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O LIVRO

DO
CATIMB
CATIMBOZEIRO
OZEIRO MESTRE

RÔMULO HENRIQUE PEREIRA ANGÉLICO

INTRODUÇÃO
Tem este trabalho o principal objetivo de apresentar aos interessados na

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Tradição
radi ção conhecid
conhecidaa pelos
pelo s nom
nomes:
es: “Catimbó”, “Jurema”,
“Jurema”, “Jurema
“Jurema Sagrada”,
“Catimbó-Jurema” e “Culto aos Senhores Mestres”, um pouco do resultado
de minhas pesquisas esotéricas sobre o assunto.
Minhas investigações, iniciadas despretensiosamente em meados de 2005,
no município de Canguaretama (litoral sul do Rio Grande do Norte), têm
sido um contínuo de vivências em centros, terreiros e comunidades
indígenas; entrevistas com mestres, mestras, yalorixás e babalorixás;
acrescidas de leituras incansáveis de pesquisas historiográficas,
antropológ
an tropológicas,
icas, teológicas
teológicas e esotéricas.
esotéricas .
Tenho constatando que o Catimbó-Jurema é indiscutivelmente um culto, o
antes uma religião, de matriz indígena – relatos do início do período
colonial, muito anteriores ao estabelecimento do Cristianismo ou do
Candomblé em terras brasileiras, não nos permitem duvidar: os índios do
 Nordeste possuíam con conjun
juntos
tos de mitos e ritos riquíssimos; detinh detinham,
am,
também, uma série de crenças e práticas mágico-medicinais que os
conectavam à Essência
Ess ência e aos mun
undos
dos da Mãe Natureza.
Parte considerável da subjetividade, da magia, do misticismo e das
medicinas de nativos primevos, permanece viva em cultos indígenas e
caboclos espalhados
es palhados pelo território brasilei
bras ileiro.
ro. No caso, aqui nos
nos referimos,
referimos,
como já foi dito, ao Catimbó, cujas remotas origens a historiografia
acadêmica ainda não conseguiu abordar com clareza.
Em seus ritos, nativos das nações Tarairiú, Chuminy e Potiguara, cultuavam
os astros, evocavam espíritos da floresta, entravam em estado de transe
mediúnico, reverenciavam divindades, fumavam tabaco e bebiam jurema – 
o chá sagrado, preparado com as raízes de plantas popularmente conhecidas
como “Jurema Preta” e “Jurema Branca”, através do qual viajavam
espiritualmente entre mundos cujas configurações, entradas e saídas, só os
 pajés e os mestres
mestres conh
conhecem.
ecem.
Meio milênio de colonização – período marcado por proibições,
 perseguições
 perseguições e assassinat
assass inatos
os de milhares de índios e de suas respectivas
culturas
culturas – não foi o bastante para destruir
des truir todo
todo o universo
universo das crenças
cr enças e
 práticas nativas. Indivíduos
Indivíduos de nações distintas
distintas foram catequizados,
catequizados,
misturados, separados, aldeados, escravizados; pajés foram perseguidos;
outros escravos chegaram da África, para conviver mais ou menos
 próximos
 próximos de índios e caboclos cativos; vieram ainda piratas espanhóis espanhóis e
franceses, protestantes holandeses, cristãos-novos recém convertidos ao
catolicismo romano, bruxas expatriadas, feiticeiros degredados, padres e
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freiras, hereges de todo tipo...
Sobrevivendo a esse gigantesco e sanguinário caldeamento que foi parte da
colonização do Brasil, permaneceram vivos, sob o mote  “Catimbó-
Jurema”, elementos materiais e imateriais ameríndios herdados por 
comunidades caboclas e mestres solitários, quase sempre fundidos a
catolicismos populares e macumbas africanas, além de magia e feitiçarias
européias.
Até que provem o contrário, permanece o Catimbó-Jurema uma Tradição
ancestral (talvez a mais antiga do Nordeste brasileiro e uma das mais
características do Brasil) de matriz indígena – cujo corpo admite trajes e
elementos íbero-africanos, mas o Espírito permanece ameraba. O beber 
Jurema, a fumaçada que cura ou que mata, a evocação e a invocação de
seres não-humanos que habitam lugares secretos da Natureza, permanecem
vivas e pulsantes em nosso povo.
Apresento-lhes, portanto, um pouco de meus estudos e vivências no mundo
dos catimbozeiros e dos espíritos do Encanto.
Este livro está dividido em cinco partes. Inicio com uma homenagem ao Pai
Raimundo Tavares e à Mestra Maria Fernandes, ambos muito importantes
em minha caminhada como aprendiz e pesquisador.
A seguir, o primeiro capítulo que trata da história, ou antes do mito, do
Mestre Emanoel Germano: um antigo espírito cultuado nas mesas e giras de
Jurema – um Rei – que habita no Astral um lugar sagrado chamado “Serra
de Emanoel Germano”.
 No segundo capítulo abordo a presença do Diabo nos cultos à Jurema. De
que modo essa entidade de origem judaico-cristã pode ter se tornado tão
 presente, em universos e imaginários que originalmente sequer possuíam
algo semelhante ao Inferno? Trato da questão de modo exotérico e
esotérico.
 No capítulo terceiro realizei um levantamento de textos de autores diversos,
cujas opiniões sobre Catimbó nem sempre são positivas ou neutras – textos
 presentes em livros publicados há décadas, atualmente quase esquecidos.
Selecionei fragmentos dos mesmos considerando-os importantes à
construção de uma historiografia das bibliografias referentes aos cultos à
Jurema. Não deixei de comentá-los, acrescentando, em negrito, críticas que
acredito esclarecerão determinados trechos obscuros.

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Encerro com um quarto capítulo relativamente doutrinário, em que abordo
aspectos do Catimbó-Jurema conforme vivenciamos a Tradição no Centro
Cultural e Espiritualista Casa Sol Nascente do Rei Malunguinho – um
Santuário da Jurema localizado na cidade de Macaíba, aqui no Rio Grande
do Norte.
Desejo a todos uma ótima leitura, plena de reflexões e críticas
construtivas.

Macaíba, janeiro de 2016


Rômulo Henrique Pereira Angélico

Homenagem ao Pai Raimundo Tavares e


sua filha de fé, a Mestra Maria
Fernandes
Maria Fernandes Bezerra da Silva   nasceu em 1939 na comunidade de
Santo Antônio dos Barreiros (São Gonçalo do Amarante, Rio Grande do
 Norte). Junto com seu marido – o senhor Sebastião, a família de Maria
Fernandes sobrevive da pega de caranguejo. Aos 35 anos, vítima de um
feitiço jogado por sua cunhada, desenganada pelos médicos e orientada por 
um deles a procurar o espiritismo, foi tratada pelo Pai Raimundo Tavares,
filho do mestre José Tavares. Pai e filho trabalhavam tanto no Candomblé
quanto na Jurema (uma Jurema com traços marcantes de Pajelança do Norte
do Brasil e Encantaria Ibérica). Raimundo Tavares descobriu que a única
maneira de evitar que Maria Fernandes morresse, era desenvolver sua
mediunidade. E nesse sentido trabalharam até que, próxima dos 55 anos,
Fernandes abriu em Canguaretama o Centro Espírita de Umbanda

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Caboclo Zé Pelintra e Caboclo Panema , na Rua do Porto.
Atualmente, dona Maria lamenta estar sem trabalhar na espiritualidade – 
seu centro ficava perto da maré e o avanço da mesma ameaçava derrubá-lo,
o que fez com que a prefeitura de Canguretama o destruisse e desse à mestra
uma nova casa na qual infelizmente não existe espaço para os cultos e
sessões.
Meu primeiro contato com Maria Fernandes ocorreu no dia 17/01/2008 – 
 por indicação de outra mestra Canguaretamense ( Maria Ivonete da Silva
Santana, dirigente do Centro Mestre Pena Branca e Estrela do Mar,
localizado na Rua do Quadro). A partir de então passei a visita-la com
frequência, nascendo de nossos encontros uma verdadeira relação Mestra-
Discípulo.
Segundo Maria Fernandes, entre as décadas de 1960 e 1970, o Pai
Raimundo Tavares vivia em Macaíba (mas era natural de Jacaraú, outro
distrito de São Gonçalo do Amarante, comunidade cabocla mais antiga que
o próprio município). Seu pai, José Tavares, que quando vivo conviveu e
foi muito amigo de José Pelintra, a princípio não queria que o filho
trabalhasse na Jurema. Raimundo, porém, ainda adolescente, abria mesas
escondido nas matas, com a ajuda de um amigo. Descoberto pelo pai, o
menino foi doutrinado, tornando-se um mestre capaz de trabalhar com os
mais fortes e antigos Mestres espirituais: Mestre Carlos, Manicoré, Roldão
de Oliveira da Cruz, Maria do Acais, Andilina Caipora, Joana Pé de Chita,
etc. – mas também trabalhava com almas de bruxas, vampiros, fadas e
dragões. Durante anos, Raimundo Tavares foi catimbozeiro forte,
manifestando-se nas “direitas” e nas “esquerdas” (conforme o linguajar 
comum dos catimbozeiros, ele praticava tanto o bem quanto o mal mágicos)
até que, arrependido dos malefícios que dirigiu, prometeu a São Francisco
de Assis que lidaria apenas com o bem, assim seguindo até o fim de sua
vida.
O Mestre Raimundo Tavares, certa vez, “arriou na matéria” de sua mais
querida pupila – a mestra Maria Fernandes – afirmando que em breve
retornaria e começaria a trabalhar nas sessões (as mesas de Jurema). E
assim nós o aguardamos...
Adaptado de minha monografia de especialização em Ciências da Religião O MAIS
FORTE AQUI É A JUREMA: a umbanda no imaginário de juremeiros de
Canguaretama. (UERN), 2009. p. 114-115.

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Capítulo I
A HISTÓRIA DO MESTRE EMANOEL
GERMANO
 Na segunda metade do século XIX, por volta de 1860, chegava ao Brasil
um casal português, netos de cristãos novos: Antônio Maurício Pereira
Germano e Maria de Salomão.
Antônio Germano, tornado coxo após ter sofrido um acidente durante
treinamento bélico, e estando incapaz de servir às forças portuguesas, viera
ao Império brasileiro com sua companheira descansar das desventuras.
Aqui fizeram morada e aqui permaneceram até os últimos dias de suas
vidas.
Agraciado com uma pequena propriedade de terras, no interior do atual Rio
Grande do Norte, entre o litoral e o sertão, Antônio Germano e sua esposa
construíram uma casa humilde em volta da qual criavam gado. Próximos de
suas terras viviam uns caboclos – na mais abjeta penúria, vitimados pela
ganância de fazendeiros que os escorraçavam de um lado para outro. Dentre
esses caboclos, um índio velho em pouco tempo se tornaria amigo do
senhor Germano.
A interação entre os dois foi tamanha, a ponto de se tornarem praticamente
irmãos.
Contou-lhe, o velho caboclo, diversas histórias de seu povo – como haviam
muitas vezes sido enganados por fazendeiros, a ponto de não terem mais
onde sossegar a cabeça; como perderam de vez a terra em que viveram seus
ancestrais; lembranças de batalhas memoráveis, comandadas pelos grandes
morubixabas Kanindé, Karakará e Janduí, narradas pelos mais antigos;
ensinou-lhe palavras de velhos dialetos...
A fraternidade e o amor entre os dois cresceu, a tal ponto que Germano
(com seus 30 anos de idade) passou a considerar o velho índio
septuagenário como verdadeiro pai.
Certa noite, em volta de uma fogueira na qual Antônio Germano e o velho
caboclo se aqueciam, preparando-se para mais uma caçada, Germano viu o
venerável índio retirar da sacola um rolo de fumo.

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 – Vai pitar cabôco? – Perguntou Germano.
 – Não, meu filho. Isso aqui é pra Senhora da Mata – Respondeu o índio.
 – Senhora da Mata? E ela mora aqui perto?
 – Mora, sim. Ela mora aqui mesmo. É a dona disso tudo aqui onde a gente
vive.
 – Onde mora essa senhora, que em dez anos eu nunca a vi? E como pode ela
ser dona das três fazendas que aqui há sem exigir de nossa parte qualquer 
 prestação de contas?
Caboclo velho deu uma gargalhada e disse:
 – Se tu quiseres conhecer essa Iara, logo mais eu te apresento.
 – Quero, sim! Poucas são as mulheres de teu povo que vão em minha casa.
Minha senhora ficará feliz em conhecê-la, já que se sente tão só.
O dia amanheceu e Germano não percebeu que o velho caboclo deixou um
 pedaço de fumo dentro de uma cuité, no pé de uma jurema preta, antes de
irem caçar. Seguiram por uma vereda, conversando:
 – Muitas coisas o senhor me contou, Pai Índio. Eu também quero te dizer 
algo sobre meus ancestrais. Meus bisavôs foram perseguidos pela mesma
Igreja que perseguiu os teus... E assim como obrigaram teu povo a aceitar o
Messias na base do açoite, também fizeram isso com meus pais e avós.
 – Eu sei como é isso, Germano... Tu carregas na face o sofrimento de te
 povo.
 – Eu guardo uma coisa, um segredo que gostaria de compartilhar contigo.
Uma caixa antiga que pertenceu a meu bisavô e que meus pais a muito custo
conseguiram preservar durante todo esse tempo.
A caixa era, em realidade, um baú no qual estavam guardados instrumentos,
roupas e livros antigos – manuscritos de uma Ciência que havia sido
 proscrita por todas as igrejas. O bisavô de Antônio Germano foi um dos
maiores cabalistas e magos que a Inquisição portuguesa deixou de conhecer.
Caçaram, dividiram a caça e voltaram para suas moradas. A essa altura, o
caboclo velho vivia em uma oca, erguida nas terras de Germano, com dois
filhos e uma neta.
 No dia seguinte, pela manhã bem cedo, Germano convidou o velho índio ao
desjejum. Leite de cabra, pão e queijo. Após o “café”, Germano o chama ao

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quarto, para mostrar-lhe o baú.
 – Presta atenção ao que fazes Germano! – Disse-lhe Maria de Salomão – 
Sabes em quantos problemas podemos nos envolver se a Igreja descobre
esse teu baú? Lembra que teu tio quase complicou a todos nós, durante o
translado desses objetos!
 – Aqui não há igreja, Maria. O padre nunca vem nos ver. – Respondeu,
firme e seguro, Antônio Germano.
Dirigiram-se ao quarto, ele e o caboclo – Germano com toda cautela.
Mesmo sem Igreja por perto, precisaram acender duas velas para iluminar o
quarto, já que as duas janelas permaneceram fechadas.
Um grande cadeado quase todo enferrujado foi aberto. A tampa do baú,
levantada. Pai Índio, observando a tudo, analisou todos os instrumentos
silenciosa e atenciosamente antes de dizer:
 – Vejo essa espada e o punhal, Germano. E essa bengala... O tridente, as
garrafas, o chapéu e esse manto estrelado. E sinto que isso é matéria de um
grande conhecimento. Mas sobre esses livros eu nada entendo, nem sei ler,
nem nunca vi essas letras.
 – Alguns desses textos estão escritos na língua de meus bisavós. Outros
estão na língua da Igreja. Outros contém símbolos alquímicos. Tu me
falaste, dias atrás, que teu povo acreditava na existência de seres
encantados que vivem nas águas e nas florestas e que entre os teus existiram
 piagas que curavam qualquer doença... Pois bem, estes enguerimanços que
guardo tratam de espíritos das águas e do fogo, da terra e do ar; ensinam
 preparos de ervas especiais para curar malefícios, ensinam como são
evocadas as almas de quem já se foi e a transformar chumbo em ouro...
Vez em quando olhando firmemente nos olhos de Germano, o velho índio
em silêncio ouvia tudo, refletindo sobre o que o homem branco lhe contava
 – quando em vez observando os livros e suas gravuras – reconhecendo nas
 palavras daquele português aspectos de uma Ciência que também pertencia
a uns poucos índios que então viviam escondidos no meio das matas.
 No fim do discurso, o velho índio decide, com gratidão, devolver-lhe o
convite:
 – Tu me mostraste algo muito sagrado, confiando neste velho tapuio – disse
o índio a Germano – e eu também quero te mostrar um segredo importante,
visto que confiei em ti desde a hora de tua chegada.

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 – O que tens de mais importante e grandioso que isso que te explico Pai
Índio?
 – Não mais importante que isso, mas tão importante quanto, Germano irun.
 Na lua crescente da sexta feira próxima, tu irás até nossa tapera. E vou te
mostrar algo que também guardamos há muitas e muitas luas, com todas as
nossas forças.
O que o caboclo velho desejou e sentiu poder apresentar a Germano, foi a
Ciência da Jurema.
Uma semana depois, a noite aguardada chegou. Por volta das 16 horas,
 pegaram uma vereda ao leste de suas casas. O inverno estava chegando,
trazendo as primeiras chuvas, e a mata estava verde, florida e perfumada.
 No caminho, Pai Índio exigiu:
 – Germano, assim como nada direi a respeito do que tu me mostraste, exijo
que nada digas sobre o que iremos te mostrar. Guarda segredo do que
começarás a aprender, até que possas revelar a quem realmente merece!
 – Pode acreditar que guardarei total sigilo, Pai Índio. Guardo segredo de
muitas coisas, desde jovem, como o senhor bem percebeu.
Chegaram à tapera, pequena e pobre. Seis casinhas de palha organizadas em
círculo envolviam um terreiro limpo, no centro do qual alguns caboclos
 preparavam uma fogueira. Próximo da fogueira, uma cuia com água; e um
grande pote de barro, fechado.
 – Haverá folguedo hoje, Pai Índio?
 – Não, meu filho. Avisei a meus parentes de tua vinda e eles seguiram meus
conselhos. Sabemos o quanto tu nos respeita e nos tem ajudado, e o quanto
és honrado, pacífico e amigo. Sei o quanto amas e respeitas tua
companheira, Maria de Salomão. Contei-lhes sobre teu povo, que também
sofreu e foi perseguido e sobre a capacidade que tua família teve em
guardar grandes segredos. Por isso, temos confiança em ti.
 – Muito grato e feliz estou, Pai Índio...
 – Enquanto meus parentes preparam o terreiro, vamos até a oca maior que
quero te mostrar umas coisas.
Entraram na oca. O velho índio mostrou a Antônio Germano uma grande
caixa feita de bambu e cipó e mandou que ele a abrisse. Dentro havia um
grande cachimbo e um maracá emplumado; uma garrafa de bambu, uma

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cuité, duas cuias, uma flauta, um pequeno pilão, um arco de flechar e uma
flecha, além de vinte e dois apitos de diversos tamanhos.
 – Isso é pra você, Antônio Germano. Até agora, era meu. Mas agora te
 pertence.
 – Muito obrigado, não mereço tanto... Mas para quê tudo isso, Pai Índio?
 – Meu filho – disse Pai Índio, quase sussurrando – esses presentes são
 parte do segredo que vim te apresentar. Mesmo que decidas não usá-los
mais à frente, guarda-os com o mesmo amor com que guardas o que foi de
teus bisavós. São instrumentos sagrados. É com eles que realizamos nossas
cerimônias, invocamos os espíritos que nos protegem, preparamos as curas
com plantas e reverenciamos a Iara da Mata.
 – A Senhora da Mata... Então ela é um espírito!
 – Sim, irmão. É um grande espírito. Uma Alma Protetora, tão antiga que não
sabemos quantos anos possui...
Apanhando o cachimbo, Germano pergunta:
 – Eu tenho um cachimbo e te dei um recentemente, cujo cabo havia sido
feito de chifre. O que este cachimbo que me dás tem de especial, Pai Índio?
 – Esse cachimbo é feito com o tronco de uma árvore sagrada, com a qual
realizamos grandes curas. Mas não é só no cachimbo que há Ciência, me
filho... É principalmente o modo como você irá usa-lo que o fará diferente e
muito especial.
E seguiram o índio e seu amigo português, conversando por quase três horas
sobre cada uma daquelas coisas. Sentaram-se em frente à caixa e
acenderam o cachimbo sagrado. O caboclo velho contando sobre as origens
de plantas e de animais, sobre a força que nos trazem os raios do sol, os
espíritos que nos socorrem mediante o som da flauta e dos apitos... Uma
conversa que parecia interminável, mas que de modo algum os deixo
cansados.
Por volta das sete horas da noite, uma cabocla entrou na oca, aproximou-se
do velho e disse-lhe ao pé do ouvido:
 – Pa’í, estamos prontos...
O velho segura a mão direita da moça, se levanta com um pouco de esforço,
e diz a Germano:
 – Chegou a hora, Germano. A hora que eu sinto ser nossa. Tu ouviste sobre

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muitas coisas e creio que ao menos algo do que de agora em diante te será
muito útil, foi aprendido. Será útil para ti e para teu filho.
 – Tu bem sabes que não tenho filhos, Pai Índio. Um de nós, seja eu ou minha
esposa, tem dificuldade para gerar.
 – Saiba que tua mulher está prenha e que em nove luas haverá entre vocês
uma criança, que crescerá forte e será sábia e bondosa como o pai.
 – Como sabes disso, Pai Índio?
 – A Estrela Júpiter me contou, enquanto eu dormia.
 – Estrela Júpiter? E tu falas com as estrelas?
 – Eu não, meu filho. Elas são quem falam comigo, sempre que querem me
dizer algo importante. Há duzentas e cinquenta luas, esteve entre nós um
velho, mais velho que eu, branco que nem tu, que me ensinou a cantar para
as estrelas e para o menino Jesus. Sempre que canto, antes de dormir, e algo
importante está para acontecer, eu sonho com os astros Júpiter, Saturno,
Vênus, o Sol... Os astros vêm do firmamento, em forma de homem o
mulher, e me contam muitas coisas sobre o futuro.
 – Que estupenda Ciência, Pai Índio! Onde se encontra esse homem que te
ensinou essas coisas?
 – Esse homem viveu conosco por muitas luas até que, com mais de noventa
anos, foi plantado na caatinga próximo a um rochedo sagrado. Ele nunca nos
disse seu nome, aliás, disse que tinha muitos nomes. Nós o chamávamos
simplesmente “Bom Homem”. Mas agora paremos um pouco com nossa
conversa, porque chegou a hora. Não nos atrasemos. Teremos oportunidade
de aprofundar esse e outros assuntos...
Os três saíram da oca. A fogueira estando bem alimentada iluminava toda a
tapera. Dezenove índios, de ambos os sexos, aguardavam-nos em volta da
fogueira. Com os três que chegavam, formaram um todo de vinte e duas
 pessoas.
 – Nossas crianças foram dormir mais cedo – contou a Antônio Germano a
cabocla que os acompanhava – porque essa Chegada é só para os adultos.
 – Chegada? Chegada de quem? – perguntou-lhe, meio confuso, Antônio
Germano – Nosso encontro não é mais secreto?
 – Vamos cantar para os ancestrais, Germano – explicou o Pai Índio. Com
muita fé eles virão e, através deles, alcançaremos a Chegada dos Encantos.

