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Arqueologia e preservação do patrimônio cultural

:
a contribuição do Pe. João Alfredo Rohr

Maria José Reis*
Teresa Domitila Fossari**

Resumo

A contribuição do Pe. João Alfredo Rohr para a arqueologia
brasileira e, por extensão, para a arqueologia de um modo geral, é
inestimável e merece especial atenção de todos aqueles que se dedi-
cam a esta área de pesquisa e à preservação de patrimônios cultu-
rais. Ao longo de sua carreira de quase quarenta anos dedicados à
arqueologia, a partir da década de 1950, vários foram os avanços em
termos teórico-metodológicos, pioneiramente colocados em prática
pelo Pe. Rohr na arqueologia catarinense, antecipando empiricamente
princípios e pressupostos elaborados por arqueólogos internacio-
nais, precursores de diferentes e inovadoras vertentes analíticas, de
escassa circulação, à época, fora de seus países de origem. O presen-
te texto tem como objetivo colocar em evidência a importância e a
atualidade das investigações e publicações do referido arqueólogo.
Ao mesmo tempo, busca-se demonstrar que sua obra, constituída
pelo levantamento sistemático de sítios arqueológicos em Santa
Catarina, o mais extensivo ocorrido na arqueologia catarinense,
totalizando cerca de 400 sítios registrados e devidamente cadastra-
dos, e, pela análise de parte destes sítios, está em sintonia e se apro-
xima de uma arqueologia contemporânea no sentido de sua
vinculação ao compromisso de realizar um verdadeiro trabalho de
reconstrução da memória nacional. Em outros termos, a arqueolo-
gia de Rohr esteve preocupada não apenas em recuperar objetos e

Cadernos do CEOM – Ano 22, n. 30 – Políticas públicas: memórias e experiências

restos humanos do passado, mas, sobretudo, em tentar
contextualizar e fazer inferências – cautelosas e sempre devidamen-
te sustentadas por evidências empíricas – que permitam compreen-
der, pelo menos em parte, os comportamentos e processos sociais
vivenciados no passado, cujas evidências materiais constituem, no
presente, o patrimônio cultural a ser resgatado através de pesquisas
arqueológicas socialmente comprometidas com a devida identifica-
ção e registro desse patrimônio.

Palavras-chave: Arqueologia catarinense. Patrimônio cultural. Pro-
cessos sociais do passado.

Introdução

A contribuição do Pe. João Alfredo Rohr para a arqueologia
catarinense e, por extensão, à arqueologia brasileira, é inestimável e
merece especial atenção de todos aqueles que se dedicam a esta área
de conhecimento e a preservação de nosso patrimônio cultural.
Alguns aspectos de sua biografia nos ajudam a compreender,
em parte, seu perfil como arqueólogo. Destacam-se fatos como o de
ter feito um curso extracurricular de “Humanidades”, enquanto
cursava o segundo grau, e o de ter se dedicado, já no Seminário,
durante quatro anos, ao ensino de história natural e, posteriormen-
te, ao ensino de química e física.
Ao longo de sua carreira de quase quarenta anos dedicados à
arqueologia, vários foram os avanços em termos teórico-
metodológicos, pioneiramente colocados em prática pelo Pe. Rohr
na arqueologia catarinense, antecipando empiricamente princípios
e pressupostos elaborados por arqueólogos precursores de diferen-
tes e inovadoras vertentes analíticas, a partir da década de 1950, de
escassa circulação fora de seus países de origem, à época. Assim, a
despeito de sua formação autodidata no que concerne à arqueolo-
gia, adotou em suas pesquisas uma perspectiva interdisciplinar, em parte
elucidada por seus dados biográficos, preenchendo integralmente a

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Arqueologia e preservação do patrimônio cultural: a contribuição do Pe. João Alfredo Rohr –
Maria José Reis, Teresa Domitila Fossari

condição de “pesquisador-cientista”, nos moldes preconizados por
Scharer e Ashmore (1979).
O primeiro passo na direção desta carreira, como já foi dito
em trabalhos anteriores (REIS; FOSSARI, 1984; FOSSARI, 2001),
ocorreu quando da aquisição da Coleção Carlos Berenhauser, na
década de 1940, para o Colégio Catarinense, localizado em
Florianópolis (SC), no qual Pe. Rohr instalou o “Museu do Homem
do Sambaqui”, aberto à visitação pública em 1964. Sua estreia como
arqueólogo, entretanto, deu-se pelo registro de vestígios arqueoló-
gicos da Ilha de Santa Catarina, que resultou em sua primeira publi-
cação, datada de 1950. Foi no ano de 1958 que deu início a seu pri-
meiro trabalho de escavação sistemática em um sítio localizado na
Ilha de Santa Catarina – Caiacanga Mirim. A partir daí, ganhou
notoriedade e passou a integrar a comunidade dos arqueólogos bra-
sileiros, tornando-se um dos seus maiores expoentes, graças à sua
valiosa contribuição acadêmica e à sua postura ética em relação ao
universo pesquisado e aos colegas de profissão. De modo todo es-
pecial, deixou importante contribuição ao patrimônio arqueológico
catarinense ao desempenhar as funções de representante da Secre-
taria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), e ao
realizar o mais extensivo levantamento e registro de sítios da arque-
ologia catarinense, totalizando cerca de 400 novos sítios registrados
e devidamente cadastrados.
Além da contribuição referente a todas as etapas do trabalho
arqueológico – do levantamento à escavação sistemática de sítios e à
elaboração de seus resultados – destacados a seguir, apontaremos
em suas publicações passagens que atestam uma atuação marcada
pela obstinação em relação à proteção ao patrimônio arqueológico
catarinense; sua visão humanística e socialmente crítica sobre as
populações indígenas brasileiras, testemunhas vivas de nosso pas-
sado pré-colonial; seu interesse em registrar as condições sociais das
populações onde estavam localizados os sítios pesquisados, bem como
suas impressões no que concerne aos vestígios arqueológicos
registrados em suas localidades.

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entre outros autores. procedimentos anteriores ao le- vantamento propriamente dito.] devido a erros de interpretação de ingênuos caçadores de tesouros. Cadernos do CEOM – Ano 22. promovendo uma verda- deira “varredura” de determinadas regiões. Vários procedimentos são descritos em suas formulações. parte delas publicadas posteriormente. Alfredo Rohr levantou mais de 400 sítios em Santa Catarina. sem a orientação metodológica das referidas fontes bibliográficas. descrição e classificação de sítios Pe.. como já dissemos anteriormente. como as transcritas abaixo. n... [. por Rathje e Schiffer (1983) e Renfrew e Bahn (1993). [. o survey e a escavação. levando-se em conta. 30 – Políticas públicas: memórias e experiências Contribuições sobre as diferentes etapas da pesquisa arqueológica De acordo com Sharer e Ashmore (1979). tais como a consulta à população residente na região a ser investigada. João Alfredo Rohr é possível registrar a realização de todos esses procedimentos. original- mente. que tais procedimentos foram implementados por iniciativa própria. seu repertório folclórico sobre os sítios arqueológicos e sobre a população indígena que. localizando e identifi- cando sistematicamente os sítios. que querem ver nas sinalações rupestres roteiros de tesouros escondidos ou marco de navios afundados.. como os recomendados em obras posteriores. publicadas. levados a cabo com esmero e com um detalhamento surpreendente para a época em que foram realizadas suas pesqui- sas. a coleta de dados arqueológicos envolve três procedimentos básicos: o reconhecimento e o levantamento dos sítios. através de minucioso trabalho de campo. ocupou a região. Localização. Nos trabalhos de Pe. sobre as pesquisas de campo destinadas ao reconhecimento e levantamento inicial de sítios arqueológicos em diferentes regiões catarinenses.] diversos belos conjuntos de petróglifos da Ilha do Campeche 268 .

