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Integração Social por Teletrabalho http://portal.ua.pt/projectos/ist/obra11/default4.asp?

OP=44

Silvina Santana

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Introdução Teletrabalho e incapacidade


Definindo incapacidade
Objectivos O incapacitado no mercado de trabalho
Teletrabalho e incapacidade: como e em que condições
Enquadramento Geral

Teletrabalho e incapacidade

Metodologia de recolha e
análise de dados

Análise de dados e resultados

Conclusões e recomendações

Referências

3.Teletrabalho e incapacidade
Um grupo que tem sido apontado como potencial beneficiário da adopção do teletrabalho é
o constituído pelas pessoas que, por uma razão ou outra, estão relativamente 'amarrados à
casa', nomeadamente, as pessoas física, psicológica ou mentalmente incapacitadas. Os
benefícios que tal modalidade de trabalho pode trazer aos incapacitados têm sido utilizados
como um argumento de peso no apoio ao seu desenvolvimento mas, na prática, o assunto
tem sido pouco investigado.

3.1.Definindo incapacidade

3.1.1.A heterogeneidade das incapacidades

Os portadores de algum tipo de incapacidade são, muitas vezes, tratados como se


constituíssem um grupo com características, possibilidades e necessidades heterogéneas
quando, na realidade, eles são menos iguais entre si, segundo diversas dimensões, do que a
população normalmente classificada como capaz. Algo que parecem, sem dúvida, partilhar,
são as atitudes e os comportamentos que as pessoas 'normais' manifestam para com eles,
nomeadamente, o rótulo que, por norma, lhes apõem: deficientes.

Algumas 'deficiências' são mais visíveis, mais debilitantes ou mais mal compreendidas do que
outras. Mesmo dentro de uma mesma categoria pode existir uma grande variação de pessoa
para pessoa, por exemplo, ao nível da dependência em relação a terceiros que a doença
acarreta ou do tipo de trabalho que permite efectuar. Por outro lado, uma mesma
incapacidade pode manifestar-se de formas muito diversas: para alguns, a artrite traduz-se
em dificuldades em permanecer de pé enquanto a outros impede estarem sentados por
longos períodos de tempo.

3.1.2.O carácter escondido e evolutivo de certas incapacidades

Em certas doenças como a epilepsia e a diabetes, os sintomas visíveis podem não existir e a
pessoa pode parecer perfeitamente saudável e capaz de trabalhar. Os indivíduos nestas
situações podem executar uma grande variedade de tarefas sem necessidade de proceder a
qualquer tipo de modificações. No entanto, confrontados com este tipo de situações,
nomeadamente, no caso da epilepsia, alguns empregadores acabam por lhes recusar
emprego, argumentado que podem por em risco quer a sua vida quer a de terceiros.

Outras dimensões escondidas da incapacidade são a fadiga e a flutuação nas condições da


pessoa inerentes a certas doenças ou incapacidades. Estas situações parecem
particularmente difíceis de entender e de aceitar por parte dos empregadores (BT
Laboratories, 1991).

Por outro lado, certas doenças apresentam um carácter evolutivo, em que as capacidades se

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vão deteriorando ao longo de um período de tempo mais ou menos longo e de duração mais
ou menos imprevisível. Levando a catalogação ao extremo, pode mesmo dizer-se que esta é
a situação em que se encontram muitos trabalhadores de idade mais avançada, os quais, a
partir de determinada altura da sua vida, começam a experimentar problemas de saúde que
lhes dificultam, por exemplo, a movimentação ou a permanência em determinadas posições
ou ambientes por períodos longos de tempo.

3.1.3.Tipos de incapacidade

Embora existam diversas formas de catalogar as diferentes doenças e/ou incapacidade, no


caso do presente estudo afigura-se mais adequada a identificação e descrição de categorias
gerais, de acordo com as faculdades chave afectadas. Assim, e excluindo a deficiência
mental, os efeitos das diferentes formas de incapacidade manifestam-se, primariamente, ao
nível da:

· comunicação

· mobilidade

· destreza e movimento

· continuidade e velocidade

A deficiência mental pode significar a diminuição simultânea de capacidades nestas quatro


áreas.

3.2.O incapacitado no mercado de trabalho

A difusão alargada do teletrabalho está longe de ter acontecido. A fazer fé nas conclusões
de programas levados a cabo em diferentes países europeus, como o AVISE, também não se
pode afirmar que o teletrabalho está a oferecer novas oportunidades de trabalho às pessoas
portadoras de incapacidade. Existem experiências em curso mas numa escala reduzida.

