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Exposições em

GÊNESIS

Sumário

01. Gênesis 1.1-31: A Criação dos Céus e da Terra..........................................................3


02. Gênesis 2.1-3: O Sétimo Dia.......................................................................................9
03. Gênesis 2.4-17: A Formação do Homem..................................................................15
04. Gênesis 2.18-25 – A Criação da Mulher...................................................................21
05. Gênesis 3.1-24 – A Queda.........................................................................................26
06. Gênesis 4.1-26 – Caim e Abel...................................................................................34
07. Gênesis 5.1-6.8 – A Descendência de Adão..............................................................38
08. Gênesis 6.9 – 8.22: O Dilúvio...................................................................................43
09. Gênesis 9.1–29: A vida após o Dilúvio.....................................................................47
10. Gênesis 10.1–11.9: A torre de Babel.........................................................................52
11. Gênesis 11.10–12.20: A aliança com Abrão.............................................................58
12. Gênesis 13.1-18: Abrão e Ló se Separam.................................................................63
13. Gênesis 14.1-24: O Resgate de Ló............................................................................68
14. Gênesis 15.1-21: A aliança de Deus com Abrão.......................................................74
15. Gênesis 16.1-15: Sarai e Agar...................................................................................82
16. Gênesis 17.1-27: A Instituição da Circuncisão.........................................................86
17. Gênesis 18.1-33: O Anúncio da Destruição de Sodoma e Gomorra.........................92
18. Gênesis 19.1-38: A Destruição de Sodoma e Gomorra.............................................95
19. Gênesis 20.1-18: Abraão em Gerar.........................................................................100
20. Gênesis 21.1-34: O Nascimento de Isaque..............................................................102
21. Gênesis 22.1-24: Abraão é Provado por Deus.........................................................108
22. Gênesis 23.1-20: A morte de Sara...........................................................................113
23. Gênesis 24.1-25.11: O casamento de Isaque e a Morte de Abraão.........................117
24. Gênesis 25.12-34: As descendências de Ismael e de Isaque...................................123
25. Gênesis 26.1-35: Isaque entre os filisteus...............................................................127
26. Gênesis 27.1-46: A bênção de Isaque......................................................................128
26. Gênesis 27.1-46: A bênção de Isaque......................................................................131
27. Gênesis 28.1-22: A fuga de Jacó.............................................................................132
Bibliografia....................................................................................................................134
01. Gênesis 1.1-31: A Criação dos Céus e da Terra

13 de Janeiro de 2019

A vida é repleta de incertezas, no momento estamos aqui, dando atenção à Palavra do


Senhor, mas não sabemos acerca do que acontecerá daqui a pouco, muito menos sobre
nosso futuro mais distante. Muitas vezes as incertezas da vida nos preocupam e nos
vemos tentando imaginar o que nos espera mais à frente, com a esperança de que as
coisas fiquem melhores do que agora. Pensamentos semelhantes possivelmente estariam
habitando as mentes do povo de Israel quando o livro de Gênesis lhes foi apresentado.
Este livro foi escrito em algum momento da peregrinação do povo que fora libertado da
escravidão egípcia, que durou 430 anos, e caminhava rumo a uma terra que Deus lhe
prometera. Tantos anos foram mais que suficientes para que várias gerações nascessem
e estas mesmas fossem influenciadas pelo pensamento pagão. Dentre as diversas lições
que o povo hebreu precisava aprender ou, no mínimo, ser relembrado, duas delas eram
muito necessárias: (1) Só existe um Deus, o que estava em contraste com a crença
egípcia que afirmava a existência de uma infinidade de deuses; (2) Esse único Deus é
soberano, ou seja, tem domínio sobre tudo. Sendo isto verdade, eles poderiam descansar
sob os cuidados do Senhor, pois seus planos não podem ser frustrados. Devemos olhar
para todo o livro com tal perspectiva, principalmente nesta parte inicial do livro, na qual
aprendemos que tudo o que existe neste universo está sob o domínio de Deus.

Agora, com base nesta parte introdutória do livro, gostaria de mostrar-lhe que: O Rei do
universo criou todas as coisas pelo poder da Sua Palavra. Para nós esta informação
pode ser óbvia, mas no decorrer da exposição, quero mostrar-lhe que esta verdade
básica precisava ser inculcada na cabeça de seus receptores originais e também o quão
importante ela é para nós, tendo em vista que constantemente nos esquecemos disso em
nosso viver diário.

[[@Bible:Ge 1:1]] 1.1 {{field-on:bible}} “No princípio, criou Deus os céus e a


terra”.

“No princípio”. Esta expressão é a que deu origem ao nome do livro. A palavra
“Gênesis” deriva de uma palavra que significa “princípio”. Logo, estamos olhando para
o livro que nos apresenta o início da história do universo.

“criou Deus”. O nome de Deus é citado 37 vezes nos dois primeiros capítulos de
Gênesis (29 no cap.1 e 8 no cap.2). Tal repetição nos mostra claramente quem é o
personagem principal da narrativa da criação. Assim, o texto deixa claro aonde nossa
atenção deve ser colocada. Cada uma das informações apresentadas, embora valiosas,
servem apenas para lançar luz sobre aquele que está se revelando por meio de sua
criação. O texto bíblico pretende deixar claro que tudo o que existe provém de uma
única fonte. Deus aqui é exaltado, sendo apresentado como aquele que criou “os céus e
a terra”, o que faz dele o único digno de receber a honra por tão magnífica obra. Isto
está em claro contraste com a crença pagã dos tempos de Moisés, que afirmava que o
universo é o resultado das ações de uma diversidade de deuses, Gênesis 1 nos mostra
que o universo foi criado por um Deus apenas.

A Palavra de Deus afirma que “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento
anuncia as obras das suas mãos” (Sl 19.1). Este versículo deixa muito claro qual é o
propósito da criação: proclamar a glória de Deus. Quando contemplamos as maravilhas
que Deus fez, automaticamente nossos olhos devem se voltar para aquele que de
maneira poderosa trouxe tudo à existência. Este tem sido o erro de muitas pessoas, pois
contemplam essas coisas, mas se rejeitam a glorificar a Deus por isso. Conforme
Romanos 1.18-21, a ira de Deus se manifesta sobre aqueles que se recusam a prestar a
honra que o Criador merece.

Jeremias 10.1-16 traça um belo contraste entre o verdadeiro Deus e os falsos deuses.
Deus é único, os demais deuses são como "espantalhos em um pepinal" que assustam
aqueles passarinhos que não conseguem enxergar a diferença entre um homem
verdadeiro e um homem feito com palha. De igual modo, muitos daqueles que estavam
no deserto, assim como muitos em nossos dias, não conseguiam enxergar que só o
Senhor é Deus. {{field-off:bible}}

[[@Bible:Ge 1:2]] 1.2 {{field-on:bible}} “A terra, porém, estava sem forma e vazia;
havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas”.

Inicialmente, Deus criou a terra sem forma específica, ela consistia em um aglomerado
de matéria criada por ele a partir do nada. Até então ela estava vazia, isto é, inabitada.
Entretanto, o verso continua e diz que o Espírito de Deus pairava por sobre as águas.
Esta descrição é importante, pois não devemos crer que Deus criou a terra, sem forma e
vazia por um tempo indeterminado, e depois a deixou abandonada. A fim de deixar
claro que o controle de Deus estava desde o início de todas as coisas, lemos que o
Espírito de Deus se fazia presente, pairando sobre aquela coisa informe, mas que logo
operaria uma obra magnífica (Sl 104.30).

No versículo 2 lemos que a terra estava sem forma e vazia. Entretanto, esse quadro será
mudado. A imagem triste e sombria dará lugar a uma criação gloriosa e repleta de
beleza. Derek Kidner apresenta uma relação interessante entre esses dois adjetivos do
versículo 2 (sem forma, vazia) e o relato dos seis primeiros dias da criação. Veja o
quadro abaixo:

Forma Conteúdo
1º Luz e Trevas 4º Luzeiros
2º Mar e céus 5º Animais aquáticos e aves
3º Terra fértil 6º Seres terrestres
Conforme Kidner, os três primeiros dias resolvem parte da tensão criada no versículo 2,
quando lemos que a terra estava sem forma. Assim, a terra começa a tomar forma
segundo a ordem de Deus. Nos três dias seguintes, a terra que estava vazia, começou a
receber conteúdo. É interessante observar que há uma certa ordem na narração dos
fatos, assim, percebemos que os dias 1, 2 e 3 se relacionam com os dias 4, 5 e 6
respectivamente. Logo, no primeiro dia, Deus deu forma, separando luz e trevas
(criando o dia e a noite), no quarto dia ele criou Sol e Lua que governariam o dia e a
noite. O mesmo pode ser visto relacionando o dia 2 com o dia 5 e o dia 3 com o dia 6.
{{field-off:bible}}

I. O primeiro e o quarto dia (1.3-5; 14-19)

[[@Bible:Ge 1:3-5]] 1.3-5 {{field-on:bible}} No versículo 2 lemos que “havia trevas


sobre a face do abismo”. Até então tudo era escuridão, mas Deus no primeiro dia
ordena a existência da luz (Gn 1.3). A partir de então houve a separação entre luz e
trevas, dia e noite. É interessante observar que a criação do sol e da lua só aconteceu no
quarto dia, porém isso não impediu que a terra fosse iluminada. Isso nos faz lembrar de
Apocalipse 22.5. Nessa passagem de Apocalipse vemos que no novo céu e na nova terra
o sol não será necessário para que haja iluminação, pois o resplendor da presença de
Deus iluminaria todo o paraíso. O sol e a lua existem porque Deus quer que eles
existam, mas Deus não precisa deles para nada. {{field-off:bible}}

[[@Bible:Ge 1:14-19]] 1.14-19 {{field-on:bible}}Perceba que os versículos 14, 15 e 16


não citam os nomes “sol” e “lua”, mas os chama simplesmente de luzeiros. O motivo
para tal ocultação se deve ao fato de que o sol e a lua eram considerados seres divinos
naquele tempo por alguns povos, entretanto, conforme a Palavra de Deus, eles são
apenas simples instrumentos de Deus. Esse erro é comum entre os pagãos, pois estes
adoram a criatura no lugar do criado (cf. Rm 1.25). Quanto às estrelas, até hoje muitos
acreditam que elas têm algo a dizer sobre o nosso destino, entretanto aqui elas são
rapidamente mencionadas, colocando-as em seu devido lugar, como uma criação boa,
mas ainda sim, criação e nada mais especial que isso.
O sol e a lua são uma bênção para nós, mas isso não significa que devemos nos
prostrar diante deles em adoração, mas que devemos reconhecer que algo tão precioso
aponta para alguém muito mais sublime, isto é, para o seu criador. {{field-off:bible}}

II. O segundo e o quinto dia (1.6-8; 20-23)

[[@Bible:Ge 1:6-8]] 1.6-8 {{field-on:bible}}No segundo dia o firmamento (os céus) foi
criado. Conforme o texto, parte das águas ficaria na terra e parte ficaria nos céus. As
águas do firmamento são aquelas que posteriormente desceriam em forma de chuva.
{{field-off:bible}}

[[@Bible:Ge 1:20-23]] 1.20-23 {{field-on:bible}}Quanto ao quinto dia, mais uma vez a


visão errônea dos pagãos é contrastada. O versículo 21 fala da criação dos peixes,
citando especificamente os grandes animais marinhos. Os povos daquela época
acreditavam que havia nos mares grandes animais que fortes o suficiente para afrontar
os deuses, como, por exemplo, o Leviatã e Raabe. Os deuses egípcios eram
considerados poderosos, mas ainda assim poderiam ser confrontados e talvez até feridos
pelas criaturas do mar. Em contrapartida, o Deus de Israel, além de ser o único Deus de
verdade, é Soberano e incomparável (Sl 89.5-10). Não podemos afirmar se tais
monstros marinhos existiram, ou se a Bíblia os cita simplesmente para fazer uso da
crença daqueles povos, a fim de mostrar a grandeza de Deus. O fato é que aquilo que os
deuses pagãos temem não são nada se comparados com Senhor. Todas as grandiosas
coisas deste mundo são simples criaturas que se subordinam aos propósitos do Rei da
criação. No Salmo 89 lemos que o Senhor domina a fúria do mar, e o mesmo vemos na
vida no nosso Senhor Jesus que acalmou uma tempestade, deixando os discípulos
atônitos a ponte de perguntar: “Quem é este que até o mar e os ventos lhe obedecem?”,
ele não é ninguém menos do que o Criador de todas as coisas e que exerce domínio
sobre toda a sua criação.

Lembre-se que o povo estava no deserto, cercado de perigos, mas o que Gênesis deixa
claro é que nada disso se compara ao Senhor, então seus planos não poderiam ser
frustrados. Por que se preocupar? Com certeza eles seriam guardados no deserto,
estavam sob a proteção daquele que não tem comparação. Precisamos nos lembrar que
servirmos a esse mesmo Deus. Talvez nenhum de nós tenha medo de monstros
marinhos, mas costumamos ter medo das circunstâncias da vida, nos esquecemos de que
nunca acontecerá nada conosco que esteja fora do controle de Deus. Nosso Deus é
soberano. {{field-off:bible}}

III. O terceiro e o sexto dia (1.9-13; 24-31)

[[@Bible:Ge 1:9-13]] 1.9-13 {{field-on:bible}}No tocante ao terceiro dia, Deus limitou


a água a determinados locais, de modo que uma porção da terra ficasse seca na qual
foram criadas as plantas e ervas do campo. Podemos ver mais um belo contraste aqui:
Enquanto muitos adoravam certas divindades por causa da fartura de alimentos
provenientes das colheitas, lemos aqui que a terra frutífera é uma criação de Deus. Deus
é quem deve ser adorado pelas colheitas e pelo alimento que temos diariamente. É a ele
que devemos pedir “o pão nosso de cada dia” (cf. Mt 6.11). {{field-off:bible}}

[[@Bible:Ge 1:24-31]] 1.24-31 {{field-on:bible}}No dia sexto, todos os seres que


vivem sobre a superfície da terra foram criados. Muitos teólogos entendem, pelos
versículos 29 e 30 que antes da queda do homem em pecado não havia permissão para o
homem comer carne de animais e que sua alimentação se restringiria ao que ele colhesse
das árvores e também do que viesse a plantar. Embora não haja uma afirmação
expressa, tal compreensão faz todo o sentido, pois a morte é uma consequência do
pecado, logo, a mesma não deveria fazer parte daquele ambiente, de modo que até
mesmo os animais se deveriam se alimentar apenas das ervas do campo. Isaías 65.25
lança luz sobre esta compreensão, haja visto que o contexto fala do novo céu e da nova
terra, no qual Deus terá restaurando todas as coisas. A primeira morte física veio das
mãos do próprio Senhor, conforme veremos no capítulo 3, a fim de prover roupa para o
homem, ato cujo significado entenderemos quando chegarmos a essa passagem.
Contudo, isto não significa que o consumo de carne é proibido, pois uma permissão é
dada a Noé em Gênesis 9.3. O fato é que a morte nem sequer era cogitada no período
que precedeu a queda, nem mesmo a morte de animais.

Detalhes importantes são dados na descrição de como Deus criou a raça humana,
entretanto, deixaremos para tratar desse assunto no próximo sermão onde nos deteremos
especificamente em sua criação e também naquilo que Deus requereu dela. {{field-
off:bible}}

IV. Aspectos literários relevantes

A literatura judaica é muito rica e quando lemos com atenção compreendemos certas
ênfases que o autor deseja dar a uma passagem bíblica. Na literatura judaica há dois
números que estão carregados de significado, estou me referindo aos números 7 e 10. O
número 7 é o número da perfeição e o número 10 é o número da plenitude.

Quando me refiro à plenitude, estou falando de algo que está pleno, isto é, completo. O
número dez é usado algumas vezes em Gênesis e isso lhe será mostrado ao longo das
exposições. O que esses números têm a nos ensinar quando contemplamos este
capítulo?

1. O universo foi criado pela Palavra de Deus

Em Gênesis 1, lemos dez vezes o verbo “disse”. O salmo 33 deixa bem claro o
quanto a Palavra de Deus é importante na criação:

Os céus por sua palavra se fizeram,


e pelo sopro de sua boca o exército deles.
Pois ele falou e tudo se fez;
ele ordenou, e tudo passou a existir. (33.6,9, ênfase acrescentada)

Vemos aqui um Deus Soberano ordenando que as coisas venham à existência. Já


contrastamos algumas vezes o pensamento Bíblico comparando-o com o pensamento
pagão. Não vemos aqui relutância alguma, apenas a ordem de Deus sendo cumprida. O
ato de se afirmar isso dez vezes também é significativo porque significa que tudo o que
Deus fez estava pleno, completo, ou seja, não faltava nada.

O apóstolo João identifica cristo como o Verbo de Deus:

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no
princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do
que foi feito se fez. A vida estava nele e a vida era a luz dos homens... E o Verbo se fez
carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como
do unigênito do Pai (Jo 1.1-4,14, ênfase acrescentada).
Cristo é a personificação do Verbo (no grego: Logos). Aquele por meio de quem todas as coisas
foram criadas, por meio de quem a luz veio a este mundo que estava envolto em trevas (Gn 1.2),
e também é o mesmo que cria novamente. O mundo está corrompido por causa do pecado
humano, hoje o sol brilha diariamente, mas o coração das pessoas está envolto em trevas por
desconhecerem a Deus. Mas Cristo é a luz dos homens, e é dessa luz que nós tanto necessitamos
hoje. E assim, aquele que está em Cristo é nova criatura (Cf. 2Co 5.17). Deus está refazendo
aquilo que o pecado destruiu e um dia trará a perfeição que havia no paraíso (cf. Ap 22.1-5).

2. Tudo o que Deus fez era bom

Como já dissemos, o número sete representa a perfeição. Apocalipse usa largamente


esse número. Aqui, por seis vezes é dito que o que Deus fez era bom. E Finalmente,
tudo é considerado muito bom (Gn 1.31). Não havia imperfeição no que Deus criou, o
que temos de ruim é resultado do pecado humano, até mesmo a boa terra que Deus criou
foi amaldiçoada (Gn 3.17). uma mensagem há de ficar clara para todos aqueles que
leem Gênesis 1: Deus é perfeito e faz tudo com perfeição. Podemos ver isso na criação
hoje. Embora nem tudo seja perfeito, ainda assim podemos ver a sabedoria de Deus, e
quão magnífica é a sua obra. Tudo funciona de naturais que o regem, vemos que nada
poderia ser diferente, caso contrário tudo seria um caos. Cada planeta, cada estrela
colocados no local exato, de modo que tudo funcione de maneira organizada, mantendo
assim o equilíbrio das coisas.

Deus continua sendo bom, porque ele não muda. Israel poderia descansar nessas
verdade e nós podemos descansar nela hoje pois sua vontade é boa, agradável e perfeita
(Rm 12.2).

Aplicação

Diante de tudo o que foi dito, gostaria de dizer que:

Nossa fé está depositada naquele que é Deus, e não homem (Oseias 11.9). Quando
confiamos em homens, estamos confiados em algo muito frágil, pois os homens hoje
são poderosos, amanhã podem estar sem anda; hoje estão vivos, amanhã estão mortos.
Deus é diferente, ele está acima de tudo, por isso não temos motivo para vacilar em
nossa confiança para com ele. Gostaria de encerrar citando a Palavra de Deus:

Mateus 6.31-33: Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que
beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas
estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois, em
primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão
acrescentadas.
02. Gênesis 2.1-3: O Sétimo Dia

20 de Janeiro de 2019

Temos vividos em dias cada vez mais conturbados. Está cada vez mais difícil termos
tempo para descansar e aproveitar nossa família, pois as preocupações deste mundo
enchem nosso coração de modo que o tempo para as coisas mais importantes é
comumente negligenciado. A família é importante e tem sido deixada de lado, mas algo
mais importante que isso tem sido deixado de lado com uma intensidade ainda maior.
Estou falando da comunhão com Deus que, na vida da igreja tem ficado para o segundo
plano, pois os cuidados deste mundo têm tomado nossos pensamentos. Em muitos casos
podemos nos identificar com um daqueles casos citados na Parábola do Semeador, no
qual os espinhos sufocam aquilo que fora semeado. Esses espinhos, nas palavras do
próprio Cristo, são “as preocupações deste mundo”.

Enquanto tudo ainda era perfeito na terra, Deus estabeleceu uma maneira pela qual o
homem poderia olhar para o lugar certo, estabelecendo o descanso no sétimo dia. Muito
mais necessária é agora a compreensão deste assunto, pois sendo nós pessoas
manchadas em nossas raízes pela presença do pecado, devemos ser muito mais
cuidadosos a fim de não nos esquecermos desse belo preceito que é o do dia de
descanso. Existem dois extremos que devem ser evitados quando se trata deste assunto:
o primeiro é o do legalismo, por meio do qual o dia de repouso é convertido em um dia
marcado por regras e preceitos e por outro lado há o extremo do desprezo por esse dia
tão especial que nosso Deus nos legou. Nossa intenção é tratar aqui da instituição do
Sábado e o qual o seu significado para nós cristãos.

I. O Sétimo dia (Gn 2.1-3)


1. Acabou (v.1)

[[@Bible:Ge 2:1]] 2.1. {{field-on:bible}}Já vimos que durante os seis primeiros dias
Deus criou uma infinidade de coisas e seres, agora no sétimo dia é dada por encerrada
toda a obra da criação. O texto nos diz que os céus e a terra foram “acabados”, bem
como tudo aquilo que o preencheria. Tudo o que haveria de ser chamado à existência
neste universo foi feito durante esse período de seis dias. O sétimo dia é aqui utilizado
para afirmar essa conclusão. Deus não criaria mais nada, mas manteria todas as coisas
em ordem com o seu poder (cf. Hb 1.3).

Deus não começa nada para deixar inacabado, ele sempre conclui a obra que se propõe a
realizar. Ele concluiu o universo e com certeza levaria o povo que estava no deserto (os
receptores originais deste livro) até ao final de sua jornada, e por isso eles poderiam
confiar em Deus e prosseguir com fé mesmo em meio às adversidades que insistiam em
mostrar o contrário.

Quanto a nós, também podemos descansar nesse Deus que concluirá a sua obra que foi
iniciada em nossas vidas (ver Fp 1.6). Se Deus nos chamou para sermos seu povo, com
certeza ele trabalhará incessantemente em nossas vidas, a fim de completar sua obra em
nós, a qual visa nos tornar semelhantes ao Seu Filho. Aqui está uma grande fonte de
motivação, por isso devemos correr, “com perseverança, a carreira que nos está
proposta” (cf. Hb 12.1). {{field-off:bible}}

2. Descansou (v.2)

[[@Bible:Ge 2:2]] 2.2. {{field-on:bible}} Após tão magnífica obra lemos que Deus
descansou. A Escritura é clara ao afirmar que “o eterno Deus, o SENHOR, o Criador
dos fins da terra, nem se cansa, nem se fatiga” (Is 40.28). Assim, quando o versículo diz
que Deus descansou, pretende afirmar que agora que tudo estava feito, Deus se deu ao
prazer de contemplar a perfeição de sua obra (1.31).

O verbo hebraico que foi traduzido aqui como “descansou” vem do termo shabbath, daí,
chamar-se comumente o sétimo dia da semana de sábado. No Antigo Testamento os
dias são nomeados como: primeiro dia, segundo dia... Apenas o sétimo dia recebe um
nome especial: Shabbath, ou Sábado, por ser o dia em que Deus descansou de sua obra
de criação. {{field-off:bible}}

3. Santificou (v.3)

[[@Bible:Ge 2:3]] 2.3. {{field-on:bible}} Santificar significa “separar” e Deus


“separou” um dia, tornando-o especial. Muitos incorrem em erro ao afirmar que a
ordenança da guarda do sábado foi uma instituição da Lei de Deus, entretanto, quando a
Lei foi entregue em Êxodo capítulo 20 o quarto mandamento baseia-se naquilo que
Deus instituiu na criação. O mandamento inicia-se assim: “Lembra-te”, isto é, os
israelitas deveriam lembrar de um padrão que já estava presente desde o início do
mundo. {{field-off:bible}}

II. O Shabbat no A.T.

Olhando para o Pentateuco, podemos contemplar pelo menos quatro razões para que o
povo observasse o dia de sábado:

a. Criação (Êx 20.8-11).

Assim como Deus cessou seu trabalho no sétimo dia, o povo também é convocado para
cessar o seu também. Adão foi criado por Deus e mesmo no paraíso ele tinha o dever de
trabalhar (veja-se Gn 2.15). Entretanto, havia o princípio de que uma vez por semana,
no sétimo dia, ele haveria de cessar os seus labores e tirar um templo exclusivo para ter
comunhão com Deus. Assim, o Quarto Mandamento, nada mais é do que uma
lembrança do que Deus instituiu ainda no Paraíso. Aqui o homem teria um dia para
dedicar-se estritamente à comunhão com Deus, o Criador de todas as coisas, dando-lhe
a honra e atenção devidas. Quantos de nós necessita se lembrar disso? Quantas vezes a
correria dos nossos dias é tão grande que nos esquecemos de parar e cessar o trabalho
para manter comunhão com Deus?
O nosso trabalho muitas vezes nos escraviza, vivemos em função das nossas
necessidades, e por isso muitas vezes sacrificamos nosso tempo de comunhão com Deus
a fim de conseguir um pouco mais de lucro ou ganhar mais tempo para dedicar a nós
mesmos.

b. Aliança (Êx 31.12-13)

A guarda do sábado serviria também como uma lembrança do relacionamento especial


de Deus com Israel. Assim como muitos casais celebram aniversários de casamento, o
Senhor estabeleceu o sábado como um dia de celebração do pacto que ele estabeleceu
com seu povo. A circuncisão era o símbolo desse pacto, entretanto o sábado era o
momento semanal de celebração do mesmo.

c. Libertação (Dt 5.12,15)

Juntamente com a festa da Páscoa, o descanso semanal era um momento de celebrar a


libertação da escravidão do Egito. Após centenas de anos padecendo nas mãos de Faraó,
agora o povo poderia se alegrar por ser um povo livre graças à poderosa ação de Deus
que humilhou os deuses do Egito. Após muito tempo trabalhando forçadamente, sem
poder desfrutar de nenhum descanso, agora o povo teria a liberdade para repousar por
um dia inteiro e dedicar tempo para ter comunhão com Deus.

d. Descanso na terra prometida (Dt 3.20; 12.10; 25.19)

Além do descanso do jugo da escravidão, a chegada de Israel na terra prometida trouxe


outro descanso: o descanso dos inimigos. Assim que a terra fosse conquistada, o povo
desfrutaria de paz e proteção. Esse momento chegou com o reinado de Salomão. O
nome Salomão vem de shalom, que significa paz. O sábado também serviria como
celebração também desse descanso obtido.

III. O Shabbath Cristão

Uma leitura atenta do Antigo Testamento nos mostra que toda a Escritura aponta para a
pessoa de Cristo e encontra seu significado pleno em sua pessoa. Isso se aplica aos
sacrifícios, ao Templo de Salomão e seus utensílios, e com o Sábado não é diferente.
Assim como destacamos quatro motivos para o descanso semanal, em Cristo podemos
encontrar os mesmos motivos para descansar:

a. Nova criação (2Co 5.17; Ef 2.10)

No final de Gênesis 1 temos a própria avaliação de Deus acerca de sua criação: “Viu
Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gn 1.31). Não havia imperfeições na
obra de Deus, e isso incluía os seres humanos, entretanto, o homem caiu em pecado
trazendo maldição sobre a terra (cf. Gn 3.17) e ficando ele em um estado de morte
espiritual, pois agora sua comunhão com Deus estava rompida. Mas Deus não deixou
sua criação em miséria, pelo contrário, providenciou a solução que este mundo e seus
habitantes necessitavam, ele nos mandou seu Filho. No princípio Deus criou todas as
coisas, nos últimos dias, Jesus realizou uma nova criação, a fim de redimir os homens
perdidos, nos tornando novas criaturas (2Co 5.17; Ef 2.10). Hoje temos mais uma
criação a celebrar, por meio da qual a vida nos é dada. O nosso pecado corrompeu a
primeira criação de Deus, mas por causa do que Cristo fez haverá “novos céus e nova
terra”, pois ele mesmo disse: “Eis que faço novas todas as coisas” (cf Ap 21.1-5).

b. Nova Aliança (Hb 8.6-13)

A Aliança feita com Moisés e com o povo no Egito foi por muitas vezes quebrada por
causa da desobediência e dureza de coração daquelas pessoas. Mas em Cristo, uma
aliança superior foi estabelecida, a qual é descrita em Hebreus 8.6-13. Nós celebramos
essa aliança todas as vezes que comemos do sangue e do corpo da nova e eterna aliança,
o corpo e o sangue de Cristo, quando participamos da Santa Ceia.

c. Libertação (Cl 1.13)

Israel foi liberto da escravidão do Egito, nós fomos libertos do império das trevas. Essa
liberdade foi conquista pelo nosso Senhor Jesus Cristo.

d. Descanso na Nova Terra prometida (Hb 4.1-11)

Moisés e Josué foram instrumentos de Deus para conduzir o povo até à terra prometida,
entretanto, aquele descanso foi temporário, pois não muito depois o povo foi expulso da
terra. Entretanto, em Cristo, um repouso permanente nos é oferecido. Somente em
Cristo devem ser depositadas nossas esperanças de descanso, somente pela fé Nele é
que poderemos um dia estar no paraíso, livres de todos os nossos inimigos e dos ataques
de Satanás.

IV. O dia de Descanso Cristão

Assim como os crentes do Antigo Testamento tinham o seu dia para celebrar as bênçãos
mencionadas acima, os cristão também têm um dia específico para isso, que no caso é o
Domingo. Por que cremos que o domingo substituiu o Sábado?

1. Por causa da abundância de relatos de fatos ocorridos no domingo:

 Jesus ressuscitou no domingo (Jo 20.1);


 Jesus apareceu aos discípulos no domingo seguinte (Jo 20.26);
 O Espírito Santo desceu no domingo (Pentecostes At 2.1-4);
 Os cristãos celebraram a ceia e cultuaram em dia de domingo (At 20.7);
 A coleta de ofertas também foi feita em um domingo (At 16.2);
 Jesus apareceu a João no Dia do Senhor (Domingo, Ap 1.10).

 Sobre este último tópico, há certa divergência, pois aqueles que defendem o Sábado
como dia de descanso afirmam que o Dia do Senhor citado por João diz respeito ao
Sábado, por outro lado os que defendem o Domingo como sendo o Dia do Senhor
creem que João estava se referindo ao Domingo. A nosso favor temos aqueles que
entendem que não nenhum dia precisa ser guardado, pois estes, que podemos considerar
como pessoas neutras nesse debate, em sua considerável maioria entendem que João se
referia ao dia de Domingo.

Há uma declaração formal aqui? Claro que não, mas é significativo o fato de que na
Palavra de Deus haja tantos fatos relevantes acontecidos aos domingos, ao passo que os
demais dias da semana não são mencionados quando acontecimentos semelhantes foram
descritos.

2. Pelo testemunho da igreja primitiva

 Inácio de Antioquia (110 d.C. Aproximadamente), escreveu aos Magnésios:


“Aqueles que viviam na antiga ordem de coisas, chegaram à nova esperança, não
observando mais o sábado, mas vivendo segundo o dia do Senhor, dia em que nossa
vida se levantou mediante Cristo e sua morte” (9,1).
 Justino (Entre 153 e 155) afirmou: “No dia dito do sol, todos aqueles dos nossos que
habitam as cidades ou os campos, se reúnam num mesmo lugar. Leem-se as
memórias dos apóstolos e os escritos dos profetas… Quando a oração está terminada,
são trazidos e vinho e água… Nós nos reunimos todos no dia do sol, porque é o
primeiro dia, aquele em que Deus transformou as trevas e a matéria para criar o
mundo, e também porque Jesus Cristo Salvador, ressuscitou dos mortos nesse dia
mesmo” (I Apologia 67, 3.7).

Observe que Justino disse que o domingo é o dia “dito do sol”. Isso é importante porque
há quem afirme que Constantino mudou o dia da celebração do dia de Descanso do
Sábado para o Domingo porque entre os pagãos este é o dia tido como o “dia do Sol”,
transformando assim esse dia especial em uma celebração pagã. Entretanto, antes
mesmo de Constantino nascer, Justino já fez referência ao domingo como sendo
conhecido por muitos pagãos como o “dia do sol”, mas que independente disso, ele
sabia muito bem que na verdade se tratava do Dia do Senhor.

Considerações Finais e Aplicações

1. A Perpetuidade da Lei Moral. Estudiosos costumam dividir a Lei de Deus em três


classes: Leis morais, cerimoniais e civis. Sobre estas duas últimas, cremos que não estão
mais em vigor. A Lei cerimonial não está mais vigente porque encontraram seu
cumprimento em Cristo e por isso não sacrificamos mais animais como era feito em
outros tempos. Sobre as Leis civis, estas não têm mais valor porque aplicavam-se ao
povo de Israel enquanto nação. Quanto à Lei Moral, cremos que esta também se
cumpriu em Cristo, pois nós mesmos não fomos capazes de cumpri-la, entretanto
cremos que está ainda está vigente e encontra seu resumo nos dez Mandamentos
expostos em Êxodo 20. Partindo desse entendimento e também de tudo o que já
afirmamos sobre o significado do dia de descanso, cremos que o Quarto Mandamento
ainda está vigente, assim como os outros nove, pois cremos este seja um princípio
moral, que precede à Lei conforme já argumentamos.

2. Cristo não revogou a Lei (Mt 5.17). Em Mateus 5 temos um poderoso argumento de
Cristo criticando a perspectiva errada dos religiosos acerca da Lei de Deus. Mas ele
afirmou claramente que não veio invalidar a Lei, mas dar a ela o seu devido
cumprimento. Jesus cumpriu o Sábado perfeitamente. Jesus cumpriu mandamento do
Sábado de modo pleno, o que nos era impossível, e por esse motivo descansamos no
Domingo confiados na obra que ele fizera. Paulo disse que ninguém deveria julgar os
Colossenses por causa de sábados, porque eram um símbolo, uma figura daquilo que
viria, que é a obra de Cristo que foi concretizada.

3. Cuidado com os extremos. Cuidado com o extremo do legalismo, no qual torna esse
dia de celebração e repouso em um dia marcado por regras do tipo “isso pode, isso não
pode”. Cuidado com o extremo do desprezo, de considerar que esse mandamento não
tem mais validade e assim usar isso como argumento para viver relaxadamente neste dia
de celebração. O apóstolo João chamou o domingo de Dia do Senhor. Por isso
precisamos tomar cuidado como vivemos esse dia.

4. Preparo. Sendo este um dia especial, deve haver preparo por parte da igreja. Assim
como uma noiva se prepara bem no dia do seu casamento, nós também devemos fazer o
mesmo. Use esse dia para se preparar, descanse bastante, estude sua Bíblia e se prepare
para o culto como se estivesse se preparando para o seu casamento. Não venha
desleixadamente para a casa do Senhor, ore pelo culto, se prepare para chegar mais cedo
e desfrute da melhor maneira o culto corporativo.

5. Ajuda aos necessitados. Jesus foi criticado por curar no dia de Sábado, mas ele
deixou claro que o dia de descanso é também um dia de ajudar quem precisa. Ao invés
de cuidar dos seus próprios interesses nesse dia, olhe ao redor da sua comunidade e
busque enxergar quem precisa da sua ajuda: Visite quem precisa de companhia, de
conselhos, de oração, reserve esse dia para olhar para Deus e para o seu próximo. Não
estamos defendendo que este seja o único dia para isso, mas eis aqui uma grande
oportunidade que geralmente a correria dos demais dias não costuma nos conceder.
03. Gênesis 2.4-17: A Formação do Homem

27 de Janeiro de 2019

Quem é o homem? Ou o que é o homem? Seria ele um animal evoluído? Um


descendente do macaco? Os cientistas responderiam de uma forma, os filósofos de
outra. Mas e a Bíblia? O que ela nos diz sobre o assunto? Agora começaremos a dar
algumas respostas a tais questionamentos. Esta primeira parte dá ênfase ao homem
(macho), entretanto há diversos fatores que se aplicam às mulheres, sendo uma
passagem útil para todos nós. Na exposição seguinte trataremos sobre a criação da
mulher, mas novamente haverá questões que serão aplicáveis a ambos os gêneros.

I. Formação (Gn 2.4-7)

[[@Bible:Ge 2:4]] 2.4. {{field-on:bible}} “Esta é a gênese”. Esta expressão é


importante, pois ela dá início a cada uma das divisões do livro. O Livro de Gênesis é
composto por uma introdução (1.1-2.3) e então seguem-se dez partes que se iniciam
com o termo hebraico toledot (2.4; 5.1; 6.9; 10.1; 11.10,27; 25.12,19; 36.1,9; 37.2),
que é traduzido como: “gerações” ou “descendência”. Essa palavra no início de cada
nova divisão do livro. Neste caso, nossa primeira divisão inicia-se em 2.4 e vai até o
final capítulo quatro. Essas dez divisões estão organizadas em pares:

Seção 1 ↔ Seção 4
Seção 2 ↔ Seção 5
Seção 3 ↔ Seção 6
Seção 7 ↔ Seção 9
Seção 8 ↔ Seção 10

Conforme formos avançando, veremos as relações existentes entre elas. Quanto à seção
1 (na qual estamos) e a seção 4 temos, respectivamente, as “narrativas sobre o
desenvolvimento universal da humanidade na criação e na recriação após o dilúvio”1.
{{field-off:bible}}

[[@Bible:Ge 2:5-6]] 2.5-6. {{field-on:bible}}As expressões aqui descritas são de difícil


tradução e por isso geram muita confusão. A argumentação mais coerente seria a que
afirma que antes da queda do homem em pecado não havia chuva, a primeira chuva só
viria cerca de mil anos depois, no tempo do dilúvio. As plantas e ervas do campo aqui
descritas dizem respeito, provavelmente, às ervas daninhas (ou cardos e abrolhos,
descritos em Gn 3.18) que brotariam na terra, dificultando o trabalho do homem. Assim,
as plantas existentes eram regadas por uma espécie de neblina que subia da terra e
regava toda a superfície do solo. A ideia aqui é de que a água brotava do solo, a fim de
regar as plantas que Deus tinha criado. Em suma, esses dois versos dão mais detalhes
acerca de como era a terra antes da queda do homem em pecado, por isso estava livre
das ervas que competem com as demais plantas pelos nutrientes do solo. Com a
1
Bíblia de Estudo de Genebra, p.6.
ausência do pecado, tudo era perfeito e funcionava da melhor maneira possível. {{field-
on:bible}}

[[@Bible:Ge 2:7]] 2.7. {{field-on:bible}} Neste versículo temos um detalhamento da


criação do homem, que foi relatada em Gn 1.26-28. O texto diz que formou o Senhor
Deus ao homem. Gênesis 1 e 2 deixam claro que há algo de distintivo na criação dos
seres humanos. Ao descrever a criação das demais coisas lemos que “disse Deus”,
“disse Deus”..., mas quando se trata do homem a narrativa soa mais pessoal: façamos.
Vemos então em Gênesis 1 a divindade dialogando consigo mesma. Não que ao criar as
demais coisas uma das pessoas da trindade tenha resolvido agir independentemente, mas
a descrição aqui chama a nossa atenção para algo diferente, mais importante que haveria
de ser criado. Agora, aqui no versículo 7 o verbo formar é utilizado. Temos aqui a
imagem de um oleiro que trabalhou o barro, produzindo uma obra de arte. Para reforçar
mais ainda esse fato, o texto diz que Deus soprou em suas narinas, dando-lhe o fôlego
da vida. O que faz essa criatura ser diferente das demais? O capítulo 1 nos responde: Ele
foi feito imagem e semelhança de Deus. Enquanto outros deuses eram representados por
imagens esculpidas em pedras, completamente imóveis, Deus criou os seres humanos,
criaturas santas, dotadas de sabedoria e conhecimento.

O texto nos diz que o homem foi formado do pó da terra. Embora seja empregada uma
maravilhosa descrição da criação dos seres humanos, eles ainda devem lembrar-se de
que são formados com o pó da terra, de modo que não são seres divinos, embora
expressem características da divindade. Esses dois aspectos colocam os homens em seu
devido lugar: Primeiro, mostrando o quanto este é especial, segundo, lembrando-o de
que mesmo assim ele ainda é apenas uma criatura. Permita-me tentar esclarecer melhor
esses dois pontos:

Primeiro: o homem é especial. No Antigo Oriente os reis construíam imagens de si


mesmos afim de atestar sua soberania sobre algum lugar. Havia também quem cresse
que certos monarcas eram uma expressão dos deuses, e que por isso estes deveriam ser
venerados e obedecidos. Por outro lado, o relato bíblico evidencia que todos os seres
humanos foram criados à imagem de Deus, e por isso a ordem de dominar a terra foi
dada a cada ser humano de modo que ninguém haveria de se curvar perante ninguém,
mas que cada um seria o governante de uma parcela da criação de Deus, estando abaixo
somente de Deus.

Segundo: o homem ainda é uma criatura. O homem foi formado do barro, e mesmo
que desfrute de certos privilégios em comparação com o restante da criação, ele ainda é
uma criatura, de modo que não pode se igualar a Deus. Isaías 29.16 afirma que Deus é o
oleiro e nós somos o barro. O oleiro tem domínio sobre a matéria prima, sendo este
soberano e cabe aos homens compreender isso. Não estamos em condição de discutir
com Deus acerca de suas decisões (cf. Rm 9.20).

Assim, o homem recebe a honra que lhe é devida, de modo que não se deve pensar nem
mais, nem menos do que ele é. Cada ser humano deve receber a honra e o respeito
devidos, por ser imagem de Deus. Por outro lado, devemos compreender que há um
Deus sobre nós que governa todas as coisas soberanamente. {{field-off:bible}}

II. Habitat (Gn 8-14)

Após a descrição da formação do homem, o texto nos relata sobre o lugar de sua
habitação (o habitat):

[[@Bible:Ge 2:8-9]] 2.8-9a. {{field-on:bible}} A palavra “Éden” tem o sentido de


prazer e fertilidade. Deus plantou um lugar maravilhoso para colocar o homem que ele
havia criado. Note que o texto não usa o verbo “criar”, mas plantar, o que nos chama a
atenção novamente para o cuidado de Deus. Deus “formou” o homem e também
“plantou” um jardim para que este habitasse. Podemos notar aqui a maneira cuidadosa
com a qual Deus trata o homem, criando um lugar deleitoso onde sua criatura mais
sublime pudesse habitar. O versículo 9 fala da existência de uma infinidade de belas
árvores que davam frutos saborosos, tudo isso para o deleite daquele que é a imagem de
Deus. O jardim do Éden deveria ser o local de trabalho dos humanos, mas também o seu
lugar de desfrutar da presença de Deus.

