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AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 555555.75.2018.8.09.

0020
COMARCA : GOIÂNIA
3ª CÂMARA CÍVEL
AGRAVANTE : ABC TRATORES LTDA
AGRAVADA : MARIA DA SILVA SOL DOURADO
RELATOR : DES. MÁRCIO SOUZA

RELATÓRIO

ABC TRATORES LTDA., regularmente representada nos autos da ação


monitória em fase de cumprimento de sentença proposta por MARIA DA SILVA SOL
DOURADO em desfavor da empresa TRATORIL S/A., agrava da decisão proferida
pela juíza de Direito da 5ª Vara Cível e Arbitragem da Comarca de Goiânia.

O ato agravado desconstituiu a penhora dos bens da executada TRATORIL


S/A., e determinou a inclusão da empresa ABC TRATORES LTDA. no polo passivo da
demanda principal, bem como sua intimação para, no prazo de 15 dias, realizar o
pagamento do montante da dívida atualizado.

Irresignada, a agravante relata os fatos e defende a nulidade da decisão


por: a) impossibilidade de alteração do polo passivo na fase de cumprimento de
sentença, a teor do que dispõe os arts. 9º, 312 e 329, II, todos do CPC; b) ausência de
instauração de incidente da desconsideração da personalidade jurídica, nos moldes do
que determina os arts. 133/137, CPC; c) julgamento extra petita, sob o argumento de
não ter havido pedido formal de reconhecimento de grupo econômico no processo de
origem de nº 0125843.92.2007.8.80.0071; e d) ausência de fundamentação,
contrariando o disposto nos arts. 93, IX, CF/88 e arts. 11 e 489, § 1º, II e III, CPC.

No mérito, a agravante destaca a inexistência de grupo econômico,


afirmando possuir as duas empresas - ABC TRATORES LTDA. e TRATORIL S/A. -
sócios distintos. Ressalta entendimento do STJ no sentido de que mesmo que haja
reconhecimento de grupo econômico cada um delas responde com os seus próprios
bens, a não ser quando, existindo confusão patrimonial, houver o reconhecimento da
desconsideração da personalidade jurídica. Alega que a mera semelhança de
endereços entre pessoas jurídicas não pode ser adotado como critério para
desconsideração da personalidade jurídica ou reconhecimento de grupo econômico.
Supõe indevida a desconstituição da primeira penhora realizada nos bens
da executada TRATORIL S/A., argumentando que, concordando o executado com a
penhora realizada, o feito deveria ter sido extinto. Assevera ser forte o argumento
utilizado pela credora para desconstituir a penhora – a ser realizada preferenciante em
dinheiro -, mas entende que deve ser efetivada em desfavor da executada e não de
terceiros. Considera presentes os requisitos autorizadores da atribuição do efeito
suspensivo ao instrumental e, no mérito, requer seja reformada a decisão agravada a
fim de excluir a empresa agravante do polo passivo da demanda principal.

Documentos inseridos eletronicamente, incluídas todas as peças


obrigatórias e necessárias.

Preparo regular.

Contrarrazões espontaneamente ofertadas à movimentação n. 4, em que o


agravado refuta as alegações formuladas no instrumental nos seguintes pontos: a) diz
que a decisão que reconheceu a existência do grupo econômico transitou em julgado,
afirmando que a matéria debatida encontra-se acobertada pelo manto da preclusão; b)
assevera a possibilidade de alteração do polo passivo na fase de cumprimento de
sentença; c) entende desnecessária a instauração de incidente de desconsideração da
personalidade jurídica; d) alega a inexistência de julgamento extra petita. e) afirma que
na decisão agravada o magistrado externou as razões do seu convencimento e
especificou o fundamento legal, não havendo falar em nulidade por ausência de
fundamentação; f) repisa na existência do grupo econômico e na preclusão
consumativa sobre a matéria. g) defende a desconstituição da primeira penhora
realizada nos autos.

Ao final, pede o indeferimento do efeito suspensivo ao recurso, impugna


documentos inseridos na inicial do agravo e requer o desprovimento do instrumental.

Em síntese, é o relatório.

Considerando que o recurso já se encontra maduro, instruído inclusive com


contrarrazões, peço inclusão em pauta para julgamento.

Documento datado e assinado no próprio sistema.


VOTO

Conheço do agravo de instrumento porque presentes os


requisitos de admissibilidade recursal.

Como relatado, insurge-se a recorrente contra a decisão


de origem que desconstituiu a penhora formalizada nos autos principais nos bens da
executada TRATORIL S/A., e determinou a sua inclusão no polo passivo da demanda,
bem como sua intimação para pagar o débito.

Em suas razões, preliminarmente, a agravante defende a


nulidade da decisão por: a) impossibilidade de alteração do polo passivo na fase de
cumprimento de sentença; b) ausência de instauração de incidente da
desconsideração da personalidade jurídica; c) julgamento extra petita; d) ausência de
fundamentação. No mérito, alega a inexistência de grupo econômico e discorda da
desconstituição da penhora efetivada nos bens da executada TRATORIL S/A.

                                      Antes de adentrar na controvérsia, insta ressaltar que o agravo


de instrumento é recurso secundum eventum litis, a limitar a atuação do grau revisor à
análise da decisão impugnada, não podendo esta instância antecipar-se ao desfecho
do processo, sob pena de, violando a devolutividade estrita, suprimir um grau de
jurisdição.

                                         Tocante ao primeiro ponto da insurgência, razão NÃO


assiste à empresa agravante ao alegar a impossibilidade de alteração do polo passivo
da demanda sem que, anteriormente, tenha sido instaurado o incidente de
desconsideração da personalidade jurídica.

                                           Para que haja o redirecionamento do cumprimento de


sentença para outra pessoa jurídica integrante do mesmo grupo econômico da
executada, não é condição a instauração do incidente de desconsideração da
personalidade jurídica, a fim de que seja comprovada a existência de grupo econômico
e de abuso de personalidade jurídica, o que não foi feito pelo julgador de origem.

                                            A magistrada sabiamente na origem reconheceu


pertencerem as empresas – executada e agravante – a mesmo grupo econômico.

A atuação da magistrada não confronta a nova


sistemática processual civil, que em seus artigos 133-137 e 795, § 4º, estabelece que
para desconsideração da personalidade jurídica, os sócios e/ou a sociedade
potencialmente atingidos pela decisão devem ser previamente ouvidos a respeito,
admitindo-se a produção de provas a bem da comprovação de que não houve abuso
de personalidade ou ocultação patrimonial.

A par dessas considerações, está, neste momento,


legitimada a integrar o polo passivo da demanda executiva a sociedade empresária
agravante, ainda que pertença ao mesmo grupo empresarial da executada. Desse
modo, conclui-se certa a decisão agravada ao determinar a inclusão da empresa
agravante no polo passivo da ação executiva, redirecionando para ela a execução.

  Portanto, verificando que o juízo a quo adotou o


procedimento adequado, impõe-se manter a decisão agravada.

Ante o exposto, conheço do recurso e nego-lhe


provimento para manter a decisão que determina a inclusão da empresa agravante no
polo passivo da demanda e determina sua intimação para pagar o débito, mantendo-a
em todos os seus termos.

Desembargador

DECISÃO: Decide o egrégio Tribunal de Justiça do


Estado de Goiás, pelos componentes da 2ª Turma Julgadora da 4ª Câmara Cível à
unanimidade de votos, conhecer e prover parcialmente o agravo, nos termos do voto
do relator.