Ora a passagem de uma sociedade industrial para uma sociedade baseada nos serviços
implica o advento de uma nova forma de produtividade, focada no valor acrescentado por
cada implicado e não tanto no volume produzido. É, pois, de esperar que, ao
teletrabalhador do futuro, sejam exigidos mais qualificações, maior sentido de
responsabilidade, mais autonomia e maior capacidade de adaptação. Posto isto, parece
evidente que certas pessoas se encontrarão melhor preparadas para teletrabalhar e para
disso tirar partido. Nomeadamente, as pessoas com altos níveis de escolaridade e muito
motivadas poderão ter bastante mais facilidade em se adaptarem às novas condições de
trabalho. Pessoas desfavorecidas, como os desempregados de longa duração ou aqueles que
possuem poucas qualificações ou que não puderam ou souberam actualizá-las, sejam ou não
portadores de incapacidade, experimentarão sérias dificuldades no acesso ao trabalho,
designadamente, ao teletrabalho (Milpied et al., 1996a).

Os problemas específicos dos incapacitados e o seu mais baixo nível de qualificação médio,
quando comparados com o grosso da população activa, a falta de conhecimentos na área da
promoção de capacidades e da procura de encomendas e a não consciencialização atempada
para o problema e a aparente falta de interesse e de necessidade das empresas, apostadas
em assegurar a viabilidade e a sobrevivência em mercados altamente competitivos, leva a
questionar que tipo de oportunidades reais de trabalho para as pessoas portadoras de
incapacidade poderão ser encontradas no futuro e até que ponto o teletrabalho significa
uma mudança na diversidade e na qualidade das opções disponíveis.

Como revela um estudo canadiano, o mercado de trabalho parece ter falta de receptividade
em relação às pessoas portadoras de incapacidade (Lapoint et al., 1998). Este facto acontece
mesmo quando o nível de escolaridade dos incapacitados é semelhante ao da generalidade
da população activa e acentua-se com a idade dos trabalhadores.

De acordo com os resultados do trabalho levado a cabo no âmbito do projecto AVISE, o


estabelecimento de actividades em regime de teletrabalho parece depender das diferentes
abordagens utilizadas pelos seus promotores e do contexto em que são desenvolvidas
(Milpied et al., 1996a). Em França e na Alemanha, as entidades públicas não têm contribuído
activamente nem extensivamente para o desenvolvimento do teletrabalho no terreno e têm

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sido entidades privadas como as associações e as empresas a tomar a iniciativa. O interesse


que tem sido mostrado no teletrabalho não parece estar, pois, a traduzir-se em acções
concretas levadas a cabo no terreno. Em Espanha, pelo contrário, os actores institucionais,
nomeadamente, através de programas europeus, parecem ser um elemento essencial no
estabelecimento do teletrabalho. No entanto, a experiência ainda é muito reduzida.

Na Inglaterra, desde 1944 que o governo recomenda às empresas com vinte ou mais
trabalhadores que mantenham uma quota de 3% de incapacitados oficialmente registados na
sua força de trabalho. No entanto, como muitas pessoas nestas circunstâncias não estão
registados, muitas vezes porque não se vêem como deficientes ou não querem ser
catalogadas como tal ou porque desconhecem a existência de programas ou benefícios que
lhes são dedicados, a sua contratação não pode ser utilizada para o preenchimento dessa
quota, tornando o esquema pouco eficiente. Por outro lado, vários autores têm chamado a
atenção para o facto de o início da actividade laboral poder significar a perda da pensão de
invalidez e de outros benefícios para o deficiente, perda que não é, por norma, compensada
com o salário auferido pelo trabalho, ou teletrabalho, efectuado. Assim, o desenvolvimento
de medidas de enquadramento e apoio por parte das entidades públicas responsáveis parece
de vital importância (BT Laboratories, 1991).

Um estudo do mercado regional de teleserviços levado a cabo em França mostra que a


implementação bem sucedida deste tipo de serviços depende da aproximação que é feita ao
mercado. Nomeadamente, ela implica uma abordagem muito dirigida e selectiva, quer do
ponto de vista geográfico quer económico, tendo sempre em consideração os serviços
propostos (Milpied et al., 1996a). Esta investigação determinou três eixos principais de
actuação:

· o sector institucional;

· as pequenas e médias empresa

· as micro-empresas e os profissionais livres.

