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O ASSISTENCIALISMO MÉDICO E O ENFRENTAMENTO DE DOENÇAS NO

PARQUE INDÍGENA DO XINGU

Thais Aparecida Batista dos Santos1; Poliene dos Santos Bicalho²; ¹Discente do
Curso de História, PIBIC/CNPq, Unidade Universitária de Ciências
Socioeconômicas e Humanas e-mail: taisueg@gmail.com
²Orientadora e docente no curso de História, Universidade Estadual de Goiás,
Anápolis/GO

INTRODUÇÃO
O presente relatório busca registrar os resultados obtidos, através de ampla
pesquisa, que realizamos de maneira enriquecedora, entre os períodos de agosto a
dezembro de 2019, referente ao assistencialismo médico e as medidas profiláticas
inerentes aos saberes indígenas, entre as diversas culturas indígenas que vivem no
Parque Indígena do Xingu (PIX).
Inicialmente, partiu-se do pressuposto das ações desenvolvidas e conduzidas
por profissionais da Unifesp/ EPM (Escola Paulista de Medicina), envolvendo
agentes de saúde e algumas lideranças indígenas locais, frente à pesquisa e
mobilização para combater, prevenir e erradicar as principais doenças que assolam
as etnias; a partir de um programa de extensão desenvolvido pela Universidade em
questão.
Pelo viés interdisciplinar, a Escola busca formar profissionais especializados
em saúde dos povos indígenas. Foi possível obter tais dados através do acesso a
artigos acadêmicos e pesquisas desenvolvidas por discentes e profissionais já
formados pela Escola.
A partir dessa compreensão, analisamos os meios de enfrentamento, diálogos
e resultados obtidos pela comunidade médica, considerando as formas de
conscientização transmitidas aos povos do Parque a respeito das principais
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endemias, seus sintomas, reconhecimento e tratamentos. Enfim, buscamos
identificar as relações e articulações entre os povos do Parque Indígena do Xingu e
a comunidade científica, em detrimento das ações de assistencialismo e maior
eficácia na diagnose de doenças. A transição epidemiológica em curso (alterações
demográficas, sociais e na expectativa de vida), significativo aumento do número de
idosos no PIX e as mudanças no estilo de vida decorrentes da intensificação do
contato com a sociedade envolvente, tem exigido atenção especial para ações de
prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças crônicas não transmissíveis, como
hipertensão, dislipidemias, obesidade, osteoartrose e diabetes (BARUZZI, 2007, p.
186).
Ademais, é imprescindível destacar que a preservação do corpo e controle
profilático nas culturas indígenas do Brasil Central, e algumas situadas no Parque
Indígena do Xingu, estão amplamente vinculados à promoção da saúde e
autocuidado coletivo. De maneira expressiva, em cada cultura, as práticas se
estendem desde a ação comunicativa, através de rituais, entre os agentes
denominados símbolos e imagens (natureza, espíritos, vida e morte), até a produção
da pintura corporal como dimensão terapêutica. Assim:

Para diferentes povos Jê do Brasil Central, a pintura corporal assume uma


dimensão terapêutica, profilática e mesmo protetiva dos corpos, fazendo
das suas conhecedoras (em sua maioria mulheres) especialistas nos
poderes curativos (e porque não, xamânicos) que as pinturas possuem em
contextos específicos, principalmente, aqueles relativos a situações de
resguardos, gestação, parto, doença e luto (DEMARCHI, 2018, p. 52).