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 – Vamos evocar os espíritos, Pai Índio? Serão eles que chegarão?
 – Sim, meu filho. Em realidade, eles já estão aqui. Vocês é que não
conseguem sentir suas presenças. Agora, silencia.
Com todos reverentes, Pai Índio, no meio da roda, iniciou uma prece firme
e silenciosa. Em seguida, abriu o pote e mergulhou nele uma grande cuité,
enchendo-a com uma bebida de cor escura. Essa bebida era a Jurema, que
Germano ainda não conhecia. O cachimbo com o qual foi presenteado,
também era feito de pau de jurema. Eis aqui aspectos de um dos grandes
segredos, talvez o maior, que na Terra pode ser dito de um homem a outro...
Mas Pai Índio não desvelou esse mistério a Germano – antes, deu-lhe a
chave com a qual o próprio aprendiz alcançaria o Reinado do
Conhecimento e da Ciência.
Após dar um grande gole, Pai Índio oferece a bebida ao português:
 – Bebe! Essa é a bebida que há milhares de luas tomamos, sempre que
queremos manter contato com nossas origens, com nossos ancestrais e com
Deus!
Sem qualquer sombra de medo e confiando nas palavras do velho índio,
Germano bebeu. Bebida muito amarga, que quase o faz vomitar...
 – Se tiver que vomitar, deixe correr, meu filho. Que teu corpo e tua alma
estejam limpos. Bebe e passa a cuia aos teus irmãos.
Enquanto a cuia seguia, de mão em mão, de boca em boca, Pai Índio
cantava – após ter acendido seu grande e emplumado cachimbo. Começo
 primeiro a cantar em línguas nativas, dialetos proibidos pelo governo
 português a mais de cem anos. O canto, entretanto, era seguido por todos;
depois, na língua dos portugueses, para que Germano entendesse
 perfeitamente do que se tratava. Se tal cerimônia estivesse sendo realizada
no litoral, todos poderiam ser presos e Pai Índio possivelmente seria morto,
acusado de praticar superstições e feitiçarias. Os adjuntos de jurema há
muito eram coisas proibidas.
Os homens agitavam os maracás, girando em volta da fogueira. Pai Índio,
quase no centro, ritmava a dança com um maracá maior que o dos demais e
de vez em quando dava voltas soltando fumaça de tabaco em direção aos
caboclos. Usava um cachimbo de canudo comprido, no qual, em distintas
ocasiões, ardiam outras plantas sagradas. Invertido, soprado pelo forno, a
fumaça saindo pelo canudo, banhando um por um daqueles que

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 participavam do Guayú.
Daqui a pouco, uma índia velha estremece... Começa a saltar de modo
singular e a cantar com voz mais grave:
- Apotar xé ka’atimbó... Ixé aimonhang xé ka’átimbó... Asóiuká aibangá...
’iur... E’iur... Iurupari Guaçu! E’iur... E’iur... Iurupari Guaçu!
Pai Índio para um instante em frente à velha e, após lançar fumaças que a
envolvem por completo, diz em voz alta:
-  E’iur! Guyrárobyguaçu!  Que quer dizer, em português: “Vem! Grande
Pássaro Azul!”.
Era o primeiro ancestral protetor daquele povo, que chegava. Manifestava-
se através do corpo da velha índia. A essa altura, Antônio Germano – que
nada daquilo achava estranho, embora custasse a compreender exatamente o
fenômeno – começava a lembrar de seus avós. Voltava a sua memória um
sonho que teve dias atrás, no qual seu avô e avó, dentro de um círculo, após
acenderem, em cima de uma mesa, sete velas e coloca-las em castiçal de
sete braços, sobre uma toalha branca, em frente a uma taça com água
cristalina, cantavam evocando a proteção do Arcanjo Miguel... Germano
sonhava acordado! Eram lembranças de sua infância que voltavam à
consciência. A bebida sagrada começava a fazer efeito.
Cantaram e dançaram por quatro horas, sem sinal de cansaço. O grande
cachimbo do velho caboclo circulava vez em quando chegando às mãos de
Germano. Cada tragada levava ao seu corpo estremecimento característico
 – vibrações que o faziam sentir-se diferente.
Às onze da noite encerraram o ritual, cantando, dando adeus aos espíritos,
agradecendo-lhes as curas e a proteção, pedindo aos ancestrais que sempre
voltassem para socorrer a aldeia. Como última prece, Pai Índio pediu a
Jesus Cristo e à Virgem Maria Santíssima que protegesse aquele português
corajoso que, embora manquejando, acompanhou-os do início ao fim, sem
reclamar um instante – o que era sinal de firmeza de caráter e vontade
 persistente. Pediu ao Grande Tupã que abençoasse a todos, índios e
 brancos, e que os homens de mau coração fossem levados pra longe
daquela região.
A fogueira dava seus últimos suspiros quando os caboclos começaram a se
recolher. Germano entra com Pai Índio na oca maior, armam duas redes e
fazem um pequeno fogo. Após sentarem-se em suas redes, Pai Índio inicia

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um diálogo, perguntando a Germano:
 – Sentiu alguma coisa durante nossa dança, meu filho?
 – Sim, Pai Índio... Houve ocasião em que senti o lado direito de meu corpo
como que em chamas e o lado esquerdo bastante frio. Senti também me
corpo estremecer diversas vezes, e um calor me invadir, seguido de uma luz
que clareou dentro de mim.
 – Foi a Chama da Vida, o Fogo de Badzé, que se fez presente.
 – Sonhei acordado, Pai Índio... Sonhei com meus avós...
 – Voltarás a sonhar com eles, Antônio. Sonharás também com os nossos
avós, índios brabos, das matas virgens e florestas sagradas, que muitas
coisas irão te ensinar. Chegará o momento em que, além de sonhar, você os
verá e sentirá em diversas ocasiões e de outras maneiras.
 – O que houve com a índia velha, Pai Índio?
 – O espírito do Grande Pássaro Azul manifestou-se através dela.
 – Ele a possuiu, como os demônios da Igreja possuem os homens perdidos?
 – Não, meu filho, de jeito nenhum. Essa índia velha é uma grande
curandeira. E o Pássaro Azul não é um demônio. Ele não a tomou, Germano
irun. Ela o chamou em pensamento e ele veio. Ele esteve tão próximo da
velha, que ele parecia ser ela e ela parecia ser ele. Mas ele não deixou de
ser ele, nem ela deixou de ser ela. Dançaram e cantaram em comunhão de
almas.
 – Entendo Pai Índio... É parecido com o que acontecia antigamente, com
minha mãe, quando invocava uns anjos da floresta, as sílfides, para saber se
meu pai estava bem durante as viagens. Ela falava meio que cantando e nos
dizia o que se passava com ele. Quando ele estava em perigo, ela reunia
flores e as queimava, soprando sobre a fumaça, pedindo aos lares que o
 protegessem.
 – Sim, meu filho. É parecido. Acho que era assim que tua mãe fazia
catimbó.
 – Eu acho que se teu ancestral é hoje um espírito que se manifesta como
 pássaro, ele deve ter sido fadado em forma de silfo...
O velho caboclo deu uma gargalhada gostosa, antes de dizer a Germano:
 – Dorme e saberás mais, Germano irun, deita e dorme.

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Os fogos da aldeia quase apagados. As brasas eram as únicas que resistiam,
alimentadas pelo vento. Germano dormia tranquilo em sua rede, quando
começou a sonhar que uma luz muito forte o envolvia e levava. De dentro
da luz uma doce voz o chamava, dizendo: “Germano, abre os olhos e vem
em minha direção”.
 – Quem és tu? – Perguntou Germano.
 – Eu sou aquela que acompanha tua família há muitos anos... E que também
te observa. Sei que desde teus bisavós, teu povo sofre a perseguição dos
injustos. Agora, tenho algo especial para ti, que servirá não só para os teus,
mas que será útil a muitas e muitas gerações. Abre teus olhos e vem!
Germano abriu os olhos, em meio ao sonho lúcido que já se aproximava do
incrível.
 – Tu és minha mãe? Sim, tu és minha mãe! Estou lembrado de ti, minha mãe!
Por Deus, quantas saudades! – Ajoelhou-se Germano em lágrimas
abundantes, em frente à mulher com a qual conversava.
 – Sou tua Mãe, meu Filho. Sou também tua avó e tua bisavó. Sou todas as
manifestações de Amor que a Natureza te acha capaz de viver. Olha em
meus olhos, e verás o que Eu Sou.
Germano enxuga as lágrimas e observa, com coragem e firmeza, nos olhos
da Divindade. De repente, ele passa a ver tudo: a história de sua vida e
toda a história de seu povo, o povo de Israel. Vê sua concepção no ventre
de sua amada mãe, sua formação, seu nascimento, seus pais, avós, bisavôs,
seus ancestrais italianos, africanos, orientais...
A luz divina o envolve completamente – sementes de luz são plantadas em
sua mente e em seu coração, sinais são deixados em sua alma, seu espírito
voa... Até que, defronte a um bosque muito florido e de indescritível beleza,
aproximando-se de um lago, Germano vê a si mesmo. Ele mesmo é Luz. Ele
todo é Luz. Uma voz, agora de homem, o chama: “Germano...”.
 – Sim, senhor. Aqui estou...
 – Eu sou teu Mestre. Eu sou o índio que te trouxe até aqui, através do Pai
Índio. Eu sou o Pajé que te protege e que cuida, junto contigo, de tua esposa
e te ajudará a cuidar de teus filhos e dos filhos desta aldeia.
 – Índio? Como podes ser índio, se és branco, tens barba e pareces tanto
com meu pai? E como podes ser tão parecido com meu pai, se meu pai
ainda vive, penando, idoso e viúvo, do outro lado do Atlântico?

16
 – Posso assumir a cor e a forma que eu queira Antônio Germano, conforme
me for permitido e necessário. Porém, mais que a cor ou a forma, importa,
em realidade, o que realmente somos – e somos infinitamente mais que
carne, sangue e ossos. O que tu viveste até a pouco, foi muito limitado em
comparação ao que doravante viverás. Reconhece, portanto, desde já, que a
Vida é eterna e que a morte nada mais é que uma passagem de tua vida para
a nossa – a morte não é mais que uma mudança de ambiente, enquanto que a
Vida é como um rio que não cessa de correr, embora alterne seu fluxo.
Importa que possamos estar na África, na Ásia, na Europa ou nas Américas,
mas que nosso pensamento esteja acima das línguas que usamos quando
estamos em Terra. Mais que ao Pai Índio, espero que me consideres como
um outro pai.
 – Homem, como posso ser teu filho se só agora te conheço?
 – Entenda que serei teu pai espiritual, Germano, nesta geração. O teu Guia
na nova vida que doravante irás seguir.
 – Nova vida?
 – Sim, Germano, nova vida. Ao voltares à Terra, aos poucos recobrarás a
memória de tudo o que estás vivenciando e aprendendo neste momento.
Sentirás grandioso desejo de estudar os livros de teus bisavós e
conversarás muito com o Pai Índio sobre a Ciência do povo vermelho. Ele
te instruirá no que guarda da Sabedoria dos velhos tapuias e eu serei o
mediador entre teu mundo e as nossas aldeias, cidades e reinos. Ele te
ensinará os mistérios da Tradição do povo deste lado do mundo, ao qual
também tu pertences.
 – Como te chamas?
 – Eu me chamo Emanoel.
 – Emanoel de quê?
 – Emanoel de Souza das Neves. Esse foi o nome que recebi em uma das
vezes que nasci no mundo, quando fui homem de carne igual a ti e instruí
alguns de teus parentes. Lembra Germano, que quando precisares, poderás
me evocar ou invocar e eu estarei pronto a te ajudar e orientar no que for 
 possível e necessário. Falarei ao teu coração quando me invocares e
trabalharei bem junto a ti, quando me evocares.
 – E como faço para te chamar, mestre Emanoel?
 – Canta. Canta, meu filho! Aprende com o Pai Índio como se canta, para

17
chamar os espíritos. E o Mestre Emanoel de Jesus virá trabalhar contigo.
Junto comigo virão outros índios, guerreiros e cavaleiros, daqui e de além
mar. Minha Ciência, desde já, começa a ser tua Ciência, minha voz será a
tua voz, minha Força será a tua Força – até que finalmente, ainda nesta
geração, não precises mais de meu apoio e amparo, porque o destino do
discípulo é tornar-se Mestre. Quando receberes a estrela em tua fronte – a
estrela de Belém que anuncia o nascimento do Salvador – e a estrela em te
 peito – tu serás chamado, entre os homens, Mestre Emanoel Germano.
 – Por que serei chamado Emanoel se meu primeiro nome é Antônio?
 – Porque carregarás a minha Ciência e a tua Ciência. O Conhecimento que
te passo e o que adquirirás com teus próprios esforços e trabalhos, serão
um só. Transcendidos e elevados, tornar-se-ão parte da Sabedoria que
transmitirás ao teu filho e aos teus futuros discípulos.
 – Meu filho... Louvado seja Deus! Louvado seja o Criador de todas as
coisas visíveis e invisíveis! Em honra e homenagem a este nosso encontro,
meu filho será batizado Emanoel Germano! E me esforçarei para que ele se
torne Mestre como és, após a minha passagem pelo mundo.
 – Assim seja! Teu filho será Mestre como serás. Agora, desperta. Desperta
de teu sono encantado e daqui há sete luas, beberás, com o Pai Índio, três
cuias da bebida sagrada. Estarei te aguardando como outros Mestres, no
Campo de Josafá. Juntos, te levaremos para conhecer as aldeias e vilas nas
quais residimos. E fica atento: desde já, muitos começarão a te procurar,
sejam brancos, negros ou índios, necessitando de ajuda...

“Linha” ou “ponto” de Mané Germano

eu Mestre Mané Germano


 Faça favor venha cá...
Ô Mestre Mané Germano
 Faça favor venha cá – 
 na Ciência da Jurema,
a Força do Manacá.
 na Ciência da Jurema,
a Força do Manacá.

18
os Campos de Jerusalém
 stá solto todo meu gado,
os Campos de Jerusalém
 stá solto todo meu gado – 
 stou na Mesa da Jurema,
 stou avistando é o Reinado!
 stou na Mesa da Jurema,
 stou avistando é o Reinado!

eu Mestre Mané Germano


Venha num raio de Sol 
eu Mestre Mané Germano
Venha num raio de Sol – 
Venha curando com a fumaça
Sagrada do Catimbó.
Venha curando com a fumaça
Sagrada do Catimbó.

eu Mestre Mané Germano


Venha na Luz do luar 
Ô Mestre Mané Germano
Venha na Luz do luar – 
Com Jesus Cristo abençoando
Germano vem trabalhar.
Com Jesus Cristo abençoando
Germano vem trabalhar.

u venho de boa terra


 venho de boa semente,
u venho de boa terra
 venho de boa semente...
Vim da semente profunda
 Pro Mestre vir trabalhar – 
Sou da Mesa da Jurema
 Do tronco do Juremá
Sou Mestre Manoel Germano
Com a Força do Vajucá.

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Glossário
Badzé:  É a planta Tabaco e o Espírito da própria planta, presente de Deus
aos seres humanos, conforme a mitologia Kiriri.
Enguerimanço:  Variação de “engrimanço”. Segundo o Rosa+Cruz Stanislas
de Guaitá (1867-1897), em sua Obra O Templo de Satã  (publicado no
Brasil pela Editora Três, em 1973), engrimanços  eram “escritos sobre
mágica supersticiosa, as coleções de receitas abomináveis, entrecortadas
de fórmulas de blasfêmias. Antigamente eram muito procurados para serem
destruídos e muitas vezes os infelizes possuidores desses manuais eram
 punidos com a morte”. Tomando como base um engrimanço que alcanço
nossos dias, O Livro da Bruxa ou A Feiticeira de Évora (Editora Eco),
 percebemos que esses livros eram coletâneas que misturavam ciências
diversas – concepções medievais de Física e Química, medicina rústica e
 práticas de feitiçaria. Analisando o primeiro texto desse livro compreende-
se que em Portugal, entre a passagem do período medieval para a Idade
Moderna, a expressão “fazer enguerimanços” equivalia a “fazer magia” o
“praticar feitiçaria”.
Guayú: Segundo o Rosacruz Domingos Magarinos (Epiága R+): “Guayú é
o nome de uma cerimônia do ritual dos aborígines do Brasil, a qual
constava de danças e cantos, ritmicamente executados. Guayú  quer dizer,
também, vinda, chegada ou recepção. Recepção de quem? Dos
‘estrangeiros’, explicam os jesuítas que se referem ao caso. Será verossímil
a resposta? Será racional a explicação? Não me parece. Não é razoável
acreditar que os nativos, que timbraram sempre em ocultar as suas
cerimônias religiosas aos estrangeiros, recebessem-nos, precisamente, com
exercícios secretos, práticas esotéricas de pura magia. Há coisas que, como
diz o povo, entram pelos olhos. Os recebidos, por ocasião dessas
solenidades, não eram, certamente, os portugueses, os espanhóis ou os

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franceses – os emboabas  –; eram as entidades de outros planos, assim
evocados.  Além disso, Guay, radical de Guayú, quer dizer ente animado,
alma ou espírito”. Para maiores informações sobre o esoterismo dos índios
 brasileiros, estudar Muito Antes de 1500: ensaio de ethnogenia pré-
histórica do Brasil – publicado pela Madras em 2005.
Iara: Senhor, senhora, dono (Tupi Antigo).
Irun: Amigo (Tupi Antigo).
Lares:  “Reminiscência da crença romana nos espíritos protetores dos
antepassados” (ver Francisco Bethencourt – O Imaginário da Magia:
feiticeiras, adivinhos e curandeiros em Portugal do século XVI.  Editora
Companhia das Letras, 2004).
Morubixaba: Chefe, principal (Tupi Antigo).
Oca: Casa (Tupi Antigo).
Pa’í: Papai, senhor, pajé.
Piaga: No Tupi Antigo a expressão “epiak” quer dizer, no português, “ver”
e “avistar”. O termo “piaga” era utilizado no sentido de “vidente” e
“clarividente”.
Tapera: Aldeia Velha (literalmente, “o que foi aldeia”, no Tupi Antigo).

Capítulo II
O DIABO E OS FEITICEIROS
OS MESTRES DE BOM CORAÇÃO
Houve uma época em que as defumações medicinais nada mais eram que
 parte do grande patrimônio espiritual de povos indígenas. Nas três
Américas, membros de diversas tribos manuseavam com amor e sabedoria
centenas de plantas que nos são oferecidas pela Mãe Natureza,
empregando-as em banhos, chás, perfumes, infusões e defumações especiais
através das quais combatiam e curavam males do corpo e da alma.
A presença europeia no Continente Americano trouxe-nos novas tramas e
acontecimentos que enredaram o desenvolvimento de conflitos maiores do
que aqueles que aqui já existiam, entre tribos rivais – conflitos que
voltaram, mais do que o tradicional, nações indígenas umas contra as

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outras, assim como dezenas de tribos contra o europeu invasor. Assim, de
um lado e de outro, paralelo às guerras intertribais e anticolonialistas, pajés
e feiticeiros indígenas passaram a dirigir suas setas mágicas tanto contra
antigos irmãos nativos que se aliaram aos invasores, quanto diretamente
contra portugueses, holandeses e espanhóis.
O europeu trouxe escravizado o africano – que também fez uso de
“mandingas” no combate aos senhores de engenho e a outros tiranos.
Compreendemos que em época de guerra, em qualquer parte do mundo, a
desordem e as mazelas se multiplicam. Assim, na transitória confusão
surgida em decorrência do crescente número de europeus em solo
 brasileiro, dos conflitos pela posse da terra e de suas desastrosas
consequências, foram ampliadas as fumaças venenosas, as cabeças de
serpente e os sapos enfeitiçados. A Ciência Ancestral – a Cabala Indígena,
nossa Tuyabaé Kuaá – permaneceu incólume; o psiquismo, a vontade e a
inteligência humanas, entretanto, influenciados e degenerados pelas guerras,
seguiram mal dirigidos uma vez que direcionados às práticas de vingança.
Poucos foram os pajés que não decaíram contaminados com as baixas
vibrações que tomaram conta do ambiente colonial. O ego do mundo estava
inflando. O Eu superior, esquecido. Adormecia o “estado de Ser um com a
 Natureza e o Universo”.
Com a mente e o coração direcionados às vinganças e vitórias
exclusivamente materiais e pessoais, índios, negros e europeus foram
estabelecendo contatos cada vez maiores com o mundo astral inferior – 
enquanto os Irmãos e Irmãs espirituais de maior Luz, os verdadeiros Guias
e Mentores dos planos Astral e Mental mais elevados, aparentemente
entraram em silêncio, passando, em realidade, a observar e agir muito
sutilmente entre os homens e mulheres, conforme o sofrível nível de
consciência de seus irmãos e irmãs encarnados e desencarnados,
impulsionando-os, vagarosa e firmemente, ao retorno da obediência à Lei.
Surgiram, então, de um contexto complexo, transitório, cruel e violento,
manifestações espirituais intimamente conectadas a invocações de
entidades astrais perversas cujo auxílio era procurado a princípio para
resolução de problemas pessoais (como combater inimigos, vingar-se de
agressores e exterminar rivais). Em pouco tempo, tais seres passaram a
serem invocados para trabalhos abertamente escusos, como adquirir bens
em prejuízo de terceiros, destruir casamentos, roubar amores, etc.
Entretanto, em meio às fumaças para o mal ocorridas em muitas sessões de
Catimbó, não deixaram de arriar, com os trajes, trejeitos ou disfarces

