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A∴A∴

Publicação em Classe B
Imprimatur
N. Fra: A∴A∴

2
O OLHO DE HOOR
Jornal de Pesquisas Thelêmicas
Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.
Amor é a lei, amor sob vontade.
A palavra da lei é


VOLUME . I . NÚMERO . 5 .

COLÉGIODOESPÍRITOSANTO
JUIZ DE FORA MMXV e.v. An 113

3
O OLHO DE HOOR
JORNAL DE PESQUISAS THELÊMICAS
VOLUME I – NÚMERO 5
_______________________________________________________
© 2018 Fernando Liguori
© 2018 Outer College Brasil
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Outer College Brasil
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Impresso no Brasil.
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para Outer College Brasil.
O OLHO DE HOOR é uma publicação do Outer College Brasil, linha da
A∴A∴ de Frater Set-Apehpeh, 246 ∵,que aborda temas sobre
Magia, Tarot, Qabalah, Filosofia de Thelema, Tradição Tântrica,
Yoga, Āyurveda e temas conectados com o Ocultismo Thelêmico.

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O OLHO DE HOOR
Jornal de Pesquisas Thelêmicas
Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.
Amor é a lei, amor sob vontade.
A palavra da lei é


VOLUME . I . NÚMERO . 5 .

COLÉGIODOESPÍRITOSANTO
JUIZ DE FORA MMXV e.v. An 113

5
O OLHO DE HOOR é um Jornal de Pesquisas Thelêmicas publicado
pelo Outer College Brasil, linha de transmissão da A∴A∴ represen-
tada por Frater Set-Apehpeh, 246 ∵ 7°=4, atual Praemonstrator.
Existem rumores de que a A∴A∴ se desfragmentou após a
passagem de Crowley e Germer. Para todos os efeitos a A∴A∴ não
cessou sua existência, fechou suas portas ou se desfragmentou.
Ela se transformou em uma organização mais thelêmica, ofere-
cendo diversidade de pensamentos ao invés de uma estrutura
rígida.
A A∴A∴ é como uma árvore cujas raízes são fundamentadas
nos escritos de Crowley, mas cujos galhos cresceram em distintas
direções, produzindo frutos diferentes que se tornaram as linhas
modernas de transmissão. Nesse processo é possível que milhares
façam parte da Ordem sem necessariamente pertencerem a uma
mesma linha de sucessão. Essa é a beleza da A∴A∴: a Ordem não
monopoliza ou mercantiliza a Verdade. Por ser eclética em sua
abordagem, ela ajuda milhares de Candidatos a realizarem suas
Vontades. Não se trata de um seleto grupo de pessoas que tentam
monopolizar a Lei de Thelema. Essa é a verdade e se não era essa
a intenção de Crowley ao fundar a Ordem, ela evoluiu muito mais
em noventa anos do que em sua época e nos últimos quarenta
anos nunca existiu um líder unanime para todas as linhas. Que
seja sabido de uma vez por todas que a liderança da A∴A∴ se
encontra nas mãos dos Chefes Secretos e não nas mãos de seus
membros. A A∴A∴ é uma linda árvore que cresce. Seus galhos se
espalham pelo espaço nas mãos de Adeptos capazes de instruir
novos Candidatos a realizarem sua Verdadeira Vontade, satisfa-
zendo as necessidades de thelemitas espalhados por todo o Globo.
De um modo geral, é verdade, o Candidato sempre é atraído pela
linha que melhor se adapta as suas necessidades.
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CONTEÚDO

Editorial 9
Frater Set-Apehpeh
A Apropriação de Belithor 51
Frater Set-Apehpeh
A Jornada do Louco 67
Frater Set-Apehpeh
A Jornada do Mago 143
Frater Set-Apehpeh
O Mago 233
Frater DaimonOz
Bibliografia 241
Manifesto da A∴A∴ 247

7
Mahātma Guru Paramahaṃsa Śivajī
«Aleister Crowley»

8
EDITORIAL

Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.

B
em vindo a mais uma edição do JORNAL DE
PESQUISAS THELÊMICAS, O OLHO DE HOOR. Esse é
um projeto do Outer College Brasil, linha da
A∴A∴ transmitida por Frater Set-Apehpeh, 246 ∵
7°=4. Desde o fim de 2012 E.V., devido aos aconte-
cimentos – espirituais - nada peculiares daquela
época, um Adepto Maior da A∴A∴, Frater ON120,
iniciou sua jornada pela maestria da magia. Essa é a
tarefa mágico-espiritual do Adepto Maior, tornar-se
um mestre na arte da magia, aperfeiçoando sua Ver-
dadeira Vontade. Desde o início de sua jornada,
quando começou como Frater IAO777, um Proba-
cionista da Santa Ordem, pressa nunca foi a regra. Da
mesma maneira e com o mesmo foco desde o início,
Frater ON120 não previa o fim de sua tarefa – se é
que podemos falar de uma tolice medonha como
essa: findar a tarefa de qualquer Grau na A∴A∴ es-
tando na legião dos vivos1 – até dezembro de 2017

1No Sistema de Iniciação da A∴A∴ as tarefas dos Graus são feitas


e refeitas na jornada da iniciação. Por vezes, deixamos um traba-
9
E.V.No fim de 2017 E.V. a mãe de Frater ON120, uma
Neófita da A∴A∴, foi vítima de um acidente quase
traumático. Por intermédio de forças hostis1 a cons-
ciência humana, ela foi atropelada e se encontrava
gravemente ferida. Desse atropelamento resultou
em um coágulo no cérebro que deveria ser drenado
via intervenção cirúrgica. Essa intervenção poderia
deixar sequelas terríveis em seu cérebro, podendo
se manifestar de maneira imprevista pelos médicos.
A intervenção cirúrgica também poderia fazê-la
deixar a legião dos vivos e caminhar ao mundo dos
mortos. Diante deste quadro clínico, Frater ON120
viu-se obrigado a intervir por meio de magia.
Medo e Coragem. Uma mistura alquímica pode-
rosa. Frater ON120 decidiu enfrentar àquele que foi,

lho de lado para nos dedicarmos a outro e quando avançamos,


temos necessidade de voltar, reaprender e refazer certas tarefas.
A iniciação é um processo de amadurecimento onde o Adepto faz
e refaz o caminho muitas vezes.
1 O atual ponto de vista ou cosmovisão adotada por Frater Set-

Apehpeh, 246 ∵ neste momento de sua iniciação é animista. Isso


significa que o Adepto acredita que uma criatura espiritual malig-
na, um kakodaimon, atacou sua mãe.
Se a Tarefa do Adepto Maior é se tornar um Mestre em Magia, a
cosmovisão idealista oferecida pela A∴A∴ é ineficaz, pois se trata
de misticismo ritualístico ou teurgia. Frater Set-Apehpeh, 246 ∵
acredita que a cosmivisão animista é a mais adequada a prática da
magia, enquanto que a cosmivisão idealista é adequada ao misti-
cismo e trabalhos de transcendência.
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até então, o seu maior desafia na magia: salvar a vida
de sua progenitora. Armado com sua Coragem ele se
preparou para o pior, mas colocou a disposição de
sua mãe o melhor que poderia oferecê-la através de
uma operação mágica. O relatório desta experiência
bem sucedida de teurgia-goécia está no texto A A-
PROPRIAÇÃO DE BELITHOR, que abre a presente edição.
A Coroação dessa jornada mágica deu início o
processo de iniciação ao Grau de Adeptus Exemptus
na A∴A∴ onde Frater ON120 assumiu – no trabalho
mágico-espiritual interior – o lema-nome-da-arte de
Frater Set-Apehpeh, 246 ∵ 7°=4. 246 é o número de
RVM (mwr), que significa ápice, o mais elevado ou
superior. Este nome refere-se ao Sacerdote do San-
tíssimo e Absoluto Deus, El (AL), ungido um Melchi-
zedek. Set-Apehpeh é o nome de sacerdócio do Culto
de Set-Tifon restaurado na 26° Dinastia do antigo
Egito pelo Sacerdote Ankh-af-na-Khonsu cujo traba-
lho iniciático foi preservado na Estela da Revelação
cuja ativação teúrgica é O LIVRO DA LEI. É interessante
também que 246 é o número da palavra latina pater,
que significa pai. Essa palavra está etimológicamente
conectada ao nome egípcio do deus Ptah. A conjun-
ção sonora das duas primeiras letras do nome de
Ptah representam a ejaculação ou emissão da Pala-
vra Mágica criadora.

11
Se Maestria em Magia é requerida para o avanço
do Grau de Adeptus Major para o Grau de Adeptus
Exemptus, a formulação de uma Tese Mágica é re-
querida para que o Adeptus Exemptus avance em seu
caminho.
A TESE MÁGICA DO
ADEPTUS EXEMPTUS
Tradicionalmente, ao conquistar a iniciação de Che-
sed na Santa Ordem A∴A∴, o Adeptus Exemptus pre-
cisa produzir sua Tese Mágica sobre o Universo an-
tes de entrar na Ordem Interna da A∴A∴ acima do
Abismo. É quando o Adepto alcança o Grau de Ere-
mita na intenção de completar as últimas duas luas
do sistema de Abramelin, que é o Conhecimento &
Conversação com o Sagrado Anjo Guardião. O reque-
rimento dessa Tese foi primeiro mencionado por
Aleister Crowley em THE EQUINOX, Vol. III, No. 1,
quando expõe um novo Currículo para A∴A∴: O A-
deptus Exemptus possuirá conhecimento total de
todas essas instruções e apresentará uma tese pró-
pria, como epítome geral de sua própria realização
como refletida na esfera da mente. Algum tempo
depois Crowley escreveu um ensaio intitulado UMA
ESTRELA À VISTA que também continha referências a
Tese Mágica do Adepto: O Adepto deve preparar e
publicar uma tese declarando Seu conhecimento do
12
Universo e Suas propostas para seu bem estar e pro-
gresso. Ele será assim conhecido como dirigente de
uma escola de pensamento.
Fora essas passagens, Crowley escreveu quase
nada sobre o assunto. De muitas maneiras, a palavra
tese explica a si mesma: um trabalho conciso que
abranja todo o escopo de uma escola de pensamento
e os meios pelos quais é possível a emancipação
espiritual. No caso do Adepto Exempto da A∴A∴, a
Tese Mágica do Universo deve resumir o entendi-
mento prático e intelectual de todo o Currículo da
Ordem, do Grau de Estudante a Adepto Exempto.
Sempre que meus alunos me perguntam sobre a
natureza dessa Tese, eu a comparo a monografia de
fim de doutorado que todos têm de fazer para serem
considerados doutores.
Muitos pesquisadores argumentam que Crowley
falou pouco sobre a Tese do Adepto porque ele não
iniciou nenhum de seus discípulos, Grau por Grau,
até o Adeptus Exemptus 7°=4. Caso ele houvesse,
teria escrito alguma instrução mais detalhada sobre
a natureza dessa Tese. Outros ainda argumentam
que ele tocou pouco no assunto porque não foi capaz
de produzir, por si mesmo, sua própria Tese do Uni-
verso. Parece que ele decidiu tomar o caminho mais
fácil ao dizer que havia cumprido a Tarefa da Tese.
Crowley alegou que em sua prévia encarnação ele foi
Éliphas Lévi e que sua Tese Mágica sobre o Universo
13
foi a obra de Lévi que ele traduziu do francês para o
inglês, A CHAVE DOS GRANDES MISTÉRIOS que seria exa-
tamente o que ele iria escrever na sua presente en-
carnação. O problema dessa declaração infantil de
Crowley é que ela dá margem para outros Estudan-
tes da Ordem fazerem o mesmo tipo de alegação. De
minha parte, Crowley produziu sim três Teses Mági-
cas que cumprem a Tarefa do Adeptus Exemptus,
sendo elas A VISÃO & A VOZ, LIBER ALEPH e AS CONFIS-
SÕES DE ALEISTER CROWLEY.
No entanto, é interessante notar que o conceito
dessa Tese Mágica sobre o Universo por parte de
Crowley e muitos thelemitas dos dias de hoje é base-
ado nas premissas ou é interpretado sob a luz do
Velho Aeon. Na cultura thelêmica, quando esse tema
é abordado, muitos citam obras como A CHAVES DOS
GRANDES MISTÉRIOS de Lévi, OS PRINCÍPIOS DO CONHECI-
MENTO SUPREMO de Karl Von Eckartshausen e outros
autores como Paracelso (1493-1691), Swedenborg
(1688-1772) etc. Muitos thelemitas hoje em dia
ainda se apegam a antigos conceitos, ideias e símbo-
los do Velho Aeon. Embora não exista nada de novo
sob o Sol, os símbolos são interpretados de maneira
distinta na medida em que os paradigmas da huma-
nidade evoluem. Assim, sobre a Tese Mágica, é ne-
cessário abordarmos o assunto sob a luz do Novo
Aeon. Nós não podemos nos esquecer de que Aleis-
ter Crowley foi um homem nascido e criado no Velho
14
Aeon. Quando ele experimentou seu primeiro ponto
de transição – ou o Retorno de Saturno – ele possuía
apenas 29 anos, ocasião em que ocorreu o advento
do Aeon de Hórus. Ainda, o sistema de magia sobre o
qual ele edificou as fundações de sua Pirâmide Mági-
ca foi a Ordem Hermética da Aurora Dourada, que
ensinava e praticava amplamente o simbolismo ini-
ciático do Velho Aeon. O sistema de iniciação da
A∴A∴ herdou muito do sistema da Ordem Hermética
da Aurora Dourada, no entanto, O LIVRO DA LEI reco-
menda que todos os rituais, ordálios, palavras e si-
nais do Velho Aeon sejam completamente abolidos.
Se este é o caminho que devemos todos seguir, por
que os thelemitas continuam citando Teses Mágicas
do Velho Aeon?
Se essa Tarefa no Novo Aeon é distinta da Tarefa
do Velho Aeon, ela é talvez mais difícil agora do que
em outra época. Diferente das Teses Mágicas basea-
das nas premissas do Velho Aeon, no Novo Aeon o
Adepto deve produzir uma Tese Mágica que reflita
todas as suas necessidades de evolução, não as ne-
cessidades da humanidade. A Tarefa continua a
mesma no sentido que o Adepto deve fazer uma tese
mágica e filosófica que reflita seu conhecimento
sobre o Universo. Em LIBER LXI VEL CAUSAE, Crowley
diz quando se refere ao Adeptus Exemptus: certo
grau exaltado, pelo qual um homem se torna o mestre
do conhecimento e da inteligência, e não mais o seu
15
escravo. A indagação é, portamnto, qual o tipo de
conhecimento e inteligência que nos tornaria livres?
Se o simples fato de escrever uma tese com insi-
ghts de profundo entendimento de teorias acerca do
Universo faz de alguém o líder de uma escola de
pensamento, então isso corrompe a autoridade inici-
ática de qualquer Adepto que cumpra o Currículo
completo da A∴A∴. A teoria geral sobre a Tese do
Adepto no Velho Aeon se baseia no fato de que gran-
de parte da humanidade era completamente igno-
rante do Universo. A Terra era plana e o Sol girava
em torno dela. No Aeon de Peixes o Planeta começou
a ser explorado e o céu começou a ser desbravado. A
humanidade estava esperando o conhecimento que
cada explorador adquiria sobre o Universo conheci-
do. Essa é a chave! A maioria dos grandes autores
escreveu sobre leis naturais, nos termos mágicos ou
filosóficos, sobre o Universo. Os planetas, as galáxias,
luas, sois e a nossa relação com eles. Na premissa
hermética como é acima também é abaixo, a humani-
dade no Velho Aeon empreendeu pesquisas sobre o
que está acima, quer dizer, o macrocosmo. No entan-
to, no Novo Aeon cada homem e cada mulher é uma
estrela.1 A Tese do Adepto no Novo Aeon é, dessa
maneira, sobre o Universo microcósmico, o que está
abaixo.