[[@Bible:Ge 2:9]] 2.9b. {{field-on:bible}}Dentre todas as árvores presentes no jardim,


duas delas eram diferenciadas. Certamente na aparência elas não deveriam ser distintas
de uma árvore comum, mas as mesmas possuíam certas propriedades distintivas
conferidas por Deus.

a. A árvore da vida

Quem sustenta a vida de suas criaturas é Deus, mas aprouve a Ele fazer uso dessa árvore
de modo que Adão e Eva desfrutassem dessa árvore afim de obterem a vida eterna. Isto
é, pelo ato de provar constantemente do fruto dessa árvore, os homens poderiam
prolongar sua vida para sempre. Após cair em pecado, a humanidade foi expulsa do
jardim do Éden e ficou impossibilitada de desfrutar dessa árvore (cf. Gn 3.24). Quando
abordarmos o capítulo 3 daremos mais atenção a essa árvore e ao seu significado. No
momento, o que precisa ficar claro é: Em última instância, a vida só pode ser encontrada
em Deus, pois não importa o meio que ele utilize, todas as coisas dependem do seu
poder.

b. A árvore do conhecimento do bem e do mal

O significado dessa árvore será discutido quando chegarmos ao capítulo 3. {{field-


off:bible}}

[[@Bible:Ge 2:10-14]] 2.10-14. {{field-on:bible}} Os rios estão associados à vida.


Civilizações antigas estabeleciam-se preferencialmente às margens de rios, a fim de
obter água com facilidade para saciar a sede e também para irrigar o solo. O fluir de um
rio, vindo de dentro do jardim do Éden é significativo porque era dali que a “vida”
estaria fluindo, e partia dali abençoando o restante da terra. Bem sabemos pelas
Escrituras que Deus é a fonte da vida (cf. Sl 36.9) e aqueles que nele confiam desfrutam
da abundância de suas bênçãos (cf. Sl 46.4) e por isso devemos depositar nossa
confiança Nele (Jr 17.7-8). Essa interpretação pode ser reforçada por Apocalipse 22.1-2
onde lemos que há um rio que flui do trono de Deus, irrigando as raízes da árvore da
vida. Em síntese, o jardim era um lugar de vida e riqueza providenciadas pelo Senhor.
{{field-off:bible}}

III. Responsabilidades (Gn 2.15-17)

O homem não foi criado para viver uma vida ociosa e despreocupada, pois Deus o
incumbiu de certas responsabilidades pelas quais sua vida deveria ser orientada.

a. [[@Bible:Ge 2:15]] 2.15.{{field-on:bible}} Trabalho (Gn 2.15)

“Cultivar”. O trabalho não é fruto do pecado, mas uma ordenança que precede a queda
do homem. Considerando essa verdade, o trabalho então deve ser considerado como
uma bênção de Deus. Muitos enxergam a necessidade de trabalho como uma tortura.
Alguns querem passar a vida sendo sustentados pelos pais, enquanto outros sonham em
ganhar na Loteria, e há também aqueles que preferem roubar o que outras pessoas
arduamente adquiriram. Quando uma pessoa verdadeiramente conhece a Cristo, espera-
se que ele se torne um trabalhador muito melhor, pois passará a entender o seu trabalho
como algo que vai muito além de um ganha pão, mas como um privilégio concedido por
Deus, o que o motivará a dar seu melhor para que assim Deus seja glorificado por meio
de suas atividades (cf. Ef 6.5-8).

“Guardar”. A terra então estava sobre o domínio do homem, e este deveria exercer essa
autoridade e fazer uso daquilo que lhe estava à disposição. Considerando que aqui não
havia pecado, a ordem para dominar a terra (Gn 1.28) pressupõe um governo cuidadoso.
Caberia ao homem tirar seu sustento da terra, entretanto, estava excluída a hipótese de
acontecer o que vemos hoje, a saber, o uso desordenado dos recursos naturais.
Desmatamentos e queimadas, dentre outras atividades que são legítimas, mas
pecaminosas quando feitas de modo irrefletido, sem levar em conta a manutenção da
boa ordem no planeta. Assim, quando vemos maus exemplos dessas atitudes, apenas
estamos contemplando o homem fazendo um uso incorreto do governo que lhe foi
conferido.

Além disso, a terra também deveria ser guardada não apenas de uma atitude predatória,
mas também da investida de Satanás. A Bíblia não oferece detalhes claros acerca da
rebelião de Satanás, mas o que podemos saber é que este se rebelou contra Deus,
tentando usurpar seu lugar e por isso foi expulso do céu. Acredita-se que, estando
Satanás expulso do céu, ele viu a terra como a oportunidade de estabelecer seu reinado,
daí seu propósito ao vir tentar aqueles que Deus estabeleceu como governadores da
terra. Gehard Van Groningen diz que este seria um “reino parasita”, tentando subsistir
naquilo que não lhe pertencia. Estando o homem incumbido de guardar a terra, ele
deveria ter expulso Satanás ao invés de se deixar enredar por suas mentiras. Waltke
afirmou sabiamente que: “Como sacerdotes e guardiães do jardim, Adão e Eva
deveriam ter expulsado a serpente; em vez disso, ela os expulsa”.2 Este é mais um ponto
que pretendemos retomar quando chegarmos ao capítulo 3. {{field-off:bible}}
b. [[@Bible:Ge 2:16-17]] 2.16-17.{{field-on:bible}} Obediência (v.16-17)

O homem possuíam uma outra responsabilidade: a de ser obediente a Deus. Deus dotou
o homem com a sabedoria e capacidade necessárias para que permanecesse em
comunhão com Ele. Sendo o homem um ser livre, colocou Deus a árvore do
conhecimento do bem e do mal no jardim, para que o homem pudesse exercer sua
liberdade de escolha.

Se você tem lido atentamente o que está escrito, notou que diversas vezes estou
passando por certos detalhes afirmando que a explicação virá no capítulo 3, isto está
sendo feito para evitar ser repetitivo e por crer que lá será o local mais apropriado para
determinadas explicações. Por agora, nos atenhamos ao fato de que o homem era livre:
livre para obedecer e livre para desobedecer. Plenamente capacitado para manter-se em
seu estado de retidão, mas também para escolher o caminho do pecado.

Obviamente não havia nenhum mal intrínseco no fruto dessa árvore, tampouco
importa que fruto seria esse, pois a importância reside na obediência, ou não, daquilo
que Deus ordenou. O resultado direto da desobediência seria a morte e foi isto que
exatamente aconteceu, pois o homem ao pecar foi privado do fruto da árvore da vida,
estando a partir daí fadado a morrer. {{field-off:bible}}

Aplicações

1. A Vida humana deve ser valorizada. Considerando que todos somos imagem e
semelhança de Deus, não importa se somos pobres ou ricos, crentes ou
descrentes, todos somos portadores da imagem divina. Por esse motivo, há uma
ordem clara para que não houvesse assassinato no capítulo 9, e o argumento que
Deus usa é o de que o homem é imagem e semelhança de Deus. Assim, todos,
das crianças até os idosos, todos devem ser respeitados.
2. O Mundo deve ser preservado. Comumente desprezamos as orientações sobre o
cuidado que devemos ter com nosso planeta. Esta não é uma questão a ser
ignorada. Se somos de fato os governantes desta terra, devemos cuidar então dela
por meio do uso consciente dos recursos que Deus nos proporcionou. Aqueles
que possuem carro e moto comumente são muito cuidadosos com aquilo que lhe
pertence, atitude semelhante deveríamos ter com este belo planeta que Deus
colocou sob nossa responsabilidade.
3. Devemos trabalhar com amor. O trabalho é um mandamento de Deus, e por
isso devemos buscar ser diligentes no exercício de nossas profissões. Não
importa se você é o patrão ou o funcionário, o zelo em seu trabalho deveria ser o
mesmo, pois o trabalho bem executado é um ato de obediência a Deus e glorifica
o seu nome. O nosso trabalho é uma forma de culto a Deus, nossa vida de culto
vai além dos seus momentos de oração. Se entendêssemos bem isso, nós
2
Waltke, Gênesis, 103.
trabalharíamos muito melhor, comeríamos e dormiríamos de maneira adequada,
porque tudo o que fazemos deve ser para a glória de Deus.
4. Devemos nos parecer como o homem perfeito. Deus criou Adão e Eva
perfeitos, à sua imagem e semelhança, mas por causa de sua desobediência sua
vida de santidade se deteriorou. Entretanto, temos agora um padrão a seguir: o de
Cristo. Em Romanos 8.29 lemos que Deus nos predestinou para sermos
conformes à imagem de seu filho, isto é, para que nos pareçamos com Jesus. Este
deve ser nosso alvo: sermos semelhantes a Cristo e buscar seguir esse padrão de
perfeição, embora estando consciente de que nunca o alcançaremos nesta terra.
04. Gênesis 2.18-25 – A Criação da Mulher

10 de Fevereiro de 2019

Dentre tantos movimentos perniciosos que estão presentes em nossa sociedade, um


dos que mais tem recebido atenção é o movimento feminista. Esse movimento faz coro
com outros grupos que questionam o padrão bíblico para a família, demonizam a
estrutura familiar tradicional e disseminam práticas que destroem aquilo que Deus
estabeleceu. É bem verdade que os homens têm grande parcela de culpa, pois por meio
de suas práticas pecaminosas não dão às mulheres o seu devido valor. Entretanto,
apenas a rendição de homens e mulheres aos padrões bíblicos poderia resolver esse
grande empasse.
No sermão anterior aprendemos sobre a criação do homem, seus privilégios e suas
responsabilidades. Agora nos voltamos para o que Gênesis nos diz acerca da criação da
mulher, que têm suas diferenças em relação ao homem mas que também partilha com o
homem de alguns privilégios e responsabilidades.
Da passagem que temos diante de nós podemos ver que a mulher foi criada para ser:

I. Uma auxiliadora idônea (v.18-20)

Deus não criou a mulher de imediato, juntamente com o homem. Primeiro Deus
criou Adão e lhe incumbiu de dar nomes aos animais. Enquanto ele executava essa
tarefa, com certeza contemplou os pares de animais (macho e fêmea) e notou que ele
mesmo não possuía alguém como ele. No entanto, é preciso que fique claro que a
criação da mulher não foi uma ideia de segundo plano, mas Deus em sua infinita
sabedoria queria, ensinar algo ao homem. Diante de tanta perfeição, agora encontramos
um ponto de tensão na narrativa (Leia o v.20), mas assim como Deus deu forma e
preencheu a terra que estava sem forma e vazia, mais uma vez Ele proporcionaria a
solução para essa tensão.
Por quê Deus não criou logo Eva? Esta é uma pergunta interessante de se fazer e a
resposta é que Deus tencionava fazer com que Adão apreciasse e valorizasse ainda mais
a obra prima que ele faria. Quando Adão viesse a contemplar o presente de Deus, sem
dúvida se regozijaria muito ao receber das mãos do Senhor uma companheira para si.
Após nomear os animais, “Adão estava preparado para uma mulher e a mulher
deveria agora ser preparada para ele”.3
Não é bom que o homem esteja só. Já em um ambiente de perfeição como o paraíso
a falta de companhia já não era boa, imagine em nossos dias que são repletos de
dificuldades. Eclesiastes 4.7-12 apresenta um belo discurso sobre o valor de se ter
alguém, o texto não precisa ser aplicado por completo somente ao casamento, mas sem
dúvida o mesmo pode ser incluído, mostrando o valor de se ter alguém e quão valiosa é
essa bênção que Deus nos concede.
Duas características da mulher que Deus estava prestes a criar são apresentadas no
v.18:
3
Joel Beeke, A criação da mulher, 7.
a. Auxiliadora

Esta palavra evidencia o que a própria Escritura vai deixar mais claro em outras
passagens: A mulher deveria se sujeitar ao seu marido. Ao homem, desde o princípio,
foi dada a liderança. Infelizmente muitas mulheres ao ouvir tal afirmativa em nossos
dias torcem o rosto sem querer aceitar o que a Palavra de Deus afirma. Como já disse
antes, é óbvio que os homens têm parte da culpa por essa rejeição. Pois muitos não têm
sido bons líderes, fazendo mal uso da autoridade conferida por Deus para sujeitarem
suas esposas e humilhá-las, mas o homem temente a Deus encara esta realidade como
uma responsabilidade, e então fará o melhor de si para cuidar daquela que Deus lhe deu.
Assim como Adão e Eva deveria governar juntos sobre a criação de maneira zelosa,
preservando-a, por semelhante modo Adão deveria liderar Eva de maneira santa e
carinhosa.
O problema de nossos dias não está no padrão de se ter o homem como cabeça do
lar, mas da falta de piedade desses homens e muitas vezes na falta de prudência das
mulheres na hora de escolher seu companheiro. Vivemos em um tempo onde as pessoas
contemplam apenas a beleza, não avaliam a postura daqueles com quem desejam viver
uma vida a dois. Muitas vezes, por causa da paixão, ou pelo receio de ficar sozinhas,
muitas mulheres se sujeitam a relacionamentos que lhe são maléficos. Embora esta
palavra aponte para esse fato da submissão da esposa, creio que este não seja o ponto
central da palavra. Entretanto creio que seja necessário abordar esse ponto tão
negligenciado.
A palavra “auxiliadora” aponta principalmente para o significado mais óbvio, ou
seja, para o papel da esposa como um auxílio para o marido. Enquanto muitas mulheres
veem esse fato como algo humilhante, vemos pelas Escrituras que esta é a função que
muitas vezes Deus executa em nosso favor, temos essa verdade presente em muitos
Salmos (veja alguns: 10:14; 22:11; 28:7; 46:1; 54:4; 72:12; 86:17; 119:173, 175; 121:1-2).
Veja, assim como os homens podem recorrer ao auxílio de Deus, semelhantemente, os
homens podem recorrer ao auxílio de suas esposas. Lembre-se de Eclesiastes 4 que citamos
acima. Eva deveria andar de mãos dadas com Adão, sendo seu apoio para poder cumprir o
seu dever, e o mesmo é aplicável a todos nós. Ajudar um homem não é humilhação, mas
desempenhar um papel divino. Feliz é o homem que encontra uma mulher que
verdadeiramente lhe auxilie e lhe faça crescer, por outro lado, uma escolha ruim pode
destruir a vida de um homem (Leia Pv 14.1). O livro de Provérbios termina exaltando a
preciosidade de uma mulher que verdadeiramente desempenha bem seu papel de
auxiliadora (ver Pv 31.10-31).
Infelizmente em nossos dias as mulheres são louvadas por sua independência, mas aos
olhos de Deus o que as torna preciosas é o fato de serem uma bênção para seus esposos.
Isso não significa que elas não podem trabalhar, a mulher de Provérbios 31 é um bom
exemplo disso, mas ainda sim ela se submete ao seu esposo e isso faz com que a sua família
seja uma bênção. Isso é ser uma auxiliadora.

b. Idônea
Uma tradução literal para esta palavra seria “de acordo com o oposto”. Homem e
mulher tem suas semelhanças e suas diferenças, ao olhar para Eva, Adão contemplaria
alguém que ao mesmo tempo era igual a ele, mas que também era diferente. Eles eram
iguais no sentido de que ambos eram humanos, criados à imagem e semelhança de
Deus, ambos estavam incumbidos da responsabilidade de governar sobre a terra. Por
outro lado, era seria o seu complemento, aquilo que faltaria no homem, ele encontraria
em sua mulher. Adão foi feito perfeito, mas não autossuficiente, ele precisa tanto de
Deus quanto de sua esposa.

II. Criada de maneira especial (v.21-22)

Sem dúvida alguma Deus não necessitava retirar uma costela de Adão para criar sua
esposa, mas Deus em sua sabedoria pretendia tornar a criação da auxiliadora do homem
plena de significado. Algumas lições preciosas podem ser retiradas desses dois
versículos:

Primeiro: A mulher é especial. Assim como Gênesis ressalta a cuidadosa formação do


homem a partir do barro, no caso da mulher não foi diferente. Deus também trabalhou
de maneira maravilhosa e detalhista, o que nos mostra que a mulher não é um ser
qualquer, mas uma genuína portadora da imagem de Deus.

Segundo: A mulher deve ser honrada. Não é pelo simples fato de que a mulher foi feita
para auxiliar o homem que isto faz dela uma criatura inferior. Quando se trata desta
passagem é quase impossível nos esquecermos das mais belas e famosas palavras acerca
deste assunto escritas por Matthew Henry:

A mulher foi feita de uma costela de Adão; não foi feita de sua cabeça para ficar
acima dele, não foi feita dos seus pés para ser pisada por ele, mas do seu lado para
ser igual a ele, debaixo do seu braço para ser protegida, e próxima do seu coração
para ser amada4.

É preciso ressaltar que isto não anula o fato de que o homem ainda é colocado em uma
posição de liderança, porém isso não reduz o valor da mulher em relação ao homem.
Diferença de funções é uma coisa, diferença de importância é outra coisa, e neste caso, a
segunda inexiste.

Terceiro: A mulher foi entregue por Deus. O versículo 22 diz que Deus “trouxe” a
mulher até o homem. Esta afirmação nos lembra as cerimônias de casamento, onde o pai
da noiva leva a filha até ao noivo, entregando-a em suas mãos. No momento do
casamento o pai entrega a um homem alguém que lhe é precioso e sem dúvida espera
que sua filha seja bem cuidada, assim como ele cuidou. Por semelhante modo, Deus
conduziu Eva até Adão, colocando-a sob sua responsabilidade, incumbindo-o de amá-la
e protegê-la.

Quarto: A base para todas as demais instituições foi estabelecida. Via de regra, a
sociedade é formada a partir da união entre um homem e uma mulher. A partir dessa
4
Matthew Henry, An Exposition of the Old and New Testament, vol.1, 36.
união vem os filhos e em consequência toda a sociedade é formada, juntamente com
suas estruturas. A decadência na qual vivemos é resultado, em sua maior parte, da
desestruturação familiar. Família desajustadas e que desconhecem o propósito de Deus
geram uma sociedade desajustada e que desconhece o propósito de Deus. Se desejamos
um mundo transformado, precisamos, primeiramente, de casamentos transformados.

III. Feita para ser uma com o homem (v. 23-25)

Até então, apenas Deus havia falado, mas agora, o homem ao contemplar o presente que
Deus lhe trouxera quebra o silencia e proclama um poema (v.23). Finalmente Adão
encontra alguém como ele, mas ele vai além, ele afirma que ela faz parte dele. Paulo
escrevendo aos efésios faz uso desta passagem para expressar o amor que o homem
deve conceder à sua esposa (Ef 5.25-31). Quando um homem e uma mulher se unem
eles se tornam uma só pessoa. Quando um homem ou uma mulher ama e cuida do seu
cônjuge, está na verdade cuidando de si mesmo.

Após Adão dar os nomes apropriados a todos os animais, ele coloca um nome na mulher
que Deus lhe deu, mas não foi um nome qualquer, ele atribuiu a ela o seu próprio nome.
Assim, o varão, chama sua companheira de varoa. Adão queria que sua esposa tivesse
um nome parecido com o dele. Ainda hoje vemos isso em muitos casamentos, onde a
esposa adota o sobrenome do marido. Comumente os sobrenomes terminam com o
sobrenome do pai, mas no caso de muitas mulheres esse nome é complementado com o
nome do esposo. Algo semelhante encontramos na Palavra do Senhor, quando ele diz
que colocaria seu nome sobre seu povo (Nm 6.27), isto significaria que aquele povo
pertenceria a Deus. De igual modo, o marido coloca seu nome em sua esposa,
denotando que aquela mulher lhe pertence. Aquele nome deve ser uma lembrança de
que tal mulher é sua, e assim este deve trazer a lembrança da responsabilidade que o
homem possui.

No versículo 24 um padrão e uma prioridade são estabelecidos. O homem e a mulher


deixam seus lares e se unem um ao outro. Assim uma prioridade é estabelecida.
Logicamente os filhos não devem abandonar seus pais, mas agora um relacionamento
terá a primazia, a saber, o casamento. As obrigações dos maridos e esposas são maiores
do que a que eles têm para com seus pais.

O homem tem o dever de suprir o seu próprio lar com o fruto do seu trabalho. Além
disso, podemos acrescentar que homem que deseja casar deve ter senso de
responsabilidade e saber que agora ele é o responsável pelo sustento de um lar, de modo
que não deve viver às custas de seus pais. Em nossos dias não poucos homens se casam,
mas por causa da preguiça ou do comodismo, ainda tentam viver às custas do sustento
dos pais, esquecendo-se que um dever divino está em suas mãos.

Por fim, o versículo 25 temos um retrato da perfeição do paraíso. Bruce Waltke


expressou muito bem o significado deste verso: “Aqui, sua nudez é uma imagem de
franqueza e confiança. Com a perda da inocência na queda, sentirão vergonha e
tentação, e por isso precisarão proteger sua vulnerabilidade pelo obstáculo da roupa
(3.7)”.
Aplicações

1. Mulheres, serem submissas é uma bênção, a qual o Senhor se agrada e recompensa.

2. Homens, façam bom uso de sua autoridade. Líderes amorosos tendem a ter esposas que
confiam neles. Em nossos dias de fato está difícil de as mulheres confiarem nos maridos,
pois, em geral são meninos mimados e desorganizados financeiramente que se deixados à
vontade põem a perder todos os recursos que há no lar. E é por isso que o padrão bíblico é
tão bonito de deve ser buscado.

3. Solteiros, cuidado com as escolhas. Procure alguém piedoso para ser seu companheiro, que
creia no mesmo Deus que você e tem como propósito principal de sal vida glorificar o nome
do Criador.
05. Gênesis 3.1-24 – A Queda

17 de Feveiro de 2019

A vida neste mundo não é fácil, ela é marcada por lutas, angústias e perdas. Nos
momentos mais dolorosos somos tentados a nos questionar o porquê das coisas não
serem diferentes. Muitas vezes olhamos para os lados e parece que não há solução. É
assim que o povo de Israel se sentiu várias vezes. Enquanto eram escravos no Egito,
muitos já não tinham esperança de retornar para a terra prometida. Durante a
peregrinação no deserto, algumas vezes desejaram retornar para a escravidão do Egito,
tamanha era a incerteza que invadia seus corações. Moisés descreveu muito bem o que
era o deserto: “... aquele grande e terrível deserto de serpentes abrasadoras, de
escorpiões e de secura...” (Dt 8.15). Deus sempre esteve com eles, mas ainda assim eles
tiveram medo e a grande maioria padeceu no deserto. Talvez muitos fizeram perguntas
semelhantes às que são feitas em nossos dias: Por que tanto sofrimento? Por que
morremos? Por que a vida é tão difícil? E considerando que recentemente vimos sobre a
perfeição do paraíso: O que aconteceu com aquele perfeição criada por Deus?

Muitas respostas têm sido dadas a tais perguntas, mas a melhor de todas pode ser
encontrada aqui em Gênesis 3, pois nesta passagem somos levados a contemplar a raiz
do problema. Graças a Deus aqui também podemos encontrar a solução para esse
grande dilema.

Consideremos este capítulo em três partes:

I. Tentação (v.1-7)

a. O tentador (v.1a): “Mas a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos que o
SENHOR Deus tinha feito, disse à mulher”

A passagem refere-se a uma serpente, com base em Apocalipse 12.9; 20.2 sabemos que
o texto refere-se a Satanás, que neste caso se apossou do corpo de uma das criaturas de
Deus a fim de plantar a semente do pecado no coração humano. Satanás é o líder dos
anjos que caíram por se rebelar contar Deus e a passagem deixa claro, logo de início que
tratava-se de alguém astuto, como poderemos ver logo adiante ao analisarmos suas
argumentações ardilosas.

Satanás se aproximou da mulher ao invés de se aproximar do homem que é era o líder.


Conquanto haja boas argumentações acerca do motivo dessa escolha, obviamente o
texto bíblico não deixa claro o seu real motivo, e por isso vamos evitar apresentar
alguma opinião quanto a este assunto.

b. A tentação (v.1b-5)

v.1b: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?”
Satanás de maneira sutil perverte aquilo que Deus dissera a fim de suscitar um diálogo.
Então ele faz uma pergunta mesmo já sabendo a resposta. Então a mulher retruca, mas
ela mesma incorre em um erro ao fazê-lo, pois acabou exagerando ao acrescentar algo
que Deus não havia dito.

Versículos 2 e 3

Deus não disse que eles estavam proibidos de tocar no fruto, e sim que não deveriam
comê-lo. Tocar no fruto poderia, no máximo, ser uma prática imprudente, mas não uma
desobediência. Quanto a este assunto, Tremper Longman III afirmou:

Observe que, no entanto que, no seu zelo em defender o caráter de Deus, ela
aumenta a verdade. Deus não os havia proibido de tocar na árvore: apenas de comer
do seu fruto. Em essência, ela nos fornece o primeiro exemplo de “cercar a lei” – ou
seja, fazer leis humanas que nos guardem de quebrar a lei divina. “Se Deus não quer
que fiquemos bêbados (comparar com Pv 23.29-35), então nem sequer tomo uma
taça de vinho no jantar.” Isso apesar do fato de que a Bíblia celebra o vinho como
um presente de Deus para seu povo (Sl 104.15). A mulher, a ponto de se rebelar,
revela ser a primeira legalista.5

Isto pode parecer uma discussão sem muita produtividade, mas trata-se de algo sério. O
zelo pela verdade de Deus pode nos levar a colocar palavras em sua boca, a fim de nós
mesmos nos sentirmos ainda mais obrigados a obedecê-lo. Entretanto, aquilo que o
Senhor diz é suficiente e deve ser observado com atenção. Quando acrescentamos
nossas próprias regras, estamos dizendo que as ordenanças de Deus são insuficientes
para nos manter no caminho correto. O fato é, que assim como a mulher caiu, mesmo
acrescentando detalhes, nem todo o legalismo do mundo nos manterá fiéis a ele, exceto
o verdadeiro amor às suas ordenanças.

Versículos 4 e 5

Então Satanás diz que certamente não haveria morte no ato de provar do fruto proibido,
pelo contrário, haveria desenvolvimento. Satanás chama Deus de mentiroso, e afirma
que a única motivação para Deus proibir o consumo daquela fruta era porque ela teria o
poder de levar os humanos além do que já era. Os humanos já eram superiores a todos
os animais criados, mas é oferecida à mulher a oportunidade de ser “como Deus”.
Satanás sugere também que Deus estava deixando-os cegos, e que provar do fruto lhes
abriria os olhos, de modo que eles a partir de então seriam capazes de determinar por si
mesmos o que é bom e o que é mal, exercendo assim uma prerrogativa divina. Em
suma, o diabo sugere que Deus está impedindo os humanos de alcançar um nível mais
elevado de suas capacidades mentais.

c. Caindo em Tentação (v.6)

O fruto da árvore em si não possuía esse poder, e por isso que tipo de fruto era esse não
importa, pois o que realmente está em jogo aqui é obediência ao mandamento de Deus.
Tremper Longman III afirmou muito bem que:
5
Tremper Longman III, Emanuel em nosso lugar, 14.
... essa árvore representa a autonomia moral. Comer dela significaria procurar
sabedoria à parte do relacionamento com Deus, que é ele próprio sabedoria. Assim o
nome da árvore descreve a natureza dos atos rebeldes de Adão e Eva e seu esforço
em adquirir autonomia moral. 6

No versículo 6 Satanás sai de cena na narrativa e a atenção é voltada para a mulher, que
põe-se a refletir sobre o modo como deverá agir. Três características faziam daquela
árvore algo desejável: (1) “boa para se comer”; (2) “agradável aos olhos” e (3)
“desejável para dar entendimento”. Todas as demais árvores frutíferas possuíam as duas
primeiras características. Não creio que visivelmente a árvore do conhecimento do bem
e o do mal se destacasse entre as demais pela beleza do seu fruto. Mas a terceira
característica agora era tentadora, pois era “desejável para dar entendimento”, isto é,
oferecia a grande oportunidade de ser igual a Deus e isto sim fazia brilhar os olhos.

Então o pior acaba acontecendo, Adão e Eva colocam suas vontades acima da vontade
de Deus. Primeiramente Eva prova do fruto proibido e depois dá ao seu marido. O relato
não especifica que Adão estava presente durante o diálogo entre Eva e Satanás, mas
muitos estudiosos creem que sim. Também creio dessa forma, de modo que isto
aumenta ainda mais a responsabilidade do homem, por não ter repreendido sua esposa
por desejar desobedecer a Deus. De qualquer forma, sabemos que Eva comeu e também
deu do fruto ao seu marido que certamente não comeu do fruto enganado. Podemos
dizer isso porque, como já argumentamos, o fruto era o de menos, o que estava em jogo
era a obediência ao mandato de Deus, que acabara de ser desprezado.

d. A consequência imediata do pecado (v.7)

A consequência foi imediata, os casal perdeu a inocência e começaram a sentir


vergonha do próprio corpo. Conforme argumentamos sobre o versículo 25 do capítulo
2, a franqueza e a confiança que ali havia foi perdida e então fizeram algumas
vestimentas improvisadas a fim de se cobrir.

II. O juízo (v.8-19)

Versículo 8

Outra consequência do pecado foi o afastamento de Deus. A aproximação de Deus já


não traria mais alegria ao homem, mas terror. Ele sabia que havia pecado e que seu
pecado teria consequências. Não sabemos em que forma Deus apareceu, uma tradução
literal para “viração do dia” seria “vento” ou “espírito” do dia. Sendo que vento (ou
espírito” simboliza a presença de Deus, assim como em 1.2. A comunhão com Deus
agora estava rompida, a morte já havia entrado no paraíso, pois homem e mulher
estavam agora separados de Deus (morte espiritual) e se escondem assumindo assim sua
culpa.

Versículos 9-13
6
Ibid.
Mesmo sendo onisciente, Deus não puniria o homem sem antes se aproximar dele e
ouvir a confissão de sua boca de que havia caído em pecado. Nestes cinco versos, são
feitas três perguntas a fim de ouvir do próprio homem a verdade (Onde? Quem? O
quê?).

a. Onde estás? (v.9-10)


Ao invés de arrancar o homem à força de seu esconderijo, Deus o procura de maneira
compassiva (onde estás?). Entretanto Adão argumenta dizendo que ficou com medo por
estar nu. Aquilo que não era um problema, agora é usado como argumento para
justificar o receio de se aproximar de Deus e então a alegria da comunhão é substituída
pelo medo.

b. Quem? (v.11-12)
Deus então mais uma vez dá ao homem oportunidade de ser sincero e reconhecer o seu
pecado, fazendo a pergunta de maneira mais direta. O homem acaba expondo que
pecou, mas não da maneira devida, ao invés de confessar seu erro, coloca a culpa na
própria esposa e em última instância, no próprio Deus. Adão argumenta com Deus
dizendo que comeu do fruto por que sua mulher o deu. O que ele estava se esquecendo,
ou tentando esquecer é que ele era o líder, e como líder ele é o maior responsável pelo
mal que ambos praticaram. Aqui o casamento, tão belo como vimos no sermão anterior
entra em colapso e a mulher que deveria ser protegida agora é acusada por aquele que
deveria ser seu protetor. Como disse, em última instância Adão tenta transferir sua culpa
para Deus, dizendo que pecou por causa da mulher que Deus tinha dado, como se o belo
presente que ele tinha recebido era um presente de grego.

A transferência de culpa não para por aqui:

c. O Quê? (v.13)
Tanto Adão quanto Eva se recusam a reconhecer seu pecado. Eva teve sua parcela de
culpa em relação a Adão e Satanás em relação a Eva, mas isso não era motivo para que
ambos se esquivassem da responsabilidade. Esta prática pecaminosa perdura até hoje e
pode ser vista até mesmo em criancinhas que mentes a fim de se livrar da correção dos
pais. Com os adultos não costuma ser diferente, até mesmo os cristãos muitas vezes
falham em reconhecer sua própria maldade e buscam encontrar culpados para as
consequências ruins de seus próprios erros. No entanto, a palavra do Senhor é muito
clara quanto à importância e o benefício do reconhecimento de nossos erros (veja Sl
32.3-5 e Pv 28.13). Quando pecamos, significa que perdemos uma oportunidade de
glorificar a Deus, quando não reconhecemos o pecado cometido, perdemos a
oportunidade de nos humilharmos perante Ele suplicando sua graça. A verdade é
libertadora e abre o caminho para o perdão, mas enquanto tentarmos nos justificar, não
haverá misericórdia da parte do Senhor.

1. Castigo de Satanás (v.14-15)


Versículo 14

Agora Deus volta-se para a serpente, quanto a esta, não lhe foi dada a oportunidade de
argumentar, Deus agora aplicará a punição a cada um dos envolvidos, seguindo a ordem
inversa do diálogo que acabamos de ver. Começando pela serpente: “maldita és”. Nos
dois primeiros capítulos três bênçãos foram proferidas (sobre os animais, sobre os seres
humanos e sobre o sétimo dia), a partir daqui, três maldições seriam proferidas, sobre
Satanás, sobre a terra e sobre Caim (capítulo 4).

Não podemos afirmar que as cobras tinham pernas e que a partir daqui as mesmas lhe
foram tiradas. Independente disso, o rastejar da serpente simbolizaria a situação de
Satanás, denotando sua humilhação. Em Isaías 65.25 vemos o quadro perfeito da
criação restaurada, mas quanto à serpente, o texto nos diz que esta comeria pó.
Considerando que o texto de Isaías está nos falando da consumação de todas as coisas,
ele também mostra o estado final de Satanás, que é um estado de derrota, pois seu plano
perverso embora tenha dado certo, será revertido pela obra do Senhor. O que faria com
que o quadro triste do pós-queda fosse revertido é esclarecido no versículo seguinte.

Versículo 15

“Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu


descendente”. Este versículo retrata uma divisão clara que existiria a partir de então no
universo: os descendentes da mulher e os descendentes da serpente. A Bíblia divide a
humanidade entre aqueles que creem e os que não creem. Aqueles que creem
verdadeiramente em Deus são descendentes da mulher, e os demais são a descendência
de Satanás. Não é sem motivo que Cristo disse aos religiosos que o cercavam que eles
eram filhos do diabo. Assim, todos aqueles que não amam ao Senhor verdadeiramente,
fazem parte daqueles que odeiam a verdade e mesmo que não saibam, se opõem à
verdade de Deus. A descendência de Satanás é composta por aqueles que amam mais a
si mesmos, aos prazeres deste mundo em detrimento do amor requerido no Primeiro
Mandamento da Lei de Deus.

De acordo como o nosso prosseguimento nesse livro, poderemos ver bem essa divisão.
Enquanto alguns buscam viver para a glória de Deus, outros se opõem à verdadeira fé.
Não demorará muito pra vermos o primeiro exemplo, pois já no próximo capítulo essa
inimizade será demonstrada na história de Caim e Abel.

Porém, essa inimizade é apenas um reflexo de uma inimizade bem maior, entre Cristo e
Satanás. A segunda parte do verso 15 diz: Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o
calcanhar. O livro de Apocalipse pode ser dividido em duas grandes partes, onde na
primeira (Caps. 1-11) os filhos do diabo, que são os incrédulos, perseguem os filhos da
mulher, que são os crentes. Em sua segunda parte (Caps. 12 ss), fica evidente o motivo
desse ódio, que é o ódio que Satanás nutri em relação a Cristo (leia Ap 12.1-6). 1 João
3.8 nos diz que Cristo se manifestou para destruir as obras do diabo, e logicamente
Satanás não deixaria isso barato, e por isso perseguiu a Cristo, incitou ódio no coração
dos homens, o que culminou em sua crucificação. Assim, o calcanhar do descendente da
mulher foi ferido, mas a ferida que o descendente infligiu na serpente foi muito maior:
ele esmagou a cabeça da serpente. Cristo subjugou Satanás e pisou em sua cabeça.

Assim como Adão foi tentado, Jesus também o foi, entretanto ele saiu vitorioso. Assim
como Mateus, Lucas apresenta a genealogia de Jesus Cristo, mas há dois detalhes que o
tornam diferente. Primeiro, ao invés de avançar pelas gerações, ele retrocede (de Jesus
até Adão), em segundo lugar a genealogia não é colocada no início do livro, mas em um
lugar estratégico: No final do capítulo 3, antes do relato no Cristo é tentado por Satanás.
Ao que tudo indica, Lucas pretende nos trazer a mensagem de que Cristo é o segundo
Adão. Enquanto o primeiro Adão caiu em tentação, o segundo resistiu firmemente às
investidas de Satanás, saindo vitorioso.

Este versículo contém uma mensagem que é chamada de protoevangelho. Aqui, em


meio ao julgamento de Deus sobre o pecado, o evangelho é anunciado pela primeira
vez. A solução para o nosso pecado estaria no ato de crer naquele que haveria de vir e
que esmagaria Satanás, que pagaria o preço pelos nosso pecados e que nos faria ser
aceitos como filhos de Deus. Nós, que nascemos como filhos do diabo, somos
transformado em família de Deus. Conforme Efésios 1.5 nós fomos adotados e agora
estamos livres do nosso pai perverso que ansiava por nossa destruição e condenação no
inferno e temos agora um pai que nos ama, que Deus a vida do Seu filho unigênito para
nos dar o direito à vida eterna.

2. Castigo da mulher (v.16)

E à mulher disse: Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em


meio de dores darás à luz filhos. A primeira parte do castigo da mulher seria o
sofrimento ao ter filhos. Um dos momentos mais belos da vida seria marcados por
sofrimento.

O teu desejo será para o teu marido, e ele te governará. A harmonia da organização
familiar estava quebrada. A partir daquele momento a mulher conviveria com o desejo
de dominar seu marido, mas que nada verdade ela é que seria dominada. A liderança
carinhosa e sacrificial estaria comprometida e daria lugar a uma liderança abusiva. Isto
não significa que todo casamento seja assim, mas que essa seria uma guerra recorrente
no coração humano.

3. Castigo do homem (v.17-19)

Conforme vimos no capítulo 2, o trabalho é uma bênção de Deus, e no paraíso esta era
uma atividade extremamente deleitosa. Agora com o pecado, o homem sofreria muito,
enquanto plantasse, as ervas daninhas competiriam com ele, roubando o nutriente do
solo e machucando suas mãos durante a labuta. A terra já não daria seus frutos de bom
grado, mas o homem batalharia com a terra a fim de obter da mesma o sustento após o
derramamento de muito suor.

A mensagem mais dura está no versículo 19, depois de labutar a vida inteira com a terra,
ele seria enterrado nela até ter seu corpo decomposto. Note o contraste entre a
expectativa de ser como Deus e a situação em que a humanidade é colocada neste
momento da narrativa.

E agora? Está tudo perdido? Ainda há esperança.

III. Salvação (v.20-24)

Versículo 20

Mesmo após a sentença de morte, percebemos que Adão ainda respirava esperança. Este
versículo é importante, pois nos dá impressão de que Adão logo se converteu de seu
pecado, considerando o nome que deu à sua esposa: Eva. O motivo para escolher esse
nome é porque ela seria a mãe de todo ser vivente. O nome Eva, no Hebraico, está
relacionado com a vida. Mesmo em meio à morte à vida é anunciada, e das muitas vidas
que viriam de Eva, uma delas seria essencial, a daquele que esmagaria a cabeça da
serpente. Adão falar em vida, logo após o anúncio da morte é um fato significativo, o
texto nos deixa a impressão de que ele tinha esperança naquele que viria, naquele que
resolveria o problema do seu pecado. A partir de Adão, todo homem temente a Deus
viveria na expectativa da vinda desse descendente que posteriormente seria chamado de
Messias. Enquanto nós olhamos para trás, para o que que Cristo realizou, Adão
(segundo creio) e todos os seus descendentes fiéis que precederam a Cristo olhavam
para frente, para aquele que viria e os salvaria.

Versículo 21

Deus agora resolve o problema das vestimentas do casal. Porém, pode haver um
significado mais profundo nesta passagem. Após anunciar que o homem haveria de
morrer, quem morre primeiro é um animal. Quando tratamos do capítulo 1
argumentamos que não havia morte no paraíso, mas aqui o próprio Deus mata um
animal com o intuito de vestir adequadamente Adão e Eva. Temos aqui o que seria o
início da prática de sacrifícios do Antigo Testamento, onde o homem considerando-se
“nu” perante Deus, levaria sacrifícios perante o Senhor reconhecendo sua indignidade e
que por fim culminaria o perfeito sacrifício de Cristo.

Assim como a vestimenta adequada de Adão e Eva custou a vida de algum animal, a
vestimenta necessária para nos aproximarmos de Deus custou a vida de ninguém menos
que a do seu único filho. O corpo de Cristo foi massacrado na cruz e agora somos
vestidos com sua justiça plena e por esse motivo somos aceitos na presença de Deus.

Versículo 22

Deus conhecia o bem e o mal por se onisciente, agora também o homem conhecia,
assim como Deus, o bem e o mal. Não há nada de bom nisso, pois o homem conheceu o
mal pelo pior caminho, que é o da experiência, o mal habitava agora em seu coração.

Considerando então essa maldade que agora o homem conhecia na prática, de maneira
graciosa Deus decide impedi-lo de se achegar à arvore da vida. Parece que estamos
diante de uma atitude severa, mas na verdade foi um ato bondoso de Deus. Como
assim? Deixe-me tentar explicar. Pense nas pessoas terríveis que já pisarem este mundo
e que causaram terror nesta terra (e.g. Hitler), imagine se essas pessoas tivessem acesso
à algo que lhes concedesse vida eterna? Além de não deixar ninguém se aproximar
desse benefício, perpetuariam sua maldade pela eternidade. Assim, vemos um ato da
bondade de Deus, de modo que até mesmos os poderosos governantes mais perversos,
um dia chegarão ao fim de suas vidas. Dito isto, conclui-se que a morte não é apenas um
ato punitivo, mas também um livramento. Podemos acrescer a isso o fato de que a morte
leva muitos à reflexão, quando nos deparamos com a morte de outras pessoas, pelo
menos por um instante paramos pra pensar que a vida não dura para sempre (Eclesiastes
7.2 deixa isso bem claro).

