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O CRISTÃO E O LIBERTARIANISMO

Linare Militades
Sumário

Introdução – 1

Igreja e estado na história – 3

Dai a César o que é de César – 5

Carta aos romanos e a autoridade – 7

Quanto a DSI – 10
Introdução

Desde alguns anos para cá, me interessei bastante sobre política e filosofia, o que me
levou com o tempo a conhecer e aderir ao libertarianismo por alguns livros anarquistas e
amigos meus que conheciam sobre o assunto. Isso tudo me fez frequentar debates, que na
realidade não tinham realmente o objetivo de chegar a verdade, apenas de usar sua retórica
contra um oponente mais acanhado. Assim, logo comecei a debater principalmente com
nacionalistas, fascistas clericais e outros membros da chamada alt right, que nunca
apresentavam argumentos consistentes contra minhas ideias, apenas diziam que eram
heréticas, e por isso eu estava errado mesmo sem uma discussão.

Um fato engraçado era que quase todos esses nacionalistas eram anteriormente
libertários, liberais e outras ideias bem parecidas com a minha, mas tomaram uma tal de
redpill e agora sabiam magicamente que tudo o que a escola austríaca estudou estava
errado, por isso eram agora de “terceira posição”. Não sei exatamente o motivo de que
eles largaram o livre comércio para uma ideologia tão doentia como o fascismo (seja lá
qual vertente), mas é bastante visível que seja sobretudo pela estética cult destes
movimentos. Um líder forte que carrega a nação nas costas e une ela por sua incrível
moral e cultura, o militarismo, a aversão a comunistas e a sensação de estar sendo
malvadão certamente atrai o jovem moderno, principalmente pela onda de degeneração
que assola o mundo atual. Porém, isso não é nada racional, o estado corporativo apresenta
sérios defeitos já apontados pela escola austríaca a intervenção estatal, é visível que o
déficit italiano de 406 bilhões de liras não surgiu por acaso, mas não vou simplesmente
apontar os horríveis problemas econômicos de regimes fascistas por mais tempo, já que
nem todos os críticos do libertarianismo são nacionalistas (por mais que a maioria seja).

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O problema é que sou católico, e não conseguia compreender a razão da qual eu estava
sendo um herege, já que até onde sabia, Jesus não veio a terra falar de política humana
como o meu padre local dizia. Por isso, comecei a estudar a fundo sobre a vida de Jesus
e a visão da igreja sobre a política, e de fato, o padre estava certo (coisa que eu já sabia,
porém o que ele dizia era extremamente vago). E neste livro, procuro responder todos os
argumentos que já me chegaram contra a minha visão que posso ser libertário e cristão
assim como poderia ser de qualquer outra ideologia (obviamente, não poderia defender
um governo que perseguisse cristãos, como o estado soviético, mas isso são apenas
exceções).

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Capítulo 1 – A questão histórica

Desde Constantino a igreja e estado são supostos amigos, com o governo sendo “cristão”,
e isso seria o suficiente para invalidar o libertarianismo cristão, certo? Errado.

O cristianismo no Império Romano já estava consolidado e não havia forma dos pagãos
romanos pararem a cristandade, cristandade essa que se estendia agora de ponta a ponta
do Mediterrâneo, crescimento tamanho que o próprio imperador Constantino se converteu
ao cristianismo (não se sabe se foi sincero, mas isso não é uma discussão que cabe a mim),
e em 380 o estado romano se torna cristão. Mas não vamos nos iludir e olhar apenas para
o lado bom, os interesses de Constantino mesmo que ele tenha se tornado cristão ainda
existia sobre a igreja. Pela tradição romana, o imperador era também o chefe religioso,
um ser quase que mítico, em todo o Império Romano existia a adoração ao imperador,
com diversas cerimônias e sacrifícios, interessante que justamente por isso que os cristãos
foram perseguidos por Roma, o cristianismo por definição nega interferência do
imperador sobre os assuntos religiosos, o cristianismo era contra a autoridade romana.