1 LIBER AL, I:3.


16
Tudo abaixo do Abismo – principalmente no Grau
de Amante – é batizado pela dualidade. Eu utilizo a
palavra batismo porque tem sido considerado que
uma cerimônia de batismo deixa uma marca ou im-
pressão na Alma. Portanto, tudo àquilo que se mani-
festa abaixo do Abismo tem a característica única,
como uma marca de nascença peculiar, que é a dua-
lidade. E o que isso tem a ver com a Tese Mágica do
Adepto. Como a dualidade, a Tese do Adepto tem
uma dupla natureza. A primeira parte da Tese Mági-
ca lida com Malkuth e as Leis do Universo de cada
Adepto, da Estrela de cada um. Trata-se de um estu-
do minuciosamente científico sobre a Alma em sua
presente encarnação, desde a infância até a vida
adulta, cumprindo a máxima de Sócrates: conheça a
ti mesmo. A segunda parte da Tese Mágica lida com o
Abismo e da experiência dolorosa do Adepto na
secura espiritual que ele proporciona, um período
que pode levar não somente meses, mas anos. Essa
experiência, no entanto, não pode ser inferida abaixo
do Abismo, pelo menos não de maneira convencio-
nal. A linguagem do Eu Superior é arquetípica e está
muito além do construto mental. No entanto, seu
conteúdo pode se manifestar através de certa genia-
lidade na poesia, na pintura, na música ou qualquer
tipo de arte onde o Ego é completamente eclipsado
pela Natureza Superior do homem, permitindo a
gnose se manifestar através dele. Essa segunda parte
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da Tese Mágica sobre o Universo encerra os segre-
dos mais profundos da encarnação de cada Adepto e
somente pode ser finalizada por alguém que tenha
Cruzado o Abismo com proficiência adequada.
De muitas maneiras o sistema de magia de A-
bramelin se aproxima da abordagem do Novo Aeon
para o cumprimento da primeira parte da Tese do
Adepto. Ele ensina o magista a repensar toda sua
encarnação através de preces diárias e estudos espi-
rituais. O que Abramelin quer claramente com seus
métodos é que o magista se torne completamente
consciente das Leis de seu Universo na busca orien-
tada a Deus e ao Sagrado Anjo Guardião. No sistema
o magista é encorajado a falar com Deus acerca de
absolutamente tudo em sua vida, sem fazer distinção
entre seus aspectos positivos e negativos. Nada deve
ser deixado de fora dessa aproximação íntima com o
Sagrado. O Adepto, portanto, deve se esforçar em
explorar toda a sua memória, desde o dia de seu
nascimento até àquele momento da iniciação em
Chesed. Se este ordálio for vencido com proficiência
e o Adepto ter construído uma Fundação clara de
toda sua encarnação até o ponto em que ele se en-
contra, então ele terá realizado parte da Tarefa do
Adeptus Exemptus, a primeira parte de sua tese so-
bre o Universo. É quando ele deixa de ser escravo!
Dessa maneira, como o leitor pode inferir, a Tese
Mágica do Adeptus Exemptus é sua autobiografia. Ela
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deve conter tudo o que o Adepto aprendeu sobre si
mesmo, portanto, ele precisa colocar todo seu cora-
ção e sua Alma no cumprimento dessa Tarefa. A-
bramelin insiste que esta não é um trabalho para
amadores, mas magistas sérios e dispostos a ir onde
poucos têm coragem ou aptidão.
Aleister Crowley se esforçou em produzir esse ti-
po de reflexão durante toda sua vida e isso foi muito
bem documentado em O TEMPLO DO REI SALOMÃO, que
ele publicou periodicamente e em AS CONFISSÕES DE
ALEISTER CROWLEY. Quando Crowley assumiu o Grau
de Mestre do Templo em 1906, levou alguns anos até
que ele conseguisse de verdade estabelecer cone-
xões com os Chefes Secretos acima do Abismo no
caminho de entender, aceitar, organizar e cumprir o
objetivo de sua encarnação, sua Verdadeira Vontade.
Foi somente em 1923, quando publicou AS CONFIS-
SÕES DE ALEISTER CROWLEY, é que sua compreensão
acerca do Sagrado Anjo Guardião começou a mudar.
Ele acordou para o fato que o Ente Guardião que ele
considerava ser o seu Eu Superior era, de fato, uma
entidade completamente a parte de seu universo.
Neste ponto, precisamos voltar nossa atenção a
uma indagação-chave. A palavra exemptus vem do
latim isento, assim, um Adeptus Exemptus 7°=4 na
A∴A∴ está isento de que? Embora seja pouco sabido,
essa indagação tem sido debatida por anos e dela
nasceram uma miríade de teorias complexas sobre
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uma ideia simples e nada complexa que se alastra-
ram como uma erva daninha por muitas partes. Os
ocultistas modernos que têm tentado responder essa
indagação estão produzindo livros e ensaios que os
fazem parecer que estão dançando ao redor de uma
fogueira, produzindo murmúrios filosóficos sem
sentido algum. Isso diz muito sobre eles!
Na edição anterior eu discuti o simbolismo da
Quadratura no Círculo. Em cada um dos Graus da
A∴A∴, o Candidato a Iniciação deve controlar as
forças magnéticas do Quadrado «» e se orientar em
devoção ao Sagrado, o Círculo «°». No caso do Adep-
tus Exemptus 7°=4 A∴A∴, ele devota toda sua aten-
ção e aspiração espiritual a Netzach (Vênus) enquan-
to controla as forças de Chesed. Isso se repete em
todos os Graus da A∴A∴. Neste caso aqui, o Eu Supe-
rior (Tiphereth, Geburah e Chesed) precisa de um
veículo, o Eu Inferior, a Personalidade (Hod, Netzach
e Tiphereth). Espera-se que um Adeptus Exemptus já
tenha efetivado completamente essa Tarefa. No Ca-
minho de realizá-la, como um Philosophus 4°=7
A∴A∴ ele colocou seu Ego sob controle para trans-
formá-lo em um veículo para o Sagrado.
Netzach e Chesed são conectadas pelo Atu X, A
Roda da Fortuna. Este é um Caminho que deve ser
amplamente pesquisado por cada Adepto antes de
assinar o Juramento do Abismo. O aprofundamento
no Caminho de Kaph ensina que, seja lá o Grau de
20
evolução espiritual de cada um, enquanto estiver-
mos encarnados em carne e osso, seremos todos
vítimas do pêndulo de rāga e dveṣa, quer dizer, ape-
go e aversão. Todos os «Graus» abaixo do Abismo
são, em realidade, estados de evolução conectados a
Malkuth. Isso nos leva a outra consideração: nin-
guém pode se encontrar além do Abismo mental e
espiritualmente enquanto estiver encarnado em
carne e osso. Portanto, Cruzar o Abismo é um termo
técnico no escopo filosófico de Thelema que quer
dizer: criar conexões espirituais além do Abismo.
Dessa maneira, nenhum Mestre do Templo está
efetivamente acima do Abismo. O Mestre do Templo
é um Adeptus Exemptus que estabeleceu conexões
além do Abismo. Afirmar o contrário seria uma idio-
tice sem sentido. Habitar acima do Abismo é perder
o corpo físico. O Adeptus Exemptus estabelece cone-
xões além do Abismo que lhe permitem receber a
gnose que vem de lá, a Sabedoria e o Entendimento
de todas as eras. Quando o Caminho de Kaph está
completamente compreendido e a Roda da Fortuna
gira em seu devido lugar-eixo, então é possível com-
preender com mais profundidade as lições do Cami-
nho de Vav (Atu V, O Hierofante) que conecta Che-
sed, a esfera do Adeptus Exemptus, a Chokmah, a
esfera imediatamente acima do Abismo, do Magus. O
Caminho de Vav é o Caminho da Escuta Espiritual, da
recepção do verdadeiro Conhecimento & Conversa-
21
ção com o Sagrado Anjo Guardião, pois o Adeptus
Exemptus recebe a gnose ou Conhecimento que vem
além do Abismo. Para tal ele precisa estar isento da
dualidade que aprisiona a consciência em Malkuth.
No estrito senso, assinar o Juramento do Abismo
na intenção de cruzá-lo é o início de uma jornada
iniciática onde o Adepto começa a estabelecer cone-
xões além do Abismo. No entanto, para assinar o
Juramento do Abismo o Adepto deve possuir um
veículo adequando que possa suportar as Forças que
vêm de cima do Abismo, caso contrário ele se quei-
mará, da mesma maneira que fios finos queimam
quando recebem uma carga muito maior de energia
do que àquela que eles poderiam suportar. Dessa
maneira, todos devem se perguntar: será que estou
devidamente preparado para suportar as Forças que
vêm além do Abismo? Todos nós começamos no
caminho como pequenos e delicados fios. Isso signi-
fica que nossas nāḍīs, as torrentes de energia vital
que temos em nossa estrutura psíquica, precisam ser
trabalhadas. Na Árvore da Vida microcósmica, essas
nāḍīs são os Caminhos. Os Candidatos a Iniciação do
Abismo devem se preparar, fortalecer suas torrentes
de energia através de yoga, operações de magia e
proficiente deslocamento do Corpo de Luz por todos
os Caminhos, compreendendo a dinâmica e fluxos de
energia por toda a Árvore da Vida. É isso que irá
prepará-los para este ordálio final.
22
Nas edições de O OLHO DE HOOR, Frater Set-
Apehpeh, 246 ∵ compartilhará sua Tese Mágica. Ela
trata, em um primeiro momento, dos Caminhos na
Árvore da Vida acionados pelo misticismo thelêmico
do Sistema da A∴A∴ e O.T.O.1 Em um segundo mo-
mento, a Tese Mágica examinará todo o Sistema de
Iniciação da A∴A∴, encontrando falhas e propondo
soluções. O Outer College Brasil atualmente propõe
muitas atualizações no Sistema de Iniciação propos-
to pela A∴A∴. O objetivo dessa Tese Mágica é, por-
tanto, apresentar uma revisão e atualização na es-
trutura da Santa Ordem. O Caminho nós temos, O
LIVRO DA LEI.
Uma dessas mudanças consiste no trabalho com
duas Fórmulas Mágicas: a Fórmula Mágica de Theri-
on e a Fórmula Mágica de Babalon. Para um enten-
dimento melhor dessas duas Fórmulas Mágicas, o
leitor terá de compreender o fluxo energético ou a
interação entre os três Pilares de nossa Árvore da

1 Frater Set-Apehpeh, 246 ∵ executou durante quinze anos regu-


larmente os Rituais de Iniciação da O.T.O., a Missa Gnóstica e a
magia sexual fálica ensinada na Ordem. Através deste aprofun-
damento, o Adepto compreendeu que existem arcanos de inicia-
ção profundos na O.T.O. de utilidade fundamental aos Irmãos da
A∴A∴. O Outer College Brasil utiliza indiscriminadamente os
arcanos da O.T.O. para suprir os Irmãos da A∴A∴ com conheci-
mento dos Segredos da Ordem. Veja o livro RITUAIS, DOCUMENTOS &
A MAGIA SEXUAL DA O.T.O. (Liguori).
23
Vida interior. O Pilar da Mão Direita direciona a cor-
rente de energia para cima, o Pilar da Mão Esquerda
dirige o fluxo de energia para baixo. No Pilar Central
o fluxo da corrente de energia pode tanto subir
quanto descer. Os qabalistas do passado já haviam
nos ensinado que seja lá o Pilar que esteja sendo
usado, nós devemos trazer a energia de Tiphereth,
localizada no centro do Pilar do Meio. Se existe falha
na consecução Solar, é difícil erguer nossa estrutura
inferior e o resultado é a estagnação. Isso pode ser
equiparado ao trabalho no kuṇḍalinī-yoga. Os Pilares
das Mãos Esquerda e Direita relacionam-se direta-
mente a īḍā e piṇgalā-nāḍīs, quer dizer, as correntes
negativa e positiva que se intercruzam ao longo do
Pilar Central, a suṣumnā-nāḍī. É na coluna central
que HAD sobe como a kuṇḍalinī que dorme no mūlā-
dhāra-cakra. Este cakra encerra o Deus Oculto (Sol)
que desperta ou deslacra a Chave da Magia do Novo
Aeon.
O Pilar da Mão Direita (feminino) e o Pilar da
Mão Esquerda (masculino) são caminhos opostos
que se conectam ao Sol-Central de nossa Árvore.
Quando essa conjunção ocorre perfeitamente em
Tiphereth, Babalon e Therion comungam unidos. Na
Fórmula Mágica de Therion a esfera de Hod tem um
papel fundamental. Na Fórmula Mágica de Babalon,
Netzach é o pivô do trabalho mágico. A cada uma
dessas Fórmulas Mágicas uma série de Caminhos e
24
Sephiroth têm de ser trabalhados. Na Fórmula de
Babalon (156), os Caminhos principais são: A Torre,
Morte, A Roda e O Hierofante. Na Fórmula de Therion
(418), os Caminhos são O Aeon, O Diabo, O Pendura-
do e O Carro. A Fórmula 418 está associada a Palavra
Abrahadabra.
A FÓRMULA MÁGICA DE THERION
Abrahadabra é uma Fórmula Mágica masculina por
conta dos Caminhos e Sephiroth que ela implica,
localizados no Pilar da Mão Esquerda, e tembém por
causa das implicações do sêmen. Had, o centro da
fórmula, é masculino em oposição a Nu (Nuit), a
Deusa. Embora negativo em natureza, Had não é
feminino. Isso significa que a mulher não pode reali-
zar a Grande Obra através de Abrahadabra? Não se
trata disso. Embora Abrahadabra seja uma Fórmula
Mágica masculina, não significa necessariamente que
somente homens estão aptos a praticá-la, pois uma
vez que ambos homem e mulher têm as qualidades
dos dois sexos, quer dizer, de toda estrutura da Ár-
vore da Vida, ela pode ser executada pelos dois. A-
brahadabra é a recompensa de nosso ruach interior,
a Fórmula Mágica da Grande Obra onde homens e
mulheres são trazidos ao limiar do Novo Aeon atra-
vés do Guia Seguro ou Sagrado Anjo Guardião. So-
mente depois disso é possível receber a corrente

25
mágica feminina do Novo Aeon da Filha.1 Somente
através da consecução Solar será possível as mulhe-
res thelemitas compreenderem e executarem a Fór-
mula Mágica de Babalon em toda sua grandeza.
Nos termos de Aleister Crowley não é difícil
compreender a Fórmula Mágica de Abrahadabra. Ela
explica como o Pai (o primeiro Abra) reproduz a si
mesmo no Filho (o segundo Abra). Trata-se, portan-
to, da projeção da Palavra Mágica. Nos termos do
Velho Aeon, do nascimento do Cristo, a Palavra
(Nous) do Pai. Nos termos da magia sexual thelêmi-
ca, essa Fórmula Mágica ensina como o Adepto, em-
poderado pelo Sagrado ou vestido de Deus utiliza
sua Palavra (sêmen) para cumprir seu destino tra-
zendo a vida seu Filho ou a ereção de seu Falo, que
como Crowley diz em LIBER ALEPH, é o estreito Portal
de Ouro Puro. Ao ouro atribui-se a regência do Sol.
Na língua egípcia, Abra (Ab, a Alma e Rá, o Sol) signi-
fica a Alma de Rá ou Essência do Sol, que na magia
sexual de Aleister Crowley é o sêmem. Toda essa
doutrina foi explorada em detalhes por Crowley em
LIBER ALEPH.
Crowley refere-se a Had em LIBER ALEPH como o
Triângulo ereto sobre Quadrados gêmeos. Had é uma
palavra composta por três letras no centro de duas

1Veja o livro CORRENTE 93: A CORRENTE SOLAR DO NOVO AEON (Li-


guori).
26
palavras de quatro letras. Muito já foi escrito sobre
Had, no entanto, uma compreensão maior de seu
escopo pode ser inferida quando o identificamos
com a Trindade referida no IX° O.T.O. como demons-
trado na Fórmula Mágica IAO. Para os gnósticos, as
três letras que compreendem IAO são um sinônimo
para Abraxas que no sistema thelêmico é identifica-
do a Hoor-paar-Kraat e portanto, a Set. Crowley
insistiu que Had é Set, o bebê no ovo. Ele incorporou
toda essa corrente mágica quando Aiwass, o ministro
de Hoor-paar-kraat ou Set lhe ditou O LIVRO DA LEI.
Em LIBER ALEPH, concernente a Fórmula Abra-
Had-Abra, Crowley diz: A Substância é o Pai, o Ins-
trumento é o Filho e o Êxtase Metafísico é o Espírito
Santo cujo nome é HRILIU. Na magia sexual thelêmica
temos: Sêmen (Abra), Falo (Abra) e Orgasmo (Had).
Crowley se refere a estes três elementos da fórmula
como as qualidades de R, B e D. R é a letra Resh, atri-
buída ao Atu XIX, O Sol, regido pelo Sol. Quer dizer,
uma dupla referência ao sêmen. A letra B é Beth, que
corresponde ao Atu I, O Mago, regido por Mercúrio, o
Falo. A letra D e Daleth, atribuída ao Atu III, A Impe-
ratriz, regida por Vênus, o êxtase do orgasmo. Em
uma instrução conhecida como ENTUSIASMO ENERGI-
ZADO, que trata dos Mistérios do IX° O.T.O., Crowley
escreveu: Os Gregos dizem que há três métodos de
descarregar aquela secreção genial. [...] Estes métodos
eles atribuem a três Deuses. Estes três Deuses são
27
Dionísio, Apolo e Afrodite. Em bom português: vinho,
música e mulher.
R Vinho Sol Apolo Substância
D Mulher Vênus Afrodite Êxtase
B Música Mercúrio Dionísio Instrumento
É interessante que as letras Resh-Beth-Daleth no
hebraico formam a palavra Palavra, mas não a pala-
vra em um sentido ordinário, mas a Palavra (Nous)
feita carne.
O Falo é a base fisiológica da Alma, disse Crowley.1
Isso significa que o Gênio ou Ente Presença é insepa-
rável da libido sexual que, de acordo com Carl Jung,
trata-se de uma energia psíquica que se expressa
através de símbolos. A magia sexual thelêmica, por-
tanto, ensina como produzir esse entusiasmo ener-
gizado tanto no homem quanto na mulher ou como
Crowley disse, descarregar a garrafa de Leyden do
Gênio. No entanto, essa energia pode ser produzida
por outros recursos e não apenas através da intera-
ção sexual e no fim, o resultado será o mesmo, seja
na falha ou no sucesso.
Um dos segredos na magia sexual thelêmica é a
imaginação. Cada indivído, homem ou mulher, atra-
vés das propensões sexuais de seu signo zodiacal,
utiliza a imaginação – com o auxílio de algum parcei-

1 Aleister Crowley, DIE ORIFLAMME, 1914.


28
ro – para inflamar sua libido através da excitação
sexual, que age como um condutor para expressão
da Palavra Mágica (símbolos) manifesta do Gênio
Interior. Ademais, Crowley ensina que ao Gênio está
associado o símbolo do Sol que no microcosmo é
representado pelo Falo, o vice-regente do Sol, o doa-
dor de Vida, ou como é bem compreendido aos inici-
ados da O.T.O., a Verdade que declaramos a você, que
Deus é Um e que Seu nome no Macrocosmo, o Sol e no
Microcosmo, o Falo.1 Em um sentido, Abrahadabra
contém em si a fórmula do Pai, do Filho e do Espírito
Santo como esboçada na MISSA GNÓSTICA.
Como a Árvore da Vida opera através de um siste-
ma simples de classificação, ela não consegue absor-
ver todos os aspectos de um mito em apenas uma
sephira. Por conta disso, muitos deuses são atribuí-
dos a mais de uma sephira, dependendo de sua fun-
ção e extrato do mito a qual se refere. Por exemplo,
Thoth como memória é atribuído a Yesod-Lua, mas
como transmissor de conhecimento e magia, a Hod-
Mercúrio. Isso nos diz também que existe muito
mais acerca de cada esfera na Árvore da Vida do que
pensamos.
O Filho representa tanto Tiphereth quanto Gebu-
rah. Contudo, em Abrahadabra ele é Mercúrio (Falo),
regido pelo deus Dionísio. Esse planeta é represen-

1 Aleister Crowley, DE NATURA DEORUM.


29
tado por Hod, a oitava esfera na Árvore da Vida. Da
mesma maneira, em Abrahadabra o Pai representa
Tiphereth, atribuída ao Sol e regida pelo deus Apolo.
No LIBER ALEPH Crowley diz que essas duas esferas
são gêmeas e representam os dois Abras de Abraha-
dabra.
A pista para descobrir o significado de Had no co-
ração de Abrahadabra reside no Caminho de Ayin, O
Diabo, Senhor das Ilusões. Esse Caminho conecta
Hod a Tiphereth, quer dizer, conecta os dois Abras.
Crowley identificou Had com Set (Satã), O Diabo. Ele
é nosso daimon ou Deus Oculto. Entre Hod e Tiphe-
reth Had permanece não-manifesto, no entanto,
transmitido na conjunção entre Mente e Falo. Quan-
do ele se manifesta como êxtase metafísico (HRILIU),
a energia (kuṇḍalinī) movimenta-se até a esfera de
Netzach (Vênus), regida pela deusa Afrodite. Em
certo sentido, O Diabo é compreendido como o cria-
dor da ilusão fenomênica e ao mesmo tempo, o Ente
Presença através do qual nos libertamos dela. Essa é
uma interpretação muito bem compreendida por
alguns estudiosos. No entanto, em O LIVRO DAS MEN-
TIRAS Crowley diz que a mente é uma doença do
sêmen e a consciência seu sintoma e O Diabo é a
Chave para se compreender isso. Como Baphomet, O
Diabo ensina a medida entre o Céu e a Terra, entre o

30
Adepto e o Anjo, por isso ele tem sido chamado de O
Pai do Templo da Paz Universal entre os Homens.1 A
imagem da Carta O Diabo mostra um Falo ereto e
seus dois testículos, quer dizer, o Triângulo ereto
sobre Quadrados gêmeos.
Na Fórmula Mágica de Therion nós temos então O
Diabo (Ayin) unindo Hod e Tiphereth, ao lado das
Cartas O Aeon e O Pendurado, atribuídas respectiva-
mente as letras hebraicas Shin e Mem, Fogo e Água,
as qualidades alquímicas requeridas para produção
da Vida. Crowley se refere a imagem fálica de O Dia-
bo como a própria Árvore da Vida, dizendo que suas
raízes, quer dizer, os testículos, são transparentes
para exibir os inumeráveis saltos da seiva.2 E na MISSA
GNÓSTICA nós encontramos a adoração: Gloria e ado-
ração sejam à Ti, Seiva das cinzas do mundo, árvore
do esplendor. E precisa dizer mais?
A Fórmula Abrahadabra, portanto, detalha a desci-
da do daimon através de nosso Sol para nosso corpo
através da Corrente Solar na intenção de nos conec-
tar com as Supernas além do Abismo.

1 Note que em inglês, The Father of the Temple of Universal Peace


Among Men (O Pai do Templo da Paz Universal entre os Homens)
forma o seguinte notariqon: TEMOHPAB (Baphomet).
2 Aleister Crowley, O LIVRO DE THOTH.

