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NOTAS SOBRE O CENSO DE 1872: RELAÇÕES ENTRE A DIRETORIA


GERAL DE ESTATÍSTICA E AS PROVÍNCIAS DO IMPÉRIO

Diego Nones Bissigo1

A estatística não é menos necessária à vida pública dos povos, do que à sua existência privada; é por meio dos
seus trabalhos e investigações que os grandes interesses do Estado são esclarecidos e aprofundados. A ausência
deste meio de governo caracteriza a ignorância e a barbárie de uma época, de um país, ou de uma
administração.2

Foi nesse espírito que José Maria do Couto fez sua apologia à estatística e ao seu próprio
cargo como chefe (ainda que interino) da Diretoria Geral de Estatística, repartição subordinada ao
Ministério dos Negócios do Império, fundada em 1871 para executar o primeiro recenseamento
geral do Brasil. O ano aqui é 1873 e o censo já havia ocorrido no nível das ruas e residências, mas
muito trabalho ainda desafiava os membros da equipe da Diretoria (daqui em diante, DGE) que não
só processava os dados recolhidos em todos os rincões do país como também procurava executar
outras tarefas que lhes eram incumbidas por determinação de seu Regulamento. Acima de tudo, a
ambição de estar prestando favor aos “grandes interesses do Estado” – da “existência privada” de
cada indivíduo (nascimento, casamento, óbito…) até “investigações” sobre a “vida pública dos
povos” (interesses econômicos e militares, geralmente). Nessa luta contra a “ignorância” e a
“barbárie”, muitos desafios se elevavam: o espaço diminuto de trabalho, as verbas e pessoal
insuficiente, a questão técnica de processamento de dados de um país inteiro e, também, a delicada
relação entre as expectativas burocráticas da Corte e as respostas nem sempre adequadas das
províncias.
Este texto surge como uma das discussões de uma pesquisa mais ampla que está analisando
relatórios publicados pela DGE ao longo da década de 1870, bem como tabelas e quadros
populacionais, procurando neles detectar as formas utilizadas por essa repartição para classificar e
quantificar a população brasileira em seu primeiro recenseamento geral. O Estado imperial
brasileiro percorreu uma trajetória complicada de consolidação de poder, com momentos de tensão
                                                                                                                       
1
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGHST-UFSC).
2
Relatório e Trabalhos Estatísticos… (daqui em diante, RTE), 1873, p. 43. Referências completas dos relatórios ao
final do texto.

1  
 
 
autonomista e separatista e momentos de maior “pacificação” interna e acato aos mandos da Corte
no Rio de Janeiro. A força de coação do Estado foi testada em várias vezes (em questões internas e
externas) e em muitas delas obteve sucesso, ao passo que em outras fracassou. Em 1852, uma
primeira tentativa de recensear a população foi cancelada por uma controversa oposição surgida em
Pau d’Alho (Pernambuco) e outras cidades das “províncias do Norte”.3 A estratégia naquele ano era
aliar recenseamento e implantação do registro civil, o que causou grande desconforto em uma
parcela da população livre de cor, que viria a ser estigmatizada pelas décadas seguintes como
“espíritos menos refletidos, secundados pela ignorância” causadores de “revolta louca e insensata”.4
A “barbárie de uma época” a que viria a se referir o diretor Couto precisaria de mais 20 anos para
ser resolvida, ao menos no terreno da estatística.
José Paulino Soares de Souza, ministro dos Negócios do Império em 1869, pediu urgência
na execução de um censo e, futuramente, de um registro civil:
Os assentos dos nascimentos, casamentos e óbitos, lavrados pelos párocos nos livros das respectivas Igrejas são
entre nós os únicos registros concernentes ao estado civil dos católicos. Seguimos ainda nesta parte sem
alteração alguma as práticas defeituosas e incompletas dos antigos tempos.5

Como se nota, sua preocupação administrativa era uma “cegueira” que o Estado tinha
quanto ao “algarismo exato” da população e suas condições de vida.6 Ter em mãos uma tabela
sinóptica com sexos, idades, condições sociais, estados civis e nacionalidades era um luxo que o
Brasil não possuía. Havia muita estatística sendo produzida no país, de fato, mas de maneira
local/provincial, sem metodologias uniformes e sem regularidades necessárias para o
estabelecimento de projeções eficientes. A única fonte que poderia fornecer dados nacionais eram
os registros eclesiásticos. Mas, como o próprio ministro Paulino de Souza concluiu (e certamente
não foi o primeiro), ficar somando tais dados era tarefa cheia de falhas: esses registros, além de não
incluírem pessoas “que professam religião diferente da do Estado”, ainda sofriam com a

                                                                                                                       
3
Sobre o censo de 1852, conferir LOVEMAN, Mara. Blinded Like a State: The Revolt against Civil Registration in
Nineteenth-Century Brazil. Comparative Studies in Society and History. Cambridge University Press, 2007, pp. 5-39.
Também SAAVEDRA, Renata F. População, Recenseamento e Conflito no Brasil Imperial: o caso da Guerra dos
Marimbondos. Dissertação (Mestrado em História). Rio de Janeiro: UNIRIO, 2011.
4
Ibidem, p. 46.
5
Relatório do Ministério dos Negócios do Império (daqui em diante, RMNI), 1870, p. 26.
6
Conferir o trabalho de James Scott sobre a busca por “simplificação” e “legibilidade” por parte dos Estados nacionais
modernos. SCOTT, J. Seeing Like a State: How certain schemes to improve the human condition have failed. New
Haven: Yale University Press, 1998.

