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Pater Fry Yvomu: Mttg~ie, Marcos Chor MaioJ

Sim,one Monteiro) I<icardo Ventura Santos


(organizadores)

Divisões perigosas:
políticas raciais no Brasil
contemporâneo

CJVILIZAÇA.O BRASILEIRA

Rio de Janeiro
2007
l'l\llTE 1 Raça, ciência e história

"Nenhuma pessoa de hoje tem culpa do que ocorreu no pafs há sé-


culos. Não se pode punir os que não têm acesso a cotas ou ficará
implfcito que os brancos pobres são escravocratas. Temos que aca-
bar com o racismo de um lado e de outro.,*

Ferreira Gullar

I "Con••/11 111,1 11/t~lllfl, I~ dl• julho de 200/i, p. 2.


"A construção do conceito de 'raças humanas' foi o empreendimento mais
ln1portante da ciência no século XIX" (Benjamin, p. 29).

"I...] pode parecer fácil distinguir fenotipicamente um europeu de um afri-


cnno ou de um asiático, mas tal facilidade desaparece completamente quan-
do procuramos evidências dessas diferenças 'raciais' no genoma das
pessoas" (Pena, p. 39).

"Certamente, a humanidade do futuro não acreditará em 'raças' mais do


que acreditamos em bruxaria" (Pena, p. 45).

''[. .. ]as formas politicamente corretas da modernidade[... ] continuam are-


produzir um africano genérico, racializado, cuja história é rasa e se resume
a uma contabilidade social de débitos e créditos" (Trajano Filho, p. 56).

"O Brasil pode vir a se tornar um país dividido entre negros e brancos,
sim, trocando a valorização da mestiçagem pelo orgulho racial" (Pinto de
Góes, p. 59).

"Os revisionistas escreveram( ... ] que a Lei Áurea foi a conclusão de um


programa das elites, pontuado pelas leis do Ventre-Livre e dos Sexagenários,
para a plena implantação do capitalismo no Brasil" (Magnoli, p. 65).

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w , ... , ., "' .. ., , " • v "-' ~ " , , ,. \./ 1 1 , 1 , " ., "1'\ '" 1~ ,.., \J n n " -. 1 1 u N 1 1 M I' O lt f\. N I O

"Mesmo que, até agora, nesse infcio do sécul o XXI, ainda estejamos pro-
curando os melhores meios para dar concrctude ao valor da igualdade, é
ele que nos anima quando pensamos sobre a socied ade brasileira que
queremos" (Venancio, p. 73).

"A doença generalizada passou, então, a ser apontada como razão para o
atraso nacional, permitindo que fossem revistas idéias sobre a inferiorida-
de racial dos brasileiros" (Lima e Sá, p. 79).

Tortuosos caminhos
"Apesar de nosso atual debate sobre a política de cotas contar com a par-
ticipação de grandes historiadores, por vezes parece que, curiosamente, a César Benjamin*
história não ocupa o lugar merecido" (Vainfas, p. 85).

"[... ]a miscigenação virou elemento civilizacional positivo e válido. E além


de válido, valioso... " (Florentino, p. 93).

"A questão racial aprisiona e imobiliza a própria condição humana possí-


vel, a virtualidade que não se cumpre em relação a todos, não só os ne-
gros" (Martins, p. 98).

I •Revista Caros Amigos, n° 63, 2002.

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lll nvt•lt 111do o ano eleitoral, o presidente Fernando Henrique anun-
h H1 o opoio do governo federal a um conjunto de medidas politi-
' l ll lt' lll • corretas, com destaque para o reconhecimento civil da

! Hti n de pessoas de mesmo sexo e a reserva, para negros, de 20 por


t t til t 1 dns vagas no serviço público. A primeira medida, proposta há
tll\lll lll nnos pela então deputada Marta Suplicy, é um avanço: duas
I''''<'IOas adultas podem decidir quem desejam amar e com quem vão
vívt•r·, c qualquer união estável deve ser geradora de direitos, res-
lll' tl•tndo-se a vontade expressa por ambas as partes. A mesma ela-
' t'/1\ n:'io se aplica, a meu ver, à segunda medida, também defendida

pnr· grande parte da esquerda. É que o combate ao racismo freqüen-


lc•mcnte envereda por tortuosos caminhos.
A construção do conceito de "raças humanas" foi o empreendi-
til ·nto mais importante da ciência européia no século XIX. Nessa