Porém, após a conversão de Constantino, esse costume de ter o imperador acima da igreja
começou, o chamado cesaropapismo. Agora o imperador comandava a religião,
interferia na doutrina, convocava concílios e etc. Como bem dizia Jacques Ellul:

“O papa se tornou o papa interno, o imperador o externo. As muitas cerimônias


(coroações, te déums), tinham em seu íntimo a ideia de que a igreja deveria servir ao
estado, ao poder político, e garantir a submissão do povo a isso.”1

1. Anarquia e cristianismo por Jacques Ellul, p. 14


A tradição de um César comandando a vida espiritual continuou por todo o Império
Romano e seus sucessores, posso citar a Controvérsia dos Três Capítulos no reinado do
Justiniano I. A prisão do Papa Martinho I por Constante II, que por pouco não resultou
na morte do Bispo de Roma. Também houve a nomeação e deposição de autoridades
religiosas (inclusive papas) durante o Império Carolíngio e Sacro Império Romano,
além de imperadores bizantinos adeptos da heresia iconoclasta, por motivos políticos.

Creio que já expus o suficiente para quanto a situação da igreja nas chamadas
“monarquias (estados) católicos” que delegavam para si o título de Império Romano, e
que a igreja na verdade sempre esteve em posição de vassalo dos imperadores. O
mesmo acontecia fora de Roma (mesmo que em menor escala), jesuítas como Juan de
Mariana e os jesuítas brasileiros sofreram nas mãos dos governos ibéricos. Também há
o famoso papado de Avinhão, quando o rei Felipe IV obrigou os papas a residirem na
França entre 1309-1377.

Não irei me estender mais nos conflitos do estado e igreja, mas já está claro que eram
comuns os casos onde o estado infelizmente queria ter a igreja para si, porém, graças a
Deus também houve períodos de autoridades fiéis a religião, e que o estado e igreja
foram conciliados, cada um respeitando o outro. O que quero propor com tudo isso?
Ora, quero retornar ao senso comum que se perdeu no meio dos delírios incessantes de
católicos que se envolvem com política, o estado e igreja tem de ter cada um sua
autonomia.

Toda essa narrativa que insiste em tratar o estado como o novo Bispo de Roma é
reforçada pela má interpretação das sagradas escrituras com um olhar anacrônico, as
passagens utilizadas são, geralmente: Romanos 13 e Mateus 22.

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Capítulo 2 – “Dai, pois, a César o que é
de César”

O texto onde supostamente Jesus nos manda pagar impostos é este:

16. Enviaram seus discípulos com os herodianos, que lhe disseram: "Mestre, sabemos
que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em toda a verdade, sem te preocupares
com ninguém, porque não olhas para a aparência dos homens.

17. Dize-nos, pois, o que te parece: É permitido ou não pagar o imposto a César?".

18. Jesus, percebendo a sua malícia, respondeu: “Por que me tentais, hipócritas?

19. Mostrai-me a moeda com que se paga o imposto!”. Apresentaram-lhe um denário.

20. Perguntou Jesus: “De quem é esta imagem e esta inscrição?”.

21. “De César” – responderam-lhe. Disse-lhes então Jesus: “Dai, pois, a César o que é
de César e a Deus o que é de Deus”.

22. Esta resposta encheu-os de admiração e, deixando-o, retiraram-se."

Ora, para quem lê isso desapercebido realmente dá a entender que Jesus estaria se
metendo em assuntos mundanos como a questão do tributo, porém, a verdade é que: os
herodianos e outros inimigos de Cristo não concordavam com o fato de que Jesus era
Deus, por isso precisavam armar forjar algo político contra Jesus para que ele fosse
posto como antagônico aos romanos. Esta é a “malícia” que é dita no verso 18, os
herodianos estavam tentando fazer com que Jesus fosse visto como um rebelde e assim
fosse punido, por motivos seculares.

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E como bem coloca o libertário cristão Norman Horn:

“Além disso, existe uma sutil expressão jurídica na pergunta: "é certo" ou, em algumas
traduções, "é lícito". Em outras palavras, os fariseus estão perguntando: "é consistente
com a Torá pagar tributos a César?" Todos os presentes estavam cientes da lei e das
palavras de Levítico 25:23. "A terra (de Israel) não poderá ser vendida definitivamente,
porque ela é minha, e vocês são apenas estrangeiros e imigrantes".

A pergunta agora é mais complexa porque a Torá pode estar em jogo. Dado que
César está tentando tomar a terra de Deus, não seria uma desobediência à Torá o
pagamento de tributos a César?