para usos domésticos e culinários (ROHR. por auto- res como Sharer e Ashmore (1979). de que dispomos. parte desses relatos.1). [. tornam intransitáveis as estradas e impedem o acesso aos sítios.].]. 269 . p. [. uma detalhada descrição sobre o estado de conser- vação de cada uma das evidências registradas.20). Fazem. tais como uma intensa cobertura vegetal. p. a arte de preparar vasos de barro cozido de pequeno porte. pela ação eólica. devido a diferentes fatores ocorri- dos após a formação dos sítios. [. Em segundo lugar.] a região de Urussanga.58). As condições de trabalho. ainda mais. nas escuras e úmidas galerias subterrâneas. As suas flechas eram munidas de pontas de sílex.. João Alfredo Rohr – Maria José Reis. em passos de dezenas de metros de largura.. Não raro. particularmente devido à falta de estradas em condições. contribuíram para sua des- truição. esporadicamente. antes da conquista.].. Foi trabalho árduo. até a presente data. 1982. a seu ver. está na ordem do dia. A remoção de terra de profundas crateras. como se constata nos trechos de seus artigos transcritos a seguir. p. são as piores possíveis. quando desabam aguaceiros.1976. que habitavam as encostas da serra e o planalto catarinense e.. De modo especial. munidas de grande número de farpas.. outras tinham compridas pontas de madeira. é aventura trabalhosa. as de localização.. transformando o sítio em lodaçal (ROHR. A travessia de rios e arroios empedrados e sem pontes. acorriam ao litoral. eram os índios Kaingang ou Xokleng. nas escavações de casas subterrâneas. informações indicadas como importantes nesta etapa da pesquisa arqueológica. são apontados os fatores que.. particularmente traiçoeiro e profundo. a caracterização das dificuldades de acesso aos locais dos vestígios arqueológicos. Chuvas torrenciais. igualmente. 1971. torna-se necessário recorrer a trator ou junta de bois para safar o jeep de algum atoleiro. fossem eles desencadeados por agentes naturais ou pela ação antrópica. enchendo os rios.. Entre elas. ou a mobilidade das areias de dunas. Teresa Domitila Fossari e da Ilha de Porto Belo (Ilha João Cunha) foram dinamitados (ROHR.Arqueologia e preservação do patrimônio cultural: a contribuição do Pe. [. segundo os documentos históricos e arqueológicos. em primeiro lugar. também. era densamente povoada por indígenas. Conheciam.

desmontavam ainda diariamente. a alma do Museu incipiente. Nas atividades de reconhecimento e de levantamento. não só registrou sítios de determinados tipos. já identificados anteriormen- te. os pequenos aterros 270 . em Santa Catarina. a decênios passados. p. periodicamente. p. 30 – Políticas públicas: memórias e experiências Muitos sítios.] 60 m de com- primento por 30 m de largura..]. permanecem. Conseguimos induzir as autoridades locais a fundar um Museu Arqueológico Municipal.1961. Na Lagoa da Conceição um sambaqui com “[. poderá revelar tudo o que por lá existe de monumentos arqueológicos.. os tratores e caminhões da Prefeitura Municipal [São Francisco do Sul]. Por isto. numa extensão de dezenas e dezenas de quilômetros. sendo a espessura de conchas 5 a 6 m. soterrados por completo. p. mas apresen- tava sugestões para a tomada de medidas mitigadoras. por fabricantes de cal” (ROHR. uma média de oitenta metros cúbicos de conchas. 1966. evidenciando que o patrimônio cultural do Município estava sendo leviana e irreparavelmente dilapidado. p.8). por conferências e palestras. sendo o gerente da Caixa. em julho de 1960. (ROHR. somente uma prospecção permanente da região. 1969. inclusive sambaquis de 3 a 4 m de altura.. Wilibaldo Stuelp. como também revelou a existência.16). (ROHR. funcionando como vasos de flores.4). Metade deste casqueiro foi destruído. sob as areias das dunas. No terreiro de três sitiantes vimos igaçabas. Todas as estradas dos arredores e do interior da Ilha. Cadernos do CEOM – Ano 22. 1961.28). Provisoriamente o Museu tem como sede a Caixa Rural. nos campos e nos pastes. [. para ver se não encerrava algum metal precioso. (ROHR. Rohr não só registrava tais ocorrências. Por ensejo da nossa visita. acaso encontrados nas roças. que eram aproveitadas como macadame de estradas. Em vista deste estado de coisas passamos a fazer intensa campanha de esclarecimento pelo radio. Pe.] Não raro o artefato era partido ao meio.... acham-se atapetadas de conchas de sambaqui. Diante do lamentável quadro de destruição que verificou em muitos dos sítios arqueológicos levantados no estado de Santa Catarina. Sr. n. durante anos. de novos tipos como as “casas” e galerias subterrâneas. ao qual serão recolhidos todos os artefatos indígenas. [.

em tudo semelhantes às outras galerias.. 2007) Pe. afirma: Ladeiam o sitio três montículos de terra de tonalidade amarelada.] representam uma invenção engenhosa do índio para defender-se das nevascas e dos ventos gelados do inverno rigoroso das grandes altitudes. associados a estruturas subterrâneas. (ROHR. umas correndo paralelas às outras e interligadas entre si. São considerados monumentos funerários dos índios Kaingang. por intenso que este fosse. o índio achar-se-ia ao abrigo do frio.. encontrou terrei- ros de antigas aldeias nitidamente delimitados por pequena elevação de terra. registradas na região. (ROHR. Nos campos do planalto catarinense. localizados em diferentes regiões catarinenses. sob um teto feito de pau. os sítios ofi- cinas.. Montículos semelhantes foram escavados nas vizinhanças das casas subterrâneas. os sítios de sepultamentos.146). Teresa Domitila Fossari associados a esses sítios. João Alfredo Rohr – Maria José Reis.. com dezenas de metros de comprimento. de trinta centímetros de altura e metro e meio de comprimento. Em relação aos aterros que localizou. [.Arqueologia e preservação do patrimônio cultural: a contribuição do Pe. Sobre as “casas” ou “estruturas subterrâneas” (REIS. Rohr afirma: [. os desenhos e pinturas rupestres. p. 1971. não raro. cavadas em rocha mole de arenito. em Caxias do Sul. os terreiros de antigas aldeias. desde o extremo oeste até a Ilha de Santa Catarina.] Nas trincheiras abertas foram encontradas. e em Alfredo Wagner SC. em forma de coroa. até a 271 . Esses vestígios arqueológicos são descritos por Pe. outras laterais divergentes. as grutas e os abrigos sob rocha. 1970. No fundo de uma cratera. comenta : Trata-se de uma série de galerias. No que concerne às galerias subterrâneas. RS. Rohr nos seguintes termos: Com o fim de elucidar a natureza daqueles pretensos ‘Terreiros de Dança’ foram feitas escavações em dois deles. com a lareira acesa. De resto. (ROHR. 1982.15).54). de 20 a 100 m de diâmetro. folhas e terra. p. cascas de árvore. p.

