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SERIDÓ POTIGUAR:
tempos, espaços, movimentos
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SERIDÓ POTIGUAR:
tempos, espaços, movimentos

Helder Alexandre Medeiros de Macedo


Marcos Antônio Alves de Araújo
Rosenilson da Silva Santos
(Organizadores)

Ideia
João Pessoa
2011
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Todos os direitos reservados.

Diagramação
Magno Nicolau (www.ideiaeditora.com.br)

Ilustração da Capa: Hivana Macedo

S485h Seridó Potiguar: tempos, espaços, movimentos.


Helder Alexandre Medeiros de Macedo, Marcos Antônio
Alves de Araújo, Rosenilson da Silva Santos (Orgs.). -
João Pessoa: Ideia, 2011.
329 p.: il.

1. Seridó, região do (RN) - História

CDU: 94(812-813)

Os capítulos contidos neste livro refletem a opinião pessoal e/ou


a opção teórico-metodológica de seus autores. Os organizadores
não se responsabilizam por essas opiniões.

EDITORA
ideiaeditora@uol.com.br

Foi feito o Depósito Legal


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Parte do Seridó é "ficção", parte existe


de se tocar. Sua história será sempre,
como a história de outras paisagens,
a tarefa de traduzirmos uma parte na
outra parte. Espaço, tempo e, no
meio do redemoinho, o homem a
criar sinais.

Muirakytan Kennedy de Macêdo


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SUMÁRIO

PREFÁCIO, 11

INTRODUÇÃO, 17

GRUPOS SOCIAIS E MINORIAS

HISTÓRIA INDÍGENA NO SERTÃO DA CAPITANIA DO


RIO GRANDE APÓS AS GUERRAS DOS BÁRBAROS, 21
Helder Alexandre Medeiros de Macedo

FUGA, RESISTÊNCIA E MORTE: A HISTÓRIA DA


ESCRAVA HONORATA NO SERTÃO DO SERIDÓ,
PROVÍNCIA DO RIO GRANDE DO NORTE, 39
Michele Soares Lopes

NAS MARGENS SECAS DO RIACHO: IDENTIDADES,


MEMÓRIAS E HISTÓRIA EM UMA COMUNIDADE
NEGRA NO SERTÃO POTIGUAR, 61
Joelma Tito da Silva

MUNDO URBANO

AMOR, DESEJO E PRAZER: HETEROTOPIAS URBANAS


NA CIDADE DE CAICÓ/RN, 77
Marcos Antônio Alves de Araújo

NA ESCRITA DA LUZ: FRAGMENTOS DE BIOGRAFIAS


MARGINAIS NA OBRA FOTOGRÁFICA DE JOSÉ
MODESTO DE AZEVEDO (JARDIM DO SERIDÓ/RN,
1950-80), 95
Rosenilson da Silva Santos
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A CIDADE DE CAICÓ NOS PERIÓDICOS DOS


ANOS 1920, 117
Juciene Batista Félix Andrade

A IMAGEM DA PRINCESA (1950 – 1980), 135


Gênison Costa de Medeiros

REGIÃO, CAMPO E CIDADE

UM OLHAR SOBRE A REFORMA AGRÁRIA A PARTIR


DO PROJETO DE ASSENTAMENTO SERIDÓ, 151
Josimar Araújo de Medeiros e Maria José Costa Fernandes

CIRCUITOS ESPACIAIS DE PRODUÇÃO: O USO DO


TERRITÓRIO PELAS INSTÂNCIAS DA ATIVIDADE DE
BONÉS NO SERIDÓ POTIGUAR, 169
Zara de Medeiros Lins

CULTURA E MEMÓRIA

CULINÁRIA DO SERIDÓ: UM ELEMENTO DE


IDENTIDADE TERRITORIAL, 187
Jucicléa Medeiros de Azevedo

A IDÉIA DE SALVAÇÃO E A ORGANIZAÇÃO DA


MORTE NA RIBEIRA DO SERIDÓ NORTE-RIO-
GRANDENSE, 203
Alcineia Rodrigues dos Santos

A CIDADE NARRADA: HISTÓRIA E MEMÓRIA DE UM


GRUPO ECONÔMICO DA CIDADE DE CAICÓ/RN, 225
Hugo Romero Cândido da Silva
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A IGREJA CATÓLICA E OS SINDICATOS DE


TRABALHADORES RURAIS NO SERIDÓ NA DÉCADA
DE 1960, 239
Maria Auxiliadora Oliveira da Silva

ENTRE ATOS CONFESSOS E AFETOS NÃO DITOS: UMA


ANÁLISE DAS EXPERIÊNCIAS AMOROSAS FEMININAS,
PARA ALÉM DAS REPRESENTAÇÕES JURÍDICAS E
JORNALÍSTICAS DE FEMINILIDADE (CAICÓ/RN, 1900-
1945), 255
Edivalma Cristina da Silva

ESPAÇO E TERRITÓRIO

CONFIGURAÇÕES ESPACIAIS DO SERIDÓ


POTIGUAR, 273
Olívia Morais de Medeiros Neta

FEIÇÕES DA DINÂMICA MULTITERRITORIAL NO


SERIDÓ/RN, 289
Bruno Gomes de Araújo

REFERÊNCIAS, 307

SOBRE OS AUTORES, 327


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PREFÁCIO

Nos últimos decênios, a Região do Seridó tem sido


estudada, sobremaneira por pesquisadores das Ciências
Humanas para os quais a UFRN-CERES representa um
lugar de ofício – docentes – ou local de passagem – discen-
tes, evidentemente passível da possibilidade de retornos e
permanências.
Enveredando pelas trilhas da investigação e percor-
rendo, principalmente, os labirintos da História e da
Geografia, esses pesquisadores produzem uma escrita sobre
o Seridó, que confere à região a distinção de situar-se entre
os recortes mais estudados do território potiguar. De modo
geral, são seridoenses que, para além do exercício acadê-
mico e sem descuidar do rigor teórico-metodológico, têm no
objeto de estudo – a região – o seu espaço vivido, o espaço
de referência identitária.
Nessa tessitura, avulta a iniciativa dos jovens e
competentes pesquisadores que assinam essa coletânea de
publicar os trabalhos por eles desenvolvidos em Programas
de Pós-graduação Stricto Sensu. São novos olhares sobre a
região, seus cantos, recantos e encantos, que se instituem na
perspectiva de lançar luzes sobre eventos, personagens,
cenários e modos de vida, ressaltando o que na ótica da
investigação científica ainda parece estar sob o invólucro da
opacidade.
Em Seridó Potiguar: espaços, tempos, movimentos, os
autores problematizam questões regionais que versam sobre
a sociedade, o urbano, o rural, a economia, a cultura e o
território, assumindo diferentes abordagens, desde os
grupos ou sujeitos sociais, como índios, negros e homens
marginais; passando pelas manifestações culturais expressas
no ritual da morte, nas práticas culinárias, nas referências da
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memória; adentrando no universo do urbano, do rural e do


regional pelas entrelinhas das estratégias de (re)produção
desses espaços. Nessa perspectiva, o temário sobre o Seridó
ora é revisitado ora é renovado, de modo que a trama
regional tecida na obra se desencadeia em uma escala
temporal, que contempla tempos diversos da formação e
reestruturação do território.
A sistematização do livro convida o leitor a fazer um
percurso literário por cinco sessões temáticas, que se
apresentam assim denominadas: Grupos sociais e minorias;
Mundo urbano; Região, campo e cidade; Cultura e memória
e Espaço e território.
A primeira sessão, Grupos sociais e minorias, aborda
as etnias indígena e negra existentes na sociedade seri-
doense, a partir de textos que contemplam tempos pretéritos
e hodiernos. Nesse contexto se insere História indígena no
sertão da capitania do Rio Grande após as Guerras dos Bárbaros,
assinado por Helder Alexandre Medeiros de Macedo, que
objetiva compreender algumas mudanças provocadas na
vida das populações indígenas decorrentes do processo de
ocidentalização no sertão do Rio Grande do Norte. A etnia
negra é objeto de estudo de Michele Soares Lopes, que ao
investigar a escravidão na Vila do Princípe, entre 1850 e
1888, deparou-se com o enredo que tece a trama de Fuga,
resistência e morte: a história da escrava Honorata no sertão do
Seridó, Província do Rio Grande do Norte, uma história
marcada pelo sentido de coragem e luta contra o cativeiro,
que exige da personagem transitar pelos territórios de
diferentes ribeiras e enfrentar uma verdadeira saga em
busca de sua liberdade. Os negros também são focalizados
no artigo intitulado Nas margens secas do riacho: identidades,
memórias e história em uma comunidade negra no sertão potiguar,
resultado de pesquisa realizada por Joelma Tito da Silva,
entre 2004 e 2008, com o objetivo de analisar a comunidade
rural Negros do Riacho, localizada no município de Currais
Novos, na perspectiva de delinear os seus aspectos socio-
culturais.
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Os trabalhos em que a cidade está em cena foram


aglutinados na segunda sessão temática: Mundo urbano.
Neste tópico, Marcos Antônio Alves de Araújo, no artigo
Amor, desejo e prazer: heterotopias urbanas na cidade de
Caicó/RN, analisa como estas foram construídas, durante as
décadas de 1950 e de 1960, tendo como matriz de estudo a
problemática referente à identificação dos espaços (e práti-
cas) heterotópicos, vinculados diretamente ao projeto de
modernização urbana, que eram indesejados e repudiados
pelas elites locais na construção de uma cidade ideal para o
Seridó potiguar. Considerando a Cidade de Jardim do
Seridó como cenário, Rosenilson da Silva Santos apresenta
Na escrita da luz: fragmentos de biografias marginais na obra
fotográfica de José Modesto de Azevedo (Jardim do Seridó/RN,
1950-80), em que, a partir do entendimento da imagem
como texto e mensagem a ser questionada, problematiza
como este fotógrafo representou os homens marginais e
como a sociedade os concebeu. Novamente Caicó entra em
cena por meio da leitura de Juciene Batista Félix Andrade,
cujo artigo A Cidade de Caicó nos periódicos dos anos 1920
privilegia a discussão sobre a cidade em sua relação ou não
com a ideia de “progresso” e com o que ocorria nos grandes
centros urbanos do Brasil. O texto seguinte, A imagem da
Princesa (1950 – 1980), de autoria de Gênison Costa de
Medeiros, analisa o conteúdo simbólico da paisagem urbana
de Currais Novos e seus discursos de modernidade a partir
das representações imagéticas captadas pelo fotógrafo
Raimundo Bezerra no período supracitado.
Região, campo e cidade constituem a terceira sessão
temática, que se inicia com o artigo Um olhar sobre a Reforma
Agrária a partir do projeto de assentamento Seridó, assinado por
Josimar Araújo de Medeiros e Maria José Costa Fernandes,
em que problematizam a questão da terra, produzindo uma
contextualização sobre o tema articulada a uma reflexão que
tem como referência a vivência desse processo no âmbito
regional. Na sequência, Zara de Medeiros Lins apresenta o
texto Circuitos espaciais de produção: o uso do território pelas
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instâncias da atividade de bonés no Seridó Potiguar, em que


analisa a dinâmica de fluxos promovida nos meandros do
circuito espacial produtivo da bonelaria e o uso do território
seridoense por esta produção, considerando o meio geográ-
fico atual.
A quarta sessão intitulada Cultura e memória
apresenta textos que abordam traços das manifestações cul-
turais regionais ou urbanas, neste caso, relativos à Cidade
de Caicó. No artigo Culinária do Seridó: um elemento de
identidade territorial, Jucicléa Medeiros de Azevedo discute a
relação entre território e identidade tecida pelos fios da
cultura, elegendo como foco de análise a culinária regional,
entendida como um traço identificador perpassado por
histórias, tradições, produtos e tecnologias, contextualizadas
em sistemas socioeconômicos e cultural-ecológicos, locali-
zados no tempo e no espaço. Pelos escritos de Alcineia
Rodrigues dos Santos, adentra-se na reflexão sobre a
organização da morte pela sociedade seridoense e as ideias
de salvação e de vida eterna, consubstanciadas pelos valores
do cristianismo, sistematizada no artigo A ideia de salvação e a
organização da morte na Ribeira do Seridó norte-rio-grandense.
Na encruzilhada de uma história política do urbano e do
uso de novas metodologias para compreender as dinâmicas
societárias na história, Hugo Romero Cândido da Silva
escreve A cidade narrada: história e memória de um grupo econô-
mico da cidade de Caicó, em que analisa as memórias da elite
caicoense sobre as vivências urbanas e as transformações
econômicas que marcaram o período compreendido entre as
décadas de 1970 e 1990. Pelos labirintos da história política
regional transita Maria Auxiliadora Oliveira da Silva ao
assinar o texto A igreja católica e os sindicatos de trabalhadores
rurais no Seridó na década de 1960, em que examina o papel
dessa instituição religiosa em termos de orientação política
oferecida aos sindicatos, evidenciando que, através do
trabalho de sindicalização, a igreja procura fortalecer o cato-
licismo e preservar seus fiéis, distanciando-os de movi-
mentos e partidos políticos. Novamente a Cidade de Caicó é
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protagonista do texto Entre atos confessos e afetos não ditos:


uma análise das múltiplas experiências femininas, para além das
representações jurídicas e jornalísticas de feminilidade (Caicó/RN,
1900-1945), escrito por Edivalma Cristina da Silva, que ao
navegar pelos horizontes temáticos das relações de gênero,
memória, honra, sexualidade, corpo e subjetividades, analisou a
atividade feminina na produção de “n” subjetividades e de
“n” cartografias de desejos, a partir da análise de suas
vivências amorosas.
Espaço e território nomeia a quinta sessão deste
livro, constituída por artigos em que o Seridó é estudado a
partir de configurações espaciais e/ou territoriais cons-
truídas e delimitadas nas linhas e entrelinhas de discursos e
práticas que revelam a estreita relação entre espaço e poder.
Nessa perspectiva, Olívia Morais de Medeiros Neta em
Configurações espaciais do Seridó potiguar constrói um análise
de tais configurações a partir do discurso historiográfico
presente em obras como Homens de Outrora, de Manuel
Dantas; Seridó, de José Augusto Bezerra de Medeiros; Velhos
Costumes do Meu Sertão, de Juvenal Lamartine de Faria e
Sertões do Seridó, de Oswaldo Lamartine de Faria. Finali-
zando a coletânea, Bruno Gomes de Araújo, em seu texto
Feições da dinâmica multiterritorial no Seridó/RN, discorre so-
bre as novas possibilidades de articulação do território seri-
doense, considerando as relações que se estabelecem no
contexto atual, assinalado pela configuração de multiterri-
torialidades.
A coletânea de artigos que integra esse livro é
marcada pela pluralidade de olhares aportados em bases
teórico-metodológicas diversas, reveladora de um Seridó
multifacetado e complexo, porém instigante e enigmático.
Amplamente estudado por pesquisadores de ontem e de
hoje, o Seridó mantêm a capacidade de despertar nos
seridoenses e em outros o desejo de perscrutá-lo acurada-
mente. Nesse sentido, o presente livro é resultado do esforço
intelectual de uma nova geração de estudiosos que assume
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o desafio de desvendar a região e deixar um legado para o


rico acervo da historiografia regional.
Finalizando esta apresentação, gostaria de registrar
os agradecimentos aos autores pela indicação para prefaciar
esta obra, atividade que fiz com imensa satisfação e pra-
zerosa responsabilidade. Esta alegria deriva tanto do fato de
que nas encruzilhadas da vida estive bem próxima de
muitos dos que hoje assinam os artigos que compõem a
obra, quanto pela qualidade dos trabalhos que ora subme-
tem à apreciação pública. Ao trafegar pelos escritos dos
autores encontrei-me em vários lugares por meio de expres-
sões, conceitos, abordagens que dizem do Seridó que me
fascina estudar, conhecer e vivenciar. Um objeto de estudo
inesgotável, um espaço de referência identitária. Mas, de
qual Seridó estou a falar?
A resposta para esta questão o leitor poderá encon-
trar realizando a leitura desse livro que fala da gente e da
terra seridoense; dos saberes, práticas, discursos e símbolos
regionais e das (carto)grafias da cidade e do rural que se
instituem nesse recorte territorial. São escritos que forta-
lecem os traços que delineiam a personalidade regional
expressa em um conjunto de referências identitárias que re-
metem à história, aos costumes, ao urbanismo, ao ruralismo,
a forma de produzir, aos tipos humanos. São escritos que
reafirmam o caráter particular do Seridó, não obstante os
processos de globalização, e demonstram o compromisso
assumido pelos autores de produzir e socializar os conhe-
cimentos sobre a região. Portanto, indiscutivelmente, uma
obra que deve ser lida por todos os que vivem ou se inte-
ressam pelo sertão do Seridó!

Caicó, 10 de outubro de 2010.

Ione Rodrigues Diniz Morais


Professora do Departamento de História e Geografia
UFRN – CERES – Campus de Caicó
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INTRODUÇÃO

Nossas águas, nossas oiticicas,


nossos sonhos – o Seridó somos nós.
Nossos sertões, nossas canjicas,
nossas alegrias – nós somos o Seridó.
Nossos aboios, nossas gentes, nossas
quimeras – o Seridó somos nós.
Moacy Cirne1

O trecho do poema do escritor Moacy Cirne repre-


senta um pouco do espírito que este livro deseja transmitir:
o de que o Seridó é mais que uma região fisiográfica, um
lugar de memórias ou mesmo um receptáculo de tradições
que teimam em resistir face às novidades do moderno.
Seridó Potiguar: tempos, espaços, movimentos é fruto do esforço
conjunto de seridoenses que, em seus estudos acadêmicos
de graduação e pós-graduação direcionaram o olhar para a
própria aldeia. Investindo capital, desejos, vontades e esfor-
ço intelectual, esses autores sonharam e construíram deter-
minadas versões do tempo e do espaço do Seridó a partir de
suas pesquisas. Em outras palavras, é possível encontrar
fragmentos do sertão seridoense em cada um dos dezesseis
capítulos deste livro, que podem ser encarados como
reflexos da cosmogonia e das vivências de seus autores
junto à região de onde são originários.

1 CIRNE, Moacy. O Seridó somos todos nós. Balaio Porreta 1986,


31 mar 2007. Disponível em:
<http://balaiovermelho.blogspot.com/2007_03_01_archive.html>
. Acesso em: 12 dez 2010.
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A coletânea de trabalhos reunidos nesta obra comu-


nica, dessa maneira, os resultados de recentes e rigorosas
pesquisas realizadas por dezessete estudiosos, sendo
oriundos da Geografia, da História e das Ciências Sociais, os
quais revisitaram temas e renovaram o conhecimento
produzido a respeito de objetos como a modernização, a
produção e o planejamento do espaço urbano; as políticas
públicas e a reforma agrária na porção rural do Seridó; as
manifestações culturais expressas através da culinária, festas
religiosas, atitudes perante a morte; os grupos ou sujeitos
sociais que são atores dessas histórias: ciganos, índios,
negros, loucos e mendigos. É, em suma, uma obra de multi-
faces, tão caleidoscópica como as escolhas teóricas de seus
autores, cujos olhares apresentam um Seridó não menos
heterogêneo e não menos complexo do que aquele perce-
bido pelos estudos anteriores das Ciências Humanas e
Sociais.
Os autores deste livro têm outro ponto em comum.
Suas investidas conectam-se com um movimento crescente
nos últimos vinte e cinco anos: o gradativo aparecimento de
estudos acadêmicos desenvolvidos por sertanejos acerca da
história, da cultura e do espaço do/no Seridó2, que têm

2 Dentre outros, gostaríamos de citar os trabalhos acadêmicos de


DANTAS, Eugênia Maria. Retalhos da Cidade: revisitando Caicó
(dissertação, 1996); MACÊDO, Muirakytan Kennedy de. A
penúltima versão do Seridó: espaço e história no regionalismo
seridoense (dissertação, 1998); MORAIS, Ione Rodrigues Diniz.
Desvendando a cidade: Caicó em sua dinâmica espacial
(dissertação, 1998); COÊLHO, Maria da Conceição Guilherme.
Entre a Terra e o Céu: viver e morrer no Sertão do Seridó (séculos
XVIII e XIX) (2000, dissertação); BORGES, Cláudia Cristina do
Lago. Cativos do Sertão: um estudo da escravidão no Seridó, Rio
Grande do Norte (2000, dissertação); DANTAS, Eugênia Maria.
Fotografia e complexidade: a educação pelo olhar (2003, tese);
ARAÚJO, Douglas. A Morte do Sertão Antigo no Seridó: o
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inspirado novas pesquisas e demonstrado o quanto é forte a


vocação dos seridoenses de voltar suas atenções para a
compreensão de sua formação sócio-histórica, sua tessitura
imagético-discursiva e seus problemas contemporâneos. O
particular que envolve os autores deste livro é que eles
foram estudantes do Centro de Ensino Superior do Seridó
(CERES), Campus de Caicó, da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte. Sob orientação de professores do antigo
Departamento de História e Geografia defenderam suas
monografias ou produziram seus relatórios de iniciação
científica, que serviram de passaporte para o ingresso em
cursos de pós-graduação stricto-sensu –vinculados ao Centro
de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA), em Natal e
a outras instituições de ensino superior no Brasil.
Os capítulos desta obra, assim, são fruto de pes-
quisas e experiências de graduação e pós-graduação acima
mencionadas, cuja divulgação para o grande público e para
a academia foi o principal leitmotiv no instante em que
pensamos a organização do livro. Com isso estamos
oferecendo, também, uma síntese de trabalhos científicos
produzidos sobre a região do Seridó na área de História e
Geografia a partir da década de 2000, nada exaustiva,
considerando que outras pesquisas de peso mereciam estar
junto aos dezesseis capítulos deste livro. Compromissos
acadêmicos e profissionais, infelizmente, fizeram com que
vários amigos deixassem de produzir seus textos para o

desmoronamento das fazendas agropecuáristas em Caicó e


Florânia (1970-1990) (2003, tese); MORAIS, Ione Rodrigues Diniz.
Seridó norte-rio-grandense: uma geografia da resistência (2004,
tese); BRITO, Paula Sônia de. A luta do bispo Dom José de
Medeiros Delgado por educação escolar para todos (Caicó-RN,
1941-1951) (2004, dissertação); MACÊDO, Muirakytan Kennedy
de. Rústicos cabedais: patrimônio familiar e cotidiano nos sertões
do Seridó (século XVIII) (2007, tese).
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livro, o que ensejará, provavelmente, a edição de um segun-


do volume. Seridó Potiguar: tempos, espaços, movimentos está
dividido em cinco sessões temáticas, que, grosso modo,
agrupam as temáticas de pesquisa dos estudiosos convida-
dos: Grupos sociais e minorias; Mundo urbano; Região,
campo e cidade; Cultura e Memória; Espaço e território.
Por fim, agradecemos aos professores Muirakytan
Kennedy de Macêdo, Ione Rodrigues Diniz Morais e Eugê-
nia Maria Dantas pelo apoio e confiança depositados nesses
últimos anos em nossas jornadas acadêmicas e profissionais.
Em nossos textos existem fragmentos das lições que
apre(e)ndemos nos momentos de orientação acadêmica nas
áridas salas do Campus de Caicó. Esperamos que essas
lições e as idéias expostas nos capítulos deste livro possam
suscitar o surgimento de novas pesquisas acerca do Sertão
do Seridó.
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HISTÓRIA INDÍGENA NO SERTÃO DA


CAPITANIA DO RIO GRANDE APÓS
AS GUERRAS DOS BÁRBAROS1

Helder Alexandre Medeiros de Macedo

O texto condensa nossas investigações realizadas


durante a pós-graduação em História, na Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, que culminaram com a
defesa da dissertação Ocidentalização, territórios e populações
indígenas em 2007. O objetivo inicial do trabalho era o de
compreender algumas das modificações causadas pelo
processo de ocidentalização no sertão do Rio Grande e na
vida das populações indígenas que aí habitavam durante o
período colonial. Essas transformações atingiram tanto os
índios, imersos nas malhas do sistema colonial, como os
conquistadores, que se viram obrigados a lançar mão de
etapas de readaptação ao novo mundo em que foram
lançados. Uma dessas estratégias, senão a mais brutal e
palpável pela leitura dos documentos coloniais, é a do
esvaziamento demográfico das terras ocupadas pelos índios,
para que em seu lugar um novo território fosse construído
na medida em que a ocidentalização alastrava-se pelo
interior. A estrutura desse texto está dividida em duas
partes. Inicialmente apresentamos o objeto de estudo,

1 Esse texto é proveniente da dissertação Ocidentalização, territórios


e populações indígenas no sertão da Capitania do Rio Grande, defen-
dida no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade
Federal do Rio Grande do Norte em 2007, sob orientação da Profª.
Drª. Fátima Martins Lopes.
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seguido da discussão sobre as fontes, metodologia e aporte


teórico. Por fim, apresentamos os resultados da investi-
gação.

A construção do objeto

O interesse em estudar aspectos da história indígena


veio desde a nossa infância, quando, em 1988, fomos
surpreendidos com a existência de pinturas rupestres no
sítio Volta do Rio, em Carnaúba dos Dantas, que, pelas falas
dos moradores locais, eram “pinturas dos índios”. O choque
maior se deu pelo fato de, no ano anterior (1987), o autor
deste trabalho ter aprendido, com sua professora, que os
Kariri tinham sido os primeiros habitantes de Carnaúba dos
Dantas e que já estavam desaparecidos quando o município
foi fundado por Caetano Dantas Corrêa. A questão ficou nos
atormentando: desapareceram ou não?
Na contemporaneidade, na região do Seridó, certos
lugares de memória2 traziam à tona elementos que reme-
tiam à presença nativa, como a toponímia – a exemplo de
Seridó, Jucurutu, Carnaúba, Acauã, Caicó – e utensílios de
barro e palha presentes em cozinhas das casas de moradia
na zona rural. Por outro lado, no senso comum e nas
escolas, já se tornara chavão escutar palavras como desapa-
recimento, extermínio, fuga e morte para designar o destino
dos índios que habitavam o Seridó3. Esse era, em grande

2 Estamos utilizando a expressão lugares de memória na acepção de

NORA, Pierre. Entre a memória e a história: a problemática dos


lugares. Projeto História, n. 10, p. 7-28.
3 Uma exceção que fazemos diz respeito à recorrência da imagem

de uma cabocla braba, pega a dente de cachorro e casco de cavalo, que


emerge dos discursos orais de moradores do Seridó quando se
referem às suas genealogias ancestrais. Cf. MACEDO, Helder
Alexandre Medeiros de. Desvendando o passado índio do sertão:
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parte, um eco da historiografia regional que tomou os


limites do atual Estado do Rio Grande do Norte como objeto
de estudo. Ideias como a de desaparecimento, de integração e
de retorno à vida errante podem ser observadas nos estudos
de Vicente de Lemos, Augusto Tavares de Lira, Rocha
Pombo e Luís da Câmara Cascudo4.
O desaparecimento, concordando com a problemati-
zação de Maria Sylvia Porto Alegre, pode ser entendido
como um discurso que emerge no século XIX e se estende
pelo século seguinte para explicar a desorganização das
sociedades indígenas e mesmo dar uma justificativa para a
expropriação das suas terras5. Não é à toa que esses historia-
dores, ligados ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio
Grande do Norte, têm sua matriz teórica influenciada pela
historiografia produzida no século XIX, que primava pela
construção de “histórias locais”, que tivessem um passado
comum com o do Estado Nacional em construção no Brasil,
perpassadas por valores como a unidade da nação, o catoli-
cismo e a cultura ocidental, sobretudo europeia e ibérica6.
O mesmo silenciamento da população nativa e da
sua participação no processo histórico que observamos no

memórias de mulheres do Seridó sobre as caboclas-brabas.


Vivência, n. 28, p. 145-57.
4 LEMOS, Vicente de. Capitães-mores e governadores do Rio

Grande do Norte (1912); LIRA, Augusto Tavares de. História do


Rio Grande do Norte (1921); POMBO, Rocha. Historia do Estado
do Rio Grande do Norte (1922); CASCUDO, Luís da Câmara.
História do Rio Grande do Norte (1955).
5 PORTO ALEGRE, Maria Sylvia. Rompendo o silêncio: por uma

revisão do “desaparecimento” dos povos indígenas. Ethnos, n. 2,


p. 21-44. Verificar, ainda, da mesma autora, _____. Cultura e
História: sobre o desaparecimento dos povos indígenas. Revista
de Ciências Sociais, v. 23/24, n. 1/2, p. 213-25.
6 DIEHL, Astor Antônio. A Cultura Historiográfica Brasileira, p.

23-90.
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parágrafo anterior pode ser visibilizado, também, na


historiografia do Seridó que produziu trabalhos sobre sua
ocupação pelos conquistadores brancos. As obras de Manoel
Dantas, José Augusto Bezerra de Medeiros, Eymard Mon-
teiro, José Adelino Dantas, Juvenal Lamartine, Jayme da
Nóbrega Santa Rosa, Oswaldo Lamartine de Faria e Olavo
de Medeiros Filho7, basilares para a compreensão da história
do Seridó e dos diferentes sujeitos históricos que o cons-
truíram, trazem escassa informação a respeito dos povos
indígenas que o habitaram. Informação essa, quase sempre,
situada no período colonial. Perpetuando uma determinada
versão da história da região que tem suas origens mais
remotas na chegada dos conquistadores luso-brasílicos e na
instalação de fazendas de criar gado, após subjugados os
autóctones e apropriados seus territórios. Versão esta que,
além de relegar um papel secundário aos indígenas, se
traduz na personificação de um herói conquistador, de onde
descendem as estirpes fundadoras das atuais municipa-
lidades.
Essa historiografia regional, entretanto, apresenta
dois casos atípicos: o de José Adelino Dantas e o de Olavo
de Medeiros Filho, que mesmo apresentando um modo de
abordagem conservador e tradicional das fontes e dos fatos
históricos, dotando de extrema valorização as elites colo-
niais, forneceram importantes evidências para se pensar a
presença indígena durante as Guerras dos Bárbaros (1683-

7 DANTAS, Manoel. Homens d’outrora; AUGUSTO, José. Famí-

lias Seridoenses; Id. Seridó; MONTEIRO, Eymard L’Eraistre.


Caicó: subsidios para a historia completa do município; DANTAS,
José Adelino. Homens e fatos do Seridó antigo; LAMARTINE,
Juvenal. Velhos costumes do meu sertão; SANTA ROSA, Jayme
da Nóbrega. Acari: fundação, história e desenvolvimento;
LAMARTINE, Oswaldo. Sertões do Seridó; MEDEIROS FILHO,
Olavo de. Velhas famílias do Seridó; Id. Velhos inventários do
Seridó.
25 |

1725) e mesmo nos anos que se seguiram a esta (o primeiro,


usando fontes paroquiais e o segundo, além de crônicas
coloniais, mapas populacionais de origem eclesiástica)8.
Esses estudos, mais o de Sinval Costa – que, ao
debruçar-se sobre as origens e entrelaçamentos genealógicos
da família Álvares dos Santos, anotou em apêndice ao seu
livro uma relação de enterros e casamentos de índios
encontrada nos livros de assento da Paróquia de Santa Ana,
do final do século XVIII ao início do século XIX – foram
pistas importantíssimas que nos ajudaram a levar adiante a
seguinte proposição: a de que a população indígena do
território hoje conhecido como Seridó não havia desaparecido
totalmente e da forma brutal após a chegada dos conquis-
tadores brancos, como estava escrito na historiografia
clássica ou mesmo dito no senso comum9.
Essa constatação ganhou importância quando pude-
mos encaixá-la numa problemática mais ampla, a das
relações entre os luso-brasílicos e os nativos durante os mo-
mentos da conquista que tiveram como motor a expansão
da empresa pecuarística pelo sertão. Relações amistosas, a
princípio, porém, que se tornam propensas a conflitos à
medida em que as diferenças entre a cultura nativa e a
ocidental começam a se tornar evidentes. Diferenciação que
se dá quando consideramos que o sertão do Rio Grande foi
cenário de um amplo processo, de escala mundial, o
fenômeno da ocidentalização.

8 DANTAS, José Adelino. De que morriam os sertanejos do Seridó


antigo? Tempo universitário, v. 2, n. 1, p. 129-36; MEDEIROS
FILHO, Olavo de. Índios do Açu e Seridó; MEDEIROS FILHO,
Olavo de. Cronologia Seridoense.
9 Hipótese confirmada em MACEDO, Helder Alexandre Medeiros

de. Vivências índias, mundos mestiços: relações interétnicas na


Freguesia da Gloriosa Senhora Santa Ana do Seridó entre o final
do século XVIII e início do século XIX.
26 |

Entendemos ocidentalização, adotando a perspectiva


de análise do historiador Serge Gruzinski, como o processo
de ocupação das terras situadas na outra margem do
Atlântico pelas potências mercantilistas da Europa Ociden-
tal, que acarretou a conquista das almas, dos corpos e dos
territórios do Novo Mundo. Esse processo, a partir do final
do século XV, produz, no solo americano, mestiçagens (leia-
se, misturas) entre seres humanos, imaginários e formas de
vida oriundas das quatro partes do mundo (da própria
América, da Europa, da África e da Ásia)10. As mestiçagens,
assim, transformam a vida das populações nativas que
habitavam na colônia portuguesa na América. A ocidenta-
lização, de modo mais amplo, contribui, numa época de
intensa circulação planetária de pessoas, para a construção
de territórios coloniais e de mediações culturais entre os
diferentes grupos sociais que aí transitam.
Tomando a realidade da Capitania do Rio Grande
como objeto de estudo, compreendemos território como
sendo um espaço apropriado em função e a partir de relações
de poder, sociais e culturais. Consideramos, assim, a territo-
rialização – transformação do espaço em território – como um
processo que se dá pela apropriação de um indivíduo, de
um grupo social ou mesmo de uma nação sobre deter-
minada superfície da terra, dotando-a de visibilidade e de
funcionalidade específicas11. A ocidentalização, portanto,

10GRUZINSKI, Serge. O pensamento mestiço, p. 62-3.


11 O nosso entendimento acerca do conceito de território está
balizado nas leituras feitas em RAFFESTIN, Claude. Por uma
geografia do poder; SOUZA, Marcelo José Lopes de. O território:
sobre espaço e poder, autonomia e desenvolvimento. In: CASTRO,
Iná Elias de; COSTA, Paulo César da; CORRÊA, Roberto Lobato.
Geografia: conceitos e temas; HAESBAERT, Rogério. Concepções
de território para entender a desterritorialização. In: SILVA,
Carlos A. Franco da et all (orgs.). Território, territórios; MORAES,
27 |

acarreta o choque de várias territorialidades: algumas, oci-


dentais (portuguesas, francesas, holandesas), cujas frontei-
ras eram definidas pelo índice de penetração ou da ocupa-
ção permanente no Novo Mundo, em grande parte medido
pela apropriação do território visando o aproveitamento
econômico (no caso português, outro elemento característico
é a instalação de diferentes níveis da administração lusitana
para o gerenciamento do espaço apropriado); outras, nati-
vas, com fronteiras definidas pelos limites entre os grupos
indígenas hostis e amigos, pelas linhas de demarcação das
incursões das caçadas ou mesmo pelo ciclo anual de coleta
de cada grupo. O choque de ambas produziu um vasto
território colonial e mestiço, que favoreceu o surgimento de
agentes mediadores12 entre o mundo ocidental e o nativo.
Entendemos, dessa maneira, que a ocidentalização
não se dá momentaneamente, mas, que essa difusão da
cultura ocidental se faz pari passu às variegadas frentes de
expansão que são dedilhadas pela Coroa Portuguesa no solo
da Capitania do Rio Grande. Frentes que equivalem a
correntes de povoamento, onde a cruz e a espada andaram
juntas no sentido de implementarem um novo mundo nos
trópicos: desde o litoral, com a constituição de uma econo-

Antonio Carlos Robert de. Bases da formação territorial do Brasil:


o território colonial brasileiro no “longo” século XVI.
12 Os agentes mediadores, portanto, podem ser encarados, no

contexto da conquista da América, como indivíduos que


favoreceram as transferências e os diálogos entre universos
aparentemente incompatíveis, elaborando negociações muitas
vezes incomuns e contribuindo para sua articulação e para a
porosidade entre suas fronteiras. Cf. ARES QUEIJA, Berta &
GRUZINSKI, Serge (coords.). Entre dos mundos: fronteras
culturales y agentes mediadores, p. 9-10. Para o Brasil, consultar
PAIVA, Eduardo França & ANASTÁSIA, Carla M. J. (orgs.). O
trabalho mestiço: maneiras de pensar e formas de viver (séculos
XVI a XIX).
28 |

mia voltada prioritariamente para a atividade açucareira,


até o sertão, que se vê inundado, no período pós-expulsão
dos holandeses, por milhares de cabeças de gado em suas
ribeiras, visando o abastecimento do mercado interno.
Diferentes instâncias administrativas foram sendo
construídas pela metrópole no solo percorrido pelo gado, na
tentativa de se consolidar cada vez mais a ocupação e o
povoamento colonial. Uma dessas instâncias, de cunho
eclesiástico, foi a Freguesia da Gloriosa Senhora Santa Ana
do Seridó, criada em 1748 com o objetivo de cuidar da
espiritualidade do aprisco localizado nas ribeiras da porção
centro-meridional da Capitania do Rio Grande. Escolhemos
essa freguesia como o recorte espacial de nossa pesquisa,
por se tratar da “primeira delimitação do espaço que viria a
ser conhecido como Seridó”, não mais representado apenas
pelo curso d’água homônimo, mas, por “uma malha de rios:
Acauã, Seridó, Espinharas e Piranhas”13. Em linhas gerais, a
Freguesia do Seridó abarcava as ribeiras banhadas pelo
Seridó e seus afluentes, tanto na Capitania do Rio Grande,
como na da Paraíba, constituindo-se num território cristão/
ocidental que se sobrepôs aos antigos territórios indígenas.
A investigação cobre o período colonial e parte do
século XIX, embora os seus objetivos não estejam atados a
essas periodizações. Dessa forma, o marco cronológico
inicial é o ano de 1670, de quando data o requerimento de
sesmaria mais antigo, de que se tem conhecimento, em uma
ribeira que posteriormente seria incorporada à Freguesia de
Santa Ana do Seridó. Estende-se até a década de 1840,
quando a freguesia citada sofreu uma grande desfragmen-
tação territorial, ocasionada pela criação do Curato de Nossa
Senhora da Guia, do Acari (1835). Até então, era uma

13MACÊDO, Muirakytan Kennedy de. A penúltima versão do


Seridó: uma história do regionalismo seridoense, p. 67-8.
29 |

cartografia que abarcava, praticamente, todo o Seridó hoje


conhecido, em sua porção norte-rio-grandense.
Quatro corpus documentais formam a base de dados,
utilizada de modo que pudéssemos responder às indaga-
ções apontadas: 1) assentos de batizado, casamento e morte
da Freguesia do Seridó (1788-1838), além do livro de tombo
(1748-1906); 2) papéis avulsos, notas de cartório, justifi-
cações de dívida e inventários post-mortem do Termo da Vila
Nova do Príncipe14 (1737-1822); 3) sesmarias das Capitanias
da Bahia, Rio Grande e Paraíba (1670- 1822); 4) mapas
produzidos por portugueses, holandeses e franceses conten-
do representações cartográficas do território da Capitania
do Rio Grande.
Para responder à problemática levantada, partimos
da idéia de que os dados e informações que nos interessam
não aparecem chapados nas fontes, mas, encontram-se
imiscuídos nos diferentes corpus documentais. É necessário,
assim, que os indícios recolhidos possam ser esqua-
drinhados, comparados com outras fontes e cruzados com
outras realidades – a fim de que possam fornecer uma
explicação mínima da realidade do período em estudo –,
bem como, observados com minúcia e rigor15. Da mesma
forma, acreditamos que a elucidação das questões passa por
uma crítica documental a esses diferentes tipos de fontes,
ainda mais quando referimo-nos a populações margina-
lizadas historicamente, como as indígenas. Essa posição
confirma o que Maria Sylvia Porto Alegre aconselha para

14 A Vila Nova do Príncipe, criada em 1788 a partir da Povoação


do Seridó, corresponde, nos dias atuais, ao município de Caicó-
RN.
15 A inspiração para essa atitude em relação às fontes vem do

método indiciário, prescrito por GINZBURG, Carlo. Mitos,


emblemas, sinais: morfologia e história, especialmente o ensaio
Sinais: raízes de um paradigma indiciário.
30 |

pesquisas sobre índios do Nordeste em sua historicidade: o


uso de métodos que incluam “a pesquisa documental, a
etno-história, a história oral e a etnografia”16. Além do mais,
temos a consciência de que as fontes mencionadas no pará-
grafo anterior se constituem enquanto discursos coloniais,
carregados de conceitos e de filtros decorrentes do lugar
social onde os seus produtores – a Igreja, a Justiça, o Estado
– estão localizados. Apresentam, portanto, uma versão
fragmentária do passado e restrita à visão de mundo da-
queles que os redigiram.
Por outro lado, a busca de tentar compreender as
transformações provocadas pela ocidentalização nas socie-
dades indígenas que habitavam o sertão do Rio Grande se
coloca como empresa árdua. Vez que as iniciativas tomadas
com vistas a se obter uma possível versão da história refle-
tida pelo índio esbarram na problemática das fontes, quase
sempre, escritas pelos conquistadores17. Entretanto, a tarefa
não se coloca como impossível, considerando que diversos
trabalhos, nos últimos anos, têm conseguido, através de
fontes coloniais, sondar “pistas sobre as posturas e as
transformações das sociedades nativas face ao avanço dos
europeus”18. Nossa meta, no rastro desses trabalhos, é a de
oferecer respostas – ou caminhos para estas – à problemática
levantada, considerando os índios do período abordado
como sendo parte integrante de uma sociedade mestiça e, por
conseguinte, sujeitos de sua própria história e atores polí-

16 PORTO ALEGRE, Maria Sylvia. Rompendo o silêncio: por uma


revisão do “desaparecimento” dos povos indígenas, p. 5.
17 Consultar, a respeito da problemática das fontes para a história

indígena, CUNHA, Manuela Carneiro da (org.). História dos


Índios no Brasil, p. 9-14.
18 MONTEIRO, John. Entre o etnocídio e a etnogênese: identidades

indígenas coloniais. In: Id. Tupis, tapuias e historiadores: estudos


de história indígena e do indigenismo, p. 57.
31 |

ticos responsáveis por seu maior ou menor envolvimento no


sistema colonial.

Resultados

Um mineiro percorrendo uma caverna escura, gélida


e espinhosa à busca de uma luz que se apagou há muito
tempo, da qual não restam mais que microscópicos filetes.
Esta foi a impressão que nos ficou quando iniciamos a
pesquisa acerca dos índios no contexto da ocidentalização
da Capitania do Rio Grande, especialmente após as guerras
de conquista situadas cronologicamente entre as últimas
décadas do século XVII e início do século XVIII no sertão.
Impressão justificada, em parte, já que as ações dos índios
frente a esse processo de escala global – o da ocidentalização
– não tiveram registros de sua própria lavra, até onde temos
conhecimento. Obteve triunfo, assim, o registro escrito dos
conquistadores, que expôs, quase sempre, a sua supe-
rioridade cultural frente aos nativos encontrados no sertão
do Rio Grande, nominados nesses mesmos registros apenas
quando se fazia referência a seu modo de vida bárbaro, à sua
gentilidade e, por fim, à sua incorporação iminente frente ao
projeto colonial. Os indícios que seguimos, todavia, permi-
tiram que penetrássemos na caverna mencionada e avan-
çássemos até as brenhas onde poucos haviam estado,
procurando a claridade há tanto tempo obscurecida pela
vitória do registro escrito e por uma maneira ocidentalizante
de escrever a história.
No que diz respeito ao espaço, a difusão da cultura
ocidental trouxe como um dos resultados o enfrentamento
entre a população que aí habitava, os tapuias, e as forças
coloniais interessadas no domínio do seu habitat, consi-
derado de extrema importância para o incremento do
pastoreio – forças essas que não se compunham apenas de
elementos luso-brasílicos, mas, também, de negros, mestiços
32 |

e índios mansos que militavam ao lado dos conquistadores.


Esse encontro belicoso, conhecido na historiografia como as
Guerras dos Bárbaros, opôs brutalmente duas territoriali-
dades, a do país dos tapuias – lembrando a expressão de uso
corrente entre os holandeses para designar o sertão do Rio
Grande – e a do Império colonial português em expansão
constante na direção oeste. Territorialidades que represen-
tavam, em última instância, a oposição entre o universo
cultural tarairiu, marcado pela sua extrema diversidade
étnica, e o ocidental.
Apreendidos pela malha jurídica do Império portu-
guês, os antigos territórios nativos, habitados pelas diversas
tribos ligadas aos Tarairiu, disputados nas Guerras dos
Bárbaros foram transformados, gradativamente, em um
único território colonial, que era, por extensão, propriedade
de el-rei. Esse território, ainda no primeiro quartel do século
XVIII, se viu pontilhado de inúmeras fazendas e currais de
criar gado erguidos nos terraços fluviais das ribeiras, alguns
dos seus proprietários mantendo, também, pequenas lavou-
ras em cima das serras – para cujo trabalho foram emprega-
dos índios como mão-de-obra escrava, cativada nas Guerras
dos Bárbaros, e livre, formada pelos remanescentes dos
conflitos e que haviam ficado dispersos pelo sertão. Para-
lelamente, mas, de forma gradual, negros africanos e
crioulos foram sendo incorporados nas lides da criação e do
eito. Com o adensamento populacional, gradativamente
foram sendo instaladas estruturas de poder destinadas ao
controle e gerenciamento dos colonos que se situaram nas
proximidades do rio Seridó: o Arraial do Queiquó (1700), o
Regimento de Ordenanças da Ribeira do Seridó (1726), a
Povoação do Caicó (1735), a Freguesia da Gloriosa Senhora
Santa Ana do Seridó (1748) e a Vila Nova do Príncipe (1788).
33 |

Figura 1
Provável área de abrangência da Freguesia da Gloriosa
Senhora Santa Ana do Seridó até 1788

Fonte: MACEDO, Helder Alexandre Medeiros de. Ocidentalização,


territórios e populações indígenas no sertão da Capitania do Rio
Grande, p. 187. Legenda: 1 – a Vila Nova do Príncipe, criada em 1788 a
partir da Povoação do Seridó/Caicó e que era a sede da freguesia,
contando com dois templos, a Capela de N. Srª do Rosário do Penedo
(1695) e a Matriz da Senhora Santa Ana do Seridó (1748); 2 – a Povoação
de N. Srª dos Aflitos do Jardim das Piranhas (1710); 3 – a Povoação da N.
Srª do Ó da Serra Negra, cujo primeiro templo foi erguido em 1735 e
transferido para o local onde encontra-se até hoje em 1774; 4 – a Povoação
de N. Srª da Guia do Acari (1738); 5 – a Povoação de Santa Luzia do
Sabugi (1756); 6 – a Povoação de N. Srª da Guia dos Patos (1772); 7 – a
Povoação de N. Srª da Luz da Pedra Lavrada (aproximadamente década
de 1770); 8 – a Povoação de N. Srª das Mercês da Serra do Cuité (1801).
34 |

Estruturas que davam a medida de como o


fenômeno da ocidentalização estava enraizado nos trópicos,
a ponto de, mesmo em manchas populacionais situadas nos
mais afastados lugares da sede do governo-geral, haver uma
representação civil, militar e eclesiástica do Império portu-
guês. Conquistados os territórios nativos e os corpos que
neles habitavam, a conquista das almas se fez por meio da
construção de uma cartografia da fé, respaldada na hidro-
grafia da região. Referimo-nos à Freguesia de Santa Ana,
estrutura da administração eclesiástica que tinha sede na
Povoação do Caicó em 1748 e que reuniu, dentro de sua
cartografia, uma grande quantidade de fazendas situadas na
Ribeira do Seridó e de seus afluentes em áreas da Capitania
da Paraíba e do Rio Grande. Fazendas que eram periódica-
mente visitadas pelos dizimeiros, a fim de recolher o dízimo
em cumprimento às obrigações tributárias dos criadores de
gado, bem como pelos sacerdotes da freguesia, em deso-
briga, realizando missas, casamentos e batizados. Essa
territorialização, assim, constituiu-se enquanto o primeiro
esforço institucional de reconhecimento de uma determinada
região, que ainda hoje guarda o nome do rio que banha suas
paragens: o Seridó19.
Os documentos produzidos no âmbito da Justiça e
da Igreja durante o período posterior à criação da freguesia,
na Ribeira do Seridó, mostram de maneira fragmentária a
coexistência da população indígena junto aos brancos,
negros e mestiços. Não devemos esquecer que essas popu-
lações passaram por terríveis processos de envolvimento
nas guerras de conquista, de exposição a doenças, de
escravização e de redução em aldeamentos missionários.

19MACÊDO, Muirakytan Kennedy de. A penúltima versão do


Seridó: uma história do regionalismo seridoense; MORAIS, Ione
Rodrigues Diniz Morais. Seridó norte-rio-grandense: uma
geografia da resistência.
35 |

Reduzidas a pedaços, portanto, pelos agentes da ocidenta-


lização, não se torna difícil entender, dessa maneira, o fato
dos registros escritos posteriores às guerras de conquista
serem tão lacunosos, ora caracterizando um indivíduo como
índio, ora como pardo e, em algumas vezes, simplesmente
omitindo o designativo de sua origem étnica ou social.
Os índios que sobreviveram às guerras e viveram na
Freguesia de Santa Ana foram imersos, pela própria dinâ-
mica impositiva da ocidentalização, no cristianismo. Encon-
tramos seus nomes grafados nos documentos do século
XVIII e do início do século XIX sempre com nomes
portugueses, participando dos ritos de passagem da cris-
tandade e recebendo seus sacramentos – ou negando-se a
recebê-los, como aconteceu em alguns casos que encontra-
mos. Mediante a análise e reflexão desses registros escritos
podemos inferir que as populações indígenas que habita-
vam no território da freguesia tiveram suas histórias de vida
intercruzadas com as dos brancos, as dos negros e, princi-
palmente, as dos mestiços. Sendo impossível, portanto, de
nossa parte, querer reconstituir uma pureza original ou
encontrar índios isolados, totalmente avessos à construção –
pela força violenta da cruz e da espada, diga-se de passa-
gem – do mundo colonial sobre os territórios onde
habitavam antes que pudessem ter escutado o mugido do
gado e visto as árvores da caatinga serem derrubadas para
servirem de mourão aos currais. Adotar uma posição como
esta seria o mesmo que negar, veementemente, a idéia de
que a cultura é dinâmica e que, mesmo em situações trági-
cas de opressão, os povos envolvidos estabelecem trocas ou
misturam seus saberes e representações20.

20BOCCARA, Guillaume. Mundos Nuevos en las Fronteras del


Nuevo Mundo: Relectura de los Procesos Coloniales de
Etnogénesis, Etnificación y Mestizaje en Tiempos de
Globalización. Mundo nuevo/Nuevos mundos, n. 1.
36 |

Dessa maneira, além do funesto processo depo-


pulativo acarretado pelas guerras de conquista, um contin-
gente das populações indígenas e seus descendentes – como
os curibocas – que habitavam a Freguesia de Santa Ana,
sobretudo nas primeiras décadas do século XVIII, com-
punha parte da mão-de-obra escrava usada nas fazendas ou
nas roças situadas nas chãs das serras, como os índios
Anastácio, Domingas, Bibiana da Cruz e Florência, que tive-
ram seu estatuto de escravos possibilitado pelos disposi-
tivos legais da guerra justa.
Outros nativos, conquanto livres ou forros, mesmo
não absorvidos oficialmente pela malha da escravidão,
trabalharam como fâmulos, fábricas ou mesmo vaqueiros
nessas mesmas fazendas, em regime de trabalho servil, na
dependência dos senhores de terra para sobreviver, como
exemplificam as histórias de Francisco Gomes, Agostinho e
José Pereira de Souza. Afora os índios imersos no mundo do
trabalho, outros viveram o resto dos seus dias perambu-
lando pelas fazendas, povoações e vila da freguesia, sem
lugar próprio para morar, dependendo dos favores dos
fazendeiros ou da caridade dos que tinham assento no
tecido urbano. Pela sua condição de errantes foram chama-
dos de vagabundos e assistentes, caracterizadores da extre-
ma penúria em que viviam, daí o fato dos registros de suas
exéquias conterem a averbação de “grátis”, indicando a não
existência de posses para o pagamento da espórtula ao cura.
Essa foi a história de Damásia, Filipe, João dos Santos e
Damiana Maria.
Outros índios, no entanto, conseguiram resistir aos
impactos da ocidentalização nutrindo-se da habilidade que
tiveram em transitar pelos dois mundos que se chocaram
durante as guerras de conquista, o ocidental e o nativo.
Mateus de Abreu, Tomé Gonçalves e Policarpo Carneiro
(este, filho da índia Bibiana) vivenciaram um novo estilo de
vida, meio europeu, meio índio – mestiço, usando a formu-
37 |

lação de Serge Gruzinski. Embora fossem diferenciados do


restante da população como índios ou por terem ascen-
dência autóctone, conseguiram sobressair-se pelo fato de
ocuparem cargos militares (Mateus de Abreu, que tinha o
título de capitão) ou civis (Tomé Gonçalves, que exercia o
ofício de porteiro do auditório) e, ainda, tomando o exemplo
de Policarpo Carneiro, por recorrerem aos mecanismos da
Justiça a fim de requisitarem uma herança paterna que lhe
havia sido negada. Esses índios, percorrendo os meandros
do mundo colonial e mantendo conexões com sua origem
autóctone, tornaram-se agentes mediadores entre esses dois
mundos, contribuindo para permeabilizar as suas fronteiras
e para demarcar seus próprios espaços de sociabilidade.
Na empreitada que levou à desagregação das socie-
dades indígenas do sertão da Capitania do Rio Grande no
decurso das guerras bárbaras, e, posteriormente, durante a
efetiva implantação de estruturas de poder como a povoa-
ção, a freguesia e a vila, a ocidentalização cumpriu o seu
propósito: o de conquistar os territórios, as almas e os cor-
pos do Novo Mundo. Não sem fraturar a organização tribal
e tampouco sem desconectar o sistema de alianças nativo,
extinguindo, inclusive, grande parcela dessa população.
Entretanto, o mesmo fenômeno de proporções planetárias
que se valeu dos meios de dominação historicamente utili-
zados na Europa Ocidental – a religião, a escrita, a guerra,
por exemplo – para efetivar essa conquista não conseguiu
reproduzir, fielmente, o Velho Mundo no Novo Mundo. Propi-
ciou, porém, o aparecimento de misturas entre diferentes
tipos de pessoas que transitavam entre a Ásia, a Europa, a
África e a própria América. Misturas de seus corpos – no
caso da miscigenação – mas, também, de suas práticas
culturais. Neste trabalho dedicamos nossas atenções, com
mais realce, ao sertão da Capitania do Rio Grande, celeiro
dessas misturas, onde pudemos reconstruir alguns dos
fragmentos das histórias das populações indígenas imersas
38 |

no território da Freguesia do Seridó. Vivências de escra-


vidão, de servidão, de errância e de mediação, mas, também
de resistência, de adaptação, de mestiçagem, que retiramos
do fundo da caverna escura referida no início deste texto
para lhes dar um lugar ao sol. Estaremos satisfeitos se
tivermos conseguido, ao fim deste estudo, dar-lhes um lugar
na história.
39 |

FUGA, RESISTÊNCIA E MORTE:


A HISTÓRIA DA ESCRAVA HONORATA
NO SERTÃO DO SERIDÓ, PROVÍNCIA DO
RIO GRANDE DO NORTE1
Michele Soares Lopes

Bastidores e cenários

Era agosto de 1873. A escrava Honorata, na posse de


seus três filhos menores de idade, inicia uma longa viagem
do Piancó2 para a então Cidade do Príncipe, lugar onde
passa a estabelecer moradia com sua família3. Do Piancó,
cidade que nascera e morou durante 26 anos, Honorata
fugia de seu senhor, Silvino Dantas Corrêa de Góis, rico

1 Esse texto constitui parte das discussões feitas na dissertação de


mestrado Escravidão na Vila do Príncipe (1850-1888),que está sendo
construída no âmbito do Programa de Pós-Graduação em História
da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sob orientação
do Prof. Dr. Muirakytan Kennedy de Macêdo.
2 Piancó, antigo município de Pombal, na Paraíba; foi sede da

Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso, de onde foi criada a


Freguesia da Gloriosa Senhora Santa Ana do Seridó (1748), cuja
sede ficava na Povoação de Caicó, posteriormente elevada a Vila
Nova do Príncipe (1788) e a Cidade do Príncipe (1868).
3 LABORDOC, Fundo da Comarca de Caicó, 3º Cartório Judiciário,

Processos Crimes, Caixa 02. Processo crime. Réu: Silvino Dantas


Correia de Goes. Vítima: Honorata e seus filhos menores (1874).
Doravante, as remissões e citações do caso de Honorata serão
extraídas desse documento.
40 |

fazendeiro da região, que segundo a escrava, a mantinha em


um cativeiro injusto. Neste mesmo ano, pouco tempo antes
da referida fuga se concretizar, Maria José, mãe de Honorata
ganhou na justiça o direito do exercício de sua liberdade. A
busca por esta intervenção jurídica transpareceu-lhe uma
ação sensata, haja vista que há muitos anos vivia em cati-
veiro mesmo já tendo comprado sua liberdade. A exemplo
de sua mãe, Honorata, tão logo, chegou à Cidade do Prín-
cipe, tomou a iniciativa de requerer ao juiz municipal de
órfãos deste termo a sua ação de liberdade, bem como, de
seus filhos José, Manoel e Maria.
Para a ação proposta em juízo, a escrava alegava em
sua petição que, no ano de seu nascimento (1847), sua mãe
Maria José já gozava de meia liberdade, adquirida pelos
bens dados em pagamento por si própria, e pelos serviços
prestados a seu dono, na época, o senhor Manoel Caetano.
Convicta de estar em um cativeiro injusto desde sua tenra
infância, que frustrava suas expectativas de liberdade e
maior mobilidade física, Honorata é contumaz ao defender
sua liberdade, até então silenciada pela vida em cativeiro.
Ao questionar sua condição de escrava, por achar-se livre de
direito e vontade como a sua mãe, provavelmente o que ela
se propunha a discutir em juízo não era o direito de
propriedade sobre seres humano em si, mas, toda uma
bagagem de práticas e costumes sancionadas nas fazendas
da região e sob as leis do próprio Império, que lhe permitira
a construção da noção de um “cativeiro justo”4 ou de um
“bom senhor”.

4 MATTOS, Hebe . Das cores do silêncio. Os significados da

liberdade no Sudeste escravista – Brasil – Século XIX. A autora


explicita que a noção de um “cativeiro justo”, alimentada pelo
tráfico interno brasileiro, em primeira análise, apenas reforçaria a
legitimidade da dominação escravista, uma vez que, o que se
discutia eram as condições de seu funcionamento e não o direito
de propriedade sobre seres humanos em si.
41 |

Talvez, por ter sido criada sob os cuidados de sua


mãe, que se dizia livre, Honorata tenha também alimentado
algumas dúvidas a respeito da legitimidade de seu cati-
veiro. Insatisfeita ou sentindo-se injustiçada, sua iniciativa
de fugir pareceu-lhe a opção mais viável, ou o caminho mais
rápido para fazer uso de sua liberdade. Ser escrava parece
não ter se tornado um hábito evidente para Honorata, que
buscava em outros espaços novos ares, onde fosse possível
dar continuidade a sua vida, com seus filhos – e quem dirá
com sua mãe, sem correr o risco de regressar novamente
para o cativeiro, como de fato, acontecia com os escravos
foragidos e recapturados. Ou ainda com aqueles que, mes-
mo libertos, não se achavam com nenhum documento com-
probatório de sua liberdade, o que era muito frequente, pois
entre a concessão da alforria e seu registro em cartório –
hábito que segundo Kátia Mattoso5 servia para evitar con-
testação dos senhores – era um trajeto que podia durar anos
a fio.
De início, o processo movido por Honorata fora
julgado nulo, por falta da formalidade exigida pela lei na
estruturação do documento, ficando, todavia, salvo, o
direito da suplicante de intentar nova ação – uma vez que a
escrava refutava-se a voltar para a casa do senhor Silvino,
que a sujeitaria novamente a um cativeiro, provavelmente,
ainda mais pesado ou com acréscimo de duros castigos no
seu trato. No desfrute de sua segunda tentativa, o resultado
da apelação considerou finalmente que o processo incitado
por Honorata se achava todo irregular sendo, portanto,
favorável a Silvino o direito de reaver sua posse e de seus
três filhos. Ação que teria se concretizado, caso a suplicante
não tivesse projetado nova fuga para Natal, capital da
Província do Rio Grande do Norte, com a ajuda de seu tio
escravo Manuel, morador no sítio Timbaúba, município de
Serra Negra.