22
necessários, Mestres catimbozeiros de Boa Vontade, Mestres e Maestrinas
de bom Coração – espíritos de Luz ou em fase de iluminação, que buscavam
e ainda buscam, em nível crescente, contribuir com o resgate e evolução
espiritual seus e dos demais povos deste Planeta.
LIVROS DE ALTA MAGIA E COMPÊNDIOS DE FEITIÇARIA
Tripulantes portugueses e franceses trouxeram para este lado do Atlântico,
obras primas da Alta Magia europeia. Livros como Filosofia Oculta, de
Cornélio Agrippa, e As Chaves de Salomão, aqui chegaram com seus
 praticantes, filósofos e curiosos – indivíduos muitas vezes investigados e
 perseguidos pelo Clero cristão. Esses “bruxos” investigados pelo Santo
Ofício, em um ou outro momento se envolveram com nativos e africanos
que não possuíam liberdade para cultuar suas divindades e realizar seus
trabalhos.
 No segredo, nos guetos, nas matas, o mais longe possível dos olhos da
Inquisição, pajés, magos, cabalistas e feiticeiros, trocaram magias e
compartilharam conhecimentos.
Da Europa também vieram compêndios de feitiçaria, coletâneas de feitiços
e bruxedos cruéis, que envolviam tortura de animais inocentes, misturas de
excrementos humanos e invocações de demônios. O clássico O Livro de
São Cipriano talvez seja o mais comum desses “manuais”, atualmente com
várias versões (Capa Preta, Capa de Aço, Capa de Ouro, Livro Encarnado,
etc.) – a maioria das quais adulteradas, resumidas ou acrescidas de textos
que Cipriano sequer pensou em escrever.
Crenças e práticas foram relidas a ponto de quedarem perdidas, esquecidas,
em dormência ou definitivamente destruídas; outras foram aproveitadas,
mas reinterpretadas e adaptadas a novos contextos; havendo ainda as que
não sofreram grandes mudanças ou qualquer alteração. Aos poucos,
seguiram transmitidas, ensinadas, observadas, absorvidas, especialmente
em comunidades nas quais não havia médico ou igreja – os pajés, as
mestras e os mestres, os pretos velhos, possuíam e ainda possuem, nesses
lugares, as funções de médicos, magos ou feiticeiros, e às vezes de
sacerdotes.
Provavelmente o conhecimento presente em tais livros em muito influencio
a formação das atuais práticas mágicas e curativas presentes em nosso
Catimbó Jurema. No caso, no Catimbó dos Mestres – pois, como bem me
explicou um umbandista, “todo índio é mestre, mas nem todo mestre é
índio”. O que ele quer dizer com isso é que todo espírito de índio que atua
na Jurema possui elevação espiritual e conhecimentos análogos aos dos
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magos, feiticeiros e curandeiros europeus (os Mestres) que aqui chegaram e
foram aceitos na Jurema; mas nem todos esses magos têm origem indígena.
O MAIORAL E OS MESTRES DAS SOMBRAS
 No universo espiritual ancestral e arquetípico dos indígenas do Rio Grande
do Norte (os nativos Tarairiú, Chuminy e Potiguara), assim como em seus
mitos, não existe figura semelhante ao Diabo judaico-cristão (um rei dos
infernos, criador do mal, inimigo número um de Deus) nem de seus
demônios. Cristãos e feiticeiros às Américas trouxeram toda a hoste dos
infernos, fosse por medo ou por devoção.
 Na Europa, ao longo da Idade Média, o Diabo foi tornado peça chave da
trama cristã-católica: Satanás, sentado em um trono de chamas, cozinhando
almas penadas em um caldeirão gigante, planejava incessantemente
destronar ou prejudicar o Criador de todas as coisas, afetando quase de
modo onipotente, com o auxílio de dezenas de entes goéticos, os pobres e
frágeis seres humanos. As igrejas seriam o único refugio para os que não
quisessem perecer vítimas do soberano tentador, que de vassalo passou a
ser apregoado como grande opositor de Deus.
O imaginário dos homens nascidos em meio à fusão de crenças, mitos e
experiências diversas, mentalidade progressivamente complexa e plural,
aliou a crença nos espíritos protetores da floresta aos entes angélicos
guardadores das pessoas; pareou por um bom tempo, Jesus Cristo e
Iurupari, ambos nascidos de mães virgens, assassinados em cruzes,
ressuscitados ao terceiro dia. O terror causado pelos demônios caminho
ao lado do medo de encontrar, nas florestas, Anhagá e Kurupira, ou ser 
acometido de algum mal provocado por um caruana decepcionado com o
comportamento humano.
Mas não existe, no Universo Nativo, nas cosmologias indígenas ancestrais
conhecidas, sequer espaço para um Pai da Maldade – o Diabo, concorrente
de Deus – como cristãos católicos e protestantes o desenhavam e ainda
desenham. Para nossos ancestrais Tupinambás, por exemplo, só havia uma
Fonte Inteligente: o Grande Espírito chamado MUNHÃ – do qual TUPÃ é
uma das Manifestações. Munhã, que recebe outros nomes em etnias
distintas, é o Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, sem
concorrente, sem inimigo.
Por outro lado, muitos pajés do litoral brasileiro aceitaram a existência de
Jesus Cristo a princípio comparando-o ou considerando-o o mesmo
Iurupari. Segundo a opinião de diversos pesquisadores, inclusive conforme
as esclarecedoras pesquisas do Mestre Epiága R+, Iurupari foi uma das

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manifestações da Consciência Solar entre os homens e mulheres do Brasil
“pré-histórico”. Ele teria fundado um rito solar, masculino, uma espécie de
Maçonaria indígena vedada às mulheres.
Iurupari, Jurupari ou Jeropari (palavra que em Tupi Antigo significa “boca
fechada”, expressão que inevitavelmente nos dá a ideia de “silêncio” e
“segredo”) teria sido um herói mítico, um Mensageiro Divino que, após ser 
sacrificado em uma cruz de pedra e ressuscitar, subiu ao Sol prometendo
retornar no fim dos tempos – conforme a antiga e quase esquecida
Mitologia Tupi.
A história de Jesus, continuamente divulgada e geralmente imposta em
território indígena, nem sempre foi aceita de mal grado ou combatida por 
nossos karaíbas – houve proximidade ou ainda fusões, mesmo que
 passageiras, das duas histórias do Cristo.
Quanto ao Diabo, grão mestre infernal, torturador de almas – esse provém
de estratagemas humanos que gereram medo e ignorância subserviente entre
as pessoas. Sua presença entre nossos caboclos possui origens
absolutamente artificiais.
Analisamos esotericamente as origens de tal entidade.
Gerada há muitos séculos (por processo semelhante às técnicas empregadas
 por magos malignos de civilizações decadentes, na geração de entidades
artificiais), essa entidade não é mais que uma forma-pensamento medonha,
gigantesca, pintada e bordada na Luz Astral, sem espírito próprio o
consciência individual, alimentada ao longo dos séculos pelo medo pregado
 por determinadas instituições e pela maldade de diversas organizações
humanas, pequenas e grandes, conectadas a grupos do astral inferior.
 Nas mãos das igrejas, Satã foi remodelado: deixou de ser o anjo opositor,
convocado por Jeová para os congressos celestes, entidade submissa à
Divina Vontade Suprema; para ser arqui-inimigo de Deus, malfeitor mor da
Humanidade que escraviza. Satã ganhou coroa, cetro e reino – o Inferno – 
com toda uma corte de anjos caídos para governar.
Magicamente falando, o “chefe dos infernos” é essencialmente um conjunto
de vestes constantemente utilizadas, renovadas e animadas por seres
humanos e espíritos desencarnados. Cabe ao mestre catimbozeiro diluir aos
 poucos e firmemente essa mentira histórica incutida na mente de milhares
de pessoas ao longo das gerações, assim desfechando golpes certeiros
contra diversas organizações sombrias que atuam aproveitando-se da
ignorância humana.

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Reverenciar Satanás é perder tempo e energias; adorá-lo é entregar-se às
larvas e inteligências espirituais perversas que manipulam formas de
 pensamento equivocadas que tua fé invertida e decadente emite a todo
instante – algumas vezes a custa de sangue teu ou de outros seres vivos.
Existem, entretanto, entidades espirituais muito perversas, sobre as quais
diremos algumas poucas palavras – excetuando, logicamente, os caruanas e
outros espíritos da Natureza que não são maus, nem bons: são guardiões que
obedecem a Lei, pura, simples e inocentemente. Esses espíritos elementais
 protegem e preservam animais e vegetais, em sintonia com homens,
mulheres e seres que possuem ideias e práticas afins. Mas como a maioria
dos seres humanos se relaciona com a Natureza? Nós geralmente a
esquecemos, quando não a destruímos. Não é de se estranhar que esses
espíritos sintam desgosto e se voltem contra um grande número de pessoas.
Ainda assim, muitos caruanas e seres elementais, dentro de seus tipos e
graus de consciência mais ou menos próximos nossos, dispendem cuidados
 para com a Humanidade, nos auxiliando e ensinando segredos e mistérios;
ajudam-nos, mais por misericórdia  (como bem me ensinou um médico
holístico), por “não terem perdido as esperanças de que melhoremos”
(como me contou o Mestre Emanoel Cadete) – esperança de que
futuramente retornemos ao nosso estado original de Santidade e Amor.
Visitemos rapidamente o mundo astral mais denso. Em síntese, vejamos o
que são as “covas do astral inferior”. Para que nossa exposição não se
 prolongue, direi que existem sete covas, sete graus de vibração negativa,
nos quais estão inseridas as entidades maléficas que de um modo ou de
outro perturbam os seres humanos, incitando-nos a práticas destrutivas,
 poluentes, violentas, etc. Quanto mais “profundo” encontrar-se a cova,
 piores serão os seres que nela se escondem ou estão aprisionados.
Algumas dessas entidades esforçam-se para serem redimidas, para serem
 perdoadas pela Divindade Única, Eterna e Todo-Poderosa. Em seus
imensos esforços, vão aos poucos se desligando da podridão na qual se
encontram, podendo, conforme seus atos, reencarnarem neste mundo e/o
ingressarem em hospitais, abrigos e escolas do Astral Superior – sendo a
Jurema Sagrada uma dessas Ordens Excelsas nas quais certas entidades são
encadeadas ou buscam encadear-se para subir.
 Na sétima cova do astral inferior reside uma entidade que há tempos não
 pode ser classificada como espírito – um ser que, entre os catimbozeiros é
conhecido como Maioral. Esse é confundido com outra entidade de outra
cova, um tanto menos densa, conhecida pelo senso comum por Lucifér – 

26
que não é o Lúcifer, o inconsciente portador da Luz da mitologia judaico-
cristã, mas um ser fugidio, um lucifuge que foge de toda e qualquer forma
de luminosidade.
O Maioral não atua em terreiros. É como um dragão perverso, um mago
trevoso há milhares de anos acorrentado e aprisionado em sua cova, cujas
vibrações são demasiado densas e grosseiras para alcançarem nossa
situação. Porém, há quem entidades que o obedecem e “sobem” de outras
covas para realizarem trabalhos malévolos entre médiuns escravizados e
 praticantes de baixa magia. São esses seres que se manifestam, entre
catimbozeiros, como se fossem o Diabo ou algum demônio. Podem usar,
maliciosamente, criminosamente, em suas atuações, formas de pensamento e
cadáveres astrais de ente-queridos de consulentes desesperados, assim
como mentem usurpando o nome de Mestres juremeiros ou santos católicos.
Estejamos atentos: uma árvore boa, bem plantada, regada e adubada, jamais
 poderá dar maus frutos. Para atrair e trabalhar com tais entidades, é
necessário vibrar em frequência semelhante ou próxima às deles, sendo
quase tão mau ou doente quanto eles são.
Uma verdadeira guerra foi travada há séculos, entre Irmãos da Luz e
membros de escolas de baixa magia. Um combate físico e astral, no qual
hostes angélicas e entes iluminados baniram determinados espíritos para
esferas distantes e aprisionaram outras entidades em zonas umbralinas de
nosso Sistema Solar.
Um desses grandes combates repercute em nossos dias na Terra, já que a
vitória conquistada nos planos astrais passa a ser sentida, pouco a pouco,
cada vez mais firmemente, em nosso Planeta.
O Reino de Tanema esteve à frente desse conflito. Do citado Reino, o
Caboclo Tanema e outros Mestres e Mestras quimbandeiros esfacelaram
uma coligação satânica que, em últimas tentativas de revide, fundou um
“reino” em zona transitória de baixíssima vibração. Visando confundir os
filhos de fé dos terreiros e centros de Umbanda, Candomblé, Catimbó-
Jurema, Pajelança, etc. fundaram uma espécie de cidade cujo nome
simplesmente também é Tanema. Quem governa essa cidade é um ser que se
autoproclamou Princesa Iracema – mas que não tem nenhum real vínculo
com qualquer etnia indígena do atual ciclo em que vivemos, muito menos
com a verdadeira Rainha Iracema do Astral Superior. Essa “princesa”,
em realidade, é um feiticeiro atlante que hora assume sua verdadeira
 personalidade, hora se disfarça de cabocla.
As entidades que atuam sob as ordens desse ser já não possuem a mesma

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força que outrora. Mesmo assim, consegui obter notícias longínquas de uma
delas, na época em que realizava pesquisas de campo para trabalho
acadêmico, no litoral do Rio Grande do Norte. A entidade se chama
Aruanta e a linha que dela coletei é a seguinte:
 Aruanta, ô Aruanta,
 Da cidade de Tanema.
Trabalho com [...]
 E com a princesa Iracema.
 Aruanta, ô Aruanta
Vem do inferno mandado
 A cama que ele se deita
 É do compadre mais a comadre.

(Por motivos óbvios não ensinarei o modo correto de cantar essas linhas,
nem as citarei por completo. Os cânticos de invocação desses mestres aqui
aparecem mais com fins ilustrativos que iniciáticos).
Coletei, ainda, as linhas de dois mestres que trabalham sob as ordens do
citado Maioral:

 Eu venho do escurinho


 Eu venho do escurá
 Porque meu nome é José Pescoço,
[...] sou filho do Maiorá.

E o Boi Tungão – considerado por alguns catimbozeiros o próprio Satanás:

Tava deitado na minha rede


Chegou uma negra com um cururu pra eu assar 
 Eu disse negra afaste pra lá que isso é arte do cão
 Boi Tungão do Maiorá [...].
 Ei, Boi Tungão!
O Boi Tungão do Maiorá!
Quando eu chamava ele vinha
Vinha bem devagarzinho que o galo já cantou – [...].

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O DIABO SEGUNDO A CIÊNCIA DOS MAGOS
Mas o que nos dizem, sobre o Diabo, os Magos e Cabalistas do século
XIX?
Para concluir este capítulo, escreverei algo direcionado aos Iniciados em
Alta Magia, que estejam interessados em Catimbó-Jurema. O número
desses irmãos e irmãs vem aumentando nos últimos anos. Proponho,
também, aos mestres juremeiros que desconhecem a Sagrada Cabala, que
estudem as obras de Eliphas Levi, Papus e Stanislas de Guaita, além dos
textos de Jorge Adoum. Muita coisa virá à lume, tanto teórica quanto
 praticamente, em suas vivências.
Algo já foi dito sobre feiticeiros e feitiçarias pelo mestre Stanislas de
Guaita, em seu esclarecedor trabalho O Templo de Satã. Citaremos alguns
trechos (colocados em itálico) de sua Obra, publicada no Brasil em 1973
 pela Editora Três:
Quem é a serpente?
o sentido vulgar, aparente, não temos dificuldade em adivinhar: é o
espírito do mal disfarçado em réptil; é o eterno adversário [...] Shatan.
o primeiro sentido esotérico [a serpente]  é a luz astral, esse fluido
implacável que governa os instintos; é o dispensador universal da vida
elementar, agente fatal do nascimento e da morte; cortina do invisível,
atrás da qual escondem-se as diversas hierarquias de poderes às quais
ele serve ao mesmo tempo de véu e de veículo. Este ser hiperfísico – 
inconsciente, logo irresponsável – domina o feiticeiro como o dono da
casa, e obedece ao mago como um criado. [...] devemos dominá-lo a
qualquer preço, para não nos tornarmos joguete das grandes correntes
que se movem nele, segundo leis invariáveis (página 14).
O feiticeiro, ao contrário do Mago, além de estar sujeito ao ímpeto de seus
 próprios instintos, é servidor de hierarquias e inteligências que se
manifestam através desse grande veículo de forças, imagens, pensamentos e
memórias que os magos chamam “Luz Astral”.
o sentido esotérico superior, a serpente simboliza o egoísmo primordial,
essa atração misteriosa do si para si mesmo, que é o princípio
ropriamente dito da divisibilidade: essa força que, ao solicitar a todos
os seres que se afastem da unidade original, para se tornarem centros e
 se comprazerem no ego, provocou a queda de Adão (página 14).
E ainda:

29
[...] a feitiçaria [...] podemos definir como a colocação em ação das
orças ocultas da natureza, para o mal. (página 91).
[...] a feitiçaria (essa mágica às avessas, que os ignorantes e os invejosos
muitas vezes confundiram, sem querer ou propositalmente, com a santa
cabala ) mistura a todo instante, em seu cíato impuro, a ignominia ao
anatismo, o crime à loucura! (página 58).
Fica evidente, quando enveredamos pelo estudo de velhos livros e
investigamos determinadas práticas mágicas de alguns malfeitores que se
consideram “mestres de catimbó”, o quanto existiu e ainda há de fanatismo,
ilusão, loucura e crimes de diversas ordens travestidos de “religiões afro-
 brasileiras”. Incapazes de nomear suas práticas grotescas, os “mestres” e
“babalorixás” chamam-nas, como o senso comum costuma classifica-las, de
“Umbanda”, “Macumba”, “Catimbó”, “Candomblé”, “Quimbanda”. Usam
nomes de todos os cultos de matriz afro-ameríndia sempre que acham pouco
as expressões “maldade”, “ignorância” e “perversidade”.
Entre beber sangue de boi, bode, porco, gato ou galinha; espetar pombos
vivos; costurar a boca de sapos; dependurar coelhos pelas orelhas; furar os
 próprios dedos para dar gotas de sangue ao diabo ou a obsessores
travestidos de exus; e sacrificar um ser humano, ficam faltando alguns
 poucos passos. Aos poucos o indivíduo se torna insensível e vai
enlouquecendo e, ao atingir o clímax, quando finalmente pensa ter chegado
longe em matéria de poder, acabou em realidade alcançando o fundo do
 poço. Cavou sua própria cova, mágica e humanamente falando, e nela foi
enterrado acima da cabeça.
  primeira vista, [o feiticeiro]  parece revestir-se das mesmas
rerrogativas que o mágico da luz. Chegamos até a confundi-los. É um
erro de óptica [...].
[...]
enhum criado é menos livre que o mágico negro: títere infortunado do
invisível, marionete inconsciente do mal, abdicou de toda personalidade
verdadeira; afoga seu livre arbítrio no triste oceano, do qual vai se
tornar uma vaga. Mas, em compensação, ele será essa vaga, e o grande
oder oculto agirá dentro dele, daí em diante; depois, por seu intermédio,
agirá fora dele (página 105).
O “grande poder oculto” obedecido meio consciente ou inconscientemente,
seja em “sessões de mesa branca” em que “se inicia pela direita e se fecha
 pela esquerda” (ou seja, nas quais os médiuns começam suas atividades

30
com trabalhos de cura e terminam em tentativas de matar ou prejudicar 
 pessoas), ou em “mesas rasteiras” em que os “mestres” que se manifestam
discutem entre si e ameaçam uns aos outros, praguejam, etc. (seja ainda em
trabalhos de “quimbanda” ou em casas sofisticadas, iluminadas à guisa de
discotecas, cheias de satanistas pequeno-burgueses) – esse “grande poder”
recebe nomes diversos: Lúcifer, Ferrabrás, Satanás ou Diabo, quando não
está esmiuçado e fragmentado em não sei quantos mestres de “esquerda”,
cada um pior que o outro.
O medo e o desejo mantém baixas, submissas e obedientes, as cabeças dos
“filhos de fé”, uma vez que ameaças e promessas preenchem esses lugares.
A sagrada Cabala nos ensina sem titubeios: o Diabo é Deus ao inverso.
Ora, se Deus é onipotente, o diabo não é todo poderoso; se Deus é
onisciente, o diabo não pode saber tudo; se Deus está em todos os lugares,
o diabo não pode estar à solta, rugindo como leão, em todos os caminhos;
se Deus é o único Criador, o diabo nada cria; se Deus é o único Juiz, o
diabo a ninguém julga ou subjuga ou condena; se Deus EXISTE o diabo
INEXISTE. E Deus é Deus, Ele é o que é – muito acima de nossas maiores
e aparentemente mais profundas compreensões de Bem e Mal. Deus é a
VERDADEIRA JUSTIÇA E O VERDADEIRO AMOR: A Força Maior, a
Inteligência mais Elevada, o mais infinitamente profundo e coerentemente
Justo e Misericordioso, o Eterno, que jamais foi ou será algo porque ELE
SIMPLESMENTE É. Tudo de mais elevado e profundo que elaborarmos
 para tentar compreender Deus, será incapaz de contempla-lo.
Você só tem uma desculpa, príncipe das trevas, é que você não existe!...
 Pelo menos não é um ser consciente: negação abstrata do ser absoluto,
 só tem a realidade psíquica e voluntária dada pelos perversos que você
encarna. E nas próprias encarnações podemos reconhecê-lo onde estiver 
elos caracteres essenciais que são o não-ser, a miséria, a impotência, a
tolice, a inveja... Em seus domínios, Satã, nós entramos de cabeça
erguida. (página 58).
Que assim caminhe o aspirante a Mestre e a aspirante à Maestrina: de
cabeça erguida, neste e em outros mundos nos quais conquistarem licença
 para caminhar. Mas antes de erguerem suas cabeças, libertem-se do orgulho
vão que encaminha à prepotência e à arrogância. Tornem-se capazes e
estejam prontos para servirem ao próximo com humildade e a
continuamente adorarem o Criador, reconhecendo-o como ÚNICO SER 
MERECEDOR DE ADORAÇÃO.
Lembre-se, amigo leitor, amiga leitora: “vencer seus medos é vencer a si

31
mesmo. Encontrarás a estrada para a Porta quando fizeres de tua sombra,
um servo fiel”.