possivelmente.. Pe. [. Por outro lado. Além das informações de localidade e propriedade dos sítios ele os classifica “segundo a sua natureza. No planalto catarinense. sítios de sepultamento junto a cascatas. Tivemos a primeira notícia da existência de petroglifos no planalto catarinense em 1966. cerâmica indígena e material lítico trabalhado. Fato que se reveste ‘de certa importância.. em sítios de inscrições rupestres. 1971.. também. encontramos petróglifos. que ocupavam o planalto no tempo da conquista. entre muitas ou- tras observações. [. às populações Gê ou Caingang. que ocupa uns 20 m de extenso e alto paredão arenítico. 30 – Políticas públicas: memórias e experiências profundidade de 70 cm. fogueiras com abundante carvão vegetal. Achavam-se localizadas em pontos altos e estratégicos e estavam guarnecidas por uma paliçada protetora. que se manifesta. forma e dimensões. Cadernos do CEOM – Ano 22. entre os quais Smith (1976). de vez que permitiria a datação dos petroglifos. próximo à cidade de Urubici. de origem tupi-guarani (carijó). ao fazermos pesquisas arqueológicas em Alfredo Wagner (Ex-Barracão). há grande número de petróglifos de motivos geométricos e naturalíticos. Exemplo de tal procedimento pode ser constatado na seguinte formulação do Pe. mas diferentes do litoral. casas 272 . Rohr afirma: Na Ilha de Santa Catarina e Ilhas adjacentes. Na época visitamos e fotografamos o grande conjunto do Morro do 2 Avençai. p. alguns com induto preto. posterior- mente recomendadas pelos referidos precursores. na realidade.11). 1976). p. através do carvão recolhido no sítio’.] Em vista dos resultados obtidos nas escavações. (ROHR. chegamos à conclusão que aqueles supostos terreiros de dança dos bugres. sua composição. a identificação e a classificação de cada um desses tipos de sítio corresponde a uma minuciosa descrição e cata- logação de suas características: sua localização em termos da paisa- gem circundante. são terreiros de antigas aldeias. com certa segurança. Rohr.] Possivelmente. tenha sido habitação indígena. Sobre as inscrições ou desenhos rupestres. (ROHR. pela coroa de terra circular ao redor do topo do morro. que podem ser atribuídos.19). porém.. geométricos e naturalisticos. 1971. n. ainda hoje. (ROHR.

coleta de superfície dos vestígios lo- calizados e elaboração de plantas topográficas.7). Rohr completava o reconhecimento e a localização com um deta- lhado survey. como na descrição que segue.. igualmente. (ROHR. através de documentação fotográfica. em metros. a documentação fotográfica do sítio. de vez que somente durante as escavações arqueológicas são reveladas as verdadeiras dimensões do sítio. escavara uma área 2. elaboramos cuidadosa planta topográfica do sítio. p. Estes dados possuem valor aproximativo.Arqueologia e preservação do patrimônio cultural: a contribuição do Pe. realizadas em seus trabalhos de campo. [. relatando-os de acordo com este esquema. prospecções. Eram.] revela. e de ecofatos. como recomen- dam diferentes autores... antes da exploração. indicando comprimento. Preliminarmente. também. João Alfredo Rohr – Maria José Reis. cuja área não ultrapassava 2 em muito os 100 m . Pe. demos diretamente com uma caveira humana.) . com filme preto e branco e com slides coloridos. de acordo com todos os autores precursores já 273 . de. 1960.31). a uma profundidade de 70 cm. A planta topográfica [. largura e espessura do mesmo. de “features” ou estruturas. Surveys e escavações sistemáticas Como pode ser observado nos recortes de textos a seguir. terreiros de aldeias e outros sítios abertos. os sítios arqueológicos têm sido definidos como um aglomerado espacial de artefatos. que o oleiro. a exemplo de Sharer e Ashmore (1979. (ROHR. com a obtenção do maior número possível de informações dos sítios antes de sua escavação.. Foi feita. aproximadamente. p. p.10). 1971. Na primeira sondagem feita naquele casqueiro [sambaqui V do Rio Tavares]. ou seja. compreendendo toda a barreira da olaria. através da realização de poços testes. A área. 760 m (ROHR. galerias subterrâneas. como sugerem de modo especial Rathje e Shiffer (1983) e Renfrew e Bahn (1993). Teresa Domitila Fossari subterrâneas.] procedemos a uma exploração sistemática desta jazida. A escavação. Por outro lado. abrangida pelo sítio arqueológico será dada em números. 1967.

A terra negra. 1977. Nas escavações do Pântano do Sul foram recolhidos acima de duzentos litros de ossadas de peixes. p. Para Renfrew e Bahn (1993. que mediava entre os fogões estava semeada de pedregulho de basalto e granito negro de carvão. [.] De um lado. 30 – Políticas públicas: memórias e experiências referidos. verificamos no solo nitidamente. 1961... igualmente. eram grandes ossadas de baleias e de botos. p. Rohr.. freqüentes e espaçados aprofundamentos cônicos da camada arqueológica dentro da areia. Estes aprofundamentos possuem 10 a 29 cm de diâmetro e podem atingir até 90 cm de profundidade. do outro lado. 274 . que tomava início na camada superior e estendia-se através de todas as camadas” (ROHR.14). os contornos da sepultura. p. ossos triturados de pequenos peixes (ROHR. n. p. como nos casos descritos por Pe. Nos trabalhos de escavação. com sucessivas reconstruções de habitações no mesmo lugar (ROHR. No entanto. Além da recuperação de determinados vestígios. nas transcrições abaixo. no solo daquela extensa cozinha pré-histórica.14). [. aves e mamíferos.. não foi possível encontrar. todos reveladores de antigas funções e comportamentos. 2002). “Passando a um cuidadoso desmonte horizontal. Cadernos do CEOM – Ano 22. ostentando vestígios nítidos de fogo e muitos deles esfarelando.. é o principal meio de obtenção dos dados acima aludidos. Pe. em adiantado estado de decomposição e. os trabalhos de escavação permitem identificar sua associação em contextos primá- rios. Observam-se neste nível. técni- ca denominando atualmente de escavação em área (GONÇALVES. 72).810).”. (ROHR. outrossim. p... 1967a. Rohr buscava.513) a “Abertura de grandes áreas horizontais [são] realizadas principalmente quando os depósi- tos de um único período se encontram próximos da superfície. Estávamos evidentemente em face de um acampamento indígena. destinado a pôr a descoberto o esqueleto em foco. 1961.] A densidade das estacas [. autênticos restos de cozinha. quiçá de um chão de casa. evidenciar a dimensão horizontal da área do sítio por inteiro.] parece indicar ocupação prolongada do mesmo sítio.. Tomamos estas evidências por postes e estacas decompostas. qualquer vestígio de cerâmica ou outro objeto que nos dissesse algo mais sobre os supostos donos dos fogões.

por meio 275 . informações sobre a estratificação dos sítios. O terceiro era uma formação de barro. nas descrições dos sepultamen- tos em sambaqui e em urna funerária. um machado de pedra. Teresa Domitila Fossari Pode-se constatar.5). do mesmo modo.4). 1970. de modo detalhado e sistemá- tico. (ROHR. (ROHR. Escavando o sítio arqueológico da Praia da Tapera. que atestavam o carinho. através de sua cimentação. ainda. p. nos anos de 1962 a 1966. Exemplos desta cuidadosa observação e preservação podem ser extraídos da citação abaixo. em consonância com o que foi posteriormente indicado por Renfrew e Bahn (1993). recorremos ao expediente de cimentar os sepultamentos.) O sepultamento estava rodeado de vasos de barro não queimado. Era impressionante a soma de detalhes. a riqueza de detalhes em relação à deposição dos esquele- tos. como nas que transcrevemos a seguir. de modo especial quanto às associações mencionadas. Caindo do pescoço até a cintura. deu resultados de todo satisfatórios. O esqueleto [sambaqui da Praia Comprida] estava coberto de ocre vermelho cor de sangue. em trazer ao museu alguns esqueletos. O segundo encerrava conchas grandes de um molusco. João Alfredo Rohr – Maria José Reis. feito de centenas de conchinhas perfuradas de pequeno gastrópode (Olivella sp. sepultara o seu filhinho falecido. além da pre- ocupação com a preservação de features. Surpreende. cuidadosamente polido. via-se um colar. no fundo. insistimos uma vez mais. de trinta a quarenta centímetros de altura. todas da mesma espécie (Phacoides pectinatus Gmelin). com muitos alvéolos. Este método. a associação com determinados objetos e seu estado de conser- vação. contendo carvão e cinza. repleto de areia muito alva. o exercício de uma extrema acuidade em relação aos diferentes vestígios localizados nos sítios escavados. Foram igualmente registradas. Rohr. aperfeiçoado cada vez mais pela prática. sendo levantadas hipóteses de abandono e de reocupação de alguns deles. de significado problemático. Para tanto. tinha. técnica criada pelo Pe. 1970. O primeiro deles. p. com que a pobre mãe pré-histórica.Arqueologia e preservação do patrimônio cultural: a contribuição do Pe. finalmente. junto com blocos testemunha.

