Você está na página 1de 10

Tribunal de Justiça de Minas Gerais

Processo: 1.0000.20.488912-5/001
Relator: Des.(a) Pedro Bernardes de Oliveira
Relator do Acordão: Des.(a) Pedro Bernardes de Oliveira
Data do Julgamento: 02/06/2021
Data da Publicação: 09/06/2021

EMENTA: DIREITO CIVIL, PROCESSUAL CIVIL E DO CONSUMIDOR. APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO ORDINÁRIA -
ANULAÇÃO DE NEGÓCIO JURÍDICO CUMULADA COM RESPONSABILIDADE CIVIL POR DANO MATERIAL E
MORAL - CONTRATO DE CARTÃO DE CRÉDITO COM DESCONTO DA FATURA MINIMA DE FORMA
CONSIGNADA EM FOLHA - ALEGAÇÃO DE ERRO ESSENCIAL DO CONSUMIDOR QUANTO À NATUREZA
JURÍDICA DA CONTRATAÇÃO. VÍCIO DE CONSENTIMENTO - ÔNUS DA PROVA QUE SE IMPUTA AO AUTOR -
AUSÊNCIA DE ELEMENTOS PROBATÓRIOS SUFICIENTES AO ACOLHIMENTO DA PRETENSÃO. PEDIDOS
IMPROCEDENTES. APELO NÃO PROVIDO E SENTENÇA MANTIDA. 1. A alegação de engano do consumidor
quanto à natureza jurídica do contrato tem como consequência a anulabilidade do negócio por erro - se considerado
essencial ou substancial - nos termos dos artigos 138 e 171, inciso II do Código Civil, incumbindo ao Autor a prova
desse vício de consentimento, consoante o artigo 373, inciso I do CPC.

V.v EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE RESTITUIÇÃO DE VALORES C/C INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL.
PRESCRIÇÃO. CINCO ANOS. ARTIGO 27, DO CDC. TERMO INICIAL. ÚLTIMO DESCONTO. DESCONTO DE
RESERVA DE MARGEM CONSIGNÁVEL (RMC). AUTORIZAÇÃO. NÃO COMPROVAÇÃO. DANO MORAL.
QUANTUM INDENIZATÓRIO. REPETIÇÃO DO INDÉBITO.

- O termo inicial do prazo prescrição de cinco anos, previsto no artigo 27, do CDC, é a data do último desconto do
contrato ocorrido no benefício previdenciário da parte.

- Inexistindo autorização expressa para a constituição de Reserva de Margem Consignável (RMC), conforme
estabelece o artigo 3º, III, da Instrução Normativa do INSS nº 28/2008, alterada pela Instrução Normativa do INSS nº
39/2009, configura ato ilícito, tornando nulo o contrato firmado entre as partes.

- Caracteriza-se o dever de indenizar por dano moral o injusto desconto diretamente no benefício previdenciário, que
tem natureza alimentar, não podendo ser considerado como um simples aborrecimento.

- Em casos de ato ilícito, visto que a dívida que a originou não existe, a indenização por dano moral deve ser fixada
com a devida prudência, em valor que se mostre capaz de compensar a vítima pelo desgaste e sofrimento
ocasionados pelo ofensor.

- Não há de se falar em repetição em dobro do indébito pelo fato de não se vislumbrar existência de má-fé por parte
da instituição financeira.

APELAÇÃO CÍVEL Nº 1.0000.20.488912-5/001 - COMARCA DE CONTAGEM - APELANTE(S): MARIA DE OLIVEIRA


MARQUES - APELADO(A)(S): BANCO BMG SA

ACÓRDÃO

Vistos etc., acorda, em Turma, a 9ª CÂMARA CÍVEL do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, na
conformidade da ata dos julgamentos, em REJEITAR PREJUDICIAL DE MÉRITO DE PRESCRIÇÃO E NEGAR
PROVIMENTO AO RECURSO, VENCIDOS PARCIALMENTE O RELATOR E O 1.º VOGAL.

DES. PEDRO BERNARDES


RELATOR.

DES. PEDRO BERNARDES (RELATOR)