Capítulo III
32
NO TEMPO EM QUE CATIMBÓ ERA
FEITIÇO
Luís da Câmara Cascudo, Mário de Andrade e Roger Bastide, são três
grandes referenciais geralmente analisados e citados por todos os
 pesquisadores qu quee atualm
atualmenente
te têm estu
estudado os cu
cultos
ltos à Ju
J urema
rema e as demais
demais
tradições genericamen
genericamente te classificadas
classi ficadas “afro-brasileir
“afro-brasi leiras”.
as”.
Minha intenção, neste capítulo, é transcrever fragmentos oriundos de
trabalhos de outros estudiosos que trataram do Catimbó – investigadores
atualmente quase esquecidos ou pouco citados. Dois deles parecem ter tido
alguma ligação maior ou menor com a Jurema, mas isso não é motivo para
exclui-los por completo do rol dos que trataram seriamente do assunto – 
são importantes justamente por terem vivenciado o Catimbó de suas épocas
e por elaborarem seus comentários “estando de dentro” e não como simples
observadores que friamente lidaram com “objetos de pesquisa”.
Irei transcrever de suas obras os fragmentos que achei mais importantes,
apresentando ao leitor trechos dessas que são algumas das primeiras
 pesquisas realizadas
reali zadas sobre o assunto.
assunto. Assim,
Assim, acredito estar con contribu
tribuindo
indo
com o desenvolvimento de uma visão geral sobre os modos como nossos
antecessores organizavam, exerciam, vivenciavam e imaginavam o
Catimbó-Jurema.
Algumas vezes, quando eu sentir ser preciso, desenvolverei comentários
escrevendo-os e m ne ne grito
grito  – comentários que devem ser considerados mais
“doutrinários” que acadêmicos. Já que estamos começando a vivenciar uma
nova fase dos cultos e ritos juremeiros, muita coisa precisa ser esclarecida
e este é um livro que busca mais contribuir com a aspiração à mestria que
com o academ
acade micism
ici smo.
o.
A FORMAÇÃO DO CATIMBÓ, SEGUNDO GONÇALVES FERNANDES
Sigamos com o primeiro pesquisador, que em 1938 escreveu um livro
 bastante
 bastante interessante,
interessante, intitu lado O FOLCLORE MÁGICO DO
intitulado
NORDESTE: usos, costumes, crenças e ofícios mágicos das populações
nordestinas – o médico, psicólogo e folclorista pernambucano Gonçalves
Fernandes (1909-1986). Adaptarei a grafia utilizada na época à dos nossos
dias. Os títulos de cada trecho são de minha autoria.
O documento mais remoto que trata sobre feiticeiros na Paraíba, é uma

33
ordem régia do ano de 1740, endereçada ao governador da capitania,
onde el-rei ordena informar o caso de uns feiticeiros e índios presos e
mortos na vila de Mamanguape, por aquela era, por práticas condenadas
elos poderes espirituais da época. Não há outra nota mais clara ou que
elucide melhor, senão as que se referem aos maus tratos sofridos pelo
negro nesta região, pela inclemência do clima e do dominador. As secas e
os recursos minguados da antiga “capitania de conquista”, que lutou
contra um conjunto de problemas de solução quase inabordável mesmo
ara os séculos seguintes, afligiram duramente o negro.
Castigado durante largo tempo de incompreensão e privações contínuas,
ouco refeito pelos de sua raça, o negro perdeu a continuidade religiosa
na Paraíba. De toda a sua riqueza simbólica ficou a prática do  do   ebó,
hipertrofiado como reação única para efeitos mágicos imediatos,
tomando tão necessário era sentido, todo o campo que restava de uma
organização mística. Não houve fuga para o culto dos orixás. Que essas
ontes de poder dessem mais tarde à vontade do homem a realização do
 seu desejo: assim cresceu o ebó, 
ebó,  como poder do bem e do mal, e sobre
cujos efeitos não sobrava dúvida, e começou entre as classes dominantes
a repressão ou a busca velada à magia fetichista.
 um ecletismo negro-ameríndio que começou a formar as fontes da larga
eitiçaria na Paraíba, juntou-se pouco a pouco a influência de práticas e
 superstições
 superst ições comuns a povos latinos
lati nos de origem longínqua,
l ongínqua, de meio com a
católica, dando-nos
dando-nos ofícios conjuratórios especiais até nossos dias.
Catimbó (catimbó tanto é o próprio feitiço – o ebó, como
ebó, como o ato mágico, o
ofício, a casa do catimbozeiro), olhos, bichos assombrados, criaram
raízes profundas. A medicina mágica desenvolveu-se com certa cor local 
ao lado do feitiço, dentro do catimbó. Desse conjunto todo resta-nos
através crenças, ofícios mágicos e folclore, um sincretismo a que não são
estranhas influências de sistemas cultuais de religiões extintas trazidas
com o europeu, em comunhão com o misticismo fetichista do negro e do
ameríndio (páginas 07 a 10).
  essa associação inegável trazida pelo europeu aos elementos do
etichismo gêge-nagô (o ebó é um feitiço de procedência gêge-nagô)
 saliente-se
 salient e-se a influência
infl uência ameríndia com seus três deuses superiores, o Sol 
  criador da vida animal; a Lua – criadora dos vegetais; e Perudá ou
udá – deus do amor, que preside a reprodução da espécie, nesse
 sincretismo residual que se verifica
verif ica nos atos mágicos e crenças e
costumes dos mestiços do Estado da Paraíba, a que não falta uma nuança

34
espírita. O Sol e a Lua são motivos de veneração e inquietação, por parte
dos mesmos. Entre as aparelhagens dos nossos feiticeiros figura o maracá
ameríndio e a jurema dos pajés tabajaras, com que embriagam as gentes
ara melhor encenar as práticas. Outras ervas estupefacientes como a
aconha, de origem africana, muito raramente são usadas na Paraíba, e
quando isso acontece é por parte de gente de Pernambuco ou de Alagoas
(consegui localizar na estrada de Santa Rita a casa de uma velha
conhecida pelo nome de Paraense, que cultivava muito a oculta o
cânhamo indiano, para um círculo muito limitado de conhecedores. Um
deles foi internado em condições singulares no Hospital Colônia Moreira
e verifiquei tratar-se de maconhismo. Passado o efeito da erva, levou a
mim e ao colega de serviço, dr. Onildo Leal à casa da negra Paraense.
as ela fechou-se em copas, pensando que se tratava da polícia, negou
de pés juntos e, sem a sua ajuda, não identificamos o local de sua
lantação oculta nos matos).
  respeito do homem do sertão escreve Celso Mariz: “O sertanejo com
 sua religião disforme,
disfor me, cheia de grosseiros fetichismos,
feti chismos, diz-se
diz-s e católico.
católi co.
ncapaz de apreender as abstrações mais sutis e mais puras da grande
criação de Jesus Cristo, nesse particular o que lhe vibra na alma é um
caos em cuja escuridão ele caminha entontecido”. “Acredita na bondade
de Deus, mas pede-lhe que facilite uma vingança, um mal premeditado;
confia no voto feito à Maria Santíssima para a cura de sua erisipela, mas
rocura, evitando dúvidas, a ciência do feiticeiro mais próximo; ama o
trabalho e a humildade que o Senhor nos ensina, mas bate o menor pelo
esquecimento de uma vênia e em noites de S. João vende ao diabo a pobre
alma repleta de pecados” (páginas 12 a 15).
O CATIMBÓ NA PARAÍBA E EM PERNAMBUCO
os arrabaldes da Paraíba, Jaguaribe, Torre, Ilha do Bispo, e fora de
ortas, como na estrada de Santa Rita e no Acais, abrigadas em
mocambos de lata e capim, outros melhores de taipa e telha de barro,
ainda algumas em boas casas de alvenaria, as mesas de
mesas de catimbó servem à
clientela crédula. Maria do Acais, recentemente falecida no chalé à beira
da estrada de João Pessoa-Recife, confronte a sua capela cheia de santos
bonitos, no seu sítio imenso, gozou de um prestígio considerável que
impunha sua reputação de grande catimbozeira. De Pernambuco ao
 stado da Paraíba, chegava ali gente de toda a espécie para pagar com
bom dinheiro o “serviço” desejado. Este variava dos casos encrencados
de amor e negócio, à cura de todas as doenças físicas e mentais...

35
quela outra, Joana Pé de Chita, fez viver belos dias seu mocambo bem
revestido da estrada de Santa Rita, e em toda a redondeza não há quem se
esqueça da feiticeira morta. Ao lado esquerdo de quem entra na vila,
mora uma filha da finada. É uma mulata alta, de cara bexigosa, surda e
de fala difícil. Conserva com religiosidade o altar de sua mãe, uma
cômoda forrada com panos bordados, com um vasto santuário com
imagens de santos católicos dos mais diversos tamanhos, vendo-se entre
eles ainda uma espécie de águia, enquanto sobre os panos quanta coisa
ossa existir, frascos com rosas, jarros, retratos (entre os quais o da
catimbozeira no seu leito de morte), postais, estatuetas, cartas, castiçais
e estampas emolduradas. Parecia a mesa do Xangô de Caboclo de
Caetana, no Recife. A filha de Joana Pé de Chita não exerce o Catimbó,
conservando os trastes da velha por amor à sua memória.
Conversando, em sessão de Umbanda, no Terreiro de Umbanda Ogum
Odé, em Natal/RN, com a Mestra Joana Pé de Chita, ela me disse que
era de Mossoró, Rio Grande do Norte; entretanto, era “rodada” – 
passou por
por dive
diversos
rsos lugare
lugare s, quand
quandoo est
e stee ve e m matéria.
matéria.
aria do Acais era uma feiticeira notável, enriquecida, de modos de
 grande senhora. A sua técnica mágica, todavia, não era diferente dessa
de todo o dia das outras mesas.
mesas. Mas as suas sessões eram muito fechadas,
e o que fazia para todo o mundo eram trabalhos encomendados e que
realizava sem assistência, no recesso do seu pequeno templo, defronte do
chalé.
Vendo o Catimbó, duma maneira geral, o aparato consiste na mesa
estreita, forrada ou não, onde se misturam garrafas de jurema,
cachimbos, novelos de linha, agulhas, botões, imagens de santos,
rincipalmente um crucifixo, amarrados de cordões e fitas, pequenos
alguidares, maracás, bonecas de pano, cururus secos, fumo de rolo, etc.
uitos usam o alguidar sobre brasas ao pé da mesa, fervendo raízes ou
ervas. A sessão tem início com a abertura da mesa feita em invocações
cantadas, as velas acesas. Distribuem entre os presentes a jurema. O
ritual que se segue varia com o fim mágico desejado. Começam a
invocação aos Mestres (há vários mestres:mestres: Mestre Espiridião, Mestre
Carlos, muitos outros) com as toadas cantadas em coro. Dessas apanhei a
 seguinte:
 Doutra banda do rio Jordão
 Doutra banda do rio Jordão
 Doutra banda do rio Jordão

36
Tem um pé de angico seco!

 Angico
 Angico seco será?
ser á?
 Angico
 Angico seco será?
ser á?
 Angico
 Angico se-co será!

(solo da catimbozeira)
cati mbozeira) Chega meus compadres!
(para a auxiliar) Mexe-lhe nos coentros!
 Mexe-lhes
 Mexe-l hes nos coentros!

a panela, na água fervente, por cima da trempe, mexe com uma colher 
de pau a erva coentro, a catimbozeira auxiliar. Nessa invocação,
resumida a chegada dos compadres ,
compadres , que são entidades espirituais
espiri tuais que
residem o sortilégio, faz-se o pedido desejado, cumprindo-lhes então dar 
contas da tarefa. Antes do peditório, porém, foi a pessoa defumada e
reparada com rezas e defumatórios. A catimbozeira defuma soprando
com a boca no recipiente do fumo do cachimbo, para que a fumaça saia
ela boquilha.
[...]
bordar mesa de
mesa de Catimbó, mesmo das mais conhecidas, sem a fiança da
essoa de dentro, é tempo perdido. A ação repressiva da polícia faz com
que retraiam as reuniões. Assim mesmo, de tempo em tempo, o noticiário
de jornal registra
regi stra catimbó
 catimbó surpreendido. O jornal “A Imprensa”, de João
 Pessoa, de 29 de setembro
de setembro de 1937, noticiava:
“... Acompanhado dos soldados Francisco Catarino, João Felício e
 Francisco Caldino, o comandante do destacamento surpreendeu João
nocêncio da Costa e Joana Amorim cercados de mais de quarenta
essoas fazendo “macumba”. Lá estavam em volta de uma pequena mesa
onde velas ardiam e se encontravam uma garrafa de aguardente, três
cachimbos, um sapo seco com a boca costurada, um novelo de linha
enfiado num couro de cobra, uma mochila cheia de terra de cemitério e
um grande galho de jurema. A presença da polícia ocasionou grande
ânico, tendo sido possível prender somente dez pessoas. A polícia
rossegue nas diligências para apanhar outros núcleos de feitiço”.
m Mumbuca, perto de Mulungu, concentra-se grande número de
catimbozeios. A senhorita Maria Amélia Pequeno, minha colaboradora,
teve oportunidade de observar para mim em Mumbuca, uma mesa de
catimbó em ação. Na casa do catimbozeiro, construída em massapé, na

37
 sala dos fundos, espécie de sala-de-comer, estava no chão, ao centro, uma
toalha de algodão quadriculada. Tinha no meio um crucifixo pequeno e
ao redor pratos fundos cheios de fumo picado, alternados com castiçais
 grosseiros com velas acesas. Todos ao redor da “mesa” [...] inicia o
catimbozeiro a sessão. Para isso apanha, muito solene, abaixando-se, o
crucifixo. Ergue-o no ar, elevando-o por cima da cabeça, baixando as
mãos depois até a altura da testa.  Benze-se assim de crucifixo na mão,
mas só da testa para o nariz, num “em nome do Padre” incompleto e
abreviado. Isto feito vai começar o ritual de abertura de mesa [...].
berta a mesa , acende os cachimbos e entra a defumar todos os presentes,
ara afastar os maus , os encostos, e qualquer mal encausado. Defuma
 soprando fumaça dos pés à cabeça das pessoas, invertendo a posição de
uso do cachimbo. Defuma e depois cicia após cada baforada, palavras
incompreensíveis e tão apressadamente que não se as pode gravar.
Terminado o ofício defumatório, ato mágico com finalidade protetora
individual, torna a cantar, agora o “fecha mesa”, muito parecido com o
cântico de abertura. Esta sessão é de tipo puramente defensivo e tem
muita voga, fazendo-se com grande número de presentes.
[...]
o catimbó cultuam o poder de gênios – os Mestres , mestre Espirauá,
mestre Carlos (“rei dos mestres, aprendeu sem se ensinar, reina no fogo,
na terra, no céu e no mar...”), mestre Espiridião, etc., como o de
demônios: Belzebu, Urubatan, etc. Os “mestres” seriam os espíritos de
 grandes catimbozeiros mortos, que presidem os ofícios conjuratórios,
reinando  sobre os elementos naturais e de poder de obediência entre os
demônios, aos quais deveriam manejar para fins hostis individuais. Assim
como usam os santos em ação mágica protetora ou curativa, os
catimbozeiros empregam gênios inquietantes nos processos de finalidade
agressiva, usando ambos, santos e demônios em magicas outras que
tenham objeto de lucro, ou poder, ou solução de situações sentimentais
(páginas 85 a 92).
No Evangelho cristão, os demônios obedecem a todas as ordens de
Jesus – o Cristo. De modo análogo, os magos modernos (como fica claro
no clássico  Magus, de Francis Barret) possuíam técnicas através das
quais ordenavam aos demônios. Podemos, então, estabelecer diferenças
entre: MAGO – o indivíduo capaz de manipular os quatro elementos
(inclusive em seus aspectos espirituais) através da conjugação
conhecimento-vontade-amor, para fins benéficos. A elevação moral, o

38
desenvolvimento espiritual (a Fé) e a Vontade do Mago dão à sua
palavra, aos seus atos e pensamentos, a Força necessária para expulsar
entidades perversas e debelar o mal. MAGO MALIGNO – indivíduo
que geralmente possui uma vontade bastante desenvolvida e uma
ciência mágica relativamente profunda, mas que, por falta de valores
morais e de AMOR, é incapaz de adentrar os Mistérios Maiores;
manipula aspectos inferiores dos quatro elementos e ordena
determinada linha de espíritos (genericamente chamados “demônios”),
seja para fins pessoais ou em prejuízo de terceiros. Por seu
devotamento e ligação a entidades do astral inferior, o mago maligno se
aproxima de certos tipos de FEITICEIROS – veículos de entidades
malignas, com as quais aprendem “magias” à medida que as servem.
UM TRABALHO “ÀS ESQUERDAS”
“Trabalho às esquerdas” ou “fumaça às esquerdas” é como a maioria
dos juremeiros classifica as atividades mágicas vingativas ou a prática
deliberada do mal. Outros termos que encontrei foram “contra axé” e
“fumaça da contra”. Essa última forma de “fumaça” ocorre quando um
mestre sente estar sendo ameaçado ou atacado por algo ou alguém e
manda-lhe uma descarga, seja para cortar as forças de quem o tenta
atingir, seja para devolver-lhe o mal, seja para anular o malefício. Para
ampliar um pouco mais as noções sobre “direita” e “esquerda” dentro
da Ciência da Jurema, proponho o estudo do opúsculo organizado por
mim FUMAÇA DE MATO: 15 recados de um aspirante a catimbozeiro.
Vejamos como ocorria uma dessas mesas “às esquerdas”, na primeira
metade do século XX:
ntre as consultas de ambulatório do Hospital-Colônia Juliano Moreira,
apareceu-me no dia 2 de dezembro de 1937, o popular Amaro F. dos S.,
morador à rua do Cardoso n° 55. Ele se queixava de um catimbó que lhe
useram na mulher. Antes já tinham deixado junto à porta de sua casa
uma trouxa de “terra de defunto”, que dá atraso. Mas este malefício foi
afastado em tempo por um “médium” seu conhecido. Agora, porém, a
coisa era mais grave: “eram fumaçadas de bodejado que tinham botado
na esposa”. Ela de boa que era, vivia triste, transtornada. Queixava-se
da catimbozeira Etelvina Minervina, moradora da rua Carneiro da
Cunha, casa 614, e que, afirmava, já tinha causado muita doença-botada
e muita morte...
Contou que a catimbozeira fazia a “mesa” depois da meia noite e que

39
antes já tinha visto sessão: Minervina sentava-se num tamborete com um
Santo-Heleno da Cruz da Altura (chamam ao crucifixo Santo-Heleno,
corruptela de Santo Lenho), nome de crucifixo na linguagem dos
catimbozeiros, por debaixo. Acendia quatro velas nos quatro cantos da
 sala e abria a “mesa” com a cantoria:
 Abre-te portas
 Abre-te janelas
 Abre-te portas
 Das cidades belas
 Abre-te portas
 Do Juremá
 Abre-te portas
Que dão para o má.

Torcia uma chave misteriosa no espaço por três vezes, e invocava o Diabo
anquinho, Maria Padilha, rainha do inferno, e Lucifer, seu imperador,
azendo fumaçadas do cachimbo para o lado do coração e marcando a
“bodejada” (chamam assim a invocação do  bode , que seria o próprio
demônio travestido do bicho) com um pequeno maracá. Essas invocações
aziam a chegada dos encantos que ela manejava de acordo com os
convênios estabelecidos por consultas ou os pedidos feitos mesmo na
ocasião.
Aqui notamos uma reminiscência da crença moderna européia,
largamente difundida pela Igreja, que tanto marcou os casos de
“bruxaria” investigados pela Inquisição nos séculos XVI e XVII: o diabo,
nos encontros sabáticos supostamente realizados pelas bruxas, assumia
a forma de bode.
  mulher foi trazida ao hospital e internada para tratamento. Era uma
melancólica (páginas 110 a 112).
Perceba, caro leitor, que os símbolos considerados sagrados por índios e
mestres, nesse tipo de sessão são utilizados às avessas. O maracá, que
ao ser tocado por um pajé envia para longe os maus espíritos ou invoca
as boas entidades, é utilizado para ritmar a invocação de demônios – o
trabalho de esquerda aqui é chamado “bodejada” em referência à
entidade infernal que há séculos vinha sendo pintada e imaginada com
forma de bode. A toada de abertura, também, na qual a mestra pede
para que sejam abertas as portas do Juremá (que é um Santo Reino do
Astral Superior), na verdade funciona como uma abertura dos portais

40
do astral mais denso. Como isso acontece?
O segredo está no íntimo da feiticeira, em seu coração, em suas
intenções e em sua capacidade de concentração. Pouco importa o que
ela pronuncie ou balbucie ou cante. Cheia de más intenções, quanto
mais contraditório e aparentemente sem sentido for o rito, mais ela
encontrará condições de trabalhar e entrar em sintonia com entidades
ou forças sutis desreguladas. Semelhante atrai semelhante. Acrescente-
se em um trabalho desses um grupo mal intencionado de pessoas que
acreditem na existência do diabo, e todo o inferno em pouco tempo se
fará presente... Análogo ao que ocorre em determinadas igrejas
“evangélicas”.
A FEITICEIRA BILLUCA
Em 1929, foi publicado na Parahyba do Norte o primeiro livro sobre o
cangaço – intitulado Cangaceiros do Nordeste  – de autoria de Pedro
Baptista. O livro, republicado em 2011 por Sebo Vermelho Edições, traça
em conto dramático a história do cangaço, desde a primeira metade do
século XVIII ao início do século XX.
 No conto, além de citações a respeito de cangaceiros famosos (Cabeleira,
Jesuíno Brilhante, dentre outros), uma personagem interessante aparece ao
lado dos perversos assassinos da Família Terrível : uma velha catimbozeira
de nome Billuca.
 Não sabemos se essa critatura existiu, como de fato existiram os citados
 precursores de Lampião presentes no livro. Entretanto, o modo como Pedro
Baptista descreve a catimbozeira e suas artimanhas, nos serve de exemplo
de como intelectuais nordestinos da primeira metade do século XX
imaginavam os praticantes de Catimbó.
Vejamos, então, a “velha Billuca, tipo horripilante de megera
catimbozeira, que morava num casebre coberto de folhas de cravatá-assu,
no ângulo extremo da rua” (página 31).
“ Diligências sucessivas pelas cercanias davam capa aos perseguidos dos
Terríveis. Numa dessas sortidas foi surpreendido o indiciado Ludgero que
agou com a vida o serviço que fizera, por ajuste, com a velha Billuca. E,
ara que ele não viesse contar na Vila as peripécias desse ajuste e outras
equenas particularidades que ao mesmo se prendiam, recebeu, ao
morrer, profundo golpe que lhe dilacerou o tora. Uma orelha foi cortada e
levada para que a velha a conservasse no sal... (página 241).