~ poca, uma parafernália de métodos estatísticos e de sistemas de


rncdição de cada parte do corpo lançou as bases de uma antropolo-
1\Ín ffsica que tentou classificar os grandes grupos humanos, estabe-
1·ccndo correlações entre características aparentes e aptidões. O
I rnbalho consumiu décadas, envolveu cientistas prestigiosos e pro-
duziu grande quantidade de resultados numéricos aparentemente
respeitáveis, com suas respectivas interpretações. O sentido desse
esforço era óbvio. Ele visava a estabelecer bases biológicas que legi-
Limassem a expansão colonial das potências européias, então a ple-

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no vapor. O colonia lisrn o passava :1 se r uma expressão dn SUJJrcma- ( > pt·int ciro: o c l n ss ifi cn~·flo dc grupos hum::~ nos co m base na
cia natural de povos mais aptos. 1 11 1 d,, pt• lt.: (c outros ntriburos ::~ssoc i::~d os, co rno a fo rma doca-

No século XX, com o desenvolvimento da genética e da biologia ltt lc•) vi11fv el nos o lhos c, como t::tl, "evidente". Brancos são bran-
molecular, o estudo do corpo humano ultrapassou largamente os as- ' " ~ c• t~ c g r os são neg ros. Po rém, há muito te mpo a ciência
pectos morfológicos mais aparentes, como a cor da pele, que servi- tptc' tHI ·u n desco nfia r de " evidências". Também não é " eviden-
ram de base para as classificações anteriores. Passamos a comparar os 11 " qll t' o So l gira em to rno da Terra? Não é "evidente" que a
organismos a partir do conhecimento de estruturas muito mais ínti- lc•t t ,, ~ pbn::t? O processo de conhecimento é sempre a supera-
mas e fundamentais. Os resultados demoliram as bases conceituais \. lt 1 dt· "evidências". O mesmo ocorreu nesse caso. O que deter-
das pesquisas anteriores. Ficou demonstrado que, ao longo da evolu- l t ll tll n co r d e uma pessoa é a quantidade de uma proteína
ção, os grupos humanos conservaram uma semelhança espantosa; 1 lt III H lda melanina, que todos temos na pele. Assim, quando usa-
compartilham a mesma herança, com variações insignificantes. 111111 n co r da pele como critério de classificação, estamos afir-
As variantes genéticas que se encontram entre duas pessoas es- 111 111do q ue as pessoas devem ser agrupadas e separadas conforme
colhidas aleatoriamente em um mesmo grupo (dois nigerianos, por 1 qua ntidade de melanina que produzem. Mas a melanina é ape-
exemplo) não divergem estatisticamente das diferenças existentes lt l 'i lllll :l das 80 mil ou 100 mil diferentes proteínas que compõem
entre duas pessoas de grupos distintos (um nigeriano e um sueco, IIO M•O co rpo. Surge a questão : por que ela, e não outra proteína
por exemplo). Do ponto de vista genético e bioquímica, não se des- qt c:dqu er, deve ser usada como referência?
cobriu nenhum critério válido para juntar ou separar as pessoas. Es- Seguindo essa trilha, a ciência contemporânea obteve resultados
tabeleceu-se um consenso de que as diferenças observáveis na ltct'prccndentes. Se usarmos a melanina como critério classificador,
linguagem, nos costumes, nos valores, nos atributos morais, nas ati- m: suecos Johansson e Peter pertencerão a uma "raça", enquanto os
tudes estéticas etc. não são biologicamente determinadas. Desde en- nige rianos Kumbere e Tongo pertencerão a outra. Mas, se usarmos
tão, o conceito de "raças humanas'' foi remetido ao museu onde estão Olttra proteína qualquer, nada impede que Johansson e Kumbere
expostas à galhofa as afirmações de que a Terra é plana, de que lttl egrem a mesma "raça", pela semelhança de sua composição bio-
habitamos o centro do universo, de que os corpos graves tendem qt~fmi ca nesse aspecto, enquanto Peter e Tongo integrem uma ou-
ao repouso e outras idéias que (des)organizaram o pensamento da tra. O mesmo procedimento pode se repetir quantas vezes se desejar,
humanidade ao longo da História. Afirmou-se, em seu lugar, a uni- gc rnndo infinitos rearranjos quando se considera a humanidade
dade essencial da nossa espécie. É claro que isso não esgota o proble- como um todo. Havendo uma infinidade de "raças" possíveis, é claro
ma. Pois, apesar de cientificamente inepto- por não corresponder qu e não há "raça" alguma.
a nada que exista no mundo biológico-, o conceito de "raça" con- Um segundo motivo para a sobrevivência ideológica desse con-
tinua a existir como fato ideológico e cultural. Creio que pelo me- ceito é que tal classificação, como outras, corresponde a interesses.
nos três motivos ajudam a entender por que esse cadáver permanece Pois o ato de classificar é também, necessariamente, um ato de
insepulto e continua a perambular pelo mundo. hierarquizar: o grupo que inventa a classificação ocupa, invariavel-