Versículos 23-24

Finalmente o homem é expulso do jardim e a entrada do mesmo é guardada por dois


querubins. Querubins foram bordados na cortina do templo, guardando simbolicamente
o acesso à presença de Deus, como se dissessem: aqui vocês pecadores não podem
entrar. De modo semelhante, aqui esse querubins impedem o acesso do homem à arvore
da vida e a todo o resto do paraíso, lugar de comunhão com Deus. Se Adão se virasse
para o paraíso, daria de frente com querubins que “diriam” que ele estava impedido de
entrar naquele lugar por causa do seu pecado. Esta história culmina na crucificação de
Cristo, que no momento de sua morte fez com que o véu se rasgasse, nos dando acesso
ao Santo dos Santos. O rasgar do véu é como o abrir as portas do paraíso novamente,
trazendo-nos de volta à comunhão com o Pai.
06. Gênesis 4.1-26 – Caim e Abel

10 de Março de 2019

No carnaval de 2019 uma escola de samba encenou em seu desfile uma zombaria da fé
cristã, na qual Satanás vencia Jesus. O que para muitos foi uma bela expressão artística,
para nós é uma óbvia declaração do lado no qual estão. Conforme vimos no sermão
anterior, desde a Queda, a humanidade está dividida em dois grupos, a saber: a semente
da mulher e a semente da serpente. A semente da mulher são aqueles que amam
verdadeiramente a Deus e o servem de coração. A semente da serpente é composta por
aqueles que desprezam a Deus e que com muita compreensão, ou mesmo nenhuma,
acabam fazendo a vontade do Diabo. Não é a primeira vez que uma escola de samba
desfila declarando sua admiração por Satanás e embora seja uma cena horrível de se
ver, não deveria nos impressionar, pois já aprendemos quando falamos sobre o capítulo
3 de Gênesis que as coisas seriam assim. Sempre haverá aqueles que odeiam a Deus e
que se levantem contra todos aqueles que amam ao Senhor. Quando as pessoas
debocham da nossa fé, quando nos perseguem pelo que cremos, estão simplesmente
mostrando quem são e a quem eles se submetem.

Nem sempre os ataques de Satanás se limitam ao deboche, muitos cristãos padecem por
causa de sua fé, neste exato momento há pessoas sendo perseguidas ou assassinadas.
Mas afinal, quem irá prevalecer no fim de todas as coisas? Será Satanás? É exatamente
isso que a Bíblia frequentemente nos mostra: que embora sejamos perseguidos, Deus
sempre fará com que sua semente perdure até o fim. Embora Satanás tente acabar com a
promessa de Deus, o descendente da mulher sairá vitorioso.

Chegamos agora ao capítulo 4 de Gênesis e antes de analisarmos cada versículo


precisamos ter em mente que temos aqui o primeiro exemplo da inimizade estabelecida
em Gênesis 3.15. Gênesis 4 é mais do que a simples história de um irmão que matou o
outro, este capítulo é um exemplo claro da tentativa de Satanás de jogar por terra a
promessa de envio de um salvador ao mundo caído. Apesar da fúria de Satanás,
precisamos ter em mente que Deus é fiel para preservar a descendência da mulher
até à vitória definitiva de Cristo. Isto significa que Deus está no controle de todas as
coisas e que o Diabo não prevalecerá no grande Dia do Senhor.

I. O nascimento de Caim e Abel (v.1-2)

“Coabitou o homem com Eva, sua mulher” (v.1a). A palavra traduzida como “coabitar”
significa literalmente “conhecer”. O texto hebraico nos transmite a ideia de intimidade
não um simples ato como os dos animais.

“Esta concebeu e deu à luz à Caim; então disse: Adquiri um varão com o auxílio do
Senhor”. Caim foi o primeiro filho de Adão e Eva, seu nome em hebraico soa muito
parecido com a palavra hebraica que se traduz como “adquirir”. O que Eva expressa
com esse nome, bem como em sua fala registrada neste versículo é que esta criança é
fruto da bondade do Senhor. Além disso, Eva não diz que adquiriu uma criança, mas um
“varão”, isto é um homem, assim como Adão foi formado um homem já adulto. Um
provável motivo para isso é que Eva obteve seu primeiro filho na esperança de que
aquela seria a criança prometida por Deus, responsável por pisar na cabeça de Satanás.
Embora não podemos afirmar isto com certeza, é fato que a expectativa do nascimento
do salvador já existia (veja nosso comentário sobre 3.20).

No versículo 2 lemos que Eva tem mais um filho, não sabemos quanto tempo se passou
entre um nascimento e outro, e há aqueles que creem na possibilidade dos dois serem
gêmeos, entretanto isto não pode ser provado e tampouco é relevante na narrativa. O
fato é que Caim é o mais velho e que cada um deles desempenhava determinada
profissão.

II. A adoração de Caim e Abel (v.3-7)

Versículos 3-5a

Os dois irmãos trazem ofertas a Deus como uma forma de culto. O fato de ambos
fazerem isso nos dá a ideia de que tal prática deve ter se iniciado com seu pai Adão.
Note que cada um deles apresentou a Deus uma oferta relacionada com o seu trabalho.
Sendo Caim um lavrador, trouxe a Deus dos frutas da terra, resultado do seu trabalho de
labuta com o solo. Por sua vez, Abel sendo um pastor de ovelhas sacrificou um animal
do seu rebanho e o trouxe ao Senhor.

Após relatar que ambos trouxeram suas ofertas, o texto nos diz que Deus se agradou da
oferta de Abel, ao passo que não se agradou da oferta de Caim. Há uma certa discussão
sobre o motivo da rejeição de Abel, muitos chegam afirmar que o motivo pelo qual
Caim foi rejeitado consiste no fato de que sua oferta não consistia na oferta de um
animal sacrificado. A base para esse argumento é o contexto bíblico que o precede e
também o sucede. Conforme vimos no capítulo 3, Deus sacrificou um animal para vestir
o homem que estava nu, e vimos que isso representava o que Deus faria em nosso favor
por meio de Cristo e a partir daí muitos sacrifícios foram oferecidos, o que prefigurava a
morte de nosso Senhor. No entanto, cremos que seja um tanto forçado afirmar que o
motivo para a rejeição de Caim seja esse. Primeiro porque quando olhamos para a Lei
mosaica vemos exemplo de ofertas de cerais e não apenas de sacrifícios e também
porque a ênfase desta passagem recai sobre a postura contrastante dos ofertantes
conforme vemos nos versículos 3 e 4.

Quando o versículo 3 fala da oferta de Caim, nos é dito que ele veio “no fim de uns
tempos”, o que traz a ideia de que essa oferta foi feita como algo de segundo plano e
que provavelmente não foram os primeiros frutos, tampouco os melhores de sua
colheita. Por outro lado, quando o versículo 4 fala da oferta de Abel, lemos que ele
trouxe das “primícias”, isto é, trouxe o melhor que poderia oferecer de seu rebanho, o
que demonstrava que ele tinha prazer naquilo que fazia.
O fator determinante para a aceitação da oferta de Abel conforme Hebreus 11.4 é a fé.
Conforme já dissemos, é coerente crermos que a prática de trazer ofertas a Deus teve
início com Adão que repassou isso para seus filhos, mas pelo que podemos ver aqui,
apenas um dos dois fez isso com fé em seu coração. A fé de Abel o motivou a dar o
melhor do seu rebanho sem sentir que isso lhe traria prejuízos. A postura de Abel nos é
um testemunho de fé a ser seguido mas que muitas vezes é ignorado.

Por diversas vezes Deus reprovou o seu povo por causa do culto prestado a ele por
mero formalismo (e.g. Is 1.10-17; Ml 1.6-10). Quantas vezes não pisamos na igreja sem
perspectiva alguma, com nossas mentes em outros lugares? Pisamos na Casa do Senhor
indispostos, sem alegria para cantar, orar e ouvir a pregação. Deus conhece o coração de
cada um de nós e julga nossas práticas. Deste modo, devemos estar cientes de que
cultuar a Deus e agradá-lo consiste não apenas naquilo que fazemos, mas também no
modo como fazemos.

Versículos 5b-7

Em vez de reconhecer seu erro, Caim irou-se contra Deus e então Deus faz uma
pergunta a Caim a fim de lhe mostrar que se ele tivesse agido da maneira correta não
teria sido rejeitado: “Se procederes bem, não é certo que serás aceito?” (v.7a). Temos
aqui um reflexo da maldade presente em nós mesmos que muitas vezes erramos mas
tentamos transferir nossas culpas para outras pessoas culpando-as ao invés de
reconhecermos que nossa postura deveria ter sido diferente.

Então o versículo 7 prossegue: “Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à
porta”. Deus então diz a Caim que o pecado está à porta, isto é, de tocaia esperando
uma fresta para que ele possa entrar. Esta é a primeira vez que a palavra pecado aparece
na Bíblia e aqui ele é comparado a um animal feroz que espera uma oportunidade para
se apossar de sua presa. Deus em sua onisciência conhecia tudo o que se passava no
perverso coração de Caim naquele momento e o instrui a não dar ocasião para o pecado.
Disse mais Deus a Caim: “o seu desejo será contra ti, mas cumpre a ti dominá-lo”.
Temos aqui uma alusão a 3.16b, onde Deus fala que Eva teria um desejo pecaminoso
em seu coração de dominar sobre seu marido e ele haveria de lutar contra esse desejo a
partir dali. De igual modo, o desejo de fazer o mal que havia no coração de Caim
deveria ser combatido tendo em sua lembrança as consequências dos pecados de seus
pais, cabendo-lhe então o dever de dominar esse desejo pecaminoso.

O que Gênesis passa a nos mostrar a partir deste capítulo, conforme já dissemos, são as
consequências da entrada do pecado no mundo, cabendo agora aos verdadeiros crentes
travar essa guerra a fim de não sermos esmagados por nossos próprios desejos
pecaminosos. O apóstolo Paulo reconheceu o quão dura é a vida de busca pela
santidade, não se espera que não tenhamos desejo pelo pecado, pelo contrário, é fato
que eles estarão sempre ao nosso redor (Rm 7.15-23), mas é verdade também que
somente em Cristo encontremos a liberdade (Rm 7.24-25).

III. Resultado do pecado não dominado (v.8-16)


Ao invés de ouvir a orientação de Deus, Caim arma um plano astuto e convida seu
irmão para ir ao campo e o mata de modo traiçoeiro. Por sete vezes nesta perícope a
expressão “seu irmão” (ou “teu irmão”) aparece afim de mostrar que ele tudo o que ele
fez não foi contra um desconhecido, mas contra seu próprio irmão, alguém que lhe era
chegado.

Após esse pecado, assim como o fez com Adão, Deus procura Caim e pergunta sobre
seu irmão (v.9). Obviamente Deus sabia de tudo o que havia acontecido, mas assim
como Deus ao seu pai Adão a oportunidade de reconhecer seu pecado, o Senhor faz o
mesmo com Caim que responde de maneira grosseira.

Caim, à semelhança de seu pai perde a oportunidade de reconhecer sua falha e então é
desmentido por Deus, conforme vemos no versículo 10. É como se Deus dissesse a
Caim: “Não adiantar mentir, você derramou o sangue do seu irmão por terra, e por mais
que você esconda a verdade eu sei muito bem o que aconteceu”.

Observe que durante a narrativa nenhuma fala de Abel foi registrada, mas é interessante
notar o que é dito em alguns versículos que citam a sua pessoa.

Veja o que é dito aqui no versículo 10: “... A voz do sangue de teu irmão clama da terra
a mim”. Caim não falou nada nesta narrativa, no entanto seu sangue clamava a Deus.
Pelo quê o sangue de Abel clamava? Nos arriscamos afirmar que seu sangue clamava
por justiça.

Lembre que já dissemos que desde a entrada do pecado no mundo duas sementes
existem. O que as obras desses dois irmãos mostraram é que Abel fazia parte da
descendência da mulher e que Caim fazia parte da descendência da serpente. O que
Caim fez não é muito diferente do que muitos outros incrédulos fizeram, sendo
instrumentos de Satanás tentando abafar a promessa de Deus. O Senhor prometeu que
um salvador se levantaria mas a serpente juntamente com seus servos sempre lutaram
contra isso. Na ira de Caim não vemos apenas o ódio de um irmão ciumento, mas a
marca de uma guerra terrível que é quase tão antiga quanto o universo e que se repetiu
de diversas formas na história. Leia Mateus 23.27-36 e reflita, quantos homens piedosos
foram mortos por causa da verdade, quantos servos de Deus não foram mortos a ainda o
são simplesmente por não se entregarem a mentira e não negarem o nome do
verdadeiro Deus. Quantos assassinos de crentes não fazem coro com Caim no inferno?
Quando judeus não mataram profetas de Deus por odiarem a verdade que saías de suas
bocas? Reflita sobre o que Cristo disse sobre Jerusalém (Veja Lc 13.34).

Não é sem motivo que Paulo disse a Timóteo: Ora, todos quantos querem viver
piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (1 Tm 3.12). Por que serão
perseguidos? Porque a semente da serpente odeia a semente da mulher. Em Apocalipse
12 vemos esse ódio retratado de maneira muito vívida. Mas o conforte que todos nós
temos é que Cristo fará justiça (ver Ap 6.9-11).
07. Gênesis 5.1-6.8 – A Descendência de Adão

17 de Março de 2019

INTRODUÇÃO

I. A genealogia de Adão (Capítulo 5)

1. Prólogo (5.1-5)

Versículo 5.1a: “Este é o livro da genealogia de Adão”.

Esta sentença marca o início da segunda parte do livro (de um total de 10 conforme
argumentamos em 2.4).

Versículos 5.1b-3

No início deste capítulo o texto nos lembra que o homem foi criado à semelhança de
Deus e que ele teve um filho “à sua semelhança, conforme a sua imagem”. O texto nos
leva a uma conclusão lógica: Se Adão foi feito à imagem de Deus e Sete, seu filho, foi
gerado conforme a imagem dele, então concluímos que Sete também era um homem à
imagem de Deus. A imagem de Deus não foi aniquilada após a entrada do pecado no
mundo e a mesma estaria sendo difundida na terra a partir da procriação ordenada em
1.26-28.

2. De Adão até Jarede (5.4-20)

A genealogia é apresentada com um padrão idêntico para praticamente todos os


indivíduos aqui apresentados: (1) nome; (2) Nome de um filho (primogênito?) e a idade
com a qual o teve; (3) anos de vida após o nascimento do filho citado; (4) relato de que
houve nascimento de mais filhos; (5) soma total dos anos de vida do personagem.

A longevidade das pessoas citadas no capítulo 5 é impressionante e faz contraste com a


duração da vida humana após o dilúvio que é reduzida drasticamente. Alguns estudiosos
atribuem tamanha longevidade às boas condições de habitação da terra pré-diluviana,
entretanto não vamos discutir esse fato, pois o mesmo carece de uma sólida base bíblica.
Alguns descrentes podem achar que a Bíblia é mentirosa e esteja exagerando nesses
números, entretanto há documentos sumérios que indicam que pessoas que viveram
nesse mesmo período que antecede ao dilúvio também tiveram esse mesmo período
médio de vida. Independente disso, em algum momento de suas longas vidas eles
enfrentaram a morte que é uma consequência da entrada do pecado no mundo (Leia Rm
5.12-14) e desde então a humanidade sofre a dor da perda de entes queridos.

3. Enoque, o sétimo (v.21-24)

Muitas pessoas desprezam as genealogias por acharem sua leitura desinteressante e


muitas vezes acabam saltando alguns versículos ou mesmo lendo determinado trecho de
maneira displicente. Entretanto, as genealogias podem esconder informações valiosas e
por isso requerem nossa atenção. O relato dos descendentes de Adão veio seguindo o
padrão que apresentamos acima, mas ao chegar na sétima geração a narrativa muda e
passa a dar mais atenção a um determinado personagem, o que nos mostra que o texto
tem algo a nos dizer sobre ele.

Observe que no final do capítulo 4 há uma genealogia, a de Caim, e logo no início do


capítulo 5 há outra genealogia, a de Adão. A primeira vista parece intrigante traçar uma
genealogia de Adão, considerando que Caim é um filho de Adão, mas é aqui que está o
fator interessante. Antes de continuarmos nossa argumentação, observe a tabela abaixo:

1 Adão
2 Caim Sete
3 Enoque Enos
4 Irade Cainã
5 Meujael Maalalel
6 Metusael Jarede
7 LAMEQUE ENOQUE

Na genealogia do capítulo 4, o número 7 na descendência de Adão recebeu atenção


especial, de igual modo, aqui no capítulo 5 o sétimo na descendência de Adão também
recebeu um destaque especial. Esta é a única semelhança entre esses indivíduos, pois o
texto pretende nos apresentar alguns contrastes entre esses indivíduos:

Primeiro contraste: Adão só é citado na segunda genealogia. Tanto Caim quanto


Sete são filhos de Adão, mas Adão não foi citado no capítulo 4. Caim era o filho mais
velho de Adão e esperava-se que a descendência dele fosse a que receberia destaque,
mas por se tratar de um homem ímpio perdeu então esse privilégio. Embora fosse filho
de Adão e Eva, o assassinato traiçoeiro de seu irmão, bem como sua postura após ser
confrontado por Deus deixaram claro que ele fazia parte da descendência da serpente,
que se opõe ao povo de Deus.

Segundo contraste: A piedade (ou a falta da mesma) na vida dos descendentes.


Ainda no capítulo 4 o texto fala de Sete, cujo nascimento foi considerado por Eva como
uma bênção que supriria a ausência do piedoso Abel. O capítulo termina falando do
nascimento do filho de Sete (Enos) e de como a partir dele o nome de Deus começou a
ser invocado. Já argumentamos que é possível ver um sutil contraste entre a
descendência de Caim e a de Sete, pois no caso da família de Caim houve o
desenvolvimento cultural que, embora seja algo bom, não se compara com o valor do
desenvolvimento que houve na família de Sete, que é o da adoração.

A diferença entre as descendências continuam a surgir quando comparamos o final do


capítulo 4 com o capítulo 5. Após falar o que Caim fez, o capítulo 4 prosseguiu falando
de seus descendentes e então o número 6 em sua descendência (o sétimo se contássemos
a partir de Adão) recebe destaque na narrativa, a saber, Lameque. Vimos na vida de
Lameque a progressão da perversidade humana, manifestada pela poligamia, pela
violência vingativa e o desprezo pela proteção de Deus. Quando olhamos para a família
de Sete a história é diferente, pois ao chegarmos ao sétimo na descendência de Adão nos
deparamos com o belo relato sobre a vida de Enoque.

Enoque viveu no mesmo mundo de Lameque, como este teve filhos e filhas (5.21), nas
algo diferente é dito sobre ele: “Andou Enoque com Deus” (5.22a). Enoque viveu uma
vida de temor a Deus, colocando seu desejo não no amor de uma pluralidade de
mulheres como Lameque, mas viveu uma vida de intimidade e comunhão com seu
Deus. Obviamente ele não chegou ao nível de piedade que Adão tinha antes da queda,
mas sem dúvida foi muito além do que qualquer outro ser humano que o precedeu.

O versículo 23 nos relata o tamanho da duração da vida de Enoque neste mundo, que foi
bem menos que seus antepassados, mas o motivo para isso é justificado no versículo 24:
“Andou Enoque com Deus e já não era, porque Deus o tomou para si”. Embora os pais
de Enoque tenham vivido mais do que ele, um dia acabaram enfrentando a morte, mas
com Enoque foi diferente, pois ele foi tomado por Deus sendo levado para sua presença
sem ter que passar pela triste e dolorosa experiência da morte (assim como Elias).

Embora Deus não ande levando pessoas para o céu antes que elas morram, a história de
Enoque nos serve como uma bela lição: quem anda com Deus tem algo muito melhor a
desfrutar do que essa vida. O filho de Enoque, Metusalém, é o indivíduo cujo registro
de sua vida foi o mais longo (969 anos), mas Enoque desfrutou de algo melhor, ele foi
tomado por Deus. Nós certamente morreremos, mas se tivermos fé verdadeira em Deus,
a vida eterna nos estará assegurada (Sl 49.5-15), pois no Redentor certa vez disse: “...
Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11.25).
Há uma solução para a morte, quem viveu nos tempos de Enoque viu nele o vivo
exemplo do poder de Deus e nós também, diante desta passagem temos uma vívida
ilustração do poder de Deus. Quer ter vida abundante? Que viver mais de um milhão de
anos? Renda-se a Cristo, pois a Palavra deixa claro que após sua segunda vinda ele nos
ressuscitará e viveremos para sempre em sua presença.

4. De Metusalém a Noé (5.25-32)

Antes de ser arrebatado aos céus Enoque teve um filho a quem chamou de Metusalém, o
qual teve um filho chamado Lameque. Diferentemente do ímpio Lameque do capítulo 4,
este demonstra ter uma genuína confiança na redenção futura por meio do descendente
da mulher, isto se evidencia quando notamos o nome que este dá ao seu filho. No
versículo 29 Lameque chama seu filho de Noé e o próprio texto nos dá a justificativa:
“Este nos consolará dos nossos trabalhos e das fadigas de nossas mãos, nesta terra
que o Senhor amaldiçoou”. Esta não é uma passagem tão simples de argumentar,
afinal, o que Lameque tinha em mente? O que podemos saber olhando para esta
passagem é que Lameque sabia muito bem o motivo pelo qual a terra tinha sido
amaldiçoada, isto é, por causa do pecado de Adão. Ao chamar seu filho de Noé, cuja
pronúncia no Hebraico é muito semelhante à da palavra “descanso”, Lameque
demonstrou que tinha esperança de dias melhores. Somente o descendente da mulher
poderia oferecer esse descanso e livrar a terra da maldição do pecado. Como já disse,
esta passagem não é tão simples de explicar, mas podemos inferir que Lameque tinha
expectativa de que seu filho poderia ser esse descendente tão esperado, ou então pelo
menos cria que ele exerceria um papel importante nesse processo, como de fato o foi.
Entretanto, podemos incorrer em um erro se tentarmos afirmar um significado exato
para isso, mas o que podemos ver nitidamente é que com o passar das gerações, a
expectativa de redenção estava viva no coração do povo de Deus. O povo de Deus não
estava acomodado com este mundo, mas esperava o melhor que Deus haveria de trazer
e isto serve para nos envergonhar, pois muitas vezes não vivemos com essa expectativa
ardendo em nossos corações.

O texto prossegue seguindo o padrão genealógico do restante da passagem e então o


capítulo se encerra no versículo 32 falando dos três filhos de Noé: Sem, Cam e Jafé, dos
quais falaremos um pouco mais em um sermão posterior.

II. A Perversão da descendência (6.1-8)

Versículos 1 e 2

Após o livro de Gênesis nos apresentar um contraste entre as duas sementes, o texto nos
mostra que algo terrível aconteceu: Os filhos de Deus se misturaram com as filhas dos
homens. Esta parte inicial de Gênesis 6 (especialmente v.1-4) está entre os textos mais
complexos de se explicar do Antigo Testamento. Há três opiniões principais quanto a
este texto e a mais coerente, embora sejam levantados bons argumentos contra ela, é a
de que os “filhos de Deus” citados no versículo 2 são os descendentes de Sete, a
semente da mulher, composta por aqueles (não necessariamente todos) que tinham o
temor de Deus em seu coração e as “filhas dos homens” sejam as mulheres ímpias,
descendentes de Caim. Temos aqui um quadro de relacionamentos inter-religiosos, onde
homens nascidos em uma família que de certo modo preservava a adoração a Deus
casando-se com mulheres pertencentes a outra linhagem marcada pelo paganismo.

Tanto Gênesis, conforme veremos em capítulos posteriores, quanto outras partes do


Antigo Testamento falam de quão desagradável era a Deus a reunião do Seu povo com
outros povos. Deus sabia muito bem que essa reunião mista não faria bem para o povo
de Deus. Há diversos exemplos na Bíblia de que essa mistura não é boa, entretanto,
pensemos no que fez o Rei Salomão tomando diversas mulheres de diversos lugares e
crenças e aonde isso o levou: a adoração a deuses pagãos. No Novo Testamento esse
assunto é reforçado quando Paulo em 2 Coríntios 6.14 diz: “Não vos ponhais em jugo
desigual. Este é o quadro pintado nesses dois versículos: homens de uma linhagem
piedosa sendo atraídos pela beleza de mulheres incrédulas.

Versículo 3

O Espírito Santo, enquanto doador e sustentador da vida humana, mesmo após a queda
do homem concedia graciosamente aos homens viver mais de meio milênio, entretanto,
considerando tamanha maldade, Deus então resolve reduzir a vida humana. Há aqueles
que considerem que os 120 anos citados aqui se refiram a um tempo de arrependimento
concedido por Deus antes de trazer o dilúvio mas, embora reconheça que isto possa ser
o caso, considero mais coerente com o contexto imediato da passagem crer que estamos
diante de uma declaração do Senhor afirmando que abreviaria a duração da vida
humana. Olhando também para os capítulos seguintes podemos perceber que a vida dos
personagens após o dilúvio foi reduzindo. Creio que esse número de 120 anos não deva
ser tomado de maneira literal, mas visto como uma declaração clara de que a vida
humana foi sendo encurtada, de modo que muito depois Moisés escreveu um Salmo
onde diz: “Os dias da nossa vida sobem a setenta anos ou, em havendo vigor, a oitenta;
neste caso, o melhor deles é canseira e enfado, porque tudo passa rapidamente, e nós
voamos” (Sl 90.10). A corrupção estava se generalizando e alonga vida dos homens
estava servindo apenas para que eles crescessem em impiedade.

Versículo 4

O texto fala da presença de “gigantes na terra”, isto é, homens de grande estatura e


também é acrescentado no texto que dos filhos gerados da relação dos “filhos de Deus”
com as “filhas dos homens” nasceram homens de renome. O que este versículo está nos
dizendo? Que além dos gigantes, guerreiros poderosos e que tinham vantagem por sua
estatura e força, também da união entre os “filhos de Deus” e as “filhas do mundo”
nasceram homens de renome, isto é famosos por suas habilidades, assim como Ninrode
o foi (veja 10.9). Estamos falando de homens que por sua força e violência eram
conhecidos e respeitados.

Deus colocou todos os seres humanos como governadores desta terra, mas temos aqui o
início de um período onde homens poderosos se destacam, dando a impressão de que
são melhores do que os demais ou até mesmo criaturas semidivinas, que eram
personagens bem conhecidos na mitologia mesopotâmica. Meros mortais, caminhando
agora para serem venerados como divindades, constituindo este mais um passo na
descida da ladeira do pecado da humanidade, onde os homens desprezam Deus e caem
no erro de pensar que eles mesmos o são.

Versículos 5 e 6

Deus então contemplou o quanto os homens tinham se afastado dele, este versículo
expressa bem o retrato da terra naquele tempo, onde o único desejo dos homens era se
entregar ao pecado.
08. Gênesis 6.9 – 8.22: O Dilúvio

24 de Março de 2019

Infelizmente não temos a real compreensão do quanto nossos pecados são desagradáveis
a Deus. Há em nós a triste tendência de sentir que nossos pecados não são tão graves e
por isso quando olhamos para uma história como essa do dilúvio ficamos abismados
com o que Deus fez, mas a verdade é essa: Deus odeia o pecado e em um momento ou
em outro as pessoas terão que encarar isso. Já vimos como o pecado se agravou na terra
após o pecado entrar nela e agora veremos o tratamento que Deus deu a tamanha
perversidade. Estamos diante de uma história de condenação, mas também de
demonstração de graça, pois o Senhor ao tratar o pecado da humanidade, ainda foi bom
permitindo que um remanescente permanecesse com vida a fim de que esses
continuassem governando sobre a terra.

I. Anúncio do dilúvio (6.9-22)

1. Contraste entre Noé e as demais pessoas (v.9-12)

“Eis a história de Noé” (v.9a). Esta é frase marca o início da terceira parte do livro de
Gênesis, conforme argumentamos em 2.4. O texto já havia falado sobre Noé, mas agora
teremos mais detalhes sobre ele e sobre o tempo no qual viveu.

Versículos 9b-10

Noé é descrito como um homem “justo e íntegro entre seus contemporâneos; Noé
andava com Deus”, apontando que no seu coração havia temor a Deus e que sua vida
era um bom testemunho de piedade e justiça entre seus contemporâneos e também em
tempos posteriores conforme podemos ver em diversas citações de seu nome ao longo
das Escrituras (e.g. Jr 14.14,20; Hb 11.7). Noé era justo, porque buscava fazer o que era
correto e íntegro, pois não era parcial em seu caráter, mas que toda sua vida era uma
vida marcada pela piedade. Obviamente Noé não era perfeito, mas que sem dúvida nele
havia sinceridade diante de Deus e o desejo de servi-lo da melhor forma possível.
Vimos no versículo 8 que Noé achou graça diante de Deus, pois sua vida lhe era
agradável. Entretanto, Noé não tinha do que se orgulhar, pois sabemos que tudo o que
temos e fazemos é uma graça de Deus sobre nossas vidas, e certamente Noé teria em
seu coração um sentimento semelhante ao Apóstolo Paulo: “pela graça de Deus, sou o
que sou” (2Co 15.10).

Versículos 11-12

Em contraste com a descrição de Noé que nos foi apresentada temos o retrato de como o
mundo estava. Observe que por três vezes nesses versículos o adjetivo “corrompido” é
expresso, apontando para a condição terrível em que se encontrava a sociedade daquela
época, que consistia em depravação moral, conforme 6.5. Não sabemos ao certo do que
se tratava essa corrupção, mas podemos imaginar, a luz do pecado humano em todas as
gerações, que ali havia idolatria, desprezo por Deus, imoralidade, desonestidade e
também algo que o texto claramente expressa: havia violência.

Provavelmente essa violência tenha como uma de suas principais consequências o que
nos é dito em 6.4, pois a terra estava habitada por homens poderosos e perversos que
faziam uso de sua força para satisfazer sua cobiça por poder que habitava em seus
corações. Este é o quadro: A humanidade perdida em sua própria impiedade e falta de
conhecimento de Deus, resultando em uma terra marcada pela violência e pela dureza
de coração. Observe que o versículo 12 generaliza, dizendo que esse mal havia
contagiado todo ser vivente. Não estamos falando de alguns povos, de algumas famílias,
toda a terra estava corrompida. A vida no tempo de Noé deveria ser um caos, não havia
leis, pois os princípios do Senhor estavam sendo negados e cada um fazia o que bem
entendia. Quantos lares não foram saqueados? Quantas terras não foram invadidas e
tomadas à força? Onde há pessoas piedosas, mesmo em meio a lugares marcados pelo
pecado a graça de Deus ainda recai sobre tais lugares por amor dos seus servos, mas no
caso deste período que estamos observando a maldade reinava praticamente sem ser
contestada.

2. O anúncio do dilúvio (v.13-22)

Deus então Deus anuncia a Noé o que pretende fazer (v.13), destruir tudo o que está
sobre a terra a fim de limpá-la da perversidade que reina em Sua bela criação. Note a
repetição de que “a terra está cheia de violência”. A terra estava se tornando um lugar
impossível de se habitar, considerando o tamanho da maldade espalhada por todo canto.

Dos versículos 14 a 16, Deus descreve para Moisés o modelo de uma arca que ele
deveria construir, com as seguintes dimensões (aproximadamente): 140 metros de
comprimento, 23 metros de largura e 13,5 metros de altura.

O versículo 17 deixa claro que o dilúvio é um ato do próprio Deus e não um acidente, a
fim de destruir a terra que estava manchada com a maldade humana. Entretanto Deus se
compromete a preservar Noé com vida e juntamente com ele sua família e os animais
representantes de cada espécie e assim Noé fez tudo conforma a ordenança do Senhor
(v.22).

II. O dilúvio (7.1-24)


Após a construção da arca Deus ordena a Noé que este entre nela e novamente afirma a
justiça de Noé. Do versículo 2 ao 9 temos a descrição da quantidade de animais que
entraram na arca. Esse período de ingresso dos animais na arca, ao que o texto indica
durou 7 dias e nesse último dia então entrou Noé com sua família na arca. O Versículo
12 nos informa que houve copiosa chuva, que sem dúvida foi uma chuva extremamente
intensa que rapidamente alagou toda a terra, inundando assim a parte seca que Deus
havia criado para que o homem habitasse.
O versículo 17 nos dá a duração do dilúvio, que foi de quarenta dias. A chuva foi tão
demorada e intensa que foi capaz de cobrir até os mais altos montes. Nos versículo 21-
23 temos o relato de que todos os seres terrestres e os seres humanos pereceram, sendo
extintos da terra.

Que cena terrível. Imagino que você esteja pensando na quantidade de vidas que se
perdeu. Sim, muitas pessoas morreram. A morte é a consequência do pecado e esse é o
resultado para todos aqueles que amam os caminhos da perdição. O pecado tem
consequências e o Senhor exerce juízo sobre aqueles que o praticam. Foi assim com: (1)
Adão (Gn 3);(2) Aqui no dilúvio; (3) Com Babel (Gn11); (4) com Sodoma e Gomorra
(Gn 19); (7) Com Israel sendo deportado para a Assíria (722 a.C.); (8) de Judá para a
Babilônia (587 a.C.) e finalmente sobre Jesus Cristo. O Filho de Deus morreu por nós
para satisfazer a justiça de Deus. O Senhor deixou claro que nossos pecados teriam
consequência e nós optamos pelo pecado e por isso nós éramos merecedores da ira de
Deus assim como cada indivíduo do tempo de Noé, mas Jesus Cristo tomou sobre si a
nossa culpa e suportou o castigo de Deus para que nos fosse dado o direito à vida.

Deus pune os pecados. Essa mensagem de condenação sempre caracterizou todos os


verdadeiros profetas de Deus a fim de chamá-los ao arrependimento. Posso citar como
exemplo Moisés (Dt 8.19,20), Isaías (Is 1.18-20), João Batista (Mt 3.1-2, 8-12), Jesus
Cristo (Mt 4.17) e também seus apóstolos (At 3.19). A pregação fiel da Palavra de Deus
não esconde a seriedade do pecado, mas a expõe a fim de que os homens se arrependam.
Todos nós devemos ficar alertas e sabermos que nenhum daqueles que se renderem a
Cristo verdadeiramente terão salvação.

Em 2 Pedro 2.5 Noé é chamado de pregoeiro da justiça. Inferimos dessa passagem que
Noé enquanto construía a arca, o que sem dúvida demandou muitos anos, teve a
oportunidade de anunciar o juízo de Deus. Imagine quantas pessoas zombaram de Noé
enquanto construía aquela enorme embarcação crendo na absurda ideia de que Deus
mandaria uma chuva tão forte que mataria todos que pisavam seus pés nesta terra. Em
contrapartida, Noé prosseguiu em sua grandiosa obra e por muitas vezes anunciou o
juízo e provavelmente os convocou ao arrependimento. Como ninguém acreditou, cada
um seguiu sua própria vida, cuidando dos seus próprios interesses e quando estavam
bem tranquilos, foram surpreendidos com o dilúvio e morreram.

O dilúvio foi uma demonstração do juízo de Deus e nos serve como alerta foi o juízo
final e definitivo ainda está por vir. Em Mateus 24 somos exortados a ficar alertas, pois
Cristo vai voltar e ai daqueles que não estiverem preparados (Leia especialmente Mt
24.3,27,36-44. Assim como no tempo de Noé as pessoas estavam despreocupadas,
mesmo diante do anúncio de Noé e da construção da arca, a Palavra de Deus está sendo
pregada, e os verdadeiros pastores estão anunciando que Cristo voltará para julgar vivos
e mortos e que Ai daqueles que não estiverem preparados.

Como você tem vivido sua vida? talvez você esteja se preparando para casar, ou
desfrutando do seu casamento, desfrutando do fruto do seu trabalho, mas não tem dado
valor à Palavra de Deus que nos diz diariamente: Se arrependa! se arrependa! Que triste
condição a sua. Deus será implacável em seu juízo, nele há salvação plena, mas somente
para aqueles que se arrependerem e verdadeiramente crerem nele como Senhor e
salvador de suas vidas.

III. As águas do dilúvio baixam (8.1-22)

Após o cenário de terrível destruição a situação começa a mudar.

Versículos 1-5

Este versículo nos diz que “Lembrou-se o Senhor de Noé e de todos os animais
selváticos...”. O nosso Deus nunca se esquece de nada e certamente não havia de
esquecido de Noé, mas chama a atenção dos leitores de que o Senhor ainda estava
presente e que em breve traria bonança para a terra novamente. Então o Senhor fez
cessar a chuva e fez que as águas começassem a escoar, período que durou 150 dias (cf.
v.3).

Dos versículos 13 ao 19 temos o relato da saída de Noé da Arca, juntamente com os


animais e então a ordem de Deus é dada para que os animais e os seres humanos voltem
a povoar a terra e se multiplicar nela. Estamos diante do quadro de uma nova criação.

Versículos 20-22

De maneira grata a Deus pelo livramento concedido a ele e sua família, Noé então
ofereceu um sacrifício a Deus. Então o Senhor sentiu o cheiro da oferta que subia pelo
ar e se agradou da oferta.
09. Gênesis 9.1–29: A vida após o Dilúvio

31 de Março de 2019

Introdução

I. Orientações e Restrições (v.1-7)

“Abençoou Deus a Noé e a seus filhos” (v.1a)

Após o dilúvio Deus proferiu sua bênção sobre a família de Noé, assim como fez em
relação à sua criação (veja 1.22,28; 2.3 e 5.2). Noé pode ser considerado um novo Adão,
pois estamos diante de um novo começo. Cremos que podemos afirmar isso
considerando: (1) A bênção proferida sobre Noé e sua família, semelhantemente ao que
foi feito nos versículos citados acima (especialmente 1.28 e 5.2 por se referir a Adão e
Eva); (2) a repetição da ordem para serem fecundos e se multiplicarem; (3) as
orientações sobre a alimentação (compare 1.29 com 9.3); e (4) sobre o domínio que o
homem exerceria sobre a criação (compare 1.26 com 9.2).Com essa bênção “ele os
assegurou [Noé e sua família] sua boa vontade e suas graciosas intenções concernentes
a eles”.7

“e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra” (v.1b)

Conforme um antigo relato mesopotâmico o dilúvio foi a solução de um deus que estava
incomodado com a quantidade de pessoas na terra e o barulho que estas estavam
fazendo. Por outro lado, vemos no relato bíblico que a procriação é uma bênção e um
dever dados aos homens nos tempos da criação e que foi reforçado após o dilúvio, pois
o que verdadeiramente lhe desagradou e ainda desagrada é a proliferação do pecado.

Versículo 2

Deus criou Adão e deu a ele domínio sobre toda a criação, o que inclui os animais. Já
argumentamos que esse domínio seria caracterizado por um cuidado amoroso pela
criação de Deus devido à ausência do pecado, mas agora o caso era diferente, pois a
relação do homem com os animais seria caracterizada por “Pavor e medo”. Tendo em
vista a perversidade humana, Deus dotou os animais com esse medo a fim de que esses
buscassem se proteger, pois o homem não era um governante confiável desde sua queda
em pecado.

Versículo 3-4

Agora Deus dá ao homem permissão para este se alimente da carne de animais, assim
como Deus permitiu que ele se alimentasse das ervas do campo. Porém, uma restrição é
estabelecida, a carne não deveria ser comida com sangue.

7
Matthew Henry, An Exposition of the Old and New Testament, vol.1, 74.
O texto nos diz que o sangue é a vida, o que não devemos tomar como algo literal e sim
que o sangue representa a vida do animal. Cremos que esta seria uma forma de evitar a
selvageria por meio do consumo de carne crua. Embora os animais tenham sido dados
por Deus como sustento para o homem, ainda sim são criaturas de Deus e são valiosas a
seus olhos. Os humanos não deveriam se alimentar como bestas selvagens, mas de
maneira respeitosa. Ao matar um animal, o sangue deveria ser derramado por terra e
depois ser cozido ou assado. Walton, Matthew e Chavalas afirmam que:

A drenagem do sangue antes de comer a carne era uma forma de devolver a força vital do
animal a Deus que a havia dado. Isto era um reconhecimento de que se havia tirado a vida
com permissão [de Deus]”8

Em suma, essa ordem serviria para um duplo propósito, refrear a selvageria e também
um reconhecimento que a vida é um presente de Deus e que não pode ser tirada
indiscriminadamente, seja ela animal ou mesmo humana, conforme veremos a seguir.

Versículos 5 e 6

Sendo a animal digna de respeito, quanto a mais a vida humana. Assim, se um animal
ou um ser humano viesse a matar alguém esse animal então esse animal ou essa pessoa
deveria ser morta. Podemos exemplificar isso com a Lei de Deus registrada em Êxodo
21.28-29 onde um animal que matasse alguém deveria ser morto e caso pudesse ser
provado que o proprietário era ciente de que seu animal era agressivo e não fez nada
para evitar um acidente, então ele deveria ser morto porque a morte foi resultado do seu
ato de irresponsabilidade. Nesse caso um resgate em dinheiro ainda poderia ser pago
caso um familiar exigisse um resgate (v.30), mas quando se tratava de um assassinato
nenhum resgate haveria, o indivíduo assassino deveria ser morto (Nm 35.31-34).

No versículo 5 Deus diz que vai requerer o sangue, isto é, vai exigir que a justiça seja
feita. Se alguém assassinasse outra pessoa deveria ser morta também, isto porque
alguém teve a audácia de matar um ser que foi feito á imagem de Deus. Talvez você
tenha assistido ao filme “Troia” no qual o herói Aquiles corta a cabeçada estátua do
deus Apollo e o desafia a fazer algo com ele. Cortar a cabeça de uma imagem de um
Deus era o mesmo que afrontar a esse Deus e nós já dissemos como os humanos foram
criados à imagem e semelhança de Deus, imagens vivas, com sentimentos e raciocínio,
tirar a vida de um ser humano é o mesmo que afrontar ao Deus que o criou. Vivemos
dias em que a vida humana tem sido desvalorizada de maneira impressionante, mas se
atentássemos bem para o que a Escritura nos afirma, olharíamos para nossos
semelhantes de uma forma diferente, pois enxergaríamos nela o valor que o Senhor
atribui a elas.