3.3.Teletrabalho e incapacidade: como e em que condições

O teletrabalho é frequentemente apresentado como uma solução vantajosa no que respeita


ao acesso ao mercado de trabalho por parte de pessoas portadoras de incapacidade,
sobretudo daquelas que têm dificuldades em deslocar-se.

Realizados em meados da década 1980-1990, muitos dos estudos de viabilidade procuraram


determinar com os empregadores os tipos de tarefas susceptíveis de serem realizadas em
regime de teletrabalho e formar os futuros teletrabalhadores. Para estes últimos, trabalhar
terá sido a motivação principal, uma vez que, na altura do recrutamento, a maioria se
encontrava desempregada. A hipótese de procederem a uma reciclagem dos conhecimentos
também terá exercido um efeito positivo na sua motivação. Com efeito, uma grande parte
não possuía a especialização requerida para efectuar as tarefas designadas e a formação
ocupava um lugar de relevo nesses programas (Lapoint et al., 1998).

As conclusões, que se apoiam sobre o grau de satisfação exprimido pelos trabalhadores e


pela entidade patronal, são quase sempre favoráveis à implementação do teletrabalho para
pessoas portadoras de incapacidade. Factores como produtividade, qualidade do trabalho,
respeito pelos prazos e absentismo são, na generalidade, avaliados de forma positiva.

Como se debruçam, essencialmente, sobre a problemática do acesso ao emprego, esses


estudos apresentam limites inerentes à perspectiva adoptada. Nomeadamente, os processos
de selecção dos candidatos, assentes nas características individuais habitualmente
requeridas para ser bem sucedido em teletrabalho, acabaram por filtrar apenas os mais
aptos. Por outro lado, os postos de trabalho criados, muito especializados, requeriam pouca
interacção e estavam bem adaptados ao trabalho à distância mas não representavam bem a
gama de funções passíveis de serem realizadas por pessoas incapacitadas. No entanto, estes
programas tiveram o mérito de aumentar o estado do conhecimento nesta área e de
demonstrar que o teletrabalho pode, sob certas condições, demonstrar-se uma ferramenta
valiosa no acesso ao mercado de trabalho.

As conclusões retiradas dos estudos efectuados no âmbito do programa AVISE na Europa

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mostram um panorama bastante mais matizado, descrito em termos cautelosos. Também


eles relevam várias questões que se levantam em torno da implementação de soluções
baseadas em teletrabalho que permitam o acesso ao emprego por parte de pessoas
debilitadas ou incapacitadas.

3.3.1.O efeito da incapacidade no trabalho

A incapacidade deve ser avaliada em termo das tarefas a serem efectuadas, uma vez que
determinada condição pode ter pouco ou nenhum efeito na capacidade da pessoa para
executar determinado trabalho mas apresentar-se como um obstáculo intransponível à
realização de outro.

Dada a variedade de incapacidades e de tipos de tarefas existentes, enumerar e dissecar


todos os possíveis efeitos das primeiras sobre a execução dos segundos seria pouco
apropriado. Como uma determinada incapacidade se pode manifestar de diversas formas e
com variados níveis de impedimento para diferentes pessoas, a utilidade de um tal
procedimento é também questionável. Por isso, afigura-se preferível analisar aspectos
partilhados pela maioria dos portadores de algum tipo de incapacidade e que se mostram
particularmente relevantes para o teletrabalho (BT Laboratories, 1991).

· Deslocação e acesso aos edifícios

Para muitas pessoas, o funcionamento no local de trabalho não apresenta problemas. A


maior dificuldade que enfrentam é a deslocação de casa para o trabalho e vice-versa e o
acesso aos edifícios (Lapointe et al., 1998). O recurso a horários flexíveis, de modo a evitar
as horas de ponta, e a utilização de transportes especiais podem não ser suficientes para
evitar os atrasos ou reduzir o absentismo. Por outro lado, estas viagens consumem muita da
energia do trabalhador, facto que é particularmente importante no caso de pessoas já de si
debilitadas fisicamente.

O trabalho a partir de casa evita estes problemas e permite ao teletrabalhador portador de


incapacidade obter um melhor desempenho, desfrutando de maior comodidade e conforto. O
trabalho em telecentros, embora não evitando completamente as viagens, pode reduzi-las
significativamente, ao mesmo tempo que atenua certas desvantagens associadas ao
teletrabalho a partir de casa, como o isolamento e a exclusão, e permite ao teletrabalhador
aceder com maior faciliadade a um conjunto de serviços, como o auxílio administrativo e
tecnológico.