abundantes cascas de árvores. 1967b.] terra escura com muita areia. de artefatos de pedra. no nível B.. de cima para baixo. conchas trituradas e algumas conchas isoladas.] diabásio bem como seixos [. (ROHR. 30 – Políticas públicas: memórias e experiências de uma caracterização estratigráfica. Nesta camada. trazidos do rio. carbonizados pelo fogo. Igualmente abundante. Nível C – [. a deposição das camadas de solo depende de ativi- dades humanas e de processos naturais.. muda também a cor. passando da tonalidade amarela-escura para amarela-clara da areia pura (ROHR. pontas de flecha ósseas. e parte deles. são os machados líticos.. em síntese. Nível B – [. e paus..] de húmus de mistura com terra [. p. apenas algo menos. também. amoladores. confor- me se constata nas transcrições abaixo. De acordo com a percentagem de areia. devido ao entrançado das raízes finas das gramíneas. e. alguns de vinte centímetros de espessura.. Neste nível. o solo estava juncado de centenas de seixos rolados. como propõe Stein (1992).. é indispensável em uma avaliação estratigráfica distinguir entre a origem natural e a cultural dos depósitos localizados. encontramos um primeiro nível de ocupação ou chão de casa. Havia. de cipós.. Como é sabido. pedras cortantes. (ROHR.. proce- dimento que foi implementado nas pesquisas de Pe. de fibra e de madeira. A percentagem de areia neste nível vai gradualmente aumentando. 276 . n. objetos de adorno. Nível B e Nível C. os quais. Por recomendação desses autores. em um dos sítios analisados.. p. dentes de cação. dentes de mamíferos.. o Nível A. a sessenta centímetros de profundidade. é duro e compacto. três estratos arqueológicos. Cadernos do CEOM – Ano 22. Possui cor cinza-escura. apresentam as seguintes características: Nível A – [.] Nele foram recolhidos centenas de litros de ossadas de peixes.] e areia.810). aves e mamíferos. alisadores de cerâmica. raspadores. quebra-coquinhos.. 809). p.] e seixos submetidos à ação do fogo. O material arqueológico é encontrado na camada de terra preta. Rohr. batedores... parcialmente. em lascas cortantes de [. 1967. Rohr (1967b) identificou. 1967b.. 9).

p. considerando. 1967b. mantiveram-se planas. (ROHR. as pressas. um dia. além de acentuada análise no que concerne aos restos ósseos humanos. p. A maloca. Os referidos manuais sugerem que parte dessas análises pode ser feita em laboratório de arqueologia.1102). que soterraram por completo o acampamento indígena. a abandonarem o sítio. O leito da nascente. Rohr a preo- cupação com esses três estágios relativos aos artefatos por ele registrados e coletados. estas análises podem ser de vários tipos. entre outros aspectos. Do mesmo modo. contudo. outras. análises cronométricas e modos diferenciados de análises técnicas. foi-se entupindo e a água represada formou um banhado. com cascas e folhas de árvores. acabou ruindo por terra. Teresa Domitila Fossari Os trabalhos de laboratório De acordo com a perspectiva teórica de Sharer e Ashmore (1979). Coagidos. João Alfredo Rohr – Maria José Reis. de acordo com a peça original escolhida.7).Arqueologia e preservação do patrimônio cultural: a contribuição do Pe. a conservação dos artefatos de madeira e de fibra estava garantida. o uso e sua deposição. no decorrer dos anos. de fibra e de pedra. foi-se entulhando. O telhado caiu sobre o material arqueológico. não sendo mais drenado. que po- dem. convexas ou irregulares. (ROHR. as faces. foram ainda parcialmente eliminadas por polimentos posteriores. Estas pequenas cicatrizes de lascamentos. pelos próprios arqueólogos. coberta com ramos de pinheiro. As faces dos machados geralmente sofreram apenas retoques por lascamentos laterais nas arestas mais vivas e incômodas à mão do operador. permitir inferências sobre os usos a que se destinavam tais artefatos. deixaram no local os seus trastes de madeira. todos os dados arqueológicos representam idealmente três estágios consecutivos de comportamento: a manufatura. 1967. É possível identificar nos trabalhos do Pe. que o propósito da análise dos dados é fornecer in- formações para a interpretação arqueológica. Em vista disto. com folhas. como apontam os autores acima citados. incluindo classificações tipológicas. ao abrigo da ação destruidora do oxigênio do ar. mais e mais. podem ser realizadas por 277 . Este banhado. detritos orgânicos e lama. muitas vezes. Uma vez cobertos de agua e lama.

apropriando-se de informações provenientes da geologia. com tamanho desgaste de dentes. Cadernos do CEOM – Ano 22.. Pe.. Tivemos ensejo de consultar diversos cirurgiões dentistas que todos concordaram. 30 – Políticas públicas: memórias e experiências diferentes especialistas de outras áreas de conhecimento. que o maior flagelo que atribulasse aquele povo.. Fruto dos esforços conjugados de muitos. p. não tem pretensões do ser completo e. Aos poucos o desgaste vai atingindo a gengiva. deviam sofrer dores insuportáveis (ROHR 1959. livre de 278 . antes da exploração. Este exer- cício pode ser percebido em relação à identificação do material lítico..] com o levantamento topográfico e fotográfico do sítio. Hugo de Souza Lopes. Nesta fase os maxilares começam a recuar. um verdadeiro exercício interdisciplinar. tenham sido terríveis dores de dente..6).] tudo indica. salvo se admitirmos que conhecessem algum antídoto natural que lhes aliviasse a dor. prontamente.. bem como sobre a composição química da dieta dos ocupantes pré-coloniais dos sítios analisados – o que não surpreende pelo fato de ter sido professor desta última disciplina. Os trabalhos tiveram início [.]. realizan- do ele próprio. finalmente. biólogos. em afirmar. pondo a descoberto o canal do nervo e. tanto recorreu a diferentes especialistas para realizar as referidas análises .. do Instituto Osvaldo Cruz.nominando e retribuindo a todos com agradecimentos na publicação dos resultados das investigações - quanto utilizou os conhecimentos de várias outras especialidades científicas. que indivíduos.216). e em sua familiaridade com no- ções sobre o conteúdo nutricional. nas iden- tificações do material faunístico. rejeitando os dentes. p. As conchas classificadas pelo Dr.. Rio de Janeiro. em sua apreciação sobre os ecofatos e uma aproxima- ção com outras ciências naturais. [. antropólogos físicos e odontólogos. que vão caindo aos poucos. Alfredo Rohr. muito menos. demonstrando sua incursão pela malacologia. o presente trabalho. no que concerne a diferentes tipos de vestígios. chega ao extremo de desgastar parte da própria raiz do dente [. como geógrafos. O levantamento topográfico foi feito pelo Departamento Nacional de Saneamento (ROHR 1966. p.8). (ROHR 1966. são das seguintes espécies: Navícula umbonata (Lamark). n.