31
Atu XV – O Diabo – no Tarot de Thoth.
Concepção de Aleister Crowley, pintura de Frieda Harris.
32
Outro Caminho importante na Fórmula Mágica de
Therion é O Carro, atribuído a letra hebraica Cheth,
regida pelo signo de Câncer. Para muitos estudiosos,
essa Carta do Tarot de Thoth não mostra apenas o
Gênio ou Ente Presença, mas também o Conquistador
das Ilusões, o que é fundamental na cultura thelêmi-
ca, pois é isso que capacita a cada um de nós a bus-
car e descobrir a Estrela que somos. Câncer (O carro)
e Capricórnio (O Diabo) se opõem na Carta Natal da
mesma maneira que são princípios opostos univer-
sais na Árvore da Vida. Portanto, a compreensão
desses dois Caminhos opostos só ocorre quando os
exploramos levando isso em consideração. O Carro
no ensina a controlar as energias representadas pelo
O Diabo. Sem este controle, O Diabo desce desimpe-
dido para seduzir cegamente o Candidato em Malku-
th, atolando-o em uma pocilga de ilusões. Ayin, a
letra hebraica correspondente a O Diabo, é regida
por Saturno. A este planeta é atribuído o chumbo, o
mais restritivo de todos metais alquímicos. Quando
estamos atolados nas ilusões que criamos em nossas
mentes, confundindo Desejo & Vontade, nadamos
em uma vala de cegueira profunda. O Carro (Câncer),
portanto, nos ensina a controlar as ilusões, a sermos
senhores de nós mesmos, imperadores de nossos
desejos sentados no trono da Verdadeira Vontade.
Em O LIVRO DAS MENTIRAS Crowley diz que a Gran-
de Obra é cumprida em Silêncio. E eis que não é esta
33
Palavra igual a Cheth, que é Câncer? Aqui Crowley
conecta a Grande Obra a letra Cheth porque quando
ela é lida em letras cheias seu valor é 418, o valor de
Abrahadabra. O valor de 418 na gnose thelêmica já foi
bem considerado. Existem outras considerações im-
portantes ainda sobre o número 8 conectadas a esse
processo, mas foge a necessidade do presente editori-
al discutir esses nuances. Deixemos para uma próxi-
ma ocasião. O importante no momento é que O Carro
demonstra o Gênio Interior sentado como Had em sua
Charrete. Isso significa que a Charrete, quer dizer, o
nosso corpo ou veículo físico – e com ele todas as suas
demandas fisiológicas, mentais e emocionais – devem
estar sob o Guia Seguro do Sagrado Anjo Guardião.
Em outras palavras, a Grande Obra consiste na incor-
poração da Verdadeira Vontade, que deve ser o Se-
nhor de Comando de nossas vidas ou dos aspectos
inferiores da Alma (nephesh e gulf).
A FÓRMULA MÁGICA DE BABALON
Nas edições de O OLHO DE HOOR o leitor notará muita
ênfase nas Fórmulas Mágicas de Babalon e de Theri-
on como aspectos distintos da Grande Obra nos ca-
minhos do homem e da mulher. Em MAGIA EM TEORIA
& PRÁTICA, Aleister Crowley disse que a Fórmula
Mágica de Babalon é secreta e que apenas alguns
alunos recebiam instrução formal sobre ela. Por

34
conta disso, por muito tempo nós sentíamos que
faltava uma peça em todo o grande quebra-cabeça
da tradição, a peça mais importante, BABALON. Mui-
ta atenção foi dada a fórmula fálica ABRAHADABRA
e as mulheres entre nós há muito tempo vêm sentin-
do a necessidade de uma instrução que pudesse
estar mais alinhada com os seus processos fisiológi-
cos. Kenneth Grant (1924-2011) tentou resgatar
esse trabalho em Thelema, mas como ele foi buscar
as respostas fora do sistema, precisamente no Tan-
tra, acabou por se distanciar muito da Filosofia de
Thelema como promulgada por Aleister Crowley. No
entanto, sua comparação entre a Mulher Escarlate e
a Śakti da cultura tântrica nos conferiu inúmeros
insights na compreensão da dimensão real de Babao-
lon.
As letras hebraicas que formam os Caminhos do
Pilar da Mão Esquerda na Árvore da Vida somam
418 (Abrahadabra). Por outro lado, as letras hebrai-
cas dos Caminhos do Pilar da Mão Direita somam
156 (Babalon). A Fórmula Mágica de Babalon, por-
tanto, compreende os Caminhos: A Torre (Peh-80),
Morte (Nun-50), A Roda da Fortuna (Kaph-20) e O
Hierofante (Vav-6). A Torre conecta Netzach a Hod, a
Morte conecta Netzach a Tiphereth. A Roda da For-
tuna conecta Netzach a Chesed e finalmente, O Hiero-
fante conecta Chesed a Chokmah. A Função da fór-
mula Mágica de Babalon é, portanto, permitir uma
35
corrente mágica ascendente de fluxo que fluirá de-
simpedido na Árvore da Vida. A sexualidade femini-
na desperta espiritualiza a matéria. Quando a Mu-
lher Escarlate toma o controle, tem poder e usufrui
de sua sexualidade conscientemente (sob vontade),
ela equilibra o Pilar da Mão Direita (Misericórdia)
com o Pilar da Mão Esquerda (Severidade), o que
permite um fluxo livre ou a circulação da corrente
mágica por toda Árvore da Vida, acima e abaixo do
Abismo.
Tanto o homem quanto a mulher iniciam a Jorna-
da Mística em Malkuth, ambos viciados e entorpeci-
dos pelo mundo das aparências. Tudo o que eles
sabem sobre si mesmos foi lhes ensinado por outras
pessoas. O Ego que se constrói em uma relação tóxi-
ca desse nível pode não ser adequado ao destino,
quer dizer, o objetivo ou a vontade finita por trás da
encarnação. Uma consequência doentia disso é que
crescemos acreditando em crenças distorcidas sobre
nós e principalmente, sobre nossa sexualidade. Tan-
to o homem quanto a mulher sofrem esse mesmo
tipo de programação sociocultural, no entanto, a
mulher tem sofrido todo tipo de restrição, princi-
palmente sexual. Dessa forma, em um nível profun-
do, a Fórmula de Mágica de Babalon auxilia na liber-
tação sexual da mulher, que começa com uma explo-
ração de sua sexualidade, que define não somente
sua direção, mas também sua dimensão e poder.
36
Mas deixe-a elevar, a si mesma, em orgulho! Deixe-
a seguir-me em meu caminho! Deixe-a laborar a
obra de maldade! Deixe-a neutralizar seu coração!
Deixe-a ser escandalosa e adúltera! Deixe-a ser re-
vestida com jóias, e ricos trajes, e deixe-a ser des-
pudorada perante todos os homens!1

Por um lado, a mulher é assolada por preconceitos


puritanos restritivos. Por outro lado, ela é bombar-
deada por desejos que lhe dizem para se entregar a
qualquer homem, o que a torna uma escrava de suas
paixões. Amor Livre é um termo que tem sido muito
mal interpretado, como se todos nós estivéssemos à
disposição, sexualmente falando. O fio da meada
reside entre esses dois extremos. A mulher deve
descobrir a sua sexualidade natural e usá-la em seu
benefício. A Astrologia possui uma tecnologia ade-
quada para essa descoberta, a carta natal. Até que
ela esteja confortável com sua sexualidade, não esta-
rá apta a sair da graduação de Homem da Terra.
Na intenção de exercer o ofício de Mulher Escar-
late, a mulher precisa construir de maneira apropri-
ada o Santuário de Babalon para ali assumir-se como
a Filha-Heh. Malkuth não faz parte da Fórmula Mági-
ca de Babalon. Se a mulher falha em construir o San-

1 LIBER AL, III:44.


37
tuário de Babalon em Netzach, mantendo-se atada a
Malkuth, ela não conseguirá exercer o ofício de Mu-
lher Escarlate. A construção desse Santuário implica
em uma reformulação total do comportamento se-
xual da mulher. Essa reformulação começará com o
primeiro passo que é a descoberta de sua sexualida-
de. Essa descoberta permitirá a ela descobrir blo-
queios, entraves e padrões através dos quais ela vê o
mundo e que têm a restringido desde que começou a
compreender a vida. Na Árvore da Vida, essa explo-
ração é feita através do Caminho da Lua (Qoph), que
conecta Malkuth a Netzach. Desenvolver habilidades
que lhe possibilitem explorar o Caminho da Lua faz
parte do trabalho do Homem da Terra em conhecer
seu corpo e aceitá-lo. Na atualização do Sistema da
A∴A∴, esta tarefa compreende o Grau de Zelator na
jornada das mulheres. Nesse misterioso Caminho da
Lua, a mulher coloca as correntes astrais lunares sob
o julgo de sua vontade. Dependendo do tipo de har-
monia que a mulher tem com o princípio masculino,
seu comportamento pode ser daemônico ou demoní-
aco. Quando a mulher não está em harmonia com o
princípio masculino, ela costuma a dar vazão a ele-
mentos qliphóticos ou demoníacos, o que a prende
nos domínios de Malkuth. O universo da mulher que
projeta seu princípio masculino interior nos homens,
se comportando como uma prostituta, uma freira ou
uma feminista que os odeia, trata-se do desequili-
38
brado e desintegrante reino dos Reis de Edom. Essa
é a fase da Lua Nova na mulher. Mas quando ela está
em harmonia com o princípio masculino, se torna a
Noiva-Filha em Netzach. Essa é a fase da Lua Cheia
na mulher. No entanto, ambas as luas são importan-
tes no caminho da espiritualidade feminina. A Mu-
lher Escarlate, portanto, deve desenvolver a habili-
dade em manipular as correntes astrais das Luas
Nova e Cheia para seu próprio benefício, operando
entre elas. Para a mulher, comandar todas as corren-
tes lunares e seus ciclos é a verdadeira bruxaria.
Quando eu era criança, brincava na casa de mi-
nha avó com um brinquedo que se chamava Tiro na
Lua. Esse brinquedo é constituído de duas hastes de
metal que se movimentam independentemente.
Entre elas é colocada uma esfera de metal, livre, que
deve ser equilibrada entre as duas hastes. Quanto
mais rápido a bola de metal se movimenta, mais
difícil é mantê-la em equilíbrio entre as duas hastes.
Esse brinquedo ilustra muito bem o trabalho de
equilíbrio na Árvore da Vida entre os Pilares da Mão
Esquerda e Direita e principalmente o trabalho da
mulher no Caminho da Lua. A haste da esquerda
representa a repressão sexual da mulher através de
condicionamentos morais (movimento para fora) vs.
a liberdade sexual (movimento para o centro). A
haste da direita simboliza o equilíbrio com o princí-
pio masculino (movimento para o centro) vs. apatia
39
ao homem ou feminismo extremo (movimento para
fora). Quando as duas hastes se afastam do centro, a
esfera de metal cai, o que simboliza o encarceramen-
to em Malkuth. Não se trata apenas de unir as hastes
e mantê-las assim para a bola de metal não cair. Se
fosse o caso, ela rolaria até o fim das hastes e o brin-
quedo não teria sentido algum. O desafio é manter as
hastes em equilíbrio para que a esfera seja mantida
entre elas. Mas um dos lemas atribuídos ao trabalho
da Lua (Yesod) não é definido pela frase: mudança é
estabilidade? A criança que está brincando deve
movimentar as hastes para dentro e para fora em
resposta as mudanças na trajetória da esfera de
metal, adequando cada haste a ocasião que se apre-
senta. No entanto, movimentar as hastes significa ter
habilidades para movimentá-las, o que não ocorre
enquanto a mulher estiver escravizada pela moral
do outro, enquanto ela vê e compreende o mundo
pelas leis do universo do outro.
Para que a mulher possa construir o Santuário de
Babalon em Netzach, ela precisa ter um filtro pessoal,
algum tipo de besteirometro, quer dizer, um medidor
de besteiras. Isso cria um centramento. Para assu-
mir-se como Mulher Escarlate a mulher precisa ca-
minhar em um eixo próprio. Para isso se requer uma
capacidade de aprofundamento que não só a man-
tém no seu centro, mas é capaz de habilitá-la a com-
preender suas restrições sexuais e traçar suas ori-
40
gens, sejam crenças alimentadas por parentes, pro-
fessores, igreja, sociedade e amigos. Ela deve ser
capaz de captar qualquer tipo de ressentimento
traumático sobre os homens e deve dissolver ou
controlar esses vetores de força psíquica dentro de
sua própria esfera, a partir de seu centro ou eixo. Da
mesma maneira, ela deve identificar qualquer lisonja
ou coerção masculina sobre sua liberdade sexual.
Muitos são os homens que tentam colonizar a mu-
lher através de frases como essas: você se tornará
uma alta-sacerdotisa e outras mais picaretas ainda
como essa: você terá acesso aos planos internos fa-
zendo sexo comigo. Eu tive um aluno, muitos anos
atrás, que era dado a fazer trabalhos mágicos e co-
brar por isso. Eu o alertei inúmeras vezes para os
perigos desse tipo de comportamento. As mulheres
que o procuravam, ele dizia resolver os problemas
delas através de magia sexual e elas cediam, em sua
grande maioria, se deitar com ele – pensando esta-
rem fazendo magia sexual – na intenção de terem
seus problemas resolvidos. A maioria dos homens
dirá ou fará qualquer coisa para colonizarem o corpo
de uma mulher. Uma vez que eles têm acesso ao
corpo de uma mulher, utilizam sua corrente lunar
astral para nutrir suas sementes, formuladas e pro-
jetadas a partir dos fantasmas que poluem suas
mentes. O resultado disso é o nascimento de uma
prole de miasmas e cascões astrais, os filhos dos Reis
41
de Edom. As crianças nascidas de uma relação assim,
sejam astrais ou humanas, são os habitantes que
hoje povoam o Planeta e o seu ambiente astral, pois
a mulher dará vida as projeções qliphóticas de seus
consortes e comparsas de crime: o crime de povoar a
Terra com monstros de todas as espécies. Crowley
falava que era possível regenerar o mundo através
da magia sexual, pois uma criança nascida de uma
operação mágica sadia é um prístino cristal de luz
que brilha, seja no astral ou no plano físico. Sem esse
filtro pessoal, a mulher será confinada e escrava, se
manterá em Malkuth. E a culpa não é dos homens.
Eles não podem ser culpados por seguirem o curso
de sua natureza. Qualquer homem que coloniza e
escraviza uma mulher é inimigo de si mesmo. Uma
Mulher Escarlate, cujo filtro pessoal ou besteirome-
tro é sua espiritualidade, não caí nos galanteios de
um escravo se passando por Rei. Nessa vida nós
recebemos àquilo que aceitamos e merecemos. Meu
conselho as mulheres no Grau de Neófito é este:
questione tudo e não aceite nada além de seu Deus
Interior. O verdadeiro parceiro e consorte é o Sagra-
do Anjo Guardião. Esse conselho não é nada mais
que uma formulação em princípios gerais para sua
jornada no astral pela Árvore da Vida, principalmen-
te no Caminho da Lua. Toda mulher tem uma relação
mais íntima com o plano astral. Saber se locomover

42
nele de maneira adequada é fundamental a constru-
ção do Santuário de Babalon.
Uma vez que a mulher adquiriu independência,
quer dizer, uma vez que abraçou sua sexualidade e
se libertou dos padrões restritivos lhe impostos,
agora está livre para assumir o papel da Filha-Noiva
em Netzach. Sua próxima tarefa será então unir-se
ao Filho em Hod através do Caminho de A Torre.
Nessa etapa, ocorre um refinamento de seu bestei-
rometro. Para dar o primeiro passo no Casamento
Místico com o princípio masculino, para dizer sim ao
Cavaleiro do Santo Graal, ela precisa aprender a
dizer não para os profanadores do Santuário de
Babalon. Isso implica em dizer sim para si mesma e
sua própria sexualidade e não as volições torpes de
sua própria natureza inferior ou os impulsos anima-
lescos produzidos pelo nephesh. Então, armada de
sua liberdade sexual, ela deve efetuar o Casamento
Místico. Na esfera do ruach ela se torna a mulher
cingida com a espada. Ela deve conter seus impulsos
emocionais femininos e se armar com a Qabalah e
outras ferramentas de discriminação mental. Como
uma Adepta Externa, ela terá de batalhar pela con-
quista de cada aspecto de sua vida, pois a imagem do
Deus Verdadeira é guardada por todos os lados pe-
los demônios do Ego. Muitos são os candidatos que
chegam a esta etapa da iniciação e eles passam a
maior parte de suas vidas tentando descobrir quem
43
são, separando a ilusão da verdadeira aspiração. Não
há nada de errado nisso. Cada um tem seu próprio
tempo para lapidar a pedra bruta e se ajustar em seu
próprio eixo. Portanto, a mulher não precisa se a-
pressar em estabilizar o Carneiro Solar de um dia
para o outro.
A palavra hebraica yobel atribuída a Mãe Binah
cujo Trono a mulher aspira sentar-se significa chifres
de carneiro. O Caminho do Imperador (Tzaddi) co-
necta Yesod a Netazah e é regido por Áries, o Carnei-
ro. No corpo, o swādhiṣthāna-cakra de Hod reside
entre o mūlādhāra de Yesod e o maṇipūra de Netza-
ch. Isso significa que trabalhar no Caminho do Impe-
rador é uma tarefa crucial para que a mulher possa
ter uma aproximação equilibrada com Hod. Em O
LIVRO DE THOTH, Crowley disse: Este signo é regido
por Marte e aí o Sol é exaltado. Este signo é assim uma
combinação de energia em sua forma mais material
com a ideia de autoridade. O Sol é o princípio Ra-
Hoor-Khuit interno da mulher. Marte é atribuído ao
caminho de A Torre ou a Guerra que conecta Netzach
a Hod. A mulher deve recusar qualquer poder mas-
culino externo sobre si mesma dizendo não, assu-
mindo autoridade total sobre o seu corpo como um
instrumento con-sagrado de sua Estrela. Ela deve
guerrear contra qualquer homem que tente triviali-
zar seu corpo como mercadoria de posse, seja lá uma

44
força encarnada como homem ou somente os demô-
nios de sua própria psique.
Quando a mulher triunfa sobre seus demônios in-
ternos, dizendo não a todas as falsas imagens de seu
Deus Interno, ela receberá a ardência do Sol através
do Caminho da Morte (Nun), pois para sua mulher
chamada a Mulher Escarlate é dado todo o poder.1 O
poder do Logos desce de Geburah para Tiphereth e
então para Netzach: Ra-Hoor-Khu está contigo. Reve-
renciai-me com fogo & sangue. Reverenciai-me com
espadas & com lanças. Deixai a mulher estar cingida
com a espada adiante de mim: deixai sangue fluir em
meu nome. Calcai abaixo o Gentio; esteja sobre eles, ó
guerreiro, Eu vos darei a carne deles para comer.2
Aleister Crowley diz em O LIVRO DE THOTH: Esta mu-
lher representa Vênus como ela agora está neste novo
Aeon, não mais o mero veículo de seu correlativo mas-
culino, mas armada e militante. Embora independen-
te e dinamicamente engajada sexualmente com seu
Deus Interno, a mulher induz o fluxo de sua manifes-
tação em harmonia com seu destino. Ela energiza o
entusiasmo. Ela começa a agir como uma Adepta
Interna em Tiphereth.
A Roda da Fortuna (Atu X) serve de guia para que
a mulher permaneça desapegada a qualquer fase

1 LIBER AL, I:15.


2 LIBER AL, III:15.
45
particular de sua manifestação na intenção de per-
manecer no ofício de Mulher Escarlate. A qualquer
momento ela pode destruir os delicados fios que
vem construindo como uma Adepta Interna. O LIVRO
DA LEI avisa: Deixe a Mulher Escarlate acautelar-se! Se
piedade e compaixão e escrúpulo visitarem seu cora-
ção; se ela renunciar à minha obra para divertir-se
com antigas doçuras; então deverá minha vingança
ser conhecida. Eu imolarei, a mim, sua criança: Eu
alienarei seu coração: Eu a expulsarei por causa dos
homens: como uma sucumbida e desprezada meretriz
ela deverá arrastar-se por entre ruas sombrias e mo-
lhadas, e morrerá indiferente, fria e faminta.1 Sua
criança é seu Gênio Interior manifesto. Antigas doçu-
ras, quer dizer, segurança financeira, o amor de um
homem, fama etc. Em outras palavras, a mulher deve
permanecer fiel ao Sagrado nela, seu Deus Interno. A
Roda da Fortuna conecta seu maṇipūra a seu anāha-
ra-cakra. Esse Caminho ensina a mulher que en-
quanto existe a interação das energias que cria o
mundo material das aparências, o venerado Falo de
seu Deus Interno reside no Centro da Roda, no seu
eixo ou centramento. E não é neste Centro de Tudo
que ela deve se manter como a Mulher Escarlate?
Esse é o Eixo de todas as suas necessidades! Dessa
maneira, para nutrir a manifestação de seu destino

1 LIBER AL, III:43.


46
ou vontade finita e servir como um veículo para a
Luz divina, a mulher deve agarrar-se ao centro da
Roda. Somente a Mulher Escarlate no centro da Roda
pode manifestar-se no centro do Hexagrama Sagra-
do.1 Kaph (Atu X) da a forma da Kteis (vagina). Ela
dá um abraço sexual no seu Deus Interno.
Se a mulher se mantém fiel em amor devotada a
seu Deus Interno, estará apta a subir pelo Pilar da
Mão Direita e Cruzar o Abismo. O homem que traba-
lha com a fórmula fálica deve pular sobre o Abismo
para alcançar Binah desde Chesed. Somente assim
ele estará apto a chegar em Chokmah. E como já foi
dito inúmeras vezes, nenhum Caminho conecta Che-
sed a Binah. Em MAGICK WITHOUT TEARS, Crowley diz:
Como você vê logo em um lampejo da Árvore da Vida,
esse avanço trata-se do Cruzamento do Abismo; e não
existe Caminho. Isso significa que se deve dar um sal-
to. O homem então encara grande perigo nessa tra-
vessia para unir-se a seu anima mais profundo e ele
deve perseverar diante dos demônios degradantes
da mente conhecidos pelo nome de Choronzon. Mas
a mulher se encontra em uma situação inteiramente
diferente. Através da Fórmula Mágica de Babalon a
mulher pode ir de Chesed para Chokmah, a morada
de seu animus e de lá diretamente ir a Binah. Fisiolo-

