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INTRODUÇÃO

Este trabalho tem por objetivo analisar a personagem Capitu nas obras Dom
Casmurro de Machado de Assis e Amor de Capitu de Fernando Sabino.
Na primeira obra Capitu é apresentada como uma criatura alta, forte e cheia,
com cabelos grossos sempre feitos em duas tranças e com as pontas atadas uma à
outra. Morena e de olhos claros e grandes, ainda é descrita de nariz reto e comprido,
boca fina e queixo largo. Ainda na primeira obra, também diz-se da personagem
como aquela cujos olhos pareciam de uma cigana oblíqua e dissimulada,
mostrando-se capaz de adultério. A primeira obra vem narrada em primeira pessoa,
deixando reluzir traços marcantes do autor que recebe o a alcunha de Casmurro
(triste, teimoso, de poucas palavras).
Na segunda obra, o autor Fernando Sabino cria para Dom Casmurro um
narrador em terceira pessoa, e a primeiro momento podemos acreditar que seu
desejo é o de inocentar Capitu. Podemos perceber essa intenção se compararmos
os títulos das obras – Dom Casmurro (Machado de Assis) e Amor de Capitu
(Fernando Sabino). Porém, analisando mais fielmente a obra, percebemos que o
que existe de fato em Fernando Sabino, é a intenção de reverter o processo de
acusação da personagem. Ao reescrever a obra de Machado de Assis, Fernando
Sabino parte do mesmo ângulo que o narrador de Dom Casmurro (supondo a
traição), porém, sem fazer as interferências pessoais deixando permanecer portanto
o ponto de vista que antes fora escrito, e perde um pouco a sua “suposta intenção”
de defendê-la.
Em trechos da obra, Fernando Sabino chega mesmo a citar de maneira
afirmativa a “infidelidade” de Capitu.

O que sempre me atraiu neste romance admirável não foi a intrigante e


todavia obvia infidelidade da personagem principal, motivo de tantas
especulações da crítica ou pseudocrítica. O que me excitou à curiosidade
desde a primeira leitura e mais de uma releitura da obra foi descobrir até
que ponto a dúvida teria sido premeditada pelo autor, através de um
narrador evasivo, inseguro, ingênuo, preconceituoso e casmurro, como o
apelido que assumiu para si mesmo. (SABINO, 1998, p. 8)
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Levaremos em conta então, as duas obras, ou seja, estaremos observando os


fatos, a partir de uma 1ª e de uma 3ª pessoa (narradores), para desse modo
verificarmos toda polêmica em torno da suposta conduta de Capitu.
Analisar as obras com base nos pressupostos teóricos do romance, que
segundo Antônio Cândido é composto por três elementos fundamentais: o enredo,
as personagens e as idéias da obra, sendo que estas ainda estão interligadas. A
personagem vive o enredo e as idéias os tornam vivos.
Podemos ainda dizer que, o dialogismo da obra contribui para compreensão
das características do discurso, de que cada um de nós ocupa um lugar e um tempo
específicos no mundo, que cada um é responsável por suas atividades, e que a
comunicação entre as pessoas é de grande importância, e por isso, o discurso de
uma obra é por muitas vezes uma construção inacabada em coerência, sentidos e
conflitos.
Segundo BRAIT (2004, p. 11), “é imprescindível ressaltar que seria
completamente um absurdo, negar a relação entre personagem e pessoa”.
Completa ainda dizendo que as personagens representam pessoas, segundo
modalidades próprias de ficção.
Portanto estabeleceremos um apanhado de dados comparativos que
permitiram analisar a personagem Capitu.
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CAPÍTULO 1 - DESCRIÇÃO DE CAPITU NA ERA DOM