também. Alguns exemplares foram preparados de seixos. Cumpre-nos salientar. pouco distante do sítio arqueológico. Dr. Onça (Jaguarius onça L).29). Lobo do mar (Otaria flavescens Shaw). Miraguaia (Pogonius chromis). Botos. alimento rico. por seu turno.. Junto à praia.199). Capivara (Hydrochoerus hydrochaeris). No fabrico dos machados foi utilizado o diabásio. foram aproveitados seixos de diabásio.Arqueologia e preservação do patrimônio cultural: a contribuição do Pe.79-80). Leão marinho (Arctocephalus australis Zimm). Tanto os moluscos. Anequim (Cacharodon cacharias).. extraídos daquela pedreira. por entre a rocha de granito.998) . como a carne de peixe e de caça. porém. por isto. J. tinha a oferecer o Pinhão. rolados pelas águas ou de seixos submetidos a ação do fogo (ROHR. [. Cervídeos. (ROHR.] o Sr. aos colegas professores e empregados que nos ajudaram nas escavações. 1959. vários metros cúbicos de ossada. p. a cooperação de Balduino Rambo e Ignácio Schmitz. (ROHR. Coati (Nasua nasua). Paca (Agouti paca). encontramos nos detritos deixados pelos habitantes da Tapera muitas toneladas de cascas de moluscos. Jaguatirica (Felis pardalis). Teresa Domitila Fossari falhas. mas fácil de lascar e de polir. forte e 279 . além de muitas outras frutas e sementes. Diretor do Departamento Estadual de Geografia e cartografia e Desenhista Moacir Coelho que elaboraram os croquis topográficos da jazida e da disposição de parte dos esqueletos. Gato do mato (Felis pardalis).. A gordura dos animais e peixes proveria igualmente as sumas necessidades de glicerídeos. p. 1977. [. resistente. que nos animaram a publicar o trabalho e nos ajudaram na medição e descrição dos crânios. A maioria dos machados foi preparada a partir de prismas de diabásio. p. gorduras e carboidratos. Agradecemos. Foram recolhidos dentes das seguintes espécies da fauna nacional: Cutia (Dasyprocta azarae). encontrados ao acaso. S. Buechele Junior.. têm a superfície revestida de fina camada de decomposição.1967b. Graxaim (cerdocion thous azarae). sobretudo.] Ora. abasteceria a mesa do homem da Tapera de abundantes proteínas. Estes. o mesmo não acontece ao examinarmos a sua alimentação. Estão aí fartos ‘restos de cozinha’ a orientar-nos os passos. por tempo mais ou menos longo. A alimentação racional forçosamente deverá incluir os três elementos básicos: proteínas. 1977. rocha eruptiva de granulação fina. afloram diversos diques de diabásio. A região serrana. Mangona (Odontapsis americanus). de peixes e de caça de todas as espécies. João Alfredo Rohr – Maria José Reis. estiveram expostos às intempéries.. p. Para o fabrico de outros. Se na reconstituição da habitação do homem da Tapera pisamos terreno algo inseguro. (ROHR.

às vezes. sua preo- cupação em detectar nos esqueletos humanos as marcas de deter- minados usos e intervenções. nhambus. demonstrando um considerável domínio de antropologia física. foi encontrado. coatis. Estes. contendo dois alqueires de pinhão. contudo. cervídeos. isto e. 1966. (ROHR. Evidencia-se. Ultrapassa. p. Vista de baixo. pacas. um sítio submerso. De mais a mais. capazes de deixarem nos ossos. como é possível perceber nos recortes de alguns de seus tra- balhos que transcrevemos abaixo. apresenta anomalias graves nos úmeros. que mesmo depois de milênios. Os ramos ascendentes da mandíbula caracterizam-se. papagaios. são robustas e acentuadas. jacutingas. sem falar da caça de penas: macucos. jacus. em Alfredo Wagner. pela sua notável robustez nos indivíduos masculinos. os n. pombas. da Tapera. masseténica e ptenigoidea.12). por parte do Pe. n. p. à semelhança do maná bíblico. ainda podem ser observados. Rohr. Cadernos do CEOM – Ano 22. havia na região abundância de caça: manadas de porcos do mato.°s 14. antas. Afecções estas. Tinha ainda sobre o maná a vantagem de poder ser armazenado. O fêmur esquerdo apresenta o colo estreitado e a cabeça enrugada e esponjosa. como os igualmente apontados por Renfrew e Bahan (1993). têm a cabeça achatada e angulosa. não se acentua tanto esta configuração especial da região do mento. Diversos esqueletos. etc. o brasilíndio naturalmente estava sujeito a contrair afecções reumáticas. em vez da forma globular usual. por exemplo. Era só juntá-lo do chão. devido ao rebordo. perdizes. 52 e 91. comumente. cotias e tatus. O ângulo da mandíbula no ramo ascendente. que sofresse de artritismo crônico. igualmente. O esqueleto N° 146. p. 1971. Realmente. Em decorrência da falta de resguardo das intempéries. Afigura-se-nos um homem. (ROHR 1959. o qual. Duas falanginhas da mão direita estão concrescidas em angulo obtuso. apresenta uma espessura muito maior. p. análises mais minuciosas que as devotadas para os demais vestígios.12) . 280 . atestando um dedo torto. esta parte da mandíbula. caía do céu. também. Nos crânios femininos. Os esqueletos humanos mereceram. (ROHR. do que as mandíbulas comuns.1966. é quase reto e as protuberâncias. capivaras. 30 – Políticas públicas: memórias e experiências sadio. como por exemplo. de um terço a altura e a largura das mandíbulas comuns. urus. sinais.11). canal auditivo ossificado.215). armazenado pelos índios. apresentam exostoses nos ouvidos. (ROHR.

que a mandíbula. rejeitava os dentes espontaneamente. Em virtude disto a extração não foi completada e o dente deslocado. De sessenta dentaduras de adultos. com áreas de captação de recursos. em um molar superior. todas. Em trinta e três delas as abrasões chegam ao quarto grau e em cinco apenas as abrasões não passam do primeiro grau.16) Inferências e interpretação dos vestígios Avanços extremamente significativos em relação a aspectos de inferência e de interpretação dos dados somam-se aos que ocor- reram na arqueologia. As abrasões do terceiro e do quarto grau são de conseqüências trágicas. sem exceção. No que concerne às evidências arqueológicas e sua interrelação com a paisagem. bem como a potencialização interpretativa das evi- dências arqueológicas em conexão com outras evidências deste tipo e com informações históricas e etnográficas. com a definição de padrões de assentamentos. em primeiro lugar. uma vez perdidos os dentes. 1966.315) de que 281 . João Alfredo Rohr – Maria José Reis. pela utilização de dife- rentes formas de analogia. Teresa Domitila Fossari Em muitos indivíduos. p. Em outros casos o maxilar. em termos práticos – na maioria de ordem metodológica – conseguimos identificar na obra de Pe. p. procuravam extrair os dentes. Dentre esses avanços.. cuja presença pioneira em Santa Catarina. assaz conhecido na cirurgia dentária. [.216). encontrando-se os alvéolos já fechados e cicatrizados. e susceptíveis de observação e estudo. De um fato. (ROHR.] Em virtude do desgaste dos dentes e das dores subseqüentes. Em virtude disto a mandíbula apresenta-se muito recuada.] onde uma operação cirúrgica destas..Arqueologia e preservação do patrimônio cultural: a contribuição do Pe. junto com um fragmento do maxilar. Há vestígios de extração violenta.. apresentam abrasões dentárias. podem ser elencados aqueles relativos às cri- ativas análises da paisagem e sua relação com diferentes tecnologias. a que aludimos. redundou em fratura óssea. devido ao desgaste extremo. Em vinte e cinco destes indivíduos há evidência de perda de dentes ‘in vivo’. Em outras vinte observamos começo de rejeição dos dentes. vale destacar. faltam quase todos os dentes da mandíbula. (ROHR 1959. p. recua muito em tamanho e robustez. cicatrizou novamente.. procedentes da Tapera. de uma ou de outra forma. [. a afirmação de Sharer e Ashmore (1979. Alfredo Rohr.