1Veja o livro SAFIRA ESTRELA: A MAGIA SEXUAL DE ALEISTER CROWLEY


(Liguori).
47
gicamente e portanto magicamente, homem e mu-
lher são diferentes e assim deve ser a jornada de
cada um. A Mulher Escarlate já é o equivalente fun-
cional de um Mestre do Templo, naturalmente cana-
lizando arquétipos, o que lhe torna apta a operar no
Caminho do Hierofante, conectando Chesed (anāha-
ta) a Chokmah (ājñā). Como o Caminho do Impera-
dor, o Caminho do Hierofante conecta dois cakras
que acionam um terceiro, neste caso, o viśuddhi-
cakra (Binah). Este é o cakra da laringe e da comuni-
cação espontânea com os planos internos e O Hiero-
fante corresponde a Touro, que rege a região da
garganta. A letra hebraica correspondente é Vav, que
significa prego. Ao florescer a Rosa Cruz, a Mulher
Escarlate se torna o prego que conecta o Acima ao
Abaixo. Ela é a incorporação física e material que se
transformou no Logos através de seu processo de
iluminação: No signo de Touro a Lua é exaltada.1 O
Hierofante governa a escuta divina ou escuta oculta
que vem de cima do Abismo. Operando nesse Cami-
nho, a Mulher Escarlate está em fluxo com os reinos
profundos de seu inconsciente, de onde recebe os
arquétipos. Isso traduz bem a função de O Hierofan-
te. O Sol é o Centro do ruach, o veículo que ela usa
para interpretar os arquétipos que recebe de suas
profundezas. A energia venusiana de Netzach mani-

1 Aleister Crowley, O LIVRO DE THOTH.


48
festa esses arquétipos no construto da mente. A
junção dessas duas vibrações, a medicina do Sol e a
medicina de Vênus, é a mistura da Energia conscien-
te universal com os poderes imaginativos e genera-
tivos do inconsciente. Toda essa atividade é simboli-
zada pelo O Hierofante. A mulher deve, portanto,
distinguir a Sabedoria Oculta recebida de Chokmah
de qualquer construto mental em desarmonia no
ruach. Como? Se estabelecendo em seu Eixo-
Tiphereth. É a Espada da Razão aplicada a seus pro-
cessos internos. Isso irá lhe capacitar a continuar no
processo de transformação interior que a transfor-
ma na própria Mãe Divina encarnada.
Caminhando naturalmente em direção a Chok-
mah através do Caminho de O Hierofante, a mulher,
quer dizer, seu animus, profere sua Palavra em Si-
lêncio. Acima do abismo ela germina a Vontade-
Botão proferida pelo Sagrado em Chokmah no Cami-
nho de A Imperatriz (Vênus) em sua jornada em
direção ao Trono da Mãe em Binah.
A Fórmula Mágica de Babalon é fundamental a
qualquer mulher no Novo Aeon, pois somente atra-
vés do exercício livre de sua sexualidade ela irá de
libertar das demandas internas e externas que im-
pedem que ela se torne a Mulher Escarlate. Ela deve
abraçar o Sagrado nela como seu verdadeiro compa-
nheiro, colocando-o acima dos amores terrenos, pois
eles são temporais. As volições do nephesh devem
49
ser equilibradas com o Princípio-Sol de Tiphereth,
cuja Palavra ela nasceu para gestar e dar à luz.
Sobre as Fórmulas 418 & 156, o leitor terá opor-
tunidade de estudar nas edições de O OLHO DE HOOR.

Amor é a lei, amor sob vontade.

50
A APROPRIAÇÃO DE BELITHOR

Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.

E
ste é o relato de uma operação teúrgica bem
sucedida conhecida pelo nome de Ritual de
Aplacamento que ocorreu no dia 30 de de-
zembro de 2017 E.V. na cidade de Santos Dumont,
Minas Gerais, onde um kakodaimon1 que se apresen-
tou como Belithor (BLThVR)2 atacou e fez se aciden-

1 Os daimones, mensageiros que estabelecem a conexão entre os


homens e os deuses, são classificados como aghato-daimones,
criaturas espirituais benéficas e os kakodaimones, criaturas espi-
rituais maléficas. Essas criaturas espirituais malignas são os
protótipos dos demônios cristãos e dos 72 Gênios da Goécia. O bem
e o mal são perspectivas dualistas que, em verdade, não se apli-
cam a verdadeira natureza dos daimones. Que alguns deles são
avessos a consciência humana, está muito claro através das ano-
tações de inúmeros magos que com eles travam comércio. Qual-
quer daimon responde aos comandos de uma criatura superior,
como uma deidade ou o daimon pessoal do conjurador. Eu trato
com detalhes sobre o tema do Sagrado Anjo Guardião (daimon
pessoal), nas obras: CORRENTE 93: A CORRENTE SOLAR DO NOVO AEON
e o CONGRESSUS CUM DAEMONE (prelo).
2 Belithor soma 247, o número de ZMR, melodia de encantamento.

Essa palavra compartilha raízes com ZMZM, som, ZMZVM, zumbi-


do, ZMIRVTh, feitiço ou encantamento. Isso está em total acordo
51
tar minha mãe, Fátima Garcia Passos, Neófita1 da
A∴A∴.
Após a Cerimônia do Solstício de Verão onde os
Irmãos da A∴A∴ invocaram o Espírito do Verão e
celebraram a cura do daimon viciado,2 nós recebe-
mos um Probacionista da Ordem, André Antunes
(Frater Nu56∵). André ficou conosco até o dia 30,
sábado pela manha. Na noite anterior, nós realiza-
mos um rito de teurgia no qual invocamos a Deusa

com a descrição de Soror Ra201∵ (minha mãe, Fátima Garcia


Passos), sobre o ocorrido. Ela conta que estava caminhando
quando começou a escutar um zumbido que a levou para o meio
da rua, onde foi atropelada por uma motocicleta. Quando lúcida,
dois dias após o acidente, ela confirma ter sido atraída para rua.
Na cerimônia de apropriação de Belithor, ele primeiro se apresen-
tou como um zumbido de um enxame de abelhas. É interessante
notar que 247 também é o número de RAVM (Raum), o 40° dai-
mon da goécia, regido pelo primeiro decanato de Touro e que
aparece no totem de um corvo.
1 Soror Ra201∵ iniciou-se como Probacionista da A∴A∴ em 1999

E.V. com Tarcísio Oliveira Araújo (Frater S.S.), que fez a passagem
em 2003 E.V. Frater S. S. instruiu Soror Ra201∵ até 2001 E.V.,
quando houve o ocorrido em que ele tentou primeiro seduzi-la e
em seguida, outra Irmã da Santa Ordem.
2 O daimon viciado se trata do daimon pessoal na fase em que o

Neófito ainda labuta sobre o Ordálio da Esfinge e o controle de


sua quadratura pessoal, Por esse motivo, sua cura é atribuída a
esfera de Tiphereth na Árvore da Vida, quando o Neófito, já um
Adepto Menor, realiza a consecução do Eu Solar. Eu venho tratan-
do deste assunto nas obras: CORRENTE 93: A CORRENTE SOLAR DO
NOVO AEON e o CONGRESSUS CUM DAEMONE (prelo).
52
Lakṣmi através dos procedimentos da magia tāntri-
ka hindu, que envolve uma prática ritualística cha-
mada de pūjā, que consiste de uma adoração, sacrifí-
cio, oblações e fumigações. Os elementos essenciais
que constituem um rito teúrgico são o Fogo, a Água e
a Adaga. Estes três elementos são encontrados nos
rituais teúrgicos tanto da Tradição Esotérica Ociden-
tal quanto da Tradição Esotérica Oriental.
Os parâmetros para um rito teúrgico de adoração
a Deusa Lakṣmi nos termos da magia tāntrika hindu
eu descrevi em outro lugar.1 Aqui basta citar apenas
duas experiências pessoais ocorridas durante este
ritual e que se mostraram reveladoras posterior-
mente. A primeira ocorreu logo após uma cadeia
mágica ao redor do altar que erigimos para Deusa
Lakṣmi. Segundos após a execução da cadeia mágica
– por conta do trabalho de empilhamento de gnose2
– experimentei uma epifania que se revelou como
uma visão: o altar tornou-se um lótus brilhante so-
bre o qual descia uma coluna luminosa de força. Essa
coluna de força imantava todas as oferendas sobre o
altar que, na visão, tomou proporções gigantescas,
como relatei aos participantes. Na visão, eles tam-

1Veja LAKṢMI UPĀSANA na REVISTA SOTHIS No. 11.


2 Este termo, empilhamento de gnose, refere-se as inúmeras técni-
cas de produção de gnose utilizadas dentro de um ritual, aumen-
tando gradativamente o potencial da experiência mística.
53
bém estavam presentes, imantados pela energia
luminosa que se espalhava pelo ambiente desde o
centro da coluna. Nesse exato momento eu escutei
um sussurro em meu ouvido direito: bitorrr. Pelo
menos foi isso que eu entendi. Eu não fazia ideia,
mas meu daimon pessoal naquele momento estava
murmurando o nome da criatura que iria atacar
minha mãe. A lembrança desse fato foi, posterior-
mente, fundamental para que eu descobrisse o nome
do kakodaimon e o fizesse revelar sua assinatura
astral.
A outra experiência relevante neste ritual ocor-
reu logo no fim, quando em adoração inflamada a
Deusa Lakṣmi, tive uma visão de minha mãe, cho-
rando. Confesso que fiquei bem assustado com aque-
la visão e, embora tivesse feito um esforço para bani-
la de minha mente, ela me acompanhou até a hora
em que fui para cama.
No dia seguinte, dei uma aula sobre o contato
com o daimon pessoal para Frater Nu56∵ e Soror
MiaH56∵. Logo a saída de Frater Nu56∵, recebi uma
ligação de um vizinho de minha mãe, contando o
ocorrido do atropelamento dela. Naquele momento
eu me lembrei da visão e tudo se encaixou, embora
tivesse esquecido do sussurro em meu ouvido direi-
to.
Imediatamente comecei a preparar meu material
litúrgico-sacerdotal, pois sabia que teria de fazer
54
uma operação de teurgia para livrar minha mãe
desse assombro, me apoderando e fazendo dele um
guardião. Essa é a abordagem que o teurgo da anti-
guidade tinha para com os kakodaimones. A magia
moderna desenvolveu o que hoje conhecemos como
rituais de banimento. Isso não era conhecido ou
praticado na antiguidade. Na verdade, quando o
teurgo do passado limpava o ambiente de sua opera-
ção, tomava banho e vestia um robe consagrado ou
lavava as mãos com Água Lustral, compreendia-se
que tanto o teurgo quanto o ambiente estavam puri-
ficados. A intenção não era, como muitos magos
modernos têm praticado, banir as forças hostis dos
kakodaimones, mas ao contrário, se apropriar delas e
fazê-las guardiões protetores. Um exemplo de tal
prática arcaica são os demônios colocados ao lado de
fora dos templos budistas para servirem de guardi-
ões.
A apropriação de um kakodaimon, observe com
atenção, não se trata de sugá-lo para dentro de um
cristal. Este método chama-se encarceramento do
kakodaimon, que fará de tudo para ser libertado.
Também não se trata de venerá-lo como uma deida-
de. Nenhum daimon, seja aghato-daimon ou kako-
daimon etc., deve ser adorado como um deus. Essa é
uma prática equivocada que tem sido executada e
ensinada por magistas modernos e que na antigui-
dade, foi considerada desrespeitosa para com os
55
deuses. Por último, a apropriação de um kakodaimon
também não se trata de travar com ele nenhum tipo
de comércio, como apresentado nos grimórios medi-
evais de magia. Ao contrário desses procedimentos,
a apropriação começa reconhecendo o lugar, o papel
e a função do kakodaimon como um intermediário
entre a legião dos vivos e os deuses. O teurgo que
diariamente oferece oblações e fumigações aos deu-
ses tem poderosos auxiliares para comandar qual-
quer daimon da natureza. Sob a autoridade de seu
próprio daimon pessoal, qualquer teurgo pode con-
jurar e se apropriar de um daimon, fazendo dele um
espírito guardião.
O processo de apropriação de um kakodaimon
consiste em estabelecer uma relação através de ofe-
rendas e sacrifícios a ele. Esse processo cria uma
conexão entre o kakodaimon e o teurgo, que então
poderá conduzi-lo por um caminho mais saudável e
benéfico a todos. Eu tenho a prática que me apropri-
ar de alguns kakodaimones para me auxiliarem em
trabalhos mágicos. Este é o caso, por exemplo, de um
daimon da goécia conhecido como Zapar, de nature-
za venusiana, o qual ganhou um assentamento em
meu templo:
Através deste procedimento, os teurgos do pas-
sado reconstituíam a ordem emulando o próprio
Absoluto na manutenção da ordem natural do Cos-
mos. Este Ritual de Aplacamento, como é conhecido,
56
tem muito mais potência quando o teurgo já possui
conexões fortes estabelecidas com seu daimon pes-
soal. É nessa tradição que o grimório de Abramelin
se baseia ao convocar o Sagrado Anjo Guardião1 para
comandar os príncipes do mundo, quer dizer, os
kakodaimones da natureza. No entanto, caso o teurgo
ainda não tenha intimidade e conexão com seu dai-
mon pessoal, o Ritual de Aplacamento pode ser utili-
zado para cura do daimon viciado:2 cada defeito de
caráter da personalidade, assim como cada virtude, é
regido por um daimon.3 Apropriar-se de um ou mais
kakodaimones, livra o teurgo de suas picadas vene-
nosas, deixando-o apto a adestrar sua quadratura
pessoal, mudando padrões equivocados de compor-
tamento em ações sadias, alinhadas a ordem natural
do Cosmos. Traços perniciosos na personalidade
como ciúmes, mesquinharia, medo, aversões ou até
mesmo luxúria desmedida podem ser domados e
transmutados através do Ritual de Aplacamento de
um kakodaimon.

1 Sagrado Anjo Guardião é um termo mal utilizado na interpreta-


ção moderna da magia. Veja CORRENTE 93: A CORRENTE SOLAR DO
NOVO AEON e o CONGRESSUS CUM DAEMONE (prelo).
2 Sobre esse tema, o daimon viciado, veja: CORRENTE 93: A CORREN-

TE SOLAR DO NOVO AEON.


3 Na cultura tântrica, identifica-se como śaktis. Energias – ou

poderes – encadeadas ou desencadeadas da personalidade com as


quais o tāntrika opera em seus ritos de teurgia.
57
Assentamento de Zapar.

A pergunta que fica é: como identificar um kakodai-


mon que tem trazido mazelas para o dia-a-dia? É
simples: os teurgos da antiguidade não se incomo-
davam em saber o nome, estrito senso, de um kako-

58
daimon ou genii-loci.1 Jâmblico (245-325), por e-
xemplo, em seu SOBRE OS MISTÉRIOS DOS EGÍPCIOS, CAL-
DEUS E ASSÍRIOS, menciona um kakodaimon que pro-
voca pesadelos assustadores, nomeando-o como
Phobetor, que significa assustador. Qualquer daimon
está sob o comando de uma deidade e o teurgo pode
nomeá-lo com o nome da própria deidade, caso
queira, ou com o nome de algum dos poderes da
deidade. Seja como for, Hécate, a Senhora da Noite, é
a mãe-líder-rainha de todos os daimones e, portanto,
todos respondem a ela. Quando o teurgo invoca Hé-
cate no Ritual de Aplacamento, qualquer kakodaimon
é imediatamente paralisado. Esse é o termo utilizado
por Porfírio de Tiro (233-305) ao comentar Jâmbli-
co.2
Para este ritual eu preparei oferendas para o ka-
kodaimon que eu iria me apropriar, uma poção de
incenso lunar de mirra e estoraque para Hécate e
outra poção de incenso para o meu daimon pessoal,
cuja fórmula ele me revelou. Levei comigo também
Água Lustral já preparada e devidamente consagra-
da. Com essa Água Lustral eu limpei o ambiente,
ofereci oblações ao genii-loci do local de trabalho e

1 Os genii-loci são os daimones conectados aos lugares e zonas de


poder. Para identificá-los veja instruções em CONGRESSUS CUM
DAEMONE (prelo).
2 Veja Fritz Graf, MAGIC IN THE ANCIENT WORLD.

59
magnetizei o Corpo de Luz de minha mãe. Também
levei um braseiro para colocar carvão ativado e uma
adaga mágica para ritos teúrgicos. Para proteção
pessoal, levei uma pantacléia em meu pescoço, con-
tendo a assinatura astral de meu daimon pessoal,
uma invocação de proteção me revelada por ele e
enxofre.1
Momentos antes do ritual, um fato curioso ocor-
reu: quando eu cheguei no quarto do hospital onde
minha mãe estava internada, havia um enfermeiro
de meia idade tentando pegar uma veia dela na in-
tenção de introduzir um acesso para soro e medica-
mentos. Ele já havia tentado umas cinco vezes e ela
estava com o braço roxo das veias que ele deixou
estourar. Assim que eu cheguei ele olhou diretamen-
te para minha pantacléia, esbugalhou os olhos, co-
meçou a suar e a entrar em uma espécie de transe,
como se alguma entidade estivesse por perto ten-
tando lhe incorporar. Ele saiu meio tonto do quarto
do hospital e logo chegou outra enfermeira para
terminar o que ele não havia conseguido. Achei tudo
meio estranho e saí do quarto, esperando vê-lo pelos
corredores.

1Para uma orientação sobre a execução passo-a-passo do Ritual


de Aplacamento e outros ritos teúrgicos como a Invocação do
Daimon Pessoal, veja: CONGRESSUS CUM DAEMONE (prelo).
60
Alguns minutos bastaram e ele passou, com uma
das mãos para trás, quase que incorporando, eu
penso, um Preto Velho. Me aproximei e disse: «Boa
noite. Com licença. O senhor trabalha em algum cen-
tro?» Grogue, ele olhou-me nos olhos, os dele arrega-
lados, e disse: «Não!». Virou as costas e continuou
andando, na verdade, cambaleando.
Eu entrei no quarto e coloquei um agasalho de
frio, cobrindo a pantacléia em meu pescoço. A en-
fermeira ainda tentava o acesso a minha mãe, então
decidi sair do quarto e esperar um pouco mais do
lado de fora. Passaram-se alguns minutos quando o
enfermeiro voltou e perguntou: «O que era àquilo no
seu pescoço? Uma guia?» Ao perguntar, ele estava
normal, sem nenhuma alteração. Ele não trabalhava
em nenhum centro e sabia o que era guia? Muito
estranho! Então abri o agasalho e mostrei a ele mi-
nha pantacléia: «É disso que você está falando?» Ao
fitar minha pantacléia, ele se alterou completamente
de novo e cambaleou as pernas. Eu perguntei: «Está
ardendo os olhos aí?» Sem responder, virou as cos-
tas novamente e saiu andando, quando entrou na
enfermaria e disse a uma colega de trabalho: «Não
disse a você?» Bom, resolvi deixar quieto. A noite era
longa e eu precisava me preparar. Quando a enfer-
meira saiu do quarto, esperei minha mãe adormecer
e comecei a preparar o local.

61
Ao lado da cama dela, utilizei a mesa de cabeceira
como um altar. Ali coloquei o braseiro, um pote de
prata para Água Lustral e a adaga da arte. O ritual
começou a meia noite, quando consagrei a Ayahuas-
ca e o Rapé de Jurema, e seguiu nestes termos:
Passo 1: lavei as mãos com a Água Lustral e fiz
uma invocação ao Sagrado (Kether) sob todas as
formas e fiz uma invocação-prece, oferecendo a Água
Lustral como libação.
Passo 2: após lavar as mãos, utilizei a Água Lus-
tral no ambiente, purificando-o com o encantamen-
to: hekas, hekas, este bebeloi.
Passo 3: salpiquei o braseiro com o incenso de
meu daimon pessoal, recitando uma invocação pes-
soal que ele me revelou sempre que o quisesse por
perto em uma operação de magia.
Passo 4: em seguida, salpiquei o incenso de Héca-
te no braseiro e fiz uma invocação a Senhora das
Encruzilhadas, magias e bruxarias noturnas, rainha
de todos os daimones. Dos inúmeros epítetos da
Deusa Negra, trabalhei com Apotropaia, quer dizer,
Hécate como àquela que afasta os danos e as maze-
las causadas por kakodaimones e também como
Soteira, Hécate a salvadora de seus devotos.
Passo 5: convoquei o genii-loci do Hospital sob a
autoridade e auspícios espirituais de Asclépio, deus
da medicina e da cura. Nesta convocação, lhe ofereci
frutas e incenso.
62
Passo 6: com a autoridade de meu daimon pesso-
al, sob a égide de Hécate, rainha dos daimones e com
a autorização do genii-loci do hospital, executei o
seguinte encantamento bárbaro para apropriação do
kakodaimon que causou o acidente de minha mãe:
ACHTHIŌPHIPH ERESCHIGAL | NEBOUTOSOU ALĒ-
TH SATHŌTH | SABAŌTH SABAŌTH.
Ao realizar este encantamento exaustivamente,
eu pude ver o kakodaimon em fúria ao lado da cama
do hospital. Ele tinha cabeça e pés de pássaro, mas
tronco de homem. Neste momento, coloquei a mão
esquerda em minha pantacléia e segurei firme a
adaga, apontando-lhe. Ao fazer este procedimento,
me lembrei do nome BITORRR que havia escutado no
pūjā para Lakṣmi e intuitivamente, comecei a lhe
chamar por este nome. Ao fazê-lo, a fúria do kako-
daimon foi completamente aplacada, de maneira
lenta. Eu continuava a repetir a convocação exausti-
vamente e quando senti que já havia conseguido
acalmá-lo, escutei no ouvido direito seu nome: Beli-
thor, quando sua assinatura astral me foi revelada
em visão.
Pronto! Eu já possuía tudo o que precisava para
me apropriar completamente da força e poder de
Belithor. De posse dessas informações, iniciei o apla-
camento dele, colocando-o aos meus serviços, como
protetor de minha mãe.