5 MATTOSO, Kátia de Queiroz. Ser escravo no Brasil.


42 |

Em janeiro de 1876, um novo acontecimento redi-


mensionaria a história desta escrava. Neste ano, Pedro e
Thomas, inicialmente orientados por José Romualdo e pelo
caixeiro Manuel, se dirigiam da Freguesia de Piancó para
Serra Negra, ambos montados em robustos alazões, vestidos
em trajes de couro e portando um bacamarte, instrumento
mais que necessário a quem percorre longos trajetos, por
percursos insalubres e armadilhas imprevisíveis de uma
natureza rija e espinhosa. Estes personagens, para satisfação
de alguns e infelicidade de outros, eram motivados pela
execução de um plano insidioso, e ao chegarem ao seu
destino, sem muitas deambulações, partiram para o sítio
Timbaúba, lugar onde montaram uma tocaia para matar o
escravo Manuel, objetivo que alcançam com apenas um tiro
certeiro, no local de roçado deste último6.
A partir deste breve resumo da história de Honorata
e por consequência a de seu tio Manuel, podemos abrir uma
porta no século XIX e vislumbrarmos um pouco do contexto
sociocultural no qual esta escrava estava inserida. A escolha
desta trama, portanto, não foi feita ao acaso. Sua iniciativa
de fugir e posteriormente buscar na Justiça seu direito à
liberdade plena nos permite observar detalhes da escra-
vidão do interior da Província do Rio Grande do Norte que
passaram despercebidas pela historiografia clássica. O obje-
tivo desse texto é, portanto, a partir da trajetória de vida de
Honorata, perceber qual significado de ser livre e ser
escravo no sertão do Rio Grande do Norte. Esta história nos
chamou atenção pelo esforço despendido por Honorata para
se constituir enquanto um ser semovente, ou seja, para

6LABORDOC, Fundo da Comarca de Caicó, 3º Cartório Judiciário,


Processos-Crime do Século XIX, Caixa 02. Processo crime. Réu:
Silvino Dantas Correia de Gos. Vítima: o escravo Manoel (1876).
Doravante, as remissões e citações do caso do Manoel e também
de Honorata serão extraídas desse documento.
43 |

construir uma vida autônoma. O transitar entre as fronteiras


que a distanciavam do cativeiro para a liberdade permitiu,
então, para além da sua luta contra Silvino Dantas, a
legitimação de sua liberdade, a priori inscrita na apropriação
e resignificação de novos espaços a serem vivenciados.
Para atingirmos o objetivo proposto, nos aproxima-
mos do método indiciário utilizado por Carlo Ginzburg7.
Deste modo, ao reduzirmos nossa escala de análise para um
plano micro de observação, buscamos por meio de interco-
nexões, contextualizar historicamente os conflitos indivi-
duais que margearam a vida da escrava Honorata. Abrimos,
portanto, caminho para o vislumbre de detalhes aparente-
mente marginais e irrelevantes do regime escravagista do
interior do Rio Grande do Norte e regiões vizinhas, envol-
vendo o movimento feito por brancos e negros (escravos e
libertos) pelas fronteiras municipais e provinciais, que, por
motivos diversos, circulavam por entre tais espaços.

Sobre o enredo: Honorata entre a fuga e a liberdade

A história de Honorata envolve e se desdobra em


outras, a exemplo da do escravo Manuel, não se distan-
ciando da realidade vivida e sentida pelos demais cativos da
região que ambicionavam liberdade. A trajetória da escrava
Honorata mancha as fronteiras, cola os espaços e estabelece
ligações. Honorata sai do Piancó, perambula pela Cidade do
Príncipe e se direciona para Natal. Obriga que as autori-
dades e seu dono mobilizem esforços para tentar aprisioná-
la, usando além do recurso da fuga, as frestas que a lei
poderia lhe oferecer em procura de autonomia e liberdade
de si e de seus filhos.

7 GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e


história; _____. O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de
um moleiro perseguido pela Inquisição.
44 |

Para Honorata, a Cidade do Príncipe e a Cidade do


Natal revestem-se de cores múltiplas e paisagens novas a
serem conhecidas, vistas e palmilhadas. Neste contexto, se
permanecer distante de quem se dizia seu proprietário era
uma prerrogativa necessária, estes espaços significavam,
dentre outras coisas, rompimento, distância, mobilidade e
repouso. Evidentemente, estas cidades não lhes eram
garantia de plena liberdade, mesmo porque, independen-
temente do lugar escolhido para sua alocação, Honorata
permaneceria dentro da sociedade escravista da época, cujas
restrições sociais, eram validadas até mesmo para os cativos
que foram ou nasceram libertos. Deste modo, em meio a este
frequente estado de tensão e flexibilidade, o escravo via-se
cercado por um sistema de dominação bem estruturado que
lhe determinava limites, o fazendo crer, muitas vezes, que o
caminho mais fácil para a conquista de sua liberdade estava
justamente na legitimação de sua condição. Obediência e
submissão eram entendidas, então, como mais uma possi-
bilidade de se obter a tão sonhada liberdade.
Eficaz ou não, a promessa de uma carta de alforria
também não era garantia de segurança ou futura liberdade
para aqueles que optavam esperar por este insólito “bene-
fício”. Mary Karasch8 explica que os senhores quase sempre
detinham o direito de revogar alforrias, fossem elas con-
dicionais ou plenas, e conclui que essa situação obrigava o
liberto a se manter respeitoso em relação ao antigo senhor.
No Seridó do Rio Grande do Norte, circunstâncias como
essa eram uma realidade possível. Em análise feita em cartas
de alforrias do século XVIII encontramos o caso do escravo
Pedro9, de 11 anos de idade, cuja alforria foi dada sob a

8 KARASCH, Mary, A vida dos escravos no Rio de Janeiro (1808-


1815).
9 Livro de registro de notas do 1° Cartório judicial de Caicó, Livro

1, 1793.
45 |

condição de que ele permanecesse em companhia de sua


senhora, Antônia Correia de Barros, até o dia do seu faleci-
mento, e determinava também que em caso de desobe-
diência este “ficara cativo como dantes”.
No caso de Honorata, ela não estava convicta da
legitimidade de seu cativeiro. Tamanha insatisfação pode
ser materializada se pensarmos nas dificuldades de se
avançar em uma fuga, ação que exige tempo, discrição e
sigilo, especialmente em companhia de três crianças, das
quais o mais velho, Manuel, tinha apenas seis anos de idade.
O roteiro seguido – Piancó-Príncipe-Natal – guardava, além
do novo e da “liberdade” desejada, as nuanças do desconhe-
cido e os desconfortos de uma viagem realizada provavel-
mente a pé, uma vez que, estando em número de quatro
pessoas, as chances de realizar uma fuga a cavalo – trans-
porte comum na região – reduziam-se consideravelmente.
Ao que nos parece, tal mobilidade física surge como reação
às estratégias de dominação de Silvino, haja vista que a
utilização de táticas como a compra da alforria ou o empre-
go do recurso do bom comportamento, prática dissolvida no
imaginário colonial e imperial como dispositivo que favo-
recia inter-cursos informais entre senhores e escravos, não
foram opções potencializadas pela escrava. Seus questio-
namentos não giravam em torno do que fazer para conse-
guir sua alforria. Partiam, contudo, de sua plena convicção
de ser livre, de estar em um “cativeiro injusto”; mais que
isso, de estar condicionando seus filhos a uma prisão igual-
mente injusta.
Não é possível sabermos que tipo de relação coti-
diana se estabelecia entre Honorata e o seu senhor, nem ao
menos se Silvino tinha conhecimento das ideias de sua
escrava. O desfecho da história reforça a impressão de um
convívio conflituoso, marcado pelo encontro de visões
dissonantes. Como podemos perceber, havia incoerências
entre os interesses de ambas as partes. Silvino se mostrara
46 |

indisposto a lançar mão de seu bem, cuja existência, a seu


ver, fundamentava-se no trabalho e na produtividade.
O processo cível de liberdade, incitado pela escrava,
parecia a Silvino Dantas abusivo, sem fundamento perante as
leis constituídas, por se tratar de algo que lhe pertencia, uma
mercadoria, um elemento sem vontades. Por tudo isso,
creditar atenção a esta mulher seria sacrificar seu direito de
propriedade, bem como, “privá-lo dos serviços de sua escra-
va, como já vinha ocorrendo há mais de sete meses a contar
da data de sua fuga”.
As explicações oferecidas por Silvino deixam patente
sua excitação em preservar o poder dentro e fora de seus
domínios. Em suas fazendas, uma em Patos, na Província da
Paraíba, e outra em Serra Negra, Província do Rio Grande
do Norte, a fuga de Honorata devia constituir-se enquanto
uma exceção e mau exemplo para seus cinqüenta escravos.
Na violência deflagrada contra o cativo Manuel havia mais
do que simples desafeto: sua ação premeditada era para ser
noticiada, vista, e não menos sentida por aqueles que
questionassem sua autoridade. Usualmente, a recorrência à
vigilância e violência tinha como objetivo a manutenção da
ordem e disciplina no cativeiro. Quando essas medidas
excediam as cercas dos domínios senhoriais para o público,
a validade de sua autoridade era reafirmada.
Segundo Sidney Chalhoub10, para os escravos que
fugiam ou tentavam obter a liberdade na Justiça e perdiam o
retorno para “casa”, poderia se incluir, além da decepção,
um cortejo de sevícias por parte de um senhor irado e
vingativo. Silva Lara, em estudo sobre as relações sociais na
América portuguesa diz a propósito que

10 CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das


últimas décadas da escravidão na corte, p. 108.
47 |

as marcas dos castigos ministrados aos que


rebelavam funcionavam como reafirmação do poder
senhorial dentro e fora das unidades de produção.
Rituais sempre retomados, pedagógicos e exem-
plares, que reafirmavam as regras do domínio
senhorial11.

Se não sabemos até que ponto Honorata era coagida


pelo seu dono, se havia de fato violência física ou psico-
lógica, observamos, contudo, em seu discurso, os termos
oprimida e constrangida para justificar a Ação de Liberdade,
assim como seu merecimento a essa regalia da Justiça. A
vida em comum de senhores e escravos era um compro-
misso continuado, atividade orquestrada por uma série de
políticas de negociação desenvolvidas no campo dos
costumes. O rompimento com tais acordos ou o uso abusivo
do poder senhorial, dentre outras coisas, poderia motivar
ações explosivas, como fugas, revoltas e o próprio suicídio
do escravo.
No que se refere ao senhor, o desvio de conduta de
um cativo reforçava seu direito ao uso da violência de modo
intensificado. A coexistência pacífica entre senhores e
escravos inscritos no mundo rural, como única relação exe-
qüível, denunciava que essa situação não era fixa. Histórias
como a de Honorata rompem com o mito de democracia
racial12 construído pela historiografia brasileira da década

11 LARA, Silva Hunold. Campos da Violência: escravos e

senhores na Capitania do Rio de Janeiro, 1750-1808.


12 Sobre o assunto consulte-se FREYRE, Gilberto. Casa-Grande &

senzala: formação da família brasileira sob o regime de economia


patriarcal e CASCUDO, Luís da Câmara. História do Rio Grande
do Norte. Cascudo faz uso desse termo para argumentar que,
devido à pouca quantidade de escravos nos sertões da Capitania
do Rio Grande e a própria dinâmica do criatório, que exigia o
deslocamento do escravo para lugares diversos, estes homens,
48 |

de 1930 e corroborado pelos textos dos historiadores


clássicos e regionais. Relações dissimuladas, firmadas ape-
nas pelos ditames das necessidades, fluíam, harmonizavam-
se com as sutis solidariedades que se firmavam entre alguns
grupos de senhores e escravos.
A presença de escravos no sertão, a que nos refe-
rimos anteriormente, nos impressiona pela sua capacidade
de mobilidade. O movimento engendrado por escravos,
livres e libertos também fazia parte da dinâmica social
estruturada nestes espaços, uma vez que, cotidianamente,
grupos, tradições e práticas culturais diversas misturavam-
se, perfilando as cores, os sons e os sabores preferenciais de
seus habitantes. Honorata, a exemplo de outros escravos
que tiveram experiências semelhantes a sua, arriscou-se a
enfrentar o perigo do novo, a explorar, mapear e conquistar
espaços, que lhes eram até então, alheios e exteriores aos
seus ciclos de sociabilidade e influência.
Nesta perspectiva, a Cidade do Príncipe, bem como a
Cidade do Natal, supunham mais do que eventuais loca-
lizações geográficas. Eram intervalos, pausas que lhe permi-
tiam a prática da rotina e a construção de novos vínculos de
afetividade. Podemos dizer, como Yi-fu Tuan13, que
aventurar-se no desconhecido e experimentar o incerto é
aprender a partir da própria vivência, haja vista que a
experiência é o veículo que nos possibilita interagir com os
lugares, de modo a desenvolvermos atividades que nos
permitem atribuir-lhes sentidos. Se levarmos em conside-
ração que, em geral, “o escravo não tem leis e para que
possa beneficiar-se de todas as provisões legais em seu
favor, precisa contar com o apoio de homens livres”, é lícito

diferentemente daqueles dos eitos dos canaviais, não sofriam


maus tratos de seus donos por construírem com eles uma relação
de confiança e familiaridade.
13 TUAN, Yi-Fu. Espaço e Lugar: a perspectiva da experiência.
49 |

imaginarmos que Honorata, até mesmo como estratégia,


não se absteve de construir laços de parentesco14 ou amiza-
de com pessoas que compartilhassem de condição social
igual ou superior a sua.
Apesar dos riscos de expor-se em público, o exercício
de hábitos rotineiros era um gesto importante para um
cativo que não pretendia ser notado como suspeito, pois
além de facilitar sua integração na nova sociedade, era uma
forma do próprio “liberto” reconhecer sua liberdade frente a
terceiros.
Espaço e liberdade agora se tornam objetos que
passam a fazer parte do domínio de Honorata. Seus espaços
se expandem como uma superfície plana e coisas que antes
estavam além do seu alcance físico e horizonte mental agora
fazem parte de seu mundo. De fato, devemos levar em
consideração que, para pessoas de cor, fossem elas cativas
ou não, os espaços que se abrem são os espaços que se
conquistam. No dia-a-dia do mundo imperial, sobretudo
nas áreas sertanejas, mesmo diante de todos os limites
impostos pela escravidão, os escravos encontravam brechas
que lhes permitiam influenciar, de alguma forma, nas
decisões dos senhores, sobre seus destinos. Por exemplo, no
Seridó, para lidar com as atividades econômicas do criatório
nas fazendas, não raro, tinha-se também a presença de
cativos atrelados à atividade de vaqueiro15. Para este cargo,
eram comuns os criadores de gado fazer uso da mão de obra
escrava com a mesma contundência que dispunham dos

14 ROCHA, Cristiany Miranda. História das famílias escravas.


Campinas, século XIX. Para este assunto consultamos Rocha por
se propor a observar de maneira microscópica o universo do
parentesco e das estratégias de sobrevivência e resistência dos
cativos no interior de algumas fazendas de Campinas.
15 MACÊDO, Muirakytan Kennedy de. A penúltima versão do

seridó – Uma história do regionalismo seridoense, p. 43.


50 |

homens livres, e, embora o escravo vaqueiro não obtivesse o


mesmo tratamento que aqueles recebiam, a sua condição
social não era um fator determinante para assumir esse
posto, mas sim, as suas habilidades com o serviço.
Os espaços de liberdade, embora restritos, eram
regalias que permitiam ao escravo certa autonomia e socia-
bilidade indispensável. A formação de famílias escravas por
meio do sacramento e o próprio estabelecimento de laços de
compadrio entre livres, forros e escravos de proprietários
diferentes, mesmo sendo atividades que dependessem da
autorização senhorial, foram práticas bem aceitas pelos
fazendeiros16.
Para um escravo que deseja realmente barganhar
benefícios dentro do cativeiro e ter espaço para estabelecer
relações novas, agradar ao senhor era expandir seu universo
social. Alguns indícios nos levam a crer que o falecido
escravo Manuel mantinha boas relações com sua dona,
Maria dos Santos Silva17. Caso contrário, dificilmente seria
possível ele adquirir, em pleno cativeiro, uma casa de
morada e um pedaço de terra para plantação de roçado,
como consta em processo-crime. De fato, não é de se
estranhar que concessões como esta fossem permitidas em
uma região cuja “especialização” econômica estava voltada
para pecuária, atividade de baixa rentabilidade, que por sua
própria natureza e limitação proporcionava uma maior
proximidade entre senhores e escravos. Contudo, este fato

16 Sobre este assunto consultar MACÊDO, Muirakytan Kennedy


de Rústicos Cabedais: patrimônio e cotidiano familiar nos sertões
do Seridó (séc. XVIII), p. 224.
17 Foi primogênita do casal Antônio da Silva e Souza (presidente

do Senado da Câmara do Príncipe no período colonial) e Tereza


Maria da Rocha. Nasceu em 31 de outubro de 1794 e contraiu
núpcias com Joaquim de Araújo Pereira. Ver MEDEIROS FILHO,
Olavo de. Caicó, Cem Anos Atrás, p. 194.
51 |

não é uma determinante para o tipo de relações que se


estabeleciam entre tais pólos. Caso um cativo não se
mostrasse digno de confiança, para dispor de consideráveis
bens materiais ou exercer atividades que necessitavam que
estes extrapolassem os limites da fazenda com considerável
frequência, um senhor jamais cederia tanto espaço para um
escravo, nem ao menos lhe permitiria o exercício de pro-
fissões como a de vaqueiro que demandava muita mobili-
dade.
Não nos esqueçamos de que o escravo nada possuía
de seu, a menos que seu senhor permitisse. Portanto, ações
como trabalhar fora em atividades econômicas informais,
dispor de um ofício especializado, ou de meios que lhe
permitissem a compra de bens imóveis, somente era Possí-
vel com o consentimento do amo, pois cabia a ele decidir se
tal situação era tolerável.
O contato cotidiano desenvolvido entre negros,
mestiços e brancos torna inevitável o intercurso sociocul-
tural que se estabelecia no dia-dia neste universo. A própria
ausência de senzalas nas fazendas corroborava para o
rompimento das distâncias entre senhores e escravos, que a
exemplo de outros espaços onde a atividade de produção
estava voltada para o mercado externo, como o açúcar no
litoral, se mostrava de forma impeditiva. A estes aspectos,
soma-se também a habilidade dos escravos em fazer uso de
tal aproximação para ganharem certas liberdades dentro e
fora do cativeiro.
Segundo estudos realizados por Manolo Florentino18,
fatores como: “haver nascido no Brasil, falar português e
gozar de maior proximidade com o senhor e sua família
desde o nascimento”, são elementos importantes para os
escravos que buscavam, além de maior mobilidade física,

18 FLORENTINO, Manolo (org). Tráfico, cativeiro e liberdade


(Rio de Janeiro, séculos XVII-XIX), p. 346.
52 |

sua liberdade institucional. Já na perspectiva de Mary


Karasch19, a proximidade entre senhores e escravos é uma
questão, relativa. Pois se por um lado muitas escravas
domésticas – que viviam constantemente em companhia de
suas senhoras – conseguiam despertar nestas um sentimento
de “amizade e confidente”. Por outro lado, ela também cha-
ma a atenção para o fato de que nem sempre a proximidade
foi garantia de “amor e afeição”, muitas vezes tal situação
também gerava inimizade. Como diz Eduardo França
Paiva20, o hibridismo cultural não eliminou espaços, práti-
cas, crenças e ritos que se fizeram impermeáveis a perma-
necerem resistentes à alterações e adaptações.
Não é fácil perceber até que ponto um senhor era
influenciado ou desenvolvia afetividade por seu escravo,
mas foi possível, através de documentos que datam do
período colonial, verificarmos que, no sertão da Capitania
do Rio Grande, espaço que não era destinado à cana-de-
açúcar, havia preferências por escravos crioulos e que estes
foram o mais beneficiados com alforrias. Em pesquisa que
realizamos tendo como recorte espacial o Seridó e temporal
os anos de 1792 a 1814 sobre cartas de alforria21, verificamos
que uma característica peculiar dessa região é o grande
número de escravos nascidos no Brasil que eram contem-
plados com manumissões, sendo que, 58,9% dos cativos
escolhidos para serem libertados eram crioulos e apenas
27% desse total eram de procedência africana. É preciso,
pois, levarmos em consideração que os fazendeiros, não dis-
pondo de grande cabedal para compra de outros escravos,

19 KARASCH, Mary. A vida dos escravos no Rio de Janeiro (1808-


1815), p. 453.
20 PAIVA, Eduardo França. Escravidão e universo cultural na

colônia: Minas Gerais,1716-1789.


21 LOPES, Michele Soares. Do cativeiro à liberdade: mecanismos

de manumissões na Ribeira do Seridó (1792-1814).


53 |

muitas vezes, viam na prole de suas escravas parideiras a


oportunidade de conseguir novos braços para as unidades
produtivas e que a frequência desta prática corroborava
para a manutenção das disparidades numéricas existente
entre crioulos e africanos.
Portanto, a despeito destes dados estatísticos, é
pertinente argumentarmos que mais do que simples afini-
dade, a preferência por escravos crioulos era também uma
questão econômica. Se os senhores atribuíam a estes mais
benefícios – se comparados com os de ascendência africana
– é porque no rol dos cativos eles eram a grande maioria e
como tal estavam propensos a absorverem as raras, mas,
não menos aprazíveis, regalias dadas pelos senhores.
Embora a tolerância fosse condição básica para
senhores e escravos construírem diminutos espaços de con-
vivência, nem sempre esta tática assegurava uma coexis-
tência pacifica. A instabilidade de uma relação dosada pela
nítida interferência dos senhores no cotidiano dos cativos,
mesmo revestida com uma roupagem paternalista, estava
propensa à insatisfação de homens e mulheres negras que
não queriam a escravidão. Escravas como Honorata, talvez,
não pretendessem escapar somente do convívio com seu
senhor ou da labuta. Presumimos, então que, ao buscar sua
liberdade, fugia também de um meio de vida que pouco lhe
satisfazia. Neste contexto de relações insólitas, intervenções
e “liberdade”, haviam movimentos contraditórios, pois se
por um lado as regalias eram empregadas enquanto meto-
dologia pelos senhores para assegurar a permanência dos
escravos no cativeiro, o exercício da liberdade integrava o
escravo ao mundo livre, proporcionando a estes o contato
com sedutores espaços que poderiam despertar ou esti-
mular, ainda mais, seu desejo de serem livres. Para Hono-
rata, assim como para os demais escravos fugidos, livres e
libertos a adaptação ao mundo livre demandava tempo.
Mesmo sendo intenso o intercurso social entre brancos e
54 |

negros, as fronteiras existiam, definindo os espaços e papéis


sociais pertencentes a cada grupo.
Ao pretender uma vida menos árdua fora do
cativeiro, a expectativa econômica dos ex-escravos não era
exemplo de referência, pois se o acesso à propriedade de
bens era restrito até mesmo aos fazendeiros bem sucedidos,
fica claro que os homens pobres, e em particular os recém-
saídos do cativeiro, viviam com o estritamente necessário.
Nos inventários do século XIX22, salvo as exceções de alguns
ricos fazendeiros, no geral, a modéstia dos mobiliários era
evidente. A simplicidade dos bens declarados pelos inven-
tariantes nos leva a crer que, para a grande maioria da
população que morava na Ribeira do Seridó o interior das
habitações não oferecia muito conforto para o convívio
familiar. Poucos tamboretes, algumas mesas velhas com
seus bancos em bom uso, mesas de couro e jogos de malas
cobertos de sola é o que encontramos para o período
analisado.

Desfeche da trama

Para um escravo em fuga, mover-se em busca de


melhores condições de sobrevivência era uma solução
tangível23, embora não menos arriscada que fixar moradia
em lugar de bom augúrio. Uma vez fora do cativeiro, o
desenvolvimento de atividades autônomas, preferencial-
mente distante dos antigos ou pretensos senhores, funcio-
nava como dispositivo que transmitia certa segurança para

22 Pesquisa realizada no Laboratório de Documentação Histórica


do CERES/Caicó (LABORDOC), integrada ao Projeto de Pesquisa
Astúcias da suavidade: a escravidão negra nos sertões do Rio
Grande do Norte, coordenado pelo Prof. Muirakytan Kennedy de
Macêdo.
23 FARIA, Sheila de Castro. A colônia em movimento.
55 |

o liberto que, distante de sua rede familiar, precisava ser


cauteloso na hora de selecionar as novas pessoas que fariam
parte de seu ciclo social. A manutenção de uma vida social
ativa ampliava a sensação de espaço conquistado pelos
cativos, espaços estes que, quando vivenciados em sua
complexidade, tornavam-se familiares, sensivelmente prati-
cados e organizados a partir da lógica interna dos negros –
aproximando-se do que Deleuze24 chamou de espaço estria-
do, um espaço definido a partir das impressões deixadas
pelos sujeitos, através de seu cheiro, organização, através
dos traços, que é capaz de riscar em sua vivência no meio.
Liberdade implica em espaço, que por sua vez, im-
plica experiência, movimento e oportunidades. Espaço nos
sugere, também, vulnerabilidade, incerteza e exposição,
caminhos fechados que ameaçavam a permanência da “li-
berdade” dos escravos fugidos. Por isso, aprender a melhor
forma de trilhar por entre estes mundos que passavam a
interagir e a fazer parte do dia-dia de tais escravos, era um
desafio real que em grande medida podia definir o sucesso
ou o não sucesso de todo seu esforço e objetivo de fuga.
Assim como no caso do escravo Felis de Tal25, de cinquenta
e quatro anos de idade, pertencente a José Joaquim Barbosa
de Faria, morador no Canafistula da Freguesia de Alagoa-
Grande, Província da Paraíba. Este, no dia 29 abril de 1884,
após uma tentativa frustrada, dá por fim sua fuga de poucos
dias para Cidade do Príncipe, ao ser descoberto pela polícia
local.
A liberdade que admitimos como necessidade huma-
na não era uma verdade tão evidente para os escravos, tal

24DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e


esquizofrenia.
25 LABORDOC, Fundo da Comarca de Caicó, 3º Cartório

Judiciário, Caixa 01. Processo crime. Indiciado: o escravo Felis de


Tal (1884).
56 |

como era para os homens brancos, que vivenciavam sua


liberdade de modo integral. Para os negros que viveram a
maior parte de suas vidas em cativeiro, era preciso aprender
a ser livre, a comportar-se como tal, porque viver esta nova
condição não se resumia simplesmente ao fato de estar fora
do cativeiro. Tratava-se também de uma questão do próprio
escravo sentir-se livre, viver um espaço que lhe conferisse
esta sensação. De acordo com Sidney Chalhoub26, a Liber-
dade pode ter representado para os escravos muito mais do
que a esperança de autonomia e movimento: pode também
ter significado a possibilidade de escolher a quem servir ou
de escolher não servir ninguém. Temos aqui uma concepção
mais ampla de liberdade, onde os sujeitos a pensam para
além de uma prova institucional, ou seja, de uma carta de
alforria. Este sentido atribuído à liberdade foi potencia-
lizado por escravos como Honorata, que se julgava livre por
direito e vontade, por isso, capaz de movimentar-se tal
quais os libertos que migravam a trabalho ou em busca de
lugares onde fosse possível manter melhor estabilidade
financeira.
Este movimento praticado diariamente, em maior ou
menor escala, por escravos, livres e libertos nos permite
vislumbrar também na Cidade do Príncipe uma dinâmica
mercantil que privilegiava brancos e negros na distribuição
das riquezas internas. A distribuição dos bens, embora não
beneficiasse quantitativamente nem qualitativamente a to-
dos de igual modo, criava condições para que houvesse
certa mobilidade social dentro desta sociedade, permitindo
que, até mesmo os escravos, como o tio Manuel e outros
tantos cativos com habilidades profissionais e consen-
timento dos senhores, trabalhassem para comprar suas
alforrias, que possuíssem bens e que fossem, portanto,

26 CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das


últimas décadas da escravidão na corte, p. 80.
57 |

produtores e consumidores de riqueza. Na procura pela


liberdade ou por algo que proporcionasse esse sentimento,
os escravos rompem com alguns limites fixados pela
escravidão e passam a fazer parte da economia local.
A história de Honorata e seu tio Manuel chega ao
fim com muitos detalhes entreabertos. Sobre a última cena
de sua fuga para Natal, desconhecemos informações palpá-
veis a respeito de como Honorata e seus filhos passaram a
organizar as suas vidas neste espaço, restando-nos mais
questionamentos e hipóteses do que certezas. Já ao que se
refere ao inquérito policial destinado a apurar as circuns-
tâncias do crime do escravo Manuel e os responsáveis por
sua autoria, inicialmente a sentença expedida pelo juiz foi a
seguinte:

O Juiz Municipal do termo do Príncipe, Manoel José


Fernandes, expede mandado de prisão contra os réus,
mas não os encontra no termo: Manoel Pereira havia
se retirado para o termo de Macau por causa da seca;
José Romualdo havia migrado para os brejos, na
Província da Paraíba e Silvino Dantas achava-se no
Termo dos Patos27.

Fosse por receio ou por dizer a verdade, Silvino, José


e Manuel, estes últimos, autuados como cúmplices, pouco
antes do juiz pronunciar a sentença, partiram em viagem da
Cidade do Príncipe para outras regiões, sob a alegação de
ser ano de seca. Nos interrogatórios realizados a estes
homens, os três negaram ter feito parte do crime que levou à
morte de Manuel, argumentando não terem nenhuma
queixa contra o escravo que lhes levassem a tal ação, nem

27 LABORDOC, Fundo da Comarca de Caicó, 3º Cartório


Judiciário, Processos-Crime do Século XIX, Caixa 02. Processo
crime. Réu: Silvino Dantas Correia de Góes. Vítima: o escravo
Manoel (1876).
58 |

conhecerem os atiradores que praticaram o crime. A polícia


ouviu também oito testemunhas. Algumas, por saberem das
desavenças de Silvino com o escravo Manuel, por este ter
ajudado na fuga de Honorata. Outras, porque tiveram
contato com os atiradores. Estes últimos, ao longo do pro-
cesso perderiam interesse para polícia, por falta de maiores
informações sobre o seu paradeiro. As investigações, por-
tanto, concentraram-se no fazendeiro Silvino Dantas Correia
de Góes, Jozé Romoaldo de Oliveira e o caixeiro Manuel
Pereira Lima, que, em conformidade com as decisões do
Júri, depois de serem detidos pelas autoridades policiais e
ficarem presos por um tempo, foram absolvidos da acusação
que lhes foi imputada por falta de provas.
A análise da ação de liberdade de Honorata, bem
como, do processo-crime do escravo Manuel e demais
documentos aqui apresentados, vistos dentro de seu
contexto social, apontam de maneira iluminada para as
tensões existentes no regime escravista adotado no sertão do
Rio Grande do Norte. Os conflitos, portanto, revelam a
intensidade do conjunto das relações sociais que se orga-
nizavam entre senhores e escravos em seu viver cotidiano
nesta região. Estabelecida uma relação de dependência
recíproca que ligavam tais indivíduos uns aos outros, fosse
pela submissão física e simbólica ou por necessidades
econômicas, tornava-se inevitável o diálogo, a convivência
diária e os choques socioculturais que pluralizavam a
sociedade em questão.
Para um escravo, é apenas aceitando sua domes-
ticação obediente pelos senhores que ele pode vir a cogitar
sua manumissão. A liberdade funcionava então, como uma
espécie de promoção, prometida a longo prazo aos cativos
obedientes e negada aos rebeldes. É claro que a metodologia
empregada pelos senhores para melhor exercer sua auto-
ridade coercitiva, tanto quanto a natureza das exigências do
trabalho destinado aos escravos, variava consideravelmente
59 |

de região para região. Ao consentir, em certa medida, uma


maior mobilidade física e financeira para seus escravos, a
exemplo da mãe de Honorata e do cativo Manuel, os donos
de escravos criavam duas situações que lhes eram
pertinentes: eles afirmavam seu poder legítimo sobre os
cativos ao delimitar e controlar os limites espaciais que estes
poderiam percorrer e, extensivamente a isso, redimensio-
navam os gastos dispensados com os escravos – que, por
sua vez, se viam na condição de ter que ser rentáveis e
funcionais, não só para manter seu próprio sustento mas,
principalmente, para atender às necessidades dos senhores.
Como podemos observar, as histórias tecidas não
nos permitem construir um modelo ideal de escravidão para
a Cidade do Príncipe. A pluralidade de cores, dos grupos
sociais e das relações administradas entre senhores e
escravos nesse dia-a-dia mancham as formas geométricas
que poderiam ditar seu dinamismo. Isto porque, se por um
lado, a maioria dos escravos se adaptava ao regime escra-
vista e apenas procuravam brechas dentro desse sistema que
lhe permitisse um cativeiro menos pesado, nem todos os
negros aceitavam ser escravos, assim como, nem todos os
cativos concebiam permanecer integralmente em cativeiro.
Ao recusarmos um modelo padrão, que só deixa
margem para afirmação absoluta de uma escravidão suave –
segundo as prerrogativas da historiografia clássica e
regional –, ampliamos nosso campo de visão para as dife-
rentes possibilidades de ser livre e de ser escravo no sertão
do Rio Grande do Norte, concordando com Sidney
Chalhoub, pois, “a violência da escravidão não transfor-
mava os negros em seres ‘incapazes de ação autônoma’,
nem em passivos receptores de valores senhoriais, e nem tão
pouco em rebeldes valorosos e indomáveis28”. Suas expe-

28 CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das


últimas décadas da escravidão na corte, p. 42.
60 |

riências de vida urdidas dentro e fora do cativeiro mostram


que, pelo menos alguns, e provavelmente um número
significativo destes, possuíam suficiente liberdade de movi-
mento e interação social, que lhes permitia, além de certa
autonomia, a construção de lugares móveis.
61 |

NAS MARGENS SECAS DO RIACHO:


IDENTIDADES, MEMÓRIAS E HISTÓRIA
EM UMA COMUNIDADE NEGRA NO
SERTÃO POTIGUAR29
Joelma Tito da Silva

O texto que ora apresento refere-se ao estudo reali-


zado, entre 2004 e 2008, junto à comunidade rural conhecida
como “Negros do Riacho” e localizada no município de
Currais Novos/RN30. Esta pesquisa teve início como projeto
de Iniciação Científica, financiado pela Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, e serviu de base para a
elaboração de minha dissertação de Mestrado, defendida na
Universidade Federal do Ceará.
O meu primeiro contato com o Riacho ocorreu em
2004, na feira-livre de Currais Novos, onde os moradores do
lugarejo comercializavam carvão e resolviam seus proble-
mas cotidianos na cidade. Esse encontro foi o passo inicial
para começar o trabalho na comunidade. A pesquisa estava
em fase de sondagem e de reconhecimento do campo para,
enfim, chegar ao Riacho. Algum tempo depois de mapear as
possibilidades de desenvolver um estudo com história oral
naquela comunidade e levando em consideração as infor-

29 Texto resultante da dissertação de mestrado As Eras e o Riacho:


memórias, identidade e território em uma comunidade rural negra no
Seridó Potiguar, defendida em 2009 no Programa de Pós-
Graduação em História da Universidade Federal do Ceará, sob
orientação do Prof. Dr. Eurípedes Antonio Funes.
30 Município situado na região do Seridó Potiguar, a 180 km de

Natal, capital do Estado do Rio Grande do Norte.


62 |

mações obtidas durante o primeiro contato na cidade, fui


pela primeira vez ao Riacho em 18 de janeiro de 2005. Uma
terça-feira em que tudo parecia vazio: grande parte da
população havia se deslocado à cidade de Currais Novos
para matricular suas crianças na escola e “batalhar” nas
ruas. Salvo a presença de alguns jovens e velhos, a terra
estava silenciosa. Com poucas pessoas em casa, a primeira
impressão causada pelo Riacho foi geográfica: percepção de
um espaço ressequido e acinzentado pela aridez, com
vegetação rasteira, onde as plantações rareiam e a criação de
animais é inexpressiva. As casas construídas em barro e
madeira se misturam às residências erguidas em tijolo, em
volta das quais muitas crianças brincavam e alguns velhos
tomavam sol.
Dois caminhos fazem o trajeto de um lado a outro
dos 3,6 hectares que compõem a terra do Riacho, de-
senhando o espaço serpenteado ao sul pelo corpo seco de
um pequeno braço de rio que nasce no Olho d’Aguinha,
corre 6 km e encontra o São Bento31. No extremo oposto, o
terreno acidentado é interrompido pelo “Açude da Emer-
gência”, construído por órgãos governamentais, onde não
há água.
Para chegar às terras do Riacho, partindo da cidade
de Currais Novos, segue-se por dois percursos: geralmente,
os “de fora” começam o trajeto pela BR 226, via de acesso a
Natal/RN. Após 6 km na rodovia, adentra-se uma estrada

31O rio São Bento, que foi por muito tempo conhecido como
Maxinaré, nomeia ocasionalmente o rio Currais Novos. Nasce na
Serra do Doutor, limitando-se com a cidade de Campo Redondo.
Esse rio possui um curso de 40 km e atravessa grande parte do
município de Currais Novos, atingindo a área urbana. Cf.
QUINTINO FILHO, Antonio. História do Município de Currais
Novos, p.111; SOUZA, Joabel Rodrigues de. Totoró: Berço de
Currais Novos, p.35-36.
63 |

de pedra e barro que corta a Serrota Preta até atingir a


comunidade. O outro caminho, trilhado com maior
frequência pelos moradores, é feito pela RN 041, estrada que
segue em direção à cidade de Lagoa Nova/RN. O percurso
de 13 km é interrompido por porteiras de propriedades
vizinhas que dificultam o acesso.

Figura 2
Município de Currais Novos

FONTE: Prefeitura Municipal de Currais Novos, 2001.

Sigo esse relato com uma sensibilidade de viajante,


como aquele que chega e estranha, se encanta ou não, tudo
64 |

lhe causa impressões, inclusive o caminho. O trajeto pela BR


226 é sinalizado e convida o viajante a continuar, indicando
com setas a direção correta a seguir para chegar aos “Negros
do Riacho”. Na entrada da comunidade, inúmeras crianças
espreitam e cercam os automóveis de estranhos para pedir
esmolas, depois se dispersam e voltam aos seus jogos e
correrias. Grande parte da população que vive no lugarejo é
composta por jovens. Algumas famílias são extensas e
congregam nove ou dez filhos. Em março de 2005, havia no
Riacho 42 unidades residenciais e 192 pessoas. Com base
nesse número, a divisão dos habitantes pelo coeficiente de
famílias pode sugerir que cada domicílio possuía, em média,
quatro ou cinco membros. Entretanto, essa regra de pro-
porção pouco revela sobre a composição familiar, uma vez
que na comunidade há residências repletas de pessoas e
outras formadas por um ou dois moradores.

Sobre o lugar social e a fala

A maior parte da renda familiar na comunidade tem


origem na produção e comercialização do carvão vegetal, no
trabalho ocasional como diaristas em terras vizinhas exer-
cido pelos homens, nas aposentadorias, nos programas de
assistência do governo (como o Bolsa Escola e o Fome Zero),
na mendicância praticada, especialmente, pelas mulheres e
na pequena agricultura. Durante o desenvolvimento da pes-
quisa, quase sempre os moradores do Riacho expressavam
as dificuldades que marcam o presente pela pobreza, como
forma de desabafo. Assim, as narrativas sobre o passado
apareceram aos poucos, ressoando de um presente denun-
ciado. As entrevistas e as conversas pareciam representar
um momento propício para expor aos “de fora” as difi-
culdades do presente vivido. Como argumenta Alessandro
Portelli, a entrevista é “uma troca entre dois sujeitos: literal-
65 |

mente uma visão mútua”, todas as partes envolvidas no


processo são ativas e interagem32.
A dimensão de denúncia pontuou o primeiro
diálogo que tivemos com os moradores do Riacho em 2004.
Nesse contato inicial, dona Ana Maria Lopes da Silva e dona
Iralice Lopes da Silva expuseram incisivamente os embates
vividos no cotidiano de "bataias" contra a terra seca e impro-
dutiva e a progressiva redução da venda da cerâmica utili-
tária e do carvão. Evidenciando a própria pobreza material,
como quem denuncia o abandono, ambas contaram suas
histórias de vida apresentando a dimensão do trabalho, das
festas, do matrimônio, da liderança, da família, das práticas
de cura e reza...
Em suma, a partir da fala sobre o presente, outro
tempo é ressaltado como elemento de comparação e utopia.
As primas Ana e Iralice nostalgicamente recriaram na
memória tempos idos, em que a venda da cerâmica garantia
a sobrevivência familiar. Nesse passado ideal havia condi-
ções materiais e simbólicas para a realização dos festejos em
honra a São Sebastião ou a São João. Tempos de fartura e
festa que conferem sentido ao presente pela diferença. Na
denúncia das dificuldades enfrentadas no “agora” está con-
tida a referência, por vezes sutil, ao passado, para expressar
a mudança entre o que se vive e o que se viveu. Dito de
outra forma, na exposição enfática das mazelas vividas no
presente desvela-se uma saudade do que passou.
Nesse primeiro encontro com os moradores do
Riacho, as primas Ana e Iralice falaram, timidamente, de um
“tempo pra trás” que definiram como as “eras”. Nas entre-
vistas subsequentes permanece tal referência a um lugar-
tempo dos antigos, construído como elemento anterior ao

32PORTELLI, Alessandro. Forma e significado na história oral: A


pesquisa como um experimento de igualdade. Projeto História,
p.9.
66 |

presente vivido, marcado por narrativas acerca da memória


de fundação e das trajetórias dos troncos velhos. As “eras”
começam com a identificação da chegada do primeiro negro
às terras do Riacho, um ancestral que funciona como mito
de origem.

Diferenças entre gerações: memórias de fundação e de


velhos

As memórias de fundação ou os mitos de origem


que, segundo Jacques Le Goff, “cristalizam a memória
coletiva dos povos sem escrita”33, são construídos a partir de
um tempo não-processual, no qual a distância entre o
presente e períodos quase imemoriais parece arrefecer ao
mesmo tempo em que os enredos rápidos anseiam por
conferir um sentido de longa duração para o fato narrado.
Dizendo de outra forma, sem se ater a contextos, a tradição
oral parece elaborar relatos anacrônicos, nos quais o prin-
cípio está imbricado com o presente da fala, se reportando a
séculos de história em narrativas curtas como que para
demarcar a sua distância temporal e perenizar a figura dos
ancestrais.
Entender os sentidos que as memórias assumem em
uma coletividade implica em perceber como seus enun-
ciadores medem e entendem o tempo. Isto é, identificar não
apenas uma fala do tempo (a qual período os narradores se
reportam e como o apresentam no momento das entre-
vistas), mas, principalmente, atentar para o tempo da fala34,
marcado por saudades, sonhos, certezas, dúvidas, rancores
e esperanças. Alistair Thonson ensinava que o “oralista”
deve estar atento às linguagens do corpo, aos refúgios e

33LE GOFF, Jacques. História e memória, p.428


34GAGNEBIN, Jeanne Marie. A. Dizer o Tempo. In:____. Sete
aulas sobre linguagem, memória e história, p.70
67 |

recalques dos indivíduos que confessam seus medos nos


gestos. Segundo o autor, as “expressões faciais, movimentos
corporais e os modos de falar revelam certos significados
emotivos das memórias que não poderiam transparecer nas
transcrições das entrevistas” 35.
A partir da linguagem do corpo e da fala, os mora-
dores do Riacho constroem "as eras", tempos demarcados
pela tradição oral em diálogo com as histórias de vida
daqueles que narram partes de experiências das quais não
participaram, mas ouviram dizer, ou – no caso dos velhos –
de situações vividas nas terras do sítio Riacho dos Angicos.
Assim, o “tempo pra trás” se refere às circunstâncias passa-
das, porém, é narrado a partir das questões e expectativas
vividas no contexto da fala. Como argumenta Beatriz Sarlo,
o tempo próprio da lembrança é diferente daquele que
envolveu os sujeitos no exato momento do acontecer e,
nesse sentido, “o passado se faz presente”36.
Esse processo não é verdadeiro apenas para os
relatos da experiência vivida por uma testemunha ocular.
Ele abrange também a tradição oral na medida em que a
manutenção de práticas e histórias antigas, quase imemo-
riais, depende da capacidade que possuem de se atuali-
zarem no presente. Cada geração, ao referenciar o passado,
renova suas histórias, isto é, reinterpreta heranças, resigni-
fica um legado. Por essa razão, no trabalho com a comu-
nidade, identificamos diferenças narrativas entre três gru-
pos de entrevistados: os mais velhos (entre 76 e 93 anos), os
novos-velhos (entre 49 e 68 anos) e os mais novos (entre 26 e
39 anos). A velocidade e a extensão do tempo são parti-

35 THONSON, Alistair. Memórias de Azanc – colocando em


prática a teoria da memória popular na Austrália. Rev. da
Associação Brasileira de História Oral, p.89.
36 SARLO, Beatriz Tempo passado – Cultura da memória e

guinada subjetiva, p.10.


68 |

culares a cada uma dessas gerações. Assim, o velho tem


saudade das experiências vividas na juventude e se lembra
do próprio passado como uma utopia distante, não se
reconhece no tempo dos novos e sabe que já não é o mesmo
de anos atrás. Estranhamento do indivíduo com seus outros
“eus” que pode ser resumido em um verso de Fernando
Pessoa: “o que eu era outrora já não se lembra de quem
sou”37.
As diferenças entre gerações não criam fronteiras
intransponíveis entre elas. Ao contrário, os relatos de me-
mória pressupõem a existência de relações que não se
encerram no corpo daquele que fala. O contato familiar, os
laços de pertencimento e de solidariedade tornam o indi-
víduo um nômade que transita por diversas influências
exteriores, ele não está solitário nas profundezas secretas de
si mesmo.
Certamente, o sujeito que lembra e conta experiên-
cias vividas ou ouvidas revisa e reinventa o passado,
atribuindo novos sentidos ao acontecimento, retirando e
agregando elementos ao relato. Isto é, as lembranças não se
referem somente ao que se foi nas brumas do tempo: elas
conferem sentido ao presente e dele se alimentam. Dos
antigos permanece a herança ancestral do sangue e da terra.
Evocá-los na memória organiza a vida dos vivos e reforça a
ideia de anterioridade e de legado. Mas não como uma
repetição monótona, visto que os velhos relatos perma-
necem na medida em que são atualizados. Nesse sentido,
Alessandro Portelli afirma que a memória não é “apenas um
depositário de fatos”, é também “um processo ativo de
criação de significação”38.

37PESSOA, Fernando. O Marinheiro. In: ____. O Eu profundo e os


outros Eus, p.117.
38 PORTELLI, Alessandro. O que faz a história oral diferente.

Projeto História, p.33.


69 |

De forma concreta, a inventividade, o presentismo e


a contingência da memória podem ser observados em vários
momentos da história do Riacho. O mais recente ocorreu a
partir de 2005 quando surgiram as demandas para o
reconhecimento da comunidade como remanescente de
quilombos e seus moradores precisaram construir novas
maneiras de olhar coisas antigas na medida em que havia
uma positivação do “ser negro” na construção da identi-
dade quilombola. Neste sentido, ao se considerar que a
memória se apóia na história torna possível estudá-la e se
ter, também, “um conhecimento das formas de elabora-
ção”,39 e reelaboração, do passado do grupo social e do
processo de construção do sentido de pertença e de territo-
rialidade.
Esse processo de redefinição identitária a partir da
categoria “remanescente de quilombo” se generalizou em
diversas comunidades negras do Brasil desde a década de
1990. Nos anos seguintes à promulgação do Artigo 68 do
Ato das Disposições Constitucionais Transitórias de 1988 –
que garante a titulação das terras aos “remanescentes de
quilombos”40 – a memória, a tradição e a historicidade das
comunidades negras entraram na pauta do judiciário. A
validade das falas sobre o passado passou a ser refutada ou
reforçada como valor de prova legal em razão da rede-
finição do direito sobre o espaço. Nesse aspecto, as políticas
reparatórias acabam por estimular memórias que historica-

39 MONTENEGRO, Antônio Torres. História e memória:


combates pela história. História Oral, p.30
40 O texto constitucional dispõe que: “Aos remanescentes das

comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é


reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-
lhes os títulos respectivos”. SENADO FEDERAL, Constituição da
República Federativa do Brasil (1988. In: TÁCITO, Caio.
Constituições brasileiras: 1988. CD-R, 2001. p.103-104).
70 |

mente estiveram encobertas pelo manto negro da escra-


vidão. Dizer-se negro e positivar tal identidade pela memó-
ria dos antigos e da tradição possibilita às comunidades
afrodescendentes legalizarem definitivamente a posse da
terra. Obviamente, há tensões sociais no âmbito da titulação
efetiva desses espaços de uso comum. As versões sobre os
“remanescentes de quilombos” estão em disputa e, no cerne
desses embates, está em jogo a validade das narrativas de
memória.
Para as comunidades, o novo contexto repercute nas
maneiras de lembrar, reordena as histórias individuais e
coletivas, reatualizando o passado. No entanto, o “presente
quilombola” não revela apenas a contingência da memória e
da tradição oral entre os grupos interessados em garantir a
posse efetiva de suas terras: ele expõe, igualmente, as
revisões de conceitos e reconstruções de sentidos no campo
do conhecimento histórico e antropológico sobre quilombos
no Brasil.

O problema da identidade

A questão da identidade dos grupos étnicos é central


nas pesquisas sobre “remanescentes de quilombos” e está
presente no vocabulário jurídico, como fica evidente no De-
creto 4.887, de 2003, que dispõe sobre a autoatribuição.
Considera-se que os espaços formados por famílias descen-
dentes de escravos se constituíram historicamente como
territórios de negros que se autopercebem e são percebidos
como tal. Isto é, o elemento étnico atravessa a história de
suas vidas e os identifica por contrastes em uma relação de
alteridade com os “de fora”.
A recente definição das comunidades negras como
quilombolas reatualiza esse tipo de construção identitária e
reforça a noção de grupo étnico tal qual formulado em fins da
década de 1960 por Frederick Barth. Esse estudioso, defi-
71 |

nido por Tomke Lask como uma “efígie” da Antropologia


comparada41, renovou os estudos sobre os grupos étnicos e a
identidade ao propor que a manutenção das fronteiras entre
agrupamentos humanos distintos não corresponde ao
isolamento geográfico, cultural e social dos povos uma vez
que as diferenças permanecem e se reforçam no contato, na
relação, no trânsito de pessoas que atravessam limites
étnicos.
No Brasil, a problemática lançada por Barth foi (e
continua sendo) amplamente aplicada aos estudos das rela-
ções interétnicas desde os anos de 1970. Durante o decênio
de 1990 esse tipo de análise fundamentou teoricamente a
formulação de um conceito antropológico de “quilombo”.
Nesse processo, o termo “remanescente de quilom-
bo” reinventa o grupo étnico ao agregar uma nova identifi-
cação, atualizando nas comunidades as antigas formas de se
ver e se reconhecer. Parte-se do pressuposto de que nesses
espaços negros os sujeitos compartilham costumes e valores,
se perpetuam biologicamente e interagem com outros
grupos. Assim, os sujeitos identificam-se como pertencentes
a uma coletividade, ao mesmo tempo em que são identifi-
cados pelos outros em relação de alteridade. Portanto, os
estudos teoricamente orientados pela categoria de grupo
étnico partem da ideia de que não há comunidades comple-
tamente isoladas como ilhas perdidas no tempo e no espa-
ço42. Os lugares fechados dentro de si são projeções quimé-
ricas de antropólogos românticos que esperavam encontrar
sociedades primitivas puras, onde a vida se organizaria
apenas a partir das estruturas internas. A identidade se forja

41 LASK, Tomke. Apresentação. In: BARTH, Frederick. O Guru, o


iniciador e outras investigações, p.18.
42 BARTH, Frederick. Os Grupos Étnicos e suas Fronteiras. In:

LASK, Tonke (Org). O Guru, o Iniciador e Outras Variações


Antropológicas.
72 |

na interação; no contato são mapeadas e reforçadas as


diferenças. Por essa razão, as assertivas e símbolos cons-
truídos e subjetivados pelas comunidades negras existem
em função das relações intergrupais.
No caso do Riacho, a interação contínua com habi-
tantes da região entre Currais Novos e a Serra de Santana
ocorre em virtude da venda da "loiça", do pedir esmolas, no
ato de batizar seus filhos, enterrar seus mortos e trabalhar
em propriedades da região como diaristas.
A partir dessas relações são elaborados e reforçados
estereótipos que instituem o sentido social do outro asso-
ciado ao dado étnico e aos lugares-comuns que singula-
rizam determinadas características como delimitadoras de
um "ser" negro do Riacho. Isto é, a diferença está contida na
identificação dos moradores com a prática ceramista, o
pedir, o beber, a ociosidade, o incesto e a desorganização
familiar, enfim, em todos os emblemas que constroem
ontologicamente a noção de “negro do Riacho”. É certo que
esses estereótipos atingiram uma massa de negros livres
desde os tempos da escravidão. Vitor Leonardi identifica,
nos viajantes e historiadores do século XIX, a associação
constante dos forros ou de seus descendentes à malan-
dragem, à cachaça e ao ato de pedir esmolas. Segundo ele,
“muitos desses preconceitos e lugares-comuns passaram
para o século XX” 43.
Em se tratando dos moradores do Riacho, esses as-
pectos criam uma identificação geral de grupo pela negação.
Dentro da comunidade, o sentimento de pertencer a uma
família e de compartilhar a terra como legado comum dos
antigos reforça a idéia de estar associado a uma coletivi-
dade. No entanto, não se verifica apenas relações dicotô-
micas entre os “de fora” e os “de dentro”, isto é, não se trata

43 LEONARDI, Vitor. Entre árvores e esquecimentos: História


social nos sertões do Brasil, p.139.
73 |

de construir heróis e vilões com suas psicologias imóveis.


Os indivíduos são complexos e se relacionam com diversas
coletividades44, como subdivisões familiares, diferenças
entre gerações e sexo, por exemplo.
No Riacho, a pluralidade de versões presente na
memória de fundação está expressa na maneira como as
diferentes gerações da família se identificam e lidam com o
pretérito, tecendo suas narrativas sobre as “eras”. Portanto,
as múltiplas temporalidades destas memórias nos permitem
pensar algumas questões pontuais sobre o sentido das
memórias de fundação, sobre as teias que urdem relações de
parentesco criando a noção de identidade familiar e expon-
do as fissuras e tensões no interior do grupo45, sobre as artes
de fazer a louça em barro que constitui um importante
elemento de identificação e, finalmente, acerca da questão
quilombola que transformou (efemeramente) o Riacho em
alvo das políticas afirmativas desenvolvidas pelos Governos
Federal, Estadual e Municipal.

Fissuras na memória: o esquecimento

Por fim, gostaríamos de enfatizar as fissuras pre-


sentes na memória sobre a fundação e os troncos velhos,
uma vez que os jovens não conhecem histórias antigas,
ainda que reafirmem a posse da terra como herança ime-
diata deixada por seus pais e avós. No Riacho, os tempos
passam como as águas que quase nunca vieram umedecer
seu leito e que, nos anos chuvosos, correm em busca de

44 AUGÊ, Marc. O Sentido dos Outros: A Atualidade da


Antropologia, p.43
45 Como as tensões verificadas por Luiz Carvalho Assunção sobre

as divergências de herança existentes entre “negros” e “caboclos”.


Cf. ASSUNÇÃO, Luiz Carvalho de. Os Negros do Riacho:
Estratégias de Sobrevivência e Identidade Social.
74 |

outras fendas humanamente abertas no chão. Elas um dia


existiram, mas ninguém sabe muito bem quando ou porque
se foram. Esvaem-se para açudes e barragens da vizinhança
como se esse fosse um movimento natural, irreversível, uma
alteração na paisagem que reflete jogos de poder e de favo-
res. As histórias de vida em cada uma das gerações seguem
como essas águas, que talvez, jamais tornem. Os corpos
fenecem como o riacho seco, parte da experiência se dissipa,
outros nascem e as histórias antigas se recolhem no silêncio
de uma existência que não pode mais ser transmitida, de um
conselho pouco aceito, aviltado na ação impune dos
“novos”. Vez em quando, Trajano Passarinho, Miguel Preto
ou a velha Antônia ressurgem das cinzas do esquecimento.
Figuras pálidas e sem cor que vivem na nostalgia dos mais
antigos e morrem no presente imediato do “povo novo”.
Essa sensação de ausência está presente nas narrativas da
quinta geração da família quando instigada a relatar o
tempo de seus ancestrais.
Em um trabalho que ficou célebre, Walter Benjamin
lamentava os últimos instantes do narrador que morria com
suas histórias carregadas de experiência e de conselho.
Emudecidos, os homens deixavam gradualmente de narrar
uma moral da história, perdendo a faculdade de intercam-
biar experiências, “fonte a que recorreram todos os narra-
dores”46. Benjamin lamentava a morte daqueles que conhe-
ciam a arte de contar histórias como relatos de viagens sobre
terras distantes ou narrativas antigas fixadas pela perma-
nência e pela tradição de um lugar. “As ações da experiência
estão em baixa”47 e a arte de contar histórias despenca junto
com ela.

46 BENJAMIN, Walter. O Narrador – Considerações sobre a obra


de Nikolai Leskov (Magia Técnica, Arte e Política). In: _______.
Obras Escolhidas, p.198.
47 Idem.
75 |

No Riacho, a arte de narrar se esvai junto com outros


saberes antigos, uma morte física (os relatos e o saber-fazer
tradicionais são enterrados junto com os corpos dos mais
velhos) e social (não há mais uma reatualização que pere-
nize a tradição). O narrador de Benjamin morria diante da
informação imediata da imprensa e da frialdade do romance
solitário, que encerra nas páginas do livro o fim de uma
história. Entre os moradores do Riacho a arte de narrar e de
ensinar ofícios antigos perde espaço para a sociabilidade
construída diante de aparelhos de TVs, rádios e DVDs.
Até as últimas décadas do século XX, práticas como a
arte ceramista, a cura, a reza e o partejar foram perdendo
espaço ao mesmo tempo em que deixaram de ser realizadas
as festas em honra a santos como São Sebastião e São João,
com novena, leilão e baile. Esse movimento coincide com o
aumento da mendicância, o crescimento da população resi-
dente no Riacho, a desvalorização da cerâmica e a crescente
intervenção de grupos religiosos e políticos na comunidade.
76 |
77 |

AMOR, DESEJO E PRAZER:


HETEROTOPIAS URBANAS
NA CIDADE DE CAICÓ/RN1
Marcos Antônio Alves de Araújo

Esse texto aglutina investigações desenvolvidas du-


rante a pós-graduação em Geografia, na Universidade Fede-
ral do Rio Grande do Norte, que culminaram com a defesa
da dissertação Sobre pedras, entre rios: modernização do espaço
urbano de Caicó/RN (1950/1960) em 2008. Na ocasião, inves-
tigamos as transformações urbanas ocorridas na cidade de
Caicó, incrustada nas terras semiáridas do sertão do Seridó2
potiguar, mais precisamente na porção centro meridional do
Estado do Rio Grande do Norte. Nesta cidade, tivemos o
objetivo de perscrutar, através de pesquisas em fragmentos

1 Esse texto é proveniente da dissertação Sobre pedras, entre rios:


modernização do espaço urbano de Caicó/RN (1950/1960), defendida
no Programa de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte em 2008, sob
orientação do Prof. Dr. Ademir Araújo da Costa.
2 Região, segundo Morais (2005), historicamente construída,

encravada na porção centro meridional do estado do Rio Grande


do Norte, composta por 23 municípios: Acari, Caicó, Carnaúba
dos Dantas, Cerro Corá, Cruzeta, Currais Novos, Equador,
Florânia, Ipueira, Jardim de Piranhas, Jardim do Seridó, Jucurutu,
Lagoa Nova, Ouro Branco, Parelhas, Santana do Seridó, São
Fernando, São João do Sabugi, São José do Seridó, São Vicente,
Serra Negra do Norte, Tenente Laurentino Cruz e Timbaúba dos
Batistas.
78 |

de memórias encontrados em fontes históricas3 diversas, as


transformações desencadeadas no espaço urbano caicoense
ao longo dos anos 50 e 60 do século XX.
Essas transformações, objetivadas no tecido urbano
de Caicó em um momento de ápice do desenvolvimento da
atividade algodoeira, refletiam e condicionavam os projetos
de modernização urbana pensados por representantes das
elites locais4 para a construção de uma cidade ideal nos
rincões seridoenses, tornando-a moderna, civilizada e capi-
tal do Seridó. Para tal construção, novos equipamentos e
serviços urbanos passavam do plano imaginário para o
espaço real, sendo instalados nos múltiplos territórios da
cidade e transformando a sua paisagem urbana.