intuiti- vamente. in- cluindo. tais como as fontes de água. são olhados dois tipos de dados para reconstruir os ambientes físi- cos do passado. animais.. a topografia e as fontes de recursos bióticos e minerais. Ou seja. faz-se necessário examinar os meios pelos quais os arqueólogos reconstroem o meio ambiente. seja dos depósitos arqueológicos ou de outros dentro da zona de estudo. que poderia ter sido habitualmente explorado pelos seus habitantes. a intermediação dos grupos humanos com o ambiente natural. como salientam os autores citados. procurando inferir seus usos em relação ao contexto ambiental onde foram localizados. Tendo em vista que a tecnologia se relaciona tão proximamente com o ambiente natural e exerce.] a tecnologia é o meio através do qual as sociedades humanas interagem mais diretamente com o ambiente natural. dentre outros aspectos. Rohr pode-se identificar. A seu ver. ao entorno de um antigo assentamento. ou de es- truturas. o território anual de exploração de recursos dos grupos cujos vestígios foram arqueologicamente investigados. O primeiro é a observação dos espaços atuais. construir ou localizar abrigo e assim por diante. Foi também através da síntese das informações sobre o meio ambiente e a tecnologia que. para procurar e processar alimento. as populações humanas 282 . O segundo é a coleta de ecofatos. tanto as práticas relativas à reconstituição das paisagens do passado quanto a análise da tecnologia. como nas passagens transcritas abaixo. obtenção de alimentos. e de transporte. categoria proposta por Vita-Finzi e Higgs (1970). Cadernos do CEOM – Ano 22. construção de features. Essa categoria corresponde. os autores acima citados afir- mam que é possível considerar quatro categorias: de produção de artefatos. de muitas maneiras. 2004). reuniu informações para a delimitação de potenciais “áre- as de captação de recursos”. 30 – Políticas públicas: memórias e experiências [. Quanto à tecnologia. Ela consiste de um conjunto de técnicas e de um corpo de informações que fornecem meios de converter matérias primas em instrumentos. n.. le- vando em conta que. de uma maneira geral. Nas pesquisas arqueológicas do Pe. de acordo com esses autores e com Jarmam (apud FOSSARI. plantas e rochas para a produção de instrumentos.

constituiriam. ao confeccionar artefatos líticos. p. Os cervídeos. (ROHR. ainda hoje. crustáceos e moluscos. Graxains (Canis brasiliensis). da capivara (Hydrocoerus capibara). Os mares piscosos. 283 . 3) A matéria-prima de que o homem da Tapera mais freqüentemente lançava mão. capivaras e ratões do banhado. [.). Em toda a zona ocorrem.Tucanos (Ramphastus toco). por seu turno.5). iraras (Tayra barbara). não raro. Os campos eram as pastagens preferidas dos cervídeos (Dorcephaius dichotomus.. Mazama americana. ainda hoje se fazem encontradiços. intrusivos no granito.).1099). onde encontramos codornas. em épocas remotas. João Alfredo Rohr – Maria José Reis. mas fácil de lascar e polir. aracuãs. as lagoas riquíssimas em peixes. Dorcephaius bezoarcticus. O diabásio forma. mirtáceas e outras frutas silvestres. 1969.. ainda hoje. gaviões (Thasyaetus harpyia. urus (Odontophorus capueira). 1971. macucos e inhambus. p. tamanduás (Myrmeco-phaga jubata e Tamanduá tetradacthus) e símios (Cebus niger e Aluata caraya) completam o quadro faunístico da região..4. felídeos de menor porte. (ROHR.. saracuras. os brejos. Daí explicar-se-iam. p. por certo. naturalmente. dos quais Jaguaruna se pode orgulhar. onde o homem primitivo encontrava alimento abundante e sadio ao alcance da mão. tais como a jaguatirica (Felis pardalis) e gatos do mato (Felis wiedi. A fauna avícola. traziam no seu encalce o jaguar (Felis onza) e o puma (Felis concolor). rocha [. infestada de jacarés. etc. não é menos rica e variada. pombas. urus e até macucos. os campos. marrecas e garças. Os rios e banhados eram o habitat da anta (Tapyrus americanus). cutia (Dasiprocta azarae) e o ouriço (Coendra prehensilis). Teresa Domitila Fossari exploram recursos localizados a uma certa distância de suas áreas residenciais. da sua parte. jacutinga. etc. era o diabásio [. verdadeiro eldorado. tatus (Dasypus novemcinctus). jacupema. (ROHR 1967c. corujas.]. dura e resistente. que constitui a rocha mater da Ilha de Santa Catarina e arredores.Arqueologia e preservação do patrimônio cultural: a contribuição do Pe. onde vegetam palmáceas. A fartura de pinhão atraía manadas de porcos do mato (Dicotyles tayassu e Dicotyies albirostris). a imensa planície paludosa. Psitacídeos: periquitos e papagaios. variados e imponentes monumentos arqueológicos.].. etc.. Roedores menores: paca (Coelogenis paca).] diques mais ou menos espessos. sendo ainda hoje representada por Tinamídeos. na região. os numerosos.

em forma de raios. Pe. constata-se também. (ROHR. como sugerem os esqueletos dispostos em círculos e semicírculos. em parte. Tratar-se-ia de espaçosas malocas de forma arredondada. Nos trabalhos de Pe. Segundo esses autores. Uma maloca destas. com 5 a 10 m de diâmetro. 30 – Políticas públicas: memórias e experiências De modo similar. abrigaria mais de uma família e os postes livres do interior da maloca poderiam servir para suspender rede de dormir e outros apetrechos de caça e pesca. mais altos no centro da maloca. como sugerem diferentes auto- res. entre os quais os já citados. n. entre os quais os da obra por ele organizada (WILLEY. presentes. Rohr faz inferências em seus textos so- bre o “padrão de estabelecimento”. é indispen- sável considerar as observações e as várias possibilidades apontadas por Sharer e Ashmore (1979). decresceriam em altura na direção da periferia e estariam ligados entre si por meio de varais. sua recomendação de extrema cau- tela em relação às referidas inferências. a analogia que fornece embasamento para a interpretação arqueológica pode ser originária de três diferentes fontes: dados e documentos históricos que se referem às sociedades no passado. e por Chang (1968). 1968).998) Quanto aos usos dos diferentes tipos de analogia. As portas dariam para a praia. p. Admitindo que os homens da Tapera sepultassem os seus falecidos dentro da casa. podemos imaginar também de alguma maneira a configuração de suas casas. de vez que para aquele lado geralmente os semicírculos dos sepultamentos estão abertos. 1967b. 284 . Contudo. e estudos experimentais que tentam re- produzir condições existentes no passado. construídas de pau a pique. categoria analiticamente pro- posta por Willey (1953) e discutida por diferentes autores. Rohr são apresentadas inferências analógicas com base nas duas primei- ras fontes de material. nas transcrições a se- guir. partindo do centro. estudos de caráter etnográfico que descrevem diferentes sociedades nativas em uma perspectiva antropológica. amarrados por liames de cipó e cobertos com folhas de palmeira. ao redor das paredes. com certeza. Estes paus ou postes. Cadernos do CEOM – Ano 22.

