupados com a determinação de problemas e
pesquisas que não apenas pensassem a realidade do país, mas também tivessem a preocupação sobre
como transformá‑la (LIMA, 2009).

Em contrapartida, capitaneando a fala discordante do status quo e profundamente engajada na


oposição à ditadura (1964‑1985), está a psicóloga social Silvia Lane. Formada em Filosofia e doutora
em Psicologia, sob uma perspectiva experimental, Lane constrói sua carreira científica aproximando‑se,
antes, do “materialismo” de Skinner, para então dedicar‑se ao materialismo de Marx, contido na Psicologia
soviética. Sua carreira acadêmica e profissional inclui as preocupações com a inserção do psicólogo como
pensador e agente de transformação da sociedade. Indo além, Lane estabelecerá contatos permanentes
com importantes representantes da Psicologia Social latino‑americana, instituindo espaços de encontro
e diálogo cruciais para o estabelecimento dessa Psicologia crítica (BOCK et al., 2007).

21
Unidade I

Figura 8 – Silvia Lane defendeu a ação política do psicólogo

Lane (1985) fez duras críticas ao entendimento sustentado por Rodrigues sobre a Psicologia Social
como uma ciência básica e neutra capaz de solucionar problemas sociais. O maior perigo nesse caminho
seria o de sustentar o psicólogo como um profissional a serviço da ideologia e da dominação, fazendo dele
verdadeiro agente da adaptação. A Psicologia Social crítica, defendida por Lane e outros pensadores, vai
assim buscando estabelecer‑se como ação científica e política, indicando a impossibilidade de separar
teoria e prática, voltada para uma ação acadêmica e profissional engajada na luta por transformação e
justiça social.

Como um dos primeiros passos da trajetória de oposição a uma “psicologia das elites”, está a
publicação de um livro que vai delinear as principais preocupações teóricas e temáticas do grupo dirigido
por Silvia Lane. Em Psicologia Social: o Homem em Movimento (CODO; LANE, 2006), são apresentados
os fundamentos dessa Psicologia crítica, seus principais temas, como as Representações Sociais, a
Identidade e o Processo Grupal, assim como os campos nos quais essa psicologia viria a ser aplicada –
na escola, no trabalho e na comunidade.

Exemplo de aplicação

Pense e responda: como é possível reconhecer a presença da história de violações produzida pela
Ditadura no cotidiano? Onde elas podem ser encontradas?

3.2 A Psicologia Sócio‑Histórica

Formada a partir das principais correntes no embate com os modelos hegemônicos e que defendem
a neutralidade da Psicologia, desenvolveu‑se uma perspectiva crítica nomeada como Psicologia
Sócio‑Histórica, representada no Brasil pelos trabalhos de Silvia Lane e de seu grupo. Fundamentada na
crítica marxista e na produção de autores russos como Vygotsky e Leontiev, essa proposta‑ação considera
a Psicologia como ciência e guarda como princípio o conflito. Este está presente nas dualidades que
podem ser identificadas nas diferentes escolas psicológicas, que mobilizam a caracterização de distintos
objetos de conhecimento e a escolha de ferramentas metodológicas apropriadas para o exercício do
conhecer. Estão aqui as oposições entre indivíduo e grupo, interno e externo, natureza e sociedade,
autonomia e liberdade, determinação e controle (BOCK; GONÇALVES; FURTADO, 2001).
22
PSICOLOGIA DOS GRUPOS E SUBJETIVIDADE

A Psicologia Sócio‑Histórica procura superar essa condição dicotômica, fazendo da contradição parte
do fenômeno psicológico. Apoiada no marxismo, adota o materialismo dialético como filosofia, teoria
e método. Como teoria crítica do modelo positivista e racionalista da ciência psicológica, busca situar
a Psicologia numa perspectiva dialética. Orienta essa visão o princípio de que o homem é ativo, social e
histórico e de que a sociedade deve ser entendida como uma produção histórica de seus participantes,
homens e mulheres. Sob essa compreensão, as ideias são entendidas como representações da realidade
material, que é, por sua vez, assentada em contradições expressas nas ideias. Assim, a história deve
ser compreendida como movimento contraditório e constante do fazer humano – e que tem por
fundamento sua base material.

Para dar suporte a essa perspectiva, e já caminhando para o que sustentará as relações entre
subjetividade e grupos, é necessário situar a própria história da Psicologia como ciência. Segundo
Bock (2001), a visão liberal que acompanha a instalação do capitalismo privilegia o individualismo,
a vida privada e a invenção de um “mundo interno”, particular. Tais princípios irão fundamentar as
preocupações que virão a configurar‑se, mais tarde, a Psicologia como campo do conhecimento.
Em meio a um cenário de diferenças entre os indivíduos, cada um portador de uma singularidade, a
Psicologia virá contribuir para a compreensão sobre como cada um desenvolverá suas próprias fórmulas
de apropriação e enfrentamento do mundo natural e do social.

Essa compreensão, contaminada pela ideologia dominante do sujeito senhor de si e de sua história,
despreza o âmbito coletivo e, assim, individualiza o sofrimento, a inadequação e a falta, contribuindo
para a sustentação da desigualdade social, que requer o ajuste e a cura, em vez da crítica das condições
sociais que sustentam a desigualdade. O fenômeno psicológico, nesse cenário, é deslocado das condições
sócio‑históricas nas quais “objetivamente” se apresenta e é naturalizado, apresentado como fora do
tempo e do espaço. Está lá e solicita dos indivíduos que se adaptem a essas condições.

Na perspectiva sócio‑histórica, porém, vai‑se compreender o fenômeno psicológico como não


pertencente à natureza humana, não preexistente ao homem, mas refletindo a condição social,
econômica e cultural em que homens e mulheres vivem. Portanto, o mundo interno e o mundo externo
não são compreendidos como oposições, mas como:

[...] aspectos do mesmo movimento, do mesmo processo no qual o homem


atua e constrói/modifica o mundo e este, por sua vez, propicia os elementos
para a constituição psicológica do homem [...]. O fenômeno psicológico deve
ser entendido como construção no nível individual do mundo simbólico que
é social (BOCK, 2001, p. 22‑3).

A Psicologia Sócio‑Histórica afirma, assim, a indissociabilidade entre a subjetividade e a objetividade


do mundo, marcada pelas relações econômicas, e reconhece a presença da linguagem como mediadora
do processo de internalização da realidade. A subjetividade não pode ser descolada das relações sociais
concretas, e, desse modo, conhecer o mundo interior – o fenômeno psicológico – é compreendê‑lo
como expressão e conversão do mundo objetivo e coletivo, retirando sua caracterização como algo
que deve ser entendido como abstrato e idealista. Muito pelo contrário, o fenômeno psicológico ganha
“materialidade”.
23
Unidade I

A crítica da Psicologia Sócio‑Histórica é aguda porque vê, nas correntes psicológicas derivadas das
posições positivistas em ciência, a naturalização dos fenômenos psicológicos. O efeito da adesão a
essas correntes é, inevitavelmente, o de sustentação de práticas de adaptação e ajuste, desprezando os
condicionantes sócio‑históricos que mantêm concepções sobre o indivíduo, o social e os fenômenos
psicológicos, ignorando a presença da ideologia e contribuindo para a ocultação desses determinantes.