3 Entre as fontes históricas consultadas ao longo da pesquisa,


destaco o acervo do Jornal A Fôlha, atualmente sob a guarda do
LABORDOC/CERES/UFRN, como a principal deste trabalho.
Esse jornal começou a circular na cidade de Caicó aos seis de
março de 1954. Esta data marca o início de circulação do primeiro
periódico d’A Fôlha, em que a população passava a ter um espaço
para expressar seus anseios e desejos, obviamente que crivados
pelas lentes de uma diretoria eivada por dogmas católicos. Esse
jornal, restrito aos sujeitos letrados da cidade, ainda era o único
veículo de comunicação onde a cidade era apresentada e repre-
sentada com papel e tinta e em preto e branco pelos redatores e no
qual a população, através de seus porta-vozes, poderia realizar
determinados tipos de reivindicações. O jornal, que circulou
semanalmente em Caicó no interstício temporal equivalente aos
anos de 1954 a 1968, teve como fundador oficial o Monsenhor
Walfredo Gurgel, conhecido como um legítimo representante de
uma elite político-religiosa da cidade, preocupado, mormente,
com a conservação da higiene moral dos sujeitos praticantes do
espaço urbano.
4 Entre esses representantes das elites locais, destacavam-se as

figuras ideológicas e econômicas de políticos, eclesiásticos, juízes,


médicos e demais intelectuais eruditos da época.
79 |

Desta maneira, equipamentos e serviços urbanos,


tais como: cinemas; emissora de rádio; energia elétrica;
instituições de educação; redes telefônicas; casas de saúde;
usinas de beneficiamento de algodão; agências bancárias;
políticas urbanísticas e novas formas de sociabilidades urba-
nas se constituíam, por meio da materialização de certos
ideais de progresso e através de um espírito de moderni-
dade urbana, em novos espaços e práticas criadas, tecidas e
vividas, sobre pedras e entre rios, nos meandros de um
cotidiano urbano marcado por rupturas e permanências de
alguns costumes e hábitos antigos e de algumas paisagens e
ambiências rugosas.
Nesse sentido, partindo do pressuposto de que a
cidade acautela cantos e antros se relacionando mutuamente
em seus meandros, tal texto objetiva pensar sobre as hete-
rotopias urbanas tecidas em Caicó durante as décadas de
1950 e de 1960, cartografando aqueles outros espaços, vistos
aqui como instâncias sociais indissociáveis das práticas cul-
turais, que desestabilizavam a ordem de uma cidade que
almejava ser moderna, devendo-as ser extirpadas e elimi-
nadas do seio urbano.
Diante disto, considerando a pertinência de desen-
volvimento de um trabalho que buscou um maior aprofun-
damento no conhecimento sobre a geografia histórica da
cidade de Caicó, permitindo refletir sobre as transformações
urbanas objetivadas no espaço citadino, e mediante a pre-
missa de que o conhecimento científico se constrói a partir
de inquietações, essa investigação foi norteada no sentido de
tentar responder a seguinte problemática: que espaços (e
práticas) heterotópicos, vinculados diretamente ao projeto
de modernização urbana, eram indesejados e repudiados
pelas elites locais na construção de uma cidade ideal para o
Seridó potiguar?
Essa questão, longe de sugerir respostas fechadas e
definitivas, abre caminhos para investigações posteriores,
80 |

haja vista a existência de lacunas sobre essa temática no


interregno cronológico selecionado para o desenvolvimento
desse trabalho. Contudo, dedicamos as próximas linhas
para a apresentação daqueles outros espaços caicoenses,
discorrendo reflexões acerca das heterotopias urbanas.

As heterotopias

Por heterotopias, entendemo-las, inspirado em ar-


queologias de saber produzidas pelo filósofo francês Michel
Foucault, como sendo aqueles outros topos, aqueles outros
lugares ou aqueles outros espaços característicos do mundo
moderno, que se oporiam a todos os outros topos, a todos os
outros lugares e a todos os outros espaços que se praticam
sob as ordens da regra, da norma e da disciplina.
Acerca dessas heterotopias, sistematizadas num tex-
to escrito por esse autor para um grupo de arquitetos, estas
são descritas através de alguns princípios que teriam por
objetivo, em uma determinada sociedade, o “[...] estudo, a
análise, a descrição, a ‘leitura’, como se gosta de dizer hoje
em dia, desses espaços diferentes, desses outros lugares,
uma espécie de contestação simultaneamente mítica e real
do espaço em que vivemos [...]”5.
Para Foucault, “[...] não há uma única cultura no
mundo que não se constitua de heterotopias. É uma cons-
tante de qualquer grupo humano. Mas as heterotopias
assumem, evidentemente, formas que são muito variadas, e
talvez não se encontrasse uma forma de heterotopia que
fosse absolutamente universal”6.
Pensar sobre esses outros topos ou esses outros
lugares é refletir sobre outros espaços emergidos numa era

5 FOUCAULT, Michel. Outros espaços. In: ______. Ditos e Escritos


- Estética: literatura e pintura, música e cinema. p. 416.
6 Idem.
81 |

denominada por Foucault como a “Era do Espaço”, justa-


mente após estes terem sido tratados e abordados durante
todo o século XIX, pela filosofia, por alguns críticos sociais e
pelo historicismo, como algo morto, passivo, fixo e não
dialético, em detrimento do tempo, interpretado como ri-
queza, fecundidade e dialética.
Contra essa desvalorização do espaço, Foucault
insistia numa reequilibração de uma priorização do tempo
em relação ao espaço, afirmando que este era fundamental
em qualquer forma de vida comunitária e em qualquer
exercício de poder. Restaria então, conforme esse autor,
escrever toda uma história dos espaços – que se constituiria
numa história dos poderes – desde as grandes estratégias
geopolíticas até as pequenas táticas do habitat cotidiano7.
Assim, diante de um caráter meio que “mimético”
das heterotopias, tomamos a liberdade de adentrar as ruas,
vielas e becos da malha urbana caicoense através daqueles
espaços do outro, daqueles espaços apropriados por territo-
rialidades marginais, enfim, daqueles espaços constituídos
através da relação ordem e desvio, em que os seus
praticantes resistiam aos poderes disciplinares emanados
pela moral urbana vigente na época. Portanto, pensar sobre
as heterotopias tecidas na cidade de Caicó é refletir sobre a
própria produção de seu espaço urbano, estabelecida a
partir de relações e de jogos de poder tramadas cotidiana-
mente.
Na cidade de Caicó, as heterotopias eram tecidas por
indivíduos tipificados pela moral urbana de contraventores
da ordem vigente, se constituindo em práticas que pode-
riam ameaçar a conduta familiar caicoense. Essas práticas
heterotópicas eram urdidas por indivíduos que ao cair da
noite percorriam as ruas da cidade de Caicó, ou seja,

7 FOUCAULT, Michel. Outros espaços. In: ______. Ditos e Escritos


- Estética: literatura e pintura, música e cinema.
82 |

percorriam os espaços outros, inebriando seus corpos à


procura de satisfação de seus desejos humanos, demasia-
damente humanos8. As ruas da cidade se dimensionavam
em lugares reveladores, praticados pela experiência espacial
e pensados a partir de sua rotina, dos confrontos, “[...]
conflitos e dissonâncias. [Era] no panorama das ruas [que]
[...] [lia-se] a vida cotidiana – seu ritmo, suas contradições,
sentimentos de estranhamento como formas de alienação
[...], modo como a solidão desponta[va], a arte da sobre-
vivência”9.
Eram ainda em determinadas ruas da cidade, com
suas paisagens temidas, que se localizavam os outros
espaços, constituídos como lugares heterotópicos do encon-
tro, do desencontro e do reencontro. Lugares que revelavam
a imagem de uma cidade indesejada pela moral urbana,
aglutinando os espaços dos bares, dos becos, das travessas,
enfim, os espaços outros perigosos da noite, que infestavam
a cidade e que junto “[...] com as jogatinas e os bordéis,
configuravam a zona perigosa aos bons costumes, onde
evitavam passar as pessoas de respeito, principalmente as
do sexo feminino”10.
A cidade durante a noite era mais ameaçadora, mais
temida pelos sujeitos de bons costumes, “[...] pois acober-
tava com mais facilidade vícios e crimes, [...] [povoada] de
tipos [suspeitos] que não eram facilmente vistos à luz do dia
[e que] procuravam as sombras para atuar qual morcegos e
aves noturnas [nos espaços malditos da urbe]”11.

8 NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano.


9 CARLOS, Ana Fani Alessandri. Espaço-tempo na metrópole: a
fragmentação da vida cotidiana. p. 36.
10 PESAVENTO, Sandra Jatahy. A cidade maldita. In: SOUZA,

Célia Ferraz de; PESAVENTO, Sandra Jatahy. Imagens urbanas:


os diversos olhares na formação do imaginário urbano. p. 27.
11 Idem.
83 |

A cidade da noite era a cidade do escuro, concebida,


desde os tempos imemoriais, como “[...] fonte de mistério,
medo, suspense e sedução. Metáfora do mal, das trevas e da
obscuridade, o escuro opõe-se a clareza, às luzes, à razão”12.
A cidade durante a noite era sinônimo de medo e de curiosi-
dade, metáfora de uma emoção básica “[...] frente a certas
circunstâncias que exponham o indivíduo ao risco, ao Peri-
go, ameaçando a continuidade de sua vida”13.
Assim, a cidade noturna era cenário de atuação de
indivíduos infames, como: prostitutas, alcoólatras, rapazolas
e outros sujeitos inconsequentes em suas ações. Essa cidade,
constituída de espaços amorais, precisava entrar na ordem
do discurso14, tendo que ser disciplinada e controlada por
um modelo panóptico15 de vigilância, já que ela represen-
tava um cenário dissipador de práticas mórbidas que
perturbavam a moral da urbe ordenada, ou seja, da igreja,
da casa, do dia e da família.
Como exemplo dos espaços heterotópicos, tidos
como transgressores da ordem social, passaremos a mencio-
nar, a partir dos rastros de memória do cronista Lindomar
Vale Lucena, o caso da Rua 13 de Maio16, situada nas
proximidades da Catedral de Sant’Ana da cidade de Caicó.

12 VALE, Alexandre Fleming Câmara. No escurinho do cinema:


cenas de um público implícito. p. 38.
13 SOUSA FILHO, Alípio de. Medos, mitos e castigos: notas sobre

a pena de morte. p. 11.


14 FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso.
15 FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão.
16 Ao longo da história da cidade, a Rua 13 de maio também

recebeu a denominação de “Rua da Cadeia Velha”, por abrigar o


prédio da antiga Casa de Câmara e Cadeia, ainda hoje presente na
cidade, no qual inúmeros presos cumpriram penas criminais.
Além disso, atualmente a rua é conhecida como rua do Museu,
sede do Museu do Seridó, ou ainda rua Amaro Cavalcanti.
84 |

Segundo esse cronista, por volta da metade do século


passado, aos embalos das noites caicoenses,

[...] logo após o desligar da luz (21 horas), a Rua 13 de


Maio se torna mais procurada, mais movimentada.
[...] Lá a música aparece, as saudades e recordações
frutificam. Os olhares se encontram. As conquistas
recomeçam. Bebe-se e dança-se. Vende-se o amor. Ali
sabe-se que não é proibido sofrer, nem ter ilusões.
Aproveitam-se todos os momentos. As vendedoras
de ilusões fazem o salão. Perfumes inebriam o
ambiente. É festa! É noite de amigos que se
reencontram. Vive-se ‘hoje’ o noturno intensamente
com medo do ‘amanhã’ Matutino. Caicó é ainda
cidade pequena! Teme-se o comentário por ter
frequentado um bordel [...] Um cateretê. Era assim a
13 de Maio: hospitaleira, vendedora de ilusões,
engalanada à noite, ponto de conversa pela manhã,
na tamarineira; à tarde, voltada para o crepúsculo das
mariposas17.

Nessa rua, o profano ameaçava o sagrado, se consti-


tuindo como um espaço preferencial de alguns sujeitos da
cidade, que durante as noites caicoenses procuravam essa
cartografia urbana, a fim de tramar suas sociabilidades, suas
práticas ordinárias, enfim, suas múltiplas ações desviacio-
nistas. A Rua 13 de Maio se configurava, naquilo que era
interditado pela moral urbana caicoense, como um autêntico
espaço do proibido, do promíscuo, do corruptor e do
moralmente patológico.
Nos fragmentos de memória de Maria das Dores,
colhidos por Eugênia Dantas (1996), quando ela era aluna
do Ginásio Santa Terezinha (GST), na época um internato

LUCENA, Lindomar Vale. 13 de Maio. In: LUCENA, Lindomar


17

Vale (Coord.). Rastos Caicoenses. p. 34-35.


85 |

feminino, às vezes a religiosa – prefeita do educandário –


tinha o hábito de fazer algumas visitas a sua irmã, que
residia do outro lado da cidade, ulterior a ponte sobre o rio
Seridó. Nestas ocasionais visitas, “[...] nós internas, costu-
mávamos acompanhá-la neste passeio dominical. Saíamos
do colégio, em fila, com a recomendação de não olharmos
para os lados, quando estivéssemos passando naquela rua [a
rua do meretrício, a Rua 13 de Maio]”18
Mesmo durante o dia, mesmo sem as práticas notur-
nas e mesmo sem os personagens licenciosos da noite, a Rua
13 de Maio era temida pelos sujeitos da moral urbana, vista
como um espaço doentio, clandestino, despudorado e peca-
minoso. Neste sentido, habitar e praticar a cidade, com seus
múltiplos espaços, era “[...] estar sempre caminhando sobre
uma linha muito tênue que separava o que era permitido do
proibido, esse ilusório antagonismo que se reciclava e se
alimentava na mestiçagem das práticas cotidianas, sejam
elas reais ou imaginárias”19. Isto se tornava evidente em sua
própria “[...] constituição espacial que se encarregava de
fazer as separações e construir os caminhos que rejuntavam
o que estava aparentemente separado, abarcando ‘todos os
aspectos da alma humana – portanto suas áreas suspeitas
[...]’”20.
Contudo, salientamos que, embora com suas distin-
ções e particularidades, os espaços do permitido e do proi-
bido encontrados ao longo da cidade, chegavam muitas
vezes a se confundir, pois não era porque a prudência, a re-
sistência, a persistência ou a defesa dos oprimidos recomen-
dassem “[...] a camuflagem, a clandestinidade, o silencio, os
movimentos furtivos, que eles não se vejam compelidos a

18 DANTAS, Eugênia Maria. Retalhos da cidade: revisitando


Caicó. p. 70.
19 Idem, p. 71.
20 Idem.
86 |

cruzar e agitar-se no espaço bem-composto dos que [...]


[queriam ou precisavam] ser vistos”.21
Eram dos espaços heterotópicos da Rua 13 de Maio,
mais precisamente do meretrício existente em seus mean-
dros, que emergiam respirações transgressivas, corpos e
subjetividades que burlavam as normas de segurança e as
regras de civilidade, abalando a ordem estabelecida por
uma sociedade eivada de discursos e práticas patriarcalistas.
Nesses espaços, os sujeitos libertavam seus anseios e desejos
reprimidos pelo exercício rotineiro de uma moral castradora
e punitiva, e de um ideal de comportamento impossível de
se realizar nos espaços utópicos da cidade.
Sujeitos que se apropriavam de territórios do desejo,
do prazer, dos olhares que se entrecruzavam, dos corpos
que se abraçavam, embalados pelos ritmos e acordes frené-
ticos, enfim, das múltiplas condutas e relações de poder que
eram tecidas nestes espaços, identificados como autênticos
espaços do indesejável, do pernicioso, do desagradável.
Além da Rua 13 de Maio, conhecida por aglutinar
em suas entranhas estes tipos de comportamentos e práticas,
o espaço da rua Cel. Francisco Pinto, localizada na zona
norte da cidade de Caicó, também se constituía em um lugar
de sociabilidades transgressoras.
Isto pode ser percebido num abaixo assinado, publi-
cado no semanário do Jornal A Fôlha por alguns moradores
desse espaço, no qual estes, dizendo-se não suportar mais as
correrias noturnas e as imoralidades proferidas por mulhe-
res que habitavam a Rua 13 de Maio e a rua Cel. Francisco
Pinto, fizeram o seguinte apelo ao então Juiz de Direito da
Comarca de Caicó:

21LAPA, José Roberto do Amaral. A cidade: os cantos e os antros.


p. 124.
87 |

Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da Comarca de Caicó, na


forma da Lei etc.... Nós, abaixo assinados, brasileiros,
moradores nesta cidade há muito tempo, sendo
vítimas de palavras imorais proferidas por meretrizes
que residem na Rua 13 de maio e na Rua Coronel
Francisco Pinto e que fazem correrias, quando a
patrulha se retira, perturbando o sossêgo público,
vimos pedir a V. Excia., a bem do nosso direito e a
bem da moralidade da família caicoense, a retirada
dessas mulheres22.

Era necessário, para os guardiões da ordem e da


moral urbana vigentes na época, que fosse encontrado outro
espaço, bem distante dos olhos da família patriarcal caico-
ense, para que as singularidades selvagens das mariposas
noturnas (prostitutas) pudessem eclodir.
A matéria publicada, em forma de reclamação, no
periódico supracitado, ainda fazia apelos às autoridades
competentes, aos homens de bem de Caicó, que amavam
sua família e honravam seu lar, que cooperassem com esta
causa, “[...] arranjando um local distante do ambiente fami-
liar, para retirar êsses cabarés malditos que envergonhavam
nossa cidade”23. De acordo com essa reclamação, somente
na entrada da ponte Soldado Francisco Dias – sobre o rio
Seridó –, existiam cerca de cinco cabarés construídos num
terreno do Patrimônio Público Municipal.
No entanto, os frequentadores destes espaços hetero-
tópicos, tipificados na matéria como tarados e assediadores,
contrariavam essas reclamações, dizendo que os cabarés não
deviam se acabar, porque desde sempre aquelas ruas eram
as ruas dos cabarés.

22 CABRAL, Alfredo Alves. A imprensa é livre. Jornal A Fôlha.


Caicó. 24 de agosto de 1957. Ano IV. Número 182.
23 Idem.
88 |

Por outro lado, o Sr. Alfredo Alves Cabral, respon-


sável pelo abaixo assinado e autor da matéria de recla-
mação, afirmava, opondo-se à opinião dos frequentadores
dos cabarés, o seguinte sobre esses espaços desviacionistas:

[...] eu alcancei morando ali famílias que se formaram


sem a promiscuidade e o desrespeito de hoje. E por
que não se acabam? É uma vergonha! Se as famílias
viajam do centro da cidade, pela ponte, encontram
‘tarados’ agarrados com mulheres. Se chegam a
Caicó, deparam se com as mesmas cenas depri-
mentes. Ao lado direito e ao lado esquerdo da ponte,
cabarés construídos no Patrimônio que não precisa
de foro tão imundo. Ùltimamente um cidadão,
explorador do meretricio, sem considerar nossas
famílias, arranjou uma casa de herdeiros, sem ser
inventariada, para construir um ‘gango’, onde já fez e
alugou dez quartos a meretrizes, sem instalações
sanitárias, atirando-se à rua as imundicies. Onde
estão os Srs. fiscais? Espero que os homens de bem de
Caicó cooperem conosco, conseguindo retirar êsses
focos imundos da entrada da cidade, de um ambiente
próximo à Catedral e onde moram muitas famílias
que se prezam. Lembrem se de que Caicó é a 3ª
cidade do Rio Grande do Norte e tem o nome de
‘Capital do Seridó’. A mulher tem o direito de casar e
construir seu lar; e não viver da prostituição mais
desavergonhada, espalhando a sífilis e a tuber-
culose24.

Mesmo com as tentativas de interdição, as práticas


desviacionistas continuavam a ser urdidas nos espaços
heterotópicos da Rua 13 de Maio e da rua Cel. Francisco
Pinto. Essas tentativas de interdição eram materializadas,
principalmente, nas páginas do Jornal A Fôlha. Numa

24 Idem.
89 |

reportagem publicada nesse jornal, o Sr. Alfredo Alves


Cabral voltava as colunas deste semanário para denunciar
os atos de orgia e prostituição comumente praticados nas
ruas acima citadas e na rua Manoel Joaquim. Nessa rua,
conforme seus relatos, um explorador de um meretrício
instalou um cabaré defronte ao seu domicílio, não mais
distante do que quinze metros, funcionando, ininterrupta-
mente, durante o dia e no desenrolar da noite25.
De acordo com essa reportagem, a cidade de Caicó
precisaria seguir os exemplos das cidades vizinhas, tais
como: Parelhas, São João do Sabugi e Serra Negra, em que
os cabarés estavam situados bem distantes dos ambientes
familiares. Em Caicó, ao contrário destas outras cidades, os
cabarés estavam incrustados no seio da família, aos olhos e
ouvidos da boa moral e dos bons costumes.
Ademais, no que concerne ao cabaré localizado na
rua Manoel Joaquim, este vinha causando perturbações,
incômodos e desassossegos para alguns habitantes que
residiam em suas contiguidades, desrespeitando os mo-
mentos mais lúgubres vivenciados por certos arranjos fami-
liares. Ainda atinente aos espaços e práticas desse cabaré, o
Sr. Alfredo Alves Cabral, conforme relatos publicados nas
colunas d’A Fôlha, tecia os seguintes comentários:

Aqui na nossa rua ha mais de trinta crianças que


vêem todos os dias espetáculos tristes [...]. As famílias
que vem dos sítios assistir às cerimônias religiosas na
Igreja de Sant’Ana sempre deparam com as cenas
deprimente nas ruas [...], pois é estrada pública.
Nunca mais tivemos a felicidade de dormir sossê-
gados. Aconselho áquele explorador do meretrício
que ‘Live and let live’: Viva e deixe os outros vive-
rem’; Lembre-se que a vida é riso e dor, quem abre a

CABRAL, Alfredo Alves. Voltando ao combate. Jornal A Fôlha.


25

Caicó. 25 de junho de 1960. Ano VII. Número 257.


90 |

cena sorrindo encerra o acto a chorar. Melhor seria


que êsse explorador do meretrício fôsse produzir na
lavoura que é a primeira fonte de riqueza do mundo.
Que produção deixa um cabaré na cidade? Deixa a
sífilis; a tuberculose; o cancer e o crime de homicídio.
Eu peço a Deus que abençoe as famílias de Caicó e
nos livre das garras deste explorador que vive
exclusivamente instalando cabarés para envergonhar
nossa cidade [...]. Neste momento que pego no meu
humilde lapis para ferir alguém, meu coração está
cheio de dois sentimentos: um de alegria e outro de
tristeza. O de alegria porque ainda espero que as
autoridades venham tomar conhecimento e provi-
dencias, e o de tristeza porque os cabarés em Caicó
não estão respeitando nem os mortos. Nós moradores
da Rua Manoel Joaquim não podemos abandonar as
nossas casas por causa de um cabaré que, quando ele
chegou, já nos achou. Portanto, a bem da coletividade
Caicoense pedimos que retirem êsses focos imundos
das nossas ruas e nos deixem tranquilos 26.

Os cabarés da rua Manoel Joaquim, da Rua 13 de


Maio e da rua Cel. Francisco Pinto feriam a imagem de uma
cidade que desejava ser moderna e civilizada. As reclama-
ções não eram feitas somente em virtude da presença de
cabarés próximos ao principal templo religioso da cidade,
ou seja, a Catedral de Sant’Ana. Mas, também, dos cabarés
localizados nas margens da urbe, portanto, distantes da área
sagrada citadina.
Como exemplo disto, podemos citar o caso de uma
denúncia, baseada num inquérito policial, colhida num
processo-crime de 13 de outubro de 1952, retirado do Fundo
da Comarca de Caicó e sob a guarda do Laboratório de
Documentação Histórica, do Centro de Ensino Superior do
Seridó, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte

26 Idem.
91 |

(LABORDOC/CERES/UFRN), no qual os senhores Eloi M.


da S27., Justino B. e José A. de A., residentes na cidade de
Caicó, responsabilizavam os réus Augusto R. da C. e Rita P.
de L. por manterem um cabaré numa casa denominada de
Refúgio, no bairro Paraíba, zona oeste da cidade, para onde
“[...] convergiam mulheres de vida livre, que, em companhia
de indivíduos perturbavam o socêgo da noite a das famílias
[...]”28.
Conforme os relatos dessa denúncia, o cabaré trazia
desassossegos até altas horas às famílias residentes em suas
adjacências, com rixas, algazarras e pornografias, e que
dado o número considerável de famílias existente naquele
ambiente, estava transformando tudo “[...] numa promiscui-
dade jamais vista em nossa cidade, concorrendo com o
abuso de tamanho escândalo para a prostituição, que tem
atualmente tomado proporções assombrosas, nas famílias
ali residentes”29.
Após muitas denúncias e tentativas de interdição, as
heterotopias tecidas nos cabarés da cidade de Caicó,
especificamente, aquelas desenvolvidas nos espaços outros
da Rua 13 de Maio, não conseguiram se prolongar por
muito tempo. Depois de muitas reclamações e apelos feitos
por alguns habitantes da cidade, o meretrício existente na
Rua 13 de Maio, fora, lá pelos idos de 1965, transferido para
um lugar distante do âmbito familiar caicoense, passando a
ocupar as margens da urbe. Essa transferência foi assunto
de uma pequena reportagem publicada nas páginas d’A
Fôlha, no qual se afirmava que:

27 Os nomes dos envolvidos no processo foram reduzidos às


iniciais para preservar a identidade dos mesmos.
28 PROCESSO-CRIME. Caicó. 13 de outubro de 1952.
29 Idem.
92 |

A Justiça caicoense, através do Juiz de Direito Dr. João


Marinho contando com o apoio do Snr. José Paulo Filgueira,
tinha agido acertadamente em ter transferido para outro
local o baixo-meretrício da Rua 13 de Maio. Ali fora palco
por muitos anos dos mais tristes e escandalosos, espetáculos
de arruaças e agitações perturbando incessantemente as
famílias da antiga Rua da Cadeia e adjacentes. A Rua 13 de
Maio passará a ser um núcleo familiar depois de ter sido
afastado por completo o Baixo-Meretrício30.

Com isso, a Rua 13 de Maio deixava de ser, ao menos


explicitamente, cenário de espetáculos licenciosos. No de-
correr de anos, quando a sociedade caicoense rogava por
moralidade, civilidade e modernidade, o cabaré da Rua 13
de Maio, bem como os situados em outros espaços, geravam
indignação nos defensores dos bons costumes.
Isto não quer dizer que todas as heterotopias urba-
nas tenham sido eliminadas do tecido urbano caicoense. Ao
contrário, estas continuavam a ser tecidas em outros espa-
ços, em outros lugares, em outros topos da cidade. Deste
modo, acreditamos que na cidade de Caicó, embora com os
seus muitos espaços desejados e legitimados, muitos eram
os praticantes, as práticas e os outros espaços heterotópicos,
não se limitando apenas às heterotopias urbanas narradas
nesses fragmentos textuais.
A guisa de conclusão e de modo geral, a cidade, por
ser um fenômeno social contraditório e desigual, bifurcada
em caminhos e descaminhos, acautela em suas entranhas
uma miríade de heterotopias urbanas, coadunando com
mais recrudescência pedaços de espaços flutuantes e lugares
sem lugares, que podem ser identificados como sendo aque-
les atinentes aos bares, bordéis, zonas, cemitérios, casas de
repouso, clinicas e hospitais psiquiátricos, prisões, prostíbu-

30SEM AUTORIA. Justiça. Jornal A Fôlha. Caicó. 20 de fevereiro


de 1965. Ano X. Número 201.
93 |

los, dentre outros espaços burilados por práticas heterotópi-


cas singulares.
Desses espaços, bem como de outros, emanavam-se
imagens, cheiros, sons e olhares, que amalgamados forma-
vam uma espécie de mosaico urbano. Esse mosaico, com-
posto de peças cotidianas, era também formado por corpos,
rostos e falas oriundos dos mais distintos sujeitos, que se
entrecruzavam por entre as artérias do espaço urbano
caicoense, incursionando em suas ambiências heterotópicas.
Essas ambiências compuseram e integraram as estéticas
urbanas caicoenses, manchando a imagem de uma cidade
aspiradora do progresso, desejosa em ser moderna.
94 |
95 |

NA ESCRITA DA LUZ:
FRAGMENTOS DE BIOGRAFIAS
MARGINAIS NA OBRA FOTOGRÁFICA DE
JOSÉ MODESTO DE AZEVEDO (JARDIM
DO SERIDÓ/RN, 1950-80)1

Rosenilson da Silva Santos

Entre as décadas de 1950 e 1980, Jardim do Seri-


dó/RN2 foi fotografada por José Modesto de Azevedo. Este
personagem nasceu no dia 30 de maio de 1932, na cidade
supracitada e começou a fotografar incentivado por Herá-
clio Pires, também fotógrafo, com quem também aprendeu
as artes da revelação. Fez inúmeras coberturas fotográficas
em eventos sociais na cidade de seu nascimento, mas
também em Ouro Branco/RN, Santana do Seridó/RN e São
José do Seridó/RN. José Modesto era chamado de Zé
Boinho. Tal apelido justifica-se em virtude de seu avô e
também o pai terem exercido a profissão de marchante e

1 Esse texto é fruto da monografia de graduação Para não dizer que


não falei das flores: sobre “homens infames” na obra fotográfica de José
Modesto de Azevedo, defendida em 2008 no Curso de Licenciatura e
Bacharelado em História do Centro de Ensino Superior do Seridó,
da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sob orientação
da Profª. Drª. Eugênia Maria Dantas.
2 Jardim do Seridó é um dos municípios do Estado do Rio Grande

do Norte – Brasil. Localiza-se na Mesorregião Central, Região do


Seridó e na Micro-região “Seridó Oriental”, tem clima semi-árido e
temperatura média anual de 27,5 Cº e fica a 224 km da capital do
Estado, a cidade de Natal.
96 |

receberem o acréscimo de ‘Boinho’ a seus nomes. O acervo


deste fotógrafo dá conta de uma vasta produção icono-
gráfica que “guarda” cenas de cerimoniais religiosos, cívicos
e mesmo figuras emblemáticas da cidade, como ciganos,
mendigos e loucos. José Modesto faleceu no dia 16 de agosto
de 2004, vitimado por uma embolia pulmonar, deixando em
família o acervo, máquinas fotográficas, materiais de labora-
tório e negativos 6x6 mm.
No ano de 2005/06, através de nossa inserção no
projeto de pesquisa “Fotografia e Complexidade: itinerários
norte-rio-grandenses”3 tivemos acesso ao acervo de tal
fotógrafo, através da indicação de Evaneide Maria de Melo4,
que, desenvolvendo pesquisa a respeito da representações

3 Projeto de Pesquisa coordenado pela Profª. Drª. Eugênia Maria


Dantas, vinculado à Base de Pesquisa Educação e Sociedade,
Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN/CERES.
Esse projeto é representativo da iniciativa pioneira naquela região
dos “Estudos da Imagem”, orientados pela pesquisadora já citada,
que desembocam em dois trabalhos de conclusão de curso, um em
história e outro em geografia. O primeiro, de nossa autoria, versa
sobre “os homens marginais na fotografia de Zé Boinho”. O
segundo, de autoria de Amanda Lins Gorgônio Costa, trata da
relação entre a “moda e fotografia na obra de José Ezelino”. Ainda
em duas dissertações, ambas em Geografia, uma de autoria de
Gênison Costa de Medeiros e outra assinada por Evaneide Maria
de Melo, que problematizam a “representação de Currais Novos
no acervo de Raimundo Bezerra” e o “estudo da paisagem da
cidade de Jardim na fotografia de José Modesto”, respectivamente.
Por fim há o trabalho de doutoramento em Ciências Sociais,
explorando os “sentidos entre infância a imagem” de autoria desta
última autora, em andamento, e a tese na área de Educação de
autoria de Eugênia Maria Dantas, que aborda, através da ótica da
Complexidade, a “relação entre Educação e Fotografia”.
4 Acerca dos resultados deste trabalho ver: MÉLO, Evaneide Maria

de. A paisagem em foco: leituras fotográficas de Jardim do


Seridó/RN.
97 |

da cidade na fotografia de José Modesto de Azevedo, já


tinha conhecimento das temáticas daquele acervo.
E nosso primeiro contato visual com tal material foi
marcado pela surpresa, pela alegria, por um riso. Inquie-
tava-nos o que teria pensado aquele fotógrafo, quando era
de costume, entre os retratistas da região, se registrar as
elites, os eventos cívicos e religiosos, congelar loucos, mendi-
gos e ciganos. A princípio nos aproximamos sem ter claro o
que daquelas imagens queríamos extrair, e paulatinamente
fomos ao encontro de um destes verbos que se usa na
academia. Com as imagens em mãos, ao sabor do momento,
fomos encontrando com o discutir, o analisar, o refletir, o
pensar sobre e acerca da/a condição destes sujeitos infames
naquele acervo.
Surgiu-nos então, a possibilidade de, a partir do en-
tendimento da imagem como texto e mensagem a ser questio-
nada, problematizar como este fotógrafo representou os
homens marginais e como a sociedade os concebeu. Elegemos
Jardim do Seridó/RN como o lugar da pesquisa, já que foi o
cenário usado para as imagens, e o ínterim entre as décadas
de 1950 a 1980, período em que José Modesto atuou como
fotógrafo, o recorte temporal.
Nossas inspirações teóricas compõem-se de pensa-
dores, dentre os quais podemos frisar a indiscreta contri-
buição de Michel Foucault, pelo que escreveu a respeito dos
sujeitos de má conduta e pela nada tímida trinca que abriu
nas Ciências Sociais, permitindo, assim, a emergência de
temas antes considerados inafeitos à Ciência e portanto
indignos de serem estudados. Dos conceitos desse filósofo
nos aproximamos da discussão acerca dos homens infames5,
desenvolvida na obra “O que é um Autor”. Segundo
palavras do mesmo, não se trata de uma obra de História,
porque os critérios que o guiaram rumo às cartografias

5 FOUCAULT, Michel. O que é um autor?


98 |

desviacionistas e aos sujeitos nelas mapeados foram de


caráter subjetivo. Para Foucault, o infame é o personagem
de uma novela, de uma narrativa embaraçada, projetos de
vida, singulares, estranhos poemas que ele encontrou na
Bibliothèque Nationale da França, nos registros de interna-
mentos oriundos do século XVIII.
Os homens infames dos quais tratamos são mais
recentes que os de Foucault, mas, não menos infames que
aqueles. Como os que foram assentados pelo filósofo,
encenaram novelas intricadas, de vidas cinzentas, mas não
sem energia e vibração. Trata-se de existências deitadas à
margem da sociedade, visto representarem o oposto da
normalidade. São figuras usadas como espelho, porque são
vistas como aquilo que não pode existir em quem observa.
São o contraponto desorganizado que organiza a ideia de
ser normal em sociedade.
Os infames se localizam justo em espaços marginais,
como a rua, as calçadas, a rodoviária, no escuro da praça,
em espaços heterotópicos6, lugares que são criados para os que
estão em crise. As heterotopias se configuram como o opos-
to das utopias. As utopias são os espaços reais da sociedade,
os espaços permitidos, lícitos às famílias e aos homens de
boa fama. As heterotopias, apesar de encadeadas às utopias,
as contradizem, são a sua contramão. Nelas figura uma
oposição aos padrões sociais instituídos. São, elas, o espaço
da sobra, proibido, negado e afastado. Pensemos o Esplana-
da Clube, no centro da cidade em questão e o cabaré, locali-
zado na Baixa da Beleza, como exemplos destas metáforas
espaciais usadas por Michel Foucault.
Como as fontes de nosso trabalho são fotografias,
ancoramo-nos em dois conceitos, o de “Alfabetização do

6 FOUCAULT, Michel. De outros espaços.


99 |

olhar”, desenvolvido por Armando Martins Barros7, e o de


“Educação pelo Olhar”, tratado por Eugênia Maria Dantas8.
Estas perspectivas, que dão ênfase a uma metodologia de
leitura da linguagem fotográfica, sugerem uma diferen-
ciação entre “ver” e “olhar”, já mencionada por Boris
Kossoy9. Estes autores apontam duas dimensões básicas do
ato de ver, a saber: uma ação receptiva e uma ação ativa, a
primeira concernente ao ato simples de observar; a segunda,
a uma criticidade do ato de enxergar, através do qual são
atribuídos valores simbólicos e interpretativos ao que se
capta com os olhos.
Estas perspectivas se traduzem em um esforço para
ler a fotografia como se a mesma fosse um texto, amparado
por outras fontes que servem como guia para a localização
do pesquisador no contexto em que a imagem foi pro-
duzida. Neste sentido, foi necessário que desenvolvêssemos
pesquisa no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande
do Norte – IHGRN e no Laboratório de Documentação
Histórica – LABORDOC/UFRN. Nestes dois lugares de
pesquisa tivemos acesso a edições do jornal “O Seridoense”
e “A Folha”, nos quais estão publicadas informações
concernentes à localização, preços e serviços oferecidos por
alguns fotógrafos das cidades do Seridó norte-rio-grandense
do início ao fim do século XX.

7 BARROS, Armando Martins de. “O tempo da fotografia no

espaço da história: poesia, documento ou monumento?”. In:


NUNES, Clarice. (Org.). O passado sempre presente.
8 DANTAS, Eugênia Maria. Fotografia e Complexidade: a

educação pelo olhar.


9 KOSSOY, Boris. Fotografia e História. KOSSOY, Boris. O relógio

de Hiroshima: reflexões sobre os diálogos e silêncios das imagens.


Revista Brasileira de História, v. 25, n. 49.
100 |

As imagens e os homens infames

José Modesto de Azevêdo registrou, através da


imagem fotográfica, o cenário urbano e rural de Jardim do
Seridó/RN, além dos grandes nomes da política regional e
nacional que ali passaram ou viveram. Sublinhou a beleza
universal de Maria Edith Azevêdo, recepcionada na cidade
com entusiasmo, tida como “a mais linda flor” que Jardim
do Seridó já vira. Pelos cenários montados em seu estúdio
repousaram, por alguns instantes, as mais tradicionais
famílias daquela cidade, bem vestidas e paramentadas para
serem fotografadas.

Figura 3
Maria Edith Azevêdo – Miss RN 1966 e sua recepção em
Jardim do Seridó, após a participação no Concurso

FONTE: Da família do fotógrafo. Acervo digital do Projeto


“Fotografia e Complexidade: itinerários norte-rio-grandenses”.
FOTOGRAFIA: José Modesto de Azevedo
101 |

Figura 4
Maria Edith Azevêdo – Miss RN 1966 e sua recepção em Jardim do
Seridó, após a participação no Concurso. Na faixa lê-se: “Jardim
do Seridó, com grande orgulho, recebe a sua mais linda flôr”.

FONTE: Da família do fotógrafo. Acervo digital do Projeto


“Fotografia e Complexidade: itinerários norte-rio-grandenses”.
FOTOGRAFIA: José Modesto de Azevedo

Mas foi distante do cenário de paredes rosadas,


composto por jarros, um banquinho, um berço e grandes
cortinas beges10 que José Modesto fotografou outras faces de
Jardim do Seridó. Em algumas delas, são rostos anônimos
que ocupam o lugar de protagonistas. Nestas fotografias ele
institui uma estética diferenciada em relação às imagens em

10Esta era, segundo o seu filho, José Jean de Azevedo, a decoração


do estúdio de José Modesto, que se localizava na rua Presidente
Vargas, no centro de Jardim do Seridó/RN.
102 |

que são os rituais de batismo, casamento e festas religiosas


os elementos de composição da fotografia.
José Modesto tem uma predileção pela rua11, uma
constatação também verificada por Evaneide Maria de
Melo:

o registro que Zé Boinho elaborou da experiência


humana no espaço se mostra heterogêneo e dema-
siado complexo. Contudo, a cidade é o lugar por ele
privilegiado, sendo temática recorrente as ruas, as
avenidas, as vias públicas (…) O acervo deixado por
Zé Boinho atrela-se de modo expressivo ao urbano12.

Este espaço parece seduzi-lo, enquadrando, assim,


seus momentos de solidão, do vazio de suas formas, quando
apenas o seu traçado, limpo e enxuto, é personagem de sua
câmara. O fotógrafo abole de sua perspectiva o barulho dos
animais, dos transeuntes e automóveis. Ao se observar as
imagens de seu acervo e encontrar “as ruas em descanso”, o
leitor também fica com sono, sente uma tranqüilidade
estimulada pela imagem. Justo à rua, lugar do barulho, é
conferida a calmaria de uma varanda, o silêncio de um
templo.

11SANTOS, Rosenilson da Silva. Para não dizer que não falei das
flores: sobre homens infames na obra fotográfica de José Modesto
de Azevedo, p. 58.
12 MÉLO, Evaneide Maria de. A paisagem em foco: leituras

fotográficas de Jardim do Seridó/RN, p. 13, 78, 103, 108 e 127.


103 |

Figura 5
Ruas de Jardim do Seridó-RN

FONTE: Da família do fotógrafo. Acervo digital do Projeto


“Fotografia e Complexidade: itinerários norte-rio-grandenses”.
FOTOGRAFIA: José Modesto de Azevedo
104 |

Figura 6
Ruas de Jardim do Seridó-RN

FONTE: Da família do fotógrafo. Acervo digital do Projeto


“Fotografia e Complexidade: itinerários norte-rio-grandenses”.
FOTOGRAFIA: José Modesto de Azevedo

No entanto, não apenas a calmaria é registrada.


Alguns personagens que mantém uma relação particular
com a rua, como mendigos e pessoas tidas pelo senso
comum por loucos, também são retratados pelas lentes do
fotógrafo. E isso pelo fato de usarem-na como caminho, via
de deslocamento, residência e lugar de sobrevivência. É na
rua que esses personagens encenam peças, que, para alguns,
fazem parte do mundo da fantasia, embora sejam interpre-
tadas com tanta intensidade que não se sabe se é a vida
imitando a loucura ou o contrário disso.
E na intercessão entre a casa e a rua, no meio da
cidade muito se distribuem: os filhos rebeldes, a filha fugida
105 |

e, dentre tantos outros, o bêbado. Figuras que, não auto-


rizadas na casa, encontram na rua o espaço onde se pode, de
algum, modo fugir às amarras institucionais.
“Dona Bandinha”, fotografada por José Modesto,
esteve neste ínterim. Maria Umbelina das Mercez13 foi fruto
de um segundo casamento de seu pai, recebendo na harmo-
nia de sua casa o título de “meia irmã”, concedido por aque-
les que se consideravam filhos por completo. Seria chamada
de Bandinha por todos da cidade e mesmo após contrair
matrimônio continuou a receber esse nome. Seu casamento
seria interrompido pelo falecimento de seu esposo, ao que
Bandinha sofreu em toda sua completude, se entregando às
“delícias” da embriaguez.

13AZEVÊDO, José Nilton. Vultos populares de Jardim do Seridó,


p. 19.
106 |

Figura 7
Dona Bandinha

FONTE: Da família do fotógrafo. Acervo digital do Projeto


“Fotografia e Complexidade: itinerários norte-rio-grandenses”.
FOTOGRAFIA: José Modesto de Azevedo

E foi assim, em um momento que tomava a vida


como uma fuga, que José Modesto a congelou, sem sorrisos
e sem lágrimas, fugindo de um sentir amargo e se entre-
gando a um estado do não sentir. A imagem revela, além de
um copo, um corpo sem sexo. Pergunta-se: esta figura é
107 |

homem ou mulher? Não fosse o vestido, que resume as


únicas flores de sua vida, não se saberia a resposta.
O novo reino que Bandinha construiu após se tornar
viúva foi edificado na incerteza das ruas, pelas calçadas da
cidade, disperso em vários lugares, percorrido por todas as
pessoas, pela intensidade da luz solar e o sopro gélido da
noite. Lugares também percorridos por seus filhos, a seguir
seu passos, na intenção de trazê-la de volta a um estado do
qual ela não poderia ter saído: a condição de mulher de
casa, que não poderia se embriagar e nem muito menos
despir-se em espaço público. Bandinha foi um colonizadora,
exploradora da largueza da rua. Como bem disse um
historiador que a biografou, “o que foi negado em casa, foi
permitido na rua”14.
A distorção que Bandinha e os infames produzem no
ciclo organizacional sobre o qual as sociedades desejam se
plantar os destinam para lugares como as ruas - “espaços
heterotópicos”, recanto para a crise e o desvio, como
também o são a casa de repouso, os hospitais. Na ideia de se
criar um lugar fora do moinho do tempo, um lugar de todos
os tempos, homogêneo, imóvel e de terapia, um “espaço da
sobra” 15.
Para Ferraz16, estas figuras que ocupam as partes
públicas da cidade, especialmente os loucos, guardam em
torno de si uma atmosfera de mistério, despertando inte-
resse, medo, curiosidade e pena. São fascinantes porque
transportam consigo um saber que é “difícil, fechado e
esotérico”. Conduzem em sua pele um potencial de espelho,
e por vezes, fazem esquecer-se do transtorno mental que

14 Idem, p. 30.
15 FOUCAULT, Michel. De outros espaços, p. 3-5.
16 FERRAZ, Flávio Carvalho. “O louco de rua visto através da

literatura”. In: Revista Psicol. p. 01.


108 |

também carregam e são tratados com símbolos folclóricos


de um determinado lugar.
Normalmente são pessoas que marcam a história das
cidades, especialmente as de menor porte, seja pela sua
irreverência e comportamento, seja pela forma diferente
com que lidam com a vida. São geralmente retratados na
rua, embora exista uma percepção de que eram muito
queridos pelos que lhes rodeavam.

Figura 8
Maria de Birimbeu

FONTE: Da família do fotógrafo. Acervo digital do Projeto


“Fotografia e Complexidade: itinerários norte-rio-grandenses”.
FOTOGRAFIA: José Modesto de Azevedo
109 |

Queridos ou não, é na rua que geralmente eles são


retratados. A rua é então interpretada como o espaço da per-
missão, sem, contudo, deixarmos de perceber que também é
um espaço de disciplina. A casa, suposto lugar da ordem, é
negada a estes personagens. Maria de Birimbeu, Luisinha e
Bandinha são, então, direcionadas para onde podem exe-
cutar seus “teatros”. As condições em que viveram não
foram as mais confortáveis, colecionando noites gélidas e
dias de sol causticante, dispondo, em alguns casos, da
mesma higiene que os animais na rua dispunham. Suas
vestimentas precárias e sujas se opõem aos trajes pomposos
que, entre as décadas de 1950 e 80, era usadas no Salão de
Festa do “Esplanada Clube” de Jardim do Seridó.

Figura 9
Luisinha

FONTE: Da família do fotógrafo. Acervo digital do Projeto


“Fotografia e Complexidade: itinerários norte-rio-grandenses”.
FOTOGRAFIA: José Modesto de Azevedo
110 |

Como afirmou Foucault, a vida dos infames é


“poesia e sombra, novelas confusas de riso e dor”, entregues
aos delírios da embriaguez alcoólica. José Modesto carto-
grafou e registrou as bordas da sociedade em que vivia,
mas, não em um movimento de fuga e distanciamento e sim
de avizinhamento. Capturou no centro de sua arte o que a
cidade esparge para suas zonas periféricas, mas que resiste
em permanecer ali onde não pode ser visto, voltando para a
rua ou para a calçada do centro da cidade. É a diferença se
anunciando, dizendo que precisa ser vista; que, se a norma-
lidade não for contaminada com o que é diferente, ela se
corrompe e desaba, rui em si mesma; é a alteridade se
afirmando necessária ao ser humano.
O “louco de rua”, para sê-lo, é preciso ter escapado
da psiquiatria, ou não ter tido contato com ela – e assim,
sem medicalização e não institucionalizado, está longe do
hospício. Realidade que, por instantes, nos faz ver a estes
como super-heróis. Por fugirem destas teias de poder – das
quais Foucault17 sublinha com propriedade sua macro
potência de coerção e a micro possibilidade de evasão – o
indivíduo pode disfarçar o fato de que, para ser louco de
rua, também é preciso ser pobre, sem teto ou esquecido pela
família. Ou, ainda, dissimular que esta última não tem
condições emocionais e/ou financeiras e intenção de cuidar,
ficando, assim, esses indivíduos, soltos/livres na cidade: o
espaço que é de todos e de ninguém, para todos e para
ninguém.
Ciriaca, ou Maria do Céu Gomes de Melo, na ima-
gem ao lado do senhor Paulo Gonçalves de Medeiros, foi
um dos personagens do “teatro a céu aberto” de Jardim do
Seridó” entre 1932 e 1991. Segundo Sebastião Arnóbio de
Morais18, muito querida era pelos jardinenses, “meio abesta-
lhada e não propriamente louca”, pedia esmolas e chamava
a todos de “meu amor”. Ciriaca tinha lindos olhos azuis, tão

17FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder.


18Entrevista concedida por Sebastião Arnóbio de Morais em 03 de
novembro de 2007, em Jardim do Seridó/RN.
111 |

claros que despertavam medo em algumas crianças e, de


vez em quando, chorava como uma delas. Tinha, como diria
Dantas19, uma vida de artista: vivia em uma eterna apresen-
tação pública, sempre com um saco a pedir esmolas aos
“amores de sua vida”. Quando ainda em idade escolar, não
aprendeu nada.

Figura 10
Ciriaca

FONTE: Da família do fotógrafo. Acervo digital do Projeto


“Fotografia e Complexidade: itinerários norte-rio-grandenses”.
FOTOGRAFIA: José Modesto de Azevedo

19 DANTAS, Eugênia Maria. Retalhos da Cidade: revisitando


Caicó, p. 90. Tomamos a análise de Dantas por semelhança com
relação ao nosso objeto, mas, esta tratou de outros sujeitos,
localizados em Caicó/RN.
112 |

Segundo o historiador José Nilton de Azevedo, ironi-


camente, a mesma escola que não a compreendeu lhe viti-
mou nos idos de 1991. Ocasião em que um ônibus escolar a
atropelou, nas proximidades de um lixão, onde Ciriaca pro-
curava pela vida e acabou por encontrar a morte. Neste dia:

A cidade entristeceu
O povo todo abalado
Com o que aconteceu
Muita gente lamentando
Aquela hora esperando
Para ir ao enterro seu20

Segundo Dantas, a morte destas Personas21, são


sempre marcantes, seja pela forma, impacto ou comoção que
causam. Descreve, oportunamente, a ocasião da morte de
um ícone caicoense chamado Ferrolho:

(…) Ferrolho só soube viver como artista, fazendo de


sua vida uma eterna apresentação pública. De sua
origem pouco se sabia, porém era conhecido em todo
o Seridó pela capacidade de executar, no seu realejo,
as mais difíceis melodias (…) a forma como morreu
representou um pouco do que foi em vida. ‘Manhã de
abril, Ferrolho acorda e sai em busca de soluções para
seus problemas, roupa suja, é preciso lavá-la para que
à noite possa se apresentar asseado para seus admi-
radores; um grande inverno fez com que as águas do
Rio Barra Nova se apresentassem como um recanto
ideal para seu ato. O homem simples inicia sua

20 Fragmento de um poema feito em homenagem à Ciriaca, de


autoria de Manoel de Rita, transcrito na obra “Vultos Populares de
Jardim do Seridó – José Nilton de Azevêdo.
21 DANTAS, Eugênia Maria. Retalhos da Cidade: revisitando

Caicó, p. 89.
113 |

última tarefa, despiu-se, colocou seu instrumento


musical à margem do rio e iniciou seu trabalho. De
repente seu corpo começa a boiar, dançando não no
ritmo do realejo, mas nas ondas furiosas do rio’ 22.

Como Ferrolho em Caicó, Emídio Mucica também foi


um “artista do povo”, daqueles de uma teatralidade sem
fronteiras, a começar pelos números de mágica que execu-
tava, sem encerrar-se por aí. Este personagem extraía musi-
calidade – semelhante a Ferrolho – de uma folha vegetal de
ficus23, colocando-a à boca e segurando-a com dois dedos.
Emídio encantava a platéia ávida de suas melodias, mas
também despertava a atenção de alguns que não eram
tocados pela harmonia de suas notas musicais. Era seguido,
sempre aonde andava, por aqueles que, portando um tampa
metálica de garrafa, produziam o som mais desagradável
aos ouvidos daquele que era um maestro da natureza.
Não é de causar surpresa o estado de irritação em
que Emídio Mucica ficava toda vez que alguém friccionava
tal objeto sobre alguma superfície áspera. Segundo José Nil-
ton de Azevêdo24, sempre “aparecia alguém com um tampa
escondida, e, lentamente, começava a passar a tampa no
chão” ao que pedia Emídio que o gesto fosse interrompido.
E, sendo quase sempre desobedecido, fugia, corria para
onde ninguém sabia. Não se sabe também qual foi o fim que
ele tomou, onde e mesmo quando morreu. Quem sabe foi

22 DANTAS, Eugênia Maria. Retalhos da Cidade: revisitando


Caicó. p. 91.
23 Elemento do reino vegetal. Figueira: árvore do gênero Ficus,

família Moraceae. Também são conhecidas como fícus, gameleira


ou gomeleira. Há mais de 1000 espécies de figueiras no mundo,
especialmente em climas tropicais e subtropicais (o gênero Ficus é
um dos maiores do Reino Vegetal).
24 AZEVÊDO, José Nilton. Vultos populares de Jardim do Seridó,

p. 35.
114 |

inibido de tocar o som universal das folhas por uma plateia


que portava, ao invés de palmas, uma tampa de garrafa e
resolveu sair sem destino, como uma folha desprendida de
seu galho sob o governo dos ventos.
Ferrolho e Emídio foram andarilhos livres, desfruta-
ram de um tempo em que a loucura tinha direito25 à cidade,
embora tivessem que enfrentar os desígnios de quem vivia
em um espaço tão plural que se apresenta ora em aplausos,
risos e admiração, ora, em abnegação, conjuração e apedre-
jamentos: a rua.
O poeta da luz26 – José Modesto – os congelou em
poses espontâneas, soltos na vida e presos às condições de
sua existência. Loucos ou tidos como tal, compreendidos ou
não, foram alvo do olhar, da máquina e de uma sensibi-
lidade rara, que os paralisou, cortando tempo e espaço,
criando uma brecha que os trouxe até os dias de hoje como
registros, como marca e imagem do passado. José Modesto
grafou com luz vidas inebriadas de sombra, eivadas de um
cinza característico das biografias infames, geralmente imer-
sas e distantes das páginas da história, como os personagens
Herculine Barbin27 e Pierre Rivière28.
Essa leitura não procura a totalidade. Não dese-
jamos, com ela, apenas narrar uma história dos indesejáveis
na cidade. Ao contrário, este foi um de nossos receios – que

25 Ressalva seja feita: no período de nosso recorte temporal ainda


existia resquícios do discurso médico-higienista, que legava os
homens marginais para as bordas da cidade, ou seja, para os
hospícios e casas de recuperação.
26 Entenda-se “fotógrafo” quando do aparecimento da expressão

“poeta da luz”.
27 FOUCAULT, Michel. O diário de um hermafrodita – Herculine

Barbin.
28 FOUCAULT, Michel. Eu, Pierre Rivière, que degolei minha

mãe, minha irmã e meu irmão: um caso de parricidio do seculo


XIX.
115 |

nos ativéssemos à biografia dos excluídos, quando inten-


távamos ver o que a fotografia era capaz de revelar e o que
poderia nos ser útil neste exercício. A escrita da história, a
nosso ver, pode ser construída por meio da poética ou da
aproximação com metáforas que traduzam o senso de arte.
Se, por isso, esse texto não for simpático à história, que seja
à literatura, onde estas histórias podem ser localizadas sem
o receio de serem rejeitadas.
116 |
117 |

A CIDADE DE CAICÓ NOS


PERIÓDICOS DOS ANOS 19201
Juciene Batista Félix Andrade

Ah! Caicó arcaico∕ Em meu peito


catolaico∕ Tudo é descrença e fé∕ Ah!
Caicó arcaico∕ Meu cashcouer
mallarmaico∕ Tudo rejeita e quer[...].2

Chico César

Este artigo objetiva efetuar uma leitura da cidade de


Caicó a partir dos escritos publicados pela imprensa local
nos anos 1920. Contudo, privilegiaram-se as crônicas que
discutiam a cidade em sua consonância ou não com a ideia
de “progresso” e em relação ao que ocorria nos grandes
centros urbanos do Brasil. No âmbito dos periódicos uma
parte da “elite” anunciava as modificações sofridas pela urb
caicoense bem como tencionava pedagogizar a população
com crônicas que enfatizavam o progresso material da
cidade, a necessidade de um “club dansante”, medidas de

1 Texto decorrente da dissertação de mestrado Caicó, RN: uma

cidade entre a recusa e a sedução, defendida em 2007 no Programa de


Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte, sob orientação do Prof. Dr. Raimundo Pereira
de Alencar Arrais.
2 A Prosa Impúrpura do Caicó. Música de Chico César. A letra da

música encontra-se disponível em: http:∕∕vagalume.uol.com.br∕


chico-cesar∕a-prosa-impurpura-do-caico.html. Acesso em: 15 ago
2007.
118 |

higiene e, dentre outras, arborização. Portanto, a partir desta


produção literária percebemos quais eram os valores, as
normas e as representações de um determinado grupo
social.
As crônicas veiculadas em periódicos locais3, como o
Jornal das Moças (1926)4, o Jornal do Seridó (1927 e 1929), o
Jornal de Caicó (1931), O Seridoense (1925), bem como o Código
de Posturas (1928), em vigência na época, permitiram a
composição de um cenário de representações históricas da
cidade de Caicó – localizada, hoje, na Microrregião do
Seridó Ocidental do Rio Grande do Norte – entre os anos
1920-1930. Enfocar-se-á como a imprensa caicoense proje-
tava nos periódicos seus desejos e sonhos, buscando uma
cidade atualizada com o “progresso” e a civilização dos
grandes centros do Brasil, como São Paulo, Rio de Janeiro e
Recife.5 Segundo Gervásio Aranha, a experiência do mo-

3 No domínio do espaço jornalístico, Caicó teve uma grande


produção de folhetins, periódicos e jornais, podendo-se até falar
em uma tradição da imprensa caicoense. De acordo com Eymard
Monteiro, o primeiro jornal “nascido” em Caicó foi denominado
de O Povo, fundado em 1889 e pertencente a José Renault, dirigido
por Diógenes Santiago da Nóbrega e Olegário Vale. Outros
surgiram nesse caminho, como O Seridó, em 1900; O Eco Sertanejo,
em 1907; O Correio do Seridó, de 1909 e outros de tradição
manuscrita, A Sentinela, O Rebate e A Distração, todos de 1909. Nos
anos de 1920 e 1930, outros jornais que contribuíram com a
produção da imprensa caicoense foram O Jornal do Seridó, de 1927;
O Ideal de Juventude, de 1931 e O Jornal de Caicó, de 1930.
4 Alguns trabalhos tomaram o Jornal das Moças como fonte e

produziram interessantes reflexões nas perspectivas de gênero,


educação e mulheres na imprensa. Sobre essas referidas
abordagens, verificar: MEDEIROS, Patrícia. Lendo o Masculino
pelo Feminino; ROCHA NETO, Manoel Pereira. Jornal das
Moças (1926-1932): educadoras em manchete.
5 Ver introdução do trabalho de Fábio Gutemberg Ramos Beserra

de Souza que trata da ampliação dos estudos sobre cidades,


119 |

derno no Norte não se expressa em termos de vida me-


tropolitana, mas associada ao impacto provocado por certas
conquistas materiais que passam ao imaginário urbano
como símbolos do moderno.6
Os colaboradores destes pequenos periódicos esta-
vam atualizados com as últimas novidades e empreendiam
viagens a lugares de “adiantamento”, aos centros de onde
irradiavam os valores de conduta nas cidades modernas, e
isso possibilita-nos fazer uma afirmação: foi na produção
literária que se inscreveram as normas, os valores e as
linguagens, e nela esse grupo social elaborou uma repre-
sentação de si e da sociedade.7 É no âmbito das crônicas
veiculadas nos periódicos que a pequena parcela da “elite”
caicoense expunha e produzia suas imagens e discursos,
consoantes às novas ideias de que a cidade era “pro-
gressista”.8
Além de registrar o cotidiano numa linguagem mais
solta ou mais poética, a crônica prendia-se à realidade do

extrapolando, no Brasil, o olhar resumido à São Paulo e ao Rio de


Janeiro (SOUZA, Fábio Gutemberg Ramos Beserra de. Carto-
grafias e Imagens da Cidade: Campina Grande – 1920-1945).
6 ARANHA, Gervásio Batista. Seduções do Moderno na Parahyba

do Norte: Trem de Ferro, Luz Elétrica e Outras Conquistas


Materiais e Simbólicas (1880-1925). In: Ó, Alarcon Agra do et al. A
Paraíba no Império e na República: Estudos de História Social e
Cultural, p. 79-132.
7 ARRAIS, Raimundo. Recife: Culturas e Confrontos, p. 03.
8 Para Antônio Candido, a crônica não nasceu propriamente com o

jornal. Só quando este se tornou cotidiano, de tiragem relati-


vamente grande e teor acessível, é que a crônica se estabeleceu
como um destacado gênero de leitura. Isso aconteceu porque a
crônica não tinha pretensões de durar, uma vez que era filha do
jornal e da máquina, onde tudo acabava tão depressa. CANDIDO,
Antonio et al. A Crônica: o gênero, sua fixação e suas transfor-
mações no Brasil, p. 14-5.
120 |

efêmero fixado pelo cronista, ou seja, por seu caráter


superficial e por seu suporte na imprensa (jornal ou revista),
que a tornava avelhantada no outro dia, é que a crônica
ganha sua modernidade, atrelada ao cotidiano urbano. Os
jornais da pequena Caicó traziam nas crônicas as expe-
riências de uma cidade interiorana, nos anos de 1920, para o
debate em torno da modernidade, pois grande parte desses
jornais era concebida pelas suas elites como “agentes civili-
zatórios”, e era visível a orientação pedagógica impressa
neles. Eles se pautavam pelo discurso do progresso e pela
ação da elite intelectual que, agindo de cima, pretendia
moldar a sociedade. 9

Caicó: as notícias de sedução e desejos

As mudanças sofridas pela urb caicoense na década


de 1920 mereceram destaque de Renato Dantas, bacharel em
Direito e colaborador do Jornal das Moças. Em crônica de
1926, o bacharel evidencia os sinais do “progresso” em
curso na cidade:

Não há como negar que tem sido bem sensível o


progresso da nossa modesta URBS nestes ultimos
tempos. A prova disso se encontra nesta ancia
crescente de melhoramentos sempre novos que se
nota dominando o espirito caicóense. Luz elétrica,
hospital, collegio, jornaes, sociedades operarias e de
lettras, sports, tudo isto que, indiscutivelmente, signi-
fica vultuosa acquisição para uma cidade distante do
litoral. (...)
Aliás justiça seja feita, essa ancia de progresso se ha
evidenciado não so aqui mas em todas cidades do
Serido, dentre as quais se destaca, pelo grande e
justificado zelo, em que é tido o serviço de limpeza

9 ARRAIS, Raimundo. Recife: Culturas e Confrontos, p. 32.


121 |

publica e pela excellencia da sua illuminação eletrica,


a vizinha cidade de Jardim do Serido.
(...) Isso deve servir-nos de exemplo.10

Na crônica acima aparece a ideia de uma sociedade


inserida no projeto de modernização que foi a tônica dos
anos de 1920 e 1930 no Brasil e se encontrava fixado sobre
três eixos: a atuação técnico-científica da medicina com a
normatização dos corpos, a educação transformando as
“mentalidades” e, por fim, a engenharia organizando o
espaço. Renato Dantas, assíduo colaborador do jornal,
também foi uma das pessoas que se preocupou com a
adequação da cidade de Caicó aos novos tempos. Enumerar
os benefícios existentes no espaço da urb significava mostrar
aos leitores que a cidade estava sintonizada com os dis-
cursos de modernidade que ecoavam pelo país.
Essas conquistas materiais se instituíram por toda
parte como símbolos do moderno, constantemente reverbe-
radas independentemente do porte da cidade. Desse espaço,
o que nos interessa se configura menos por cenários urbanos
marcados pela agitação frenética no cotidiano das ruas com
seu rush característico, e mais por uma ou mais novidades, a
exemplo das que remetem à ideia de conforto e/ou rapidez
e que passam ao imaginário como signos modernos por
excelência.11 Isso afirma o lugar de cidade sintonizada com o
mundo moderno e civilizado. A construção de edifícios e a
existência de grêmios recreativos estavam condizentes com
uma sociedade educada, cujos comportamentos, hábitos,

10DANTAS, Renato. (Sem título). Jornal das Moças, Caicó, p.01.