2  
 
 
“negligência de alguns católicos no cumprimento dos deveres religiosos” e a “incúria ou ignorância
de muitos párocos” tornando-os incompletos e pouco fiáveis quando não fraudulentos.7
Quando as fichas de família começaram a circular pelas ruas, caminhos rurais e picadas pela
mata em julho de 1872, o Estado brasileiro passou a produzir um instrumento de leitura de sua
população, um “meio de governo” para fugir da barbárie que, para o diretor Couto, não era só marca
de uma “época”, como também de um “país” e de uma “administração”. Para que esse instrumento
desse certo, é óbvio que uma mesma metodologia e organização precisou ser estendida em todo o
território nacional. Tensões regionais e precisariam ser dribladas e equívocos nas instruções
precisariam ser prevenidos para evitar incidentes como os de 1852. O censo de 1872 foi realizado
com “sucesso” nas palavras de ministros do império e de diretores da DGE.8 Quando os dados
foram publicados em versão oficial em 1875/6 e distribuídos pelas províncias e também em outros
países, concluiu-se que o Brasil havia tido êxito na tarefa e erigido “um verdadeiro monumento
digno de figurar entre os melhores do seu gênero”: um censo completo e metodologicamente bom.9
Seria fácil concluir por aqui e contemplar os “mais de 8.546 quadros” completos10 – e hoje
até mesmo digitalizados e corrigidos, disponíveis na internet – do censo.11 Mas olhares
questionadores suscitaram novas perguntas a esse conjunto bem “consolidado” de estatística,
pensando suas condições de produção, suas ambições, sua logística e as operações desenvolvidas
para transformar a população dispersa e heterogênea do Brasil num apanhado bem comportado de
números uniformes. Embora toda a estatística produzida tenha a simplificação e a padronização por
parâmetros, foi a primeira vez que esse procedimento foi aplicado universalmente ao território
brasileiro seguindo metodologia “científica” e com certas especificidades: uma regime escravista ao
mesmo tempo abalado e sobrevivido pela Lei do Ventre Livre, uma grande quantidade de africanos
ilegalmente importados ao longo das décadas anteriores, grandes grupos indígenas pouco ou nada
conhecidos pelas autoridades e uma diversidade regional surpreendente.
Dentro dessas questões procuro neste texto analisar algumas relações travadas entre a DGE e
as províncias do Brasil, especialmente Santa Catarina, na construção do “monumento” do censo de
                                                                                                                       
7
RMNI, 1870, p. 26.
8
RTE, 1877, p. 6.
9
Ibidem
10
RTE, 1877, p. 5.
11
Recenseamento de 1872 digitalizado e corrigido, (Cedeplar/UFMG).
Disponível em <http://www.nphed.cedeplar.ufmg.br/pop72/index.html:> Acesso em 15/02/2013.

3  
 
 
1872. As fontes utilizadas são principalmente relatórios oficiais (de ministérios e de presidentes de
província). Neles, o censo ocupa pequenos espaços, nem sempre muito evidenciados, mas que
ajudam a pensar nessa dinâmica entre o anseio nacional e a resposta local.

“Inteiramente imaginários”: os dados provinciais no período pré-censitário.

Mesmo antes do recenseamento as províncias e a Corte já dialogavam quanto à produção e


administração das estatísticas. No ano de 1870, Joaquim Norberto de Souza e Silva, funcionário do
Ministério dos Negócios do Império e membro do IHGB, elaborou um “inventário” das estatísticas
brasileiras até aquele momento.12 O estudo foi encomendado pelo próprio ministério às vésperas da
elaboração da lei que criaria a DGE e foi chamado de “Investigações sobre os Recenseamentos da
população geral do Império e de cada Província de per si tentados desde os tempos coloniais até
hoje” encontrando-se anexo ao relatório ministerial referente a 1869.13 Em suas páginas, Souza e
Silva reúne estudos de todas as províncias procurando demonstrar quando possível a sua evolução
populacional e apontar falhas visíveis nos dados obtidos. Além de produzir seu estudo em pouco
tempo, Joaquim Norberto de Souza e Silva também esmerou-se em catalogar ao máximo as
melhores estatísticas provinciais produzidas até aquele momento, selecionando-as entre estudos
variados, publicações em revistas, dados de polícia, estimativas de indivíduos feitas por iniciativa
pessoal, dentre outros, sendo que a fonte primeira de quase todas essas pesquisas eram registros
eclesiásticos somados a estimativas que variavam de acordo com a perícia e imaginação de seus
executores.
Tal inventário demonstra o quão dispersa estava a produção de conhecimento estatístico no
território nacional. “Conhecem-se alguns cálculos estatísticos relativos à população desta
província…”, avisa o autor em relação a Santa Catarina, indicando o nível precário de
visualização.14 De dados extraoficiais, Souza e Silva serviu-se de “mapas15 incertos” encontrados na
“revista literária Patriota” de 1813, bem como um “mapa da ouvidoria” no qual constava apenas a

                                                                                                                       
12
“Inventariante das estatísticas” é expressão utilizada por Nelson de Castro Senra em História das Estatísticas
Brasileiras. Vol. 1: As Estatísticas Desejadas (1822-c.1889). Rio de Janeiro: IBGE, 2006, p. 81.
13
SILVA, Joaquim Norberto de Souza e. Investigações sobre os recenseamentos da população geral do Império e de
cada província de per si tentados desde os tempos coloniais até hoje. Rio de Janeiro: Tipografia Perseverança, 1870.
14
Ibidem, p. 18.
15
“Mapa” refere-se a uma tabela com dados demográficos nesse contexto e em todo texto, exceto quando indicado de
maneira diferente.

