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SUMÁRIO

CAPÍTULO I: LITERATURA E MODERNISMO

1.1. O modernismo no Brasil e a valorização do conteúdo nacional ................... 05


1.2. Inquietação e heroísmo: primeira geração modernista ................................. 14
1.3. Reflexões regionais: segunda geração modernista ...................................... 16

ATIVIDADE ..................................................................................................................... 18

CAPÍTULO II: LITERATURA NAS ALAGOAS

2.1. Literatura alagoana: movimentos de consolidação ........................................ 22

2.2. O florescimento da literatura das Alagoas a partir do modernismo .............. 24

2.3. O teatro alagoano .............................................................................................. 29

ATIVIDADE ..................................................................................................................... 37

CAPÍTULO III: LITERATURA ALAGOANA: ARTISTAS E OBRAS

Anilda Leão .................................................................................................................... 40

Arriete Vilela ................................................................................................................. 42

Aurélio Buarque de Hollanda ....................................................................................... 44

Carlos Moliterno ............................................................................................................ 47

Graciliano Ramos .......................................................................................................... 52

Heliônia Ceres ............................................................................................................... 59

Jorge Cooper ................................................................................................................. 61

Jorge de Lima ................................................................................................................ 64

Lêdo Ivo ......................................................................................................................... 69

REFERÊNCIAS ............................................................................................................. 72

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LITERATURA ALAGOANA
Considerações Iniciais

Pode-se considerar literatura alagoana toda a arte da palavra produzida em


território alagoano, bem como toda a criação de um artista nascido nesse Estado
ou que incluiu em suas produções a representação dos aspectos socioculturais
dessa região. Este material bibliográfico tem como objetivo mostrar - em caráter
meramente expositivo - a presença da literatura alagoana, com ênfase no
Modernismo, momento em que as produções no estado de Alagoas foram
marcadas pela presença de um forte regionalismo, sobretudo na segunda fase
(1930-1945).

Foi no período modernista que a arte literária em território alagoano


provocou, acima de tudo, um constante diálogo entre o ser e a sociedade,
permeado de liberdade de expressão. Houve, também, a descrição de elementos
prosaicos e descritivos que trouxeram e ainda trazem discussões sobre os
problemas de um Brasil até então, desconhecido em outras regiões do país.

Há de considerar nos textos alagoanos a forte presença do contexto


histórico que marcou as suas produções e elevou os escritores dentro do cenário
nacional. Tendo como enfoque as mudanças socioculturais trazidas pela
urbanização e industrialização no Brasil, que aproximou lugares tão distantes em
função dos avanços tecnológicos e do aprimoramento da imprensa, esse estudo
se torna necessário, pois capacitará o leitor a analisar a influência da história no
percurso dos autores e das suas respectivas obras.

Em meio aos diversos gêneros literários, o primeiro capítulo trará uma


abordagem em torno da formação da literatura alagoana a partir dos movimentos
modernistas no Brasil. O objetivo é compreender de que modo o Modernismo foi
fundamental no estímulo a produções que valorizavam escritores e obras
regionais, fato que promoveu a multiplicação de livros que representavam os
problemas sociais em diferentes localidades do Brasil.

O segundo capítulo abordará um histórico de formação da literatura


modernista em Alagoas, focalizando, sobretudo, A Festa da Arte Nova. Esse
movimento artístico renovador garantiu o reconhecimento dos autores alagoanos
em nível nacional, o que contribuiu para a valorização permanente das nossas
letras. Nesta unidade, também será apresentado um breve painel da arte
dramática alagoana, incluindo autores e obras.

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O terceiro e último capítulo exporá alguns autores e obras alagoanos,
compreendendo de que formas Anilda Leão, Carlos Moliterno, Aurélio Buarque,
Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Lêdo Ivo, Jorge Cooper, Ariette Vilela e Heliônia
Ceres alcançaram notoriedade no cenário brasileiro. Serão, evidenciados alguns
conteúdos ficcionais dos autores citados, destacando os seus textos mais
conhecidos.

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CAPÍTULO I - LITERATURA E MODERNISMO

...E é nisto que se resume


O sofrimento:
e deixa o perfume
No vento!
(Cecília Meireles)

1.1. Século XX: o modernismo no Brasil e a valorização do conteúdo


nacional

O século XX no Brasil foi marcado por profundas alterações


socioeconômicas que afetaram a dinâmica cultural da sociedade. O progresso
técnico, como consequência da industrialização e crescente urbanização,
contribuiu decididamente para o crescimento do país, alterando toda a sua
estrutura social. De um país agrário em que se sobressaia a cultura cafeeira, o
Brasil é tomado por um cenário pleno de fábricas, ocupado por operários aptos a
utilizarem a sua mão-de-obra no mercado de trabalho concentrado, desta vez, em
área urbana.

Ocorre que, a exploração do trabalho dos imigrantes (cerca de 70.000) gera


uma massa de desempregados (escravos recém- libertados, camponeses e
profissionais não-especializados). Como consequência, a desigualdade social e os
conflitos de classes aumentam, greves são criadas pelo proletariado oprimido e
favelas margeando as cidades se desenvolvem em meio à urbanização, na
mesma proporção em que se expande a violência. Como resultado, uma grave
crise social toma conta do país e, dessa forma, os problemas sociais estimulam
movimentos anarquistas e o desejo de luta pela liberdade em meio à opressão
causada pela burguesia industrial.

Como reflexo dessa conflituosa luta de classes, a arte se apropria da


necessidade de transformação da realidade e, como um instrumento de
comunicação e expressão, passa a representar, envolver e discutir os graves
problemas que atingem o país. Autores adotam um contorno político para as artes
ao utilizarem as suas produções como instrumentos de reivindicação e de justiça
social. No entanto, esses novos artistas teriam que alterar significativamente toda
a estrutura artística do país, tanto do ponto de vista das produções, do público e,
principalmente, da crítica.

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Em pleno século XX, a arte ainda estava restrita a um instrumento de
propaganda da Missão Artística Francesa, academia de artes composta por uma
série de artistas estrangeiros trazidos pelo sistema imperial no ano de 1816, e que
foi responsável pela influência das produções e dos ensinamentos europeus de
modo que não havia uma produção genuinamente brasileira e, tampouco, a
qualificação e a presença de artistas locais.

No entanto, não se pode negar que no setor artístico, a industrialização


favoreceu a multiplicidade das produções e emergiu a necessidade de valorização
das produções nacionais. Ao assumirem um viés crítico e reflexivo, essas
produções de arte iam aproximando o seu conteúdo com a vida cotidiana, sendo,
portanto, um bem a ser usufruído pelas massas e pelo comércio.

Soma-se ao interesse da indústria da arte a popularização do cinema, cujo


preço acessível dos ingressos ampliou o público e contribuiu com produções cada
vez mais sofisticadas. Além disso, as transmissões de rádio e a imprensa ilustrada
estimularam o interesse pela leitura de obras realistas.

Acresce ao fato o favorecimento dado à literatura de cunho jornalístico e às


pesquisas. O interesse em descortinar a realidade contribuiu para a publicação de
Casa grande & senzala (1933), de Gilberto Freire; Raízes do Brasil (1936), de
Sérgio Buarque de Holanda e Formação do Brasil contemporâneo (1942), de Caio
Prado Jr, obras que também serviram como base para a inserção dos costumes
nacionais representados na ficção.

No início do século XX, os sentimentos de luta pela transformação social


influenciaram a arte em todos os seus aspectos (forma e conteúdo), promovendo
uma reflexão em torno de um nacionalismo mais crítico e livre. No entanto, o
academicismo manteve-se forte e mantenedor de uma concepção rígida e
conservadora na arte. Obediente aos cânones, produções elitistas eram impostas,
sendo formuladas segundo padrões tradicionais de construção, que excluíam as
contribuições da cultura popular e rejeitava a liberdade de criação.

Semelhante à Europa, o Modernismo brasileiro foi um movimento de


ruptura com a tradição. Seus adeptos defendiam a difusão das técnicas das
vanguardas, que permitiam à arte brasileira acertar o passo em relação ao que era
produzido no continente europeu. Convém ressaltar que os brasileiros procuravam
vincular essa arte “internacionalizada” à cultura nacional, que serviria de base para
a pesquisa e a criação de uma arte inovadora e crítica.

No ano de 1922, a presença de uma escrita literária crítica produzida pelos


escritores Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia e Mário
de Andrade revolucionou a arte. Influenciados pelas vanguardas europeias

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(Oswald manteve contato com os futuristas na Europa), estes artistas resolveram
defender a brasilidade na arte, uma vez que os movimentos tradicionalistas não
abriam espaço para a liberdade, por optarem pelos modelos acadêmicos
estrangeiros.

Desde 1912, o “Manifesto futurista”, de Marinetti impulsionou


definitivamente a valorização das raízes nacionais na arte brasileira através do
escritor Oswald de Andrade. Sua proposta consistia no “compromisso da literatura
com a nova civilização técnica” (BRITO, 1958, p. 24). Desse modo, o movimento
literário “Pau-brasil” – como ponto de partida de uma literatura revolucionária -
passou a ser um instrumento de propagação das ideias nacionais e
revolucionárias publicadas nos jornais que, de fato, atraíram positivamente o
público.

Sobre as vanguardas literárias, Abaurre afirma que

A violência que destrói as certezas e os modelos obriga o leitor a reagir.


O processo de recepção da nova arte passa a ser, assim, mais dinâmico
e interativo.

Marinetti recomenda que os textos futuristas destruam a sintaxe,


apresentando os substantivos “ao acaso, como nascem”. Os verbos
devem ser usados no infinitivo, para que o leitor seja levado a participar
da construção do sentido do texto. O líder futurista também recomenda
abolir a pontuação, os adjetivos e os advérbios. O objetivo é sempre o
mesmo: impedir que a literatura continue a exaltar “a imobilidade
pensativa”. (2010, p. 38)

Além da interferência de Oswald, dois fatos marcantes culminaram com a


consolidação do modernismo no Brasil: a exposição da pintora Anita Malfatti,
seguida de uma crítica polêmica e conservadora do escritor Monteiro Lobato. Um
artigo intitulado “A propósito da Exposição Malfatti”, publicado no jornal O Estado
de São Paulo em 20 de dezembro de 1917 provocou a união dos artistas de
vanguarda.

Em “Paranoia ou mistificação?”, Lobato é bastante incisivo ao criticar a arte


moderna:

Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que veem normalmente


as coisas e em consequência disso fazem arte pura, guardando os
eternos rirmos da vida, e adotados para a concretização das emoções
estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres. Quem trilha por
esta senda, se tem gênio, é Praxíteles na Grécia, é Rafael na Itália, é
Rembrandt na Holanda, é Rubens na Flandres, é Reynolds na Inglaterra,

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é Leubach na Alemanha, é Iorn na Suécia, é Rodin na França, é Zuloaga
na Espanha. Se tem apenas talento vai engrossar a plêiade de satélites
que gravitam em torno daqueles sóis imorredouros. A outra espécie é
formada pelos que veem anormalmente a natureza, e interpretam-na à
luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes,
surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos de
cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência: são frutos de
fins de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes brilham um
instante, as mais das vezes com a luz de escândalo, e somem-se logo
nas trevas do esquecimento.

Embora eles se deem como novos precursores duma arte a ir, nada é
mais velho de que a arte anormal ou teratológica: nasceu com a paranoia
e com a mistificação. De há muitos já que a estudam os psiquiatras em
seus tratados, documentando-se nos inúmeros desenhos que ornam as
paredes internas dos manicômios. A única diferença reside em que nos
manicômios esta arte é sincera, produto ilógico de cérebros
transtornados pelas mais estranhas psicoses; e fora deles, nas
exposições públicas, zabumbadas pela imprensa e absorvidas por
americanos malucos, não há sinceridade nenhuma, nem nenhuma lógica,
sendo mistificação pura. Todas as artes são regidas por princípios
imutáveis, leis fundamentais que não dependem do tempo nem da
latitude. As medidas de proporção e equilíbrio, na forma ou na cor,
decorrem de que chamamos sentir. Quando as sensações do mundo
externo transformam-se em impressões cerebrais, nós "sentimos"; para
que sintamos de maneiras diversas, cúbicas ou futuristas, é forçoso ou
que a harmonia do universo sofra completa alteração, ou que o nosso
cérebro esteja em "pane" por virtude de alguma grave lesão. Enquanto a
percepção sensorial se fizer anormalmente no homem, através da porta
comum dos cinco sentidos, um artista diante de um gato não poderá
"sentir" senão um gato, e é falsa a "interpretação" que o bichano fizer um
"totó", um escaravelho ou um amontoado de cubos transparentes. Estas
considerações são provocadas pela exposição da Sra. Malfatti, onde se
notam acentuadíssimas tendências para uma atitude estética forçada no
sentido das extravagâncias de Picasso e companhia. Essa artista possui
talento vigoroso, fora do comum. Poucas vezes, através de uma obra
torcida para a má direção, se notam tantas e tão preciosas qualidades
latentes. Percebe-se de qualquer daqueles quadrinhos como a sua
autora é independente, como é original, como é inventiva, em que alto
grau possui um semi-número de qualidades inatas e adquiridas das mais
fecundas para construir uma sólida individualidade artística. Entretanto,
seduzida pelas teorias do que ela chama arte moderna, penetrou nos
domínios dum impressionismo discutibilíssimo, e põe todo o seu talento a
serviço duma nova espécie de caricatura. Sejam sinceros: futurismo,
cubismo, impressionismo e tutti quanti não passam de ouros tantos
ramos da arte caricatural. É extensão da caricatura a regiões onde não
havia até agora penetrado. Caricatura da cor, caricatura da forma -
caricatura que não visa, como a primitiva, ressaltar uma ideia cômica,
mas sim desnortear, aparvalhar o espectador. A fisionomia de que sai de

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uma destas exposições é das mais sugestivas. Nenhuma impressão de
prazer, ou de beleza denuncia as caras; em todas, porém, se lê o
desapontamento de quem está incerto, duvidoso de si próprio e dos
outros, incapaz de racionar, e muito desconfiado de que o mistificam
habilmente. Outros, certos críticos, sobretudo, aproveitam a vaza para
épater les bourgeois. Teorizam aquilo com grande dispêndio de
palavrório técnico, descobrem nas telas intenções e sub-intenções
inacessíveis ao vulgo, justificam-nas com a independência de
interpretação do artista e concluem que o público é uma cavalgadura e
eles, os entendidos, um pugilo genial de iniciados da Estética Oculta. No
fundo, riem-se uns dos outros, o artista do crítico, o crítico do pintor e o
público de ambos. Arte moderna, eis o estudo, a suprema justificação. Na
poesia também surgem, às vezes, furúnculos desta ordem, provenientes
da cegueira sempre a mesma: arte moderna. Como se não fossem
moderníssimo esse Rodin que acaba de falecer deixando após si uma
esteira luminosa de mármores divinos; esse André Zorn, maravilhoso
"virtuose" do desenho e da pintura; esse Brangwyn, gênio rembrandtesco
da babilônia industrial que é Londres; esse Paul Chabas, mimoso poeta
das manhãs, das águas mansas, e dos corpos femininos em botão.
Como se não fosse moderna, moderníssima, toda a legião atual de
incomparáveis artistas do pincel, da pena, da água-forte, da dry point que
fazem da nossa época uma das mais fecundas em obras-primas de
quantas deixaram marcos de luz na história da humanidade. Na
exposição Malfatti figura ainda como justificativa da sua escola o trabalho
de um mestre americano, o cubista Bolynson. É um carvão
representando (sabe-se disso porque uma nota explicativa o diz) uma
figura em movimento. Está ali entre os trabalhos da Sra. Malfatti em
atitude de quem diz: eu sou o ideal, sou a obra-prima, julgue o público do
resto tomando-me a mim como ponto de referência. Tenhamos coragem
de não ser pedante: aqueles gatafunhos não são uma figura em
movimento; foram, isto sim, um pedaço de carvão em movimento. O Sr.
Bolynson tomou-o entre os dedos das mãos ou dos pés, fechou os olhos,
e fê-lo passar na tela às pontas, da direita para a esquerda, de alto a
baixo. E se não o fez assim, se perdeu uma hora da sua vida puxando
riscos de um lado para o outro, revelou-se tolo e perdeu tempo, visto
como o resultado foi absolutamente o mesmo. Já em Paris se fez uma
curiosa experiência: ataram uma brocha na cauda de um burro e
puseram-no traseiro voltado numa tela. Com os movimentos da cauda do
animal a broxa ia borrando a tela. A coisa fantasmagórica resultante foi
exposta como um supremo arrojo da escola cubista, e proclama pelos
mistificadores como verdadeira obra-prima que só um ou outro raríssimo
espírito de eleição poderia compreender. Resultado: o público afluiu,
embasbacou, os iniciados rejubilaram e já havia pretendentes à tela
quando o truque foi desmascarado. A pintura da Sra. Malfatti não é
cubista, de modo que estas palavras não se lhe endereçam em linha reta;
mas como agregou a sua exposição uma cubice, leva-nos a crer que
tende para ela como para um ideal supremo. Que nos perdoe a talentosa
artista, mas deixamos cá um dilema: ou é um gênio o Sr. Bolynson e
ficam riscados desta classificação, como insignes cavalgaduras, a coorte

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inteira dos mestres imortais, de Leonardo a Steves, de Velásques a
Sorolla, de Rembrandt a Whistler, ou... vice-versa. Porque é de todo
impossível dar o nome da obra de arte a duas coisas diametralmente
opostas como, por exemplo, a Manhã de Setembro, de Chabas, e o
carvão cubista do Sr. Bolynson. Não fosse a profunda simpatia que nos
inspira o formoso talento da

Sra. Malfatti, e não viríamos aqui com esta série de considerações


desagradáveis.