63
Até este momento, minha mãe que se contorcia
muito na cama, se acalmou e a partir dali, dormiu
bem a noite toda. Pela manha, todo o coágulo de
sangue saiu no travesseiro dela e não foi preciso
operá-la no dia seguinte para drená-lo. Os médicos
acharam um milagre. O dreno do sangue estava mar-
cado par as 7:00 da manha.
Passo 7: iniciei o aplacamento de Belithor com
uma conjuração, travando com ele um pacto de ami-
zade em nome de Hécate e de meu daimon pessoal.
Passo 8: Finalizei o aplacamento de Belithos ofe-
recendo oblações e incenso a Hécate.
Passo 9: Iniciei um processo de pajelança em mi-
nha mãe, limpando e ungindo seu Corpo de Luz com
incenso, Água Lustral e passes magnéticos, finali-
zando com a benzedura de Hécate Stropos.
Passo 10: encerrei a cerimônia com o selamento
do Corpo de Luz de minha mãe e uma prece de agra-
decimento a Hécate, Asclépio e ao meu daimon pes-
soal.
Eu darei detalhes sobre o Ritual de Aplacamento
dos kakodaimones em um novo escrito que estou
preparando: CONGRESSUS CUM DAEMONE, onde delineio
práticas ritualísticas para invocação do daimon pes-
soal, convocação de geniis-loci etc., bem como técni-
cas utilizadas nos rituais de teurgia. Este ritual pode
ser usado para aplacar a fúria de toda sorte possível
de kakodaimones. Jâmblico cita outro kakodaimon,
64
Lytta, que rege a loucura e os acessos de raiva e ódio.
Por meio de seu aplacamento, um estado sereno de
mente pode ser conquistado. Isso, nos termos de
Jâmblico, restaura a ordem natural e confere saúde
ao teúrgo, que tem mais paz interior para adorar e
fazer sacrifícios aos deuses.
Após este evento, no outro dia, minha mãe foi
liberada e nos dirigimos a sua casa. Agora ela passa
bem e está vagarosamente retomando as tarefas.

Amor é a lei, amor sob vontade.

65
Atu 0 – O Louco – no Tarot de Thoth. Concepção de Fernan-
do Liguori, pintura de Nícolas Furlan Moraes.
66
A JORNADA DO LOUCO
O EGO É ATRAÍDO AO SISTEMA SOLAR
UM EPÍSTOLA SOBRE O GRAU MINERVAL NA
ORDO TEMPLI ORIENTIS

Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.

Estes são tolos que homens adoram; ambos seus


Deuses & seus homens são tolos.1

A
epístola A JORNADA DO LOUCO é um ensaio longo
extraídos de minha Tese Mágica, que avalia os
Caminhos e Atus de Tahuti nos Arcanos Ocul-
tos de Iniciação da A∴A∴ e O.T.O. Embora seja muito
pouco conhecido, os Graus da O.T.O. são completa-
mente baseados na Árvore da Vida, conforme o pró-
prio Crowley estabeleceu. No entanto, diferente da
A∴A∴ que inicia a jornada em Malkuth, a O.T.O. inicia

1 LIBER AL, I:11.


67
a jornada no Caminho de Aleph. O Ritual de Minerval
é a jornada de Aleph em direção a Chockmah e por-
tanto, toda a estrutura desse Grau de introdução na
Ordem opera dentro do Caminho de Aleph.
Cada Grau da O.T.O. está associado a uma ou mais
esferas, assim como a um conjunto de Caminhos. O
Grau 0° (Minerval), por exemplo, trata-se da Jornada
do Louco no Caminho de Aleph. O I° Grau, no entan-
to, está associado a sete Caminhos: Beth, Gimel, Da-
leth, Heh, Vav, Zain e Cheth. O II° Grau está associado
aos Caminhos de Teth, Yod e Lamed etc. Os Rituais
de Iniciação da O.T.O. são, portanto, uma jornada
completa na Árvore da Vida. O Grau de Minerval,
segundo Crowley, trata-se do Ego sendo atraído ao
Sistema Solar. Nessa epístola nós saberemos como
isso acontece na Árvore da Vida.
Este ensaio é uma avaliação acurada e profunda
da magia sexual fálica proposta por Aleister Crowley
através do sistema original da Ordo Templi Orientis,
O.T.O., especificamente os Arcanos Iniciáticos do
Grau 0°, Minerval. Na sequência, abordaremos os
seguintes tópicos:

 O Louco como Aleph.


 O Louco como Minerval.
 Os Cakras & o Minerval.
 O Orvalho do Minerval.

68
 O Louco como ZRO

Toda Filosofia deve derivar da contemplação da o-


rigem de todas as coisas; toda Filosofia deve come-
çar com a concepção do Zero.1

O Louco é o número Zero (0), não o número Um (1)


como postulam alguns tarots com a influência do
Velho Aeon. De todos os Atus do Tarot, trata-se do
mais importante e é por isso que esse capítulo é o
mais longo do livro. Ele contém a semente de
, a pedra fundamental de toda a série de
ensaios sobre minha visão do Tarot de Thoth. Os
alquimistas têm se referido ao Arcano Iniciático de O
Louco como o tesouro mais difícil de se conquistar.
Trata-se do primeiro estágio do Alpha, o equivalente
grego da palavra hebraica Aleph. Nós podemos dizer
que, no sentido mais trivial do termo, que uma pes-
soa alpha conquistou elevado grau de refinamento
mental e físico, portanto, conquistou determinado
nível de Poder. Isso explica muito sobre a contradi-
ção representada pelo O Louco, pois ele pode ser
tanto um tolo idiota, o próprio Diabo, uma Divindade
ou até mesmo o Salvador. O Louco é Tudo e ao mes-
mo tempo não é Nada. O Louco sempre é, foi e será e
tudo o que podemos dizer sobre ele verdadeiramen-

1 Shih Yi, A CRITICAL AND MNEMONIC PARAPHRASE OF THE YI KING.


69
te é que ele tem a necessidade de existir. A primeira
esfera na Árvore da Vida é Kether, a Coroa. É o pró-
prio nome de Deus que alguns têm traduzido como
Eu Sou o que Sou. Essa definição do nome de Deus
apareceu na Bíblia pela primeira vez quando Moisés
pergunta seu nome:

E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse


mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me
enviou a vós.1

No entanto, a tradução mais correta para o nome de


Deus é Eu Serei àquilo que Sempre Fui, no entanto,
muitos qabalistas têm preferido traduzir o nome de
Deus apenas como Eu Sou. Essa frase representa
perfeitamente os princípios esotéricos de Deus sob
uma perspectiva iniciática em seu curso de manifes-
tação através do Caminho de O Louco. No entanto,
este Caminho representa a essência do pré-
nascimento de Deus, o pré-esperma de Deus, pois o
esperma ou sêmen é apenas o produto colateral ou
intermediário abaixo do Abismo. Em seu livro QBL,
Frater Achad (Charles Stansfeld Jones, 1886-1950)
diz que Aleph simboliza o Poder Gerativo Masculino
do Pai.

1 ÊXODO, 3:14.
70
O que é o Abismo? Todo thelemita já ouviu falar
sobre a Doutrina do Abismo na Filosofia de Thelema
e todo ocultista já escutou a expressão clássica atri-
buída a Hermes que diz: assim como é abaixo tam-
bém é acima. No nosso universo particular micro-
cósmico, o Abismo é uma linha imaginária que divide
as Supernas – Kether, Chokmah e Binah – das outras
esferas da Árvore da Vida. As Supernas representam
o Mundo Superior de Nossa Alma ou Espírito en-
quanto que as esferas abaixo do Abismo represen-
tam a mesma Alma ou Espírito, mas em uma condi-
ção diferente chamada de ruach, este sendo as cinco
esferas centrais da Árvore da Vida, de Chesed a Hod.
O ruach tem sido identificado como a Alma Pessoal e
representa nossa mente consciente e inconsciente,
em parte conhecida e em parte desconhecida. O que
confunde muitos thelemitas sobre essa estrutura da
alma foram os termos utilizados pela Sociedade
Teosófica e posteriormente pela Ordem Hermética
da Aurora Dourada. Estas duas escolas de iniciação
têm ensinado que nossa Alma Animal opera na esfe-
ra de Malkuth e que o ruach opera de Chesed a Ye-
sod. No entanto, Aleister Crowley (1875-1947), Dion
Fortune (1890-1946), Israel Regardie (1907-1985) e
Paul Foster Case (1854-1954) além de outros qaba-
listas acreditam que essa é uma interpretação equi-
vocada. Em PEQUENOS ENSAIOS EM DIREÇÃO À VERDADE,
Aleister Crowley disse que o Ruach é um grupo es-
71
treitamente entretecido de Cinco Princípios Morais e
Intelectuais, concentrados em volta de seu âmago,
Tiphereth, o Princípio de Harmonia, a Consciência
Humana e Vontade, de que as outras quatro Sephiroth
são (por assim dizer) as antenas.
A Alma Animal que mencionei acima é conhecida
como nephesh e trata-se do princípio que anima o
corpo físico, o aspecto mais baixo e tangível da vida
conhecido como Alento Divino ou Alento da Vida. É a
natureza sexual mais animalesca conhecida na psico-
logia como libido, cujas fundações se enraízam em
Yesod. O nephesh não é, dessa maneira, Malkuth
como muitos apontam. Malkuth trata-se apenas de
nosso corpo físico. Mas é importante aqui chamar a
atenção para o termo libido, uma vez que ele é utili-
zado enfaticamente nesse livro. A libido é muito
mais do que apenas nossos impulsos subjacentes
que culminam na atividade sexual trivial. Carl Jung
(1875-1961), fundador ou um dos maiores contribu-
idores da psicanálise moderna, diz que a libido ani-
ma várias outras funções e regiões do corpo humano
que em si não têm nada a ver com sexo.1 Mas o termo
é melhor compreendido quando invocamos para a
presente discussão o conceito hindu de kuṇḍalinī-
śakti. Embora a Serpente de Fogo adormecida possa
ser desperta através da atividade sexual magicamen-

1 Carl Jung, SÍMBOLOS DA TRANSFORMAÇÃO, Vozes, 1995.


72
te orientada, não é o sexo em si, mas a força que o
alimenta que anima cada aspecto de todo o nosso
corpo, desde os aspectos inferiores enraizados nos
impulsos sexuais ao nível mais elevado de consciên-
cia espiritual iluminada.
A parte mais elevada da Alma sempre permane-
cerá acima do Abismo, nas Supernas. É nas Supernas
que nossa Alma ou Espírito prepara para se encar-
nar ou projetar parte de si mesma abaixo do Abismo
em uma nova vida. Dessa maneira, o impulso que
compreende o movimento de O Louco é banhado na
mais pura, genuína e prístina , no entanto,
abaixo do Abismo ela encarna o curso natural da
dualidade e divide-se entre Vontade e Desejo, razão
pela qual o raciocínio se torna a principal arma atra-
vés da qual é possível conquistar o sucesso ou se
perder na derrota. O que as pessoas têm falhado em
compreender é que estas duas qualidades, Vontade e
Desejo, são Uma e a Mesma. O segredo por trás da
união dessas duas qualidades – e o que faz de Ho-
mens Deuses – reside no seguinte encantamento:
Amor é a lei, amor sob vontade.1 A humanidade em
sua grande maioria são escravos que corrompem o
Arcano místico deste encantamento, colocando ênfa-
se no amor profano ao invés do Amor pelo Sagrado.
Dessa maneira, o Eu Sou abaixo do Abismo não é

1 LIBER AL, I:57.


73
capaz de expressar ou completar a si mesmo e, por-
tanto, é intocado pela dualidade. Os thelemitas acre-
ditam que subindo a Árvore da Vida e cruzando o
Abismo poderão conquistar o impulso genuíno e
primordial da Verdadeira Vontade () repre-
sentado pelo O Louco, a semente original. No entan-
to, Crowley nos adverte em THE WAKE WORLD que se
trata da mais terrível jornada, eu lhe asseguro.

Também - posto que, abaixo do Abismo, a Razão é o


Senhor - que o homem procure pela experiência, e
não por perguntas.1

O Louco conecta Kether a Chokmah. Este Caminho


em si é inútil se ele não tem início ou fim. Cada um
dos Caminhos da Árvore da Vida é metaforicamente
um fio de condução que nos diz qual o tipo e a quali-
dade da energia que transita entre dois pontos. Essa
é a verdadeira natureza das lições do Tarot quando
estudamos cada Atu separadamente. Ao O Louco é
atribuído a letra Aleph. Quando escrita em letras
cheias, pl), as duas primeiras letras hebraicas são
A «)» e L «l» ou AL, que significa Deus. A terceira
letra é P «p» e sua conexão com O Louco será expli-
cada em breve nessa obra. O valor numérico de Ale-

1 O LIVRO DAS MENTIRAS, Aleister Crowley.


74
ph «pl)» é 111. Esse é o Número sagrado do Espíri-
to do Sol. Na numerologia qabalista é ensinado que o
número 1 é o início de todas as coisas, o número 11 a
conexão com o Sagrado Anjo Guardião e o número
111 nossa Missão na vida ou encarnação. AL – Deus
– soma 31, 31 x 3 = 93, o Número Sagrado das pala-
vras gregas  (vontade) e  (amor). Na
Qabalah Inglesa a palavra Lei (law) soma 37. Por
outro lado, 37 x 3 = 111. Faz o que tu queres há de ser
tudo da Lei.1 Abaixo do Abismo não existe lei além de
Faz o que tu queres.2

O LOUCO COMO ALEPH

A
maioria dos hebreus acadêmicos têm insisti-
do que a letra Aleph é formada por dois Yods
e um Vav atravessado, o que soma 26. Isso
implica uma conexão com o Tetragrammaton «Yod-
Heh-Vav-Heh-hwhy», que também soma 26. O sím-
bolo da letra Aleph «)» demonstra os mistérios de
como o Eu Sou acima do Abismo é unido com o que

1 LIBER AL, I:40.


2 LIBER AL, III:60.
75
está abaixo através do Caminho do Hierofante, atri-
buído a letra Vav «w». Isso nós veremos com mais
detalhes ao examinarmos o Caminho do Hierofante.
Por agora, o que importa é essa injunção: Aleph é a
semente de todas as possibilidades.
A letra Aleph é uma das três Letras Mães do alfa-
beto hebraico, sendo elas Aleph (1), Mem (40) e Shin
(300). Essa Trindade Sagrada de letras traz os atri-
butos do Ar, da Água e do Fogo. Estes se tornam o
Pai (Fogo), a Mãe (Água) e o Filho (Ar). Essa Trinda-
de equivale as Supernas na Árvore da Vida: Kether,
Chokmah e Binah. Todas as Trindades são meros
reflexos da qualidade inerente das Supernas. No
entanto, do ponto de vista qabalístico, essa Trindade
é retratada em três esferas distintas por conta de
nossa inabilidade, estando abaixo do Abismo, em
compreende a Unidade que existe acima do Abismo.
Não há divisão além do Abismo. Lá, a lança Sagrada e
o Santo Graal estão sempre em eterna União, no
abraço que o Rei dá na Rainha. Nos Mitos do Graal, o
rei é Amfortas e a rainha, Alta Sacerdotisa e Guardiã
do Graal, é a Kundry. Eles são Um e a Mesma Coisa,
tanto macho quanto fêmea. Eles parecem estar sepa-
rados, mas na verdade são uma Entidade Andrógena,
o primeiro Adão: E criou Deus o homem à sua ima-
gem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os

76
criou.1 Acima do Abismo essa aparente dualidade
não existe, apenas a harmonia da Unidade, como
bem o sabe qualquer Magister Templi que abraçou e
compreendeu todos os opostos. Uma vez que essa
Entidade Andrógena desce abaixo do Abismo, ela se
divide em Luz e Trevas, Homem e Mulher etc. E uma
vez aquilo que simbolizava a Lança Sagrada empu-
nhada por Amfortas para executar sua Verdadeira
Vontade, tornou-se o pênis jambrado dos domínios
de Klingsor, quem roubou a Lança para usá-la na
intenção de consumir seus desejos. Abaixo do Abis-
mo, a então Guardiã do Santo Graal, a Kundry, torna-
se a tentação que auxilia Klingsor a seduzir os Cava-
leiros do Santo Graal, para que eles possam se tornar
inaptos em empunhar a Lança Sagrada. Ela atua
como Judas Iscariotes, o traidor de Cristo. No entan-
to, ela não pode ser vista ou até mesmo condenada
por este papel, pois ela faz parte de um grande es-
quema na iniciação de cada Cavaleiro do Santo Graal.
Vê-la como maligna apenas enuvia a mente de qual-
quer Cavaleiro, afastando-o da redenção. A moral do
Adepto está muito além da dicotomia entre bem e
mal.
Para muitos a lógica pode parecer funesta. No en-
tanto, é essa tensão entre todos os opostos que ca-
pacita o Magister Templi a descer abaixo do Abismo

1 GÊNESIS, I:27.
77
e cuidar de seu jardim de discípulos e como Crowley
apontou em UMA ESTRELA À VISTA, o Magister Templi
deve renunciar Seu deleite no Infinito, para que ele
possa formular-Se como o Finito; aquisição dos segre-
dos práticos da iniciação e do governo de Seu propos-
to novo Universo; e identificação de si mesmo com a
ideia impessoal do Amor.1 A palavra hebraica Bera-
shith é a primeira palavra no livro de GÊNESIS e signi-
fica e no início. O reverso dessa palavra em hebraico
é Thisharb. Em LIBER VIARVM VIAE Crowley diz, pró-
ximo a letra Qoph: A Adivinhação do Destino. Liber
Viae Memoriae. Este liber é conhecido como LIBER
THISHARB VIAE MEMORIAE ou O LIVRO DAS LEMBRANÇAS
DO CAMINHO. Crowley escreveu que esta instrução
provê métodos para aquisição da memória mágica ou
memória de vidas passadas e um insight das funções
do aspirante em sua vida presente, assim como um
caminho que capacita o aspirante a calcular sua Ver-
dadeira Órbita na eternidade. Para uma compreen-
são mais ampla desse tema, sugiro ao leitor o estudo
dos dois primeiros capítulos do TAO TEH KING por Ko
Hsüan (Crowley), principalmente o segundo capítu-
lo, A Fonte da Energia do Self, onde aprendemos a
verdadeira natureza de todos os opostos: todas as