A Psicologia Sócio‑Histórica critica a Psicologia fora dessa perspectiva porque, como consequência,
entende‑se que os sujeitos são responsáveis solitários por seus sucessos e fracassos, que as condições
de vida respondem pelo aparecimento ou não das “potencialidades” de cada um, que as pessoas podem
ser classificadas por suas características psicológicas e, em última instância, contribuem para reforçar
padrões de conduta e normalidade que têm a elite como referência, contribuindo para a estigmatização
e para o sofrimento daqueles que “não conseguem”. Complementando, a crítica confirma‑se na história
de cumplicidade das práticas psicológicas tradicionais com os interesses dos grupos dominantes,
naturalizando representações, identidades e a origem social das diferenças, ou melhor, do que estas são
e significam num dado contexto sócio‑histórico (BOCK, 2001).

Na crítica à postura positivista e idealista na construção do conhecimento em Psicologia, essas


considerações têm efeitos profundos sobre o posicionamento de acadêmicos e profissionais, requerendo
deles conhecimento e capacitação técnica, mas também um posicionamento ético e político em relação
às suas práticas, críticos dessa perspectiva naturalizante e engajados na transformação da realidade. Como
desdobramentos da adesão à perspectiva sócio‑histórica, pretende‑se superar a neutralidade da prática
profissional e assumir que esta trata de escolhas e engajamentos, que irão se materializar na construção de
projetos coletivos de classe, mas também na elaboração de uma ação profissional que respeita os interesses
e desejos do outro no encontro da prática profissional (indivíduo, grupo, comunidade).

Lembrete

Não deixe de reconhecer na proposta crítica da Psicologia Sócio‑Histórica


os fundamentos filosófico‑metodológicos que vêm do materialismo dialético
para o combate à desigualdade e para a transformação da sociedade.

4 NOVOS TEMAS PARA O PENSAMENTO CRÍTICO EM GRUPOS: LINGUAGEM E


IMAGINÁRIO

4.1 Questões de fundamento e metodológicas

Do ponto de vista metodológico, muitos e diferentes têm sido os métodos utilizados para o estudo
desses temas e conceitos numa perspectiva crítica. Embora os métodos quantitativos não sejam
incompatíveis com a pesquisa social, os métodos qualitativos têm sido os preferencialmente utilizados
nesse campo. As razões são muitas, mas podem ser sintetizadas no reconhecimento de que alguns
problemas – que dizem respeito às condições e maneiras pela quais os grupos sociais compreendem,
representam e comportam‑se – exigem uma abordagem que possa dar conta, simultaneamente, da
variedade e da convergência (MINAYO, 2010).
24
PSICOLOGIA DOS GRUPOS E SUBJETIVIDADE

Desse modo, as ações de pesquisa e intervenção na Psicologia Social tenderam a privilegiar


metodologias qualitativas. Por meio delas, é possível aliar as preocupações com o engajamento do
pesquisador e as vias para a transformação da sociedade com as demandas acadêmicas do apelo ao
método que pudesse ser reconhecido como produzido dentro dos cânones científicos.

Proposta no contexto de crítica ao pensamento positivista nas Ciências Sociais, a pesquisa


qualitativa apoia‑se numa epistemologia que reconhece como prática de ciência as teorias e
ações que admitem a construção de conhecimento a partir de situações singulares, marcadas pelo
contexto histórico e social nas quais se apresentam. Dessa forma, desafiam a universalidade e a
permanência de um conhecimento que se faz em movimento, no debate e no confronto contínuo
de interpretações do mundo.

O pesquisador se apresentará, na mesma perspectiva profissional já discutida anteriormente, como


parte necessária do processo de construção do conhecimento, não apenas como detentor de saber
acadêmico e manipulador de técnicas, mas considerando o meio composto de história, experiências,
conhecimentos e princípios que necessariamente interferirão na sua apreensão do problema investigado.
Com essa participação como sujeito, ele se engajará numa relação intersubjetiva, contrapondo a divisão
absoluta entre sujeito e objeto de conhecimento.

O estudo das representações sociais, por exemplo, pode‑se dar em face desse contexto de interação
entre os indivíduos a partir da interpretação das falas dos participantes de determinado grupo, de tal
maneira que o pesquisador poderá procurar no estudo da história/narrativa do uso da representação
social o instrumental específico para o exercício de interpretação. Portanto, o estudo das dimensões
históricas do discurso presta‑se ao estudo das representações sociais.

Algumas categorias são especialmente importantes quando se produzem estudos qualitativos,


entre elas a linguagem, meio privilegiado para se encontrar e conhecer o outro. Ao se falar no
trabalho com grupos, outra categoria que tem exigido especial atenção é a de imaginário. A apreensão
dos fundamentos dessas duas categorias é decisiva para a pesquisa e intervenção com grupos na
Psicologia Social.

4.2 Linguagem

Os estudos sobre a linguagem têm sido alvo de um grande número de pensadores em Filosofia,
Sociologia, Antropologia e Psicologia, e mesmo nas Ciências da Saúde, seja preocupados com a
compreensão de sua origem e função social, seja buscando compreender seus aspectos, neurofisiológicos
e funcionais. Na linhagem teórica que vê a linguagem como prática que produz a ligação entre o
indivíduo e o mundo social, há compreensões bastante diversas. O psicólogo behaviorista Skinner, por
exemplo, tem uma obra especialmente voltada para o estudo e a interpretação do comportamento
verbal, indicando a materialidade do falar. Numa outra perspectiva, a sócio‑histórica, tendo Vygotski
e Leontiev à frente, a linguagem vai ser compreendida como produto de relações materiais e sociais e
pensada como indissociavelmente ligada ao pensamento.

25
Unidade I

Figura 9 – Pessoas falando: elas representam o mundo ou são faladas por ele?

De acordo com Kusch (1989), dentro da filosofia há diferentes maneiras de se entender a linguagem.
A partir de autores como Edmund Husserl, a linguagem pôde ser entendida como cálculo. Para Heidegger,
Gadamer e Wittgenstein, a linguagem será um meio universal. Basicamente, a diferença entre essas
duas maneiras de compreendê‑la está em entender que sua função pode ou não ser descrita como de
representar a realidade.