A palavra traduzida como próximo no versículo 5 significa literalmente irmão. Partindo


dessa ideia, todo assassinato é fratricídio, isto é, é o assassinato de um irmão, pois
estamos ligados pelo fato de sermos, todos, imagem de Deus. Deste modo, o
assassinado não é somente uma afronta a Deus, mas também contra um irmão.

8
John Walton, Comentario del Contexto Cultural de la Biblia: Antiguo Testamento, 29.
Versículo 7

O versículo 7 encerra esta primeira parte do capítulo reforçando o que foi dito no
versículo 1, ao invés de tirar vidas, era dever do homem se multiplicar e espalhar a vida
por toda a terra.

II. O pacto de preservação (v.8-17)

Versículos 8-11

O Senhor agora dá garantia de que não mais traria outro dilúvio. Essa aliança foi
estabelecida com a família de Noé e se estendeu aos seus descendentes e aos demais
seres vivos. O motivo para isso não é nenhuma mudança no caráter da humanidade (cf.
8.21), mas tão somente por um ato de misericórdia da parte de Deus. “Como o velho
mundo foi destruído, para ser um monumento de justiça, então este mundo continua até
hoje, um monumento de misericórdia, de acordo com o juramento de Deus”.9 Isto é,
com o dilúvio Deus demonstrou sua ira justa contra o pecado, servindo de aviso para os
negligentes, mas por outro lado, o pacto de preservação feito com a família de Noé
atesta sua bondade dispensada sobre aqueles que não a merecem.

Nos antigos pactos que eram estabelecidos havia uma responsabilidade mútua,
entretanto, aqui Deus não exige nada da humanidade, mas tão somente oferece usa
garantia.

Versículos 12-17

Ao longo da história Deus estabeleceu algumas alianças com seu povo que comumente
eram marcadas por um sinal. A circuncisão era um sinal da aliança de Deus com Abraão
(cf. 17.11), o Sábado era o símbolo da aliança de Deus com Israel (Êx 31.13) e o cálice
é sinal da nova aliança firmada entre Cristo e o Israel espiritual (Lc 22.20). Assim,
como o próprio nome já denota, o sinal simboliza algo, e neste caso o símbolo da
promessa de preservação da vida é o arco-íris. Isto não significa que ele ainda não
existia, mas que a partir de então ele apontaria para essa realidade.

Perceba que no texto é utilizada apenas a palavra “arco” que originalmente diz respeito
ao arco utilizado para lançar flechas. Se esta relação de fato foi pretendida no texto,
então vemos em Deus a figura de um arqueiro que põe de lado o arco, seu instrumento
de morte, garantindo que não atacaria mais, pelo menos não com um dilúvio.

O arco-íris é uma figura muito útil, pois este surge quando o sol incide sobre a umidade
que está suspensa no a, fenômeno mais comum após alguma chuva. Assim, após
períodos chuvosos é mais provável ver o sinal de Deus surgindo como uma garantia de
que Ele não permitirá que a chuva inunde tudo novamente. Deste modo, os temores
poderiam ser apaziguados e um visível lembrete do cuidado de Deus estaria impresso
nos céus. Se por um lado Deus olharia para o arco e se lembraria de sua promessa, por
outro lado a humanidade teria o dever de lembrar-se disso com gratidão.
9
Ibid, 75.
III. A descendência de Noé (v.18-19)

Esta é a quarta vez que os filhos de Noé são citados nominalmente (5.32; 6.10; 7.13;
9.19) ao passo que o nome de sua esposa não é mencionado. Cada vez que o seus nomes
foi citado somos levados a nos perguntar sobre o que sucederia com esses homens,
seriam todos homens piedosos? Seguiriam o exemplo de piedade de seu pai? O que
sabemos até agora deles é que eles tinham suas esposas que entraram com eles na arca e
que a partir deles é que a terra foi povoada após o dilúvio. Este trecho serve como
transição para a próxima passagem onde finalmente o foco começa a sair do
personagem Noé e vai então para seus filhos que darão continuidade à existência da raça
humana e finalmente veremos um pouco do seu caráter e teremos noção de por onde a
semente as sementes da mulher e da serpente se perpetuariam.

IV. A bênção e a maldição de Noé (v.20-29)

Versículos 20-21

Enquanto alguns povos atribuíam aos deuses a origem do vinho, a Escritura nos mostra
que ela é fruto do trabalho humano. Noé então após colher os frutos de sua vinha
exagerou no consumo do mesmo embriagando-se e deitando sem roupa em sua tenda.

Versículos 22 e 23

Estando Noé naquela condição vergonhosa Cam, um de seus filhos, contempla aquela
cena e então insulta a seu pai, comentando com seus irmãos a horrível em que seu pai se
encontrava. No mundo antigo o insulto aos pais era um erro gravíssimo, pensamento
bem distante deste de nossos dias marcados por falta de respeito. Noé obviamente
estava errado, mas isso não torna o ato de Cam justificável. Desprezar os pais é
desprezar a ordem hierárquica criada por Deus.

Sem e Jafé ao saberem pela boca de Cam que seu pai estava nessa condição vergonhosa,
ao invés de se juntarem para chacotear seu pai, respeitosamente utilizaram-se de uma
capa e, andando de costas, cobriram a nudez do seu pai, para que eles mesmos não
vissem sua nudez e também que ninguém mais pudesse ver.

Versículos 24-27

Após Noé acordar ficou sabendo o que seu filho havia feito com ele, mas ao invés de
amaldiçoar Cam, seu filho, ele amaldiçoou seu neto Canaã. Há uma diversidade de
opiniões para isso por se tratar de um texto não tão simples. O que sabemos pelas
escrituras é que Deus muitas vezes visita a iniquidade dos pais nos filhos, não porque os
filhos são atingidos injustamente, mas porque comumente os filhos seguem os caminhos
tortuosos traçados por seus pais. Noé provavelmente não estava falando isso na
condição de profeta, mas é fato que suas palavras se alinharam com os eternos
propósitos de Deus, ainda que este não tivesse ciente disso.
Em contrapartida, Noé roga as bênçãos de Deus sobre seus filhos Sem e Jafé, mas há
certo destaque para Sem, onde lemos: “bendito seja o Senhor, deus de Sem”. Enquanto
a linhagem da serpente se propagaria principalmente por meio da descendência de
Canaã, por meio da descendência de Sem prosseguiria a semente santa conforme
veremos ao longo do livro.

. Canaã se tornou um nome muito conhecido pelo povo de Israel, pois os seus
descendentes foram inimigos deles por muitos anos.

Desse modo, Noé acaba expressando algo que serviria de conforto para sua posteridade.
Noé afirma que Canaã seria servo dos seus irmãos, mas não foi assim quem aconteceu
durante um largo período de tempo, pois os cananeus por muito tempo foram um povo
poderoso e como já dissemos foi um poderoso inimigo de Israel. Entretanto, a palavra
de Noé ainda estava de pé, e um dia esse grande inimigo seria esmagado. Lembre-se
que argumentamos no primeiro sermão que Israel recebeu este livro de Gênesis
enquanto estava no deserto, caminhando justamente para a terra de Canaã para tomar
posse daquele lugar que Deus lhe prometera.

Versículos 28-30

Estes dois versículos fecham o capítulo e também o relato da história de Noé que viveu
350 anos após o dilúvio, tendo tido uma vida total de 950 anos.
10. Gênesis 10.1–11.9: A torre de Babel

14 de Abril de 2019

Você já deve ter ouvido um jovem falando que deseja conseguir um emprego e tornar-se
independente, pois pensa que se isso acontecer ele não vai mais precisar de ninguém e
consequentemente não será mais necessário dar satisfação de sua vida para seus pais,
por exemplo. Obviamente o desejo de conseguir pagar suas próprias contas não é
pecaminoso, contudo esses discursos tendem a vir acompanhados do desejo de não mais
receber repreensão pelo seu erro, pois “se pago minhas contas, por que você está me
criticando?”. Independência! Foi isso que Adão e Eva buscaram, é também o que as
pessoas buscam hoje e também era o que os personagens que temos diante de nós
almejavam. Aqui está um retrato fidedigno da humanidade caída, cujo desejo de ser
livre para pecar arde em cada coração. Mas como veremos agora, mesmo em meio a
tanta podridão, Deus ainda mantém tudo sob controle por meio de sua intervenção
soberana.

O capítulo 10 apresenta os povos que surgiram no mundo pós-diluviano, isto é, os


descendentes de Sem, Cam e Jafé, bem como os locais para onde eles se espalharam.
Lembre-se da ordenança dupla do Senhor: multiplicar-se e encher a terra. Eles haviam
se multiplicado e também se espalhado, entretanto essa segunda ordenança só foi
obedecida após a intervenção de Deus conforme nos mostra o capítulo 11, no qual
vamos analisar mais detidamente. Deste modo, grande parte das gerações relatadas em
Gênesis 10 veio a existir após o episódio da torre de Babel.

Podemos dividir esta narrativa do capítulo 11 em duas partes: (1) As obras dos homens;
(2) a Intervenção de Deus, conforme veremos abaixo:

I. As obras dos homens (v.1-4)

Versículo 1

Não estamos muito distantes do episódio do dilúvio, algumas gerações já teria se


levantado, mas não muitas e por isso a linguagem era não somente a mesma, mas
também bastante semelhante (o mesmo sotaque, se é que podemos dizer isso)
considerando que todos descendiam da família de Noé, e até então a humanidade não
havia se distanciado uma da outra ainda.

Versículo 2

Este versículo descreve a migração do povo e a sua chegada na terra de Sinar (atual
Suméria) que fica entre os rios Eufrates e Tigre. Estamos falando de um lugar fértil,
regado por dois rios, e deve ser exatamente por isso que enxergaram ali um bom lugar
para habitar.
Em uma leitura superficial temos a impressão de que não haja nada de errado nesta
descrição, mas quando olhamos para todo o contexto da passagem descobrimos que
algo sério envolvia tudo isso, pois foi nesse lugar que Ninrode resolveu estabelecer seu
reino. Assim, observando com atenção podemos identificar alguns problemas que
estavam surgindo:

1. Eles partiram para o oriente

Nossa tradução nos diz que eles partiram “do oriente”, mas o texto original também
pode significar que eles partiram “para o oriente”. Das duas traduções cremos que a
segunda seja a correta, pois considerando que a arca parou sobre uma das montanhas do
Ararate (cf. 8.4) e eles foram migrando rumo à região da Mesopotâmia, concluímos
então que eles partiram “para o oriente”.

Afinal, qual o problema de migrar para o oriente? Em Gênesis, seguir em direção ao


oriente tem conotações simbólicas: (1) Adão após ser expulso do jardim do Éden, se
afastou dele rumo ao oriente (3.24); (2) Caim, após matar seu irmão também habitou ao
oriente do Éden (4.16); (3) Ló, ao se separar de Abraão, partiu para o oriente, afastando-
se da terra prometida (13.10-12); (4) Para separar seus filhos de Isaque, herdeiro da
promessa, Abraão envia seus filhos para o oriente (25.6); (5) O enganador Jacó, fugindo
de seu irmão, também fugiu para o oriente (29.1). Assim. Quando alguém se afastava
para o oriente, estava se afastando do lugar da bênção (do Éden ou da terra prometida),
indo rumo à região onde o pecado reina (Babilônia ou Sodoma). Assim, essa migração
para o oriente simbolizava também o afastamento de Deus.

2. A ordem do Senhor foi desprezada

Uma ordem muito clara foi dada logo após a criação e foi repetida duas vezes após o
dilúvio (a segunda criação), os homens deveriam se espalhar pela terra, povoando-a por
completo (veja 1.28 e 9.1,7). Mas a humanidade resolver se aglomerar em um único
lugar. Obviamente o mandamento de Deus não significava que as pessoas não pudessem
morar próximas umas das outras e manter contato, mas o que Deus não queria é que os
seres humanos estabelecessem cidades, pois ele sabia que isso resultaria em
concentração de poder, conforme veremos abaixo.

3. A concentração de poder (veja 10.8-10)

Ninrode destacou-se dentre as demais pessoas. Por ser um homem valente adquiriu a
admiração das demais pessoas. Nós já vimos qual foi o resultado do surgimento de
homens valente e poderosos no capítulo 6 (leia o verso 4), onde homens que se
destacavam por sua força e valentia começaram a prevalecer sobre a terra, subjugando
pessoas pela violência e por causa disso, mandou Deus o dilúvio. Agora vemos a
história se repetindo, Ninrode se destacou dentre os demais, e assim constituiu um reino
para si (10.10).

A concentração de poder está intimamente ligada á idolatria que há no coração humano.


Foi assim que aconteceu no passado e é assim que acontece hoje, quando homens se
levantam sobre os demais conquistando-os seja pela força, seja pela admiração que
conquistam, fazendo com que sejam respeitados e pareçam ser superiores aos demais.
De um lado temos a ordem de Deus para que todos governassem sobre a terra, por outro
temos Ninrode constituindo um reino para si. Conforme o padrão de Deus, todos os
humanos seriam governantes da terra, estando abaixo apenas Dele, mas temos aqui
novamente homens se levantando como criaturas superiores.

Qual era então o problema de reunir na terra de Sinar? Alguém teria que mandar, que
ditar as regras, e quem melhor do que o valente Ninrode? É assim que homens vão
pouco a pouco tomando o lugar de Deus.

Versículos 3 e 4

1. Os homens estabelecem suas próprias defesas

A palavra traduzida como cidade (v.4) significa mais do que um simples ajuntamento de
pessoas, mas denota uma fortificação, isto é, uma cidade rodeada por muros. Os homens
começam a construir seu próprio reino. Em breve não precisariam mais de Deus, pois já
podia cuidar de si mesmos.

2. Havia um propósito idólatra

A julgar pelo contexto daquela época, a torre que eles pretendiam construir tratava-se de
um zigurate, que era uma estrutura feita de tijolos que existia para fins religiosos.
Acreditava-se que fazendo essas torres altas, os deuses poderia descer por suas
escadarias a fim de trazer bênção para o povo. Por isso, era costume colocar nessas
torres camas e comida para os deuses poderem descansar de sua descida. Estudiosos
afirmam que muitos desses zigurates tinham seus tolos pintados de azul para que as
divindades confundissem aquela estrutura como uma parte do céu.

Resumindo, a torre de Babel era um templo pagão, feito para atrair a bênção dos deuses
que receberiam sua adoração, o que configura-se em um pecado terrível, considerando
que só existe um Deus verdadeiro.

3. Havia um propósito egocêntrico

No verso 4 lemos: “... e tornemos célebres o nosso nome, para que não sejamos
espalhados por tida a terra”. Afinal, o que eles queria? Queriam fama, poder, queriam
ser reconhecidos mundialmente. Somente Deus engrandece seu próprio nome:

Jeremias 32.20: Tu puseste sinais e maravilhas na terra do Egito até ao dia de hoje, tanto
em Israel como entre outros homens; e te fizeste um nome, qual o que tens neste dia.

Somente o nome de Deus deve ser honrado e celebrado na terra, mas não era assim que os
humanos estavam pensando. Mas isso vai contra o propósito de Deus. O Senhor exalta seu
próprio nome, como vimos no versículo acima, ele exalta o nome do seu Filho: “ Pelo que
também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome” (Fp
2.9,10).
Deus também engrandeceu o nome de pessoas. Ele fez isso com Abraão (cf. 12.2), com
Davi: “E fui contigo, por onde quer que andaste, eliminei os teus inimigos diante de ti e fiz
grande o teu nome, como só os grandes têm na terra” (2 Sm 7.9). Mas nesses casos, eles
não buscaram sua própria glória, mas foi uma obra do Deus todo poderoso, pois somente ele
tem essa autoridade. É Deus quem engrandece o nome do seu povo, mas aqui, vemos um
povo querendo exaltar a si mesmos, assumindo o lugar de Deus.

4. Rejeição da ordem de Deus

No verso 4 ainda lemos: “... para que não sejamos espalhados por toda a terra”. A ordem
era clara, eles deveria se espalhar, a proteção deles neste mundo mal viria do próprio
Senhor, mas eles resolveram por conta própria garantir sua segurança.

Aqui está um resumo do que havia naqueles corações: desobediência, autossuficiência e


idolatria. Mas Deus não deixou as coisas prosseguirem como eles queriam.

II. A Intervenção de Deus (v.5-9)

Deus desce para contemplar a construção (v.5)

Aos olhos humanos aquela obra parecia grandiosa, entretanto Deus teve que descer dos
céus para contemplá-la. Deus sendo onisciente, obviamente não tinha necessidade
alguma de descer dos céus para contemplar qualquer coisa, pois tudo está claro aos seus
olhos, mas ainda assim ele o fez, como um homem se abaixa para contemplar melhor
uma pequena formiga no chão. O que o texto quer nos dizer é que aquilo que parecia
uma obra gigantesca, na verdade era minúscula aos olhos do grandioso Deus, o que nos
lembra da gloriosa descrição que nos é apresentada em Isaías 40.21-23.

Sendo Deus transcendente, antes mesmo da escada ficar pronta ele desceu até a terra,
pois não precisava daquilo, mas o povo em sua cegueira insistia em se render a deuses
minúsculos que precisam de ajuda humana para operar.

2. Deus afirma o potencial pecaminoso do povo (v.6)

Após contemplar a obra dos homens, Deus diz que:

a. “o povo é um, e todos têm a mesma linguagem”. Embora quisesse que os homens se
espalhassem, isto não significa que estavam proibidos de se relacionar uns com
outros, entretanto, Deus viu que unidade que havia naquele lugar estava unida a um
propósito idólatra, e foi isso que o desagradou.

b. “Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentarem fazer”.
Se fosse permitido àquelas pessoas poder concluir aquela obra, sem dúvida alguma seu
pecado não se limitaria àquela construção. Como o próprio Senhor disse, não haveria
restrição para que se envolvessem em outros propósitos pecaminosos. Se o reino daquele
povo se estabelecesse, sem dúvida se levantariam como reis na terra fazendo perecer os
mais fracos e principalmente a semente santa.

3. Deus confunde a linguagem dos homens (v.7-8)


Deus então resolve acabar com a unidade do povo, confundindo sua linguagem. É
daqui, conforme cremos, que surgiu a diversidade de idiomas e assim a harmonia entre
os homens foi desfeita, pois cada um falava um determinado idioma, tornando assim a
compreensão entre eles impossível. Assim, eles então se viram forçados a cessar a
construção e se espalhar pela terra, obedecendo ao mandamento de se espalhar pela
terra.

Pode parecer que Deus estava agindo com maldade, mas na verdade ele estava
preservando aquele povo, pois como afirmou Von Rad:

Trata-se, pois de um ato punitivo, mas que ao mesmo tempo é um ato preventivo, o
qual Deus decide realizar para não ter que castigar mais adiante com mais dureza
uma degeneração que, sem dúvida, seria cada vez maior.10

4. Deus dá um novo nome à cidade (v.9)

O povo que se reuniu em Sinar para ter seu nome reconhecido pelas demais pessoas,
agora teriam um nome, mas não o nome que eles desejavam. A partir daquele dia aquele
lugar seria chamado de Babel, isto é, confusão. Este era um nome apropriado para o
lugar de onde saíram aquelas pessoas confusas por não entender o seu próximo dizia.

Aplicações

O que podemos aprender com esta passagem? Gostaria de trazer algumas lições:

1. A certeza do julgamento de Deus. A interrupção dessa obra em Babel foi


importante para os piedosos que viviam naquela época, pois Deus julgou a impiedade
daqueles homens que queriam se levantar como poderosos na terra. Quando os ímpios
crescem em poder, em decorrência disso vem junto a impiedade e a perseguição contra
os crentes, mas Deus pôs fim naquela obra pagã. Assim, podemos aplicar esta ideia do
julgamento em vários estágios da história do povo de Deus:

(a) Para os que viveram naqueles tempos da construção – Muitos homens puderam ver o
testemunho da poderosa ação de Deus refreando a maldade humana e a demonstração
do seu julgamento sobre os ímpios que viram que o munda não girava em torno das
vontades deles;

(b) Para Israel que estava para entrar na terra prometida – Como já argumentamos em
outro lugar, este livro foi escrito para o povo que estava no deserto e que deveria entrar
na terra de Canaã para tomar posse da promessa de Deus. Imagine-se no lugar deles,
temerosos com medo do cananeus, com suas cidades fortificadas e habitadas por
homens poderosos (veja Nm 13.28; Dt 1.28; 3,5). Mas isso não foi suficiente para
impedir que nosso Deus cumprisse a sua promessa (Leia Dt 9.1-3);

10
Von Rad, El Libro del Genesis, 180.
(c) Para Israel no Exílio Babilônico – Babel, posteriormente, viria a se chamar
Babilônia, local onde o povo de Deus seria escravizado, mas assim como uma vez o
juízo de Deus veio sobre aquela terra, viria novamente, pois aquele povo incrédulo não
era nada (no tempo de Babel) e continuavam sendo nada (no tempo do exílio
babilônico) aos olhos do Senhor de todo o universo (Ver Jr 51.53);

(d) Para a igreja – No Novo Testamento, a Babilônia (antiga Babel) é o símbolo


utilizado para se referir aos povos ímpios que haviam se levantado contra os cristãos,
mas a mensagem de sua destruição é certa: “Caiu, caiu a grande Babilônia” (Leia Ap
18). Não importa o quanto o mundo persiga os crentes, eles sempre prevalecerão, pois
estão do lado do grande Rei Jesus. Por mais que pareça que a impiedade vá prevalecer,
no momento certo Cristo virá e destruirá todos os seus inimigos e nos dará o descanso
eterno. Fique firme em meio ás lutas e perseguições por causa da sua fé, a vitória já está
garantida. Foi o próprio Cristo quem disse: “... e sobre esta pedra edificarei a minha
igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18).

2. Deus trará a verdadeira unidade. Aqui nesta passagem que vimos, os homens
estavam unidos com o propósito de exaltar a si mesmos, mas Deus acabou com a
unidade deles por estarem engajados em um propósito ímpio. Entretanto, Deus desfaria
o que ele próprio fez: Deus separou os homens, mas com o propósito de reuni-los no
futuro com um propósito diferente. Em Sofonias 3.9 lemos: “ Então, darei lábios puros
aos povos, para que todos invoquem o nome do SENHOR e o sirvam de comum acordo”.
Observe que o texto diz que os homem estariam juntos, “de comum acordo”, não para
engrandecer seu próprio nome, mas para invocar o nome do Senhor. Podemos contemplar o
cumprimento dessa profecia no Pentecostes (descrito em Atos 2.1-11), onde pessoas de
diversas partes do mundo estavam reunidas e ouviram falar, em seu próprio idioma, das
“grandezas de Deus”. A diversidade de idiomas foi criada para ser uma barreira para o povo
que queria exaltar a si mesmo, mas agora o próprio Deus rompeu essa barreira a fim de que
seu nome fosse proclamado a todos os povos. Esta é a unidade que Deus quer, aquele que
existem com o propósito de dar a devida honra que é devida somente a ele. E é assim que
será após a vinda de Cristo, pois pessoas de todos os lugares estariam reunidas e
proclamarem a uma só voz a glória de Deus e de Seu Filho Jesus Cristo.

Reflita: Qual o propósito maior de sua vida? Para quê você se reúne com outras pessoas?
Para glorificar a Deus? Ou para engrandecer a si mesmo? Você pode até não falar como as
pessoas descritas nesta passagem que estamos analisando (façamos grande o nosso nome!),
mas talvez você tenha criado um trono para si mesmo dentro do seu próprio coração e viva
a sua vida com o único propósito de satisfazer a si mesmo e geralmente se cerca de pessoas
com o mesmo propósito. Se assim o for, você está errado, procure pessoas que se reúnam
com você para que o nome de Deus seja glorificado que te ensinem que o mundo não gira
em torno da sua vida, mas que tudo existe para a glória de Deus.
11. Gênesis 11.10–12.20: A aliança com Abrão

21 de Abril de 2019

Quando falamos de Cristo e de sua obra para uma pessoa, falamos com o desejo de que
ela creia em nosso testemunho e se converta de seus pecados, e se submeta ao senhorio
de Jesus. Ao anunciarmos o evangelho, estamos propagando o reino de Deus, afim de
que ele se estabeleça no coração dos homens. No entanto, isso não parece nos animar
muito, pois muitas vezes a nossa falta de fé, bem como nosso materialismo, nos
impedem de fazê-lo.

Após a queda do homem ele se tornou escravo do diabo, mas no meio desse império
pecaminoso, Deus começou a estabelecer seu reino por meio de pessoas piedosas que
andavam com Ele e esse reino começou a toma uma forma mais definida quando o
progresso da sua revelação aos homens foi acontecendo. Por isso, devemos olhar para o
que Deus fez na vida de Abraão de uma maneira diferente da qual comumente tem sido
feita. Precisamos estar conscientes de que Deus não fez grandiosas promessas a Abraão
com o simples propósito de enriquecê-lo, mas de estabelecer Seu reino neste mundo
dominado por Satanás e por seus servos incrédulos (os descrentes). Satanás, por meio
do pecado, vem tentando estabelecer seu reino nesta terra, mas em contrapartida Deus
também tem realizado sua obra e estabelecido seu reino neste mundo. Por isso, devemos
estar conscientes de que O Senhor nos dá este mundo para que o reivindiquemos para o
seu reino. Em outras palavras, Deus te colocou neste mundo, para proclamar a sua
glória e anunciar a sua majestade. Esse era o propósito dele escolhendo Abraão e é
também o propósito Dele ao nos escolher.

I. A descendência de Sem (11.10-26)

O versículo 10 dá início a uma nova divisão do livro: “são estas as gerações” (toledot),
sendo esta a quinta de um total de 10. Esses dez relatos, dois a dois, formam paralelos
bem interessantes, mostrando o quão bem estruturado está este livro e, principalmente,
porque nos ajuda a entender a intenção do autor. Os três primeiros relatos estão
paralelos aos três relatos seguintes.

Os relatos um (2.4-4.26) e quatro (10.1-11.9) descrevem o desenvolvimento da


humanidade após a criação (ou da recriação, no caso do dilúvio). Nos relatos dois (5.1-
6.8) e cinco (11.10-26) temos a genealogia da descendência da mulher. Já nos relatos
três (6.9-9.29) e seis (11.27-25.11) temos a descrição das alianças que Deus fez com sua
semente escolhida por meio de seus representantes. Observe abaixo a ordem dos três
primeiros pares de relatos:

1º – Deus cria os céus e a terra (relato 1), depois proporciona um novo começo após o
dilúvio (relato 4);
2º – Apresentação da genealogia da semente da mulher, ou seja, a família pela qual
Deus levantaria o redentor: a descendência de Adão (relato 2) e a descendência de Sem
(relato 5);

3º – A aliança de Deus com os representantes da semente santa, a saber, Noé (relato 3) e


Abraão (relato 6).

Em um sermão posterior vamos descrever as quatro partes restantes, mas agora nos
concentraremos nos relatos cinco e seis. Assim, veremos a apresentação da genealogia
da semente da mulher e a aliança de Deus firmada com Abraão.

Dos três filhos de Noé que saíram com ele da arca, Sem teria um papel especial. Embora
esta passagem não descreva mais nada sobre ele, vimos que ele foi respeitoso com seu
pai que estava embriagado e nu e por meio dele o Senhor escolheu dar continuidade à
semente escolhida, por isso a descendência dele é traçada aqui, assim como fora feito
com a de Adão.

II. Abrão (11.27-32)

Versículo 27

Há duas formas principais de se dividir o livro de Gênesis, uma dela é a que temos
mencionado ao longo desses sermões, onde o livro é composto por uma introdução
seguida de dez seções. A outra forma de se dividir este livro é uma na qual ele é
apresentado como tendo duas partes: A história primitiva (1.1-11.26) e a história dos
patriarcas (11.27-50.26). Logo, a partir do versículo 27 do capítulo 11 lemos sobre a
história dos patriarcas e sobre a maravilhosa operação de Deus no seu tempo.

Versículos 28-29

O primeiro patriarca é Abrão, aquele que posteriormente seria conhecido como o pai da
fé. Entretanto, as coisas nem sempre foram assim, pois a humanidade que foi espalhada
no episódio da torre de babel continuou se envolvendo no pecado. Com Abrão não era
diferente, pois temos o testemunho das Escrituras que sua família era adoradora de
deuses pagãos (ver Js 24.2). Abrão era um idólatra, e assim como cada crente que se
converte ao Senhor, o faz tão somente pela graça de Deus em sua vida. Mesmo sendo
um incrédulo, Deus amou a Abrão, que era da descendência de Sem, um dos filhos
piedosos de Noé e a sua descendência é traçada até Abrão, sinalizando que por meio
dele a semente santa se perpetuaria.

Versículo 30

Mas um problema surge na narrativa, pois Sarai, a mulher de Abrão, era estéril e o
versículo 30 faz uso de uma repetição a fim de deixar bem claro isso: “Sarai era estéril,
não tinha filhos”. Tal esterilidade consiste em um problema sério, primeiramente para
Sarai, pois naquele contexto uma mulher estéril era alguém privada da principal coisa
que lhe atribuía valor, que era a capacidade de gerar filhos, por meio dos quais o nome
da família se perpetuaria e que também serviriam de auxílio para os pais idosos no
futuro. Um problema considerado grave, e que provavelmente a levou às lágrimas
algumas vezes. Essa esterilidade consistia em um problema não somente para Sarai,
pois se Deus daria prosseguimento à semente da mulher por meio de Abrão, conforme
veremos nos capítulos seguintes, como isso se daria se a sua mulher era estéril. Como
poderia o descendente prometido nascer em meio dadas essas circunstâncias?

É interessante notar como a esterilidade acompanhou a família de Abrão nas gerações


seguintes, pois o mesmo ocorreu com Rebeca (25.21) e também com Raquel (29.31).
Por três gerações mostrar àquele povo que por meio deles viria a concretização da
promessa, mas que isso só seria possível com o auxílio do Senhor. Deus tinha um plano
que tornaria nossa salvação real, por meio do descendente da mulher, que viria a ser
Jesus Cristo, mas até lá, somente pela graça de Deus isso se tornaria realidade, apesar
das circunstâncias contrárias a isso.

Versículos 31-32

Tera, pai de Abrão, tomou sua família e partiu de Ur dos Caldeus, rumo à terra de
Canaã, esta é uma descrição da perspectiva humana dessa viajem, pois segundo o relato
de Estêvão (At 7.2), o Senhor aparecera a Abrão antes de partirem rumo a Canaã. Não
sabemos o que de fato aconteceu, mas sendo Tera o líder daquela família deu início à
jornada que Deus havia proposto a Abraão, ainda que de modo inconsciente. Mas o
versículo 31 eles resolveram parar antes de terminar a jornada, estabelecendo-se em
Harã até o dia de sua morte.

III. O chamado de Abraão (12.1-3)

Estando Abrão habitando na terra de Harã, apareceu-lhe o Senhor uma segunda vez e
lhe deu a mesma ordenança de antes:

Versículo 1

Abrão deveria deixar a terra que pertencia à sua família. Em Harã Abrão habitava nas
terras que herdara de seu pai, mas a ordem do Senhor é clara, ele deveria abandonar essa
herança, bem como os direitos que possuíam naquele lugar a fim de seguir a ordenança
do Senhor. Kenneth Matthews comentando este versículo disse:

O consolo do país e da família deve dar lugar a uma maior fidelidade. Esta é a
exigência daqueles que entram no reino, como Jesus ensinou: “Quem ama o pai ou a
mãe mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10:37). Tudo é colocado nas mãos
do Senhor, que lhe “mostrará” a terra do destino, Canaã. A terra “eu te mostrarei”
(12:1b) é o único mapa que Abrão pode seguir.11

O chamado do Senhor exigia que Abrão abandonasse toda sua estabilidade e seguisse a
Deus sem nenhuma prova concreta de que realmente conseguiria obter o que Deus

11
Kenneth Mathews, Gênesis 11: 27–50: 26, p. 109.
prometera. Abrão foi chamado a largar tudo o que tinha e caminhasse confiado somente
na fidelidade de Deus, “sem saber aonde ia” (Hb 11.8).

Versículos 2 e 3

Vimos na primeira parte de Gênesis (1.1-11.26) como tudo foi criado de modo perfeito
e depois foi decaindo por causa do pecado. Cinco maldições foram proferidas nesses
capítulos (3.14,17b; 4.11; 8.21; 9.25), mas em contrapartida, “abençoar/bênção” aparece
cinco vezes nestes versículos, apontando para uma recriação de Deus, que a partir de
Abrão levantaria um povo para si que vivesse piedosamente na sua presença. Abrão
seria o exemplo vivo da bênção de Deus em meio a este mundo amaldiçoado. Sete
promessas foram feitas a Abrão:

1) “de ti farei uma grande nação”;


2) “te abençoarei”;
3) “te engrandecerei o nome”;
4) “Sê tu uma bênção”;
5) “Abençoarei o s que te abençoarem”;
6) “amaldiçoarei os que te amaldiçoarem”;
7) “em ti serão benditas todas as famílias da terra”.

Deus promete a Abrão que ele teria filhos, apesar da esterilidade de sua esposa e de sua
idade avançada (v.4), o Senhor garante que Abrão teria uma família grande, isto é,
numerosa e forte. Ao contrário do episódio do capítulo 11.1-9, Deus é que seria o
responsável por tornar o nome de Abrão grande, ao invés dele mesmo buscar esse
engrandecimento, Abrão simplesmente receberia a honra que Deus lhe permitiria ter.

Por fim, Abrão seria um agente de bênção nesta terra. Além de ser um homem
abençoado por Deus, aqueles que o abençoassem, também receberiam a bênção de
Deus, o contrário também seria verdade, de modo que aqueles que o amaldiçoassem,
também seriam amaldiçoados. Identificar-se com Abrão, significava também se
identificar-se com os planos de Deus. Tentaremos esclarecer isso mais à frente.

IV. Abraão parte para Canaã (12.4-9)

Assim como Noé, Abrão obedeceu a Deus sem questioná-lo (v.4) e partiram. Junto com
ele, foram sua e esposa e seu sobrinho Ló (v.5) até chegarem na terra de Canaã após
uma viagem de aproximadamente 640 quilômetros. Sem dúvida esta foi uma viajem
muito demorada, considerando que além de estarem á pé, ainda precisou ir tocando seu
rebanho ao longo da viagem.

Abrão percorreu toda a terra até chegar em Siquém (v.6). A terra de fato era boa, como
vemos o testemunho posterior das escrituras (Nm 13.27), mas que também era habitada
pelos cananeus, os descendentes de Canaã, que fora amaldiçoado por Noé (cf. 9.5). Mas
a tensão da narrativa é quebrada no versículo 7 com a promessa de Deus: “Darei à tua
descendência esta terra”. Confiado na promessa de que aquele lugar um dia pertenceria
à sua descendência.
Deus apareceu a Abrão no carvalho de Moré. Isto é significativo, pois os canaanitas
praticavam uma religião de fertilidade e era debaixo de grandes árvores que eles
praticavam seus cultos. Deus falou com Abrão próximo a uma dessas árvores (v.6) e
então ele construiu um altar dedicado ao Senhor. Novamente a cena se repetirá em
13.18, embaixo dos carvalhais de Manre. Além disso, um outro altar foi construído em
Betel (v.8). Por que Abrão fez isso? “Porque ele se empenhou, o tanto quanto pôde, para
dedicar a Deus todas as partes da terra a que teve acesso, e perfumava-a com o aroma de
sua fé”.12 Em outras palavras, Abrão estava reivindicando aquela para que fosse o reino
de Deus. É por esse motivo que aqueles que amaldiçoassem Abrão seriam
amaldiçoados, porque Abrão não agiu por causa própria, mas aonde ia, dedicava ao
Senhor aquele lugar para sua honra e glória.

V. Abraão no Egito (12.10-20)

Versículo 10

Por ser uma região que não era banhada por rios, a fartura daquele lugar dependia muito
das chuvas, caso estas viessem a faltar, as plantações padeceria. Já no Egito, a fartura
era constante, pois por aquela região corria o rio Nilo, sendo este o refúgio de muitas
pessoas em períodos de seca.

Versículos 11-16

Abrão era um homem que tinha a garantia direta do próprio Deus de que sua vida seria
preservada e que seu futuro seria abençoado, mas vemos aqui o grande pai da fé agindo
com incredulidade e irresponsabilidade. Ao chegar no Egito, ficou receoso de que os
poderosos lhe matassem para possuir a sua esposa. Sarai neste momento tinha
aproximadamente 65 anos de idade, ela não era mais nenhuma adolescente, o que nos
leva a crer que o que faria dela uma mulher atraente não seria tanto sua beleza física,
mas a sua postura, suas vestimentas e seu jeito digno de ser.

Independentemente dos reais motivos, o que ressalta nesta passagem é o pecado de


Abrão, que preferiu mentir e permitir que outro homem possuísse sua mulher apenas
para poder preservar a sua própria vida. Sarai então foi levada para o harém de faraó e
por causa dela, Abrão foi bem recebido na terra e recebeu muitos bens por fingir ser
irmão daquela mulher deslumbrante.

Versículos 17-20

Abrão tinha estragado tudo, entregando sua mulher e colocando em risco a promessa de
Deus, de que dele faria uma grande nação. Mas o Senhor impediu que seu projeto fosse
estragado por causa do pecado daquele homem, e por isso, trouxe enfermidades sobre
faraó e sobre aqueles que lhe rodeavam. O texto não informa como faraó compreendeu
qual era a origem dessas pragas, – talvez Sarai houvesse lhe contado – mas logo ao ficar
ciente do que estava acontecendo, ele reconheceu que Deus estava com Abraão e por

12
Calvino, Genesis, I, 357.
isso devolveu Sarai ao seu esposo e o expulsou da terra, juntamente com todos os
presentes que havia lhe concedido.

Aplicação

12. Gênesis 13.1-18: Abrão e Ló se Separam

28 de Abril de 2019

Quando um crente passa por dificuldades de ordem financeira ou relacionadas à sua


saúde, por exemplo, não é necessário muito tempo para que ele, ou algum crente que lhe
seja próximo, conclua que isto seja um período de provação. Infelizmente o mesmo não
acontece quando tudo vai bem. Devemos entender que no momento de fartura e de
saúde também podemos estar passando por um período de provação.

Diante disso, talvez você pensa: “ah, pois é esse tipo de provação que eu quero!”. É
confortável quando nossas necessidades estão sendo supridas, mas ainda assim devemos
ficar alertas porque os perigos nos cercam de todos os lados.

Abrão foi provado no Egito (12.10-20), a falta de alimento motivou a ir para lá e diante
de sua vulnerabilidade ele cedeu ao pecado da descrença na promessa de Deus. Abrão
foi provado na escassez, agora será provado na abundância. Como será que ele reagirá?

I. Contenda entre os pastores (v.1-7)

Versículos 1 e 2

Abrão saiu do Egito, pois ele fora expulso de lá (cf. 12.19-20), Abrão não saiu de mãos
vazias, pois saiu com muitas riquezas das quais grande parte foram recebidas das mãos
de faraó (12.16). Assim, Abrão saiu juntamente com sua família daquela terra e estava
acompanhado de seu sobrinho Ló que esteve com ele todo esse tempo.

Versículos 3 e 4

Após retornar do Egito, Abrão foi peregrinando até chegar em Betel, lugar onde havia
edificado um altar ao Senhor (12.8). O que Abrão fez ao chegar lá? Ele “invocou o
nome do Senhor”. Isto é significativo, pois vimos que Abrão pecou contra sua esposa,
pois protegeu a si mesmo ao invés de protegê-la, Abrão pecou diretamente contra Deus
também, porque não confiou na proteção que este lhe ofereceria por causa da Sua
promessa. Mas o que Abrão fez depois do seu pecado? Se escondeu como Adão? Não!
Ele voltou para a terra prometida e invocou o nome do Senhor.
Você cristão também não é perfeito. Por mais que você busque ser obediente a Deus,
em algum momento você cederá a algum pecado, em algum momento você poderá
duvidar de Deus e agir por conta próprio e só depois sentirá o peso do seu pecado que
virá acompanhado de vergonha. Mas o que podemos fazer depois de cair? Será que
Deus ainda nos aceita depois disso? Claro que sim, pois “Se confessarmos os nossos
pecados, ele [Jesus] é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda
injustiça” (1 Jo 1.9). Pecou contra Deus, se arrependa e volte. Abrão voltou para Canaã
e você deve voltar para os caminhos do Senhor e invocar o seu nome.

Versículos 5-7

Ao retornarem para a terra de Canaã, os pastores de Abrão e de Ló entraram em


conflito, diante da enorme quantidade de rebanhos presentes em uma mesma região, a
quantidade de pastagem estava tornando-se escassa. O texto ainda acrescenta que eles
não eram os únicos a habitar naquelas regiões (veja v.7) o que aumentaria a competição
por pastagem e por poços de água. Se os dois estando unidos já poderiam correr riscos
por causa dos outros povos, imagine se houvesse divisão entre eles mesmos.

Mais uma vez Abrão está diante de uma provação. Agora o problema não foi gerado
pela falta de alimento, mas pela abundância de bens. A postura de Abrão será
importante para mostrar o que havia em seu coração. Será que ele cairia em erro
novamente? A decisão que Abrão haveria de tomar revelaria muito sobre o seu coração.
Será que ele aprendeu com a lição anterior, na qual ele caiu?