11 abr.1926.
11ARANHA, Gervásio Batista. Seduções do Moderno na Parahyba

do Norte: Trem de Ferro, Luz Elétrica e Outras Conquistas


Materiais e Simbólicas (1880-1925). In: Ó, Alarcon Agra do et al.
Obra citada, p. 87.
122 |

diversões e linguagens buscavam refletir os padrões civili-


zatórios das grandes cidades do Brasil.
Entretanto, um ponto merece ênfase nesta discussão:
a vizinha cidade de Jardim do Seridó fazia jus na crônica
pelo zelo que possuía na sua limpeza pública e na excelente
iluminação elétrica. Esse mote serviria para alertar a muni-
cipalidade de Caicó a se esforçar para manter, num mesmo
nível de progresso material, o asseamento das ruas da
cidade e o cuidado com o traçado urbano, pois seriam
pontos que denunciariam o nível de civilidade de Caicó.
Contudo, o “progresso material” de uma sociedade
também deveria ser acompanhado pelo seu “progresso cul-
tural”. Por este motivo, novamente Jardim do Seridó, cidade
vizinha a Caicó, foi retomada como referência, pois já
possuía o seu “club”, um espaço adequado aos anseios da
“elite” intelectual.
Renato Dantas, em suas idas e vindas entre Recife,
Rio de Janeiro, e pelas cidades de Parahyba do Norte e
Campina Grande, estava sintonizado com as novas ideias e
suas adequações ao espaço sociocultural caicoense. Além de
requisitar por meio de suas crônicas um “club dansante”,
que reuniria os membros da alta sociedade, observamos que
outros divertimentos foram tomados pelo cronista como
“divertimentos da plebe”: o passeio no carrossel e o
Carnaval (entrudo) eram tidos como incompatíveis às novas
formas de comportamentos. De acordo com a crônica: “não
podemos fechar os olhos a certos hábitos que ainda possuí-
mos em completo desacordo com os modernos costumes
sociais”. 12
A construção dos novos hábitos dessas elites impli-
cava em combater o outro: o universo da cultura popular
que se expressava no espaço urbano. Vivia-se o apogeu da
ideologia cientificista que transformou a modernidade em

12 ARRAIS, Raimundo. Recife: Culturas e Confrontos, p. 32.


123 |

um verdadeiro mito, cultuado pelas “elites”. Mais do que


nunca a cultura popular foi identificada com negativismo,
na medida em que não compactuava com os valores da
modernidade. A “elite” intelectual deveria afastar-se dos
menos esclarecidos, dos que não estivessem à altura dos
novos comportamentos. Portanto, o espaço urbano foi um
campo de conflitos dos vários grupos sociais e nele estavam
inscritas diversas imagens elaboradas por esses grupos:
“Para os modernizadores – literatos, bacharéis, médicos – a
cidade materializava vícios que precisavam ser comba-
tidos”. 13

Caicó e as Pedagogias do Moderno

As “croniquetas” dos jornais revelaram uma cidade


em transformação. No ano de 1925 houve a chegada da luz
elétrica e a instalação do Colégio de Freiras – e a posterior
fundação do Educandário Santa Terezinha do Menino Jesus
para atender às necessidades da “elite” que desejava uma
educação “europeizada” para suas filhas. Esta questão
encontra-se bem retratada na crônica assinada por C. J.
quando enumerou as benfeitorias trazidas pelo “progresso”
à cidade:

Vejamos: aqui, uma usina electrica muito bem


instalada com já um anno de funcionamento; alli, um
collegio de irmãs, que, dada a relatividade do tempo
de quando funcciona, offerece ao visitante a mais
consoladora impressão. Acolá, ergue-se majestoso o
Grupo “Senador Guerra”, que nesses últimos annos
há obtido classificações superiores aos demais no
Estado, tanto na matricula e na freqüência, como no
aproveitamento dos alumnos e um pouquinho mais

13 ARRAIS, Raimundo. Obra citada, p. 54.


124 |

além, divisa-se o moderno prédio – Hospital do


Seridó – [...]. 14

O cronista C. J. descreveu uma cartografia do espaço


indicado por advérbios como “alli”, “acolá”, “mais além”
que anunciavam a chegada de elementos do moderno: a
eletricidade, a instrução, a assistência à saúde (Hospital do
Seridó), por exemplo. Ausente por alguns anos da cidade, o
autor se mostrou surpreso diante do que chamou de
“adiantado” progresso. Aqueles benefícios enumerados
indicavam uma preocupação, nesse espaço, com os projetos
técnicos, de educação e de saúde que compunham a plata-
forma política do governador José Augusto Bezerra de
Medeiros à época.
Observamos no texto acima, por um lado, o es-
tranhamento do autor com as inovações encontradas na
cidade de Caicó e por outro, como se recobrasse na memória
que esse projeto fazia parte da “índole” desse espaço,
percebeu-o como um longo projeto que colocava em prática
suas continuidades. Os benefícios enunciados na crônica
faziam parte de uma cidade que tomava conhecimento dos
benefícios advindos com o progresso não só do presente,
mas daquilo que veio dos antepassados. Em sua análise,
Caicó seguia uma direção que parecia natural e já há muito
esperada, pois “é continnuação daquelles que nos antecederam e
que com as suas virtudes civicas nos legaram um exemplo de
entranhado amor á terra natal”. 15
Uma cidade do interior do país que em meados da
década de 1920 pudesse contar com a sua usina elétrica,
mesmo que por algumas horas; um hospital estabelecido
num moderno prédio para atender à população da cidade e
da região, e alguma infraestrutura escolar, poderia ser vista

14 C. J. Choniqueta. Jornal das Moças, Caicó, p. 02. 20 de jun. 1926.


15 Idem.
125 |

como uma cidade avançada. Quanto a esta última questão,


podemos elencar alguns espaços voltados para a educação
dos habitantes de Caicó e circunvizinhança: o grupo escolar
Senador Brito Guerra, que era considerado um modelo no
âmbito estadual; o Colégio Santa Terezinha, de propriedade
particular e uma instituição tradicional na cidade – que
preparava as moças para um bom casamento, ensinando-
lhes economia doméstica e, entre outras atividades, religião.
Todo o mapeamento adverbial dos benefícios exis-
tentes na cidade, apontados pelo ausente cronista, forneceu
um interessante quadro que nos permitiu perceber as mu-
danças no espaço citadino, beneficiado com elementos que
mudaram a vida das pessoas na cidade, mesmo que essa
mudança não fosse percebida de modo tão significativo.
Por este ângulo, podemos afirmar que o projeto de moder-
nização para a cidade de Caicó, defendido pela “elite” que
escrevia nas folhas do Jornal das Moças, era evidenciado a
partir das enunciações postas através das crônicas no
periódico. Portanto, tomou-se esse espaço como um lugar
de investimentos e crenças de sentidos diversos, uma vez
que “qualquer espaço é fruto de sucessivos extratos cons-
tituídos por nomes, símbolos, ícones, textos, mapas, ditos e
formas de ver e fazer”. 16
Além de elencar os benefícios modernos existentes
em Caicó, o Jornal das Moças também demonstra nas crônicas
outras preocupações, a exemplo da crítica ao compor-
tamento de alguns indivíduos em relação à arborização da
cidade. Neste sentido, aponta o pseudônimo Flor de Liz:

Causa-nos muita lastima esse péssimo costume dos


meninos bem dignos da mais severa providencia dos
senhores pais de família, é verdade, porem hoje,

16ALBUQUERQUE Jr., Durval Muniz de. Zonas de Encrenca:


Algumas percepções sobre poder e espaços, p. 04.
126 |

queremos falar que há também adultos que ajudam


ou completam a danificação das cajaraneiras da
Avenida! (...) com sincera revolta temos presenciado
tantas vezes por aqueles que deviam zelar as
indefesas arvores, balsamo das nossas horas de
abrasado calor, encanto adorável das nossas praças
publicas e maravilhoso enleio das nossas ruas sem
calçamento. 17

A crítica feita por Flor de Liz na crônica acima realça


o repúdio ao comportamento destruidor das pessoas em
relação às árvores, que além de enfeitar a cidade, ofereciam
à população a sua “função clorofiliana”, tornando-a puri-
ficada.
Notamos que a narrativa a respeito da natureza
aparece humanizada na crônica. Sugere-se uma intimidade
quando se fala das árvores, um romantismo, uma dimensão
mítica, “pelo seu poder evocativo, por inspirar emoções e
sentimentos”. Assim sendo, a possibilidade de resignificar o
contato com o mundo natural faz com que se distinguisse
certa racionalidade e funcionalidade no contato com este
mundo. A crônica ainda ressalta as funções de sombreiro
das indefesas árvores, que, as dotando de qualidades femi-
ninas e delicadas, possibilita-nos concluir que o usufruto da
natureza tornou-se produto de uma construção do social, de
significados que são atribuídos pelos próprios homens.
A crônica de Flor de Liz converge com o código de
posturas do município da época, que estabelecia regras e
comportamentos ao tratamento que as pessoas destinavam
às árvores: “Art. 45 – Os que destruírem ou damnificarem as
arvores ou cercados em que estiverem plantados, ou nellas
amarrarem animaes, ficam sujeitos a multa de 10$ a 15$000.”18

17Flor de Liz. Notas. Jornal das Moças, Caicó, p.02. 23 maio 1926.
18Código de Posturas de Caicó, Intendência Municipal de Caicó,
Lei nº 78, 18 jan. 1928.
127 |

Essa postura mostrou a preocupação do município


em organizar a vida da cidade de forma a mostrar que as
autoridades não estavam alheias às atitudes de alguns
indivíduos de péssimos hábitos. “A nova urbe deveria
afigurar-se como moderna, racional, construída em linhas e
ângulos retos, com largas avenidas, parques e praças e uma
ampla arborização”.19 Esta mesma preocupação belo-
horizontina aplicava-se também a Caicó.
Dessa forma, o Código de Posturas se inseria nesse
espaço como um regulador de práticas cotidianas, impondo
multas caso houvesse algum desvio de conduta por parte
das pessoas. Como um regulador de práticas, o código
determinava leis sobre a organização do território muni-
cipal, a edificação do patrimônio, a higiene e, dentre outros,
a salubridade pública, tentando controlar o crescimento
desgovernado da cidade. 20
Entretanto, o estabelecido desde a crônica anterior
não se situava apenas na elaboração de punições em relação
àquelas atitudes, mas sim algo que está relacionado ao
cotidiano, ou seja, essa relação estabelecida de danificação
em relação às árvores mostra que boa parte das pessoas
estava à margem das discussões que refletiam sobre as tro-
cas gasosas, a renovação do ar, ou mesmo o arrefecimento
do clima a partir da preservação das árvores.
Os artigos escritos nos jornais evocavam a ideia de
que aquela sociedade também tentava se inserir na lógica da
modernização, do progresso e da civilidade, preocupando-
se com o comportamento das pessoas em relação às árvores
que embelezavam, mas que também serviam para proteger
os transeuntes do sol. O “Capítulo VIII” do Código de
Posturas de Caicó indicava que “[...] para arborisação da cidade

19DUARTE, Regina Horta. História e Natureza.


20SCHWARCZ, Lilia Moritz. Retrato em branco e preto: jornais,
escravos e cidadãos em São Paulo no final do século XIX, p. 48.
128 |

e das povoações serão preferidas as arvores: - o ficus benjamim, o


eucalypitus e a mangueira.” 21
O papel desses artigos do Código era educar a
população e esclarecer sobre a importância das árvores
plantadas no meio e ao largo das ruas, além de terem elas
sido selecionadas por suas resistências ao ambiente quente e
seco da região do Seridó. Afirma José Augusto, em seu livro
Seridó, que os projetos de rearborização para esse espaço
estampavam sua preocupação num “reflorestamento da
maior área possível da zona seca do Nordeste, principal-
mente das circunjacências dos açudes”,

É irrecusável, porém, que, além das secas, o passo


humano e o machado, de que falou Bilac, têm
concorrido poderosamente para devastar, sem que se
cuide de substituir, as espécies vegetais que existiam
nas suas caatingas e nas várzeas dos seus riachos e
rios secos e que as condições agrológicas permitem
reflorestar. Cumpre restaurá-las e protegê-las. Não se
trata de reflorestamento, pois florestas não existiram,
mas de rearborização. Nesse sentido foi benemérita a
ação do Sr. José Américo de Almeida, como Ministro
da Viação, instituindo o Serviço de Reflorestamento
da Inspetoria de Secas [...]22

Esse projeto atingiu as camadas mais altas. Pro-


vavelmente as insistentes reflexões sobre a arborização
advinham do projeto maior em âmbito estadual, princi-
palmente no exercício do governo de José Augusto. Reflo-
restar as áreas quentes significaria diminuir o calor e a
aridez, particularmente de um solo como o da região seri-
doense. É importante levar em consideração que concomi-

21Código de Posturas de Caicó, Intendência Municipal de Caicó,


Lei nº 78, 18 jan. 1928. Capítulo VIII, Da Arborisação. p. 13
22 MEDEIROS, José Augusto Bezerra de. Seridó, p. 53.
129 |

tante à necessidade surgida de se ter nas cidades praças e


outros lugares ornados com árvores sombreiras, se refazia
uma ideia de natureza em conformidade com o que se
queria dela. Esta atitude também se justificava pelo orgulho
que a sociedade possuía de suas paisagens, o que acabaria
levando à recriação da natureza e à construção dos parques
nacionais. 23
A temática da arborização prevalecia como preocu-
pação constante do editorial do Jornal das Moças:

No parecer unânime dos hygienistas é por meio da


arborisaçao principalmente que este problema se
resolve de modo fácil. O que seja á arvore e quais
seus benefícios são coisas que até as creanças não
ignoravam. Contudo, diante do atrevido procedi-
mento de certas pessoas que, alem de danificarem a
arborisaçao publica por que tanto se tem empenhado
a nossa Municipalidade, criticam desfavoravelmente
os que cuidam de plantar arvores na cidade, cumpre
nos citar concluindo, num appelo aos caicóenses para
intensificarem a nossa arborisaçao, as palavras do
mais iminenete hygienista americano “há mais saude
numa choupana rodeada de arvores do que num
palácio sumptuoso onde não se veja plantas”. 24

Munindo-se de leituras científicas, a argumentação


da crônica prosseguia procurando mostrar a importância da
preservação das árvores e a relação imediata com o abran-
damento do calor de cidades quentes, como no caso de
Caicó. Na tentativa de justificar as atitudes das pessoas que

23Conferir esta discussão em DUARTE, Regina Horta. História e


Natureza. Para saber mais sobre esta discussão, ver também
SEGAWA, Hugo. Ao Amor do Público: jardins no Brasil.
24 (Sem autoria). Pelas Arvores. Jornal das Moças, Caicó, p.01. 27

jul. 1926.
130 |

danificavam a arborização da cidade, o autor se referiu às


teorias deterministas que refletiam sobre a influência do
clima equatorial na formação do caráter do indivíduo, pois
segundo essas teorias, havia uma tendência de desvio no
caráter dos indivíduos em virtude do calor excessivo próxi-
mo à linha do Equador. Ressalta-se ainda, na crônica trans-
crita acima, a importância da vegetação para o abranda-
mento do calor.
Outra crônica, dessa vez publicada no Jornal do
Seridó, reflete sobre a venda de mercadorias expostas sob o
chão, chamando a atenção dos feirantes para que esse hábito
fosse revisto, pois se constituía uma séria ameaça à saúde
pública:

Medida de Higiene
O nosso Codigo de Posturas vigente, decretado
ultimamente em substituição ao antigo, cuja reforma
já se fazia necessária prohibe terminantemente a
venda de mercadorias expostas no chão, a granel,
recommendando o seu acondicionamento em caixões,
sacos, cestos ou taboleiros e perscrevendo aos
infractores a pena de 10 $ a 20 $ de multa, a 1 a 2 dias
de prizao.(...)
O povo não tem ainda noção de que as grandes coisas
nascem das pequenas.
Não se lembra que o micróbio tem sido e será o
flagello da humanidade, entretanto é elle tão peque-
no que so com o auxilio do microscopio podemos
observa-lo.(...).25

O autor da crônica enfatizou o hábito dos feirantes


de comercializar os produtos expostos ao chão em detri-
mento das novas práticas de acondicionamento e de higiene,

25(Sem autoria). Medida de Higiene. Jornal do Seridó, Caicó, 03


nov. 1928.
131 |

segundo as novas descobertas da medicina. Por isso, o


cronista demonstra a intenção de divulgar e colocar em
pauta junto à sociedade caicoense esses velhos hábitos. A
ênfase era posta na ideia de que muitas doenças e epidemias
eram provocadas por organismos minúsculos, os micróbios,
e, portanto, havia a necessidade de educar a população no
sentido de se disseminarem hábitos mais salutares no
manusear, expor e acondicionar os produtos que eram
comercializados.
Atendendo a essas novas necessidades, a questão da
saúde pública foi incluída no novo Código de Posturas da
cidade de Caicó, que determinava a forma mais adequada
para venda dos alimentos em feiras livres: “Art. 77, parágrafo
XII – Collocar os gêneros e mercadorias, conforme as suas diversas
espécies em logares differentes dos que forem determinados pelo
fiscal ou pelo zelador ou administrador” 26.
Os que estavam à frente da administração da cidade
tinham contato com as teorias higienistas e com os profissio-
nais da engenharia sanitária que estavam preocupados em
conhecer e eliminar os miasmas, os micróbios; e eles eram,
portanto, os responsáveis pela divulgação e pela subjetiva-
ção dos preceitos de limpeza. Dessa maneira, ficar em
sintonia com os discursos de salubridade era uma forma de
difundir as medidas eugênicas e combater as chamadas
práticas tradicionais.
Portanto, pensamos que enquanto não houvesse uma
subjetivação das novas ideias não haveria mudança nos
hábitos comportamentais e seria necessário impor pela força
da lei (no caso o Código de Posturas) novas atitudes. A noção
de higiene pública, juntamente com a técnica de controle e
de modificação dos elementos materiais do espaço citadino,
que eram susceptíveis a favorecer ou a prejudicar a saúde,

26Código de Posturas de Caicó, Intendência Municipal de Caicó,


Lei nº 78, 18 jan. 1928. Capítulo VIV. p.14.
132 |

foram os principais pontos de reflexão de muitas das crô-


nicas escritas em Caicó nos anos 1920.
Como fazer, contudo, a população agregar novos
hábitos às suas vidas? Note-se que nas propagandas e crô-
nicas dos jornais havia um apelo à instituição familiar como
aporte para incutir no seu cotidiano as mudanças buscadas
pela modernidade. Nessa medida, a busca e o apelo à
instituição familiar foi o aporte utilizado em algumas nas
crônicas. Segundo Herschmann e Pereira, “A integração
familiar à ordem urbana foi um dos objetivos mais ardua-
mente perseguidos pela medicina higienista” 27.
Podemos assim repensar os lugares ocupados pelos
médicos, engenheiros e educadores como articuladores de
novos modelos de condutas no privado e no público. Pois
além de civilizar, era preciso uma política de práticas para
que a sociedade incorporasse novos hábitos, realizando uma
normatização intensa, muitas vezes, autoritária e sem
fronteiras. Era preciso, portanto, disciplinar a sociedade,
incutir valores, e desse modo destruir, os “vícios” e as
“perversões” que tanto ameaçavam os centros urbanos.

Considerações Finais

Dessa forma, uma cidade que se queria civilizada


deveria contar com os signos do progresso, como luz
elétrica, escolas, hospitais, telégrafos. Contando com um ou
outro signo da vida moderna – seja relacionado ao
higienismo e/ou aos novos meios de comunicação e, dentre
outros, transporte,– constituiria uma espécie de termômetro

27MURICY, Katia. A Razão Cética: Machado de Assis e as


questões de seu tempo, p. 14 citada por HERSCHMANN, M.
Micael; PEREIRA, C. A. M. (Orgs.). A Invenção do Brasil
Moderno: medicina, educação e engenharia nos anos 20 e 30, p.
27.
133 |

para avaliar qual cidade seria mais ou menos civilizada.


Assim, nesse artigo a prioridade foi pensar Caicó não pelo
plano que se configurava nos cenários urbanos de agitação
frenética e de rush característico, mas pela associação da
modernização anexada às conquistas materiais que passam
ao imaginário urbano como símbolos do moderno.
134 |
135 |

A IMAGEM DA PRINCESA
(1950 – 1980)1
Gênison Costa de Medeiros

O texto aqui apresentado é o resultado de uma


pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em
Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte,
concluída no ano de 2010. O que pretendemos é trazer um
panorama dessa pesquisa de maneira a levar o leitor a
entender a sua realização e as considerações sobre a paisa-
gem urbana da cidade de Currais Novos/RN – a Princesa do
Seridó – a partir das representações imagéticas captadas pelo
fotógrafo Raimundo Bezerra entre os anos de 1950 a 1980. O
que se segue são compreensões produzidas a partir das
imagens do fotógrafo em questão, de forma a evidenciar o
conteúdo simbólico da paisagem urbana de Currais Novos e
seus discursos de modernidade.
É legítimo que não existe pesquisa científica sem um
problema a ser resolvido e, nesse entendimento e caminho,
nos postamos diante de questões que apareceram no mo-
mento em que nos deparamos com as fotografias captadas
por Raimundo Bezerra. As primeiras impressões foram de
uma representação que associava duas compreensões acerca

1 Texto resultante da dissertação Fotografia e paisagens da moder-

nidade: Currais Novos de 1950 a 1980, defendida em 2010 no


Programa de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia da Univer-
sidade Federal do Rio Grande do Norte, sob orientação da Profª.
Drª. Maria Helena Braga e Vaz da Costa. O autor agradece à
orientadora pela valiosa contribuição no processo de construção
desse texto.
136 |

do espaço urbano da cidade de Currais Novos: a primeira


de uma cidade pitoresca do interior do Estado do Rio
Grande do Norte na segunda metade do século XX; a outra,
de uma paisagem urbana que destoava de uma realidade
regional que, aparentemente, deveria ser mais opaca e
menos exuberante.
Isso veio à tona, em um primeiro momento, pelo fato
dessa cidade estar situada em um espaço onde as relações
sociais, culturais e econômicas se colocavam numa pers-
pectiva mais tradicional e longe dos centros urbanos pun-
gentes de cosmopolitismo. Essa cidade apresentava, no
período2 do recorte da pesquisa, feições que nos permitem
falar de uma peculiar modernidade sendo praticada, produ-
zida e reproduzida e que tomou forma na interpretação de
Raimundo Bezerra.
Currais Novos, ou Princesa do Seridó, como aparece
claramente no hino da cidade, composto por Antônio
Quintino Filho, é uma dessas cidades que traz, em sua
história, arquétipos e modelos urbanos que se mostram na
contramão de uma aparente realidade.

2 A partir do ano de 1943, começa a ser explorado na cidade de


Currais Novos o minério de scheelita. Esse período da mineração
traz à cidade uma identidade moderna traduzida pela chegada do
rádio, do cinema, da construção de um hotel e, dentre outros, das
indústrias. Estes produzem o espaço dessa cidade, transformando-
a em vitrine dos mais sofisticados equipamentos urbanos de que
se tem notícia na região do Seridó. Assim, podemos inferir que, a
partir de meados do século XX uma peculiar modernidade passa a
ser praticada em Currais Novos, o que representará para a cidade,
em anos posteriores ao início da mineração, ser elevada ao posto
das 500 cidades mais desenvolvidas do país.
137 |

Ó Currais Novos bonita,


Princesa do Seridó,
Ante a Serra de Sant’Ana
E o Pico do Totoró,
Ó cidade sedução
Por tanta gente querida
Eu sinto, com a tua vida,
Orgulho do meu sertão.

Estribilho:
Currais Novos Sedução
Minha cidade querida
Com as flores do coração
As flores de nossa vida (bis)

Teus hospitais, institutos


A estudantada vibrante
Minerações, novas ruas
Parecem gritar: Avante!
E com o progresso se sente
Na integração redentora
A frase confortadora
O meu Brasil “vai pra frente”

Estribilho:
Currais Novos Sedução
Minha...

Ó terra de tradições
De um povo pacato e forte
Pedra rara no diadema
Do Rio Grande do Norte
Minha querida cidade
Aceita com o nosso hino
A glória do teu destino
Em busca da imensidade
138 |

Estribilho:
Currais Novos sedução
Minha cidade querida
Com as flores do coração
As flores da nossa vida (bis)3

No itinerário proposto pelas imagens de Currais


Novos o intuito era o de compreender: que cidade é essa
que se apresentava a nossos olhos? Como ela estava sendo
representada? Que discursos eram produzidos, reprodu-
zidos? Que paisagem tomava forma na imagem fotográfica?
Dizer que Currais Novos é moderna não é nosso
intuito, mas, antes de qualquer coisa, desvendar o papel da
imagem na produção do discurso sobre a cidade, revelando
portanto, uma dimensão que é cultural, social, espacial,
temporal...

Rastros e itinerários da pesquisa

A pesquisa com a fotografia sempre pareceu um


desafio, na medida em que passamos a lidar com um tipo de
documentação que se encontra, muitas vezes, nos fundos
dos baús, escondidas e esquecidas pelos donos desse patri-
mônio, ou no nível da pouca tradição da leitura fotográfica
no âmbito da Geografia.
Geralmente, no primeiro contato com as imagens no
campo da pesquisa, deparamo-nos com objetos empoeira-
dos, depredados pela ação do tempo e do espaço alocado.
Outra dificuldade: saber que sujeitos eram os detentores
dessa documentação. O trabalho foi realmente de arqueolo-
gia4, de pinceladas lentas, aonde íamos descobrindo uma

3 Hino retirado do livro Totoró, Berço de Currais Novos, de Joabel


Rodrigues de Souza.
4 Esse trabalho de arqueologia da imagem foi responsável pela

montagem de um acervo imagético composto por fotografias


139 |

imagem aqui, outra ali. O primeiro passo sempre foi o de


encontrar familiares dos fotógrafos, ou o próprio fotógrafo,
se este ainda estivesse vivo.
Esse trabalho na cidade de Currais Novos começou
dessa maneira. Visitamos diversos lugares: a Fundação José
Bezerra Gomes, o Arquivo Municipal, a Escola Municipal
Capitão Mor Galvão e casas de diversas famílias. Nesse
processo lento, seguimos os rastros dessas imagens como
verdadeiros arqueólogos, dispostos a encontrar algo que
nem sabíamos, ao certo, de sua existência.
Nessa verdadeira perseguição, iam surgindo de
forma mais recorrente imagens de dois fotógrafos: Helena
Coelho e Raimundo Bezerra. A primeira, fotógrafa de
Currais Novos na primeira metade do século XX, o segundo,
fotógrafo dessa cidade na segunda metade deste mesmo
século.
A obra de Raimundo Bezerra sempre chamou a
atenção pela pluralidade temática5. Eram eventos religiosos,

captadas em grande parte das cidades da região do Seridó, como


objetivo dos projetos “Fotografia e Complexidade: Itinerários
Norte-Rio-Grandenses” e “Espaço e Memória: o Seridó Potiguar
nas Fotografias dos Séculos XIX e XX”, coordenado pela Profª. Drª.
Eugênia Maria Dantas. O acervo organizado conta, aproxima-
damente, com 3.000 fotografias que versam sobre as mais diversas
temáticas do espaço seridoense. Diante dessas imagens tivemos a
oportunidade de vislumbrar tempos e espaços de uma região
regada de configurações espaciais e de épocas distintas e de uma
cultura singular. As fotografias de Currais Novos e, especifica-
mente, as de Raimundo Bezerra, “falavam” de um período austero
de crescimento urbano que se processava dentro da transição
econômica da atividade agropastoril para a produção do minério
de scheelita.
5 Dessa pluralidade temática, conhece-se hoje aproximadamente

200 fotografias que tematizam a paisagem urbana da cidade de


Currais Novos.
140 |

cívicos, políticos, culturais; imagens das paisagens urbanas


com seus monumentos, sua arquitetura, suas ruas e praças,
de maneira a levar o espectador a visualizar a cidade em
suas diversas facetas, sob uma linguagem e uma impressão
fotográfica. Isso pode ser explicado uma vez que, Raimundo
Bezerra, sendo o fotógrafo oficial da cidade, realizava o seu
trabalho em várias direções. Foi um amante da fotografia e
captava imagens da cidade por conta própria, mas também
prestou serviços, de maneira mais significativa à elite
curraisnovense, a empresas privadas e a órgãos públicos.

Figura 11
Tungstênio Hotel (1953), Caixa d’água da CAERN (196?) e fila do
antigo INPS (197?)

FONTE: Da família do fotógrafo. Acervo digital do Projeto


“Fotografia e Complexidade: itinerários norte-rio-grandenses”.
FOTOGRAFIA: Raimundo Bezerra

Assim, percebemos que existia uma grande recorrên-


cia de imagens sobre a paisagem urbana de Currais Novos.
Também percebemos que este fotógrafo trazia um olhar
diferenciado se comparado ao conjunto de imagens dos
vários outros fotógrafos que captaram imagens no Seridó no
século XX. A trama imagética produzida por Raimundo
Bezerra apresentava uma paisagem do processo, da trans-
formação, da racionalidade, do progresso e da civilidade.
141 |

Figura 12
Desfiles cívicos (1964, 1964 e 1958)

FONTE: Da família do fotógrafo. Acervo digital do Projeto


“Fotografia e Complexidade: itinerários norte-rio-grandenses”.
FOTOGRAFIA: Raimundo Bezerra

Interessamo-nos em promover uma leitura dessas


imagens, entendendo que elas possuíam o potencial de
promover um olhar diferenciado sobre a paisagem urbana
de Currais Novos. Essas fotografias são representações que
alimentam o imaginário social e agem como dispositivo de
legitimação de um discurso, produzindo significados. A
nossa leitura caminhou na direção de perceber a paisagem
imagética enquanto uma conformação de um olhar sobre a
paisagem urbana de Currais Novos, uma visualidade cons-
truída a partir de um ponto de vista e uma maneira cultural
de se enxergar as configurações espaciais dessa cidade.
142 |

Figura 13
Narrativas das transformações urbanas (década de 1960). A última
foto traz um panorama da Praça Cristo Rei

FONTE: Da família do fotógrafo. Acervo digital do Projeto


“Fotografia e Complexidade: itinerários norte-rio-grandenses”.
FOTOGRAFIA: Raimundo Bezerra

Dadas essas afirmações, a pesquisa apresentada aqui


está embasada em um método de análise que vislumbra a
representação fotográfica enquanto um meio que permite
construir significados espaciais sobre a cidade de Currais
Novos. Neste momento, não nos deteremos em discutir
detalhadamente como compreendemos conceitualmente a
fotografia, a paisagem e a modernidade, mesmo sabendo
que são conceitos essenciais para o melhor entendimento
desse trabalho6. No entanto, não podemos deixar de citar

6Ver MEDEIROS, Gênison Costa de. Fotografia e paisagens da


modernidade: Currais Novos de 1950 a 1980. Dissertação
143 |

que a fotografia foi entendida enquanto meio de represen-


tação e, dessa maneira, são interpretações hermenêuticas e
fenomenológicas da realidade. Tratamos, portanto, as foto-
grafias em diversos níveis e encontramos nas ideias de
Dubois7, um suporte para pensar as imagens a partir do “ato
fotográfico”.

Figura 14
Panorama da Praça Cristo Rei, Obelisco Ulisses Telêmaco e
normalistas posando no coreto

FONTE: Da família do fotógrafo. Acervo digital do Projeto


“Fotografia e Complexidade: itinerários norte-rio-grandenses”.
FOTOGRAFIA: Raimundo Bezerra

(Mestrado em Geografia) - Pós-Graduação em Geografia, Univer-


sidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2010.
7 DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico e outros ensaios.
144 |

No nível da paisagem, nossa compreensão vislum-


brou ideias sobre uma paisagem que não se revela, apenas,
nas configurações espaciais. Ela é mais do que isso, ela é
uma “maneira de ver”, uma “matriz cultural” e, portanto,
surge da interação/interpretação subjetiva homem/na-
tureza. Vários são os autores em que nos aportamos: Cos-
grove, Duncan, Berque e Claval8. Do ponto de vista da
compreensão do discurso da modernidade, Berman9 possi-
bilitou perceber esse momento enquanto uma experiência
vital de tempo e espaço, onde o mundo entra num turbilhão
de transformações que interferem na reestruturação das
identidades, dos espaços urbanos, das artes e das diversas
contradições que passam a ser encenadas no contexto
mundial.
A partir das compreensões conceituais adotadas nes-
se trabalho, realizamos uma leitura das imagens explo-
rando-as numa perspectiva textual e intertextual. Por vezes,
tomou-se a produção geral como referência, por outras,
dirigiu-se o olhar sobre imagens isoladas para compreender
a composição e a estrutura semântica que abstrai signi-
ficados precisos sobre a paisagem.

8 COSGROVE, Denis. A Geografia está em toda parte: cultura e


simbolismo nas paisagens Humanas. In: CORRÊA, Roberto
Lobato; ROSENDAHL, Zeny (Org.). Paisagem, tempo e cultura,
p.92 – 123. DUNCAN, James. Paisagem como sistema de criação
de signos. In: CORREA, Roberto Lobato; ROSENDAHL, Zeni
(Org.). Paisagens, textos e identidade, p. 91-144; BERQUE,
Augustin. Paisagem-Marca, Paisagem-Matriz: elementos da pro-
blemática para uma Geografia Cultural. In: CORREA, Roberto
Lobato; ROSENDAHL, Zeny (Org.). Paisagem, tempo e cultura, p.
84-91; CLAVAL, Paul. A paisagem dos geógrafos. In: CORRÊA,
Roberto Lobato; ROSENDAHL, Zeny (Orgs.). Paisagens, textos e
identidade, p. 13-74.
9 BERMAN, Marshall. Tudo o que é sólido se desmancha no ar: a

aventura da modernidade.
145 |

O que as imagens revelaram da Princesa10

As paisagens imagéticas de Currais Novos, captadas


e produzidas pela câmera de Raimundo Bezerra, são narra-
tivas espaciais que revelam os nexos e intuitos a que servem
essas representações, produzindo um olhar particular do
fotógrafo sobre a paisagem urbana curraisnovense. A di-
mensão espacial captada/construída pelo fotógrafo trans-
forma-se em um achado cultural, já que está imbuída de
subjetividades que afloram da relação dialógica entre o
concreto e o imagético.
A paisagem, nesse sentido, foi compreendida en-
quanto experiência e experimentação, uma vez que ela só
existe pela contemplação, pela percepção e pela cognição.
Ela é uma “maneira de ver”, um “texto” escrito em “carne e
pedra”11 e exprime “marcas” deixadas pelo trabalho huma-
no que resultam em “matrizes” de significados gerados pela
relação entre o mundo e o olhar.
No trabalho de captação/construção da imagem
fotográfica, a ideia de recorte espacial guiou nossa leitura na
medida em que proporcionou a interpretação da imagem a
partir de quatro eixos fundantes do ato fotográfico: o espaço
referencial, o espaço representado, o espaço de represen-

10 As considerações expostas nesse tópico colocam em relevo o


significado construído na leitura das imagens de Raimundo
Bezerra que privilegia as múltiplas temáticas e perspectivas da
paisagem urbana de Currais Novos. Assim, tais imagens
analisadas na produção da dissertação foram subdivididas e
agrupadas nos seguintes tópicos: Imagens da cidade; A paisagem
panorâmica, Paisagens da Praça Cristo Rei; Tungstênio Hotel:
transformação e racionalidade da paisagem, A construção de uma
paisagem moderna: a arquitetura em foco; A rua e seus usos:
espacialidade dos eventos sócio-culturais e Retrato das transfor-
mações urbanas.
11 SENNETT, Richard. Carne e Pedra.
146 |

tação e o espaço topológico. Essa compreensão da imagem


considerou não apenas a captação da imagem pelo fotó-
grafo, mas a forma como se visualiza, percebe-se e
significam-se essas imagens/paisagens. A paisagem, neste
trabalho, foi compreendida enquanto invenção/produção
do sujeito e, portanto, colocou em evidência a dimensão
cultural à qual nos dirigiram os olhares ao longo de todo o
texto.
Ao entender o fotógrafo enquanto um usuário-leitor
que “vagueia” pela cidade, tendo no olhar a chave para a
interpretação espacial, percebeu-se que Raimundo Bezerra
revelou paisagens de Currais Novos com uma fisionomia
moderna, de modo que foi atribuído certo sentido valora-
tivo à natureza dessa paisagem. As imagens analisadas
revelaram paisagens captadas por filtros discursivos, media-
das por um contexto social, cultural e econômico, edificantes
de discursos sobre uma Currais Novos moderna, peculiar e
diferente, levando-se em consideração o contexto regional.
Mas, ainda, tornou-se evidente que as fotografias de Rai-
mundo Bezerra também fizeram parte da construção desses
discursos, uma vez que foram veiculadas pela mídia im-
pressa de Currais Novos e passaram a ser visualizadas por
sua população, compondo mais um elemento de estrutu-
ração do discurso.
Assim, considera-se que a cidade apresentada por
Raimundo Bezerra é resultado discursivo de como a moder-
nidade urbana, sendo construída por sua lente, torna-se
realidade na história da cidade e, principalmente, no ima-
ginário de seus habitantes, sobretudo na medida em que
essas imagens colocam em evidência a racionalidade do
espaço urbano, as transformações progressistas, a limpeza
das ruas e sua apropriação, a arquitetura modernista, a
ordem social e os monumentos. Tudo isso compõe uma
paisagem de modernidade para Currais Novos, de modo
que claramente constata-se que as fotografias de Raimundo
147 |

Bezerra possibilitam a conformação de uma imagem da


cidade, segundo os discursos que estão sendo difundidos
pelo mundo.
O olhar seletivo de Raimundo Bezerra sobre a
paisagem urbana possibilitou enxergar, ao longo das incan-
sáveis leituras sobre a fotografia, que este fotógrafo ressal-
tou aquilo que, para ele, era sinônimo de novo, de moderno.
Os aspectos pitorescos da cidade do interior que caracte-
rizavam Currais Novos foram (re)significados por sua lente
e conjugados a um conjunto de transformações e melho-
ramentos pelos quais a cidade vinha passando. O que foi
captado por Raimundo Bezerra produziu um discurso e
tornou-se, no limite que o dispositivo imagético alcançava,
realidade a partir de um ponto de vista. Assim, conside-
ramos que as paisagens imagéticas apresentadas são, antes
de tudo, parte de uma consciência e de uma experiência e
que tomam forma na medida em que são conhecidas,
reconhecidas e legitimadas, assumindo um lugar na memó-
ria e no imaginário dos habitantes da cidade.
A fotografia, nesse contexto, é o meio de represen-
tação que mais ratifica a modernidade em Currais Novos.
São paisagens que modelam uma maneira de ver o espaço,
uma vez que o espectador visualiza uma paisagem que fala
do progresso, da civilidade, da racionalidade expressa nas
formas urbanas e nos modos de vida. O subtexto a qual
essas imagens fazem menção ressalta uma paisagem em
processo que não passa despercebida pela lente de Raimun-
do Bezerra.
Diante das imagens de Currais Novos e da plurali-
dade temática, tornou-se possível visualizar os diversos
campos espaciais de composição citadina. Raimundo Be-
zerra foi além de sua prática profissional; foi além dos
retratos de família e dos close-ups captados em seu estúdio.
Ele produziu uma cartografia visual urbana que apresenta a
rua, os monumentos, a arquitetura e o movimento proces-
148 |

sual de transformação da paisagem. O seu campo foi elás-


tico, foi plástico e também imaginário, na medida em que
suas imagens dão conta de uma espacialidade (re)signi-
ficada por seu olhar.
A cidade apresentada por este fotógrafo é moderna;
possui ruas largas, grandes edificações, instalações de uso
público segundo um modelo progressista, praças adaptadas
às novas necessidades sociais... A cidade de Raimundo Be-
zerra pulsa com as realizações cívicas e religiosas, deno-
tando o homem da multidão, símbolo da modernidade, ou,
em outros momentos, no descanso do cotidiano com suas
ruas vazias que transfere o caráter temático às estruturas
físicas que compõem a cidade.
Raimundo Bezerra não só capturou e construiu
paisagens; ele teve a preocupação de falar sobre um espaço
do movimento que denota uma temporalidade impregnada
na espacialidade. Isso pode ser medido no modo em que o
movimento de revelação da paisagem da cidade moderna só
pode se dar quando se pretende dizer sobre o tempo do seu
processo, da sua transformação. As imagens tendem a levar
o espectador a visualizar um espaço datado, um espaço que
incorpora as novas ideias e valores, seja na maneira de
construir, de usar ou de ver.
A produção imagética de Raimundo Bezerra ainda
ressalta outros campos estéticos que alimentam as imagens
acerca da cidade. Ao retratar esses campos, o fotógrafo
construiu referências espaciais e imagéticas que produzem e
alimentam as percepções sobre Currais Novos. O Cristo Rei
e o Tungstênio Hotel são exemplos dessas referências. O
primeiro traz um conteúdo simbólico que materializa a
identidade citadina e reafirma o poder da igreja e da elite
local; o segundo desponta como um ratificador da reno-
vação da paisagem urbana. Pode-se, portanto, afirmar que,
nas imagens, essas referências são recorrentes e caracte-
rizam o campo estético do acervo analisado e produzem
149 |

uma paisagem imagética altamente identificada com esses


elementos.
Neste sentido, as fotografias de Currais Novos são
espaços de representação onde se condensam os panoramas
urbanos criados a partir de perspectivas que alimentam a
idéia de generalidade, que servem à representação do movi-
mento de transformação do todo, que apresentam os espa-
ços de sociabilidade e transformam a paisagem em espacia-
lidade funcional, que representam a rua na contramão
daquilo que é dito tradicionalmente, fazendo com que o
espectador experimente uma utópica cidade da ordem, da
norma, da moral e dos bons costumes e que privilegia as
novas estruturas urbanas para dar origem a um discurso de
modernidade.
Currais Novos, assim, apresenta-se moderna, nas
imagens captadas por Raimundo Bezerra, e suas paisagens
são o resultado dual entre aquilo que se apresenta ao olhar
do fotógrafo e a representação que este sujeito fez destas.
Neste contexto, a leitura realizada revela uma paisagem
imagética construída, dentre outras coisas, a partir de dis-
cursos que “inventaram” a modernidade de uma cidade.
150 |
151 |

UM OLHAR SOBRE A REFORMA


AGRÁRIA A PARTIR DO PROJETO DE
ASSENTAMENTO SERIDÓ1
Josimar Araújo de Medeiros
Maria José Costa Fernandes

Quando um sonha sozinho é somente


um sonho.
Quando todos sonham juntos, então, é o
começo de uma nova realidade.
D. Helder Câmara

A reforma agrária e os assentamentos rurais no Rio


Grande do Norte

A reforma agrária é apenas um dos elementos da


questão agrária que compreende uma discussão ampla e
complexa, antecedendo a formação dos assentamentos
rurais. Essa se constitui numa política pública – de caráter

1 O texto aqui apresentado é fruto das preocupações oriundas dos


estudos desenvolvidos pelos autores em nível de mestrado:
Josimar Araújo de Medeiros defendeu a dissertação Barragens
subterrâneas: base de sustentação do homem rural seridoense, em 2004,
no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Sanitária da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sob orientação do
Prof. Dr. Manoel Lucas Filho; Maria José Costa Fernandes
defendeu a dissertação Uma leitura geográfica da reforma agrária
potiguar, em 2005, no Programa de Pós-Graduação e Pesquisa em
Geografia da mesma universidade, sob orientação da Profª. Drª.
Rita de Cássia da Conceição Gomes.
152 |

institucional – cujo responsável pela sua realização é o


Estado. Ao contrário do que possa parecer, tal questão não
ocorre isoladamente, está relacionada com questões de
ordem política e urbana. Os problemas do campo refletem
questões mais amplas da sociedade. A miséria, por exemplo,
faz-se presente tanto no meio urbano quanto no rural. Essa
discussão feita anteriormente por diversos estudiosos no
âmbito da academia e dos movimentos sociais nos dá uma
base imprescindível para entendermos o contexto de surgi-
mento dos assentamentos, que são capazes de imprimir
mudanças na organização do espaço.
Para Romeiro a reforma agrária diz respeito a uma
discussão atual que tem o sentido de “ampliar as oportu-
nidades de emprego no campo, de modo a reduzir a pressão
da oferta de mão-de-obra no mercado de trabalho urbano-
industrial” 2.
A reforma agrária brasileira vem sendo realizada, na
maioria dos casos, como mera distribuição de terras. Desse
modo, não vem se configurando como uma política pública
eficiente. Por isso, alguns estudiosos da questão, como é o
caso de Bernardo Mançano Fernandes3, afirmam que no
Brasil existe uma política de assentamentos rurais, ao invés
de um verdadeiro processo de reforma agrária, face à preca-
riedade dos resultados, que se destina a apagar eventuais
focos de rebeldia.
O termo “assentamento” vem sendo muito utilizado
ultimamente, fazendo-se necessário esclarecer sua origem,
que está relacionada ao contexto de surgimento da reforma
agrária ocorrida na Venezuela em 1960, quando, na ocasião

2 ROMEIRO, Ademar Ribeiro. Reforma agrária e distribuição de


renda. In: STÉDILE, Pedro (Org.). A questão agrária hoje, p. 131.
3 FERNANDES, Bernardo Mançano. MST: formação e territo-

rialização.
153 |

o termo foi incorporado ao vocabulário jurídico e socio-


lógico, posteriormente se difundindo para os demais países.
Baseando-se no esclarecimento anterior, faz-se neces-
sário elencar os tipos de assentamentos segundo a classi-
ficação feita por Bergamasso e Norder4, os quais estabe-
lecem que, de acordo com a origem, os assentamentos rurais
podem ser classificados em cinco tipos: projetos de colo-
nização; reassentamento de populações atingidas por barra-
gens de usinas hidrelétricas; planos estaduais de valorização
de terras públicas e de regularização possessória; criação de
reservas extrativas e outras atividades relacionadas ao apro-
veitamento de recursos naturais renováveis e programas de
reforma agrária via desapropriação por interesse social, que
são os que predominam no Rio Grande do Norte e que são
objeto deste estudo.
A economia nacional, que tem reflexos na norte-rio-
grandense, é marcada por desequilíbrios regionais, os quais
também se manifestam na diversidade socioeconômica dos
assentamentos rurais. É necessário que as políticas de desen-
volvimento para os assentamentos levem em conta a diver-
sidade existente, já que as características físico-territoriais,
sociais, econômicas e institucionais de cada região não po-
dem ser desconsideradas no contexto da reprodução social e
humana dos assentados. A combinação desses aspectos pro-
dutivos e comerciais produz uma diferenciação socio-econô-
mica entre os assentamentos e, portanto, não podem, em
momento algum, ser negligenciados.
A criação desses assentamentos rurais no Estado
obedece a critérios nacionais previamente estabelecidos pelo
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
(INCRA), que consistem das seguintes etapas: vistoria, desa-
propriação, emissão de títulos, seleção e cadastramento dos

4 BERGAMASSO, Sônia M.; NORDER, Luís Cabello. O que são


assentamentos rurais.
154 |

agricultores contemplados, liberação de créditos e trans-


ferência de posse para os beneficiários. A seleção e cadas-
tramento de trabalhadores rurais em assentamentos são
orientados pelos critérios publicados no Estatuto da Terra
(1964), lei que “regula os direitos e obrigações concernentes
aos bens imóveis rurais, para os fins de execução da
Reforma Agrária e promoção da política agrícola”5.
Entre as exigências especificadas no Estatuto da
Terra para os candidatos à seleção e cadastramento para fins
de reforma agrária, estão: a comprovação de idade entre 21
e 60 anos; não ser proprietários de terra, de estabelecimento
comercial ou de estabelecimento industrial; não exercer
função pública ou autárquica, civil ou militar da adminis-
tração federal, estadual ou municipal; comprometer-se em
morar com sua família na parcela de terra que lhe caberá;
não ter sido ainda contemplado no programa de reforma
agrária.
Semelhante ao que ocorre em outras áreas do país, o
Rio Grande do Norte passou por um processo de criação de
assentamentos rurais nos últimos anos, sobretudo a partir
de 1995, mas este tem se mostrado, ainda, insuficiente para
provocar alterações profundas na estrutura fundiária do
Estado. Dentre os diversos elementos explicativos para este
aumento de desapropriações ressalta-se a crise agropecuária
no território potiguar, associada à ocorrência de várias
secas, tornando vantajoso para alguns fazendeiros vende-
rem suas propriedades para o governo, com a finalidade de
desapropriar para fins de reforma agrária, tendo em vista
que as indenizações pagas pelo INCRA foram muito
elevadas.
Porém, não podemos negar o aumento significativo
do número de assentamentos no Rio Grande do Norte a

5INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA


AGRÁRIA. Estatuto da Terra.
155 |

partir da década de 1990, quando se dá o processo de inten-


sificação da luta pela terra que acontece em todo o território
nacional, encabeçada pela emergência de movimentos so-
ciais rurais, a exemplo do Movimento dos Sem Terra (MST).
Isso porque a luta pela terra tem causado pressão
nos governos para a implantação de projetos de assenta-
mentos rurais, os quais funcionam até como meio de conter
as tensões sociais. A leitura retratada nos leva a destacar que
há uma distribuição espacial de assentamentos em quase
todas as microrregiões do Estado. Contudo, percebe-se que
a espacialização não é homogênea, havendo elevada
concentração em algumas áreas e ausência em outras.
Mesmo que esses fatores possam dificultar a forma-
ção de assentamentos nas áreas onde eles estão inseridos,
não devem ser encarados como definitivos. Isto porque, se
houvesse um planejamento adequado por parte dos que
executam as políticas públicas, estes fatores seriam apenas
limitantes e não determinantes, visto que com um pouco de
investimento, alguns desses fatos, encarados como “proble-
mas”, poderiam ser canalizados em potencialidades.
Pesquisando sobre a reforma agrária no Rio Grande
do Norte, observamos que até 2002, 11 municípios concen-
travam 53% do total de assentamentos do INCRA existentes
no Estado. O município de Mossoró é o que apresenta maior
número de assentamentos rurais do INCRA em seu territó-
rio. Em seguida, a maior concentração está nos municípios
de Apodi, Ceará-Mirim, João Câmara, Upanema, Carnau-
bais, Baraúna, Governador Dix-Sept Rosado, Bento Fernan-
des, Caraúbas e Touros. Essa distribuição espacial é marca-
da por uma heterogeneidade na concentração de assenta-
mentos rurais do INCRA, no Rio Grande do Norte, por
microrregiões e municípios.
Podemos dizer que a microrregião de Mossoró apre-
senta a maior concentração de assentamentos. Também se
destacam as microrregiões com a presença expressiva de
156 |

assentamentos rurais: Chapada do Apodi, Baixa Verde,


Litoral Nordeste e Vale do Assu. Essa distribuição pode ser
entendida se levarmos em consideração questões de ordem
histórica e geográfica.
Para que a Reforma Agrária venha a se concretizar
realmente, é necessário também que sejam desenvolvidas
ações não apenas de caráter produtivo, mas também social.
Faz-se mister que sejam implementadas atividades de
redução do índice de analfabetismo, melhoria nas condições
de saúde, acesso ao lazer, maiores cuidados ambientais e
maior assistência técnica como mecanismo para aumentar a
capacidade produtiva e, por conseguinte, uma maior gera-
ção de renda, principalmente nas áreas semi-áridas, onde as
dificuldades de criar condições de desenvolvimento susten-
tável são mais difíceis.
A configuração deste quadro nos impõe a afirmação
de que a Reforma Agrária no Rio Grande do Norte não é
uniforme, mas, passa por uma base física e social, necessi-
tando, ainda, de ações mais comprometidas com mudanças
que possam, realmente, contribuir com a melhoria da qua-
lidade de vida dos assentados, fazendo valer sua cidadania.
É o que veremos a seguir com o Projeto de Assentamento
Seridó.

O Projeto de Assentamento Seridó

O Projeto de Assentamento Seridó, também conhe-


cido como comunidade Caatinga Grande, localiza-se no
município de São José do Seridó, que integra a microrregião
do Seridó oriental. O referido assentamento fica a uma
distância de 12 km da sede do município, ocupando uma
área de 1.920 ha e até a década de 1970 a antiga fazenda
Seridó constituía uma das importantes referências da região
em matéria de produção algodoeira. Todavia, o modelo em-
pregado encontrava-se vinculado diretamente ao processo
157 |

de concentração fundiária e ao atendimento, sobretudo de


demandas exógenas, não obstante, de mercado consumidor
de países ricos.
Essa antiga fazenda era a principal área agrícola do
município de São José do Seridó, comportando, no auge da
produção, dezenas de moradores nas suas terras e uma
produção algodoeira consorciada a produtos de subsistência
(feijão e milho) e à pecuária. Sazonalmente, chegava a em-
pregar mão-de-obra de outras localidades do município e do
Estado nos tratos culturais e na época da colheita.
Todavia, os reflexos da decadência dos algodoais,
carro-chefe da economia do latifúndio, produziram altera-
ções socioespaciais numa espécie de “efeito cascata”. A
princípio vale destacar o desaparecimento das dezenas de
empregos gerados, conduzindo trabalhadores/as rurais,
sobretudo, para a zona urbana dos municípios de São José
do Seridó e Jardim do Seridó, posto que a tentativa de revi-
talização da economia local com a cultura do gergelim
também não deu certo.
Entretanto, vale lembrar que a pujança em matéria
de produção de um latifúndio exportador e grande pro-
dutor de gêneros de subsistência escondia relações de traba-
lho expropriatórias e pouca sintonia com o desenvolvimento
da pessoa humana.
Só para ilustrar, era fato corriqueiro, após um ano
inteiro de trabalho, no ensejo da prestação de contas com a
gerência, o chefe de família não saldar o débito contraído ao
longo da entressafra/plantio/colheita. Neste caso, arris-
cavam-se todas as “fichas” nas possibilidades de melhores
preços e de um bom ano de inverno no ano seguinte. Além
disso, a restrição para que os moradores desenvolvessem a
atividade criatória potencializava a situação de pobreza,
posto que os privava de qualquer mecanismo de acumu-
lação com vista a saldar suas despesas. Neste caso, como
não havia nenhum tipo de remuneração por parte do
158 |

restolho produzido, o latifúndio tinha alimentos volumosos


fartos e baratos para desenvolver a atividade pecuária,
ficando todas as benesses do consórcio algodão X culturas
alimentícias X pecuária ao seu favor.
Outro elemento que potencializava as dificuldades
dos trabalhadores para saldar suas dívidas era a vinculação
das suas despesas com alimentação ao “barracão”, espécie
de bodega sediada na fazenda, que fornecia alimentos aos
trabalhadores para efetuar o pagamento na colheita do
algodão.
Todavia, o processo de decadência da cotonicultura
no Estado afligiu o principal ícone econômico da área anali-
sada. Por conseguinte, na segunda metade da década de
1980, a economia local girava em torno de pequeno rebanho
pecuário e cultivos de subsistência por parte de moradores
remanescentes.
O status de quase improdutivo contribui para indu-
zir os trabalhadores rurais do município, muitos dispen-
sados com a derrocada dos algodoais e residindo na zona
urbana, a se articularem junto ao Sindicato dos Trabalha-
dores Rurais (STR), com o apoio da Federação dos Trabalha-
dores na Agricultura do Estado do Rio Grande do Norte
(FETARN), com vista a reivindicar o processo de desapro-
priação das terras frente ao INCRA.
De acordo com dados do INCRA a desapropriação
da terra aconteceu em 1989, mas somente a partir da
primeira metade da década de 1990, após um processo de
negociação que já se arrastava desde a década anterior, a
terra, efetivamente, começou a passar para o controle efetivo
dos trabalhadores. Vale lembrar que este foi um processo
pacífico que contou com a participação dos trabalhadores
remanescentes, mais aqueles que, apesar de na condição de
ex-moradores ou não, faziam parte do movimento que
reivindicara o processo de desapropriação.
159 |

Outrossim, enquanto não foi liberado o orçamento


para a construção das residências, muitos assentados
permaneceram acomodados nas instalações da antiga sede
da fazenda e nos armazéns ulteriormente empregados para
acondicionar a produção e a mão-de-obra temporária dos
algodoais.
Nesse processo, como forma de organização interna,
foi fundada a Associação Comunitária da Área de Assenta-
mento, tendo como associados os 63 chefes de famílias
assentadas. A organização tinha o objetivo de reivindicar a
desapropriação das terras frente ao INCRA. Nas páginas
seguintes o nosso esforço se concentrará na análise e descri-
ção das conquistas e dos novos desafios dos trabalhadores
até os dias atuais.
Garantida a posse da terra, a luta dos trabalhadores
passou a girar em torno da conquista de membros ativos
que possibilitassem pensar consequentemente acerca do
desenvolvimento socioeconômico da comunidade. Neste
ensejo, um dos pleitos frente aos organismos oficiais com-
preendeu a aquisição da casa própria para os assentados
que se encontravam em acomodações provisórias. A prin-
cípio, 28 residências foram construídas, localizadas conjun-
tamente com vista de viabilizar o acesso aos serviços
básicos. Cumpre lembrar que o assentamento é formado por
70 residências, sendo a maioria organizada na vila principal
da comunidade. Algumas residências localizadas de forma
difusa, que permaneceram ocupadas, passaram por refor-
mas. Além disso, recentemente foram construídas (em 2010)
um total de 20 residências para atender uma demanda repri-
mida em função dos filhos dos antigos colonos que não
tinham onde morar.
Antes de abordar os avanços no campo da educação,
cabem algumas informações históricas que melhor elucida-
rão o leitor. Na antiga localidade Caatinga Grande, assim
como em todas as localidades de maior adensamento popu-
160 |

lacional da municipalidade, existia uma escola oferecendo o


ensino das séries iniciais (antigo Primário). Entretanto, por
divergências político-partidárias entre os representantes do
latifúndio e a administração municipal a unidade escolar foi
fechada na segunda metade da década de 1970. Em conse-
quência, por mais de meia década (até 1983) foi negado aos
filhos dos trabalhadores o direito de acesso à educação
básica.
De acordo com informações fornecidas pela profes-
sora Letice Pereira6, incumbida de retomar as atividades
escolares na referida unidade de ensino no ano de 1983,
entre os 40 alunos matriculados no ensejo, um total de 36
cursava a primeira série. Além disso, a geração que há mais
de seis anos tinha atingido a idade mínima para matricular-
se já comportava garotos e garotas com até 16 anos.
Passada mais de uma década do assentamento dos
trabalhadores, a referida unidade escolar que há mais de
duas décadas chegou a ser a única fechada na municipa-
lidade, hoje é a única que se encontra em pleno funciona-
mento. O sistema de turmas multisseriadas foi abolido e os
profissionais que lá atuam faz parte das famílias dos
assentados. Boa parte é graduada em Pedagogia e/ou estão
cursando.
Na esfera educacional também vale mencionar a
instituição do Ensino Infantil, com a construção de uma
unidade e o transporte escolar para realizar o translado de
todos os alunos até a sede do município para frequentar as
aulas do 5º ano até o ensino médio. Alguns se deslocam até
a vizinha cidade de Caicó, onde cursam o Ensino Univer-
sitário.
Os reflexos de investimentos no campo educacional
são graduais e podem ser avaliados na visibilidade que

6Informação verbal fornecida no dia 22 de fevereiro de 2007, na


sua residência. Rua Luís Cirne, S/N, São José do Seridó-RN.
161 |

tentamos dar às ações humanas. Em face dessa assertiva,


destacamos que os jovens da comunidade, munidos da
preocupação com o desenvolvimento local, fundaram a
Associação dos Jovens Rurais do Projeto de Assentamento
Seridó (ASJORPAS). Uma das primeiras iniciativas foi a
fundação da sede social, um prédio amplo contendo
auditório, refeitório e cozinha. É nessas dependências onde
funciona um importante projeto de inclusão digital. Trata-se
do Laboratório de Informática implantado numa parceria
entre a ASJORPAS e o SEBRAE/RN.
Foram instalados 11 terminais de computadores com
o objetivo de promover a inclusão digital dos moradores.
Para dimensionar a valia do projeto em tela, é conveniente
enfatizar que essa instalação foi feita onde os camponeses
outrora eram literalmente alijados de oportunidades de
acesso à educação formal, onde seus filhos têm agora a
oportunidade de entrar em contato com o que existe de mais
moderno em matéria de tecnologia no mundo contem-
porâneo. Cumpre destacar que em breve será inaugurado na
comunidade um Centro de Inclusão Digital, numa parceria
entre o Governo do Estado, a municipalidade e a comuni-
dade. Na sede da associação dos jovens ainda funciona: O
Programa Flauta Doce, com ensinamentos de música para
45 crianças; o programa Arca das Letras (criado pelo
Ministério de Desenvolvimento Agrário), uma biblioteca
com livros novos a serviço da comunidade e o programa
Letras no Campo, voltado para a alfabetização de adultos.
Consideramos que a conquista da terra foi o baluarte
dessas mudanças, desempenhando papel destacado na vida
dos assentados em várias frentes, uma vez que o acesso à
água, o descompromisso de ter que cumprir carga horária
rígida na labuta com a terra, por exemplo, proporcionou às
novas gerações mais tempo para dedicar-se as atividades
escolares e até liberdade para frequentar as aulas diurnas ou
noturnas. Prova cabal dessa constatação é o bom número de
162 |

jovens com ensino médio concluído na comunidade; outros,


cursando a universidade, o que termina por abrir alas para
entrada no mercado de trabalho.
No campo da saúde a comunidade foi contemplada
com a construção de uma unidade de saúde, onde são
prestados quinzenalmente serviços médicos e odontoló-
gicos, além da presença integral de um Agente Comunitário
de Saúde (ACS).
O Projeto de Assentamento Seridó localiza-se em
terrenos de topografia ligeiramente plana, o que desquali-
fica para a construção de açudes em muitas áreas. Por
conseguinte, o acesso à água sempre representou um dos
problemas principais enfrentados pela população. Aliás,
enquanto esteve nos domínios do antigo proprietário, não
era permitida a aquisição de animal de carga (jumento e
burro, por exemplo) para o transporte de água de até quatro
quilômetros. Por conseguinte, esse transporte era feito em
recipientes (latas, potes, cabaços), tarefa esta na qual o tra-
balho das crianças tinha singular importância.
Ambiente de tanta hostilidade conspirou de forma
favorável para que, quando na condição de condutor dos
seus destinos, a população aprovasse projeto para distri-
buição de água encanada nas residências da vila e adjacên-
cias. Atualmente um total de 70 residências é atendido pelos
serviços de água encanada e tratada. Vale registrar que esse
projeto carece de complemento, posto que algumas residên-
cias localizadas de forma difusa ainda não foram benefi-
ciadas.
Contudo podemos dizer que, em matéria de oferta
de recursos hídricos, o assentamento possui uma posição
privilegiada. De acordo com pesquisa de Costa, o abaste-
cimento de água é um dos problemas mais graves enfren-
tados pelos assentamentos dos programas de reformas agra-
163 |

ria no Rio Grande do Norte7. Essa assertiva justifica a nossa


afirmação anterior.
Dois reservatórios dão suporte à comunidade: o
açude da “Cajazeira”, com capacidade de armazenamento
de 2,6 milhões de metros cúbicos de água e o “dos Bois”,
com capacidade de 1, 3 milhão. Um sistema adutor interliga
os reservatórios à vila. Porém, o primeiro só é acionado
circunstancialmente, quando as reservas deste estão próxi-
mas do limite mínimo, conforme verificado em visita que
fizemos ao local, em janeiro de 2008. Por isso, o aprovei-
tamento das águas é feito através do plantio de alimentos
volumosos (para suprimento animal) nas várzeas, além da
atividade pesqueira voltada ao fornecimento de peixe aos
assentados e à comercialização dos excedentes. Cumpre
registro acerca dos anseios dos moradores de garantir segu-
rança hídrica intermitentemente, pois os dois reservatórios
supramencionados passaram por reformas com vista do
aumento da capacidade de armazenamento de água.
A continuidade e a boa qualidade da água para
matar a sede humana são garantidas através de cisternas
construídas nas residências localizadas de forma difusa e da
aquisição de um sistema de dessalinização de água, aquisi-
ção feita com vista ao abastecimento dos moradores que
residem na vila (e até comunidades circunvizinhas). Toda-
via, os problemas de poluição do solo gerados pelo rejeito
(mais de 60 % da água bombeada) começaram a ameaçar a
sustentabilidade do projeto, além de provocar inquietações
nas pessoas que estavam sendo afetadas, nos órgãos de
proteção do Meio Ambiente e nos beneficiários diante da
possibilidade de não mais ter acesso à água de qualidade,
sobretudo para dessedentação.