· Controlo sobre o ambiente de trabalho

Outro problema difícil de resolver para os portadores de incapacidade pode ser a


distribuição dos equipamentos e outros objectos que utilizam na realização do seu trabalho.
Embora seja sempre possível redesenhar o ambiente de trabalho de modo a adaptá-lo
melhor às necessidades destes trabalhadores, a verdade é que as instalações continuam a
ser pensadas para serem utilizadas por muitas pessoas, pelo que pode ser difícil mudar tudo
o que é necessário, incluindo os recursos partilhados, de modo a tornar a vida dos
portadores de incapacidade mais fácil. Por outro lado, muitas das adaptações podem
envolver obras de vulto, como a construção de casas de banho adaptadas à utilização de
incapacitados físicos e de rampas de acesso ou a instalação de elevadores, envolvendo
custos difíceis de suportar pelas empresas mais pequenas e movimentações e dispêndios de
tempo difíceis de encarar por muitas outras.

O teletrabalhador a partir de casa, pelo contrário, tem um controlo total sobre o seu
ambiente. Num telecentro pensado para ser utilizado por portadores de deficiência, estes
problemas podem ser levantados e resolvidos desde o início, havendo, em princípio, maior
disponibilidade para solucionar os que vão entretanto surgindo.

· Ritmo de trabalho

Muitos portadores de incapacidade conseguem lidar com os seus problemas de saúde e


trabalhar perfeitamente bem durante grande parte do tempo. Por isso, muitas vezes é
contraproducente enfatizar a lista das incapacidades, uma vez que esta face da questão é,
frequentemente, a única que os empregadores percebem. Ao invés, torna-se fundamental
relevar as capacidades desta potencial força de trabalho: a capacidade de produção, o
comprometimento, o empenhamento que normalmente demonstram, a consciência.

No entanto, é fundamental alertar os futuros empregadores para o carácter escondido de


certas incapacidades e para eventuais flutuações no desempenho das pessoas, uma vez que
tal pode implicar a necessidade de providenciar condições de trabalho mais flexíveis. De
acordo com estudos efectuados (BT Laboratories, 1991), as empresas não saem

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necessariamente defraudadas, uma vez que as pessoas acabam por, informalmente,


trabalhar mais do que as horas acordadas de forma a assegurar que o seu trabalho atinge os
padrões estabelecidos.

O teletrabalho oferece vantagens óbvias neste campo, uma vez que permite ao incapacitado
organizar as tarefas de acordo com as suas condições de saúde, programar melhor eventuais
tratamentos médicos e encaixar as necessárias acções de formação. Por seu turno, a
possibilidade de o empregador oferecer condições adequadas ao teletrabalhador
incapacitado depende muito da natureza do trabalho.

3.3.2.Oportunidades de trabalho

De acordo com os resultados das investigações levadas a cabo no âmbito do projecto AVISE,
o processamento de texto, a preparação de relatórios, a publicação assistida por
computador, a programação, a entrada de dados e o desenho assistido por computador são
os serviços prestados em regime de teletrabalho que se encontram mais divulgados. O leque
encontrado inclui, ainda, o planeamento financeiro, a tradução, as tele-vendas, o
tele-marketing, a tele-informação, a tele-manutenção, o tele-treino, a contabilidade e a
aceitação de encomendas (Milpied et al., 1996b; Milpied et al., 1996c).

A maioria da oferta centra-se em torno dos serviços de secretariado e de atendimento


telefónico. Muitos dos implicados estão prontos a oferecer outros serviços mas foram vários
os que apontaram a fraca procura pelas actividades de grande valor acrescentado. O
principal problema que se põe em relação a este tipo de serviços é a flutuação do volume de
trabalho, que torna a gestão das empresas de teleserviços muito difícil.

As associações de e a favor de pessoas portadoras de incapacidade enfrentam, acima de


tudo, o problema criado pela baixa remuneração que recebem pelos serviços básicos
prestados. Com vista a assegurar o futuro a longo prazo, estas associações têm vindo a
voltar-se para a recolha de dados confidenciais no sector público, os quais podem garantir
cinco a dez anos de trabalho. Mas um dos maiores objectivos é assegurar actividades mais
bem remuneradas e de maior valor acrescentado.

No entanto, a concretização desta estratégia afigura-se difícil. O trabalho mais qualificado


requer grandes recursos em termos de equipamento e de qualificação dos trabalhadores.
Ora, muitas associações não têm meios de investimento e as pessoas portadoras de
incapacidade apresentam, muitas vezes, baixos níveis de qualificação.