4  
 
 
“população adulta ou comungante”. Fez uso também de estudos variados como a “Memória política
sobre a capitania de Santa Catarina” de Paulo José Miguel de Brito (1816) o qual teria afirmado:
…que não constava que desde 1774 até 1813 houvesse peste, fome e guerra [em Santa Catarina], não
merecendo este nome a invasão espanhola de 1777, doenças epidêmicas, terremotos ou algum outro flagelo
extraordinário, para dar lugar às já por ele mencionadas diferenças, das quais resultara a perda de 5.609
indivíduos…16

Tais 5.609 indivíduos representavam o abismo entre a estimativa de 30.415 habitantes para
1813 que revelaram ser, na verdade apenas 24.806, resultando numa “perda” de quase um quinto da
população imaginada e demonstravam a fragilidade e variação dos cálculos disponíveis até então.
Além do mais, os estudos disponíveis, como o de Brito, revelavam-se bastante falhos como, por
exemplo, ignorar a invasão espanhola de 1777 como fator de influência na perda de população da
então capitania.
A partir da década de 1840, Souza e Silva serve-se de documentos oficiais que “trazidos à
luz da publicidade pela administração pública, não são menos numerosos e importantes e têm a seu
favor o cunho da autenticidade”17 A autenticidade não deve ser confundida com a qualidade
esperada pelo inventariante: as estimativas e imaginações estão por toda a parte. Em 1851, o
presidente da província teria afirmado:
Calculada a população das freguesias que não remeteram os mapas, pela [população] dada em 1847, e
atendendo-se ao crescimento, sempre regular, que apresentam os mapas de 1842 e 1847, podemos dizer que a
população da província sobe, sem exageração, a mais de 90.000 habitantes, sendo livres 75.000 para mais.18

Ou seja, para obter o número nada preciso de 90.000 habitantes foi utilizada a base de 1847
(que devemos presumir fiável) acrescentando a elas valores também estimados para suprir as
freguesias que não possuíam dado algum. Esses valores estimados foram baseados em uma
presunção de crescimento regular concluída após averiguação de mapas anteriores (os quais
também devemos presumir como fiáveis). Tudo isso para ponderar que “sem exageração” os livres
da província deveriam ser os imprecisos “75.000 para mais”. Não à toa, em 1853 “ponderou o Dr.
Presidente” da província que:
Os mapas da população não me merecem confiança alguma: são a meu ver inteiramente imaginários, e para
assim os termos basta considerar, que segundo eles, existiam no município de S. Francisco no ano passado 502
estrangeiros, quando só na colônia D. Francisca havia 690. Nota-se mais, segundo os mapas, 3.988 homens
brancos brasileiros e somente 1.906 mulheres, o que não é acreditável.19
                                                                                                                       
16
Ibidem, p. 119.
17
Ibidem, p. 120.
18
Ibidem, p. 121.
19
Ibidem.

5  
 
 

Os próprios presidentes de província, ao elaborar mapas populacionais, reconheciam as


falhas nas fontes das quais bebiam, acrescentando eles próprios suas ressalvas e conjecturas:
Dos [mapas de batizados e óbitos] enviados pelo pároco da capital, consta ter havido na freguesia da capital e a
nova da Santíssima Trindade 285 óbitos: porém nos livros do cemitério, que consultei, encontrei 343, e sei que
no cemitério da Santíssima Trindade também já há muito se enterram corpos.20

Mais uma vez, o número total é incerto, alvo de ponderações: “…é de fazer recear que,
como o da capital, tenham alguns dos outros párocos tidos seus enganos”.21 Enganos é um termo
um tanto eufêmico para uma diferença de 58 óbitos num só cemitério, fora o da Trindade onde “já
há muito” (tempo impreciso) também se sepultavam pessoas. Como resultado, os dados se
mostravam pouco práticos. Dada a imprecisão de valores, em Desterro, por exemplo, “os óbitos
excedem aos batizados, o que faz supor que esta capital é inteiramente imprópria para habitação
humana”.22 Essa constatação é preciosa, pois demonstra que os dados estatísticos disponíveis até
aquele momento eram sempre sujeitos às mais variadas ponderações e sempre que usados de
maneira bruta resultavam em algum tipo de conclusão inverídica, até absurda, o que impedia sua
utilização eficiente pela administração pública.
Ao final de várias outras análises, todas com ressalvas, Souza e Silva elenca uma tabela
sinóptica final com a evolução populacional da província, dos 4.197 habitantes em 1749 aos
119.181 obtidos no recenseamento provincial de 1867. Esse recenseamento foi realizado pelas
autoridades policiais a pedido do presidente Adolfo de Barros Cavalcanti sendo “coroado do mais
feliz resultado”.23 O território foi dividido segundo a divisão judiciária em comarcas, termos e
freguesias e a população foi discriminada por sexo, faixa etária, religião, nacionalidade, profissão,
renda, cor e condição social. Infelizmente os dados parciais da contagem não foram encontrados,
restando apenas a tabela final na qual inúmeros cruzamentos de dados se tornam impossíveis. Não
podemos cruzar os indivíduos por cor e nacionalidade, ou por cor e condição social, por exemplo,
levando a um direcionamento de leitura: sabemos quantos escravos, mas não quantos deles
africanos, por exemplo. Da mesma forma, a condição social está restrita a “livres” e “escravos” sem
a camada intermediária de forros/libertos. E dos livres, não podemos deduzir por este censo quantos