II. Abrão permite que Ló escolha (v.8-13)

Versículos 8 e 9

Como o tio de Ló, Abrão poderia fazer uso de sua autoridade e reivindicar seu direito de
primazia, mas dirigiu-se ao seu sobrinho de maneira que pudesse arrefecer as
discussões: “somos parentes chegados”. Em outras palavras: Não vamos brigar, pois
somos da mesma família. Com o intuito de resolver o problema, Abrão permite que seu
sobrinho escolha onde quer habitar, para o lado que Ló resolvesse partir, Abrão partiria
para outro, independente da escolha que Ló fizesse. Abrão não estava preocupado se
sairia no prejuízo, se seu sobrinho escolhesse os lugares mais férteis, ainda sim ficaria
em paz. Por que tamanha segurança? Iain Duguid explica muito bem o motivo:

Como seus olhos estavam firmemente postos na promessa da herança celestial, ele
podia se dar ao luxo de renunciar aos desejos terrenos. De fato, uma boa medida da
saúde de nossa fé é sua capacidade de dar sacrificialmente.13

Abrão expressou confiança em Deus. Não importava qual seria a escolha de seu
sobrinho, Deus cumpriria sua promessa. Esta passagem nos faz lembrar das palavras de
Paulo: “Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as
circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de
abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.12-13).

13
Iain Duguid, O abismo entre promessa e realidade, 26.
Enquanto Abrão confiava em Deus, Ló não perdeu tempo e buscou escolher aquilo que
lhe seria mais lucrativo:
Versículo 10
A forma como este versículo descreve Ló escolhendo seu lugar de habitação nos faz
lembrar de dois episódios desastrosos. O primeiro é o da queda: Eva olhou para o fruto
proibido e viu que ele era “agradável aos olhos” (3.6), e por estar desejosa de obter
entendimento provou do que não deveria. O segundo episódio está em 6.2, no qual
lemos que os filhos de Deus (os crentes) viram as filhas do homens (descrentes) e
tomaram a decisão errada de se envolver com elas. Por semelhante modo, Ló agora
também está encantado com o que vê e ao contemplar a campina do Jordão entendeu
que seria o lugar mais adequado para que prosperasse na terra.
O lugar no qual Ló fitou seus olhos eram belos e cheios de fartura, lembravam o “jardim
do Senhor”, isto é, o jardim do Éden, e lembravam também o grande exemplo de
abundância da época: o Egito. Entretanto, o texto bíblico não deixa que os seus leitores
se iludam, pois a passagem já antecipa o que acontecerá em longo prazo. Embora
pudesse ser uma terra deleitosa, o lugar para onde Ló estava se encaminhando para um
lugar perigoso, dada a impiedade que caracterizava aquela região, que era tamanha a
ponto de o Senhor descer dos céus para destruí-la.
Versículos 11-13
Crendo que estava saindo no lucro, Ló se separa de Abrão. Ló escolheu para si a
campina do Jordão e partiu rumo ao Oriente. Quando falamos do episódio da construção
da torre de Babel (11.1-9) argumentamos sobre a relação existente entre partir para o
Oriente e os episódios desastrosos que os precederam ou sucederam. Aqui não é
diferente, Ló saiu da terra que Deus prometera a Abrão e foi peregrinando até chegar
próximo cidade de Sodoma. Qual o problema nisso? O versículo 13 nos esclarece:
“Ora, os homens de Sodoma eram maus e grandes pecadores contra o Senhor”. Eles
não eram simples pecadores, como todos somos, mas eles eram grandes pecadores
Ló estava saindo de perto de seu tio, o qual tinha comunhão com Deus, e começou a se
aproximar de pessoas impiedosas. Não estamos dizendo que Ló se aproximou de
pecadores por amar o pecado, mas seu desejo por pastos mais verdejantes o conduziu a
um ninho de iniquidade chamado Sodoma.
O Livro de Gênesis mostra como Ló progressivamente foi se aproximando do povo de
Sodoma. Primeiro ele sai da terra prometida, e vai morar perto de Sodoma (v.12), não
muito tempo depois ele já estaria habitando em Sodoma (14.12), depois estaria se
assentando à porta de Sodoma (19.1), o lugar no qual tradicionalmente eram tomadas as
decisões civis, indicando que Ló adquirira influência na cidade, e por fim havia
prometido dar suas filhas em casamento aos homens daquela terra (19.14).
Perceba como Ló foi progressivamente se envolvendo com os ímpios e por fim já tinha
estreitado relação com eles. Pelo testemunho bíblico Ló não era um ímpio, entretanto o
seu desejo por prosperidade o colocou em relacionamentos perigosos. Muitos cristãos
agem de modo semelhante, pois com o intuito de sanar uma “necessidade” acabam se
envolvendo em situações perigosos à sua fé. Isto pode referir-se a um emprego melhor,
à um namorado descrente, dentre tantas outras coisas, que podem trazer consequências
desastrosas à nossas vidas. A vida de Ló não estava em risco, mas sem dúvida sua fé
estava.
III. O Senhor promete dar a Abrão a Terra (v.14-18)

Depois de Ló olhar para os lados e partir rumo à Sodoma, Deus então diz para Abrão
erguer os olhos e contemplar toda a terra que estava ao seu redor e reafirma a sua
promessa de lhe dar toda aquela terra. Abrão deveria percorrer toda a terra, a fim de
contemplar a herança prometida a ele e à sua descendência.

Afinal, Abrão obteve a terra? Não, embora Deus o tenha abençoado grandemente, ele
morreu e não possuiu toda a terra, entretanto, temos o testemunho bíblico de que os
olhos de Abrão estavam fitos em algo superior. Conforme Hebreus 11.10 ele aguardava
herdar uma terra muito melhor que a terra de Canaã. Por mais que a promessa de Deus
fosse maravilhosa, Abrão sabia muito bem que as posses deste mundo são terrenas, por
isso ele ansiava habitar na cidade celestial. Esse é um testemunho maravilhoso, embora
cresse no poder de Deus para cumprir o que havia prometido, seus olhos conseguiam
enxergar além, pois contemplava a eternidade.

Em resposta às promessas do Senhor, Abrão levanta mais um altar e adora a Deus.


Enquanto ló seguia seu caminho, vivendo pelo que seus olhos humanos podiam
contemplar, Abrão apegava-se ao que Deus tinha dito, e nesse ínterim prestava sua
adoração àquele que guiaria seus passos.

Aplicações

1. Cuidado com nossa visão. Ló escolheu sua habitação com motivações erradas e
acabou se afastando de seu tio que era a personificação da bênção de Deus e se
metendo em meio a um povo que amava o pecado. Sobre esse assunto, Calvino disse:

Vamos então aprender com este exemplo, que nossos olhos não são confiáveis; mas
que antes devemos nos manter em guarda para não sermos enlaçados por eles, sendo
cercados, e pegos desprevenidos com muitos males. Assim como Ló, quando
imaginou que estava morando no paraíso, foi quase mergulhado nas profundezas do
inferno.14

Você não é a melhor pessoa para dizer o que é melhor para você. Sua visão está
prejudicada pelo pecado. Por esse motivo, todas as coisas devem passar pelo filtro das
escrituras, que servem como uma peneira que impedem os pedregulhos das nossas más
escolhas passarem. Caso você despreze isso, fará muitas escolhas ruins, e só no futuro
perceberá que entrou em uma grande enrascada. A Palavra de Deus é clara: “Há
caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte” (Pv
14.12).

14
Calvino, Genesis, I, 373.
2. Será que fui longe de mais? Não, “ainda que os vossos pecados sejam como a
escarlata”
13. Gênesis 14.1-24: O Resgate de Ló

19 de Maio de 2019

INTRODUÇÃO

I. A rebelião dos quatro reinos (v.1-11)

Versículos 1-11

Estes versículos relatam a rebelião de quatro reis da região na qual Ló habitava. Esses
reis cananeus estavam há 12 anos sob o domínio de um rei chamado Querdolaomer, que
lhes impunha impostos e lhes ditava as regras a serem seguidas. Indignados com tal
servidão, esses quatro reis se juntaram com o propósito de se livrar do governo de
Querdolaomer e no décimo terceiro ano resolveram conquistar sua independência.
Querdolaomer, por sua vez, cerca de um ano após essa rebelião reuniu quatro reis
aliados seus a fim de inibir a rebelião que se iniciara. Querdolaomer foi bem sucedido
ao revidar o ataque conforme vemos dos versos 5 a 11.

Quando um reino subjugava outro, cobrava impostos e impunha leis sobre o reino
derrotado, sob a promessa de que não traria destruição sobre o mesmo. Entretanto esses
quatro reinos que se levantaram contra Querdolaomer não aceitaram seu domínio, e
agora que novamente foram derrotados, tem seu território invadido e saqueado. O
versículo 11 é mais específico: Tomaram, pois todos os bens de Sodoma e de Gomorra
e todo o seu mantimento e se foram. Por que citar especificamente esses dois lugares?
Porque era a região na qual Ló habitava, e também porque essas cidades serão
mencionadas novamente neste livro.

II. O resgate de Ló (v.12-16)

Versículo 12

Assim como outros habitantes de Sodoma, Ló teve seus bens saqueados e também foi
levado cativo. Por um lado Ló poderia ser inocente, pois não tinha parte na rebelião,
entretanto o rei da sua terra tinha culpa e por esse motivo, ele e todo o povo de sua terra
sofreriam. Por outra lado, Ló tinha culpa por estar nessa situação, pois foi ele quem
escolheu habitar naquele lugar cercado de impiedade simplesmente por ter ficado
encantado com a beleza das pastagens daquele lugar. “Ele tinha escolhido a terra que
era como o jardim do Éden (Gn 13.10) apenas para descobrir mais tarde a serpente na
grama – Sodoma”.15 Sobre Abrão repousava a promessa do cuidado de Deus, mas Ló
preferiu traçar seu caminho vivendo com base no que seus olhos podiam ver.

15
Iain Duguid, O Abismo entre a promessa e a realidade, 34.
Viver uma vida piedosa e estar próximo de pessoas piedosas não nos isenta de
problemas, no entanto, é prudente não nos envolvermos profundamente com aqueles
que não temem ao Senhor. Ló, por estar morando junto com ímpios, sofreu este ataque,
e por continuar morando no mesmo lugar, sofreria danos piores quando Deus viesse
para destruir essa cidade ímpia.

Versículos 13-16

Pela providência de Deus alguém que conhecia quem era Abrão, o tio de Ló, conseguiu
escapar e foi até ele e relatou-lhe o ocorrido. Para desventura de Querdolaomer, ele
havia capturado o sobrinho do homem com quem Deus havia feito uma aliança e que se
importava com seu sobrinho.

Há divergências entre os estudiosos sobre o tamanho dos exércitos naquela época, e se o


grupo de Abrão consistia em um grupo pequeno ou não se comparado ao exército de
Querdolaomer. Alguns historiadores afirmam que o exército de Abrão tinha o tamanho
médio dos exércitos daquela época. Independente disso, o que sabemos é que Abrão
mesmo sendo um homem pacífico, estava preparado para o combate, pois tinha em sua
casa 318 homens treinados e aptos para o combate, provavelmente escravos nascidos
em sua casa.

Embora o texto diga que eles eram dos mais capazes, ainda assim vemos a poderosa
mão de Deus agindo em favor de Abrão. Cremos que seja possível ver aqui um eco de
12.3: abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem.
Querdolaomer podia ter muito poder e muitos homens, mas Abrão tinha consigo o
Senhor dos Exércitos.

Deus havia colocado Abrão como rei daquele lugar e tinha lhe prometido dar todas
aquelas terras em suas mãos. Embora Abrão fosse proprietário de uma parcela pequena
daquela vasta região, Deus mostrou àqueles povos que Abrão ainda seria grande
naquela terra. Como argumenta Iain Duguid, essa vitória de Abrão seria seu “monte da
transfiguração”. Cristo não tinha uma glória visível nesta terra, mas Deus deu um
vislumbre a alguns discípulos mostrando a real glória de Jesus, mostrando o rei que ele
realmente era (Mt 17.1-9). Por semelhante modo, Deus mostrou aos povos que estavam
ao redor de Abrão que ele era um grande homem, um grande rei, embora isso não
estivesse visível aos olhos humanos.

Então Abrão perseguiu o exército de Querdolaomer, e os surpreendeu à noite,


provavelmente enquanto descansavam e resgatou seu sobrinho. O resgate foi completo,
conforme o versículo 16 Abrão trouxe não só o seu sobrinho, mas também as demais
pessoas que haviam sido levadas cativas e consigo os bens que haviam sido saqueados.

Conforme argumentamos acima, Ló tinha culpa, pois escolheu o pecado, mas vemos
aqui um reflexo da ação salvadora de Deus e de seu filho Jesus. Após cair em pecado,
Adão merecia a condenação imediata ao inferno, entretanto o Senhor Deus matou um
animal, em um lugar onde não se conhecia a morte, e concedeu vestes dignas àquele que
era indigno. Agora, vemos Abrão sendo usado como instrumento de Deus para resgatar
a vida de alguém que padecia por causa de suas escolhas erradas e o resgata juntamente
com seus bens. Entretanto, Abrão não fez isso sem correr riscos, pelo contrário, tudo
conspirava contra ele, pois seu exército não era muito grande e este combateu o exército
de cinco reis, mas ainda assim ele não se intimidou a fim salvar a vida de seu sobrinho.

De modo semelhante, é esta a obra que Cristo realizou em nossas vidas, pois Cristo
entregou-se na mão de pecadores com o propósito de nos conceder a salvação. Nós
merecíamos isso? De modo nenhum! A morte eterna era a retribuição justa por causa de
nossa escolha pelo pecado que fizemos em Adão, nosso representante. Mas como diz a
Escritura: “Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido
por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8).

III. Escolhendo a recompensa (v.17-24)

Versículo 17

Após a vitória de Abrão, o rei de Sodoma foi ao encontro de Abrão. No versículo 8


lemos que ele saiu juntamente com os outros três reis a fim de destruir Querdolaomer,
agora no versículo 17 ele vem ao encontro de Abrão, cônscio do grande feito que este
fizera.

Versículo 21

Mesmo após contemplar o grande livramento que recebera, o rei de Sodoma fala de
maneira rude com Abrão. Por direito, Abrão agora era dono tanto das pessoas, quanto
dos bens adquiridos na batalha, mas ao invés de pedir gentilmente, o rei de Sodoma
ordena a Abrão que devolva as pessoas e que ele fique com os despojos. Ao invés de
alegremente se aproximar de Abrão, grato pela libertação promovida, ele se aproxima
com uma atitude de possível inveja.

Versículos 22-24

Abrão então levanta as mãos ao céu e faz um juramento. Ao erguer as mãos, Abrão
toma Deus como testemunha de que o que ele vai falar de fato é dito de modo sincero e
também que Deus possa fazer vingança caso suas palavras não se mantenham.

Abrão garante ao rei de Sodoma que não tem a intenção de se apossar dos bens
adquiridos na guerra. Abrão poderia muito bem se apossar desses despojos e se tornar
mais rico ainda, seria esta a sua chance de ser considerado como rei soberano sobre toda
aquela região. Não era este o propósito do Senhor? Dar toda aquela região a Abrão? Por
que não haveria de tomar posse daquilo que lhe foi prometido?

Temos aqui Abrão em um momento de teste. Abrão escolheu o caminho da confiança


em Deus e crer que Deus no momento certo cumpriria o que havia prometido. Caso não
possuísse toda a terra, não se sentiria enganado, pois como já argumentamos com base
no que lemos em Hebreus 11, Abrão tinha seus olhos fitos em uma herança celestial.
A única exigência de Abrão seria o necessário para suprir os gastos com alimentação
dos servos de Abrão e pagamento para aqueles que eram vizinhos de Abrão e o
acompanharam em combate.

Abrão não queria ser beneficiado com nada, para que no futuro não se dissesse: “Eu
enriqueci Abrão”. Pelo que parece, Abrão aprendeu a lição, quando abordamos o
capítulo 12 vimos que ele saiu rico do Egito, porque tinha inventado uma mentira, mas
agora Abrão dá sinais de que mudou e que somente em Deus haveria de colocar sua
confiança.

Versículo 18

O rei de Sodoma não foi o único rei que foi ao encontro de Abrão, veio também um
indivíduo enigmático: Melquisedeque. Provavelmente Melquisedeque foi ao encontro
de Abrão no mesmo momento em que o rei de Sodoma o procurou, para que assim
vejamos o contraste entre esses dois reis.

O nome Melquisedeque significa “rei de justiça” ou “o meu rei é justo” e somos


informados que ele é o rei de Salém, que provavelmente seja uma abreviação de
Jerusalém, feita para que o nome soe parecido com “Shalom”, que significa paz.
Conforme Hebreus 7.2 ele de fato é um rei de paz.

Enquanto o rei de Sodoma veio exigindo a devolução do povo, este rei veio trazendo
pão e vinho, ou seja, alimentos para Abrão. Melquisedeque não era um sacerdote pagão,
mas sacerdote do Deus Altíssimo. E então proferiu uma bênção sobre Abrão (v.19),
rogando a graça do Deus Altíssimo sobre sua vida. No versículo 20 ele também exalta
diretamente a Deus e reconhece que a vitória de Abrão só foi possível porque Deus
entregou seus adversários em suas mãos.

Melquisedeque reconheceu Abrão como um legítimo guerreiro do Senhor, e por isso lhe
trouxe provisão e lhe abençoou. Por sua vez, Abrão reconheceu Melquisedeque como
sacerdote do Senhor e por isso deu-lhe o dízimo do que havia recebido dos despojos,
que diziam respeito ao suprimento de alimentos gastos na batalha.

Esse Melquisedeque é uma pessoa misteriosa. Conforme Hebreus 7.1-3, a pessoa de


Melquisedeque tinha estreita relação com nosso Salvador Jesus Cristo:

1. Não veio de uma linhagem de sacerdotes. Em Hebreus 7.3 lemos que ele era alguém
“sem pai, sem mãe, sem genealogia”. Posteriormente, na nação de Israel, um
sacerdote era legitimado por meio da comprovação de sua árvore genealógica,
mostrando que era um descendente da tribo de Levi. Na Bíblia de Estudo de Genebra
lemos:

Melquisedeque não tinha o direito genealógico de ser chamado de sacerdote do


Senhor. Ele foi um homem que Deus designou como sacerdote real... A
singularidade do sacerdócio de Melquisedeque é descrita prenunciou Cristo e seu
sacerdócio especial.16
16
Bíblia de Estudo de Genebra, 2.ed., 1653.
Não se sabe a verdadeira origem de Melquisedeque, alguns creem que é o surgimento
do Cristo encarnado previamente. Independente disso, quando o texto diz que ele não
tinha pai e nem mãe, deseja nos explicar que embora não se comprove a sua genealogia,
Deus o levantou como sacerdote. Por semelhante modo, Cristo não veio da tribo de
Levi, mas foi levantado por Deus como nosso Sumo Sacerdote.

2. Melquisedeque não teve um sucessor. Após a morte de Melquisedeque nenhum


sacerdote foi levantado em seu lugar. Cristo também não teve um sucesso, pois não
era necessário. O sacrifício de Cristo pôs fim à necessidade de sacrifícios de animais
porque ele tinha oferecido a si mesmo, o perfeito sacrifício que satisfaria eternamente
a justiça de Deus.
3. Em um outro momento, Abrão será levantado por Deus como sacerdote do seu lar,
mas aqui o Senhor coloca diante dele alguém que está acima dele, que o abençoa e e
recebe seu dízimo. O sacerdócio levítico era apenas uma sombra do sacerdócio
superior, o de Cristo.

Por que a pessoa de Melquisedeque é importante nesta passagem? É muito importante,


porque aponta para a necessidade de alguém maior. A prática de sacrificar animais em
altares praticada por Abrão era uma lembrança constante de que este ainda era pecador e
que por isso necessitava reconhecer isso perante Deus matando um animal
constantemente. Mas a verdade é que matança de animais nunca perdoou pecados de
ninguém. Em Miqueias 6.6,7 percebemos isto claramente:

Com que me apresentarei ao SENHOR e me inclinarei ante o Deus excelso? Virei perante
ele com holocaustos, com bezerros de um ano? Agradar-se-á o SENHOR de milhares de
carneiros, de dez mil ribeiros de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão,
o fruto do meu corpo, pelo pecado da minha alma?

A verdade, é que tudo isso não resolvia o problema do pecado humano, por esse motivo
Jesus Cristo veio e trouxe a solução. Em Hebreus 7.26-28 lemos:

Com efeito, nos convinha um sumo sacerdote como este, santo, inculpável, sem mácula,
separado dos pecadores e feito mais alto do que os céus, que não tem necessidade, como os
sumos sacerdotes, de oferecer todos os dias sacrifícios, primeiro, por seus próprios pecados,
depois, pelos do povo; porque fez isto uma vez por todas, quando a si mesmo se ofereceu.
Porque a lei constitui sumos sacerdotes a homens sujeitos à fraqueza, mas a palavra do
juramento, que foi posterior à lei, constitui o Filho, perfeito para sempre.

Abrão era forte, Abrão era grande, mas ainda havia alguém acima dele, Melquisedeque.
Esta era uma bela lição para o patriarca, e com os olhos da fé, ele poderia contemplar a
necessidade do grande sacerdote Jesus Cristo.

Aplicações

Página 34 e 35 duguid.
If Father Abraham could defeat the invincible Kedorlaomer, the Israelites could take
courage facing enemies in their own day17

Irony occurs at many points in the passage, and here the taking of Lot proves to be
Kedorlaomer’s undoing. If he had been satisfied with the goods, resisting the greed of
dealing in human flesh, he may well have left unhindered. But as the account
emphasizes, Lot was “Abram’s nephew” (v. 12), which precipitated the report of Lot’s
capture coming to Abram (v. 13). As in chap. 13, which portrays the blessing Lot
enjoyed in accord with the promises made to Abram (12:3), Kedorlaomer’s
mistreatment of Lot, which was tantamount to opposing Abram, results in his
destruction (12:3, “curse”).18

17
Mathews, K. A. (2005). Genesis 11:27–50:26 (Vol. 1B, p. 144). Nashville: Broadman
& Holman Publishers.
18
Mathews, K. A. (2005). Genesis 11:27–50:26 (Vol. 1B, p. 144-145). Nashville:
Broadman & Holman Publishers.
14. Gênesis 15.1-21: A aliança de Deus com Abrão

26 de Maio de 2019

Confiar nas palavras daqueles que estão próximos a nós não é uma tarefa fácil. As
pessoas têm quebrado promessas sem nenhum remorso e feito compromissos já
pensando em não honrá-los. Podemos aplicar isso às mais diversas áreas da vida:
casamento, compromissos com a igreja de Cristo ou operações financeiras, por
exemplo. Nossa tendência natural é transferir essa desconfiança para Deus e muitas
vezes pensamos que as garantias do seu cuidado expressas nas Sagradas Escrituras não
são tão seguras quanto afirmam ser.

Abrão, o pai da fé, também teve nos quais foi tentado a duvidar, mas encontrou conforto
na garantia que Deus lhe deu, reafirmando a promessa de sua herança. Por meio desta
passagem podemos aprender que Podemos confiar na herança que Deus nos
prometeu em Cristo. Assim como Deus foi fiel a Abrão, ele será para conosco.

Neste capítulo o Senhor refaz duas promessas feitas outrora a Abrão: Descendência e
posse da terra. É possível identificarmos um paralelismo que une estas duas promessas,
seguindo a seguinte ordem:

A. O Senhor faz uma promessa;


B. Abrão questiona o Senhor;
C. O Senhor tranquiliza Abrão.

I. Promessa acerca da descendência (v.1-6)

A. O Senhor faz uma promessa (v.1)

Após os acontecimentos que ocorreram no capítulo 14, que consistem na libertação de


Ló e seu encontro com o rei de Sodoma e com Melquisedeque, rei de Salém, o Senhor
aparece então a Abrão em uma visão. O texto não dá detalhes sobre o modo como Deus
se revelou, mas o que de fato importa aqui é o que o Senhor falou com Abrão e garantiu
que lhe protegeria: “Não temas, Abrão, eu sou o teu escudo, e teu galardão será
sobremodo grande”.

“não temas”. Afinal, o que Abrão poderia temer? O texto não explica, mas podemos
imaginar que talvez Abrão tivesse receios de que os quatro reis derrotados pudessem
tentar vingar-se do ataque que sofreram. Independente do que seja, Deus faz duas
afirmações grandiosas a Abrão:
“eu sou o teu escudo”. Independente do que pudesse vir contra Abrão, ele estaria bem
protegido, pois Deus afirmou ser o seu escudo. Não importava o quão fortes e violentos
os inimigos pudessem ser, Abrão desfrutava da proteção de um escudo intransponível.
Abrão poderia expressar a mesma confiança que Davi viria a declarar posteriormente
(ver Sl 7.1-2,10).

“e teu galardão será sobremodo grande”. Uma tradução mais literal deste trecho seria:
“eu sou o teu grande galardão”. O galardão é uma recompensa por algo que se
realizou, e Deus promete recompensar Abrão por sua fidelidade. Abrão abriu mão dos
das riquezas dos despojos resgatados conforme vimos no capítulo 14, por esse motivo
uma recompensa muito mais preciosa lhe aguardava.

Observe que Deus não prometeu dar um escudo a Abrão, mas que ele próprio seria o
escudo de Abrão. De modo semelhante, o Senhor não disse a Abrão que sua lhe daria
uma grande recompensa, mas que Ele próprio seria a grande recompensa de Abrão.
Deus faria grandes coisas na vida de Abrão e de sua descendência, mas nenhuma dessas
coisas se compara à verdadeira riqueza de ter o Senhor em sua vida.

Muitas pessoas têm buscado a Deus e feito sacrifícios em busca de recompensas


materiais. Tais indivíduos não fazem ideia de que a recompensa verdadeiramente
valiosa é aquela que nos dá o direito de sermos chamados “filhos de Deus”. Todos nós
devemos fazer coro com o salmista Davi que disse: “O Senhor é a porção da minha
herança e o meu cálice; tu és o arrimo da minha sorte” (Sl 16.5). Ao proferir estas
palavras, Davi afirma que está tão satisfeito em Deus que nada mais ele precisa cobiçar.
Abrão era um homem rico, e Deus preservaria suas propriedades e quem sabe o fez
prosperar mais ainda, no entanto o Senhor Deus seria a sua verdadeira riqueza.

B. Abrão questiona o Senhor (v.2,3)

Após receber a promessa de proteção e herança da parte do Senhor, então Abrão replica:
“Senhor Deus”. Uma tradução literal deste texto seria Senhor Soberano (Adonai
Yahweh). O uso desta expressão no Antigo Testamento é interessante, pois é
comumente utilizada quando os homens apresentam alguma súplica perante o Senhor
(Dt 9.26; Js 7.7 e 16.28). Embora esteja fazendo uma pergunta a Deus, seria um erro
afirmarmos que ele duvidou da promessa que recebera de ter um filho, entretanto ele
não era capaz de enxergar o modo como isso se concretizaria, e por isso questionou a
Deus, ainda que não esqueceu-se do respeito devido ao Senhor que é Soberano para
fazer todas as coisas.

Então ele prossegue: que me haverás de dar, se continuo sem filhos e o herdeiro da
minha casa é o damasceno Eliézer? Disse mais Abrão: A mim não me concedeste
descendência, e um servo nascido na minha casa será o meu herdeiro (v.2b-3).
O Senhor tranquilizou Abrão que, conforme argumentamos, poderia estar receoso
quanto à sua segurança. O que poderia preocupar Abrão se o Senhor estava com ele?
Bem, mas faltava algo, faltava-lhe um filho. Deus prometeu abençoar sua descendência,
mas aos olhos humanos o cumprimento dessa promessa parecia cada vez mais difícil.
Talvez possamos expressar o sentimento de Abrão da seguinte forma: “Senhor, tenho a
garantia de tua proteção, tenho uma terra maravilhosa que me prometeste, mas quem vai
herdar essas coisas? O Senhor não me deu um filho, e pelo que parece terei de adotar
um escravo e fazê-lo herdeiro de tudo o que tenho”.

C. O Senhor tranquiliza Abrão (v.4-6)

Versículos 4 e 5

Abrão não duvidou da promessa que Deus lhe fez e está registrada no capítulo 12,
entretanto, talvez ele tenha imaginado que esse cumprimento viria por meio do seu
servo Eliezer. Entretanto, Deus esclarece a ele que não seria esse o modo pelo qual
Deus cumpriria sua promessa. Deus afirma claramente que o herdeiro de Abrão seria
alguém gerado dele, isto é, alguém que tivesse seu sangue correndo em suas veias.

Abrão talvez estivesse dentro de sua tenda, e então o Senhor o levou até o lado de fora
da mesma e ordenou que ele contemplasse o céu que estava repleto de estrelas e não
somente promete um filho, mas o desafia a contar as estrelas e garante que sua
posteridade seria tão numerosa quanto aquelas tantas estrelas que iluminavam os céus.

Abrão já havia reconhecido Deus como o criador dos céus e da terra (14.22), e esse
mesmo Deus que chamou todas aquelas estrelas à existência era igualmente poderoso
para dar descendência àquele velho desacreditado. Não é sem motivo que o profeta
Jeremias expressou as seguintes palavras: “Ah! SENHOR Deus, eis que fizeste os céus e
a terra com o teu grande poder e com o teu braço estendido; coisa alguma te é
demasiadamente maravilhosa” (Jr 32.17). Criar todas aquelas estrelas que Abrão
comtemplava, formar um homem apenas do pó da terra foi algo muito simples para
Deus, quanto mais o fazer com que Abrão tivesse um descendente.

Versículo 6

Após ouvir a maravilhosa promessa de Deus, seguida por uma grandiosa ilustração, o
texto bíblico nos diz: “Ele creu no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça”. Abrão
creu no que Deus lhe disse, de modo que não precisaria mais fazer com que um
estrangeiro fosse seu herdeiro.

Por ter crido na palavra de Deus, Abrão foi considerado um homem justo pelo Senhor.
A ideia de Abrão ser considerado justo está relacionada ao fato de ser ele considerado
alguém que estava de acordo com o padrão requerido por Deus. Mas quem de nós, por
mais que nos esforcemos poderia ser considerado alguém justo? O texto e Romanos 3
afirma que “todos pecaram e carecem da glória de Deus”, como então Abrão poderia ser
encontrado em tal patamar de justiça? Em bora fosse um homem piedoso, Abrão estava
muito distante do padrão de perfeição exigido por Deus. Daí, somos levados a pensar
que a fé de Abrão não se limitava à esperança de ter um herdeiro, mas que dele nasceria
o Grande herdeiro, que seria uma bênção para todas as nações. Somente pela fé no
herdeiro de Abrão, o nosso Senhor Jesus Cristo podemos ser justificados.

Para tentar deixar mais claro nosso propósito, queremos afirmar que ao receber a
promessa de um herdeiro, Abrão não estava fixando seus olhos na simples multiplicação
de seus descendentes, mas que ele cria que dentre esses descendentes nasceria a semente
da mulher prometida em Gênesis 3. Nenhum dos sacrifícios apresentados por Abrão nos
altares que ele construiu eram suficientes para torna-lo justo diante do Senhor, mas
ainda sim ele foi considerado justo pro Deus. Por quê? Porque ele teve fé em Jesus,
antes mesmo dele vir ao mundo. Ele creu na promessa bendita do Senhor e por isso o
Senhor não lhe atribuiria nenhuma iniquidade, pois a justiça de Cristo lhe foi imputada
(leia Rm 4.1-8).

Abrão foi justificado pela fé, e por isso gozava de paz com Deus (Rm 5.1-2), mas nós
bem sabemos que essa fé não veio de Abrão, foi um presente de Deus para ele (Ef 2.8).

III. Promessa acerca da terra (v.7-21)

Nesta segunda seção do capítulo temos uma segunda promessa do Senhor, depois de
prometer dar uma descendência numerosa a Abrão, agora o Senhor promete dar-lhe a
terra na qual ele habitava. Abrão ainda era um peregrino, dono de uma pequena parte de
todo aquele território que um dia lhe foi prometido, entretanto, assim como dar um filho
a Abrão não era algo difícil para Deus, tampouco o seria dar-lhe aquela terra.

Assim como o conteúdo referente à primeira promessa (v.1-6), temos a mesma divisão
nesta seção:

A. O Senhor faz uma promessa;


B. Abrão questiona o Senhor;
C. O Senhor tranquiliza Abrão.

A. O Senhor faz uma promessa (v.7)

Eu sou o Senhor. Antes de reforçar outra promessa já feita a Abrão, Deus apresenta-se
de maneira poderoso: Eu sou o Senhor. Quem falava com Abrão não era qualquer
pessoa, mas o grande Deus, o Soberano sobre todas as coisas. Então Deus afirma que foi
ele quem tirou Abrão de Ur dos Caldeus e o levou até à terra na qual ele estava agora e
promete tornar-lhe proprietário de toda aquela região.

B. Abrão questiona o Senhor (v.8)


Mesmo crendo em Deus, Abrão pediu ao Senhor uma prova real de que o que ele
dissera se cumpriria. Diante do que foi dito no versículo 6, talvez não seria coerente
concluir que Abrão duvidou de Deus, mas de qualquer forma queria um sinal visível do
cumprimento da promessa. É preciso esclarecer que não temos neste versículo base
suficiente para que venhamos agir da mesma forma pedindo sinais dos céus, pelo
contrário, devemos nos contentar com as garantias que a Escritura nos dão.

C. O Senhor tranquiliza Abrão (v.9-21)

Versículos 9-12

Deus manda Abrão preparar o ambiente para que este lhe dê a garantia requerida.
Seguindo a ordem de Deus, Abrão tomou alguns animais e os partiu ao meio, com
exceção das aves (v.9-10) e colocou as metades dos animais defronte umas das outras,
construindo uma espécie de trilho pelo qual alguém deveria passar.

Ao verem os animais mortos, algumas aves de rapinam se aproximaram a fim de


devorar a carne exposta no chão, mas Abrão esforçou-se para enxotá-las (v.11). Depois
de um tempo de luta contra as aves de rapina o sol começou a se pôr e a luz dia
começou a dar lugar à escuridão da noite. Não temos ideia de quanto tempo lutou contra
as aves, mas no fim, ele acabou caindo no sono, talvez exausto até que o Senhor lhe
apareceu em sonho.

Versículos 13-16

Enquanto dormia, Deus diz a Abrão que a sua descendência seria peregrina em terra
alheia, e será reduzida à escravidão. Deus aqui se refere aos acontecimentos relatados
após o que temos registrado no livro de Gênesis. José foi levado para o Egito como
escravo, mas pela graça de Deus se tornou governador daquele lugar. Dada a fome
extrema, José sustentou sua família naquela região, por ser o único lugar que ainda
possuía alimentos. Mas após a morte de José, o povo de Israel começou a ser visto com
maus olhos e foi reduzido à escravidão. Assim, Deus está revelando a Abrão o que
aconteceria no futuro. Deus prometeu dará terra para Abrão e seus descendentes, e ele
cumpriria, mas antes eles seriam escravizados por aproximadamente 4 séculos, mas um
dia sairiam de lá com grandes riquezas.

Mas por que demoraria tanto até Deus dar a terra ao seu povo? Porque Deus traria juízo
sobre o povo ímpio do Egito (v.14) e também dos amorreus (v.16), ou seja, Deus os
mandaria para o Egito, e no momento certo Deus julgaria o pecado do Egito, afundando
o exército de faraó no Mar Vermelho. Depois, o povo de Deus voltaria para a terra
prometida, e aí sim seria a vez do juízo daqueles povos pecadores que reinavam na terra
que Abrão habitava.
O povo de Deus esperaria muitos anos até que possuíssem a terra prometida, sofreria
muito até que esse dia chegasse, mas uma coisa eles teriam, a promessa de Deus, que é
selada no versículo 17:

Versículo 17
Utilizando-se uma tocha de fogo, Deus passou entre os pedaços de animais. Para que
compreendamos o significado desse episódio, precisamos conhecer o contexto daquela
região.

Era uma prática comum do Oriente Médio dos tempos de Abrão selar alianças por meio
de um ato simbólico. Quando dois indivíduos queriam firmar um acordo importante,
eles matavam animais, e colocavam as metades em frente umas das outras, formando
uma estrada, assim como Abrão o fez, e então os dois homens passavam pelo meio
daqueles animais. Qual era o significado disso? Ao passarem juntos no meios daqueles
animais partidos ao meio é como se eles dissessem: “É isso aqui o que vai acontecer
com aquele de nós que descumprir o nosso acordo: será partido ao meio como esses
animais”. Ou seja, aquele que violasse o trato deveria ser morto. Promessas eram
levadas bem mais a sério do que no nosso tempo e o seu descumprimento poderia custar
a vida do desobediente.

Assim, Deus fez um pacto com Abrão, prometendo lhe dar a terra prometida. Mas algo
digno de atenção aconteceu naquele dia: Somente Deus passou entre os animais. Abrão
não passou junto com Deus. Isto nos mostra que a aliança de Deus é unilateral. Abrão
não deveria fazer nada para obter a terra prometida, mas tão somente crer na palavra de
Deus. De modo análogo, nossa salvação não está baseada em nossas obras. A bíblia é
enfática ao afirmar que nossas obras não têm nenhum valor para nos conferir a salvação,
de modo que a única coisa que precisamos para ser salvos é crer no filho de Deus. Mas
não se esqueça de que essa fé você só poderá obter se Deus a colocar no seu coração,
conforme argumentamos acima.

Imagine Deus dizendo a Abrão: “Confie em mim, muitos anos vão se passar, muitas
coisas ruins vão acontecer, mas creia, eu dou minha palavra de que cumprirei minha
promessa”. O povo de Israel entrou na terra prometida, por que? Porque Deus prometeu
e cumpriu. A nossa terra prometida é o paraíso celestial, e por que podemos confiar que
entraremos nele um dia? Efésios 1.11-14 nos responde:
11
nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito
daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade, 12 a fim de sermos
para louvor da sua glória, nós, os que de antemão esperamos em Cristo; 13  em quem
também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação,
tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; 14 o qual é
o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua
glória.
Quando alguém quer um empréstimo rápido, ela pode ir a uma loja de penhores ou a um
banco e penhorar algo de valor. Muitas vezes penhoram suas joias e até casas em troca
de dinheiro emprestado, ao fazerem isto estão dando garantia de que se não pagarem a
dívida à empresa não ficará no prejuízo, pois poderá ficar com o bem penhorado.

Deus garantiu a Abrão que cumpriria a promessa, ele passou no meio dos animais
sacrificados. E qual é o nosso penhor? Jesus é o nosso penhor, a nossa garantia. Mas
você talvez diga, mas eu tenho tantos pecados. Não importa, o preço já foi pago, a única
coisa necessária é a confiança no sacrifício de Jesus. Creia nessa promessa e desfrute da
verdadeira riqueza e felicidade.

Aplicações

1. Ler introdução Duguid


2. Deus é nossa proteção (Salmo 46)

Wiersbe: Protecao e provisao sao bencaos que o


mundo esta buscando e que os politicos prometem
sempre que concorrem a um cargo.
Os candidatos oferecem aos eleitores protecao
contra guerras e contra a violencia das
ruas, bem como a provisao de empregos,
saude, educacao e aposentadoria. Algumas
das promessas sao cumpridas, mas muitas
sao esquecidas. O Deus Todo-Poderoso e o
unico que pode fazer promessas de protecao
e de provisao e cumpri-las. "Porque o
S en h o r Deus e sol e escudo; o S en h o r da graca
e gloria; nenhum bem sonega aos que andam
1. retamente" (Sl 84:11). (101, pdf)
15. Gênesis 16.1-15: Sarai e Agar

09 de Junho de 2019

Deus é o nosso auxílio, em quem podemos confiar quando precisamos de ajuda.


Infelizmente temos a tendência de desconfiar da eficácia desse auxílio e por isso
tentamos dar uma “ajudinha” para Deus, de modo que ele consiga cumprir suas
promessas. Foi exatamente esse o caso de Abrão, pois sendo já velho, sucumbiu à
proposta de sua esposa a fim de providenciar o filho que Deus tinha prometido, mas que
aparentemente não daria.

A vida de fé de Abrão é marcada por altos e baixos, assim como a nossa, e neste
capítulo veremos um desses episódios onde sua fé vacila e ele tenta auxiliar o Senhor no
cumprimento de sua promessa.

I. A Solução errada (v.1-3)

A narrativa inicia-se retomando a afirmação feita em 11.30, isto é, a esterilidade de


Sarai que lhe impedia de ter filhos, mas agora esse problema chega a clímax, no qual
Sarai, insatisfeita com sua condição, tentará solucionar esse problema.

Assim, Sarai procura Abrão (v.2) e afirma que o Senhor a impediu de ter filhos, e por
isso ela diz a ele que tome então a sua serva Agar e se deite com ela para que esta possa
engravidar e assim Sarai fosse edificada com filhos. Pelo sistema legal da época,
embora Agar tivesse o filho, Sarai seria considerada sua mãe. Este era um artifício
usado naquela época para evitar que o marido tivesse o direito de adquirir outra esposa,
pois a infertilidade de uma mulher abria precedente para que um homem contraísse
outro matrimônio.

E assim se fez, depois de dez anos (v.3) desde que a promessa foi feita a Abrão (cap.
12), Sarai com aproximadamente 75 anos, desacreditada da promessa de ter um filho
nascido de si mesma, propõe que Abrão se deite com sua escrava. Feita a proposta,
“Abrão anuiu ao conselho de Sarai” (v.2). Assim como Adão sucumbiu à oferta de sua
esposa (Gn 3.17), Abrão também cai no erro de concordar com a oferta de Sarai.

Tanto em Gênesis 3.17, quanto 13.2 lemos que os maridos “atenderam à voz” de suas
esposas, e também, em ambos os casos, cada mulher “tomou” e “deu” algo a seu marido
(3.6; 16.3). Isto não significa que apenas as mulheres têm ideias ruins em uma família,
mas isto evidencia o fato de que as tentações mais perigosas podem vir por meio
daqueles que nos são mais próximos. Embora Satanás seja descrito como sendo
semelhante a um leão que ruge, esta não é a formo com a qual ele se apresenta perante
nós, mas como um anjo de luz (cf. 2 Co 11.14), e por esse motivo temos que estar
vigilantes para não cairmos em tentação.
Sarai propôs um atalho, mas o que ela e seu esposo não perceberam era que esta era
uma obra de Satanás. O diabo é bom em oferecer atalhos, pregando a ideia de que “os
fins justificam os meios”. Cristo veio estabelecer seu reino nesta terra, mas para isso
precisava passar pela dolorosa cruz, mas Satanás tinha um atalho, de modo que ele
poderia ter todo o universo aos seus pés caso se prostrasse diante dele (Mt 4.3-10), mas
diferente de Abrão, Cristo sabia que atalhos na vida cristã não são uma opção.

