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TEXTO/IMAGEM ENQUANTO DINÂMICA DO OCIDENTE.

Natacha de Souza

O presente texto propõe uma contradição entre o gesto de produzir imagens e


o gesto de produzir textos usando quatro eventos da história ocidental para
compreender tal narrativa: as primeiras imagens, os primeiros textos, os
primeiros impressos e as primeiras fotografias. Com as primeiras imagens
articulam-se o gesto de imaginar, com os primeiros textos, a questão de
conceituação, com as impressões, o gesto de conceituar domina a imaginação,
e finalmente, com a fotografia surge uma nova fonte imaginativa.

Sobre o gesto de produzir imagens, as “figuras” retratadas são aparência do


que são. Antes do homem dominar o objeto, ele precisa ver o objeto. A imagem
é então a marca da visão. Porém, após esse período, vai surgir uma zona
imaginária entre o homem e o universo das imagens – quando o homem
começará a modificar as imagens aparentes a fim de encobri-las e não mais
revelá-las. A imagem será manipulada a fim de modificar os objetos
circunstanciados, confundindo-os entre si: imaginação vira então alucinação
(consciência pré-histórica de magia).

Nos gestos de produzir textos alfabéticos lineares – gesto ocidental, trata-se de


reduzir as imagens a linhas. Rasga a imagem e a torna transparente: substitui
a bidimensionalidade imaginativa pela unilateralidade do pensamento claro e
objetivo. O que ocorreu na formação da consciência ocidental foi a
contextualização do gesto imagético.

De fato, a invenção da escrita alfanumérica ocidental fez com que a


consciência imaginativa, magica (no conceito pré-histórico de magia), fosse
desestimulada pela consciência linear e objetiva/progressiva. Apesar dos
primeiros letrados acreditavam que as imagens eram fontes de pecados, essas
resistiam com veemência. Usavam os textos que as atacavam e recodificavam
em ideais: na medida que os textos explicavam as imagens, elas ilustravam os
textos, criando-se assim uma dialética entre ambos. Essa dialética é muito vista
no período medieval com a ascensão do cristianismo por exemplo, uma vez
que os letrados usavam as literaturas e as escreviam, os analfabetos forneciam
imagens para entendimento e compreensão dos escritos bíblicos, que por sua
vez eram entendimentos devolvidos em forma de escrita. Aqui também nasce a
impressão.

Então, a análise acima mostrou que o texto superou as imagens, deixando o


mundo inteiramente concebível e calculável – uma vez que a capacidade
imaginativa se tornou incoerente e vazia. Porém, neste mesmo período
demasiadamente pessimista, houve o surgimento da fotografia, mostrando-se
importantíssima para o renascimento imaginativo ocidental.

A fotografia é um processo mecânico: trata-se de apertar um botão que vai


fazer que o aparelho capture os fótons em moléculas de sais de prata e inserir
tais moléculas em uma superfície de imagem. A fotografia no final das contas é
um processo de elementos concebidos, nas quais serão inseridos em imagem
(definição de imaginação) para representar determinados objetos. Com o
decorrer do desenvolvimento dos aparelhos e a criação de computadores,
houve então um ressurgimento da consciência bidimensional e imaginativa com
o universo das imagens técnicas sejam elas quem forem: fotografias, filmes,
vídeos, imagens sintetizadas por computadores...). Na verdade, o que
acontece é uma nova forma de imaginar.

É importante destacar a diferença entre essas capacidades imaginativas (a pré-


histórica e a pós-moderna). A primeira, durante a produção de imagens, o
homem recua à substância da imagem, na segunda, o homem recua à
essencialidade da imagem. Ou seja, os conceitos imaginativos. Outra grande
diferença é que a partir da segunda, o elemento conceitual se tornou vital para
compreensão e para a capacidade de imaginar. Não somente é para explicar o
mundo, mas para senti-lo, por esse fato que a segunda onda de consciência,
está ligada a essencialidade das imagens, do ser especial que cada uma
carrega sobre elas.

Um cenário obscuro a ser observado também é a questão da produção de


imagens somente técnicas. Óbvio que ela corresponde ao desenvolvimento
tecnológico e da ciência, porém terá consequências. Pode ser o total abandono
de determinadas disciplinas como disciplinas e se tornarem apenas “ciência”; e
pode ser o abandono do alfabeto também, uma vez que a escrita se tornará
redundante e mero apoio para as imagens. Ou num cenário pior, as imagens
vão se tornando mais técnicas e menos imaginativas e neste caso, nos
retirando o nosso direito de termos o pensamento crítico. Este caso, o pior
deles, seria a derrota total da imagem e do nosso pensamento imagético.

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