                                                                                                                       
20
Ibidem, p. 122.
21
Ibidem.
22
Ibidem.
23
Ibidem, p. 124.

6  
 
 
passaram pelo cativeiro. Quanto à cor, a divisão em apenas “brancos”, “pardos” e “pretos” nos faz
pensar onde se classificaram os indígenas (se os classificaram). A divisão etária é também bastante
simplificada: “adultos” e “menores”, sem distinções intermediárias (crianças de colo ou em idade
escolar? Adultos economicamente ativos ou idosos?) e nem de sexo (mulheres em idade fértil, por
exemplo).24 Quando Joaquim Norberto de Souza e Silva requisitou ao presidente de província de
Santa Catarina, em fevereiro de 1870, dados recentes para completar sua série, o chefe de polícia
Manoel Vieira Tosta enviou-lhe esses mesmos dados de 1867 dos quais “não foi possível remediar
a sua imperfeição originada da confusão com que vieram mencionados os habitantes livres e
escravos na classificação da nacionalidade, estado e sexo”.25 Intimados a apresentar melhor
material, autoridades provinciais teriam respondido, segundo afirmou Souza e Silva “não lhe ser
praticável formulá-lo de outro modo” porque a tabela já assim se encontrava, indicando “o
algarismo total da população livre e escrava, sem porém distingui-las em mais coisa alguma”.26
Não obstante, o mesmo Souza e Silva que critica esses dados foi o mesmo que considerou
este censo “coroado do mais feliz resultado”. É provável que ele descontasse as incongruências
internas e valorizasse o mérito de o censo ter apontado um número total mais confiável do que os
anteriores. O próprio presidente Cavalcanti explica em relatório provincial:
Não seria prudente atribuir inteira exatidão a uma primeira tentativa em trabalho deste gênero; mas pode-se
seguramente considerar o resultado obtido como muito mais aproximado à verdade do que os cálculos por
estimativa, e as vagas induções que tem servido até o presente.27

Outro mérito do censo de 1867 em Santa Catarina seria o de fornecer uma metodologia
aplicável a outras províncias. Na parte introdutória de suas Investigações…, Souza e Silva narra:
O antecessor de V.Ex., dando a devida importância ao resultado do arrolamento da província de Santa
Catarina, empreendido pelo Dr. Presidente Adolfo de Barros Cavalcanti de Albuquerque Lacerda no ano de
1867, mandou pelo Aviso circular de 28 de novembro desse ano que os presidentes das províncias dessem as
necessárias ordens para se organizarem trabalhos das mesmas províncias, de acordo com as instruções e
mapas feitos pelo Presidente daquela província, e remetessem até ao mês de fevereiro de cada ano cópia do
trabalho depois de sua organização final pela respectiva repartição de polícia.28

                                                                                                                       
24
Não é intenção deste trabalho pormenorizar os detalhes do censo provincial de 1867, suas tabelas, formas de
classificação e números obtidos. A tabela desse censo encontra-se anexa ao relatório provincial referente a 1867,
disponível em <http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/954/000030.html>.
25
SILVA, 1870, p. 118.
26
Ibidem.
27
Relatório de Presidente de Província (daqui em diante, RPP) SC, 1867, p. 6, grifo meu.
28
SILVA, 1870, p. 116.

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Quanto aos resultados obtidos dessa exigência, Souza e Silva complementa sem mais
delongas: “Essas ordens não foram cumpridas”.29
As estatísticas relativas a Santa Catarina no período pré-censitário nos servem para pensar
como as informações estavam dispersas, necessitando ser coligidas cá e lá, e sempre ponderadas
para que pudessem informar nada mais do que uma soma de estimativas.30 O próprio governo
imperial carecia de um instrumento forte de estatística, adotando medidas provisórias, como pedir
que os presidentes de província adotassem a metodologia utilizada em Santa Catarina, por exemplo.
Ainda assim, tais ordens “não foram cumpridas”, indicando um lapso existente entre os anseios
imperiais e as possibilidades locais. E esse lapso começava já nos municípios: “As câmaras não
puderam apresentar os mapas estatísticos de seus municípios, e cumpre reconhecer que lhes
faleciam os indispensáveis recursos para o fazerem”.31 A frase do presidente Cavalcanti, de Santa
Catarina, é continuidade de suas justificativas sobre o censo de 1867 e demonstra que a cadeia de
informações era comprometida desde o início por falta de “recursos”, aqui entendidos não apenas
como financeiros, mas também técnicos. Cavalcanti referia-se especificamente a mapas cadastrais
de terreno, que possibilitariam uma visualização geral de domicílios e proprietários, mas cuja
execução exigia “conhecimentos especiais de geometria e de agrimensura, os quais não se
encontram comumente nos membros daquelas corporações [referindo-se às Câmaras Municipais]”32
Entre números “inteiramente imaginários” e outros provavelmente mais dignos de
confiança, Joaquim Norberto de Souza e Silva esboçou o panorama desta e de todas as demais
províncias com o “estado da arte” estatística até aquele momento. O resultado, em todas elas, é
semelhante: dados aproximados, incompletos, faltantes, fantasiosos. Mesmo o estudo de “mais feliz
resultado” não escapava da “imperfeição” e da “confusão”. O panorama estatístico indicava a clara
necessidade de uma contagem nacional completa.