O filósofo alemão Husserl defende que a linguagem pode ser entendida como cálculo na medida
em que é capaz de representar a realidade. Pode ser medida, e sua relação com a realidade pode ser
estabelecida matematicamente. Isso traz consequências imediatas para a sua interpretação, em práticas
como o Direito e mesmo para as práticas de saúde.

Já para autores como Martin Heidegger, a melhor maneira de abarcar a linguagem é caracterizando‑a
como meio universal. Numa compreensão distante do senso comum, esses autores entendem que a
linguagem não é uma ferramenta, mas antecede a realidade e conforma o real, que só passa a existir
a partir da linguagem. Na compreensão da linguagem como meio universal, ela não apenas revela, mas
institui a realidade, o que sugere uma condição muito singular: no limite, nós não falamos, somos falados.

O filósofo Gadamer (1977) sustenta esse outro lugar da linguagem afirmando que ela não é apenas
um objeto em nossas mãos, mas é o reservatório da tradição em que e por meio do qual nós existimos e
percebemos o mundo. Ele usa a metáfora do jogo para explicar a autonomia da linguagem. A fascinação
do jogo vem de estar à mercê dele; assim também é a linguagem nessa perspectiva, que nega a
possibilidade de um controle absoluto sobre ela. Como num jogo (jogos de linguagem), os caminhos da
linguagem escapam ao nosso domínio absoluto como jogadores. O resultado é que há uma dificuldade
fundamental para se tratar o mundo objetivamente por meio da linguagem; nessa dificuldade, está
implicado o falante, o “ser”.

Outro filósofo que se dedicou à linguagem que não se presta a representar a realidade é Ludwig
Wittgenstein. Ele usa o exemplo da dor para explicar a linguagem como jogo. Segundo ele, o
reconhecimento da dor – a própria dor – não se constitui numa circunstância apenas individual, apoiada
no mundo interior de um sujeito, mas depende de certa gramática. Embora aparente uma declaração
indicativa de um estado interno, essa afirmação é de fato o início de um jogo de linguagem: é um
pedido de reconhecimento sobre algo que se passa entre o autor e quem o escuta.
26
PSICOLOGIA DOS GRUPOS E SUBJETIVIDADE

Todas as operações que pretendemos fazer a partir da linguagem irão pôr em jogo a condição de
“ser” de quem fala. Se o jogador é um pesquisador, de desbravador do desconhecido ele passa a ser
construtor do real. Se é um profissional como na Psicologia Social, de aplicador de técnicas ele passa
a instrumento da cultura. Se o jogador é um professor, além de mestre, ele será também aprendiz. A
relação com a linguagem é uma tarefa coletiva, que depende da inserção social dos falantes, do lugar
de onde se “fala” e de quem são seus interlocutores. Assim, ao falar, o uso da linguagem não é tarefa
“neutra”, mas implica consequências e, então, responsabilidades.

A concepção de linguagem como meio universal aponta para a impossibilidade de encontrar a


“verdade”, objeto, por excelência, da ciência; ela subverte o papel do pesquisador, do profissional e do
professor, ao fazer da ciência um parente bem próximo da arte.

Veja a letra da música Timoneiro, de Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho:

Não sou eu quem me navega


Quem me navega é o mar
Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar

E quanto mais remo, mais rezo


Pra nunca mais se acabar
Essa viagem que faz
O mar em torno do mar
Meu velho um dia falou
Com seu jeito de avisar:
– Olha, o mar não tem cabelos
Que a gente possa agarrar

Timoneiro nunca fui


Que eu não sou de velejar
O leme da minha vida
Deus é quem faz governar
E quando alguém me pergunta
Como se faz pra nadar
Explico que eu não navego
Quem me navega é o mar

A rede do meu destino


Parece a de um pescador
Quando retorna vazia
27
Unidade I

Vem carregada de dor


Vivo num redemoinho
Deus bem sabe o que ele faz
A onda que me carrega
Ela mesma é quem me traz

Fonte: Carvalho; Viola (2004).

Nessa letra, que faz uma bela metáfora sobre o imponderável da vida, é possível ver uma proximidade
com a discussão a respeito da linguagem como algo que “atravessa” os sujeitos.

Lembrete

Assim como a arte pode ser instrumento para a crítica, a linguagem


concebida para além da representação do mundo indica caminhos para
driblar a ideologia e a opressão de classe.

4.3 Concepções sobre o imaginário

4.3.1 Imagem e (des)razão

As concepções de imaginário que têm sido tratadas nas Ciências Sociais ao longo do último século
recuperam a importância daquilo que não pode ser “calculado”, como se viu anteriormente em relação
à linguagem. A dimensão humana, no que ela tem de caótico e “irracional”, é tomada como centro de
metodologias de pesquisa e intervenção. Isso poderá ser conferido nas práticas com os grupos e na
leitura dos fenômenos sociais e institucionais.

No cenário da produção científica nas Ciências Sociais, vê‑se desde o início do século XX a tensão
entre um modelo de conhecimento que busca a ordem e aquele que procura incluir a dimensão caótica,
irracional e, em grande medida, incontrolável sobre o humano. Essa falta de valor daquilo que não é
prontamente submetido à razão e ao controle experimental colocou ao largo do saber tudo o que não é
da ciência, como as religiões, a filosofia ou os mitos. Ainda assim, a “irracionalidade” das massas (LE BON,
2008) “vinga” essa disposição que é efeito de nossa herança positivista, na medida em que os indivíduos
sistematicamente se comportam de maneira imprevisível e “ao largo” da razão.

Observação

O Nobel de Economia de 2002 foi dado a dois cientistas (Kahneman e


Smith), cujos trabalhos descrevem como o dinheiro deveria se comportar
logicamente... se os humanos não o manipulassem.

28
PSICOLOGIA DOS GRUPOS E SUBJETIVIDADE

O antropólogo francês Gilbert Durand (2012, p. 18) define imaginário como o “conjunto das
imagens e relações de imagens que constitui o capital pensado do Homo sapiens”. O mesmo autor
reconhece que o lugar do imaginário na história dos homens tem sido um lugar sem valor. O
imaginário tem sido associado à desrazão e ao infantilismo social, e sua função seria fomentar
erros e falsidades. De fato, desde Sócrates, tudo o que se considera como “férias da razão” deve ser
colocado de quarentena...

Essa associação entre imagem e (des)razão está apoiada no entendimento de que a imagem se opõe
ao pensamento, e, de fato, ela está separada de um pensamento puramente lógico. A imagem, a partir
dessa crítica, é como um “ruído” do pensamento: acompanha‑o, mas sem ter muita importância na sua
gênese. Durand (2012) recupera o valor do imaginário e das imagens, considerando que elas também
detêm conhecimento, embora este possa não ser necessariamente científico.