II. O Conflito (v.4-6)

Versículo 4

Abrão deitou-se com Agar e ela teve um filho. Após ter tido um filho, Agar começou a
desprezar Sarai, que por sua vez deve ter sentido que seu lugar na casa pudesse estar
ameaçado. Agar era bem mais jovem e também era fértil, talvez tivesse começado a ver
a si mesma como esposa de Abrão.

Versículo 5

Em resposta a essa afronta, Sarai procura a Abrão. Indignada, Sarai cai em outro erro: o
de transferir sua própria culpa para outrem. Sarai culpa Abrão por estar sendo
desprezada por sua escrava, mas afinal, de quem foi a ideia mesmo? Ela mesma
reconhece: “Eu te dei a minha serva”.

Agar estava errada, pois não podia agir daquela maneira com sua senhora e somente
Abrão teria autoridade para resolver a questão. Sarai não errou ao procurar seu esposo
em busca de uma solução, mas falhou gravemente por se esquivar de sua própria culpa.
A autojustificação é uma característica inerente ao pecado, da qual já falamos nesta
série de mensagens. Adão se esquivou, Eva também e todos nós temos a mesma
tendência.

Versículo 6

Enquanto Sarai se esquivava de sua culpa, Abrão se esquivou de sua responsabilidade,


colocando nas mãos de sua esposa o poder de escolher o futuro da sua serva. Tendo
recebido carta branca de Abrão, Sarai então humilhou sua serva. Não sabemos em que
consistiu esta humilhação, talvez tenha espancado a mesma, talvez tenha se limitado a
agredi-la verbalmente e esta então fugiu da presença de sua senhora.

III. Agar é confortada por Deus (v.7-14)

Versículo 7

Depois de caminhar uma longa distância, talvez alguns dias, o Anjo do Senhor veio ao
encontro de Agar. Há certo debate sobre quem seria esse Anjo do Senhor, se seria um
anjo, ou o próprio Deus que assumiu a forma humana (talvez uma encarnação prévia de
Cristo). Quanto a este fato não afirmamos com certeza e tampouco debateremos aqui.
Calvino fez um comentário interessante ao falar cobre o esse encontro do Anjo do
Senhor com Sarai:
Como ele havia mitigado anteriormente a punição de Abrão e Sarai, agora ele lança
um olhar paternal sobre Agar, de modo que seu favor é estendido a toda a família.
De fato, ele não os poupa de todo, a fim de não amar seus vícios; mas ele os corrige
com remédios suaves.19

Agar havia errado, pois se rebelara contra sua senhora. Ela tinha sua parcela de culpa,
conforme já argumentamos, pois desprezou a Sarai. Mesmo diante de seu erro, o Senhor
veio ao encontro dela a fim de convencê-la do seu erro.

Versículos 8-9

O Anjo do Senhor se aproximou de Agar e logo já demonstrou que a conhecia e além de


chamá-la pelo nome, se refere a ela também como serva de Sarai. Ela não tinha o direito
de se autodeclarar livre, e por isso é chamada de serva. Agar então responde que estava
fugindo de sua senhora. Então o Anjo do Senhor diz a ela que volte para sua senhora e
se humilhe perante ela, ou seja, que voltasse e se sentisse satisfeita com sua posição de
serva. Agindo assim, um futuro promissor, pelo menos aos olhos humanos, haveria de
vir sobre a sua descendência:

Versículos 10-12

Por meio do filho de Agar, Abrão teria inumeráveis descendentes. A criança que haveria
de nascer deveria se chamar Ismael, que significa “Deus ouve”. Deus viu a situação de
Agar e não deixou-a desamparada, mas a socorreu em um momento trágico de sua vida
e lhe conduziu ao caminho correto. Embora ela não tenha suplicado por ajuda, mesmo
assim Deus teve compaixão dela em sua aflição.

Embora Deus houvesse abençoado Agar, Deus já antecipou qual seria o futuro daquela
criança. Antes mesmo que ela nascesse, Deus já sabia que ele seria como um “jumento
selvagem” e que no futuro se oporia à descendência de Abrão que no futuro viria por
meio de Sarai. Embora Deus soubesse que daqueles descendente de Abrão viria um
povo ímpio e hostil à semente santo, Deus prometeu derramar sua graça comum sobre
suas vidas, fazendo deles um povo forte.

Versículos 13-14

Agar então, diante de tamanha demonstração de graça dá um nome ao Senhor: “Tu és


Deus que vê”. Expressando o cuidado de Deus que a viu e a encontrou, mesmo quando
estava andando errante pela terra. E mais, Além de Deus tê-la visto, ela afirma que viu a
Deus. Obviamente ela contemplou Deus representado em alguma forma humana, mas o
fato é que ela esteve diante de Deus. Por esse motivo, o nome de um poço que estava
próximo ao ocorrido foi nomeado de “Beer-Laai-Roi”, como se dissese: “Este poço
pertence àquele que vive e que me vê”.

IV. Nasce Ismael (v.15-16)

19
Calvino, Genesis, vol.1, 430.
O texto não afirma, mas fica implícito que Agar obedeceu à voz do Anjo do Senhor e
voltou para a casa de seus senhores. Lá, nasceu Isaque, o primeiro filho de Abrão que a
essa altura tinha 80 anos.

Aplicação

1. Atalhos – Devemos aprender a passar pelas lutas... (ler pg 55: A difícil obra
de esperar)
2. V.8 Calvino Em suma, sempre que vier à nossa mente defraudar qualquer um
dos seus direitos, ou buscar isenção de nosso devido chamado, deixe a voz do
anjo soar em nossos ouvidos, como se Deus nos atraísse de volta, colocando sua
própria mão. sobre nós. Aqueles que governaram orgulhosa e tiranicamente, um
dia prestarão contas a Deus; enquanto isso, sua aspereza deve ser suportada por
seus súditos, até que Deus, cuja prerrogativa é levantar o abjeto e aliviar os
oprimidos, lhes dará socorro. Se uma comparação for feita, o poder dos
magistrados é muito mais tolerável do que aquele antigo domínio. A autoridade
paterna é, em sua própria natureza, amável e digna de consideração. Se a fuga de
Hagar foi proibida pelo comando de Deus, muito menos ele suportará a
licenciosidade de um povo que se rebelar contra seu príncipe; ou com a
contumácia das crianças, que se afastam da obediência aos pais.
In short, whenever it comes into our mind to defraud any one of his right, or
to seek exemption from our proper calling, let the voice of the angel sound in
our ears, as if God would draw us back, by putting his own hand upon us.
They who have proudly and tyrannically governed shall one day render their
account to God; meanwhile, their asperity is to be borne by their subjects, till
God, whose prerogative it is to raise the abject and to relieve the oppressed,
shall give them succor. If a comparison be made, the power of magistrates is
far more tolerable, than that ancient dominion was. The paternal authority is
in its very nature amiable, and worthy of regard. If the flight of Hagar was
prohibited by the command of God, much less will he bear with the
licentiousness of a people, who rebel against their prince; or with the
contumacy of children, who withdraw themselves from obedience to their
parents.
16. Gênesis 17.1-27: A Instituição da Circuncisão

16 de Junho de 2019

Muitas pessoas passam longos períodos frequentando a igreja, mas nunca tomam uma
decisão sobre quanto ao batismo, por outro lado, muitos apresentam-se para o batismo
na igreja sem refletir sobre da seriedade desse ato. Comumente pastores erram neste
ponto, pois, no anseio de ver a igreja crescendo, não perdem tempo e batizam todos
aqueles que se apresentam desejosos de tornarem-se membros da igreja. Quanto aos
candidatos o batismo, comumente são levados pela emoção e professam uma fé na qual
honestamente não creem, o que futuramente traz vergonha para a igreja e frustração
pessoal. Ter uma aliança com Deus é algo maravilhoso, mas também algo sério. O
mesmo Deus que nos agracia com maravilhosos benefícios decorrentes dos meios de
graça concedidos aos membros do corpo de Cristo, é o mesmo Deus que faz sérias
exigências daqueles que intitulam-se cristãos.

Na passagem que temos diante de nós, Deus mais uma vez reafirma sua promessa a
Abrão e a ratifica por meio de um ato simbólico (a circuncisão). No entanto, junto com
o símbolo, veio também a responsabilidade que o Senhor exige. Assim aprendemos que
o símbolo instituído por Deus não pode ser negligenciado, nem tampouco feito de
modo irrefletido.

I. Deus aparece a Abrão (v.1-3a)

Versículo 1

“Quando atingiu Abrão a idade de noventa e nove anos, apareceu-lhe o SENHOR”


(v.1a). Depois de 24 anos desde sua peregrinação para a terra prometida, aqui temos
Abrão com 99 anos, tendo apenas Ismael como filhos, que agora tinha 13 anos (16.16).
Talvez Abrão, estivesse durante todos esses anos satisfeito com o filho que tinha, mas
aparece Deus vai deixar claro que Ismael não seria o herdeiro da promessa que Deus
tinha feito a Abrão.

“e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso”. Deus se apresenta como o Deus Todo-


Poderoso (El Shaddai). É relevante destacarmos que todas as vezes que este nome é
usado em Gênesis, está escrito em um contexto no qual se faz referência à sua
capacidade abençoar e cumprir o que prometeu (veja 28.3; 35.11; 43.14; 48.3; 49.25).
Tal percepção é importante porque todas as garantias que Deus traria mais à frente
estavam baseadas no firme alicerce da onipotência de Deus. Assim, A idosa e estéril
Sarai poderia sim ainda ter um filho nascido de seu ventre. A promessa de Deus se
concretizaria, não por meio imaginados por Abrão (ver 15.2-3) ou pela solução proposta
por Sarai (16.2).
“anda na minha presença e sê perfeito”. Deus tem uma aliança para fazer com Abrão,
mas antes de apresentá-la, Deus exige duas coisas: “anda na minha presença e sê
perfeito”. Andar na presença de Deus, ou diante de Deus, traz a ideia de um servo que
fita seus olhos em seu Senhor e acompanha seus passos. Abrão deveria ser perfeito (ou
íntegro), não no sentido de não ter pecado, mas que ele deveria viver integralmente para
o Senhor. Deus requereu obediência de Abrão em cada aspecto da sua vida, de modo
que sua vida como um todo fosse dedicada ao Senhor e que houvesse em seu coração
ídolos que competissem por sua atenção. “Em suma, a integridade aqui mencionada é
oposta à hipocrisia. E certamente, quando temos de lidar com Deus, não há lugar para
dissimulação”.20

Versículos 2 e 3a

“Farei uma aliança entre mim e ti”. Esta passagem é bem mais traduzida como: “E eu
farei a minha aliança entre mim e ti”. Deus afirma nove vezes neste capítulo que a
aliança é dele, e devemos estar cônscios de que a iniciativa de entrar em um pacto com
Abrão deve-se apenas à sua livre vontade que havia alcançado aquele pecador. Abrão
teria responsabilidades nesse pacto, mas o poder para o cumprimento das promessas
residia somente em Deus que novamente promete dar a ele uma grandiosa
descendência. Como já dissemos, muitos anos já haviam se passado desde a primeira
vez que Deus falou com Abrão, ele teve seus momentos altos e baixos, mas Deus, que
permanece o mesmo, lhe garante que ele terá aquilo que lhe foi prometido, apesar das
circunstâncias adversas.

“Prostrou-se Abrão, rosto em terra”. Como um ato de adoração, Abrão se prostra


perante o Senhor, humilhando em sua presença, reconhecendo sua inferioridade perante
Deus. Abrão não pronunciou nenhuma palavra, mas seu ato de ajoelhar-se também pode
significa que ele recebeu com fé tudo o que Deus dissera e concordou com as exigências
feitas por Deus no versículo 1.

II. As promessas do Senhor (v.3b-8)

1. Descendência numerosa (v.3b-6)

Enquanto Abrão estava prostrado em terra, Deus lhe falou (v.3b), garantindo que a
aliança do Senhor seria feita com ele e que este seria pai de muitas nações. Deus não
disse que seriam apenas muitas pessoas, mas muitas nações, o que traz ênfase à
grandiosa quantidade de pessoas que viria de sua descendência.

Abrão recebe um novo nome da parte de Deus, a partir de então ele seria chamado de
Abraão, que significa “pai de multidões”, e por isso ele seria pai de numerosas nações.
Observe que em 12.2 Deus promete que ele um dia seria uma grande nação, mas agora
Deus expande a promessa e afirma que ele será pai de numerosas nações e que nelas
serão levantados reis (v.6).

20
Calvino, Genesis, I, 443.
2. Perpetuidade da aliança (v.7-8)

A aliança de Deus não se limitaria a alguns poucos anos, pelo contrário, ela seria eterna,
de modo que o Senhor seria o Deus não somente de Abraão, mas também de toda a sua
descendência. Além de garantir que a sua aliança seria eterna, Deus afirmou que daria a
possessão da terra de Canaã aos descendentes de Abraão para sempre. E Finaliza
repetindo: e serei o seu Deus.

III. As exigências do Senhor (v.9-14)

Versículos 9-11

Deus graciosamente estabeleceu um pacto com Abraão e lhe fez promessas grandiosas,
agora, Deus lhe diz o que ele deve fazer acerca desse pacto. O símbolo que representaria
esse pacto é a circuncisão. A circuncisão era uma pequena cirurgia semelhante à que é
feita por homens que têm fimose em nossos dias. A diferença é que o procedimento era
muito mais doloroso e sangrento, haja vista que não havia anestesia, tampouco bisturis
tão amolados. A circuncisão instituída por Deus não era uma coisa nova, mas a partir
daquele momento ela teria um significado especial no meio do povo de Deus, pois
representaria a aliança daquelas pessoas com o Senhor Deus.

Versículo 12

Embora a circuncisão não fosse uma prática estranha no Antigo Oriente, algo diferente
foi estabelecido. Enquanto a circuncisão em muitos lugares marcava a transição da
infância para a puberdade, os filhos do povo de Deus deveriam ser circuncidados ao
oitavo dia, e também todos os escravos que habitassem em suas casas.

Mas afinal, por que este sinal era empregado para as criancinhas, sendo que estas não
tinham capacidade de crer? A resposta é que elas viviam sob a autoridade de pais que
professavam sua fé no Deus verdadeiro. A este ponto, faz-se necessário ressaltar que há
uma clara distinção entre o símbolo e a coisa significada. A aliança já havia sido
estabelecida, de modo que o rito da circuncisão seria somente um simbolismo da
mesma. Quando um pai circuncidava seu filho, isto não significava que este fosse um
verdadeiro crente e que estivesse apto para receber a salvação (o mesmo se aplica aos
escravos), mas significava tão somente que habitavam em um lar onde o Senhor. Pelo
menos teoricamente, era crido e obedecido.

Versículos 13-14

“a minha aliança estará na vossa carne”. Enquanto determinados acordos eram


estabelecidos por meio de palavras, ou então por registros em pedras, o Senhor
inscreveu sua aliança na carne do seu povo. Assim como a cirurgia de retirada do
prepúcio é irreversível, a aliança de Deus também o é. A aliança de Deus não está
condicionada à obediência humana, caso contrário era seria rompida constantemente.
Isto não significa que Deus não vá punir os pecados dos crentes, mas que mesmo diante
da infidelidade dos homens, a promessa de Deus permanece de pé (ver Lv 26.40-46). É
com base nessa promessa maravilhosa que podemos saber que o perdão do Senhor
sempre estará ao alcance daqueles que sinceramente o buscarem.

Quanto aos que viessem a rejeitar a circuncisão, seja por incredulidade, seja por receio
da dor deveriam ser afastados do meio do povo de Deus por não desejarem submeter-se
à exigência do pacto. “Tal excomunhão simbolicamente significava a morte da pessoa
aos olhos da comunidade”.21

IV. Deus promete um filho nascido de Sarai (v.15-22)

Versículos 15 e 16

Após as especificações acerca da circuncisão, Deus retoma o tema da descendência,


especificando agora de onde deveria vir a semente santa. Deus então dá um novo nome
para Sarai, a partir de agora ela se chamaria Sara. Deus promete abençoá-la com um
filho. Deus faz promessas semelhantes às que foram feitas a Abraão, pois ela se tornaria
nações (cf. v.5) e reis de povos procederiam dela. Todas essas coisas reforçam ainda
mais o propósito de Deus em abençoar a descendência de Abraão por meio de Sara, ao
invés de sua serva egípcia.

Versículos 17 e 18

A leitura nos leva a crer quer Abraão duvidou de Deus, mas quando nos atentamos ao
testemunho das Escrituras acerca disto torna difícil fazermos tal afirmação (ver Rm
4.18-21). Talvez seja coerente crermos que ele de fato teve seu momento de dúvida e
por isso “Abraão apresenta ao Senhor uma contraproposta defendendo a aceitação de
Ismael”.22 É como se dissesse a Deus que estava contente com o filho que ele já lhe
tinha dado e assim ele roga ao Senhor que preserve a sua vida e expressa o desejo de
que Ismael viva na presença de Deus, assim como Deus quis que o próprio Abraão
andasse (cf. v.1).

Versículos 19-22

Deus então afirma veementemente a Abraão que Sara teria um filho, que deveria se
chamar Isaque. Deus havia escolhido Isaque, antes de seu nascimento, para ser aquele
com quem estabeleceria sua aliança, aliança esta que seria perpétua, a qual consiste na
mesma aliança firmada com seu pai Abraão.

Deus assevera que de fato abençoará Ismael e que ele de fato será um grande povo, mas
não seria com ele que a aliança seria firmada. Então Deus estipulou o prazo do
nascimento da criança, que consistiria no período de um ano. Após ditas estas palavras o
Senhor ascendeu aos céus (v.22).

V. A circuncisão de Abraão e sua casa (v.23-27)

21
Kenneth Mathews, Genesis 11:27–50:26, p. 205.
22
Ibid., 206.
Ao que tudo indica, as afirmações de Deus animaram a Abraão, que não perdeu tempo e
ainda naquele dia reuniu seu filho e seus servos e todos foram circuncidados no mesmo
dia que o Senhor apareceu a ele. A esta altura Abraão tinha noventa e nove anos e seu
filho Ismael treze. Abraão não somente agiu rapidamente como também fez tudo
conforme Deus tinha ordenado.

Contextualizando

Quando nos lembrando de que esta passagem foi registrada por Moisés enquanto guiava
o povo pelo deserto, somos levados a nos perguntar qual foi o motivo pelo qual ele não
orientou o povo quanto à circuncisão no deserto. Temos registrado em Josué 5 que o
povo que saiu do Egito estava circuncidado, mas nenhum daqueles que nasceram no
deserto o foram. Talvez alguém, ou quem sabe o próprio Moisés tenha refletido sobre
este fato. Sendo a aliança eterna, pressupõe-se que a circuncisão deveria ter sido posta
em prática. Josué então circuncidou todo o povo quando o povo estava próximo e se
apossar da terra prometida.

O rito era importante porque Deus o havia ordenado, entretanto havia uma incircuncisão
pior do que a da carne, que é a incircuncisão do coração. De nada adiantaria cortar o
prepúcio de todos os homens de Israel se em seus corações não havia o temor e Deus. O
sinal impresso na carne não tinha efeito algum por si mesmo, apontando então para a
necessidade de uma transformação de todo o ser.

Israel constantemente rompia sua aliança com Deus e embora praticassem o rito, seu
coração estava cheio de pecado. A aliança com Abraão exigia obediência, mas o
coração do homem é inclinado para mal, de modo que nenhum ato externo poderia
assegurar tal obediência. Sob essa perspectiva tudo então estaria perdido, entretanto,
pela graça de Deus havia uma bela promessa de que uma nova aliança seria
estabelecida, uma na qual a circuncisão seria aplicada na carne, mas no próprio coração
(ver Jr 31.33,40). Deus não apenas exigiu obediência, como também operou de maneira
maravilhosa, capacitando os homens a obedecer.

Para que fôssemos capacitados a obedecer a Deus, Cristo teve de vir e morrer por
nossos pecados, mas ele não fez isso sem mudar o rito da circuncisão para o batismo.
Cristo pôs fim aos rituais sangrentos da circuncisão e dos sacrifícios porque nenhuma
gota de sangue precisaria ser derramada além do seu próprio. Por esse motivo, Deus não
mandou seus discípulos circuncidar a ninguém, mas lhe disse: “Ide, portanto, fazei
discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito
Santo” (Mt 28.19).

Aplicação:
1. Duguid, p.64ss
2. Calvino (v1): anda.. perfeito... Agora, destas palavras, aprendemos para
que fim Deus reúne para si uma igreja; a saber, aqueles a quem ele chamou
podem ser santos. O fundamento, de fato, do chamado divino, é uma
promessa gratuita; mas segue-se imediatamente que aqueles a quem ele
escolheu como um povo peculiar a si mesmos deviam dedicar-se à justiça de
Deus.402 Pois nessa condição, ele adota os filhos como seus, para que ele
possa, em retorno, obter a lugar e a honra de um pai (p.443 ou 444 do
original)
3. Reis (v.6). À primeira vista, se refere aos reis de Israel (ver 35.11; 49.10;
2Sm 7.8-16), mas também ao rei messiânico (ver adiante, ReflexõesTeológicas). Waltke 317pdf

v.7 ver NAC


v.13. Há perdão, porque a aliança de Deus é eterno
17. Gênesis 18.1-33: O Anúncio da Destruição de Sodoma e Gomorra

23 de Junho de 2019

Introdução

I. Anúncio do nascimento de um filho (v.1-15)

Versículos 1-8

1-2. Pouco tempo após a última aparição do Senhor, novamente ele aparece novamente a
Abraão, agora acompanhado de dois anjos. O texto não nos oferece detalhes, mas deixa claro
que logo de início ele tinha noção de que aqueles homens que se aproximavam não eram
pessoas comuns. Ao ver que aproximavam, Abraão correu ao seu encontro e prostrou-se em
terra, apesar da alta temperatura que havia naquela hora do dia.

3. Ao ver aqueles seres celestiais em forma humana, caminhando em um sol escaldante,


viu com alegria surgir a oportunidade de servir ao Senhor e aos que lhe acompanhavam.
Assim Abraão dirige a um dos três homens, que de alguma fora destacava-se dos
demais, ou por ter a mesma aparência da aparição anterior, e dirigiu-se especificamente
a ele, chamando-o de “meu Senhor”.

Diante daquela oportunidade maravilhosa de prestar sua hospitalidade a Deus, Abraão


considera isto um favor divino: se acho mercê em tua presença. Isto significa que para
Abraão, servir ao Senhor naquela ocasião não era um peso, mas um grande prazer.
Enquanto para muitos, prestar algum serviço em favor do reino de Deus é um peso
gigantesco, Abraão não mediu esforços para servir a Deus e ainda considerou isso como
um favor de Deus em sua vida.

4-8. Abraão tentou suprir qualquer necessidade que eles pudessem ter, provendo-lhes
descanso e alimento para que se recuperassem da longa viagem. Dos versículos 4 a 8
temos o relato da fartura oferecida por Abraão, alimentos muito mais do que suficientes,
oferecendo-lhes um verdadeiro banquete real.

Obviamente todas aquelas coisas eram desnecessárias para Deus e para seus anjos, mas
sua aparição em figura humana em um momento de tamanho calor foi uma grande
oportunidade para que Abraão desse prova de sua caridade, e este por sua vez não
dispensou a mesma, considerando-a um favor divino.

Versículos 9-15

Abraão então é questionado a respeito do paradeiro se Sara. Obviamente o Senhor sabia


onde ela estava, mas o questionamento serviria como uma ponte para que o diálogo
caminhasse em direção a ela, e talvez também para que ela ficasse atenta ao que haveria
de ser dito. Abraão então respondeu de maneira breve: “Está ai na tenda”.

Se não estivesse atenta à conversa, certamente a partir de então ela estava e ouviu
claramente o Senhor dizer que no período de um ano ela teria um filho. Esta promessa
já havia sido feita no capítulo 17 e é refeita aqui, o que mostra que não se passou muito
tempo entre um episódio e outro.
No versículo 11 o narrador interrompe o relato a fim de reforçar o fato de que Sara já
era uma mulher idosa e já não tinha mais seu ciclo mensal de ovulação. Relembrando-
nos de que seria impossível Sara ter um filho sem uma intervenção divina.

Assim como seu esposo sorriu ante a promessa de um filho (17.17), Sara também sorri
diante de tamanha promessa. Embora Abraão e Sara cressem no Senhor, ao se
depararem com a promessa de Deus, limitaram seus pensamentos somente às coisas
naturais, esquecendo-se que diante deles estava o doador da vida.

Sendo onisciente, Deus pergunta a Abraão porque sua esposa se riu da promessa.
Porventura ele não poderia fazer tal milagre? Seria esta uma obra muito grande para
Deus operar? Enquanto Abraão e Sarai viam empecilhos, Deus via uma ocasião
oportuna de mostrar seu grande poder. Envergonhada diante do Senhor Sara tentou
negar, mas foi repreendida por Deus que afirmou veementemente que ela de fato havia
sorrido.

II. O Senhor propõe-se a ir à Sodoma e Gomorra (v.16-21)

16. Assim como acompanhamos as pessoas que nos visitam até à porta de nossas casas, o
anfitrião Abraão acompanhou O Senhor e seus anjos. De um lugar onde era possível contemplar
Sodoma, eles então olharam para aquela cidade.

17. Deus então conversa consigo mesmo, ou quem sabe com os outros anjos, perguntando se
seria apropriado ocultar de Abraão o que pretendia fazer. Obviamente o Senhor já havia vindo
do céu com o propósito de esclarecer a Abraão seus intentos, pois ele já tem todas as coisas
determinadas. No entanto, agir de tal maneira leva a nós, os leitores, a refletir juntamente com
Deus, que posteriormente expressa o motivo pelo qual é importante revelar suas intenções a
Abraão.

18-19. Sendo Abraão o escolhido de Deus para perpetuar a semente santa, seria sábio informa-
lo sobre o motivo pelo qual Sodoma e Gomorra pereceria, a saber, a multidão dos seus pecados.
Abraão, enquanto escolhido de Deus para ensinar sua posteridade no caminho da piedade e da
justiça, veria em Sodoma e Gomorra um perfeito exemplo do que aguarda todos aqueles que se
apegam ao pecado.

“para que o Senhor faça vir sobre Abraão o que tem falado a seu respeito”. No capítulo 17
Deus exigiu que Abraão andasse em sua presença e fosse perfeito e a consequência disso é que
estes receberiam as bênçãos da aliança. Por outro lado, para os que não andam no temor do
Senhor só lhes resta a condenação. Sem dúvida alguma, esse vívido exemplo seria útil para a
posteridade de Abraão que ouviria esse relato.

20. Deus então afirma que tem ouvido o clamor de Sodoma e Gomorra. Provavelmente Ele
esteja se referindo ao clamor daquelas que padeciam injustiças por causa da perversidade
daqueles povos, mas também pode se referir a uma forma figurada de dizer que a injustiça deles
está gritante, de modo que não passam desapercebidos. Estamos falando de uma região onde
reinava a perversidade e a imoralidade e veremos um exemplo disso quando considerarmos o
capítulo 19.

21. Obviamente o Senhor não tinha a necessidade de vir à terra, pois sabia exatamente como
estava a situação, mas este ato foi útil, pois deixa claro que a terrível destruição infligida sobre a
cidade não foi um ato desnecessário.
III. Abraão intercede por Sodoma e Gomorra (v.22-33)
22-23. Sabendo então que Deus pretendia destruir Sodoma e Gomorra, Abraão se pôs diante do
Senhor a fim de suplicar por sua misericórdia em favor daquelas cidades. Abraão então pergunta
ao Senhor: “Destruirás o justo com o ímpio?”. Abraão conhecia ao Senhor e sabia muito bem
que ele é justo e então pergunta a Deus se porventura faria realmente a todos perecer.

Antes de prosseguir, é válido ressaltarmos o que já dissemos em sermões anteriores: que a


escolha de companhias erradas traz consigo consequências terríveis. Ló estava em Sodoma, e
sua vida agora estava em risco, pois havia feito a escolha de morar naquele lugar no qual
imperava a impiedade. Deus de fato salva os que são verdadeiramente piedosos, mas isto não
significa que estes não venham a padecer por causa de suas más escolhas. Assim, devemos fazer
uma distinção entre o livramento de uma catástrofe e o livramento de uma alma do inferno.
Cremos que, se Ló tivesse morrido, ainda sim estaria no céu, pois a Escritura dá testemunho de
sua piedade (cf. 2 Pe 2.7). Entretanto, Ló movido por compaixão, se pôs diante de Deus a fim de
suplicar pela vida de toda aquela cidade.

24-33. Abraão então, reconhece que Deus é Juiz de toda a terra, e lhe roga que não destrua a
cidade caso fossem encontradas cinquenta pessoas justas, e Deus então afirma que não
destruiria a cidade caso houvesse cinquenta pessoas justas naquele lugar. O texto nos dá a
entender que Abraão sabia muito bem o quanto a impiedade estava generalizada naquelas
cidades, então de maneira respeitosa pede ao Senhor que poupe a cidade se houvesse 45 pessoas
justas, depois pede que Deus os poupasse caso houvesse pelo menos 40, depois 30, 20 e por fim,
pelo menos dez pessoas justas. Deus ouviu cada súplica de Abraão e partiu dali com o
compromisso de perdoar toda a cidade caso houvesse pelo menos 10 pessoas justas ali.

É de suma importância notar como Abraão foi respeitoso para com Deus e em momento algum
fez exigências, mas tão somente intercedeu em favor daquele povo. Deus ouviu a Abraão, pois o
amava, mas em lugar nenhum sua autoridade foi transferida para seu servo.

O capítulo é concluído com o relato de que Deus partiu após Abraão ter cessado de falar. O
desfecho desta história será visto no capítulo seguinte. No deteremos aqui em nossa
argumentação para que reflitamos sobre as preciosas lições que este texto nos ensina.

Aplicações

1. Ver comente v.12 calvino


18. Gênesis 19.1-38: A Destruição de Sodoma e Gomorra

30 de Junho de 2019

O julgamento de Deus é uma realidade que muitos fazem questão de rejeitar, mas ele é
real e encontra abundante apoio nas escrituras. Pela graça de Deus, em meio à
destruição também há salvação, não por merecimento, mas pela misericórdia do Senhor.
Anteriormente pudemos ver o juízo de Deus em ação quando trouxe o dilúvio por toda a
terra, matando homens e animais terrestres. Naquele episódio, somente Noé e sua
família escaparam da destruição que assolou a humanidade. Novamente temos um
episódio onde Deus derrama sua ira. E agora? Alguém escapará desse desastre?

I. O resgate de Ló (v.1-22)

1-3. Depois de aparecer a Abraão no maior calor do dia, quando o sol brilhava com
maior intensidade, agora é Ló quem recebe a visita dos seres celestiais. Abraão recebeu
três visitantes: o Senhor e dois anjos. Por sua vez, Ló, recebeu apenas os dois anjos.
Como o texto não esclarece o motivo, nos calamos diante disso. O fato é que já estava
anoitecendo quando os anjos chegaram à Sodoma.

A cena descrita nestes três versos é semelhante à que vimos no início do capítulo 18. Ló
foi ao encontro dos anjos e, prostrando-se, convidou-os para que pernoitassem em sua
casa. Ló apresenta-se como um servo e oferece repouso para que eles pudessem seguir
viagem quando o dia amanhecesse. Ló ainda não estava consciente de que Sodoma era o
destino daqueles anjos, e que eles teriam vindo para destruir aquela cidade. Inicialmente
os anjos recusaram o convite, mas depois o aceitaram após a insistência de Ló e
desfrutaram de sua hospitalidade, que incluiu um banquete.

4-5. Após o banquete, a casa foi cercada pelos homens que habitavam na cidade, que
bateram à porta perguntando pelos visitantes que haviam chegado à cidade. Eles
exigiram que Ló retirasse de dentro de sua casa para que abusassem sexualmente deles.

Deus havia prometido a Abraão que pouparia a cidade caso encontrasse dez pessoas
justas lá, entretanto, com exceção de Ló e sua família que o receberam bem, todos os
homens da cidade, tanto jovens quanto velhos revelaram desejos homossexuais unidos à
selvageria demonstrada pelo desejo de abusar sexualmente em público aqueles
visitantes. Tal atitude foi a prova cabal de que toda a cidade de fato estava corrompida
pela maldade.

6-8. Consciente da seriedade da situação, Ló então saiu d dentro de casa e fechou a


porta logo em seguida a fim de conversar com os pervertidos que estavam sedentos pelo
pecado. Visando proteger seus hóspedes, que estavam sob sua proteção, Ló ofereceu
suas duas filhas a eles para fossem abusadas por eles, com a condição de que deixassem
aqueles homens em paz. Não discutiremos aqui questões morais relacionadas a isto, pois
de uma ou de outra forma Ló estaria fazendo uma escolha errada, seja entregando os
hóspedes, seja entregando suas filhas, mas diante da pressão do povo ele tomou tal
atitude.
9. Os habitantes de Sodoma não deram ouvidos a Ló e ordenaram: Retira-te daí. Além
Ló foi desprezado por se tratar de um estrangeiro que agora estava questionando sua
atitude pecaminosa, colocando-se, nas palavras dos sodomitas, como um juiz entre o
povo. Revoltosos, então esses homens perversos avançaram sobre Ló prometendo fazer
algo pior com Ló do que o que pretendiam fazer com seus hóspedes.

10-11. Vendo que a vida de Ló estava em risco, os dois hóspedes puxaram Ló para
dentro de casa, fecharam a porta e feriu os homens da cidade de cegueira. Esta cegueira
possivelmente foi temporária, mas que durou tempo suficiente para que Ló pudesse
escapar do ataque. Pelo relato, observamos que mesmo cegos, ainda assim os homens se
cansaram de por curar pela porta.

12-14. A perversão daquela cidade estava mais do que comprovada. O relato bíblico
agora nos diz que seu clamor não somente tinha chegado aos ouvidos de Deus, como
também estava aumentando. A perversidade estava aumentando e o fim daquele lugar
seria a destruição. Por isso, Ló é instruído a avisar seus genros, que estavam prometidos
em casamento às suas filhas e que todos saíssem da cidade, pois sua destruição seria
certa. Certamente os genros de Ló não estavam entre aqueles que queriam violentaram
os anjos, entretanto fizeram pouco caso da destruição que estava sendo anunciada,
achando que seu sogro estivessem fazendo alguma brincadeira. Como bem expressou
João Calvino:

Onde não há religião, e nenhum temor a Deus, o que é dito em relação à punição dos
ímpios, desaparece como uma coisa vã e ilusória. E então percebemos quão fatal é
uma segurança perversa, que o filho inebria; sim, fascina a mente dos ímpios, a tal
ponto, que eles não mais pensam que Deus se senta como juiz no céu, e assim eles
estupidamente domem em pecado, até que, enquanto eles estão dizendo: “Paz e
segurança”, eles são oprimidos em repentina ruína.23

O desprezo pela advertência de Ló nos serve de alerta, tanto para que nos mantenhamos
apercebidos, bem como nos esforcemos para acordar aqueles que estão perto de nós
envoltos em um sono profundo, pensando que este mundo caído os mantém seguros.

15-16. Ao amanhecer, os anjos apressaram a Ló para que se retirasse da cidade,


insistindo-se para que ele se levantasse e saísse da sua cidade junto com sua esposa e
filhas para que não fossem destruídos. O versículo de 16 relata a demora de Ló para
atender a ordem, então um os anjos tomaram essas pessoas pelos braços e as
conduziram para fora da cidade.

17. Estando eles do lado de fora da cidade, a ordem era para que continuassem fugindo
e que nem sequer olhassem para trás. Não está claro o motivo para tal ordenança, mas é
provável que isso deveria conscientizá-los de que estavam saindo de um lugar imundo e
entregue ao mal e que ali não haveria nada digno de saudade.

18-22. Ló então faz uma contraproposta, ao invés de fugir para um monte, ele pede que
ao anjo que lhe conceda misericórdia e lhe permita entrar em uma pequena cidade e se
refugie nela. Esta cidade estava entre aquelas que seriam destruídas, mas Ló argumenta
que sendo ela pequena, não seria tão importante e quem sabe queria indicar também que
o nível de perversão por lá fosse menor. Então o anjo consentiu e permitiu a Ló que se
refugiasse lá.
23
Calvino, Genesis I, 505.
II. A destruição de Sodoma e Gomorra (v.23-29)

23-25. O Quando Ló chegou a Zoar, Deus derramou uma chuva de enxofre e de fogo
que destruiu a cidade e todos os habitantes de Sodoma e Gomorra. Consciente da
destruição, a mulher de Ló desobedeceu à ordem do anjo e por isso converteu-se em
uma estátua de sal. Cristo certa mencionou a mulher de Ló e o contexto no qual ele fez
isso nos traz esclarecimentos acerca do motivo pelo qual Deus a castigou. De Lucas
17.32 inferimos que a mulher de Ló, mesmo diante da iminente destruição, ainda
possuía apego com seu antigo lar, de certa forma seu coração ainda estava preso àquele
lugar. E o exemplo dela foi usado por Cristo quando quis exortar seus ouvintes acerca
da necessidade de deixar tudo para traz e fugir do juízo que estava vindo.

27-29. Ao amanhecer, Abraão contemplou a fumaça que subia pelos céus, pois Sodoma
e Gomorra queimavam como uma fornalha. Mas o texto nos lembra que Ló havia sido
poupado, a intercessão de Abraão foi ouvida, talvez não do jeito que ele queria, mas
sem dúvida fora ouvida.

III. O incesto (v.30-38)

30. Após subir à cidade de Zoar, Ló habitou com suas filhas em uma caverna, por
estarem receosos. O texto não esclarece o motivo, e dadas as divergências de
pensamento sobre o assunto, não nos manifestaremos aqui.

31-38. Não sabemos quanto tempo se passou entre o versículo 30 e o 31. O que
sabemos é que a filha mais velha dirigiu-se à mais nova e expôs a ela sua preocupação
de dar continuidade ao nome do seu pai.

Considerando que a família estava destituída de vínculos, seria improvável que Ló


conseguisse um casamento para elas e também que ele já estava muito velho para casar-
se novamente e ter um filho que levasse seu nome. Assim, a filha mais velha propôs que
embriagassem a Ló e ambas se deitassem com ele para que gerassem filhos dele.

Assim se fez, e na primeira noite a mais velha deitou-se com seu pai após embriagá-lo e
a mais nova fez o mesmo na noite seguinte. Dessa relação incestuosa nasceram Moabe,
o pai dos moabitas e Bem-Ami, de onde viriam os amonitas.

Observe que temos algo semelhante ao que já vimos na história de Abraão. No capítulo
16 Sarai, com um desejo genuíno de dar um filho a Abraão, fez uso de uma atitude
desesperada que trariam consequências ruins para o povo de Deus, pois da relação de
Abraão com a serva de Sarai deu-se início a uma nação que se tornaria grande opositora
do povo de Deus. Por semelhante modo, essas crianças que nasceram dessa relação
pecaminosa, nasceram os pais de outras duas grandes nações que seriam grandes
opositores do povo judeu.

Aplicação

1. Cuidado com as concessões. Pelo testemunho do apóstolo Pedro (2 Pe 2.7-8)


sabemos que Jó era um homem justo, mas isso não significa que ele não tenha incorrido
em erro. Ló fez uma escolha ruim, pois caminhou rumo a Sodoma por causa da beleza
dos campos e por fim foi morar dentro daquela cidade onde o pecado reinava. Ló não
incorreu nos mesmo erros que as pessoas daquele lugar, entretanto não abandonou
aquele lugar cercado de imoralidade.

Concessões custam caro, e Ló teve que oferecer suas filhas na tentativa de preservar
seus hóspedes. E você, tem sacrificado algo ao invés de romper de vez com o que não
agrada a Deus? Talvez você não tenha mergulhado em algum pecado, mas também não
tem feito o esforço para mantê-lo longe de você. Muitas vezes omitimos a nossa fé para
não parecermos pessoas antiquadas perante as outras pessoas. “Ló nunca se identificou
totalmente com o mundo em que vivia. No entanto, ao mesmo tempo, não queria deixa-
lo para trás”.24 Vale a pena deixar tudo por amor a Cristo, vale a pena abrirmos mão de
tudo se for preciso, para agradarmos tão somente a ele.

2. O julgamento de Sodoma e Gomorra é apenas o reflexo do grande julgamento.


Tanto este episódio, quanto o do dilúvio são avisos de que Deus não deixa os pecados
impunes. Todo pecado é uma ofensa a Deus e há de receber a justa retribuição. Cristo u
dia virá jugará vivos e mortos, e todos aqueles que amaram o pecado, assim como
Sodoma e Gomorra amaram serão lançados no lago de fogo.

2. Não despreze os alertas que têm sido feitos. Os genros de Ló foram avisados da
destruição que viria, mas estes acharam a advertência de seu sogro um tanto quanto
cômica, e por esse motivo foram destruídos. Nosso Senhor Jesus usou o exemplo dos
dias de Noé, bem como do que ocorreu em Sodoma e Gomorra para nos advertir acerca
da necessidade de vigilância (ver Lucas 17.26-30).

Enquanto Noé construía a arca ele também foi um pregoeiro da justiça, proclamando o
julgamento de Deus, mas os homens rejeitaram sua mensagem. Ló também anunciou o
juízo aos seus genros, que também desprezaram a advertência. Em ambos os casos, o
resultado foi ruína para aqueles que desprezaram o aviso, e de igual modo acontecerá
com aqueles que têm desprezado a mensagem do evangelho.

Se você ainda não se entregou a Cristo, dê ouvidos ao evangelho, arrependa-se do seus


pecados e seja salvo da ira vindoura. Se você já é um cristão, então fique vigilante, é
preciso remir o tempo por que os dias são maus (Ef 5.16).

3. Cuidado com as suas prioridades. Enquanto falava dos últimos dias, Jesus fez uma
outra menção aos dias de Ló, agora mais especificamente à sua esposa (ver Lc 17.31-
32). Jesus ensinou que no Grande Dia ninguém deveria voltar para buscar nada que
porventura tenha ficado para trás. A lição aqui é que devemos nos desprender de todas
as coisas, não importando o quão valiosas sejam, nada disso valeria a pena. Cristo deve
ser nossa prioridade, não devemos ter receio de deixarmos certas coisas para trás, pois
tudo o que nos impede de correr a carreira da fé deve ser abandonado.

