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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

INSTUTO DE LETRAS
DEPARTAMENTO DE LETRAS CLASSICAS E VERNÁCULAS
LITERATURA PORTUGUESA I
PROFESSOR: LUIS MAFFEI

A SEGREGAÇÃO E A HOSTILIDADE PRESENTES EM “OS LUSÍADAS” DE LUÍS


DE CAMÕES

VITOR CALEBE ALVES E SOUZA

NITERÓI
2021
Vitor Calebe Alves e Souza

A SEGREGAÇÃO E A HOSTILIDADE PRESENTES EM “OS LUSÍADAS” DE LUÍS


DE CAMÕES

Trabalho apresentado como parte primeira


do requisito para obtenção de nota
referente à avaliação da disciplina
obrigatória de Literatura Portuguesa I, do
semestre letivo equivalente a 2/2020 no
turno da noite da Universidade Federal
Fluminense.

NITERÓI

2021
Introdução
Os Lusíadas é considerado como sendo uma das obras mais importantes da literatura
portuguesa, se não a obra mais importante, foi escrita pelo poeta português Luís Vaz de Camões
e trata-se de um poema épico de gênero narrativo publicado em 1572. Camões teve como grande
inspiração as obras clássicas “Odisseia”, de Homero, e a “Eneida”, de Virgílio, ambas epopeias
que narram as conquistas do povo greco-romano. No caso d’Os Lusíadas são narradas as
conquistas do povo português na época das grandes navegações.

Em Os Lusíadas, o autor traduz em seus versos toda a história do povo português e suas
conquistas, tomando como motivo central a descoberta do caminho marítimo para as Índias por
Vasco da Gama. Dentro dessa leitura, durante o percurso dos versos, por inúmeras vezes somos
apresentados ao termo “mouros” sendo utilizado para descrever mais de um povo sempre em
papel antagonista, ou seja, papel que vai contra a jornada narrada do povo lusitano
(portugueses).

O presente trabalho visa apontar a problemática dessa narrativa literária do


enaltecimento do “eu” português em contrapartida do desmerecimento do “tu” mouro presente
na obra, espelhando e entendendo como parte causal do racismo presente hoje na realidade
social portuguesa; apresentando também uma questão eurocentrista do histórico-cultural
presente hoje na realidade mundial.
Os mouros
Mouro era o nome dado pelos cristãos às pessoas de pele escura e de religião muçulmana
que habitaram a Península Ibérica durante o século VIII até o século XV. A palavra “mouro”
vem do latim “mauro” e pode ser traduzido como escuro ou escuridão, o que partindo de um
ponto de vista da narrativa épica faz sentido, pois dentro do universo épico tem-se como
característica o narrar de uma história onde encontramos na epopeia o ressaltar das excelentes
qualidades de um herói protagonista, nesse caso o povo português, de fatos históricos ou
maravilhosos tendo então a contraparte vilanesca e de natureza vil, dado ao uso pejorativo de
todos os povos que são intitulados de mouros.

O termo vem dos romanos que nomearam de Mauritânia uma de suas províncias na
África. Com a invasão dos árabes muçulmanos neste continente, os habitantes dessa região
adotaram o Islã também como sua religião. Desta forma, "mouro", aos olhos dos cristãos passou
a ser sinônimo de uma pessoa muçulmana e de pele escura. Os mouros, no entanto, não
constituem um povo, nem uma etnia e sim uma generalização que os cristãos europeus fizeram
dos muçulmanos, tanto africanos como árabes.

Os mouros n’Os Lusíadas

O século XVI marcou de forma intensa o lançamento dos portugueses às grandes


navegações. Esse contato com o "novo", proporcionado pelas grandes empreitadas marítimas
trouxe à tona reflexões para/sobre o "velho continente". Em questão, não estavam apenas a
procura das novidades materiais geradas com a exploração dessas águas e terras longínquas,
mas também a proximidade com o "outro", traduzido em outros povos e culturas, subjugando-
os de seu papel como povo de direitos e cultura próprios, rebaixando toda e qualquer nação que
não julgassem a altura da glória portuguesa apresentada com veemência durante todo o poema.
Utilizando de poder bélico e glória religiosa, pondo qualquer um que a Cristo não seguisse em
um papel antagonizado.

Em Os Lusíadas, os mouros islâmicos são retratados de maneira pejorativa, tendo a


covardia e a falsidade como principais vícios, adjetivados também como infiéis, vis,
dissimulados, ardilosos etc. Podemos entender tais caracterizações dadas como sendo ligadas a
dois dos principais temas divisórios recorrentes tanto na história mundial quanto na literatura
histórica mundial, o primeiro ligado a uma questão religiosa, já que em diversos momentos da
trama temos a tripulação portuguesa evitando toda e qualquer ligação com um povo que não
divida de sua fé baseada no cristianismo. Como podemos ver nos trechos abaixo:
“Porém disto que o mouro aqui notou, “Mas aquele que sempre a mocidade

E de tudo o que viu, com olho atento, Tem no rosto perpétua, e foi nascido

Um ódio certo na alma lhe ficou, De duas mães, que urdia a falsidade

Uma vontade má de pensamento. Por ver o navegante destruído,

Nas mostras e no gesto o não mostrou, Estava numa casa da cidade,

Mas, com risonho e ledo fingimento, Com rosto humano e hábito fingido,

Tratá-los brandamente determina Mostrando-se cristão, e fabricava

Até que mostrar possa o que imagina.” Um altar suntuoso que adorava.”
(Canto I, V. 69) (Canto II, V. 10)

Encontramos então, em resumo, certa noção de que o principal inimigo da cristandade


eram os mouros, fato recorrente na literatura ibérica do século XVI.