CASMURRO

Tudo começa com um amor de criança entre Bentinho e Capitu. Ela servia de
sacristã e dividia a hóstia entre eles. Também se mostrava sempre doce e bondosa.
Agia sempre com igualdade e amor em relação ao próximo.
Desde pequena era sedutora. Passava suas mãos no cabelo de Bentinho,
segurava-lhe as mãos e o chamava de bonito, mostrando sempre seu afeto. Ele
correspondia, e então ela discordava com expressão de desengano e melancolia,
por isso Bentinho a chamava de maluca.
Capitu era uma criatura de 14 anos, alta, forte e cheia, apertada em um
vestido de chita, meio desbotado. Cabelos grossos, sempre com duas tranças e as
pontas atadas uma a outra, na moda do tempo. Suas tranças desciam pelas costas.
Morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, boca fina e queixo largo,
mãos ásperas que cheiravam água de poço e sabão comum, e calçava sempre
sapatos velhos.
O agregado da casa de Bentinho, José Dias, classificava-a como pequena
desmiolada, criançola, com olhos que o diabo lhe dera, olhos de cigana, oblíqua,
sem franqueza, dissimulada, vaidosa e bajuladora.
Enquanto o pai de Capitu achava que sua filha parecia com uma adolescente
de 17 anos, isto quando ainda tinha 14, a garota tinha idéias atrevidas, hábeis,
sinuosas que alcançavam tudo o que queria.
Já a prima de Bentinho, Justina, esta não falava mal de Capitu, e dizia que ela
poderia tornar-se uma moça bonita; que tinha bons hábitos e costumes, era
trabalhadeira e sentia um grande amor pela mãe, mas que também era travessa e
sempre olhava de baixo para cima.
Para Padre Cabral, Capitu não passava de uma menina que vendia saúde.
A mãe de Bentinho, Dona Glória, depois que seu filhos foi para o seminário,
ficara sozinha; mudou sua opinião sobre Capitu, que antes não era das melhores e
passou a considerá-la a flor da casa, o sol das manhãs, o frescor das tardes, a lua
das noites, já que Capitu vivia horas ouvindo, falando e cantando para ela.
Em uma de suas visitas para casa, Bentinho louvou a astúcia de Capitu, que
durante um almoço, muito dissimulada disse à Dona Glória que gostaria que
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Bentinho fosse o padre que um dia celebraria o seu casamento. Bentinho disse a
garota que ela estava certa em enganar a todos.
Num momento de desespero, Bentinho chamou Capitu e perversa, porque
achou que ela estava a se engraçar com os peraltas do bairro.
Bentinho confessou sua paixão por Capitu ao seu amigo Escobar, destacando
as qualidades morais dela, a simplicidade, e modéstia, o amor ao trabalho e os
costumes religiosos, deixando claro que a achava perfeita. O amigo Escobar era
casado com Sancha. Dizia sempre ser ela uma pessoa fria, que não lhe dava muita
atenção.
Em certa ocasião, Sancha ficara doente e Bentinho foi visitá-la. Encontrou
com Capitu, e havia dias que não a via. Então observou o quanto ela mudara. Que
suas formas se arredondavam e avigoravam com grande intensidade; que já era
mulher por dentro e por fora, desde os pés a cabeça. Cada vez que a encontrava,
estava mais alta, mais cheia; os olhos pareciam ter outra reflexão e a boca outro
império.
Nesta ocasião, Gurgel, pai de Sancha, compara Capitu à sua esposa,
mostrando um retrato para Bentinho e mostrou a semelhança das duas. Gurgel
ainda brincou que a vida tinha dessas semelhanças esquisitas.
Cinco anos se passaram. Bentinho casa-se com Capitu. Ela gostava de rir e
divertir-se. Nos primeiros passeios ou espetáculos, parecia um pássaro que saia da
gaiola. Se arrumava com graça e modéstia; gostava de jóias, mas não queria que
Bentinho as comprasse, nem caras, nem aos montes.
Aprendeu a tocar piano, onde passou a agradar os amigos com suas
músicas. Gostava de dançar e enfeitava-se com amor quando ia a um baile.
No primeiro baile, Capitu foi com os braços nus, que eram os mais belos
daquela festa. Bentinho nem conversava direito com as pessoas, só para admirá-los.
No segundo baile, Bentinho percebeu que os homens também admiravam Capitu, e
ficou vexado e aborrecido. No terceiro baile, o casal não foi, por conta do ciúmes de
Bentinho, tendo ainda a concordância de Escobar, que opinou sobre o assunto,
quando Bentinho lhe contou.
Capitu era uma boa esposa; poupada não só de dinheiro mas também de
coisas usadas. Ela guardava por tradição, por lembrança ou por saudades. Em uma
ocasião guardou dez libras em ouro, poupando o dinheiro que ganhava do marido.
Como não sabia muito bem como aplicar o dinheiro, Escobar a ajudou sendo seu
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corretor. Bentinho ao descobrir sobre o dinheiro, refletiu com Escobar, dizendo que
Capitu era um anjo. Seu amigo concordou, sem muito entusiasmo, pois não podia
dizer o mesmo de sua esposa Sancha.
A verdade é que Bentinho tornou-se mais amigo de Capitu, se é que isso era
possível. Quando tiveram um filho, ela continuou terna a Bentinho, tanto quanto era
ao filho.
Houve então no meio dessa felicidade uma catástrofe: Escobar morre
afogado. Em seu enterro, Bentinho observa Capitu, que na despedida olhava para o
defunto tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que saltou de seus olhos poucas
lágrimas, caladas. Seu olhar era o olhar de ressaca em que fitava o defunto, afim de
trazê-lo para si.
Desde então, Bentinho começou suas cismas a respeito dos sentimentos de
Capitu por Escobar. A partir de então, tornou-se definitivamente um verdadeiro
Casmurro com sua mulher e seu filho.
Com o passar do tempo, Bentinho vê afeições de seu amigo Escobar em
Ezequiel (seu filho), e isso fez com que Capitu fosse julgada e condenada por seu
marido.
Capitu morrera na Europa, sem saber ao certo o porque da indiferença de seu
amado, de seu amor de criança, amor de adolescência, de seu amor da vida toda.
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CAPÍTULO 2 - AMOR DE CAPITU OU AMOR DE BENTINHO?


EIS A QUESTÃO PARA FERNANDO SABINO

Nota-se de princípio na obra Amor de Capitu, que o título leva o nome de uma
personagem fictícia de uma obra consagrada. O titulo da obra pode estar sugerindo
que, de fato estamos falando de uma Capitu traidora, que amou Escobar (amigo de
seu marido), e por isso Amor de Capitu. Essa suposição pode estar confirmada já
após o nome do autor, onde encontramos: Leitura fiel do romance de Machado de
Assis sem o narrador Dom Casmurro; e também: Recriação Literária. Se é uma
releitura fiel, seria correto afirmar então, que Sabino também acredita então na
traição da personagem. Desse modo, é evidente que, há uma relação com a obra de
Machado de Assis.
Ao iniciarmos a leitura, podemos verificar que algumas indicações remetem á
obra Machadiana através de uma justificativa de Sabino, mostrando o que irá
realizar na sua obra: “A recriação aqui apresentada se inspirou no reconhecimento
da importância de um dos monumentos da nossa literatura”. (SABINO, 2003, p.7)
Além disso, num capítulo intitulado “E bem, e o resto?”, Fernando Sabino
expõe sobre seus procedimentos, entre eles a narrativa em terceira pessoa, “sem a
interveniência de interpretações pessoais posteriores, muitas vezes deformadas pelo
tempo decorrido.” (SABINO, 2003, p.232) e a exclusão de algumas partes do
romance a que se reporta. A mesma história, outro personagem e a mesma visão
dos fatos? Seria essa então a intenção de Sabino?
O autor justifica sua posição e a maneira como dirigiu a releitura:

A eliminação do intermediário levou-me a fusão de um ou outro capítulo, ou


à sua interferência no contexto, sem prejuízo do entrecho e preservando na
estrutura romanesca o espírito machadiano da concepção original.
(SABINO, 2003, p. 232)