                                                                                                                       
29
Ibidem.
30
Algumas províncias talvez tivessem melhores dados, como é o caso de São Paulo, que possuía uma série mais regular
de listas nominativas, especialmente da segunda metade do século XVIII em diante. Mesmo esse material, no entanto,
precisa ser analisado criticamente e, ademais, seus dados não ultrapassam a década de 1830. Conferir BACELLAR,
Carlos A. P. Arrolando os habitantes no passado: as listas nominativas sob um olhar crítico. Locus: Revista de História
de Juiz de Fora, v. 14, n. 1, 2008, pp. 113-132.
31
RPP-SC, 1867, p. 6.
32
Ibidem.

8  
 
 
“Um censo exato é inexequível no Brasil”: O desenrolar do recenseamento.

O processo oficial do recenseamento geral começou com a Lei nº 1.829 de 9 de setembro de


1870 que determinava que fossem realizados censos decenais na população do Império e também
criava a Diretoria Geral de Estatística, regulamentada pelo Decreto nº 4.676 de 14 de janeiro de
1871. Por fim, em 30 de dezembro daquele ano, o Decreto nº 4.856 estabeleceu a data de 1º de
agosto de 1872 para a realização da primeira contagem populacional da população brasileira. Nesse
processo, agora mais centralizado e resoluto, mais uma vez podemos observar as relações entre a
DGE (representante dos anseios da Corte) e as províncias.
A começar pela sua própria regulamentação, que determinava quais passos do processo
seriam de incumbência local e quais seriam de incumbência da própria Diretoria. Numa ponta, as
autoridades provinciais tinham direito a escolher as comissões censitárias de cada paróquia,
formadas de “cinco cidadãos residentes na paróquia, conhecedores dos limites e dos habitantes
dela”33 Essa comissão seria responsável por dividir o território da paróquia, contratar os agentes
recenseadores, impor multas aos chefes de família que se recusassem a prestar informações e, por
fim, verificar todo o material recolhido “preenchendo as lacunas, retificando os esclarecimentos
inexatos, examinando se os chefes de família ou de estabelecimentos cometeram erros ou fizeram
ocultações pelos quais não dessem os agentes”.34 Também deveriam indicar os agentes dignos de
“remuneração honorífica” por seus bons serviços.35 Os agentes recenseadores, indicados pela
comissão censitária local, percorreriam as paróquias e acompanhariam de perto a entrega das fichas,
seu preenchimento e seu recolhimento. A comissão censitária, então, tinha autoridade para
correções pontuais e esclarecimentos sobre o material original.
Na outra ponta da estrutura, a Diretoria Geral de Estatística receberia todas as listas e
boletins de todas as paróquias por meio de seus respectivos presidentes de província. Embora no ato
do envio do material muitos presidentes já tivessem noção da população de seus territórios, não era
sua obrigação somar os habitantes listados. Todo esse trabalho era oficialmente incumbência da
DGE.36 Entre o final de 1872, quando os primeiros materiais começaram a chegar à Corte, e o ano
de 1876, quando os resultados foram totalmente publicados, a DGE passou esquadrinhando lista por
                                                                                                                       
33
Decreto nº 4856, art. 8º, §1º.
34
Decreto nº 4856, art. 9º.
35
Decreto nº 4856, art. 15.
36
Decreto nº 4856, art. 14.

9  
 
 
lista, contando todos os indivíduos e classificando-os por sexo, idade, condição social,
nacionalidade e vários outros elementos estabelecidos já em seu regulamento.37
A regulamentação do censo, portanto, indica um processo bastante centralizado, no qual
todos os dados deveriam ser calculados pela DGE, embora os agentes locais pudessem ter muita
influência, pois poderiam determinar que informações eram verídicas ou não, corrigi-las e punir
maus funcionários e proprietários evasivos nas respostas.38
Um segundo ponto de observação é a operação logística desenvolvida para que o material
censitário chegasse em cada paróquia antes do censo. João Alfredo Correia de Oliveira, ministro
dos Negócios do Império em 1871, afirma que tudo foi feito “com a devida antecedência”:
“mandou-se preparar 3.000.000 listas de família e 25.000 cadernetas para os agentes recenseadores,
as quais ficaram prontas no mês de fevereiro próximo passado [fevereiro de 1872]”.39 Para atingir
seus destinos, esse material deveria ser transportado pelas companhias de navegação
subvencionadas as quais, na data da publicação daquele relatório (maio de 1872) ainda não haviam
recebido ordem para tal tarefa. Correia de Oliveira, preocupado com os prazos, pede para “ser esta
repartição autorizada a contratar diretamente o transporte de volumes”.40
Os relatórios de Santa Catarina não acusam problemas no recebimento desse material. A
província do Rio Grande do Sul, por outro lado, registrou atrasos. O relatório assinado em 11 de
julho de 1872 alerta: “As listas de família chegaram tão tarde, que julgo pouco provável que elas
possam alcançar as paróquias mais longínquas em tempo de serem utilizadas para o dia 1º de
agosto, marcado para o recenseamento geral”.41 Em 1º de março do ano seguinte, outro relatório
indica problemas:
O mau estado e imperfeição das vias de comunicação desta província impediram que as listas de família
fossem entregues às respectivcas comissões com a desejável prontidão, e foram causa de ser retardado o
recenseamento em diversas paróquias, acrescentando que muitas daquelas listas foram extraviadas ou
inutilizadas.42

                                                                                                                       
37
Decreto nº 4676, art. 3º.
38
Segundo o Decreto nº 4856, art. 7º, as penas eram processo por “crime de desobediência” além de “a multa de 20$ a
100$”.
39
RMNI, 1872 (A), Anexo H, p.25.
40
Ibidem, p. 26.
41
RPP-RS, 1872, p. 18.
42
RPP-RS, 1873, p. 35.