41
“ A velha Billuca, no dia seguinte, saiu para o Teixeira, destinada a pagar 
uma promessa que fizera a Santa Maria Magdalena, pela graça
alcançada com a morte de Liberato, tantas e tantas vezes pedida!
 Promessa asceticamente bárbara, cujo cumprimento refletia e expunha
aos olhos de todos, a crueldade do seu coração e o fanatsmo execrável do
 seu espírito.
 De joelhos, teria ela que rodear a igreja, recitando o rozário, em alta voz!
 assim cumpria.
O sol duma tarde abafadiça e quente reverberava nas pedras da rua, na
cal das paredes e no tauá dos barrancos, atanazando a vista.
  megera, começando aquela devoção esquisita atraía os olhares de
alguns raros transeuntes e dos moradores, em torno do templo. Atentos
lhe iam seguindo num como êxtase de terror e a sua voz, voz rouquenha
de penitente, fazia eco no silêncio da tarde.
- Enlouqueceu! Queriam uns.
- Está arrependida! Pensavam outros.
 ela continuava rezando, rezando!
ra mesmo, talvez, quem poderia saber? Uma consequencia lógica do
acervo de maldades acumuladas, anciosas pelo fechamento do ciclo de
uma vida longa onde qualquer manifestação esporádica de um sentimento
bom, via-se em breve sufocada em holocausto; maldades também
anciando repouso...
Ou seria aquilo, prova rudemente ascética, uma exteriorização
inconsciente da luta em que atavismos seculares no seu espírito
estribuchassem e bramissem extertorados e vencidos pela humildade
cristã que tem no perdão a mais elevadas [sic.] das suas expressões?
o finito jamais chegará a plena compreensão do infinito!
Um nevoeiro de inverno abrupto, passava no ar seco de verão escaldante,
ameaçando desfazer-se em chuva.
as, as atenções voltadas para a velha, quase não o notavam.
la começara da porta principal, dobrara o oitão sul e estava a vence-lo,
quando igneo zig-zag corta o espaço no mesmo instante em que o
ribombo de um trovão de Dezembro, estalado no alto assinalava a queda
duma faísca que, resvaladia, esbarrondando a cornija, fendeu a parede e
estrepitosamente foi abrir a terra, o próprio local em que a velha se

42
achava, fulminando-a.
- Castigo! Castigo!
ra a voz geral (páginas244-246).
O estereótipo do catimbozeiro como um mau elemento, aliás, como uma
criatura terrível, plena de maldade – perturbada a ponto de sacrificar-
se em promessas cujos pedidos nada mais são que a morte ou o prejuízo
de terceiros – está bem representado na velha “megera” Billuca. A
verdade é que muitos mestres de Catimbó de antanho alimentaram essa
imagem tosca com suas práticas vingativas e maléficas.
O CATIMBÓ-BRUXEDO DE SEVERINO CAVALCANTE
Sigamos com o trabalho de mais um pesquisador: Severino Cavalcante.
 Não encontrei qualquer dado biográfico sobre Severino. Seu livro de 95
 páginas, publicado pela Eco, é muito difícil de ser encontrado. Possuo uma
terceira edição provavelmente lançada na década de 1970. Feitiços do
Catimbó é o título de sua simples, mas muito interessante pesquisa – 
embora em alguns momentos seu texto me soe um tanto fantástico o
ridículo. Cavalcante realizou investigações em terreiros da Paraíba, de
Pernambuco e do Pará. Acredito que esse homem foi (ou é) se não
catimbozeiro, um grande simpatizante.
Segundo Severino Cavalcante, o Catimbó nasceu com a vinda da Bruxaria e
da magia negra europeia ao Brasil. Os catimbozeiros são sertanejos do
nordeste brasileiro – “magos caboclos, feiticeiros mulatos”; e o Catimbó,
um culto irracional, atrasadíssimo, no qual se praticam a magia e a
feitiçaria pagã e milenar e se manifestam espíritos atrasados, mas que
 possuí folclórica e mágica beleza. Além disso, no Catimbó não há, segundo
Cavalcante, nem doutrina, nem filosofia cristã.
Vejamos trechos de seu opúsculo:
O catimbó é a mais antiga prática de feitiçaria secreta no Brasil.
 Pouco conhecido pelo grande público, que tem acesso à Umbanda e ao
Candomblé, o catimbó mantem-se fechado, indiferente ao sincretismo
religioso, aos novos mitos e tabus.
Essa situação do Catimbó, de manter-se indiferente ao sincretismo
religioso, atualmente se faz incoerente: há candomblecistas que
praticam catimbó quando se faz necessário – os Mestres da Jurema em
alguns ilês são considerados espíritos da linha de Exu; a Jurema e a
Fumaça são elementos essenciais da Umbanda nordestina; além disso,

43
poucos são os juremeiros que, ao menos no Rio Grande do Norte, não
trabalham traçando ou em paralelo com Candomblé ou Umbanda.
a tradição popular, catimbó significa cachimbo, objeto indispensável ao
uncionamento da “mesa”, isto é, da sessão coletiva.
Os catimbozeiros são marginalizados, verdadeiros bruxos antigos,
vivendo, em nossa era, nos sertões nordestinos.
as noites de lua, ocultos em suas palhoças sertanejas, os catimbozeiros
 sopram suas “fumaças”, isto é, dão seguimento às práticas mágicas e
rimitivas exatamente iguais às que faziam no século XVI, pela
transplantação da Magia Negra europeia às terras brasileiras.
Fica claro que o termo “Magia Negra” é utilizado neste e nos outros
textos pesquisados, como sinônimo de magia maligna. O correto seria
utiliza-lo quando nos referíssemos à Magia dos povos africanos,
liberando a expressão de qualquer aspecto racista. Entre europeus,
africanos e índios brasileiros, existiram os tipos universais dos magos e
feiticeiros – respectivos praticantes de Alta Magia e baixa magia ou
feitiçaria.
O catimbó não aceita mudanças, não dispensa os amuletos, os filtros para
 seduzir homens e mulheres e as práticas macabras.
Em dez anos de pesquisas de campo, não encontrei o uso dos filtros para
sedução. Quanto às práticas macabras, pude observá-las ao menos em
duas casas.
ezadeiras, mestres de orações fortes, curandeiros, raizeiros, são os
ersonagens dos exorcismos do catimbó [...]. (páginas 07 e 08).
Os mestres podem reunir esses e outros papéis. São depositários e
herdeiros da ciência de índios, europeus e africanos: curam com raízes
e rezas, realizavam partos, etc.
[...] O catimbó praticado no nordeste é bem diferente do candomblé, do
angô e da Umbanda.
ão possui, como nos cultos acima referidos, uma hierarquia sacerdotal,
ou uma iniciação. Não há também vestimentas especiais, nem
instrumentos sagrados, a não ser o maracá , usado pelos mestres,
exatamente como o faziam os pajés das tribos brasileiras. O maracá é um
objeto sacro, indispensável ao rito da “fumaça”, ou melhor, à sessão
coletiva.

44
É claro que há iniciações na Jurema – o que não existe é um rito ou
caminho exclusivo, modelo, padrão, com prazo determinado para
começar e acabar, obrigatório a todas as casas e pessoas.
Outro objeto importantíssimo é o cachimbo ou marca , usado pelos
estres do Além para defumar e trabalhar na magia. O catimbozeiro
 sopra pelo fornilho, dirigindo o fumo pelo tubo. Este trabalho é chamado
[...] de fumaça. Qualquer fumaça para o bem ou fumaça às direitas deve
 ser feito as segundas, quartas e sextas. E, para o mal, ou fumaça às
esquerdas , as terças, quintas e sábados. Aos domingos não é dia de
catimbó, pois, afirmam os catimbozeiros, é o dia de descanso dos Mestres
dos Reinos Encantados.
Não existe dia no qual não se possa fazer o bem, inclusive, aos
domingos. Quanto ao mal, não deve ser praticado jamais. Ouvi uma
única vez de certa mestra canguaretamense a afirmação de que aos
domingos os Mestres descansam. Outra mestra, do Centro Mestre Pena
Branca e Estrela do Mar, afirmou apenas que não abria mesa aos
domingos porque ela mesma descansava.
O mestre é o chefe do catimbó [...]. O catimbó nasceu no século XVI,
quando veio da Europa a prática de Magia Negra, trazida pelos colonos
ortugueses acostumados a um catolicismo mesclado de crendices, de
restos de religiões pagãs. O Santo Ofício, na Bahia, no ano de 1591, já
denunciava esta prática chamando os que dela participavam de “filhos
do Diabo”, bruxos, feiticeiros. Em Pernambuco, mais ou menos por volta
de 1600, também os sacerdotes inquisidores descobriram os
catimbozeiros em suas práticas macabras, em suas mesas , com chaves
encantadas e cachimbos fumacentos.
O termo “catimbó” é de origem indígena. O uso ritual de fumaças e
defumações, porém, não é exclusivo do ameríndio: negros e europeus
também queimavam ervas, fazendo uso de fumaças especiais para fins
determinados. Nas igrejas ocidentais e templos orientais, por exemplo,
o uso de incenso durante os cultos não deixa de ser uma prática análoga
ou semelhante ao catimbó dos juremeiros – desde que as resinas sejam
naturais. Proponho o estudo da pesquisa do Mestre Rosacruz Arnold
Krumm-Heller, Do Incenso à Osmoterapia, para um maior vislumbre do
uso de aromas e defumações entre vários povos do mundo.
Entretanto, os nativos do Nordeste brasileiro parecem ter desenvolvido
a técnica de modo bem mais apurado que membros de outras

45
sociedades, tornando-a uso contínuo, milenar. Desde as eras em que os
Tapuia no Nordeste eram senhores, antes dos Potiguara para cá
migrarem, o Catimbó e a Jurema estão presentes, como colunas de
práticas muito antigas.
De onde vem essa Ciência?
Os primeiros povos do Nordeste e Norte do Brasil estabeleceram
contatos e conexões em grau aprofundado com entidades espirituais dos
Sete Reinos da Mãe Natureza, compartilhando a Sabedoria de Seres
elevadíssimos do conjunto de Planos vibracionais que comumente
chamamos “Encanto”, em uma época na qual a Humanidade não era tão
cheia de malícia, egolatria e maldade. Esses Seres são guardiões de uma
Ciência que antecede a presença Humana na face da Terra. Embora em
estado latente todo o saber universal tenha sido depositado em cada
indivíduo – Imagem e Semelhança de Deus – à medida que um homem
ou mulher se torna capaz de manter contatos (dentro da devida pureza
e reverência) conscientes com os Encantados e Mestres, acendem
dentro de si centelhas de Luz que contribuem com a Gnose.
Orações fortes,  preparação de amuletos , invocações e exorcismos são
constantes no bruxedo do sertão. [...].
 s invocações chamam os Mestres do Além para “baixarem” e trazerem
cura e boa sorte para os homens. Ao baixar das entidades invocadas são
entoadas suas “linhas”, ou melodias particulares e características de
cada Mestre, e que revelam sua vida terrena.
Os mestres são famosos e conhecidos. Quando a medicina falha, ou o
oder aquisitivo dos sertanejos não permite que consultem médicos, lá
estão os catimbozeiros, receitando ervas, preceitos, benzendo feridas,
rezando e praticando a medicina popular e mágica , que sempre existiu e
 sempre existirá. (páginas 11-13).
AS MORADAS DOS MESTRES
Os mestres do espaço habitam reinados no infinito. Doze aldeias fazem
um reinado e cada aldeia tem três mestres. Neles, nos reinados infindos,
há cidades douradas, florestas verdes e iluminadas, serras cor de prata,
onde cantam as jandaias, rios e casas. Os reinados são: Vajucá, Tigre,
Canindé, Urubá, Juremal [...], Fundo do Mar [...] e  Josafá (influência
bíblica). Alguns chamam o reinado do Fundo do Mar por TANEMA, onde
racema é a rainha e senhora. Os mais maravilhosos são o do Juremal e
Vajucá. A população destes reinados é imprevisível. Caiporas e Sacis

46
moram no Jurema [sic.]; Iaras, ondinas, Nanã Gie, ninfas caboclas,
 santas, como Madalena, moram no Fundo do Mar. Feiticeiros e bruxos
habitam Canindé. Tigre é a morada de raizeiros e perigosos mestres.
Os mestres vivos têm poderes intermináveis, maviosos, mas há uma
maneira de perdê-los ou de diminuir esses poderes. É a seguinte: se os
mestres praticam sempre o mal, ou são pederastas, ou ladrões, vão se
tornando sem as forças espirituais. Os outros catimbozeiros perdem as
orças pela mesma razão, afirma o povo sertanejo. [...]. (páginas 17-18).
[...] Há reinos pouco conhecidos.
eino das Florestas Virgens, Reino da Cidade Santa, Reino do Sol (onde
trabalha o espírito de Ciro, que não baixa na Terra, ficando sempre num
raio de sol), Reino de Urubá, de Tigre, da COVA DE SALOMÃO, e
Ondina.
estes reinos, nas cidades encantadas de lá, moram todos os espíritos das
caatingas, mestres feiticeiros, bruxos de alpercatas e chapéus de couro.
(página 55).
[...] O termo “abrir mesa” é bem conhecido pelos candomblecistas e é
oriundo das reuniões antigas, entre os colonos portugueses, em suas
terras de origem. Nas aldeias de Portugal, onde os costumes mouros e as
reminiscências pagãs formavam o catolicismo popular, era comum “abrir 
mesa” para invocar falanges do mundo dos mortos. Na ocasião, botavam-
 se cartas, lia-se pelas linhas da mão, rezava-se para conseguir fortuna.
Como o catimbó nasceu da transposição da bruxaria europeia para o
 Brasil, logicamente o termo “abrir mesa” foi instintivamente conservado.
(página 19).
As atuais manifestações de Catimbó (utilizo “c” maiúsculo quando me
refiro ao nome do culto; e “c”minúsculo quando trato de defumações e
fumaçadas) que conhecemos não nasceram da transposição da bruxaria
europeia para o Brasil – foram “criando corpo”, sofrendo mudanças,
com a chegada de cristãos (católicos e protestantes), que para cá
vieram trazendo africanos de nações distintas; e com a presença de
magos, bruxas e feiticeiros portugueses de alma pagã, ligados a
Tradições europeias ancestrais. Ciganos e judeus cabalistas, com suas
respectivas crenças e práticas mágico-religiosas também contribuíram
com o desenvolvimento do catimbó dos Mestres.
Desse “amálgama” grandioso e maravilhoso “foram formados”, no

47
Norte e Nordeste do Brasil, os Mestres e Mestras da Jurema que ainda
atuam no presente ciclo de cultos juremeiros.
Alguns grandes pajés – os primeiros porta-vozes de nossa Tradição, que
não se manifestam através de médiuns, mas vibram, em planos mais
elevados, pelo Bem da Humanidade, identificaram na ciência e na
conduta de certos estrangeiros aspectos e elementos sublimes que
transcendiam as formas e que estavam de acordo com os saberes deste
lado do Oceano.
O respeito mútuo e as necessidades forjaram laços fraternos que
aproximaram os povos, e as alianças astrais começaram a serem
consolidadas em plano físico. A partir de então, da grande árvore cujas
raízes são indígenas, nasceram ramas multicoloridas, multiculturais.
Assim, nos dias de hoje, trabalham um sem fim de pajés, mestres,
candomblecistas, ciganos, umbandistas e ainda kardecistas – na sintonia,
na amplitude, na Força e na Ciência da Jurema.
O nome cauim é de origem indígena. Era a bebida dos pajés. Cada gole
de cauim, ou melhor, de cachaça brava com ervas e frutos cheirosos é um
asso que o feiticeiro dá para o além. A cada gole a embriaguez toma
conta do catimbozeiro e ele entra num estado perfeito a macabras
incorporações, a prodigiosas loucuras.
[...]
 embriaguez toma conta dos chefes ou mestres e dos auxiliares, espécies
de médiuns secundários. Os mestres vão baixando e os espíritos da
caatinga, os rezadores que já aprenderam lá nos reinados a curar feridas
e preparar remédios vão encostando e tomando a magia impossível de
resistir. Vi quando os mestres  enfiavam agulhas em sapos, amarravam
morcegos. Maria do Balaio, bebendo sem parar garrafadas e cauim,
rezava espinhela e moleza, até a meia-noite. Zé Pelintra, Zé Malandro,
Cabocla Jurema e Maria Redonda bebiam também. Charutos e cachimbos
na boca, elas trabalhavam na magia pesada e puxavam rezas antigas,
 geralmente incompreensíveis. (páginas 21-22).
O cauim vira a mesa. Em breve ninguém se entende mais. Até brigas
corporais entre mestres eu assisti. Os espíritos que chegaram foram
inimigos em vida e lutaram corporalmente, até sangrarem os corpos de
 seus médiuns. Frutos da bebedeira e da alucinação? Ou fases
degradantes do mediunismo sem doutrina?
 Zinho, com seu punhal chamado Satanás , já cortou muita gente em vida e

48
continua cortando, materializado nas fumaças às esquerdas...
uitas ervas e raízes usadas pelos mestres e adeptos dos catimbós são
rodutoras de alucinações. E, ao usá-las, o iniciado perde a sensação de
tempo, e entra em viagens. As cores, para eles, tornam-se brilhantes, os
ruídos são modificados, a música provoca visões coloridas, pequenos e
distantes sons tornam-se perfeitamente audíveis, as partes do próprio
corpo não parecem pertencer ao experimentador, mas a outrem.
Esse relato, sobre os efeitos das “drogas” usadas no Catimbó da época
de Severino Cavalcante, possivelmente expressa o que ele mesmo
sentiu ao experimentar o que ele chama “ervas de Satã”.
Particularmente, nunca ingeri qualquer planta ou preparo alucinógeno
no Catimbó. Jamais vi alguém fazer isso em qualquer terreiro.
Desconheço quaisquer preparo antigo que em tese possa causar um
estado de transe alucinante – se é que esses preparos existiram – que
estejam presentes nas mesas dos dias atuais.
No que se refere a bebida Jurema, feita com cascas do tronco ou das
raízes do vegetal homônimo, infelizmente não é mais produzida da
forma como a preparavam os antigos pajés Chuminy – possibilitando o
transe enteógeno semelhante ao proporcionado pela Ayahuasca.
Nenhum terreiro a usa dessa forma – e se o faz é de modo muito
fechado e discreto. Os índios guardaram tão bem esse segredo que ele
adormeceu profundamente.
Alguns poucos pesquisadores e juremeiros contemporâneos, xamãs
urbanos e psiconautas, têm se esforçado para resgatar esse elemento
tradicional antigo, agregando à bebida Jurema plantas oriundas de
outros continentes. Particularmente acredito ser impossível conhece-la
como a conheceram nossos ancestrais – sem a fórmula, o preparo, o
ejum e o rito adequado. Esse é um assunto extenso que infelizmente
não cabe neste livro.
Um detalhe na coloração da pele, ou uma simples dobra na roupa, pode
rovocar a concentração exagerada e longa, e, neste instante, os
assistentes imaginam que os mestres vagueiam pelos campos do Juremal 
ou pelas cidades submersas da Tanema.
Cogumelos também fazem parte dos secretos conhecimentos dos
catimbós. E, como todos sabem, os cogumelos são alucinógenos, em
quase sua totalidade. OS COGUMELOS SAGRADOS aparecem em todas
as religiões antigas, mesmo os primeiros cristãos não deixaram de ser 

49
influenciados por eles, como afirma J. Alegro, baseado nos manuscritos
do Mar Morto.
No litoral do Rio Grande do Norte, não encontrei mestre que fizesse
uso de cogumelos.
[...]
ossos índios também conheciam o poder dos cactos. Os pajés usavam
cogumelos nas práticas invocatórias e entravam em transe mediúnico,
conversavam com as estrelas, com a lua, a amada Jaci. E, logicamente,
como os nordestinos fundiram conhecimentos europeus com indígenas nos
ritos da “fumaça” e das “marcas”, aí estão novamente os mestres
entrando em transe, viajando pelas regiões nebulosas da mente humana.
Os adoradores dos cogumelos, com suas rezas, lá estão entre os iniciados
na magia do sertão. Maria Rosália, rezadeira, usava um tipo de cacto
ara tirar a dor de todos os que a procuravam sentindo dores violentas. O
que era este cacto se não uma planta dos bruxos , uma droga poderosa?
 Dentre os catimbeiros [sic.] que usavam ervas e cactos antes do ritual 
conversei com Mestre Paulo de Juazeiro que descreveu sua sensação de
“viagem”:
“ – Uma torrente de fogo subiu pela minha garganta. Invadiu minha
cabeça. Senti-me envenenado, morrendo. E me vi no  purgatório. Vi o
demo, o tinhoso, me espetando, de longe, e chamei por Mestre Carlos”.
 Logo, estas declarações só vêm a provar a teoria mencionada. A mente
deste iniciado estava excitada pelo poder da droga, e o mestre do sertão
oi ao próprio purgatório...
  tradição popular não mente quando chama estas ervas de erva dos
feiticeiros , pois todas as plantas que gozam de propriedades venenosas ou
narcóticas receberam este nome através dos tempos. (páginas 24 a 26).
Os trechos seguintes são os que eu considero mais interessantes, na
Obra de Severino Cavalcante: a medicina natural na mestria; aspectos
das influências indígena e hebraica.
OS MÉDICOS SERTANEJOS
O pajé fumava cigarros de tauari e defumava os homens da tribo. Com seu
maracá, temível e procurado, penetrava os ouvidos dos clientes, chamava
as iaras e as boiúnas. Esses dois objetos eram a base da medicina mágica
das tribos brasileiras. Mas, o mestre ou chefe do catimbó usa,
rincipalmente, a erva para curar. Com as ervas, as raízes e os frutos, o

50
mestre enfrenta a morte, a doença crônica. A picada de inseto, a
queimadura de lagarta de fogo, a ferroada da arraia, a mordida da
 serpente, encontram imediatas soluções nas rezadelas e curas dos
invocadores dos chefes dos Reinos do Além. O mestre conhece filtros
invisíveis, ingredientes botânicos, berundangas. Imuniza qualquer sujeito
de dentada de jararaca, de cascavel, de surucucu, de coral. Trata de
erida com folha de aninga , belida com a cinza de jaramacaru , beribéri
com a raiz da muirapuama , gangrena com o talo de aningapara , dor de
olhos com a raiz do gapuí , dor ciática com o sumo do mururé. O peito
doente cura com o leite de anani , luxação com a  pasta da macacacipó ,
inflamação com a entrecasca da sucuba , obstrução com o leite de ucuuba ,
tuberculose com a raiz do tajá-membeca , dor de ouvido com o trevo roxo
dissolvido em leite de peito , congestão com a raiz da abutua , icterícia
reta com a casca do cajueiro , hérnia com o miolo de cuia , sezão com a
raiz aratuciú , moléstia de mulher com a folha de jauaraissica. E, neste
mundo de ervas, de raízes que só ele conhece, está a medicina mais
querida pelos nordestinos, que fogem do médico, e preferem a
roximidade da reza, da erva secreta e certeira da benzedura. (página 37-
38).
[...]
o fornilho dos cachimbos dos mestres são colocados pedaços de folha
de jurema, tabaco, alecrim, incenso, mirra. Aceso o cachimbo, é colocado
ao contrário na boca do contramestre. Na boca, coloca o fornilho e
 sopra, fazendo a fumaça sair pelo canudo (cânula) do “gaito”.
O cachimbo, ou marca, é a base da defumação. A defumação é feita
rincipalmente da cabeça, desta para os pés, depois o braço direito, a
 seguir o esquerdo, parando mais tempo na esquerda, por onde entram os
espíritos negativos. Vira-se depois o defumado e faz-se a defumação pela
rente, da cabeça aos pés.
m algumas sessões, tanto de pajelança como de toré, como de catimbó, o
chefe pega a criatura a ser exorcizada e dá três puxões nas mãos, para
baixo, afastando os espíritos ruins.
o defumar a pessoa é necessário que ela esteja descalça e ela deve
também desmanchar os cabelos. Os sapatos são chamados pelos caboclos
do catimbó de  bostocos. Esta concepção de que se deve ser defumado
descalço é devida à crença de que o chão é sagrado e só deve ser pisado
 sem calçado.
ASPECTOS DA INFLUÊNCIA INDÍGENA