Há de ter essa artista ouvido numerosos elogios à sua nova atitude


estética. Há de irritar-lhe os ouvidos, como descortês impertinência, esta
voz sincera que vem quebrar a harmonia de um coro de lisonjas.
Entretanto, se refletir um bocado, verá que a lisonja mata e a sinceridade
salva. O verdadeiro amigo de um artista não é aquele que o entontece de
louvores, e sim o que lhe dá uma opinião sincera, embora dura, e lhe
traduz chãmente, sem reservas, o que todos pensam dele por detrás. Os
homens têm o vezo de não tomar a sério as mulheres. Essa é a razão de
lhes derem sempre amabilidades quando elas pedem opinião. Tal
cavalheirismo é falso, e sobre falso, nocivo. Quantos talentos de primeira
água se não transviaram arrastados por maus caminhos pelo elogio
incondicional e mentiroso? E tivéssemos na Sra. Malfatti apenas uma
"moça que pinta", como há centenas por aí, sem denunciar centelhas de
talento, calar-nos-íamos, ou talvez lhe déssemos meia dúzia desses
adjetivos "bombons" que a crítica açucarada tem sempre à mão em se
tratando de moças. Julgamo-la, porém, merecedora da alta homenagem
que é tomar a sério o seu talento dando a respeito da sua arte uma
opinião sinceríssima, e valiosa pelo fato de ser o reflexo da opinião do
público sensato, dos críticos, dos amadores, dos artistas seus colegas
e... dos seus apologistas. Dos seus apologistas sim, porque também eles
pensam deste modo... por trás. (disponível em:
Inhttp://www.mac.usp.br/mac/templates/projetos/educativo/paranoia.html.
Acesso em 12 out. 2012).

Lobato aproveitou a oportunidade para estender a sua crítica aos artistas


inovadores, o que revoltou a classe artística. Anos mais tarde, em resposta ao
conservadorismo, Mário de Andrade assume escreveu suas ideias estéticas no
“Prefácio interessantíssimo” em Pauliceia desvairada, em 1922.

Belo da arte: arbitrário, convencional,


transitório – questão de moda. Belo da
natureza; imutável, objetivo, natural – tem a
eternidade que a natureza tiver. Arte não
consegue reproduzir natureza, nem este é seu
fim. Todos os grandes artistas, ora conscientes
(Rafael das Madonas, Rodin de Balzac,
Beethoven da Pastoral, machado de Assis do

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Braz Cubas) ora inconscientes (a grande
maioria) foram deformadores da natureza.
Donde infiro que o belo artístico será tanto mais
artístico, tanto mais subjetivo quanto mais
se afastar do belo natural. Outros infiram o que
quiserem. Pouco me importa. (PROENÇA, 2002, p. 230)

Enfim, o entusiasmo de Mário de Andrade motivou outros artistas a


ultrapassarem os limites da arte de seu tempo. Tendo em vista o fortalecimento
dos seus ideais, o grupo vanguardista – que contou com a presença do escritor -
resolveu criar a Semana de Arte Moderna, realizada nos dias 13, 15 e 17 de
fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo. O evento contou com a
presença de 110 obras de vários artistas de São Paulo e do Rio de Janeiro, e
dispôs de sessões noturnas realizadas em meio a tensões e xingamentos por
parte daqueles que não aceitavam as inovações.

Segundo Barreto

A exposição, no saguão do teatro, causou escândalo; conta-se que


bilhetes com insultos eram colocados junto às obras todas as noites.

Essa mesma tensão entre artistas e público marcou as sessões noturnas.


A leitura de trechos de obras modernistas, principalmente de “Os sapos”,
de Manuel bandeira, provocaram vaias e xingamentos. O tumulto se
estendeu a um dos intervalos, quando Mário de Andrade, na escadaria
do teatro, discursou sobre as obras do saguão. (2010, p.68).

Tal fato comprova o movimento de contestação e renovação dentro da arte


brasileira.

Na programação da Semana de 22 havia concertos musicais, conferências,


exposições de artistas plásticos, pondo em evidência a arte de escultores como
Vítor Brecheret e W. Haerburg, pintores como Di Cavalcanti, Vicente do Rego
Monteiro, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral; músicos como Villa Lobos, e escritores
como Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Graça Aranha e Oswald de Andrade.

Manuel Bandeira, através de seu poema “Os sapos”, também criticou o


academicismo vigente ao levantar a bandeira da liberdade artística independente
dos modelos parnasianos:

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Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,


Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo


Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom


Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos


Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..."

Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei!"- "Foi!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo".

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Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".

Longe dessa grita,


Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,


Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,


Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...
(1996, p. 158-159)

A semana de Arte Moderna de 1922 provocou em definitivo a


transformação da arte brasileira, sobretudo da literatura. Como consequência,
houve a aproximação de artistas de diversas regiões, antes marginalizados pelos
cânones, o que contribuiu para verdadeiras interações entre criadores e obras ao
exporem a expressões de suas raízes em todo território nacional. A partir de
então, o Brasil foi sendo descortinado e ampliaram-se as discussões de seus
problemas através de diferentes linguagens artísticas.

Desse modo, o padrão artístico nacional foi repensado na medida em que


era desvelada a cultura popular local. Nesse cenário, territórios esquecidos do
poder e regiões afastadas dos eixos industriais, como o Nordeste, assumiram uma
posição de destaque com a presença de textos que desvelavam a história de seu
povo.

A Semana de 22 marcou definitivamente a arte brasileira por instaurar uma


concepção estética que abriu espaço para a criatividade, ainda que muitos artistas
mantivessem contatos anteriores com a arte feita na Europa, como foi o caso de
Lasar Segall, Tarsila do Amaral e até mesmo Anita Malfatti e Oswald de Andrade.
Na verdade, eles adaptaram as novas ideias do continente europeu à temática
brasileira.

De fato, a literatura brasileira seguiu com entusiasmo toda a dinâmica de


ruptura com o universo acadêmico mantido nos grandes centros, assumindo

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dessa vez, uma autonomia e uma multiplicidade de conteúdos nunca vistas em
toda a sua trajetória, fato que se mantém na contemporaneidade.

Cartaz de exposição da Semana de Arte Moderna, produzido pelo pintor Di Cavalcanti,


disponível em: http://www.pitoresco.com.br/art_data/semana/index.htm. Acesso em: 23 out. 2012.

1.2. Inquietação e heroísmo: primeira geração modernista (1922-1930)

A primeira geração modernista esteve diretamente ligada às vanguardas


europeias e se caracterizou pela crítica contra o academicismo, numa tentativa de
demonstrar a cultura popular nos textos. Embora apoiada pela elite, durante muito
tempo as ideias inovadoras causaram o estranhamento do público. Por essa
razão, O escritor Mário de Andrade, fiel opositor do academicismo, considerou
esse período como “heroico”.

A primeira geração tinha como objetivo reconstruir a cultura brasileira, tendo


como parâmetros as bases nacionais e o repensar da história política e social.
Dentre as temáticas a abordadas, há de se destacar a valorização de temas
cotidianos nos textos literários e um linguajar desprovido de modelos rigorosos e
elitistas.

Era constante a busca de integração da cultura intelectual à cultura nativa.


O conteúdo ficcional possuía um caráter mais agressivo e provocador e as suas
propostas foram apresentadas por meio de manifestos nacionalistas. Como
exemplos, destacam-se o “Pau-brasil”, o “Nhegaçu verde-amarelo” e o “Manifesto
antropofágico” idealizados por Oswald de Andrade, escritor polêmico do humor, da
ironia, da crítica e do amor à brasilidade nos versos.

Brasil

Para Trolyr

O Zé Pereira chegou de caravela


E preguntou pro guarani da mata virgem
Sois cristão?

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Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! Ua! Uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
Sim pela graça de Deus
Canhem Babá Canhem Babá Cum Cum!
E fizeram o carnaval.
(ANDRADE , apud ABAURRE, 2010, p. 79)

Essa geração também destacou Mário de Andrade, Raul Bopp e Manuel


Bandeira como os grandes representantes. Em Macunaíma e “Ode ao burguês”,
Andrade faz uma experimentação de uma linguagem tipicamente brasileira,
revelando a fala do homem comum por meio de uma poesia constituída pelo verso
livre, ecletismo além da busca de uma escrita automática própria do movimento
surrealista.

Ode ao burguês

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,


O burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
É sempre um cauteloso pouco-a-pouco! (...)

(ANDRADE, apud BARRETO, 2010, p.73)

Mário de Andrade pensou na construção de uma “gramatiquinha da língua


brasileira” para exaltar o lugar do escritor e do seu público. A valorização do
território nacional se estendeu de maneira intensa e, aos poucos recebeu o
reconhecimento do público.

Como reflexo da valorização dos elementos regionais na arte, no ano de


1926 aconteceu o Primeiro Congresso Brasileiro de Regionalismo, na cidade de
Recife. Corroborando com os princípios da Semana de 22, o evento se
caracterizou como manifesto ao recusar a interferência cultural europeia no
território brasileiro, condenando-a como responsável pela perda da identidade
nacional, fato que também deu impulso para que no estado de Alagoas o
movimento fosse desenvolvido e consolidado, embora sofrendo uma grande
resistência.

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1.3. Reflexões regionais: segunda geração modernista

Para Bosi, a literatura de 1930 acompanhou as mudanças sociais que iam


exigindo uma nova configuração literária. Evidentemente, a chamada segunda
fase do Modernismo se constituiu como um período muito importante para as
artes, visto que, ao fazer parte de uma história de progresso e politização dos
brasileiros, prolongou-se para outras regiões brasileiras, e sendo visível uma
multiplicidade cultural capaz de garantir subsídios para que a própria realidade
fosse discutida.

Diante de duas guerras mundiais, de crises financeiras e de uma revolução


política que diminuiu o poder das oligarquias, a sociedade almejou que a arte
seguisse com discussões em torno dos acontecimentos. Buscava-se, então uma
literatura mais contextualizada somada a uma perspectiva intimista que
proporcionasse respostas para “muitas dúvidas existenciais desencadeadas por
todo esse cenário de horror e destruição” (ABAURRE, 2010, p.100). O poema
“Rosa de Hiroshima”, escrito por Vinícius de Moraes e publicado no livro Antologia
poética (1954), caracteriza essa discussão em torno das atitudes humanas e os
seus sofrimentos:

Pensem nas crianças


Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

(apud BARRETO, 2010, p. 133)

16
A literatura moderna da década de 1930 trouxe novas experiências para o
conteúdo artístico ao se voltar mais profundamente à realidade. Reforçou na
poesia, por exemplo, a linguagem coloquial, irônica e prosaica da década de 1920,
sendo representada por Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Jorge de
Lima, Cecília Meireles e Vinícius de Moraes. Eles continuaram o roteiro de
libertação artística da Semana de 22.

A prosa de ficção se dedicou ao “realismo bruto” (BOSI, 2006, p. 411) e se


alimentou da linguagem oral, dos brasileirismos e regionalismos léxicos e
sintáticos, e ainda trouxe uma análise da realidade ao discutir as angústias da
sociedade moderna no diálogo constante com o público.

Segundo Bosi, o Modernismo de 1930 até a contemporaneidade foi dividido


em dois momentos: entre 1930 e 1945/1950 a ficção regionalista foi predominante,
sendo misturado com um aspecto lírico permeado de modernidade. Como temas,
podemos destacar a Região Nordeste decadente, os conflitos com a burguesia.

Entre as grandes tendências da segunda fase do modernismo, destaca-se o


romance regionalista, fruto do advento da imprensa. Nesse período, a obra
aproximou artista da realidade de seu público, valorizando a discussão e os fatos
por meio do conteúdo ficcional. Houve, nesse sentido, a conservação do verso
livre da primeira geração, incluindo palavras mais próximas ao vocabulário do
povo. A contextualização aumentou o consumo das obras.

Novos autores de diversas regiões surgiram, além de editoras que se


firmaram no mercado como “Globo” e “José Olympio”. Escritores ganharam mais
espaço e reforçaram as suas ideias contrárias ao academicismo.

O escritor do período de 1930 a 1945 aproximou realidade de ficção de


modo a refletir predominantemente os aspectos políticos. Dessa forma, os
problemas aparecem nos textos literários de modo a emitir uma preocupação com
as relações do homem com o seu meio.

Mário de Andrade percebeu que a geração de 30 possuía uma “atitude


interessada diante a vida contemporânea o que para ele faltou aos primeiros
modernistas” (apud BOSI, 2006, p.410).

A arte, nesse período, levantou uma discussão social em todo o país e


serviu como um instrumento dialógico entre homem e realidade, ao explorar o
problema das desigualdades. Nesse sentido, a obra literária, como veículo
ideológico, assumiu uma postura política ao expor alguns pontos de vista que
expressam as angústias do homem moderno.

17
Nesse aspecto, o romance regionalista representou a contradição gerada
pelas desigualdades ao tematizar o progresso versus o atraso, o Nordeste pobre
em contraposição ao Sul enriquecido, a valorização da tradição cultural versus a
adesão aos valores estrangeiros, além da decadência de um modo de vida
organizado em torno de uma sociedade patriarcal, o problema da seca e a falência
dos engenhos de açúcar e dos grandes latifúndios” (Barreto, 2010, p.103).

Para Abaurre, o projeto literário da segunda geração modernista contava


com “uma reflexão sobre o sentido de estar no mundo, foco no contexto
sociopolítico, renovação da linguagem e versos com estruturas sintáticas mais
elaboradas” (2010, p. 101), ambos voltados às inquietações de ordem humana,
representadas através de tendências diversificadas. Revelava uma sincronia entre
a simplicidade e a complexidade do texto, envolvidos na liberdade de se utilizar
recursos clássicos e inovadores.