10  
 
 
O fenômeno repetiu-se em todo o Brasil: “No dia 1º de agosto efetuou-se em todo o Império
o recenseamento da população, à exceção somente das províncias de Goiás e Mato Grosso e de
algumas paróquias de outras, por circunstâncias extraordinárias e imprevistas que ocorreram”.43
Ainda não tenho material suficiente para aprofundar esse debate, mas é nítido que mesmo
bem sucedido, o censo de 1872 teve seus atrasos e, nota metodologicamente importante, em muitos
casos a data-referência de 1º de agosto não foi respeitada. Todos os habitantes listados nas fichas de
família deveriam ser os que estivessem “presentes” em cada domicílio naquela referência, como
forma de obter a máxima eficiência dos dados. Se em duas províncias completas e “algumas
paróquias de outras” essa data falhou, é notável que mais uma vez, ao menos parcialmente, as
expectativas gerais não se cumpriram em nível local.
Mais interessante é um caso publicado pelo Jornal O Despertador de Desterro em 27 de
julho de 1872, no qual não houve atraso quanto à data-limite, mas antecipação. Um grupo de
pessoas do município de Laguna, identificado por “Nautilus”, assina um texto publicado numa
coluna “A Pedido” no qual se queixa de que “um censo exato é inexequível no Brasil, ao menos no
presente”.44 Seu texto inicia-se louvando os benefícios teóricos obtidos com o recenseamento e
contrastando com o fato de a maior parte do povo não estaria apta a compreendê-los. Depois,
questiona os atributos morais dos recenseadores, alguns deles apenas “ignorantes”, ao passo que
outros seriam “fátuos”, interessados apenas nos “estéreis, porém públicos, agradecimentos do
governo” e na “estulta glória de mandarem seus nomes para o rol dos dignos de remuneração
honorífica”.45 A seguir, “Nautilus” expõe o caso que motivou toda essa queixa:
A nós que escrevemos estas linhas, e a muitos outros, foi dado o seguinte recado da parte do recenseador da
seção: — O Sr. F. manda esta lista para V. encher, e logo que estiver cheia mande levá-la. — Ora segue-se
daqui o ficarem hoje mesmo cheias muitas das listas distribuídas, as quais serão entregues talvez amanhã.
Perguntamos: desta maneira cumprir-se-ão as disposições dos arts. 1º, 2º e § 2º do art. 10 do regulamento?
Certamente não.46

O recenseador citado, por ser desconhecedor da legislação ou por ser desinteressado,


segundo a coluna de opinião, não havia entendido que a data-referência de 1º de agosto de 1872
deveria ser respeitada para que o recenseamento ocorresse simultaneamente em todo o Império
conforme prescreviam os artigos citados pelos signatários. Tais artigos referem-se à simultaneidade
                                                                                                                       
43
RMNI, 1872 (B), p. 24.
44
O Censo. O Despertador, Desterro, 27 de julho de 1872, p. 4.
45
Ibidem, grifos originais.
46
Ibidem, grifos originais.

11  
 
 
e, por extensão, à obediência às instruções dadas pela legislação nacional. Essa não-observância
geraria “omissões e aumentos” que levariam à “grande inexatidão, para mais ou para menos, no
algarismo total da população”.47 O fato de os recenseadores recolherem as fichas de família tão
logo quanto preenchidas ao invés de obedecerem às datas fixadas levaria a uma “falta de verificação
escrupulosa” do material “abrindo-se campo a inúmeras omissões ciente e voluntariamente feitas
por todos aqueles que têm motivos para recear recrutamentos”.48
O medo do grupo era de que o ocorrido em Laguna também se repetisse “em todas as
pequenas vilas, freguesias e simples povoações” invalidando o recenseamento: “afinal terá o país,
depois de haver dispendido grossas somas, um censo inexato, aleijado; um censo inútil, pois não
corresponderá aos fins para que foi decretado”.49
A busca da precisão matemática estaria em risco por desconhecimento da legislação, pelo
caráter dúbio dos recenseadores, pelo não seguimento do regulamento, pelo medo do recrutamento
e pela ignorância do povo quanto aos benefícios do censo. Embora essa edição tenha sido impressa
em 27 de julho, o texto data do dia 15 daquele mês, data oficial para distribuição das listas de
família. O que era uma desconfiança tornou-se mais evidente quando lemos no post-scriptum da
coluna: “P.S.: Soubemos hoje, [dia] 19, que várias listas já têm sido entregues, cheias, aos
recenseadores”.50 A moral do texto pretende sugerir que o caso citado seria um exemplo de como a
pequenez de pensamento de alguns recenseadores e da maior parte da população contrastavam com
os projetos de “engrandecimento e ilustração da pátria”.51
Adiantamentos e atrasos indicam que o recenseamento não obedeceu sempre à data-
referência e há várias brechas no preenchimento das fichas de família que nos levam a ponderar
sobre as informações nelas contidas: o analfabetismo da maior parte dos cabeças de família, a
possibilidade de correções nas fichas por parte das comissões censitárias locais e, por fim, o próprio
processamento da informação pela DGE. Percalços à parte, o censo foi realizado, as fichas foram
recolhidas e o material foi processado e divulgado pela DGE ao longo daquela década.

                                                                                                                       
47
Ibidem
48
Ibidem.
49
Ibidem.
50
Ibidem.
51
Ibidem, p. 3.

12  
 
 
“Desesperadora lentidão”: relações após o censo.