1
Tribunal de Justiça de Minas Gerais

VOTO

Cuida-se de apelação cível, interposta por Maria de Oliveira Marques contra sentença proferida nos autos da
Ação de Restituição de Valores c/c Indenização por Dano Moral, ajuizada pela apelante contra o recorrido, julgando
improcedentes os pedidos iniciais, condenando a apelante ao pagamento das custas processuais e honorários
advocatícios, fixados em 10% do valor da causa, sendo sua exigibilidade suspensa, por estar sob o pálio da Justiça
Gratuita.
Nas razões recursais, a apelante alega que foi induzida a erro, devido à sua vulnerabilidade de conhecimento,
não tendo realizado a contratação de cartão de crédito consignado; que tomou ciência da contratação após observar
os descontos realizados em seu benefício previdenciário; que não assumiria a dívida se estivesse munida de todas as
informações necessárias; que não recebeu as faturas para pagamento do valor integral do empréstimo, tendo de
pagar juros mais caros do que o valor normal dos empréstimos consignados; que por ser idosa possui vulnerabilidade
extrema, com limitações de entendimento, tornando-se alvo de práticas abusivas nas relações de consumo; que o
apelado apresentou um contrato de adesão de número 180938009, que diverge das contratações discutidas na lide,
de números 250465 e 6282037; que o recorrido não apresentou nenhum documento comprobatório de suas
alegações; que não recebeu o cartão de crédito; que as faturas acostadas aos autos pelo apelado não comprovam a
utilização do cartão de crédito, sendo apenas demonstrativos de juros e encargos mensais; que as cópias dos TEDs
provam que em tempo algum houve qualquer transação referente a cartão de crédito; que o fornecedor responde,
independentemente de culpa, pelos danos causados por defeitos na prestação dos serviços, de acordo com o artigo
14, do Código de Defesa do Consumidor; que a Defensoria Pública da União ajuizou Ação Civil Pública em face do
INSS, questionando a ilegalidade dos empréstimos com cartão de crédito; que é devida a condenação do recorrido à
repetição do indébito, em dobro, dos valores indevidamente descontados; que sofreu danos morais, conforme o artigo
5º, incisos V e X, da Constituição Federal, e os artigos 187 e 927, do Código Civil; que para a constituição de Reserva
de Margem Consignável (RMC) é necessária a autorização expressa do beneficiário, por escrito ou por meio
eletrônico, nos termos do artigo 3º, III, da Instrução Normativa do INSS nº 28/2008, alterada pela Instrução Normativa
do INSS nº 39/2009; que a inexistência da devida autorização expressa da apelante já é suficiente para gerar dano;
que valor da indenização deve ser suficiente para compensar a dor do ofendido e prevenir a reincidência.
Ao final, requer seja reformada a sentença monocrática, para julgar totalmente procedentes os pedidos iniciais.
Contrarrazões pelo apelado Banco BMG S/A (Doc. 55), alegando, preliminarmente, que ocorreu a prescrição da
pretensão autoral, nos termos do artigo 27, do Código de Defesa do Consumidor; e, no mérito, contrariando o apelo.
Sem preparo, pois a apelante litiga sob o pálio da Justiça Gratuita (Doc. 13).
Em razão da alegação do recorrido, em contrarrazões recursais, de prescrição da pretensão autoral, foi a
apelante devidamente intimada a se manifestar a respeito da prejudicial de mérito, nos termos dos artigos 9º e 10, do
novo CPC (Doc. 56), tendo se manifestado alegando a não ocorrência da prescrição ou decadência, pois a contagem
do prazo prescricional ou decadencial somente se inicia a partir do conhecimento do dano e de sua autoria (Doc. 57).
Conheço do recurso, pois presentes os pressupostos de admissibilidade.
Maria de Oliveira Marques ajuizou Ação de Restituição de Valores c/c Indenização por Dano Moral em face do
Banco BMG S/A, alegando que sofreu descontos indevidos em seu benefício previdenciário, por contratação não
firmada.
O MM. Juiz de primeiro grau julgou improcedentes os pedidos iniciais, ao fundamento da comprovação da
legalidade da contratação firmada entre as partes.

Prejudicial de mérito: prescrição

Alega o apelado Banco BMG S/A, em contrarrazões recursais, que ocorreu a prescrição da pretensão autoral,
nos termos do artigo 27, do Código de Defesa do Consumidor, tendo em vista que a parte autora, ora recorrente,
reclama suposta contratação irregular efetuada no ano de 2008, requerendo a extinção do processo, com resolução
de mérito nos termos do artigo 487, II, do novo CPC.
Intimada a se manifestar a respeito da prejudicial de mérito, a apelante alega que não ocorreu a alegada
prescrição, pois o prazo prescricional para a reparação civil decorrente do defeito do serviço é de cinco anos, a contar
do conhecimento do dano e de sua autoria, sendo que somente em setembro de descobriu que houve a retenção de
seu credito em decorrência de um empréstimo RMC (cartão de credito) e não de empréstimo consignado, realizado
de forma equivocada e fraudulenta.
A prescrição é a perda da pretensão, ou seja, a extinção da exigibilidade, em virtude da inércia do seu

2
Tribunal de Justiça de Minas Gerais

titular no período determinado em lei.


A respeito, Humberto Theodoro Júnior, in "Curso de Direito Processual Civil", volume I - Teoria Geral do Direito
Processual Civil, Processo de Conhecimento e Procedimento Comum, Editora Forense, Rio de Janeiro, 59ª edição,
2018, página 1.069, leciona:

"A prescrição é a sanção que se aplica ao titular do direito que permaneceu inerte diante de sua violação por
outrem. Perde ele, após o lapso previsto em lei, aquilo que os romanos chamavam de actio, e que, em sentido
material, é a possibilidade de fazer valer o seu direito subjetivo. Em linguagem moderna, extingue-se a pretensão.
Não há, contudo, perda da ação no sentido processual, pois, diante dela, haverá julgamento de mérito, de
improcedência do pedido, conforme a sistemática do Código."

Considerando que a pretensão autoral, ora apelante, consiste na inexistência do débito que fora descontado em
seu benefício previdenciário, pedido cumulado com repetição de indébito e danos morais, decorrentes dos alegados
descontos indevidos, entendo que o prazo prescricional aplicável ao caso é o pelo artigo 27, do Código de Defesa do
Consumidor, que prevê prazo quinquenal para buscar reparação pelos danos.
Dispõe o artigo 27, do CDC:

"Artigo 27 - Prescreve em cinco anos a pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto ou do
serviço prevista na Seção II deste Capítulo, iniciando-se a contagem do prazo a partir do conhecimento do dano e de
sua autoria."