E é justamente dentro dessa condição, que a literatura regionalista


alagoana se consagrou através de escritores como Graciliano Ramos e Jorge de
Lima, os quais se tornaram responsáveis por uma sucessão de artistas que,
através de suas obras e riqueza de estilos, expressaram com grandiosidade os
conflitos da existência humana.

ATIVIDADE

Em “Poema retirado de uma notícia de um jornal” e “Morte do leiteiro”,


Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, respectivamente, incorporam
em sua poesia, questões que envolvem o cotidiano através de temas e linguagem
comuns, sugerindo a valorização da liberdade expressiva que aproxima a
realidade da literatura moderna. Escolha um fato ocorrido em território alagoano e
o represente através de um texto literário. O gênero é de livre escolha.

1
Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malffati, Vinícius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade.
Disponíveis em: http://www.releituras.com/drummond_bio.asp; http://letras.mus.br/vinicius-de-
moraes/fotos.html;
http://pt.wikipedia.org/wiki/Anita_Malfatti;http://pt.wikipedia.org/wiki/Oswald_de_Andrade;
http://www.releituras.com/marioandrade_bio.asp

18
POEMA TIRADO DE UMA NOTÍCIA DE JORNAL

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão
sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu

Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

MORTE DO LEITEIRO

Há pouco leite no país,


é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.

Então o moço que é leiteiro


de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca


não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro.
morador na Rua Namur,
empregado no entreposto
Com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo

19
vai deixando à beira das casas
uma pequena mercadoria.

E como a porta dos fundos


também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro…
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil


de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este entrou em pânico


(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono


de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,

20
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada.
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue… não sei
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.

(ANDRADE, 2000. p. 108-111)

21
CAPÍTULO II - LITERATURA NAS ALAGOAS

2.1. Literatura alagoana: movimentos de consolidação

Não queria então nem futurismo nem maluqueiras. Eu queria era o


clássico. A tradição. O que era nosso. E o que era humano. Eu queria a
terra do Brasil. As coisas de Alagoas. O Nordeste. A nossa imperfeição...
(Jorge de Lima. In: a propósito do futurismo)

O surgimento da literatura alagoana esteve associado ao caráter religioso,


uma vez que as obras e os seus autores provieram de ordens religiosas,
sobretudo, católicas. Poucas produções foram registradas nesse período, pelo fato
de que a propagação da fé seria mais importante do que a apreciação ou a
conservação dos textos escritos.

À época da colonização, parte dos escritos literários da província de


Alagoas aparecia em forma de sermões, os quais eram escritos em versos, prosas
ou oratórias. Com o passar dos tempos, a cultura alagoana se tornou profana e
diante de uma população letrada de forma deficitária, somente os homens doutos
começaram a atuar como escritores. Consequentemente, as produções literárias
eram um privilégio das classes mais abastadas, representadas através de
políticos, cientistas, historiadores e estadistas.

A primeira tipografia do estado surgiu em 1831, por iniciativa do presidente


Manoel Lobo de Miranda Henriques. Esse fato estimulou a atividade jornalística, a
criação literária e o consumo de livros.

Os primeiros jornais, embora fossem utilizados como instrumentos de


divulgação de intrigas políticas, também serviram para estimular a produção
literária.

A política partidária, a que se apegavam os espíritos mais lúcidos, não


dava tréguas a ninguém. E a literatura reflete sempre o ambiente em que
se gera, o meio em que se desenvolve e o panorama que descortina. De
modo que era no jornalismo que se exercitavam evidentemente os
maiores valores da província pequenina, roída ou consumida nas mais
vulcânicas paixões. E quando, em meio ao turbilhão destas, surgia
alguém dedicando ima parcela do seu tempo às boas letras, à prosa de
ficção ou á poesia, à filosofia ou ao progresso literário, em suma
representava uma exceção. (BARROS, 2005, p. 178).

22
O primeiro jornal diário em Alagoas foi lançado em primeiro de março de
1858. Em plena ascensão do Romantismo brasileiro, O Diário das Alagoas
publicava um folhetim literário assinado por Sylvius, o qual vinha acompanhado
com uma incipiente crítica. O objetivo de publicar textos literários era interagir a
literatura nacional e a estrangeira. A imprensa escrita alagoana concedia espaço à
literatura aos moldes das demais regiões do país: havia a exposição fragmentada
das obras nos rodapés dos jornais com o intuito de agradar os leitores burgueses.

Por essa razão, no mesmo ano, possivelmente o romance já era um gênero


bastante difundido e obras românticas francesas como Renée Chateuabriand
apareciam no jornal “O diário de Alagoas” como folhetim. Essa publicação
proporcionou um estímulo á leitura artística e também o intercâmbio entre obras
literárias de lugares distintos. Inclusive, vários livros foram vendidos na residência
do alagoano Bento Joaquim de Medeiros, em Maceió, no bairro de Jaraguá.

Sant’Ana afirma que em Alagoas, a primeira referência de romance escrito


situa-se entre 1869 e 1870. São destacadas as obras O mendigo, de João
Dionísio, além de Isauro e Amaldiçoada lágrimas, de Antônio Duarte Leite da
Silva, sendo essa última publicada no Jornal do Pilar, em 1870.

A partir de então, ao final do século XIX, vários prosadores de inspiração


romântica haviam surgido, concomitante ao grande número de publicações de
obras literárias. No ano de 1886, a Tipografia Mercantil editou um volume único de
trechos de romances publicados em jornal durante 1885. Eis que surge o primeiro
romance de costumes alagoanos, cujo título era A filha do barão, de Pedro
Nolasco Maciel.

Consequentemente, a poesia ganhou destaque e a interferência de


diferentes estilos literários. Além de poetas românticos, apareceram autores de
versos simbolistas, parnasianos, que conquistaram vários adeptos através dos
jornais, como também por meio de pequenos volumes editados em tipografias.

Tendo em vista o sucesso de alguns escritores, grande parte mudou-se


para o Rio de Janeiro, ocasionando o reconhecimento e uma valorização da arte
alagoana, fortalecida principalmente a partir do modernismo representado pelos
regionalistas de 1930.

23
2.2. O florescimento da literatura das Alagoas a partir do modernismo

Segundo Sant’Anna (1978, p.05), a literatura alagoana se despontou a


partir do movimento modernista, embora sofresse a rejeição do público e da
crítica, assim como em todo o território nacional. Convém ressaltar que o
modernismo não entrou com facilidade em Alagoas, devido à resistência do
tradicionalismo de parte da elite literária daquela época.

As ideias que levaram os alagoanos a investirem cada vez mais na arte


literária foram postas em prática por grupos dedicados à valorização da cultura
local. No momento em que o Modernismo surgia no Brasil, foi idealizada por
Agnelo Rodrigues de Melo (Judas Isgorogota) - e criada pelos escritores Carlos
Paurílio e José da Costa Aguiar - uma agremiação literária que recebeu o nome de
”Academia dos Dez Unidos”, inaugurada em 23 de setembro de 1923, na Rua do
Comércio no. 140, em Maceió.

A iniciativa tinha como meta divulgar e reconhecer os escritos de seus


participantes através de uma publicação em revista literária de grande porte.
Outros membros da academia foram Zaneli Caldas, Joaquim Maciel Filho,
Amarílio Santos, João Soares Palmeira, Felix Lima Júnior (cedeu o local para a
primeira reunião), Hidelbrando Oséas Gomes, Astério Machado Melo, Paulino de
Araújo Jorge, Renato Cardoso, Cesar Sobrinho e Mendonça Braga.

Embora houvesse esforço por parte dos seus membros, a missão de


colocar a literatura alagoana em circuito nacional não foi alcançada. Em março de
1925 foi realizada a última reunião da “Academia dos Dez Unidos”, tendo como
tema o centenário do escritor português Camilo Castelo Branco.

No mesmo ano, na capital alagoana, o Dr. Enrico Turri, residente a Rua do


Sol, leu versos de Marinetti - criador do Futurismo - em sua residência, causando
um estímulo por parte de escritores locais que buscavam renovar a literatura.

Em 05 de julho de 1924, o jornal Diário da manhã publicou um protesto do


escritor modernista Graça Aranha, em artigo de Apratto Junior, intitulado “Motim
da Academia”. Nele, o autor clamava pela inovação na arte, indicando que a
modernização só iria contribuir com o fazer artístico no Brasil.

Em 1926, Marinetti chegou ao Brasil para estimular o Modernismo. Nesse


mesmo período, o escritor paraibano José Lins do Rego aportou em Maceió como
fiscal de bancos e, já adepto do “Movimento Regionalista do Nordeste”, passou a
incentivar outros escritores alagoanos a conhecerem esse estilo literário inovador.

24
Tendo como inspirações a Semana de Arte Moderna e o Congresso
Brasileiro de Regionalismo de Recife2, no mês de março do mesmo ano, foi
fundado o “Cenáculo Alagoano de Letras”. O grupo defendia a renovação da arte
alagoana por meio de propostas modernistas e tinha como intuito contrapor o
conservadorismo da Academia Alagoana de Letras.

O primeiro presidente do Cenáculo foi Mendonça Júnior, um dos criadores


da organização. Outros membros de destaque foram Zeferino Lavenère Machado,
José Lima, Arnaldo de Faria e Mário Brandão.

No Ginásio de Maceió, o cenáculo se reuniu para a escolha dos ocupantes


de suas cadeiras. Ao total, nove membros foram escolhidos (incluindo uma
mulher: Yolanda Mendonça). No mesmo local foi lançada a ideia de criação de
uma arte renovada e contrária ao tradicionalismo literário. Considera-se, então que
o “Cenáculo alagoano de letras” estimulou a “Festa da Arte Nova”, considerada a
Semana de Arte Moderna das Alagoas.

A Festa da Arte Nova foi um evento de cunho estético e político, sendo


promovida por artistas e escritores modernistas de Alagoas em 17 de junho de
1928. Na programação, atividades inspiradas na Semana de 22 foram idealizadas
pelo pintor Lourenço Peixoto e contaram com a presença de membros do
Cenáculo Alagoano: Waldemar Cavalcanti, Mendonça Júnior, Mário Brandão e
Carlos Paurílio. Diferente do evento paulista, a Festa da Arte Nova aconteceu em
um só dia.

O evento ocorreu no Instituto de Belas Artes Rosalvo Ribeiro, instalado na


atual Avenida Moreira Lima, esquina com a Rua Cincinato Pinto, em Maceió. Nele,
os participantes afixaram a frase – em verde e amarelo - utilizada na Semana de
Arte Moderna de 1922: “a festa da arte moderna é um Zé-Pereira canalha para dar
uma valia definitiva nos deuses do parnaso” (apud SANT’ANA, 1980, p. 30).

Valdemar Cavalcante apresentou o fato como iniciativa de

Um bando de jovens dos que representam o espírito inquieto da nossa


mocidade, vão tentar, aqui, no meio provinciano; tão cheio de pudores e
de academicismo, realizar a Festa da Arte Nova.

Será uma festa original. Linda e bizarra, como uma cantiga de Jorge de
Lima.

2
O Primeiro Congresso Brasileiro de Regionalismo foi realizado em 1926, na cidade de Recife e se tonou o
movimento responsável pelo engrandecimento da literatura regional, principalmente no Nordeste. Nele, foi
lido o Manifesto Regionalista, cujo objetivo era criticar os grandes centros urbanos e denunciar os valores e
costumes burgueses que supervalorizavam a cultura europeia, valores estes, segundo os idealizadores do
movimento, responsáveis pela perda da identidade local e alienação da sociedade.

25
Uma festa de inteligência, de sonoridade, de in quietude...

(apud SANT’ANA, 1980, p. 30)

Na abertura, que ocorreu às 16 horas, a divulgação da programação foi


acompanhada por uma crítica do escritor Mendonça Júnior, o qual referiu-se, em
suas declarações ao “incêndio no Olimpo” como iniciativa de destruir a literatura
clássica e conservadora, e principalmente combater o Parnasianismo.

No momento literário, houve declamação de versos livres, leituras de contos


regionais, atividades de divulgação de teorias sobre o Modernismo. Na pintura,
uma exposição de obras de Lourenço Peixoto, Eurico Maciel, Manoel Messias de
Melo, Luiz Silva, José de Menezes e Zaluar de Sant’Ana, cuja pintura Idílio, fez
grande sucesso. Na música, apresentou-se a Jazz band dos meninos, que incluiu
no repertório o Charleston, o tango e o fox-trote.

Constam também em documentos, uma leitura da carta de Jorge Lima e


Carlos Paurílio, intitulada Arte nova brasileira, a exposição dos textos A velha casa
colonial, de Jayme de Altavilla, O beliscão, de Mário Brandão, Ritmos bárbaros, de
Mendonça Júnior, Ideias novas, de José Lins do Rego, 3 poemetas, de Carlos
Paurílio, Literatura Moderna e arte nova, de Valdemar Cavalcante e Versos
Modernos, de Emílio de Maya.

Ao final, o evento de propaganda regionalista causou uma extrema


repercussão diante de uma sociedade conservadora.

Pode-se afirmar que o apoio da imprensa alagoana foi significativo para


uma série de mudanças no setor artístico e literário. Na ocasião, L. Lavènere
Machado tratou de justificar em carta ao jornal O semeador, que a leitura
modernista não iria ofender a tradição e tampouco era uma iniciativa de todos os
membros do cenáculo. Ele deixou claro que era a favor da liberdade de opinião.

De acordo com Sant’Ana, a repercussão do movimento modernista nas


Alagoas foi diminuta na fase inicial (1980, p.05) e graças à imprensa de Carlos
Rubens, a publicação das propostas foi favorecida através de seu “Jornal de
Alagoas”. Rubens considerava todo o caráter inovador do Modernismo como
“supremo movimento estilístico que caracteriza pelo mais livre e fecundo
subjetivismo” (SANT’ANA, 1980, p. 05), e ajudou a espalhar o desejo de liberdade
e renovação literária em Alagoas.

Muitas manifestações após a “Festa da Arte Nova” foram veiculadas nos


jornais e há de se reconhecer que a partir de então, a literatura alagoana sofreu

26
uma transformação que a levaria ao fortalecimento da arte moderna no estado,
bem como o estímulo à produção e o grande reconhecimento de autores e obras
em todo o país.

Entre 1927 e 1935, o modernista José Lins do Rego passou a colaborar


com o “Jornal de Alagoas” e a sua atuação inspirou um jovem e talentoso escritor:
Jorge de Lima, que ao deixar o Parnasianismo, alcança renome nacional após
aderir ao Modernismo no Rio de Janeiro. A sua inserção no movimento ocorreu no
dia 10 de janeiro de 1927, com o poema “O mundo do menino impossível”,
publicado em 300 exemplares e dedicado à Gilberto Freyre, José Lins do Rego e
Manuel Bandeira.

O escritor moderno Jorge de Lima foi então reconhecido como o “príncipe


dos poetas alagoanos”. Posteriormente, outros intelectuais seguiram o autor de
“Essa nega Fulô”, e passaram a escrever artigos para jornais, meios de
comunicação que se tornam responsáveis, mais uma vez, pela expansão da
literatura no estado de Alagoas.

Entre as figuras ilustres que se uniram Jorge de Lima são citados José Lins
do Rego, Lúcio Marinho Tavares Bastos, Emílio de Maya, Pontes de Miranda,
Barreto Falcão, Arnon de Melo, Valdemar Cavalcante, Guedes de Miranda, Paulo
Malta Filho, Manuel Diégues Júnior, Aurélio Buarque de Holanda, Raul Lima, Luiz
Lavenère, José Aloísio Vilela, José da Costa Aguiar, Carlos Paurílio, Carlos J.
Duarte, Renato Alencar, Aloísio Branco, Mario Marroquim, Lobão Filho e Alberto
Passos Guimarães.

