Você está na página 1de 7

See discussions, stats, and author profiles for this publication at: https://www.researchgate.

net/publication/324209151

O ENSAIO TRIAXIAL NO LABORATÓRIO DE GEOTECNIA DA UNIVERSIDADE DE


AVEIRO

Conference Paper · April 2018

CITATIONS READS

0 57

4 authors, including:

Helder Maranhao
Westinghouse Electric Belgium
2 PUBLICATIONS   0 CITATIONS   

SEE PROFILE

All content following this page was uploaded by Helder Maranhao on 04 April 2018.

The user has requested enhancement of the downloaded file.


4º Congresso Luso-Moçambicano de Engenharia // 1º Congresso de Engenharia de Moçambique

Art_5.18

O ENSAIO TRIAXIAL NO LABORATÓRIO DE GEOTECNIA


DA UNIVERSIDADE DE AVEIRO

Fernando Bonito1*, Claudino Cardoso2, Helder Maranhão3 e Francisco Guerra3


SAECiviL da Universidade de Aveiro
Aveiro, Portugal
*Email: bonito@civil.ua.pt

RESUMO

Os ensaios geotécnicos laboratoriais são uma ferramenta de significativa importância na


avaliação de parâmetros para o dimensionamento de obras de engenharia civil.
Neste artigo é feita a apresentação e descrito o modo de funcionamento do equipamento para
a realização de ensaios triaxiais sobre amostras de solos que, recentemente, foi instalado no
Laboratório de Geotecnia da Secção Autónoma de Engenharia Civil da Universidade de
Aveiro.
Numa vertente mais didáctica, os ensaios realizados servem para que os alunos dos cursos de
Engenharia Civil e de Engenharia Geológica tenham, na disciplina de Mecânica dos Solos,
contacto com os procedimentos normalizados e com as técnicas experimentais envolvidas na
determinação dos parâmetros utilizados no dimensionamento geotécnico.
O equipamento visa, igualmente, dar apoio a projectos finais de licenciatura e de
investigação em curso na Universidade de Aveiro bem como o acompanhamento de obras de
construção civil.

1. INTRODUÇÃO
Ao nível dos ensaios geotécnicos de laboratório, e no estado actual do conhecimento, os
ensaios triaxiais representam, com largo consenso, uma das ferramentas mais fiáveis na
avaliação dos parâmetros que caracterizam as propriedades de resistência e de
deformabilidade dos maciços terrosos. Os desenvolvimentos operados ao longo dos tempos na
forma original do ensaio têm sido de tal ordem que, na actualidade, é possível a realização de
ensaios triaxiais em simultâneo com outras técnicas de caracterização, como por exemplo, a
medição de velocidades de propagação de ondas sísmicas ao longo do provete ensaiado.
Avanços desta ordem, apenas se tornaram possíveis porque, por um lado, a comunidade
geotécnica tem sabido tirar partido (estando, outras vezes, no pioneirismo) do constante
aprimoramento das técnicas e dos instrumentos de medição, dos desenvolvimentos das
ciências da computação e porque, por outro lado, são cada vez mais exigentes os critérios de
dimensionamento geotécnico e, como tal, a necessidade da avaliação com elevado grau de
fiabilidade dos parâmetros disponibilizados pelos ensaios.
O equipamento apresentado neste artigo, constitui o que é designado por ensaio triaxial
automático e está na linha do que acabou de ser referido no parágrafo anterior ainda que,

1
Assistente Convidado
2
Professor Auxiliar
3
Aluno finalista da licenciatura em Engenharia Civil

Maputo-Moçambique, 30Ago-1Set 2005 877


1º Congresso de Engenharia de Moçambique // 4º Congresso Luso-Moçambicano de Engenharia

como será visto mais adiante, com os recursos actuais poderá integrar, de modo muito
flexível, novos módulos de ensaio no intuito de realizar ensaios ainda mais avançados.
Poder-se-á ficar com uma melhor percepção das facilidades operativas do ensaio triaxial
automático se se recuar um pouco e, resumidamente, descrever o equipamento de que se
dispunha anteriormente. Na figura 1 está representado esquematicamente o equipamento e, de
seguida, é feita referência ao modo de aplicação das tensões nos ensaios triaxiais neste
sistema.

Figura 1 – Esquema do primeiro sistema utilizado no Laboratório de Geotenia


da SAECiviL para o ensaio triaxial .