Jesus percebeu a malícia da pergunta, é claro, e respondeu de forma astuta. Quando


pede aos fariseus que mostrem a moeda, eles involuntariamente apresentam a evidência
que expõe sua própria hipocrisia. Jesus lhes pergunta qual imagem e inscrição está na
moeda. Eles respondem, provavelmente relutantes: "de César". Mas eles, e todos que
ali estavam, perceberam seu erro, pois as inscrições dessas moedas sempre leriam,
"Tibério Claudio César Augusto, filho do deificado Augusto, sumo sacerdote".

Os fariseus, dos quais se esperava a defesa da lei de Deus, trouxeram ao templo um


item que efetivamente desobedece ao segundo mandamento: não terás nenhuma
imagem ou ídolo, mostrando que, em seus corações, desobedecem também ao primeiro
mandamento. Eles, não Jesus, são os hipócritas. Eles são os que aderiram ao sistema
pagão romano.”2

2. A teologia do estado no Novo Testamento - O que realmente era o "Dai a César", 2015.
Capítulo 3 – “Assim, aquele que resiste à
autoridade opõe-se à ordem estabelecida
por Deus; e os que a ela se opõem atraem
sobre si a condenação.”

Estes são os versos da vez:

1. Cada qual seja submisso às autoridades constituídas, porque não há autoridade que
não venha de Deus; as que existem foram instituídas por Deus.

2. Assim, aquele que resiste à autoridade opõe-se à ordem estabe-lecida por Deus; e os
que a ela se opõem atraem sobre si a condenação.

3. Em verdade, as autoridades ins-piram temor, não porém a quem pratica o bem, e sim
a quem faz o mal! Queres não ter o que temer a autoridade? Faze o bem e terás o seu
louvor.

4. Porque ela é instrumento de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, porque
não é sem razão que leva a espada: é ministro de Deus, para fazer justiça e para
exercer a ira contra aquele que pratica o mal.

5. Portanto, é necessário submeter-se, não somente por temor do castigo, mas também
por dever de consciência.

6. É também por essa razão que pagais os impostos, pois os magis-trados são ministros
de Deus, quando exercem pontualmente esse ofício.

7. Pagai a cada um o que lhe compete: o imposto, a quem deveis o imposto; o tributo, a
quem deveis o tributo; o temor e o respeito, a quem deveis o temor e o respeito.

7
Novamente, caso você faça uma leitura anacrônica dos textos irá certamente ter uma
visão errada do que São Paulo está passando em sua carta. Para começar, é óbvio que
não devemos simplesmente aceitar tudo o que o governante faz, ao utilizar esse texto da
forma que é apresentada a anarquistas, você mesmo não poderia criticar qualquer
governante mesmo que ele estivesse fazendo algo errado, e também é visível que não só
teme as autoridades quem é mau, vide os bons cristãos sendo mortos no Império
Romano. Obviamente essa interpretação é errônea, e irei ao longo desse capítulo
apontar o porquê.

De início, se fala que toda autoridade é instituída por Deus, mas na época do texto se
tinha romanos como Tibério, Calígula e Nero. Ora, são estes homens de Deus? Claro
que não, o conceito de autoridade justa sempre foi beneplácito na igreja, como bem
dizia Santo Agostinho: “Uma lei que não é justa não é lei”.3 E é visível em um mercado
que sobrevive o que melhor aplica a lei, o que é mais justo, e isso já é algo batido desde
Gustave de Molinari.

Sabendo disso, já se sabe que o cristão segue apenas a lei justa, lei essa que não se
sobrepõe a lei de Deus, já que as leis temporais estão submetidas as leis de Deus. Por
isso Ehud assassinou o rei em Juízes 3, por isso que as judias ignoravam as leis do faraó
em Êxodo 1. E é pensando nisso que o padre Juan de Mariana desenvolveu o
“tiranicídio”, que não é nada compatível com o que querem insinuar com esta
passagem, já que toda autoridade é inquestionável.