No entanto, a obra de Jorge de Lima também recebeu de pessoas


influentes do estado, algumas críticas: Arnon de Melo o considerou
incompreensível; Mário Brandão comentou que a sua obra era um meio-livro;
Mário Melo qualificou os poemas como extravagantes; Nasson Figueiredo o referiu
a um mistificado tomado pelo obscurantismo e José Aloísio Brandão Vilela o
intitulou plagiador de repentistas. Povina de Cavalcanti, crítico ferrenho do
Modernismo em Alagoas, declarou que Jorge de Lima seria um armador de
barraca nos arraiais do modernismo, e que perdeu o talento, a cultura e o bom
gosto. (APUD SANT’ANA, 1980, p.65)

Mesmo diante de ataques expressos pelos membros da Academia


Alagoana de Letras e políticos de renome, os quais utilizaram o seu prestígio para
impedir a publicidade do modernismo em terras alagoanas, a introdução oficial do
Estado nesse movimento renovador foi inevitável. No dia 17 de junho de 1929
ocorreu finalmente a adesão oficial do Estado de Alagoas à Arte Moderna.

27
Estimulado pelo êxito literário desse estilo renovador, Manuel Diégues
Júnior – aos quinze anos de idade - fundou um grêmio literário, o qual recebeu o
nome de “Guimarães Passos”. Fez parte de seu grupo o escritor e dicionarista
alagoano Aurélio Buarque de Holanda, um dos admiradores do Modernismo.
Buarque, apud Sant’Ana, considerou o grêmio como um caminho para
“desenvolver a inteligência da gente moça, essa gente que será o futuro do Brasil”
(1980, p.41). Entre os eventos, a “Canjica literária”, reuniu grandes nomes da
literatura daquele período.

Em 30 de agosto de 1931, por motivos pessoais, Jorge de Lima sofreu um


atentado a bala, desferido pelo bacharel Rodolfo Lins. Aconselhado pelos amigos,
o “príncipe dos poetas” deixa o seu estado natal, sendo transferido para o Rio de
Janeiro, juntamente com Aluísio Branco. A mudança forçada desse grande escritor
encerra o ciclo do Modernismo em Alagoas.

No entanto, mesmo com a finalização do movimento modernista, o estilo,


na prática, não se encerrou definitivamente. Como herança da luta pela liberdade
na escrita artística, da representação da temática social, dos conflitos humanos e
do acentuado regionalismo, escritores como Graciliano Ramos surgiram e
alcançaram notoriedade universal. Em Alagoas, brotaram artistas literários de
vertentes variadas na prosa, na poesia e no teatro.

Além do modernismo e do regionalismo, o realismo, o naturalismo e as


tendências contemporâneas tomaram conta dos textos, simultaneamente,
garantindo na atualidade a verdadeira expressão de liberdade do artista na
manifestação de seus pensamentos. Dessa forma, o solo alagoano permanece
fecundo no terreno da literatura até os dias atuais.

Manuel Diégues Júnior: um incentivador da valorização da cultura e da arte literária em Alagoas. Disponível em:
http://www.alagoanos.com.br/?pg=blogs-detalhes&item=marcos-vasconcelos. Acesso em: 12 out.2012.

28
2.3. O teatro nas Alagoas

O teatro brasileiro surgiu a partir da atuação dos jesuítas. No intuito de


promover a catequização dos silvícolas em terras recém-encontradas, José de
Anchieta percebeu que a arte dramática seria um caminho para tornar os nativos
adeptos ao catolicismo.

Foi justamente no período de colonização, em 1563 e 1570 que foi


encenado na Capitania de São Vicente o Auto da pregação universal, de Anchieta,
com o objetivo de garantir uma relação mais “amistosa” entre os indígenas e os
colonizadores através da educação pelo espírito.

Nas Alagoas, os jesuítas também utilizaram uma arte teatral dotada de


ludicidade e intenções pedagógicas. Além dos textos, o teatro envolvia o ensino, o
canto, a dança e música, e, à medida que o público participava das encenações,
passava a acreditar nos princípios católicos. O teatro religioso perdurou em
território alagoano até o século XVII.

A partir de então, partindo para uma arte mais profana, a presença da


cultura e de escritores franceses se intensificou no estado. Através de comédias
que apontavam as falhas de caráter de suas personagens, os textos do
dramaturgo Molière – como O Avarento – influenciaram as produções dramáticas
em Alagoas.

De acordo com Duarte (1980, p. 24), o primeiro autor dramático alagoano


apareceu somente em 1850 (em se tratando de texto com boa qualidade e levado
ao palco), pois a maioria das peças anteriormente escritas, sequer foram
montadas e encenadas. Dessa forma, o historiador da arte em Alagoas aponta
dois períodos da dramaturgia do século XX nesse Estado:

a. De 1850 a 1899: período considerado recuado em que se sobressaem o


drama e a comédia. Surgimento das peças de José Maria Goulart de Andrade,
único autor alagoano a ter todas as suas peças publicadas em livros. Exerceu
influência sobre o interesse dos alagoanos pelo teatro e, nesse aspecto, obteve
projeção nacional, tornando-se membro da Academia Brasileira de Letras.

b. De 1900 a 1950 – fase fecunda da arte dramática em Alagoas,


principalmente entre 1910 e 1920, quando foi inaugurado o Teatro Deodoro.
Durante esse período, a empolgação de escritores favorecia produções amadoras
e profissionais. Companhias vieram ao estado e incentivaram muitas produções

29
locais. Antes, havia raras encenações no Teatro Maceioense e no Politeama,
lugares ausentes de infraestrutura para a montagem dos textos. À época,
destacou-se a peça Vertigens, de José Guedes Ribeiro Lins, cujo texto se
encontra no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (DUARTE, 1980, p. 30)

AUTORES DRAMÁTICOS E OBRAS

Em seus estudos de extrema importância sobre o teatro alagoano até a


década de 1980, Abelardo Duarte apresenta os seguintes autores teatrais e suas
respectivas obras:

- Floriano José de Miranda (Maceió, 1841-1884) – autor de Ângelo, peça em três


atos;

- Guimarães Passos (Maceió, 1869-1909) – escreveu em versos a peça


Hipnotismo;

- Cipião ou Scipião Jucá (São Miguel dos Campos, 1835-1905) – autor de


comédias como Os amantes disfarçados, Pelos santos se beijam as pedras, Os
três dominós e Cenas escolares.

- Romeu de Avelar (São Miguel dos Campos, 1896-1972) – escreveu comédias


como A pensão de Dona Brígida, O último deputado e Não há felicidade;

- José Maria Goulart de Andrade (Maceió, 1881-1936) – autor dos dramas Ocaso,
Renúncia, Sonata ao luar (em parceria com o irmão Aristeu de Andrade); fantasia
romântica Numa nuvem; drama histórico Os inconfidentes e comédia Um dia a
casa cai. Suas peças foram reunidas e publicadas em um livro em dois volumes
que recebeu o título Teatro.

- José Ângelo Vieira de Brito (Palmeira dos Índios, 1882-1934) – escreveu as


revistas O gabiru, Off-side, O chefão, Sabina e o diálogo O Beijo.

A peça O beijo foi levada á cena pelos artistas A. Ramos e Lucila Peres, da
Companhia Arthur Azevedo, em 15 de novembro de 1910, na abertura do Teatro
Deodoro.

- Rodriguez de Melo (Maceió, 1876-1946) – criou os dramas Madalena, A culpa,


Margarida, A tormenta e Uma página da vida; escreveu as comédias Seu Tibúrcio
e Conciliação, como também uma revista de costumes locais Maceió na rua,
Maceió moderno e um esquete intitulado Dagmar.

30
A peça A tormenta foi encenada no Teatro Deodoro pela Companhia Maria
de Castro que, naquele momento, era elogiada pela crítica brasileira.

- Gilberto de Andrade (Maceió, 1894-1946) – produziu o texto polêmico Mulher e


Mãe por discutir temas como o divórcio, o adultério, a sexualidade e problemas
sociais. Esse drama incestuoso foi levado ao palco em 1911, no Teatro Deodoro e
tinha como protagonista uma mãe que nutria uma paixão de mulher pelo próprio
filho.

- Linda Mascarenhas (Maceió, 14/05/1895 – 09/06/1991) - professora e atriz de


grande reputação no teatro alagoano, escreveu os textos Conflito íntimo (drama),
O mistério do príncipe e O herdeiro de Nabam (operetas).

- Rosinha Pereira do Carmo– autora de Dois destinos e Vencido pelo amor.

- Jorge de Lima (União dos Palmares, 1893-1953) – além de se tornar um grande


poeta, o príncipe escreveu uma única peça teatral: A volta de Ulisses.

- Ranulfo Goulart (Maceió, 1872-1940) – escreveu uma quantidade expressiva de


textos teatrais, incluindo os textos As almas do outro mundo, As lágrimas, A
permuta, A estalagem e Cenas de aldeia.

- Joaquim Goulart de Andrade (Colônia Leopoldina, 1870-1927) – escreveu uma


única comédia, intitulada As duas irmãs.

- Guedes Lins (Maceió, 1883-1960) – escreveu Vertigens, drama de conteúdo


beletrista que escapou de textos sumidos pelo tempo e pelo esquecimento. Tendo
em vista o sucesso de seu texto e da sua atuação, Guedes Lins se tornou membro
efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas.

- Eusébio de Andrade (Colônia Leopoldina, 1866-1928) – autor da comédia Flor de


Lis.

- Luis Lavènere (Maceió, 1868-1966) – músico e escritor de romance e novela,


que se destacou nos movimentos literários em Alagoas, também se dedicou a
produção de partituras para as peças teatrais O mistério do príncipe e O herdeiro
de Nabam, em parceria com Linda Mascarenhas.

- Inácio de Barros Acioli (Maceió, 1847-1878) – levou ao teatro maceioense a peça


Glórias e desventura ou O rimador alagoano em 1870. Deixou três livros
publicados: Ilusões perdidas, Harpa do desespero e Esperanças mortas.

- José Marcio Passos, Ronaldo de Andrade e Dario Bernardes – adaptaram em


versos brancos A ilha, livro de sonetos de Carlos Moliterno. A peça recebeu o

31
título A ilha se fez verbo e habitou entre nós e foi encenada pela ATA (Associação
teatral de Alagoas).

- Volney Cavalcante Leite (Maceió, 1930) – escritor contemporâneo escreveu com


maestria a peça A história do amarelo e do valente Secundino, premiada com
menção honrosa pelo Serviço Nacional de Teatro. Escreveu outros textos que
também fizeram sucesso: A história de João Rico, Na palha da cana, A história de
São Gregório e o fazedor de santos, Chapeuzinho vermelho, Linha sem traço,
Estava escrito, o compadre da morte e Uma vida vestida de negro.

- Severino Florêncio Teixeira (Chã-Preta) – estudioso do teatro alagoano,


escreveu os textos teatrais Escravo também é gente, O balãozinho, Negro Jorge,
As barracas e Brilhem as estrelas.

- Pedro Teixeira (Chã-Preta) - folclorista de grande destaque, criou os seguintes


textos teatrais: Chamada da pátria, Doutora em apuros, Juliana a escrava e Os
magos de Belém.

- Augusto Andrade (Pilar, 1888-1930) – conhecido como Biscuit, o poeta e


dramaturgo escreveu textos de forte comicidade como A volúpia. Andrade também
escreveu poemas, os quais foram expostos no livro Terra das Alagoas. Abaixo,
profilaxia da velhice (conselhos para se chegar a Matusalem), exemplo de
utilização da comédia em versos, de caráter popular, com o intuito de provocar o
conhecimento através do riso em rimas.

PROFILAXIA DA VELHICE

(Conselhos para se chegar a Matusalém)

Overture

Ser conselheiro quem tena,

Sem saber que é vão mister?

Pois conselho e água benta

Toma somente quem quer.

Vermes

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Guerra á verminose! Guerra!

O Brasil quer homens sãos...

Nunca defeques na terra,

Aguas nos frutos, nas mãos.

Tifo

Em dizer-te eu não vacilo,

Esta expressão que oro grifo:

É um portador de bacilo

Quem foi doente de tifo.

Paludismo e febre amarela

Com quinino ( a ciência diz-m’o)

E de arame estreita tela

Evita-se o paludismo

Mesmo até a febre amarela.

Bacilose

A bacilose tem cura,

É melhor a prevenção,

Pois não há droga segura

Para esse mal do pulmão

Gripe

Um aviso sério e douto,

33
Nestes conselhos se encrave,

Disse o sábio Miguel Couto:

O gripado é um doente grave.

Artritismo

Tu, artrítico sem cura,

Se não queres sofrer mais,

Bebe somente água pura vive só e vegetais.

Fumo

Há um vício que dá pigarro,

E que nocivo eu reputo,

Tal o vício do cigarro,

Do cachimbo e do charuto.

Álcool

Evita sempre as bebidas.

Vinho, licor ou cachaça;

O álcool faz homicidas

Degenera e mata a raça.

Sífilis

Se te excita Amor, ao menos

Homem sadio e viril,

Usa o contato de vênus

34
Um tubo de Preventyl.

Casamento

Mas...se queres viver com

Muita paz em teu redor

Não casar é muito bom

Mas...casar ainda é melhor

Higiene da habitação

Eis da tua casa em prol

Um conselho, uma sentença;

Se nesta não entra o sol,

Entra por certo a doença

Dentista

Entre os avisos prudentes,

Põe este na tua lista:

Se queres ficar sem dentes,

Dá tua boca ao dentista.

Abaixo, um trecho da peça teatral contemporânea A história de São


Gregório e o fazedor de Santos, de Wolney Leite e Gercino Souza.

2º. Ato

(A casa de ZÉ CULA mostra visíveis sinais de prosperidade. Quando a cortina se abre, ele, entre
nervoso e apavorado, anda de um lado a outro da sala. Por fim vai à janela)

35
CULA – É muito azar! Azarento! O que foi que eu fiz, meu Deus, para merecer este castigo! Tão
boazinhas que as coisas iam correndo! Logo agora! Só pode ter sido o Cirço! Só ele! Só ele! Se eu
descobrir ele nunca mais toca pandeiro na vida dele. Porque outra coisa eu não faço, mas arranco-
lhe as unhas, corto-lhe os dedos, tiro-lhe as mãos, deixo ele cotó, e quero ver ele tocar pandeiro.
(Pausa) Mas, se não foi ele? Foi o belo, aí, aí a coisa muda de figura! Eu que estava pensando que
ia juntar dinheiro! Agora... se foi o Bigodinho! Ele anda tão alegre de ontem prá cá, que dá pra
gente desconfiar... Bigodinho, Bigodinho, se foi você... garanto que você vai mudar essa cara de
rapariga ruim!

BIDU – (Entrou nas duas últimas falas de ZÉ CULA) Que é isso, Cula? Está tresvariando? Está
com febre? Deixa eu ver. (Com o dorso da mão direita, procura sentir a temperatura de Zé CULA).

CULA – Febre, coisa nenhuma! Estou pensando na situação! O que é que eu vou dizer a esse
povo todinho! E olhe aqui, Bidu: Pense bem em que sinuca eu estou metido. Esta não tiro de jeito
nenhum. E nem conheço cabra macho pra tirar.

BIDU – Mas você, Cula, você é o homem mais quenguista que Deus botou no mundo. Você tá
assim, embatucado, mas quando pegar o fio da meada, bota todo mundo prá trás! Não desanime.