Como é sabido, os ensaios triaxiais ditos convencionais (ou tradicionais) são subdivididos
numa fase de saturação, numa fase de consolidação e, finalmente, numa fase de corte do
provete. Excepção é feita para os ensaios “não consolidados”. No sistema apresentado na
figura 1 a aplicação das tensões de saturação e de consolidação é conseguida à custa da
pressurização da água (desareada) pelo circuito de ar comprimido, sendo a intensidade
daquelas tensões regulada, controlada e medida pelo conjunto de reguladores, torneiras e
manómetros que constituem o painel de controlo.
A aplicação manual das tensões traduz-se num rigor das medições significativamente
condicionado pelo desempenho do operador, variável que, em determinadas fases do ensaio
pretende-se que seja inexpressiva. De qualquer modo, com o esquema da figura 1 é possível
comparar as pressões dos manómetros com as dos transdutores de pressão convenientemente
ligados à entrada/saída da câmara triaxial e à unidade de aquisição de dados (ADU).
Na fase de corte, os ensaios de deformação controlada são realizados por fixação de uma
razão de carregamento da prensa. A medição da força de corte é feita através de um anel
dinamométrico com um transdutor incorporado e, um transdutor de deslocamentos mede os

878 Tema 5: Materiais e Estruturas


4º Congresso Luso-Moçambicano de Engenharia // 1º Congresso de Engenharia de Moçambique

deslocamentos verticais. Quando há drenagem durante o corte, a variação volumétrica do


provete é quantificada através de um transdutor acoplado ao medidor da variação de volumes.

2. O EQUIPAMENTO
Com o equipamento automático foi conseguido um avanço significativo no modo e no tempo
de operação para a realização dos ensaios triaxiais.
O ponto mais significativo da evolução do sistema de ensaios, quando comparado com o
primeiro, está na substituição do painel de controlo pelos actuadores/controladores de
pressão/volume.
No esquema representado na Figura 2 é possível observar que o sistema consta de um
computador, dois controladores de pressão/volume, uma unidade de aquisição de dados
(ADU), um multiplexador e os transdutores de pressão, de deslocamento e de força para as
respectivas medições.

Figura 2 – Esquema do sistema triaxial automático.

Os actuadores/controladores de pressão/volume são equipamentos digitais de alta precisão


com capacidade de aplicação de tensões até 3 MPa e que, nos primeiros anos do seu
estabelecimento (no início dos anos oitenta) foram fundamentalmente utilizadas como
ferramentas para a investigação (Hooker, 2002). São actuadores hidráulicos com um
microprocessador incorporado controlado pela regulação e medição com grande precisão da
pressão e da variação de volume de um líquido (normalmente, água desareada).
Tal como se esquematiza na figura 3, o modo de funcionamento consiste, resumidamente, na
pressurização e deslocamento da água desareada através do êmbolo no interior do cilindro. O
êmbolo é impulsionado por um fuso actuador accionado por um motor passo-a-passo eléctrico
e uma caixa de transmissão que lhe impõe um movimento rectilíneo, deslocando-se sobre um
rolamento linear.
Os valores da tensão ou do volume pretendidos são atingidos através do movimento do
êmbolo a uma velocidade proporcional à diferença entre a tensão (ou volume) a atingir e a
tensão (ou volume) instantâneos. Em Menzies (1998) é feita uma descrição mais detalhada do
modo de funcionamento dos actuadores/controladores.

Maputo-Moçambique, 30Ago-1Set 2005 879


1º Congresso de Engenharia de Moçambique // 4º Congresso Luso-Moçambicano de Engenharia

Cilindro

Êmbolo
Motor
passo-a-passo Fuso actuador
Saída
da pressão
Circuto
digital
de controlo ar

Transdutor
água
de pressão
Rolamento linerar desareada

Figura 3 – Representação esquemática do funcionamentodos


actuadores/controladores (adaptado de Menzies, 1998).