De um modo geral, muitas das iniciativas são implementadas sem que sejam efectuados
quaisquer tipo de estudos de mercado e de viabilidade. Sem noção das necessidades
presentes e futuras do mercado e dos problemas a enfrentar e sem capacidade de marketing
e de promoção dos serviços oferecidos, muitos centros acabam por enfrentar sérios
problemas financeiros (Milpied et al., 1996c).

3.3.3.Organização do trabalho

A organização do trabalho depende do modelo de teletrabalho implementado.

No caso de um telecentro, o que acaba por emergir é uma forma de organização mais ou
menos tradicional, em que existe um responsável e vários trabalhadores. Como, geralmente,
são unidades de pequena dimensão, estes centros não apresentam muitos dos problemas das
grandes empresas.

Do ponto de vista da organização do trabalho, os telecentros apresentam diversas


vantagens. O facto de agruparem vários trabalhadores torna viável a recolha e entrega dos
documentos a serem tratados em tempo útil, a utilização de equipamentos mais
dispendiosos, a gestão mais eficiente do trabalho das pessoas com incapacidades e a
realização de acções de formação.

No que respeita ao teletrabalho a partir de casa, o facto que emerge com mais veemência é
o reduzido contacto físico entre alguns teletrabalhadores e respectivos colegas e
empregadores. Outros recebem visitas regulares de colegas e de clientes, que lhes fornecem
instruções e resolvem problemas técnicos relacionados com o trabalho. Todos os
teletrabalhadores entrevistados em França realçaram a flexibilidade dada pelo trabalho em
casa e o modo como lhes permite gerir os problemas de saúde (Milpied et al., 1996c).

3.3.4.Vantagens e desvantagens do teletrabalho para pessoas com deficiência

Com base na revisão bibliográfica efectuada, nomeadamente, dos estudos levados a cabo no
âmbito dos projectos AVISE e Emploi-ACCÈS, elaboraram-se os seguintes quadros, que
sintetizam as vantagens e desvantagens/limites do teletrabalho, na opinião das diversas

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partes intervenientes no processo (Quadro 1 e Quadro 2 ).

Muitas destes aspectos respeitam ao teletrabalho em geral, envolvendo, ou não,


teletrabalhadores portadores de incapacidade. As consequências manifestam-se de forma
diferente, de acordo com o tipo de tarefas e certas características pessoais e
organizacionais (Lapointe et al., 1998). Os teletrabalhadores portadores de incapacidade não
são excepção. No entanto, neste caso, os efeitos são, muitas vezes, ou ampliados ou
neutralizados. Algumas das vantagens podem significar uma diferença considerável na vida
destas pessoas e esta diferença repercute-se em todas as esferas de actividade.

Algumas das desvantagens podem ser atenuadas ou ultrapassadas pelo recurso ao trabalho a
partir de telecentros. Para alguns dos intervenientes no processo, designadamente,
associações de pessoas portadoras de deficiência, esta alternativa traz diversas vantagens.
De acordo com os resultados dos estudos efectuados em França, muitas destas associações,
activamente envolvidas e extremamente empenhadas em encontrar soluções válidas para
todo o tipo de incapacidade, demonstram grandes reservas em relação ao teletrabalho e
estão preocupadas com os aspectos psico-sociais (integração do portador de incapacidade no
ambiente de trabalho normal), económicos (obtenção de mercados permanentes e
rentáveis) e organizacionais. A experiência obtida no terreno leva-as, agora, a preterir o
teletrabalho a partir de casa em favor do teletrabalho efectuado em telecentros.

No entanto, um aspecto enfatizado na maioria dos estudos é que cada caso é um caso.
Alguns portadores de incapacidade preferem trabalhar no isolamento das suas casas,
enquanto que, para outros, o contacto social e profissional conseguido pela via da
implementação do teletrabalho a partir de casa se demonstra adequado às suas
necessidades.