CULA – Mas, Bidu, minha santinha, está prá chegar hoje, aqui, os repórteres da Manchete, de
Veja, de uma revista americana, e até a equipe do programa Sílvio Santos. Todos vêm para uma
entrevista coletiva. Quando notarem que eu não tenho nada pra explicar, vão dizer logo: Foi
cascata! E eu, que já estava pensando em pedir a Sílvio uma casinha para o santo! E agora?

BIDU – E eu sei.

CULA – Prá dizer a eles que o Cirço, ou o Belo ou o Bigodinho, me roubaram o santo, eles não vão
acreditar.

BIDU – Esfria a cabeça, Cula. Desse jeito você não arruma saída!

CULA – Então, venha cá. Vamos sentar aqui a matutar os dois juntos.

BIDU – É. Duas cabeças pensam mais do que uma!(...)


(LEITE, 1998, p. 37-38)

36
ATIVIDADE

Trabalhando a intertextualidade

De modo que a literatura alagoana, em sua maioria, herda do modernismo


a representação dos problemas regionais, ao denunciar as suas principais
mazelas por meio do texto ficcional, podemos afirmar que outras linguagens
artísticas também seguiram esse diálogo do imaginário com a vida real. Ao
reconhecer a importância da arte como instrumento de reflexão social, essa
atividade tem como objetivo provocar a intertextualidade como um caminho para a
aprendizagem e a transformação.

Abaixo, um excerto da obra Vidas secas (1938), uma imagem da pintura


“Os retirantes” (1944) e uma composição musical escrita por Luiz Gonzaga e
Humberto Teixeira, “Asa branca”. Em seguida, responda às questões:

(Disponível em: http://artefontedeconhecimento.blogspot.com.br/2010/11/os-retirantes-


candido-portinari.html. Acesso em 20 out. 2012)

37
Asa branca

Quando "oiei" a terra ardendo


Qual a fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação

Eu perguntei a Deus do céu, ai


Por que tamanha judiação

Que braseiro, que fornaia


Nem um pé de "prantação"
Por farta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Por farta d'água perdi meu gado


Morreu de sede meu alazão

Inté mesmo a asa branca


Bateu asas do sertão
"Intonce" eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração

"Intonce" eu disse, adeus Rosinha


Guarda contigo meu coração

Hoje longe, muitas légua


Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortar pro meu sertão

Espero a chuva cair de novo


Pra mim vortar pro meu sertão

Quando o verde dos teus "óio"


Se "espaiar" na prantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu vortarei, viu
Meu coração

Eu te asseguro não chore não, viu


Que eu vortarei, viu
Meu coração

(Disponível em: http://letras.mus.br/luiz-gonzaga/47081/ Acesso em: 13 out. 2012)

38
Vidas Secas

Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes


tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco.
Mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas.
Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos
galhos pelados da catinga rala.

Arrastaram-se para lá, devagar, sinhá vitória com o filho mais novo escanchado no quarto
e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, a aió a tiracolo, a cuia pendurada numa
correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra
Baleia iam atrás.

Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-se a


chorar, sentou-se no chão.

(RAMOS, 1977, p. 9)

a. O que há de comum nos textos acima expostos?


b. Que sensações são transmitidas através da visualização das três obras?
c. Produza uma releitura dessas produções, inserindo um desfecho
diferenciado.
d. Crie uma ilustração a partir da temática estudada.
e. Indique sugestões de como esses textos poderiam ser trabalhados em sala
de aula.
f. Utilize o gênero textual carta com o objetivo de transformar a realidade
representada nos textos e na imagem.

39
CAPÍTULO IIII - LITERATURA NAS ALAGOAS
ARTISTAS E OBRAS

Neste capítulo, serão apresentados alguns artistas e obras que


abrilhantaram a literatura alagoana. De modo que se torna difícil apresentar todos
os escritores, tendo em vista uma vasta produção no Estado – embora pouco
reconhecida -, serão expostos os artistas que alcançaram uma maior notoriedade
nas letras artísticas.

Anilda Leão (15/07/1923 – 06/01/2012)

(Disponível em: http://www.onordeste.com/onordeste/


enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Anilda+Le%C3%A3o&ltr=a&id_perso=2858. Acesso em: 12
out. 2012)

Natural de Maceió e esposa do poeta Carlos Moliterno, Anilda Leão


Moliterno atuou como colaboradora das revistas Caetés e Mocidade, e dos jornais
Gazeta de Alagoas e Jornal de Alagoas. Foi formada em contabilidade pela Escola
Técnica de Comércio de Alagoas e se tornou atriz, cantora, escritora e poetisa.

Em 1961, publicou um volume de poemas, denominado Chão de pedras.


Em 1973 conquistou o prêmio Graciliano Ramos, da Academia Alagoana de
Letras, com uma coletânea de contos denominada Riacho seco. Anilda Leão foi
membro da Academia Alagoana de Letras. Além de das obras supracitadas, ela
escreveu Poemas marcados (1978), Círculo Mágico (e outros nem tanto) (1993)

40
na poesia; além de crônicas publicadas na obra Olhos Convexos (1989) e Eu em
Trânsito (2003), um livro de memórias.

Segue, abaixo, um soneto intimista da poetisa Anilda Leão, que revela em


sua escrita a fluidez de sentimentos diante das palavras que aproximam o corpo
da alma.

SONETO DOS CABELOS QUE ERAM ALGAS

Eram algas que eu tinha em minhas mãos


E até pensei que fossem teus cabelos
Que certa vez eu tive em noites ermas
Perdidas entre as dunas de uma praia.

E umedecidas, leves e macias


Eu esmaguei febril entre os meus dedos
E um ta sabor de sal de maresia
Fez-me lembrar de novo os teus cabelos.

Os teus cabelos que eu beijei um dia


Assim de leve como se temesse
Que se fundissem nas ondas do mar.

Nessas coisas do mar se transformassem


Para que eu ficasse assim em desespero
A confundir com algas teus cabelos.

(apud CAVALCANTI, 1974, p. 7-8)

41
ARRIETE VILELA (Marechal Deodoro, 10/03/1949)

(Fonte: http://arrietevilela.blogspot.com.br/ Acesso em: 12 out. de 2012)

Professora licenciada em Letras pela Universidade Federal de Alagoas,


Arriete Vilela é considerada uma das maiores escritoras alagoanas da
contemporaneidade. Membro da Academia Alagoana de Letras escreveu em
prosa e poesia as seguintes obras: Eu, em verso e prosa (1971), 15 poemas de
Arriete (1974), Recados (1978), Crônicas para além do avesso da corda (1980),
Pequena história da meninice e outras estórias (1981), Verdes olhos e um destino
(1982), Olhos de raposa (1983), A prece que brota da vida (1983), Crônica para
um amor (1983), Fantasia e avesso (1986), Verso reverso (1986), Os biscuís
(1987), Farpa (e outros contos) (1988), A rede do anjo (1992), Dos destroços, o
resgate (contos da infância) (1994), O ócio dos anjos ignorados (1995), Vadios
afetos (1999), Tardios afetos (1999), Fixação amorosa (2001), Os contos de
Alagoas – uma antologia (2001), Maria Flor etc (2002), Grande baú, a infância
(2003), Teu s ênc “p v ég ” e “vez e v z d s mu he es” (2003), Frêmito (2003),
Lãs ao vento (2005) e Obra poética reunida (2009).

Com uma vasta obra reconhecida, Arriete Vilela recebeu vários prêmios,
como o mérito cultural da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro através
da obra Lãs ao vento. Abaixo, trechos de poemas coletados em 2009, no livro
Obra poética reunida, além do conto “Texto 8”, extraído do livro de contos Grande
baú, a infância.

42
TEXTO 8

Hoje tem espetáculo? Tem, sim senhor!


Às nove horas da noite? É, sim senhor!

Rua acima, rua abaixo, vai a barulhenta corte. O palhaço à frente, engraçado assim, tão.
Diante dos meus olhos, desfilam o homem da perna de pau tão alto que careci a cabeça entortar
quase, modo desconfortável de ver a cara dele risonha , o homem do bumbo, o elefante, as
bailarinas e uma meninada cheia de contentamento.
Espio. Da janela. Alegria num olho, tristeza noutro. Descalça e alegre assim que nem os
meninos queria eu estar. Mas o pai; “bando de maloqueiros!”. Mas a mãe; “Pivetes sem eira nem
beira”!
Entendem-se hoje pai e mãe. Um a palavra do outro endossa. Aveludam-se. Ligeira trégua,
com certeza, mas valida. Aos gritos não os vi. Cara feia nenhuma em casa. Inusitado sossego.
Já ao café da manhã, um mimo: bolachinhas secas, redondas. Quis dizer: “Que bom,
adoro essas bolachinhas!”. Nada não disse, porém. Quieta fiquei na paciente e abstrativa tarefa de
manteiga passar em muitas delas, postas em fileirinhas no meu prato. Boto bastante gosto no
comer uma a uma e, vez por outra do café-com-leite quentinho, um gole. O olho não levantei pro
pai nem pra mãe, riso nenhum não lhes dei, acanhada que estava do embevecimento deles, um
muito gentil com o outro. Inusitado enlevo.
Também a empregada novata muito delicada se mostrou comigo. Deu-me um guardanapo
de pano. Melhor: no meu colo abriu-o: “É pra não cair farelo de bolacha no seus vestidinho,
menina”. Inusitada amabilidade.
(Atenções me encabulam. Encolhida fico, e tão, diante de agrados. Vulnerável, uma coisinha de
nada, bichinho miúdo, tímido.)
À hora do desfile do circo, pelo alegre barulho atraída, pus-me à janela. Ao circo ir, cogitar
não cogitei. Mas quis no meio da folia meter os pés, coro fazer com a molecada: “Tem, sim senhor!
É, sim senhor!”
Mas o pai: “Bando de maloqueiros!”
Mas a mãe: “Pivetes sem eira nem beira!”
Às nove horas, o circo, não quer ir?
O olho de bonito verde da mãe chispa secreta a antiga vontade de ir ao circo, trapezistas
ver, com os palhaços rir.
Mais quem?
Com a menina.
E você, por que não vai também?
Sem vontade, cansado.
Solícito, o pai ajuda no fecho do “tailleur” da mãe, a bolsa azul-marinho lhe traz, dinheiro
mais da conta dentro dela põe: “É pras entradas, o resto compra de rolete e pipoca”.
Igualmente solícita, a empregada novata me arruma: meias brancas até os joelhos, sapatos pretos
de verniz, organdi espetando-me os sovacos.
Por que não vou com o vestido de popeline, de pano molinho?
Ora, menina, o circo é uma festa, uma novidade, vai muita gente, carece se arrumar direito.
Nada não digo. Adiantar não vai. Contrariada, desconfortável e sem graça dentro daquele
vestido seminovo, agarro na mão da mãe e seguimos ladeira acima, rumo à praça da Matriz, onde
armado está o circo.

43
Verdade nas palavras ouvidas em casa: o circo é mesmo uma festa. Cheia de movimento,
de cor, de luzes, de risos, de gentes, de ternura, de suspense. De alegria, espantosa e contagiante
alegria.
A mãe chora, ri. Comove-se, gargalha. Do pai esquecida parece, e completamente, nuvem
nenhuma no claro dos olhos, criança que nem eu, risada solta, gestos soltos, e ambas na pipoca,
no rolete, no refresco.
Pois assim se desatam duas horas, que duas horas num circo se vão às pressas. A mãe e
eu pra casa voltamos, e leves, descontraídas, rindo ainda duma coisa e doutra, parecendo mais
uma menina e outra menina.
Em casa, porém, um outro tipo de espetáculo: unhas, dentes e palavrões não bastam à
mãe ao flagrar o pai e a empregada numa festa de prazer bem particular, muito.
Um prazer que circo nenhum lhes daria.

(VILELA, Arriete. 2003, p. 37-39)

Indubitavelmente, a escritora contemporânea Arriete Vilela, ao deslindar o


cotidiano e a intimidade dos sujeitos através das palavras, expressa a vida com
uma linguagem dotada de liberdade e simplicidade, com as quais são reveladas
histórias ricas de valores, memória e sentimentos próximos a cada um de nós.

Aurélio Buarque de Holanda (03/05/1910 – 28/02/1989)

(Disponível em: http://alagoasbrasil.com.br/regioes.php?regiao=0&area=ilustres. Acesso em: 12


out. 2012)

Aurélio Buarque nasceu em Passo de Camaragibe e foi considerado um


dos maiores filólogos brasileiros. Ele começou a se destacar no momento em que

44
expressão literária no estado de alagoas alcançou extrema relevância social.
Costumava se reunir com intelectuais de seu tempo para discutir, além da
literatura, a história, a gramática, o folclore, a política, e assuntos da atualidade
(CHALITA, 2000, p.2).

Aurélio foi testemunha de uma fase áurea das letras em seu Estado. Ao
lado de Manuel Diégues Júnior, Valdemar Cavalcanti, Passos Guimarães,
Graciliano Ramos e Théo Brandão, fez parte do processo de inovação da arte
literária, alcançando o seu objetivo de promover a valorização das tradições
regionais através da arte. Os seus textos denotavam o amor pela sua terra natal.
No grupo, ele atuou como colaborador e orientador em correções gramaticais.

Em 1923, Aurélio foi residir em Maceió e três anos depois, assumiu a


função de professor, ao dar aulas particulares. Em 1927, passou a lecionar no
Ginásio Maceió. No mesmo ano, ingressou no Grêmio Guimarães Passos em 21
de agosto, assumindo o cargo de secretário no mês de outubro e escreveu pela
primeira vez uma série de crônicas, intitulada Duas, só, por semana, publicadas
no periódico A república.

Em 1938, Aurélio se mudou para a capital federal naquele período, o Rio de


Janeiro, para estagiar no Instituto brasileiro de Geografia e Estatística e lá,
adquiriu contatos que abrem as suas portas para o universo linguístico e literário.
Entre 1939 a 1943 foi escolhido secretário da Revista do Brasil, sendo que 1940
começou a lecionar no Colégio Pedro II.

A respeito da atuação de Aurélio enquanto mestre, Chalita salienta que

Nenhum título lhe caiu mais justo do que o de mestre anteposto ao nome
pelas “rodas literárias”. Na verdade, todas as atividades intelectuais que
exerceu, ao correr da vida, estiveram relacionadas com o dom de
ensinar. Na sala de aula, nas conferências, nos encontros informais, no
exercício da crítica, enfim, onde quer que houvesse um ato de
comunicação, oral ou escrita, Aurélio priorizava a transmissão de
conhecimentos gramaticais e literários, o que fazia com inteligência e
simpatia.( 2000, p.4)

Em 1945, Aurélio casou-se com Marina Moerbeck Baird, constituindo uma


família com dois filhos: Aurélio e Maria Luísa.

No ano de 1952 foi nomeado professor de português do Instituto Rio Branco


do Ministério das Relações Exteriores e, dois anos depois, foi contratado pelo

45
Itamarati para atuar como professor do curso de Estudos Brasileiros da
Universidade do México, permanecendo até 1955, quando viajou para Estados
Unidos e Europa para apresentar ministrar conferencias sobre literatura brasileira
e língua portuguesa.

Segundo Chalita (2000, p. 4), Aurélio Buarque se tornou uma figura tão
ilustre em nosso país, que chegou a tomar assento em diversas instituições
importante no setor das letras: Academia Alagoana de Letras (1956), Academia
Brasileira de Filologia (1956), Academia Brasileira de Letras (1961), Sindicato dos
Jornalistas Profissionais (1962), Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas
(1962), Pen-Club do Brasil (1963), Academia Pernambucana de Letras (1972),
Spanic Society of America (1975) e Academia de Ciências de Lisboa (sócio-
correspondente -1987).