Outro autor interessado no tema é o filósofo greco‑francês Cornelius Castoriadis (2007), fundador
do grupo Socialismo ou Barbárie, com Claude Lefort e Jean Laplanche, no Pós‑Guerra (1946), e da
revista de mesmo nome, pouco depois (1949). Castoriadis oferece um entendimento sobre a sociedade
e a história que se opõe aos pontos de vista tradicionais de sua época: o estruturalista e o funcionalista,
incluindo neste último o marxismo.

A crítica de Castoriadis ao marxismo passa pelo reconhecimento da instalação de uma burocracia


operária na então URSS, pela perda do caráter revolucionário da sociedade soviética e pela compreensão
de que o pensamento marxista não conseguiria ultrapassar o burguês, isto é, o pensamento marxista
seria capaz de disseminar os ideais burgueses e o seu modo de pensar.

Para esse filósofo, a representação do capitalismo vai buscar sentido no caldo social‑histórico
oferecido por uma cultura “capitalista”, enquanto o marxismo naturaliza a luta de classes e faz da
teoria marxista da história a sua versão definitiva: o que estiver fora da perspectiva que ela aponta ou é
alienação, ou barbárie. Assim, um dos problemas com determinadas leituras da Teoria Marxista seria sua
inobservância de outras motivações para os seres humanos que não apenas a econômica.

Castoriadis e seu grupo também se opuseram ao estruturalismo cientificista de Lévi‑Strauss, que


se apresenta nessa época como pensamento alternativo ao marxismo. Contra esse estruturalismo,
defenderam que, nas décadas de 1950 e 1960, este não era uma opção, mas adaptação ao modo
de dominação do capitalismo moderno, um discurso que conferia o primado absoluto à ciência, que
esvaziava a história e levava a tecnocracia ao campo intelectual (DOSSE, 2007).

A crítica de Castoriadis se estenderia a quaisquer tentativas de opor os indivíduos e as coisas, já


que tanto uns quanto outros seriam criações sociais (CASTORIADIS, 2007). Ele se coloca na contramão
de qualquer explicação determinista e cientificizada para os fenômenos sociais e, contra o natural e
o racional, apela para a história e seu caos indecifrável. É contra a pré‑instituição da realidade, seja
por qual caminho isso se der (via marxismo, via estruturalismo, por exemplo). Para ele, a sociedade se
institui a partir do imaginário, do social‑histórico. Sua crítica conduz à constatação de que as teorias
“revolucionárias” não conseguiram, num certo momento, ceder à mistificação, isto é, tendem a ser elas
mesmas sujeitas a serem tomadas como “naturais”. Mesmo o apelo à razão, por sua vez, foi incapaz de
29
Unidade I

promover essa superação. Não por acaso, Castoriadis vai ser identificado entre os representantes de
um “pensamento 68”, juntamente com Sartre, Edgard Morin, Jean Duvignaud, Claude Lefort e Henry
Lefebvre (DOSSE, 2007).

O contexto no qual estão inseridos maio de 1968 e Castoriadis é o das estrelas acadêmicas, dos heróis
do pensamento e das batalhas pela hegemonia do discurso, ou da verdade. Esse ambiente, apresentado
como avesso à mídia da cultura de massas (MORIN, 1984), estava curiosamente insuflado pela exaltação
às imagens de pensadores de todos os matizes: existencialistas, marxistas, estruturalistas ou filósofos,
sociólogos, psicanalistas. Na Europa reconstruída no Pós‑Guerra, a colonização cultural americana com
a homogeneização da sociedade e a importância alcançada pelo cinema como difusor de sentidos
e agregador das massas são vetores da imagem como referente social. A disputa pela verdade, que
explode em 1968 com greves e passeatas de estudantes, é o ponto culminante de uma reordenação
das certezas do Pós‑Guerra, da oposição simples entre capitalismo e comunismo, entre os projetos
individuais e os comunitários. É nesse momento que os grupos voltam a ser vetores de transformação
social. A guerra produz um esforço comunitário e, em seguida, um refluxo em direção à valorização da
individualidade. O ano de 1968 é a retomada de um movimento que recupera a presença do grupo como
formulador da mudança. O grupo desautoriza o mestre (ou mandarim) e institui a verdade a partir do
próprio agir, ainda que essa instauração não seja definitiva: Castoriadis não vislumbra em 1968 nenhum
grupo disposto a engajar‑se numa efetiva proposta revolucionária, fossem operários, intelectuais ou
estudantes. Revolta, sim; revolução, não.

Revolta adolescente, oposição ao instituído, que é tentativa de estabelecer uma identidade


revolucionária, ainda que seu agir não o fosse. Maio de 1968 é como um grito que anuncia a possibilidade
do imaginário no poder e denuncia o caráter impossível de mudanças que pudessem estabelecer‑se
apenas pela razão. A importância de Castoriadis (morto em 1997) ainda se faz perceber, como afirmam
França (1996) e Rodrigues (1998), pela sua proposição de um entendimento do social como instituinte e
instituído permanentemente a partir do “imaginário radical”, reconhecendo sua potência no imprevisível
que o imaginário radical nos reserva, num momento em que:

[...] não somente jovens, como trabalhadores, operários, camponeses,


intelectuais, idosos, mulheres, crianças etc. são figurados como comportados
consumidores de imagens, submetidos às leis do mercado, conformados com
o que é, protótipos de um legeinteukhein identitário, hegemônico porque
coincidente com determinado “Deus Logos” – o do “fim da história” – que
exibe, como aspectos mais visíveis, o “fim do socialismo real” e a “ascensão
globalizada do modelo neoliberal” (RODRIGUES, 1998, p. 134).

4.3.2 O imaginário radical

Na segunda parte de A instituição imaginária da sociedade (2007), Castoriadis vai definir seu
entendimento do imaginário, diferenciando‑o do sentido corrente – o imaginário como falso, como
invenção, como engano – e situando‑o como parte indistinguível do que implica ser humano.
Caracterizando as instituições sociais, ele afirma que tudo de que se fala, tudo o que se apresenta para e
pelos indivíduos está associado a uma rede simbólica, um simbólico que obviamente está na linguagem,
30
PSICOLOGIA DOS GRUPOS E SUBJETIVIDADE

mas que também está nas instituições. Aquilo que determina uma instituição, o que se produz e o
que se fala ali não se explica perfeitamente pela sua funcionalidade, ou pelas consequências lógicas
desses atos e palavras, mas a ultrapassa, isto é, comporta algo mais que escapa à ordenação simbólica.
Os símbolos institucionais, aquilo que representam, não são assim instituídos apenas racionalmente e
também não o são naturalmente, mesmo que apoiados de alguma forma na realidade. Isso que não é
redutível ao simbólico, mas que a ele está necessariamente associado, é uma primeira aproximação do
que Castoriadis irá chamar de imaginário.