Sabendo disso os últimos versos (as interpretações precipitadas deles) já caem por terra,
mas irei continuar a explicação para que não haja mal entendidos: relembrando o
contexto da carta, os cristãos estavam sob forte opressão de Roma, mas a proposta da
Jesus não era de fazer uma rebelião ou algo do tipo (até porquê isso custaria a vida de
muitos, a primeira guerra judaico-romana, que era uma rebelião, causou mais de um
milhão de mortos), o reino de Deus nada tem a ver com coisas terrenas (vide Lucas 17),
a proposta da religião cristã não era política e sim de vencer o mal com o bem.

3. O livre arbítrio, Santo Agostinho.


Então, nos versos finais é dito sobre um “dever de consciência”, que é semelhante a 1
Coríntios 10, onde é enfatizado o caráter anti-escandaloso do cristão pelos mesmos
motivos ditos acima: ser contra rebeliões supérfluas. E por fim, Paulo afirma que os
cristãos deveriam pagar o tributo, já que a rebeldia contra Roma causaria a fúria de seus
governantes, e provavelmente uma chacina como ocorreu na destruição do Templo de
Jerusalém. Mas irei dar um adendo, esse caráter contra rebeliões do cristianismo deve
ser tomado não como absoluto em todas as ocasiões, visto que já citei exemplos de que
quando as autoridades são más devemos sim desrespeitá-las, e aí vem uma pergunta
minha: a autoridade coercitiva é boa ou má?

A esse ponto creio que não há dúvidas que não se pode invalidar o libertarianismo por
uma perspectiva bíblica, porém, ainda há o maior problema que me deparei quando
estava estudando sobre o assunto: a DSI (Doutrina Social da Igreja).

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Capítulo 4 – Quanto a DSI

Primeiro, temos que ver de uma vez quando a infalibilidade papal se aplica, que é
quando ele faz uma declaração ex cathedra (da cadeira de Pedro) sobre fé ou moral
(exatamente, o papa por mais inteligente que seja, ele não é perfeito em assuntos foras
da religião). Que são muito bem listadas4 pelo jesuíta Klaus Schatz em sua obra
Creative Fidelity: Weighing and Interpreting Documents of the Magisterium. Sendo
assim, a DSI deve ser encarada não como um dogma de fé que deve ser seguido sem
questionamentos, já que desde o início das discussões políticas e econômicas da igreja
houve discordância, sempre sendo guiados pela razão. Basta ver a evolução da
percepção de preço na Escola de Salamanca, e as conclusões políticas do lúcido Juan de
Mariana, que foi inclusive preso pelo Felipe III por acha-lo uma ameaça ao estado. Mas
enfim, a DSI é um grande problema resultante da falta de aprimoramento do
conhecimento econômico na igreja, partindo da visão de que o capitalismo seria ruim
quando não regulado, coisa que se provou uma balela desde o fracasso dos estados ao
seguirem esta política. Irei deixar um ótimo texto do Olavo de Carvalho que se
aprofunda nisso, já que não há sentido em eu repetir as mesmas coisas nesse meu artigo.

Uma tolice notável que circula de boca em boca contra os males do capitalismo é a
identificação do capitalista moderno com o usurário medieval, que enriquecia com o
empobrecimento alheio.

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4. Creative Fidelity: Weighing and Interpreting Documents of the Magisterium, página 80


Desde o século XVIII, e com frequência obsessivamente crescente ao longo do século
XIX, isto é, em plena Revolução Industrial, os papas não cessam de verberar o
liberalismo econômico como um regime fundado no egoísmo de poucos que ganham
com a miséria de muitos.

Mas que os ricos se tornem mais ricos à custa de empobrecer os pobres é coisa que só é
possível no quadro de uma economia estática, onde uma quantidade mais ou menos fixa
de bens e serviços tem de ser dividida como um bolo de aniversário que, uma vez saído
do forno, não cresce mais. Numa tribo de índios pescadores do Alto Xingu, a
"concentração do capital" equivaleria a um índio tomar para si a maior parte dos
peixes, seja na intenção de consumi-los, seja na de emprestá-los a juros, um peixe em
troca de dois ou três. Nessas condições, quanto menos peixes sobrassem para os outros
cidadãos da taba, mais estes pobres infelizes ficariam devendo ao maldito capitalista
índio — o homem de tanga que deixa os outros na tanga.