Em 1961, Aurélio Buarque tomou posse na Academia Brasileira de Letras, e


durante muito tempo, enquanto assíduo leitor de poesias, exerceu a crítica
literária. Em sua obra “território lírico”, torna-se pioneiro nos estudos literários,
sobretudo, em teoria literária, análise de textos, conceitos de obra aberta e co-
autoria, além de estética da recepção (Chalita, 2000, p. 3). No plano literário, ele
se destacou como contista através do livro Dois mundos, publicado em 1942, pela
livraria José Olympio. A partir de então, recebeu o prêmio Afonso Arinos.

Segundo o colega Paulo Ronái (apud CHALITA, 2000) Aurélio Buarque


criou uma obra multifacetada e abrangente por conter “espécimes da poesia lírica,
ficção, crônica, reminiscências pessoais, crítica literária, exegese estilística,
comentário filológico, oratória, tradução em verso e prosa... tudo de qualidade
reconhecidamente excepcional”, em Dois Mundos (segunda edição), Aurélio
reuniu 14 contos, 3 retratos e dois quadros, representando a imagem da terra
natal do escritor.

Há, em sua produção literária, um “contexto narrativo, onde se


desenvolvem temas como coronelismo, banditismo, criminalidade, impunidade,
injustiça social, problemas agrários, educacionais e políticos da sociedade
nordestina (...)”. Chalita acrescenta que, na obra de Aurélio os “costumes,
crenças, hábitos alimentares, danças cantorias, versos populares dão a essa
prosa, bem cuidada, valor documental” (2000, p. 5 -6)

Ao defender o respeito às regras gramaticais, o lexicógrafo Aurélio Buarque


não dispensou a modernização em seus textos, marcados por períodos curtos e
linguagem ao mesmo tempo elaborada e despojada. Seus conteúdos revestiam de
simplicidade, mostrando a fala comum do povo que o levou à consagração.

46
Além de Dois mundos, a obra O chapéu de meu pai se destacou por se
tratar de uma narrativa em que as reflexões sobre as relações humanas são
recorrentes e postas em evidência. Na ficção do Mestre Aurélio são revelados os
fragmentos da vida por meio de situações corriqueiras, transformadas em
experiências especiais e importantes através de tratamento estético e profundo
lirismo.

CARLOS MOLITERNO (15/03/1912-19/05/1998)

(Disponível em: http://jac-versoreverso.blogspot.com.br/2009/10/soneto-de-carlos-moliterno.html.


Acesso em: 12 out.2012)

Atuante poeta, comerciário, jornalista e alfaiate, o escritor Carlos Moliterno


iniciou o curso primário no Colégio 11 de janeiro, em Maceió (lugar aonde
nasceu). Devido à morte dos pais, foi obrigado a abandonar os estudos por cerca
de onze anos. Em 1936, assumiu a função de bancário e também ingressou na
Companhia de Cigarros Souza Cruz, ocupando o cargo de gerente nesta última
até o ano de 1952.

No governo Luís Cavalcanti dirigiu a Imprensa Oficial, ficando no cargo


durante 15 anos. Em seguida foi empossado diretor do DEC e do Departamento
de Assuntos Culturais com o apoio do então governador Lamenha Filho. Aos 18
anos, Moliterno teve os seus primeiros sonetos publicados em jornais. Entre 1932
e 1940, ele atuou como redator, subsecretário e revisor do “Jornal de Alagoas”.
Em cerca de um ano, escreveu suplemento diário na “Gazeta de Alagoas” e,
posteriormente, foi designado a escrever suplementos literários nesse mesmo
jornal. Foi editorialista da revista Caeté e autor da letra do Hino de Maceió.

47
Em 1955, Moliterno tornou membro da Academia Alagoana de Letras, ao
substituir Costa Rego, e durante seis anos consecutivos foi presidente da casa.
Oito anos depois, no dia 02 de dezembro, assumiu a cadeira de número 7 como
sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, cujo patrono era Osman
Loureiro. Reconhecido nacionalmente, no ano de 1976, foi escolhido como sócio-
correspondente da Academia Paulista de Letras.

São publicações de Moliterno: Desencontro (1952 ou 1953), Notas sobre


poesia moderna em Alagoas (1965), A ilha (1969), Pequenas notas sobre Gilberto
Freyre (1980), Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1981), Um romance alagoano
(crítica), “O roseiral da Dêdê” (Revista da Academia Alagoana de Letras n°8, p. 11
s/d)3, “Ana Maria” (revista da Academia Alagoana de letras n°11, p.13) 4, “ Espelho
partido” (poesia publicada na Revista da Academia Alagoana de Letras, n° 13,
p.135)5, “Resposta tardia para Sílvia” (soneto publicado na Revista da Academia
Alagoana de Letras, n° 15, p. 130)6, e Éramos quatro (reunião de crônicas
publicadas em “O Jornal”)7.

Em artigo intitulado “A Ilha de Carlos Moliterno e a alagoaneidade”, Golbery


Lessa evidencia que

(...) o poeta alagoano Carlos Moliterno (1912-1998) constrói um mundo


fabuloso radicalizando o contato direto entre o eu-lírico e a natureza e,
por essa via, nos brinda, entre outros elementos, com um exercício
filosófico e estético sobre as belezas e misérias da solidão do indivíduo
em contato com a natura. Como o poeta esteve sempre imerso na sua
cidade e paisagem, ou seja, em Maceió e nos seus elementos marítimos
e lacustres, a obra também expressa artisticamente motivos e dilemas
específicos desta urbe e do estado do Nordeste na qual se localiza.
(2012)

Lessa ressalta, portanto, um aspecto fundamental na obra de Carlos


Moliterno que o torna grande expressão da literatura local: a presença do lugar
entrelaçado à vida do eu–poético, forte tendência da escrita contemporânea
alagoana herdada do regionalismo. Nesse caso, a paisagem situa, toca e envolve
o ser, edificando as suas atitudes e elaborando os seus sentimentos.

Em A Ilha o eu-lírico transforma-se na natureza e vice-versa, abolindo a


contradição básica da existência (consciência humana versus ser natural)

3
In: BARROS, Reinaldo Amorim de. Ver em referência bibliográfica.
4
Idem
5
Idem.
6
Idem.
7
Idem.

48
e a categoria trabalho, a qual estabelece a unidade contraditória entre
esses polos, bem como todas as consequências negativas (os males
sociais) e positivas (a alteridade humana) da atividade laborativa.
“Invento a Ilha...”. O eu-lírico compõe a dialética entre a “sociedade”
utópica de um único indivíduo (uma Alagoas-Maceió onírica e sugerida
pelo repetido uso de elementos de sua paisagem), perfeita porque
tornada natureza, e a solidão que ele se impôs para construí-la. (2012)

A Ilha

SONETO N° 37

A Ilha se dilui pelo meu corpo


e em minhas mãos retenho a sucessão
dos litorais que nascem nos meus olhos,
das angras que confinam nas marés.

Ondas intermitentes se deslocam,


projetando uma azul geografia
de águas que são águas e não são,
porque no horizonte se esvaziam.

Agua e céu se confundem em cores várias,


em cores que retenho nos meus dedos,
entre o verde e o azul e o ouro e o chumbo.

Olhos procuradores se inquietam


e se perdem num mapa de água e céu,
um mapa que eu tracei para meu uso.

(In:http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/alagoas/carlos_molit
erno.html. Acesso em 10 out. de 2012)

POEMA N. 4

Preciso sempre
ir dentro de mim:

49
confiro-me.

E quando emerjo,
sou rochedo descobrindo-se
com a baixa da
maré.

Poema 14

A Palavra
cria, subverte e celebra
seus simbolismos
suas metáforas
seus confrontos
fracassos
fronteiras

pelo gosto de transgredir-se


de denunciar-se
— ora por ser delito
na tradição
— ora por ser delírio
no esplendor
do improvável.

POEMA N. 26

Da janela sobre o mar,


sem saudades eu dou adeus
a mim mesma;

faço-me outra,
e nova.

Quero trazer-me alegre


à luz do dia ou da noite,

50
sossegar-me nas trovoadas,
evitar as esporas do vento
nos meus cabelos.

Inútil esforço
Sei. Aos meus olhos
cola-se, diariamente,
uma alma de estopa áspera,
embora rara.

POEMA N. 29

Vou me sabendo sem remansos.


Por vezes o mar estronda
dentro de mim
e tempestades medonhas me obrigam
a descer aos porões, a reconhecer-me
nas escotilhas fechadas da minha
incômoda solidão.

Difícil reconhecimento, porém.


Eu já sou muitas.
Meus olhos, é verdade,
ainda se mantêm amorosamente
indiscretos, e minha alma busca
da palavra as seduções segredosas
que me ardem no peito.

Mas já não me deixo


Possuir.

51
Graciliano Ramos (27/10/ 1892 – 20/03/1953)

(Disponível em: http://www.quemdisse.com.br/frase.asp?f=para-mim-a-humanidade-se-divide-em-


dois-grupos-os-que-concordam-e-os-equivocados&a=graciliano-ramos&frase=542. Acesso em: 12
out.2012).

O escritor Graciliano Ramos de Oliveira nasceu em Quebrangulo e é


considerado um dos maiores romancistas brasileiros. Atuou também como
cronista, contista, jornalista, político e memorialista.

Durante muito tempo, Graciliano viveu no Nordeste, e a sua experiência de


vida serviu como inspiração para a criação do tempo, do espaço e do enredo de
suas personagens. Muitos estudiosos consideram que parte de sua obra reflete as
visões pessoais do escritor acerca da vida.

Após o término do segundo grau, o autor de Vidas Secas foi morar no Rio
de Janeiro para trabalhar como jornalista. Em 1915, voltou a Alagoas para residir
em Palmeira dos Índios, com o intuito de colaborar com a empresa próspera do
pai. Nesse mesmo ano, Graciliano se casou com Maria Augusta de Barros, e após
cinco anos de casamento, ela faleceu por complicações no parto, deixando-lhe
quatro filhos.

Em 1927, Mestre Graça (como era conhecido) foi eleito prefeito de Palmeira
dos Índios. O mandato durou apenas dois anos, sendo rompido mediante renúncia
em 10 de abril de 1930.

Entre 1930 e 1936, Graciliano passou a residir em Maceió, trabalhando


como diretor da Imprensa Oficial, professor e diretor da Instrução Pública do
estado. Em 1934, publicou São Bernardo e após um ano, foi perseguido e preso

52
acusado de comunista no governo de Getúlio Vargas. No ano de 1936, publicou
Angústia, seguida de Vidas Secas (1938).

No começo de 1953 foi internado devido ao câncer no pulmão. Faleceu em


20 de março de 1953 deixando as obras: Caetés (1933) (ganhadora do prêmio
Brasil de literatura); São Bernardo (1934); Angústia (1936); Vidas Secas (1938); A
Terra dos Meninos Pelados (1939); Brandão Entre o Mar e o Amor (1942);
Histórias de Alexandre (1944); Infância (1945); Histórias Incompletas (1946);
Insônia (1947); Memórias do Cárcere, póstuma (1953); Viagem, póstuma (1954);
Linhas Tortas, póstuma (1962); Viventes das Alagoas, póstuma (1962); Alexandre
e Outros Heróis, póstuma (1962); Cartas, póstuma (1980);O Estribo de Prata,
póstuma (1984) e Cartas à Heloísa, póstuma (1992).

Graciliano Ramos também trabalhou como tradutor, uma vez que dominava
o inglês e o francês. Dentre as traduções, há de destacarem as obras: Memórias
de um Negro de Booker, de T. Washington, (1940) e A Peste, de Albert Camus,
(1951)

Por sua grandiosa atuação na literatura brasileira, obteve prêmios


importantes: em 1936, foi agraciado com o Prêmio Lima Barreto (Revista
Acadêmica) por sua obra Angústia. Um ano depois recebeu o Prêmio Literatura
infanto-juvenil (Ministério da Educação) pelo livro A Terra dos Meninos Pelados.
No ano de 1942 ganhou o Prêmio Felipe de Oliveira pelo conjunto da Obra e a sua
importância para a valorização da literatura nacional. Em 1962 recebeu um Prêmio
internacional, concedido pela Fundação William Faulkner (Estados Unidos),
através de sua obra mais conhecida mundialmente, Vidas Secas.

Segundo Bosi, Graciliano Ramos revela, em sua escrita “um ponto de


tensão entre o ‘eu’ do escritor (p.428-429) e a sociedade que o formou”. A sua
vida entrelaça às angústias reveladas pelas personagens, denotando um ponto
forte da literatura da segunda geração: o ato de repensar os conflitos vividos pelo
homem de seu tempo.

É perceptível em suas obras um mergulho na dor das personagens no meio


que as oprime, que a reduz a um objeto do sistema social. O homem descrito por
Graciliano Ramos, para sobreviver assume a postura do próximo e reflete o
sentido de vida.

O roteiro do autor de Vidas Secas norteou-se por um coerente


sentimento de rejeição que adviria do contato do homem com a natureza
ou com o próximo. Escrevendo sob o signo dialético por excelência do
conflito, Graciliano não compôs um ciclo, um todo fechado sobre um ou
outro polo da existência (eu/mundo), mas uma série de romances cuja
descontinuidade é sintoma de um espírito pronto à indagação, à fratura,

53
ao problema. O que explica a linguagem díspar de Caetés, Angústia,
Vidas Secas, momentos diversos que só terão em comum o dissídio
entre a consciência do homem e o labirinto de coisas e fatos em que se
perdeu. E explica, em outro plano, o trânsito da ficção ao nítido corte
biográfico de Infância e Memó s d á ce e”. (BOSI, 2006, p. 429)

Há, nos textos de Graciliano uma profunda desconexão entre o indivíduo e


a coletividade, e como fruto dessa relação, uma constante indagação sobre o ato
de existir. Ainda de acordo com Bosi, “o realismo de Graciliano não é orgânico
nem espontâneo. É crítico. O “herói” é sempre um problema: não aceita o mundo,
nem os outros, nem a si mesmo. Sofrendo pelas distâncias que o separam da
placenta familiar ou grupal, põe o conflito numa conduta de extrema dureza que é
a sua única máscara possível.

E o romancista encontra no trato analítico dessa máscara a melhor fórmula


de fixar as tensões sociais como primeiro motor de todos os comportamentos. E
essa é a grande conquista de Graciliano: superar na montagem do protagonista
(verdadeiro “primeiro lutador”) o estágio no qual seguem em caminhos opostos o
painel da sociedade e a sondagem moral.

Bosi (2006, p.429) considera que a obra de Graciliano não se restringe ao


regionalismo, mas numa luta constante do ser com esse ambiente construído, ou
seja, o lugar é parte da tensão construída entre o indivíduo e o mundo que
combate o seu comportamento.

Roberto Sarmento, em artigo publicado pelo jornal Gazeta de Alagoas,


salienta que a voz do próprio escritor ressoa em sua obra. Cita, então
personagens como Paulo Honório, de São Bernardo (1934) e Luís da Silva, de
Angústia (1936) como sujeitos de discussão da própria linguagem dentro dos
textos de ficção, somada ao contorno sociológico que envolve a estrutura literária
de década de 1930, cuja preocupação se volta

(...) fundamentalmente com a interpretação do humano entrelaçado com


as condições sociais e culturais adversas, cujo cenário está
flagrantemente situado no Nordeste brasileiro, correspondendo, assim, à
voga do romance regionalista modernista que explodiu na década de 30,
em consonância com o recrudescimento do imperialismo monopolista
que, no mundo inteiro, naquele momento, lutava contra as forças
socialistas e comunistas em larga expansão. (2000, p. 03).