O trabalho não estava terminado: ao contrário, estava no começo. A DGE tinha duas
missões principais: a primeira, extrair valores numéricos do censo e divulgá-los. A segunda, de
acordo com o seu regulamento, expandir suas atividades em direção a uma centralização de
estatísticas demográficas, econômicas, criminais, judiciárias e culturais em torno de sua própria
alçada, o que requeria demandar informações às províncias.52
O diretor interino José Maria do Couto descreveu essa relação queixando-se da falta de
informações, “que nem sempre são fornecidas com a desejada celeridade e solicitude, apesar de
constantes e repetidas requisições”. 53 Ainda em 1872, no início da apuração do recenseamento, há
queixas de morosidade:
Era preciso, pois, concentrar toda a atividade dos poucos empregados da repartição na pesquisa e coordenação
dos poucos elementos estatísticos, que se encontravam dispersos pelas diversas secretarias de estado, arquivos
e bibliotecas, e dos que, solicitados com instâncias, iam chegando, com desesperadora lentidão, das
províncias.54

Embora reconhecessem anteriormente a imensidão do território, a dispersão da população e


a precariedade dos meios de transporte, faltava não apenas “celeridade”, mas também “solicitude”
em cumprir o que determinava o próprio regulamento da DGE: que todas as instâncias solicitadas
deveriam enviar os dados requeridos pela Diretoria. Em 1875, culpa-se mais uma vez o “pouco
patriotismo e cuidado” de algumas comissões censitárias pela “falta” de dados bem como pela
“morosidade” do processo.55 No mesmo ano, ainda, misturam-se elogios e críticas:
As presidências de província foram solícitas no cumprimento da lei; das comissões censitárias, muitas são
merecedoras de elogio e da munificência imperial; porém, outras têm dado apenas motivos a delongas e
reparos, mostrando assim que não se compenetraram da importância do honroso encargo que se lhes cometeu e
da gloriosa missão que se lhes confiou.56

Os diretores não citam pormenores das “más” comissões censitárias e também não indicam
o quão cientes estavam – ou poderiam estar – aos fatores que causavam a morosidade dessas
comissões. Seriam elas casos de real ignorância de seu “honroso encargo” ou tinham sofrido elas
atrasos alheios à sua vontade? Tinha a DGE real prova de que certos grupos ignoravam sua

                                                                                                                       
52
Decreto nº 4676, especialmente artigos 3º-6º.
53
RTE, 1873, p. 7.
54
RTE, 1872, pp. 1-2.
55
RTE, 1875, seção “Recenseamento da população do Império”, p. 1.
56
RTE, 1875, seção “Recenseamento da população do Império”, p. 2.

13  
 
 
“gloriosa missão” ou era um discurso próprio atribuir culpa às esferas inferiores como forma de
justificar os atrasos às esferas superiores de governo? As queixas contidas nos relatórios foram
sempre baseadas em evidências ou partiam do pressuposto de que culpar a morosidade
provincial/local era uma justificativa plausível para a demora nos serviços da DGE?
Como citado anteriormente, é provável que províncias e municípios tivessem carência de
recursos técnicos, conhecimento adquirido e mesmo dinheiro para executar tais serviços. José Maria
do Couto mesmo ponderou que a melhoria da situação não dependia apenas da vontade do
presidente de província, e sugeriu a criação de “seções de estatísticas anexas às secretarias dos
governos provinciais” elogiando a província da Bahia por já dispor desse serviço.57 Dessa maneira,
pessoas que já haviam adquirido experiência no recenseamento de 1872 e tivessem apresentado
bons resultados poderiam ser contratadas para fazer a interlocução entre suas províncias e a DGE:
“sem este auxílio, muito difícil será a esta Diretoria fazer desaparecer as dificuldades que encontra a
cada passo, obrigando-a a apresentar à V. Ex. trabalhos que ainda não têm o cunho da perfeição e
exatidão desejadas”.58
Melhor ainda é um exemplo encontrado no relatório do presidente da província de Santa
Catarina em janeiro de 1872, ainda antes do recenseamento, mas quando a DGE já lançava
requisições de material. Sua análise vale uma citação completa:
Ultimamente a Diretoria Geral de Estatística, por seu ofício de 18 de setembro, pediu que pela Diretoria ou
Inspeção das Obras públicas desta Província se confeccionassem para serem remetidos à dita Diretoria:
1º Um mapa geral da Província, contendo com toda a individuação e clareza os limites dos municípios da
província.
2º Cartas particulares de cada um dos municípios, contendo os limites das paróquias do município.
3º Carta geral da Província contendo e distinguindo com determinadas cores a extensão do domínio agrícola
aproveitado em culturas e a natureza destas.
4º Cartas particulares, contendo e distinguindo com determinadas cores a extensão e a posição das terras
públicas e devolutas, suscetíveis de cultura e a natureza destas.
5º Que se procedesse à verificação exata da posição geográfica de cada uma das paróquias no ponto em que se
acha colocada a Igreja Matriz, determinando a longitude, latitude e altitude (ao menos barométrica) desses
pontos.
Como satisfazer semelhante pedido, quando não existe aqui Diretoria ou Inspeção de Obras públicas, nem
mesmo um engenheiro da Província? Com que meios se principiariam esses trabalhos?!
Só com auxílio dos Cofres Gerais alguma coisa se poderá fazer.59