Amor de Capitu constrói-se como uma repetição do romance de Machado de


Assis, excluindo comentários do narrador sobre si mesmo ou sobre fatos do seu
tempo.
Considerando-se que na obra de Fernando Sabino, o foco narrativo foi
alterado para a terceira pessoa, os capítulos iniciais de Dom Casmurro são
suprimidos porque não há, em princípio, um Dom Casmurro explicando o porquê do
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título e do livro. Na obra machadiana, o narrador Dr. Bento Santiago se põe a


escrever um livro com o fim evidente de atar as duas pontas da vida, e restaurar na
velhice a adolescência. Com a mudança na focalização, a obra de Sabino omite tais
dados e começa com a cena em que, escondido atrás da porta, Bentinho ouve uma
conversa entre sua mãe e o agregado José Dias.
“Quando Bento Santiago ia entrando na sala de visitas, ao ouvir José Dias
alar seu nome, escondeu-se atrás da porta. A casa era a da Rua de Matacavalos, o
mês de novembro, o ano de 1857”. (SABINO, 2003, p. 11)
Assim, Sabino cria na verdade, uma consciência seletiva, pois a perspectiva
narrativa continua sendo a de Bento Santiago, pois a personagem Capitu continua
sem voz, continua tendo a sua história contada sob a perspectiva do marido, o
Casmurro. É essa perspectiva que impera sempre, não se cria outro observador,
consciente ou não.
Isso pode ser observado na clássica cena do velório de Escobar, em que
Bento Santiago acredita ser o choro de Capitu uma confissão de sua traição com
seu amigo. Tanto na obra de Machado de Assis como na obra de Fernando Sabino,
não há espaço para a versão de Capitu, os narradores, ou melhor, o narrador Bento
Santiago, continua sendo o dono da voz e descreve obviamente sempre a mesma
cena, sempre de um mesmo ponto de vista.

A confusão era geral: No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o
cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem
algumas lágrimas poucas e caladas(...) Momento houve em que os olhos de
Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras
desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se
quisesse tragar também o nadador da manhã.(MACHADO DE ASSIS, 1984,
p. 134)

Na obra de Sabino diz-se que:

...Bento viu Capitu a olhar alguns instantes para o cadáver de maneira tão
fixa, tão apaixonadamente fixa, que não se admirou ao lhe saltarem dos
olhos algumas poucas e silenciosas lágrimas. (...) Houve um momento em
que Bento viu os olhos de Capitu fitarem o defunto, como os de viúva, sem
o pranto nem as palavras dela, mas grandes e abertos, como a vagar do
mar lá fora como se quisesse tragar também o nadador daquela manhã.
(SABINO, 1998, p. 194)
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A este fato - o causador de todo drama vivido por Bentinho, torna-se vazio
concordar ou discordar.
Mas podemos ligar ao fato narrado por Bento Santiago, um de seus adjetivos
mais comprometedores: o ciúme.
O que teria de fato dirigido a trama de Machado de Assis, o suposto amor de
Capitu por Escobar , ou o doente e obsessivo amor de Bentinho por Capitu?

2.1 O paralelo entre Fernando Sabino e Machado de Assis

Levando em conta, que o que está sendo analisado – a estrutura do romance


– em que o narrador é o elemento estruturador da história, este é capaz de dar
vários caminhos a seus personagens.
Desse modo, se torna relevante aqui, estabelecermos um paralelo então entre
os dois autores e as duas obras que tratam deste assunto (Capitu):
De um lado Machado de Assis, com Dom Casmurro e do outro, Fernando
Sabino com Amor de Capitu.
Como já fora citado antes, em Dom Casmurro, temos Bento Santiago
narrando em primeira pessoa a vida de sua esposa Capitu. Chamado de homem de
lábios calados, narrando fatos passados, Bento reconstitui pessoas e a si mesmo,
isto é, cria um livro com suas memórias, como um diário. Tenta a cada página
recompor seu passado, descrevendo desde sua adolescência até sua velhice. Mas é
preciso estarmos sempre voltados para os reais objetivos de Bento para esse
memorial: provar o adultério de sua esposa Capitu com seu amigo Escobar. Não
podemos duvidar da verdade dos fatos narrados por Bento, mas cabe lembrar que,
toda narração pode estar elaborada de forma a levar o leitor à própria interpretação
do narrador.
Podemos dizer que, para reconstituir sua vida, Bentinho usa a narração e
através dela quer construir o suporte de sua acusação.
Fernando Sabino sai então com Amor de Capitu em busca de uma solução
para o mistério em torno da personagem Capitu, e reescreve a obra Dom Casmurro.
Vale então lembrar neste ponto, que Fernando Sabino, ao contrário de “Bento
Santiago” nada tem ou teve com Capitu, ou seja, tornou-se um narrador sem laços
com a personagem.
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Procurei reviver os acontecimentos do livro a partir do mesmo ângulo do


narrador original, com os mesmos elementos prosódicos, sem a
interveniência de interpretações pessoais posteriores, muitas vezes
deformadas pelo tempo decorrido. A narração em si obedece o entrecho do
romance, mas sem as características de linguagem pessoal usada pelo
personagem central, embora continue a ação de decorrer praticamente do
seu ponto de vista. (SABINO, 1998, p. 232)

Fernando Sabino, portanto, cria para Dom Casmurro um narrador em terceira


pessoa. Não é sua obra uma tentativa de inocentar Capitu e tirar dela todo o peso da
culpa do suposto adultério narrado por Bentinho, ou tão poço ainda tem por objetivo
confirmar de uma vez as acusações. A dúvida, ainda permanece.
Para tentar sanar essa dúvida, estabeleceremos aqui um paralelo também
para os títulos das obras. Se os compararmos, a primeiro momento já percebemos
que existe em Sabino uma intenção de reverter o processo de narrativa, centrando-a
na figura de Capitu.
Mas reverter o processo, não significa dar a história outro sentido ou direção,
afinal. Sabino se mantém fiel a obra original de Machado de Assis, e ainda
acrescenta que, também ele acredita na traição, quando cita que, o que o atraiu na
obra de Dom Casmurro, não foi a “óbvia infidelidade da personagem”.
Desse modo, seria correto então afirmar que, o paralelo existente entre as
obras que tratam da vida de Capitu, irá apresentar alterações apenas no foco
narrativo, e não na maneira de considerar os fatos como verdadeiros ou não.
Dessa maneira, podemos entender que, não é a mudança do foco narrativo
que fará com que o leitor passe a considerar a personagem Capitu inocente, afinal
antes de reescrever a obra de Machado de Assis, não era Fernando Sabino um
simples leitor de Dom Casmurro? E ainda, mesmo sendo ele o autor dessa mudança
de foco narrativo, não acredita na inocência da personagem.
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CAPÍTULO 3 – CRIAÇÃO DA PERSONAGEM SEGUNDO


MIKHEIL BAKHTIN

Para Bakhtin há concepções relacionadas à linguagem que é a interação


verbal, o dialogismo, a repetição e a criação entre outros. O procedimento aqui a ser
realizado será fazer uma introdução aos pensamentos do autor, analisando estas
concepções.
O autor explica a linguagem, não só como um sistema abstrato, mas também
como uma criação coletiva, integrante de um diálogo cumulativo entre o “eu” e o
“outro”.