3 o 3 1
1 011 fUO~O~ CAM INII O<

mente, o topo da escala. (Ne nhuma classificação reflete "o real"; 11


hH tendências. Processo, é claro, assimétrico, como todos
1111 1I'.IS
todas são invenções, mais úteis ou menos úteis.) .- dt' lllllill, em uma sociedade de resto tão desigual.
O terceiro motivo é um pouco chocante: a idéia de que existam ( ;0 111o resul tado, não somos nem brancos nem negros - somos
raças humanas, dotadas de diferentes aptidões, não contraria ne- 1111 "' i'.-OS. Biológica e culturalmente mestiços. Aqui, mais do que em
nhuma lei da biologia. Portanto, não é absurda. Quando popula- 1p11 11q 11 cr outro lugar, a tentativa de constituir uma identidade ba-
ções de uma mesma espécie se separam geograficamente e se 1 ,11h1 1m ''raça" é especialmente reacionária. A afirmação, que tan-
reproduzem isoladas ao longo de muitas gerações, elas tendem a 1 1, vt·~cs j:l ouvi, de que o Brasil é o país mais racista do mundo é
acumular diferenças, que podem se inscrever em seus códigos gené- 111 111 pntética manifestação de nosso esporte nacional favorito- falar
ticos e, a longo prazo, resultar em raças diferentes. Isso ocorreu em ltllll d · nós mesmos.
muitas espécies animais (pastores alemães e pequineses são diferen- s elementos culturais e ideológicos racistas, que subsistem en-
tes raças de uma mesma espécie de animal, o cão) e também come- lll' 11 6s, não interromperam nem conseguirão interromper o pro-
çou a ocorrer na espécie humana. ' 1.,,., 0 de construção de uma sociedade mestiça, cuja unidade tem
A partir de um contingente originário da África, o Homo ido dada pela bela capacidade de criar e recriar uma cultura de sín-
1111

sapiens se espalhou pelo mundo, e seus subgrupos começaram a 1 'll'. Mesmo assim, aqueles elementos precisam ser combatidos. Mas
acumular diferenças. Se o isolamento demorasse muito mais tem- 11!·fl nir cotas será o melhor caminho? Devemos fixar o que não é
po, provavelmente produziria "raças" humanas. Mas nossa espé- l iXO, separar o que não está separado? Quem é negro e quem é bran-
cie é muito recente, e sua divisão em subgrupos isolados não foi l 0 no Brasil? Onde está a fronteira entre ambos? E os brancos po-
suficientemente longa. A humanidade cresceu, multiplicou-se, hrcs, que são muitos, como ficam?
deslocou-se e ocupou todo o planeta. A história produziu logo um Melhor do que copiar também nisso os Estados Unidos- uma
grande reencontro. Com ele, o intercâmbio genético voltou a pre- Nocicdade multiétnica, mas não essencialmente mestiça- seria, por
valecer amplamente, interrompendo a incipiente tendência ante- e;·xcmplo, garantir uma escola pública universal, gratuita e de boa
rior. Reiniciou-se um processo de homogeneização, antes que se qualidade, em que todas as crianças convivessem e recebessem a
formassem raças diferentes. Nossa unidade humana fundamental mesma educação fundamental. Crianças que brincam em play-
é um fato histórico, e não uma imposição metafísica ou uma lei grounds, viajam em automóveis vedados e estudam em escolas p:u--
biológica. t icu lares altamente seletivas tendem a crescer com medo e ratva
A fusão de subgrupos humanos, acelerada na modernidade, foi dos diferentes. Crianças que freqüentam espaços públicos e têm
mais radical no Brasil do que em qualquer outra parte do mundo. amigos de todas as cores dificilmente serão adultos racistas.
Sociedade recente, nascemos no exato momento em que o reencon-
tro se acelerou. Dadas as características da colonização portuguesa
e nosso papel na divisão mundial do trabalho, fomos levados a rea-
lizar um monumental processo de miscigenação, que predominou