Essa afirmação quanto ao que sobra do simbólico, que algo escapa, derrama‑se, como uma espécie
(des)valorizada de resto, não é uma novidade. Pelo contrário, tal sobra tem sido entendida ou como
algo desprezível, insignificante, ou como problema da mesma ordem daquele que se tem com o lixo que
não se deteriora: o que fazer com ele? O que Castoriadis afirma, indo além, é que aquilo que escapa
ao simbólico, o imaginário, não é sobra, mas está ali sempre, ou mesmo é anterior à sua instituição.
Não se trata, porém, de defender a existência de um conteúdo primordial, fora de qualquer tempo,
pensamento dos deuses, matéria de outro mundo. Não há uma substância preexistente às instituições
que as expressa e que produz a possibilidade de um significado. É o simbólico na língua e no fazer social
das instituições que dá sentido à realidade.

O autor dá como exemplo o que acontece em instituições como a Igreja e a Justiça, em que a ordem
e a funcionalidade, isto é, o simbólico, são apresentadas como razão de sucesso. Nessas instituições,
em geral, é subestimada a importância disso que escapa, do imaginário, para a manutenção e a
dinâmica institucionais. Aqui, Castoriadis fala em simbolismo, um imaginário efetivo. Sua relação com o
simbólico é inequívoca. O que escapa, se não é totalmente adequado ao funcionamento dos processos
institucionais, também não é derivado de alguma substância inerte ou de pura criação dessa sociedade.
Estabelece‑se apoiado em algo que já está ali, história e natureza, e sua presença e consequências são
o ser da sociedade:

[...] nem livremente escolhido, nem imposto à sociedade considerada,


nem simples instrumento neutro e médium transparente, nem opacidade
impenetrável e adversidade irredutível, nem senhor da sociedade, nem
escravo flexível da funcionalidade, nem meio de participação direta e
completa em uma ordem racional, o simbolismo determina aspectos
da vida da sociedade (e não somente os que era suposto determinar)
estando, ao mesmo tempo, cheio de interstícios e de graus de liberdade
(CASTORIADIS, 2007, p. 152).

A dificuldade de localizar nesse imaginário efetivo a sua fonte, sua confusão com a ordem simbólica e
ainda entendê‑lo como resto irá indicar nele uma tendência à autonomização. Os ritos são racionalizados
ou naturalizados, de forma que, na instituição, o que poderia ser entendido como vida ou movimento
passa a ser índice de algo que não pode ser mudado, sob pena de desarranjo ou morte da instituição.

Castoriadis entenderá a linguagem e o simbolismo em um mesmo plano. Nem tudo é linguagem,


tampouco simbolismo, mas, assim como a linguagem nos aprisiona em seus domínios sem impedir
uma mobilidade, também o simbolismo inerente às instituições oferece possibilidades de manuseio,
31
Unidade I

operatividade. Da mesma forma que na linguagem, nessa perspectiva, o que irá fornecer ao simbolismo
seu suplemento essencial de determinação e de especificação está fora do simbólico: aqui temos a
presença de outra dimensão imaginária. De fato, esse imaginário usa o simbólico para passar a “existir”.
Por meio dele, o imaginário passa a ser, de fato, operacional, atualizado e atualizável pelas falas e
ações dos indivíduos. Esse imaginário último, raiz de tudo quanto é simbólico, todas as expressões
humanas, como as instituições, a arte, as religiões, ou a ciência, raiz comum tanto do simbólico quanto
do simbolismo – o imaginário efetivo –, Castoriadis irá chamá‑lo de imaginário radical.

4.3.3 O imaginário social

Valorizando essa dimensão, o imaginário, para Castoriadis, não faz sentido dizer que esta só se
apresenta na medida em que uma sociedade não consegue resolver seus problemas reais. Os problemas
só são possíveis de serem identificados como tais justamente pela presença do imaginário. Não se pode
dizer para onde uma sociedade tende naturalmente, assim como o que lhe faltaria, o que precisa ser‑lhe
fornecido, qual o seu objeto. A definição dessas necessidades, a maneira pela qual se estabelecem, sua
dinâmica de instituição e manutenção, tudo isso é tributário do imaginário radical. Por ele e para ele,
elas se estabelecem, dentro de limites que são fornecidos pelo que é a cada tempo uma sociedade
ou uma instituição, ou, ainda, um grupo. Tempo que não diz respeito à evolução ou simplesmente a
movimento, mas num sentido muito profundamente vinculado às ações sociais. É por meio delas que o
tempo também se institui.

Forma e conteúdo não podem ser entendidos como dissociados. Linguagem e simbólico não
podem ser entendidos como independentes de um conteúdo que expressariam. De fato, para
Castoriadis, o imaginário radical não é substância: só permite indiretamente a inferência de sua
“existência”: o imaginário radical oferece um universo de significados a partir de sua presença
“em ação”. O significado, para Castoriadis, não pode ser buscado apenas na diferença entre os
signos (como querem os estruturalistas), mas na ação dos homens: “A história só existe na e pela
‘linguagem’ (todas as espécies de linguagem), mas essa linguagem, ela se dá, ela constitui, ela
transforma” (CASTORIADIS, 2007, p. 168).

A linguagem – o simbólico – deve ser pensada dentro da história, do tempo, do movimento. Portanto,
Castoriadis entende que existe algo que ele chama de significações imaginárias sociais, relativamente
independentes dos significantes e que desempenham mesmo um papel na escolha e na organização de
tais significantes. Por exemplo, Deus, para os que nele creem:

não é o nome de Deus, nem as imagens que um povo pode dar‑se dele, nem
nada de similar. Carregado, indicado por todos esses símbolos, ele é, em cada
religião, o que faz desses símbolos, símbolos religiosos – uma significação
central, organização em sistema de significantes e de significados, o que
sustenta a unidade cruzada de uns e de outros, o que permite também sua
extensão, sua multiplicação, sua modificação. E essa significação, nem de
uma percepção (real) nem de um pensamento (racional) é uma significação
imaginária (CASTORIADIS, 2007, p. 170).

32
PSICOLOGIA DOS GRUPOS E SUBJETIVIDADE

Essas significações imaginárias sociais são “significações operantes”, isto é, produzem efeitos
e, diferentemente das outras, que se dão no registro do percebido e do racional, as imaginárias são
captadas a partir de suas consequências, “a partir das sombras projetadas sobre o agir social efetivo dos
povos” (CASTORIADIS, 2007, p. 172). Essas criações não são originárias dos indivíduos. Não é possível
pensar nas significações imaginárias como derivação da psique individual porque esta não pode ser
isolada do contínuo social, que, já desde antes, encontra‑se instituído, e, assim, um indivíduo não será
capaz de gerar instituições, ou grupos, senão de expressar uma presença já disposta como possibilidade.
Também não será da linguagem, estritamente, que provirão essas significações imaginárias, senão que
encarnadas num fazer social que inclui a linguagem, mas é mais do que ela.