3.1 Interação verbal

O caráter interativo da linguagem é a base do esqueleto teórico bakhiniano. A


linguagem é compreendida a partir de sua natureza sócio-histórica. A propósito, é
significativa a seguinte afirmação de Bakhtin (1992, p. 41): “ se palavras são tecidas
a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações
sociais em todos os domínios.”
Para Bakhtin, o ato de fala, ou exatamente, o seu produto, a enunciação, não
pode ser considerado levando-se somente em consideração as condições
psicofisiológicas do sujeito falante – apesar de não poder delas prescindir. A
enunciação é de natureza social e para compreendê-la é necessário entender que
ela acontece sempre numa interação. A verdadeira substância da língua é
constituída, para Bakhtin “pelo fenômeno social da interação verbal, realizada por
meio da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a
realidade fundamental da língua.”
Uma das formas mais importantes da interação verbal é o diálogo,
caracterizado não apenas como comunicação em voz alta, de pessoas face a face,
mas toda comunicação verbal, de todo tipo. Qualquer enunciação constitui apenas
uma fração da corrente da comunicação verbal interrupta (relativa à vida cotidiana, à
literatura, ao conhecimento, à política, etc). Por sua vez a comunicação verbal
interrupta constitui apenas um momento na evolução contínua e em todas as
direções de um grupo social determinado.
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Conforme Bakhtin (1992, p.123), a língua vive e evolui historicamente na


comunicação social concreta. Dessa forma, para ele, a língua é vista a partir de uma
perspectiva de totalidade, integrada à vida humana. A lingüística não pode dar conta
de explicar um objeto multifacetado. Para explicar a dialogicidade, o aspecto
lingüístico não é suficiente. Por isso, ele acrescenta o contextual e propõe assim
uma disciplina, a metalingüística ou translinguística, para estudar o enunciado.
A abordagem que Bakhtin propõe – que ultrapassa os limites da lingüística –
é a do estudo da própria enunciação. A estrutura da enunciação concreta é
determinada inteiramente pelas relações sociais, ou seja, pela situação social
imediata e pelo meio social mais amplo.
Para Bakhtin, a enunciação é produto da interação de dois indivíduos
socialmente organizados e, mesmo que não haja um interlocutor real, este pode ser
substituído por um representante ideal, mas que não pode ultrapassar as fronteiras
de uma classe e de uma época bem definidas.
A palavra se orienta em função do interlocutor. Na realidade, a palavra
comporta duas faces: procede de alguém e se dirige à alguém. Ela é o produto da
interação entre locutor e interlocutor, ela serve de expressão a um em relação ao
outro, em relação à coletividade.
Ainda, de acordo com Bakhtin (1992, p.113), “a palavra é uma espécie de
ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apóia sobre mim, numa extremidade,
na outra se apóia sobre o meu interlocutor. A palavra é o território comum do locutor
e do interlocutor”.
É a partir da concepção de linguagem de Bakhtin que nasce uma das
categorias básicas de seu pensamento, que é o dialogismo.

3.2 Dialogismo

Para Bakhtin, o dialogismo é o movimento dos fenômenos em sua pluralidade


e diversidade, isto é, o diálogo e a criação da personagem no interior da literatura.
Modela o diálogo e a criação de todos os domínios da vida. O autor da obra literária,
assim como o eu concebido por Bakhtin são concebidos como uma entidade
dinâmica em interação com outros eus e personagens.
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Bakhtin define a idéia de que o homem e a vida são caracterizados pelo


princípio dialógico. Afirma que a vida é dialógica por natureza. Desse modo, a
dialogia é o confronto de valores das visões de mundo.

Na vida agimos assim, julgando-nos do ponto de vista dos outros, tentando


compreender, levar em conta o que é transcendente à nossa própria
consciência, assim, levamos em conta o valor conferido ao nosso aspecto
em função da impressão que ele pode causar em outrem (...) (BAKHTIN,
1992, P.35-36)

A interação entre interlocutores é o princípio fundador da linguagem. É na


relação entre sujeitos, ou seja, na produção e na interpretação dos textos que se
constroem o sentido do texto, a significação das palavras e os próprios sujeitos.
Com efeito, pode-se dizer que a intersubjetividade é anterior à subjetividade. Esta é
o resultado da polifonia das muitas vozes sociais que cada indivíduo recebe, mas
que tem a condição de reelaborar, pois como ensina Bakhtin (1992, p. 46), “o ser,
refletido no signo, não apenas nele se reflete, mas também se refista”.
Esses aspectos do dialogismo internacional de Bakhtin, assinalados acima,
contribuem para a compreensão, dentre outras características do discurso, os
simulacros e as avaliações entre os sujeitos. Destaque-se que a construção de tais
características não são individuais, mas assentadas naquilo que Bakhtin denomina
como horizonte ideológico, ou seja, na relação entre sujeitos e a dos sujeitos com a
sociedade.
Bakhtin argumenta que cada um de nós ocupa um lugar e um tempo
específicos no mundo, e que cada um de nós e responsável ou respondível por
nossas atividades. Estas ocorrem nas fronteiras entre o eu e o outro, e, portanto, a
comunicação entre as pessoas tem uma importância fundamental.
O dialogismo é o permanente diálogo entre os diversos discursos que
configuram uma sociedade, uma comunidade, uma cultura. A linguagem é portanto,
essencialmente dialógica e complexa, pois nela se imprimem historicamente e pelo
uso as relações dialógicas dos discursos. A palavra é sempre perpassada pela
palavra do outro. Isso significa que o enunciador, ao construir seu discurso, leva em
conta o discurso de outrem, que está sempre presente no seu.
É nesse quadro, portanto, que nos interessa mais de perto as relações
ideológicas que tomam forma e sentido nos textos. É preciso sempre, analisarmos
as vozes que estão impregnadas num discurso, ou seja, os discursos que estão
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interagindo, mesmo que tal interação não esteja, algumas vezes, tão evidente ou
explícita e que, no entanto, a partir dela, os sujeitos se construam e mostram sua
inventividade.