Portanto, a pretensão da autora, ora recorrente, tem origem em uma lesão sofrida.
No caso, trata-se de um empréstimo RMC (cartão de credito) não reconhecido, sendo uma violação contínua de
direito, pois os descontos foram realizados mensalmente. Assim, o termo inicial do prazo prescricional é a data do
vencimento da última parcela.
Esse é o entendimento do STJ:

"PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. IRRESIGNAÇÃO


MANIFESTADA NA VIGÊNCIA DO NCPC. AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE NEGÓCIO JURÍDICO
CUMULADA COM REPETIÇÃO DE INDÉBITO E INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. EMPRÉSTIMO
CONSIGNADO EM BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. PRAZO PRESCRICIONAL. CINCO ANOS. ART. 27 DO CDC.
TERMO INICIAL. ÚLTIMO DESCONTO. DECISÃO EM CONFORMIDADE COM O ENTENDIMENTO DESTA
CORTE. PRESCRIÇÃO RECONHECIDA NA ORIGEM COM BASE NOS FATOS DA CAUSA. INCIDÊNCIA DA
SÚMULA Nº 7 DO STJ. DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL. NÃO DEMONSTRAÇÃO, NOS MOLDES LEGAIS.
RECURSO MANIFESTAMENTE INADMISSÍVEL. INCIDÊNCIA DA MULTA DO ART. 1.021, §4º, DO NCPC. AGRAVO
INTERNO NÃO PROVIDO. - (...) O Tribunal a quo dirimiu a controvérsia em conformidade com a orientação firmada
nesta Corte, no sentido de que, para a contagem do prazo prescricional quinquenal previsto no art. 27 do CDC, o
termo inicial a ser observado é a data em que ocorreu a lesão ou pagamento, o que, no caso dos autos, se deu com o
último desconto do mútuo da conta do benefício da parte autora. (...)" (STJ - Agravo Interno no Agravo em Recurso
Especial 1.481.507/MS - 3ª Turma - Rel. Min. Moura Ribeiro - Julgamento em 26/08/2019 - Publicação no DJe em
28/08/2019).

Esse também é o entendimento deste Tribunal:

"APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO REVISIONAL DE CONTRATO DE CARTÃO DE CRÉDITO CONSIGNADO


CUMULADA COM PEDIDO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. PRELIMINARES DE PRESCRIÇÃO E
DECADÊNCIA AFASTADAS. EMPRÉSTIMO CARTÃO DE CRÉDITO. DESCONTO MINIMO EM FOLHA DE
PAGAMENTO. ABUSIVIDADE. OFENSA AO DEVER DE BOA-FÉ E DE INFORMAÇÃO. REVISÃO. POSSIBILIDADE.
READEQUAÇÃO A MODALIDADE DE EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. RESTITUIÇÃO SIMPLES DOS VALORES
INDEVIDAMENTE DESCONTADOS. DANO MORAL. AUSÊNCIA. INDENIZAÇÃO INDEVIDA. - Em se tratando de
violação contínua de direito, tendo em vista que os descontos ocorrem mensalmente, não há que se falar em
decadência ou prescrição, considerando que o termo inicial do prazo corresponde à data do vencimento da última
parcela do contrato de cartão de crédito consignado. (...)" (TJMG - Apelação Cível 1.0000.20.040996-9/001 - Rel.
Des. Marcos Henrique Caldeira Brant - Julgamento em 20/05/2020 - Publicação no DJe em 21/05/2020)

Além disso, conforme os documentos de ordem 26 a 30, acostado pelo apelado com sua contestação, verifica-se
que é incontroverso que o contrato ainda está ativo, pois trata-se de extratos de conta corrente da recorrente, onde
consta movimentações até dezembro de 2019.
Também na contestação o próprio apelado informa que em 2018 aconteceram pagamentos do cartão

3
Tribunal de Justiça de Minas Gerais

de crédito, in verbis:

"Denota-se também que a Autora, efetuou pagamentos avulsos de faturas nas datas de 10/03/2008, 08/04/2016,
05/03/2018, 09/04/2018, 24/08/2018, demonstrando, portanto, que detinha total ciência da modalidade contratada."

Nestes termos, como o termo inicial do prazo prescricional é a data do último pagamento e, não, da data da
celebração do contrato, e tendo em vista que a presente ação foi distribuída em 10 de outubro de 2019, é evidente
que não ocorreu a alegada prescrição, pois não transcorreu o prazo prescricional de 5 anos, previsto no artigo 27, do
CDC.
Assim, rejeito a suscitada prejudicial de mérito.

Mérito

A obrigação de indenizar pressupõe a presença de três requisitos: ato ilícito, dano, nexo causal. Ausente
qualquer desses requisitos, inviável se torna o acolhimento da pretensão indenizatória.

Ato ilícito

Quanto ao ato ilícito, verifica-se que ele se configura com os indevidos descontos no benefício previdenciário da
recorrente.
Alega a apelante que realizou empréstimo consignado com o recorrido, sendo que descobriu descontos em seu
benefício previdenciário de valores sob a denominação de Empréstimo sobre a Reserva de Margem Consignável, que
é um empréstimo feito através do cartão de crédito. Diz não ter sido levada a erro, pois não tinha a intenção de firmar
tal tipo de contrato. Alega que a RMC requer autorização expressa, nos termos do artigo 3º, III, da Instrução
Normativa do INSS nº 28/2008, alterada pela Instrução Normativa do INSS nº 39/2009.
Quanto à Reserva de Margem Consignável (RMC), estabelece o artigo 2º, XIII, da Instrução Normativa do INSS
nº 28:

"Artigo 2º - Para os fins desta Instrução Normativa, considera-se:


XIII - Reserva de Margem Consignável - RMC: o limite reservado no valor da renda mensal do benefício para uso
exclusivo do cartão de crédito."