Como segundo tema se encontra então uma problemática de questão racial (já citada
antes na intitulação de mouro como sendo uma denominação étnica dada aos povos
muçulmanos e africanos pelos cristãos). O fato da segregação e hostilidade racial se encontra
na obra, exemplo dado quando é apresentada a cor dos mouros como sendo uma característica
apta a englobá-los:

“As embarcações eram na maneira

Mui velozes, estreitas e compridas;

As velas com que vêm eram de esteira,

Dumas folhas de palma, bem tecidas;

A gente de cor era verdadeira

Que Fáeton, nas terras ascendidas,

Ao mundo deu, de ousado e não prudente;

O Pado o sabe e Lampetusa o sente.”

(Canto I, V. 46)

Tal problemática não se faz estranha se mantivermos em mente acontecimentos


como a colonização genocida portuguesa ocorrida em terras brasileiras no século XV, e do
também genocídio dos escravos africanos ocorrido no século XVI.
Mais à frente na obra temos em contrapartida os acontecimentos em Melinde, onde
os portugueses, sendo pacificamente recepcionados, nos apresentam certa identificação lusitana
com os mouros nativos dessa terra, de certa forma não os enquadrando aos outros ditos mouros
apresentados na obra até então:

“Enche-se toda a praia melindana

Da gente que vem a ver a leda armada,

Gente mais verdadeira e mais humana

Que toda a doutra terra atrás deixada.

Surge diante a frota lusitana,

Pega no fundo a âncora pesada.

Mandam fora um dos mouros que tomaram,

Por quem sua vida ao Rei manifestaram.”


(Canto II, V. 74)

Faz-se possível aqui, para melhor entendimento, a possibilidade da abdicação de


um dos temas divisórios apresentados anteriormente, pois, embora mouros os de Melinde
também ao cristianismo seguiam, sendo possível então o entendimento dos elogios que Vasco
da Gama discorre ao Rei melindano como sendo elogios aos seus próprios valores lusitanos que
acaba por perceber neste Rei, seus valores cristãos.

Conclusão
A representação do “outro” mouro (ou do “tu” na dualidade Portugal x mouros) é
carregada na maior parte do poema de negativismo, essas figuras são elevadas à categoria de
inimigos da pátria lusitana e da expansão da fé do império portucalense. Além de ser exaltado
em suas glórias, o povo lusitano é mostrado como o mais honrado e digno da proteção dos
deuses, restando aos mouros "infiéis" a subjugação como inferiores e falsos. Tal linguagem
antagonizadora usada para se referir a esses povos era de fato comum durante o século XVI,
tendo Camões apenas as reproduzindo em sua obra.

Trazendo a narrativa histórica apresentada dentro do universo de Camões em Os


Lusíadas para a modernidade, nos deparamos com um cenário grave tendo em mente uma noção
de eurocentrismo (influência política, econômica, social, cultural etc. exercida pela Europa
sobre outras áreas geopolíticas) iniciado pelo período das grandes navegações
portuguesas/europeias, pois dentro do entendimento de que as constituições de todas as outras
culturas são periféricas a europeia, poder-se-á compreender que o “eurocentrismo” da
modernidade é exatamente a confusão entre a universalidade abstrata (o mundo que se imagina)
com a mundialidade concreta (o mundo que acontece em prática) hegemonizada pela Europa
como “centro”. Papel que se torna grave no cenário geopolítico atual, podendo-se utilizar de
exemplos como o incidente ocorrido recentemente em uma Universidade católica de Lisboa,
onde foram encontradas em seus muros diversas pichações como: "A Europa é Branca", "Fora
com os Pretos", "Por uma Escola Branca", "Viva a Raça Branca" ou "Pretos voltem para
África". Faz-se clara a ligação, e o entendimento, de que o espelhamento entre o passado
apresentado na literatura camoniana de Os Lusíadas e o nosso atual presente não é distante,
mesmo com 449 anos de diferença. Concluindo, ainda que de extrema importância para o ensino
da literatura, é necessário que se faça presente um papel de conscientização num auxilio
didático a toda linguagem literária que inferiorize qualquer credo ou raça, pois, dentro das
pilastras do que se entende como sociedade, atualmente a inclusão torna-se a mais necessária.
Referências
ALEXANDRE, Amanda Azis. O "torpe Ismaelita Cavalleiro": um estudo sobre a
presença dos mouros em Os Lusíadas. 2010. 79f. Dissertação (Mestrado em Língua,
Literatura e Cultura Árabe) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP,
São Paulo, 2010.
ALVES, Carla Carvalho. Representações do mouro em Portugal: ficções, lendas e
história. Via Atlântica, n. 19, jun. 2011.
FERRAZ, Roberta Figueiredo. A viagem incompleta: destino e identidade em Os
Lusíadas e Um Filme Falado. Todas as Letras – Revista de Língua e Literatura, São Paulo,
v. 09, n. 1, p. 135–141, 2007.
PIMENTA, Tamy de Macedo. Da alteridade n’Os Lusíadas: um olhar hegeliano sobre o
Outro no discurso identitário português. 2014. 18f. Trabalho de Pós-graduação – Instituto
de Letras, Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, 2014.
FRANCISCO FERREIRA, Victor. Mouros são retratados de forma negativa em Os
Luíadas. Universidade de São Paulo (USP), Editora Cultura, 15 de julho de 2011.
Disponível em: http://www.usp.br/agen/?p=65231

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