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Receita para uma humanidade
desracializada
Sérgio Pena *

• Revista Ciência H o;e Online, setembro de 2006. Direitos cedidos pela edito ra Vieira
& Lcnt.
I !.1l nlun::t deste mês vamos viajar novamente à Grécia, mas em uma
• 1111~ 1l mnis antiga ainda, para visitarmos Tales de Mileto (624 a.C.-

' lt1 1. '.),considerado o pai da filosofia ocidental. 1 Tales queria des-


• 11h1 h·, por meio de reflexão racional, alguma substância material

lwtd 111"\Cntal que pudesse explicar toda a constituição do mundo vi-


l Vi I. Após muito matutar, chegou à conclusão de que tal substância

1 1 1 1 6gua, pois a partir dela era possível explicar os outros três ele-
IIII' II LOS principais (terra, ar e fogo}: a terra é água sólida, o ar é água
1,ll'<'fcila e o fogo é ar rarefeito, ou seja, água duplamente rarefeita.
Mas onde foi que Tales arrumou uma idéia tão estranha? Por
q11 • não considerou a terra simplesmente terra, o ar, ar e o fogo,
lngo? Para entender isso, temos de traduzir a afirmação "tudo é
11
I J\ ll:1 do "metafisiquês", o jargão da filosofia. Ela quer dizer o se-

)\ttintc: o mundo que percebemos é caracterizado por uma grande


dive rsidade, mas essa diversidade é apenas aparente e por trás dela
<•x iste uma unidade fundamental. Prestem atenção à sofisticação
dt:ssc raciocínio. Com Tales, nasceu não só a filosofia ocidental, mas
tombém o pensamento científico.
Quando estudamos os seres humanos, também observamos uma
l',rnnde diversidade morfológica, que pode ser descrita em dois ní-

1As colunas de Sérgio Pena para a revista Ciência Hoje, publicadas mensalmente,

estão disponíveis em http://cienciahoje.uol.com.br/.

3 7
DI V I S 0 GS I' U11 I Ci 0 S 11 ~ I P (;) L fll 11 \ 11 /1 I /1 1~ N 0 IJ 11 11 ~ l l (:) N I UM I' (J 11 i\ N I O 111 (;U it /11'/lll/1 UM/I II UM/\NII}/\1)1 1)~ 0
111\ C I/\11/ 1\IJ/1

veis diferentes. O primeiro é o nível interpessoal, a diversidade que ltlJlllell 110 meio ambiente, sendo assim produtos da seleção natural
distingue uma pessoa da outra na mesma população e que está inti- tnlw ln rmbr·c um pequeno número de genes.
mamente ligada à identidade individual. O segundo é o nível A~ t't·dita-sc, por exemplo, que dois fatores seletivos sirvam para
interpopulacional, ou seja, a diversidade morfológica que caracte- uloqtllt r• n cor da pele aos níveis de radiação ultravioleta do ambien-
riza populações, especialmente grupos de diferentes continentes. '' 1\"0/)I'~ fi co : a destruição do ácido fólico, quando a radiação é
A segunda diversidade é relevante, pois historicamente tem servi- ' 1 t''l' Ivo, c a falta de síntese de vitamina D3 na pele, quando é

do de base para a divisão da humanidade em "raças". A mais influen- ltr tdl ·icntc. A cor da pele é determinada pela quantidade e tipo do
te proposta nesse sentido foi a do antropólogo alemão Johann l''ll "lt'nto melanina na derme, que são controlados por poucos genes
Friedrich Blumenbach (1752-1840). Na terceira edição de seu livro (dt• quntro a seis), dos quais o mais importante parece ser o gene do
De generis humani varietate nativa ("Das variedades naturais da hu- 1t'l t' p l o r do hormônio melanotrópico.
manidade"), propôs a existência de cinco principais "raças" huma- no mesma maneira que a cor da pele, outras características físi-
nas: a caucasóide, a mongolóide, a etiópica, a americana e a malaia. i etil ~·x ternas, como o formato da face, da fissura palpebral, dos lábios,