3.3 Repetição e criação

O enunciado sempre cria algo que, antes dele não existia, algo novo e
irreproduzível, algo que está sempre relacionado com um valor (a verdade,
o bem, a beleza, etc.). Entretanto, qualquer coisa criada se cria sempre a
partir de uma coisa que é dada (a língua, o fenômeno observado na
realidade, o sentimento vivido, o próprio sujeito falante, o que é já concluído
em sua visão de mundo, etc.). O dado se configura no criado. (BAKHTIN,
1992, p. 348)

Bakhtin, define que, é mais fácil estudar os elementos de conjunto de uma


visão do mundo, os fenômenos refletidos da realidade, pois isto é dado e não criado.
Todo estudo se resume no mais das vezes, a descobrir o que já estava dado,
já presente e pronto antes da obra. É como se todo o dado se reconstruísse de novo
no criado, se transfigurasse nele. Dessa forma, tudo é reduzido ao dado prévio, ao já
pronto. Na verdade, o objeto vai edificando-se durante o processo criador, e o poeta
também se cria, assim como sua visão do mundo e seus meios de expressão.
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CAPÍTULO 4 – PERSONAGEM DE FICÇÃO

Capitu é uma personagem que gera várias interpretações e julgamentos a seu


respeito quando se lê Dom Casmurro (Machado de Assis) ou mesmo Amor de
Capitu (Fernando Sabino).
O que vamos considerar agora, é que, a estrutura de um texto, seja qual for, é
composta por uma série de planos, dos quais o único real,é o dos signos impressos
no papel. Então, as obras acima citadas podem ter certas relações atribuídas aos
objetos e suas qualidades, sendo isto um contexto objetual. Estes contextos
objetuais determinam as “objectualidades”, por exemplo, uma obra científica ou o
mundo imaginário de um romance.

4.1 A obra literária ficcional

Baseando-nos do que diz Cândido (2005, p.15), a verificação do caráter


ficcional de um escrito independe dos critérios de valores. Trata-se de problemas
ontológicos, lógicos e epistemológicos.
Uma das funções da oração é a de projetar. Essa projeção é intencional para
que a oração tenha certa tendência a se parecer com a realidade. Isso pode-se
comparar com um retrato, pois diante de um fotógrafo, as pessoas fazem “pose”,
tornando-se personagens, chegando a fingir a alegria que nem sempre está
sentindo.
O termo verdade, quando usado nas obras de ficção, tem vários significados.
Pode ser qualquer coisa como a genuidade, sinceridade ou autenticidade, esses
termos mostram a subjetividade do autor. Existe a verossimilahnça, que segundo
Aristóteles, citado na obra de Cândido (2005, p.18), não é a adequação àquilo que
aconteceu, mas àquilo que poderia ter acontecido. Trata-se da coerência entre o
mundo imaginário das personagens e situações que parecem reais, ou a visão
filosófica, psicológica ou sociológica da realidade.
Do mesmo modo, quando usado numa obra o termo “falso”, especificamente
num romance, seria o uso da incoerência, de um mundo imaginário que não
corresponde à realidade.
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Todavia, os enunciados de um romance costumam ter o hábito de dar juízo


de valor, que dá para se notar devido sua preparação de aspectos esquematizados
que visam dar aparência real à situações imaginárias.
É porém a personagem que torna evidente a ficção, e através dela, a
imaginação fica clara.
Na literatura narrativa, o narrador finge distinguir-se da personagem, assim
pode projetar duas perspectivas: a da personagem e a do narrador.

4.2 A pessoa e a personagem

A diferença entre a realidade e as objectualidades intencionais é que a


realidade é totalmente determinada, concreta, que torna o ser humano indescritível,
enquanto a objectualidade não alcança a determinação completa da realidade.
A obra literária apresenta zonas indeterminadas, que dão possibilidade à vida,
à variedades das concretizações. Mas essas possibilidades se devem à variedade
dos leitores que surgem através dos tempos, sendo que as concretizações podem
variar, mas a obra como tal não muda.

O curioso, é que o leitor ou espectador não nota as zonas indeterminadas


(que também no filme são múltiplas). Antes de tudo porque se atém ao que
é positivamente dado e que, precisamente por isso, encobre as zonas
indeterminadas; depois porque tende atualizar certos esquemas
preparados; finalmente, porque costuma ultrapassar o que é dado no texto,
embora geralmente guiado por ele. (CÂNDIDO, 2005, p.34)

Em uma obra ficcional, o número de orações é necessariamente limitado, e as


personagens adquirem um cunho definido e definitivo às pessoas reais e essa
definição se trata apenas de orações e não de realidade. O autor pode dar ênfase as
personagens mais do que a observação da realidade costuma sugerir, fazendo esta
parecer mais significativa do que pode ocorrer na vida.
Como já forma mencionado, o número de orações numa obra ficcional é
limitado e isto faz com que as personagens tenham maior coerência, exemplaridade,
significação e riqueza do que pessoas reais. De acordo com Cândido, é isso a tal
ponto que os grandes autores, levando a ficção ficticiamente às suas últimas
conseqüências, refazem o mistério do ser humano, através da apresentação de
aspectos que produzem certa opalização e iridescência, e reconstituem, em certa
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medida, a opacidade da pessoa real. É precisamente o modo pelo qual o autor dirige
o nosso olhar, através de aspectos selecionados de certas situações, da aparência
física e do comportamento.

