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A VERDADE E AS FORMAS JURÍDICAS

Michel Foucault

FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro; NAU


Editora, 2002.

“Pareceu-me entre as práticas sociais em que a análise histórica permite


localizar a emergência de novas formas de subjetividade, as práticas jurídicas,
ou mais precisamente, as práticas judiciárias, estão entre as mais importantes.”
p. 11

“As práticas judiciárias me parecem uma das formas pelas quais nossa
sociedade definiu tipos de subjetividade, formas de saber e, por conseguinte,
relações entre o homem e a verdade que merecem ser estudadas.” p. 11

“Eis a visão geral do tema que pretendo desenvolver: as formas jurídicas e, por
conseguinte, sua evolução no campo do direito penal como lugar de origem de
um determinado número de formas de verdade. Tentarei mostrar-lhes como
certas formas de verdade podem ser definidas a partir da prática penal. Pois o
que chamamos de inquérito é uma forma bem característica da verdade em
nossas sociedades.” P. 12

“Foi no meio da Idade Média que o inquérito apareceu como forma de pesquisa
da verdade no interior da ordem jurídica.” P. 12

“É somente nas relações de luta e de poder – na maneira como as coisas entre


si, os homens entre si se odeiam, lutam, procuram dominar uns aos outros,
querem exercer, uns sobre os outros, relações de poder – que compreendemos
em que consiste o conhecimento.” p. 23

“Só há conhecimento na medida em que, entre o homem e o que ele conhece,


estabelece, se trama algo como uma luta singular, um tête-à-tête, um duelo.” P.
26

“Gostaria de mostrar nessa série de conferências de que maneira relações


políticas se estabeleceram e se investiram profundamente na nossa cultura
dando lugar a uma série de fenômenos que não podem ser explicados a não
ser que os relacionemos n]ao às estruturas econômicas, às relações
econômicas de produção, mas às relações políticas que investem toda a trama
de nossa existência. “ p. 31

Sobre o mecanismo de produção da verdade em Édipo. “De um lado estão os


deuses, do outro os pastores. Mas entre os dois há o nível dos reis, ou melhor,
o nível de Édipo.” P. 40

“A peça de Sófocles representa um certo tipo de saber-e-poder, poder-e-


saber.” P. 48
“Nas sociedades indo-europeias do leste do Mediterrâneo, no final do segundo
e início do primeiro milênios, o poder político era sempre detentor de um certo
tipo de saber. O rei e os que o cercavam, pelo fato de deterem o poder,
detinham um saber que não podia e não devia ser comunicado aos outros
grupos sociais. Saber e poder eram exatamente correspondentes, correlativos,
superpostos. Não podia haver saber sem poder. E não podia haver poder
político sem a detenção de um certo saber especial.” P. 49

“O que aconteceu na origem da sociedade grega, na origem da idade grega do


século V, na origem de nossa civilização, foi o desmantelamento desta grande
unidade de um poder político que seria ao mesmo tempo um saber.” P. 50

“O Ocidente vai ser dominado pelo grande mito de que a verdade nunca
pertence ao poder político, de que o poder político é cego, de que o verdadeiro
saber é o que se possui quando se está em contato com o deuses ou nos
recordamos das coisas...” p. 51

“A testemunha, a humilde testemunha, por meio unicamente do jogo da


verdade que ela viu e enuncia, pode sozinha, vencer os mais poderosos.
Édipo-Rei é uma espécie de resumo da história do direito grego.” P. 54

“A história do processo através do qual o povo se apoderou do direito de julgar,


do direito de dizer a verdade, de opor a verdade aos seus próprios senhores,
de julgar aqueles que os governam.” P. 54

“Quando alguém é morto, um de seus parentes próximos pode exercer a


prática judiciária da vingança, não significando isso renunciar a matar alguém,
em princípio, o assassino. Entrar no domínio do direito significa matar o
assassino, mas mata-lo segundo certas regras, certas formas.” P. 57

“Esses atos vão ritualizar o gesto de vingança e caracterizá-lo como vingança


judiciária. O direito é, portanto, a forma ritual da guerra.” P. 57

“No direito feudal o litígio entre dois indivíduos era regulamentado pelo sistema
da prova. Quando um indivíduo se apresentava como portador de uma
reinvindicação, de uma contestação, acusando um outro de ter matado ou
roubado, o litígio entre os dois era resolvido por uma série de provas aceitas
por ambos e a que os dois eram submetidos. Esse sistema era uma maneira
de provar não a verdade, mas a força, o peso, a importância de quem dizia.” P.
59

“Na sociedade feudal, em relação ao crime, a velha noção de dano é


substituída pela noção de infração. A infração não é um dano cometido por um
indivíduo contra o outro; é uma ofensa ou lesão de um indivíduo à ordem, o
Estado, à lei, à sociedade, à soberania, ao soberano. A infração é uma das
grandes invenções do pensamento medieval.” P. 66

“O Estado, ou melhor, o soberano, é não somente a parte lesada mas a que


exige reparação. Quando um indivíduo perde o processo é declarado culpado e
deve ainda uma reparação à sua vítima.” P. 67
“Não foi racionalizando os procedimentos judiciários que se chegou ao
procedimento de inquérito. Foi toda uma transformação política, uma nova
estrutura política que torno não só possível , mas necessária a utilização desse
procedimento no domínio judiciário. O inquérito na Europa Medieval é
sobretudo um processo de governo, uma técnica de administração, uma
modalidade de gestão; em outras palavras, o inquérito é uma determinada
maneira do poder se exercer.” P. 73

“Somente a análise dos jogos de força política, das relações de poder, pode
explicar o surgimento do inquérito.” P. 73

“O inquérito não é absolutamente um conteúdo, mas a forma de saber. Forma


de saber situada na junção de um tipo de poder e de certo número de
conteúdos de conhecimentos.” P. 77

“O inquérito é a forma de saber-poder. É a análise dessas formas que nos deve


conduzir à análise mais estrita das relações entre os conflitos de conhecimento
e as determinações econômico-políticas.” p. 78

I. Objetivo: Mostrar como as práticas sociais podem engendrar domínios do


saber.