E com relação à Reserva de Margem Consignável (RMC), dispõe o artigo 1º, da Resolução nº 1.305, do
Conselho Nacional da Previdência Social:

"Artigo 1º - Recomendar ao Instituto Nacional do Seguro Social - INSS que, relativamente aos empréstimos
consignados, e respeitado o limite de margem consignável de 30% (trinta por cento) do valor do benefício, torne
facultativo aos titulares dos benefícios previdenciários a constituição de Reserva de Margem Consignável - RMC de
10% (dez por cento) do valor mensal do benefício para ser utilizada exclusivamente para operações realizadas por
meio de cartão de crédito."

E quanto à constituição da Reserva de Margem Consignável (RMC), o artigo 3º, III, da Instrução Normativa do
INSS nº 28/2008, alterada pela Instrução Normativa do INSS nº 39/2009, dispõe que deve ser expressamente
autorizada, in verbis:

"Artigo 3º Os titulares de benefícios de aposentadoria e pensão por morte, pagos pela Previdência Social,
poderão autorizar o desconto no respectivo benefício dos valores referentes ao pagamento de empréstimo pessoal e
cartão de crédito concedidos por instituições financeiras, desde que:
III - a autorização seja dada de forma expressa, por escrito ou por meio eletrônico e em caráter irrevogável e
irretratável, não sendo aceita autorização dada por telefone e nem a gravação de voz reconhecida como meio de
prova de ocorrência."

No caso, a apelante afirma que não contratou a Reserva de Margem Consignável (RMC), cabendo, assim, ao
recorrido a prova de sua legalidade.
Não se trata, aqui, da inversão do ônus da prova com fundamento no Código de Defesa do Consumidor. Ao
alegar a inexistência de contratação, o ônus da prova não é do consumidor, por se tratar de prova negativa. A
produção de prova negativa é sabidamente difícil de ser feita, quando não impossível.

Esse é o entendimento do STJ:

4
Tribunal de Justiça de Minas Gerais

"PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. PROTESTO DE DUPLICATA. EXISTÊNCIA DE RELAÇÃO


JURÍDICA SUBJACENTE AO TÍTULO. ÔNUS DA PROVA. PROVA NEGATIVA. IMPOSSIBILIDADE MATERIAL. -
Tratando-se de alegação de inexistência de relação jurídica ensejadora da emissão do título protestado, impossível
impor-se o ônus de prová-la ao autor, sob pena de determinar-se prova negativa, mesmo porque basta ao réu, que
protestou referida cártula, no caso duplicata, demonstrar que sua emissão funda-se em efetiva entrega de mercadoria
ou serviços, cuja prova é perfeitamente viável. (...)" (STJ - REsp 763033/PR - 4ª Turma - Rel. Min. Aldir Passarinho
Junior - Julgamento em 25/05/2010 - Publicação no DJe em22/06/2010).

Desse modo, incumbia ao apelado a comprovação da legalidade da contratação da Reserva de Margem


Consignável (RMC), nos termos do artigo 373, II, do novo CPC, por se tratar de fato negativo.
E em análise dos autos, verifica-se que o recorrido não se desincumbiu de seu ônus probatório, seja na
contestação ou em outro momento da instrução processual, não apresentando nenhum documento assinado pela
apelante autorizando a contratação da Reserva de Margem Consignável (RMC).
É certo que a apelante não nega ter firmado um contrato com o recorrido, mas afirma já na petição inicial que foi
levada a erro, pois acreditou ter celebrado um contrato de empréstimo consignado e, não um contrato de cartão de
crédito.
Portanto, não tendo o recorrido comprovado que a apelante autorizou expressamente a Reserva de Margem
Consignável (RMC), deve ser acolhida a sua tese de que foi induzida a erro, nos termos do artigo 139, do Código
Civil, ou seja, contratou acreditando se tratar de outro negócio jurídico.
Em situação semelhante assim decidiu este Tribunal:

"APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE REPETIÇÃO DE INDÉBITO. DESCONTO DE RESERVA DE MARGEM


CONSIGNÁVEL (RMC). AUTORIZAÇÃO NÃO COMPROVADA. ERRO DE CONSENTIMENTO. DEMONSTRAÇÃO.
NULIDADE DO CONTRATO. RESTITUIÇÃO DAS PARTES AO STATUS QUO ANTE. DEVOLUÇÃO EM DOBRO DE
VALORES INDEVIDAMENTE COBRADOS. DANO MORAL CONFIGURADO. DEVOLUÇÃO EM DOBRO.
REQUISITOS DOS ARTS. 42, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CDC, E 940 DO CÓDIGO CIVIL. INOCORRÊNCIA. - A
constituição de reserva de margem consignável, que é o limite reservado no valor da renda mensal do benefício para
uso exclusivo do cartão de crédito, deve ser expressamente autorizada pelos titulares de benefícios de aposentadoria
e pensão por morte, pagos pela Previdência Social. Negando o autor que autorizou a constituição de reserva de
margem consignável, e não comprovando o banco réu a existência dessa autorização, de rigor reconhecer a
existência de vício de consentimento na contratação do empréstimo a título de cartão consignado e,
consequentemente, a nulidade do referido contrato. (...)" (TJMG - Apelação Cível 1.0327.17.002557-8/001 - Rel. Des.
José de Carvalho Barbosa - Julgamento em 30/08/2018 - Publicação no DJe em 06/09/2018).

Assim, considerando a existência de vício de consentimento no contrato celebrado entre as partes, deve ser
declarado nulo o referido contrato, restituindo-se as partes ao estado que antes dele se achavam, de acordo com o
artigo 182, do Código Civil.
Portanto, tendo em vista que o recorrido não comprovou a legalidade do contrato firmado entre as partes, são
indevidos os descontos no benefício previdenciário da apelante, caracterizando-se, então, o ato ilícito.