limpar. a semelhança dos seus irmãos amazonenses. lançassem mão de outros meios para limpar da carne o esqueleto dos seus entes queridos. 219). durante meses..] Admitimos que os sepultamentos dos homens da Tapera também se efetuassem dentro da própria maloca. o delicado esqueleto de toda a carne. em uso entre os indígenas do Amazonas e outros grupos. ao ser enterrado.84). Encontrei-os mergulhados em profunda tristeza e desanimo. no seu lugar. Carl von den Steinen. sepultavam os seus falecidos no chão da própria casa. em carta datada de 5 de julho de 1965:Acabo de voltar de uma visita aos índios Caiabi. ficando. p. no entanto.Arqueologia e preservação do patrimônio cultural: a contribuição do Pe.1966. João Alfredo Rohr – Maria José Reis. achavam-se vazias. à semelhança dos Nhambiquara do Mato Grosso. fora envolvido em fina camada de barro vermelho (ocre vermelho). encontrou generalizado o uso do tembetá entre algumas tribos indígenas do Rio Xingu. carregavam no septo nasal. aliás repletas de artefatos e objetos de adorno. pouco a pouco. nos lábios ou nas orelhas perfuradas.1960. 1984. desta maneira. [. todos os seus pertences.. p. todos unidos e firmes. os ossinhos. Missionário do Mato Grosso.] não se exclui a possibilidade de que aqueles primitivos filhos da natureza. que não fosse o sepultamento. Descreve-o como pequeno fuso [... 285 . Irrompera entre eles uma epidemia de sarampo. junto com o defunto.... ao redor das paredes. (ROHR.] o corpo deste indivíduo. Os ossos do esqueleto estavam pintados de vermelho.]. em água concentrada de sabão. Escreve o P. Nós mesmos fizemos a experiência de deixar.19). que em tudo se assemelha aos objetos recolhidos na nossa jazida.. Conseguimos.1960.. 1959. fazem o sepulcro precisamente no local. Quando morre um membro da família.. [. sobre o qual achava-se estendida a sua rede de dormir e sepultam. (ROHR.11). Apresenta também um desenho desta jóia. o corpo de uma jararaca-ussu.] ainda hoje. [. pela cartilagem seca e endurecida. Na realidade. [.] caracterizam-se pelo elevado número de sepultamentos neles encontrados. O tembetá é um objeto de adorno. (ROHR. p. que os indígenas.. (ROHR. Dez pessoas já haviam morrido e as choupanas. Edgar Schmidt. Teresa Domitila Fossari Os sítios ‘rasos de sepultamento’ ou de ‘sepultamento com cerâmica’ que [. são terreiros de antigas aldeias de populações que. (ROHR. p.19). p..

fruto. por demais absorvido pelos seus problemas financeiros e materiais e. Essas manifestações revelam uma surpreendente consciência crítica. As urnas funerárias. de sua formação humanística e de uma responsabilidade social sobejamente manifestada em sua cons- tante luta pela preservação de nosso patrimônio histórico. em média. 30 – Políticas públicas: memórias e experiências Contextos etno-históricos. elevado número de sítios ainda não prospetados. enquanto as suas cascas podem servir para lastrear os caminhos nas dunas e terrenos paludosos ou fornecer algum dinheiro. p. Os sambaquis. históricos e atuais onde foram registrados os sítios Constam dos trabalhos de levantamento e registro dos sítios elaborados por Pe. quando encontradas inteiras. e a destruição sistemática de parte desta popu- lação. que se trata de um povinho retraído e desconfiado. pela exploração industrial. por certo. ainda mais. no fabrico de adubos e corretivos do solo. 1969.4). Rohr comentários so- bre a cooperação e os conflitos interétnicos entre populações indíge- nas e os colonizadores. Acresce. na destruição de monumentos pré-históricos. (ROHR. muitas vezes. Acontece que o povo da região. Do mesmo modo. ainda. Recomendações para que constem dos trabalhos arqueológicos essas informações também podem ser encontradas na literatura. não dá a mínima atenção às coisas da arqueologia. existe. 286 . Cadernos do CEOM – Ano 22. destacamos na obra de Pe. Rohr informações preliminares a respeito de as- pectos sobre o contexto histórico e atual onde são encontrados os ves- tígios registrados. em especial nos manuais de Renfrew e Bahn (1993). eram displicentemente quebradas e abandonadas. é muito difícil obter as informações in- dispensáveis para um levantamento minucioso e exaustivo de todos os sítios arqueológicos. sem dúvida. Por último. serão destacadas suas opiniões sobre as precá- rias condições de vida de populações locais onde estão localizados os sítios investigados. Nas roças. sobre as razões etno-históricas para sua ocorrência. despertam interesse. quando já está ciente de estar agindo fora da lei. apenas. n. Em decorrência disto. de mui pouca instrução. capoeiras e brejos de Jaguaruna. e sobre o modo como as populações locais atuais identificam estes vestí- gios arqueológicos.

ainda vivo. Não atacavam por traição. e mesmo muitos anos depois. um tal ‘Martinho Bugreiro’. estavam sujeitos a serem flechados a qualquer hora.Arqueologia e preservação do patrimônio cultural: a contribuição do Pe. muitos colonos estão empenhados em extirpar. São. mora no Município de Bom Retiro.. sendo paga à razão de NCr$ 0. A técnica de Martinho Bugreiro consistia em invadir o arraial a noite e trucidar os índios. 1967..3). a não ser que este fosse domesticado [. batatinha. (ROHR. amendoim. tomate. o mesmo tratamento dos brancos. no entanto. que tem emprego no fabrico de colchões e estofados. Quando estes os tratavam mal ou agrediam.5). É famoso em todo o Estado de Santa Catarina. os silvícolas. (ROHR. por onde viajavam os brancos.. Faziam. batata doce. 1971. Esperavam. Este personagem era convidado toda a vez que se tratasse de organizar uma expedição de represália ou de caça aos índios. do arado de bois ou do fogo. um salário de fome. porque o preço da crina é incrivelmente baixo. acham-se unidos e apoiam-se mutuamente.9-10). melancia. matador de índios. o butiá. p. aipim. quebrando galhos. limítrofe de Alfredo Wagner. [. porém. arroz. 1969.35 por arroba (quinze quilos) de crina. feijão. das suas roças. Apesar dos parcos recursos o pequeno povoado consegue manter de pé as suas três igrejas a erguerem as suas torres ao alto. p. Ganham. Das frondes desta palmácea. cortando as frondes da palmácea e amarrando a crina em feixes. imitando os gritos de certos animais. antes da descoberta. prepara-se um tipo de crina vegetal. de maneira que poucos destes tiveram ensejo de ver de perto um bugre. Na produção agrícola do município destacam- se gêneros tais como milho. 1971.] (ROHR. cebola e alho’ (ROHR. às vezes brincadeiras à beira das picadas.6). é verdade. No município de Petrolândia ‘Religiosamente acham-se divididos em três comunidades: católicos. apontando o céu. antes de estes acordarem do sono. que procuram ganhar um ‘dinheirinho’. particularmente. 287 . Felizmente aquele povo simples possui bastante bom senso. lançando mão do trator. Um filho de Martinho Bugreiro. agitando ramos de árvores. Desde o início da imigração dos brancos respeitavam-nos e tratavam-nos com justiça e cavalheirismo. Em muitas roças vimos os butiazeiros arrancados e amontoados para a queima.] os índios não incomodavam os brancos. evangélicos luteranos e missurianos. Teresa Domitila Fossari Nesta mataria imensa e inóspita habitavam. p. as mulheres e moças. Por isto. Apesar da diversidade dos credos. p.. João Alfredo Rohr – Maria José Reis. Não se mostravam tão pouco aos brancos.

1988). mas. em termos analíticos. Sinteticamente reiteramos que esta importância deve-se. em primeiro lugar. em tentar contextualizar e fazer inferências – cautelosas e sempre devidamente sustentadas por evidências empíricas – que permitam compreender os comportamen- tos e os processos socioculturais vivenciados pelas populações huma- nas. à atualidade. acreditamos ter demonstrado que sua obra está em sintonia e se aproxima de uma arqueologia preocupada não apenas em recuperar e registrar objetos e restos humanos do passado. como propõe a atual Constitui- ção Brasileira (BRASIL. n. que atingimos nosso propósito de prestar nossa contribuição para colocar em evidência. Em segundo lugar. 288 . contudo. para a realidade vivenciada pelas populações indígenas atuais. tanto no contexto da arqueologia catarinense quanto da arqueo- logia brasileira de um modo geral. deste modo. mais uma vez. à visão humanística e crítica que norteou suas pesquisas arqueológicas voltada. Vale relembrar. Em relação a esta atualidade. sobretudo. 30 – Políticas públicas: memórias e experiências Considerações finais A contribuição do conjunto da obra de Pe. neste sentido. Cadernos do CEOM – Ano 22. portadoras de referência à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. de um lado. o mais extensivo ocorrido na arqueologia catarinense. já que o fize- mos anteriormente. registro e con- servação. totalizando cerca de novos 400 sítios registrados e devidamente ca- dastrados. Rohr certamente não se esgota nos aspectos que acabamos de colocar em destaque. a importância de sua atuação como arqueólo- go. de suas investi- gações. testemunhas vivas de nosso passado pré-colonial. Parece-nos. através de uma perspectiva social- mente comprometida com sua devida identificação. Por último. tomadas reconhecidamente. seu investimento na tarefa do levantamento sistemático de sítios arqueológicos em Santa Catarina. a seu compromisso em salvaguardar as evidências arqueológicas como constitutivas de nosso patrimônio cultural. cujos vestígios são as evidências arqueológicas disponíveis.