7COSTA, Maria José. Uma leitura geográfica da reforma agrária


potiguar.
164 |

Próximo de um grande impasse, a solução veio de


um projeto implementado pela Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária – EMBRAPA, numa parceria com a
comunidade. Trata-se do Sistema de Produção Integrado,
pautado em quatro subsistemas interdependentes: 1) o
sistema de dessalinização torna a água potável, constituído
pelo dessalinizador; 2) o efluente do dessalinizador, consti-
tuído por uma solução salobra, é enviado para tanques de
criação de peixe (a Tilápia, neste caso); 3) enriquecido com
matéria orgânica do pescado, o efluente é aproveitado para
a irrigação da planta-sal (Atriplex nummularia); 4) por fim, a
forragem é usada na produção de feno para a engorda de
ovinos e/ou caprinos.
A Unidade Demonstrativa implantada no microespaço
em tela constitui um sistema de produção integrado onde
são realizadas visitas, exposições, aulas e demonstrações do
processo produtivo com vista de disseminar o modelo8.
Além da segurança no fornecimento de água para beber, a
comunidade já começa a colher outros frutos. Em janeiro de
2008, quando visitamos a comunidade, fomos informados
pelo Sr. Cícero Martins da Costa9, conhecido por Nanã (41
anos), de que tinham sido comercializados 1.170 quilos de
pescado, auferindo rendimentos da ordem de R$ 3.500,00.
A planta-sal é muito palatável pelos caprinos. Em
face de na comunidade poucas pessoas dedicarem-se a essa
atividade, os excedentes já começaram a ser introduzidos,
com sucesso, na alimentação dos bovinos, atividade econô-

8 Na visita que realizamos, chamou muita atenção a presença


maciça de estudantes do Ensino Fundamental à Pós-graduação
lato-sensu, que já conheceram a experiência in loco, conforme
registro do Livro de Visitas.
9 Informação verbal fornecida no dia 25 de janeiro de 2008, na área

do Assentamento Seridó, zona rural do município de São José do


Seridó.
165 |

mica principal da referida área de assentamento. Chama


atenção o fato de que uma das variáveis que concorreu para
sua implantação no assentamento foi, justamente, o êxito
alcançado pela comunidade em experiências coletivas e
passíveis de serem autogeridas. As outras variáveis determi-
nantes foram a existência abundante de água e de solos10.
Não podemos perder de vista que, apesar dos
avanços no processo de universalização do fornecimento de
água, muito ainda poderá ser feito nesse campo, uma vez
que os depoimentos dos moradores atestaram que todas as
demandas ainda não foram satisfeitas. Além das residências
difusas aqui mencionadas, há muita reclamação no que
tange à oferta de água para consumo animal, uma vez que a
adutora prioriza o suprimento humano e o sistema de poços
artesianos atende à demanda parcialmente. Por conseguinte,
em circunstâncias de escassez muitos assentados são
obrigados a contratar os serviços oferecidos pela Associação,
com uma pipa puxada pelo trator, o que se torna muito
oneroso face ao orçamento disponível pelos trabalhadores
com este fim.
Para qualquer região que apresenta déficit hídrico, a
sustentabilidade no fornecimento de água compreende a
principal estratégia para manutenção do homem no campo
e de melhoria qualitativa de todas as atividades econômicas.
A situação em análise dispensa maiores comentários, uma
vez que a água que hoje melhora a vida de dezenas de
famílias em regime de continuidade antes “engordava” o
orçamento do antigo proprietário através da comercia-
lização dos produtos irrigados (banana, por exemplo) na sua
jusante e da venda do pescado.

10Informação verbal fornecida pelo pesquisador da EMBRAPA


Everaldo Rocha Porto, na palestra proferida no dia 03 de julho de
2007, na cidade de São José do Seridó, por ocasião da solenidade
de implantação do projeto naquela municipalidade.
166 |

Uma análise preliminar dos projetos executados e


em execução na comunidade nos permite perceber uma
relação muito estreita com o saber-fazer da população.
Neste universo, vale destacar, além dos projetos de infra-
estrutura hídrica, outros projetos de grande relevo, como a
aquisição de duas matrizes bovinas para cada assentado; a
aquisição de máquinas agrícolas (dois tratores) com seus
devidos implementos e a construção de garagem para
acomodações.
Para o segmento feminino, merece registro o projeto
para confecção de bordados, atividade econômica de
expressão na comunidade, cuja produção é comercializada
até em feiras do Centro-Sul do país. Atualmente, encontra-
se em execução um projeto de avicultura (criação da galinha
caipira), para produção de ovos e de carne. Chama atenção
que esse projeto vem sendo executado pela associação das
mulheres da comunidade e tem como objetivo aumentar a
geração de renda, uma vez que essa, embora seja uma
atividade praticada pelas donas de casa, tem o caráter
apenas de subsistência.

Para não concluir essa abordagem

Nosso trabalho demonstra que a intensificação da


luta pela terra ocorrida no Brasil, nas últimas décadas, com-
tribuiu para o surgimento dos assentamentos rurais. Luta
essa que está diretamente relacionada com a questão agrária
brasileira, marcada pela estrutura fundiária concentrada e
intervenções políticas que acentuaram as desigualdades
sociais, pautada num desenvolvimento econômico voltado
para a agroindústria em detrimento das ações que privile-
giam a reforma agrária. Dessa maneira, os assentamentos
representam um fato recente no processo de luta pela
democratização do acesso à terra no Brasil e no Rio Grande
do Norte.
167 |

Além das mudanças do ponto de vista infraestru-


tural dos assentamentos, é preciso atentar para as mudanças
que eles são capazes de imprimir nas experiências de vida
dessa população, gerando melhores condições de vida nas
famílias instaladas. Apesar da precariedade de alguns
serviços públicos e da falta de recursos, a constituição de
assentamentos se faz importante pelo local de moradia e
pela possibilidade de tornarem-se produtores.
Sem a pretensão de esgotar a temática trabalhada,
queremos afirmar que a luta pela terra, sendo histórica, já
contou com boa parte da sociedade, deixando esta, marcas
importantes, a ponto de desenharem e traçarem veredas e
até caminhos que hoje são perseguidos por aqueles que
acreditam na mudança em prol da autonomia e justiça
social. Estejam eles ligados à Igreja, a movimentos sindicais,
a partidos políticos, a instituições, ou apenas sendo pessoas
anônimas que, se fazendo valer da bravura, da perseverança
e do sonho, correram atrás de um pedaço de terra como
expressão da própria vida, embora muitos tenham encon-
trado apenas a morte.
As mudanças no Projeto de Assentamento Seridó são
verificadas logo na mudança de função da antiga sede da
Fazenda Seridó. O locus do poder oligárquico hoje sedia a
principal associação comunitária da área. Além de ser ponto
de encontro para conversas, também representa o poder
agora emanado pelo povo.
A experiência ultramencionada aponta uma trajeto-
ria promissora tendo a sociedade civil organizada como um
dos principais ícones do processo. Compreendendo desen-
volvimento local sustentável como algo processual, a expe-
riência em análise aborda requintes dessa natureza.
Todavia, não se pode perder de vista que ainda há muito
que fazer. Se a conquista de importantes ativos sociais vem
fazendo a diferença, o mesmo não se pode dizer com relação
à questão do emprego.
168 |

As experiências em tela deixam claro que o desen-


volvimento rural deve ser entendido como o fortalecimento
das competências das pessoas e das comunidades rurais
direcionadas a proporcionar-lhes os níveis de bem-estar
escolhidos por eles próprios.
169 |

CIRCUITOS ESPACIAIS DE PRODUÇÃO:


O USO DO TERRITÓRIO PELAS
INSTÂNCIAS DA ATIVIDADE DE BONÉS
NO SERIDÓ POTIGUAR1
Zara de Medeiros Lins

Introdução

O presente trabalho analisa a dinâmica de fluxos


promovida em função do trabalho comum das diversas
instâncias do circuito espacial produtivo da atividade de
bonés, compreendendo o uso do território por esta produ-
ção no Seridó, no meio geográfico atual. Nesta perspectiva,
a operacionalização do conceito de circuitos espaciais de
produção autoriza a compreensão do uso do território e a
dinâmica de fluxos acentuada no atual período histórico2.
A atividade têxtil de bonés encontra-se localizada na
região do Seridó norte-riograndense, nos municípios de
Caicó, Serra Negra do Norte e São José do Seridó. Este
segmento surgiu no município de Caicó em meados da
década de 1980, após o desmoronamento do tripé gado-
algodão-minério, firmando-se dentro de um contexto de

1 O conteúdo deste artigo é parte de dissertação de mestrado que


está sendo produzida no âmbito do Programa de Pós-Graduação
em Geografia, que analisa a produção de bonés na região do
Seridó norte-rio-grandense, sob orientação do Prof. Dr. Aldo
Aloísio Dantas da Silva
2 CASTILLO, Ricardo; FREDERICO, Samuel. Espaço geográfico,

produção e movimento: uma reflexão sobre o conceito de circuito


espacial produtivo.
170 |

decadência das tecelagens, que deixam de ser eminen-


temente de redes, e se diversificam na fabricação de toalhas,
panos de pratos, cobertas e chapéus. As bonelarias
tornaram-se o segmento mais representativo do setor
secundário na década de 1990, sendo adjetivado como “um
novo filão industrial” 3. As várias etapas de produção da
atividade de bonés dinamizam uma intensidade de fluxos
de mercadorias, pessoas e produtos, circulando em cons-
tante movimento no espaço regional.
O território já usado pelas atividades tradicionais no
Seridó adquire usos atuais, por meio das novas atividades
produtivas, ora criadas, ora inovadas. E a produção de
bonés é considerada uma destas novas atividades, ou seja,
uma das novas possibilidades de uso do território seri-
doense.
Para se entender o processo de produção de bonés
no Seridó, aborda-se a relevância do conceito de circuitos
espaciais de produção, formulado pelo geógrafo Milton
Santos, que permite captar o movimento do território no
meio geográfico atual, por meio das instâncias produtivas.
O conceito de circuitos espaciais de produção refere-se à
localização das diversas etapas do processo produtivo de
uma determinada atividade. Neste sentido, a produção de
bonés exige certo número de etapas no seu processo, técni-
cas de trabalho, agentes envolvidos e ações no território.
A identificação dos crescentes intercâmbios que
articulam os lugares passa pela compreensão das profundas
transformações do meio técnico-científico-informacional,
discutindo o território usado como categoria de análise so-
cial do espaço geográfico. Mas, para tanto, é preciso conhe-
cer as novas dinâmicas por que passam a região no período

3MORAIS, Ione Rodrigues Diniz Morais. Desvendando a cidade:


Caicó em sua dinâmica espacial, p. 179.
171 |

histórico da globalização, tomando como base geográfica, o


conceito de circuitos espaciais de produção.

O uso do território pelo circuito espacial produtivo da


atividade boneleira

No contexto do desmoronamento da cotonicultura e


da mineração na década de 1980, a região Seridó reafirma-se
segundo uma lógica interna, já que não fora contemplada
pela reestruturação produtiva ou remodelação técnico-cien-
tífica, instalada em formas de manchas ou de pontos em
algumas regiões do território norte-rio-grandense, na transi-
ção dos anos de 1970 e 1980 e, mais recentemente, na década
de 1990. A reestruturação produtiva ocorreu no território
potiguar na condição de “focos de dinamismo recente” 4.
Excluída da reestruturação produtiva, e permeada
em uma crise que ameaçava estagnar a economia, a socie-
dade seridoense reagiu usando diversas estratégias de
sobrevivência e, aos poucos, reorganizou o seu plano de
existência, extraindo recursos do seu entorno geográfico que
permitiram encontrar novos usos em sua base territorial.
Assim, “a sociedade seridoense se reorganizou sobre novos
traçados, mostrando que a alternativa estava no desenvol-
vimento endógeno” 5.

4 CLEMENTINO, Maria do Livramento Miranda. Rio Grande do


Norte: novas dinâmicas, mesmas cidades. In: GONÇALVES,
Maria Flora; BRANDÃO, Carlos Antônio; GALVÃO, Antônio
Carlos Filgueira (Orgs.). Regiões e cidades: cidades nas regiões, p.
393. Dentre esses focos destacam-se: o Pólo de Fruticultura
Irrigada em Açu/Mossoró, o Pólo Têxtil de Confecções de Natal, o
Pólo Turístico do Litoral Potiguar (Projetos Rota do Sol e Costa
das Dunas), a área da Bacia Potiguar (petróleo e gás natural) e,
mais recentemente, o segmento da Carcinocultura.
5 MORAIS, Ione Rodrigues Diniz. Seridó norte-rio-grandense:
uma geografia da resistência, p. 16.
172 |

Conforme Morais, nos últimos decênios do século


XX, “as buscas por estratégias que minimizassem ou
solucionassem os efeitos das crises conduziram ao redimen-
sionamento de atividades já existentes e ao surgimento de
novos segmentos produtivos”6. Nessas condições, forjou-se
um novo eixo produtivo, de base rural para urbana, no qual
passaram a coexistir atividades tradicionais e recentes,
apoiadas nos setores do terciário e do secundário.
No contexto da reestruturação regional, Morais
estuda o conjunto de atividades econômicas inventadas ou
inovadas pela sociedade seridoense. Dentre as atividades,
identifica a boneleira como uma das novas opções produ-
tivas do Seridó. No ritmo das inovações, “o setor têxtil
incorporou novos equipamentos à fabricação de redes e
panos de prato e teve na bonelaria uma promissora alterna-
tiva de produção”7. Com base em Santos8, “é necessário
notar que são inovações não importadas, invenções locais”.
Na realidade são criações construídas horizontalmente.
A análise da atividade de bonés, objeto de estudo
deste trabalho de pesquisa, apresenta-se inserida em um
panorama complexo, uma vez que a produção expande a
sua dinâmica territorial no Seridó, do município de Caicó
(onde emergiu o segmento) para os municípios de Serra
Negra do Norte e de São José do Seridó, entre o último
decênio do século XX e o primeiro decênio do século XXI. A
difusão espacial da produção e a implantação das bonelarias
nos municípios de Serra Negra do Norte e São José do
Seridó se devem ao crescimento da demanda pelo produto,
nos comércios local, estadual e nacional.

6Idem, p. 278.
7Idem, p. 292.
8 SANTOS, Milton. O espaço dividido: os dois circuitos da

economia urbana dos países subdesenvolvidos, p. 237.


173 |

Santos, ao estudar a nova realidade econômica do


Seridó, verifica, nos últimos anos, a formação de novas
territorialidades, sobretudo as pequenas indústrias de
bonés. As pequenas empresas de bonés do Seridó, implan-
tadas nos municípios de Caicó, Serra Negra do Norte e São
José do Seridó, auxiliaram no crescimento do mercado de
trabalho e na ampliação da produção regional, a qual é
direcionada para vários estados do Brasil, dentre eles:
“Ceará, Maranhão, Piauí, Pará, Rio Grande do Sul, Minas
Gerais, Tocantins, Roraima, Pernambuco, Alagoas, Paraíba,
Amazonas, dentre outros” 9.
Os municípios de Caicó, Serra Negra do Norte e São
José do Seridó formam o Pólo Boneleiro da região do Seridó.
Este pólo é constituído por 64 unidades fabris, considerado
o segundo maior pólo produtor de bonés do Brasil, per-
dendo apenas para o Pólo Boneleiro de Apucarana10 (PR),
primeiro produtor 11.
Com o objetivo de congregar forças, visando enfren-
tar a concorrência dos bonés da China e dos bonés de
Apucarana-PR, os proprietários fundaram a Associação
Seridoense dos Fabricantes de Bonés (ASFAB) em 2001,
sediada no município de Caicó. A proibição de distribuição
de brindes em campanhas eleitorais (exemplificando o
boné), determinada pela Justiça Eleitoral desde fevereiro de

9 SANTOS, Vaneska Tatiana Silva. Reestruturação socioespacial


do Seridó norte-riograndense: desafios e veredas construindo
uma nova realidade, p. 123-4.
10 A cidade de Apucarana foi adjetivada como “Apucarana Capital

Nacional do Boné”; “Apucarana tornou-se uma cidade especia-


lizada na produção de bonés e conhecida nacionalmente por essa
produção (VIETRO, Anderson de Freitas. O processo de
industrialização de Apucarana: a capital nacional do boné, p. 50-
3).
11 DIÁRIO DE NATAL. SEBRAE realiza pesquisa inédita sobre

fabricação de bonés, p. 2.
174 |

2006, provocou uma queda na produção de bonés nos anos


de campanha eleitoral. Mesmo assim, a atividade, de um
modo geral, não sucumbiu em meio às adversidades do
mercado competitivo e às imposições da lei em vigor. É
notório que não é em qualquer região que se fabrica um
produto tão específico quanto o boné.
As inquietações com relação ao tema só encontraram
fundamentação teórica consistente no conceito de circuitos
espaciais de produção, formulado por Milton Santos, ao
estudar as novas dinâmicas que caracterizam a região, no
período atual da história, em que as instâncias da produção
e da troca, tornam-se mais distribuídas espacialmente. A
lógica do período atual não aniquila a região, pelo contrário,
esta se reafirma com novos aspectos funcionais.
Os circuitos espaciais de produção referem-se à loca-
lização das “diversas etapas pelas quais passaria um pro-
duto, desde o começo do processo de produção até chegar
ao consumo final”12. Para Santos & Silveira os circuitos
espaciais de produção são “definidos pela circulação de
bens e produtos e, por isso, oferecem uma visão dinâmica,
apontando a maneira como os fluxos perpassam o terri-
tório” 13.
Para se conhecerem os circuitos espaciais produtivos
da atividade de bonés, é necessário identificar e localizar
todos os momentos da produção, desde o fornecedor de
insumo até o consumidor final, isto é, caracterizar as seguin-
tes etapas: matéria-prima, mão de obra, estocagem, que se
constituem no processo de produção direta; transportes,
comercialização e consumo, que correspondem aos proces-
sos de circulação, distribuição e consumo.

12SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado, p. 49.


13SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: território e
sociedade no início do século XXI, p. 143.
175 |

A análise14 do circuito espacial produtivo será


focalizada, especificamente, na produção propriamente dita
ou nas condições técnicas do trabalho direto. A parcela
técnica da produção obedece a uma lógica de localização e
organização espacial, onde são encontrados os instrumentos
de trabalho, as etapas da produção e os principais agentes
envolvidos. As instâncias geográficas da circulação, distri-
buição e consumo são consequências da produção.
Nos dias atuais, a atividade de bonés difunde a sua
produção em pontos específicos do território seridoense,
promovendo, assim, uma extensão de usos contínua e
contígua, resultante do movimento gerado pelas várias
etapas do seu processo produtivo. No entanto, a emergência
da fabricação de bonés tem sua gênese relacionada ao
período em que o território, bastante utilizado pelas ativi-
dades econômicas tradicionais – pecuária, cotonicultura,
mineração – adquiriu novos usos na década de 1980, por um
conjunto de atividades produtivas. E o segmento de bonés

14 Na construção da análise consultaram-se algumas leituras


específicas sobre a atividade de bonés, contemplando os autores
MEDEIROS, Isolda; NASCIMENTO, Maria do Socorro;
FERREIRA, Suelene. Perfil das fabricas de boné de Caicó;
SANTOS, Ana Maria de Souza et al. O setor secundário e a
expansão da indústria de bonés em Caicó; DANTAS, Irani Lúcio.
As relações de produção das fábricas de bonés em Caicó/RN;
MORAIS, Ione Rodrigues Diniz Morais. Desvendando a cidade:
Caicó em sua dinâmica espacial; MONTEIRO, Gildevar da Costa.
O espaço (re) organizado: bairro Paraíba de Caicó/RN; MORAIS,
Ione Rodrigues Diniz. Seridó norte-rio-grandense: uma geografia
da resistência; SANTOS, Vaneska Tatiana Silva. Reestruturação
socioespacial do Seridó norte-riograndense: desafios e veredas
construindo uma nova realidade; MEDEIROS, Maria Suelly da
Silva. A produção do espaço das pequenas cidades do Seridó
Potiguar; e VIETRO, Anderson de Freitas. O processo de
industrialização de Apucarana: a capital nacional do boné.
176 |

no Seridó surge como uma nova alternativa de produção,


uma nova possibilidade de uso do território.
Tomado como referencial teórico, Santos & Silveira
expressam que “o território já usado pela sociedade ganha
usos atuais [...]”15. Nesta perspectiva, afirma-se que o terri-
tório já utilizado pela sociedade seridoense adquire usos
atuais. Pode-se inferir que a produção de bonés emergiu
como um dos usos atuais do território seridoense e uma das
novas dinâmicas de fluxos que caracterizam a região,
definindo-lhe novos contornos e intercâmbios entre os
lugares, promovendo um circuito espacial produtivo no
Seridó.
Santos explica que, em momentos históricos passa-
dos, o meio técnico conduzia no mesmo espaço às quatro
instâncias: produção, circulação, distribuição e consumo
evidenciando um processo de “confusão geográfica” 16. A
leitura de Castillo & Frederico propõe a operacionalização
do conceito de circuitos espaciais de produção, “[...] num
momento histórico em que as esferas da produção e da troca
tornam-se geograficamente mais dispersas [...]”17. Em decor-
rência, a produção de bonés é realizada localmente, os
processos de circulação e distribuição se elastecem no
território brasileiro, e a instância do consumo tende a se
localizar em determinados pontos do território, cada vez
mais distantes do local da produção.
Com relação aos processos técnicos de montagem do
boné, identifica-se um alargamento da área de produção
propriamente dita, dinamizando fluxos na região, possibili-

15 SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: território e


sociedade no início do século XXI, p. 43.
16 SANTOS, Milton. Espaço e método, p. 43.
17 CASTILLO, Ricardo; FREDERICO, Samuel. Espaço geográfico,

produção e movimento: uma reflexão sobre o conceito de circuito


espacial produtivo, p. 2.
177 |

tando uma extensão de usos que se propagam no território.


Quanto à espacialização da produção, há uma ampliação
das articulações do Seridó com vários estados brasileiros,
perfazendo um movimento do território, decorrentes das
instâncias geográficas da circulação, distribuição e consumo.
Uma das ideias de analisar o conceito de instâncias
produtivas, expressa por Santos, resume-se da seguinte
forma: “como (para tomar um exemplo) compreender o
comportamento desse espaço indivisível diante do processo
de acumulação, isto é, em função do trabalho comum das
diversas instâncias da produção?” 18. Enquanto isso, Castillo
& Frederico afirmam que operacionalização do conceito de
circuito consiste em “compreender o uso do território
através da dinâmica de fluxos, acentuada no atual período
histórico”.19
A ideia de Santos apoiada nas instâncias produtivas
(1985) contribui no entendimento da concepção do espaço
como uma categoria abstrata e indivisível; e a proposta de
Castillo & Frederico, fundamentada no circuito espacial
produtivo, possibilita apreender a concretude do espaço,
através da análise do uso do território20.
Nesse contexto, a atividade boneleira representa um
dos usos atuais do território seridoense, cujo fenômeno se
difunde espacialmente na região, estabelecendo uma exten-
são de usos, de movimentos e de intercâmbios entre os
lugares, por meio de suas diversas etapas de produção. A
análise das instâncias do seu circuito espacial produtivo
permite compreender como se dá este uso no Seridó.

18 SANTOS, Milton. Espaço e método, p. 61.


19 CASTILLO, Ricardo; FREDERICO, Samuel. Espaço geográfico,
produção e movimento: uma reflexão sobre o conceito de circuito
espacial produtivo, p. 12.
20 Idem.
178 |

Aportada na abordagem de Santos21 e de Castillo &


Frederico22, e na realidade empírica colocada, formula-se o
pressuposto que objetiva analisar a dinâmica de fluxos, pro-
movida em função do trabalho comum das diversas instân-
cias do circuito espacial produtivo da atividade de bonés,
compreendendo o uso do território por esta produção no
Seridó no meio geográfico atual.
Do exposto, depreende-se que, para o desenvol-
vimento da análise das instâncias da atividade de bonés,
torna-se imprescindível entender o conceito de circuitos
espaciais de produção, compreendendo o uso do território
através da dinâmica de fluxos, acentuada no atual período
histórico. Este objetivo corresponde ao caminho teórico de
explicação do objeto de estudo.
Entretanto, o tema necessita de uma investigação
empírica que torne relevante caracterizar e interpretar o
circuito espacial produtivo da atividade de bonés, por meio
da identificação da localização das etapas do processo de
produção e do conhecimento dos principais agentes envol-
vidos. A partir da interpretação do circuito espacial pro-
dutivo, estudam-se a instância da produção propriamente
dita e a forma como as condições técnicas do trabalho direto
usam o território no Seridó.
O estudo do tema contempla um recorte no tempo,
abrangendo um enfoque geográfico que considere todas as
características da situação mencionada, levando-se em conta
o período de 1984 (ano de emergência da atividade) até o
presente ano de 2010 (ano de desenvolvimento da pesquisa)

21SANTOS, Milton. Espaço e método.


22CASTILLO, Ricardo; FREDERICO, Samuel. Espaço geográfico,
produção e movimento: uma reflexão sobre o conceito de circuito
espacial produtivo.
179 |

A região e as novas categorias: de circuitos regionais de


produção a circuitos espaciais de produção

A implantação de sistemas técnicos nos territórios


contribui na modernização de redes de transportes e comu-
nicações, que permitem uma maior difusão espacial dos
processos que encadeiam as instâncias da produção, circu-
lação, distribuição e consumo, constituindo os circuitos
espaciais de produção.
Por conseguinte, nos dias atuais não se pode mais
“falar de circuitos regionais de produção. Com a crescente
especialização regional, com os inúmeros fluxos de todos os
tipos, intensidades e direções, temos que falar de circuitos
espaciais de produção”23. No período técnico-científico-
informacional, as regiões se organizam dentro de uma
lógica de produção global, resultantes da mundialização da
produção, do consumo e da prestação de serviços, definindo
novos contornos nos lugares.
A antiga noção de região, pautada na ideia de
circuitos regionais de produção, cujas relações de trocas
ocorriam em torno de arranjos locais, não mais explica as
novas dinâmicas territoriais deste período de globalização.
Nos dias atuais, as regiões não dispõem mais de autonomia
produtiva, passando de independentes a interdependentes,
devido ao aumento dos intercâmbios que realizam com
outros lugares, ampliando a fluidez do território. Graças às
novas condições, não mais se denomina a velha ideia de
circuitos regionais de produção, mas a recente abordagem
de circuitos espaciais de produção24.

23SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado, p. 49.


24 Nas leituras de SANTOS, Milton. Espaço e método; SANTOS,
Milton. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-
científico-informacional verificam-se discussões teóricas a despei-
to do conceito de circuitos espaciais de produção.
180 |

No atual período, o meio técnico-científico-informa-


cional difunde-se desigual e pontualmente, assegurando o
funcionamento dos processos encadeados, que consiste na
expressão geográfica da globalização, redefinindo as fun-
ções do espaço geográfico, e criando outras possibilidades
de uso do território pela sociedade25. A compreensão dos
usos é verificável no território usado, categoria de análise
social do espaço geográfico.
A noção de circuito espacial produtivo confere uma
relevância importante à categoria espaço. Santos destaca
que “discutir os circuitos espaciais de produção é discutir a
espacialização da produção-distribuição-troca-consumo
como movimento circular constante. Captar seus elementos
determinantes é dar conta da essência do seu movimento”26.

Os circuitos espaciais de produção e a dinâmica de fluxos


no território

Neste período de globalização, os subespaços adqui-


rem novos recortes espaciais, decorrentes do aumento da
divisão territorial do trabalho e do intercâmbio, que se dão
paralelamente, provocando uma aceleração do movimento,
presidindo sucessivas mudanças no conteúdo das regiões.
Desta forma, a região passa a realizar trocas intensas com
outras regiões, difundindo a produção, circulação, distri-
buição e consumo. Referenciando Bezzi, “a região surge
como ‘produto’ das relações inter-regionais [...]”27.
As mudanças analisadas, tanto espaciais, como
econômicas, culturais e políticas, podem ser feitas “de um

25 SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: território e


sociedade no início do século XXI.
26 SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado, p. 50.
27 BEZZI, Meri Lourdes. Região: uma (re) visão historiográfica –

da gênese aos novos paradigmas, p. 187.


181 |

ponto de vista das diversas instâncias da produção, isto é,


da produção propriamente dita, da circulação, da distri-
buição e do consumo [...]” 28. O estudo das instâncias da
produção é fundamental no entendimento da dinâmica de
fluxos, promovida pelos fixos29. A dinâmica de fluxos pro-
voca um aumento da segmentação das etapas de trabalho.
Sob a lógica do circuito espacial produtivo, a forma
como uma atividade organiza suas instâncias de produção,
e a maneira como os objetos são arrumados espacialmente,
de modo que possam viabilizar a dinâmica espacial do
produto, dão ideia de como são usados no território. Tais
condições identificam, simultaneamente, a organização
interna do lugar, os instrumentos de trabalho, um conjunto
de ações e as relações de trocas com outros lugares.

Localização espacial das instâncias da produção e dos


agentes envolvidos na montagem do boné

Santos explica que a paisagem possui instrumentos


de trabalho que obedecem a uma lógica de localização
espacial e produção específica. Fixados em um lugar, os
instrumentos estão ligados ao processo direto da produção,
“isto é, à produção propriamente dita, também o estão à
circulação, distribuição e consumo” 30.
Cada etapa de trabalho da produção de bonés é
viabilizada por instrumentos de trabalho e técnicas, que
criam um conjunto de ações, exercidas por agentes, que

28 SANTOS, Milton. Espaço e método, p. 47.


29 Para Santos SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço
habitado, p. 77, “Os fixos são os próprios instrumentos de
trabalho e as forças produtivas em geral, incluindo a massa de
homens. (...) Os fluxos são o movimento, a circulação e assim eles
nos dão, também, a explicação dos fenômenos da distribuição e do
consumo”.
30 Idem, p. 66.
182 |

obedecem a uma localização específica. Santos discorre que


“cada objeto é também localizado de forma adequada para
que produza os resultados que dele se esperam”31. As etapas
da produção estão geograficamente distribuídas, assim
como os principais agentes envolvidos no processo
encontram-se situados em frações específicas do território,
dispondo de maior ou menor poder de colocar a produção
em movimento.

A produção propriamente dita e os aspectos técnicos das


bonelarias

A forma como as bonelarias usam o território é


diferente da forma como as outras atividades produtivas do
Seridó usam o território, dependendo da capacidade ou do
poder técnico de que dispõem cada uma. Para Santos &
Silveira os circuitos espaciais de produção “mostram o uso
diferenciado de cada território por parte das empresas, das
instituições, dos indivíduos [...]”32. O uso diferenciado do
território pela atividade de bonés se exerce nas disponi-
bilidades da produção, cuja parcela técnica, manual ou
automatizada, é caracterizada por normas locais, permanen-
temente recriadas.
A base técnica das bonelarias dá explicações da base
técnica da sociedade seridoense e do seu respectivo terri-
tório. As técnicas de trabalho, usadas na montagem do boné,
são essenciais na compreensão do uso do território pela
instância da produção propriamente dita. As técnicas de
trabalho utilizadas nas etapas da costura do boné podem ser
vistas na figura a seguir:

31 SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio


técnico-científico-informacional, p. 107.
32 SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: território e

sociedade no início do século XXI, p. 144.


183 |

Figura 15
Etapas da costura do boné na Bonelaria Só Boné em Caicó

Foto: Zara de Medeiros Lins, dez. 2009

Nas bonelarias coexistem técnicas do passado com


técnicas do presente, até porque não existe um lugar em que
todas as técnicas sejam completamente velhas ou essencial-
mente novas, vislumbrando-se uma parte da história do
lugar e do uso do território pela atividade de bonés. O
conhecimento das técnicas atuais das bonelarias passa pelo
conhecimento das técnicas pretéritas, já que toda técnica tem
uma história embutida. Santos enfatiza que “o uso dos
objetos através do tempo mostra histórias sucessivas desen-
roladas no lugar e fora dele”33. Assim, a produção propria-

33SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão


e emoção, p. 40.
184 |

mente dita dos bonés é adequada ao lugar, que enreda o


trabalho imediatamente necessário.

Considerações finais

Sem pretensões de concluir este trabalho, que se


encontra em processo de estruturação, entende-se que a pro-
dução de bonés é um processo complexo e dinâmico, que
apresenta várias etapas, desde o fornecedor de matéria-
prima até o consumidor final, até diversos agentes envol-
vidos em sua lógica de localização e organização espacial.
Assim, é relevante explicar essa atividade, tomando, como
base geográfica, o conceito de circuitos espaciais de pro-
dução.
No meio técnico-científico-informacional, as instân-
cias da produção, circulação, distribuição e consumo se
tornam geograficamente separadas, graças às novas dinâ-
micas de fluxos, impulsionadas pelas redes de transportes e
comunicações, que, por sua vez, articulam os lugares,
mantendo intercâmbios constantes por meio dos circuitos
espaciais de produção.
A região no atual período da globalização passa a ser
produto de relações inter-regionais, uma vez que não dispõe
mais de autonomia produtiva, tornando-se interdependente.
Por este motivo, a noção tradicional de circuitos regionais
de produção é substituída pela ideia de circuitos espaciais
de produção.
Os circuitos espaciais de produção estabelecem
novos conteúdos e novas dinâmicas na região, decorrentes
do aumento de fluxos e de trocas, impulsionados pela
divisão territorial do trabalho no meio geográfico atual. A
compreensão deste meio geográfico torna-se concreta a
partir da explicação do território usado, considerado uma
categoria de análise social do espaço.
185 |

O território usado é apreendido por um dos seus


usos. No Seridó, um desses usos é explicado pelo circuito
espacial produtivo da atividade de bonés, em função do
trabalho comum de suas diversas instâncias da produção,
que promovem uma dinâmica de fluxos que perpassam o
território. Esta dinâmica traz rebatimentos ao Seridó,
implicando em um movimento permanente de trocas, no
subespaço regional, e deste com vários lugares do Brasil,
pautado nas expressões espaciais das instâncias do circuito
espacial produtivo, que envolvem o processo de montagem
do boné e os processos de circulação deste produto no
território.
Depreende-se, dessa forma, que as bonelarias do
Seridó se constituem um fenômeno crescente, cuja área de
produção difunde-se espacialmente na região, dinamizando
fluxos intensos e intercâmbios mais extensos no território.
186 |
187 |

CULINÁRIA DO SERIDÓ: UM ELEMENTO


DE IDENTIDADE TERRITORIAL1

Jucicléa Medeiros de Azevedo

Introdução

Para estudar a culinária como um elemento da


identidade territorial na contemporaneidade, é necessário
entendê-la como uma prática humana que envolve a prepa-
ração e consumo de alimentos2. Entende-se por preparar, o
modo de cozinhar, ou seja, as práticas culinárias, em stricto
sensu, desenvolvidas para que aconteça o consumo de
determinado alimentos, estando este de acordo com as
escolhas alimentares que envolvem tanto aspectos bioló-
gicos quanto culturais. Tais práticas se apresentam como
regras essenciais para as demarcações sócio-espaciais dos
sistemas culinários, indicado por Almeida como base para a
afirmação identitária de um grupo. Para ela:

1 Esse texto constitui parte da dissertação de mestrado que está


sendo produzida no âmbito do Programa de Pós-Graduação e
Pesquisa em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do
Norte, sob orientação do Prof. Dr. Francisco Fransualdo de
Azevedo, que propõe analisar a culinária seridoense como um
elemento da identidade territorial na contemporaneidade.
2 Essa ideia pertence a FISCHLER, Claude. A McDonaldização dos

costumes. In: FLANDRIN, Jean-Louis; MONTANARI, Massimo.


História da Alimentação, p. 841-62, sendo resgatada por
POULAIN, Jean-Pierre. Sociologia da alimentação: os comedores
e o espaço social alimentar.
188 |

A cozinha como fenômeno social é muito mais que


um somatório de pratos, na escolha e preparação de
cada prato os homens criam culturas de consumos
diferentes que dão origem a diferentes sistemas de
representação que uma vez reconhecidos como ca-
racterísticos do e pelo grupo constituem-se elementos
identitários (sic)3.

A noção de identidade que se pretende enveredar não


é qualquer identidade, mas sim a territorial, produto social
da territorialização das ações cotidianas tecidas no território,
espaço das experiências vividas permeado pelos senti-
mentos e pelos simbolismos, como também por práticas que
lhe garantem certa identidade sócio-cultural. Nesse sentido,
o território “é, antes de tudo, uma convivialidade”, “uma
determinada maneira de viver com os outros”4.
O território apresenta-se, nesse estudo, em sua dimen-
são cultural/simbólica e subjetiva, uma vez que “é pela
existência de uma cultura que se cria um território e é por
ele que se fortalece e se exprime a relação simbólica
existente entre cultura e espaço”5. Assim, a culinária no
Seridó é estudada como uma abordagem cultural que faz
ressurgir as relações existentes no nível espacial, entre a
sociedade e sua cultura, permitindo debruçar-se sobre a
expressão mais humana do território, cujos contornos estão
imbuídos de significado. Isso acontece pelo fato de que,
quando se menciona a possibilidade de haver um território
fruto de uma identidade, não se faz referência apenas aos

3 ALMEIDA,Vânia Menezes de. Ensaios sobre a valorização da


culinária tradicional local como estratégia identitária –
territorial, p. 31.
4 BONNEMAISON, Joel. Viagem em torno do território. In:

CORRÊA, Roberto Lobato; ROSENDAHL, Zeny. Geografia


cultural: um século (3), p. 126.
5 Idem, p. 101-102.
189 |

seus aspectos culturais e simbólicos, mas também, à orga-


nização social das ações manifestadas no cotidiano, e à
organização dos pensamentos e do desejo da sociedade de
estabelecerem uma identidade ao território.
Portanto, o aspecto fundamental da concepção de
identidade territorial encontra-se no fato de que sua “estru-
turação está na alusão ou referência a um território”6. Isso
porque este último “serve como base para os sentimentos de
identidade” 7.
Almeida considera que a forte ligação entre a culi-
nária e o território acontece porque a culinária regional é
produzida “em determinado território por um grupo identi-
tário que celebra o fazer do alimento como ato cultural de
manutenção do vínculo entre seus membros”8. E pensá-la
como um traço identificador requer “resgatar histórias,
tradições, produtos e tecnologias, contextualizadas em sis-
temas socioeconômicos, cultural-ecológicos, localizados no
tempo e no espaço”.9
Devido ao fato de comer representar uma manifes-
tação cultural, delineada no tempo e no espaço, acredita-se
que as peculiaridades históricas do Seridó conferiram um
perfil à sua culinária, ou seja, uma identidade. Neste sen-
tido, ela é entendida como uma continuidade histórico-
cultural inerente à vida do povo seridoense no seu território,

6 HAESBAERT, Rogério. Identidades territoriais. In:


ROSENDAHL, Zeny; CORRÊA, Roberto Lobato. Manifestações
da cultura no espaço, p. 178.
7 CLAVAL, Paul. A geografia cultural: o estado da arte. In:

ROSENDAHL, Zeny; CORRÊA, Roberto Lobato. Manifestações


da cultura no espaço, p. 59-98.
8 ALMEIDA,Vânia Menezes de. Ensaios sobre a valorização da

culinária tradicional local como estratégia identitária – terri-


torial, p. 75.
9 Idem, p. 34.
190 |

cuja dinâmica é impulsionada de acordo com o contexto


sócio-cultural do período vigente.

Globalização e/ou mundialização e a diglossia culinária

No final do século XX, os horizontes da mundia-


lização ou globalização10 foram ampliados, repercutindo
sobre a vida das pessoas e dos lugares. Esse processo é
decorrente das condições técnicas existentes na “era da
informação”, que viabilizou o desenvolvimento dos trans-
portes e das comunicações. Neste momento, foram intensifi-
cadas as relações econômicas, políticas, sociais e culturais
em escala mundial, acarretando, consequentemente, “a
mundialização do espaço geográfico” 11.
Globalização tornou-se um termo bastante comum,
geralmente associado às grandes mudanças ocorridas no
sistema econômico do globo, resultantes do aprofunda-
mento das relações de interdependência entre os diversos
atores internacionais, quer estes sejam Estados, organizações
ou grupos de cidadãos. Embora o impacto econômico tenha
sido o mais evidente, como se disse anteriormente, os efeitos
da globalização estendem-se a todos os setores da socie-
dade, incluindo a cultura. E mais veloz que a globalização
econômica, pensa-se que é a globalização cultural.
Edgar Morin enfatiza com mais veemência que, a
partir da década de 1989, abre-se uma nova etapa da mun-
dialização e/ou globalização, na qual acontece a dominação

10 Para ORTIZ. Renato. Mundialização e cultura, p. 31, a


globalização refere-se aos processos econômicos e tecnológicos,
enquanto que a mundialização remete-se ao domínio específico da
cultura. De acordo com sua visão, “uma cultura mundializada
corresponde a uma civilização cuja territorialidade se globalizou”.
11 SANTOS, Milton. O retorno do território. Observatório Social

de América Latina, p. 48.


191 |

militar, política e, sobretudo, econômica do Ocidente em


relação ao resto do mundo. Este fenômeno mundial
manifestou-se principalmente por causa do gigantesco de-
senvolvimento das comunicações e das trocas, a partir do
qual acontecem as simbioses das civilizações e as multi-
plicações das miscigenações culturais, sendo a cultura norte-
americana um operador desta universalização12. Acredita-se
que nenhuma nação pode vislumbrar o domínio cultural
total, uma vez que muitos sujeitos estão envolvidos por
causa do crescente número de informação transitando em
uma rede. Assim, os Estados Unidos podem ser conside-
rados a primeira potência política e econômica, mas não
cultural.
No mundo atual é comum a influência de aconte-
cimentos distantes sobre eventos próximos, como também
sobre os lugares. Isso foi instigado pelo desenvolvimento da
comunicação de massa, especialmente a eletrônica, que
intensifica as relações entre os lugares, ou melhor, o fluxo de
pessoas, mercadorias, produtos, informação e capital
circulando em uma rede global. Diante da nova dinâmica
mundial, em que o capitalismo13 é força motriz, o mundo
passa por um quadro de experiência unitário, pelos menos
com relação ao espaço-tempo, através de influências padro-
nizadoras desse modelo econômico. Neste contexto, “a
produção e a distribuição capitalista tornam-se compo-
nentes centrais das instituições modernas” 14.
O desenvolvimento dos sistemas de informação,
especialmente da mídia impressa e da comunicação, desem-

12 MORIN, Edgar. O método 5: a humanidade da humanidade.


13 Segundo GIDDENS, Anthony. Modernidade e identidade, p.
21, o capitalismo refere-se ao “sistema de produção de merca-
dorias que envolve tanto mercados competitivos de produtos
quanto a mercantilização da força de trabalho”.
14 Idem, p. 13.
192 |

penhou um papel importante na separação espaço e lugar,


pois serviram de modalidade para a reorganização destes.
Anthony Giddens (2002) apresenta duas características
básicas relacionadas a esse processo: a primeira refere-se à
experiência vivida com esse desenvolvimento, principal-
mente da mídia, em que o evento “torna-se quase com-
pletamente dominante em relação ao lugar”. Acontece
assim, uma espécie de efeito colagem de histórias e itens que
nada têm em comum com o lugar, pelo fato de estarem
separadas de seus signos de origem, ou seja, do seu am-
biente espaço-temporal, não formando uma única narrativa.
A segunda característica condiz com a “intrusão de eventos
distantes na consciência cotidiana”15. Esses eventos podem
ser vivenciados pelo indivíduo como exteriores e remotos;
mas muitos também se incutem na sua vida diária, ou
melhor, em seu cotidiano, como uma narrativa pertencente
a seu lugar.
Considerando esses fatos, alguns estudiosos16 discu-
tem sobre a homogeneização do espaço global. Outros17, ao
debaterem sobre a mundialização/globalização consideram
a antinomia que permeia esse debate: local/global, hetero-
gêneo/homogêneo e fragmentação/unicidade. Para Ortiz
“o resultado não foi a padronização dos costumes, mas uma
diglossia social”18, que rebate, também no estilo de vida dos
sujeitos, na forma de se vestir, de se alimentar, conse-
quentemente, sobre a culinária. Isso acontece em virtude da

15 Idem, p. 31.
16 Como Brum Neto e Bezzi (2008), Claval (2008), Costa (1999 e
2007), entre outros. Esses referidos trazem em seus trabalhos uma
discussão sobre a homogeneização como um dos aspectos da
globalização. No entanto, apresentam, o outro movimentos desse
fenômeno, o fortalecimento identitário.
17 Giddens (2002), Hall (2002), Morin (2002), Ortiz (2006), entre

outros.
18 ORTIZ. Renato. Mundialização e cultura, p. 194.
193 |

industrialização da alimentação que, simultaneamente,


desintegra e integra as particularidades culinárias e favorece
a sua formação, uma vez que a cultura de massa “trans-
forma os alimentos naturais locais em produtos culturais
homogeneizados para o consumo maciço”19. Sobre isso
Fischler comenta o seguinte:

[...] Seria errôneo acreditar que a industrialização da


alimentação, o progresso dos transportes, o advento
da distribuição em larga escala tenham como único
objetivo desagregar e destruir as particularidades
regionais. Na realidade, longe de excluir, a moder-
nidade favorece, em certos casos, a formação de
especialidades locais. 20

Para este referido autor a diversidade continuará


resistindo por causa da forte tendência da homogeneização
gerar, por reação, um forte apego às particularidades locais,
ou seja, as identidades. Neste caso, os indivíduos, como
também os lugares, diante da diversidade de opções alimen-
tares, buscam um estilo de vida para poder constituir uma
autoidentidade. Essa seria uma forma de se tornar diferente
entre os indiferentes.

Culinária seridoense: uma especificidade territorial

Na atualidade, essa forte tendência homogenei-


zadora dos espaços estimula a valorização do território
como um referencial para as escolhas e singularidades
alimentares. “Entre as várias formas de identidade suge-
ridas e comunicadas pelos hábitos alimentares, uma que

19 FISCHLER, Claude. A McDonaldização dos costumes. In:


FLANDRIN, Jean-Louis; MONTANARI, Massimo. História da
Alimentação, p. 858.
20 Idem, p. 859.
194 |

hoje nos parece óbvia é a do território: o comer geográfico”,


expressão cultural por meio da alimentação, que se apre-
senta diretamente ligada aos recursos do lugar. Neste caso,
os pratos, ou seja, as especialidades locais mostram-se
vinculados ao território21.
Nesse contexto, o Seridó, uma região com pronun-
ciada identidade cultural, a partir de seus bordados e
religiosidade, tem se destacado por sua culinária, mesmo
que a mundialização econômica tenha provocado certa
homogeneização do espaço. Desta feita, a culinária serido-
ense está vinculada à produção de uma singularidade capaz
de delimitar uma porção contínua e relativamente estável
do espaço. Lembrar a existência de uma culinária seridoense
é reconhecer o seu enraizamento territorial. Neste sentido,
surge a necessidade de analisar a culinária do Seridó como
um elemento da identidade territorial atual.
Tal preocupação excita em compreender como a
questão da identidade territorial se estrutura atualmente no
interior de uma sociedade que se organiza de forma distinta
do passado, uma vez que o capitalismo se instaura e “exige”
novos tipos de organização no território, em particular, a
partir da década de 1990, período em que este sistema
assume novas formas de desenvolvimento no espaço. Para
Morais:

O delineamento dos processos sócio-econômicos do


Seridó, em termos hodiernos, evidenciou as trilhas
percorridas e as estratégias utilizadas pela sociedade
na busca de superação das crises cotonicultura e
mineira que solaparam sua base produtiva e afetaram
também as instâncias social e política da região.
Antigos caminhos foram revisitados, novas veredas
foram desbravadas em um contexto marcado pela
ocorrência de secas e perspectivas embaçadas pelas

21 MONTANARI, Massimo. Comida como cultura, p. 135.


195 |

transformações históricas, conduzidas pela revolução


tecno-informacional, da era da globalização. 22

Vejamos que o rebatimento do processo global


acontece em uma base nada promíscua, em que a economia
apresentava-se solapada por crises23, deflagradas a partir da
década de 1970. Nesse referido ano descortina a derrocada
da cotonicultura, que afeta a rentabilidade da pecuária, e só
a partir dos anos de 1980 acontece o declínio da mineração.
Estes fatos estremecem a economia do Seridó, uma vez que
essa se fundamentava no tripé algodão-pecuária-mineração.
A partir de então, o território seridoense passa pelo processo
de reestruturação, dinamizado por acontecimentos que
rebatem de maneira significativa em sua estrutura social.
O declínio da economia cotonicultora e mineradora
impulsiona a migração da população residente no campo
para a cidade, definindo o padrão social, de rural a eminen-
temente urbano, comprovado com a tabela seguinte:

22 MORAIS, Ione Rodrigues Diniz. Seridó norte-rio-grandense:


uma geografia da resistência, p. 175.
23 Não é nosso objetivo apresentar os fatores que provocaram estas

crises. Para fins analíticos consultar MORAIS, Ione Rodrigues


Diniz. Seridó norte-rio-grandense: uma geografia da resistência,
p.253-64.
196 |

Tabela 01
População rural e urbana do Seridó, 1970/2000

ANOS POPULAÇÃO
Urbana Rural Total
1970 82.229 106.470 188.699
1980 115.888 95.900 211.788
1991 164.403 79.564 243.967
2000 194.206 69.130 263.336

Fonte: IBGE, Censo demográfico do Rio Grande do Norte, p.274-


357; IBGE, IX Recenseamento geral do Brasil: censo demográfico:
dados distritais – Rio Grande do Norte, p. 50-124; IBGE, Sinopse
preliminar do censo demográfico 1991. Rio Grande do Norte, p.1-
67; IBGE, Censo demográfico 2000: características da população e
dos domicílios, p. 269-271.

A partir da década de 1990 os traços da população


rural vão esmaecendo no território, enquanto que o contin-
gente urbano conferiu-lhe novos delineamentos, de forma
que os espaços das cidades do Seridó reorganizaram-se para
acolher seus novos moradores. Esse evento vai rebater nos
hábitos alimentares de seu povo.
Botelho comenta, a propósito, que a crescente urba-
nização de nossa sociedade, as transformações na estrutura
socioeconômica e cultural, como também, a intensificação
dos fluxos e intercâmbios internacionais provocaram
mudanças significativas na alimentação e na culinária dos
brasileiros24, não sendo diferente com o Seridó. De forma
que a reorganização desse território originada do processo
de urbanização provocou alterações em sua dinâmica. A
partir de então, o “comer geográfico”25 dos seridoenses não

24 BOTELHO, Adriano. Geografia dos sabores: ensaio sobre a


dinâmica da cozinha brasileira, p. 68-69.
25 PITTER citado por MONTANARI, Massimo. Comida como

cultura, p. 135.
197 |

se apresenta, somente, ligado aos recursos do lugar, uma


vez que surge uma gama variada de produtos provenientes
de outros locais. Isso pode ser verificado ao analisar alguns
cadernos de receita26 dos seridoenses, cuja linguagem culi-
nária ganhou novos elementos, desde ingredientes, até
pratos mais elaborados e sofisticados, que antes se apre-
sentavam estranhos aos costumes do Seridó.

Figura 16
Receita de Esquecidos e Raiva (anterior à década de 1960)

Fonte: Caderno de Receitas da família Farias

26Receitarefere-se a uma indicação detalhada sobre a quantidade


de ingredientes e a maneira de preparar um prato, seja ele, doce
ou salgado, frio ou quente. Normalmente as receitas escritas
contêm todos os dados necessários para se conseguir fazer o prato
escolhido, a forma como se manuseia os objetos e como se mistura
os elementos, a quantidade dos ingredientes, a temperatura
adequada, a espessura, o cheiro, entre outros elementos.
198 |

Figura 17
Receita de Hambúrguer Caseiro

Fonte: Caderno de Receitas da família Farias

De acordo com o exposto verifica-se que a partir da


década de 1990 as receitas, bem como, a culinária, vão sendo
modificadas e adquirindo um novo delineamento, uma vez
que os produtos não são provenientes do Seridó, mas sim,
de outros territórios, como é o caso do orégano, caldo Knorr,
carne de soja, gril – ingredientes do hambúrguer caseiro
(Figura 02). Esses se referem apenas a uma pequena amostra
199 |

do que foi introduzido na culinária seridoense, pois cons-


tatamos um número bem maior: creme de leite, ketchup,
queijo parmesão, palmito, milho verde enlatado, presunto,
baunilha e, dentre outros, picles.
Essa variedade de produtos é resultado da industria-
lização alimentícia que impulsionou a distribuição e consu-
mo de alimentos estranhos às culturas locais; como também,
das facilidades provocadas pelo desenvolvimento técnico-
científico-informacional, que viabilizou o fluxo de pessoas,
mercadorias, produtos, capital e informação, consequen-
temente, as trocas entre o território seridoense e os demais.
A intrusão de outros costumes na consciência coti-
diana dos seridoenses difundiu no cardápio, assim como no
território dessa região, uma multiplicidade de pratos
estranhos, até aquele momento, à sua cultura alimentícia,
fazendo com que sua culinária fosse modificada e adaptada
à nova ordem mundial, tornando-se algo dinâmico que
expressa as transformações de uma sociedade27.
Esses novos alimentos podem ser vivenciados pelo
indivíduo como exteriores e remotos; mas muitos também
se incutem na sua vida diária, ou melhor, em seu cotidiano,
como uma narrativa pertencente à cultura desse povo.
Assim, a culinária seridoense, ou seja, aquela tipicamente
regional apresenta-se no território como um “ponto singular
no holograma” com características do todo na sua própria
singularidade28. Neste sentido, acontece uma espécie de
sincretismo alimentar, em que a alimentação ganha um
protótipo universal, disseminando assim, uma idéia de
homogeneização dos hábitos alimentares.

27 BOTELHO, Adriano. Geografia dos sabores: ensaio sobre a


dinâmica da cozinha brasileira, p. 68-69.
28 MORIN, Edgar. O método 5: a humanidade da humanidade.

p.73.
200 |

No Seridó a situação é paradoxal: na medida em que


a alimentação dos seridoenses aproxima-se do estereótipo
produzido pela indústria alimentícia, a culinária sertaneja
reaparece no imaginário coletivo dos seridoenses e de
outros sujeitos, atrelado às origens de seu povo, ou melhor,
a uma culinária tipicamente regional, aquela que carrega em
sua essência “a técnica de transformar matéria-prima em
produto final, pois a cada passo (do fazer) símbolos da cul-
tura vão sendo incorporados ao produto. O resultado final
do processo é produto representativo do grupo (a identi-
dade cultural)” 29.
Atualmente o universo culinário seridoense é bas-
tante amplo, por causa das alterações ocorridas, sendo com-
posto por inúmeros pratos: café com leite, tapioca, orelha de
pau, polenta adocicada, bolo de ovos, bolo de macaxeira e
batata doce, tapioca, torrada, bolacha assada, bolo de batata,
omeletes, verduras, feijoada, macarrão, peixe cozido e assa-
do, fígado, galinha caipira, arroz de leite, cuscuz temperado
com verduras, farofa, macarronada, salpicão, feijão verde,
filé, bife cozinhado, torrada de forno, cachorro quente,
camarão ao catupiry, jerimum cozinhado, creme de galinha,
arroz refogado e de leite, sopa, verdura refogada, suflê de
chuchu, batatinha de forno, delícia de cupuaçu, sobremesa
de castanha, pizza e, dentre outras iguarias, doce de goiaba,
banana e caju.
No entanto, a culinária seridoense apresenta-se asso-
ciada apenas a alguns pratos, mais especificamente, à carne
de sol, ao queijo de manteiga e de coalho, aos biscoitos
caseiros (sequilho, tarecos, raivas, biscoito palito ou zé
pereira) e licores. Esses produtos tornam-se referência da
cultura seridoense, perpetuando no imaginário desse povo e

29ALMEIDA,Vânia Menezes de. Ensaios sobre a valorização da


culinária tradicional local como estratégia identitária – terri-
torial, p. 79.
201 |

de outros, como uma especificidade desse território. Isso por


que:

A culinária da região do Seridó potiguar já criou


fama em todo o país. A tradicionalíssima carne-de-
sol, os queijos de coalho e manteiga, os bolos, doces e
biscoitos artesanais, o jerimum, as frutas e todos os
pratos que se pode fazer com a imensa variedade de
ingredientes característicos de lá formam o conjunto
da gastronomia seridoense, capaz de deixar qualquer
um de água na boca30.