1Este é exatamente o Trabalho do Mestre Exaltado que inspira os


escritos de Frater ON120, epístolas sobre a descoberta e o enten-
dimento do Self.
78
coisas emergem sem distinção e sem ânsia de resulta-
do.1
Rapidamente, o Tao (Kether), Yang (Chokmah) e
Yin (Binah) formam uma Trindade. Essa Trindade
nós – abaixo do Abismo – consideramos ser três
entidades distintas, mas elas são Uma e a Mesma.
Trata-se apenas do Tao, nada mais. No entanto, para
uma compreensão mais íntima do tema, podemos
dizer que o Tao em Kether é neutro, distinto do Tao
em Chokmah que é positivo. Em Chokmah o Tao é
conhecido como Yang. Um é conhecido como Tao-
Todo enquanto que os outros são conhecidos como o
Tao-Caminho. Ambos são apropriadamente chama-
dos de Eternamente Sem Nome. O Tao em sua condi-
ção de Qi (Chi) ou prāṇa é a fonte de toda energia
(Vida), mas acima do Abismo ele permanece não-
manifesto. Trata-se de uma inação! Compreende-se
como algo de qualidades indescritíveis que não po-
dem ser definidas em palavras. O conhecimento
desse Arcano vem apenas da experiência pessoal e é
por isso que O Louco tem a necessidade de existir. A
experiência do Tao está enraizada no Portal da Mãe,
Teh, Yin ou Binah. No TAO TEH KING nós aprendemos
que existe o Tao e existe o Teh e este é descrito como
a energia imortal do Tao em sua forma feminina. Essa
crença é similar ao mito do deus Shu (originalmente

1 Veja LIBER AL, I:44.


79
atribuído a Chokmah) que, sendo parte de Atum
(Kether), é impulsionado a manifestação como a
deusa Tefnut (Binah), o aspecto feminino de Atum. O
papiro que destaca essa fase do mito é bem claro: De
um Deus eu me fiz Três Deuses. Esse é o ensinamento
primordial do TAO TEH KING e a Trindade Sagrada. O
caminho do Tao tem sido descrito como a jornada
em direção a verdade.
Outro aspecto das três Letras Mães é sua conexão
astrológica planetária. Aleph é atribuída a Urano,
Mem a Netuno e Shin a Plutão. O deus Urano foi a
própria personificação do Céu, o Deus do Céu, pai da
deusa Urânia. Os antigos gregos acreditavam que
Urano era um deus primordial que emergiu das tre-
vas. No entanto, sua mitologia evoluiu através da
história. Urano é atribuído a Chokmah. Uma vez que
O Louco conecta Kether (Netuno) a Chokmah (Ura-
no), considere as palavras de Crowley: Se Netuno faz
o santo ou eremita, Urano faz o magista, o homem
que invoca o desconhecido, não apenas por paz, mas
por poder.1 Urano rege tanto o Caminho do Louco
quanto a esfera de Chokmah. Sua influência tem
forte inclinação a magia, portanto, é da natureza de
Klingsor, o que é fundamental em sua jornada nos
Mitos do Graal. Crowley diz: Urano é a Lança Sagra-
da das lendas em nós. Nas mãos do Rei Sagrado ela

1 Aleister Crowley, THE GENERAL PRINCIPLES OF ASTROLOGY.


80
constrói o Templo do Graal, mas nas mãos de Klingsor
ela constrói o Castelo dos Encantamentos Malignos. O
Gênio pode ser fértil ou estéril, radiante ou sugador.
Um é Magia Branca, o outro Magia Negra. Mas a força
é a mesma e tendo uma natureza tão dúbia, é de ex-
trema importância que ela seja conduzida apropria-
damente. A natureza do forte e nobre Netuno é sua
grande salvaguarda em relação a essa força; e o sinal
da cruz em toda sua inteireza e sacralidade, em um
sentido pagão e cristão, representa essa força que
tanto redime quanto precisa ser redimida.1 A Lança
sagrada, portanto, pode construir o Templo do Santo
Graal em Binah, a Cidade das Pirâmides da cosmovi-
são thelêmica, ou pode ser empregada abaixo do
Abismo em Malkuth no Castelo da Perdição. A força
por trás do de O Louco ou seu impulso primordial é
de domínio universal por e para a encarnação de
seus ideais que serão enraizados em Chokmah, ó
assento não apenas da Verdadeira Vontade, mas do
Gênio. Crowley diz: Todo Gênio é igualmente bom,
mas a menos que ele seja acompanhado de grande
sanidade e força moral como um deus, e acima de
tudo com muito bom humor, ele cresce cheio de vene-
no.2 Essa citação de Crowley é deveras importante
acerca do movimento do Gênio em direção ao Cami-

1 Idem.
2 Idem.
81
nho do Mago (Atu I): o Gênio acima do Abismo pode
se tornar maligno e centrado no Ego abaixo do A-
bismo. E sobre a importância desse Gênio na astro-
logia Crowley menciona: A coisa mais importante na
vida de todo homem é descobrir o propósito de sua
encarnação e segui-lo com cautela, mas também com
paixão. A Astrologia não tem nenhuma outra função
além dessa: descobrir a natureza mais recôndita do
homem, trazendo para superfície da consciência, para
que assim ele possa se apropriar dela em acordo com
a lei da luz.1 O Caminho de Aleph traz a chave e é na
esfera de Chokmah que os deuses calculam ou defi-
nem nosso mapa astral.
Em muitos aspectos, Aleph significa alento e co-
mo Urano, essa letra é atribuída ao Ar. O Ar faz pos-
sível a Vida e nos provê a percepção do mundo,
transmitindo cores a manifestação visível. Alguns
autores sustentam que o Ar alimenta a própria ima-
ginação – e isso será importante na interpretação do
Caminho da Imperatriz, como veremos mais adiante.
Sem o Ar nada sobrevive, pois ele torna possível a
nossa existência. Essa é a natureza de O Louco. Os
gregos acreditavam que a imaginação existia em
uma região aérea nos planos espirituais. Essa região
se encontrava entre o reino dos deuses e o plano
material, afetando ambos. O filósofo neoplatônico

1 Idem.
82
Plotino (204-270) disse nas Eneádas que o corpo dos
daimons ou espíritos guardiões eram compostos de Ar,
de aparência ambígua, quase não-existente e sempre
aparecem e desaparecem nas sombras, evitando a luz
do Sol. Os cristãos da Idade Média transformaram
esses daimons em demônios e vê-se na invenção do
inferno uma interpretação corrupta das palavras de
Plotino. Na interpretação cristã, esses demônios
eram descritos como malignos e perversos e que
estavam sob as ordens do próprio Senhor das Tre-
vas, Satã, que também é relacionado ao Ar. O incauto
e não-iniciado, desavisado da verdade, imagina o
daimon, agora demônio, em formas grotescas e
monstruosas que se tornam um verdadeiro obstácu-
lo a ser transposto. Tudo depende da imaginação de
cada um. Em DE NATURA DEORUM Crowley diz: De
todos os nossos inimigos, àqueles que mais devemos
temer são os que criam falsos deuses em sua imagina-
ção.
No Atu 0 a imagem de O Louco demonstra alguém
que está sendo desperto, exaltado, acordado, impul-
sionado, o que significa que ele foi acionado e está
em movimento descendente em direção a Chokmah.
Isso é representado pelo Falo ereto que ele apresen-
ta. Sua nudez simboliza sua pureza. Frater S.S., meu
primeiro Superior na A∴A∴, certa feita me disse que
o semblante calmo de O Louco demonstra tranquili-
dade de quem realiza a Grande Obra no Caminho do
83
Silêncio. Essa frase tem me acompanhado desde que
comecei na senda thelêmica. Decorrente disso, eu
interpretei essa serenidade em minha versão de O
Louco como a atitude calma, tranquila e relaxada que
todos nós devemos ter diante dos intemperes da
vida e uma vez que a Grande Obra somente é exerci-
da com eficiência no Caminho do Silêncio, O Louco
tornou-se para mim a própria expressão do deus
Harpócrates.1 O Louco está chupando o dedo polegar
como um bebê, no entanto, seu gesto emula o Sinal
do Silêncio. Os gnósticos costumavam utilizar um
talismã que continha a Trindade IAO circunscrita na
figura de Abraxas. Eles associavam essa palavra, o
IAO a Hoor-paar-kraat ou Harpócrates, também
identificado com o deus Set dos egípcios. Crowley
destacou que Set é HAD, o bebê em um Ovo.2 O LIVRO
DA LEI foi, de fato, revelado por Aiwass, que se apre-
sentou como o ministro de Hoor-paar-kraa.3 HAD é,
assim a própria Serpente, o Pã não-manifesto, a Cri-
ança não-nascida, o jovem Parzival que ainda não
fora corrompido pela dualidade. Em busca de sua
puberdade, Parzival se torna no Cavaleiro errante
que alcança a Coroa redimindo a Filha do Rei.4

1 Veja O LIVRO DAS MENTIRAS, cap. 69.


2 Veja LIBER AL, II:49.
3 Veja LIBER AL, I:7.
4 Veja OS COMENTÁRIOS DE LIBER LXV (V:7), por Aleister Crowley.

84
Para dentro da minha solidão vem —
O som de uma flauta em bosques escuros que as-
sombram as mais remotas colinas.
Mesmo a partir do bravo rio eles chegam às mar-
gens do deserto.
E eu contemplo Pã.1

De seu estômago sai um cordão umbilical, o que


significa que ele ainda terá de nascer em uma nova
encarnação. Como potencial, O Louco é aquele que
ainda virá a manifestação, que ainda nascerá. Dessa
maneira, ele flui em movimento – como o Ar – de
Kether em direção a Chokmah, como um rio que
desce do alto de uma montanha que não pode ser
impedido, que não pode ter seu movimento inter-
rompido no caminho de sua queda. Trata-se de um
caminho sem retorno. Nessa descida, O Louco é se-
parado suas origens. Quer dizer, ele se esquece de
onde vem. Quanto mais ele se aproxima de Chok-
mah, mais se esquece de Kether. Atrás de O Louco é
possível ver a montanha de onde ele desce. Em DE
NATURA DEORUM Crowley diz: A Montanha, reverenci-
ada como o Trono dos Deuses, o local visível do Sol
nascente, é um símbolo do Falo. Algumas montanhas
são fêmeas, pela forma ou tradição. Ele vai mais além

1 LIBER VII, PRÓLOGO DO AINDA NÃO-NASCIDO.


85
e diz que toda Montanha é fêmea caso seja oca, como
no caso de Abiegnus, a Montanha das Cavernas.
A corrente de água que desce da montanha de
Kether a Chokmah representa a fluidez do ājñā-
cakra. Crowley associa O Louco a Pã e em seu ensaio
intitulado YOGA, J.F.C. Fuller (1878-1966) diz que o
ājñā-cakra é como os cornos de Pã que se abrem para
a descida de Deus. O ājñā-cakra é associado a Chok-
mah. Existem sete cakras principais na anatomia
psíquica humana. São vórtices de força ou zonas de
poder que se abrem como flores na superfície do
Corpo de Luz. Aprender como dominar e manipular
estes campos vibracionais de poder nos dota com
qualidades muito específicas, muito úteis a iniciação
do magista. O influxo de movimento de O Louco colo-
ca em operação o ājñā-cakra, como veremos ao ana-
lisar o Grau Minerval da O.T.O.
A letra P «p» que rege o Caminho da Torre (Mar-
te) contém o Mistério final de pl). Os Adeptos do
Soberano Santuário da Gnose, IX° O.T.O., compreen-
derão de maneira apropriada, principalmente levan-
do em consideração a seção Dos Alquimistas em LI-
BER C VEL AGAPE. No entanto, a maioria dos leitores
não terá o mesmo nível de compreensão, assim,
muita atenção é requerida aqui para compreensão
de O Louco. O primeiro estágio alquímico é conse-
guido através da Base Material conhecida como Flu-
86
ído Lunar da Imortalidade; o segundo estágio tem
duas etapas equilibradas por Vênus que traz Ágape
em harmonia com o princípio masculino de Chok-
mah. No entanto, o estágio final é muito distinto do
que muitos pensam e está associado a Marte, pois é
ali que a criança atinge sua puberdade, beleza e for-
ça. E sobre os outros estágios? Crowley diz que so-
mente pela compreensão desses três estágios inici-
ais é possível compreender os outros. O que isso
revela? Que temos de aprender a diferenciar a Von-
tade exercida por Chokmah dos desejos estabeleci-
dos em Malkuth. Um é o trabalho do Círculo, o outro
é o trabalho do Quadrado. Eles são equilibrados na
carta de O Louco pela fluidez das águas que passam
abaixo de suas penas. Ele caminha livremente pela
Boca «p» do Abismo ou do Conhecimento. E Crowley
disse: quae in p semen recepit.

O perfume de Pã penetrando, o seu sabor preen-


chendo totalmente a minha boca, de modo que a
língua irrompe em uma fala estranha e monstruo-
sa.1

O Louco está de pé sobre a Boca do Abismo. Há onze


dentes visíveis nessa boca: Meu número é 11, con-

1 LIBER VII, PRÓLOGO DO AINDA NÃO-NASCIDO.


87
forme todos seus números que são nossos.1 A língua é
vermelha, que representa Geburah (Marte), cujo
planeta rege A Torre. A boca é um implemento da
fala e o Abismo denota uma fala de tipo confusa. No
fundo da boca está o viśudhi-cakra, atribuído a Binah
e a comunicação que ocorre com os níveis acima do
Abismo. O verdadeiro Mistério por trás de O Louco
está exposto explicitamente na fórmula de ABRA-
HADABRA. Trata-se de uma Trindade ou Palavra-
Trina encontrada exatamente três vezes em O LIVRO
DA LEI:

 Abrahadabra; a recompensa de Ra Hoor


Khut,2 que completa o papel do Pai (Abra-
Sol).
 E Abrahadabra. Esta deverá ser sua criança
& isso estranhamente,3 que completa o papel
do Filho (Abra-Mercúrio).
 A conclusão das palavras é a Palavra Abra-
hadabra,4 HRILIU (Had-Vênus).

Em suas CONFISSÕES, Crowley escreveu que quando


estava pesquisando essa palavra, chegou a conclusão

1 LIBER AL, I:60.


2 LIBER AL, III:1.
3 LIBER AL, III:47.
4 LIBER AL, III:75.

88
de que de fato se trata da fórmula da Grande Obra,
ela mostra como unir o Microcosmo ao Macrocosmo e
em LIBER ALEPH ele complementa dizendo que a pa-
lavra é a expressão quintessencializada da maneira
mais correta de conduzir todas as Operações de Ma-
gia. Ainda em LIBER ALEPH Crowley se refere a pala-
vra- quádrupla ABRA abaixo do Abismo como sendo
o Sol (Tiphereth) e Mercúrio (Hod). Na imagem de O
Louco ele mostra seus dois pés apoiados sobre dois
quadrados, que representam, cada um, a palavra
ABRA. A sola do pé direito está sobre um quadrado
amarelo, representando Tiphereth. A sola do pé
esquerdo está sobre um quadrado púrpura, repre-
sentando seu apoio em Hod.1 Eles são Um e o Mesmo
e o mais importante, Pai & Filho em uma permutação
semelhante a Kether e Chokmah. Em O LIVRO DAS
MENTIRAS, Crowley acrescenta: Paternidade é unida-
de disfarçada de dualidade.2 Em seu comentário so-
bre essa ideia, ele conclui: chegamos a uma impor-
tante declaração, um esboço da mais ousada tese
neste livro: Pai e Filho não são verdadeiramente dois,
mas um; sua unidade sendo o Espírito Santo, o sêmen;
a forma humana é um acréscimo não-essencial desta
quintessência. Em outras palavras, não é possível

1 Na fórmula mágica de Crowley, Hod não é alaranjado, mas púr-


pura, a cor atribuída ais Graus mais baixos da O.T.O.
2 Aleister Crowley, O LIVRO DAS MENTIRAS, Capítulo 5.

89
dividir Pai e Filho ou ABRA de ABRA. Cada uma é
uma palavra-quádrupla, cada uma é um quadrado e
dois são os quadrados que formam o Altar da Obra.1
E novamente no LIBER ALEPH Crowley diz: A essência
é o Pai, o instrumento é o Filho, uma referência clara
ao Sol e a Mercúrio, o Deus descendo e sendo trans-
mitido através do Falo cujos Mistérios foram habil-
mente representados na MISSA GNÓSTICA através da
plataforma de três passos, preta e branca. Como O
Louco, a essência de Deus não é o sêmen, pois ele é
apenas um efeito colateral de todo o processo que
está sendo colocado em operação. No entanto, mes-
mo assim, ele não pode ser desperdiçado pois con-
tém o Segredo do Reino do Céus, como mencionado
em MATEUS (13:45-6): Outrossim o reino dos céus é
semelhante ao homem, negociante, que busca boas
pérolas; encontrando uma pérola de grande valor, foi,
vendeu tudo quanto tinha, e comprou-a. E nos COMEN-
TÁRIOS MÁGICOS & FILOSÓFICOS DE O LIVRO DA LEI,2 Cro-
wley diz:

O homem possui este supremo talismã. É sua pérola


de grande valor, em comparação com a qual todas
as outras joias são apenas quinquilharias. É dever

1Veja LIBER ABA, Livro II, Capítulo III, O Altar.


2 Veja O OLHO DE HOOR, Vol. I, No. 1, a primeira parte desse comen-
tário.
90
dele preservar a integridade desta substância. Não
deve permitir que a sua qualidade seja prejudicada,
quer por má nutrição ou por doença. Não deve des-
truir como Orígenes e Klingsor o fizeram. Não deve
desperdiçá-la como Onan.

No que concerne a doutrina do Tetragrammaton,


trata-se da União Mística do Pai em Chokmah e a
Mãe em Binah. Essa união, que ocorre acima do A-
bismo, produz a quintessência de ambos na forma
do Filho abaixo do Abismo nas esferas que compre-
endem de Chesed a Yesod. Os qabalistas têm o cha-
mado de ruach.
Por outro lado, tudo o que se manifesta abaixo do
Abismo é instantaneamente batizado pela dualidade.
Isso implica que além do Filho deve haver uma opo-
sição na forma de sua irmã, a Filha, nascida no mes-
mo momento em que ele. Ela reside na esfera de
Malkuth. A Filha é o veículo projetado de Babalon na
forma da mulher encarnada.
Metaforicamente, Ele «Yod-y» é a Semente, Ela
«Heh-h» é o Sêmen e a Menstruação. A letra S «Sa-
mekh-s» – Arte – é a Conexão Mágica entre eles.
Frater Achad tentou demonstrar esse Arcano através
da Qabalah Inglesa na interação das palavras He e
She [Ele e Ela]. He «y» = Semente, S-he «h» = Sêmen
e a Menstruação. A letra S «s» – Arte – é a Conexão
91
Mágica entre eles.1 Em LIBER ALEPH Crowley sumari-
za bem a questão: Primeiro, o Efeito da Operação de
Yod e Heh não é Vav apenas, mas com Vav aparece
também um novo Heh, qual Subproduto e ela é miste-
riosa sendo, ao mesmo tempo, a Flor dos Três Outros e
seu Veneno. Na magia sexual de Aleister Crowley,
portanto, o sêmen é definido como a Filha, que é o
subproduto não-essencial batizado pela dualidade
imediatamente no momento em que nasce ou é pro-
jetado para fora. O Filho, por outro lado, é a essência
que dá vida e está dentro do subproduto. Para que
seja realmente valioso, ambos devem estar unidos
em sacramento sagrado, a Arte. Trata-se de uma
terceira qualidade, que une os dois. Os cristãos es-
barraram nesse Arcano Iniciático quando afirmaram
que Deus era um conjunto de três entidades que
coexistiam em união, muito similar a doutrina das
Supernas acima do Abismo na Árvore da Vida. No
entanto, elas invalidaram a fórmula mágica quando
tiraram o aspecto feminino ou Mãe da equação, fi-
cando Pai, Filho e Espírito Santo. No entanto, esse
Arcano é preservado em palavras como IAO, HAD e
AUM, bem como segredos revelados aos Irmãos do
Soberano Santuário da Gnose IX° nas letras O.T.O.
Em LIBER C VEL AGAPE Crowley observa:

1 THE EGYPTIAN REVIVAL, Frater Achad (Charles Stansfeld Jones).


92
Desta duplicidade de linguagem surgiu infinita con-
fusão na mente vulgar. Porque eles não entendem
que o homem é o guardião da Vida de Deus; a mu-
lher, somente um meio temporário; um santuário,
na verdade, para o Deus, mas não o Deus. Assim,
blasfemam aqueles que adoram a falsa Trindade do
Pai - Mãe - Filho: bocas cegas que derramam vene-
no; que eles pereçam no Dia do Esteja Conosco.
Além disto, o Espírito Santo é a Unidade da Trin-
dade; porque o Pai e o Filho são na verdade guardi-
ões da Quintessência, herdeiros da Quintessência,
da substância da Quintessência, mas eles não são a
Quintessência em si. E esta é do Divino; mas na
Terra é o Filho que combina o Pai e o Espírito como
se fossem Homem e Mulher, Deus e Homem.