4.3 O papel do personagem

A personagem é o momento em que podemos nos defrontar com seres


humanos, como contornos definidos e definitivos, estes, encontram-se integrados
nos seus valores de ordem religiosa, moral, política e social, fazendo com que cada
um tome suas atitudes. Neste encontro, o ser humano passa por conflitos de
aspectos essenciais a vida como, tragédia, conflitos e crises.
O mais importante é que não contemplamos estes destinos e conflitos a
distância, isto já falando em comparação a uma personagem numa obra de ficção. O
ser humano, leitor, contempla e ao mesmo tempo vive as possibilidades, graças aos
quase-juízos que aparentam concretos nesse mundo imaginário que é a ficção.
Cândido ainda defende uma outra concepção a respeito da ficção:

A ficção é um lugar ontológico, privilegiado: lugar em que o homem pode


viver e contemplar, através de personagens variadas, a plenitude da sua
conclusão, e em que se torna transparente a si mesmo; lugar em que,
transformando-se imaginariamente no outro, vivendo outros papéis e
destacando-se de si mesmo, verifica, realiza e vive a sua condição
fundamental de ser autoconsciente e livre, capaz de desdobrar-se,
distanciar-se de si mesmo e de objetivar a sua própria situação. (CANDIDO,
2005, p.48)

4.4 A personagem do romance

O romance é composto por três elementos fundamentais: o enredo, as


personagens e as idéias da obra, sendo que elas estão interligadas. A personagem
vive o enredo, e as idéias as tornam vivas.
Num romance, a personagem parece viva, e isso faz com que os leitores
pensem que ela é essencial no romance, deixando de lado o restante, como se ela
pudesse existir separada dos outros elementos que lhe dá vida.
A personagem é um ser fictício, como uma opinião que parece contrária ao
senso comum.
25

De fato, como pode uma ficção ser? Como pode existir o que não existe?
No entanto, a criação literária repousa sobre este paradoxo, e o problema
da verossimilhança no romance depende desta possibilidade de um ser
fictício, isto é, algo que , sendo uma criação de fantasia, comunica a
impressão da mais lídima verdade existencial. (CANDIDO, 2005, p.55)

No romance, a dificuldade que o ser fictício passa, diminui a idéia de que o


romance é um esquema fixo, de ente delimitado, e isto é possível devido ao trabalho
de seleção, após uma combinação de experiência, de maneira a criar o máximo de
complexidade, de variedade, com um mínimo de traços psíquicos, de atos e de
idéias, assim, faz a personagem se complexa e múltipla, como o máximo de traços
humanos.
Em um romance, há o sentimento da realidade porque, devido a fatores
diferentes, há uma adesão ao real. Neste mundo fictício, as personagens obedecem
a uma lei própria, pois há nelas uma lógica pré – estabelecida pelo autor, que as
torna paradigmas e eficazes, ao contrário do caos da vida.
O vínculo entre o autor e a sua personagem estabelece um limite de criar, a
imaginação de cada romancista.
proposto então uma classificação de personagens, considerando o grau de
afastamento em relação a realidade:

1. Disfarce leve do romancista, como ocorre ao adolescente que quer


exprimir-se (...) Tais personagens ocorrem nos romancistas
memoralistas.
2. Cópia fiel de pessoas reais, que não constituem propriamente criações,
mas reproduções. Ocorrem estas nos romances retratistas.
3. Inventadas a partir de um trabalho tipo especial sobre a realidade (...).
(CÂNDIDO, 2005, p.68)

Essas personagens inventadas podem ser esquematizadas do seguinte


modo:
1 – Personagens transpostas com relativa fidelidade de modelos dados ao
romancista por experiência direta, isso interior ou exteriormente. O caso de
experiência interior é o da personagem projetada, em que o escritor incorpora a sua
vivência, os seus sentimentos.
2 – Personagens transpostas de modelos anteriores, que o escritor reconstitui
indiretamente por documentação ou testemunho, sobre os quais a imaginação não
trabalha.
26

3 – Personagens construídas a partir de um modelo real, conhecido pelo


escritor, o trabalho criador desfigura o modelo, mas se pode identificar.
4 – Personagens construídas em torno de um modelo, direta ou indiretamente
conhecido, mas que apenas é um pretexto básico, um estimulante para o trabalho
de caracterização, que explora ao máximo as suas virtualidades por meio da
fantasia.
5 – Personagens construídas em torno de um modelo real dominante, que
serve de eixo, ao qual vêm juntar-se outros modelos secundários, tudo refeito e
construído pela imaginação.
6 – Personagens elaborados com fragmentos de vários modelos vivos, sem
predominância sensível de uns sobre outros, resultando uma personalidade nova.
7 – Ao lado de tais tipos de personagens, cuja origem pode ser traçada mais
ou menos na realidade, é preciso assinalar aquelas cujas raízes desaparecem de tal
modo na personalidade fictícia resultante, que, ou não têm qualquer modelo
consciente, ou os elementos eventualmente tomados à realidade não podem ser
traçados pelo próprio autor. Em tais casos, as personagens obedecem a uma certa
concepção de homem, a um intuito simbólico indefinível, ou quaisquer outros
estímulos de base, que o autor corporifica, de maneira a supormos uma espécie de
arquétipo, que, embora nutrido da experiência de vida e da observação, é mais
interior do que exterior. Esta seria uma das personagens de Machado de Assis, por
exemplo.
Originada, ou não, na observação baseada mais ou menos na realidade, a
vida da personagem depende da economia do livro, da sua situação em face dos
demais elementos que os constituem: outras personagens, ambiente, duração
temporal e idéias. Se as coisas impossíveis podem ter mais efeito de veracidade, é
porque a personagem é, basicamente uma composição verbal, uma síntese de
palavras, sugerindo, certo tipo de realidade.
Os elementos que um romancista escolhe para apresentar a personagem,
física e espiritualmente, são por forças indicativas.
Que coisa sabemos de Capitu, além dos “olhos de ressaca, dos cabelos, do
certo ar de cigana, oblíqua e dissimulada”? O resto decorre da sua inserção nas
diversas partes de Dom Casmurro.
27

Portanto, cada traço do romance, adquire sentido em função de outro, de tal


modo que a verossimilhança, o sentimento da realidade, depende, sob este espaço
da unificação do fragmentário pela organização do contexto.
28

Capítulo 5 – O QUE É PERSONAGEM?

Quando se pensa em personagem, é necessário lembrar que, elas


representam pessoas na ficção e estas procuram direcionar-se pela crítica, definindo
o seu objeto e procura o instrumento certo à analise que alcança dos juízos sobre o
objeto.