Quadro 1 – Vantagens do teletrabalho

Vantagens

Para o trabalhador Ultrapassa o problema da mobilidade

Acesso ao trabalho dos incapacitados que vivem


em áreas rurais

Adaptação livre do ambiente de trabalho

Liberdade na tomada de certas decisões;


autonomia

Conforto

Velocidade dos contactos

Maior facilidade no acesso à formação

Menores níveis de stress

Menos fadiga

Melhoria da qualidade de vida

Desaparece a discriminação

Maior motivação

Maior flexibilidade

Economia de tempo e de esforços


Para o empregador Processo produtivo dinâmico

Ganho de tempo

Aumento da produtividade

Diminuição dos custos indirectos (manutenção e

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instalação)

Permite continuar a beneficiar das competências


e dos conhecimentos de trabalhadores
portadores de incapacidades evolutivas

Redução do absentismo
Ponto de vista das Solução potencial não só para portadores de
associações de incapacidade sensorial e motora mas também
portadores de para deficientes mentais
incapacidade
Ponto de vista dos Promoção da autonomia e da descentralização
sindicatos
Aumento da produtividade

Introdução de novas formas de trabalho

Quadro 2 – Desvantagens e limitações do teletrabalho.

Desvantagens/Limites

Para o trabalhador Pouco contacto social e de trabalho

Problemas psicológicos (percepção do trabalho)

Ausência de relações profissionais

Sentimento de marginalização

Conflitos entre vida profissional e vida familiar

Necessidade de esforço de auto-disciplina

Necessidade de familiarização com suportes


informáticos

Instabilidade do mercado de trabalho

Falta de visibilidade

Perda de sentimento de pertença

Tendência para se colocarem numa posição


marginal, de 'não querer incomodar'

Poder significar a perda de benefícios

Poder significar o esquecimento e o


desinteresse a longo prazo por parte das
entidades oficiais, por crerem o problema da
integração resolvido
Para o empregador Perda de controlo directo sobre o empregado

Excessiva descentralização pode resultar na


redução do desempenho

Custos de capital e de depreciação

Período de adaptação (comunicação, circulação


de informação, práticas de gestão, repartição
das tarefas, ...)

Descontentamento e ressentimento por parte

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dos colegas

Custo das adaptações a efectuar nos


equipamentos
Ponto de vista das
associações de portadores
de incapacidade
Ponto de vista dos Isolamento e marginalização
sindicatos
Aumento das tensões no trabalho

Exploração dos trabalhadores

Maior dificuldade na sindicalização

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3.3.5.Condições favoráveis e desfavoráveis à implementação do teletrabalho

Os resultados dos estudos analisados parecem indicar que as condições com impacto na
implementação de esquemas de teletrabalho são, essencialmente, de ordem económica,
humana e legal. Os aspectos político e tecnológico parecem ser secundários.

· Aspectos económicos

As vantagens económicas são, sem sombra de dúvida, um dos mais poderosos motores da
implementação do teletrabalho. Por isso, o facto de nem sempre ser fácil, ou possível,
contabilizar futuros efeitos financeiros pode ser apontado como um factor limitativo da sua
expansão.

Por outro lado, a existência de subsídios para a integração de trabalhadores portadores de


incapacidade e para a aquisição de equipamentos pode incentivar a sua adopção. No
entanto, esta situação pode significar a imposição do teletrabalho a trabalhadores que,
embora portadores de incapacidade, desejam e conseguem integrar-se em esquemas de
trabalho tradicionais.

Os custos associados ao investimento técnico e à gestão dos teletrabalhadores e os custos


inerentes à adaptação do equipamento informático a utilizar por portadores de
incapacidade são outros dos aspectos apontados pelas empresas.

· Aspectos legais

A falta de legislação relacionada com o teletrabalho parece constituir uma importante


obstrução ao seu avanço. Este problema é significativo para o teletrabalho em geral.
Algumas das questões mais mencionadas, especialmente pelos sindicatos, são a existência de
diferentes tipos de contrato de trabalho, o estatuto legal do teletrabalhador e a protecção
social. Por isso, quer os sindicatos quer as associações de e a favor das pessoas portadoras
de deficiência insistem na necessidade de clarificar a legislação.

· Aspectos humanos

A aceitação social do teletrabalho realizado por pessoas portadoras de incapacidade é um


factor determinante na sua implementação e difusão.

A dificuldade em reconciliar o trabalho com a vida privada, em organizar o trabalho e em


lidar com o isolamento também influenciam de forma negativa a sua implementação, pelo
que algumas associações acabam por optar pela instalação de telecentros, reservando a
implementação de esquemas de teletrabalho a partir de casa para situações excepcionais.

A formação em tecnologias da informação e da comunicação, do ponto de vista do


utilizador, parece ser essencial. Para além do conhecimento das ferramentas directamente
ligadas à execução das tarefas distribuídas ao teletrabalhador, a capacidade para
estabelecer comunicações remotas utilizando o computador, para perceber quando, como e
porque razão é necessário enviar e receber informação e para utilizar ferramentas
colaborativas pode ser determinante.