51
Catimbó tem sua dança característica em volta da mesa que está coberta
com uma toalha branca, com os objetos ritualísticos.
Os participantes dançam marcando o ritmo com os pés e com os maracás.
lguns levam um arco e flecha nas mãos, como os que “trabalham” com a
Cabocla Jurema, ou com os pajés. Os movimentos são lentos, e os
articipantes marcam o ritmo lento com os ombros. Alguns fazem uma
cruz com os passos para lá e para cá. Cantam e depois se ajoelham,
edindo proteção aos chefes dos Reinados. Gesticulando, como se fossem
índios guerreando, eles vão dançando em volta da mesa
ininterruptamente. (página 59).
[...]
estre Juremeiro é o rei do Juremal. Ele tem nas mãos o poder de curar.
Usa ervas, passes magnéticos, cantos e danças para curar enfermidades.
Quando chega no catimbó pega logo arco e flecha e começa a dançar.
Quem o vê dançando tem logo a certeza de que se trata de um espírito de
índio. Fala atrapalhado, cospe no chão, pede ajuda a Tupã e a Jaci, a
deusa da lua. Dele recolhi a explicação abaixo relatada:
Quem criou o mundo foi TRIM-MAGÉ, de cuja cabeça nasceu Tupã, o que
dá vida e luz. Sua mulher é TUPANÃ. E abaixo deles há Jaci, Coaraci e os
deuses menores que são Caipora, Jurupari e Boiúna.
Para um estudo inicial das mitologias indígenas, inclusive dos mitos de
Munhangara, Tupã e Irim-Magé, proponho os dois volumes de OS
INDÍGENAS DO NORDESTE – preciosidade de Estêvão Pinto,
publicados respectivamente em 1935 e 1938. Muito interessantes,
também, são os livros GEOGRAFIA DOS MITOS BRASILEIROS e
ANTOLOGIA DO FOLCLORE BRASILEIRO, de autoria do Mestre
Maçom Luís da Câmara Cascudo.
Os caxinauaás [sic.] contam que o mundo era estéril e Tupã lhe deu vida.
 ssim, os Mestres do Catimbó, principalmente os que vivem no REINO
 DAS FLORESTAS VIRGENS, REINO DO SOL e DO JUREMAL, dançam
ara comemorar a criação do mundo. Esta dança tem coisas belas, pois
os casais se entrelaçam, girando em volta da mesa, simbolizando o amor,
a união dos seres que povoaram o mundo.
 cantam:
 Eu vi o mundo brilhar 
 A luz da lua ele começou
Ora viva Tupã e Jaci

52
Que com o amor o mundo clareou

 , um a um, os pares vão dançando e se amando simbolicamente,


relembrando os dias da criação da Terra. (páginas 61-62).
ASPECTOS DA INFLUÊNCIA JUDAICA
o catimbó, vi um Mestre do Além usar a Cabala. Desde que começou a
alar, notei que ele possuía dons estranhos aos pajés. A origem destes
dons era a Cabala, que ele conhecia e usava. Assim, vamos analisar o que
vem a ser a Cabala, para depois contarmos como o catimbozeiro a usava.
 palavra QABBALAH significa, em hebraico, tradição. Vem dos hebreus,
e seu pai foi ISSAC [sic.], o cego. O movimento cabalístico começou na
 França e se espalhou por toda a Europa.
Talvez o autor esteja se referindo a uma vertente da Sagrada Cabala,
chamada CABALA CRISTÃ. A partir do século XIX, essa corrente,
dirigida por magos franceses, foi difundida no mundo ocidental. No
início do citado século, Francis Barret divulgava seus conhecimentos
cabalísticos na Inglaterra, organizando uma escola esotérica. Na
segunda metade daquele século o cabalista Eliphas Levi iniciou seu
trabalho, inspirando outros magos contemporâneos – dentre os quais
Stanislas de Guaita e Papus, lideranças da ORDEM CABALÍSTICA
DA ROSACRUZ.
Para os catimbozeiros que pretendem iniciar estudos cabalísticos, segue
a dica de um opúsculo introdutório intitulado: CABALA, A TRADIÇÃO
ESOTÉRICA DO OCIDENTE, de Francisco Valdomiro Lorenz.
Conforme a Cabala o homem compõe-se de quaro elementos: espírito,
alma moral, alma instintiva e o corpo físico.
 ssa doutrina cabalística subordina toda a criação, seres e elementos, ao
 governo de forças inteligentes divididas em categorias hierárquicas. O
chefe supremo das dez categorias celestes é o Anjo METATRONO. As
orças adversas são dirigidas pelo Anjo das Trevas, SAMAEL, o
TENTADOR. Entre estes dois poderosos está circunscrita a luta do bem e
do mal. Aquele, cujo nome não pode ser revelado a não ser a adeptos de
coração firme, fica acima da disputa.
 sses ensinamentos, em linguagem cabocla, foram transmitidos aos
catimbozeiros por Rei Herom. De onde viria este seu conhecimento? E ele
dizia também:

53
“ – Não creia que o homem seja exclusivamente carne, ossos, veias e
 sangue. Longe disto. O que realmente constitui o homem é a alma .” Rei
erom, de Catimbó de Zinho da Casa Amarela.
Sua cantiga é a seguinte:

u venho cantando
u venho rezando
 Do outro mundo
Venho curando
eis, ó rei Herom
Ó meu mestre Herom
 Descei ao mundo
Ó mestre Herom.

O ubim possui umas folhas apropriadas para forrar ou servir de


cobertura às cabanas de catimbó. Assim, esta planta é querida pelos
mestres juremeiros e chamada de planta da bruxaria. Outra planta, esta
usada por Rei Herom é o murumuru, de fibras muito usadas nos largos
chapéus de pescadores, ou nos chapéus dos catimbozeiros. Mestre Alonso,
da Paraíba, usa um chapéu destes. E Rei Herom também possui um.
Outra folha, que os catimbozeiros consideram cabalística é o caraná,
róprio para alçapões, gaiolas e feitura de objetos delicados do ritual. E 
há também um vinho cabalístico feito com o mucajá, cuja fruta amassada
roduz um vinho apreciado pelo caboclo e cuja planta floresce na
mazônia e no Nordeste.
 pesar do cenário humilde dos catimbós, ondem reinam os pajés, todo
ajé ou mestre tem um aspecto solene. Colorido com peles de jibóia,
caudas de gavião, bicos de tucano, cascos de jaboti, couros de onça,
dentes de capivara, chapéus de couro e alpercatas, o pajé é
impressionante, grandioso, mágico, fascinante. É o belo-horrível. Agro,
vermelho, oleoso, lembrando seus ancestrais, pajés das tribos brasileiras.
le é o consultado pelos assistentes, como o eram os Grandes Iniciados.
 , como um mago cabalista, o mestre catimbozeiro diz o presente, o
assado e o futuro. Algumas vezes bêbado, ridículo, em outras arrogante
e sabido, o pajé é um deus entre os iniciados na mesa do catimbó. Entre
os mais estranhos descobri MESTRE ZACARIAS, de Caruaru. Ele também

54
conhece a Cabala e a comenta, assim como também conhece a astrologia
e, no início do ano, sempre faz previsões e diz como será o ano. Reza
também uma oração forte contra a inveja [...]. (páginas 63 a 66).
 , neste mundo colorido, de encantados e princesas, de magos e vestais
caboclas, o sertanejo se expande, ama, sonha, tem esperanças.
Suas tristezas e aflições, seus medos, seus desejos mais íntimos são
expandidos. Esta é a grande força da magia, da crendice, dos cultos
opulares. Neles se escondem a esperança imortal, o sonho de grandeza
do homem humilde. Neles há a dose de vontade de viver que o homem
 simples precisa. Ali, no Toré, no Catimbó, não há distâncias entre o
mundo dos deuses e o dos homens. Esses mundos se tocam, se mesclam, se
unem, e, no centro desses mundos, está o homem, na sua medida exata – 
entre o real e o imaginário. (página 93).
CATIMBÓ: O PIOR E MAIS DEGENERADO DOS CULTOS
BRASILEIROS
O mestre Yapacani – Woodrow Wilson da Matta e Silva (1917-1988) – é o
 patrono da Tradição umbandista conhecida por Umbanda Esotérica. W. W.
da Matta e Silva escreveu diversos bons livros através dos quais divulgo
sua corrente, não deixando, porém, de questionar outras linhas
espiritualistas que considerava inferiores ou limitadas em comparação à
Umbanda. Suas críticas mais contundentes caíram sobre o Kardecismo (o
que era de se esperar, já que muitos kardecistas ainda hoje consideram
cultos inferiores, cheios de espíritos vampirescos e viciados, os cultos de
matriz afro-ameríndia) e principalmente sobre o Catimbó. Para Matta e
Silva, Catimbó, Macumba, Babassuê e Pajelança são cultos degenerados – 
estando no Catimbó a pior das corjas do plano astral inferior. Nesse
aspecto, discordo abertamente do Mestre Yapacani e precisei meditar muito
 para compreender os motivos de – após tantas críticas ferrenhas realizadas
contra o Catimbó e os Mestres de Linha (algumas publicadas pelo maior 
discípulo do Mestre, o senhor Rivas Neto, em UMBANDA – A
PROTOSSÍNTESE CÓSMICA) – atualmente os discípulos de Matta e
Silva realizarem rituais de Jurema, Encantaria e Pajelança.
O trecho a seguir encontra-se em MACUMBAS E CANDOMBLÉS NA
UMBANDA (versão PDF disponível virtualmente), obra na qual Yapacani
realiza um de seus trabalhos mais serenos, analisando a história dos cultos
africanos e indígenas, desde o que podemos considerar suas origens, até o
nascimento da Umbanda em seus aspectos popular e esotérico. Segue o
fragmento do texto retirado do segundo capítulo do citado livro, intitulado:

55
 MACUMBAS (catimbó, magia-negra, “baixo-espiritismo”, pajelança,
babassuê, etc.) ou QUIMBANDA
[...] dessa fusão dos rituais bantus  e a nossa  pajelança   (palavra que
 significa derivação ou degeneração dos antigos ritos dos pagés), que já
dissemos ter gerado os candomblés de caboclo, uma parte dessa corrente
espirítica, mágica e fenomênica, desviou-se e degenerou-se mais ainda ,
nascido disso um aspecto mais difuso e contundente, eivado de práticas
de baixo teor vibratório, onde passou a predominar o fanatismo e a
ignorância, que veio a ser conhecido inicialmente como CATIMBÓ (que
 significa, – cá-a-timbó – defumações venenosas ou maléficas) e
osteriormente como “magia-negra”, baixo-espiritismo ou MACUMBA...
e que ainda na UMBANDA, tecnicamente, se diz como QUIMBANDA ou
banda negra  (o termo vem de ki-mbanda, da língua ou dialeto
quimbundo  e significa curandeiro , no sentido direto daquele que fazia
eitiço ou magia-negra, pela evocação dos espíritos inferiores e que era o
ki-mbanda-kiakusaka angolano ).
Em nota de rodapé, Matta e Silva apresenta uma suposta tradução
literal do termo catimbó: cá-a, surra, pancadaria; e timbó, cipó
venenoso – ou seja: “surra ou pancadaria venenosa”. Essa tradução me
é estranha e não parece convergir com o Tupi Antigo ou o Guarani. Nos
citados dialetos, respectivamente, TIMBÓ é FUMAÇA e VAPOR,
enquanto KA’Á é MATO e ERVA. Facilmente compreende-se que
CATIMBÓ é DEFUMAÇÃO, VAPOR DE ERVA, FUMAÇA DE MATO.
 sse CATIMBÓ [...] foi produto de uma degeneração maior e teve sua
origem lá no Norte e Nordeste do Brasil (Bahia, Pernambuco, Alagoas
etc.).
ele, no princípio, houve uma certa hierarquia, assim mais ou menos
ormada: – tinha o mestre (chefe do grupamento), a rainha (espécie de 2°
chefe), o secretário e a secretária do mestre e da rainha, além dos
discípulos homens e mulheres (ditos como cassuêtos ou médiuns).
 s evocações eram (e ainda são) para os denominados de “mestres de
linha” do astral, daí veio a origem histórica, popular, não oculta,
esotérica , das 7 Linhas ou Vibrações originais da Umbanda, adaptadas
 sobre alguns dos Orixás tradicionais, que diziam como os “encantados”,
que tanto podiam ser “caboclos” (índios desencarnados há muito tempo),
apelidados de Caboclo Boiadeiro, Caboclo Ventania, Caboclo
arinheiro, Caboclo Serra Negra, Caboclo Pedra Preta, Caboclo Bem-

56
Te-Vi, Caboclo Flecheiro, Caboclo Cauã, Caboclo Serafim, Caboclo
arimbondo, Caboclo Mineiro, Caboclo dos Montes, Caboclo das Matas,
Caboclo Juarez, Caboclo Juçanã etc., e outros quaisquer tipos de
espíritos, assim como as Maria-Padilha, Maria-Mulambo, Maria-Balaio,
 Zéfinha, Chiquinha, o Zé-Pelintra, além dos “mestres” Luís, Ajucá,
Tertuliano, Carlos Violeiro, Carlos Velho, e as “mestras” Vicência,
Cecília, Bevenuta e ainda o Feiticeiro de Luanda e outros e outros mais...
O ponto forte de seus mistérios de iniciação era denominado (e ainda é)
de “juremação”  , ato pelo qual o crente se iniciava ou se preparava,
 sendo, a grosso modo, um “batismo de fogo”, durante o qual ele era
 submetido a um transe hipnótico, espécie de desdobramento do corpo-
astral (aliás bem perigoso), produzido pela infusão de uma beberagem
eita com semente da planta conhecida como Jurema (a mesma Yurema de
nossos primitivos pagés) que adquiriria as propriedades de uma meia
maconha , para que também pudesse receber certa parte de seu corpo a
introdução de um amuleto, geralmente um pedacinho de certos cristais de
rocha ou pedrinhas do mar, pelo qual ficava  protegido, ligado e marcado.
  incisão da introdução, era cauterizada, tampada, de maneira a que
durante a cicatrização o tal amuleto não saísse.
Jamais encontrei, no litoral do Rio Grande do Norte, essa introdução de
cristais ou pedras do mar em alguma parte do corpo dos médiuns. No
Catimbó estudado por Luís da Câmara Cascudo, na primeira metade do
século XX, acontecia de um Mestre da Jurema prometer a um mestre
encarnado uma semente – semente que aparecia debaixo de sua pele
quando ele estivesse realmente preparado e que era considerado um
sinal de que o sementado havia alcançado a Mestria.
Atualmente existem terreiros nos quais alguns discípulos são
sementados de um modo que com todo respeito considero errado.
Sementes – não cristais ou pedras – são colocadas por baixo da pele do
filho de fé, em lugares específicos do corpo. Esse processo faz vibrar
com maior intensidade os corpos sutis do médium – que se torna um
sujeito psiquica e animicamente mais sensível. Em outras palavras: seus
“poderes” aumentam, porém, de modo forçado.
Acontece que através desse processo muita ciência geralmente é dada a
pessoas sem o preparo moral, a experiência e a sabedoria adequados
para tanto. O resultado é a decadencia do médium. Aos poucos a
prepotência e a megalomania tomam conta de sua alma e todo tipo de
trabalho escuso – uma vez pagos – passam a serem feitos.
57
m suas sessões a via de regra era (e ainda é) a prática da bruxaria, dos
eitiços, envolvendo raízes, ervas, nozes, frutos, tudo com defumações
ortes e muito uso de fumo nos cachimbos, a par com as bebidas
alcoólicas, aliadas às matanças de bichos para os chamados despachos.
m suas sessões se dança e se canta muito, com evocações extensivas a
tudo quanto seja espírito de feiticeiros indígenas desencarnados e
mandingueiros africanos, do passado também, e que foram famosos, ao
 som de campainhas ou sinos.
 Porém a prática principal e perigosa de magia-negra no Catimbó tem
como base o envultamento , que é o uso (não de origem europeia; todos os
ovos primitivos usavam largamente esse processo) incisivo sobre
objetos, quer do uso da vítima, ou, quando não, com bruxas de pano,
alfinetes, dedais, agulhas e linhas de cores, etc.
Com esse processo pretendiam matar as vítimas, lentamente, secando,
aralisando, etc.
Também dão segurança ou defesa, que se chama de “contra-feitiço”, na
orma de amuletos especiais, quase todos compostos de certas nozes ou
avas vegetais, e de caudas de certos bichos, acompanhados de orações,
que dizem serem “fortes”.
Também preparam uma auto-defesa específica, através de uma chave
virgem, que serve para “fechar o corpo”, tendo que levar um banho de
 sangue de bicho de pena preta. Todas as sessões do puro Catimbó
começam por “abrir a mesa”, que consta de acender velas em cima de
uma mesa, coberta de toalha branca e cheia de materiais diversos.
 sse processo, dito como Catimbó, passou a se integrar no movimento
interno das próprias MACUMBAS (ou QUIMBANDA), sendo que, nessas,
a supremacia é dos outros espíritos denominados EXUS (os de categoria
inferior, ditos como pagãos e outros mais). O Catimbó puro não absorveu
nenhuma influencia, quer do chamado Espiritismo, quer do Catolicismo.

***

Uma vez tendo sido apresentadas as visões (interpeladas por meus


comentários) de pesquisadores e escritores que de modos distintos se
relacionaram com o Catimbó, seguirá o próximo capítulo com algumas
orientações provenientes do Santuário da Jurema.

58
Capítulo IV
DO SANTUÁRIO DA JUREMA
Reflexão
Quando as dificuldades cruzarem teu Caminho – que é simultaneamente
único e múltiplo sobre a Terra – lembra que tu e a Natureza formam um só e
mesmo SER.
Assim como o Fogo Renova a Natureza Integralmente, a capacidade de
renovar-se, com Paciência e Perseverança, também é teu. Esse é um dos
 poderes que está em ti. Portanto, se TU ÉS FOGO, faz com que a Luz de te
Amor e as chamas de tua Vontade consumam todas as impurezas que por 
desventura bloqueiam a conexão de tua consciência com a Mente Universal.
Aprende sempre a Lição que pulsa por trás de tantos fatos, dores e
sorrisos... e SEGUE TEU CAMINHO EM DIREÇÃO AO QUE HÁ DE
MAIS ELEVADO.
E em teu peregrinar sobre o mundo, lembra, vez em quando, e tenta sentir,
em Espírito e em Verdade, a frase há séculos dita por um dos maiores
 professores que caminhou sobre este Planeta: "Eu e o Pai somos Um".
Se tu e Deus são um só e mesmo SER, tu também és Amor e Fogo
Consumidor. Ama! E queima teus vícios, adubando o solo com as cinzas da
59
má existência, para que sobre o chão que tu pisas possam nascer novas e
lindas rosas. Emancipa-te e SEGUE TEU CAMINHO EM DIREÇÃO AO
QUE HÁ DE MAIS SANTO.
Ora, estuda e trabalha, para que a CHAMA DE TEU RACIOCÍNIO
fortaleça tua mente, tornando-a um canal apropriado a receber as melhores
e maiores inspirações dos Entes Divinos. Destrona as lembranças impuras,
usando-as como combustível em tua jornada... e CAMINHA EM DIREÇÃO
AO MAIS COERENTE.
Sempre que acordar, saia e agradeça ao SOL por mais um dia de VIDA – 
 para que o Sol que te ilumina possa te abençoar.
Agradeça à terra que tu pisas, ao ar que tu respiras e à água que tu bebes.
Agradece a todos os espíritos do Universo – agradeça à própria VIDA
 buscando senti-la em plenitude, aproveitando esse momento para receber a
BÊNÇÃO de todos os seres da Criação e do próprio Criador, amando-O
acima de todas as coisas... E AVANÇA EM DIREÇÃO À VERDADE.
Louvado seja o Grande Deus MUNHÃ – o Criador de todas as coisas
visíveis e invisíveis.
Salve nossa Sagrada Ciência! Salve nosso KA'ÁTIMBÓ-Y'UREMA.