5.1 A personagem e a tradição crítica

Pensar em personagens, nos reporta a relembrar de Aristóteles (Grécia


Antiga). Ele foi o primeiro a se preocupar com essa questão, apontando a
semelhança que existe na relação personagem e pessoa.
Aristóteles se fundamenta em dois aspectos fundamentais no estudo da
personagem:
1 – A personagem como reflexo da pessoa humana.
2 – A personagem como construção, cuja existência obedece a ás leis
particulares que regem o texto.
De acordo com Aristóteles, não é ofício do poeta narrar o que realmente
acontece, é sim, representar o que poderia acontecer. Evidencia-se portanto, a
essência das possibilidades que o autor pode explorar.
Horácio, um poeta latino, considera a personagem não somente o fato de
reproduzir seres vivos, mas como algo a ser imitado, fazendo o reconhecimento
personagem-homem e incluindo também virtude.
Pode-se observar na idade média, que, a personagem é o alicerce de
aprimoramento moral, devido ao domínio cristão.
Alguns autores defendem a asserção de que a personagem deve cumprir a
melhor maneira que retrate o ser humano, nos séculos XVIII e XIX, entra em declínio
as concepções de personagem de Aristóteles e Horácio. Na realidade, é inserida
uma outra visão, tendo como fio condutor, o psicológico de seu criador, assim, os
seres fictícios mão são mais considerados como uma simples imitação do mundo
fora dos escritos, mas é feita uma projeção de modo e ser do criador.
De acordo com Forster, as personagens na espera da obra põem receber a
classificação em planas e redondas, a primeira são constituídas em volta em volta
29

de uma exclusiva idéia ou qualidade, não causam surpresa ao seu leitor, ela atingem
o alto grau de peculariedade sem deformação, enquanto as personagens redondas
tem suas definições por sua complexidade,mostrando diversas tendências e
qualidades, são dinâmicas,mostram-se com imagens apresentando totais e também
ao mesmo tempo com peculariedade do ser humano.
No século XX finalmente, a personagem é designada a um ser de linguagem,
recebendo sua própria fisionomia, personagem desvencilha-se suas relações com o
ser humano.
Para Philippe Hamon, ao mencionar personagens como sendo seres vivos é
uma posição incoerente e também banal, a personagem é considerada um signo e é
essencial selecionar um devido ponto de vista que constitui esse objeto, fazendo-lhe
a integração interior da mensagem designada como um “composto” de signos
lingüísticos.
Ainda na concepção de Philippe, existem três tipos de personagens:
1 – Personagens referenciais: são aquelas que correspondem a um sentido
fixo e pleno, estão relacionadas a cultura e geralmente são definidas de herói.
2 – Personagens “embrayeurs”: só fazem sentido na relação com muitos
outros componentes da narrativa, não correspondem a algum signo exterior.
3- Personagens anáforas: são aquelas que exigem uma maior percepção do
leitor, precisa de uma observação minuciosa que é o fio condutor para o leitor.
Já para Beth Brait, outros pontos são discutidos:

É imprescindível ressaltar que seria completamente um absurdo negar que


seria completamente um absurdo negar a relação entre personagens e
pessoa. As personagens representam pessoas segundo modalidades
próprias de ficção. (BRAIT, 2004, p.11)

Ainda e acordo com Brait, os autores classificam em quatro, as funções


aplicadas pela personagem no mundo fictício.

Os autores apontam quatro funções possíveis desempenhadas pela


personagem no universo fictício criados pelo romancista: elemento
decorativo, agente da ação, porta-voz do autor, ser fictício com forma
própria de existir, sentir e perceber os outros e o mundo. (BRAIT, 2004,
p.48)
30

5.2 A construção da personagem

Ao abordar a questão dos modos e caracterização de personagens, não


podemos deixar de mencionar o narrador, pois não há narrativa sem narrador.
Dentro da esfera da construção da personagem, é imprescindível utilizar a
comparação de narrador em 1ª e 3ª pessoa.
De acordo com o comportamento do narrador que será feita a caracterização
das personagens.
É certo o fato da narrativa ser feita em 3ª pessoa não corresponder a
personagens designados formados bons ou maus, pois geralmente o recurso do
narrador que está no exterior da história é considerado muito eficaz sendo
recompensado com a credibilidade do leitor.
Mas existe o narrador em 3ª pessoa que torna sua narrativa pessoal utilizando
de figuras de linguagem para expressar total ironia deixando bem claro a sua
repugnância em relação a personagem.

(...) o narrador coloca em contraste o valor semântico das palavras e as


figuras que estão sendo construídas, deflagrando um processo discursivo
que corresponde ao volume das personagens e a ironia com que são
caracterizadas. (BRAIT, 2004, p.60)

Incontestavelmente o autor, prenderá a atenção do leitor a partir de tais


recursos.

5.3 A personagem é a câmera

De acordo com Brait (2004, p.60) condução da narrativa por um narrador em


primeira pessoa implica, necessariamente, a sua condição de personagem envolvida
com os “acontecimentos” que estão sendo narrados.
Por isso o escritor seleciona recursos para descrever, definir, construir seres
fictícios que dão impressão da vida real, representada pelas personagens. O autor
ainda coloca que vemos tudo atrás da perspectiva da personagem, que, arcando
com a tarefa de conhecer-se e expressar esse conhecimento, conduz os traços e os
atributos que presentificam as demais personagens.
31

Num romance, o autor tem um receptor em mira, mesmo que este não esteja
nos acontecimentos. Ele escreve dando características à personagem, sua narrativa
recupera o passado de maneira sutil, mostrando no presente o interior da
personagem.

5.4 Resumindo as possibilidades de construção

Explanando o campo da personagem deve-se descorrer que quando pensa-


se em personagens que se tornam marcantes e imortais e que desenvolvem a
existência do homem no mundo é necessário mencionar autores como Machado de
Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Eça de Queiroz e inúmeros outros.
Seus personagens chegam muito próximos a realidade, pois tem seus
próprios movimentos. A prioridade desses autores é usufruir da sensibilidade e
articular a complexidade dos seres.