54
Sarmento afirma que a obra de Graciliano não se resumiu ao romance
sociológico. Ele salienta que, além da análise das relações sociais, sobretudo,
entre as classes, há o questionamento das relações entre a literatura e a
sociedade, sendo perpassadas pelo conteúdo estilístico.

Abaixo, um trecho do romance Vidas Secas:

Mudança

Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes


tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco.
Mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas.
Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos
galhos pelados da catinga rala.

Arrastaram-se para lá, devagar, sinhá vitória com o filho mais novo escanchado no quarto
e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, a aió a tiracolo, a cuia pendurada numa
correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra
Baleia iam atrás.

Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-se a


chorar, sentou-se no chão.

Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai.

Não obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o pequeno
esperneou acuado, depois sossegou, deitou-se fechou os olhos. Fabiano ainda lhe deu algumas
pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto não acontecesse, espiou os quatro cantos,
zangado, praguejando baixo.

A catinga estendia-se de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram


ossadas. O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.

Anda, excomungado.

O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria
responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário e a
obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas
dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde.

Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos, fazia horas que pisavam a
margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés.

Pelo espirito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele


descampado. Pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e suja, irresoluto, examinou
os arredores. Sinha Vitória estirou o beiço indicando vagamente uma direção e afirmou com
alguns sons guturais que estavam perto. Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão,

55
acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostados ao estômago, frio
como um defunto. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena. Impossível abandonar o anjinho
aos bichos do mato. Entregou a espingarda a Sinha Vitória, pôs o filho no cangote, levantou-se,
agarrou os bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, como cambitos. Sinha Vitória aprovou
esse arranjo, lançou de novo a interjeição gutural, designou os juazeiros invisíveis.

E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num silêncio grande.

Ausente do companheiro, a cachorra Baleia tomou a frente do grupo. Arqueada, as


costelas à mostra, corria ofegando, a língua fora da boca. E de quando em quando se detinha,
esperando as pessoas, que se retardavam.

Ainda na véspera eram seis viventes, contando com o papagaio. Coitado, morrera na areia
do rio, onde haviam descansado, à beira de uma poça: a fome apertara demais os retirantes e por
ali não existia sinal de comida. Baleia jantara os pés, a cabeça, os ossos do amigo, e não
guardava lembrança disto. Agora, enquanto parava, dirigia as pupilas brilhantes aos objetos
familiares, estranhava não ver sobre o baú de folha a gaiola pequena onde a ave se equilibrava
mal. Fabiano também às vezes sentia falta dela, mas logo a recordação chegava. Tinha andado a
procurar raízes, á toa: o resto da farinha acabara, não se ouvia um berro de rês perdida na catinga.
Sinhá Vitória, queimando o assento no chão, as mãos cruzadas segurando os joelhos ossudos,
pensava em acontecimentos antigos que não se relacionavam: festas de casamento, vaquejadas,
novenas, tudo numa confusão. Despertara-a um grito áspero, vira de perto a realidade e o
papagaio, que andava furioso, com os pés apalhetados, numa atitude ridícula, resolvera de
supetão aproveitá-lo como alimento e justificara-se declarando a si mesma que era mudo e inútil.
Não podia deixar de ser mudo. Ordinariamente a família falava pouco. E depois daquele desastre
viviam todos calados, raramente soltavam palavras curtas. O louro aboiava, tangendo um gado
inexistente, e latia arremedando a cachorra.

As manchas dos juazeiros tornaram a aparecer, Fabiano aligeirou o passo, esqueceu a


fome, a canseira e os ferimentos. As alpercatas dele estavam gastas nos saltos, e a embira tinha-
lhe aberto entre os dedos rachaduras muito dolorosas. Os calcanhares, duros como cascos,
gretavam-se e sangravam.

Num cotovelo do caminho avistou um canto de cerca, encheu-o a esperança de achar


comida, sentiu desejo de cantar. A voz saiu-lhe rouca, medonha. Calou-se para não estragar força.

Deixaram a margem do rio, acompanharam a cerca, subiram uma ladeira, chegaram aos
juazeiros. Fazia tempo que não viam sombra.

Sinha Vitória acomodou os filhos, que arriaram como trouxas, cobriu-os com molambos. O
menino mais velho, passada a vertigem que o derrubara, encolhido sobre folhas secas, a cabeça
encostada a uma raiz, adormecia, acordava. E quando abria os olhos, distinguia vagamente um
monte próximo, algumas pedras, um carro de bois. A cachorra Baleia foi enroscar-se junto dele.

Estavam no pátio de uma fazenda sem vida. O curral deserto, o chiqueiro das cabras
arruinado e também deserto, a casa do vaqueiro fechada, tudo anunciava abandono. Certamente o
gado se finara e os moradores tinham fugido.

Fabiano procurou em vão perceber um toque de chocalho. Avizinhou-se da casa, bateu,


tentou forçar a porta. Encontrando resistência, penetrou num cercadinho cheio de plantas mortas,
rodeou a tapera, alcançou o terreiro do fundo, viu um barreiro vazio, um bosque de catingueiras

56
murchas, um pé-de-turco e o prolongamento da cerca do curral. Trepou-se no mourão do canto,
examinou a catinga, onde avultavam as ossadas e o negrume dos urubus. Desceu, empurrou a
porta da cozinha. Voltou desanimados, ficou um instante no copiar, fazendo tenção de hospedar ali
a família. Mas chegando aos juazeiros, encontrou os meninos adormecidos e não quis acordá-los.
Foi apanhar gravetos, trouxe do chiqueiro das cabras uma braçada de madeira meio roída pelo
cupim, arrancou touceiras de macambira, arrumou tudo para a fogueira.

Nesse ponto Baleia arrebitou as orelhas, arregaçou as ventas, sentiu cheiro de preás,
farejou um minuto, localizou-os no morro próximo e saiu correndo.

Fabiano seguiu-a com a vista e espantou-se: uma sombra passava por cima do monte.
Tocou o braço da mulher, apontou o céu, ficaram os dois algum tempo aquentando a claridade do
sol. Enxugaram as lágrimas, foram agachar-se perto dos filhos, suspirando, conservaram-se
encolhidos, temendo que a nuvem se tivesse desfeito, vencida pelo azul terrível, aquele azul que
deslumbrava e endoidecia a gente.

Entrava dia e saía dia. As noites cobriam a terra de chofre a tampa anilada baixava,
escurecia, quebrada apenas pelas vermelhidões do poente.

Miudinhos, perdidos no deserto queimado, os fugitivos agarravam-se, somaram as suas


desgraças e os seus pavores. O coração de Fabiano bateu junto do coração de Sinha Vitória, um
abraço cansado aproximou os farrapos que os cobriam. Resistiram à fraqueza, afastaram-se
envergonhados, sem ânimo de afrontar de novo a luz dura, receosos de perder a esperança que
os alentava.

Iam-se amodorrando e foram despertados por Baleia, que trazia nos dentes um preá.
Levantaram-se todos gritando. O menino mais velho esfregou as pálpebras, afastando pedaços de
sonho. Sinha Vitória beijava o focinho de Baleia, e como o focinho estava ensanguentado, lambia o
sangue e tirava proveito do beijo.

Aquilo era caça bem mesquinha, mas adiaria a morte do grupo. E Fabiano queria viver.
Olhou o céu com resolução. A nuvem tinha crescido. Agora cobria o morro inteiro. Fabiano pisou
com segurança, esquecendo as rachaduras que lhe estragavam os dedos e os calcanhares.

Sinha Vitória remexeu no baú, os meninos foram quebrar uma haste de alecrim para fazer
um espeto. Baleia, o ouvido atento, o traseiro em repouso e as pernas da frente erguidas, vigiava,
aguardando a parte que lhe iria tocar, provavelmente os ossos do bicho e talvez o couro.

Fabiano tomou a cuia, desceu a ladeira, encaminhou-se ao rio seco, achou no bebedouro
dos animais um pouco de lama. Cavou a areia comas unhas, esperou que a água marejasse e,
debruçando-se no chão, bebeu muito. Saciado, caiu de papo para cima, olhando as estrelas, que
vinham nascendo. Uma, duas, três, quatro, havia muitas estrelas, havia mais de cinco estrelas no
céu. O poente cobria-se de cirros e uma alegria doida enchia o coração de Fabiano.

Pensou na família, sentiu fome. Caminhando, movia-se como uma coisa, para bem dizer
não se diferençava muito da bolandeira de Seu Tomás. Agora, deitado, apertava a barriga e batia
os dentes. Que fim teria levado a bolandeira de Seu Tomás?

Seu Tomás fugira também, com a seca, a bolandeira estava parada. E ele, Fabiano, era
como a bolandeira. Não sabia por que, mas era. Uma, duas, três, havia mais de cinco estrelas no
céu. A Lua estava cercada de um halo cor de leite. Ia chover. Bem. A catinga ressuscitaria, a

57
semente do gado voltaria ao curral, ele, Fabiano, seria o vaqueiro daquela fazenda morta.
Chocalhos de badalos de ossos animariam a solidão. Os meninos, gordos, vermelhos, brincariam
no chiqueiro das cabras, Sinha Vitória vestiria de ramagens vistosas. As vacas povoariam o curral.
E a catinga ficaria toda verde.

Lembrou-se dos filhos, da mulher e da cachorra, que estavam lá em cima, debaixo de um


juazeiro, com sede. Lembrou-se do preá morto. Encheu a cuia, ergueu-se, afastou-se, lento, para
não derramar a água salobra. Subiu a ladeira. A aragem morna sacudia os xiquexiques e os
mandacarus. Uma palpitação nova. Sentiu um arrepio na catinga, uma ressurreição de garranchos
e folhas secas.

Chegou. Pôs a cuia no chão, escorou-a com pedras, matou a sede da família. Em seguida
acocorou-se, remexeu o aió, tirou o fuzil, acendeu as raízes de macambira, soprou-as, inchando as
bochechas cavadas. Uma labareda tremeu, elevou-se, tingiu-lhe o rosto queimado, a barba ruiva,
os olhos azuis. Minutos depois o preá torcia-se e chiava no espeto de alecrim.

Eram todos felizes. Sinha Vitória vestiria uma saia larga de ramagens. A cara murcha de
Sinha Vitória remoçaria, as nádegas bambas de Sinha Vitória engrossariam, a roupa encarnada de
Sinha vitória provocaria a inveja de outras caboclas.

A Lua crescia, a sombra leitosa crescia, as estrelas foram esmorecendo naquela brancura
que enchia a noite. Uma, duas, três, agora poucas estrelas no céu. Ali perto a nuvem escurecia o
morro.

A fazenda renasceria e ele, Fabiano, seria o vaqueiro, para bem dizer seria dono
daquele mundo.

Os troços minguados ajuntavam-se no chão: a espingarda de pederneira, o aió, a cuia de


água e o baú de folha pintada. A fogueira estalava. O preá chiava em cima das brasas.

Uma ressurreição. As cores de saúde voltariam à cara triste de Sinha Vitória. Os meninos
se espojariam na terra fofa do chiqueiro das cabras. Chocalhos tilintariam pelos arredores. A
catinga ficaria verde.

Baleia agitava o rabo, olhando as brasas. E como não podia ocupar-se daquelas coisas,
esperava com paciência a hora de mastigar os ossos. Depois iria dormir.

(Ramos, 1977, p. 9-17)

58
Heliônia Ceres (Maceió, 06/07/1927 – 02/02/1999)

(Disponível em: http://edufal.com.br/index.php?route=product/product&product_id=14694.


Acesso em: 09 out. 2012)

Professora de língua portuguesa, dramaturga e teatróloga, Heliônia Ceres


escreveu contos, crônicas e peças de teatro. Como pesquisadora, publicou
biografias de figuras ilustres do estado na série Difusão de Alagoanos Ilustres. Foi
membro da Academia Alagoana de Letras, ocupando a cadeira número 07 e
escreveu as seguintes obras: Contos: coletânea, Rosália das visões, o auto da
tentação, os adivinhas, o profeta, A procissão dos encapuzados, cabras-machos,
O conclave, Olho de besouro, Os labirintos da alma, A geladeira, A travessia, A
morte de Julião Tavares em 3 vozes para o teatro, O machão e a feminista.

Em 1953, formou-se em Letras Neolatinas pela Faculdade de Filosofia do


Recife e iniciou a carreira de jornalista e colunista ao publicar artigos e crônicas no
jornal Gazeta de Alagoas. Também atuou como cronista do Jornal de Alagoas.

Três anos depois, casou-se com Geraldo Motta e teve quatro meninos:
Ceres, Luciano, Maurício e Geraldinho. Ainda na década de 1950, foi professora
de francês no Colégio Santíssimo Sacramento e no Colégio Estadual Moreira e
Silva. Já na década de 1960, tornou-se professora titular de Língua e Literatura
Italiana na Universidade Federal de Alagoas.

Ao colaborar com a causa feminina, embora sem exercer uma militância


radical, Heliônia Ceres, assumiu o cargo de presidente da Associação Alagoana
Pró-Mulher e também de vice-presidente da Federação Alagoana pelo Progresso
Feminino. Inclusive, a relação entre os gêneros era tema constante nas obras de
Ceres, que participou de uma agremiação de escritoras.
59
Aos 40 anos, Ceres – que produziu unicamente prosa - publicou o seu
primeiro livro, intitulado Contos N° 1, em 1967. A respeito de sua obra, Romeu de
Avelar (apud MEDEIROS, 2012) escreveu as seguintes palavras: "Essa é uma
personalíssima contadora de histórias curtas e impressionantes, que despontou na
área de contistas alagoanos com um instrumental literário de primeira ordem".

Pode ser tranquilamente considerada uma das contistas mais relevantes da


história da literatura em Alagoas. É reconhecida por investir na narrativa
fantástica, por tentar mexer no imaginário de seu leitor, induzindo-o ao campo do
inexplicável.

Oito anos depois de seu primeiro livro, a contista publica Contos N° 2, com
o qual ganhou o concurso Moinho Nordeste, da Academia Alagoana de Letras. Em
1977 foi lançada a obra de aforismos Reflexões, cujas ilustrações e páginas são
azuis, caracterizando uma obra plena de originalidade. A respeito da obra, Ceres
escreve as seguintes palavras:

Na realidade, a grande pausa que há entre 1968, data em que publiquei


Contos N° 1 e 1975, data da publicação de Contos N° 2, nunca parei de
escrever. Durante esses anos em que meus filhos cresceram, além de
escrever para jornais, fiz uma tese sobre o teatro de Molière e escrevi
poesias. Fiz um romance de memórias sobre o tempo em que morei em
Recife, outro, sobre o crime organizado em Alagoas, escrevi uma
monografia sobre a preposição "de", preparei meu terceiro livro de contos
que em breve publicarei, e enchi muitas páginas de reflexões, das quais
extrai algumas para publicar... (apud Medeiros, 2012).

Em 1984, Ceres apresentou a obra Rosália das Visões. Cinco anos depois,
publicou A Procissão dos Encapuzados. Foi também em 1989 que ela embarcou
em outro tipo de narrativa com o livro Cabras-Machos (Grande Crônica de Santa
Cruz), obra que assume um contorno social ao criticar o coronelismo, a
impunidade e a luta de classes.

Heliônia Ceres também se destacou como dramaturga e pesquisadora,


deixando trabalhos importantes sobre a vida das personalidades alagoanas, o que
lhe rendeu, ao lado dos textos literários, uma valorização nacional. Como
consequência, suas obras foram publicadas em outros Estados. Seu último livro,
Olho de Besouro, de 1998, por exemplo, foi publicado em Brasília e repercutiu
positivamente fora de Alagoas.