Em janeiro de 1872 a DGE era recém-criada e estabelecida na Corte. Seu regulamento


exigia que além da realização do censo, a Diretoria se ocupasse da divisão administrativa, eleitoral,
                                                                                                                       
57
RTE, 1873, p. 7.
58
Ibidem.
59
RPP-SC, 1872, p. 13.

14  
 
 
judiciária e eclesiástica do país, das províncias e de cada município ou comarca.60 O pedido feito à
província de Santa Catarina não extrapolava em nada as obrigações regulamentares da Diretoria: era
apenas uma delegação de tarefas que tinha por objetivo reunir o material necessário para o bom
funcionamento da repartição. Aos olhos do presidente da província, no entanto, o abismo entre
intenção e realidade não poderia ser maior. Ao perguntar “com que meios” poderiam esses
trabalhos serem realizados, a dupla pontuação final representada por uma interrogação e uma
exclamação não me parece erro de tipografia, mas indica uma pergunta já respondida, com certa
indignação: não havia nas mãos e nem no horizonte da província de Santa Catarina executar a
“simples” requisição da DGE: mapas geográficos coloridos das culturas desenvolvidas, precisão
geográfica da localização de cada paróquia, limites e contornos bem definidos de cada jurisdição,
inventário de terras devolutas e ocupadas estavam muito além do alcance do presidente Joaquim
Bandeira de Gouveia, das câmaras municipais, e creio ser possível afirmar que essa realidade seria
parecida em todas as demais províncias do Império. O próprio Atlas do Império de Cândido Mendes
de Almeida, publicado em 1868, não dividia as paróquias catarinenses com mais do que linhas retas
bastante arbitrárias – sem falar no já presente conflito de jurisdição com o Paraná na sua porção
ocidental. Ao exigir uma precisão impensável de uma província a DGE não encontrou mais do que
o eco de suas palavras respondido por uma pontuação dupla (?!).

Conclusões

Seja antes, durante ou depois do recenseamento, sempre houve alguma divergência ou hiato
entre instruções ou ambições centralizadas na Corte (dadas por intermédio da DGE ou do Ministério
do Império) e as respostas e contrapartidas das províncias, municípios e paróquias. A exposição
feita até aqui usa apenas alguns exemplos disponíveis e encontrados principalmente em Santa
Catarina, mas já pode dar uma noção da dinâmica entre o local e o nacional no contexto do censo de
1872. Mesmo bem construído, elogiado e consolidado nas estatísticas nacionais,61 essa contagem
populacional não escapou à contradição, às falhas, aos atrasos, às impossibilidades técnicas e
políticas. Amplamente utilizado por historiadores como base para suas pesquisas, é importante notar
                                                                                                                       
60
Decreto nº 4676, art. 4º.
61
O IBGE, órgão responsável pela estatística atual, considera o censo de 1872 como o primeiro de uma série (quase)
decenal de contagens populacionais. Também utiliza seus números no estabelecimento de linhas de evolução
populacional, consolidando, portanto, a contagem de 1872 ao validar seus resultados.

15  
 
 
que, como todos os processos, o recenseamento também foi construído e negociado. A análise
dessas condições de produção traz contribuições para entender as ferramentas dispostas pelo Estado
para sua constante afirmação e as formas adotadas pela DGE ele para representar a população
nacional. Nesse processo, a relação da Diretoria com as instâncias administrativas provinciais e
locais foi o enfoque privilegiado neste texto.
O censo de 1872 representa um esforço bem-sucedido de padronização e centralização
vistos como necessários para fugir dos valores “inteiramente imaginários” e tornar “esclarecidos e
aprofundados” os “grandes interesses do Estado” por meio da estatística. Padronização porque
todos os habitantes do Império que foram, de alguma forma, listados em seus nomes, idades,
profissões e nacionalidades foram transformados em algarismos e tabulados pela DGE.
Divergências regionais foram suprimidas por uma só metodologia para classificar condições sociais
criando uma imagem de Brasil uniforme, composto de 21 províncias e o Município Neutro.
E centralização porque a DGE tabulou todos os dados sozinha, reunindo as “3.000.000 de
fichas de família” em seu cubículo na Corte e contando os habitantes um a um até chegar aos
9.930.478 habitantes obtidos ao final. Para efeitos de comparação, o censo de 1852 previa que cada
município contaria seus habitantes apresentando à província um mapa municipal. Esta, por sua vez,
somaria todos eles e apresentaria à Corte um mapa provincial. Em 1872, coube às autoridades
intermediárias “a gloriosa missão” de prover as condições elementares para realização do censo,
conferir de perto os trabalhos, depois recolher o material e enviá-lo à Corte. A operação matemática
ficou toda a cargo do pequeno grupo da DGE, composto por 11 funcionários e alguns colaboradores
temporários.62
O censo e o trabalho da DGE representam, portanto, um esforço de centralização e
padronização máximos. Em suas tabelas, nada regional ou heterogêneo pode transparecer. O Brasil
torna-se um quadro limpo, alinhado e sem contradições. No entanto, uma análise nos mecanismos
que levaram à produção dessa imagem revela uma realidade mais complexa em que as ambições da
Corte nem sempre encontravam resposta nas províncias e as incongruências entre anseios nacionais
e respostas locais se tornam ainda perceptíveis. De um lado, o “engrandecimento e ilustração da
pátria” demandavam mapas coloridos e projeções cartográficas precisas. De outro, uma província
responde: “Como satisfazer semelhante pedido?”
                                                                                                                       
62
RMNI, 1872 (A), Anexo H, p. 26.

16  
 
 
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17  
 
 
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