4. Não tome decisões sem Deus. Sarai escolheu por conta própria o caminho para que
tivesse um filho, disso nasceram os ismaelitas, grandes inimigos do povo de Deus. As
filhas de Ló também escolheram um meio para dar filhos a Ló, disso nasceram mais
inimigos do povo de Deus. É um grave erro tentarmos ajudar a Deus, o que devemos
fazer é confiar nele, por mais que as circunstâncias sejam adversas, devemos recorrer a

24
Iain Duguid, O abismo entre promessa e realidade, 87.
ele, e no momento de desespero e desesperança suplicar que ele intervenha, pois
somente ele sabe o que é melhor para nossas vidas.
19. Gênesis 20.1-18: Abraão em Gerar

14 de Julho de 2019

O sentimento de perceber que cometemos um erro grave é muito incômodo, mas pior do
que isso é quando percebemos que caímos no mesmo erro por uma segunda vez.
Quando erramos, depois de tudo se resolver, nos determinamos a não falhar novamente
nesse ponto, mas em um momento ou outro pode ser que vacilemos. Isto não significa
que gostamos de determinado pecado, mas mostra que temos nossas lutas e tentações,
que são diferentes das demais pessoas, mas que devem ser combatidas. Abraão caiu em
um erro grave pelo menos duas vezes, o que mostra o quanto somos parecidos. Veremos
então seu erro se repedindo e também a solução que Deus trouxe para isso.

I. Abimeleque toma Sara para si (v.1-7)

1-2. Por um motivo não especificado Abraão partindo de onde estava e foi morar na
terra do Neguebe, especificamente em Gerar. A esta altura, Sara já tinha 90 anos de
idade, mas algo de atraente havia nela. Considerando sua idade, é possível que por suas
virtudes esta seria uma mulher desejável, mais do que por sua aparência física.
Independentemente de qual seja o real motivo, Abimeleque se afeiçoou dela, e como
Abraão mais uma vez mentiu dizendo que esta fosse sua irmã, então mandou busca-la
para qu fosse uma de suas esposas.

Mais uma vez Abraão entregou sua esposa a outro homem com o intuito de preservar
sua própria vida, por receio de ser assassinado. É intrigante ver tal falta de fé naquele
que é considerado o Pai da Fé, mas isso nos mostra o quão falhos nós somos.

3-5. Tendo Abimeleque levado Sara pra seu harém, o Senhor lhe apareceu em sonho e
disse que ele seria punido por levar uma mulher casada para casa. Abimeleque então
afirma ser inocente, pois o próprio Abraão tinha dito que ela era sua irmã e Sara tinha
confirmado a mentira, de modo que ele não tinha culpa alguma.

6-7. Deus então lhe disse que sabia que ele era inocente, por esse motivo tinha se
manifestado em sonho, a fim de que ele pudesse ser avisado. Tendo então avisado, o
Senhor ordena que ele restitua Sara ao marido. Sendo Abraão um profeta de Deus,
quando Abimeleque restituísse Sara a Abraão, ele então receberia a intercessão deste,
por ser um profeta de Deus. Caso não devolvesse a mulher ao marido, então a morte
certa o aguardava.

II. Abimeleque restitui Sara (v.8-13)

8. Logo após acordar de madrugada, contou o ocorrido e contou aos seus servos, isto é,
ao seu concílio real e todos ficaram atemorizados.
9-10. Vemos agora um rei pagão repreendendo o profeta de Deus, questionando-o
acerca do motivo que ele tinha para praticar um erro tão grave.

11. Abraão tenta se justificar, dizendo que sua atitude foi motivada pelo medo que tinha
de ser morto por causa de sua esposa. É irônico vermos que um pagão temeu mais a
Deus do que o próprio Abraão. Enquanto Abraão achava que não havia temor de Deus
naquele lugar, ele é que estava tomando atitudes reprováveis.

12. Afim de amenizar o seu erro, Abraão disse que não tinha mentido, pois Sara era de
fato sua irmã, meio irmã no caso, por ser filha de seu pai com outra mulher, que não a
sua própria mãe. Embora isto não fosse uma mentira, sem dúvida não era uma verdade
plena, e nós cristãos somos frequentemente tentatos a fazer tais coisas, pois pelo receio
de pecar por causa da mentira, nos silenciamos quanto a determinadas coisas porque nos
falta a coragem para falar toda a verdade, então nos contentamos em abaixar a cabeça e
deixar que as pessoas façam uma interpretação errada da realidade.

13. Aqui Abraão foi além e reconheceu que esse erro não era um caso isolado, mas que
havia combinado com sua esposa de que procederiam assim sempre que considerassem
necessário no período de suas peregrinações. Observe que esta decisão foi tomada desde
que Deus o chamou da casa de seu pai, isto significa que Abraão obedeceu ao chamado,
mas que ainda tinha receios quanto à sua segurança, fraquejando e duvidando se Deus
de fato o protegeria.

III. Abimeleque compensa a Abraão (v.14-18)

v.14-16. Abimeleque presenteou Abraão e Sara com uma grande quantidade de


dinheiro, este seria o salário, conforme Waltke, de 167 anos de trabalho de um
trabalhador babilônio. Abimeleque ofereceu tudo isso “com o intuito de honrar a Deus e
seu relacionamento especial com ele, não para compensar sua culpa”. 25 Abimeleque,
embora não tivesse culpa, ainda assim tentou reparar o que houve dando uma generosa
oferta a Sara pela situação constrangedora pela qual passou.

17-18. Por ter o rei Abimeleque tomado uma mulher casada como esposa, Deus havia
tornado as mulheres de seu reino estéreis, por isso, Abraão no caráter de representante
do Senhor intercedeu e elas voltaram a ser férteis.

25
Waltke, Gênesis, 352.
20. Gênesis 21.1-34: O Nascimento de Isaque

11 de Agosto de 2019

Deus é fiel, disso podemos ter certeza, mas isso não significa que seu modo de agir se
adequa ao nosso imediatismo. Por muitas vezes na caminhada da fé nós somos
provados, aguardando uma bênção vinda da parte de Deus, mas que parece que nunca
vai chegar. Esses momentos de espera tendem a nos deixar aflitos e até mesmo
desacreditados, mas, por fim, quando recebemos aquilo que tanto esperávamos nos
alegramos muito e, não poucas vezes, percebemos o quanto fomos tolos e impacientes.

Vemos no capítulo 21 de Gênesis que Abraão recebeu o tão esperado filho que Deus
prometeu, como uma poderosa demonstração de sua fidelidade, conforme veremos
abaixo:

I. O nascimento de Isaque (v.1-7)

Versículos 1-2

A história de Abraão começou a ser contada no final do capítulo 11 de Gênesis, e logo


no início do capítulo 12 lemos que Deus o chamou e fez grandiosas promessas,
afirmando que ele teria uma grande descendência. Isto poderia ser algo simples de se
concretizar se Sara não fosse uma mulher estéril. Independente disso, o Senhor lhe fez
uma promessa e assegurou que Sara um dia lhe daria um filho.

Quando a promessa foi feita, Abraão e Sara já não eram jovens, pois tinham 75 e 65
anos, respectivamente. Se isto não bastasse, os anos foram se passando e a
concretização da promessa parecia ser mais improvável a cada dia que se passava. Mas
cerca de 25 anos após a promessa, Deus enfim concedeu a graça para que Sara desse a
luz a um filho.

Por três vezes nos dois primeiros versos deste capítulo a fidelidade de Deus é ressaltada:
“como lhe dissera... cumpriu, o que lhe havia prometido... no tempo determinado...”.
Deus prometeu e finalmente cumpriu. Agora Sara tinha um filho nascido de seu ventre
nos braços. Vinte e cinco anos não são vinte e cinco dias, a espera pelo nascimento do
filho de Abraão foi longa e marcada por atitudes desesperadas, conforme temos visto
desde o capítulo 12. A espera pela intervenção divina em nossas vidas muitas vezes é
angustiante, mas tais circunstâncias são oportunidade que Deus nos dá para que
confiemos nele e vivamos em sua dependência.

“Nessa história, o Espírito Santo nos dá um exemplo notável, tanto da fraqueza do


homem, quanto da graça de Deus”.26 Em cada um de nós há apenas incapacidade
perante todas as coisas, somente pela ação graciosa de Deus é que tudo se nos torna
possível.
26
Calvino, Genesis, I, 521.
Versículos 3-5

Depois de nascido, o filho de Abraão e Sara recebeu o nome de Isaque. Abaixo


comentaremos sobre o significado do nome da criança. Por agora, vale notar que
Abraão obedeceu à ordenança do Senhor, circuncidando seu filho no oitavo dia após seu
nascimento. Abraão havia sido circuncidado juntamente com seu filho Ismael e agora o
selo do pacto com Deus é administrado na vida de Isaque. Agora que o filho da
promessa havia nascido, não significava que tudo tinha chegado ao fim, mas que o pacto
de Deus com Abraão seria continuado através de suas gerações. O versículo 5 reforça o
fato de que Abraão era um idoso, deixando claro que tamanha bênção só poderia vir da
ação direta do Senhor.

Versículos 6-7

Seguindo a ordenança do Senhor (17.19), Abraão deu o nome de Isaque a seu filho.
Esse nome é significativo no presente contexto, pois Isaque significa: “ele ri”. Sara
sorriu quando ouviu Deus prometer que ela teria um filho (18.12), naquela ocasião em
seu rosto havia um riso de incredulidade e desconfiança. Quando a promessa ainda não
era real, ela olhava para si mesma, com sua idade avançada, e enxergava apenas
impedimentos. Mas agora Sara sorri novamente, agora ela tinha um filho, ela estava
sorrindo de alegria porque Deus cumpriu sua promessa, mesmos depois de tantos anos,
mesmo depois de tantos tropeços daqueles que receberam essa promessa. O
inacreditável aconteceu, Sara agora era uma mãe, tem um filho no colo para amentar.
Deus deu a ela motivos para sorrir, pois seu opróbrio havia terminado.

A esta altura é importante lembrarmos a quem o livro de Gênesis foi endereçado. Já


argumentamos que este livro foi escrito para o povo de Israel que havia saído do Egito e
estava no deserto, rumo à terra prometida. Deus mostrou sua fidelidade fazendo com
que Isaque nascesse, e se Isaque não nascesse, o povo de Israel não existiria. Mais uma
vez Deus provou sua fidelidade para com Israel tirando eles da escravidão. Eles também
tinham motivos para sorrir, pois foram libertos da escravidão e, embora houvesse uma
longa jornada à terra prometida, Deus faria seu povo herdar o que prometera. Havia
motivo para sorrir, pois o Senhor os estava sustentando no deserto, livrando-os de
grandes perigos.

Nós também, igreja do Senhor, temos motivos para nos alegrarmos com esse
nascimento. Pois estando toda a humanidade morta em seus pecados, Deus prometeu o
nascimento de alguém que esmagaria a cabeça da serpente. Isaque finalmente nasceu,
ele teria um filho, que também teria filhos, e isso aconteceria até que um dia nascesse
aquele que Deus prometeu em Gênesis 3.

Isaías profetizou (9.6):

Porque um menino nos nasceu,

um filho se nos deu;


o governo está sobre os seus ombros;

e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus forte,

Pai da Eternidade, Príncipe da paz.

O nascimento de Isaque foi uma bênção, mas da linhagem dele viria um nascimento
ainda mais importante, o próprio Filho de Deus, que nos libertaria de nossos pecados. A
virgem Maria, antes mesmo do nascimento de Jesus cantou um hino ao Senhor:

A minha alma engrandece ao Senhor,

e o meus espírito se alegrou em Deus, meu Salvador...

Amparou a Israel, seu servo,

a fim de lembrar-se da sua misericórdia,

a favor de Abraão e de sua descendência, para sempre,

como prometera aos nossos pais. (Lc 1.46-47, 54-55)

O nascimento de Isaque vai além do simples nascimento de uma criança, mas da


continuidade da promessa de Deus que chega ao seu clímax na pessoa de Cristo. O
próprio Senhor Jesus disse: “Abraão, vosso pai, alegrou-se por ver o meu dia” (Jo
8.56). Isto significa que Abraão não somente se alegrou por ter agora um filho nascido
de Sara, mas que ele também aguardava uma alegria superior: a vinda do salvador do
mundo, que daria condições a ele de ser redimido de seus pecados.

Foi essa alegria que Maria experimentou, pois Deus não deixou seu povo desamparado
(Lc 1.54,55). Foi esse também o motivo de alegria dos anjos e dos pastores que viram o
menino Jesus recém-nascido (Lc 2.8-20), foi essa também a alegria de Simeão ao tomar
o Salvador em seus braços (Lc 2.25-32).

Alegre-se meu irmão, Jesus nasceu. Você pode estar neste momento angustiado,
preocupado com inúmeras dificuldades que vêm sobre sua vida. Saiba que Deus é
poderoso para reverter sua situação. Entretanto, ainda que algo que espere nele possa
não acontecer, esteja ciente de que a sua grande promessa já se cumpriu, pois seu filho
nasceu, sofreu e foi morto para lhe dar a vida eterna.

II. A expulsão de Agar e Ismael (v.8-21)

Versículos 8-9

Após Isaque ser desmamado, seu pai deu um grande banquete, alegrando-se com o filho
que tinha nascidos. Entretanto, nem todos estavam satisfeitos, pois Ismael estava
zombando de Isaque. Não sabemos ao certo o que aconteceu, mas o fato é que Ismael
não estava feliz com o nascimento daquela criança, e por isso de maneira maldosa
escarnecia de seu irmão.

Esta passagem não é simples de explicar, entretanto, à luz de Gálatas 4.29, Ismael de
certo modo estava perseguindo a Isaque. Se olharmos para esse fato por uma
perspectiva meramente familiar, isto não parece ser algo grave, mas por uma
perspectiva teológica podemos crer que há algo mais sério em jogo, isto é, novamente a
semente de Satanás se levanta para perseguir a Semente da mulher, de onde viria o
Salvador. Zombar de Isaque naquelas circunstâncias, implica em uma zombaria contra o
próprio Deus. Deus tinha um plano na vida de Isaque, e movido por um possível
sentimento de ciúme, Ismael zombou de seu irmão, mas consequentemente zombou do
projeto de Deus.

Versículos 10-13

Diante dessa situação de zombaria, Sara procurou Abraão e diz a este que rejeite seu
filho Ismael, pois Isaque haveria de ser o único herdeiro do que Abraão possuía. Mas
isto foi penoso a Abraão, que não queria abandonar seu filho, e então Deus interveio e
disse a Abraão que não tivesse receio de despedir Ismael juntamente com sua mãe, pois
Isaque haveria de ser aquele que levaria seu nome, transformando-se em uma grande
nação. Quanto ao seu filho Ismael, ele não precisaria se preocupar, pois o Senhor
garantiu que o preservaria, tornando-o uma grande nação pelo fato de ser um filho de
Abraão.

Versículos 14-21

Provavelmente o Senhor apareceu a Abraão durante à noite, após Sara conversar com
ele, e então ele acordou na manhã seguinte despediu a criança com sua mãe,
entregando-lhes comida e água.

Após vagar pelo deserto por um considerável período, a água de seus odres acabaram, e
Agar ao ver que a criança desfaleceria por causa da sede, receosa de vê-lo morrendo,
deixou-o sentado sob um arbusto e se afastou dele para não vê-lo morrer.

Sem condições de fazer nada, Agar então chora, olhando à distância para seu filho. Pelo
que parece, Ismael também estava em prantos diante daquela terrível situação, mas
Deus ouviu a ele e então o Anjo de Deus falou com Hagar e disse que ela não precisava
temer, pois ele não morreria e se tornaria um grande povo.

Então Deus abriu os olhos de Agar e ela enxergou um poço de água, onde pôde tirar
água dele para saciar a sede de seu filho. Depois disso, eles fizeram morada naquela
região desértica, e Ismael tornou-se um flecheiro, e também casou-se com uma mulher
egípicia.

Mas afinal, o que podemos aprender com este episódio?


Primeiro, que mesmo que Ismael não fosse o herdeiro da promessa e que não tivesse
genuína fé em Deus, desfrutou do cuidado divino. O nosso Deus é assim, faz cair
chuvas sobre justos e injustos, e por esse motivo, muitas pessoas que não temem a Deus
desfrutam das delícias deste mundo. Isso é maravilhoso, mas devemos saber que não é
suficiente, pois o que temos aqui não é eterno.

Segundo, Por fim, a vontade de Deus prevaleceu. Abraão e Sara tentaram dar um jeito
de ter um filho e fazer a promessa de Deus se cumprir por conta própria, mas no fim as
coisas aconteceram do modo que Deus quis. A mesma coisa acontece com nossa
salvação, pois não depende de nós, mas de Deus usar a sua misericórdia para conosco
(cf. Rm 9.16).

Conforme o apóstolo Paulo em Gálatas 4.21-31, a história de Agar e Sara servem como
uma alegoria, onde a geração de uma delas representa os esforços humanos, enquanto a
descendência da outra representava a ação graciosa de Deus.

Ismael foi concebido porque queriam dar um jeito de fazer a promessa de Deus se
cumprir, para isso fizeram esforços, confiados em suas próprias artimanhas para levar a
promessa à sua concretização. Por semelhante modo, é assim que muitos querem entrar
no reino dos céus, pelas suas próprias obras. Mas a Escritura é enfática quando diz que
obras não salvam (Rm 3.28; 4.1-5; Ef 2.8,9).

Deus insistiu no fato de que o filho da promessa nasceria do ventre de Sara. O Senhor
demorou muito até agraciar Sara com o nascimento de um filho para que Abraão e Sara
aprendessem a essência da verdadeira fé. Isaque nasceu de modo sobrenatural e em
circunstâncias adversas para provar que as coisas acontecem do jeito que Deus quer. Por
semelhante modo, nossa salvação acontece da mesma maneira, não adianta dar nosso
jeitinho, deixar de fazer isso ou aquilo, ir para os cultos toda semana, isso por si não
salva. Só há uma forma de obtermos salvação: pela fé em Cristo Jesus, o Filho do Deus
vivo.

Paulo escreveu a epístola aos Gálatas para combater o falso ensino de que a obediência
à Lei de Deus conduz à salvação Paulo deixa claro que quem quer se salvar por seus
próprios esforços está debaixo de maldição (Gl 3.13), pois nunca será capaz de cumpri-
la perfeitamente. A transformação do nosso caráter deve sim acontecer, mas não como
um meio de salvação, mas como resultado da mesma.

Você deseja ter a alegria da salvação em sua vida? reconheça que você é um miserável
espiritual (cf. Mt 5.3), que em você não há nada que se aproveite, e clame pela
misericórdia de Deus sobre sua vida. Livre da sua autojustificação, livre de seus
argumentos em favor de si mesmo e clame pela ação transformadora de Deus em sua
vida. Se você já é um crente em Cristo Jesus, nunca se esqueça que você é o que é hoje,
somente porque Deus teve misericórdia de você. Deixo aqui as palavras do apóstolo
João:
Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a
saber, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da
carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. (João 1.12,13)
21. Gênesis 22.1-24: Abraão é Provado por Deus

18 de Agosto de 2019

O sentimento de incapacidade não é nada agradável. A ideia de que dependemos de


alguém para que tenhamos de fazer algo costuma nos incomodar, pois, como muitos
dizem: “A melhor coisa do mundo é não ter que ficar dependendo de ninguém”. Mas
quando se trata da vida cristã, é preciso que sejamos totalmente dependentes. A Sagrada
Escritura é enfática ao afirmar que “o salário do pecado é a morte”, e para que não
morramos, alguém deveria morrer e nosso lugar. A única forma de sermos livres da
condenação do inferno é crendo na morte substitutiva que Deus nos proporcionou,
vivendo assim na dependência da obra realizada pelo nosso Salvador.

Aqui no capítulo 22 de Gênesis nós temos uma bela ilustração dessa verdade. Deus
exigiu que o filho de Abraão fosse sacrificado, mas para que isso não acontecesse, Deus
providenciou um sacrifício substitutivo. Aprenderemos aqui que Deus providencia um
sacrifício para que possamos viver.

I. Deus Prova Abraão (v.1-2)

“Depois dessas coisas”. Um tempo razoável se passou desde os acontecimentos


relatados no capítulo 21, no qual Isaque havia sido desmamado há pouco tempo. Agora
ele já estava crescido, embora não saibamos a idade, sabemos que ele já era capaz de
carregar lenha em seus ombros por uma distância considerável.

“pôs Deus Abraão à prova”. Logo de início o texto esclarece que o propósito de Deus
era provar Abraão, o que significa que em momento algum Deus queria que um
sacrifício humano fosse oferecido, mas que tão somente pretendia provar a fé de
Abraão, pedindo-lhe algo extremamente difícil de consentir. Embora não fosse o intento
de Deus, até o momento do sacrifício, Abraão não fazia ideia de que Deus o pouparia de
matar seu próprio filho.

As provações fazem parte do caminhar com Deus. Deus provou a Abraão, Deus provou
ao povo de Israel, conforme lemos em Deuteronômio 8.2: “Recordar-te-ás de todo o
caminho pelo qual o Senhor, teu Deus, te guiou no deserto estes quarenta anos, para te
humilhar, para te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou
não os seus mandamentos”. As provações mostram onde está o nosso coração, pois é
em meio às dificuldades que se mostra se estamos com Deus por causa dos benefícios
concedidos ou por causa de quem Ele é de fato. Temos aqui Abraão diante de uma
prova dura, pois não consistia apenas permitir a morte de seu filho, mas em ele tirar-lhe
a vida com as próprias mãos.

O Senhor chamou a Abraão e ele prontamente respondeu: “Eis-me aqui”. O texto é


enfático: “Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas”. Abraão deveria
sacrificar o único filho que tinha em sua casa, aquele que seria seu único herdeiro e
objeto de seu amor paternal. Abraão deveria seguir à terra de Moriá e no lugar que Deus
determinasse, deveria tirar a vida de Isaque como um ato de obediência.

“oferece-o ali em holocausto”. Além de matar seu filho, Abraão deveria oferecê-lo em
holocausto. Isto significa que Abraão deveria queimá-lo, sem deixar qualquer vestígio
de seu corpo. Entretanto, conforme João Calvino destacou, há algo mais sério em jogo:

Mas todas essas coisas, se as compararmos com o conflito espiritual de consciência


que ele suportou, surgem como mera representação ou sombras dos conflitos. Pois a
grande fonte de pesar para ele não era sua privação, não que ele tenha sido ordenado
a matar seu único herdeiro... mas que, na pessoa desse filho, toda a salvação do
mundo parecia extinta e perecer.27

Muita coisa aqui estava em jogo, além da vida do seu amado filho, juntamente com
aquela fumaça, evaporaria também a promessa de que Abraão seria uma grande nação e
que sua descendência seria uma bênção para toda a terra, o que significa que a redenção
aguardada desde a queda também estaria comprometida.

Não queremos aqui dizer que Abraão entrou em crise, pensando sobre todas essas
questões, mas cremos que no mínimo ele foi tentado a pensar assim, que todas essas
coisas estavam em risco, mas como veremos adiante, Abraão obedeceu a Deus movido
pela fé de que haveria uma solução.

II. O percurso até o local de sacrifício (v.3-8)

Após a ordem de Deus, Abraão se levantou de madrugada a fim de obedecer a ordem de


Deus. O texto dá detalhes de cada ato de Abraão, o que aumenta a tensão da narrativa.
Abraão preparou o jumento, chamou a dois servos e a seu filho Isaque. Depois, rachou
lenha para acender a fogueira que queimaria seu filho e seguiu rumo a terra de Moriá.

A jornada durou cerca de 3 dias (cf. v.4), e esse foi um período não apenas de desgaste
físico, mas também de reflexão acerca do que haveria de fazer, conforme expressa
Calvino:

... isso tendia a fazê-lo perseverar, de modo que ele não deveria obedecer a Deus por
um impulso meramente súbito. Pois, como ele não recua em sua jornada, nem se
revolve em conselhos conflitantes; portanto, parece que seu amor a Deus foi
confirmado por tal constância.28

Abraão teve tempo suficiente para pensar e consequentemente desistir, mas se recusou a
fazê-lo, dando prova clara de que sua fé estava firmada em Deus.

Conforme a ordenança do Senhor, ele deveria subir a um dos montes da região de


Moriá, e ao avistar ainda de longe o local, ordenou que seus servos ficassem esperando,
e deixando o jumento com eles, subiu ao monte dizendo aos seus servos que iriam
adorar a Deus em um dos montes. Assim, colocou a lenha sobre os ombros de seu filho

27
Calvino, Genesis, I, 560.
28
Ibid, 566.
enquanto ele levava o fogo para acender a fogueira, bem como o cutelo para fazer o
sacrifício. Os detalhes aqui nos fazem pensar no quão dura seria para Abraão aquela
subida ao monte, enquanto carrega em suas mãos os instrumentos que utilizaria para
sacrificar seu filho. Enquanto caminhavam rumo ao monte, Isaque disse ao seu pai que
faltava algo, pois eles tinham a lenha e tinham o fogo, mas afinal, onde estaria o animal
que haveria de ser sacrificado? (v.7). “A pergunta atravessa o coração de Abraão como
uma faca”.29 Assim, Abraão respondeu a seu filho: “Deus proverá para si...” (v.8).
Abraão confiava que Deus traria uma solução para toda aquela situação.

O versículo 9 dá detalhes minuciosos do que ocorreu a seguir: “Chegaram ao lugar que


Deus lhe havia designado; ali edificou Abraão um altar, sobre ele dispôs a lenha,
amarrou Isaque, seu filho, e o deitou no altar, em cima da lenha”. A esta altura, Isaque
entendeu que o sacrifício seria ele, mas obedientemente permitiu ser amarrado e
colocado sobre a lenha. Chegamos ao clímax no versículo 10, quando Abraão toma o
cutelo e dirige-se ao seu filho para cortar sua garganta.

O que passava na mente de Abraão nesse momento? Não precisamos gastar tempo
imaginando, pois a própria Escritura nos esclarece em Hebreus 11.19 (ler v.17-19), que
ele de fato pretendia matar seu filho, mas que também cria que Deus tinha o poder para
ressuscitar seu filho.

III. Abraão é interrompido (v.11-12)

Quando estava a ponto de matar Isaque, o Anjo do Senhor bradou: “Abraão! Abraão!”.
Podemos imaginar que esta expressou com urgência, a fim de que Abraão não seguisse
adiante, e então Abraão responde: “Eis-me aqui”. Então o anjo prossegue ordenando
que ele não sacrifique seu filho, pois aquilo que havia acontecido era prova suficiente de
que ele tinha o temor de Deus em seu coração, pois ele não negou seu único filho
quando o Senhor lhe pediu.

É comum vermos em filmes pessoas seguindo firmes, mesmo quando são ameaçadas,
mas quando têm sua família posta em risco acabam fraquejando, por amá-las mais do
que a si mesmo. Embora esteja falando de ficção, isso não foge da realidade. Um pai
pode até passar fome, mas não suporta a ideia de que seu filho esteja sofrendo.
Porventura você nunca desejou estar doente no lugar do seu filho? Há muitas pessoas
fortes neste mundo, que não fraquejam em suas convicções, mas seu amor por seus
entes queridos amor do que seu amor próprio.

Abraão foi duramente provado, seu único descendente estava em risco, o próprio texto
repete: “teu único filho” (v.12). Era uma decisão difícil, mas havia um amor maior no
coração de Abraão, o amor a Deus. Quantas vezes nós trocamos nossa fidelidade a Deus
por coisas bem menores? Quantas vezes não negamos nossa fé quando nos calamos
diante das pessoas porque elas zombam do que cremos? Não estou aqui incentivando-o
a discutir, lançando pérolas aos porcos, mas no mínimo espera-se que você não sinta
vergonha de sua fé somente porque outros a desprezam.
29
Greidanus, Pregando Cristo a Partir de Gênesis, 239.
Pode ser difícil imaginarmos um contexto de perseguição em nossa nação nos tempos
em que vivemos, mas precisamos pensar seriamente sobre nossas vidas. Você
porventura está disposto a perder tudo por amor a Cristo? Há alguma coisa que você
seria incapaz de fazer caso lhe fosse exigido? Existe um limite para sua fidelidade a
Deus? Caso exista, devemos clamar a misericórdia de Deus, pois é nosso dever como
Cristãos amá-lo acima de todas as coisas.

Creio que esta seja uma aplicação válida quando olhamos para esta passagem, mas sei
também que ela não seja o ponto principal da mesma, caso contrário, faríamos de
Abraão o centro da narrativa, quando na verdade não é. Por isso, devemos prosseguir.

IV. A provisão de Deus (v.13-14)

Após os acontecimentos descritos acima, Abraão viu que atrás de si havia um carneiro
preso pelos chifres, assim Abraão tomou-o e o sacrificou e ofereceu a Deus em
holocausto, em lugar de seu filho. Esta última parte do versículo é de grande
importância, o texto nos diz que o cordeiro morreu no lugar de Isaque. Ao invés de
Isaque morrer, Deus proporcionou a Abraão um sacrifício substitutivo.

Tendo feito o sacrifício, Abraão deu um nome àquele lugar: Jehovah Jireh – O Senhor
Proverá. Porque Deus proveu um animal para morrer em lugar de Isaque, o menino
então continuou vivo, e por isso também o povo de Israel, destinatário deste livro,
também Pôde vir à existência.

Esta ideia do sacrifício substitutivo percorre todo o Antigo Testamento. Israel, antes de
ser liberto da escravidão do Egito, testemunharam da destruição da décima praga que
Deus enviou, por meio da qual todos os primogênitos de todas as casas morreram. As
únicas casas que ficaram livres desse juízo, foram as casas daqueles que mataram um
animal e passaram o sangue nas ombreiras de suas portas. Figurativamente, um animal
morreu para que seus filhos não morressem.

Após a construção do tabernáculo, dois cordeiros eram sacrificados diariamente, um


pela manhã e outro no crepúsculo da tarde. Sendo o povo de Israel pecador, somente por
causa da morte desses animais que eles poderiam se manter vivos na presença de um
Deus santo.

Por fim, Deus fez o que impediu Abraão de fazer: nos deu seu único filho para que
tenhamos a vida eterna.

João 3.16: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho
unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.

Por que Deus precisou sacrificar seu próprio filho? Porque o salário do pecado é a
morte. Considerando que Deus seja justo, é impossível imaginarmos que ele não faria
justiça, punindo nossos erros. A única forma de sermos livres da condenação é se essa
justiça for satisfeita por meio do derramamento de sua ira sobre outra pessoa, que nesse
caso é Jesus.
Como bem expressou João Batista: Cristo é “o cordeiro de Deus, que tira o pecado do
mundo” (Jo 1.29). Foi esse o tema que resolvemos desenvolver desde o início: Deus
providencia um sacrifício para que possamos viver. Somente por causa do sacrifício
que Deus nos providenciou é que podemos ter confiança de que não estamos
condenados ao inferno.

V. A promessa é reafirmada (v.15-19)

O Anjo do Senhor falou novamente cm Abraão e refaz a promessa de multiplicar a


descendência de Abraão de uma forma mais intensa ainda. Essa descendência seria não
somente como as estrelas dos céus, como havia prometido, mas também que seriam
como a areia na praia do mar.

Essa descendência possuiria a terra prometa, que até então estava habitada por povos
pagãos e nessa descendência seriam benditas todas as nações da terra. Em última
instância, a bênção viria por Jesus, o filho de Abraão (Mt 1.1), pois todos aqueles que
nele viessem a se refugiar encontrariam redenção.

VI. Descendentes de Naor (v.20-24)

Após esse acontecimentos chegaram a Abraão notícias da família do irmão de Abraão,


que estava morando em sua terra natal. Este relato mostra que ainda havia contato de
Abraão com seus parentes, e das pessoas aqui relatas, Rebeca (v.23) será um
personagem importante neste livro, conforme veremos posteriormente.
22. Gênesis 23.1-20: A morte de Sara

25 de Agosto de 2019

O apego às coisas deste mundo tende a cegar nossos olhos e, por isso, muitas vezes nos
esquecemos que este não é nosso lar definitivo. A vida neste mundo é marcada por
dores, lutas, perdas e sofrimentos, mas ainda assim insistimos em nos apegar a ele.
Entretanto, precisamos viver neste mundo como peregrinos que caminham rumo à nossa
eterna habitação. As dores que aqui padecemos podem ser aliviadas por Deus nesta
vida, mas talvez não serão. Contudo, uma certeza podemos ter: Deus é fiel para
cumprir sua promessa de dar um lar definitivo ao seu povo.

Juntamente com a promessa de receber um filho, Abraão aguardava também a posse da


terra prometida. A esta altura do livro de Gênesis Abraão já tinha seu filho e já morava
na terra prometida, entretanto, não era proprietário, legalmente falando, de um palmo
sequer da mesma. Deus prometeu uma herança a Abraão e ele certamente lhe daria.
Neste capítulo essa promessa se cumpre parcialmente, como prova da fidelidade de
Deus. Como já dissemos: Deus é fiel para cumprir sua promessa de dar um lar
definitivo ao seu povo. Abraão um dia desfrutará disso plenamente, e nós juntamente
com ele.

I. A morte de Sara (v.1-2)

Muitas vezes em nossos sermões anteriores mostramos que Sara foi uma mulher pecada,
como nós também o somos. Contudo, a Escritura é clara ao nos mostrar que ela de fato
era uma mulher piedosa, apesar de ter falhado algumas vezes. Este é o único relato no
qual a idade da morte de uma mulher é apresentado, mostrando que ela de fato é um
personagem importante nas Escrituras. Tendo Sara morrido, Abraão então lamentou a
morte de sua esposa, que tinha lhe acompanhado por toda a sua dura jornada de vida.

Nossa convicção de fé e esperança na ressurreição dos mortos daqueles que amam a


Deus não nos impede de prantear as perdas que temos. Crente também chora, embora
não viva como aqueles que não tem esperança.

II. A procura por uma sepultura para Sara (v.3-16)

Versículo 3

O início do versículo 3 nos dá a entender que Abraão estava pranteando junto ao corpo
de sua esposa, e então ele levantou-se e foi ao encontro dos filhos de Hete com o intuito
de obter um lugar para sepultar o corpo de Sara. É importante observar que o capítulo
fala de maneira bem sucinta acerca da morte de Sara e utiliza uma grande quantidade de
versículos para falar da procura por uma sepultura. Isto se dá porque a morte de Sara
não é o tema central deste capítulo, conforme queremos deixar claro de acordo que a
argumentação prosseguir.
Versículo 4

Estando diante dos filhos de Hete, Abraão lhes disse: Sou estrangeiro e morador entre
vós. Abraão morava há muitos anos naquela região, e obteve o favor da liderança local e
tinha o privilégio de morar entre aqueles povos e ser respeitado. Entretanto, embora ele
tivesse rebanhos e servos, bem como um lugar para morar, nenhum centímetro quadrado
de terra pertencia de fato a Abraão. Por ser Abraão um estrangeiro, ele não podia ser o
proprietário legal de nenhuma parte daquela terra.

Conforme a cultura daqueles povos, a terra era um bem precioso e não podia ser
vendida ou entregue permanentemente a outro grupo familiar da região, tampouco a um
forasteiro. Mesmo assim, Abraão lhes pede não apenas uma sepultura, mas a posse de
sepultura. Abraão queria ser reconhecido como o verdadeiro proprietário da sepultura
na qual depositaria o corpo de sua falecida esposa.

Versículos 5 e 6

Os Hititas reconheceram que Abraão era um príncipe de Deus. Eles sabiam muito bem
que Deus era com ele, assim como Abimeleque um dia havia reconhecido (21.22) e que
por isso ele podia sepultar sua esposa em qualquer sepultura, pois ninguém lhe negaria
esse favor.

Versículos 7-9

Assim, Abraão se levantou e expressou o desejo de sepultar sua esposa na caverna de


Macpela, que ficava no extremo do campo de Efrom, filho de Zoar. Como os hititas
haviam sido generosos com Abraão, ele pede que então eles intercedessem junto a
Efrom, para que esse cedesse a terra a Abraão.

Entretanto, Abraão não buscava um favor, ele foi claro ao afirmar que queria comprar
essa terra pelo devido preço, e que essa sepultura seria a sua posse. Observe que Abraão
é insistente ao dizer que queria ter a posse do sepulcro, e não somente queria ele
emprestado e para isso estava disposto a pagar o devido preço por ela.

Por que tanta insistência? Como já dissemos, Abraão não era proprietário de nenhum
pedaço da terra na qual vivia, e após a sua morte, nada impediria que alguém tentasse
desapropriá-lo. Por semelhante modo, se ele aceitasse que Sara fosse sepultada numa
sepultura pertencente a outra pessoa, seus restos mortais poderia futuramente ser
retirados de lá para dar lugar ao corpo do genuíno proprietário.

Versículos 10-11

Efrom, sentando-se entre os filhos de Hete, disse a Abraão na presença de todos os que
estava nas portas da cidade que daria a Abraão, não somente a caverna, mas também o
campo na qual ela está localizada.
Versículos 12-16

Abraão concordou com a oferta, mas que também fazia questão de pagar pelo terreno.
Diante da insistência de Abraão querer se tornar o proprietário legal da caverna, Efrom
então atribui ao campo um valor exorbitante: quatrocentos ciclos de prata (mais de 45
quilos).

Possivelmente o valor deve ter impressionado Abraão, pois o terreno valia muito menos
do que isso, entretanto ele titubeou e então pesou a prata e pagou a Efrom.

III. Tomando posse da terra (v.17-20)

Agora Abraão era o proprietário legal daquele terreno, pois o negócio foi firmado na
presença dos habitante daquela terra e todos sabiam que Abraão havia comprando-o das
mãos de Efrom. O Negócio foi firmado próximo às portas da cidade, local onde estavam
as pessoas mais influentes da região e onde se tomavam as decisões mais importantes. O
que acontecia ali, era testemunhado por todos os homens mais importantes daquele
lugar. Ninguém poderia acusar Abraão posteriormente de estar se apropriando
indevidamente daquele lugar.

O versículo 20 termina de modo enfático: E assim, pelos filhos de Hete, se confirmou a


Abraão o direito do campo e da caverna que nele estava, em posse de sepultura.

Considerações Finais

Este é um daqueles trechos bíblicos que tendem a deixar muitos leitores se perguntando
sobre o que Deus pretende ensinar por meio deles. E para que entendamos o seu
propósito, devemos nos perguntar: Por que tornar-se o proprietário daquele sepulcro era
tão importante para Abraão. E a resposta é: Porque ele sabia que toda aquela região era
importante, pois a mesma tinha sido prometida por Deus a ele.

Abraão nesse momento não enxergava as coisas apenas como um marido enlutado
buscando uma boa sepultura para sua amada, mas como os olhos da fé ele tinha a
esperança de receber toda aquela terra que Deus lhe havia prometido. Ao comprar
aquele pedaço de terra, Abraão não tinha apenas um sepulcro, mas também era
oficialmente proprietário de um pedacinho da terra prometida.

Nesse lugar Abraão sepultou Sara, depois ele mesmo foi sepultado lá (25.9). A lista não
termina aqui. Nesse mesmo lugar seu filho Isaque, sua nora Rebeca, seu neto Jacó e sua
esposa Lia.

Jacó morreu no Egito, muito longe da terra prometida, mas antes de sua morte deu
ordem a seus filhos dizendo que queria ser sepultado juntamente com seus pais (Gn
49.29-32). José foi sepultado no Egito, mas falou de modo profético que um dia o povo
de Deus que estava no Egito seria levado novamente para a terra prometida, e quando
isso acontecesse, seus ossos deveriam ser levados para lá.
Esse sepulcro foi o primeiro pedaço da terra prometida que foi conquistado. Embora
Abraão tenha comprado com seu próprio dinheiro, ele só tinha condições financeiras
para porque Deus o havia abençoado grandemente. Alguns séculos se passaram até que
toda a terra fosse dada a Israel, sob a liderança de Josué. Posteriormente, devido à
desobediência de Israel, a terra lhes foi tomada e novamente a esperança de retorno
ardia em seus corações.

Abraão buscava uma pátria, ele fez de tudo para comprar aquele pequeno pedaço de
terra, mas ela sabia muito bem que uma herança mais sublime o aguardava. Em Hebreus
11.8-16 lemos que Abraão aguardava uma herança muito melhor do que a terra de
Canaã. Ele estava com seus olhos fitos na Canaã celestial.

Os cristão também vivem aguardando uma herança, a pátria celestial prometida por
Deus. Este mundo caído não é nosso lar. O próprio Cristo disse isso:

João 15.18-19: Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me
odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia,
não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia.

João 17.14: Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são
do mundo, como também eu não sou.

Aqui, a única coisa que nos aguarda é a violência, roubo e perseguição. Este mundo só
ama aqueles que amam o pecado. É por isso que muitas vezes zombam de nós, e não
poucas vezes nos perseguem. Por esse motivo, devemos viver neste mundo, com os
olhos fitos na eternidade. Este mundo, do jeito em que está, não durará para sempre, e ai
daquele que pensar que será diferente.

Afinal, o que devemos almejar? Devemos aguardar ansiosamente o dia que moraremos
com Deus (ler Ap 21.3,4).

Aplicações:

1. Esse mundo não tem nada de bom para te oferecer . Como disse Paulo: Se a nossa
esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos
os homens (1 Co 15.19). O que lhe aguarda neste mundo é a dor, o sofrimento e a
perda. Deus tem algo muito melhor para você.
2. Arrependa-se de seus pecados e viva eternamente (Leia 2 Pedro 3.8-13). Sigamos o
conselho do apóstolo Pedro. Deus virá de repente, e que nós não sejamos pegos
despreparados. Santifiquemos nossas vidas e aguardemos a vinda do seu Filho.
3. Ninguém que não se submeter a Deus herdará a terra prometida (Ler Mateus 5.5).
Somente os mansos herdarão a terra. Somente aqueles que se submetem a Deus e se
deixam governar por ele. Por isso, anuncie o evangelho, pregue o arrependimento aos
seus familiares, caso contrário, não haverá espaço para eles na terra prometida.
23. Gênesis 24.1-25.11: O casamento de Isaque e a Morte de Abraão

08 de Setembro de 2019

Todas as coisas vieram a existir porque Deus as chamou à existência, e essas mesmas
coisas só continuam existindo porque Deus providencialmente as sustenta. De modo
semelhante, o povo de Deus existe porque Deus o chamou à vida e também porque ele o
sustenta e lhe dá condições para que continue crescendo e existindo.