Iniciação
Você que lê estas linhas, de algum modo se sente tocado pela Jurema
Sagrada? Será que você vibra na frequência de nossas correntes
espirituais? Será que tu tens algo a tratar ou a realizar conosco?
Você, senhor ou senhora, gostaria de adentrar nossos sagrados portais e
conhecer nossas aldeias, cidades e reinos – sendo esse desejo, mais que
mera curiosidade?
Você gostaria de contemplar nossos mistérios? De conversar com os
Mestres e Mestras espirituais de nossa Escola? De estabelecer contato com
os grandes Pajés? Você não teria medo desses espíritos e não os
consideraria “demônios do astral inferior”?
Um primeiro passo deve ser dado, se tua Vontade é sincera. Deixaremos as
coisas bem claras. Há critérios. E nossas primeiras exigências são:
- Abandona, definitivamente, toda e qualquer forma de admiração o

60
devoção que por acaso mantenhas com entidades perversas – estejam essas
entidades encarnadas ou desencarnadas.
- Desliga-te imediatamente de escolas pérfidas, que ensinem o mal, que
 pratiquem o crime, a egolatria, o furto, o vampirismo, a parasitagem, a
 prisão, a escravidão, o assassinato ou alguma outra forma de maldade
explícita ou travestida de bem, como meio de adquirir graus, poderes o
 bens materiais.
Abandona essas mentiras que são apresentadas como verdades e aprende
que para cada um de teus atos haverá uma consequência à altura, para você
e para quem estiver ligado a ti.
Chegou a hora de acabar com a confusão, rechaçar a mentira – os
catimbozeiros já têm maturidade para compreender que CATIMBÓ-
JUREMA não é satanismo, não é banho de sangue nem sacrifício de
animais, muito menos pactos com Ferrabrás, Satanás ou Lucifér.
Ka’átimbó é REMÉDIO, é o perfume de todas as rosas, é terapia de cura, é
fragmento de uma antiga e venerável Ciência que deve ser aplicada com
sabedoria. Estando encerrado o ciclo das guerras intertribais e coloniais,
superamos a estagnação e devemos seguir em frente.
Se tu estás disposto a abraçar de corpo e alma a humildade e a trilhar a
difícil, mas gloriosa, senda do serviço; se você está disposto a pesquisar e
trabalhar eternamente – em meio a tantos acomodados e megalomaníacos
alienados espalhados pelo mundo –, aprendendo a combater qualquer sinal
de prepotência e arrogância que possa surgir em tua alma, poderás vir a ser 
aceito em nossa Escola.
“Jurema é, antes de tudo, uma Filosofia” – assim nos ensina uma grande
umbandista serva do Amor. E acrescentamos: Jurema é Filosofia e Ação. É
curar a si mesmo de todos os males, curando a si no próximo e o próximo
em si. Catimbó-Jurema é comunhão transcendente, envolvente, universal.
A antiga Sabedoria dos grandes pajés não estava limitada ao transe
mediúnico. Era e é, em todos os cantos do mundo, em todas as épocas e
sociedades nas quais esteve e está presente, uma via para o Conhecimento
de nossa verdadeira Natureza.
Trabalhar o corpo, a alma e a mente aperfeiçoando-os ao trabalho, é o
início da mestria – de uma mestria menor, que fique claro. O domínio pleno
e mais elevado da Arte Sacerdotal é conquista de poucos.
Em síntese, eis os cuidados essenciais que todo aspirante a Mestre o
Maestrina deverá tomar:

61
CUIDAR DO CORPO, DA ALMA E DA MENTE!
- Alimentar-se corretamente, preferindo vegetais e alimentos puros,
reduzindo racionalmente as carnes de qualquer tipo.
- Mastigar corretamente os alimentos – não deve haver pressa no comer.
- Comer moderadamente, sem abuso, sem gulodice.
- Evitar o sedentarismo, praticando, se possível, caminhadas ou exercícios
moderados. Ao que trabalha demais ou que se sente muito cansado: se
esforçar para caminhar ao menos uma vez por semana, pela manhã, entre
seis e oito quilômetros. Você pode começar simplesmente colocando o pé
fora de casa, acrescentando um passo a cada dia.
- Beber de seis a oito copos de água por dia, entre as refeições.
- Respirar corretamente – estudar a respiração e realizar exercícios
respiratórios é muito importante para a saúde integral. Os grandes pajés
exerciam controle absoluto da respiração. O Rosacruz Jorge Adoum foi um
grande Mestre nessa Ciência, tendo escrito diversos livros importantes nos
quais trata desse e de outros assuntos.
- Se possível, contemplar o nascer do Sol com roupas leves e claras (o
completamente nu) para que os raios solares banhem teus corpos físico e
anímico. Não tenha pressa. Deixe que o Avô Sol renove tuas forças.
Respire leve e profundamente enquanto é banhado pelo Amor Divino.
- Esforçar-se para dormir bem – a qualidade de nosso sono, além de nos
deixar livres da fadiga, refresca a alma. Nossas almas geralmente têm
assuntos a tratar em outros lugares e é quando dormimos que elas saem a
aprender e trabalhar.
- Realizar boas leituras, que inspirem reflexões elevadas, sobre diversos
temas (saúde, cultura, psicologia, filosofia, política, espiritualidade, etc.).
- Manter contatos com a Natureza, reverenciando-a, indo a bosques,
florestas, rios, praias, lagoas, realizando acampamentos e retiros espirituais
em meio às matas, sempre que possível – progressivamente tornando-se
mais sensível e acessível às suas belezas, sutilezas e mistérios.
- Ouvir músicas boas, harmoniosas e inspiradoras.
- Evitar passar o tempo em lugares desagradáveis, vulgares ou violentos, de
 baixa e pesada vibração. Nesses ambientes o indivíduo poderá transitar 
quando estiver em missão (visitando um enfermo, orientando um espírito,
etc.), ou quando for inevitável o trajeto – mas com a devida proteção e

62
 preparo, para não sucumbir às provas ou ser vítima de entidades espirituais
maliciosas.
A Natureza é ao mesmo tempo Templo e Laboratório Maior do mestre e
da maestrina. É nela que encontramos força e substância para realizar
nossos trabalhos de cura. Um aspirante que não se esforça em preservá-
la despreza praticamente todo o conhecimento que almeja um dia
conquistar. Cada um de nós é uma síntese completa da Natureza. Se não
lhes damos atenção e amor, esquecemos, também, de nos amar. Por isso,
deve o Catimbó-Jurema ser um movimento ecológico de harmonização
total entre os seres humanos, o Planeta e o Universo.

Os sete trabalhos do mestre juremeiro


Cabe ao juremeiro iniciante realizar sete trabalhos – adquirindo sete
ciências – através dos quais terá estruturado seu laboratório. Esses
trabalhos são: Cachimbo, Jurema, Maracá, Rapé, Invocação, Evocação e
Auto Mestria – eis os sete primeiros trabalhos do Santuário da Jurema.
O primeiro – o Cachimbo – exige que o aspirante vá à floresta e, com muita
sensibilidade e intuição, encontre a árvore correta da qual extrairá madeira
 para confeccionar seu cachimbo. O cachimbo é um instrumento sagrado cuja
simbologia resume toda a Ciência. Simboliza ainda a geração e a criação
de todas as coisas, das mais densas às mais sutis.
O cachimbo é um instrumento que sintetiza e reúne, quando utilizado com
sabedoria, o poder das plantas, a força do pensamento e o hálito da vida.
Cachimbo é ação, é proteção, é defumação e é reflexão.
Existem outros métodos para confeccionar cachimbos e outros tipos de
cachimbo – este, porém, é o que selecionamos por considera-lo essencial.
O segundo trabalho – a Jurema – é ao mesmo tempo uma obra artística e
alquímica: é ter condições (estar preparado, dentro de elevada ciência,
humildade e reverência) para manipular a Jurema e outras plantas a fim de
 produzir bebidas especiais que consideramos sagradas – remédios que
iluminam a alma e a mente; fortalecem e purificam o organismo.
O Maracá  é um instrumento ancestral utilizado por diversas etnias, de
tempos remotos à contemporaneidade. O maracá, já ensinavam os antigos
63
 pajés, simboliza o mundo e o Universo. As sementes colocadas no interior 
da cabaça ou da cuité representam a abundância, a fartura, assim como o
alimento material e espiritual que devem ser compartilhados entre irmãos e
irmãs. A haste é alusão ao Princípio Masculino, o Sol que fecunda a Terra
com seus poderosos raios de Luz. As penas representam nossos espíritos,
que à nossa Terra de Origem devem regressar após grande jornada
realizada neste e em outros mundos.
O quarto Trabalho, Caminho ou Ciência, é o Rapé  – partículas que,
movidas por sopro especial, aspiradas, adquirem mais vida e atividade,
 passando a circular muito sutilmente nos corpos mais densos do indivíduo,
com considerável repercussão astral e mental – assim purificando nosso
organismo, fazendo-o expulsar o que houver de destrutivo e abrindo
caminho a vibrações mais sublimes e elevadas. Estando nossos corpos
relativamente limpos (porque a mais profunda e firme limpeza que cabe ao
homem realizar, além da purificação de seus corpos, é a reforma moral),
 passamos a sentir mais vivamente a presença tanto de nosso Eu Superior,
quanto de irmãos e irmãs espirituais.
Se voltássemos algumas décadas no tempo encontraríamos, no Nordeste
 brasileiro, muitos senhores carregando uma latinha ou pequeno chifre cheio
de rapé, feito à base de folha de tabaco (ou de outra planta de cura).
Consideramos incorreto o uso do rapé por simples prazer, sem qualquer 
intuito, consciência ou objetivo psíquico-espiritual. Usá-lo dessa forma
equivaleria a profanar a sacralidade e o trabalho das plantas com as quais
foi preparado.
O quinto aspecto menor de nossa Arte Magna, está conectado à
mediunidade. É a Ciência d e invocar e trabalhar com os Mestres e Mestras,
Índios, Caboclos e Encantados através de contato mediúnico. Os
catimbozeiros que não carregam o carma ou possuem o darma da
mediunidade, entretanto, podem realizar essa prática de modo semelhante,
estabelecendo contato psíquico com os Mestres, travando diálogos mentais
com os mesmos. Para isso, é preciso ser DEVIDAMENTE PREPARADO
 para não dar ouvidos a todas às vozes que possam vir a se manifestar em
nossas mentes.
Através dos médiuns e com os médiuns, espíritos são convidados a servir e
a trabalhar de acordo com os ditames e chancela da Lei Cósmica que a tudo
rege. Na Linha de Jurema (essa é uma das formas como é conhecida a faixa
vibratória e plano evolutivo de nossa Escola), vibram e evoluem, em ritmos

64
distintos, espíritos de índios, africanos, ciganos, judeus, cristãos e
caboclos.
O sexto trabalho, atualmente em dormência, consiste em um conjunto de
técnicas outrora utilizadas por nossos grandes Mestres e Pajés para evocar
os espíritos – métodos através dos quais as entidades espirituais eram
convidadas a manifestar-se no plano físico para participar dos antigos
conselhos.
Os Magos indígenas, em conjunto com as entidades evocadas, em intensa e
elevada obra que envolvia concentração, inteligência e Vontade, agregavam
em volta dos corpos astrais dos espíritos partículas relativamente densas e
em quantidade suficiente para servir-lhes de vestes temporárias. Tais vestes
não eram compostas por plasma humano. Elas eram alimentadas o tempo
que fosse necessário por um catimbó específico – a fumaça de plantas
especialmente selecionadas e preparadas para servir-lhes de carregador 
energético – acrescido de determinado segredo que não cabe neste
opúsculo.
O sétimo e último trabalho, que é o mais importante de todos, é conhecer a
si mesmo. Na senda iniciática, autoconhecimento é tudo – conhecer a si
mesmo em profundidade é seguir em frente superando limites, caminhando
em direção ao que há de sublime e perfeito dentro e fora de nós, passo a
 passo, consciente e progressivamente, superando limites e falhas ao longo
de ilimitado percurso, lapidando a pedra bruta, preparando o terreno para,
finalmente, vivenciar o desabrochar do Mestre Perfeito que realmente
somos.
Buscando conhecer-se em profundidade, você findará por conquistar a
Auto Mestria: um Grau de Consciência em que passará a comungar mais
íntima e vivamente da Fraternidade Universal que envolve seres e mundos
diversos. Terá chegado a hora em que poderá, com perfeição, estando
encarnado ou desencarnado, orientar e auxiliar irmãos menores – do mesmo
modo como você foi instruído e socorrido por aqueles que te antecederam.
Em sintonia com a Essência de todas as Tradições, terá condições de
transitar por todas as culturas da Terra, conhecendo-as e reverenciando-as,
sem hipocrisia, mais importando o serviço prestado que a roupa utilizada.
Harmonizado com a pureza do Amor Consciente, saberá como respeitar e
orientar pacientemente, sem excluir ou menosprezar, os espíritos; saberá ser 
duro quando for necessário enrijecer, mas estrategicamente, sem dar 
 brechas a qualquer fagulha de ódio, vingança, rancor ou autoritarismo; e ser 
65
divinamente amável – nunca, entretanto, permissivo, promíscuo o
licencioso. Corretamente reverenciará a Criação e com ela todos os entes,
visíveis e invisíveis, que habitam o Cosmos.

Sobre o uso do cachimbo e do tabaco


Seguem algumas notas sobre o uso do Cachimbo Sagrado e da planta
Tabaco.
Evitemos, obviamente, a aquisição dos vícios, abrindo mão dos cigarros
industrializados do tipo “Souza Cruz”. Esses são produzidos à base de
tabaco acrescido de tantas mil substâncias tóxicas e viciantes, ou seja, são
“programados para matar” – confeccionados perversamente,
mecanicamente, por empresas que possuem o vil objetivo de gerar viciados
que os consumam cada vez mais e de modo destrutivo, poluente e agressivo.
 Nossos corpos são Santuários do Espírito Santo e nossas mentes provêm da
Razão Suprema. O cigarro industrializado é uma violência contra o Sagrado
Espírito da planta Tabaco e, por nos deixar viciados e apressar nossas
mortes, é um atentado contra o Templo de Deus e contra o Divino que em
nós habita.
O xamã, pajé ou catimbozeiro, deveria utilizar o fumo de tabaco e a planta
somente cientifica e ritualisticamente.
Para usa-la cientificamente, será preciso estudar e compreender suas
utilidades, usos e propriedades, no que se refere, inclusive, às limpezas
astrais e etéricas, na purificação e decoração de ambientes (limpeza visual,
alimento dos olhos, das emoções, da mente), na cura de feridas, nas defesas
do corpo e da alma, etc.
O tabaco possui propriedades que, conjugadas às de outras plantas e
levadas à combustão, liberam substâncias sutis que eliminam formas-
 pensamento daninhas e larvas astrais, contribuindo com a limpeza de
 pessoas e lugares.
Para a realização do trabalho ritualístico, o pesquisador precisará entender 
que a citada planta é uma erva ancestral das mais sagradas de nossas
Tradições. O Espírito do vegetal (ou os espíritos, caso o tabaco esteja
sendo queimado junto a outras ervas) tem a boa intenção de nos ajudar e
curar – por isso não é interessante que saiamos fumando nossos cachimbos

66
“a torto e a direito”, sem necessidade.
O cachimbo sagrado deve ser aceso em momentos especiais, cerimoniais,
sem exageros e com consciência. O Espírito que governa a planta possui
ambiente e faixa vibratória própria – por isso “acende-lo”
desnecessariamente equivaleria a convida-lo a trabalhar ou pedir a sua
ajuda, sem necessidade, sem qualquer trabalho a ser realizado.
Há xamãs que fumam “brejeiros” antes de iniciarem seus trabalhos de cura,
contribuindo com a alteração de seus estados de consciência e vibração. Os
médiuns, ao tragarem a fumaça do tabaco, podem sentir mais vivamente os
contatos das entidades espirituais com as quais trabalham (temos a
impressão de que estão mais próximas de nós). Lembremos que o abuso
desse mecanismo pode nos tornar dependentes de modo a utilizarmos a
 planta sagrada como uma espécie de muleta: a erva não é uma condição o
limite.
 Não esqueçamos ainda, que não devemos ser escravos de vegetal algum e
que somente quem possui licença, capacidade ou carma que o destine a isso
é que consegue interagir e conviver intimamente com determinadas
categorias de espíritos elementais e suas respectivas plantas (suas moradas
sagradas), sem ser “absorvido” (ser dominado, ficar dependente dos efeitos
que os vegetais proporcionam).
As plantas de poder não têm a intenção de nos submeter ou subjugar,
embora seus guardiões saibam defende-las. É o mau uso, o uso degenerado,
o uso psicodélico, desequilibrado, descontextualizado, o uso como fim e
não como meio, que nos tira do eixo do equilíbrio e nos torna dependentes
mental e fisicamente. Usar determinados vegetais sagrados de modo
desregrado e sem orientação pode esgotar o sistema nervoso do estudante,
explodir ou implodir um chacra, tornar o indivíduo alucinado ou obsedado.
 No caso dos médiuns, especialmente os médiuns jovens que iniciaram há
 pouco tempo o desenvolvimento anímico e harmonização com suas
correntes espirituais, para cumprimento de suas OBRIGAÇÕES mediúnicas
(mediunidade a maioria das vezes não é dom, é carma, é forma delicada de
quitar débitos contraídos em vidas anteriores), proponho que procurem
exercitar a oração, o contato MENTAL com seus Guias, irmãos e irmãs do
 plano espiritual, empenhando-se no estudo da medicina natural, da medicina
oculta e da botânica, antes de buscar apoio em plantas de poder.
Músicas apropriadas, orações, preces, meditações contribuem com a

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expansão de nossas consciências. A expansão de consciência (conjugada
aos valores morais elevados, ao Amor a Deus, ao respeito às pessoas e aos
demais seres, a reverência à sagrada Mãe Natureza) nos auxilia ao contato
consciente com seres espirituais de vibrações equivalentes – sejam
desencarnados, sejam devas, sejam encantados. Procure, com mesma
intensidade, conhecer a si mesmo, para que futuramente você possa
trabalhar ao lado dos Mestres, sendo, você também, um Mestre o
Maestrina.
Poderíamos aumentar nosso conhecimento, estudando usos e contextos
culturais nos quais estão inseridas as plantas sagradas ancestrais presentes
em nossas pajelanças, terreiros e mesas de Jurema – especialmente a Planta
Tabaco.
É certo que a fumaça do Tabaco aumenta nossa percepção e sensibilidade
espiritual, sendo ou não tragada. Quando ingerida com certa frequência,
 porém, acaba por destruir nossa saúde.
Atenciosamente, Manicoré R+.

Chamando os espíritos
Realmente não é qualquer pessoa, estudante de magia ou espiritismo, que
consegue, de fato, evocar ou invocar um espírito. Boa parte dos contatos
que ocorrem são estabelecidos com outros elementos que, pairando no
astral, são tomados por entidades reais. Chamar ao nosso Plano um espírito
 para conversação ou trabalho é tão profundo e relativamente difícil, quanto
ingressar plenamente consciente nos planos sutis. Além do estudo
adequando, são necessários exercícios, propósitos que vão muito além da
curiosidade; e um dom – o Discernimento dos Espíritos.
Para que um espírito regresse precisamos estar em condições adequadas de
recebê-lo. Deve ser forjada uma via pela qual ele possa “descer”. E nem
sempre nós ou o ambiente está devidamente preparado.
É preciso HIGIENE: do médium ou mago ou médium-mago, asseio material
e limpeza moral, sendo esta última a mais difícil de ser obtida. Renovar-se
moralmente equivale a vencer a si mesmo e a superar as sombras que tanto
nos prendem a sentimentos mesquinhos e baixos desejos.
Ao desencarnar, as entidades tendem a migrar para planos existenciais mais
sutis. Dependendo de sua conduta sobre a face da Terra, após a morte, o

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espírito pode deixar perambulando no Plano Astral o que a Teosofia chama
“cadáver astral” – estruturas ou agregados que reúnem fragmentos de
memórias, sensações e desejos de um falecido, que levam um tempo para
serem dissolvidas (assim como o corpo físico deixado na terra ou no mar 
levará um tempo para apodrecer e ser reabsorvido).
Cadáveres astrais podem ser reanimados por um espírito elemental, por 
uma larva astral ou ainda por partículas mentais manipuladas por um mago
 perverso, encarnado ou desencarnado; ou até mesmo pelo médium que com
seu fluído vital anima as “cascas” e lida com elas como se fossem um
desencarnado. Obterá, assim, informações grosseiras, já que o que
 permanece no cadáver astral são fragmentos do mental mais concreto do
falecido.
O médium pode, também, desejar muito manter contato espiritual com uma
determinada entidade, imaginando e ansiando constantemente a interação
“vivo-morto”. O conjunto: desejo, pensamento, esforço, acaba por criar um
ente artificial que também pode ser manipulado por outras entidades o
tornar-se uma espécie de autômato que se faz presente sempre que
invocado. Porém, através da elaboração de formas-pensamento adequadas,
o adepto é capaz de construir portais que lhe serão muito úteis no contato
com Mestres e Caboclos.
Quando um mestre de Jurema abre uma mesa dentro de uma prática limpa e
coerente, quando realmente um canal é aberto e uma ponte é lançada entre o
nosso mundo e as dimensões que coexistem com a nossa (ou com outros
 planetas), entidades espirituais – que chamamos Mestre, Mestra, Índio,
Pajé, Caboclo, Encantado – encontram condições adequadas para atuar em
sintonia conosco.
O mestre ou mestra pode ainda (desde que seja capaz), sem realizar 
invocações ou evocações, trabalhar com seus próprios conhecimentos e fé,
adquiridos através de trabalho perseverante: pode dar passes, rezar,
abençoar, preparar defumadores e bebidas sagradas, produzir guias,
amuletos e talismãs, etc. sem apelar aos Guias do Astral Superior para que
“ancorem” ao seu lado. A oração aumenta a fé, mas é o estudo e a prática
séria que aumentará nossa força e firmeza na Mestria. Havendo
necessidade, invoquemos um Irmão ou Irmã.
Há outro modo de trabalhar: estabelecendo contato com os arquivos astrais
deixados pelos Mestres e Mestras. Mas essa é outra ciência que ficará para
outro livro. Necessário se faz dizer algo sobre os modos de bloquear a ação
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de um parasita astral disfarçado de Mestre.
Além da oração, que deve ocorrer sempre, na qual pediremos a Deus que
nos conceda a graça do Dom Divino do Discernimento dos Espíritos – que
nos auxiliará a sentir a índole de tal ou qual entidade – podemos questionar 
o ser, fazendo-lhe determinadas perguntas que só os Iniciados na Jurema
Sagrada são capazes de responder. Isso é lícito.
Podemos observar os atos e palavras da entidade, analisando se entram em
contradição com o que ou quem ele diz ser. Por exemplo: um Mestre como
Manoel Germano ou Manoel Cadete, jamais utilizaria de seus
conhecimentos para prejudicar alguém.
É possível queimar plantas e resinas específicas, que dissolvem coágulos
negativos de energia astral, e espantam os maus elementos: folha de Jurema
Preta, Amescla, Barbatimão e Quebra Demanda, são exemplos de plantas
que podem ser utilizadas, uma vez coletadas na hora e lua corretas.
Colocar espelhos, objetos ou sinais consagrados em lugares específicos do
local de trabalho – lembrando que o melhor escudo contra magos ególatras,
feiticeiros malvados (há os que usam o que sabem para o bem. Esses são
fortes candidatos à Alta Magia), larvas e demônios, é elevar-se espiritual e
moralmente. Não há quem derrube ou ameace um mestre pleno de Amor no
coração e Vontade de SERVIR.
Ora por todos os que se consideram teus inimigos. Melhor que “espantar” é
encaminhar para a Luz.

Exercício 1: O CONTROLE DO OLHAR E DO FALAR 


Um bom exercício que nos auxiliará, aos poucos, a controlar e superar 
nossos impulsos inferiores (desejos que resultam em querelas, apego, vício,
dependência, escravidão, etc.), é o que segue:
1. O
controle do olhar: o Evangelho de nosso senhor Jesus Cristo,
ensina: OS OLHOS SÃO AS JANELAS DA ALMA. E ainda: SE
TEUS OLHOS FOREM LUZ, TODO TEU CORPO SERÁ LUZ.
PORÉM, SE TEUS OLHOS FOREM TREVAS, QUÃO
GRANDES SERÃO ESSAS TREVAS.
Caríssimo irmão ou irmã, esforça-te para orientar teu olhar. Procure
observar, olhar, visualizar coisas boas, belas e santas. O que vemos

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 pode muito bem gerar em nossos corpos sensações boas ou más,
agradáveis ou desagradáveis. Os impulsos internos procedentes do
que vemos, inevitavelmente nos estimularão, em maior ou menor grau,
em um ou outro sentido – sem falar nas imagens que ficarão
arquivadas em nosso inconsciente. Se nos esforçarmos em ver o bem,
sentiremos, com o tempo, cada vez mais coisas boas e teremos sempre
 belas recordações e lembranças.
Adquira o hábito de semear o bem dentro de si. Procure, embora nem
sempre seja fácil, sentir o bem que existe nas pessoas. Todos nós
carregamos um percentual de Luz e um percentual de escuridão
(ignorância). Sempre que possível, tente observar as qualidades dos
indivíduos – busque encontrar essas qualidades – ao invés de
observar e enfatizar defeitos. Exercite sua mente nesse sentido. Em
 breve, você conquistará uma mente e uma alma bastante iluminadas
vindo a ser exemplo manifesto de bem aventurança.