Tese (Doutorado em Geografia) . 289 . C. João Alfredo Rohr – Maria José Reis. In: CHANG.Arqueologia e preservação do patrimônio cultural: a contribuição do Pe. para a realidade social das populações onde localizou os sítios arqueológi- cos. Encontros Teológicos. 2004. Victor S. Constituição da República Federativa do Brasil. 2002. 5. João Alfredo Rohr. Centro de Filosofia e Ciên- cias Humanas. 2004. Palo Alto: National Press Books. GONÇALVES.Pro- grama de Pós-Graduação em Geografia. n. FOSSARI. Toward a science of prehistoric society. K. ao levar em conta suas impressões sobre os vestígios identificados e registrados. O legado do arqueólogo Pe. Promul- gada em 5/10/1988. CHANG. K. Florianópolis.) Settlement archaeology.2. Lugares de povoamento das antigas socie- dades camponesas entre o Guadiana e a Ribeira do Álamo (Reguengos de Monsaraz): um ponto da situação em inícios de 2002. Teresa Domitila Fossari como grupos formadores da nação brasileira. 339 f. (Ed. FOSSARI. transformadas por ele em informantes chaves sobre estes sítios. Teresa. Notas * Professora Doutora vinculada à Universidade Federal de Santa Catarina -UFSC e à Universidade do Vale do Itajaí -UNIVALI. ** Professora Doutora vinculada à Universidade Federal de Santa Catarina -UFSC. Brasília: Senado Federal. 2. 2001. Universidade Federal de Santa Catarina. e participantes pró-ativos de suas pesquisas. A população pré-colonial Jê na paisagem da Ilha de Santa Catarina. Referências BRASIL. Revista Portuguesa de Arqueologia. n. De outro lado. vol. 1968. Ano 16. n. Subsecretaria de Edi- ções Técnicas. 31. C. 2001. Teresa.

João Alfredo Rohr. n. Porto Alegre. n. Série Antropologia. ______. 30 – Políticas públicas: memórias e experiências RATHJE. Paul. SCHIFFER. 1967 a. 1966. Colin. Madrid: Ediciones Akal. SC VI 13. métodos y prática. Michael B. Maria José. (61)9. 17. 1961. Arqueología: Teorías. São Leopoldo. Série Antropologia.. In memoriam do Arqueólo- go Pe. São Leopoldo. 290 . RENFREW. William L. ______.1967. Pesquisas. n. ROHR. BAHN. Pesquisas paleo-etnográficas na Ilha de Santa Catarina II. Teresa D. São Leopoldo. Pesquisas paleo-etnográficas na Ilha de Santa Catarina III. Pesquisas paleo-etnográficas na Ilha de Santa Catarina. Pesquisas. São Leopoldo. Série Antropologia.15. Série An- tropologia. 1960. ______. 1984. Pesquisas. Maria José. Archaeology. FOSSARI. A problemática arqueológica das estruturas sub- terrâneas no Planalto Catarinense. REIS. REIS. Vozes. e notícias prévias sobre sambaquis da Ilha de São Francisco do Sul. Pesqui- sas. 1983. Florianópolis. Série Antropologia. 1959. 1993.A exploração científica da aldeia pré-histórica da Praia da Tapera (II). New York: Harcourt Brace Jovanovich. n. ______. Explo- ração sistemática do sítio da praia da Tapera. O sítio arqueológico de Alfredo Wagner. Pesquisas.. Pesquisas arqueológicas na Ilha de Santa Catarina I. UFSC. 2007. 8. 12. Publishers. Erechim (RS): Habilis. ______. Cadernos do CEOM – Ano 22. 3. João Alfredo. Anais do Museu de Antropologia.

São Leopoldo. ______. 1967b. ______. ______. Série Antropologia.1971. A pré-história da Laguna. (61)11. 291 . ______. Brasil. Laguna: IOESC. Anais do Museu de Antropologia. O sítio arqueológico do Pântano do Sul SC . São Leopoldo. Pesquisas. Florianópolis. Sítios arqueológicos de Santa Catarina. Série Antropologia. ______. 12 a 15. João Alfredo Rohr – Maria José Reis. ASHMORE. Pesquisas arqueológicas no município catarinense de Urussanga. n. Cummings Publishing Company. (61)12. 1979. ______. In: Santo António dos Anjos da Laguna: Seus valores históricos e humanos. ______. 3. Normas para a cimentação de enterramentos arqueológicos e montagem de blocos-testemunha. n. UFSC. A aldeia pré-histórica da Praia da Tapera (V). Curitiba. 22. Vozes. Manuais de Arqueologia. 1976.10. Fundamentals of Archaeology. 1969. 1977. Centro de Ensino e Pesquisas Arqueológicas. 1970. 17. Publicação comemora- tiva da passagem do seu tricentenário de fundação.. Anais do Museu de Antropologia.F . 1982. Florianópolis: Imprensa Oficial do Estado de Santa Catarina. Menlo Park: The Benjamin. ______.Arqueologia e preservação do patrimônio cultural: a contribuição do Pe. Ilha de Santa Catarina. Wendy. Teresa Domitila Fossari ______. SHARER Robert J. 1967c. Pes- quisas. A aldeia pré-histórica da Praia da Tapera (IV) Ilha de Santa Catarina Vozes.Os sítios arqueológicos do Planalto Catarinense.24. Florianópolis 1984. Os sítios arqueológicos do município sul-catarinense de Jaguaruna.

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Pro- cesses experienced in the past. Cultural patrimony. the cultural patrimony that can be rescued through archaeological research socially committed with the proper identification and registration of such patrimony. at least partially. dedicated to identify and analyze the contents of more than 400 archaeological sites. a contribution to archaeology in general. but. in the present. mainly. of scarce circulation in those times. several were the advances in theoretical-methodological terms put in practice in a pioneer way by Pe. material evidences which constitute. João Alfredo Rohr – Maria José Reis. 293 . with the attempt of contextualizing and making inferences –cautious and always properly sustained by empirical evidence – which might allow to understand. João Alfredo Rohr to brazilian archaeology is. Throughout the almost forty years of career as an anthropologist. as also by those dedicated to the preservation of cultural patrimonies. and it is very proximate to an archaeology concerned not only with the recovery of objects or human remains from the past. At the same time. Rohr in Santa Catarina’s archaeology. by extension. the document pretends to argument that his work. Teresa Domitila Fossari Abstract The contribution of Pe. it is invaluable and deserves special attention by all those whom are dedicated to this area of research. Keywords: Santa Catarina’s archaeology. the social behaviours and processes experienced in the past. precursors of diverse ad innovative analitic currents. is toned with.Arqueologia e preservação do patrimônio cultural: a contribuição do Pe. outside from their own countries. empirically antecipating principles and presuppositions elaborated by international archaeologists. The purpose of this text is to enhance the importance and actual validity of the research and the writings of the mentioned archaeologist. since the decade of the 1950s.