O relato do nascimento de Isaque foi um motivo de alegria para Israel que recebeu essa
mensagem, pois viram que milagrosamente Deus proporcionou conduções para que seu
povo viesse a existir. Por semelhante modo, vemos o relato do casamento de Isaque
como um testemunho da providência de Deus, que não apenas Deus um filho a Abraão,
mas proporcionou meio para que a semente santa continuasse se espalhando. Neste
capítulo podemos aprender que Deus é fiel ao proporcionar condições para que a
semente da mulher tenha continuidade.

I. Abraão manda buscar uma esposa para Isaque (v.1-9)

1. O capítulo começa afirmando que Abraão já estava muito idoso e que Deus o havia
abençoado em tudo. Entretanto, sua esposa estava morta e seu filho, que agora tinha 40
anos, ainda não havia se casado. Tal condição constituía-se um problema no sentido de
que não havia uma mulher que poderia dar à luz filhos a Isaque de modo que a
promessa de Deus se cumprisse, fazendo com que a descendência de Abraão fosse
numerosa como a areia na praia.

2-4. Assim, Abraão chamou o seu servo mais antigo, no qual depositava maior
confiança e o fez jurar pelo Senhor que não tomaria esposa para Isaque nenhuma filha
dos cananeus que habitavam na terra juntamente com Ele. Abraão diz ao servo que ele
deveria ir até à terra de origem de Abraão e de lá traria uma esposa para seu filho.

Os cananeus eram um povo ímpio, por isso Abraão não queria que seu filho se casasse
com uma mulher daquela terra. É bem verdade que a família de Abraão que habitava em
sua terra de origem também não eram pessoas que conheciam o Senhor
verdadeiramente. No entanto, creio que tal decisão fosse necessária porque Deus
haveria de desarraigar os habitantes daquela terra e dá-la à descendência de Isaque e,
muito provavelmente, uma esposa cananeia não se agradaria de tal expectativa,
considerando que isso incluía a desapropriação do seu próprio povo.

Considerando que este ainda é um estágio primitivo do desenvolvimento da ideia acerca


do casamento misto, devemos olhar para mais adiante no progresso da revelação para
compreendermos o quanto a mistura com outros povos poderia ser danosa ao povo da
fé.

O povo de Israel foi orientado a não contrair matrimônio com os povos das terras que
eles haveriam de possuir, pois isso traria consequências ruins, devido à influência
religiosa que tais uniões haveria de trazer (ver Dt 7.1-4). Casar-se com mulheres
estrangeiras traria para dentro dos lares pessoas com crenças religiosas erradas,
marcadas pela servidão a Deuses falsos.

Tal distinção também é apresentada pelo Apóstolo Paulo em 2 Coríntios 6.14-18. O


povo de Deus não deve associar-se intimamente com aqueles que não professam a
mesma fé que nós isto é jugo desigual. Se a vida conjugal entre dois cristãos já não é
fácil, quanto mais a vinda entre um crente e um descrente. Na pior das hipóteses a parte
incrédula pode ser um tropeço, questionando nossa fé e até mesmo tentando trazer
influências ruins à vida daqueles que temem a Deus. Embora haja pessoas descrentes
que não sejam inimigos declarados de nossa fé, no mínimo, será uma pessoa que não
contribuirá para nosso amadurecimento espiritual, por não ter a mesma cosmovisão que
a nossa.

5-6. Ouvindo tais palavras, o servo então questionou Abraão acerca da possibilidade de
que a mulher que ele encontrasse para Isaque não quisesse se ausentar de sua terra natal.
Caso isso acontecesse, o que ele deveria fazer? Deveria levar Isaque até sua noiva?
Abraão enfaticamente rejeitou essa possibilidade. Em hipótese alguma Isaque deveria
ser retirado da terra prometida. Aquela era a terra que Deus tinha escolhido para que
eles habitassem e retornar para sua antiga terra seria um retrocesso e também poderia
comprometer a promessa de Deus.

7. Confiado no fato de que Deus havia prometido dar a terra de Canaã à sua
descendência, Abraão afirma que Deus providenciaria um meio, de modo que tudo
ocorresse conforme ele desejava. Vemos aqui que Abraão não havia apenas
envelhecido, mas também possuía uma fé mais madura, diferente da que vimos em
capítulos anteriores. Embora Deus não houvesse revelado a ele nenhum detalhe acerca
do casamento de seu filho, ele sabia que isto estava de acordo com os planos de Deus e,
por isso, expressou sua confiança na providência de Deus.

8-9. Entretanto, para tranquilizar seu servo, Abraão diz a ele que se a moça encontrada
se recusasse a segui-lo, ele estaria desobrigado do juramento. Assim, o servo então
colocou a mão sob a coxa de Abraão e jurou fazer conforme o ordenado.

II. A viagem do servo (v.10-14)

10. Tomou o servo de Abraão dez camelos e os carregou com provisões para a viagem e
com presentes. Partiu então o servo de Abraão rumo à região na qual estava a parentela
de seu senhor. Estamos falando de uma viagem de aproximadamente 700 km que durou
cerca de um mês para ser concluída. Toda a longa jornada é descrita em meio versículo,
pois esta não é o foco da passagem.

11. Tendo chegado ao destino, o servo de Abraão para junto a um poço de água, no final
da tarde, horário em que as moças saíam para tirar água do poço para levarem para suas
casas. As moças costumeiramente iam em grupos a fim de evitar o risco de sofrer algum
abuso.
12. O servo de Abraão orou fervorosamente ao Senhor e suplica o auxílio do Senhor.
Toda aquela viagem ocorreu tendo como suporte a confiança na providência de Deus,
que proporcionaria um modo de fazer com que a viagem fosse um sucesso. Assim, o
servo suplica a ajuda de Deus, referindo-se a ele como sendo o Deus do seu senhor
Abraão. Então o servo pede que Deus use de bondade para com Abraão, que havia lhe
enviado confiante de que o Senhor o levaria a bom termo.

13-14. Sabendo ele que era o momento das moções saírem para retirar água, ele pede
um sinal ao Senhor, a saber: que a moça designada por Deus para o filho de Abraão
atendesse ao seu pedido por um pouco de água para ele e também que se oferecesse para
matar a sede de seus camelos.

Esse era um teste e tanto, pois um camelo que havia ficado alguns dias viajando pelo
deserto, pode beber aproximadamente 95 litros de água. Considerando que os cântaros
tinham a capacidade para carregar 12 litros de água, daí inferimos que essa moça
deveria fazer um grande esforço de retirar no mínimo 80 cântaros de água.

Esta então não seria apensa uma forma de saber qual era o desígnio de Deus, mas
também uma prova de disposição, bondade hospitalidade.

III. Deus responde ao pedido do Servo (v.15-32)

15-16. Deus não apenas respondeu o servo, mas já tinha preparado tudo antes mesmo
que ele pedisse. Pois ele antes mesmo de terminar de orar Rebeca já se dirigia até o
poço. Rebeca, que era sobrinha-neta de Abraão vinha com um cântaro no ombro e o
texto nos estende dando detalhes acerca de sua beleza e que se tratava de uma moça
virgem, o que traz a esperança a nós leitores de que esta pode ser a moça designada por
Deus. Mas até então o servo não sabia disso, então, quando ela retirou a água ele
aproximou-se dela:

17-20. Ao encontrar-se com Rebeca, o serve lhe pediu então que ela lhe dessa água.
Observe que ele pediu água apenas para si mesmo, mas ela foi além e se ofereceu para
dar de beber a todos os seus camelos. É interessante notar que Rebeca demonstrou não
apenas a sua hospitalidade, como também a mesma é acentuada quando o texto nos diz
que ela fez isso depressa, a fim de matar a sede de todos os animais. Este relato nos
lembra de como Abraão se apressou para encontrar-se com o Anjo do Senhor que veio
ao seu encontro com dois anjos e sua pressa em servir àqueles homens que estavam de
viagem (18.2,6).

21-23. Diante de tudo isso, o servo certamente ficou esperançoso de que Deus ouvira
sua prece. Assim, a presenteia como joias valiosas e logo perguntou acerca de sua
parentela: “De quem és filha? Peço-te que que me digas. Haverá em casa de teu pai
lugar em que eu fique, e a comitiva?”.

24-25. A resposta de Rebeca confirmou que ela era parente de Abraão. E a moça
demonstra sua hospitalidade dizendo a ele que haveria lugar para ele e seus animais
antes mesmo de saber que aquele homem tinha alguma ligação com seu parente Abraão.
26-27. Após confirmar-se tudo, O servo de Abraão louvou ao Senhor por sua bondade.
Esta palavra é importante neste capítulo. Somente pela fidelidade e bondade de Deus é
que todas as coisas estavam se encaminhando de modo perfeito. Como bem observou
Mathews: “Ele não esquece o Senhor no meio de sua excitação, reconhecendo que
somente Deus o trouxe à própria pessoa necessária”30.

28-32. Rebeca ouvindo a oração do servo, sabendo que se tratava do servo de um


familiar seu, deixou o servo sozinho e correu até sua casa e contou a história aos seus
familiares. Tendo visto o quão valiosos eram os presentes que Rebeca havia ganhado,
movido por ganância, o seu irmão Labão correu ao encontro do servo de Abraão e lhe
convida a entrar em casa, pois tudo já estava preparado para ele e lhe servem de maneira
graciosa.

IV. A proposta de Casamento (v.33-61)

v.33-38. Antes de desfrutar do alimento que lhe ofereceram, o servo de Abraão afirma
que antes de comer precisa deixar claro qual era o propósito de sua viagem. Ele começa
falando sobre a situação de Abraão que fora grandemente abençoado por Deus e que
teve um filho em sua velhice, o qual veio a se tornar seu único herdeiro. Contou também
que Abraão não queria que seu filho se casasse com nenhuma mulher da terra de Canaã
e por isso o enviou à terra daqueles que o ouviam agora.

v.39-48. Neste trecho o servo conta toda a história, que vimos até agora, entretanto ele
começa estrategicamente da riqueza de Abraão e do nascimento do filho de Abraão. Em
seguida foi narrando desde o pedido de Abraão até seu encontro com Rebeca, a fim de
deixar claro a todos o quanto Deus foi gracioso tanto com Abraão proporcionando todas
as coisas para que ele obtivesse êxito.

49. Tendo dito tudo o que pretendia, mostrando o quão bom Deus tinha sido com
Abraão, agora ele pergunta se os familiares de Rebeca também usariam de bondade para
com seu Senhor, permitindo que a moça se casasse com seu filho. Caso eles recusassem,
que o dissessem logo para que ele se retirasse da presença deles.

50-51. Assim, lhe foi dito que diante tal testemunho ele não poderia dizer nada em
contrário, pois reconheceram que esta era uma obra do Senhor e assim disseram que ele
levasse então Rebeca e a desse como esposa a Isaque.

52-53. Satisfeito com o consentimento dos familiares de Rebeca, ele adorou o Senhor e
em seguida deu ricos presentes a toda a família.

54-56. Assim o servo comeu, bebeu e depois foi dormir. De madrugada ele levantou-se
para retornar com Rebeca, mas Labão instou com ele para que passasse pelo menos
mais dez dias com eles, entretanto o servo pediu que Labão não o detivesse lá, pois
Deus o tinha levado a bom termo até então e desejava voltar logo para a presença do seu
senhor.

30
Kenneth Mathews, Gênesis 11: 27–50: 26, p. 335.
57-59. Resolveram então chamar Rebeca e ouvir sua opinião, mas ela estava disposta a
partir de imediato.

60-61. Assim, os parentes de Rebeca respeitaram sua escolha e a despediram proferindo


uma bênção sobre ela. Uma leitura atenciosa nos mostra algumas semelhantes entre a
história de Rebeca e Abraão. Deus chamou Abraão para sair de sua terra e ele
prontamente concordou, assim como Rebeca disse: Eu irei. Deus anunciou sua bênção
acerca de uma grande descendência sobre Abraão e agora os parentes de Rebeca
declaram algo semelhante acerca dela. Como afirmou Sidney Greidanus: Isaque e
Rebeca partilham agora a mesma bênção31. E então Rebeca partiu ruma à terra de
Canaã.

V. O Casamento de Isaque e Rebeca (v.62-67)

Quando chegaram perto de onde Isaque e Abraão morava, os camelos nos quais estavam
o servo e Rebeca foram avistados por Isaque. O texto nos diz que Rebeca olhou na
direção de Isaque e logo apeou do camelo e perguntou ao servo se aquele que vinha ao
encontro deles porventura seria Isaque. O servo confirmou e então ela se cobriu, para
cumprir o ritual daquela época.

Após relatar a Isaque tudo o que havia acontecido, que por sua vez levou Rebeca à sua
tenda, tomando-a por esposa a partir de então. E agora a tenda de Sara tinha uma mulher
novamente, uma mãe para a nação que Deus faria surgir.

Considerações e Aplicações

Após lermos este extenso relato, somos tentados a romantizar toda a situação. Embora
estejamos falando de uma bela história, temos que nos lembrar que ela foi escrita para
um propósito específico, o qual foi enunciado ainda na introdução do sermão, a saber:
Deus é fiel ao proporcionar condições para que a semente da mulher tenha
continuidade.

Como podemos chegar a essa conclusão? Primeiramente nos lembrando quem eram os
destinatários deste livro de Gênesis. Este livro foi destinado ao povo de Israel que
estava no deserto. Em Gênesis temos diversas histórias que serviram de conforto para o
povo de Israel, nas quais a fidelidade e a bondade de Deus é atestada.

Deus tinha um plano, e sua promessa feita a Abraão não cairia por terra. Abraão teve
Isaque tão somente pela bondade de Deus. Se Isaque não nascesse, o povo da promessa
não viria à existência. Se Isaque não se casasse, como Deus daria continuidade à sua
promessa. Assim, o povo de Israel poderia ver relato após relato a mão providencial de
Deus fazendo com que todas as suas promessas se tornassem realidade. Deus prometeu
fazer de Abraão uma grande nação, e cumpriria sua promessa. Quanto ao povo de Israel
que ouviu essa história muito tempo depois teve motivo para se alegrar no Deus que
nunca os desamparou. Lembramos do que o próprio Moisés, escritor do livro de Gênesis
disse: “Senhor, tu tens sido o nosso refúgio, de geração em geração”.
31
Greidanus, Pregando Cristo a Partir de Gênesis, 278.
Deus nunca desamparou seu povo, sempre o sustentou e deu a ele condições de
continuar existindo. E junto com a preservação do seu povo, veio também a preservação
da sua promessa de que um dia a cabeça da serpente seria esmagada. Neste episódio de
Gênesis 24, Deus usou Rebeca para dar continuidade á sua promessa, no futuro ele
usaria outra virgem, a saber, Maria que daria à luz ao Cristo.

Sempre na história do povo de Deus podemos enxergar sua providência e seus planos
não podem ser frustrados. Deus disse que sustentaria Israel, e sempre sustentou. De
igual modo, Jesus afirmou que edificaria sua igreja e as portas do inferno não
prevaleceriam contra ela.

Não importa o que a igreja de Cristo venha a passar, ela nunca será destruída, pois assim
Deus foi fiel ao proporcionar condições para que a semente da mulher tenha
continuidade. Ele também é fiel para nos preservar.

Mesmo correndo o risco de ser repetitivo, quero reafirmar. Deus é fiel para sustentar o
seu povo. As perseguições podem vir sobre nós, mas não poderão nos separar do amor
de Cristo (Romanos 8.35-39). Nós temos uma aliança com Deus, e ela nunca será nunca
será quebrada (Is 54.10).
24. Gênesis 25.12-34: As descendências de Ismael e de Isaque

15 de Setembro de 2019

Às vezes ficamos impressionados quando determinadas pessoas se convertem a Deus.


Considerando seu passado espúrio, fica difícil acreditar que houve uma real mudança
em alguém que parecia ser sem esperança. Há em nós um horrível senso de justiça
própria que nos faz crer que determinadas pessoas são indignas de salvação. É bem
verdade que a multidão de falsos convertidos de nosso tempo aumenta nossa
desconfiança, mas não podemos desprezar o fato de que Deus realmente transforma
vidas, não importando o quanto elas demonstravam ser obstinadas em seus pecados.

A Escritura é muito honesta ao mostrar os erros dos escolhidos de Deus, a fim de nos
mostrar que neles não havia nenhuma característica que os fizesse atrativos aos olhos de
dele, mas que, se há alguns que são salvos, estes são escolhidos tão somente pela
misericórdia de Deus que os tirou da escravidão do pecado.

Neste sermão veremos dois exemplos de homens escolhidos por Deus, apesar de seu
desvio de caráter. Assim, veremos que A nossa salvação está baseada na graça
soberana de Deus.

I. A descendência de Ismael (25.12-18)

12. Já argumentamos algumas vezes ao longo desta série que o livro de Gênesis possui
10 divisões iniciadas pela expressão hebraica toledot, que comumente é traduzida por:
“São estas as gerações de”. Neste versículo temos a sétima divisão do livro e no
versículo 19 temos a oitava. As três primeiras divisões formam um paralelo com as três
seguintes.

Estas quatro últimas divisões também formam paralelos:

7ª (25.12) ↔ 8ª (25.19)

9ª (36.1) ↔ 10ª (37.1)

As seções 7 e 8 estabelecem um contraste entre as gerações dos irmãos Ismael e Isaque.


Enquanto Isaque foi o escolhido para dar continuidade à semente santa, a descendência
de Ismael veio a tornar-se um inimigo do povo de Deus no futuro. Por semelhante
modo, nas seções 9 e 10 vemos outro contraste entre as gerações de dois irmãos.
Enquanto a geração de Jacó (10ª seção) é a escolhida para ser a semente santa, em
oposição a ela está a descendência de Esaú (9ª seção) que também viria a se tornar
inimiga do povo de Deus no futuro.
13-18. Temos aqui o cumprimento de duas promessas feita a Abraão e Agar. Deus
abençoou a descendência de Ismael, fazendo dele uma grande descendência (cf. 16.10;
21.12-13), da qual viriam doze príncipes (cf. 17.20) e de que ele habitaria juntos aos
seus irmãos (v.18 cf. 16.12).

Bruce Waltke observou que: “Se o Ismael rejeitado e as doze tribos que procedem dele
têm um futuro e um destino, quanto mais em se tratando de Isaque, através de quem a
linhagem de Abraão será contada”.32 Assim, o povo de Israel que ouviu esta história
poderia extrair daqui um motivo para se alegrar em Deus que lhes ofereceria muito mais
do que à descendência de Ismael, por ser seu povo escolhido. Ismael teve sua
descendência abençoada, já o povo de Israel iria além, desfrutaria da bênção espiritual
do Senhor.

II. A Descendência de Isaque (25.19-26)

19-21. Ao invés de apresentar uma lista de descendentes, esta seção do livro de Gênesis
apresenta o relato do nascimento dos dois filhos de Isaque. A história inicia-se contando
que ele se casou com Rebeca quando tinha quarenta anos (v.19) e que ele orou ao
Senhor para que ele abrisse o ventre de sua esposa, pois esta era estéril e o Senhor então
lhe concedeu o que pediu.
O texto é bem sucinto ao falar da esterilidade de Rebeca, em contraste com a grande
tensão gerada no texto bíblico em torno da esterilidade de Sara. Enquanto a esterilidade
de Sara percorreu vários capítulos, a de Rebeca é descrita e resolvida em um único
versículo. Embora o relato seja breve, a espera de Isaque não o foi, pois no versículo 26
descobrimos que ele só conseguiu ter filhos vinte anos após seu casamento. Isaque,
assim como seu pai teve um longo período de espera, mas parece que Isaque lidou
melhor com essa situação.
É interessante observar como a esterilidade acompanhou as esposa de três gerações dos
patriarcas. Primeiro Sara (esposa de Abraão), posteriormente Rebeca (esposa de Isaque)
e por fim Raquel (esposa de Jacó). Qual seria a intenção de Deus com isso? A resposta é
que ele queria deixar claro que o cumprimento da promessa dependeria tão somente
dele. O mero esforço humano não era capaz de levar as promessas ao seu cumprimento.
Deus prometeu e ele mesmo faria com que tudo viesse a se tornar real. Os relatos que
temos a partir desta história e que se estendem até ao capítulo 35 deixam evidente a
soberania de Deus sobre todas as coisas e que são exemplificas quando...
Ele abre a madre estéril de Rebeca, prediz a supremacia de Jacó sobre Esaú, inverte os
direitos de primogenitura de seres humanos e passa por sobre a autoridade patriarcal de
Isaque, a posição social de Labão e o poder militar de Esaú.33

Deus constrói a história de maneira soberana, e isto foi motivo para o Israel futuro se
alegrar em Deus que detém o controle de todas as coisas e que por isso eles poderiam
descansar nele.

22. Estando Rebeca grávida de gêmeos, os dois irmãos lutavam (lit. se esmagavam)
dentro do ventre de sua mãe, causando-lhe dor e preocupação. A dor era tamanha que
ela se desespera da vida. Tal angústia fez com que ele consultasse ao Senhor, a fim de
entender seus propósitos.
32
Waltke, Gênesis, 424.
33
Ibid, 429.
23. Neste versículo lemos a resposta de Deus a Rebeca, onde ela é informada de que o
futuro dos irmãos será marcado por inimizade. Ao longo do relato bíblico temos
constantes testemunhos de como os descendentes de Esaú se opuseram aos filhos de
Jacó, podemos citar como exemplo as passagens de Números 20.14-21 e Salmo 137.7.

Além disso, algo alarmante é dito: o mais velho servirá o mais moço. Esta mensagem
vai contra o padrão da época, na qual o primogênito tinha a primazia, e era considerado
o principal herdeiro da família. Vimos acima como Deus mostra sua soberania
abençoando as matriarcas para que estas pudessem conceber, e agora vemos mais outro
padrão que a Escritura nos mostra: a escolha dos filhos mais novos. Deus se agradou de
Abel, mas não de Caim; Isaque foi escolhido ao invés de Ismael; Jacó ao invés de Esaú;
José ao invés de seus irmãos mais velhos e Davi, o filho mais novo de Jessé, ao invés de
seus irmãos.

Há algo de especial em ser irmão mais novo? Não, nada de especial, pelo contrário, a
cultura estava inclinada a exaltar os irmãos mais velhos. Entretanto, Deus por muitas
vezes escolheu aqueles que não tinham a primazia a fim de mostrar que, para ele, o
favoritismo segundo os padrões deste mundo não lhe servem. Quando ele escolhe
alguém e lhe dá uma nova vida, isto não está baseado em nenhum mérito nosso, mas tão
somente pelo exercício da sua misericórdia.

Deus escolheu por meio de quem daria continuidade à semente santa antes mesmo de os
meninos nascerem. Essa escolha foi feita antes de haver alguma virtude em algum deles,
pelo contrário, a única coisa existente era a ação de um Deus que faz tudo conforme lhe
agrada. Paulo afirma isso em Romanos 9.10-12.

Obras não salvam, o Novo Testamento expressa isso claramente, e o Antigo ilustra isso
de maneira muito vívida. A perícope que vai do verso 27 ao 34 mostra claramente que
nem Esaú, nem Jacó tinham caráter para serem por si mesmos vistos como merecedores
da graça de Deus.

24-26. Chegado o dia do nascimento dos meninos, o primeiro nasceu ruivo e peludo e
por causa dessa característica lhe chamaram de Esaú, que é um nome cuja etimologia
parece estar relacionada a uma, ou mesmo a essas duas características. Logo após Esaú
nasceu o outro menino, que estava segurando o calcanhar do mais velho, e por isso lhe
chamaram Jacó, que é um nome relacionado com o ato de puxar alguém pelo calcanhar,
trazendo a ideia de alguém que é traiçoeiro.

III. A venda do direito de Primogenitura (25.27-34)

27-28. Os dois meninos cresceram e, enquanto Esaú havia se tornado um grande


caçador, seu irmão Jacó era um homem pacato, que ficava mais tempo dentro do lar.
Cada um dos pais tinha a sua preferência. Enquanto Isaque amava a Esaú porque
gostava de saborear a carne dos animais que seu filho mais velho caçava, Rebeca amava
mais a Jacó, talvez porque a ela lhe agradava a companhia do filho dentro do lar, ou, na
melhor das hipóteses, porque guardava no coração a afirmação divina acerca de Jacó.
As consequência de tais preferências veremos no próximo sermão.

29-30. Em determinada ocasião Jacó havia feito uma refeição saborosa e Esaú chegou
do campo e se interessou pelo alimento que o irmão havia preparado. E então lhe pediu
que lhe desse um pouco daquela comida.
31. Movido pela ganância, Jacó propôs ao irmão uma troca. Jacó permitiria que seu
irmão provasse de sua comida e que por sua vez seu irmão lhe concedesse o direito de
primogenitura.

Provavelmente Jacó a essa altura já tinha noção do que o Senhor havia dito à sua mãe,
de que ele seria o mais forte, ou seja, seria aquele que herdaria as promessas feitas a
Abraão. No entanto, ao invés de esperar pacientemente pelo cumprimento do que Deus
havia dito, ele mesmo cai na tentação de Satanás e ágil de má fé para com seu irmão,
buscando concretizar a promessa de Deus de maneira forçada.

Tal atitude nos lembra do erro de Abraão ao consentir com sua esposa quando esta lhe
propôs que ele tivesse um filho com sua escrava. Deus havia prometido que daria um
Filho a Abraão, mas diante das circunstâncias que diziam o contrário, dada a
esterilidade de sua esposa, ele tentou ajudar Deus a concretizar a sua promessa. Jacó
cometeu o mesmo erro e sua mãe também viria pecar nisso também.

32-34. Esaú poderia muito bem estar sentindo muito fome, mas ao afirmar que estava a
ponto de morrer era um exagero sem dúvida alguma. Além do mais, ele não estava no
meio de um deserto sem recursos, mas na casa do seu próprio pai. Mas ainda assim, ele
optou por colocar em jogo a coisa mais preciosa que um filho poderia ter: a primazia.
Derek Kidner expressa com clareza o quão rude estava sendo Esaú:
Se Jacó é cruel aqui, Esaú é fraco. As versões têm abrandado a sua vociferação: “ Deixa-me
engulir [sic] um pouco dessa droga vermelha, essa droga vermelha...” Abraçando a
qualquer custo o presente e o tangível, desprezando a melhor parte (33) e saindo sem
nenhuma preocupação (34).34

Não estamos falando aqui apenas dos privilégios que os irmãos mais velhos tinham, o
que já era muita coisa, mas seu ato impensado “foi o mesmo que desistir de ser o
portador da linhagem do Messias prometido. Ele considerou que esse privilégio valia
menos do que um prato de sopa”.35 Esaú simplesmente abriu mão de uma grandiosa
bênção, devorou a comida como um animal selvagem e se retirou. É essa a ideia que
temos ao ler o verso 34: “comeu e bebeu, levantou-se e saiu”. Nem parecia que acabara
de abrir mão de algo precioso.

Embora tenha jurado perante seu irmão, é provável que Esaú tenha vendido seu direito
de primogenitura sem de fato levar a sério o que estava dizendo. Considerando sua ira
quando seu irmão recebeu a bênção de Isaque, podemos pensar nessa hipótese. Se assim
o for, ele tomou uma atitude de grande seriedade, brincando com a promessa de Deus.
Independente do que se passasse em sua mente, seu erro foi grave e por isso é chamado
de profano em Hebreus 12.16. Falando de modo sério ou não, é fato que ele jurou
perante seu irmão e posteriormente não teria motivos reivindicar a bênção.

O capítulo 25 é concluído de maneira enfática: “Assim, desprezou Esaú o seu direito de


primogenitura”. Com tal postura, está clara a sua indignidade de ser um herdeiro da
bênção.

34
Kidner, Gênesis, 141.
35
Duguid, A Graça Incansável, 20.
25. Gênesis 26.1-35: Isaque entre os filisteus

22 de Setembro de 2019

?
26. Gênesis 27.1-46: A bênção de Isaque

29 de Setembro de 2019

Quando há uma desavença em uma família, ou em qualquer outro grupo de pessoas,


logo os envolvidos, juntamente com os expectadores buscam analisar a situação e
identificar o culpado. Nesse ínterim, acusações vêm e vão e muitas das vezes a seguinte
possibilidade não é levada em consideração: Todos são culpados! Obviamente alguém
começou errando, mas isso não serve como justificativa para que os demais também
cometam erros a partir do incidente inicial.

Aqui estamos nós, em meio a um problema de família e, pelo que vemos, todos aqui
têm sua parcela de culpa. O interessante é que no meio de toda essa bagunça, vemos que
Deus de maneira sábia e santa está operando, fazendo com que sua promessa se cumpra,
apesar das falhas da família que ele escolheu para dar continuidade ao cumprimento de
sua promessa acerca do Messias. Assim, vemos que Deus usa até mesmo a
pecaminosidade humana para efetuar seu propósito redentivo.

I. Isaque chama Esaú (v.1-4)

Estando Isaque em idade avançada, com aproximadamente 100 anos de idade, deve ter
imaginado que sua morte já pudesse estar próxima e por isso chama seu filho Esaú para
abençoá-lo. O privilégio da primogenitura era muito grande, especialmente tratando-se
da família por meio de quem se cumpriria a promessa de Deus. No entanto, Esaú não
haveria de receber essa bênção. Primeiro porque desde seu nascimento Deus havia
declarado a Rebeca que o mais velho serviria o mais moço, segundo, porque ele
espontaneamente desprezou seu direito de primogenitura em troca de uma refeição.

Não sabemos se Isaque tinha ciência de algum desses fatos, embora seja improvável que
Rebeca não tenha lhe contado acerca de uma afirmação tão séria que tratava do futuro
de Esaú e Jacó que fora proferida por Deus quando estes ainda nem sequer tinham
nascido. Ademais, Esaú demonstrou sua indignidade não apenas vendendo seu direito à
herança, mas também casando-se com mulheres ímpias, o que poderia comprometer o
projeto divino.

Aparentemente Isaque não demonstrava se importar tanto com isso, pois algo mais o
atraía. Isaque amava comer da comida de seu filho mais velho e estava disposto a
dispensar sua bênção sobre quem Deus não havia escolhido, pois estava movido pelo
estômago. Conforme 25.28 Isaque amava mais a seu filho Esaú porque este era um
grande caçador e proporcionava belas refeições a ele. Isaque não estava cego apenas
fisicamente, mas seu coração também estava, e assim como Esaú se deixou levar pelo
apetite, Isaque faz a mesma coisa.
Assim, chamou Isaque a seu filho Esaú e ordenou que seu filho caçasse algum animal e
que o trouxesse para que ele se alimentasse e depois proferisse sua bênção sobre ele.

II. O plano de Rebeca (v.5-17)

v. 5-10. Rebeca ouviu toda a conversar e viu que seu filho preferido estava correndo o
risco de perder a bênção de Isaque. Por isso, ela prontamente procurou Jacó e lhe
orientou a aproveitar que Esaú se demoraria procurando um animal para matar, para que
ele fosse ao rebanho e sacrificasse dois animais para que ela preparasse uma refeição
para Isaque, saborosa como ela apreciava, e assim Jacó recebesse a bênção no lugar de
seu irmão.

11-13. Jacó não repreendeu sua mãe pelo plano imoral de sua mãe, mas apresenta uma
objeção por estar receoso de que seja descoberto. Sendo Esaú um homem peludo, seu
pai, mesmo estando cego, poderia desejar tocar seu filho e quando o fizesse perceberia
que a pele não seria a de seu primogênito. Caso fosse descoberto, ao invés de receber a
bênção de Jacó, receberia a maldição por zombar de seu pai. Rebeca, por sua vez, afim
de convencer seu filho, declara que deseja que essa maldição, caso viesse, recaísse sobre
ela, como se ela tivesse poder para transferir algo e livrar seu filho. Rebeca queria a
todo custo que seu filho mais moço fosse abençoado.

Não sabemos aqui o que de fato mais motivava Rebeca, se era seu amor por seu filho
que gostava de ficar em casa, ou se a promessa de Deus. Se o primeiro motivo fosse o
que a motivava, ela estava errada por preterir um de seus filhos por um motivo tão
simples. Caso tivesse a promessa feita a ela em mente, isso não a livra da culpa, pois
incorreu no erro de tentar ajudar Deus a cumprir seus propósitos. Independente disso,
Rebeca insta com Jacó para que fizesse como ela havia planejado e seu filho obedece.

14.16. Jacó foi ao rebanho, matou um animal e trouxe à sua mãe que preparou uma
“comida saborosa”, assim como Isaque apreciava. Feito isto, pegou uma das roupas de
Esaú e vestiu a seu filho mais novo e com a pele dos cabritos que ele havia matado,
revestiu os braços e o pescoço de Jacó, para que ficassem peludos como os de Esaú. Ao
que tudo indica, Rebeca estava confiante de que não apenas a visão de Isaque estivesse
comprometida, mas também seu paladar, para que não identificasse que aquela comida
não tinha sido feito com carne de um animal selvagem e que seu tato também não
estivesse aguçado, para não diferenciar os pelos de cabrito com os pelos de Esaú.

17. Assim, enviou Rebeca, rumo a Isaque, na expectativa que Isaque não percebesse seu
projeto desonesto.

III. Esaú abençoa a Jacó (v.17-29)

18-19. Temeroso, Jacó entra nos aposentos de Isaque e o chama, que logo pergunta
quem está falando com ele. Jacó mente dizendo que se tratava de Esaú e sem perda de
tempo propõe a seu pai que se sente para comer da comida e o abençoe logo. A esta
altura Jacó receava que seu pai fizesse mais perguntas e até mesmo que seu irmã o Esaú
chegasse e descobrisse seu plano.
20. Entretanto Isaque achou estranho o fato de que ele tivesse sido tão rápido para caçar
o animal e prepara-lo em tão pouco tempo, e por isso questionou seu filho que
habilmente respondeu que havia contado com a ajuda de Deus. Nem mesmo o nome do
Senhor foi poupado nesse plano espúrio.

21-24. Isaque ainda não estava convencido, por isso pede que seu filho se aproxime para
que pudesse apalpar o suposto Esaú. Assim, Isaque afirma que a voz não era a de seu
filho mais velho, mas as mãos certamente eram, porque eram peludas.

25. Isaque então provou da comida de Jacó, pensando que era a de Esaú e não percebeu
que se tratava de uma caça e a comeu, bebendo juntamente o vinho.

26-27a. Isaque estava pronto para abençoar seu filho, mas ainda tinha mais um teste, ele
queria sentir o cheiro de seu filho. Então pediu que ele se aproximasse para que pudesse
beijá-lo e nesse momento sentiu o cheiro de Esaú, pois Jacó estava com suas roupas.
Agora estava convencido de que aquele era Esaú.

27b-29. Finalmente, Abraão profere sua bênção. Primeiro ele descreve Jacó:

Eis que o cheiro do meu filho


é como o cheiro do campo,
que o Senhor abençoou (v.27b)

Depois, profere três bênção sobre ele. A primeira evoca as bênção sobre a terra na qual
ele haveria de habitar:

Deus te dê o orvalho do céu


e da exuberância da terra,
e fartura de trigo e de mosto (v.28)

Em segundo lugar, fala acerca do seu poder sobre os povos:

Sirvam-te povos,
e nações te reverenciem;
sê senhor de teus irmãos,
e os filhos de tua mãe se encurvem a ti (v.29a)

Esta segunda bênção é semelhante ao que Deus disse a Rebeca: “o mais velho servirá o
mais moço”. Mas aqui a promessa vai além, não somente o irmão mais velho, mas todos
os povos serviriam e respeitariam a Jacó.

Por fim, uma bênção semelhante à de 12.3.

maldito seja oque amaldiçoar,


e abençoado o que te abençoar (v.29b).

Jacó não seria apenas um abençoado, mas também uma bênção para todos os povos.
30. Esta é uma bela bênção, mas Isaque não poderia ter tempo de aproveitar, pois seu
irmão poderia chegar e assim ele se retirou. Mal Jacó tinha saído, Esaú também chegou
em casa e foi preparar a comida para seu pai.

31-33. Tendo preparado a comida Esaú se apresentou perante seu pai, esperançoso de
receber a bênção, mas Isaque naquele momento percebeu que havia sido enganado.
Nesse momento ele foi movido por grande emoção, todo seu plano tinha dado errado, e
alguém já tinha recebido a bênção. Não tinha mais lugar para outra bênção, o que ele
fizera por Jacó era irrevogável.

34-37. Esaú pede a seu pai que dispensasse alguma bênção sobre ele, mas seu pai se
recusa. Jacó de maneira astuciosa havia herdado a promessa. Esaú, indignado, afirma
que Jacó é um trapaceiro, havia lhe tomado o direito de primogenitura, e agora a
bênção. Jacó havia sido constituído Senhor de Esaú.

38-40. Desesperado, Esaú insiste por uma bênção. Movido por comoção Isaque tenta
proferir uma bênção sobre seu filho, mas as palavras que saíram de sua boca consistiam
no contrário do que rogara sobre Jacó. Mas uma esperança é apresentada: “quando,
porém, te libertares, sacudirás o seu jugo da tua cerviz”. Um dia os descendentes de
Esaú, os edomitas seriam “libertos” e estariam livre do governo dos descendentes de
Jacó (isto se cumpre em 2 Rs 8.20,22).

41-45. Aborrecido com tudo o que aconteceu, Esaú resolve aguardar o falecimento de
seu pai para depois matar seu irmão. Sabendo disso, Rebeca planeja enviar seu Jacó
para a casa de seus pais e procura Isaque com o argumento de que ele não deveria se
casar com as mulheres daquela terra, assim como fizera Esaú, o que lhes tinha sido
motivo de grande amargura.

Considerações e aplicações

Esta proposta de Rebeca abre espaço para a narrativa seguinte, que contemplaremos na
próxima exposição. Por hora, já temos muito o que refletir com o que lemos até aqui.

26. Gênesis 27.1-46: A bênção de Isaque

29 de Setembro de 2019
27. Gênesis 28.1-22: A fuga de Jacó

20 de Outubro de 2019

Você já se sentiu abandonado por Deus? Há certos momentos em que as dificuldades


pelas quais passamos se unem com nossa falta de fé, gerando temor e desesperança.

No capítulo 26 vimos como Jacó apropriou-se à força da bênção da primogenitura. No


fim, a vontade de Deus prevaleceu, mas isso não significa que Jacó tenha saído ileso.
Após esse episódio ele teria de se afastar da terra prometida por muitos anos, fazer uma
longa jornada por regiões desérticas e sofrer muitos anos na mão de um sogro
ganancioso. O que seria da vida de Jacó? Deus o havia abandonado? E a resposta é:
definitivamente não! Hoje aprenderemos que Deus sempre estará com seu povo,
aonde quer que ele vá.

I. A partida de Jacó (v.1-9)

O capítulo 27 terminou com Esaú irado com seu irmão, prometendo assassiná-lo após o
falecimento de seu pai. Sabendo disso, Sara procurou Isaque e, sem lhe contar sobre
esse projeto de vingança, propôs ao esposo que enviasse Jacó para a terra dos pais dela
para que de lá tomasse uma esposa. O argumento dela é válido, pois as esposas que
Esaú tinha tomado para si eram ímpias e haviam se tornado motivo de amargura para
seus pais (26.35). Tendo então dado ouvidos à Sara:

1-2. Isaque chamou seu filho Jacó e o abençoou e lhe ordenou que não deveria tomar
como esposa nenhuma das mulheres daquela terra, por isso ele deveria ir em busca de
uma esposa dentre a parentela de Rebeca.

3-4. Assim abençoou Isaque a Jacó rogando sobre ele as bênção de Abraão, isto é, que
as mesmas coisas que Deus havia prometido a Abraão viesse a se cumprir por meio da
vida de Jacó.

5. Tendo recebido a bênção e as orientações do pai, partiu então Jacó em sua jornada
solitária.

6-9. Em forma de protesto, Esaú casou-se com mais mulheres, das quais seu pai havia
instruído Jacó a não tomar em matrimônio. Enquanto o caminho para que o trapaceiro
Jacó seja tradado por Deus, Esaú afunda-se ainda mais no erro, a fim de trazer mais
aborrecimento aos pais.

Deus encontra-se com Jacó (v.10-17)

10. A passagem volta-se novamente para Jacó e sua jornada rumo a Harã, que é a terra
de onde seu avô saíra. Aqui está Jacó, distanciando-se da terra prometida. Ele havia
recebido a bênção, mas naquele momento parecia estar muito distante de desfrutá-la.
11. Após alguns dias de viagem, tendo chegado a determinado lugar ao anoitecer, então
Jacó resolveu tomar uma pedra e utilizá-la como travesseiro para dormir em campo
aberto. As coisas não estavam favoráveis para Jacó, ali estava ele fazendo o percurso
inverso ao que seu avô Abraão fizera há cerca de 125 anos. Diferentemente de seu avô,
que levava consigo familiares, servos e diversos pertences, temos agora Jacó indo em
sentido contrário, sozinho e à mercê de saqueadores e animais ferozes que poderiam
atacá-lo enquanto dormia. Estando exausto da viagem, Jacó adormece, apesar do
desconforto.

12. No entanto, aquela noite foi diferente das demais, pois algo surpreendente
aconteceu. Por meio de um sonho Deus deu a Jacó o vislumbre de uma cena
maravilhosa: Uma escada que ligava o céu á terra. Quando falamos escada, imagine
uma escadaria de pedras, por meio da qual os anjos de Deus subiam e desciam por ela.
Bibliografia

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do Brasil, 1999.

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Cultura Cristã, 2009.

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Tradução de Vagner Barbosa. São Paulo: Cultura Cristã, 2016.

DUGUID, Iain M. A Graça Incansável: O evangelho segundo Isaque e Jacó. Tradução de


Afonso Teixeira Filho. São Paulo: Cultura Cristã, 2016.

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Cristo a partir de Gênesis. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

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2005.

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Cristã, 2010.

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