Foi com base numa analogia desse tipo que no século XIII Sto. Tomás, com razão,
condenou os juros como uma tentativa de ganhar algo em troca de coisa nenhuma.
Numa economia estática como a ordem feudal, ou mais ainda na sociedade escravista
do tempo de Aristóteles, o dinheiro, de fato, não funciona como força produtiva, mas
apenas como um atestado de direito a uma certa quantidade genérica de bens que, se
vão para o bolso de um, saem do bolso de outro. Aí a concentração de dinheiro nas
mãos do usurário só serve mesmo para lhe dar meios cada vez mais eficazes de
sacanear o próximo.

Mas pelo menos do século XVIII em diante, e sobretudo no XIX, o mundo europeu já
vivia numa economia em desenvolvimento acelerado, onde a função do dinheiro tinha
mudado radicalmente sem que algum papa desse o menor sinal de percebê-lo. No novo
quadro, ninguém podia acumular dinheiro embaixo da cama para acariciá-lo de
madrugada entre delíquios de perversão fetichista, mas tinha de apostá-lo rapidamente
no crescimento geral da economia antes que a inflação o transformasse em pó. Se
cometesse a asneira de investi-lo no empobrecimento de quem quer que fosse, estaria
investindo na sua própria falência.

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Sto. Tomás, sempre maravilhosamente sensato, havia distinguido entre o investimento e
o empréstimo, dizendo que o lucro só era lícito no primeiro caso, porque implicava
participação no negócio, com risco de perda, enquanto o emprestador, que se limitava
sentar-se e esperar com segurança, só deveria ter o direito à restituição da quantia
emprestada, nem um tostão a mais. Na economia do século XIII, isso era o óbvio —
aquele tipo de coisa que todo mundo enxerga depois que um sábio mostrou que ela
existe. Mas, no quadro da economia capitalista, mesmo o puro empréstimo sem risco
aparente já não funcionava como antes — só que nem mesmo os banqueiros, que
viviam essa mudança no seu dia a dia e aliás viviam dela, foram capazes de explicar ao
mundo em que é que ela consistia. Eles notavam, na prática, que os empréstimos a
juros eram úteis e imprescindíveis ao desenvolvimento da economia, que portanto
deviam ser alguma coisa de bom. Mas, não sabendo formular teoricamente a diferença
entre essa prática e a do usurário medieval, só podiam enxergar-se a si próprios como
usurários, condenados portanto pela moral católica. A incapacidade de conciliar o bem
moral e a utilidade prática tornou-se aí o vício profissional do capitalista,
contaminando de dualismo toda a ideologia liberal (até hoje todo argumento em favor
do capitalismo soa como a admoestação do adulto realista e frio contra o idealismo
quixotesco da juventude). Karl Marx procurou explicar o dualismo liberal pelo fato de
que o capitalista ficava no escritório, entre números e abstrações, longe das máquinas
e da matéria — como se fazer força física ajudasse a solucionar uma contradição
lógica, e aliás como se o próprio Karl Marx houvesse um dia carregado algum
instrumento de trabalho mais pesado que uma caneta ou um charuto. Mais
recentemente, o nosso Roberto Mangabeira Unger, o esquerdista mais inteligente do
planeta, e que só não é plenamente inteligente porque continua esquerdista, fez uma
crítica arrasadora da ideologia liberal com base na análise do dualismo ético (e
cognitivo, como se vê em Kant) que é a raiz da esquizofrenia contemporânea.

Mas esse dualismo não era nada de inerente ao capitalismo enquanto tal, e sim o
resultado do conflito entre as exigências da nova economia e uma regra moral cristã
criada para uma economia que já não existia mais. O único sujeito que entendeu e
teorizou o que estava acontecendo foi um cidadão sem qualquer autoridade religiosa
ou prestígio na Igreja: o economista austríaco Eugen Böhm-Bawerk.

12
Este gênio mal reconhecido notou que, no quadro do capitalismo em crescimento, a
remuneração dos empréstimos não era apenas uma conveniência prática amoral, mas
uma exigência moral legítima. Ao emprestar, o banqueiro simplesmente trocava
dinheiro efetivo, equivalente a uma quota calculável de bens na data do empréstimo,
por um dinheiro futuro que, numa economia em mudança, podia valer mais ou valer
menos na data da restituição. Do ponto de vista funcional, já não existia mais,
portanto, diferença positiva entre o empréstimo e o investimento de risco. Daí que a
remuneração fosse tão justa no primeiro caso como o era no segundo. Tanto mais justa
na medida mesma em que o liberalismo político, banindo a velha penalidade da prisão
por dívidas, deixava o banqueiro sem a máxima ferramenta de extorsão dos antigos
usurários.