O imaginário social, assim, dá à funcionalidade de cada sistema institucional sua orientação específica;
sobredetermina a escolha e as conexões das redes simbólicas; é criação de cada época histórica, sua
singular maneira de viver, de ver e de fazer sua própria existência, seu mundo e suas relações com
ele; é estruturante originário; é significado‑significante central; é fonte do que se dá a cada vez como
sentido indiscutível e indiscutido; é suporte das articulações e das distinções do que importa e do que
não importa (CASTORIADIS, 2007). O imaginário social, histórico e circunstancial, organiza a cada vez o
lugar ocupado pelas instituições e pelos grupos, e designa as “imagens” daquelas em relação ao todo.

4.3.4 O imaginário e os grupos sociais

Uma instituição se identifica por um nome, mas o nome que designa uma coletividade ou um grupo
não se presta somente a denotá‑lo, mas também para conotá‑lo, porque se liga a um significado não
real, não racional, e sim imaginário. Qualquer que seja a instituição, ela tem como papel preservar‑se
para além de “suas moléculas perecíveis”, ou seja, de seus membros. Para Castoriadis (2007), cada
sociedade é um sistema de interpretação do mundo, de seu próprio mundo. A própria identidade de
uma sociedade nada mais é do que esse sistema de interpretação, esse mundo que ela cria, e é por isso
que ela, do mesmo jeito que o indivíduo, percebe como ameaça mortal qualquer ataque a seu sistema
de interpretação: entende um ataque como perigo à sua identidade, a si mesma. Sua finalidade seria,
assim, conservar esses “atributos arbitrários e específicos de cada sociedade que são as significações
imaginárias sociais” (CASTORIADIS, 2007, p. 31).

Preservando‑se e oferecendo significados imaginários, a sociedade elabora uma imagem do mundo


natural associada à sua identidade, assim como das necessidades que precisam ser preenchidas a
partir desse mundo. Seja o que for que determine as necessidades, deixa, no entanto, entrever que os
objetos que se prestam à sua satisfação estão investidos de algo que escapa ao puramente necessário
e são embebidos daquilo que está sendo constituído pela sociedade. Aquilo que é o alvo em direção
ao qual nos movemos – uma utopia – é estabelecido, ou melhor, está sendo estabelecido, tal qual as
necessidades socialmente constituídas. Nesse caso, o objeto que é apresentado no futuro para, em
perspectiva, ser alcançado está ele próprio sendo produzido, inventado a partir do imaginário ativo, isto
é, pelo imaginário radical em ação.

A produção dessas necessidades e utopias tem características bastante específicas nas sociedades
modernas. Estas são diferentes de outras sociedades em razão da insistência no apelo a explicações
procuradas numa racionalização intensa e do desprezo pelo que não é natural ou racional – o imaginário.
33
Unidade I

No entanto, é aqui, para Castoriadis (2007), que o imaginário é “vivido” com maior intensidade. O
arbitrário da definição do que é necessário para nossa sociedade fica potencializado pela capacidade,
inclusive técnica, dessa sociedade de produzir muito além das necessidades elementares, e isso não
se deve apenas à manipulação das classes dominantes, desde que elas também são dominadas pela
expansão das necessidades.

Observação

A relação entre a importância do imaginário e a tecnologia é evidente,


pelo menos desde o cinema.

O traço mais específico e profundo do imaginário contemporâneo é:

[...] que ele não possui carne própria, ele toma sua matéria de outra coisa,
é investimento fantástico, valorização e autonomização de elementos
que em si mesmos não dependem do imaginário: o racional limitado
do entendimento, e o simbólico. O mundo burocrático autonomiza a
racionalidade num dos seus momentos parciais, o do entendimento, que não
se preocupa com a correção das conexões parciais e ignora a questão dos
fundamentos, da totalidade, dos fins, e da relação da razão com o homem e
com o mundo (CASTORIADIS, 2007, p. 191).

Afinal, é para isto que se oferece o imaginário: em vez de responder para que sirvo, procuro responder
para que serve a instituição, o trabalho, o grupo. As questões sobre a essência, se é que podem ser
oferecidas, são deslocadas para campos fora da “realidade”. O entendimento da relação entre imaginário
e racional é histórico e socialmente oferecido. O que é uma determinada comunidade, o que e por que
pensa, quais suas necessidades e perspectivas: isso só pode ser compreendido a partir de categorias
oferecidas pelo grupo a que se vincula o “compreendedor”, presentes na sua história, e a transmissão,
na história, dá‑se pela linguagem. Todavia, o uso da linguagem aqui não deve ser entendido como o
de reprodução, mas o de recriação: é poético (transposição criadora). Aquilo que é dito ou contado é
sempre dito por alguém, não ao seu bel‑prazer, não plenamente manipulável. Interpretar o mundo é
interpretá‑lo para transformá‑lo. Ao reinterpretar o passado a partir de nossas categorias, isto é, tendo
em vista que elas são apenas nossas, nós as colocamos em jogo e nos oferecemos a possibilidade de
também jogar com elas, discuti‑las, criticá‑las, vislumbrando, assim, o imaginário e retirando sua capa de
naturalidade ou racionalidade, construindo um sentido para necessidades e utopias de uma sociedade.

4.3.5 O imaginário grupal

As considerações de Castoriadis (2007) sobre o imaginário nas sociedades e instituições podem ser
transportadas para o contexto dos grupos. De fato, o entendimento de grupos que se pretende neste
livro‑texto comporta, de um lado, sua presença como categoria, e, assim, sua evanescência; e, de outro,
sua presença como instituição, oferecendo a oportunidade de encontrar nos grupos circunstâncias e
características que seriam, para o autor, peculiares às instituições humanas. As necessidades dos grupos
34
PSICOLOGIA DOS GRUPOS E SUBJETIVIDADE

e suas perspectivas possíveis de atuação pela existência – ou permanência – são, assim, como as das
sociedades e instituições, referidas ao seu lugar no tempo e à sua presença social, e nelas se constata
ainda uma identidade – ainda que esses grupos sejam “apenas” categorias sociais. Desse modo, também
a própria presença do grupo não pode ser pensada como natural ou pura invenção, senão como só
possível a partir do imaginário radical e do social‑histórico. Em contrapartida, as significações imaginárias
sociais, que se constituem como magma provedor de sentido para as sociedades, têm como similares
“significações imaginárias grupais” que irão compor o imaginário do grupo. Como as instituições,
os grupos, como categorias ou estruturados, também procurariam manter‑se para além do tempo,
preservando um sistema de interpretação: lá, as significações imaginárias sociais; aqui, o imaginário
do grupo. Assim, se há um imaginário social, entendemos que haverá também um imaginário grupal,
expressão do imaginário radical na história e no tempo de certo grupo.