Não só isso, pois seu resultado ultrapassa o sentido


do gosto e ganha valores sentimentais, temperando o
cotidiano imagético dos sujeitos. Assim, não só a mesa e o
cardápio seridoense são enriquecidos com o resultado da
arte de cozinhar do povo do Seridó, mas também, a vivência
e o sentimento de pertencimento dos sujeitos com esse
território. A composição da música31 Adeus, Caicó, de José
Lucas, é uma mistura de sabor e ritmo que embala a forte
identificação desse sujeito com a cidade mais antiga da
região. A estrofe apresenta o sentimento de apreço a essa
cidade seridoense, atribuindo-lhe como adjetivo o sabor
inesquecível de queijo, manteiga e melão, guardado em sua
memória gustativa32.

30 ALBUQUERQUE, Illana. Roteiro: Explorar as delícias do Seridó.


Correio da Tarde, ed. de número 1.418.
31 Essa estrofe é parte integrante da letra da música Adeus, Caicó,

do compositor Pedro Lucas de Barros. Esse material foi


encontrado no caderno de receita da família Farias, de Serra Negra
do Norte. O curioso é que, a caligrafia acima é do próprio autor,
rascunhada no caderno de receita.
32 GIARD, Luce. Cozinhar. In: CERTEAU, Michel de; _____. ;

MAYOL, Pierre. A invenção do cotidiano 2: morar, cozinhar,


1996.
202 |

Figura 18
Fragmento da letra da música Adeus Caicó, de José Lucas de Barros

Fonte: Caderno de Receitas da família Farias. Arquivo da autora.

Para não concluir

A imagem construída do Seridó, a partir de sua


culinária, baseia-se na ideia de uma descendência comum,
“de uma história assumida em conjunto, ou de um espaço
com o qual o grupo assume elos quase místicos”. Esse com-
portamento fundamenta uma territorialidade ligada a uma
identidade territorial, construída por valores inerentes à
cultura alimentícia, o que provoca um “cuidado zeloso de
não se deixar influenciar ou contaminar por elementos
exteriores”33.
Desta feita, a culinária seridoense ainda apresenta-se
como um pretexto para a preservação da memória e da
identidade do grupo, impregnada de um conteúdo simbó-
lico/subjetivo produzido pela sociedade, que se reconhece e
se identifica enquanto pertencente a um território comum.
Assim, acredita-se que a culinária sintetiza e torna homo-
gêneos os aspectos internos do Seridó, tornando-o específico
e diferenciado em relação a outros espaços.

33 CLAVAL, Paul. A geografia cultural, p. 179.


203 |

A IDEIA DE SALVAÇÃO E A
ORGANIZAÇÃO DA MORTE NA RIBEIRA
DO SERIDÓ NORTE-RIO-GRANDENSE1
Alcineia Rodrigues dos Santos

A cultura mortuária da ribeira do Seridó norte-rio-


grandense esteve sempre ligada aos ideais cristãos. Notada-
mente, a religião católica sempre muito presente na vida do
homem do campo, ocupou parte significativa do complexo
processo que envolve a morte, a vida eterna e o bem morrer.
A base desse texto é a organização da morte pela sociedade
da ribeira do Seridó e a ideia de salvação que cerca todo esse
aparato. Investigando o discurso contido nos testamentos da
Comarca de Caicó, buscamos compreender a ideia de boa
morte. A partir daí cria-se também uma discussão acerca da
salvação e da vida eterna, momento em que pensamos as
noções básicas e valores do cristianismo no tocante ao
momento post morten.
A grande preocupação do homem sertanejo era, sem
sombra de dúvida, dar um bom destino a sua alma. A morte
não podia ser repentina. Morrer de morte súbita implicava,
na maioria das vezes, entender-se que o falecido não havia
tomado as devidas providências quanto à sua preocupação
com o bem morrer, podendo ter perdido o paraíso celestial.

1Esse texto constitui parte da dissertação de mestrado Temp(l)o da


salvação: representações da morte e ritos fúnebres no Seridó nos
séculos XVIII e XIX, defendida em 2005 no Programa de Pós-
Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte, sob orientação do Prof. Dr. Alípio de Sousa
Filho.
204 |

Morte sem aviso, sem preparação, morte inconsciente, morte


por acidente ou aquela cujo funeral não era certo eram
mortes ruins e, assim, temidas. Também os mortos que
haviam tido esse fim eram temidos, pois, sem o devido
planejamento da morte, as suas almas ficariam vagando e
voltariam para atormentar os vivos. Assim, a sociedade se
organizava colocando a morte em seu convívio social.
Inquietação também se tinha com os preparativos,
tanto é que alguns indivíduos se antecipavam em muito ao
momento da chegada da morte redigindo seu testamento,
no qual deixava prescritos todos os cuidados que julgava
necessário para o bom andamento de sua alma ao paraíso
celeste. Um estudo2 que realizamos no ano de 2006, revelou
que grande parte dos testadores da Freguesia de Sant’Ana
se preparava para a chegada da morte com bastante antece-
dência, até porque deixar tudo planejado antes do passa-
mento era algo extremamente importante, principalmente
porque seria danoso ao destino da alma não organizar os
negócios da vida – tanto materiais quanto imaterias, antes
da morte.
O medo3 de uma morte sem assistência levou muitos
seridoenses a buscar auxílio nas associações leigas. Fazendo
ou não parte de uma irmandade, o indivíduo queria mesmo
ter uma boa hora. As irmandades desenvolveram um papel
significativo, no sentido de propagar a fé cristã nos mais
variados espaços do sertão, transformando-se em fiéis
representantes do cristianismo colonial. Motivados pelo

2 SANTOS, Alcineia Rodrigues dos. Aqui na terra a salvação: a


preparação para a morte entre os habitantes do Seridó, sertão do
Rio Grande do Norte, no século XIX. Mneme – Revista de
Humanidades, v. 8, n. 20.
3 Em se tratando de pesquisas que versem sobre a questão do

medo nas sociedades ocidentais, leia-se DELUMEAU, Jean. O


pecado e o medo: a culpabilização no Ocidente (séculos 13-18).
205 |

desejo de salvação da alma e acreditando numa existência


após a morte, o homem cuidava, em vida, em adotar uma
postura social e religiosa capaz de amenizar suas faltas. Essa
preocupação com o bem morrer constitui-se um dos fatores
determinantes para a existência das irmandades na ribeira
do Seridó4.
Especialmente tratando das práticas mortuárias da
Ribeira do Seridó temos alguns estudos que se utilizam de
testamentos como fonte de investigação: as pesquisas de
Silva & Araújo5 e Medeiros6 nos dão também importantes

4 Sobre a presença de Irmandades e Ordens Terceiras na região do


Seridó, criadas pela Igreja Católica, especialmente em Caicó, a
partir de 1754, leia-se: MONTEIRO, Eymard L’ E. Caicó: subsídios
para a história completa do Município. Recife: Escola Salesiana de
Artes Gráficas, 1945. Em se tratando do Seridó como um todo,
temos os estudo do historiador Olavo de Medeiros Filho.
MEDEIROS FILHO, Olavo de. Velhos inventários do Seridó.
Brasília: Centro Gráfico do Senado Federal, 1983. Infelizmente
temos poucos estudos que versam sobre a atuação de Irmandades
no Seridó. A pesquisa da professora Conceição Coelho, concluída
no ano de 2000 é um dos desse exemplares que servem de fonte de
estudos sobre a temática. Em sua dissertação, a autora faz um
estudo sobre o Compromisso da Irmandade do Santíssimo
Sacramento, da cidade de Currais Novos/RN. COÊLHO, Maria da
Conceição Guilherme. Entre a terra e o céu: viver e morrer no
sertão do Seridó – séculos XVIII e XIX. 2000, 101f. Dissertação
(Mestrado em Serviço Social) – Departamento de Serviço Social,
Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal, 2000.
5 SILVA, Francisca Palmeira Almeida; ARAÚJO, Maria Dalvanice.

O ritual dos mortos no Seridó antigo – O caso de Currais Novos –


RN. 1994. 27f. Monografia (Graduação em História) Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, Caicó, 1994.
6 MEDEIROS, Katiane Silva de. Faces da morte: rituais fúnebres

no Seridó. 2002, 56f. Monografia (Graduação em História) –


Departamento de História e Geografia, Universidade Federal do
Rio Grande do Norte, Caicó, 2002.
206 |

indicações para a análise das práticas do bem morrer. Outro


estudo que também se utilizou desses manuscritos buscan-
do compreender as atitudes diante da morte na ribeira do
Seridó foi o de Maria da Conceição Guilherme Coêlho7, que
empreendeu pesquisa sobre o viver e o morrer durante os
séculos XVIII e XIX, um estudo feito tendo como fonte,
testamentos e documentos de partilha, além do Compro-
misso da Irmandade do Santíssimo Sacramento da vila de
Currais Novos, que teve como meta focalizar o lugar da
morte e o tratamento dado ao corpo e a alma. Coêlho obser-
va que a presenças da Irmandade do Santíssimo Sacramento
naquele espaço colonial promoveram o surgimento de uma
nova cultura mortuária, posto que essas associações vão
fazer novos vínculos entre a sociedade e a igreja.
Joelma M. de Araújo Branco8, em sua monografia de
especialização, defendida em 2001 pela Universidade Fede-
ral do Rio Grande do Norte, intitulada Entre os gritos da vida
e da morte, aponta para a compreensão de que os rituais
executados em prol do morto estavam intimamente ligados
com entendimento que o indivíduo tinha em relação à
salvação de sua alma e vida eterna. O estudo de Joelma
Branco desponta como um dos pioneiros a pensar as re-
presentações9 da morte na Ribeira do Seridó. A autora, do

7 COÊLHO, Maria da Conceição Guilherme. Entre a terra e o céu:


viver e morrer no sertão do Seridó – séculos XVIII e XIX. 2000,
101f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Departamento
de Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio Grande do
Norte. Natal, 2000.
8 BRANCO, Joelma M. de Araújo. Entre os gritos da vida e da

morte: reconstruindo atitudes perante a morte em São João do


Sabugi na primeira metade do século XX. 2001. 52f. Monografia
(Especialização em História do Nordeste) - Departamento de
História e Geografia, Universidade Federal do Rio Grande do
Norte, Caicó, 2001.
9 O termo “representações” está sendo utilizado conforme o
207 |

mesmo modo, tem como fonte de investigação documentos


testamentários.
Morrer repentinamente era um sentimento que
apavorava o morador da ribeira do Seridó. Isso se tornava
mais evidente no momento em que ele demonstrava as
preocupações com o instante da passagem do mundo dos
vivos para o dos mortos. Era de fundamental importância
tomar todas as providências necessárias para garantir de um
lugar no paraíso celeste. Na Capitania do Rio Grande do
Norte os defuntos eram alvos de extrema preocupação. Os
corpos mortos recebiam um tratamento que ia desde a
organização da indumentária, os cuidados com os rituais
religiosos até a arrumação da casa e da igreja.
O sertanejo sentia profundo desejo de salvação, logo
a morte não podia ser repentina. Morrer de repente,
repentinamente ou de morte súbita implicava, na maioria das
vezes, na compreensão de que o falecido não havia tomado
às devidas providências quanto à sua preocupação com o
bem morrer, podendo ter perdido o paraíso celestial. Morte
sem aviso, sem preparação, morte inconsciente, morte por
acidente ou aquela cujo funeral não era certo eram mortes
ruins e, assim, temidas. Também os mortos que haviam tido
esse fim causavam temor, pois, sem o devido planejamento
da morte, as suas almas ficariam vagando e voltariam para
atormentar os vivos. Assim a sociedade se organizava
colocando a morte em seu convívio social.
No decorrer dos séculos XVIII e XIX, o medo da
morte súbita foi um sentimento latejante na consciência do
homem do sertão. Desse modo, estabeleceu-se uma intensa
relação entre o sertanejo e sua viagem derradeira. A preocu-
pação com a perda do paraíso celestial se torna patente
quando os homens do campo procuram fugir das chamas do

pensamento de CHARTIER, Roger. A História Cultural entre


práticas e representações.
208 |

fogo do inferno mediante a construção de capelas e igrejas, tão


logo suas fazendas são fixadas em determinado local.
Ressaltamos aqui a importância desses templos, que, além
de se constituírem em locais de decisões político- adminis-
trativas, eram essencialmente um espaço sagrado para o
culto, assim como o local de descanso eterno do corpo e da
alma.
As práticas de assistência ao morto eram um elo que
simbolizava uma boa partida da vida dos cristãos, pois, nos
templos – locais santos –, conforme nos mostra Mircea
Eliade10, é possível manter uma certa interação com os
deuses. É lá que eles descem à terra, dando oportunidade ao
homem de ascender simbolicamente ao céu. Do mesmo
modo “a morte no Brasil é concebida como uma passagem
de um mundo a outro, numa metáfora de subida ou
descida”11.
Na tentativa de sucesso na boa partida, havia sím-
bolos e atitudes que propagavam a morte, de forma a
anunciar o morto, que chegaria jubiloso aos céus. Nessa
perspectiva, a morte coletiva, ressaltada por Philippe Ariès12,
se torna parâmetro essencial, pois, desde o primeiro mo-
mento em que o indivíduo percebia a morte se aproximar,
tratava de buscar mecanismos no incentivo de uma boa
morte. Logo, “da agonia à morte e desta a sepultura, a
solidão, o silêncio e a privacidade estavam ausentes” 13.
Todo esse esplendor estava baseado nas concepções desen-
volvidas pelo catolicismo.

10 ELIADE, Mircea. Tratado de história das religiões.


11 DA MATA, Roberto. A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e
morte no Brasil, p. 141. (grifos da autora)
12 ARIÈS, Philippe. História da morte no Ocidente.
13 MEDEIROS, Katiane Silva de. Faces da morte: rituais fúnebres

no Seridó, p. 9.
209 |

A rigor, as raízes das representações da morte no


Brasil estão em Portugal e na África. Da cultura portuguesa,
por exemplo, vivenciamos os três espaços reservados à
morte ou ao morto: o inferno, o purgatório e o céu. A morte
africana, mesmo permanecendo com pompa própria (cortejo
munido de acrobacias, danças e fogos), era cuidada à
maneira católica. O Império do Brasil do século XIX estava
permeado de africanos, que haviam trazido seus rituais e
costumes fúnebres e que, mesmo tendo que se adequar à
maneira americana de morrer, não deixaram de celebrar e
cultuar seus mortos de forma especial. Tal fato serviu
amplamente para a difusão do imaginário da morte e das
significações desta no Brasil.
A fé católica pregava que, de acordo com o envol-
vimento do indivíduo com as práticas religiosas, sua alma
teria ou não descanso. De tal modo, a Igreja tinha a ocupa-
ção de incutir no pensamento das pessoas que deveriam
cultivar a salvação através de boas ações na terra. Sem elas,
o morto corria o risco de ser condenado, uma vez que, no
julgamento final14, nenhum pecador seria tolerado. Tendo
em vista a percepção que o sertanejo tinha da morte como
algo que ele não poderia adiar tampouco evitar, ele buscava
organizá-la de forma a garantir, além de uma boa morte,
formas de possuir o paraíso celeste. Sinais como uma doença,
ou idade avançada, levavam-no a pensar em seu desloca-
mento rumo ao eterno.
Dessa forma, e temendo ser surpreendido pela morte
sem preparação, o morador do Seridó via nos testamentos
um poderoso veículo de salvação. Elaborados na presença
de amigos e familiares, esses documentos se destinavam à
organização dos funerais. Neles, indicava-se a quantidade

14 Sobre a ideia de juízo final, consultar COÊLHO, Maria da


Conceição Guilherme. Entre a terra e o céu: viver e morrer no
sertão do Seridó – séculos XVIII e XIX.
210 |

de missas a ser ditas pela alma do testador, o modelo da


mortalha, o local de sepultamento, nomeavam-se santos
como advogados, a quantidade de padres para as celebra-
ções e a pompa fúnebre, mandando-se pagar ou perdoando-
se dívidas a credores humanos ou celestes, pois era uma
espécie de reparação moral e financeira. O indivíduo não
poderia morrer devendo aos santos; pois, do contrário, eles
não interviriam no julgamento daquela alma junto à corte
celeste. Através do testamento, a morte podia ser olhada
pelos vivos, por meio de sua vontade de interferir junto às
forças celestes no caminho rumo ao outro mundo. Mesmo
que não tivesse cultivado uma vida terrena digna, o indi-
víduo tratava de assegurar sua salvação, e o testamento
dava-lhe a oportunidade de reparar os danos à vida eterna,
conforme o entendimento da época.
Tudo isso nos mostra quanto os cuidados com a
morte primavam por um ordenamento econômico. Nossas
fontes revelam que as preocupações estavam, sobretudo,
ligadas ao pagamento de dívidas. Os testadores expressam
essa preocupação, como ocorre com dona Maria do Nasci-
mento, que declara não dever a pessoa alguma, porém, estando
consciente de que poderia, num momento posterior, ser socorri-
da por alguém com dinheiro, manifesta sua vontade de solver a
dívida, mesmo que venha a aparecer após sua morte,
ratificando que, se o cobrador for seu afilhado, o pagamento
obedecerá a suas disposições sem necessidade de autenticação
judicial. Do mesmo modo, Luís de Fontes Rangel, natural da
Freguesia do Seridó, reconhece que deve a várias pessoas,
contudo está na diligência de pagar, para ultimar suas contas.
Ainda como exemplo de prestação de contas, destacamos o
caso de Joana Maria dos Santos a qual especifica que “nada
me devem e eu só devo às Irmandades de minha Freguesia
de que sou Irmaã. Declaro mais que devo á São Severino
211 |

Mártir quatro mil reis = que meos testamenteiros (...)


pagarão da minha terça”. 15
Outros, porém, expressavam o desejo de prestar
contas àqueles que poderiam ajudá-los na escalada para
enfrentar a justiça divina. O desejo de reparação moral
estava claramente colocado por eles. Muitos, percebendo-se
diante do fim, reconheciam filhos ilegítimos, geralmente
tidos em relações sexuais/amorosas com suas escravas. De
certo modo, os moribundos pretendiam também arrumar a
vida dos vivos, pois os bens materiais serviam para auxiliar
seus parentes, afilhados, dependentes, pessoas próximas,
assim como para as benevolências e o pagamento das
dívidas terrenas e para assegurar a realização dos desejos
imateriais.
Dadas essas informações, é importante aqui destacar
alguns aspectos de ordem técnica que compõem a estrutura
desses documentos. Os testamentos e inventários post
mortem são documentos de grande importância entre as
fontes manuscritas – evidências do passado como cartas,
diários e documentos registrados em cartórios –, devido ao
fato de apresentarem dados relevantes ao estudo da família
e à sucessão das heranças. Em nosso estudo, eles se tornam
fundamentais, por imprimirem um olhar do sujeito sobre
sua vida, expressando suas estratégias para o bem morrer.
Sendo um documento de caráter eminentemente
eclesiástico e jurídico-civil, o testamento possui informações
de ordem social, cultural, econômica, política, adminis-
trativa e, sobretudo, religiosa. Através dele, o indivíduo
dispõe de seus bens, declarando solenemente aquilo que
deseja que se faça após sua morte. É um instrumento
público, geralmente escrito mediante testemunhas. Durante
o período colonial, os testamentos eram especificamente de

15LABORDOC/FCC/DIVERSOS/ 1º CJ/Cx.01 - Folhas esparsas


de inventários, vol. 5º, doc. 005, 1847-1859.
212 |

três tipos: o nuncupativo, em que o testador declara suas


vontades últimas oralmente; o hológrafo; documento escrito
e assinado pelo próprio testador; e o público, geralmente
organizado pelo tabelião. Nossa pesquisa constatou que, na
região do Seridó, os testamentos eram, em sua grande
maioria, de ordem pública, escritos pelo tabelião senão pelo
pároco, quando o indivíduo se encontrava em seu leito de
morte. 16
Os testamentos permitem-nos também conhecer
detalhes individuais sobre as relações sociais. Essa fonte
traz especialmente informações pontuais sobre o testador -
naturalidade, filiação, data de nascimento, número de filhos
(naturais, legítimos ou adotivos), informações sobre o
estado do indivíduo no momento de testar, como, por
exemplo, se estava in extremis e se era ou não alfabetizado
(para aqueles que não tinham o domínio da escrita, o
testamento seguia assinado a rogado do testador). Em geral,
incluía as súplicas de ordem religiosa. Invocação aos santos
da corte celestial, especialmente à Santíssima Trindade, ao
santo do nome e do dia do nascimento do testador,
rogações, pedidos e encomendações da alma, geralmente a
Jesus Cristo e Maria Santíssima, não sendo esquecidos os
santos padroeiros e/ou protetores. Em seguida, vinham as
determinações a serem cumpridas no tocante ao corpo, ao
sepultamento, ao funeral e todos os cuidados espirituais
após a morte. O testador seguia declarando seus bens,
apresentando dívidas ou declarando não tê-las, e encarre-
gando alguém – geralmente homem – de cumprir suas
últimas vontades.

16Sobre a normatização técnica dos testamentos, consultar Milton


Stanczyz Filho, em Instrumentos de pesquisa: indicadores
possíveis na exploração de testamentos e inventários post mortem.
Artigo publicado nos ANAIS da V Jornada Setecentista, realizada
em Curitiba - MG -, de 26 a 28 de novembro de 2003.
213 |

Já o inventário post mortem faz parte de um processo


judicial para legalização da transferência de bens. É um
documento que complementa o testamento, por vezes exigi-
do pela lei, mas pode também não ser precedido por testa-
mento. Segue basicamente a estrutura inicial do testamento,
apresentando dados pessoais, mas sem a parte mais religio-
sa. Traz a listagem dos bens e seus respectivos valores, para
serem finalmente partilhados entre herdeiros legítimos e
beneficiários.
O desejo do testador era, na verdade, que sua vonta-
de fosse cumprida e, para isso, ele indicava testamenteiros,
pessoas que iriam satisfazer suas disposições. Estas só
seriam oficialmente conhecidas com a abertura do testa-
mento, após a morte do indivíduo, tendo a execução das
determinações feitas pelo morto que ser comprovada me-
diante recibos – momento em que o testamenteiro vinha à
Justiça Pública prestar contas. As disposições testamentárias
expunham minuciosamente as vaidades individuais, extra-
polando as determinações sobre a partilha de bens. Em
realidade, servia como um meio de fazer conhecer a
vontade do testador no tocante aos procedimentos a serem
realizados para a salvação de sua alma. Assim, a abertura
de testamentos tornou-se uma atitude bastante reveladora
da busca pela remissão dos pecados na sociedade serido-
ense. Como exemplo disso, o testamento de Joanna Maria
dos Santos, aprovado em junho de 1851, mostra o temor da
morte, desvendando o entendimento de que esta se aproxi-
mava e a preocupação diante dessa passagem.

(...) Eu Joanna Maria dos Santos estando com saúde e


em meu perfeito juizo e entendimento que Deus
nosso senhor foi servido dar me, temendo-me a
morte pela avançada idade em que me axo e
214 |

querendo por os negócios de minha vida em ordem;


faço este meu solenne Testamento (...).17

É importante observar que a testadora, consciente de


sua morte, busca encaminhar a sua alma para a vida eterna.
Dona Joanna Maria ainda declara: meu corpo em volto em
habito será sepultado na minha Matriz de gradis a Cima18, um
indicativo de que ela queria estar cada vez mais perto do
altar, que, segundo o imaginário da época, era o lugar mais
próximo de Deus e da salvação. Seguem-se as demais
disposições, tais como: encomendação de sua alma à corte
celestial, aos santos de devoção e à santa de seu nome,
pedido de missas e posterior partilha de bens. Logo, a
inquietação quanto ao destino da alma e a forma como esta
chegaria ao céu também faziam parte desse universo
simbólico que permeou os testamentos.

(...) Primeiramente encomendo minha [alma] a todo


Poderoso que a creou e lhe rogo pelos merecimentos
do Preciozo Sangue de meu Senhor Jezus Christo, me
a Salve = Rogo a Maria Santíssima Mae e advogada
dos pecadores, enterceda por mim ao Senhor, para que
minha alma entre na Glória para que foi creada; Rogo ao
Anjo da minha guarda a Santa do meu nome á minha
Padroeira Sant’Anna e a todos os mais Santos e
Santas da Corte do Ceo sejão meos intercessores na hora

17 LABORDOC/FCC/DIVERSOS/1ºCJ/Cx.01/D. 005 – Folhas


esparsas de inventários, vol. 5º, 1847 – 1859.
18 Cada um desses lugares de enterramento tinha um significado

importante, se não para o morto, para a família que o sepultava e


para a sociedade como um todo. No espaço físico da igreja,
simbolicamente representando a geografia celeste, as grades
localizavam-se nas laterais, subdividindo-se em: das grades acima
e abaixo.
215 |

da minha morte para que a minha Alma vá gozar da Bem


aventurança (...). 19

Igualmente, dona Joaquina Maria do Nascimento,


natural da Freguesia do Seridó, cujo testamento é datado do
ano de 1850, revela sua vontade de possuir o reino, inclu-
sive ancorada na fé, no catolicismo, sendo possível avaliar
aspectos importantes no tocante ao processo de salvação.
Observando a redação do documento, percebemos que ela
dispensou atenção especial à encomendação de sua alma,
rogando à corte celeste por sua intercessão. O conhecimento
da sua fraqueza humana diante da morte lhe permite
avaliar elementos culturais estabelecidos pelo homem em
relação ao fim da vida:

(...) Eu Joaquina Maria do Nascimento, estando


enferma; porém de pé e em meu perfeito juizo que
Deos Nosso Senhor foi servido dar-me, mas
temendo-me da morte faço este meo solenne Testa-
mento pela forma e maneira seguinte. Primeiramente
encomendo a minha Alma ao Todo Poderoso que a
creou, e lhe rogo pelos merecimentos do precioso
sangue de meu Senhor Jesus Christo me a salve. Rogo
a Maria Santíssima, mãe e adevogada dos pecadores,
á gloriosa Senhora Santa Anna minha padroeira, ao
anjo da minha guarda a santa do meo nome, e a todos
os santos e santos da corte do ceo queirão interceder
por mim ao Senhor, para que minha alma entre
segura na glória para que foi creada. (...) Meu corpo
envolto em hábito branco será sepultado na capella
de Nossa Senhora do Ó da Serra Negra, onde estão
sepultados os meus predecessores, acompanhada
pelo sarcedote que ahi estiver de Capelão havendo-o,
e não o havendo será da forma que pude ser, de

19 LABORDOC/FCC/DIVERSOS/1ºCJ/Cx.01/D. 005 – Folhas


esparsas de inventários, vol. 5º, 1847 – 1859. (grifos da autora).
216 |

gradis ascima, e havendo capellão este dirá por


minha alma missa de corpo presente (...). 20

A testadora demonstrou fraternidade e devoção


quando solicitou ser sepultada na Capela de Nossa Senhora
do Ó, na cova onde se encontravam inumados seus
predecessores. Com isso, percebemos o pensamento religioso
da época, que via a morte como uma passagem: na verdade,
ela voltaria a encontrar seus familiares na Jerusalém celeste,
por isso deixa claro que seu sepultamento deveria acontecer
dentro da igreja das grades a cima, evidenciando o desejo de
libertação. Joaquina Maria do Nascimento continua seu
texto declarando não ter sido casada nem ter tido filhos e,
talvez por essa razão, solicita o hábito branco, que, confor-
me pensamento da época era a cor reservada às jovens que
morriam gozando de sua donzelice.
Na tradição seridoense, o ato de testar tornou-se um
grande instrumento para reparação dos pecados. Percebe-se
o arrependimento quando o sertanejo prescrevia, em tal
documento, uma série de sufrágios que deveriam ser execu-
tados por seus parentes, com vistas a eliminar suas faltas
terrenas. A redação do testamento foi uma ação bastante
comum no período colonial e durante o Império. Essa
técnica era usada especialmente entre aqueles que tinham
posses, contudo não somente por eles, de modo que o
homem simples também ousou testar, existindo eviden-
temente diferenças entre os dois casos.
A escrita do testamento dizia respeito a doações
imateriais, materiais e religiosas, prescritas de acordo com o
interesse de salvação do testador. Geralmente, eram deter-
minações para que fossem rezadas missas em favor de sua

20 LABORDOC/FCC/DIVERSOS/ 1º CJ/Cx.04 - Documentos


referentes à tutela e curatela – Diversas épocas anteriores a 1918,
volume 1.
217 |

alma, indicação de hábito e local de sepultura. Não só a


família ou os parentes considerados podiam cumprir os
sufrágios; as irmandades, por exemplo, tinham o dever de
homenagear seus mortos. Em virtude disso, muitos testa-
dores deixavam poderosas quantias para assegurar o cum-
primento de seus desejos últimos por essas associações.
Toda essa preocupação com a expiação dos pecados
é baseada no imaginário cristão, preservador da crença em
que a salvação da alma está condicionada ao exercício de
boas ações terrenas, atrelado às práticas religiosas. Aspectos
como encomendação da alma, nos testamentos, se mostram
com amplo conteúdo, fundando-se na intercessão da corte
celeste e aos anjos para a defesa da alma no dia do juízo
final. Assim é o caso de Maria do Nascimento, natural da
Freguesia de Sant’Ana, que, buscando garantir sua salvação,
dita seu testamento em 1823, da forma seguinte:

(...) Primeiramente encomendo a minha alma a Ds


que me criou, confessando a Santíssima Trindade e
pedindo humildemente a segunda pessoa desta, que já
que veio a Mundo por todos os pecadores, me queira
saber participar dos merecimentos do seu Precioso sangue
para que minha Alma seja salva. Rogo a Maria Santís-
sima queira interceder por mim á seu Unigenito filho;
ao anjo da minha guarda, e ao todos os santos da
corte do ceo, queirão coadjuvar as minhas súplicas, e
socorrerme no arriscado apartamento desta vida mortal
para a eterna (...). 21

A salvação encontra no testamento um importante


aliado. A preocupação com o destino da alma e a ansiedade
em relação à caminhada rumo ao outro mundo surgem
nesses documentos mediante instruções a respeito do local
de sepultamento, do hábito mortuário e da quantidade de

21 Idem.
218 |

missas e doações que deveriam ser providenciadas. Dona


Maria do Nascimento continua seu testamento expressando
os desejos sobre seu funeral:

(...) Meu corpo será sepultado nesta Matriz da gloriosa


Santa Anna envolto em habito de Carmelita, que já tenho
pronpto, acompanhado pêlo meu reverendo Parocho,
e mais sacerdotes, que commodamente poderem se
achar, satisfazendo-se o que for de estatuto da
Freguesia, e direitos Paroquiaes; os quaes todos,
podendo, me dirão missas de corpo presente com a
esmola de duas patacas, e cada hum mais hum
oitavário da mesma esmola. Far-se-há p^ minha alma
hum offício solenne, além do Paroquial. Quero por
minha alma duas capelas de missas com a esmolá de
pataca cada missa e p^ Alma de meu Marido outras
duas capelas da mesma esmola: por Alma de meus
pais huma capela da msma esmola: por Alma de meus
irmãos outra capela; e finalme outra capela pelas
Almas do Purgatório em geral, tudo com a mesma
esmola. Darse-há parte a Irmandade das Almas desta
Freguesia, de que sou irmãa para que se me fazerem os
suffrágios, que de direito me pertencem, satisfarse-há, o que
me achar é dever (...). 22

A preocupação da testadora vai além da salvação de


sua alma, uma vez que ela dispensa missas a toda a sua
família e outras que precisarem, pois, na busca pela salvação,
o testamento, valoroso instrumento da Igreja Católica,
advertia para o não esquecimento daqueles parentes ou
amigos mais necessitados. No texto também se revela o
desejo e a tentativa de interferir em seu julgamento final:
hábito de carmelita, missas de corpo presente, ofício solene
e a doação feita a uma irmandade são elementos reve-
ladores da força da religião no seio da sociedade, um

22 Idem, ibidem.
219 |

imaginário cristão que denota a eterna preocupação com a


salvação.
Sendo a morte um momento do qual o homem não
pode escapar e percebendo sua falta de controle sobre ela, o
seridoense observava os ritos como uma forma de garantir
um bom traslado desta à outra vida. Se a agonia começava,
iniciava-se também a realização de ritos que iriam conduzir
bem o moribundo à sua última viagem. Nesse momento, o
agonizante detinha toda a atenção possível. As mulheres
cozinhavam para o doente, cuidando também de tratar de
suas vestes. Ao primeiro sinal de moléstia e desfalecimento,
o seridoense se encontrava rodeado por seus parentes e
amigos, pois, como diz Philippe Ariès, “não se morre sem
ter tempo de saber que se vai morrer”23.
Realçando o pensamento de Philippe Ariès24 quando
trata da morte coletiva e trazendo essa concepção para a
realidade seridoense, Juvenal Lamartine de Faria escreve
que, “quando adoecia um fazendeiro sertanejo, e o seu
estado de saúde se agravava, os amigos e parentes mais
próximos revezavam-se em torno do leito, numa assistência
espontânea, auxiliando a família nos cuidados com o enfer-
mo”25. Todos eram convidados a participar dos funerais,
porém, um elemento indispensável da pompa fúnebre era a
presença dos padres. Via de regra, eram os sacerdotes os
mais privilegiados na intermediação da salvação: caso não
nenhum padre participasse do cortejo, o morto poderia
perder sua alma, que, fora do corpo, ficaria vagando e
atormentaria os vivos. Assim, os sertanejos queriam dispor
cada vez mais da presença de párocos em seus enterros.

23 ARIÈS, Philippe. História da morte no Ocidente, p. 27.


24 Idem.
25 FARIA, Juvenal Lamartine. Velhos costumes do meu sertão, p.

113.
220 |

Morrer era um grande acontecimento social. “A


celebração da morte dispensava o silêncio: os pobres
rezavam em voz alta, as carpideiras pranteavam, [...] o
sacristão repicava o sino”.26 O cortejo fúnebre finalizava a
vida: representava a última passagem pelo mundo dos
vivos. Assim, quanto maior o número de pessoas, maior
seria a graça alcançada pela alma. Cortejo com pouca gente
era um sinal de mau presságio. O cortejo deixava a casa ao
pôr-do-sol; assim, o fim do dia se associava ao fim da vida.
Para os brasileiros, essa cerimônia fazia parte de suas
principais obrigações, além do que se configurava como
uma grande diversão. Um grande número de pessoas no
cortejo significava maior prestígio social do morto
Michel Vovelle, embora perceba que a história da
morte é uma história de silêncio27, nos revela que o
deslocamento do mundo dos vivos rumo à morada eterna
está permeado por fontes que não deixam de denunciar a
morte. Um ente querido que morre fica na lembrança, não
pela vivência pessoal, mas pelas proporções econômicas e
sociais que o funeral toma. Assim, os ritos de passagem se
tornam mais importantes que a própria morte. Já João José
Reis, percebe que a morte está contornada por muito som e
manifestações e que esse barulho nada mais é do que um
“facilitador da comunicação entre o homem e o sobre-
natural”.28 Encomendado o corpo, o defunto precisava
receber um último adeus dos vivos: era chegado o momento
da missa de corpo presente, o qual era uma ocasião de

26 REIS, João José. O cotidiano da morte no Brasil oitocentista. In:


ALENCASTRO, Luiz Felipe de. (Org.) História da vida privada
no Brasil 2: Império – a corte e a modernidade nacional, p. 120-1.
27 VOVELLE, Michel. A história do homem no espelho da morte.

In: BREAT, Herman; VERBEKE, Werner. A morte na Idade


Média: p. 18-20.
28 REIS, João José. Obra citada, p. 105.
221 |

entrega total à morte, de reconhecimento do fim, como


também de profissão de fé, de desejo da aceitação divina.
Logo no início, quando a região do Seridó conheceu
seu processo de colonização, a maioria das homenagens
eram feitas na casa do defunto. Posteriormente, esse ritual
ganhou o espaço sagrado, passando a ser realizado no
interior das igrejas, sob a responsabilidade do sacerdote.
Desde a Idade Média, a prática dos enterramentos dentro
das igrejas existia, mas inicialmente esse era um privilégio
do clero, contudo, aos poucos foi se difundindo entre a
população. Para o seridoense, o enterramento em solo
sagrado era garantia de salvação.
Outra forma de prestar homenagem ao falecido e
propagar a morte também utilizada pelos seridoenses, era o
choro das carpideiras. Para Reis, essas mulheres, que
acompanhavam os funerais pranteando os mortos, serviam
como ajuda para elevá-los ao céu, uma espécie de anúncio à
corte celeste. O choro demonstrava o prestígio social do
morto. No Brasil, diferente da Europa, essa prática não
estava relacionada à situação financeira do morto; tais
protestos evidenciavam especialmente consideração, amiza-
de e respeito. As carpideiras pranteavam qualquer indi-
víduo. Esse “comportamento objetivava, por exemplo,
afastar os maus espíritos de perto do morto e a própria alma
deste de perto dos vivos”. 29

29 REIS, João José. Obra citada, p. 114. O estudo de Francisca


Palmeira Almeida da Silva e Maria Dalvanice de Araújo, sobre o
ritual dos mortos, é um dos pioneiros a tratar da presença das
“incelências” como forma de cultuar o moto na ribeira do Seridó.
Cf. SILVA, Francisca Palmeira Almeida; ARAÚJO, Maria
Dalvanice. O ritual dos mortos no Seridó antigo – O caso de
Currais Novos – RN. 1994. 27f. Monografia (Graduação em
História) Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Caicó,
1994.
222 |

Várias foram as formas que o sertanejo encontrou


para ajudar no traslado rumo ao outro mundo. Um pouco
receoso, porém desejoso de apreender algo sobre os costu-
mes e hábitos da gente sertaneja, o viajante inglês Henry
Koster, motivado por uma curiosidade ilimitada, desem-
barcou em Recife, em dezembro de 1809. Dentre outras
capitanias nortistas, Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio
Grande do Norte foram espaços por onde o inglês passou.
Koster observou e anotou várias experiências, especial-
mente quando esteve em terras sertanejas, no legítimo solo
castigado pela seca, por onde cavalgou em caminhos
longos, presenciando heroísmo e morte – morte de gado,
morte de gente.
O autor relata que, numa dessas andanças pelo
interior, especialmente em sua viagem com destino a Natal,
na capitania do Rio Grande, teve seu momento de descanso
e suas reflexões distraídos pelo eco da palavra Jesus! – um
grito repetido incessantemente cada minuto, por uma voz sombria.
Pensou inicialmente que alguma pessoa estava em perigo,
porém, interrogando seu guia a respeito do que se passava,
obteve a resposta de que “alguém ajudava outrem a bem
morrer [pois] qualquer agonizante deve ter junto de si um
amigo repetindo a palavra Jesus, até que deixe de responder,
seja para que esse nome de salvação não fique esquecido,
seja para afugentar o diabo” 30 no momento de sua morte.
Essa era mais uma forma de anunciar o morto ao
céu, evitando que o indivíduo chegasse ao fim de sua vida
sem o arrependimento necessário à libertação da alma,
especialmente condicionada pela presença de Deus. Entre-
tanto, se Jesus, este nome de salvação, anunciava a chegada do
morto ao céu, os avisos de morte na terra também tinham
suas especificidades. Assim, quando o silêncio do dia era

30KOSTER, Henry. Viagens ao nordeste do Brasil, p. 82 (grifos do


autor e acrescidos).
223 |

entrecortado por incessantes badaladas dos sinos nas


igrejas, a sociedade seridoense percebia um aviso de morte.
Aliás, a linguagem dos sinos, para a Igreja Católica, tem um
significado especial. São sons que, lançados simulta-
neamente, alternados, ou individualmente, são escutados ao
longe, comunicando uma aflição ou simplesmente infor-
mando sobre as ações na casa de Deus.
Paulo Bezerra, em Cartas dos sertões do Seridó, recorda
que os sinos das igrejas, ao emitirem seus sons, convidavam
a população seridoense para as mais variadas ações –
novenas, vias-sacras, terços, missas. Assim, “os toques
fúnebres, como repique para os anjos, tocado em sino fino, e
os toques alternados entre sinos finos e o sino grosso ou
vice-versa, conforme sejam para mulheres, homens ou
donzelas”31 seduzem os indivíduos a solidarizarem-se com
a morte. O toque fúnebre, cadenciado, exprime sentimento
de luto e a badalada única convida o coveiro. Os sinos,
contudo, não só informavam a morte, mas, acima de tudo,
convidavam a população às homenagens devidas.
Mesmo após o sepultamento, o indivíduo desejava
continuar em comunhão com a vida. É o caso – no Seridó,
assim como em outros locais do Nordeste – da celebração
das missas de sétimo dia, trigésimo dia e aniversário de
morte. Amigos, familiares e toda a comunidade eram convi-
dados a participar desses momentos, quando, mais uma
vez, se ofereciam preces e rezas em favor daquela alma.
Nessas ocasiões, geralmente, os participantes se vestiam de
preto, cor oficial do luto, que, para o seridoense, se colocava
não só como questão social, mas essencialmente como
forma de demonstrar o grau de saudade e respeito à morte,
ao ente querido. Os parentes mais próximos do falecido não
tiravam o luto antes de completar um ano de sua morte;
para os mais distantes, o tempo de luto era mais curto. As

31 BEZERRA, Paulo. Cartas dos sertões do Seridó, p. 136-137.


224 |

viúvas seridoenses costumavam usar luto durante muito


tempo: por vezes insistiam no uso de roupas escuras pelo
resto da vida ou, do contrário, usavam roupas brancas,
como se lhes voltasse à pureza virginal. Para essas
mulheres, a cobrança era maior, pois haveriam de zelar pelo
nome da família, conservando-se no matrimônio, mesmo
após a morte do esposo.
No Seridó, ainda hoje é marcante o ritual de partilha
da mesa de café para parentes e amigos do morto, princi-
palmente após a missa de sétimo dia. É tempo de recordar.
A confraternização ocorre quase sempre na casa onde o
defunto residia ou, quando não, realiza-se em salões de
festas, sendo esse último costume um pouco mais recente. O
momento é propício para se rememorar os gostos do
falecido, pontuar suas qualidades e demonstrar sua impor-
tância familiar e social. Uma ocasião bastante oportuna de
dizer da morte e da vida...
225 |

A CIDADE NARRADA: HISTÓRIA E


MEMÓRIA DE UM GRUPO ECONÔMICO
DA CIDADE DE CAICÓ/RN1

Hugo Romero Cândido da Silva

Introdução

A partir do surgimento da Escola do Annales e suas


novas abordagens sobre objetos de estudo, os mais variados
grupos sociais passam a ganhar visibilidade dentro da
historiografia, no que acabou por se constituir como uma
ampliação do horizonte do historiador. A memória, elo e
signo social, que desempenha um papel fundamental na
construção e reprodução dos grupos sociais, no que se refere
ao seu status, também ganha espaço neste contexto.
Tomando como lição as estratégias metodológicas, o
olhar sobre os novos objetos que em grande medida advém
dessas mudanças que os Annales inauguraram ou deram
notoriedade, há alguns anos, têm se produzido uma série de
trabalhos com o intuito de pensar e repensar a história da
região Seridó potiguar, em suas diferentes temporalidades e
possíveis temáticas. Um dos exemplos mais nítidos dessa
historiografia é o trabalho de Muirakytan Kennedy de

1 Esse texto é proveniente da monografia Entre o passado e o


presente: empreender ou constituir um patrimônio em Caicó (1980-
1990), defendida no Curso de Graduação em História da Uni-
versidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Ensino
Superior do Seridó, Campus de Caicó, sob orientação do Prof. Dr.
Douglas Araújo.
226 |

Macêdo2. Nesta obra o autor aborda a produção do espaço


seridoense a partir dos discursos de suas elites e assim,
cartografando um lugar identificado a uma natureza adver-
sa que o estimulava a luta sendo este espaço identificado
por este autor como um espaço de promissão, provação,
superação e promissão.
Muitos trabalhos têm apresentados novos olhares
sobre o passado regional e a respeito das cidades que com-
põem a cartografia norte-rio-grandense, em cores vivas e
com a marca da resistência dos seus personagens, que se
tornaram traços marcantes de uma certa historiografia.
Nesse sentido, a perspectiva deste trabalho insere-se
na encruzilhada de uma história política do urbano e do uso
de novas metodologias para compreender as dinâmicas
societárias na história, tendo por objetivo problematizar as
memórias da elite3 caicoense ou uma pequena fração desse
grupo e, assim, registrar sobre as vivências urbanas e suas
transformações econômicas entre as décadas de 1970 e 1990,
(re) apresentando assim as transformações do tecido da
cidade durante este período. Utilizaremos como recurso
metodológico os ensinamentos da História oral, como forma
de captar e discutir a polifonia de experiências dos perso-
nagens envolvidos nas transformações econômicas e urba-
nas no ínterim de nosso recorte temporal. Experiências essas
disponibilizadas pelo acervo do projeto de pesquisa “Banco

2 MACÊDO, Muirakytan Kennedy de. A penúltima versão do


Seridó: uma história do regionalismo seridoense.
3 Nesse estudo utilizaremos a expressão “elite” para referir-se aos

grupos econômicos de maior expressão na cidade, em especial aos


produtores têxteis sobre os quais trataremos ao longo do texto.
227 |

de Dados: a memória do homem do Seridó”, coordenado


pelo professor Dr. Douglas Araújo4.

As cidades e suas memórias: aproximações

Os historiadores há muito têm se debruçado sobre as


cidades como forma de compreender a dinâmica das dife-
rentes sociedades, entendendo-as como espaço de transfor-
mação das diferentes estruturas econômicas. Assim, o
espaço percebido em sua materialidade é revestido por uma
estrutura social e cultural que tece os seus significados ao
longo de toda a trajetória do grupo social estudado. Carto-
grafada com as marcas do viver humano, a cidade é mutável
e assim ela desliza pela dinâmica do tempo. Concordamos
com Antônio Torres Montenegro, quando este nos diz que,

O espaço onde se constrói uma cidade nos convida


para o reconhecimento de um espectro infinito de
determinações/ relações. É nesse plano intrincado em
que homens, mulheres, crianças, velhos e velhas
estabelecem, projetam, realizam suas vidas. O que
trazem, o que inventam, o que transformam está
além de qualquer possibilidade de determinação. 5

Uma das formas de compreensão e registro do


passado das cidades é a partir dos seus fragmentos espa-
lhados pelas várias páginas do tempo que poetizam e
dramatizam as vivências dos seus atores. Uma maneira de
recuperar esses fragmentos é através da memória dos que
vivenciaram os principais momentos da cidade ou simples-

4 Projeto desenvolvido na Universidade Federal do Rio Grande do


Norte – UFRN, Centro de Ensino Superior do Seridó – CERES
entre os anos de 2004 e 2008.
5 MONTENEGRO, Antônio Torres. História Oral e memória: a

cultura popular revisitada, p. 9.


228 |

mente tramaram em suas vidas estratégias de sobrevivência


para si e seus familiares. Porém, sabemos que o processo de
construção da memória passa por uma seleção que encon-
trará no corpo social seu ponto de intercessão.
Na contemporaneidade, as cidades desempenham o
papel de receptáculos dessas memórias, plasmando em suas
vielas, becos e avenidas as trajetórias dos seus atores. Com
isso, Catroga nos alerta que “a memória vivifica-se, por-
tanto, no ‘campo da experiência’ aberto a recordação e às
expectativas [...]6”. E esse campo, hodier-namente, seria o
espaço citadino. Tomando a cidade como um lugar de me-
mórias7, um espaço de significado comum em que identi-
dades são tecidas historicamente e que se percebe um senti-
mento de pertença pelo lugar, Maurice Halbwachs8 afirma
que,

As imagens espaciais desempenham um papel na


memória coletiva, não há memória coletiva que não
se desenvolva num quadro espacial, o espaço é uma
realidade que dura. Não seria possível compreender
e recuperar o passado sem os lugares da memória. É
através do espaço que nossa imaginação ou pensa-
mento é capaz de reconstruir a categoria denominada
lembrança.

O espaço da cidade, como podemos entender da


passagem acima, é imbricado de memórias e de histórias e
assim o historiador consegue problematizar o passado a
partir de narrativas que traçam a polifonia urbana. A cidade
de Caicó, localizada na região do Seridó potiguar é, assim, o
espaço de observação privilegiada deste estudo. Seu passa-

6 CATROGA, Fernando. Memória, história e historiografia, p. 28.


7 NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos
lugares, Projeto História, v. 10, 1993.
8 HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva, p.126
229 |

do diz respeito à expansão da cultura pecuarística pelos


sertões da capitania do Rio Grande através do processo em
que, para preservar a produção da cana-de-açúcar, a Coroa
Portuguesa ordena o afastamento das boiadas das regiões
litorâneas, levando homens e bois pelos veios fluviais, terri-
torializando o espaço dos sertões. Sobre essa cidade nos
deteremos agora.

Ecos da cidade: Caicó e suas narrativas

O alvorecer de um novo dia no município de Caicó


no final da década de 1970 alerta a cidade para uma modi-
ficação na estrutura econômica da cidade e que a região do
Seridó, a exemplo de oura regiões do Estado e do nordeste
há algum tempo vinham sendo sentidas. Tal transformação
está assim expressa nas páginas do jornal Diário de Natal em
1978 na coluna Notícias do Seridó numa manchete intitulada
“Ameaças”,

Nas vésperas do inicio da safra algodoeira – principal


suporte da economia potiguar – os produtores, além
do aspecto das restrições de crédito, antevêem outra
crise: a falta de compradores. Os tradicionais com-
pradores estão com mais da metade da produção do
ano passado em estoque. Se não forem criados
estímulos especiais para escoamento desses estoques,
a única alternativa para cotonicultura será entregar
sua produção pelo preço mínimo, que terminará
sendo o máximo pleiteado... Só que para haver essa
exportação se faz necessário à criação de subsídios
governamentais de modo a manter uma paridade de
preços no mercado internacional. Este assunto já
mereceu a atenção de alguns de nossos parla-
mentares9

9 Jornal Diário de Natal (28 jun 1977), n. 10.342, p. 04


230 |

A economia algodoeira, ao longo das décadas de


1940 a 1960, vinha registrando uma rápida ascensão,
elevando a região a uma posição de destaque no plano
estadual, tanto política como economicamente. Sendo esta
economia a fonte de renda da população que se dedicava ao
beneficiamento do algodão no espaço citadino, os mora-
dores da cidade vêem a partir da década de 1970 o declínio
dessa economia e a preocupação dos algodoeiros. Nesse
contexto de transformações das economias agrárias e da
economia algodoeira da cidade fica latente na memória dos
que protagonizaram o período o desânimo frente às trans-
formações econômicas, conforme se verifica na fala Manoel
Torres, ex-prefeito da cidade de Caicó,

E agora a atividade rural, meu filho, isto está quase


em extinção. Hoje você sabe, a nossa cultura aqui, a
nossa economia aqui basicamente era o algodão, né?
Desapareceu o algodão com a praga do bicudo, ficou
a pecuária, mas a mesma a pecuária está em extinção,
ela num está em extinção mais está em decadência. A
cultura do algodão praticamente está extinta, ficou
em extinção, a num ser que haja nova, nova fase, que
eu acho difícil, mas agora a pecuária também está em
decadência, quase. 10

Conforme escreve Ione Rodrigues Diniz Morais11, a


construção da imagem do ex-prefeito da cidade Manoel
Torres foi firmada sob os pilares de valores, de crenças, da
forma de ser do sertanejo. E continua: “tipificado na figura
do empresário, legítimo representante da ‘modernidade’”.
Na fala fica latente um novo contexto na cidade que seria a

10 TORRES, Manoel. História de vida. Entrevistador: Douglas


Araújo. Caicó, 2000. 1 fita cassete (120min.)
11 MORAIS, Ione Rodrigues Diniz. Seridó norte-rio-grandense:

uma geografia da resistência, p. 322.


231 |

inserção das novas economias no espaço urbano, fomenta-


das em grande parte pelas políticas de incentivo do Estado
para pequenos comerciantes e produtores que queriam
investir na cidade, transformando assim a paisagem urbana
e seus traçados com casas comerciais e pequenas indústrias,
entre elas pequenas confecções de roupas e a partir dos anos
de 1990, bonés.
E ele, Manuel Torres, em quem percebe-se claramen-
te um desgosto com o fim das economias tradicionais, nos
diz mais: “eu não tinha vocação política não, minha vocação
era onde eu fiz, fiz comércio, comércio e indústria. Agora
quando eu fui convocado pra política eu participava da
política e fazia política, mas sem deixar a parte de comer-
ciante”. Os personagens que protagonizaram o desmorona-
mento das grandes fazendas agropecuarísticas pautavam
seus investimentos a seus pequenos negócios na cidade sem,
no entanto, ter muita expectativa de ampliação, pois, em
alguns casos, esses personagens passaram a protagonizar a
cena política da cidade e assim abdicando por determinado
período de tempo tais funções, conforme demonstrou nosso
depoente acima12.
Nos fins da década de 1970 e início da década de
1980 observa-se que “encerrou-se o ciclo da sociedade rural
caicoense, sobrevivendo apenas algumas atividades do
campo como a pecuária; esta, fortemente subsidiada pelo
Governo Estadual, e uma agricultura esporádica de feijão,
sorgo entre outros13”. As alterações demográfico-territoriais
são ilustradas pelos resultados censitários que demonstram

12 ARAÚJO, Douglas. A morte do Sertão Antigo no Seridó: o


desmoronamento das fazendas agropecuarísticas em Caicó e
Florânia.
13 PINHEIRO, Mércia Cristina Fernandes. Empresa Familiar e

empreendimento: uma pequena prosopografia dos boneleiros de


Caicó/RN, p. 14.
232 |

uma tendência à concentração da população no espaço


urbano. Já na década de 1960 a população da cidade atingia
a marca de 16.233 habitantes14. Em 1980 o censo demo-
gráfico registrou um aumento populacional total de 9,6%
atingindo 30.793 habitantes. Sendo que, 76,9% dos muní-
cipes moravam na cidade e 23,1% no campo. Entre
1980/1990 houve uma redução ainda maior da população
rural, constituída somente de 15,5%15 e em 2000 verifica-se
que apenas 11% da população caicoense residia no campo16.
Segundo Douglas Araújo, “Essa estrutura econômica entrou
em colapso nas décadas de 1970 e 1980. Dentro das políticas
públicas empreendidas pelos governos Federal e Estadual
para amenizar os efeitos do desmoronamento da sociedade
rural” 17.
Dessa forma o cenário urbano passa a resguardar um
conjunto de economias não tradicionais. Fatores como mão-
de-obra abundante, experiência comercial adquirida e
consolidada ao longo do desenvolvimento anterior, e a
criatividade empreendedora, entre outros aspectos, vão se
conjugar no surgimento de um setor têxtil e de outras
economias alternativas no município de Caicó. Assim as
manifestações de tais economias manifestam-se inicialmente
com a produção têxtil de redes e mais significativamente a
produção de bordados. Indústria essa que se transformaria
em uma das marcas da cidade no espaço nacional.

14 CIRNE, Moacir. A Invenção de Caicó, p. 37.


15 IBGE apud MORAIS, Ione Rodrigues Diniz. Desvendando a
cidade: Caicó em sua dinâmica espacial.
16 MORAIS, Ione Rodrigues Diniz. Desvendando a cidade: Caicó

em sua dinâmica espacial.


17 ARAÚJO, Douglas. A morte do Sertão Antigo no Seridó: o

desmoronamento das fazendas agropecuarísticas em Caicó e


Florânia.
233 |

Em 1982 a indústria tecelã constituía 27% do total de


unidades fabris do município18. No processo de inserção
desses novos personagens no cenário urbano registra-se
uma nova condição social no percurso dos agentes
impulsionadores dessas novas economias: todos apresentam
uma origem citadina, não portando vínculos com o mundo
rural. Vêm em sua grande maioria de bairros periféricos da
cidade de Caicó e parte significativa dos boneleiros são
portadores do diploma de Ensino Médio completo, alguns,
até, tendo formação acadêmica19.
A busca de outros horizontes faz com que esses
personagens busquem novos elementos a partir de incen-
tivos do Governo para a construção de uma história com
novos traços. Sobre isso nos afirma Salvino Costa Filho20,

Então eu fiquei fazendo rede e mercadinho, nessa


época de 86 foi mais ou menos na do Plano Cruzado
né? Correu um dinheiro e as coisas estavam bem
favoráveis e eu estava no segmento de rede me
dando muito bem, então eu achei que deveria deixar
o mercadinho e ficar somente com rede, aí eu acho
até que eu dei uma errada aí muito grande né? Eu
poderia ter ficado com as duas coisas paralela, o que
eu tinha começado em 86, mas ainda fiquei até 90. Aí
em 90 as coisas estavam muito boa na rede, só rede,
quando aí estava bem as rede estavam andando bem,
já era a época que muita gente estava fabricando boné
aqui em Caicó, aí eu comecei a ver o boné também.

18 MORAIS, Ione Rodrigues Diniz. Desvendando a cidade: Caicó

em sua dinâmica espacial


19 PINHEIRO, Mércia Cristina Fernandes. Empresa Familiar e

empreendimento: uma pequena prosopografia dos boneleiros de


Caicó/RN, p. 25-31.
20 COSTA FILHO, Salvino. História de vida. Entrevistador:

Douglas Araújo e Mércia Cristina Pinheiro. Caicó, 2005. 1 fita


cassete (120min.)
234 |

Em 92, aproximadamente em 92 eu comecei a fazer o


boné, boné e a rede fiquei trabalhando com os
dois...Aí no boné fiquei até hoje, tô me mantendo e eu
acho que agora eu tenho que estabilizar no boné
mesmo.

Entende-se pela fala do nosso personagem que o


cenário faz com que o homem que habita o espaço da cidade
de Caicó busque suas melhorias e uma participação mais
ativa na construção do desenvolvimento econômico da urbe.
O espírito empreendedor do homem caicoense fica expresso
na passagem seguinte da fala de Jonas de Araújo Medeiros21
ao comunicar de suas motivações para abrir um comércio,

Era justamente a necessidade, a necessidade que


obriga ao homem quando ele é responsável ele ver
que tem um plano, ele sonha, ele vê que as coisas tem
que dar certo, ele é quem é responsável por dar certo,
as coisas não acontecem na minha vida independente
de mim não, elas acontece comigo sendo o ator
principal, então as conseqüências são minhas, então a
gente veio, tinha um projeto do governo do Estado,
não sei nem se ainda tem que era o “Balcão de
ferramentas”, no governo Garibaldi, era um recur-
sozinho insignificante, mas que...

A maior parte das empresas têxteis da cidade de


Caicó é formada por associações de familiares mantendo um
vínculo com a sociedade tradicional e utilizando-se dos
investimentos das diversas esferas do poder. Tal ligação
com a sociedade tradicional nos lembra que,

21Jonas de Araújo Medeiros e dono da bonelaria Pra sol localizada


na cidade de Caicó/RN. MEDEIROS, Jonas de Araújo, entrevista
concedida a Douglas Araújo e Mércia Pinheiro em 13 de outubro
de 2005. fita cassete (120 min.).
235 |

A fazenda era o patrimônio comum da família


sertaneja. Nessa particularidade pouco penetrou ali o
individualismo capitalista. A fazenda não é só do
fazendeiro, do amo. É de todos os membros da
família. É do pai da mãe de família, dos filhos. E do
vaqueiro também22.

O desenvolvimento urbano da cidade de Caicó e em


específico do setor têxtil gera assim uma “especialização”
dentro do próprio ramo, especialização esta que começa
pelo conhecimento do próprio processo produtivo do boné.
Adácio Medeiros Nogueira23 fala com satisfação do apren-
dizado do processo que se deu inicialmente com o fabrico
de chapéu de couro na condição de aprendiz.

Aí de repente ele disse: eu podia fazer aqui um boné,


boné é forrado, tem boné, né? Então, do lado de uma
case ele teve a idéia de fazer um boné. E aí como é
que eu vou fazer um boné? É totalmente diferente o
processo do boné para um chapéu. Aí ele [o instrutor]
disse: Eu vou pegar um boné, vou desmanchar, vou
tentar recortar isso aqui e vou emendar pra ver como
é que se faz, e assim ele fez, desmanchou um boné e
com esse material que veio de Santa Cruz do
Capibaribe, Caruaru, aquela região ali.

Os empresários do ramo têxtil apresentam inves-


timentos aplicados em um ponto de pequeno porte dentro
da própria empresa, dada a cobrança do mercado que faz

22 Manoel Rodrigues de Melo citado por PINHEIRO, Mércia


Cristina Fernandes. Empresa Familiar e empreendimento: uma
pequena prosopografia dos boneleiros de Caicó/RN.
23 Adácio Medeiros Nogueira é dono da bonelaria Só Boné,

localizada na cidade de Caicó/RN. NOGUEIRA, Adácio


Medeiros, entrevista concedida a Douglas Araújo e Mércia
Pinheiro em 19 de setembro de 2005. fita cassete (120 min.).
236 |

com que as fábricas se especializem em determinados


pontos ou tipo de produção. E ele nos fala dos investi-
mentos:

A gente investe mais na parte de maquinário, você


vai fazer um produto novo exige uma máquina nova
e são equipamentos caros, às vezes você tem que
fazer uma ampliação num prédio, você tem que fazer
uma puxada, tem a parte elétrica, tem que fazer
todinha, recentemente solicitamos, foi feito lá,
fizemos uma divisão na parte de energia elétrica,
estamos com duas redes elétrica...24

Na entrevista concedida por Adácio Medeiros


Nogueira nos deparamos com investimentos alternativos
que objetivam ser uma reserva ou hobby para as neces-
sidades da família como, por exemplo, a compra de um
pedaço de terra, uma pequena criação de gado e carros. E
ele continua falando que sua empresa de reciclagem recebe
mais investimentos do que sua fábrica de bonés, pois o boné
tem períodos sazonais e vive entre altos e baixos na econo-
mia nacional. Ele continua, a propósito, afirmando que

É, seria uma expansão do próprio boné, tá certo? Mas


eu vejo que assim que pelo lado...Lá na reciclagem
um campo bem mais vasto que eu posso expandir, tá
certo? Bem mais vasto mais fácil pra gente, talvez até
mais lucrativo, ta entendendo? Pelo fato que o
mundo do plástico é um mundo muito amplo, eu
posso enjetar...