Como bem salienta Rodrigues (et al, 2007, p. 17-18), a preocupação com o
corpo, e com a pele em especial, é muito grande entre os povos indígenas, estética
e funcionalmente. A estética e a beleza são cultuadas desde cedo, na primeira
infância. A pele, limite do corpo e ???, ao mesmo tempo, funciona como porta de
entrada de remédios.
São inúmeros os procedimentos realizados na pele para proteção do corpo
como as pinturas especiais, principalmente nas crianças, como o uso de óleos de
pequi, tucum ou inajá. O urucum ou açafrão, por exemplo, afastam maus espíritos e
também. A pasta de urucum, o jenipapo, as penas de aves, resinas de algumas
árvores e algodão são usados como roupas ou fantasias em seus ritos e festas.
Para os índios, um corpo pintado é um corpo saudável. O processo de manutenção
e cuidados com o corpo e mente, é adaptado em cada cultura, levando em conta
suas crenças, hábitos, costumes e percepções de mundo.
As representações, utilidade das cores e seus efeitos, variam de cultura para
cultura. Nesse sentido, o contato com a natureza é contínuo, ao passo que as
plantas selecionadas para a produção das pinturas possuem significativos níveis
medicinais e de cura. Também, através das vestimentas e adornos corporais,
algumas culturas buscam a manutenção do bem-estar físico e mental, além da
sensação de prazer, o que resulta em ações importantes para a prevenção de
doenças.
Através de entrevistas, realizadas pelos alunos do curso de formação de
agentes indígenas de saúde, como trabalho de pesquisa de campo em suas
comunidades, para o módulo sobre doenças de pele, parasitoses intestinais e meio
ambiente, realizado em junho de 2007, no polo Pavuru do DSEI (Distritos Sanitários
Especiais Indígenas) Xingu/MT (RODRIGUES, et al, p. 19), reconheceu-se que, ao
identificarem a gênese das doenças de pele que acometem sua cultura, o povo
Kaiabi realiza uma espécie de “anatemização” da enfermidade e busca, através do
conhecimento e perspectiva sociocoletiva, a relação de tal com os fenômenos,
códigos e imagens associados ao processo saúde-doença.
Uma das explicações para determinada doença de pele, de nome mirukai, na
língua do povo Kaiabi, queimadura parecida com a erisipela, tem sua explicação no
mito de origem dos alimentos (RODRIGUES, et al, p. 19). O processo saúde-
doença na visão do indígena perpassa as noções de doença e tratamento da
biomedicina, que se esgota nos processos biológicos. A concepção indígena de
adoecimento e cura faz parte da ordem cosmológica e envolve forças invisíveis, da
natureza e humanas. O significado da doença é construído a partir da procura das
causas do sofrimento, que vai muito além da nossa perspectiva limitada ao corpo
físico. Em algumas situações onde ocorre a quebra de regras, tabus ou conflito
social pode provocar o encadeamento do processo de doença e a cura deverá
abarcar não somente o sofrimento físico, mas também o espiritual e moral
(PEREIRA, et al, 2014, p. 1085).
Entre as etnias xinguanas, o senso de coletividade e “perpetuação” de um
código cultural próprio através de gerações, se faz presente ao passo que a
cosmogonia dos signos e imagens constituem a identidade do grupo e a diligência
de seus corpos. Conforme Hall (2005, apud GANDARA, 2014, p. 56), o poder da
cultura reside em sua capacidade de criar identidade como “algo que supõe definir o
próprio núcleo ou essência de nosso ser e fundamentar nossa existência como
sujeitos humanos”. Apesar da grande fragmentação entre as diversas categorias
teóricas e níveis de interação, defendo a ideia de que, embora exista uma grande
diversidade e uma constante fusão de várias representações do imaginário, as
comunidades possuem valores, ou melhor, símbolos. Esses símbolos podem ser
entendidos aqui como a condensação da essência onipresente, que é fundamental
para a sobrevivência de qualquer comunidade e para construção das identidades no
espaço vivido. Nesse sentido, a representação do imaginário coletivo nas
comunidades xinguanas promove o bem-estar físico, social, mental e espiritual. É
através da rememoração dos símbolos-imagens (natureza, espíritos, animais etc.)
que ocorre a manifestação daquilo que lhes é sagrado.

OBJETIVO GERAL

Compreender a política assistencialista na área da saúde do Parque Indígena


do Xingu, bem como as relações entre a comunidade médica e as lideranças
xinguanas para o enfrentamento de doenças que assolam as etnias e o
desenvolvimento de técnicas, procedimentos e conscientização para melhor
atendimento local; através de levantamentos etnográficos, estudos atualizados por
profissionais da Escola e leitura de autores que têm como objeto de pesquisa os
saberes e a saúde indígena. Futuramente, pretende-se estender essa discussão a
níveis mais complexos e produção teórica.
Outrossim, a relevância do tema reside, em primeiro lugar, no mapeamento e
reconhecimento de ações desenvolvidas pela comunidade científica frente ao
combate das principais endemias que acometem as aldeias xinguanas e maneiras
de conscientização. Acrescenta-se a isso as práticas significativas de promoção da
saúde e enfrentamento profilático presentes nas diversas culturas xinguanas,
vinculadas à dinâmica de preservação e diálogos com a ancestralidade, natureza e
signos ritualísticos. É fundamental se atentar ao parâmetro de comunicação entre
profissionais de saúde e as etnias, no âmbito das relações culturais, bem como
identificar a “troca” de saberes entre ambas as partes.
METODOLOGIA
A presente pesquisa realizou-se por intermédio dos resultados qualitativos
presentes nas ações e resultados lançados pelos profissionais da Unifesp/EPM
(Escola Paulista de Medicina), através dos documentos produzidos por autoridades
xinguanas (jornais, anais, almanaques etc.), em artigos científicos e dados
estatísticos coletados por profissionais na área da saúde.
Paralelamente à análise proposta, realizou-se amplo levantamento de
produções bibliográficas, sobretudo no que tange aos estudos resultantes dos
diálogos entre História, Geografia, Arte e Antropologia Cultural. Também acessamos
enciclopédias indígenas de plantas e tratamentos medicinais. Posto isso, tornou
necessário o conhecimento etnográfico sobre arte indígena, permitindo traçar
identidades, variações, diferenças e permanências para compreender a forma como
cada povo promove a manutenção da saúde e controle profilático.