4.3.6 Operando sobre a dinâmica dos grupos

Castoriadis (2007) apresenta as instituições como produzidas a partir de algo que ele denomina
“imaginário radical”, que se constituiria fundado na história e apoiado na natureza. Berço de todas as
possibilidades de entendimento, a ideia de um imaginário radical propõe‑se a colocar em jogo outros
elementos, incorporando mais do que a linguagem ou a língua podem suportar. Aponta para o imaginário
radical como produto da ação dos seres humanos em comunidade, interagindo e constituindo‑se
instituições, lutando, agrupando‑se e movendo‑se em direção a um horizonte comum. As ações e as
palavras utilizadas pelos indivíduos a cada tempo numa determinada sociedade irão propiciar, assim,
outro imaginário, circunstancial, histórico, que oferece ali a potência do que é possível pensar, fazer e,
ainda, esperar.

O imaginário social é como a visão de um tornado – o imaginário radical –, a partir de um lugar


particular que ele mesmo institui. A figura de um tornado em relação ao imaginário radical faz referência
ao amálgama de elementos que ele literalmente carrega, arrasta, ao movimento que lhe é peculiar – essa
liga não seria apenas uma massa, mas uma massa em movimento –, e ainda ao caráter incontrolável
desse fenômeno natural. O que talvez seja de difícil entendimento nessa metáfora, que é da ordem da
imaginação radical, e não dos tornados, é que o lugar do qual ele é vislumbrado, o ponto de vista que
caracteriza uma sociedade, uma comunidade – ou um grupo – encontra‑se dentro do próprio tornado;
ele só é possível a partir dali.

O que Castoriadis (2007) parece indicar, quando afirma nossa liberdade em relação a certas amarras,
como as dos modelos econômicos ou da linguagem, é que esses sistemas, sem deixar de ser determinantes,
não contêm a explicação última, a causa dos movimentos sociais. Para além da linguagem e do social
histórico, há um universo de significações para as quais se pode e se deve olhar e as quais se deve
procurar compreender. Isso é dar sentido, ainda que ele nunca seja definitivo ou sequer permanente, já
que tanto a ação quanto o resultado que ele pode alcançar estão assujeitados a esse amálgama, que é
o imaginário radical, e à sua incidência, o imaginário social.

Caracterizando as instituições sociais, ele afirma que tudo de que se fala, tudo o que se apresenta
para e pelos indivíduos está associado a uma rede simbólica, um simbólico que obviamente está na
linguagem, mas que também está nas instituições. Aquilo que determina uma instituição, o que se produz
35
Unidade I

e o que se fala ali não se explica perfeitamente pela sua funcionalidade, ou pelas consequências lógicas
desses atos e palavras, mas a ultrapassa, isto é, comporta algo mais que escapa à ordenação simbólica.
Os símbolos institucionais, aquilo que representam, não são assim instituídos apenas racionalmente e
também não o são naturalmente, mesmo que apoiados de alguma forma na realidade.

A partir dessa noção de imaginário é possível pensar na ação sobre as instituições e os grupos
humanos. Eles deixam de ser meros conglomerados funcionais para ser lugares de encontro. No grupo,
como na instituição, não estão em jogo apenas as ações possíveis para cada ator participante, mas
haveria lá toda uma dimensão imaginária, leia‑se afetiva, relacional, de expectativas e medos. Quando
se fala em atuar numa instituição, é preciso atuar não apenas sobre seu organograma – que define a
racionalidade daquele conjunto humano –, mas também jogar sobre esse conjunto caótico que é o
imaginário ali. Assim, também no grupo, atua‑se não apenas sobre funções e papéis, mas também sobre
relações, afetos e medos. Por fim, um jogo em que está presente o imponderável e que tem, ainda como
protagonista, o discurso – que é mais do que um conjunto de palavras – e o poder de instituí‑lo.

Uma discussão importante, quando se trata de ação, de práxis, diz respeito ao entendimento das
relações entre sujeito e objeto, razão e realidade. Entendidas para além da concepção materialista‑dialética,
quando a objetividade de realidade é apresentada como condição do conhecimento e da práxis, essas
relações não devem deixar escapar a presença e a importância do que não é apenas ideologia, mas que
é desejo, da ordem do imaginário, e não do simbólico. O argumento desenvolvido por Castoriadis (2007)
e, em certa medida, dentro do próprio marco materialista‑dialético, por González‑Rey (2003), aponta
para os indivíduos, os grupos e a sociedade como parceiros de um movimento no qual a realidade é
“reconstruída” como objetividade, mas como possibilidades de intervenção pela ação humana. Essa
intervenção se dá não apenas pela regulação das relações entre esses atores (o simbólico), mas também
por aquilo que se desprende dessa ação, que não tem materialidade e que, mesmo assim, dirige esse
movimento que pode ser verificado no imaginário social ou, em alguma medida, na subjetividade social
descrita por González‑Rey (2003).

Exemplo de aplicação

A partir dessa discussão sobre a linguagem e o imaginário, é possível vislumbrar diferenças sobre o
entendimento e o manejo de ações sociais que se pretendem transformadoras.

Você consegue perceber essas diferenças?

Resumo

Nesta unidade, você teve contato com os fundamentos da Psicologia


Crítica que vem sendo produzida na América Latina e no Brasil. Pôde ver
que, nas suas raízes, encontra‑se o materialismo dialético, proposto por
Karl Marx. Com base nas propostas de Hegel, Marx reconhece a presença e a
importância da contradição como parte necessária dos fenômenos humanos

36
PSICOLOGIA DOS GRUPOS E SUBJETIVIDADE

e confere ao método que irá compreender a contradição a necessidade de


tomá‑la não apenas como ideia, mas como presente objetivamente nas
produções humanas. As preocupações de Marx vão dirigi‑lo ao conflito
entre trabalhadores e patrões e à dominação suportada pelo ocultamento
das contradições.

A ideologia é categoria do método materialista dialético que vai


contribuir para reconhecer e superar essas condições de ocultamento. Tendo
aqui caráter negativo, ela naturaliza a dominação. Seu enfrentamento, no
entanto, não é simples e exige o apelo a recursos provenientes de diferentes
campos do conhecimento.

A Psicologia Sócio‑Histórica latino‑americana e a brasileira


contrapõem‑se aos modelos hegemônicos de ciência e profissão, que
defendem a neutralidade do psicólogo. Num contexto social marcado
historicamente pela desigualdade e pela opressão, temos um embate em
que convergem cientista e pesquisador, e também o cidadão que busca
transformar a sociedade.