A "raça" que incluía os nativos da Europa, Oriente Médio, nor- dn tHtriz e a cor e a textura do cabelo são traços literalmente super-
te da África e Índia foi chamada "caucasóide" porque Blumenbach llln is. Embora não conheçamos os fatores geográficos locais res-
achava que o "tipo" humano perfeito era o encontrado nos habi- prms~veis pela seleção dessas características, é razoável assumir que
tantes das montanhas do Cáucaso. Essa classificação persistiu até o t' 11.t:fl t raços morfológicos espelhem adaptações ao clima e a outras
século XX, quando foi demonstrado, como veremos a seguir, que é vul'i6vcis ambientais de diferentes partes da Terra.
impossível separar a humanidade em categorias raciais biologica- Assim como a cor da pele, essas características físicas das por-
mente significativas, independentemente do critério adotado. ~ l'>es expostas do corpo dependem da expressão de poucos genes.
A descrição das variabilidades morfológicas interpessoal e R ·sumo da ópera: as diferenças icônicas das chamadas "raças" hu-
interpopulacional pertence à esfera das aparências, ao mundo Jnn nas correlacionam-se bem com o continente de origem, mas de-
fenotípico. Se agora penetrarmos no mundo genômico, o quadro p(;Jldcm de uma porção ínfima dos cerca de 25 mil genes estimados
muda consideravelmente. Subjacente à individualidade morfológica do gcnoma humano.
das pessoas realmente existe uma individualidade genômica abso- Em outras palavras, pode parecer fácil distinguir fenotipicamente
luta. Estudos do DNA demonstram que cada ser humano é geno- 11111 europeu de um africano ou de um asiático, mas tal facilidade
micamente diferente de todos os outros, com exceção de gêmeos desaparece completamente quando procuramos evidências dessas
idênticos. diferenças "raciais" no genoma das pessoas. As diferenças entre os
No entanto, a representação genômica mostra que a variabili- ~rupos humanos continentais- ou seja, o que se costumava cha-
dade entre os grupos humanos dos diferentes continentes - ou seja, mar "raças" humanas- estão literalmente à flor da pele!
as ditas "raças" humanas- é muito pequena. As características fí- Em uma conferência proferida em 2004 na Universidade de
sicas desses grupos na realidade representam adaptações morfo- Bcrkeley (Estados Unidos), o brilhante geneticista norte-americano

3 8 3 9
Richard Lewontin fez uma importante observação a respeito dos A 1 tlllll •tn çno de que uma parte muito pequena da variação
níveis de diversidade humana. Uma marca de preconceito é ver a 1 ' tt fl ll lli.ll humana ocorre entre as supostas "raças" leva necessaria-
humanidade em termos apenas interpopulacionais, ou seja, a inabi- 1111 1111 ·onclusão de que elas não são significativas do ponto de
lidade de reconhecer em outros grupos "raciais" a individualidade I 1 1 I\I' IH~ Iico ou biológico. Duas outras linhas separadas de pes-
de cada pessoa. Isto é freqüentemente expresso na frase: "Eles pa- qttl ,, d ~) suporte científico a essa inexistência de "raças" humanas.
recem todos iguais, mas nós somos todos diferentes uns dos outros." 1'll 1111'im é a constatação de que a espécie humana é muito jovem
Ao ser negada a individualidade dos membros de outros grupos, eles 1 '" 11 padrões migratórios demasiadamente amplos para permitir

são objetivados, desumanizados. É como dizer: "Eu sei a 'raça' a 111111 diferenciação e conseqüentemente separação em variados gru-
que ele(a) pertence, portanto já sei tudo que é possível saber a res- 1"' Iti o lógicos que pudessem ser chamados de "raças". A segunda é
peito dele(a)." 1 ttiiiCI'voção de que uma proporção pequena de todos os alelos de

É possível saber qual proporção da variabilidade genômica hu- p11 llllOrfismos humanos é vista em apenas um continente, ou seja,
mana ocorre em nível interpessoal (dentro das populações) e qual 1 Vt l' tn maioria da variabilidade genômica é compartilhada entre as
proporção é interpopulacional (entre as populações)? A resposta é: 1 lhtllll\das "raças".

sim. Em 1972, Lewontin compilou da literatura científica as freqüên- O fato assim cientificamente comprovado da inexistência das
cias alélicas de 17 polimorfismos genéticos clássicos disponíveis na • 1.1ças" deve ser absorvido pela sociedade e incorporado às suas