Sobre o Dia do Esteja Conosco, trata-se de um eleva-


do estado de consciência, veja LIBER CHETH VEL VAL-
LUM ABIEGNI:

Vede! Se reservadamente conservares em ti mesmo


um só pensamento teu, então tu serás lançado no
abismo para sempre; e tu serás o solitário, o come-
dor de esterco, o aflito no Dia do Esteja-Conosco.

Para compreender a interação entre Pai e Filho atra-


vés da qual a prima materia ou O Louco é produzido
ou primeiro formulado, devemos considerar o Ouro-
boros, símbolo representado por uma serpente engo-

93
lindo sua própria cauda. Como muitos símbolos, o
Ouroboros carrega outros enigmas implícitos nele,
mas o principal mostra uma serpente que deseja
perpetuar a Vida comendo sua cauda. Nesse proces-
so ela forma um círculo que representa o Zero e a
própria Verdadeira Vontade proclamada através de
uma Palavra, não duas, mas Uma e a Mesma (ABRA-
HADABRA). Essa é a razão subjacente por trás do
desejo da experiência na encarnação. Compreender
essa Palavra, portanto, é um ato crucial para o en-
tendimento de nossa Universo, os Mistérios do Cír-
culo e do Quadrado nos Graus da A∴A∴. No princípio
era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era
Deus.1 Na descida da Alma abaixo do Abismo, essa
Palavra é Perdida ou Esquecida. Sobre isso Frater
Achad disse: Mas a Palavra não é Perdida, exceto por
àqueles que se dispõem em aceitar uma substituta.
Abaixo do Abismo existem muitas Palavras ou sinali-
zadores ao longo do caminho de retorno, mas acima
do Abismo só existe uma Palavra: DEUS. Alguns lei-
tores mais atentos perceberão como o Zero (0) é um
símbolo que implica autorreflexão nos opostos na
intenção de produzir mudança e crescimento. Trata-
se do ciclo eterno de renovação encontrado na Natu-
reza primordial do Universo. O Ouroboros está sem-

1 JOÃO, I:1.
94
pre recriando a si mesmo, um processo de criação
através da destruição, de vida nascida da morte.
Essa tem sido a pedra de apoio ou a pedra angu-
lar que tem dado suporte a Tradição de Mistérios. A
Jornada do Louco, portanto, não poderia se apoiar
em outro lugar que não fosse essa pedra de apoio. A
tradição qabalista tem identificado essa pedra atra-
vés do nome Ehben «wk)», considerada a base do
trabalho espiritual que os rosacruzes chamaram de
tesouro oculto. É interessante a seguinte passagem
de Carl Jung: Este é um dos segredos mais bem guar-
dados da Alquimia, a prima materia. Não é difícil de
compreender o porquê, pois se trata de uma substân-
cia desconhecida que carrega a projeção do conteúdo
autônomo da psique. É impossível especificar o que é
essa substância, pois é uma projeção que emana de
cada indivíduo e em consequência, diferente para
cada um.1 As lendas e mitos através da história di-
zem que Deus encerrou dentro do homem essa pe-
dra. O Louco é a própria substância indeterminada,
sem forma ou propósito, mas representando um
potencial. Essa é a pedra fundamental que dá ímpeto
a Construção do Templo ou Corpo de Luz Incorrup-
tível. No caso das Palavras gêmeas ABRA, as duas
primeiras letras da palavra Ehben em hebraico são

1 PSICOLOGIA & ALQUIMIA, Carl Jung. Vozes, 2003.


95
AB «k)», que significa Pai e as duas últimas, BN
«wk», que significa Filho. AB ainda é um dos nomes
de Deus na esfera de Chokmah, o Pai e BEN é um
nome associado a Tiphereth, o Filho. A letra B é o
fator comum entre Pai e Filho, sendo ela uma letra
regida por Mercúrio, o Falo! É comum associar a
palavra Ehben ao número 53, mas ela é mais apro-
priadamente associada a 703. Embora ambos os
números revelem a influência da Sabedoria Divina, o
número 418 quando escrito em letras cheias na Qa-
balah Inglesa, quer dizer, quatrocentos e dezoito,
soma 703. 418 é ainda o número de ABRAHADABRA.
Em LIBER ALEPH Crowley diz:

HAD é o Triângulo ereto sobre Quadrados gêmeos.


De Hadit Eu não preciso escrever, pois Ele Se es-
condeu em O LIVRO DA LEI. A Substância é o Pai, o
Instrumento é o Filho e o Êxtase Metafísico é o Es-
pírito Santo cujo nome é HRILIU.1

Na teologia cristã, Deus existe em três entidades


distintas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, como citei
acima. Essas entidades coexistem em Unidade, em
igualdade. Crowley atribui as características do Pai-
ABRA e do Filho-ABRA ao Sol e a Mercúrio e se refe-
re ao Espírito Santo-HRILIU-HAD como Vênus. Essa

1 Aleister Crowley, LIBER ALEPH, Capítulo 87.


96
é a Trindade inserida em ABRAHADABRA: Sol, Mer-
cúrio e Vênus.
As pernas de O Louco formam um triângulo, de-
monstrando que de fato ele é HAD. Todos os sacrifí-
cios devem ser realizados dentro deste triângulo. No
entanto, todo sacrifício requer uma intenção: Faz o
que tu queres há de ser tudo da Lei.1 Os oito Oficiais
Invisíveis mencionados no Ritual de Minerval se
referem aos Gêmeos-ABRA e os três Oficiais Visíveis
se referem a HAD. Existem muitos outros símbolos
da gnose thelêmica encerrados nos Rituais de Inicia-
ção da O.T.O. Entre essas três e oito letras de ABRA-
HADABRA existem muitos outros Arcanos. Portanto,
todo Acampamento da O.T.O. tem três Oficiais Visí-
veis e oito Oficiais Invisíveis. Os três Oficiais Visíveis
são o Saladino, o Vizir e o Emir. Os dois quadrados
de ABRA que formam o Altar da Arte são ainda sím-
bolos do Macrocosmo e Microcosmo e das Oito Co-
lunas do Templo. No IV° O.T.O. é ensinado que os
três representam o quadrado, o círculo e o triângulo
que são colocados sobre o Altar e os oito represen-
tam as letras da palavra sagrada JAHBULON. Os Ar-
canos desses três símbolos foram explorados em um
manuscrito alquímico do Séc. XIII chamado ROSARIUM
PHILOSOPHORUM que veremos com mais atenção no
Atu II, A Alta Sacerdotisa. Os Pilares do IV° O.T.O. em

1 LIBER AL, I:40.


97
si representam a medida entre Céu e Terra e o Mis-
tério da palavra óctupla BAPHOMET, sendo o trono
de SOL-OM-ON. Finalmente, 3 + 8 = 11: Meu número
é 11, conforme todos seus números que são nossos.1
Em sua mão direita, O Louco carrega um Báculo
ou Haste que não apenas significa seu poder fálico
potencial. No alto de seu Báculo vê-se a cabeça de
um boi (Aleph) com chifres, similares aos chifres da
cabeça de O Louco. Da boca do boi, vê-se um néctar
dourado saindo. Em LIBER ALEPH Crowley diz: Pelo
estreito Portal de Ouro Puro, tu chegarás mais no-
bremente ao Santuário. O círculo negro abaixo da
cabeça do boi além de representar o 0 (Zero), tam-
bém representa Ayin-O «(». Essa letra é atribuída ao
Diabo (Atu XV), Saturno, outro símbolo de Bapho-
met. Junto a cabeça, o círculo forma o símbolo 8,
também associado a Baphomet. Quando visto de
cima, a cabeça do boi se parece com o Ponto no Cír-
culo. O Sol acima dos chifres da cabeça do boi repre-
senta a fixação da Estrela em sua própria órbita. Este
é o símbolo universal do Sol, fonte de luz e poder.
Também representa o Ovo Cósmico de cujo centro
brota a criação.
Para uma compreensão acurada da natureza de O
Louco devemos considerar sua relação com o Ego,

1 LIBER AL, I:60.


98
pois isso revela um dos grandes paradoxos da magia.
O Ego é considerado o maior obstáculo no caminho,
no entanto é através dele que nós progredimos. A
maioria dos autores de psicologia concorda que na
infância o Ego não se manifesta. Trata-se de uma
construção que demora algum tempo para se mani-
festar. No devido tempo ele se tornará o centro do
universo ou da consciência. Autores junguianos di-
zem que O Louco é uma figura religiosa arquetípica1
que representa o que Jung chamou de aspecto não-
desenvolvido pela psique. Na visão destes autores, O
Louco é considerado parte da personalidade que
permanece sempre por trás e, portanto, sustenta sua
santidade natural.2 Jung determina o Ego como o
centro da consciência. Self é o termo que ele usa para
denotar todo o centro da psique, um centro de consci-
ência expandida e de estabilidade. Como a dança
circular do Louco nos mostrará, o Self não é algo que
simplesmente criamos e nem algum tipo de cenoura
colocada pela vida na frente de nosso nariz. O Self
estava lá desde o início. O Ego é, caso queira, feito,
mas o Self é dado. Ele existe desde seu nascimento e
permanecerá após a sua morte. O Self está sempre
conosco, na urgência de nosso retorno para casa, pois
não há outro lugar para ir. Nossa viagem, como a

1 Sallie Nichols, JUNG E O TARÔ, Cultrix.


2 Marie-Louize von Franz, TIPOLOGIA JUNGUIANA, Mercato.
99
Jornada do Louco, é uma dança circular.1 E nas pala-
vras de Jung: O Self está para o Ego assim como o
movimento está para quem se move, como um objeto
está para um sujeito. [...] O Self, como o inconsciente, é
uma existência a priori onde quer que o Ego se envol-
va. O Self é uma prefiguração inconsciente do Ego.2 E
sobre o Ego, Jack Parsons (1914-1952) diz: Encon-
tramos o Ego na necessidade de sermos amados e isso
envenena a mente com medo e ódio. A Magia é a Ciên-
cia & Arte que nos permite guiar O Louco no cami-
nho correto abaixo do Abismo e para que isso seja
feito, o Ego precisa ser colocado sobre controle.

O LOUCO COMO MINERVAL

A
leister Crowley possuía muito erudição sobre
os clássicos da literatura grega, que inspira-
ram muitos de seus escritos. O Ritual de Inici-
ação do Grau de Minerval da Ordo Templi Orientis,
O.T.O. tem muita similaridade com o MITO DE ER de
Platão. A história relatada por Platão no Capítulo X
de seu A REPÚBLICA fala de um guerreiro de nome Er
que morreu em batalha e jornou até a terra dos mor-
tos. Lá ele testemunhou as futuras encarnações de
outras pessoas. Em muitos aspectos Er é O Louco em

1 Sallie Nichols, JUNG E O TARÔ, Cultrix.


2 Carl Jung, MYSTERIUM CONJUCTIONIS, Vozes.
100
sua jornada de Kether a Chokmah e depois a Binah e
finalmente encarnando abaixo do Abismo após pas-
sar pelo rio do esquecimento. Esse Ritual de Inicia-
ção que abre as portas da O.T.O. ocorre na esfera de
Chokmah, sabedoria. Minerva é a Deusa da Sabedo-
ria. Como O Louco cujo número é Zero (0), o Miner-
val é 0° Grau. Crowley adotou o Zero como um sím-
bolo da totalidade do Universo. Através desse Ritual
o nosso Louco Interior é colocado em ação. O Atu O é
a única carta do Tarot de Thoth acionada pelo Ritual
de Minerval. Os membros iniciados no Grau 0° são
aconselhados a estudar O Louco para compreender o
curso da cerimônia. O Iniciador deste Grau é o pró-
prio Saladino que representa a dualidade, o bem e o
mal, Deus e Satã, que informa ao candidato: Eu te
saúdo como um Irmão com o título de Homem da
Terra, um buscador da Sabedoria Oculta. O Saladino
então presenteia o Candidato com um Pergaminho
Sagrado, O LIVRO DA LEI, a Carta da Liberdade Univer-
sal. Homem da Terra é um termo técnico que apare-
ceu em O LIVRO DA LEI:

Quem nos chama Thelemitas não fará engano, se


ele olhar, senão de perto, no interior da palavra.
Pois nesta estão Três Graduações, o Eremita, e o

101
Amante, e o homem da Terra. Faz o que tu queres
há de ser tudo da Lei.1

Em LIBER 418: A VISÃO & A VOZ:

E ele me diz desconexamente: o homem da terra é o


devoto. O amante dá a sua vida para trabalhar entre
os homens. O eremita caminha solitário dando aos
homens apenas a sua luz.

No sistema de iniciação da A∴A∴ o que se requer de


qualquer thelemita na graduação de Homem da Ter-
ra é seguir a Lei de Thelema e a propagação de que a
Lei é para todos.2

Procura aquele, que te dará o ser, na Sala da Sabe-


doria, a sala que está para além, onde todas as
sombras são desconhecidas e onde a luz da verdade
brilha como uma glória imorredoura.3

No Ritual de Iniciação de Minerval, o Candidato é


trazido vendado e amordaçado até o Saladino, que
está sentado dentro de uma Tenda. No Ritual de I°
Grau o Candidato não será amordaçado novamente,
mas será vendado uma outra vez. Em ambos os ca-

1 LIBER AL, I:40.


2 LIBER AL, I:34.
3 H.P. Blavatsky, A VOZ DO SILÊNCIO, 30.

102
sos isso simboliza sua inabilidade em ver a Luz, mas
também significa que tudo o que está acontecendo
ali é um assunto que está muito além do Abismo, na
Escuridão. O Minerval, como um bebê desamparado,
busca por uma nova vida, similar ao MITO DE ER. O
Candidato estando diante do Saladino o Guarda Ne-
gro é perguntado: quem você tem aí? O qual respon-
de: um prisioneiro. A ele novamente é perguntado:
Você descobriu a sua identidade? Pergunta que ele
novamente responde: Descobri, poderoso Saladino.
Ele é um nativo de Corinto, mas alcançou a liberdade
da cidade de Atenas, a aliada de Metilene. Na Antigui-
dade, antes de haver a integração de cidades em
estados, cada uma era seu próprio estado, comple-
tamente independente. Ganhar a liberdade em uma
cidade-estado era uma grande honra para indivíduos
destacados que deixavam de ser considerados es-
cravos pela comunidade. Eles ganhavam, dessa ma-
neira, o privilégio de lutar pela cidade em que viviam
quando fosse chegada a hora.
Em uma instrução restrita a O.T.O., Aleister Cro-
wley diz que as iniciais dessas cidades formam o
anagrama KAM. K é a primeira letra da palavra Co-
rinto no original grego. A refere-se a Atenas e M a
Metilene. Ele vai mais além e diz: KAM é a palavra
grega para «trabalho», da qual karma e kāma são
derivadas. No hinduísmo, kāma é um dos objetivos a
serem realizados na Vida e refere-se àquela etapa
103
onde o homem deverá conhecer uma mulher e o
prazer, constituir família e viver em acordo com o
dharma. Autores tântricos ainda sustentam que é a
etapa no treinamento espiritual para o corpo psíqui-
co, composto por desejos. Os budistas vão um pouco
além e ao invés de colocarem atenção sobre o con-
trole dos desejos eles ensinam a contenção total de
suas arestas, principalmente na forma da conduta
sexual. Os sikhis veem kāma como uma propensão
pecaminosa. É um termo utilizado para denotar o
indivíduo entregue a seus desejos, paixões, gratifica-
ções sexuais e prazeres de todos os tipos. Kāma é o
comportamento padrão do Homem da Terra.
O Prisioneiro é nativo de Corinto (Kether), mas
obteve sua liberdade na cidade Atenas (Chokmah), a
aliada de Metilene (Binah). Como as Três Fatalidades
ou o drama de Parzival e os Três Cavaleiros que
primeiro lhe receberam, a aventura do Minerval
também é inspirada por uma Trindade. O Saladino
pergunta ao prisioneiro porque ele está viajando
pelas terras do Egito. A ele é dito que o prisioneiro
viaja para Heliópolis, a Cidade do Sol (Tiphereth).
Vamos destrinchar essa Santa Trindade referida na
instrução de IX° Grau, LIBER C VEL AGAPE:1 Pai, Filho e
Espírito Santo.

1 Publicada em RITUAIS, DOCUMENTOS & A MAGIA SEXUAL DA O.T.O.


(Vol. I).
104
Durante a ocupação grega por volta de 334 a.C.,
Alexandra o Grande (356-323 a.C.) mudou o nome
de duas cidades ocupadas para Heliópolis. Uma delas
era a cidade egípcia Annu, zona de poder ou local de
adoração do Deus Sol. De acordo com o GÊNESIS
(41:45-50 e 46:20), os hebreus chamavam essa ci-
dade de ON. Annu originalmente significa Salão en-
tre Colunas. Extratos mitológicos dizem que foi dessa
cidade que emergiu o Monte Primordial das águas de
Nu e de onde Atum, o primeiro deus, criou a si mes-
mo e depois o mundo. Esse Monte Primordial era um
portal através do qual as almas nasciam na Terra. No
centro do Templo do Sol1 em Heliópolis encontrava-
se a Pedra Ben (o Monte Primordial) alocada de ma-
neira que os primeiros raios do Sol do Solstício de
Verão pudessem banhá-la. Os textos das pirâmides
dizem que Atum se elevou como o pássaro Ben na
Mansão de Benu em Heliópolis. Acredita-se que o
nome Atum seja uma derivação da raiz egípcia tem,
que significa completo ou finalizado, daí sua conexão
com o Sol poente, aquele que toma aquilo que criou
no fim de seu ciclo e retorna a sua fonte. É dito que
Heliópolis foi o primeiro assentamento para adora-
ção do Sol como Ra e seu deus era Re-Tum, Atum-Re
ou simplesmente Tum. Atum também criou o deus

1Nome que inspirou a única Loja da O.C.T. que realmente operou


com Rituais de Iniciação, localizada em Juiz de Fora.
105
Shu e cuspiu a deusa Tefnut. Juntos eles criaram um
filho, pois ABRA produz ABRA e Shu cria Shu para
manifestarem-se abaixo do Abismo no Firmamento
(Chesed), como Crowley diz: O Firmamento é o Rua-
ch, o plano mental, o reino de Shu ou Zeus, onde se
revolve a Roda dos Guṇas, as Três Formas do Ser.1
O Minerval irá compreender todas essas implica-
ções acerca da magia sexual fálica da O.T.O. quando
ele for recebido no modo solito do VIII° Grau onde
estudará a instrução DE NUPTIIS SECRETIS DEORUM CUM
HOMINIBUS: O SEGREDO DO CASAMENTO DOS DEUSES COM OS
HOMENS. Essa instrução secreta da O.T.O. detalha
uma prática de magia sexual fálica, que ensina o
magista a utilizar a masturbação como um mecanis-
mo para compreender o significado da projeção da
Palavra de Deus (Aleph) ao invés de ejacular o sê-
men como um não-iniciado, que utiliza o Falo como
uma forma de prazer que dá vazão não apenas a seus
desejos e apetites, mas também para projetar seus
complexos, sua sombra e os fantasmas que poluem a
sua mente. Tu não procuraste retificar a cura do pe-
sar; portanto todo pesar é tua sina. E isso é o que está
escrito: «Deus tem colocado sobre ele a injustiça de
todos nós». Pois como teu sangue está misturado na
taça de BABALON, assim é teu coração o coração
universal. Contudo está ele cingido com a Serpente

1 Aleister Crowley, LIBER ABA.


106
Verde, a Serpente do Deleite.1 A O.T.O. ensina o em-
punhar bem-sucedido da Baqueta Mágica. Na Seção
XII dessa instrução, DO REINO NOVO E SANTO, Crowley
cita o PAPIRO DE NES-MIN como um exemplo por trás
da União das duas seções precedentes: Matrimônios
Maiores e Menores. Sua intenção é ensinar que este
é um trabalho anterior que prepara o magista para
lançar a Palavra de Deus na Matriz Universal repre-
sentada pela Mulher Escarlate na sua função de Ba-
balon, no IX° Grau da O.T.O. Eu copulei com meu pu-
nho, meu coração e minha língua vieram a mim, eu
emiti sêmen em minha sombra, eu ejaculei em minha
própria Boca, eu enviei assim como Shu, eu me despe-
jei como Tefnut. [...] De um Deus eu fui Três Deuses.2
Em outras palavras, acima do Abismo não há dife-
rença entre uma Coisa e Outra. Uma Trindade, por-
tanto, não são três entidades, mas Uma Só. Atum
(Kether) é o primeiro deus. Ele criou Shu (Chokmah)
que contém a Essência ou a Semente cujo Ovo ou
meu coração e minha língua é parte de Tefnut (Bi-
nah) como sua contraparte feminina, cuja origem é
de sua Boca. Acima do Abismo eles são então o Filho,
o Pai e o Espírito Santo. Essa é a Sagrada Trindade
na instrução do IX° O.T.O.