Um discípulo de Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises, explicou mais detalhadamente essa


diferença pela intervenção do fator tempo na relação econômica: o emprestador troca
dinheiro atual por dinheiro potencial, e pode fazê-lo justamente porque, tendo
concentrado capital, está capacitado a adiar o gasto desse dinheiro, que o prestamista
por seu lado necessita gastar imediatamente para tocar em frente o seu negócio ou sua
vida pessoal. Von Mises foi talvez o economista mais filosófico que já existiu, mas,
ainda um pouco embromado por uns resíduos kantianos, nem por um instante pareceu
se dar conta de que estava raciocinando em termos rigorosamente aristotélico-
escolásticos: o direito à remuneração provém de que o banqueiro não troca
simplesmente uma riqueza por outra, mas troca riqueza em ato por riqueza em
potência, o que seria rematada loucura se o sistema bancário, no seu conjunto, não
estivesse apostando no crescimento geral da economia e sim apenas no enriquecimento
da classe dos banqueiros. A concentração do capital para financiar operações
bancárias não é portanto um malefício que só pode produzir algo de bom se for
submetido a "finalidades sociais" externas (e em nome delas policiado), mas é, em si e
por si, finalidade socialmente útil e moralmente legítima. Sto. Tomás, se lesse esse
argumento, não teria o que objetar e certamente veria nele um bom motivo para a
reintegração plena e sem reservas do capitalismo moderno na moral católica. Mas Sto.
Tomás já estava no céu e, no Vaticano terrestre, ninguém deu sinal de ter lido Böhm-
Bawerk ou Von Mises até hoje.

13
Daí a contradição grosseira das doutrinas sociais da Igreja, que, celebrando da boca
para fora a livre iniciativa em matéria econômica, continuam a condenar o capitalismo
liberal como um regime baseado no individualismo egoísta, e terminam por favorecer o
socialismo, que agradece essa colaboração instituindo, tão logo chega ao poder, a
perseguição e a matança sistemática de cristãos, isto é, aquilo que o Dr. Leonardo
Boff, referido-se particularmente a Cuba, denominou "o Reino de Deus na Terra". Daí,
também, que o capitalista financeiro (e mesmo, por contaminação, o industrial), se
ainda tinha algo de cristão, continuasse a padecer de uma falsa consciência culpada da
qual só podia encontrar alívio mediante a adesão à artificiosa ideologia protestante da
"ascese mundana" (juntar dinheiro para ir para o céu), que ninguém pode levar a sério
literalmente, ou mediante o expediente ainda mais postiço de fazer majestosas doações
em dinheiro aos demagogos socialistas, que, embora sejam ateus ou no máximo deístas,
sabem se utilizar eficazmente da moral católica como instrumento de chantagem
psicológica, e ainda são ajudados nisto — porca miséria! — pela letra e pelo espírito
de várias encíclicas papais.

Uma das causas que produziram o trágico erro católico na avaliação do capitalismo do
século XIX foi o trauma da Revolução Francesa, que, roubando e vendendo a preço vil
os bens da Igreja, enriqueceu do dia para a noite milhares de arrivistas infames e
vorazes, que instauraram o império da amoralidade cínica, o capitalismo selvagem tão
bem descrito na obra de Honoré de Balzac. Que isso tenha se passado logo na França,
"filha dileta da Igreja", marcou profundamente a visão católica do capitalismo
moderno como sinônimo de egoísmo anticristão. Mas seria o saque revolucionário o
procedimento capitalista por excelência? Se o fosse, a França teria evoluído para o
liberal-capitalismo e não para o regime de intervencionismo estatal paralisante que a
deixou para sempre atrás da Inglaterra e dos Estados Unidos na corrida para a
modernidade.