época (incluindo grupos sangüíneos, proteínas séricas e isoenzimas) 1 1111Vicções e atitudes morais. Uma postura coerente e desejável se-

de diferentes populações. 2 A partir desses dados, ele agrupou as dife- ' 1 1 1 construção de uma sociedade desracializada, na qual a sin-
rentes populações em "grupos raciais" definidos de acordo com 1\lll.tridade do indivíduo seja valorizada e celebrada. Temos de
Blumenbach e calculou a diversidade dentro desses grupos e entre eles. ll'l'lÍ. milar a noção de que a única divisão biologicamente coerente
O resultado foi que 85,4% da diversidade alélica ocorriam den- clo espécie humana é em bilhões de indivíduos, e não em um pu-
tro das próprias populações, 8,3% entre as populações de uma ll hodo de "raças".
mesma "raça" e apenas 6,3% entre as chamadas "raças"! Recente- 1lá um poema atribuído ao romano Virgílio (70 a.C.-19 a.C.)
mente, nosso grupo de pesquisa na Universidade Federal de Minas 11 0 qual ele descreve a feitura do moretum, uma massa não fermen-

Gerais (UFMG), trabalhando com 40 polimorfismos de inserção- 1 tda, assada, recheada com vinagre e azeite, coberta com fatias de
deleção de DNA em 1.064 indivíduos de todo o globo, confirmou d ho e cebola crua (há quem acredite que o moretum é um dos pre-
amplamente os resultados de Lewontin.3 cursores da pizza). Na receita, Virgílio descreve como as várias cores
dos diferentes ingredientes vão se mesclando e se unindo: It manus
2
in gyrum: paulatim singula vires deperdunt proprias; color est e
R.C. Lewontin, "The apportionment of human diversity," Evo/utionary Bio/ogy, n.
6, p. 381-398, 1972. fJiuribus unus (minha tradução: "Sua mão se move em círculos, até
l L, Bastos-Rodrigues, J.R. Pimenta e S.D.J. Pena, "The genetic structure of human
que um por um eles perdem seus próprios poderes e, entre tantas
populations studied through short insertion-deletion polymorphisms", Anna/s o(
Human Genetics, n. 70, p. 658-665, 2006. cores, uma única emerge").

4 o 4 ,
~ ·. · •v • • r " ' "'" "' ' 1'\JI I II A ' 11 1\ CII\ IS NO 1111115 11 t O N 11 MI1U II A NI 0

Nesta época de conflitos de civilizações c recrudescimento ele


ódio étnico e racismo, precisamos esquecer as diferenças superfi-
ciais de cor entre os grupos continentais (vulgos "raças") e por trás
da enorme diversidade humana distinguir uma espécie única com-
posta de indivíduos igualmente diferentes e irmãos. Color est e
pluribus unus.

Ciências, bruxas e raças


Sérgio Pena*

I •folha de S. Paulo, 2 de agosto de 2006.

4 2
C:t• r·rnmente, a humanidade do futuro não acreditará em "raças" mais
do que acreditamos hoje em bruxaria.
Do ponto de vista biológico, raças humanas não existem. Essa
l tlJ1Sl:.ltação, já evidenciada pela genética clássica, hoje se tornou um

l.uo científico irrefutável com os espetaculares avanços do Projeto


:c•noma Humano. É impossível separar a humanidade em catego-
1J 1 biologicamente significativas, independentemente do critério
lll;,ldo c da definição de "raça" adotada. Há apenas uma raça- a
lttllll:lna. Sabemos, porém, que raças continuam a existir como cons-
lt iiC,.lh:s sociais. Alguns chegam mesmo a apresentar essa constatação
t 11111 to m ele inevitabilidade absoluta, como se o conceito de raça

I111,• t· 11m dos pilares da nossa sociedade. Entretanto, não podemos


111' 1 111 i ti r que tal construção social se torne determinante de toda a
llt t• •,,, vi são de mundo nem de nosso projeto de país.
Etll rece nte artigo na Revista USP, 1 eu e a filósofa Teima Birchal
d!·l<'lltk mos a tese de que, embora a ciência não seja o campo de
' 11 tnr m dos mandamentos morais, ela tem um papel importante na
lt l>; t' tH,'I o da esfera social. Ao mostrar "o que não é", ela liberta, pelo
jH td n de nfnstar erros e preconceitos. Assim, a ciência, que já de-
i 111 111 / ll' tl ll n i ncxi stência das raças em seu seio, pode catalisar a

"• l 't' ll ll
-
c 'J:S. 1\trchnl , "A lncxistCncin biológico versus n cxisrencin social de raças
1111111111111 ~ 1 pude o dOndn lusu·dir· tl c iOS soculi ?" /{otllstn USI', n. 22, p. 10·2 1, 2006.