Dano moral

Sobre dano moral, S. J. de Assis Neto, in "Dano Moral - Aspectos Jurídicos", Editora Bestbook, 1ª edição,
segunda tiragem, 1998, leciona:

"Dano moral é a lesão ao patrimônio jurídico materialmente não apreciável de uma pessoa. É a violação do
sentimento que rege os princípios morais tutelados pelo direito."

É certo que somente deve ser deferida indenização por danos morais nas hipóteses em que realmente se
verificar abalo à honra e imagem da pessoa, dor, sofrimento, tristeza, humilhação, prejuízo à saúde e integridade
psicológica de alguém, cabendo ao Magistrado, com prudência, ponderação e senso prático, verificar se, na espécie,
efetivamente ocorreu dano moral, para, somente nestes casos, deferir uma indenização a este título.
O dano, no caso, decorreu dos descontos que foram promovidos diretamente no benefício previdenciário da
apelante, que indevidamente se viu privada de quantia considerável nos meses dos descontos.
Ser injustamente privada de quantia debitada diretamente do provento previdenciário, que tem

5
Tribunal de Justiça de Minas Gerais

natureza alimentar, não pode ser considerado como um simples desgosto, dissabor, aborrecimento, mágoa, tristeza,
irritação ou sensibilidade exacerbada.
Esse é o entendimento deste Tribunal:

"AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. AGRAVO RETIDO. INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA.
REQUISITOS PREENCHIDOS. POSSIBILIDADE. CONTRATAÇÃO DE EMPRÉSTIMO BANCÁRIO. IMPUGNAÇÃO
DA ASSINATURA CONSTANTE NO CONTRATO. ÔNUS DE PROVAR A AUTENTICIDADE. PARTE QUE
PRODUZIU O DOCUMENTO. INTELIGÊNCIA DO ART. 389, II DO CPC. NÃO OCORRÊNCIA. DESCONTO DE
VALORES EM BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. RESTITUIÇÃO. DEVER. DANO MORAL. EXISTÊNCIA. FIXAÇÃO
DO QUANTUM INDENIZATÓRIO. OBSERVANCIA DOS PRINCÍPIOS DA RAZOABILIDADE E
PROPORCIONALIDADE. CORREÇÃO MONETÁRIA. DESDE A DATA DO ARBITRAMENTO. INTELIGÊNCIA DA
SÚMULA 362 DO STJ. REFORMA PARCIAL DA SENTENÇA. - (...) Entendo, data venia, que o simples desconto
indevido de benefício previdenciário gera, por si só, abalo moral susceptível de indenização. (...)" TJMG - Apelação
Cível 1.0701.08.219227-2/001 - Rel. Des. Wanderley Paiva - Julgamento em 09/02/2011 - Publicação no DJe em
18/02/2011).

Assim, a meu sentir, é incontroverso o dano moral sofrido pela recorrente.

Nexo de causalidade

Resta demonstrado o nexo causal, já que os débitos indevidos no benefício previdenciário da apelante
decorreram da conduta negligente do recorrido.
Nestes termos, comprovado o ato ilícito, o dano e o nexo de causalidade, tenho que razão assiste à apelante,
devendo a r. sentença ser reformada, para condenar o recorrido ao pagamento de indenização por danos morais, eis
que presentes os requisitos estabelecidos pelo artigo 186, do Código Civil.

Quantum

É certo que o problema da quantificação do valor econômico a ser reposto ao ofendido tem motivado
intermináveis polêmicas e debates, até agora não havendo pacificação a respeito.
Tratando da questão da fixação do valor, Humberto Theodoro Júnior, in "Dano Moral", Editora Juarez de Oliveira,
São Paulo, 2ª edição, 1999, página 36, leciona:

"Mais do que em qualquer outro tipo de indenização, a reparação do dano moral há de ser imposta a partir do
fundamento mesmo da responsabilidade civil, que não visa criar fonte injustificada de lucros e vantagens sem causa.
Vale, por todos os melhores estudiosos do complicado tema, a doutrina atualizada de CAIO MÁRIO, em torno do
arbitramento da indenização do dano moral:
'E, se em qualquer caso se dá à vítima uma reparação de damno vitando, e não de lucro capiendo, mais do que
nunca há de estar presente a preocupação de conter a reparação dentro do razoável, para que jamais se converta em
fonte de enriquecimento'."

De qualquer forma, doutrina e jurisprudência são pacíficas no sentido de que a fixação deve se dar com prudente
arbítrio, para que não haja enriquecimento à custa do empobrecimento alheio, mas também para que o valor não seja
irrisório.
O valor da indenização pelos danos morais deve ser capaz de reparar a dor sofrida pelo ofendido, de compensá-
lo pelo sofrimento suportado em razão da conduta inadequada do agressor. Como dispunha o artigo 948, do Código
Civil de 1916, cuja essência ainda se aplica atualmente, nas indenizações por fato ilícito prevalecerá o valor mais
favorável ao lesado, ou seja, o valor adequado da indenização será aquele capaz de reduzir, na medida do possível, o
impacto suportado pelo ofendido em razão da conduta gravosa de outrem, objetivo este que não será alcançado se a
indenização for fixada em valores módicos.
Américo Luís Martins da Silva, in "O Dano Moral e a Sua Reparação Civil", Editora Revista dos Tribunais, São
Paulo, 3ª edição, 2005, página 63, citando Maria Helena Diniz, afirma que para a autora, a função compensatória da
indenização por danos morais constitui uma satisfação que atenue a ofensa causada, proporcionando uma vantagem
ao ofendido, que poderá, com a soma de dinheiro recebida, procurar atender às satisfações materiais ou ideais que
repute convenientes, diminuindo assim, em parte, seu sofrimento.
A decisão abaixo retrata a natureza compensatória da indenização por danos morais:

"DANOS MORAIS. VALORAÇÃO. CIRCUNSTÂNCIAS ESPECIAIS. GRAVIDADE EVIDENCIADA. CULPA


GRAVE. CONSEQÜÊNCIAS DANOSAS. VALOR. - (...). A vítima da falsificação, que tem cheques indevidamente
extraídos em seu nome devolvidos, sofrendo protestos e inclusões indevidas em Bancos de dados, causando não só
restrição ao seu crédito, mas também ao seu serviço, reduzindo sua credibilidade no meio
6
Tribunal de Justiça de Minas Gerais

comercial e sua renda, deve receber indenização por danos morais em valor que compense o seu sofrimento e
constrangimentos sofridos, recompondo, pelo menos parcialmente, o seu amor próprio, como sentimento de
dignidade pessoal e das exigências morais e sociais que a pessoa humana se impõe" (TJMG - Apelação Cível
2.0000.00.318305-1/000(3) - Relª Desª Vanessa Verdolim Hudson Andrade - Julgamento em 28/10/03 - Publicação no
DJ em 18/11/2003).

Assim, o quantum indenizatório não pode ser irrisório, tendo em vista a necessidade de se compensar a vítima
pela conduta injusta, ilícita, do ofensor. De fato, em se tratando de danos morais, nunca se chegará a um valor que
equivalha de forma certa ao sofrimento suportado pela vítima, todavia deve-se arbitrar quantia que, no máximo
possível, possa de alguma forma atenuar a dor, compensando todo o desgaste advindo do fato ilícito.
No caso, ocorreram descontos indevidos no benefício previdenciário da apelante.
Em casos de ato ilícito, como na hipótese dos autos, entendo ser justa a indenização no valor de R$ 15.000,00
(quinze mil reais), que deve ser corrigido monetariamente pela tabela da Corregedoria de Justiça, a partir da data da
publicação do acórdão, nos termos da Súmula 362, do STJ, incidindo juros de mora de 1% ao mês, a contar da data
da citação, de acordo com o artigo 405, do Código Civil, por se tratar de responsabilidade contratual.

Repetição do indébito

Alega a apelante que é devida a condenação do recorrido à repetição do indébito, em dobro, dos valores
indevidamente descontados.
Dispõe o artigo 42, parágrafo único, do CDC:

"Artigo 42 - (...)
Parágrafo único - O consumidor cobrado em quantia indevida tem direito à repetição do indébito, por valor igual
ao dobro do que pagou em excesso, acrescido de correção monetária e juros legais, salvo hipótese de engano
justificável."

Apesar de o dispositivo legal estabelecer que é devida a repetição do indébito na hipótese de cobrança de
quantia indevida, a repetição do indébito é tanto o direito quanto a medida processual na qual uma parte pleiteia a
devolução de uma quantia paga desnecessariamente.
A respeito, Antônio Herman de Vasconcelos e Benjamin, in "Código Brasileiro de Defesa do Consumidor
Comentado pelos Autores do Anteprojeto", Editora Forense Universitária, Rio de Janeiro, 7ª edição, 2001, página 348,
leciona:

"O Código de Defesa do Consumidor enxerga o problema em estágio anterior àquele do Código Civil. Por isso
mesmo, impõe requisito inexistente neste. Note-se que, diversamente do que sucede com o regime civil, há
necessidade de que o consumidor tenha, efetivamente, pago indevidamente. Não basta a simples cobrança."

Além disso, para configurar situação de repetição do indébito, pela interpretação literal do artigo 42, parágrafo
único, do CDC, é necessária a perquirição da má-fé do fornecedor.
O elemento volitivo, mesmo que apurado de forma objetiva, é intrínseco aos atos jurídicos, sendo a boa-fé
princípio norteador das relações de consumo, conforme expressamente dispõe o artigo 4º, III, do CDC.
No caso, a apelante não apresentou elementos idôneos a demonstrar que a conduta do recorrido estaria
revestida de má-fé. Além disso, os descontos feitos pelo apelado no benefício previdenciário da recorrente foi
respaldada em contrato celebrado entre as partes, não se podendo caracterizar sua conduta como um engano.
O reconhecimento posterior da invalidade do contrato celebrado entre as partes não permite a incidência da
repetição em dobro da quantia julgada como indébita. Este fato apenas demonstra a controvérsia surgida quanto ao
débito em questão, impedindo a configuração de má-fé do apelado.
Em situação semelhante assim decidiu este Tribunal:

"APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO ORDINÁRIA. REVISÃO DE CLÁUSULAS CONTRATUAIS. CÉDULA DE CRÉDITO


BANCÁRIO. CERCEAMENTO DE DEFESA. CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. JUROS
REMUNERATÓRIOS. LIMITAÇÃO E CAPITALIZAÇÃO. COMISSÃO DE PERMANÊNCIA. REPETIÇÃO DE
INDEBITO. - (...) Para a repetição de indébito faz-se necessário prova do pagamento indevido e que a cobrança
decorra de comprovada má-fé (STJ, AgRg no AgRg no AREsp 618411/MS)" TJMG - Apelação Cível
1.0702.15.005202-6/001 - Rel. Des. José Flávio de Almeida - Julgamento em 28/06/2017 - Publicação no DJe em

7
Tribunal de Justiça de Minas Gerais

05/07/2017).