Depreende-se claramente uma visão de futuro nesse


personagem ao investir em um negócio alternativo para seu

24 Idem.
237 |

capital, que em muitos casos apresenta-se como um patri-


mônio para o futuro empresarial da família.
Esse caráter familiar faz com que os investimentos
circulem todas as empreitadas da família como se afirmou
anteriormente e esse grupo investe na formação dos filhos
na capital do estado – Natal – no intuito de uma formação
diferente dos seus predecessores. Pois nos diz Pinheiro25, a
respeito: “a compra da casa de morada, dos bens da família,
em muitos casos, a agregação em torno da empresa e o seu
bem está vem em primeiro plano”.

25PINHEIRO, Mércia Cristina Fernandes. Empresa Familiar e


empreendimento: uma pequena prosopografia dos boneleiros de
Caicó/RN, p. 44
238 |
239 |

A IGREJA CATÓLICA E OS SINDICATOS


DE TRABALHADORES RURAIS NO
SERIDÓ NA DÉCADA DE 19601
Maria Auxiliadora Oliveira da Silva

O objetivo deste trabalho é analisar a atuação da


Igreja Católica junto aos sindicatos de trabalhadores rurais
na região do Seridó potiguar, na década de 1960. O
surgimento dos sindicatos no Seridó está ligado ao trabalho
desenvolvido pela Igreja Católica. Nesse sentido, a pesquisa
tem o intuito de compreender, também, qual a direção
política dada aos sindicatos por esta instituição religiosa
que, através do trabalho de sindicalização, procura reforçar
e resguardar o catolicismo, como forma de preservar seus
fiéis, afastando-os de movimentos como as Ligas Campo-
nesas e da influência do Partido Comunista Brasileiro –
considerados pela Igreja como anticristãos – evangelizando
e politizando o homem do campo. Utilizamos, como fontes
de pesquisa, narrativas orais e o Jornal A Folha, publicação
da Diocese de Caicó que circulou naquela cidade entre os
anos de 1954 e 1967, bem como documentos escritos
produzidos por sindicatos da referida região de estudo.

1 Texto proveniente da dissertação de mestrado Evangelizar e


politizar: o sentido da atuação da Igreja Católica com os sindicatos de
trabalhadores rurais no Seridó potiguar (1964-1979), defendida em
2007 no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sob orientação do
Prof. Dr. José Antonio Spinelli Lindoso.
240 |

A Igreja Católica e a organização dos Trabalhadores no


Campo

A história do sindicalismo no Seridó norte-rio-


grandense foi marcada por muitos conflitos no campo. As
tensões sociais nesse espaço motivaram os trabalhadores
rurais à luta por melhores condições de vida. A sindica-
lização no Seridó está relacionada ao Movimento de Natal,
com a presença do então bispo auxiliar, dom Eugênio Sales,
e outros sacerdotes que estavam empenhados na difusão da
doutrina social da Igreja, tentando mostrar que é de sua
preocupação a promoção do “homem comum”. Para Ferra-
ri2, “tratar do Movimento de Natal, implica mencionar três
sacerdotes: Monsenhor Paulo Herôncio de Melo, o Cônego
Luiz Monte e o bispo de Caicó Dom Manoel Tavares3 que
ficou conhecido por suas realizações no campo social”.
A Diocese de Caicó foi criada em 1940, abrangendo
todo o Seridó, tendo como primeiro bispo dom José Del-
gado, que desenvolveu vários trabalhos na região, tornan-
do-se conhecido por sua atuação. Antes do advento dos
sindicatos, a Igreja, além de desenvolver obras pasto-rais,
realizava, também, trabalhos sociais.
Dom José Delgado foi responsável pela fundação de
várias escolas primárias, uma escola doméstica, criação de
ambulatórios, distribuição de vestuários e ainda doação de
alimentos no período de seca. Desenvolveu atividades junto
aos círculos operários e às cooperativas. Devido ao seu
trabalho, o Seridó passou a formar o maior bloco coope-

3 FERRARI, Alceu. Igreja e Desenvolvimento, p. 49–50.


4 3° Bispo da Diocese de Caicó, que se estende por toda a região do
Seridó, e que estava envolvido com a sindicalização do
trabalhador rural. Fundador da Rádio Rural de Caicó AM em
1963. Assumiu a Diocese de Caicó em 1959, permanecendo até
1978.
241 |

rativista do Estado. Na cidade de Currais Novos havia o


pároco, monsenhor Paulo Herôncio de Melo, que dava
assistência às crianças pobres. Mas a ação da Igreja não se
limitou apenas a essas atividades.
Através de dom Eugênio de Araújo Sales, o bispo da
Diocese de Caicó, dom Manoel Tavares, articulou-se com os
párocos da região para que fosse desenvolvido o trabalho de
sindicalização no Seridó. Portanto, realizou-se em Currais
Novos o primeiro curso de líderes rurais do Seridó em 1962.
Foi ministrado por clérigos e leigos, como padre Ausônio
Tércio de Araújo e padre Itan Pereira e as professoras Célia
Vale, Julieta Calazans e Severina Porpino. Os temas abor-
dados foram: visão do Nordeste, Doutrina Social, Coopera-
tivismo, Educação de base e sindicalismo rural4. Ainda
faziam parte desse trabalho de sindicalização na região do
Seridó o padre Raimundo Sérvulo da Silva, que era vigário
de Parelhas, e depois foi transferido para a paróquia de
Acari; padre Antonio Balbino de Araújo, pároco da cidade
de Jucurutu; o cônego Deoclides de Brito Diniz, de Acari; e,
dentre outros, o padre José Dantas Cortês de Currais Novos,
que estavam envolvidos nessa luta.
Em 1963 foi fundado o primeiro sindicato na cidade
de Caicó, sob a orientação da Igreja Católica, com a deno-
minação de Sindicato dos Produtores Autônomos de Caicó.
No entanto,

com uma luta iniciada na década de 1970 pela


diretoria de então, através de uma Assembléia Geral
Extraordinária realizada no dia 22 de outubro de
1972, mediante o processo n.º 18.831/76 foi expedida
uma nova Carta Sindical em 08 de maio de 1980, em

5 Jornal A Folha 07 jul 1962, p. 01.


242 |

que essa entidade adotaria o nome de Sindicato de


Trabalhadores Rurais de Caicó5.

Na época, a situação do trabalhador rural era muito


difícil. No período de inverno ficavam envolvidos com a
plantação dos roçados e campos de algodão, sendo muito
explorados pelos proprietários de terra. Trabalhavam com o
sistema de parceria e sempre saíam perdendo para o
proprietário da terra. Segundo o trabalhador Sinval Soares
Dantas,

na fazenda Dominga, município de Caicó, que eu


nasci e me criei o sistema de trabalho [...] quem
trabalhava como vaqueiro, queijeiro, ele tinha uma
“ordenaria” não era um salário, pois naquela época
ninguém falava em salário, mas tinha uma diária que
correspondia a um valor “x”. Agora os trabalhadores
que trabalhavam na plantação de roçado, na época do
inverno eles dividiam a meia de sua produção e
quando entrava a época de estiagem, que era o
período que não chovia, então o patrão tinha aquelas
diárias para eles trabalharem semanalmente rece-
bendo também uma quantia “x”6.

Na região do Seridó o sistema de trabalho que mais


vigorou foi o de parceria, em que era dividida a produção
com o proprietário da terra. Mas essa relação de trabalho
não impossibilitou o aparecimento de outras formas, inclu-

6 SINDICATO DOS TRABALHADORES RURAIS DE CAICÓ.


Histórico do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Caicó.
7 DANTAS, Sinval Soares. Entrevista concedida à autora em

12/12/2006 em Caicó. Trabalhou no regime de parceria (meia) e


como vazanteiro. Atualmente é presidente do Sindicato de
Trabalhadores Rurais de Caicó.
243 |

sive a salarial, como relata Expedito Jorge de Medeiros7:


“quando não tinha o trabalho de limpar mato e nem de
colheita, às vezes a gente trabalhava assalariado. Os que
trabalhavam contínuo como aqueles que lutam com gado,
botando ração ou tirando leite recebiam um valor fixo8”.
Essa forma de pagamento favorecia ao proprietário, pois era
um valor muito defasado; o trabalhador, por falta de opção,
acabava aceitando e permanecendo na terra. Havia muitos
conflitos entre os trabalhadores rurais e os proprietários
devido à exploração.
Em muitos locais de trabalho existiam os “barra-
cões”, estabelecimentos de venda que pertenciam aos pro-
prietários. Devido à distância para a cidade, muitos traba-
lhadores rurais, na maioria das vezes, tiravam as diárias de
trabalho em mantimentos. Outros eram praticamente obri-
gados a comprar nos chamados “barracões”, pois recebiam
um vale que correspondia a um valor determinado que o
trabalhador poderia comprar. Quer dizer, o proprietário
acabava pagando o trabalhador/morador em mantimentos;
este último, muitas vezes, ainda ficava devendo ao pro-
prietário, devido ao preço da mercadoria, geralmente
produtos de má qualidade e com preços elevados. Esse tipo
de exploração acabava por retirar do trabalhador tudo
aquilo que lhe foi pago. Relata Expedito Jorge de Medeiros,
a propósito, que,

na Caatinga Grande, município de São José do Seridó


existia um barracão, que pertencia à companhia de
Medeiros e Dantas, de Jardim do Seridó. Quando eu
tinha dezoito anos eu fui convidado para trabalhar lá

8 MEDEIROS, Expedito Jorge de. Trabalhador rural, sócio do


Sindicato de Cruzeta; foi professor no MEB (Movimento de
Educação de Base), atuou como secretário da FETARN na região
do Seridó e atualmente é assessor desse órgão.
9 Idem.
244 |

no barracão, eu passei três dias lá fazendo um


estágio, mais com a exploração que eu notei que
existia, então eu só passei os três dias e não fui mais
lá. No barracão você trabalha, mais vai te fornecendo,
as vezes o produto nem tem qualidade, e o preço, é o
que o dono determina. Trabalha demais e continua
sempre devendo9.

Como podemos perceber, a situação dos trabalha-


dores não era nada fácil, pois viviam em condições de
extrema pobreza e exploração. Muitos ainda eram roubados
pelos próprios patrões, e quando iam reclamar eram amea-
çados de perder o emprego. Geralmente as propriedades
tinham um número grande de trabalhadores. Segundo
relata Sinval Soares, um dos piores momentos era na época
da seca:

Devido ter a vacaria precisaria de muito capim, na


época da seca para o gado se manter na questão do
leito, então, como os moradores tinham aquela turma
de pessoas que era plantadores de capim, um açude
muito grande o caba passava a semana todinha
plantando de um lado, na outra semana plantava o
outro e dessa forma ia se virando com a seca. Uma
outra turma era no roçado de algodão que já estava
ficando velho, ele destocava, arrancava para fazer um
replante10.

9 MEDEIROS, Expedito Jorge de. Entrevista concedida à autora em


08/01/2007. Trabalhador rural, secretário do sindicato de
trabalhadores rurais da cidade de Caicó e sócio do de Cruzeta; foi
professor do MEB (Movimento de Educação de Base) no Seridó,
atuou como secretário da FETARN na região do Seridó e
atualmente é assessor.
10 DANTAS, Sinval Soares. Entrevista concedida à autora em

12/12/2006 em Caicó.
245 |

No período de seca, a situação do trabalhador rural


era muito crítica, pois, como não podia plantar pela escassez
de chuva, ficava se virando com qualquer trabalho que
aparecia nas fazendas. A fome se alastrava no campo, o
trabalhador se via numa situação difícil: ou aceitava a oferta
do proprietário ou partia para a cidade em busca de
emprego. As famílias na região do Seridó se constituíam em
um número elevado, muitas tinham 10, 12 e até 20 filhos.
Para a alimentação dos animais eram utilizados o
xiquexique e o cardeiro, queimados, para substituir o capim,
enquanto o inverno não aparecia. Esta prática atualmente
ainda permanece na região do Seridó, no período de seca,
substituindo a ração ou misturado com o alimento que é
dado ao gado.
Havia uma redução do número de trabalhadores nas
propriedades no período de estiagem, o que barateava a
mão-de-obra. Na verdade, no período de seca quem mais
saía perdendo era a camada pobre, que não dispunha de
reservas para se manter na estiagem. Conforme Andrade11,
“beneficia-se da seca a camada de renda mais elevada –
proprietários, comerciantes” e outros. A seca é a oportu-
nidade de adquirir a terra e o gado dos agricultores pobres,
por preços muito baixos, pois não têm condições de manter
seu gado e a terra. É também o momento oportuno de
exploração por parte dos grupos dominantes, principal-
mente no período de política, quando prometem resolver
esse quadro se forem eleitos, estratégia utilizada como
forma de angariar votos, sem contar que são distribuídas
cestas básicas para a população pobre.
Como forma de amenizar ou eliminar os conflitos
sociais no campo, o Governo procurava investir nos pro-

11 ANDRADE, Manuel Correia de. Nordeste: Alternativas da


agricultura, p . 72.
246 |

gramas de emergência12, mas nem sempre resolvia essa


situação, como foi colocado por Sinval Soares Dantas:

Existiam vários sistemas de emergência, teve gente


que foi trabalhar em frente de serviço, como teve
gente que foi para Acari trabalhar, outros nas
estradas daqui para Jucurutu. Em outras emergências
a gente trabalhava nas próprias propriedades,
alistava três pessoas. Eu tinha uma terra arrendada
no meu nome que papai arrendou, eu vim alistei dois
irmão meu e uma outra pessoa que trabalhava lá e eu
fiquei de fora13.

Os trabalhadores que participavam das emergências


recebiam uma feira de gêneros alimentícios – o que corres-
ponde, hoje, a uma cesta básica – e uma quantia em
dinheiro, pelo que prestavam serviços na propriedade.
Devido à escassez de alimentos, estes eram distribuídos,
também, através de “Alimentos para a Paz”, um dos pro-
gramas da Aliança para o Progresso14, a qual teve uma

13 O programa de emergência, também denominado de Frente de


Trabalho, era uma política governamental para dar assistência à
população acometida pela estiagem climática – as tradicionais
secas do Nordeste brasileiro.
13 DANTAS, Sinval Soares. Entrevista concedida à autora em

12/12/2006 em Caicó.
15 Programa de política externa dos Estados Unidos criado no

início da década de 1960. Representou o enfrentamento do “perigo


comunista” que teria emergido com a Revolução Cubana de 1959.
Segundo Marlúcia de Paiva Oliveira, “havia uma preocupação
com a possibilidade de irromper na região uma revolução
inspirada no modelo cubano. A ascensão política de Miguel
Arraes, em Pernambuco, e Djalma Maranhão, no Rio Grande do
Norte, apoiados pelo conjunto das forças de esquerda, contribuiu
para “acelerar” essa preocupação” (OLIVEIRA, Marlúcia de paiva.
247 |

grande atuação no Nordeste, contando com o apoio da


Igreja Católica. Embora apoiando a Aliança para o Pro-
gresso, em alguns momentos, membros do clero, como
também os trabalhadores, direcionavam diversas críticas ao
programa. Uma delas diz respeito à cesta básica, que era
distribuída, no período de seca, à população pobre, devido
não atender à gastronomia sertaneja, como é colocada pelo
padre Itan Pereira:

O povo só quer feijão, farinha e rapadura... Alguns


prefeitos da região estão encontrando dificuldade
com os chamados “Alimentos para a Paz,” do
governo americano, como se sabe, pelos convênios
assinados pelos prefeitos podem contratar trabalha-
dores para pagamentos em alimentos, e parte em
dinheiro. Mas os Alimentos para a Paz consta de
trigo, óleo, fubá, leite e búlguer. A nossa pobreza não
está acostumado com esses “artigos”, que não pode
ser vendido nem trocado. A parte do dinheiro não dá
nem para comprar o tempero é daí o problema. Muita
gente tem dito: eu não quero esse tal de “brugue” [...],
que não dá nem para matar a fome de ninguém. Na
verdade, o nosso pobre é criado com feijão, farinha e
rapadura... Não sabe comer outra coisa... 15

Os proprietários de terra saíam sempre com vanta-


gens. Muitos convenciam os trabalhadores rurais para que
não deixassem as propriedades e se alistassem nas emer-
gências para trabalhar em suas terras. Houve casos de
grandes proprietários de terra se alistarem e colocarem seus
familiares; recebiam da mesma forma que os trabalhadores
rurais e ainda conseguiam um número de trabalhadores

A Igreja Católica nos Anos 50. In: ANDRADE, Ilza Araújo Leão
(org). Igreja e Política no Rio Grande do Norte, p. 259).
16 Jornal A Folha, abr 1966 (nota redigida por padre Itan Pereira da

Silva, que pertencia à Diocese de Caicó).


248 |

para suas terras16. Segundo Sinval Soares Dantas, “em uma


outra emergência, só era dado à cesta básica, a comida para
trabalhar”.
Os sindicatos de trabalhadores rurais surgiam para
tirar o homem do campo dessa situação crônica em que
vivia. Mesmo contando com o apoio da Igreja Católica,
tiveram muitas dificuldades para trabalhar. Decorrentes de
suas condições financeiras se constituíam de forma precária
e tinham pouca aceitação por parte dos políticos, que eram,
em sua maioria, proprietários de terras.
Não tinham um espaço físico. As reuniões geral-
mente aconteciam numa escola, em casa de algum membro
do sindicato, na Igreja ou nos Círculos Operários Cristãos. O
Sindicato de Caicó foi o primeiro a ser fundado na região do
Seridó, em maio de 1963, reconhecido oficialmente pelo
Ministério do Trabalho em dezembro do mesmo ano.
Monsenhor Ausônio Tércio de Araújo, pároco da
Diocese de Caicó, foi quem orientou as primeiras reuniões,
com o intuito de despertá-los para uma tomada de consciên-
cia da sua dignidade humana, também mostrando ao
trabalhador rural a importância da criação dos sindicatos.
Seu primeiro presidente, Antônio Bernardino de Sena, foi
acusado de ser comunista e sofreu muitas ameaças por parte
dos proprietários de terra, como também membros da Igreja
Católica, que estavam comprometidos com a sindicalização
rural.

17Conforme Jorge Coelho, “as Frentes de Trabalho foi uma forma


que o governo encontrou para subjugar o Sertão ao implementar
tão desastrosa medida que somente contribuiu para a demagogia
política, para a corrupção e até para a desmoralização do
sertanejo. Elas se tornaram a mais vergonhosa fonte de corrupção
de nossa história, humilhando o sertanejo, e enriquecendo os
inescrupulosos aproveitadores da miséria alheia” (COELHO,
Jorge. As secas do Nordeste e a indústria das secas, p. 35-6).
249 |

Segundo monsenhor Ausônio Tércio de Araújo,


tratar de sindicato naquela época era, de certo modo, entrar
em choque com os comunistas – as Ligas Camponesas17,
consideradas pela Igreja como comunistas – porque eram
eles que estavam à frente de muitos sindicatos importantes,
até mesmo pelo anseio de poder, no sentido de controlar a
classe trabalhadora.
A expansão das Ligas Camponesas, cuja penetração
já se dava na Paraíba e no litoral potiguar, associada ao
trabalho que vinha sendo realizado pelo Partido Comunista
Brasileiro (PCB) entre os trabalhadores – sobretudo o con-
trole de sindicatos urbanos em Natal e Mossoró – desenca-
deou uma atuação maior do clero junto a essa classe traba-
lhadora. Muitos padres se empenharam na sindicalização
rural como uma forma de combater o trabalho das Ligas
Camponesas e do PCB. Nesse embate político, a Igreja se
fazia presente no jogo de forças que também disputavam a
hegemonia da organização do trabalhador rural e, a partir
daí, vão surgir os sindicatos cristãos organizados pela
mesma.
Apesar de todo o trabalho desenvolvido pelas Ligas
e pela importância que elas tiveram junto ao trabalhador
rural na organização e orientação dos sindicatos, e ainda o
trabalho desenvolvido pelo PCB na fundação dos sindicatos,

18 As Ligas Camponesas tiveram uma atuação muito forte junto


aos trabalhadores rurais. Surgiram no Estado de Pernambuco e
defendiam a reforma agrária, sob a liderança de Francisco Julião,
advogado e deputado do Partido Socialista Brasileiro (PSB).
Defendiam, também, a sindicalização do trabalhador rural, contra
a expulsão das terras onde trabalhavam, a elevação dos preços do
arrendamento, e também contra o cambão, que era a prática de o
trabalhador ter que trabalhar alguns dias da semana na terra do
proprietário sem nenhuma remuneração, dentre outras questões.
250 |

observa Regina Novaes18 que os primeiros sindicatos rurais


a serem oficialmente reconhecidos eram os sindicatos de
influência da Igreja Católica, “os sindicatos cristãos”. Para
monsenhor Ausônio Tércio de Araújo19,

onde os sindicatos cristãos foram fortes, as Ligas


camponesas foram fracas, não tiveram tanta força,
como é o caso do Rio Grande do Norte, porque entre
um sindicato e uma Liga, só mesmo uma pessoa que
tava com outro objetivo, mais político [...] permanecia
nas Ligas. As Ligas não tinham estrutura para
responder a uma organização mais centrada, mais
sólida dos sindicatos20.

Na região do Seridó existia um sacerdote que


desenvolvia trabalhos na zona rural, o padre Ernesto da
Silva Espínola, que conhecia a realidade dessa população.
De acordo com o depoimento de Sebastião Arnóbio de
Morais21, que acompanhava o padre Ernesto nesse trabalho
“[...] ele foi sempre um homem comprometido com o tra-
balho junto ao homem do campo, e orientando esse trabalho
de sindicalização aqui na região do Seridó”. Portanto, ao
iniciar o trabalho de sindicalização não teve dificuldade,

18 NOVAIS, Regina Reyes. De Corpo e Alma: catolicismo, classes


sociais e conflitos no campo.
20 ARAÚJO, A. Tercio de. Professor aposentado da Universidade

Federal do Rio Grande do Norte, professor e diretor do Colégio


Diocesano Seridoense. Sacerdote da Diocese de Caicó, assessor de
pastoral da Diocese e responsável pela sindicalização de
trabalhadores rurais na cidade de Caicó.
20 ARAÚJO, A. Tercio de. Entrevista concedida à autora em
11/07/2006 em Caicó.
22 ARNÓBIO, Sebastião. Entrevista concedida à autora em 19 jul

2006, na cidade de Jardim do Seridó. Secretário da Paróquia de


Nossa Senhora da Conceição, de Jardim do Seridó, tendo
acompanhado o padre Ernesto desde 1964 no trabalho de
sindicalização na região.
251 |

pois já pertencia às paróquias de Cruzeta, Ouro Branco e


São José do Seridó.
No entanto, em Ouro Branco foi mais difícil, devido
não haver nenhuma atividade com a população urbana; a
maioria da população se encontrava na zona rural. O acesso
a certas localidades acabava atrapalhando o trabalho. Na
época das chuvas, havia difícil acesso à passagem, devido,
também, à precariedade das estradas que eram de barro, o
que impossibilitava, até mesmo, a ida de um padre para
celebrar uma missa, visitar as comunidades ou ir à capela.
Em Ouro Branco, como a maioria da população vivia
na zona rural, as primeiras orientações sobre os sindicatos
foram realizadas nas comunidades rurais. Geralmente
ocorriam à sombra de grandes árvores, e depois passaram a
ser realizadas na residência de algum trabalhador rural.
Enquanto dom Manoel Tavares desenvolvia trabalhos de
formação com a juventude da zona urbana, padre Ernesto
Espínola encarregou-se de fazer um trabalho mais ligado ao
homem do campo: visitava as comunidades, orientava os
trabalhadores rurais e passava informações sobre os direitos
que eles tinham para que pudessem, posteriormente, criar
os seus sindicatos.
O Sindicato de Trabalhadores Rurais de Cruzeta foi
criado em 26 de maio de 1963. Anteriormente à sua
fundação, o padre Ernesto Espínola promoveu a Festa da
Colheita que contou com o apoio da Juventude Agrária
Católica (JAC). Aquele era um momento em que o traba-
lhador rural celebraria a páscoa e agradeceria a Deus pelos
alimentos advindos da terra, através da agricultura. Nessa
ocasião os padres se reuniam com os trabalhadores rurais e
discutiam, também, questões relacionadas aos direitos e
deveres, em relação aos sindicatos. Na parte religiosa, foram
realizados, além de outros, confissões, batizados e uma
missa solene em ação de graças pelo trabalhador rural.
Ainda fora criado, na década de 1960, os sindicatos
de Jardim de Piranhas, São José do Seridó, Jucurutu e
Currais Novos. Em muitos sindicatos, na região do Seridó,
252 |

seus sócios somente passaram a reivindicar os direitos


através de atos públicos em fins da década de 1970 e início
de 1980. Com o processo de anistia e abertura política, a
ditadura militar no Brasil já dava sinais de crise, tanto
política como econômica, somando-se ainda o desgaste com
as lutas populares.
Na década de 1970 foram fundados 12 sindicatos no
Seridó, como podemos observar na tabela abaixo:

Tabela 02
Fundação de sindicatos rurais na região
do Seridó – década de 1970

Município Data de fundação


Timbaúba dos Batistas 25/07/71
Jardim do Seridó 16/10/71
Parelhas 28/02/72
Florânia 14/05/72
Acari 08/07/72
São João do Sabugi 17/07/72
Equador 03/09/72
Carnaúba dos Dantas 10/09/72
Serra Negra do Norte 29/10/72
São Fernando 29/10/72
São Vicente 11/08/73
Santana do Seridó 08/12/74
Fonte: Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Caicó (dados
fornecidos pelo assessor da FETARN da região do Seridó,
Expedito Jorge de Medeiros).

Como podemos perceber pelo trabalho desenvolvi-


do, a ação da Igreja Católica, de orientação e fundação dos
sindicatos, andava lado a lado à ação evangelizadora. A
Igreja atuava, também, no sentido de evangelizar e politizar,
uma vez que, ao se reunir com os trabalhadores rurais para
discutir a criação dos sindicatos, era feito o convite para que
253 |

os trabalhadores participassem das missas, que fossem se


confessar e levassem seus filhos para serem batizados. “A
manutenção das ‘práticas habituais’ é a condição necessária
para a sobrevivência da religião, pois elas constituem a
forma essencial das relações cultuais entre os fiéis e Deus”22.
A Igreja utilizou-se de diversas estratégias para manter o
controle de seus fiéis, para que os mesmos não fossem
desviados por outras religiões.
A Igreja também trabalhava, nessa época, na criação
de paróquias. Um exemplo foi a criação das paróquias de
São José, de Caicó e a de Nossa Senhora dos Aflitos, em
Jardim de Piranhas, em 1966, por dom Manuel Tavares,
bispo até então da Diocese de Caicó. Desta forma, fortalecia
o catolicismo na região e reforçava a devoção aos santos,
realizando as festas religiosas de padroeiros nas cidades,
com a finalidade de levantar recursos financeiros para sua
manutenção.
Para a Igreja Católica, o trabalho de sindicalização
realizado na região do Seridó seria mais um dos diversos
trabalhos que a instituição fazia em favor da população
pobre. Procura defender-se em relação às críticas que é feita
ao período de fundação dos sindicatos, que é visto, por
muitos estudiosos e pesquisadores, como uma forma de
manter a influência no campo. Não há como negar que a
Igreja se envolveu de forma muito intensa com a situação do
homem do campo. Havia uma preocupação de organizar e
orientar os trabalhadores rurais. Mas, como podemos
perceber, dentro desse trabalho de sindicalização, o religioso
sempre esteve muito presente. Ao passar orientações sobre o
social e o político, eram dadas, também, orientações cristãs
para os futuros sócios dos sindicatos de trabalhadores
rurais.

23 PORTELLI, Hugues. Gramsci e a Questão Religiosa, p. 132.


254 |
255 |

ENTRE ATOS CONFESSOS E AFETOS NÃO


DITOS: UMA ANÁLISE DAS
EXPERIÊNCIAS AMOROSAS FEMININAS,
PARA ALÉM DAS REPRESENTAÇÕES
JURÍDICAS E JORNALÍSTICAS DE
FEMINILIDADE (CAICÓ/RN, 1900-1945)1
Edivalma Cristina da Silva

Esse artigo é resultado de um amplo trabalho de


pesquisa desenvolvido pela autora desde sua Graduação em
História no Centro de Ensino Superior do Seridó, da Univer-
sidade Federal do Rio Grande do Norte (CERES/UFRN). É
de suma importância salientar que diante das problemáticas
a que o trabalho se abriu durante o Mestrado em Ciências
Sociais, dos percalços da análise das fontes2 – que inicial-

1 Texto que sintetiza a dissertação “Dos atos confessos aos afetos não-
ditos: Um olhar sobre as múltiplas experiências femininas a partir da
análise dos discursos jurídicos, jornalísticos e orais. Caicó/RN (1900-
1945)”, defendida em 2009 no Programa de Pós-Graduação em
Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte,
sob orientação da Profª. Drª. Elisete Schwade.
2 As fontes utilizadas para a realização da pesquisa consistiram na

análise de artigos do Jornal das Moças (1926-1932) e de vinte e cinco


processos-crime de defloramento, três de aborto, seis de
infanticídio, um de suicídio, um de homicídio e vinte processos de
lesões corporais. Todo o acervo pesquisado encontra-se sob
custódia do Laboratório de Documentação Histórica do CERES
(LABORDOC). Realizou-se, ainda, entrevistas com oito mulheres e
quatro homens caicoenses que residem atualmente no Bairro
256 |

mente consistiam apenas em processos-crime de deflora-


mento e artigos do Jornal das Moças3 – e das instigantes
interrogações que se apresentavam, novos horizontes foram
planados abrindo-se às discussões que percorreram por
diferentes campos: relações de gênero, memória, honra, sexua-
lidade, corpo e subjetividades. Minuciosamente o trabalho
dissertativo tomou rumos distintos de seu projeto inicial,
consistindo não mais em analisar as dicotomias – a exemplo
da mulher seduzida e a sedutora – como propunha a
monografia da graduação, mas em se lançar um novo olhar
que contemplasse a multiplicidade e o questionamento dos
dados apresentados e não apenas meras constatações.
Foi nessa perspectiva, que este trabalho, tendo deli-
mitado como recorte espacial a Comarca de Caicó/RN no
período de 1900 a 19454, analisou as plurais experiências
subjetivas femininas e a participação das mulheres na pro-
dução de suas subjetividades, desnaturalizando as represen-

Paraíba da cidade de Caicó/RN, com uma faixa etária entre


oitenta e cento e cinco anos de idade.
3 O Jornal das Moças constituía-se em um periódico informativo de

publicação semanal produzido por/para as mulheres da “camada


elitista”, o qual veiculava notícias sobre Caicó e o Brasil, tratando
de condutas, moda, literatura, humorismo e críticas sobre a
condição feminina na sociedade norte-rio-grandense. Sua circu-
lação deu–se entre os anos de 1926 e 1932, embora o LABORDOC
somente disponha das edições que circularam em 1926.
4 O município de Caicó – recorte espacial dessa pesquisa – situa-se

na microrregião do Seridó Ocidental, inserida na Mesorregião


Central no Estado do Rio Grande do Norte. Dentro do recorte
temporal delimitado (1900-1945), o referido município, repre-
sentado pela Comarca Judicial, abrangia uma vasta extensão
territorial do Seridó composta pelas vilas de Jucurutu (que se
tornou município somente em 1935, desmembrando-se de Caicó),
Jardim de Piranhas (em 1948), São Fernando (em 1958) e
Timbaúba dos Batistas (em 1962).
257 |

tações de feminilidade/masculinidade veiculadas pelos


discursos jurídicos e jornalísticos, as quais silenciavam as
alteridades e singularidades através de categorias de gênero
inflexíveis e homogeneizantes. Esse texto apresenta, sinte-
ticamente, os principais resultados do trabalho dissertativo
da autora: a atividade feminina na produção de “n” subje-
tividades e de “n” cartografias de desejos, a partir da análise
de suas vivências amorosas.

Dos “atos” femininos aos “autos” judiciais...

Noite de 1942. As ruas da cidade de Caicó estavam


vazias e iluminadas pela energia dos geradores, simboli-
zando que a cidade “modernizava-se”. A Rua da Favela5,
considerada subúrbio da referida cidade, era famosa pelos
sambas6 realizados em casas de famílias ou nas chamadas
bodegas7, com músicas e bebidas, caracterizando esse espaço
de sociabilidade como um lugar propício às paqueras,
amizades e divertimentos. Beatriz Lopes8, 14 anos, solteira,

55 De acordo com as fontes, a rua da Favela localizava-se nas


mediações do atual bairro Paraíba, na cidade de Caicó.
6 Nas memórias orais, os sambas foram apresentados através do

que hoje se conhece como forrós, ou seja, festas de caráter mais


popular abertas à participação da população em geral: soldados,
políticos, indivíduos da chamada “camada elitista” e mulheres,
sendo nítida a confluência entre pessoas de distintas culturas,
classes ou sexualidades. Em contraposição, os discursos jurídicos
marginalizavam esse divertimento por ser visto como um espaço
de permissibilidade para a experimentação de desejos, da
contração de namoricos, bebedeiras e confusões.
7 As bodegas eram pequenos estabelecimentos comerciais ou

armazéns, muito comuns nesse contexto histórico, onde se


vendiam secos e molhados.
8 Processo-crime de Sedução – S/N. Caixa FCC/1942 – ago./dez.

Ano 1942. Vale salientar que os nomes reais das ofendidas (os),
258 |

resolveu ir a um samba, pois sabia que o homem por quem


estava apaixonada os frequentava com assiduidade.
Segundo as testemunhas, Beatriz Lopes saía regu-
larmente a passeio com suas amigas. Como de costume, em
um dia de domingo, ela pediu permissão ao senhor Vicente
Brito – para quem trabalhava em serviços domésticos e onde
residia – para passear na praça9, prometendo-lhe voltar
cedo. Todavia, a menor retornou apenas às cinco horas da
manhã do dia ulterior, alegando ter passado a noite na casa
de uma amiga.
De acordo com um processo-crime posteriormente
instaurado, Vicente Brito, 42 anos de idade, funcionário da
firma Singer, estranhando a desculpa dada por Beatriz,
escreveu à senhora Maria Tereza, mãe da menor, pedindo-
lhe para vir a sua casa, pois a filha havia dormido fora.
Interrogada pela mãe, Beatriz confessou que havia ido a um
samba na Rua da Favela e que voltara para casa acom-
panhada do soldado José Luiz, por quem afirmou ter sido
deflorada naquela noite, às margens do rio Seridó. Diante da
confissão, Maria Tereza dirigiu-se à delegacia para prestar
queixa contra José Luiz, a fim de “reparar” a honra de sua
filha.
Ao que indica o processo, Beatriz Lopes assegurou
que tinha conhecimento do relacionamento amoroso de José
Luiz com outra mulher, mas colocou-se no porte de sedu-
zida ao alegar que “entregou-se”10 ao réu por estar apaixo-

acusados (as), queixosos (as) envolvidos nos processos-crime


analisados foram substituídos por nomes fictícios com o objetivo
de evitar possíveis constrangimentos a essas pessoas, pois
algumas delas podem, eventualmente, se encontrar vivas.
9 Ao que indica o processo, a praça referenciada pelas teste-

munhas é a Praça da Liberdade, atualmente chamada de Praça


Senador Dinarte Mariz, em Caicó.
10 Assertivas como “entregou-se”, “apenas cedeu” e “deixou-se

seduzir ou deflorar”, observáveis nos processos-crime de deflo-


259 |

nada. Ele, pelo contrário, atribuiu a ela a responsabilidade


por ter-lhe seduzido, invertendo os papéis de seduzida para
sedutora11 ao declarar, em seu depoimento, que o convite
para passearem, após o samba, proveio da vítima, a qual
teria aceitado de bom gosto o pedido dele para praticarem
relações sexuais.
Todas as testemunhas apresentaram Beatriz Lopes
como moça “honesta” e recatada, por não se ouvir falar que
se envolvesse em bebedeiras, nem em namoricos12, apesar de
terem ressaltado que ela era vista frequentemente na
pracinha, sem vigilância familiar. Aliada a esses depoimen-
tos, o reconhecimento pelas testemunhas do soldado José
Luiz como sedutor, reforçaram a responsabilidade do réu no
crime e a “inexperiência” da vítima. Mesmo diante dos
indícios da culpabilidade de José Luiz, o processo-crime foi
anulado, pois ele casou-se civilmente com Beatriz Lopes.
Processos-crime de sedução e defloramento como
esse acima apresentado se tornavam cada vez mais inciden-

ramento, demonstram a veiculação de intensas representações de


gênero que acabavam por legitimar a inatividade e irracionalidade
feminina diante do poder masculino de sedução, artimanha
considerada peculiarmente masculina.
11 A análise dos depoimentos dos réus demonstra a sua utilização

da inversão dos papéis sociais masculinos e femininos, ao


representarem as “vítimas” como moralmente corrompidas,
sedutoras e com comportamentos considerados reprováveis a uma
moça considerada “honesta”, a exemplo das saídas sem vigilância
familiar, como ocorreu com Beatriz Lopes ao ir à praça. Sobre a
inversão dos papéis sociais em processos-crime de sedução e
defloramento, ver: BESSA, Karla. O crime de sedução e as
relações de gênero.
12 Termo recorrente nos discursos orais e jurídicos para se

referirem aos namoros entre jovens que não eram reconhecidos


enquanto relações formalizadas diante da família, ou seja, que se
passavam às escondidas.
260 |

tes, a partir da década de 1900, no município de Caicó, fosse


através de denúncias privadas – pais, tios, padrinhos ou
mães – ou por meio de intervenções jurídicas ou policiais.
Isso se justifica pelo fato das atitudes femininas como a de
Beatriz – a ida dela ao samba, desacompanhada da família, e
a contração de relações sexuais com um homem, sem a
oficialização do matrimônio – terem se constituído em uma
das vias possíveis de atuação da Justiça no controle da
sexualidade feminina e o corpo social, disciplinando-os e
punindo-os.
Essa visível atuação e controle da Justiça sobre o
corpo feminino e social13 constituiu-se em parte integrante
do projeto modernizador e das políticas higienistas intensi-
ficadas com a instauração do regime republicano (1889), a
exemplo da modernização dos centros urbanos brasileiros e
das políticas de moralização dos costumes14. Nesse intermé-
dio, como mostra Jacques Donzelot15, o Estado abstraiu para
si, através da ação das famílias na pedagogização do corpo
feminino, o poder de intervir em casos que provocassem
mazelas à imagem pública, tutelando o feminino e
centrando-o como foco das reestruturações dos códigos
sexuais, jurídicos e morais encaminhados desde o primeiro

13 É perceptível a intervenção da Justiça em casos de defloramento


e infanticídios, sem respeitar, por demasiadas vezes, os direitos de
queixa privada, levando a publicização do corpo feminino e de
sua intimidade em nome do controle das condutas dos envolvidos
nos processos. Para uma discussão mais detalhada, ver: PEDRO,
Joana Maria. A publicidade da intimidade: punição e controle.
14 Sobre a moralização dos costumes, ver CAVALCANTI, Silêde.

Mulheres Modernas, Mulheres Tuteladas: o discurso jurídico e a


moralização dos costumes – Campina Grande (1930/1950).
15 Cf. DONZELOT, Jacques. A polícia das famílias, p. 51.
261 |

Código Penal Republicano de 189016 e intensificadas pelas


políticas getulistas17.
Vale salientar que, ao se falar em modernidade,
deve-se alertar que o processo de modernização do espaço
urbano de Caicó deu-se lentamente, intensificado apenas
nas décadas de 1950-60, como mostra Marcos Antonio Alves
de Araújo18. O município de Caicó, entre 1900 e 1945,
abrangia uma ampla extensão territorial habitada, em sua
maioria, por famílias campestres de coronéis e agrega-
dos/trabalhadores, contribuindo para o predomínio de
habitantes na zona rural, em contraposição à tímida parcela
populacional que habitava a esfera urbana.
O lento decréscimo da população rural entre as
quatro décadas analisadas – de 21.710 em 1910, para 20.597
em 194019, como mostra Ione Rodrigues Diniz Morais –
demonstra que a cidade constituía-se como apêndice da
economia rural20, em consequência do quadro econômico e
político do Seridó, caracterizado pelo coronelismo e pela
centralização econômica da região no binômio algodão-
gado, que conferiu respaldo político à elite regional (coro-
néis), principalmente a partir da década de 1920, quando o
caicoense José Augusto Bezerra de Medeiros chegou ao
Governo do Estado do Rio Grande do Norte.

16 Cf. CAULFIELD, Sueann. Em defesa da honra: moralidade,


modernidade e nação no Rio de Janeiro (1918-1940), passim.
17 Sobre as políticas getulistas, ver LENHARO, Alcir. Sacralização

da Política.
18 ARAÚJO, Marcos Antônio Alves de. Sobre pedras, entre rios:

modernização do espaço urbano de Caicó/RN (1950/1960).


19 Dados da tabela População urbana e rural de Caicó apresentada

por MORAIS, Ione Rodriguez Diniz. Desvendando a cidade:


Caicó em sua dinâmica espacial, p. 47.
20 Cf. COSTA, Jurandir Freire. Ordem médica e norma familiar, p.

39.
262 |

Deste modo, em contraposição à grande extensão


rural, subdividida em sítios e fazendas, o espaço urbano
caicoense ainda era pequeno, mas crescia de forma com-
passada e notória através do comércio, sendo representado
em periódicos como o Jornal O Povo21 e o Jornal das Moças
enquanto uma urbs22 em processo de modernização e ícone
do “progresso” no Seridó do Rio Grande do Norte.
Logo, de acordo com os discursos jornalísticos e a
historiografia regional, Caicó, até 1945, já dispunha de luz
elétrica fornecida por geradores, de diversões e serviços
públicos – a exemplo da Prefeitura Municipal –, o telégrafo,
Mercado Público, Banco Rural de Caicó, duas cadeias
públicas, um coreto, a Praça da Liberdade, o Cinema Ave-
nida, o Educandário Santa Teresinha, o Hospital do Seridó,
a Festa de Sant’Ana23 e, dentre outros, alguns automóveis.
Segundo fragmentos do Jornal O Povo, além da feira semanal
que ocorria aos sábados, a cidade já possuía várias
tipografias, lojas de tecidos, algumas alfaiatarias; oficinas de

21 O Jornal O Povo circulou em Caicó entre março de 1889 e


setembro de 1892, com edições semanais. Fragmentos desse jornal
podem ser encontrados na obra de MEDEIROS FILHO, Olavo de.
Caicó, cem anos atrás.
22 DANTAS, Renato. Jornal das Moças, Caicó, ano 1, n. 6, p. 1, 11

abr. 1926.
23 A Festa de Sant’Ana, em Caicó/RN, considerada símbolo de

maior expressão religiosa no Seridó, é celebrada nos últimos dez


dias do mês de julho. Atualmente, por consistir na marca da
identidade local da região, a Festa de Santana passou a ser
considerada Patrimônio Cultural do Seridó, pelo Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN/RN). Para
informações mais detalhadas, ver ALVES, Maria Lúcia Bastos;
CAVIGNAC, Julie A. Sant'Ana de Caicó, avó do sertão: festa,
turismo religioso e patrimônio cultural do Seridó (RN).
263 |

ferreiro; tinturarias; celeiros; sapatarias; caldeiros e cafés24, a


exemplo do Café Cateretê. Entre as novidades da cidade,
destacaram-se as visitas dos Presidentes da República,
Washington Luiz, em agosto 1926, e Getúlio Vargas, em
setembro de 1933.
A partir da análise das fontes, observou-se que os
valores considerados “burgueses” e normativos também fo-
ram subjetivados e difundidos entre as camadas conside-
radas “elitistas” da cidade – bem como entre os populares
por meio da oralidade –, através de artigos jornalísticos
sobre: educação (Educação Feminina25, por exemplo), incen-
tivo à adoção das políticas higienistas (A morte da chupeta26 e
A nota27) e recomendações moralizantes às mulheres (O
Decálogo da Esposa28; Os dez mandamentos da dona de casa29; Os
dez mandamentos da mulher elegante30).

24 Os cafés eram estabelecimentos próximos ao que, atualmente, se


conhece como bares e se espalhava pelas zonas consideradas
subúrbios da cidade, a exemplo do Café Cateretê, localizado na Rua
de Baixo, hoje denominada de Amaro Cavalcanti.
25 CORTEZ, L. Educação Feminina. Jornal das Moças, Caicó, ano

1, n. 13, p. 2, 16 maio 1926.


26 LIZ, Flor de. A morte da Chupeta. Jornal das Moças, Caicó, ano

1, n. 17, p. 3, 30 maio 1926.


27 Um bom exemplo da imposição da “civilidade” à população

pode ser visualizado pelo artigo “A nota”, veiculado pelo Jornal


das Moças, o qual aplaudiu a campanha preventiva de mata-
mosquitos da Fundação Rockfeller e incentivou a população a
receber, com estima, os funcionários da referida fundação que
providenciariam o extermínio dos mosquitos e martelinhos nos
potes de água. O periódico justificou a adesão à campanha
argumentando que a higienização do lar é indispensável para o
sucesso do futuro e para a ausência de posteriores sofrimentos e
dissabores. Ver LIZ, Flor de. A nota. Jornal das Moças, Caicó, ano
1, n. 35, p. 1, 26 set. 1926.
28 O DECÁLOGO da Esposa. Jornal das Moças, Caicó, ano 1, n. 44,

p. 2, 5 dez. 1926.
264 |

Isso demonstra que, embora o processo de moder-


nização de Caicó tenha sido lento se comparado a outras
cidades do Nordeste – como Natal e Recife –, os “ventos”
parisienses, também sopraram pela região do Seridó do Rio
Grande do Norte31, refletindo-se na literatura, na moda e,
principalmente, no aparelho jurídico por meio das políticas
de moralização dos costumes, a qual atribuía permissi-
bilidade à Justiça para interferir no privado e no cotidiano
das famílias vitimadas pela desonra sexual feminina.
Observa-se que, a partir de objetivos disciplinares e
moralizantes, os discursos normativos acerca de honra, se-
xualidade e virgindade – difundidos a cada processo-crime
instaurado e em artigos jornalísticos como Tres Nimphas32; O
lar e a Felicidade33 e A vida em Família34 – legitimavam
representações de gênero e de feminilidade/masculinidade,
as quais se infundiram no que Michel Foucault elegeu de
“Ciência do Sexo” 35 que se arquitetava e estendia-se
celularmente por todo o corpo social, construindo “verda-
des” sobre o corpo e a sexualidade feminina, e natu-

29 OS DEZ mandamentos da dona de casa. Jornal das Moças,


Caicó, ano 1, n. 23, p. 2, 25 jul. 1926.
30 OS DEZ mandamentos da mulher elegante. Jornal das Moças,

Caicó, ano 1, n. 23, p. 2, 25 jul. 1926.


31 Sobre a modernização de Caicó na década de 1920, ver

ANDRADE, Juciene Batista Félix. Caicó: uma cidade entre a


recusa e sedução.
32 NERIDA. Três Nimphas. Jornal das Moças, Caicó, ano 1, n. 17,

p. 2, 30 maio 1926.
33 LIZ, Flor de. O Lar e a Felicidade. Jornal das Moças, Caicó, ano

1, n. 31, p. 2, 22 ago. 1926.


34 DORA, C. A vida em Família. Jornal das Moças, Caicó, ano 1, n.

28, p. 2, 31 jul. 1926.


35 Cf. FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: Vontade de

Saber, p. 51-71.
265 |

ralizando-as através da disciplinarização e do controle do


desejo e prazer cotidiano.
Era nessa medida que cada processo-crime instau-
rado servia de aporte para o controle do corpo e sexualidade
feminina, através da veiculação de representações de virgin-
dade, família e casamento, centrados na idealização do amor
romântico como estruturador das relações amorosas36. Pron-
tamente, as experimentações subjetivas amorosas passavam
a ser reificadas pelo que Jacqueline Cavalcanti Chaves37
elegeu de amor romântico domesticado, que atuou naturali-
zando o lar, os filhos e a maternidade em destinos inerente-
mente femininos, e o amor em fonte da felicidade conjugal,
somente alcançada através das escolhas acionadas pelos
próprios amantes e no sentimento recíproco.
Esperava-se, como mostra Martha de Abreu Este-
ves, que todas as relações amorosas entrelaçadas entre
jovens se constituíssem em projetos de vida a longo prazo,
seguindo etapas pré-definidas: flertes, cortejo, oficialização
do namoro diante da família, noivado e, por último, o
casamento38. Tais representações acabaram por sufocar/
silenciar as singularidades, as múltiplas práticas amorosas e
as expressões de desejos e prazer de muitas mulheres, como
Beatriz Lopes.
Dessa forma, longe de terem sido pensadas como
desejantes e subjetivas, as vítimas de defloramentos e as rés de
abortos e infanticídios foram julgadas, punidas e norma-
lizadas através de representações de gênero homoge-

36 Cf. D’IANCO, Maria Ângela. Mulher e família burguesa, p.

232-3.
37 CHAVES, Jacqueline Cavalcanti. Os amores e o ordenamento

das práticas amorosas no Brasil da belle époque, p. 11-2.


38 Cf. ESTEVES, Martha de Abreu. Meninas perdidas: os

populares e o cotidiano do amor no Rio de Janeiro as Bélle


Époque, p. 140-1.
266 |

neizantes, que legitimaram a subtração da atividade e


racionalidade feminina diante da reafirmação do poder
falocrático, acentuando as relações de dominação e a inferio-
rização do feminino devido à inteligibilidade atribuída às
identidades de gênero e aos corpos sexuados, como mostra
Jane Flax39.
Mas será Beatriz Lopes, assim como outras vítimas e
rés, apenas um rosto desviante40, como a Justiça a delineou?
Elas não serão desejantes, subversivas, pulsantes, cheias de
afetos? Beatriz amou, viveu experiências amorosas, gozou,
experimentou fluxos intensos de desejos e fez uso da Justiça
para casar-se com José Luiz, o que demonstra sua inten-
cionalidade e racionalidade diante da situação. São as
atitudes e atividades femininas – na produção de suas subje-
tividades – que desconstroem a (pretensa) homogeneidade
das representações de emotividade, irracionalidade e fragi-
lidade que lhes eram impostas pelos discursos normativos.
As contradições verificadas nos depoimentos das
vítimas e réus demonstram a não sustentabilidade do ideal
de família burguesa e das representações de gênero veicu-
ladas pelos discursos normativos41. A primeira visibilidade
de quebra dos ideais ditos “burgueses” emerge nos múlti-
plos arranjos familiares acionados pelos casais que se
formavam e passavam a morar, muitas vezes, na residência

39 FLAX, Jane. Pós-modernismo e relações de gênero na teoria

feminista, p. 228-9.
40 Para mais detalhes acerca do conceito de rostidade, ver

DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e


Esquizofrenia, p. 31-62.
41 A não sustentabilidade dos ideais burgueses é bem trabalhada

por ALMEIDA, Ângela Mendes de. Notas sobre a família no


Brasil.
267 |

dos sogros, em períodos de tempo considerados difíceis42.


Tal situação influenciava na descentralização das responsa-
bilidades dos pais na criação dos filhos, estendidos a uma
rede de compadrio e/ou apadrinhamento mais ampla: aos
avós, padrinhos, ou a parentes colaterais como irmãos, tios
ou primos; resultado da precariedade da família conjugal
nos grupos considerados populares, como mostra Cláudia
Fonseca43 – prática muito comum entre as famílias seri-
doenses.
Além disso, contrariamente aos discursos norma-
tivos, a realidade social do abandono feminino levou muitas
mulheres a acionarem outras estratégias, como o trabalho
em casas de família, o amasiamento ou o casamento
religioso com alguém que lhe fosse atribuída simpatia44 e
amizade, para suplantar a sobrevivência. Logicamente, o
ideal familiar que atribuía ao homem o papel de mante-
nedor e à mulher as tarefas do lar e a criação dos filhos, não
se aplicavam entre os homens e mulheres caicoenses de
camadas consideradas populares.
Outra constatação desponta da utilização das repre-
sentações de namoro e feminilidade/masculinidade –
socialmente instituídas – pelos réus, vítimas e testemunhas
em seus depoimentos, o que aponta para a constituição de
leituras mais flexíveis acerca da honra e das relações
amorosas, que embora não fossem reconhecidas pela Justiça,
não perdiam a legitimidade em seu grupo social.
Um bom exemplo dessa flexibilidade perpassa pelos
discursos acerca do casamento: embora os entrevistados

42 Ver os seguintes processos: Processo-crime de Sedução – N°


6.472. Caixa FCC/1939 – jan./maio. Ano 1939; Processo-crime de
Defloramento – S/N. Caixa FCC/1940. Ano 1940.
43 Cf. FONSECA, Claúdia. Ser mulher, mãe e pobre, p. 537.
44 Termo recorrente nos discursos orais e jurídicos para se referir

ao sentimento amoroso entre jovens.


268 |

tenham defendido a importância da virgindade feminina e a


contração de relações sexuais entre o casal somente após a
concretização do matrimônio, os processos indicam a
existência de múltiplas relações amorosas45 entrelaçadas
entre jovens que se passavam pela esfera do não confessável,
do não-dito46, ou seja, sem o conhecimento social e dos pais.
Em muitos dos encontros às escondidas – fossem entre
namorados ou apenas conhecidos –, as relações sexuais
eram concretizadas para a experimentação do desejo e do
prazer, sem necessariamente estarem voltadas para a repro-
dução humana e/ou para o casamento.
Além disso, os dados dos processos-crime de
defloramentos, abortos e infanticídios, demonstraram que as
relações amorosas informais tendiam a permanecer na
esfera do não-dito e apenas se tornavam públicas diante da
representação do “corpo marcado” pelos sinais do aborto ou
do parto; pela contração de Doenças Sexualmente Trans-
missíveis (DSTs); por o casal ter sido flagrado praticando
relações sexuais e, principalmente, pelos sinais de gravidez.

45 Essa flexibilidade nas relações amorosas também foi percebida


por SANTOS, Maria Emilia Vasconcelos dos. “Moças Honestas”
ou “Meninas Perdidas”: Um estudo sobre a honra e o uso da
justiça pelas mulheres pobres em Pernambuco Imperial (1860-
1888).
46 Vale salientar que ao referir-se aos afetos não-ditos, esse artigo

está refletindo a partir das dimensões discursivas e desejantes


apresentadas por Paulo Rogers (2006), nas quais esses afetos não-
confessos corresponderiam às sexualidades que fugiam à
“normalidade” e à “naturalidade” do imaginário e das referências
instituídas, não tendo como objetivo a reprodução da espécie, mas
intensidades de desejos que colocam o corpo em ação e
movimento; assim como as sexualidades que vivenciadas em
segredo acabavam por tornarem-se indizíveis, intentadas a jamais
serem publicizadas. Para mais detalhes, ver: ROGERS, Paulo. Os
afectos mal-ditos: o indizível das sexualidades camponesas.
269 |

A atividade e racionalidade femininas também


podem ser visualizadas nas performances47 entrelaçadas pelos
jovens e na adoção de variadas táticas e lugares para a
experimentação do desejo, driblando, assim, a vigilância dos
pais e vizinhos: fugiam à noite; jogavam bolões de barro no
telhado para avisar da chegada; praticavam relações sexuais
entre matos, às margens dos rios, em roçados, estradas;
usavam o chão ou a parede da casa dos pais da vítima, do
réu ou de terceiros para manterem suas relações sexuais,
sempre transitando entre a esfera dos afetos confessáveis
para o indizíveis.
Esses atos performáticos também podem ser visua-
lizados nas agências48 femininas despendidas diante de
situações cotidianas que emanavam intenções conscientes e
inconscientes: forjaram defloramentos; procuraram a Justiça
para a realização de seus casamentos; trabalharam fora de
casa; iniciaram e terminaram relações amorosas com certa
flexibilidade; travaram lutas corporais com outras mulheres
por ciúmes de seus companheiros ou por sentirem-se
ofendidas pelas pilhérias recebidas; reagiram às agressões de
seus maridos; intentaram homicídios e estrangulamentos
em relação às desonras lhes imputadas, mantiveram o
controle sobre seu corpo ao se utilizarem de beberagens e
preparados49 para fazer vir às regras recolhidas (menstruação).
Essas constatações reforçam a afirmação de Sherry
Ortner de que o processo de formação da subjetividade é

47 Para detalhes acerca do conceito de performance e atos perfor-


máticos, ver BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e
subversão da identidade.
48 Para detalhes acerca do conceito de agências, ver ORTNER,

Sherry B. Poder e Projetos: reflexões sobre a Agência..


49 Beberagens e preparados eram termos recorrente nos processos

criminais de abortos e infanticídios que equivaliam aos chás e


cozimentos medicinais utilizados para curar males como dor de
cabeça, de dente, cólicas, entre outros.
270 |

bastante complexo, demonstrável nas ações femininas, as


quais variam desde a perseguição de planos conscientes e
socialmente construídos – a exemplo do casamento e a
maternidade –, até necessidades, desejos e vontades inten-
cionais50, capazes de subverter à (pretensa) ordem do
gênero.
Essa complexidade dá-se porque, como mostram
Gilles Deleuze e Félix Guattari, o processo da construção da
subjetividade é sempre metamorfoseante e contínuo, sendo
os sujeitos sociais partícipes ativos na sua formação, ainda
que no interior de projetos a serem seguidos socialmente, a
exemplo do casamento. Isso demonstra que todas as
experiências são sempre subjetivas e capazes de criar novos
territórios de desejos, sensibilidades e modos de vida singu-
lares, ou seja, múltiplas subjetividades51.
Logo, para que cada experiência como as relações
sexuais, o aborto e/ou o infanticídio fossem vivenciadas
pelas vítimas e rés, novas subjetividades eram constituídas
através das linhas de fuga52 traçadas, pelas quais decorriam
distintas intensidades de desejos que adentravam pela
esfera do não confessável das sexualidades femininas,
subvertendo a ordem do gênero e desnaturalizando o ideá-
rio mulher-natureza-submissa, veiculado pelos discursos
jurídicos e jornalísticos.
Portanto, embora se reconheça que o subjetivo/
interno dos indivíduos seja produzido pela subjetivação de
influências externas, a exemplo da língua e da cultura, como

50 Cf. ORTNER, Sherry B. Poder e Projetos: reflexões sobre a


Agência. passim.
51 Cf. DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Félix. Mil Platôs:
Capitalismo e Esquizofrenia. passim.
52 Para detalhes acerca do conceito de linhas de fuga, ver DELEUZE,

Gilles. GUATTARI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia.


271 |

bem trabalha Gilberto Velho53, atenta-se que o processo de


produção da subjetividade é sempre aberto, contínuo e
ativo. Logo, mesmo dentro de regimes de poder, as táticas
acionadas e as ações despendidas pelas mulheres tornavam-
se formas de resistência à situações lidas pelas mulheres
como opressivas, o que demonstra que a subjetividade está
em constante movimento de (re)construção e (re)invenção.
Foram as experiências amorosas de mulheres caico-
enses, como Beatriz Lopes, que possibilitaram ao trabalho
dissertativo da autora questionar a inteligibilidade e coerên-
cia das categorias de gênero, desnaturalizando-as. Ora, se
cada indivíduo consiste em uma multiplicidade infinita de
experiências e subjetividades, então se afirma que não se
pode cristalizar o olhar, apenas, sob modelos homogenei-
zantes de feminilidade/masculinidade. Espera-se, agora,
que outros encontros amorosos marcados pelas ruas ou
roçados caicoenses, despontem para novas análises e olha-
res, colocando os corpos em movimentos e as experimen-
tações em estado de êxtase. Aguardemos!

53VELHO, Gilberto. Subjetividade e sociedade: Uma experiência


de geração.
272 |
273 |

CONFIGURAÇÕES ESPACIAIS
DO SERIDÓ POTIGUAR1
Olívia Morais de Medeiros Neta

O objetivo deste trabalho é analisar as configurações


espaciais do Seridó potiguar a partir do discurso histo-
riográfico. Assim, a escrita, se constitui enquanto recorte
para análise, sendo entendida enquanto uma prática que
(de)marca e institui rostos para os espaços.2 O corpus docu-
mental é composto pelas obras Homens de Outrora (1941), de
Manuel Dantas; Seridó (1954), de José Augusto Bezerra de
Medeiros; Velhos Costumes do Meu Sertão (1965), de Juvenal
Lamartine de Faria e Sertões do Seridó (1980), de Oswaldo
Lamartine de Faria.3
Esta é uma história dos espaços que tem como
problemática a institucionalização de sentidos para o Seridó,
como decorrência da locução discursiva. As fontes-obras,
citadas acima, foram escolhidas por serem as que, dentro da
historiografia sobre o Seridó, compoem uma mesma
formação discursiva, bem como o fato de serem responsáveis

1 Os resultados apresentados neste texto têm por base o trabalho


de dissertação Ser(Tão) Seridó em suas configurações espaciais,
defendido em 2007 no Programa de Pós-Graduação em História
da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sob a
orientação do Prof. Dr. Iranilson Buriti de Oliveira.
2 AUGUSTO, José. Seridó; DANTAS, Manoel. Homens de

Outrora; FARIA, Juvenal Lamartine de. Velhos costumes do meu


sertão; FARIA, Oswaldo Lamartine de. Sertões do Seridó.
3 Para maiores informações consultar: MEDEIROS NETA, Olivia

Morais de. Ser(Tão) Seridó em suas cartografias espaciais.