60
Jorge Cooper (07/12/1911 – 28/04/1991)

(Disponível em: http://tudonahora.ne10.uol.com.br/noticia/cultura/2010/12/15/121543/poesia-


completa-revela-poetica-aspera-de-jorge-cooper. Acesso em: 09 out. 2012)

Nascido em um sobradinho da Praça Montepio dos Artistas, no centro de


Maceió, Jorge Cooper, filho do inglês Carlos Cooper, e de Arlinda Cavalcante
Albuquerque Cooper é considerado um dos poetas alagoanos mais significativos
da contemporaneidade.

Bancário de profissão, Cooper iniciou os seus estudos no Externato Santa


Helena e, em seguida frequentou o Grupo Escolar Fernandes Lima, ambos na
capital de Alagoas.

Aos 16 anos, o poeta de escrita intimista, original e de caráter nostálgico


conseguiu um trabalho como escriturário do Banco do Norte do Brasil S/A. Foi em
sua rotina profissional que Cooper obteve acesso às obras literárias que os
seduziram e o tornaram um leitor inveterado, sobretudo de versos encantadores
que os inspiraram a escrever. Expressava, então, um amor indescritível pela
literatura: “faço-me encantar/ dentro nos meus poemas/por toda a/ para além da
vida” (JÚNIOR, 2000, p.3), que perdurou até o final de sua vida.

Embora apaixonado pela poesia desde mais jovem, Cooper se tornou autor
de versos somente aos 34 anos, quando escreveu a obra Achados.
Posteriormente, o seu envolvimento com a literatura o levou a escrever um
suplemento em o Jornal de Alagoas, cuja função era de colaborador por fazer
parte de movimentos de renovação literária em Alagoas e que tinham o apoio da
imprensa local.

Em 1949, Cooper casou-se com Stella Costa e após um ano, mudou-se


para o Rio de Janeiro, seguindo, dessa forma, o mesmo percurso de grandes
escritores alagoanos. Foi na antiga capital federal que nasceu o seu filho, o

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médico e também poeta Charles Copper, que definiu o pai como um ser humano
que “assimila a essência de sua luta em seus poemas de linguagem original, de
pontuação sumária afeita somente aos travessões e aos parênteses, transmitindo
a necessidade e a exigência de ser o artista – ele mesmo, só ele” (JÚNIOR, 2000,
p. 3).

Enquanto funcionário do Ministério da Agricultura e revisor das revistas


“Fon-Fon” e “O Cruzeiro”, Cooper escreveu o seu segundo trabalho, Poesia sem
idade. Em 1969, Cooper, de volta a Maceió, produziu um volume de poemas,
intitulado Linha sem traço. Transferido para São Luís, no Maranhão, criou Poemas
(Quando em São Luís), considerada a sua grande obra segundo os críticos.

No ano de 1982, Cooper retornou em definitivo a Maceió, onde escreveu Os


últimos, seu último livro. No ano seguinte, foi homenageado por um grupo de
escritores renovadores em um seminário sobre Jorge de Lima, na Universidade
Federal de Alagoas, e teve o seu talento de poeta reconhecido por entidades
literárias como o grupo Vivarte, e o Diretório Acadêmico 2 de maio, da Escola de
Ciências Médicas (atual Universidade de Ciências da Saúde de Alagoas).

A primeira publicação de Cooper ocorreu em 1986 e foi intitulada O sonho


pelo avesso, reunião de 60 poemas publicada pela Secretaria Estadual de Cultura
e prefaciada por Lêdo Ivo. Em 1990, 40 poemas inéditos foram colhidos por
amigos de Cooper, que proporcionaram a publicação de mais uma obra, A solidão
que soma, incluindo depoimentos sobre o texto. Um ano após, surgiu Noite nova:
vigília, publicação póstuma.

No dia 28 de abril de 1991, Jorge Cooper faleceu, deixando um estilo de


poesia muito particular em expressar as angústias do ser no que tange ao ato de
simplesmente existir. Segundo Júnior, os poemas de Copper eram curtos e de
versos pequenos, “mas todos de uma riqueza de imagens e de uma beleza lírica
que nos seduzia cada vez mais” (2000, p.4).

Por se utilizarem de uma linguagem autêntica e reveladora das fraquezas


humanas, dando-lhe uma dimensão trágica, os versos de Cooper foram rejeitados
por alguns críticos. A filóloga Luciana Stegagno (apud JÚNIOR) definiu Cooper
como “um cactos solitário na poesia alagoana” (2000 p. 4) tendo em vista o seu
estilo renovador e muitas vezes incompreendido, ao captar a subjetividade
humana por meio das palavras belas.

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INFÂNCIA TARDIA

Quando minha idade era menina


Menino então não fui eu
Tinha muito juízo
O menino
( todos diziam)
Coisas que minha idade não compreendeu

Hoje o avesso todos dizem


Foi minha idade que envelheceu
Tem o juízo que eu quando menino
E eu
eu
o juízo que tinha minha idade
- Quando menino era eu.

POEMA

só morto
o homem enterra o seu passado
cavalga o dorso do tempo
não olha mais para os lados

(fez o seu encontro de contas


vai de si mesmo saldado).

POEMA

Minha vida
foi um mar sem porto
onde à noite
nem ao menos o olho de um farol
piscou

E quando era dia


o tempo vadio
só lhe mostrou
o azul vazio
de quem vem de ir
de onde não chegou

CONTENDA

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Passei toda a minha vida
a dizer não
ao destino
(contava agarrar minha própria sombra
Com a mão)

E o destino
Num como que arremedo
nem tão ouvido refrão
lá do outro lado me repetia
o seu não menos obstinado não.

(COOPER, apud JÚNIOR, 2000, p. 7-8)

Jorge de Lima (23/04/1893 – 15/11/1953)

(Disponível em: http://www.jmarcelofotos.com/2012/07/biografia-de-jorge-de-lima.html. Acesso em:


12 out. 2012)

Poeta de distintos movimentos literários, Jorge de Lima, ao se converter ao


modernismo, tornou-se um dos mais prestigiados escritores nacionais, sendo em
Alagoas o grande difusor de uma arte renovadora. Ele nasceu na antiga Vila Nova
de Imperatriz, atual União dos Palmares, nas proximidades da Serra da Barriga e
conviveu com as histórias populares, a religiosidade e os folguedos de sua região,
que o inspiraram à atividade literária.

Aos 6 anos, Jorge de Lima rabiscou os primeiros versos apoiados pela


mãe, que o incentivou constantemente. As suas produções surpreenderam um

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dos professores, Moreno Brandão que, citado pelo pesquisador Douglas Apratto
Tenório, quase desestimulou o futuro poeta ao declarar: “menino, não deve pensar
nessas coisas na sua idade. O tempo não chega para o estudo. Esse negócio de
verso atrasa um bocado” (2000, p. 4).

Jorge de Lima foi médico, poeta, escritor, pintor, professor, materialista,


cético, místico, religioso, diretor da Instrução Pública, diretor da Saúde Pública,
deputado estadual na Assembleia Legislativa em Alagoas, vereador e presidente
da Câmara de Vereadores da capital federal, o Rio de Janeiro, prócer político em
ações partidárias.

Em 1909, Jorge de Lima matriculou-se na Faculdade de Medicina da Bahia,


em Salvador. Nessa cidade, ele participou de debates culturais e científicos,
tornando-se um estudioso da filosofia evolucionista. No ano de 1914, transferiu-se
para o Rio de Janeiro com o objetivo de se aperfeiçoar na carreira de médico. Fez
concurso interno para o Hospital Central do Exército e foi classificado. Em
seguida, obteve o título de Doutor em Medicina ao defender a tese O destino
higiênico do lixo, aprovada com distinção.

De volta a Alagoas, o recém-formado fixou residência em Maceió, cidade


onde publicou o seu primeiro livro de poesias XIV Alexandrinos, cujo soneto
Acendedor de Lampiões foi bem recebido pela crítica. Em 1916, casou-se com
Adila Alves em Belém, no Pará e ao retornar ao seu Estado natal, exerceu
humanitariamente, a sua profissão de médico. A sua atuação em prol dos pobres
o conduziu à política em 1918, quando foi eleito a uma vaga na assembleia
legislativa com o apoio do então governador Fernandes Lima. No entanto, o seu
comportamento ético e esquerdista não agradou os políticos poderosos, o que o
levou a renunciar o mandato. No entanto, a sua carreira política teve continuidade
no Rio de Janeiro, quando se tornou vereador e presidente da câmara da então
capital federal.

Em 1919, Jorge de Lima passou a se dedicar à literatura ao fundar a


Academia Alagoana de Letras e, paralelamente, em 1925, criou a Sociedade de
Medicina e Cirurgia de Alagoas e ingressou no Instituto Histórico e Geográfico de
Alagoas. Finalmente, em 1926, aderiu ao movimento modernista, mantendo
contato com Mário de Andrade, ilustre visitante de Maceió, naquela ocasião.

Por motivos passionais, Jorge de Lima sofreu um atentado a tiros no centro


de Maceió, fato que o levou embora para o Rio de Janeiro definitivamente. Nesse
local, ele consagra a sua carreira de escritor, jornalista e médico premiado pela
sua contribuição ao país e encerra a sua história de vida em 1953, em decorrência
de um câncer.

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Dispondo de uma obra que penetra na complexidade humana, Jorge de
Lima escreveu por meio do uso de uma linguagem poética, de um cuidadoso
vocabulário, no qual se sustentam as suas raízes regionais. Segundo Tenório, os
textos de Jorge Lima revelam uma ambivalência entre o profano e o religioso,
afirmando a obra como algo “complexo, descomunal, contraditório, irreconciliável
nos elementos que se entrecruzam nele, o caos tumultuoso e os horizontes
serenos, o impulso de ascensão e a atração cega para baixo”. (2000, p. 2).

São obras do escritor as poesias: XIV Alexandrinos (1914), O mundo do


menino impossível (1925), Poemas (1927), Novos poemas (1929), Poemas
escolhidos (1932), Tempo e eternidade, em colaboração com Murilo Mendes
(1935), A túnica inconsútil (1938), Poemas negros (1947), Livro de sonetos (1949),
Obra poética (1950) e Invenção de Orfeu (1952); os romances: Salomão e as
mulheres (1927), O anjo (1934), Calunga (1935), A mulher obscura (1939) e
Guerra dentro do beco (1950); e os ensaios, história e biografia: A comédia dos
erros (1923), Dois ensaios (1929), Anchieta (1934), História da terra e da
humanidade (1944), Vida de São Francisco de Assis (1944), D. Vital (1945) e Vida
de Santo Antonio (1947).

Abaixo, o poema Essa nega Fulô, criação que gerou polêmica tendo em
vista a temática da representação da exploração do negro na literatura:

Essa negra Fulô

Ora, se deu que chegou


(isso já faz muito tempo)
no banguê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.

Essa negra Fulô!


Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!

Essa negra Fulô!

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Essa negrinha Fulô!
ficou logo pra mucama
pra vigiar a Sinhá,
pra engomar pro Sinhô!

Essa negra Fulô!


Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!

Essa negra Fulô!

"Era um dia uma princesa


que vivia num castelo
que possuía um vestido
com os peixinhos do mar.
Entrou na perna dum pato
saiu na perna dum pinto
o Rei-Sinhô me mandou
que vos contasse mais cinco".

Essa negra Fulô!


Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Vai botar para dormir
esses meninos, Fulô!
"minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o Sabiá beliscou".

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Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá
Chamando a negra Fulô!)
Cadê meu frasco de cheiro
Que teu Sinhô me mandou?
— Ah! Foi você que roubou!
Ah! Foi você que roubou!

Essa negra Fulô!


Essa negra Fulô!

O Sinhô foi ver a negra


levar couro do feitor.
A negra tirou a roupa,
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô).

Essa negra Fulô!


Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê meu lenço de rendas,
Cadê meu cinto, meu broche,
Cadê o meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou!
Ah! foi você que roubou!

Essa negra Fulô!


Essa negra Fulô!

O Sinhô foi açoitar


sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dêle pulou
nuinha a negra Fulô.

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Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, negra fulô?

Essa negra Fulô!

(Disponível em: http://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=820. Acesso em:


10 out. 2012)

Lêdo Ivo (Maceió, 18/02/1924)

(Disponível em: http://rascunho.gazetadopovo.com.br/guiado-pela-duvida/ Acesso em: 09 out.


2012)

Dotado de uma capacidade literária grandiosa, Lêdo Ivo é considerado um


dos maiores intelectuais do Estado de Alagoas. Possuindo formação primária e
secundária em Maceió, aos 16 anos transferiu-se para o Recife, para colaborar na
imprensa local. Neste meio, foi estimulado a participar de um grupo literário de que
fazia parte Willy Lewin, fato que o influenciou na escolha de sua carreira.

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Em 1941, aos 17 anos, Lêdo Ivo participou do I Congresso de Poesia do
Recife, sendo considerado, à época, o poeta mais jovem do Brasil. Em 1942, em
Maceió, terminou o curso complementar no Liceu seguido para o Rio de Janeiro,
no ano posterior com o objetivo de estudar na Faculdade Nacional de Direito da
Universidade do Brasil.

Em terras cariocas, Lêdo Ivo colaborou com a produção de suplementos


literários e atuou como jornalista profissional. Em 1944 publicou a sua primeira
obra literária As imaginações, livro poesias sequenciado por Ode e elegia. Nesse
período, o jovem alagoano recebeu o Prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira
de Letras. Em seguida passou a escrever romance, conto, crônica e ensaio.

Em 1947, publicou o primeiro romance, As Alianças, com o qual recebeu o


Prêmio de Romance da Fundação Graça Aranha, seguido do livro de crônicas A
Cidade e os Dias (1957) que também recebeu o Prêmio Carlos de Laet, da
Academia Brasileira de letras. Lêdo Ivo se tornou reconhecido internacionalmente
e seu poemas chegaram a ser publicadas na Itália (Illuminazioni) e no Chile (Los
murciélagos)

Atualmente, Lêdo Ivo é sócio efetivo da Academia Alagoana de Letras,


sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, sócio efetivo da
Academia Municipalista de Letras do Brasil, sócio efetivo da Academia Brasileira
de Letras do Brasil, sócio honorário da Academia Petropolitana de Letras, além de
sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal. É
também Grande Benemérito do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de
Janeiro e Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Alagoas.

Planta de Maceió

O vento do mar rói as casas e os homens.


Do nascimento à morte, os que moram aqui
andam sempre cobertos por leve mortalha
de mormaço e salsugem. Os dentes do mar
mordem, dia e noite, os que não procuram
esconder-se no ventre dos navios
e se deixam sugar por um sol de areia.
Penetrada nas pedras, a maresia
cresta o pêlo dos ratos perdulários
que, nos esgotos, ouvem o vômito escuro
do oceano esvaído em bolsões de mangue
e sonham os celeiros dos porões dos cargueiros.
Foi aqui que nasci, onde a luz do farol

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cega a noite dos homens e desbota as corujas.
A ventania lambe as dragas podres,
entra pelas persianas das casas sufocadas
e escalavra as dunas mortuárias
onde os beiços dos mortos bebem o mar.
Mesmo os que se amam nesta terra de ódios
são sempre separados pela brisa
que semeia a insônia nas lacraias
e adultera a fretagem dos navios.
Este é o meu lugar, entranhado em meu sangue
como a lama no fundo da noite lacustre.
E por mais que me afaste, estarei sempre aqui
e serei este vento e a luz do farol,
e minha morte vive na cioba encurralada.
(IVO. http://www.revista.agulha.nom.br/ledo.html#planta. Acesso em 11 out. 2012)

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REFERÊNCIAS

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