Assim, como não houve comprovação da má-fé do apelado, não há que se falar em restituição em dobro,
devendo os valores indevidamente descontados serem restituídos de forma simples, corrigidos monetariamente pela
tabela da Corregedoria de Justiça, a partir da data de cada desconto, incidindo juros de mora a contar da data da
citação.
No entanto, considerando que a recorrente recebeu e utilizou o valor referente a tal empréstimo, conforme
documentos de ordem 24 e 25 (TEDs), deve tal quantia ser deduzida do total a ser devolvido à apelante, sob pena de
enriquecimento sem causa.
Como houve reforma da r. sentença, deve ser alterada a distribuição do ônus da sucumbência. Tendo em vista
que a modificação da decisão de primeiro grau está julgando procedente em parte da pretensão autoral, deve o
recorrido arcar com o ônus da sucumbência.
Com estas razões, REJEITO A PREJUDICIAL DE MÉRITO de prescrição e DOU PARCIAL PROVIMENTO à
apelação interposta, para declarar nulo o contrato firmado entre as partes, condenando o apelado a restituir de forma
simples os valores indevidamente descontados do benefício previdenciário da recorrente, corrigidos monetariamente
pela tabela da Corregedoria de Justiça, a partir da data de cada desconto, incidindo juros de mora de 1% ao mês, a
contar da data da citação, ao pagamento de indenização por danos morais, no valor de R$ 15.000,00 (quinze mil
reais), a ser corrigido monetariamente pela tabela da Corregedoria de Justiça, a partir da data da publicação do
acórdão, incidindo juros de mora de 1% ao mês, a contar da data da citação, e ao pagamento das custas processuais
e honorários advocatícios, que arbitro em 15% sobre o valor atualizada da condenação, incluindo neste percentual os
honorários recursais.
Custas recursais pelo apelado.
É como voto.

DES. LUIZ ARTUR HILÁRIO - De acordo com o(a) Relator(a).


DES. MÁRCIO IDALMO SANTOS MIRANDA

VOTO DIVERGENTE, EM PARTE, DO 2.º VOGAL

Em sessão anterior desta Câmara, pedi vista dos presentes autos para melhor refletir sobre as questões postas
em debate no recurso deles objeto, após votarem os eminentes Relator e 1.º Vogal, que rejeitam a prejudicial de
mérito (de prescrição) suscitada pela parte recorrida e, no mérito, e dão parcial provimento ao inconformismo para
"(...) declarar nulo o contrato firmado entre as partes, condenando o apelado a restituir de forma simples os valores
indevidamente descontados do benefício previdenciário da recorrente, corrigidos monetariamente pela tabela da
Corregedoria de Justiça, a partir da data de cada desconto, incidindo juros de mora de 1% ao mês, a contar da data
da citação, ao pagamento de indenização por danos morais, no valor de R$ 15.000,00 (quinze mil reais)."
No tocante à questão prejudicial de mérito, relativa à prescrição, acompanho os votos antecedentes.
Quanto ao mérito, todavia, peço vênia a meus ilustres Pares para apresentar entendimento divergente.
Deduziu a Autora, na peça de ingresso, pleito que foi rotulado de "Restituição de Valores com Indenização C/C
Indenização por Dano Moral" substanciado em contratos de financiamento por meio de cartão de crédito, com
previsão de pagamento mediante consignação da parcela/fatura mínima em folha, afirmando ter sido enganada em
relação à natureza jurídica do referido pacto, considerando que imaginou se tratar, à época, de contratação de
empréstimo direto típico e ordinário, jamais tendo aderido à espécie obrigacional que, efetivamente, veio a se
materializar.
Disse mais que o erro acima referido, quanto à natureza jurídica do pacto, teve repercussões danosas na sua
esfera patrimonial, posto lhe implicar descontos nos vencimentos sem que, efetivamente, seja amortizada a dívida, o
que lhe torna impagável.
Por fim, rematou afirmando que todo o imbróglio descrito lhe impingiu, também, prejuízo de ordem moral,
merecedor da reparação devida.
Assim estabelecido, fundada a causa de pedir, expressamente, no engano do consumidor quanto à natureza
jurídica do contrato, se efetivamente comprovado o lapso justificável a partir das circunstâncias, tem-se por
consequência jurídica a anulabilidade do negócio por erro nos termos dos artigos 138 e 171, inciso II, do Código Civil,
incumbindo ao Autor - porquanto fato constitutivo do seu direito - o ônus de fazer prova a respeito, conforme disposto
no artigo 373, inciso I, do Código de Processo Civil.
Sobre o tema, leciona Fábio Tabosa:
"Adotou o legislador método aparentemente simples de atribuição do encargo probatório a cada uma das partes, mas
que encobre não poucas dificuldades; assim, em princípio cabe ao autor a prova dos fatos constitutivos de seu direito
(inciso I) e ao réu a prova dos fatos impeditivos, modificativos ou extintivos do