2. O
controle do falar: Controle seu palavreado. Não desperdice o
Verbo Sagrado, o Hálito da Vida insuflado por Deus em teu ser, na
profusão de mentiras, querelas ou tolices. Ser alegre não significa
ser pernicioso, ou vulgar ou tolo no falar. Como diz o ditado, “a
boca fala o que o coração está cheio” – um indivíduo virtuoso não
costuma tagarelar ou perder tempo com fofocas e comentários
depreciativos sobre a vida alheia.
Antes de falar, analise o que há de ser dito para que tuas palavras não
vaguem perdidas em desperdício de energia ou em prejuízo de
alguém. A energia circula, sem se perder. O mal que sair de ti,
inevitavelmente retornará para você – triplicado, buscando renovar-se
 – após ter contaminado outras pessoas. Analogamente, o bem que de ti
emanar retornará para você – trazendo consigo mais Luz, mais Paz e
muito mais AMOR.
Controlar o olhar e o falar é uma das formas de começar a dominar a si
mesmo.
O autodomínio é um passo a mais no caminho da Auto Mestria. Para
ingressar na Mestria mais elevada, será preciso dominar a si mesmo, quero
dizer, dominar teus impulsos inferiores, pisar na cabeça da serpente. Caso

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contrário, jamais estarás capacitado a trabalhar com Alta Magia.
Mesmo que, com teu conhecimento e dedicação, você possa realizar certos
“fenômenos”, ajudar alguém de uma ou outra maneira – enquanto você não
vencer a si mesmo, estará propenso a cair muitas e muitas vezes. Se tu cair,
aprende com a queda. Levanta, segue em frente e permaneça atento para não
errar novamente.
A chave para essa firmeza é: “paciência e perseverança”. Aproveite as
quedas que levou para investigar, encontrar e superar as causas das
mesmas. Com o tempo e a prática, passe a exercitar, também, o bom ouvir,
o bom tocar e o correto pensar. Purificando e melhorando teus sentidos,
ampliarás as conexões de tua alma.

Exercício 2: SENTINDO A PRESENÇA DIVINA


Entre as 18 e 19 horas, procura, em tua casa ou em um bosque, um lugar 
sereno onde você possa permanecer sentado, de preferência próximo ou em
meio às plantas.
Leva contigo teu chapéu ou teu cocar, tuas guias, teu maracá, teu cachimbo e
a bebida Jurema.
Prepara e acende uma pequena fogueira, que ficará à tua frente. Entre ti e a
fogueira, coloca uma coité ou cabaça com água – ou então uma vela branca
e um copo transparente com água, sobre uma toalha branca. A água e o fogo
contribuem com a harmonização, simbolizando o equilíbrio interior e
exterior.
Tira tua camisa e fica descalço. Veste tuas guias. Senta.
Sinta a terra sob teus pés – ela é teu alicerce. Valoriza e ama a terra que t
 pisa, para que ela te abençoe.
Sinta o ar puro que envolve a ti e a Natureza ao teu redor. Ele é VIDA.
Agradece a Deus pela Vida e pela oportunidade que Ele te dá de conversar 
com os Mestres de bom coração de nossa Jurema Santa e Sagrada.
Acende teu cachimbo. Bebe tua Jurema.
Convida teus ancestrais a fumarem contigo.
Convida teus Mestres e Mestras, do menor ao maior. Chama teu Guia de
Frente, teu Protetor, teu Auxiliador e teu Mestre Secreto. Entra, com eles,
em sagrada comunhão. E canta ou ora, no ritmo de teu Ser:

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Ô, Pai Tupã,
Ô, Pai Tupã,
 Dai-nos teu Amor,
 Dai-nos teu Amor...

Ô, Tupã Rub,
Ô, Tupã Rub,
’me’eng né Rausub,
’me’eng né Rausub...

 Dai-nos a Luz Divina,


 Dai-nos a Luz Divina...
’me’eng Tupã Rendy
’me’eng Tupã Rendy...

Que todos possam, queiram e saibam servir ao Criador Eterno e Todo


Poderoso – AQUELE QUE É O QUE É. Que possamos, saibamos e
consigamos realizar esse contato harmonizador com os seres de todos os
 planos da Mãe Natureza. Que possamos e queiramos, efetivamente, ocupar 
nosso lugar, gozar de nossos direitos e exercer nossos deveres neste Planeta
e no Universo – nós, síntese da Criação, Imagem e Semelhança de Deus,
aqui estamos para nos salvar.
Sejamos, portanto, humildes e fortes o suficientes para TRABALHAR.
Se você não tiver condições de realizar a prática como apresentada acima,
 poderá realiza-la de modo ainda mais simples.
Entre as 18 e 19 horas, procura um lugar tranquilo em tua casa; ou vai a um
 bosque e entra na mata. Fica só – contigo, somente Deus.
Procura sentir a Divina Presença bem próxima de ti. Mantem a mente
serena, a respiração suave, o corpo relaxado. Não tenha pressa. Liberte-se
da noção de tempo.
Senta e fica em silêncio. Apenas sinta – exercite o sentir interior, deixando
que a Presença de Deus te envolva por completo. Sente o Criador dentro e
fora de ti... E sê feliz.

Fé é Substância Divina.

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A oração desperta a Fé, movendo-a, intensificando-a ao infinito. A oração,
as rezas, as preces e o servir são formas de alimentar a Fé.
Essa Substância que Deus depositou em nós, brota, cresce, floresce e
frutifica a ponto de jorrar de nosso Ser em torrentes de Luz.
A Substância FÉ, de nosso mais íntimo ser, envolve partícula por partícula
de nossos corpos, ultrapassando os limites de nosso organismo, envolvendo
e progressivamente transmutando o ambiente que nos circunda.
A Fé contribui com o alicerçar de nossa caminhada sobre a Terra, fazendo
mais firmes nossos passos, reduzindo as dores causadas pelas pedras que
descalços pisamos. Ela nos ajuda a extrair de cada machucado, uma lição e
um aprendizado.
A Fé é a Saúde da Alma.
Sem Fé, não existe Magia. Sem Fé, instrumentos mágicos são objetos
inúteis; imposições de mãos são pouco mais que toques e trocas de calor – 
e a fumaça fica limitada à ação química de suas partículas atômicas de
repercussão limitada.
A Fé dinamiza o Pensamento.
Conjuga tua Fé com a Fé de teu Mestre ou Mestra e terás a prova do que
digo – do alto grau das transformações que ocorrerão em tua vida. Conjuga
tua Fé com a Fé dos necessitados que te procuram e sentirás o potencial do
trabalho em equipe.
Há mestres e pajés que curam através do pensamento, com imaginação
firme. Há outros que apenas rezam sobre os adoentados... Mas se não
acreditarem no que fazem e em quem buscam apoio, pensar, cantar e rezar 
serão semelhantes a atos mecânicos.
Podemos conjugar nossa Fé em trabalhos cerimoniais, com objetivos
determinados. Porém, trabalhando sozinho, o juremeiro conta com o auxílio
de outros entes – os espíritos das plantas e dos quatro elementos, todos
desejosos de servir e contribuir com o Trabalho Supremo.
Conta com Deus, primeiramente. Conta com os Mestres e Mestras,
desencarnados, trabalhadores, também plenos de Fé. Conta com a boa
vontade e obediência dos seres elementais que te instruem e auxiliam – 
você pode receber apoio dos seres encantados e, se você realmente for 
Mago ou Pajé, terá capacidade de ordenar aos espíritos elemetais do Fogo,
do Ar, da Terra e da Água e esses lindos espíritos te obedecerão e serão

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ainda mais felizes.
 Nossos pensamentos, bem orientados e alimentados espiritualmente,
transformarão nossas auras em escudos potentíssimos. Na Luz que brilhará
de nosso Ser, conscientemente tornado TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO,
muita gente poderá vir saciar a sede, inclusive espíritos necessitados de
cura.
A cura desses seres repercutirá em tua evolução e avançando em direção ao
Amor mais elevado, diversas entidades se elevarão junto contigo e a face
da Terra será transformada.
Cuida de teu corpo, de tua alma e de tua mente.
Tem Fé no Criador – no Princípio dos Princípios, Pai-Mãe de todas as
coisas visíveis e invisíveis – e acredita em ti mesmo, em teu potencial, em
tua capacidade de curar a si e aos demais.
Confia na Jurema, amado Irmão, amada Irmã... E SEGUE TEU CAMINHO.

Tenha Fé, tenha fé, tenha fé...


Suba a ladeira e não olhe pra trás...
 Pois de manhã, quando eu desço a ladeira...
Todos pensam que eu vou trabalhar...
as eu trago meu baralho no bolso,
eu patuá no pescoço...
 vou pra Macumba sambar!

Práticas: TRABALHOS DE LIMPEZA E PROTEÇÃO


Irmão ou Irmã, tu que estás começando a adentrar a Ciência de nossa
sagrada Jurema, presta bastante atenção nos recados que seguem:
É preciso vencer o medo. A imaginação assume formas medonhas quando
se sente medo, de modo que a maioria dos fantasmas que vemos é, em
realidade, criação mental nossa.
Imagens mentais podem ser aproveitadas por entidades espirituais com
 pouca evolução, para uma ou outra finalidade. E o medo, nesses casos,
novamente contribui com nossa debilidade.
Solidifica tua Fé na Força e no amor do Criador e nada temas.
Direciona tua vontade para a realização do Amor mais amplo possível e

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não tenha medo. Deus está contigo em todos os momentos de tua vida e,
como sempre dizem os Mestres, “ninguém pode mais do que Deus”.
Tu és Imagem e Semelhança do Criador. Então... Por que ter medo?
Segue mais uma prática, dessa vez para limpeza e proteção. Saiba, de
antemão, que tu podes realizar diversas limpezas e purificações tanto de
teus corpos quanto do ambiente em que tu vives – mas se você não elevar 
tua conduta moral, se não superar teus próprios limites e defeitos, se tu não
empunhares com firmeza a lança da Suprema Vontade que te conduzirá a
uma vida equilibrada, as defumações e os banhos não te manterão limpo por 
muito tempo.
A mais profunda limpeza a ser realizada é a interior. Essa, só tua Vontade e
teu Amor são capazes de realizar. Alimentos sãos, defumações, banhos
especiais poderão em muito te ajudar, mas você é o único que poderá
transformar radicalmente a si mesmo.
O Evangelho ensina que Jesus bate à porta de teu coração e aguarda
 pacientemente que você abra essa porta para que Ele possa cear com você.
Entretanto, somente a você cabe abrir a porta... Antes que o inimigo oculto
quebre as trancas e obscureça tuas virtudes.
Se após as limpezas não te empenhas em transmutar teus metais inferiores,
em breve os maus pensamentos agregarão ao teu redor uma nova casta de
 parasitas e em pouco tempo terás retornado à imundície.
Vamos ao exercício:
Usando preferencialmente roupas brancas e com toda a Fé de teu coração,
trace um hexagrama na terra. Uma das pontas da estrela deve estar voltada
 para o Nascente (leste).
Ao nascer do Sol, entra no hexagrama (Signo Salomão) e, de frente para Sol
nascente, respira profunda e vagarosamente. Deixa que o Avô Sol te
abençoe e purifique. Passe de quatro a cinco minutos nessa frequência,
agradece, e sai.
Esse é um método simples para defesa, limpeza e fortalecimento dos
corpos, que pode ser utilizado por você – seja catimbozeiro ou não.
Vejamos outra prática:
Trace do mesmo modo o Signo Salomão, envolvendo-o, dessa vez, com um
círculo. Acenda se possível, na ponta voltada para o Nascente, uma vela

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 branca. Se agache. Agachado, envolva o ambiente com a fumaça de te
cachimbo. Fumaçando, ergue teu corpo, pisa forte, com teu pé direito,
 pensando ou pronunciando firmemente “LUZ”.
Após purificar-se, se for o caso, coloca o irmão ou irmã necessitada dentro,
no centro da estrela – de modo que ele ou ela abra os braços em forma de
cruz, observando o Sol Nascente, respirando vagarosa e profundamente por 
um minuto. Enquanto isso, do lado de fora do signo, estando agachado,
aplica fumaça de cachimbo na direção dos pés de teu irmão ou irmã,
 pensando firmemente “CURA”. Ergue teu corpo, pisa forte, pensa o
 pronuncia “LUZ”.
A mistura utilizada no cachimbo pode ser a seguinte: tabaco, mescla,
alfazema, erva doce e girassol.
Que a sagrada Fumaça de Mato purifique e fortaleça teus corpos, tuas almas
e tuas mentes.
Agradece e CAMINHA.

Afinal de contas, quem são os mestres?


Para que não sobrem dúvidas a respeito de quem são os Mestres e Mestras
espirituais que atuam em nossa Tradição, nos apresentaremos de modo
simples e didático.
Os Mestres e Mestras são consciências espirituais que podem estar em
corpo físico (encarnadas) ou desencarnadas (“mortas”); não-encarnadas e
ainda encantadas.
Mestres em corpo físico , quando em expiação ou missão sobre a Terra,
nascido homem ou mulher.
Mestres desencarnados  são espíritos de catimbozeiros que passaram pela
experiência de morte e ainda não reencarnaram – mas que mantém contatos
 psíquicos e/ou mediúnicos com determinadas pessoas. Essas entidades – os
Mestres – possuem graus de consciência distintos, sendo uns mais
conscientemente emancipados que outros, devendo o médium ou o mago que
com eles trabalha saber lidar com TODOS – respeitosa, séria e
amavelmente, sendo capaz de instruir e orientar algumas dessas entidades
SEMPRE EM DIREÇÃO AO BEM.
Entre os desencarnados que atuam na Linha de Jurema, encontram-se, além

77
de finados mestres catimbozeiros e juremeiros, raizeiros, rezadores,
cangaceiros, parteiras, feiticeiros, boiadeiros, caboclos, médicos, padres,
freiras, ciganos, pretos e pretas velhas – espíritos que, de algum modo,
quando em corpo físico, devido a cultura e à região na qual viveram,
estabeleceram contatos e aprenderam algo com a Jurema Sagrada e ao
desencarnar ingressaram em nossas falanges.
Mestres não encarnados  são espíritos que pertencem a linhas evolutivas
 paralelas à humana, mas que nunca nascerão ou ainda não nasceram como
seres humanos. Nesse grupo encontram-se entidades elementais muito
antigas e com vasta sabedoria (devas, anjos da Natureza, guardiões da
fauna e da flora).
Esses grandes e antigos espíritos não devem ser confundidos com outros
seres astrais ligados aos quatro elementos da Mãe Natureza (silfos,
ondinas, salamandras e gnomos), que em sua maioria são livres das noções
de bem e mal que nós possuímos e experimentamos. Tais elementais
“menores” podem ser ordenados tanto para curar quanto para prejudicar – 
de acordo com a Vontade do Mestre, Mago ou Pajé que os manipule.
Justamente por sua inocência, esses amáveis seres não acumulam carma
como os seres humanos: esteja ciente o feiticeiro que deles abusar, que irá
 pagar caro pelos crimes que vier a cometer desvirtuando tão lindos e puros
espíritos.
Tanto pequenos como grandes guardiões da Natureza devem ser tratados
com muito respeito, amor, firmeza e reverência, mas não com adoração:
Devas são professores que acompanham o peregrinar humano – não são
Deuses. Só o Grande Espírito, Munhangara, DEUS, Jeová, o Criador de
Todas as coisas, é que deve ser adorado.
Entre os espíritos não encarnados manifestam-se em sessões de Jurema,
ainda que muito mais raramente, entidades espirituais de outras esferas
 planetárias que atuam em consonância ou sobre a Terra.
Quanto aos Encantados... ficarão para um próximo estudo!
Espero ter sido compreendido. Lembro, para finalizar, que Mestres não são
cascas astrais, vampiros astrais ou formas-pensamento que vagam na
atmosfera de terreiros e centros, sendo vez ou outra revitalizadas
energeticamente por médiuns ou maliciosamente manipuladas por espíritos
 perversos. É preciso desenvolver a capacidade de identificar e diferenciar 
o que realmente é uma consciência espiritual e o que não passa de restos

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astrais de desencarnados. Além de ser lícito questionar (com respeito,
seriedade e firmeza) supostos espíritos que se manifestem em nossas casas
de trabalho, mais importante que questionamentos é que oremos pedindo a
Deus que nos conceda o Dom do DISCERNIMENTO DOS ESPIRITOS (um
dos Dons do Espírito Santo) para que possamos sentir realmente o que é e o
que não é...
Salve a Jurema Sagrada!

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Conclusão:
BANHO DE SANGUE
Mestre de Jurema não bebe sangue, não “receita” banho de sangue, nem
exige sacrifícios de animais de quatro patas, ou bicho que rasteje, o
 pássaros, muito menos sacrifícios humanos.
Isso foi coisa que envolveu homens e mulheres de um passado remoto,
época de crenças grosseiras. Judeus, Quimbandas, Druidas... Creio que
ninguém escapou desse e de outros rudes momentos que só a evolução fez e
faz sanar. Não foram, muitos de nossos ancestrais, antropófagos? Chegará,
 porém, o dia em que até a carne dos animais menores estará longe de nossas
mesas.
Mestre juremeiro respeita o repouso dos mortos e reverencia o processo de
desagregação e reabsorção ao qual estão sujeitos os restos mortais dos
seres humanos – essa transição que neste Planeta chamamos “morte”. O
Mestre respeita e ama a Mãe Terra! Por isso, não invade cemitérios à
 procura de cadáveres para realizar trabalhos escusos ou para qualquer 
outro fim. Quem receitar ou pedir tais coisas (afirmando ser juremeiro) – o
estará sendo enganado, ou estará enganando! Fiquem atentos, meus filhos e
filhas! Eis um importante alerta!
Houve época em que muitas coisas estavam misturadas, embaralhadas,
muito mais do que estão hoje. A ignorância humana nos obriga a ladear o
mal – embora sem compactuar com ele.
Ora, em uma mesma família, nascem e convivem um bom e um mau filho. Se
Deus os separasse, se o Criador, por exemplo, colocasse as pessoas boas
em um país e as más em outro, através de que exemplos e sacrifícios e
intercessões os fracos e vazios tornar-se-iam fortes e iluminados? Com a
ajuda de quais professores a ignorância seria superada? Subsistiria um
mundo no qual só existissem assassinos pervertidos e possessos?
O Cristo veio ao mundo em forma de homem e as trevas não O
compreenderam. Mesmo assim, Sua Presença continua Iluminando o
Planeta. E as trevas daqui se esvaem.
Entenda meu querido Irmão, minha querida Irmã, que em níveis mais

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elevados de existência, não existe mal. Neste mundo, entretanto, o mal se
torna muito sensível – embora não passe de uma grande e superável ilusão.
Estude a Árvore cabalística da Vida e compreenda: existe Justiça! Existe
Misericórdia! Existe AMOR e SABEDORIA! E existe o que transcende
nossa atual capacidade de entendimento.
 Não esqueça que o diabo é Deus ao inverso: se Deus é onipotente, o diabo
é impotente; se o Criador é onisciente, o diabo é incapaz de tudo saber; se
DEUS É A ORIGEM DO TODO, o diabo não origina ou gera ou cria nada,
consequentemente é um ser impotente e inexistente. Deus Existe. O Diabo
inexiste.
O “Rei dos Infernos” é um fantasma gerado pela dúvida humana perante o
(então apresentado de modo assombroso) abismo do desconhecido.
Iniciados decadentes com finalidades ególatras adulteraram ritos e
macularam manifestações exteriores do Grande Arcano. Com o tempo,
muitas chaves foram perdidas ou escondidas para não serem profanadas; e
as reflexões sobre o que não mais se sabia geraram medo e do medo
nasceram milhares de fantasmas.
Uma vez alimentados por tua cultura, por teu sangue, por teu sêmen, por tua
inocência, ignorância ou maldade – uma vez revigorados por teu MEDO – 
tais fantasmas adquirem forças para te escravizar e arrastar para o Abismo.
A vida virtual que possuem poderá sugar tua vitalidade real.
 Não permita que tua Luz seja ofuscada por essa categoria de formas-
 pensamento. Também não se submeta a entidades cruéis que roubam tuas
energias para ficarem mais próximos da esfera dos encarnados
 prejudicando pessoas. Os conhecimentos que esses entes te oferecem são
 NADA em comparação à conquista da GNOSE e a SANTA CABALA, a
JUREMA SAGRADA e a VIDA ETERNA a que estamos destinados. Seja
forte! Tenha Fé!
Tu és imagem e semelhança de Deus. Em realidade, estás muito acima
dessas formas e visões ilusórias, limitadas, limitadoras e rivais que há
séculos voltam pessoas umas contra as outras. Portanto, se demandarem
contra ti, não revides com arma semelhante a do agressor! Se te lançam
feitiços, responde com bênçãos e orações. Contra-ataque com cura!
Bloqueie a ação da maldade, desfaça a ignorância e abençoe e isso basta – 
nessa guerra que em essência não existe, o Bem desde sempre é vencedor,
enquanto o mal por si só se destruiu. SÓ A LUZ É ETERNA, SÓ O AMOR 

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É REAL. E Tu és LUZ. Porém, estás esquecido disso.
Recobra tua Consciência Divina, entra em sintonia com o Universo,
valorizando o Deus que pulsa dentro de ti e de todos os que estão distantes
ou próximos. Acorda! O tempo na Terra é curto e ainda temos muito que
fazer.
Que nosso senhor Jesus Cristo te abençoe!
Que o Pai Jurupari esteja contigo e com os teus.
Que a Mãe Divina e todas as suas manifestações de Amor envolvam tua
geração.
Que nossa amada Jurema Santa e Sagrada, te cubra de Luz, Ciência e Amor!

Manicoré R+

Anexo:
ICONOGRAFIA
Imagens do Pai Raimundo Tavares

82
'

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Raimundo Tavares foi um dos grandes Mestres de Catimbó-Jurema de duas
gerações antes da nossa. Suas sessões possuíam, além de Jurema, elementos
de Pajelança do Norte do Brasil e de feitiçaria e encantaria ibéricas. Filho
do Mestre José Tavares, Raimundo também trabalhava com Umbanda e
Candomblé.

Imagens da Mestra Maria Fernandes

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Festa de “Beijinho” (Ibeji, São Cosme e Damião) realizada no Centro
Espírita de Umbanda Caboclo Zé Pelintra e Caboclo Panema
(Canguaretama/RN).

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Maria Fernandes em seu Centro, manifestando o Caboclo Panema –
também conhecido como Mestre Tertuliano.

Fernandes, sua filha Maria Chaguinha e seu esposo, são três de meus
maiores professores e mestres de Jurema e folclore Norte-rio-grandense.

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Toré de Caboclo, no Centro Espírita de Umbanda Caboclo Zé Pelintra e
Caboclo Panema.

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Pai Raimundo Tavares considerava Maria Fernandes sua filha de fé mais
avançada. A única capaz de desmanchar trabalhos malignos dos mais
terríveis.

(Todas essas imagens me foram cedidas pela própria Maria Fernandes.


Infelizmente não disponho das datas das fotografias).

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