RESULTADOS E DISCUSSÕES
Nesta primeira etapa do projeto verificamos que a comunicação entre agentes
de saúde, órgãos públicos especializados e lideranças indígenas do Parque
Indígena do Xingu (PIX), permite, cada vez mais, repensar a formulação de medidas
eficazes para a erradicação de doenças. Logo, em consequência de políticas
públicas institucionais e da relação comunidade científica-autoridades locais, no
período de 2006 a 2010, o Projeto Xingu avançou no processo de produção de
saúde com o envolvimento de conselheiros, mulheres e pajés; e de resgate de
práticas tradicionais de cuidados e de auto atenção (o tempo em que, relativamente,
cada cultura dedica à busca pelo autoconhecimento). Em meio a desafios técnicos,
a busca por novas estratégias, equipamentos e recursos diagnósticos e
terapêuticos, o projeto se dedicou ao “outro” e às suas diferentes formas de pensar o
corpo, a saúde e o processo saúde-doença (MENDONÇA & RODRIGUES, 2011).
Nesse sentido, é válida a busca, pela comunidade científica, dos processos
de comunicação do corpo com o mundo (alimentação, sexualidade, fala e mais
sentidos), realizado pelas culturas indígenas, visando a incorporação de tais práticas
junto à medicina tradicional. Um processo de aproximação e diálogo, troca de
informações, fortalecimento do protagonismo indígena, envolvimento de todos os
interlocutores e formação de pessoal na área da saúde é uma estratégia adotada
pelo Projeto Xingu, no trabalho com os povos indígenas, que tem logrado
repercussão importante nos indicadores de saúde dessas populações
(RODRIGUES, 2012, p. 107).
Apoiados pela Fundação Mata Virgem e em parceria com a FUNAI, a
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) implantou um projeto, em que os
profissionais de saúde residiam na área central do Parque Indígena do Xingu,
formando e supervisionando esses agentes de saúde. Com esse trabalho, e, apesar
de algumas limitações (devido, principalmente, às diferenças culturais), os agentes
indígenas de saúde vêm sendo capacitados para desenvolver atividades como
educação em saúde, diagnóstico e tratamento nas doenças que mais afetam as
suas comunidades (LOFREDO et al, 2001, p. 73-74).
Através do mapeamento etnolinguístico das enciclopédias medicinais
indígenas, bem como dos processos de instrução profilática, verificamos o caráter
xamânico e cosmogônico das culturas xinguanas, cada qual adaptadas às suas
crenças, vivências e modo de vida. A identificação de doenças, as práticas de cura e
enfrentamento reforçam o senso de coletivismo e inserção social dos indivíduos (a
exemplo dos ritos de passagem e iniciação) numa cultura onipresente e transcrita
em símbolos próprios de percepção do mundo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Além de ações conduzidas por profissionais da Unifesp/EPM (Escola Paulista
de Medicina), a pintura corporal, bem como as cerimônias ritualísticas, faz parte de
uma “cultura da saúde”, promovida, de maneira única, por cada etnia residente no
Parque. A promoção de um bem-estar físico, mental e espiritual é direcionada
coletivamente pelos povos, visando o equilíbrio entre os chamados símbolos
(espírito, natureza, vida e morte) e os seres mortais.
Campanhas em benefício da conscientização sobre a saúde da mulher e de
idosos tem sido amplamente elaboradas, ao longo dos anos, pela Escola de
Medicina. Destaca-se que, em algumas culturas, a mulher; que acaba de dar à luz (o
corpo ainda apresenta certa vulnerabilidade) tem seu resguardo garantido e
protegido pela expressividade e dimensão terapêutica das pinturas corporais; bem
como o recém-nascido, ao alcançar tenra idade. Há também um profundo cuidado e
manutenção do sangue e da pele.
Ademais, reconhece-se o protagonismo dos povos do Parque Indígena do
Xingu (PIX), ao assumirem a identidade de uma “cultura da saúde e autocuidado”,
de maneira simbólica e efetiva. O domínio das técnicas, formas e cores expressam a
autonomia e manutenção de um profundo conhecimento sobre seus próprios corpos.
Para além de seu espectro biológico, o corpo, nas culturas xinguanas, é pensado
como um elemento cultural, audível e transcrito de símbolos que viabilizam a
representação do nascimento, vida, morte e permanência do espírito em seu plano
fenomenológico e natural.
Em Antropologia Cultural (2005, p. 47), Franz Boas ressalta a importância de
compreendermos culturas distintas, mesmo imersos numa percepção díspar de
mundo. Aqui, a importância reside no fato de que não devemos incorrer no erro da
“homogeneização” das culturas, hábitos, vivências, relatos, costumes,
comportamentos e linguagens; baseados na inércia do “padrão revolucionário”,
redigido, por séculos, no cerne da literatura histórica dominante e onipresente.

…vemos, ao contrário, que cada grupo cultural tem sua história própria e
única, parcialmente dependente do desenvolvimento interno peculiar ao
grupo social e parcialmente de influências exteriores às quais ele tenha
estado submetido. Tanto ocorrem processos de gradual diferenciação
quanto de nivelamento de diferenças entre centros culturais vizinhos. Seria
completamente impossível entender o que aconteceu a qualquer povo
particular com base num único esquema revolucionário.

REFERÊNCIAS

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