No essencial, o equipamento configura um GDSTAS (GDS Standart Triaxial Automated


System) da GDS Instruments Ltd. As excepções, em termos de equipamentos, são feitas para
a Unidade de Aquisição de Dados (ADU) e para a prensa de 50 kN, ambas da ELE
International.
O computador é ligado ao multiplexador (GDS MUX) através de um cabo com interface
RS232. No multiplexador o cabo é dividido em quatro linhas de entrada; uma para o ADU,
uma para o controlador/actuador da pressão na câmara, uma para o controlador/actuador da
contra-pressão e uma para a prensa.
Os transdutores de força axial (célula de carga submersível), de deslocamentos verticais e de
pressão intersticial são ligados ao ADU.
O actuador/controlador de contra-pressão aplica a contra-pressão e mede a variação de
volume dos provetes de solo, no caso de ensaios drenados.
Em síntese, com o computador é possível fixar e controlar directamente a pressão na câmara,
a contra-pressão e a razão de carregamento. Além de registar estes parâmetros para o disco
rígido, o computador também regista, em tempo real, a deformação axial, a carga axial, a
poro-pressão, a variação de volume e pode ainda alternar entre as condições drenadas e não-
drenadas através de uma válvula solenóide que é accionada a partir do controlador da contra-
pressão.

3. OS ENSAIOS TRIAXIAS
Os ensaios triaxiais convencionais (axissimétricos) tiveram, desde sempre, como principal
objectivo obter parâmetros de resistência (de pico e residual). A tal se deve o facto de, nos
ensaios in situ (cuja envolvência do maciço no seu estado natural é indiscutivelmente mais
garantida do que em amostras recolhidas para laboratório) ser quase sempre manifestamente
mais difícil conduzir os níveis de tensão-deformação a níveis tais, que se manifeste com
generalidade um mecanismo de rotura global (Viana da Fonseca, 2000)
Como é sabido, os ensaios triaxiais são consolidados ou não-consolidados, em função de
haver, ou não, a fase de consolidação antes do corte. Na fase de consolidação são aplicados ao
provete incrementos graduais de tensões tentando, normalmente, repor os estados de tensão in
situ. As consolidações podem ser isotrópicas ou para K0 (consolidação anisotrópica). K0 é o
coeficiente de impulso em repouso e é dado por;
σ 'h0
K0 =
σ 'v 0

880 Tema 5: Materiais e Estruturas


4º Congresso Luso-Moçambicano de Engenharia // 1º Congresso de Engenharia de Moçambique

em que σ’h0 e σ’v0 são, respectivamente, a tensão efectiva horizontal e a tensão efectiva
vertical para o estado de repouso.

Na fase de corte, que pode ser em condições drenadas ou não-drenadas, faz-se variar as
tensões simulando os carregamentos aplicados aos maciços pelas construções. As tensões
principal vertical, σv, e horizontal, σh, que actuam no provete podem ser aumentadas,
diminuídas ou mantidas em valor constante, no que resultam ensaios triaxiais em compressão
(TC), com extensão lateral (LE), em extensão triaxial e com compressão lateral (LC). Na
figura 4 estão representados as trajectórias das tensões totais associadas aos diferentes tipos
de corte triaxial, partindo de condições isotrópicas e anisotrópicas de consolidação.
Sabe-se que a magnitude das propriedades mecânicas dos maciços dependem das trajectórias
das tensões induzidas pelas solicitações devidas as obras geotécnicas e que aquelas
trajectórias diferem com o tipo de obra em função da geometria dos carregamentos a partir da
interface solo-estrutura. Como tal, para cada obra, dever-se-á procurar simular na câmara
triaxial a evolução das tensões provocada, garantindo maior fiabilidade na aplicação dos
parâmetros estimados para a previsão do comportamento real.

Triaxial em
compressão, TC
σv Extensão σ1 - σ3
t =
lateral, LE Compressão 2
lateral, LC
LE TC
K0 Triaxial em extensão, TE
TC K0 TE LC

LE LC

TE
LE TC

σh σ 1 + σ3
LC s=
TE 2

Figura 4 – Trajectórias das tensões totais nos ensaios triaxiais


nos sistemas de eixos σh-σv e s-t. (Adaptado de Bardet, 1997)