Nesse mundo de palavras,nessa combinatória de signos o leitor vai se


alfabetizar, vai ler o mundo e decifrar a sua existência. Nos olhos de
ressaca de Capitu (...) o leitor vai perseguindo, palavra por palavra, traço a
traço, uma construção que, pelo seu encadeamento particular, garante a
sua própria existência, a sua independência, criando os seus referentes e
abrindo um mundo de leituras. (BRAIT, 2004, p. 66-67)

A construção de uma personagem é formada por marcas que possibilitam


muitas leituras, suas interpretações não cabem somente ao leitor, mas aos indícios
estabelecidos pelo texto, direcionados de vários métodos.
A narrativa em primeira ou terceira pessoa, monólogos, os diálogos, a
descrição minuciosa ou sintética de traços, o tipo de discurso do autor, formam e
revigoram a existência dos seus personagens no papel. Para construir uma
personagem, é necessário obedecer a determinadas leis, e as pistas só o texto dará,
mas nem sempre essa obviedade é declarada. Muitas vezes a estilística, o
estruturalismo, a Psicanálise, a Sociologia ou qualquer outro referencial teórico,
fornece instrumentos para a construção de uma personagem.
32

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A discussão a respeito da suposta conduta da personagem Capitu, da obra


de Machado de Assis, levou e leva leitores a muitos questionamentos e também
impulsionou demais autores a analisarem o caso com mais cautela e atenção. Um
exemplo desses autores está em Fernando Sabino, que desenvolveu uma releitura
da obra Dom Casmurro intitulada Amor de Capitu, a fim de, apresentar a trama sob
a perspectiva de um narrador em 3ª pessoa, ou seja, um narrador que não tivesse
envolvimento algum com a personagem.
Porém, a obra de Fernando Sabino nada difere da obra de Machado de Assis,
pois se trata uma releitura fiel do romance original. Portanto, a finalidade da obra de
Sabino não está em “transformar” os fatos, mas sim, transportar o leitor para uma
leitura do romance sem as influências de um dos personagens.
Ainda a respeito da obra de Fernando Sabino, em seus comentários pessoais
da obra e Machado de Assis, ao se colocar no papel de leitor de Dom Casmurro,
defende a visão apresentada por Bentinho, e concorda com a suposta traição de
Capitu, logo, a mudança do foco narrativo não faz com que Capitu seja mais ou
menos infiel a Bentinho.
Posteriormente, ao analisarmos com mais detalhes as definições e casos a
respeito de linguagem e personagens fictícios (construção, definição, papel, etc.),
percebemos que, o autor é capaz de direcionar suas personagens e levar os leitores
a chegarem aos próprios fins que ele previamente estabeleceu.
A este fato, percebemos que está presente na obra Dom Casmurro a intenção
do autor de levar os leitores à tal julgamento de Capitu, já que desde o início do
romance, insistentemente faz sobre a personagem, comentários que por si
caracterizariam uma “mulher infiel”: olhos de ressaca, cigana oblíqua, dissimulada.
Fica claro o fato e que, ao ter esse primeiro contato com a personagem, a
partir da narração de Bentinho (o Dom Casmurro), o leitor carregará consigo já seus
pré-julgamentos a respeito de Capitu, o que se torna positivo para Bentinho, já que a
cada fato por ele apresentado, seria difícil duvidar de suas verdades, pois a primeira
impressão tida de Capitu confirmava que era verdadeiro o que relatava.
33

Nas palavras e Bakhtin encontraremos:

Na vida agimos assim, julgando-nos do ponto de vista dos outros, tentando


compreender, levar em conta o que é transcendente à nossa própria
consciência, assim, levamos em conta o valor conferido ao nosso aspecto
em função da impressão que ele pode causar em outrem (...) (BAKHTIN,
1992, P.35-36)

Ora, o que os leitores fazem, geração após geração, senão julgar Capitu pelo
ponto de vista de outrem; mesmo na releitura escrita por Fernando Sabino, Capitu
continua sem voz, sem a chance de contar e relatar as suas verdades, e tudo a ser
discutido se centraliza nas palavras e na versão de Bentinho, que acredita na traição
e deseja levar todos a acreditarem nele.
Podemos ainda fazer diferente, podemos tentar nos transportarmos para o
papel de Capitu, para a personagem Capitu, e tentar imaginar como nos defender
sem termos direito a palavra? Terminaremos definidos e julgados pelos olhos
daqueles que não conhecem o que de fato aconteceu.
Seria ainda correto afirmar que, a respeito da narração de Fernando Sabino, o
autor não se comprometeu em narrar os fatos estando no exterior do romance, mas
deixou que suas emoções e seus próprios julgamentos conduzissem parte da obra,
já que em tudo foi fiel a Machado de Assis e não buscou os fatos na visão de Capitu.
Não bastou mudar a perspectiva pelo narrador, seria preciso ainda mais se
quiséssemos defender Capitu, seria necessário dar voz a personagem.
Por fim, podemos dizer que, mais que desenvolver uma história, uma
seqüência de fatos, criar um romance de ficção, desenvolver uma trama, requer
muito mais que ter idéias e criar personagens. É necessário, compreender passo a
passo, a importância, necessidade e “poder” que um personagem traz nas histórias,
em suas falas ou fatos narrados, já que, da construção, do que está pré-
estabelecido para o texto, dependerá prender a atenção do leitor e fazer com que
viva com as personagens cada momento e cada sentimento, ou fazer da história,
apenas mais uma história.
Mais que atrair, um romance,uma ficção bem desenvolvida, é capaz de fazer
do leitor, um dos personagens, transportando-o para o mundo do imaginário e
levando-a viver mais de perto o que o autor deseja exprimir pela obra.

A ficção é um lugar ontológico, privilegiado: lugar em que o homem pode


viver e contemplar, através de personagens variadas, a plenitude da sua
34

conclusão, e em que se torna transparente a si mesmo; lugar em que,


transformando-se imaginariamente no outro, vivendo outros papéis e
destacando-se de si mesmo, verifica, realiza e vive a sua condição
fundamental de ser autoconsciente e livre, capaz de desdobrar-se,
distanciar-se de si mesmo e de objetivar a sua própria situação. (CANDIDO,
2005, p.48)

O “mistério de Capitu” não termina aqui com uma resposta, ou ainda com um
parecer pessoal. Mas encontramos aqui, definições suficientes que, nos permitem
pensar na possibilidade de que Machado de Assis, “manipulou” seus leitores até,
hoje, a conhecerem a Capitu que ele desejou mostrar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
35

ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. São Paulo: Ática, 1984.

FORSTER, Edward Morgan. In BAKHTIN, Mikhael. Marxismo e filosofia da


linguagem. São Paulo: Hucitex, 1992.

HAMON, Philippe. In BRAIT, Beth. A personagem. São Paulo: Ática – 7ª ed. 2004.

CANDIDO, Antonio. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 2005.

SABINO, Fernando. Amor de Capitu. São Paulo: Ática, 2003.

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