274 |

por estudos acerca deste como um recorte espacial demar-


cado pela história.
O Seridó potiguar segundo o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística, IBGE,4 situa-se na porção centro-
meridional do Rio Grande do Norte e, atualmente compre-
ende o territórios de 17 (dezessete) municípios. Além da
configuração espacial produzida para o Seridó norte-rio-
grandense pelo IBGE, pode-se considerar outra configu-
ração que seria a do Seridó historicamente construído.5 Este,
atualmente, é composto pelo território de 23 (vinte e três)
municípios que, de forma direta ou indireta, se desmem-
braram de Caicó, primeira municipalidade a se constituir no
referido recorte espacial.
Quando nos referirmos ao Seridó estaremos conside-
rando os limites do historicamente construído. Esta opção
dá-se por este recorte tomar como base a história, visto que
sua produção é considerada a partir dos processos de
colonização e povoamento e assim, a delimitação do Seridó
historicamente construído é também uma história dos
espaços, de seus usos e práticas.6
A investigação parte do princípio de que o Seridó é
configuração narrativa decorrente do discurso historiográ-
fico que é instituído na relação entre o lugar social de seus
autores e da prática discursiva. Portanto, a investigação aqui
proposta se insere no debate historiográfico que pensa a
construção dos espaços. Para o desenvolvimento do tra-
balho utilizamos a noção de autoria, uma vez que atentamos
à interface da historiografia, justificando a busca das

4 BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Resolução


PR n. 51 de 31 de setembro de 1989. Boletim de Serviço, p.2.
5 Ver MORAIS, Ione Rodrigues Diniz. Seridó norte-rio-grandense:

uma geografia da resistência.


6 Ver MACÊDO, Muirakytan Kennedy de. A Penúltima versão do

Seridó – Uma história do regionalismo seridoense.


275 |

subjetivações dos autores para o espaço e problematizando-


as a partir dos lugares sociais destes.
A investigação está articulada com o método de
análise do discurso que “[...] não é simplesmente aquilo que
traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por
que, pelo que se luta, o poder pelo qual nós queremos
apoderar.”7 Ainda ressaltamos que o discurso não é o que se
diz sobre alguém ou alguma coisa, mas o conjunto de
enunciados que circulam, em determinado momento, na
sociedade e, sua análise consiste na percepção dos enuncia-
dos recorrentes ou silenciados numa série discursiva, daí ser
tomado como método de análise para os discursos sobre e
discursos de Seridó na historiografia.
O espaço territorial do Seridó é lido e produzido nos
recortes dos atos de fala que pela dimensão discursiva vêm
compor a espacialidade da escrita que é marcada sob a
coação de formas que nela se exercem. É a escrita um espaço
estriado que entrecruza fixos e variáveis, ordena e faz
sucederem-se formas distintas, que é passível de ser carto-
grafado, de ser mapeado; é o espaço extensivo, enquanto
conjunto de marcas que dá sinais, dobraduras em sua
extensão.
A noção de espaço estriado é entendida a partir da
problematização de Deleuze e Guattari8 quando discutem os
modelos e os aspectos variáveis das relações entre os espa-
ços lisos e estriados. E, como um tecido que tem motivos
estampados, a escrita é um conjunto de gravuras, de com-
binações distintas, é um arranjo de símbolos e signos, tem
marcas — é espaço.

7FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso, p. 10.


8 Cf. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. 1440 – O liso e o
estriado. In: ______. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia, p.
179-214.
276 |

Como este tecido, a escrita pode ser cortada por


manchas, por gravuras concretas e/ou abstracionistas, pode
também ter uma superfície lisa. Aqui podemos perceber
duas leituras possíveis ao espaço, um espaço liso e um
espaço com estrias. Vislumbrar a escrita é focar seus autores,
sujeitos de discursos que expressam maneiras de subjeti-
vação e vivência dos códigos que definem suas concepções.
Uma obra pode viabilizar uma história de produção de seus
autores, uma história de produção de suas subjetividades,
da construção de sua identidade de autor e da prática
discursiva de sua escrita.
Ao pensarmos a relação entre autor e texto consi-
deramos que sua função é caracterizar a existência, a
circulação e a operacionalidade de certos discursos numa
dada sociedade. Buscar o autor é dar visibilidade ao lugar
particular do sujeito do discurso, os lugares de autoria, que
estão articulados com a história das formas de pensamento.
Manoel Dantas, José Augusto, Juvenal Lamartine de
Faria e Oswaldo Lamartine de Faria são descendentes de
famílias que participaram do processo de colonização e
povoamento do Seridó, havendo entre os mesmos laços de
parentesco. São, portanto, parte de outra rede: a familiar e
genealógica. Neste sentido, o discurso historiográfico é
produzido como forma limite para o espaço e para justificar
ou reafirmar a presença e relevância de determinadas
linhagens genealógicas no Seridó potiguar.
Ao analisarmos as configurações de um estatuto de
autoridade sobre o Seridó, nos voltamos ao lugar de
produção do conhecimento dos autores, pensando o eu e a
escrita como espaços de idéias. O Seridó, como temática de
estudo nas obras analisadas, é parte dos corpos e desejos
dos autores. Estes se colocam enquanto naturais, filhos da
terra e escrever sobre esta e para esta terra seria produzir um
estatuto de autoridade do sujeito e de seu espaço.
277 |

Desta forma, a escrita era a vida e esta era sobre suas


vidas, onde experiências íntimas e interesses privados se
misturavam com suas atividades públicas de escritor.
Escrever sobre o Seridó era escrever-se em um espaço,
lembrar-se dos tempos da meninice, dos antepassados, de
um lugar que imprimiu marcas em suas subjetividades.
Eram os tempos de outrora de si e do Seridó, era a tradição e
a memória que passavam a delimitar a produção sobre essa
terra e o espaço do eu. É assim que Manoel Dantas escreve
que “[...] a tradição tem perpetuado os tipos sertanejos [...].
Quem quer que visite, por exemplo, o Seridó, há de notar
que todos conhecem e falam ainda hoje de homens que há
um século existiram [...].”9
Nascido a 26 de abril de 1867, na Vila do Príncipe,
atual Caicó, interior do Rio Grande do Norte, Manoel
Dantas foi advogado, juiz, educador, jornalista, político.
Publicou trabalhos jurídicos, Lições de Geografia, um estudo
sobre a origem dos nomes dos municípios do Rio Grande do
Norte e vários ensaios, reunidos depois de sua morte sob o
título Homens de Outrora. Faleceu em Natal, a 15 de junho de
1924. Durante a década de 1910, dirigiu a Instrução Pública
no Estado, introduzindo o ensino profissional agrícola.
José Augusto Bezerra de Medeiros nasceu em 22 de
setembro de 1884, também no território da Vila do Príncipe,
filho de Manoel Augusto Bezerra de Araújo e Cândida
Olindina de Medeiros. Faleceu em 18 de maio de 1971.
Bacharelou-se pela Faculdade de Direito do Recife, em 1º de
dezembro de 1903, e ocupou os cargos públicos de Procu-
rador da República, Fiscal de Governo Federal, Diretor do
Atheneu Norte-Rio-Grandense, Juiz de Direito da Comarca
de Caicó, Chefe de Polícia Interino e Secretário de Estado no
Governo Ferreira Chaves.

9 DANTAS, Manoel. Homens de Outrora, p. 05.


278 |

Como político, José Augusto exerceu o mandato de


Deputado Federal de 1913 a 1923 e o de Governador do Rio
Grande do Norte de 1924 a 1927, além de Senador da
República de 1928 a 1930, voltando a exercer por mais
quatro mandatos o cargo de Deputado Federal. Publicou
trabalhos como: O Anteprojeto da Constituição em face da
Democracia (1933), Eduquemo-Nos (1922), Famílias Seridoenses
(1940), Seridó (1954) e O Rio Grande do Norte no Senado da
República (1968).10
As produções destes sujeitos do conhecimento
voltam-se à temporalidade passada, sendo o foco de atenção
o que aconteceu. Nela vão buscar as próprias soluções para
questões que se colocam no seu presente, e desta forma o
Seridó apresentado nas obras é regido pelo discurso preocu-
pado com o povo, com a terra, com a natureza e suas
configurações.
Como sujeito do conhecimento erudito, Juvenal
Lamartine de Faria, que nasceu em 9 de agosto de 1874, no
atual município de Serra Negra do Norte (RN), filho de
Clementino Monteiro de Faria e Paulina Umbelina dos
Passos, emerge como locutor do Seridó. Juvenal Lamartine
faleceu em 18 de abril de 1956. Fez estudos secundários no
Atheneu Norte-Rio-Grandense e graduou-se em Ciências
Jurídicas pela Faculdade de Direito do Recife, em dezembro
de 1897, sendo escolhido para ser o orador de sua turma,
certamente em face de sua condição de aluno laureado,
status que lhe permitiu ser agraciado com uma bolsa de
estudo para fazer pós-graduação em uma universidade
francesa. Optou, porém, por voltar para o Rio Grande do
Norte e seguir a carreira de jurista, intelectual e homem

10ARAÚJO, Marta Maria de. José Augusto Bezerra de Medeiros:


político e educador militante.
279 |

público, por excelência. Retornando para seu Estado natal,


em 1897. 11
Juvenal Lamartine foi professor de Geografia e Vice-
Diretor do Atheneu Norte-Rio-Grandense (1898), Juiz de
Direito (1893-1903), Vice-Governador do Estado (1904-1906),
Deputado Federal (1906), Senador da República (1927) e
Governador do Rio Grande do Norte (1928-1930). Republi-
cano e partidário do federalismo, Lamartine no Congresso
Nacional foi um defensor do direito político, da mulher
votar e ser votada e, ainda, um dos porta-vozes da Fede-
ração Brasileira pelo Progresso Feminino, presidida pela
bióloga Berta Maria Júlia Lutz. 12
Velhos Costumes do Meu Sertão, foi o título de uma
série de artigos publicados por Juvenal Lamartine de Faria
na Tribuna do Norte, com sede na cidade do Natal (RN), no
último trimestre de 1954. Após seu falecimento, em 1956,
estes artigos foram reunidos e publicados em forma de livro,
em 1965. Sua edição ficou a cargo da Fundação José Augus-
to, Natal-RN, e recebeu o mesmo título da série jornalística.
Os costumes do sertão pautam a escrita de Juvenal
Lamartine na publicação acima citada e neste exercício de
discutir e apresentar o seu Sertão, Juvenal Lamartine por,
estar no momento em que escrevera os textos que compõem
a obra acometido de uma cegueira, devido o glaucoma —
aumento da pressão intra ocular —, diz limitar-se aos
guardados da memória, escriturando depoimentos de um
sertanejo, sobre o sertão de seu tempo.

11 ARAÚJO, Marta Maria de; MEDEIROS, Cristiane Moreira Lins


de. A educação do homem culto – o norte-rio-grandense Juvenal
Lamartine de Faria (1874 – 1956). Mneme - Revista de
Humanidades, p. 1-6.
12 CASCUDO, Luis da Câmara. O causeur. Juvenal Lamartine de

Faria (1874- 1956).


280 |

Este sertão seria narrado a partir de olhares e


recordações aos currais, às casas grandes, à indumentária, à
escola e à alimentação, ao trabalho, às festas e ao parentesco,
histórias de antepassados e vivências de um menino de
fazenda que assistiu a narrativas de cangaceiros, de
caçadores, de homens de honra e coragem, pois para
Juvenal Lamartine, “[...] a lembrança dos fatos era levada de
boca em boca nas conversas do copiar ou na pausa do
balanço das rêdes no alpendre. Raros livros chegavam ao
sertão e poucos liam aquelas páginas que sempre diziam
histórias de outras terras.”13
Outro autor destacado no trabalho é Oswaldo
Lamartine de Faria, filho de Juvenal Lamartine de Faria e de
Silvina Bezerra de Araújo. Nasceu no dia 15 de novembro
de 1919, na cidade de Natal (RN). Formou-se Técnico
Agrícola pela Escola Superior de Agricultura de Minas
Gerais, atuou como administrador da Fazenda Lagoa Nova
(Riachuelo, RN, de 1941 a 1948), da Fazenda Oratório
(Macaé, RJ), da Colônia Agrícola Nacional (Barra do Corda,
MA, 1951-2) e do Núcleo Colonial do Pium (RN, 1952-4).
Oswaldo atuou ainda como Técnico do Banco do Nordeste
(Natal, RN, 1955-79), professor da Escola Doméstica de
Natal e da Escola Técnica de Jundiaí (RN).
Oswaldo Lamartine de Faria publicou, na área de
Folclore, além de artigos em revistas especializadas e
jornais, Notas sobre a pescaria de açudes no Seridó (1950), ABC
da pescaria de açudes no Seridó (1961), Algumas abelhas dos
sertões do Seridó (1964), Vocabulário do criatório norte-rio-
grandense – em parceria com Guilherme Azevedo (1969) —,
Uns fesceninos (1970), Encouramento e arreios do vaqueiro no
Seridó (1978), Sertões do Seridó (1980) e Ferro de ribeiras do Rio
Grande do Norte (1984).

13FARIA, Juvenal Lamartine de. Velhos costumes do meu sertão,


p. 91.
281 |

Estes sujeitos ocupariam o lugar de erudito, marca-


dos pela ocupação de diferentes tipos de conhecimento e
diferentes funções.14 Assim, quando Manoel Dantas se
constituía enquanto jornalista, professor, advogado, escritor,
fotógrafo ele estava reforçando seu lugar de erudito,
caminhante por distintos saberes e ações; o mesmo acontecia
com José Augusto e Juvenal Lamartine que entrelaçavam as
atividades de político, professor, escritor, jornalista, advo-
gado. Não diferente de Oswaldo Lamartine, o qual ocupara
funções de funcionário público, agrônomo, historiador,
etnógrafo.
As obras de Manoel Dantas, José Augusto, Juvenal
Lamartine e Oswaldo Lamartine constituem-se em um
corpo escrito, uma nova vida para si, recriação a si mesmo,
dando ao seu eu poético uma voz que iria ecoar através da
historiografia; seja passando de um espaço estriado pelas
marcas pessoais, hereditárias, marcas de família, para um
espaço liso que perdia suas marcas, um espaço aonde o
anonimato vem (de)marcar um tecido que apresenta
estampas ordenadas e deixa sua função de estria, para em
conjunto constituir um espaço liso.
Como (inter)locutores do Seridó, delineavam um
lugar próprio para tal locução: o lugar do pertencimento. O
espaço do eu era o que lhes davam a autoridade em seus
escritos, em que narravam o Seridó. Narrar as lembranças,
falar das secas como problema, divulgar o homem do Seridó
como forte: esses eram enunciados que bordejavam o nome
dos autores e afirmavam para tais o estatuto de autoridade15
em termos de escrever, representar e dizer o Seridó.

14 ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. De Amadores a


desapaixonados: eruditos e intelectuais como distintas figuras de
sujeito do conhecimento no Ocidente contemporâneo. Trajetos –
Revista de História UFC, Fortaleza, v. 3, n. 6, p. 43-66, abr. 2005.
15 Cf. FOUCAULT, Michel. O que é um autor?
282 |

As configurações do Seridó no discurso historio-


gráfico compõem um corpo, é um corpo escrito16 que, como o
próprio corpo físico e humano daquele que escreve, delas se
apropriou e como um palimpsesto fez do seu corpo escrita e
de sua escrita seu corpo. Desta forma o corpo seria pena,
papel e tinta,17 por ele e com ele nossos autores sentiam e
escreviam o Seridó.
O espaço do eu imbricando-se com o Seridó produz
formas de relacionamentos e associações destes homens e
suas obras. Manoel Dantas, José Augusto, Juvenal Lamar-
tine e Oswaldo Lamartine constituem-se como Homem-Terra,
pois em seus escritos pensam o Seridó, apresentam-no
enquanto berço e lugar comum, como espaço de vivências e
de lutas, cartografado em seus desejos, espaço do eu que se
imbrica com a escrita de si e a escrita da história.
O Seridó era um denominador comum para Manoel
Dantas e seus escritos sobre sertão e sertanejo; para José
Augusto e seu Seridó; para Juvenal Lamartine e os Velhos
costumes do sertão e para Oswaldo Lamartine e seus Sertões do
Seridó. O Seridó era o mínimo múltiplo comum de sertão,
terra e homem: um espaço do eu.
Do espaço do eu nos voltamos para a análise da
configuração do Seridó como sertão – Sertão do Seridó.
Entendemos a construção do sertão como um espaço de
sentimentos múltiplos que é composto por marcas e formas
ambíguas, mas, que, por força de sua formação dentro dos
interesses políticos, econômicos e culturais, é lido de forma
universalizante, sendo congelado em formas discursivas
que denotam elementos de composição deste espaço,
enunciados como o gado, a seca e o algodão.
Quando destacamos que o discurso historiográfico
configura um Seridó com os estatutos de autoridades de

16 Cf. CERTEAU, Michel de. A Escrita da História.


17 Cf. GIL, José. Metamorfoses do Corpo..
283 |

homens que delimitam suas vozes a partir das vivências,


estamos por considerar que o sertão produzido é um
conjunto de atribuições de sentido, sendo estas várias, mas
que tem como cerne as faces de um sertão Seridó. É o sertão
que está para o Seridó assim como o Seridó está para espaço
de autoria dos autores aqui destacados. O sertão é metáfora
para o Seridó: é ele a cerca mais forte para este espaço que
não mais é só do gado, mas também do algodão e que vem
dar marcas para o homem que habita o lugar.
Como um problema para o Seridó, a seca é apresen-
tada no discurso historiográfico como temática que envolve
o espaço e os homens deste. Manoel Dantas no ensaio O
Problema das Secas discorre sobre estas e as apresenta
dizendo que “[...] periodicamente flagelam os Estados do
nordeste [e] constituem um dos problemas mais sérios que
devem, por igual, preocupar governos e povos, todos eles
sofrendo diretamente suas conseqüências.”18 Nas páginas de
sertão e do sertanejo escritas por Manoel Dantas, o Seridó é
produto da colonização pelo gado e é receita de um
conjunto de imagens da relação homem e natureza.
Do sertão de Manoel Dantas e da patente necessi-
dade de civilizar-se cotejamos outro sertão, o das vivências e
desejos de Juvenal Lamartine, que é tecido a partir da
memória, do viver e rememorar uma vida rural. É ele um
cultor dos Velhos Costumes do Sertão, cujas letras são grafadas
com as lembranças das conversas no copiar, das histórias
ouvidas em noites de lua cheia, das comidas e festas da
infância e primeira juventude.
A narrativa de Juvenal Lamartine é a voz do
sertanejo que, narrando os velhos costumes de seu sertão,
compõe lugares de uma memória engessada por identi-
ficações quanto ao ser cultural preso às histórias do gado, do
gentio, do senhor da fazenda, da devoção cristã, da terra

18 DANTAS, Manoel. Homens de Outrora, p. 111.


284 |

dura que produz homens fortes, do ser e estar num espaço


que se fecha em si mesmo, seja pela poética, pela memória
sempre recorrida ou pela produção de uma cartografia
sentimental dos desejos.
Como lugar vivido o Seridó, sertão, aparece na
narrativa de Oswaldo Lamartine19 que para justificar os
estudos sobre o Seridó apresenta o fator telúrico ao escrever
– É a força da terra – e prossegue dissertando acerca do sertão
Seridó, “[...] é mais que uma região fisiográfica. Além da
terra, das plantas, dos bichos e do bicho-nomem – tem o seu
viver, os seus cheiros, cores e ruídos [...].”20 Assim, Oswaldo
Lamartine destaca a relação social dele com o espaço e
particulariza o seu sertão que é o do Seridó. O autor ainda
destaca “Cada vivente tem o seu sertão [...]. Para mim o
sertão é a caatinga.”21
Em Seridó, José Augusto (1954) faz um recorte
espacial emergir a partir de explicações históricas, econô-
micas, políticas; seu Seridó é escrito e até prescrito na obra
em que ele significa o espaço e oferece-o à leitura, o escreve
para torná-lo vivo. O Seridó como o espaço do sertão, tórrido,
seco e duro não comportaria o avanço científico, não seria
palco de um futuro. Desta forma, sanar o flagelo das secas
era dar à terra e ao homem as possibilidades de nela e dela
viver, de ser parte da terra e dela extrair vida.
O Seridó é um desafio, é uma textura marcada por
estiagens e a enunciação mais recorrente ao longo da obra
Seridó é: ajuda para o homem vencer a natureza, burlar suas
barreiras e fazer da terra plantio de produção do algodão e
do homem de finas fibras.

19 Cf. FARIA, Oswaldo Lamartine de. In: CAMPOS, Natércia


(org.). Em Alpendres d’Acauã: Conversa com Oswaldo Lamartine
de Faria.
20 Idem, p. 10.
21 Idem, p. 13.
285 |

O sertão é um texto e o Seridó é a narrativa deste. Os


textos escritos por Manoel Dantas, José Augusto, Juvenal
Lamartine e Oswaldo Lamartine para o Seridó potiguar,
configuram o espaço com vestes de sertão, categoria usada
recorrentemente para nomear as terras que compõem o
espaço do Seridó.
O Seridó como espaço sertão se configura como uma
das possibilidades de visibilidade para as narrativas de
Manoel Dantas, José Augusto, Juvenal Lamartine e Oswaldo
Lamartine. Outra configuração produzida e passível de
análise acerca do Seridó é a de um espaço de luta em que
homem e natureza expressam-se como elementos narra-
tivos.
A partir dos espaços do eu e do sertão, destacamos a
relação entre homem e natureza a partir da historiografia
seridoense. Para pensarmos esta relação destacamos a
configuração de um espaço de luta, do embate travado do
homem para com o meio.
Para o estudo do Seridó como o espaço de luta,
ressaltamos uma leitura acerca do ambiente, sua paisagem e
natureza que configuram limites para o Seridó.22 Assim, a
face da história ambiental é referida para entendermos como
homem e natureza são subjetivados, significados pelos
autores estudados.
Um campo importante da história ambiental é o
estudo dos valores humanos atribuídos à natureza.23 Desta
forma, analisar o Seridó na interface do homem e da
natureza é atentar para a construção de seu espaço concreto,
destacando a sua natureza, percebendo como o homem e
suas ações deram limites físicos e sentimentais ao Seridó
potiguar.

22SCHAMA, Simon. Paisagem e memória.


23 DRUMMOND, José Augusto. A História ambiental: temas,
fontes e linhas de pesquisa. Estudos históricos, p. 177-197.
286 |

(D)escrever a flora com cores cinzentas, galhos secos


e retorcidos, é um ato de perceber o entorno, de atribuir
sentidos. Desta forma, o Seridó ao passo que tem (d)escrito
o seu espaço é configurado na fronteira entre o dizível e o
sensível.
O Seridó como espaço de luta do homem com a terra é
então um impasse presente nos escritos de Manoel Dantas,
José Augusto, Juvenal Lamartine e Oswaldo Lamartine.
Estes, voltando suas atenções para tal questão, estão escre-
vendo, refletindo sobre a vida e também sobre um tempo
passado, presente e futuro. A história do Seridó presente
nas narrativas desses autores é uma história da natureza e
da relação dos homens com a mesma.
Manoel Dantas, quando discute a vida sertaneja e o
problema das secas está pensando como o sertão está em
toda parte, em cada vivente, como um espaço marcado pela
prática da pecuária – devendo, para tanto, utilizar a técnica
para possibilitar o progresso.24 A natureza e suas leis e
segredos são, para este autor, os desafios do homem que,
apenas com trabalho e indústria, pode ser capaz de dominá-
la. Este domínio consistia em vencer desafios, em prover
resistência frente a fenômenos como a seca.
Ao escrever sobre as características econômicas do
Seridó, José Augusto historiciza os usos do espaço, pensan-
do este como um grande palimpsesto com marcas de uma
colonização pela pecuária e pela bravura dos vaqueiros, do
cultivo do algodão e dos acenos de progresso econômico.25 A
natureza corta sua narrativa, sendo uma constante que está
ditando formas de pensar e agir sobre o espaço como objeto
de análise. E o próprio viver no Seridó é estar em luta com o

24 Ver DANTAS, Manoel. A Vida Sertaneja. In: DANTAS, Edgard.


Projeto de recuperação da Memória e produção intelectual de
Manoel Dantas.
25 Ver AUGUSTO, José. A Região do Seridó.
287 |

espaço a seca, a aridez, a exigência de novos mecanismos


para amenizar a erosão da natureza frente o homem.
Na narrativa de Juvenal Lamartine, a natureza tem o
homem como o sujeito modelador ou aquele que a trans-
forma; sabia que a natureza não era fixa e que o homem era
um dos agentes construtores de novas naturezas. Sua
natureza é configurada a partir da noção de espaço transfor-
mado pelo homem. Ela seria envolvida pelo gesso da tradi-
ção, daí o autor evocar a necessidade de escrever sobre o
sertão de outrora para fixar um espaço vivido.
Oswaldo Lamartine coloca-se como o locutor do
sertão de nunca mais, de práticas como a caça, a pesca e a
conservação de alimentos. O homem é sempre um inter-
ventor junto à natureza e suas possibilidades. A natureza
dos sertões do Seridó é a da paisagem da caatinga.26 Nas
narrativas de seu sertão de nunca mais a caatinga é a paisa-
gem composta como cenário. Nela as práticas e costumes
como a caça, a pescaria e a criação de abelhas tomam corpo
e são envolvidas pela tradição oral. A natureza, na obra de
Oswaldo Lamartine apresenta-se como um cenário (d)escri-
to e cartografado em páginas sobre a fauna, a geografia e a
topografia.
O espaço de luta configurado por Oswaldo Lamartine
é um conjunto que contém e onde estão contidos elementos
da própria natureza. É o gado rasgando os sertões levando o
homem ao espaço liso, assim como é a caatinga como
homogeneidade no Seridó – este espaço produz os sertões do
Seridó, múltiplos em seus elementos, mas singulares no
sentimento de pertença.
Assim, a possibilidade de entender a escrita da
natureza a partir de Manoel Dantas, José Augusto, Juvenal
Lamartine e Oswaldo Lamartine constitui-se como a via
possível de uma escrita histórica para o Seridó. Narrativa

26 FARIA, Oswaldo Lamartine de. Sertões do Seridó.


288 |

em que uma história da natureza e uma história dos homens


são tecidas no mesmo movimento, em que configuram um
espaço de luta.
Manoel Dantas, José Augusto, Juvenal Lamartine e
Oswaldo Lamartine configuram o espaço com vestes de um
Seridó-sertão vivido e de outrora com configurações do eu,
do sertão e de luta. É um espaço em que a seca é destacada
como o principal problema e a tradição é o elo dos autores
com o Seridó potiguar, visto que, escreviam a partir de seus
lugares de famílias tronco e de homens que estavam asso-
ciados a questões políticas e econômicas do lugar.
No espaço do eu, o Seridó é configurado como parte
dos corpos e desejos dos autores que ao escreverem sobre o
espaço também estão fazendo a locução de si, colocando-se
enquanto naturais, filhos da terra, pois escrever sobre esta e
para esta terra seria produzir um estatuto de autoridade do
sujeito e de seu espaço.
O espaço sertão é produzido a partir da identificação
entre sertão e Seridó, enunciação reforçada por represen-
tações de um espaço caracterizado pela seca, pecuária e cul-
tivo do algodão, o que institucionalizou a nomeação de um
novo recorte espacial como ícone do sertão, onde os homens
e a terra configurariam o espaço do desafio, de uma luta.
O espaço de luta é produzido a partir das considerações
de Manoel Dantas sobre o problema das secas e a vida
sertaneja, das descrições e análises de José Augusto acerca
do espaço seridoense, das memórias de Juvenal Lamartine
sobre o viver nos sertões e dos escritos de Oswaldo Lamar-
tine sobre a caatinga e a poética de um sertão de nunca mais.
Seridó: espaço da escrita da história, de suas vozes e
suas configurações do eu, do sertão e de luta. Os espaços que
ficam são construções discursivas acerca do Seridó que foi,
pelas vozes de Manoel Dantas, de José Augusto, Juvenal
Lamartine e Oswaldo Lamartine (d)escrito, cartografado,
sentido e subjetivado.
289 |

FEIÇÕES DA DINÂMICA
MULTITERRITORIAL NO SERIDÓ/RN1
Bruno Gomes de Araújo2

Geometrias do poder e multiterritorialidade

Em um espaço cada vez mais dinâmico, interde-


pendente e diversificado como o que se vive atualmente,
pensar o Seridó como um território absolutamente imóvel,
fechado e estável quanto às suas fronteiras é limitá-lo a uma
leitura geográfica tradicional e reacionária, excluindo-o, com
isso, pelo menos de forma insuficiente, de uma tendência
global, que de uma forma ou de outra atinge a tudo e a
todos.
Todavia, para encontrar o Seridó no mar das
interconexões globais é necessária a realização da análise
que se pretende fazer, reconhecer os mecanismos que o
conecta a outros territórios. Primeiramente, reduzindo a
escala das redes existentes no território, para proporções
locais e, ao mesmo tempo, identificando-as no gigantesco
escopo das interações globais, nunca perdendo o foco, ou
seja, o objeto de pesquisa.

1 Esse texto integra a dissertação Dinâmica territorial da Assembléia

de Deus no Seridó/RN, defendida em 2010 no Programa de Pós-


Graduação e Pesquisa em Geografia da Universidade Federal do
Rio Grande do Norte, sob orientação do Prof. Dr. Anelino
Francisco da Silva.
2 Licenciado em Geografia pela Universidade Federal do Rio

Grande do Norte – UFRN e Mestre em Geografia pela mesma


instituição.
290 |

Desse modo, consciente dessa difícil tarefa é im-


prescindível optar por uma observação teórico-metodo-
lógica que não fuja do problema da redução/ampliação de
escalas, e que aponte caminhos para entender a multipli-
cidade de formas, tamanhos e direções dessas escalas.
Encaminha-se aqui então, essa complexa tarefa de localizar
o território seridoense no emaranhado conjunto de
interconexões entre territórios pela ótica das “geometrias do
poder”.
O conceito de geometrias do poder tem a sua origem
e fundamentação nas críticas que Doreen Massey fez aos
estudos de David Harvey acerca da compressão espaço-
tempo. Assim, ao se apropriar dessa definição para estudar
os processos dinâmicos e globais de interconexão dos
espaços, Massey considerou que:

Esse ponto concerne não simplesmente à questão de


quem se desloca e quem não se desloca, embora este
seja um de seus elementos importantes; diz respeito
também ao poder em relação aos fluxos e ao
movimento. Diferentes grupos sociais têm distintas
relações com essa mobilidade igualmente diferen-
ciada: alguns são mais implicados do que outros;
alguns iniciam fluxos e movimentos, outros não;
alguns estão na extremidade receptora do que outros;
alguns estão efetivamente aprisionados por ela” 3.

Nessa perspectiva, a compressão tempo-espaço a


compressão espaço-tempo não considera a diferenciação
que se dá entre a espacialidade “em si mesma” (próximo-
presente/distante-presente) e a territorialidade (diferencia-
ção/exclusão e inclusão), passando despercebida das

3 MASSEY citado por HAESBAERT, Rogério. O mito da


desterritorialização; do fim dos territórios à multiterritorialidade,
p. 166.
291 |

relações de poder que se distribuem de forma desigual na


interligação dos territórios.
Dessa forma, as geometrias do poder são caminhos
que possibilitam mostrar as formas, escalas e graus de “uma
sociedade complexa altamente desigual e diferenciada”4.
Percebe-se então que, influir a discussão sobre
território seridoense pelas geometrias do poder é reconhecer
que dentro da conjuntura dos territórios hegemônicos
(territórios-rede) – em que imperam as conexões, os fluxos, a
mobilidade – há aqueles (territórios-zona) que interagem
pelas “redes” com outros territórios do poder político(s),
econômico(s) e, especialmente, cultural(is), de formas e
intensidades variáveis. Portanto, é possível apreender que
as geometrias do poder são o encaminhamento central para
situar o território seridoense entre as diversas escalas e
modalidades da multiterritorialidade contemporânea.
A multiterritorialidade é condicionada pelas Possi-
bilidades que um território apresenta para vivenciar, conco-
mitantemente “múltiplos territórios” e “territórios múlti-
plos” em diferentes amplitudes. Essa assertiva res-guarda,
então, qualquer tentativa de tornar, nesta análise, o terri-
tório seridoense um “território múltiplo” (território-rede),
ou seja, composto por vários multiterritórios. Visto que, ao
contrário, ele é um dos “múltiplos territórios” (território-
zona) pertencente a outras geometrias de poder, mais am-
plas e difusas.
Dessa forma, perceber o Seridó como território-zona
é percebê-lo numa nova abordagem conceitual, a qual
ultrapassa a “[...] concepção zonal ou real de território,
superfície relativamente homogênea e praticamente sem
movimento [...] só se definiria como tal pela predominância

4HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização; do fim


dos territórios à multiterritorialidade, p. 169.
292 |

das dinâmicas “zonais” sobre as “reticulares”5, mas não pela


sua dissociação”6.
Em outras palavras, segundo Haesbaert, são duas as
perspectivas de análise da multiterritorialidade, “[...] aquela
que diz respeito à multiterritorialidade “moderna”, zonal ou
de territórios de redes, embrionária, e a que se refere à mul-
titerritorialidade “pós-moderna”, reticular ou de territórios-
rede propriamente ditos, ou seja, a multiterritorialidade em
sentido estrito7”.
Assim, a multiterritorialidade envolve uma imbri-
cação dinâmica de territórios-rede e territórios-zona. Apre-
ende-se, contudo, que ambos não fogem ao domínio das
articulações em rede. No entanto, há uma distinção básica
em termos de funcionalidade:

[...] territórios-zona, mais tradicionais, forjados no


domínio da lógica zonal, com áreas limites (“fron-
teiras”) relativamente bem demarcados e com grupos
mais “enraizados”, onde a organização em rede
adquire um papel secundário, os territórios, confi-
gurados, sobretudo, na topologia ou lógica das redes,
ou seja, são espacialmente descontínuos, dinâmicos
(com diversos graus de mobilidade) e mais susceptí-
veis a sobreposições; e aquilo que denominamos de
“aglomerados8”.

5 As dinâmicas reticulares caracterizam os territórios em que há


maior fluidez e mobilidade dos processos socioeconômicos e
culturais, comumente associadas por Haesbaert (2007) à multi-
territorialidade dos territórios-rede.
6 HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização; do fim

dos territórios à multiterritorialidade, p. 286.


7 Idem, p. 348.
8 Idem, p. 306.
293 |

Assim sendo, o Seridó é caracterizado como um


território-zona, por ainda prevalecer uma territorialização
tradicional “numa lógica (relativa) de exclusividade, que
não admite sobreposições de jurisdições e defende maior
homogeneidade interna [...]9”.
Ao identificar o Seridó como um território-zona, faz-
se referência, especialmente à “posição do território” dentro
de outras geometrias de poder, e de suas articulações com
outros territórios. O que Rogério Haesbaert reportou como
“organização espaço-territorial” da multiterritorialidade10.
No entanto, se forem consideradas as novas possi-
bilidades de conexões também presentes no território
seridoense, como as efetivadas pelo crescimento do acesso a
outros territórios pelas redes informacionais, será viável a
percepção de uma realidade efetivamente nova no Seridó.
Com isso, é possível encontrar a “lógica zonal” do
território seridoense, interpelada pela “lógica reticular” dos
territórios-rede em diferentes pontos nas cidades, como, por
exemplo, nos locais de acessos a rede virtual como lan-
houses, domicílios ou em estabelecimentos comerciais, tam-
bém com intensidades variadas e possíveis de serem aferi-
das pelas trilhas das geometrias do poder. Uma vez que,
mesmo sendo um território-zona, as vias de acesso pela rede
mundial de computadores inserem o território seridoense
(discretamente) nos processos multiterritoriais contempo-
râneos, pois:

[...] se de forma mais coerente, quisermos enfatizá-la


enquanto ação ou processo implica assim a possi-
bilidade de acessar ou conectar diversos territórios, o
que pode se dar através de um “mobilidade
concreta”, no sentido de um deslocamento físico,

9 Idem, p. 342.
10 Idem.
294 |

quanto “virtual”, no sentido de acionar diferentes


territorialidades mesmo sem deslocamento físico,
como nas novas experiências espaço-temporais
proporcionadas através do ciberespaço 11.

Portanto, se o território seridoense não está envol-


vido diretamente na dinâmica da multiterritoridade contem-
porânea12, como “experiência total” em sua condição de
território-zona, ele encontra-se de outra forma, no sentido
de uma “experiência estrita” ou pós-moderna através das
redes informacionais. A multiterritorialidade não é expe-
riênciada no território seridoense no “contato imediato” ou
“real” com múltiplos territórios, mas pode ser acionada
pelas redes informacionais.
A acessibilidade aos meios informacionais ou
virtuais constitui-se para Haesbaert, um elemento primor-
dial da nova multiterritorialidade – que dependendo da
classe social ou grupo – pode levar o sujeito a usufruir de
forma plena dessa nova multiterritorialidade, fazendo ele
“[...] a todo tempo [...] recombinar (e “descombinar”)
territórios [...]”13.
Deste modo, a multiterritorialidade contemporânea
no território seridoense, mesmo em sua lógica propriamente

11 Idem, p. 343.
12 Para Rogério Haesbaert existem duas formas de conceber a
multiterritorialidade no tempo e no espaço: uma mais tradicional
em sentido geral “resultante da sobreposição de territórios,
hierarquicamente articulados, “encaixados” e outra contem-
porânea (pós-moderna), efetivamente mais dinâmica e interativa,
na qual os territórios sobrepostos possuem maior fluidez e
conectividade com outros territórios, pelas vias da mobilidade
física e/ou informacional (HAESBAERT, Rogério. O mito da
desterritorialização; do fim dos territórios à multiterritorialidade).
13 HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização; do fim

dos territórios à multiterritorialidade, p. 348.


295 |

zonal, parte das relações virtuais. De acordo com Haesbaert


isso se deve a nova integração do território, possível graças
às novas redes (virtuais) dispostas nele. Assim, percebe-se
que a experiência multiterritorial no Seridó está ligada não a
uma dimensão quantitativa, mas qualitativa, ou seja, na “[...]
possibilidade de combinar de uma forma inédita a
intervenção e, de certa forma, a vivência, concomitante, de
uma enorme gama de diferentes territórios”14. Para o refe-
rido autor essa é a condição pós-moderna da multiterrito-
rialidade, evidenciada pelo contato com outros territórios
múltiplos, sem necessidade de deslocamento físico, intima-
mente ligado aos fenômenos da compressão e do desencaixe
espaço-temporal15.
Diante do exposto, depreende-se, também, que essa
nova multiterritorialidade, possível de ser vivenciada no
território-zona seridoense por meio das redes virtuais, ainda
é privilégio de poucos, porquanto ela envolve a relação
entre as geometrias do poder local, passíveis de serem
identificadas pelas condições socioeconômicas de cada
indivíduo. Com isso, o discurso da inclusão e exclusão
ganha sentido nessa análise, visto que se trata de diferentes
sujeitos e suas condições de acessibilidade a esses recursos
territoriais.
Nessa ordem de idéias, percebe-se, de forma bas-
tante enfática, que a multiterritorialidade processada no
Seridó está reduzida ao nível da individualidade. Já que a

14 HAESBAERT, Rogério. Da Desterritorialização à Multiterri-


torialidade. Boletim Gaúcho de Geografia, p. 13.
15 A revolução técnico-científico-informacional tem otimizado a

velocidade das informações, pessoas e capital no globo por meio


das redes, gerando o fenômeno do “espaço” sendo aniquilado
pelo “tempo”, o qual foi lido por David Harvey como um
encurtamento (compressão) das distâncias no sentido global-local.
Já para Anthony Giddens essa velocidade permite um desloca-
mento (desencaixe) dos espaços no tempo em sentido local-global.
296 |

articulação em territórios-rede não é uma prerrogativa do


território “em si”, e sim do sujeito seridoense, que segundo
o seu poder de acessibilidade poderá ou não articular-se aos
outros territórios múltiplos e construir o seu “próprio
(multi)território pessoal” por intermédio da rede mundial
de computadores a internet. Sobre esta questão Haesbaert,
ressalta que “[...] é muito importante distinguir entre mul-
titerritorialidade potencial (disponível, realizável) e multi-
territorialidade efetiva (realizada de fato)16”.
As feições da multiterritorilidade no Seridó já são
possíveis de serem apontadas, pelo menos em seus aportes
técnicos identificados nas tecnologias de acesso a internet
como Wi-fi e Dial-up, e nas suas feições mais simbólicas
como é o caso das festas de Moto17 Clubes. Ou seja, as suas
implicações na cultura regional ainda permanecem escon-
didas nas variantes identitárias dos sujeitos seridoenses
Em outras palavras, a influência multiterritorial
convive hoje nas entrelinhas de uma identidade seridoense
hegemônica18 que segundo Morais “resiste” sobre as bases
de matrizes simbólicas, pressionadas a se recomporem
constantemente pelo movimento incessante das novas arti-
culações do território19.
Este contexto vem se desenhando, devido às novas
formas de conexão do território seridoense, que hoje possi-

16 HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização; do fim


dos territórios à multiterritorialidade, p. 350.
17 Cartaz do Cactus Moto Fest em Currais Novos: exemplo de

hibridismo cultural no Seridó Fonte:


http://www.revistamotoclubes.com.br Acesso em 09 de Junho de
2010.
18 Aqui fazemos referência à identidade regional do sujeito

enquanto pertencente à região do Seridó.


19 MORAIS, Ione Rodrigues Diniz. Seridó norte-rio-grandense:

uma geografia da resistência.


297 |

bilita um movimento mais dinâmico de fluxos e informações


no tecido social seridoense.

Novas possibilidades de articulação do território seridoen-


se: dinâmica zonal e multiterritorial do Seridó

No território seridoense as atividades ligadas ao


setor terciário tiveram as suas estruturas operacionais ade-
quadas, vagarosamente, aos feixes de inovação resultantes
da própria complexificação dos processos de organização
econômica e técnica dos serviços.
Assim sendo, o incremento de tecnologias da infor-
mação responsáveis pela otimização das articulações inter-
nas e externas do território adveio com a própria neces-
sidade de modernização de algumas atividades do setor
terciário, sobretudo naquelas com maior movimento de
capital, dependentes de uma maior especialização em suas
transações comerciais, como, por exemplo, os serviços
técnico-profissionais20 ou os serviços de apoio à produção e
a atividade profissional.
Conforme registrou Morais, o crescimento no
campo das telecomunicações já se fazia sentir em Caicó no
final da década 1990, com os seguintes acontecimentos: a
considerável expansão dos serviços especializados na insta-
lação de sistemas de telefonia celular e telefonia pública; os
sinais de recepção de canais livres multiplicados através de
receptores coletivos e antenas parabólicas; a ampliação da

20 Encontram-se nessa tipologia de serviços: as agências bancárias,


as agências de publicidade, as auditorias e as consultorias
empresariais, as cooperativas médico-odontológicas, as serigra-
fias, as gráficas, as oficinas, as transportadoras, as assistências
técnicas, as construtoras, entre outros (MORAIS, Ione Rodrigues
Diniz. Desvendando a cidade: Caicó em sua dinâmica espacial,
p.200).
298 |

frequência radiofônica resumida da AM para as sintonias


FM, emitidas em toda área urbana e rural; o aprimoramento
dos serviços da unidade da Empresa Brasileira de Correios e
Telégrafos (EBCT), seguindo o processo de modernização
ocorrido em toda a estrutura da empresa no Brasil21.
No entanto, os maiores avanços ocorridos no Seridó
aconteceram nos centros regionais como Caicó e Currais
Novos. Todavia, a assistência a outros municípios propor-
cionou, de certa forma, um movimento centrífugo desses
serviços especializados. Percebe-se, com isso, que os inves-
timentos efetuados pelo setor privado foram importantes
para a entrada de novas tecnologias hoje dispostas no
território seridoense.
A cidade de Currais Novos esteve igualmente na
vanguarda desse processo de aquisição de modernas tecno-
logias da comunicação no Seridó. A primeira frequência AM
foi disponibilizada em 1959, havendo uma ampliação do
setor no decorrer das décadas de 1980 e 1990, com a
implantação das sintonias FMs. A primeira rede telefônica
foi instalada em 1963, engendrando uma melhoria nas
atividades comerciais da cidade e a sua conexão com outros
pólos comerciais do estado. A agência dos Correios e Telé-
grafos, inaugurada desde 1888, possui hoje um moderno
aparato de serviços de correspondências, o que, ao lado das
transportadoras, responde pela dinamização do fluxo de
mercadorias compradas em vários centros comerciais do
país.
Além disso, a empresa curraisnovense Sidys TV a
Cabo, em 1987, definitivamente deu um salto no ramo das
novas tecnologias da informação, trazendo à população a
oportunidade de ter em suas residências – por meio de
assinatura mensal – uma variedade de canais nacionais e

21MORAIS, Ione Rodrigues Diniz. Desvendando a cidade: Caicó


em sua dinâmica espacial.
299 |

internacionais, além de disponibilizar na grade de sua


programação televisiva, três canais locais, que privilegiam
as informações da esfera social, legislativa e religiosa do
município, respectivamente, com os seguintes canais: Canal
4; TV Comunitária (2003); TV Câmara (2004); TV Cristo Rei
(2003)22.
Dessa forma, com uma transmissão televisual volta-
da para conteúdos regionais, a Sidys TV a Cabo vem se
tornando uma forte ferramenta de divulgação do saber
fazer23 seridoense, favorecendo tanto à articulação do co-
mércio local quanto a promoção dos aspectos culturais e
identitários do Seridó.
Todavia, apesar de todo o avanço tecnológico que
vem ocorrendo no Seridó, é importante ressaltar o outro
lado, que é o fato dele ocorrer de maneira desigual no
território, tendo alguns dos serviços mencionados dispostos
exclusivamente nos pólos de Currais Novos e Caicó,
enquanto que nas demais cidades seridoenses o espraia-
mento das tecnologias da informação se manifesta de forma
heterogênea e bastante variável.
Assim, com a chegada das redes informacionais a
lógica zonal do território seridoense passou a coexistir –
numa escala ainda pequena – com a nova flexibilidade das
redes informacionais. A internet chegou ao Seridó no início
da década 1990 pelos cabos da rede telefônica, adminis-

22 SOUZA, Joabel R. Totoró, berço de Currais Novos. Natal:


Editora Universitária/UFRN, 2008.
23 No cenário da resistência cultural Ione Morais ressalta a

identidade do seridoense residente nos produtos da terra como o


queijo de coalho, a manteiga da terra e os bordados, diferenciados
qualitativamente pela marca do “saber fazer”, que mescla arte,
tradição e inovação, evidenciando que a carga histórica não foi
consumida pelo tempo e nem pelas adversidades” (MORAIS, Ione
Rodrigues Diniz. Seridó norte-rio-grandense: uma geografia da
resistência, p.315).
300 |

trados na época pela antiga estatal a Companhia Telefônica


do Rio Grande do Norte (TELERN). Uma das primeiras
instituições do Seridó a utilizar a novíssima tecnologia de
transferência virtual de dados, denominada de internet,
foram às agências do Banco do Brasil com a finalidade de
agilizar e melhorar a prestação de serviço aos seus clientes.
A liberalização para comercialização da internet no
Brasil por meio de provedores se deu graças à portaria
criada em 1995 pelo Ministério das Comunicações e da
Ciência e Tecnologia. A partir daí a escapabilidade das redes
se intensificou e a internet começou a se popularizar nas
principais regiões metropolitanas do país, estendendo-se às
regiões interioranas.
Com isso, em meados da década de 2000, come-
çaram a surgir no Seridó as primeiras empresas que
comercializavam assinaturas de acesso doméstico à internet
como, por exemplo, a Star Conect em Currais Novos e a Oi
Velox em Caicó, interligadas por redes menores às
Backbones24 (Espinha Dorsal), redes de alta capacidade das
gigantes Telemar (Oi) e Embratel, como pode-se observar na
figura apresentada:

24 Esquema de ligações centrais de um sistema mais amplo,


tipicamente de elevado desempenho. As redes que formam a
internet são interligadas por outras redes de alta capacidade,
chamadas Backbones, que são poderosos computadores conectados
por linhas de grande largura de banda, como canais de fibra
óptica, elos de satélite e elos de transmissão por rádio (UMA breve
introdução ao uso dos recursos disponíveis na rede. Disponível
em: <www.assis.unesp.br/egalhard/imagens2/rnp07a.jpg>.
Acesso em: 09 jun. 2010).
301 |

Figura 19
Principais Backbones do Brasil Redes de Alta Capacidade

Fonte: REDE. Disponível em:


<www.arede.inf.br/inclusao/images/capa_mapa.jpg>.
Acesso em: 09 jun. 2010

O contato com o ciberespaço no Seridó tornou-se


possível à maioria das pessoas graças aos serviços ofere-
cidos por provedores e operadoras telefônicas. O tipo de
velocidade de acesso à internet oferecido por provedores no
território seridoense está dividido em suas categorias: Dial-
up (linha discada), que requer a utilização de linhas tele-
fônicas com a velocidade mínima de 56kbps e a “banda
larga”, que oferece velocidades variadas entre 128kbps e
512kbps, por meio de redes cabiadas ou redes locais sem-fio
Wireless Fidelity (Wi-Fi), que significa fidelidade sem-fio e
que utiliza tecnologias que distribuem um sinal de internet
302 |

de uma linha central às antenas de rádio instaladas na casa


dos usuários. A tabela, a seguir exposta, apresenta as
principais empresas do setor de serviços de internet do
Seridó:

Tabela 03
Principais provedores de internet do Seridó

Provedores Cidades
Itans Provedor Caicó
Veloz Net Caicó, Currais Novos
Zero Info Caicó
Oi Velox Caicó, Currais Novos, Jardim
do Seridó, Jucurutu, Parelhas
Seridó Net Caicó, Currais Novos
Speed Net Caicó
MK Vex Parelhas
Sidys TV a Cabo Currais Novos
Star Conect Currais Novos

Fonte: Entrevista realizada junto às empresas Star Conect e Ativa


Comunicações em junho (2010).

A tecnologia Wireless (sem fio), já presente no


território seridoense, permite que os provedores ofereçam
internet a uma área geográfica mais abrangente, sem a
necessidade de fios ou cabos, por meio da radiofrequência
de antenas utilizadas para amplificar o sinal de rádio
emitido pelos dispositivos sem-fio instalados nas empresas
provedoras. A invisibilidade da rede permite também o
fluxo invisível e instantâneo de informações a distâncias
quilométricas, sendo verídico dizer que há também no
Seridó a aniquilação do espaço pelo tempo. Assim sendo,
termos como Bluetooth e Wi-Fi, que aludem à transmissão de
informação à curtas e longas distâncias sem o uso de fios,
303 |

respectivamente, se tornam cada vez mais populares no


cotidiano de jovens e adultos no Seridó.
Tal como afirmou Haesbaert: “dentro dessas arti-
culações espaciais em rede surgem territórios-rede flexíveis
onde o que importa é ter o acesso, ou aos meios que
possibilitem a maior mobilidade física dentro da(s) redes(s),
ou aos pontos de conexão que permitam ‘jogar’ com as
múltiplas modalidades de territórios existentes criando a
partir daí uma nova multiterritorialidade”25.

Figura 20
Lógica da aniquilação do espaço pelo
tempo no território seridoense

Fonte: Elaboração do autor (2010)

Todavia, ainda que exaustivo, é importante enfa-


tizar que, mesmo em sua crescente popularidade as novas
tecnologias da informação encontram-se limitadas ao poder
de aquisição dos sujeitos, portanto, restringem-se a um
grupo seleto.
Da interconexão dos territórios pelas vias informa-
cionais ou virtuais emerge a condição pós-moderna da

25 HAESBAERT, Rogério. Da Desterritorialização à Multi-


territorialidade. Boletim Gaúcho de Geografia, p. 14.
304 |

multiterritorialidade, evidenciada em um novo território-


rede em sentido estrito ou rede-território no qual a “[...]
perspectiva euclidiana de um espaço contínuo praticamente
sucumbe à descontinuidade, à fragmentação e à simulta-
neidade de territórios que não podemos mais distinguir
claramente onde ‘irão eclodir’, pois formações rizomáticas
também são possíveis”26.
O alargamento da vida das relações sociais é também
uma novidade para o seridoense, visto que as conexões em
redes permitem o contato com pessoas em diferentes cida-
des da região, mesmo quando estas estão geograficamente
limitadas.
Desse modo, além de “poder” vivenciar a nova mul-
titerritorialidade pela conexão com vários territórios, me-
diante a velocidade e interatividade das redes, os seridoen-
ses podem, também, observar o movimento do território-
zona pelas linhas informacionais.
Como resultado das novas possibilidades de articu-
lação pelas conexões em rede, foi possível a hospe-dagem
da imagem do território seridoense no ambiente virtual dos
ciberespaços. Hodiernamente a “marca” Seridó trafega
pelos vários pontos de conexão no mundo por meio de
domínios de sites que hospedam conteúdos relacionados a
política, sociedade e cultura seridoense. Ao mesmo tempo
entra no território, pelas redes, uma carga ainda maior de
informações de vários outros terrtórios-zona e territórios-
rede (ver Figura 4).
Embora o território seridoense apresente, nos dias de
hoje, maior fluidez e articulações mais dinâmicas e rizo-
máticas, a identidade territorial de seus habitantes tem sido
(re)valorizada nos ciberespaços, ante a tendência de acultu-
ração provocada pelas redes virtuais. A lógica zonal do

26HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização; do fim


dos territórios à multiterritorialidade, p. 348.
305 |

terriório seridoense manifesta-se também nos espaços vir-


tuais, na importância dada aos elementos culturais da região
em sites que divulgam ao mundo as tradições do Seridó.
Todavia, as (re)definiões culturais do sujeito seri-
doense – ou as suas (re)territorilizações – como diria
Rogério Haesbaert, a partir do contato com essa nova multi-
territorialidade disponível no Seridó, não serão aferidas na
presente análise. Porém, é notório o reconhecimento de que
a dinâmica multiterritorial perpassada no território, via
internet, tem gerado uma busca pela (re)essencialização da
identidade territorial, identificável na valorização dos pro-
dutos regionais vendidos no site turístico Roteiro Seridó27,
que descortina as peculiaridades do Seridó como suas atra-
tivas paisagens naturais e culturais.

Considerações finais

A multiterritorialidade é um fenômeno dinâmico


que atinge o território seridoense pelas vias informacionais,
não como uma “experiência total” que abarca a região como
no contato imediato com territórios múltiplos e nas regiões
metropolitanas, mas, de forma restrita e no campo da indivi-
dualidade. É possível identificar a dinâmica multiterritorial
no Seridó no entrecruzamento da dinâmica zonal com a
reticular em locais em que há acesso às conexões de internet,
onde pessoas podem utilizar a rede para ligar-se a outros
territórios.
Entretanto, mesmo havendo um aparato técnico
capaz de proporcionar a multiterritorialidade (pós-moder-
na) via internet, a inexistência de estudos voltados para uma
verificação mais rigorosa desse fenômeno territorial, não
possibilita que se fale de uma multiterritorialidade “efetiva”

ROTEIRO Seridó. Disponível em:


27

<http://www.roteiroserido.com.br>. Acesso em: 09 jun. 2010.


306 |

realizada pelo sujeito seridoense, mas sim de uma dinâmica


multiterritorial “disponível” apenas para o campo indi-
vidual dos sujeitos seridoenses. O impacto dessas novas
articulações no território convida os geógrafos a ampliar a
análise contemporânea entre cultura e espaço/território.
Assim, a importância da multiterritoridade nos estudos
culturais do Seridó reside no fato de que o território não é
absolutamente homogêneo e genuíno, com relação ao
conteúdo cultural hoje vivenciado. O território encontra-se
às portas de uma nova era, participando, mesmo que seja de
forma reconhecidamente menos intensa, dos novos pro-
cessos de identificação territorial.
307 |

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SOBRE OS AUTORES
HELDER ALEXANDRE MEDEIROS DE MACEDO é licenciado
e bacharel em História (2002), especialista em Patrimônio
Histórico-Cultural e Turismo (2005) e mestre em História (2007)
pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Atualmente é
doutorando em História pela Universidade Federal de
Pernambuco e bolsista CAPES, sob orientação da Profª Drª. Tanya
Maria Pires Brandão. Organizou o livro Ritmos, sons, gostos e tons
do Patrimônio Imaterial de Carnaúba dos Dantas (2005) e publicou os
livros Patrimônio arqueológico em Carnaúba dos Dantas: pesquisas
realizadas entre 1924 e 2005 (2009), Carnaúba dos Dantas: raízes,
fragmentos e história (2010) e Diário do Impronunciável (2010).

MARCOS ANTÔNIO ALVES DE ARAÚJO é geógrafo (2006) e


mestre em Geografia (2008) pela Universidade Federal do Rio
Grande do Norte. Foi professor substituto (Campus Ipanguaçú) e
hoje é efetivo do Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia do Rio Grande do Norte (Campus Macau), onde
ministra aulas de Geografia e de Educação Ambiental. Coordena o
curso de Especialização em Educação Ambiental e Geografia do
Semiárido nessa mesma instituição.

ROSENILSON DA SILVA SANTOS é bacharel e licenciado em


História (2008) e mestrando em História pela Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, sendo bolsista CAPES, sob
orientação do Prof. Dr. Durval Muniz de Albuquerque Júnior. Foi
Bolsista do Programa Santander Universidades, com intercâmbio
na Universidade de Évora, Portugal, no ano de 2008.

MICHELE SOARES LOPES é bacharela e licenciada em História


(2008) e mestranda em História pela Universidade Federal do Rio
Grande do Norte, sendo bolsista CAPES, sob orientação do Prof.
Dr. Muirakytan Kennedy de Macêdo.

JOELMA TITO DA SILVA é bacharela e licenciada em História


(2006) pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Mestra
(2009) e doutoranda em História Social pela Universidade Federal
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do Ceará, sendo bolsista CAPES, sob orientação do Prof. Dr.


Francisco Régis Lopes.

JUCIENE BATISTA FÉLIX ANDRADE é graduada em História


(2002) pela Universidade Federal de Campina Grande.
Especialista em Patrimônio Histórico-Cultural e Turismo (2005) e
mestra em História (2007) pela Universidade Federal do Rio
Grande do Norte. Atualmente é doutoranda em História e bolsista
CAPES pela Universidade Federal de Pernambuco, sob orientação
do Prof. Dr. Antônio Paulo Rezende.

GÊNISON COSTA DE MEDEIROS é licenciado em Geografia


(2007) e mestre em Geografia pela Universidade Federal do Rio
Grande do Norte (2010). Atualmente é doutorando em Ciências
Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sob
orientação da Profª. Drª. Ana Laudelina Ferreira Gomes.

JOSIMAR ARAÚJO DE MEDEIROS é licenciado em Geografia


(1993), especialista em Desenvolvimento Sustentável (1997) e
mestre em Engenharia Sanitária (2004) pela Universidade Federal
do Rio Grande do Norte. Publicou os livros Barragens subterrâneas:
base de sustentação do homem rural seridoense (2006) e Convivendo com
a seca & combatendo a desertificação: novos olhares (2008).

MARIA JOSÉ COSTA FERNANDES é licenciada em Geografia


(2001) e mestra em Geografia (2005) pela Universidade Federal do
Rio Grande do Norte. Atualmente é professora da Universidade
do Estado do Rio Grande do Norte – FAFIC, Mossoró.

ZARA DE MEDEIROS LINS é licenciada em Geografia (2007) e


mestra em Geografia (2011) pela Universidade Federal do Rio
Grande do Norte, sendo bolsista CAPES, sob orientação do Prof.
Dr. Aldo Aloísio Dantas da Silva.

JUCICLÉA MEDEIROS DE AZEVEDO é licenciada em


Geografia (2007) e mestra em Geografia (2011) pela Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, sendo bolsista CNPq, sob
orientação do Prof. Dr. Francisco Fransualdo de Azevêdo.
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ALCINEIA RODRIGUES DOS SANTOS é licenciada e bacharela


em História (2003) e mestra em Ciências Sociais (2005) pela
Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Atualmente é
doutoranda em História pela Universidade Federal de Goiás, sob
orientação da Profª. Drª. Maria Elizia Borges.

HUGO ROMERO CÂNDIDO DA SILVA é bacharel e licenciado


em História (2007) pela Universidade Federal do Rio Grande do
Norte.

MARIA AUXILIADORA OLIVEIRA DA SILVA é bacharela e


licenciada em História (2001) e mestra em Ciências Sociais (2007)
pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Atualmente é
professora substituta da Universidade Federal do Rio Grande do
Norte, Campus de Caicó.

EDIVALMA CRISTINA DA SILVA é bacharela e licenciada em


História (2005) e mestra em Ciências Sociais (2009) pela
Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

OLÍVIA MORAIS DE MEDEIROS NETA é bacharela e


licenciada em História (2004), mestra em História (2007) e
doutoranda em Educação pela Universidade Federal do Rio
Grande do Norte, sendo bolsista do CNPQ, sob orientação da
Profª. Drª. Marta Maria de Araújo. É professora do Instituto
Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do
Norte, Campus Pau dos Ferros.

BRUNO GOMES DE ARAÚJO é licenciado em Geografia (2008)


e mestre em Geografia (2010) pela Universidade Federal do Rio
Grande do Norte. Atualmente é Bolsista de Desenvolvimento
Tecnológico Industrial – DTI 3 pelo CNPq, em projeto vinculado à
Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
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