A autonomia em relação à gestão do tempo de trabalho e em relação à tomada de decisões


é também muito importante, já que se torna impraticável o constante pedido de ajuda e de
aconselhamento.

O apoio real e psicológico do(a) companheiro(a), da família e de amigos, principalmente no


caso em que o teletrabalhador trabalha a partir de casa e/ou está limitado por problemas
severos ao nível da mobilidade e da autonomia pode ser fundamental.

· Aspectos políticos

As preocupações com o ambiente e a tendência que se verifica no sentido da criação de


emprego em zonas rurais desertificadas com vista à fixação das pessoas, podem beneficiar,
claramente, a implementação de projectos de teletrabalho. Por outro lado, o crescente
interesse político no fenómeno da exclusão social, traz o teletrabalho para a ordem do dia,
enquanto ferramenta capaz de promover e suportar o emprego e de conter o avanço do
desemprego e das desigualdades sociais.

· Aspectos tecnológicos

De acordo com os estudos analisados, os aspectos tecnológicos não parecem ter uma
importância especial na implementação do teletrabalho.

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De um modo geral, todos os inquiridos concordaram quanto às oportunidades oferecidas


pelas novas TIC, especialmente devido à possibilidade de adaptar o hardware e o software
às necessidades específicas dos utilizadores.

Por outro lado, os custos do equipamento adaptado, incluindo os estudos ergonómicos por
vezes requeridos, parecem ser demasiado elevados.

3.3.6. Necessidades de formação

Neste campo, as situações mais difíceis a enfrentar são as protagonizadas pelos


incapacitados desempregados e menos qualificados.

No caso de um futuro teletrabalhador a partir de casa, para além da qualificação mínima é


necessário desenvolver a autonomia e a capacidade de gestão do trabalho, a auto-disciplina
e a responsabilidade. Muitos necessitarão de formação na área das novas TIC, uma vez que
elas se tornaram quase indispensáveis nesta nova modalidade de trabalho e muitas
aplicações informáticas significam novas oportunidades de trabalho.

A formação deverá ocorrer em diversos momentos, nomeadamente, antes do início da


actividade e, de seguida, periodicamente, sempre que se mostre necessária. A utilização de
TIC permite o recurso à teleformação, designadamente, com vista a preparar o
teletrabalhador para actividades futuras e a mantê-lo actualizado em relação a novos
desenvolvimentos tecnológicos.

No âmbito do projecto Emploi-ACCÈS, a implementação do teletrabalho foi precedida de


acções de sensibilização para a nova modalidade de trabalho, que incluíram uma introdução
ao teletrabalho e às técnicas de gestão à distância e conselhos práticos acerca da
organização diária do trabalho no domicílio. Aos responsáveis pelo apoio informático foi
oferecida uma iniciação às particularidades das modalidades de telecomunicações e do
suporte técnico do trabalho à distância. A equipa do projecto elaborou um 'guia sobre o
teletrabalho', em formatos impresso, braille e electrónico, que distribuiu aos trabalhadores
e aos seus superiores imediatos. Um diário foi colocado à disposição dos teletrabalhadores,
para que pudessem anotar os aspectos positivos e negativos da experiência. A utilização de
novas tecnologias obrigou ao fornecimento de formação nesta área, que se processou em
paralelo com os estudos técnicos e ergonómicos necessários à adaptação dos equipamentos
às necessidades especiais dos utilizadores.

Dado que mesmo tarefas relativamente simples como o processamento de texto beneficiam
com a qualificação do trabalhador, torna-se necessário identificar as debilidades ao nível da
formação dos futuros teletrabalhadores (e.g., português) de modo a combater eficazmente
possíveis fontes de insucesso. O domínio da língua, por exemplo, evita ou reduz,
significativamente, a necessidade de supervisão do trabalho a jusante, tarefa que é
encarada pelos empregadores como gasto de tempo e de dinheiro (Milpied et al., 1996c).

Quando possível, parecem existir vantagens em fomentar a formação do teletrabalhador nas


instalações do cliente. Este período de treino traz-lhe conhecimento acerca da empresa, das
pessoas que lá trabalham, dos seus processos e da tecnologia que utiliza.

A estratégia de implementação das acções de formação deve ser orientada para o mercado,
no sentido em que deve responder às oportunidades locais de emprego previamente
identificadas. Fundamental parece ser também a existência de uma colaboração estreita
entre as empresas empregadoras e os centros de formação (Milpied et al., 1996a).

