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Atualização 19: para serem juntadas no Livro Súmulas 4ª ed

DIREITO CIVIL
USUCAPIÃO

Pág. 163

DIREITO PROCESSUAL CIVIL


COMPETÊNCIA PELO FORO DA SITUAÇÃO DA COISA

Pág. 235

Nem sempre que uma emenda constitucional é editada, conseguimos, de imediato, perceber
todas as implicações jurídicas que dela decorreram. No caso da EC 103/2019 (Reforma da
Previdência), de início, não percebi que ela havia afetado o entendimento exposto na Súmula 11
do STJ.
Constatando isso agora, publico a presente atualização para ser inserida no livro de súmulas:

Súmula 11-STJ: A presença da União ou de qualquer de seus entes, na ação de usucapião especial,
não afasta a competência do foro da situação do imóvel.
Aprovada em 26/09/1990, DJ 01/10/1990.
Superada.

O que queria dizer essa súmula?


Em regra, as causas envolvendo a União, entidades autárquicas ou empresas públicas federais são
julgadas pela Justiça Federal (art. 109, I, da CF/88).
A ação de usucapião especial é uma exceção a essa regra. Isso porque a ação de usucapião especial
é julgada pelo foro da situação do imóvel, ou seja, pelo juízo do local onde estiver situado o imóvel,
mesmo que ali não tenha Justiça Federal. Em outras palavras, essa ação de usucapião especial,
mesmo tendo a presença da União, de entidade autárquica ou empresa pública federal, seria
julgada pela Justiça Estadual.

Qual era o fundamento legal desta súmula?


O art. 4º, § 1º, da Lei nº 6.969/81 (Lei de usucapião especial de imóveis rurais), que dizia o
seguinte:
Art. 4º A ação de usucapião especial será processada e julgada na comarca da situação do imóvel.
§ 1º Observado o disposto no art. 126 da Constituição Federal, no caso de usucapião especial em
terras devolutas federais, a ação será promovida na comarca da situação do imóvel, perante a
Justiça do Estado, com recurso para o Tribunal Federal de Recursos, cabendo ao Ministério Público
local, na primeira instância, a representação judicial da União.
(...)

Essa lei tinha fundamento na Constituição Federal?


SIM. Ela tinha fundamento no art. 126 da CF/69, vigente na época em que foi editada, que
autorizava que a lei delegasse para a Justiça Estadual o julgamento de algumas causas envolvendo
a União, suas entidades autárquicas e empresas públicas:
Art. 126. A lei poderá permitir que a ação fiscal e outras sejam promovidas no fôro de Estado ou
Território e atribuir ao Ministério Público respectivo a representação judicial da União.

Essa previsão do art. 4º, § 1º da Lei nº 6.969/81 foi recepcionada pelo texto original da CF/88?
SIM. O texto original da CF/88 também previa essa possibilidade de haver a competência
delegada, ou seja, de a lei delegar para a Justiça estadual o julgamento de algumas causas que
seriam originalmente de competência da Justiça Federal:
Art. 109 (...)
§ 3º Serão processadas e julgadas na justiça estadual, no foro do domicílio dos segurados ou
beneficiários, as causas em que forem parte instituição de previdência social e segurado, sempre
que a comarca não seja sede de vara do juízo federal, e, se verificada essa condição, a lei poderá
permitir que outras causas sejam também processadas e julgadas pela justiça estadual.

EC 103/2019
Ocorre que a EC 103/2019 (Reforma da Previdência) alterou esse § 3º do art. 109:

CONSTITUIÇÃO FEDERAL
Antes da Reforma (EC 103/2019) ATUALMENTE
Art. 109. (...) Art. 109. (...)
§ 3º Serão processadas e julgadas na justiça § 3º Lei poderá autorizar que as causas de
estadual, no foro do domicílio dos segurados competência da Justiça Federal em que forem
ou beneficiários, as causas em que forem parte instituição de previdência social e
parte instituição de previdência social e segurado possam ser processadas e julgadas
segurado, sempre que a comarca não seja na justiça estadual quando a comarca do
sede de vara do juízo federal, e, se verificada domicílio do segurado não for sede de vara
essa condição, a lei poderá permitir que federal.
outras causas sejam também processadas e
julgadas pela justiça estadual.

Há, no caso, duas mudanças muito importantes:


1) A Justiça Estadual tinha competência delegada “automática” para julgar ações envolvendo
segurado ou beneficiário contra INSS. Essa competência delegada depende agora de lei.
2) A Lei poderia permitir outras hipóteses de competência delegada para a Justiça Estadual, além
dos casos envolvendo o INSS. Isso deixou de existir.

• Antes da EC 103/2019: além das causas envolvendo os segurados/beneficiários e INSS, o


legislador tinha autorização para criar outras hipóteses de competência delegada. Ex: o art. 4º, §
1º, da Lei nº 6.969/81.
• Depois da EC 103/2019: o legislador infraconstitucional somente pode prever uma hipótese de
competência delegada, qual seja, as causas em que forem parte instituição de previdência social
e segurado quando a comarca do domicílio do segurado não for sede de vara federal. Somente
neste caso, o legislador poderá autorizar que a ação contra o INSS seja proposta na Justiça
Estadual.

Art. 4º, § 1º da Lei nº 6.969/81 não foi recepcionado pela EC 103/2019


Com isso, percebe-se que o art. 4º, § 1º da Lei nº 6.969/81 era compatível com a redação originária
do art. 109, § 3º da CF/88, no entanto, com a mudança operada pela EC 103/2019, essa previsão
legal perdeu fundamento constitucional.
O art. 4º, § 1º da Lei nº 6.969/81 não foi recepcionado pela EC 103/2019.
Logo, podemos concluir que, se a União, entidade autárquica ou empresa pública federal intervir
na ação de usucapião especial, essa demanda terá que ser julgada pela Justiça Federal,
considerando que não mais existe competência delegada da Justiça Estadual para o julgamento
desta causa.
A Súmula 11 do STJ encontra-se, portanto, superada.
A presença da União, de suas entidades autárquicas ou empresas públicas, na ação de usucapião
especial, atrai a competência para a Justiça Federal, ainda que este o foro da situação do imóvel
(local onde está situado o imóvel) não seja sede de Justiça Federal.