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Um governo autoritário que mete a pata sobre as propriedades de seus adversários
para distribuí-las a seus apaniguados, é tudo, menos liberal-capitalista: é, já, o
progressismo intervencionista, no qual, por suprema ironia, a Igreja busca ainda hoje
enxergar um remédio contra os supostos males do liberal-capitalismo, que por seu
lado, onde veio a existir — Inglaterra e Estados Unidos —, nunca fez mal algum a ela e
somente a ajudou, inclusive na hora negra da perseguição e do martírio que ela sofreu
nas mãos dos comunistas e de outros progressistas estatizantes, como os
revolucionários do México que inauguraram nas Américas a temporada de caça aos
padres. O caso francês, se algo prova, é que o "capitalismo selvagem" floresce à
sombra do intervencionismo estatal, e não do regime liberal (coisa aliás arquiprovada,
de novo, pelo cartorialismo brasileiro). Insistindo em dizer o contrário, movida pela
aplicação extemporânea de um princípio tomista e vendo no estatismo francês o
liberal-capitalismo que era o seu inverso, a Igreja fez como essas mocinhas de filmes de
suspense, que, fugindo do bandido, pedem carona a um caminhão... dirigido pelo
próprio. A incapacidade de discernir amigos e inimigos, o desespero que leva o
pecador a buscar o auxílio espiritual de Satanás, são marcas inconfundíveis de burrice
moral, intolerável na instituição que o próprio Cristo designou Mãe e Mestra da
humanidade. Errare humanum est, perseverare diabolicum: a obstinação da Igreja em
suas reservas contra o liberal-capitalismo e em sua consequente cumplicidade com o
socialismo é talvez o caso mais prolongado de cegueira coletiva já notado ao longo de
toda a História humana. E quando em pleno século XIX o papa já assediado de
contestações dentro da Igreja mesma proclama sua própria infalibilidade em matéria
de moral e doutrina, isto não deixa de ser talvez uma compensação psicológica
inconsciente para a sua renitente falibilidade em matéria econômica e política. Daí até
o "pacto de Metz", em que a Igreja se ajoelhou aos pés do comunismo sem nada lhe
exigir em troca, foi apenas um passo. Ao confessar que, com o último Concílio, "a
fumaça de Satanás entrara pelas janelas do Vaticano", o papa Paulo VI esqueceu de
observar que isso só podia ter acontecido porque alguém, de dentro, deixara as janelas
abertas.

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Que uma falsa dúvida moral paralise e escandalize as consciências, introduzindo nelas
a contradição aparentemente insolúvel entre a utilidade prática e o bem moral, e, no
meio da desorientação resultante, acabe por levar enfim a própria Igreja a tornar-se
cúmplice do mais assassino e anticristão dos regimes já inventados —eis aí uma
prestidigitação tão inconfundivelmente diabólica, que é de espantar que ninguém, na
Igreja, tenha percebido a urgência de resolver essa contradição no interior mesmo da
sua equação lógica, como o fizeram Böhm-Bawerk e von Mises (cientistas alheios a
toda preocupação religiosa). Mais espantoso ainda é que em vez disso todos os
intelectuais católicos, papas inclusive, tenham se contentado com arranjos exteriores
meramente verbais, que acabaram por deixar no ar uma sugestão satânica de que o
socialismo, mesmo construído à custa do massacre de dezenas de milhões de cristãos, é
no fundo mais cristão que o capitalismo.

Não há alma cristã que possa resistir a um paradoxo desse tamanho sem ter sua fé
abalada. Ele foi e é a maior causa de apostasias, o maior escândalo e pedra de tropeço
já colocado no caminho da salvação ao longo de toda a história da Igreja.

Arrancar da nossa alma essa sugestão hipnótica, restaurar a consciência de que o


capitalismo, com todos os seus inconvenientes e fora de toda intervenção estatal
pretensamente corretiva, é em si e por essência mais cristão que o mais lindinho dos
socialismos, eis o dever número um dos intelectuais liberais que não queiram colaborar
com o farsesco monopólio esquerdista da moralidade, trocando sua alma pelo prato de
lentilhas da eficiência amoral.5

Enfim, era essa a pequena mensagem que queria passar, não estou aqui para dizer que
todo cristão deve ser anarquista, apenas que na hora de começarem seus estudos
políticos não descartem o libertarianismo logo de cara por motivos irracionais, isso é o
cúmulo da ignorância sempre abominada pela cristandade.

Et Veritas vos liberabit


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5. Olavo sobre DSI, revista República de dezembro de 1998.

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