Práticas judiciárias: Mais importantes práticas sociais para identificar novas


formas de verdade, formas de saber, formas de subjetividade.

Evolução histórica no campo do Direito Penal, como lugar de origem de várias


formas de verdade.

Inquérito na Idade Média: forma de pesquisa da verdade no contexto da ordem


jurídica.

Somente nas relações de luta e de poder é que compreendemos em que


consiste o conhecimento.

Só há conhecimento na medida em que, entre o homem e o que ele conhece,


se estabelece uma luta singular, um duelo.

II. Surgimento da Prova e do Testemunho

As relações políticas se estabeleceram e se investiram na nossa cultura dando


lugar a uma serie de fenômenos explicados a partir das relações políticas em si
e não das relações econômicas. Todo saber é um jogo de poder e todo poder
político é tramado pelo saber.
Mecanismo de progressão da verdade em Édipo Rei (Sófocles): De um lado há
deuses, de outro pastores. Entre eles há o nível dos reis (Édipo). Qual seu
nível de saber, que significa seu olhar?

Édipo representa o que Foucault chama de poder-e-saber, saber-e-poder.

Nas sociedade indo europeias do leste do Mediterrâneo (fim do 2º e início do 1º


milênio) o poder político era sempre detentor de um certo tipo de saber. Saber
e poder eram correspondentes, superpostos. Não havia saber sem poder ou
poder político sem saber.

Na origem da civilização ocidental, que se dá com os gregos, houve o


desmantelamento de um poder político justaposto a um saber.

O Ocidente então foi dominado pela ideia de que a verdade nunca pertence ao
poder político, mas aos deuses quem detém o saber.

III. Em Édipo Rei (resumo da história do Direito grego), a testemunha sozinha


pode vencer os poderosos, através do jogo da verdade. É o direito de
testemunhar, de opor a verdade ao poder.

Uma das grandes conquistas da democracia ateniense foi o processo, através


do qual o povo se apoderou do direito de julgar, do direito de dizer a verdade,
de opor a verdade aos seus próprios senhores, de julgar aqueles que os
governam.

Quando alguém é morto, um de seus entes pode exercer a vingança. No


domínio do Direito significa matar o assassino, mas conforme certas regras e
formas. O Direito é o espaço do conflito institucionalizado.

Estes atos irão ritualizar o gesto de vingança judiciária. O Direito é, portanto, a


forma ritual da guerra (passagem da justiça privada à pública).

No sistema feudal o litígio entre dois indivíduos era regulado pelo sistema de
provas, caracterizado por:
- Forma binária (Aceite X Renúncia)
- Conclusão (Vitória X Fracasso)
- Natureza automática

No crime a concepção de dano dá ugar à de infração, que passa a ser


entendida como uma ofensa ou lesão à ordem, ao soberano, à lei, à sociedade.
O soberano passa a exigir reparação.

O inquérito evoluiu conforme as mudanças políticas, revelando uma maneira do


poder se exercer (Séc. XII). O inquérito é uma forma de saber proveniente de
um tipo de poder associado a formas de conhecimentos e procedimentos. É o
inquérito uma forma de saber-poder.

IV. Sociedade Disciplinar (Panóptica)


Nova concepção de criminoso: É aquele que danifica, perturba a sociedade. É
o inimigo social. É aquele que rompe o pacto social (Rousseau).

A lei penal deve reparar o mal ou impedir que males semelhantes ocorram.

Surgem as instituições de vigilância e correção, paralelas ao poder judiciário.

Beccaria. Aprisionamento, prisão (Séc. XIX): A marca é a do controle e reforma


psicológica e moral do criminoso e não a defesa geral da sociedade.

Panóptico (Bentham). Não há mais inquérito, mas vigilância, exame.

Sociedade disciplinar: Sociedade onde o poder é exercido de forma que


ninguém consegue identificar seus executores. Cria-se um controle psicológico
em que os indivíduos têm suas ações controladas e fiscalizadas por uma
vigilância individual e contínua (presságio de “Vigiar e Punir”).

V. O Panoptipismo é um dos traços característicos de nossa sociedade.


Tríplice aspecto: vigilância, controle e correção.

Virtualidade da periculosidade: A vigilância sobre os indivíduos se exerce ao


nível não do que se faz, mas do que se é; não do que se faz, mas do que se
pode fazer (Direito Penal do Inimigo).

A vigilância individualiza o autor do ato, não a natureza jurídica, a qualificação


penal do próprio ato.

Na época atual, todas as instituições (fábrica, escola, hospital, prisão, etc...)


têm por fim não excluir, mas fixar os indivíduos. Exercem controle sobre o
tempo dos indivíduos.

Sistema capitalista: Transformação do tempo em tempo de trabalho (tempo útil,


produtivo). Transformação do corpo em força de trabalho.

Terceira função: Criação de um novo tipo de poder (polimorfo, polivalente)


econômico, político e judiciário.

Prisão: Função muito mais simbólica e exemplar que realmente econômica,


penal ou corretiva.

A ligação do homem ao trabalho é sintética, política, operada pelo poder. Não


há sobrelucro sem subpoder.