É comum a utilização de siglas para, de modo abreviado, descrever os ensaios triaxiais de


acordo com as condições de consolidação e de corte. A título de exemplo refira-se que as
siglas CID, CIU, CK0D e UU são comummente utilizadas para designar os ensaios triaxiais
consolidados isotropicamente drenados, consolidados isotropicamente não-drenados,
consolidados para K0 drenados e não-consolidados não-drenados, respectivamente. Existem
variações daquelas siglas implicitando a compressão ou a extensão triaxial (Bardet, 1997).
Com o equipamento apresentado no capítulo anterior é possível neste momento realizar
ensaios triaxiais em compressão do tipo CID, CIU e UU. Entretanto, com a incorporação no
sistema de um transdutor para medição dos deslocamentos radiais do provete (anel de Bishop)
e com o apoio de uma prensa com actuador pneumático para a consolidação anisotrópica, tem
vindo a ser testada a realização de ensaios em compressão consolidados para K0.
É devida uma referência ao programa informático que, além de permitir o comando dos
ensaios, o registo e a leitura contínua dos dados em todas as fases do ensaio, faz o cálculo dos
parâmetros derivados com a possibilidade de representações gráficas em tempo real.

Maputo-Moçambique, 30Ago-1Set 2005 881


1º Congresso de Engenharia de Moçambique // 4º Congresso Luso-Moçambicano de Engenharia

4. CONCLUSÕES
O novo equipamento veio dotar o Laboratório de Geotecnia da SAECiviL da capacidade
realizar ensaios triaxiais com um maior grau de fiabilidade e controlo das tensões e, devido à
sua estrutura modular, são maiores as possibilidades de fácil expansão do sistema para a
realização futura de ensaios triaxiais mais avançados como, por exemplo, os ensaios triaxiais
em extensão (com a incorporação da câmara triaxial de Bishop-Wesley) ou ensaios triaxiais
com medição das velocidades de propagação de ondas sísmicas com recurso aos “bender
elements” (Hooker, 2002).
Outra mais valia associada ao sistema automático com os actuadores/controladores digitais é a
possibilidade da realização de ensaios automáticos de consolidação hidráulica dos tipos taxa
de carregamento constante, gradiente hidráulico constante, taxa de deformação constante e
carregamento escalonado, bastando para tal a substituição da câmara triaxial pela célula de
consolidação de Rowe-Barden, também disponível no laboratório.
No presente, o equipamento tem sido rotinado fundamentalmente com a realização de um
volume de ensaios triaxiais no âmbito do projecto final de curso dos alunos co-autores deste
artigo, não obstando a sua função didática nas disciplinas geotécnicas. Ao nível da
investigação, a partir daqui, perspectiva-se uma actividade mais intensa.

AGRADECIMENTOS
O primeiro autor agradece aos co-autores deste artigo pelo empenho e disponibilidade
evidenciados no decurso dos trabalhos experimentais e na busca conjunta de soluções para
ultrapassar os inúmeros problemas de índole informática, de calibração dos instrumentos de
medida, entre outros que foram surgindo, típicos dos caminhos a percorrer na ciência
experimental.
Ao colega Agostinho Benta que, em estimulante parceria, participou na montagem do painel
de controlo (Figura1), cuja concepção, construção e supervisão na montagem foram do Sr.
Armando Pinto, técnico do LabGeo da FEUP a quem o primeiro autor também agradece,
sobretudo, os desinteressados e mui experimentados ensinamentos no universo da execução
dos ensaios triaxiais.

REFERÊNCIAS

Bardet, J-P – Experimental soil mechanics. Prentice-Hall, Inc. New Jersey, 1997.
Benta, A. – Novo sistema edométrico do LNEC. Actas do 8.º Congresso Nacional de Geotecnia,
Vol.1, pp 427-438, LNEC, Lisboa, 2002.
Bishop, A. W.; Henkel, D. J. – The measurement of soil properties in the triaxial test (2nd edition),
Edward Arnold (Publishers) Ltd, London, 1962.
Head, K. H. – Soil laboratory testing. Vol 3, Efective stress tests. ELE International Ltd, Pentech
Press, London, 1985.
Hooker, P. - The development of automated testing in geotechnical engineering. Proc. of the Indian
Geotechnical Conference, Vol. 1, pp. 96-102, Allahabad, 2002.
Menzies, B.K - A computer controlled hydraulic triaxial testing system. Advanced Triaxial Testing of
Soil and Rock. ASTM STP 977, pp 82-94, Philadelphia, 1988.
Viana da Fonseca, A. – Ensaios em laboratório para a avaliação da resistência ao corte de um solo
residual de granito. Ensaios triaxiais convencionais. Actas do VII Congresso Nacional de Geotecnia,
Vol.1, pp 423-436, Porto, 2000.

882 Tema 5: Materiais e Estruturas

View publication stats