11 'I
' ION 1/U, OII UXAS U 1\ AÇfiS

desconstrução das raças como entidades socia is. I 15 um intpo rtante


•••Hdo unidimensional de hútu, que, como tal, deveria necessaria-
precedente histórico para isso.
lt ii'III C odia r tútsis.
Durante os séculos XVI e XVII, dezenas de milhares de pessoas
l'do contrário, em sua pluralidade de identidades ele pode com-
foram oficialmente condenadas à morte na Europa pelo crime de
lhltli lltm· interesses e encontrar elementos para simpatia e solidarie-
bruxaria. As causas dessa histeria em massa são controversas. Obvia- d,td c com um outro indivíduo que também é ruandês, negro,
mente, a simples crença da época na existência de bruxas não é su- ~~~d ~n no, colega médico, tenista e cantor lírico, e que, entre tantas
ficiente para explicar o ocorrido.
tH ilt'.tS identidades, também é da etnia tútsi.
É significativo que a repressão à bruxaria tenha vitimado pri- Em conclusão, devemos fazer todo esforço possível para cons-
mariamente as mulheres e possa ser interpretada como uma forma l t l dr uma sociedade desracializada, na qual a singularidade do indi-
extrema de controle social em uma sociedade dominada por homens. v(duo seja valorizada e celebrada e na qual exista a liberdade de
Mas, indubitavelmente, a crença em bruxas foi essencial para ali- w umir, por escolha própria, uma pluralidade de identidades. Esse
mentar o fenômeno. Assim, podemos afirmar que, na sociedade dos nuho está em perfeita sintonia com o fato, demonstrado pela ge-
séculos XVI e XVII, as bruxas constituíam uma realidade social tão II ~ Li ca moderna, de que cada um de nós tem uma individualidade
concreta quanto as raças hoje em dia. De acordo com o historiador g1·nômica absoluta que interage com o ambiente para moldar a nos-
Hugh Trevor-Roper, o declínio da perseguição às bruxas foi em gran- ,, exclusiva trajetória de vida. Alguns certamente vão tentar rejei-
de parte causado pela revolução científica no século XVII, que tor- t 111' essa visão, rotulando-a de elitista e reacionária. Mas, como ela é
nou impossível a crença continuada na bruxaria. tliccrçada em sólidos fatos científicos, temos confiança em que, ine-
Analogamente, o fato cientificamente comprovado da inexis- vit:welmente, ela será predominante na sociedade. Talvez isso não
tência das "raças" deve ser absorvido pela sociedade e incorporado ocorra a curto prazo aqui no Brasil, principalmente se o Congresso
às suas convicções e atitudes morais. Uma atitude coerente e dese- l'<Jmeter a imprudência de aprovar o Estatuto da Igualdade Racial,
jável seria a valorização da singularidade de cada cidadão. Em sua o qual forçará os cidadãos a assumir uma identidade principal ba-
individualidade, cada um pode construir suas identidades de ma- Ncada na cor da pele.
neira multidimensional, em vez de se deixar definir de forma única Um pensamento reconfortante é que, certamente, a humanidade
como membro de um grupo " racta . 1" ou "de cor , . do futuro não acreditará em raças mais do que acreditamos hoje em
Segundo o nobelista Amartya Sen, todos nós somos simultanea- bruxaria. E o racismo será relatado no futuro como mais uma abo-
mente membros de várias coletividades, cada uma delas nos confe- minação histórica passageira, assim como percebemos hoje o dispa-
rindo uma identidade particular. Assim, um indivíduo natural de rate que foi a perseguição às bruxas.
Ruanda pode assumir identidades múltiplas por ser, por exemplo,
africano, negro, da etnia hútu, pai de família, médico, ambientalista,
vegetariano, católico, tenista, entusiasta de ópera etc. A consciência
de sua individualidade e dessa pluralidade lhe permite rejeitar o

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