Essa vertente da Psicologia bebe dessas influências e contextos para


propor um modelo de conhecimento que utiliza o método materialista
dialético, combate a ideologia e defende um projeto de classe – dos
psicólogos – engajado e militante na busca do fim da desigualdade e da
exclusão.

O imaginário, como conceito que desafia a racionalidade e as explicações


fundacionais e permanentes, é a proposta de Castoriadis (2007) para a
compreensão do devir humano nos grupos, nas instituições e na sociedade.
Para ele, confrontando as perspectivas tradicionais do marxismo e do
estruturalismo, as ações humanas coletivas e cotidianas são instituintes
do que é o humano, do que é possível, do futuro. Atuar sobre a sociedade
é, reconhecendo suas dimensões necessariamente imponderáveis, procurar
por respostas das quais também cada ator social é parte.

Exercícios

Questão 1. Leia atentamente o texto a seguir:

Para Juvenal concluir o curso de graduação, não foi nada fácil: negro, pobre, homossexual, precisou
enfrentar cem leões por dia para atingir sua meta. Discriminação e preconceito foram o seu feijão
com arroz de todos os dias. Obtido o tão desejado diploma, feito seu registro no Conselho Regional
de Psicologia, saiu a campo batalhando por uma oportunidade de trabalho. Aceito para integrar um
grupo de pesquisa, Juvenal ficou feliz: o grupo multidisciplinar que o acolheria tinha como objeto
37
Unidade I

de estudo a questão das cotas para minorias excluídas em empresas da região metropolitana de São
Paulo. Imediatamente levantou textos e realizou leituras sobre o assunto. Deu‑se conta do intenso
jogo de interesses de todo tipo que permeia os debates sobre esse tema. Olhando para o que tinha
diante de si e, simultaneamente, para si mesmo, lembrou‑se do que aprendera ao estudar Psicologia:
seria possível manter‑se neutro ao pesquisar esse objeto? Reconhecia‑se como um indivíduo situado
em um contexto social marcado por desigualdade e opressão, alvo ele mesmo de ataques, dada a sua
pertença étnica, sua classe social, sua opção sexual... Seria ele capaz de desempenhar adequadamente
seu novo papel social?

Dentre as áreas de abrangência da Psicologia enunciadas nas alternativas a seguir, há uma que
privilegia o estudo de impasses como o vivido por Juvenal. Assinale a alternativa correta:

A) Behaviorismo.

B) Psicologia Sócio‑Histórica.

C) Psicologia da Comunicação.

D) Psicologia Organizacional.

E) Psicologia Clínica.

Resposta correta: alternativa B.

Análise das alternativas

A) Alternativa incorreta.

Justificativa: o behaviorismo não inclui entre suas preocupações a discussão relativa à neutralidade
do pesquisador.

B) Alternativa correta.

Justificativa: a Psicologia Sócio‑Histórica latino‑americana e a brasileira contrapõem‑se aos


modelos hegemônicos de ciência e de profissão, que defendem a neutralidade do psicólogo. Em um
contexto social marcado historicamente pela desigualdade e pela opressão, temos um embate em
que convergem o cientista, o pesquisador e também o cidadão que busca transformar a sociedade.
A Psicologia Sócio‑Histórica bebe dessas influências e desses contextos para propor um modelo de
conhecimento que utiliza o método materialista dialético, combate a ideologia e defende o projeto
de classe dos psicólogos, que devem ser engajados e militar na busca do fim da desigualdade e da
exclusão.

C) Alternativa incorreta.

38
PSICOLOGIA DOS GRUPOS E SUBJETIVIDADE

Justificativa: embora reconhecendo variáveis sociais e históricas na determinação das


subjetividades e dos processos psicológicos, a Psicologia da Comunicação não chega a propor um
modelo de conhecimento que possibilite combater ideologias subjacentes, nem defender projetos de
classes profissionais.

D) Alternativa incorreta.

Justificativa: a Psicologia Organizacional não ignora o fato de haver variáveis sociais, históricas e
econômicas na vida organizacional, mas muito raramente adota modelos que possibilitem combater
ideologias subjacentes e defender projetos de classes profissionais.

E) Alternativa incorreta.

Justificativa: a Psicologia Clínica não ignora o fato de haver variáveis sociais, históricas e econômicas
interferindo na subjetividade e nas relações interpessoais estabelecidas por clientes. Entretanto, o seu
escopo de ação não abrange questões relativas ao combate de ideologias subjacentes.

Questão 2. Leia atentamente as afirmativas apresentadas a seguir e classifique cada uma delas
como verdadeira (V) ou falsa (F).

1) O termo “ideologia” refere‑se a forças que impedem os indivíduos e os grupos sociais de


reconhecerem “a realidade como ela é”. Tal concepção articula a materialidade da vida à sua
dimensão “imaterial”, ou seja, a dimensão do conhecimento e das ideias. ( )

2) A mera apresentação da contradição é suficiente para desfazer o “feitiço” ideológico. Havendo


disposição para reconhecer a presença de ideologia e dos equívocos a que ela conduz, basta
denunciar esse fato e os fatores da ideologia são sumariamente eliminados. ( )

3) Segundo Chauí (1997), ao tratarmos da ideologia, podemos estar utilizando uma conceituação
fraca ou uma conceituação forte: ela será fraca se consideramos a ideologia como um conjunto
de ideias que configuram nossa visão de mundo e forte se a consideramos como uma falsa
consciência, produzida e sustentada pela classe dominante para encobrir os determinantes da
dominação por ela exercida sobre as classes dominadas. ( )

4) A ideologia sustenta a desigualdade e apresenta como responsabilidade individual fatores pelos


quais os indivíduos não podem, de fato, ser responsabilizados, pois esses fatores servem ao
propósito de manter o estado de dominação de uma classe social sobre outras. ( )

5) A compreensão dos fatos acha‑se enraizada de tal modo que eles são experienciados como
“naturais”. Abrir mão de nossas “certezas” implica abrir mão de parte de nós mesmos e de
nossas identidades. No entanto, apesar de tais dificuldades, todos os indivíduos e grupos não
se deixam intimidar nem se atemorizam diante dos desafios e lutam para desfazer equívocos
criados pela ideologia. ( )

39
Unidade I

Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta de afirmações falsas e verdadeiras:

A) 1‑V; 2‑V; 3‑V; 4‑F; 5‑F.

B) 1‑V; 2‑V; 3‑V; 4‑V; 5‑F.

C) 1‑F; 2‑F; 3‑F; 4‑V; 5‑V.

D) 1‑V; 2‑F; 3‑V; 4‑V; 5‑F.

E) 1‑V; 2‑V; 3‑F; 4‑F; 5‑F.

Resolução desta questão na plataforma.

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