8
Tribunal de Justiça de Minas Gerais

direito da parte contrária (inciso II). Como entretanto distinguir uns e outros (...) A regra, destarte, é que
independentemente da posição no processo cada parte venha a provar os fatos constitutivos do próprio direito, bem
como os impeditivos, modificativos ou extintivos do direito alheio, do que decorrem importantes consequências
particularmente quanto a ações incidentais de cunho impugnativo, como os embargos do devedor, na execução (v.
arts. 736, 741 e 745), ou os embargos ao mandado, na ação monitória (v. art. 1.102c).
Pois bem, por fatos constitutivos do direito - não importando de qual parte -, devem ser entendidos aqueles tomados
como base para a afirmação de um direito de que se imagine ela titular, e que pretenda ver reconhecido em juízo
(assim, a existência da locação e a ocorrência de fato ou circunstância tidos por lei como autorizadores da retomada,
em ação de despejo, a ocorrência de ato ilícito praticado pela outra parte e o prejuízo dele decorrente, em ação
indenizatória).
Já quanto aos fatos impeditivos, modificativos ou extintivos, impõe-se maior cautela, pois não se confundem eles com
a mera negativa dos fatos aduzidos pela parte adversa" ("Código de Processo Civil Interpretado', coordenador Antônio
Carlos Marcato, São Paulo, Atlas, 2004, p.1000)
No caso dos autos, percebe-se que o Réu, ao contestar o pedido inicial, apresentou a documentação que
evidencia a existência de relação jurídica regular entre as partes, decorrente da celebração de contrato de cartão de
crédito consignado, tendo juntado cópias das faturas, demonstrando a realização de saques instrumentalizados por
transferências bancárias diretas (TED) para sua conta mantida junto à CEF, como se vê nos documentos anexados
aos eventos de n.ºs 24/36.
Merece destaque o conteúdo registrado nos slides 5/6 do evento n.º 35, pelos quais é possível perceber que a
parte Autora, contrariando o por ela alegado, efetuou pagamentos parciais e regulares de algumas faturas do cartão,
por exemplo, aquelas vencidas, em 10/04/2018 (no valor de R$ 200,00 - duzentos reais), e 10/05/2018 (no valor de
500,00 - quinhentos reais), o que depõe fortemente contra sua tese de jamais ter recebido qualquer (fatura),
considerando a impossibilidade prática de ter pago parte do documento que afirmou jamais ter recebido, ao longo dos
vários anos de amortização parcial por meio de desconto direto em folha.
Registre-se que não há, nos autos, alegação de falsidade documental dos supramencionados elementos de
prova, a partir dos quais se torna presumível a total ciência do consumidor quanto à natureza do negócio jurídico por
ele contratado, não questionada (pelo contrário, admitida) a consistência dos expedientes em destaque, limitando-se,
a peça de impugnação anexada ao evento de n.º 42, a alegar unilateralidade do material probatório.
Vale considerar que a amortização do saldo mínimo da fatura de cartão de crédito de forma consignada em
folha de pagamento é legal, prevista que se encontra nas Leis de n.ºs 10.820/03 e 13.172/15.
Em resumo, não há, venia concessa, prova alguma de indução da Autora a erro ou cometimento de outro vício
de consentimento que possa implicar na anulação do negócio, sendo certo que o só fato de ser idoso(a) e/ou
aposentado(a), por si só, não tem qualquer potencial redutor da capacidade civil do consumidor, ou mesmo da
mitigação de sua aptidão para a valoração e julgamento dos fatos, excetuadas as hipóteses em que a senilidade lhe
implica, comprovadamente, sequelas de ordem psíquica potencialmente disruptivas de sua higidez mental, o que
deve ser arguido e objetivamente demonstrado, se for o caso.
Não fosse por tudo isso, tenho sustentado que o mero desconto - mesmo quando considerado indevido - de
parcelas de empréstimo nos proventos, por si só, não se traduz em dano moral indenizável, configurando apenas
simples aborrecimento, dissabor e incômodo.
Ora, a teor do disposto no artigo 188, inciso I, do Código Civil, os atos praticados em legítima defesa ou no
exercício regular de direito não caracterizam como indevidas, pelo que, não se vislumbrando qualquer ilegalidade nas
cobranças perpetradas pelo Apelado, não há falar-se em dano moral ou material indenizável.
Quanto ao pedido alternativo, de limitação dos descontos ao máximo de 30% (trinta por cento) dos ganhos da
Autora, não há nos autos prova de que excedam o limite legal, de maneira que também improcede a pretensão.
Nesse contexto, forçoso concluir-se que nenhuma possível anulabilidade ou abusividade paira sobre a
contratação ou sobre a forma de pagamento dos valores havidos em mútuo, razão pela qual não há falar-se em
procedência dos pedidos, total ou parcial.
Com tais fundamentos, portanto, é que, redobrada vênia ao culto e eminente Relator, deve ouso divergir, de
modo que nego provimento ao recurso, mantendo inalterada a sentença recorrida, que havia julgado improcedentes
os pedidos iniciais.
Caso prevaleça esse modesto entendimento, imponho o pagamento das custas recursais à Apelante, que fica
condenada também nos honorários recursais, majorados por força do artigo 85, § 11 do CPC, ora arbitrados no
importe de 2% (dois por cento) do valor atualizado da causa, e que se incorporam, como acréscimo, àqueles já
fixados na sentença, observada a gratuidade da justiça.

9
Tribunal de Justiça de Minas Gerais

É como voto.

MÁRCIO IDALMO SANTOS MIRANDA


Desembargador - 2.º Vogal

DES. AMORIM SIQUEIRA

Peço vênia ao em. Des. Relator para acompanhar a divergência parcial apresentada pelo em. Des. 2º Vogal.

DES. FAUSTO BAWDEN DE CASTRO SILVA (JD CONVOCADO)

Peço vênia ao em. Desembargador Relator para acompanhar a divergência instaurada pelo ilustre 2º Vogal, tendo
em vista os pagamentos parciais de algumas faturas do cartão e, ainda, a ausência de elementos suficientes à
demonstração do alegado erro ou vício de consentimento.

É como voto.

SÚMULA: "REJEITARAM PREJUDICIAL DE MÉRITO DE PRESCRIÇÃO E NEGARAM PROVIMENTO AO


RECURSO, VENCIDOS PARCIALMENTE O RELATOR E O 1.º VOGAL."

10

Você também pode gostar