Dadas as alterações que a implementação do teletrabalho significa nas práticas de gestão


comuns, especialmente quando executado por pessoas portadoras de incapacidade, vários
autores advogam a necessidade de providenciar formação para os gestores mais
directamente implicados no processo.

3.3.7.Soluções tecnológicas

A transferência de capacidade de processamento e armazenamento de informação de


sistemas centralizados, que formaram cenários típicos das décadas de 70 e 80, para os
computadores pessoais transformou, a pouco e pouco, os postos individuais de trabalho em
sistemas autónomos, dentro da empresa ou fora dela. Assim, fica facilitada a independência
do trabalhador face ao local de trabalho. Por outro lado, mesmo em ambientes onde o
acesso a sistemas centralizados é um requisito fundamental, as actuais tecnologias de
comunicação facilitam essa mobilidade. A mobilidade e a sua gestão são apontados por
muitos autores/visionários como o grande desafio dos próximos anos.

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As soluções para o teletrabalho são construídas a partir de sistemas normalizados e o uso é


transparente em relação ao processo de comunicação. As interfaces humano-computador
são iguais às que o trabalhador utilizaria no escritório tradicional.

Para a pessoa portadora de incapacidade, o maior problema a enfrentar é a utilização de


periféricos de entrada e/ou de saída, dado que lhe pode faltar mobilidade, força e/ou
destreza, possuir deficiências mais ou menos graves ao nível da visão ou da audição,
apresentar movimentos imprecisos ou qualquer outro problema do foro físico, sensorial ou
neurológico que lhe impeça ou dificulte a utilização dos periféricos normais.

Diversos dispositivos e aplicações existentes permitem adaptar o computador à pessoa. A


função principal destas ajudas é permitir ou aumentar a eficiência das interacções do
portador de incapacidade com o computador, quer no que respeita à entrada de dados ou
comandos quer na saída. Para além de dispositivos de entrada e de saída é ainda necessária
a existência de aplicações que permitam interpretar e traduzir sinais recebidos dos
dispositivos de entrada. A Figura 1 sintetiza o universo de ajudas tecnológicas existentes.

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Figura 1 – Tipos de ajudas tecnológicas.

3.3.8.Acesso ao teletrabalho. O papel das entidades mediadoras

Segundo os resultados dos estudos europeus anteriormente citados, algumas associações de e


a favor de pessoas portadoras de incapacidade acreditam que o teletrabalho a partir de casa
não pode ser igualado a uma real integração profissional e que, em alguns casos, ele vai
mesmo contra os objectivos da legislação relacionada com a integração de pessoas
incapacitadas no ambiente normal de trabalho. Assim, o trabalho em telecentros, se
possível integrando também pessoas ditas 'normais', apresenta-se como a melhor solução de
compromisso.

O acesso de incapacitados desempregados ao trabalho parece ser especialmente difícil de


implementar: a pessoa tem que ser formada para as tarefas que irá desempenhar, de acordo
com as suas capacidades, habilidades e expectativas; mecanismos de procura de potenciais

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empregadores dispostos a empregar um teletrabalhador portador de incapacidade têm que


ser accionados; o empregador tem que ser convencido das vantagens da escolha que vai
efectuar.

De acordo com as conclusões finais do programa AVISE, é praticamente impossível para a


pessoa incapacitada vencer os obstáculos financeiros, profissionais e culturais que acabam
por se colocar sem apoio específico de uma entidade a que se poderá chamar 'operador
social'.

De entre as tarefas do operador social destacam-se (Milpied et al., 1996a):

· a constituição de uma carteira de clientes e de actividades, numa perspectiva de


prospecção activa e constante, e o desenvolvimento da lealdade desses clientes;

· o fornecimento de formação adequada, directamente relacionada com as


oportunidades identificadas e focando, designadamente, o uso de novas ferramentas
de trabalho, a aquisição de autonomia e a organização do trabalho;

· a ajuda ao teletrabalhador na negociação de contratos de trabalho adequados às


necessidades e expectativas do empregador e do empregado;

· a providência de acompanhamento psicológico para o teletrabalhador quando ela se


mostra necessária e

· o estabelecimento de relações fortes e de confiança com os empregadores.

Uma tarefa não mencionada, mas que, face ao reduzido poder de intervenção do
incapacitado individual e ao tipo de tarefas descritas, surge como evidente e inevitável, é a
constituição, ou pelo menos o apoio à constituição, e o acompanhamento do funcionamento
de eventuais telecentros.

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