1Aleister Crowley, A VISÃO & A VOZ.


2Aleister Crowley, DE NUPTIIS SECRETIS DEORUM CUM HOMINIBUS: O
SEGREDO DO CASAMENTO DOS DEUSES COM OS HOMENS.
107
Sê tu Hadit, meu centro secreto, meu coração & mi-
nha língua!1
Cumpra meu profeta! compreenda a oposição dos
ordálios do meu conhecimento. aspirai-me unica-
mente! Em seguida os prazeres do meu amor vos
libertará de todo sofrimento. Isto é assim: Eu juro
isto pela abóbada do meu corpo; pelo meu sagrado
coração e língua; para todos Eu posso oferecer, pela
totalidade Eu desejo de vós todos.2
Isto deverá regenerar o mundo, o pequeno mun-
do minha irmã, meu coração & minha língua, para
quem Eu enviei este beijo. Também, ó escriba e
profeta, ainda que tu sejas dos príncipes, isto não
deverá aliviar a ti e absolver-te. Mas seja teu êxtase
e prazer da terra: sempre Para mim! Para mim!3

ON é a Palavra Sagrada ou de Passe do Minerval na


O.T.O. Em A MISSA E SEUS MISTÉRIOS, Jean Marie Ragon
(1781-1862) discute com profundidade a relação do
Filho de Deus com cultos de adoração ao Sol anterio-
res. Ele disse: O antigo Egito nos transmitiu o Sol-
Deus: Osireth, Osíris, On. Isso é diversas vezes reite-
rado nos Rituais da O.T.O., que ON é o Deus-Sol. Na
MISSA GNÓSTICA, a cerimônia central da O.T.O., é dito:
Nosso Senhor e Pai o Sol que viaja nos Céus. A Missa é
um ritual onde o sacramento da Eucaristia é cele-

1 LIBER AL, I:6.


2 LIBER AL, I:32.
3 LIBER AL, I:3.

108
brado como o Filho de Deus. Esse ritual ocorre sem-
pre aos domingos, o dia do Sol. ON é a Palavra Sa-
grada, metade conhecida (O), metade ocultada (N).1
Em MAGIA EM TEORIA & PRÁTICA, Crowley diz no Capí-
tulo XI que a Fórmula de Babalon ou da Mulher Es-
carlate era secreta e ele a ensinava somente a pou-
cos discípulos escolhidos. Na Palavra ON, a Fórmula
Mágica de Therio a Grande Besta, ABRAHADABRA, é
a letra O. A Fórmula Mágica de Babalon a Mulher
Escarlate é secreta e refere-se a letra N. Por esse
motivo Crowley colocou mais ênfase na Fórmula
Mágica do Falo. Nas tradições tântricas do Oriente, é
comum o Guru revelar ao Chela ou discípulo um
mantra secreto, uma Palavra de Poder através do
qual o discípulo poderá chegar ao âmago (O Louco)
de si mesmo. Esse mantra o discípulo deverá entoar
em suas práticas diárias na intenção de energizar o
complexo corpo-mente com sua vibração. Nenhum
mantra terá poder antes que essa energização ocor-
ra. Na O.T.O., ao Minerval é entregue a Palavra ON, a
qual ele deverá entoar em suas práticas diárias, e-
nergizando toda sua psique com a Palavra Sagrada.
Em uma carta a Frater Achad, datada de 4 de ou-
tubro de 1919, Crowley escreveu: Eu tenho a ideia de
fazer da O.T.O. uma espécie de campo de treinamento
para A∴A∴. Esse primeiro passo foi oferecer para

1 Veja LIBER AL, I:34.


109
sociedade em geral a MISSA GNÓSTICA, uma ferramen-
ta de recrutamento da O.T.O. Àqueles que participam
da Missa como convidados da Ordem e desejam
ingressar no corpo de iniciados que a compõe, são
convidados a Iniciação. Crowley acreditava que após
algum tempo participando da vida social promovida
pela O.T.O., a pessoa podia se interessar pelo trei-
namento espiritual oferecido pela A∴A∴, cujo Santu-
ário Interno é conhecido como a Ordem S.S. Essas
duas letras somam 120, o mesmo valor da Palavra
ON. É interessante notar que 120 é a idade atribuída
a morte de Moisés e também a Verdade Oculta es-
tampada no Portal da Cripta de Christian Rosen-
kreutz em latim: Post CCXX Annos Patebo, quer dizer:
Após 120 Anos eu Abrirei. Crowley falou profunda-
mente sobre esses mistérios em LIBER ALEPH: O LIVRO
DA SABEDORIA OU DA TOLICE. Ele descreveu essa instru-
ção como uma descrição clara do coração de sua
doutrina. É nesse livro que Crowley fala abertamen-
te sobre os Arcanos contidos na Palavra ON. Ele o
escreveu para Frater Achad que na época era consi-
derado por ele mesmo como seu Filho Mágico (777).
Crowley colocou seu coração e alma no projeto, de-
talhando seu sistema de tantra ocidental, muito dis-
tinto do Tantra como o vemos no Oriente. Uma inda-
gação interessante: você já notou que todos os Capí-
tulos de LIBER ALEPH começam com a Palavra ON?

110
ON é a antiga palavra egípcia para o Sol; na medida
em que nos preparamos para Ir,1 tudo está bem,
uma vez que estamos alinhados com a urgência na-
tural da Evolução. Mas nós vamos além da ideia
convencional de Evolução assumindo consciente-
mente uma cooperação livre com o Propósito Divi-
no. Àqueles que tentam reverter o progresso da e-
volução, dizem Não2 em seus corações, caindo no
Pecado da restrição, metendo-se em problemas.3

Pela vontade pura, desaliviado de propósito, livre


do desejo de resultado, é cada caminho perfeito.4

A segunda Heliópolis e a mais importante era a cida-


de libanesa chamada Belbek Muita especulação tem
sido levantada sobre qual das duas Heliópolis Cro-
wley se referiu no Ritual de Minerval. A lógica nos
diz que a Heliópolis referida por Crowley trata-se da
cidade libanesa, precisamente pelo o que ocorreu
nela. Ao mudar o nome da cidade de Balbek para
Heliópolis, Alexandre o Grande mandou construir
nela um Templo dedicado a Júpiter (Baal) e Vênus
(Baco). Durante 1912, período em que Crowley co-

1 Aqui Frater Achad faz um trocadilho usando a Palavra ON: to go


On.
2 Aqui Frater Achad faz outro trocadilho com a palavra NO (não),

invertendo a Palavra ON.


3 Frater Achad, EGYPTIAN REVIVAL.
4 LIBER AL, I:44.

111
meçou a revisar os Rituais da O.T.O., ele escreveu
uma instrução chamada ENTUSIASMO ENERGIZADO :
UMA NOTA SOBRE TEURGIA .1 Nessa instrução Crowley
fala de mistérios que envolvem o IX° O.T.O. e trata da
adoração dos três Deuses adorados em Heliópolis:
Baco (Dionísio), Afrodite (Vênus) e Apolo (Sol), na
finalidade de revelar o princípio por trás da forma do
Vinho, da Mulher e da Música, ingredientes funda-
mentais nas práticas de magia sexual da O.T.O.
Outra lógica por trás da escolha de Crowley em
se referir a cidade libanesa é por conta de outro
acontecido nela, que reflete bem mais os mistérios
da O.T.O. Após a Segunda Cruzada, por volta de
1149, anos de batalha aconteceram ao redor da He-
liópolis libanesa pelo controle da cidade. Em 1175
finalmente o Saladino conseguiu tomar a cidade.
Após sua tomada, Cavaleiros da Ordem do Templo
continuaram a fazer incursões militares de reconhe-
cimento nas florestas que margeavam a cidade, na
tentativa de conseguirem entrar como espiões. Por
conta disso, inúmeros Cavaleiros foram capturados e
decapitados pelos Guardas do Saladino. O Candidato
na Iniciação de Minerval faz o papel de um Cavaleiro
capturado pelos Guardas Negros do Saladino, fazen-

1 Publicada em RITUAIS, DOCUMENTOS & A MAGIA SEXUAL DA O.T.O.


(Vol. I).
112
do alusão a este período, retratado por Crowley nas
iniciações dos Graus de 0° a III°.
O que nós aprendemos até aqui? Primeiro, que o
estágio inicial do Ritual de Minerval trata do movi-
mento de Aleph saindo de Kether em direção a
Chokmah, tanto na iniciação dos homens quanto na
iniciação das mulheres. Então, se o Saladino concor-
da que o prisioneiro (Aleph) é digno em sua jornada,
ele o convida a entrar na Tenda, que implica na en-
trada de Aleph em Chokmah. O Candidato, não mais
um prisioneiro, é encorajado a sentar-se ao lado do
Saladino, para que este o instrua sobre a rigidez que
suporta – ou é o suporte – da Tenda. Uma vez que a
instrução está ocorrendo dentro da Tenda, trata-se
de uma instrução fálica. O suporte da Tenda, sua
haste firmemente estabelecida, é uma metáfora para
o Falo e seu Poder Criador. E embora muitas femi-
nistas-qliphóticas não gostem dessa expressão, to-
dos os Espíritos iniciam sua jornada dentro do pênis.
Os mistérios que envolvem a fórmula mágica de
Babalon são gradualmente inseridos em cada Inicia-
ção, mas não é até o IV° Grau quando o Falo, estando
completamente ereto, entrará no Santuário de Baba-
lon e desfrutará do Ágape nos seus domínios.1 Mas

1 Na fórmula mágica dos Rituais de Iniciação da O.T.O., os Misté-


rios do Homem (O) são inseridos gradualmente do 0° ao III°
113
não seja tolo! Este não se trata de um amor livre
hedonista e muito menos sexualidade embrandeci-
da. É um Amor Superior, Divino, consagrado pela
Verdadeira Vontade e batizado pela Verdadeira Li-
berdade. Lembre-se, toda restrição é pecaminosa
para um thelemita.
A Corrente Ofidiana que alimenta a magia sexual
tem um rico conjunto de símbolos que devem ser
gradativamente assimilados por cada magista que
deseja fazer uso dessa tecnologia espiritual. Um
desses símbolos, por exemplo, é a montanha. A mon-
tanha é uma referência ao Falo ereto. No Ritual de
Minerval aparece a Palmeira. A lenda conta que a
Palmeira foi a primeira espécie vegetativa plantada
por Deus. O Mito de Apolo diz que ele nasceu abaixo
de uma Palmeira. Em seu comentário sobre o LIBER
A’ASH VEL CAPRICORNI PNEUMATICE, também conhecido
como O LIVRO DA CRIAÇÃO OU DO BODE DO ESPÍRITO, Fra-
ter Achad diz que Rugoso Carvalho de Deus pode ser
uma referência ao Sol, o Criador no Macrocosmo. No
entanto, Crowley o corrigiu e disse: Não, é o próprio
Falo, veias, sêmen contido no vaso etc. Ele ainda disse
que essa instrução contém o verdadeiro segredo de
toda magia prática. Crowley atribuiu o número 370
a esse escrito, o mesmo número da palavra hebraica

Graus. Os Mistérios da Mulher (N) são inseridos no s Graus IV° e


P.I.
114
para Criação «#(». Quando no Ritual de Minerval o
Candidato sai da Tenda, não se trata de uma ação
sem significado. Lembre-se sempre: todo o simbo-
lismo dos Rituais de Iniciação da O.T.O. tem o objeti-
vo de ensinar ao Candidato segredos sobre a magia
sexual, quer dizer, os Mistérios e Arcanos por trás
dessa prática. No final da cerimônia uma indagação,
portanto, deveria estar clara na mente do Candidato:
de onde eu venho e como faço para retornar? O Ritual
de Iniciação de Minerval está, nesse caminho, reali-
nhando o ponto de vista espiritual do Candidato na
intenção de fazê-lo perceber o poderoso mundo
oculto do daemone, o qual deve ser a Candeia que
ilumina sai jornada. Àqueles que dizem que a O.T.O.
não ensina absolutamente nada, não prestaram bem
atenção e falharam na cartilha fundamental: o ABC!
A magia por trás das lições do Ritual de Minerval
é aprender a usar de maneira apropriada O Louco e
utilizar seu poder sem reservas: Faz o que tu queres
há de ser tudo da Lei.1 O segredo para ativar esse
Poder está velado no mito da deusa Anaque, que
rege nossos destinos. Por conta dessa peculiaridade,
ela nos revela nossa Carta Natal e como Adeptos,
Deuses encarnados, devemos usar as Três Fatalida-
des (a Trindade do IX° O.T.O.) e astrologicamente

1 LIBER AL, I:44.


115
preparar um nascimento apropriado de nossa Crian-
ça Mágica: a Palavra (O Louco). Não é Chokmah o
reino das Estrelas Fixas? Isso implica em estabelecer
uma Carta Natal para ajustar O Louco em sua devida
órbita. Assim, a Astrologia se torna uma arma fun-
damental na execução da magia thelêmica. Crowley
em MAGICK WHITHOUT TEARS diz que no Minerval, o
Ego é atraído ao sistema solar e em uma entrada em
seu diário em 17 de julho de 1916 ele diz mais sobre
o Minerval: O Mistério da Concepção. A cor de fundo
na carta de O Louco é amarela, o que simboliza que
cada homem e cada mulher é uma estrela.1 Amarelo é
a cor sagrada do elemento Ar, um atributo de Aleph.
O Ar é o veículo da Força da Vida, o prāṇa.
Todos os dedos das mãos são regidos pelos pla-
netas. O polegar na boca de O Louco como poderá
perceber na minha versão particular desse Atu, su-
gerindo o Sinal de Silêncio velado no bebê chupando
o próprio dedo, é atribuído a Vênus e é utilizado em
vários Sinais de Grau e Sinais Penais na O.T.O. Na
Iniciação de Minerval, o Candidato aprende dois
Sinais: um é seu Sinal de Reconhecimento e o outro é
o Sinal Penal. Como falei em minha obra Os RITUAIS
DO TAROT, estes sinais são mudrās:

1 LIBER AL, I:3.


116
Na Tradição Esotérica Oriental existe um termo
sânscrito chamado mudrā que significa gesto, mar-
ca ou sinal. Existem mudrās de mãos, cabeça e cor-
po. As mais conhecidas entre os ocultistas são as
mudrās de mãos.1 Aqui, o termo se aplica a sinais ou
gestos corporais que devem ser assumidos durante
a prática meditativa ou a execução dos rituais. Ao
assumir uma mudrā, o magista torna seu corpo um
poderoso hieróglifo mágico. De certo ponto de vis-
ta, um ritual pode ser descrito como uma escrita
mágica onde o magista se torna a incorporação da
Palavra ou Logos Criador. Por essa razão, um livro
de magia contendo instruções sobre a execução ce-
rimonial de rituais é sempre chamado de grimório.
Esotericamente, uma mudrā não se trata apenas de
um gesto corporal; antes disso, trata-se de um es-
tado de consciência. O sinal mágico assumido pelo
corpo deixa uma marca ou impressão na matéria
astral protoplasmática do aethyr. Quando o magista
assume o sinal mágico seu corpo astral toma àquela
forma.

O Sinal de Reconhecimento faz-se colocando o pole-


gar direito no bruhmandhya, o ponto entre as so-
brancelhas, diretamente à frente do ājñā-cakra
(Chokmah). A palma da mão deve ficar para baixo,
protegendo os olhos do Sol Escaldante (ON). Em

1Para um estudo sobre as mudrās veja MEDITAÇÃO EM TEORIA &


PRÁTICA (Vol. I).
117
muitas culturas esse sinal ou mudrā é tido como um
gesto de reverência, não reconhecimento. Acredita-
se que ele foi originalmente formulado para proteger
os olhos da presença radiante de criaturas espiritu-
ais, que de tanta luz, ofuscava a visão. Uma versão
moderna dessa mudrā corrompida pelo tempo é o
gesto de continência executado pelos militares,
quando um oficial de patente inferior faz reverência
a outro oficial de patente mais alta. O Sinal Penal
também usa o polegar apertado pelo punho fechado
na região do mūlādhāra-cakra, quando se faz um
gesto da direita para esquerda implicando castração.
Antes de receber estes Sinais, o Saladino coloca pão
e sal na Boca (Peh) do Candidato. Para muitos é dito
que esse gesto serve para que o Candidato se lembre
de seu ordálio. No entanto, isso é uma incompreen-
são medonha e portanto, inapropriado dizer a qual-
quer um que pleiteie Iniciação na Ordem. O simbo-
lismo por trás dessa atitude do Saladino é que o
candidato deve aceitar as duas qualidades intrínse-
cas transmitidas através do sal e do pão que é dar e
receber Hospitalidade e Amizade, duas palavras que
refletem a Fundação do trabalho mágico-espiritual
do Yoga de Patañjali, yama. Se o Candidato trair a
Ordem nesses dois compromissos, que os cães devo-
rem minha carcaça e que eu possa ser mutilado e não

118
mais um homem.1 Daí o Sinal Penal que destrói o
mūlādhāra-cakra, o assento da Serpente de Fogo.
Essa foi a mutilação sofrida por Klingsor ao trair a
Ordem do Santo Graal. Ele perdeu seu poder fálico
ou serpentino, caindo em desgraça. Em LIBER AGAPE
Crowley escreveu: E destes o primeiro é a construção
de alguém que não nasceu; verdadeiramente, um filho
do milagre ele deverá ser.
O aperto de mão recebido pelo Candidato dire-
tamente do Saladino faz-se apertando o polegar
(Falo), o que segue uma bateria de quatro seções de
três palmas de todos os participantes, até o número
doze. Isso não apenas simboliza ajustar O Louco em
uma apropriada casa zodiacal, muito similar ao MITO
DE ER quando ele escolhe nascer. As quatro baterias
de palmas (3x4=12) implicam na divisão dos doze
signos do zodíaco atribuídos aos Quatro Elementos:
Fogo, Água, Ar e Terra. O aperto de mãos nas futuras
iniciações têm outros significados.
O sal, ainda, era considerado sagrado pelas Ves-
tais do Templo. Elas eram sacerdotisas que venera-
vam a Deusa Virgem, Vesta. Uma de suas obrigações
era preparar um pão de sal que seria utilizado nos
rituais anuais no preparo dos animais sacrificiais. O
sal é considerado uma substância mágica que torna
todas as coisas sagradas.

1 Ritual de Iniciação do Minerval.


119
Passemos agora a uma análise dos cakras em re-
lação a Jornada do Minerval.

OS CAKRAS & O MINERVAL


A Iniciação no Grau de Minerval na O.T.O. aciona
dois cakras: o ājñā-cakra, associado a esfera de
Chokmah e o mūlādhāra-cakra associado ao comple-
xo Malkuth-Yesod. Essa abertura dos dois cakras
serve para que o Espírito se prepare para encarnar.
Essa interação entre os cakras mūlādhāra e ājñā é
retratada nos Tantras como uma conexão Mente-
Corpo.1 Por esse motivo, a Carta Natal é muito im-
portante. Ela integra a mente, o corpo e toda a nossa
realidade. Nisso nós podemos tentar compreender a
relação que existe entre esses dois cakras. Jung es-
barra no Arcano dessa relação em sua obra THE PSY-
CHOLOGY OF KUNDALINI YOGA, que se trata de anotações
de um seminário proferido por ele em 1932. Os Tan-
tras contam como a Deusa Śakti dividiu-se em Corpo
e Mente. Na teogonia thelêmica, a Deusa Suprema é
representada como Nuit. Embora seja dito que sua
Essência permanece sempre no ājñā-cakra (Mente),

1 Associar Chokmah a mente é uma heresia qabalística, pois a


mente (ruach) não vai além do Abismo. No entanto, aqui eu utilizo
o termo mente associado a Chokmah por sua associação ao ājñā-
cakra, que recebeu a denominação de mente nos Tantras.
120
ela projeta a si mesma em direção a Terra (mūlādhā-
ra), o Corpo. Nesse processo ou jornada, ela cria
níveis de consciência ou estados espirituais, quer
dizer, os cakras, O primeiro deles é o viśudhi (Espíri-
to), o segundo é o anāhata (Ar), depois vem o maṇ-
ipūra (Fogo), o swādhiṣthāna (Água) e finalmente o
mūlādhāra (Terra). Arthur Avalon (1865-1936),
eminente autor inglês sobre a cultura tântrica, diz:
Depois que a Deusa entrou na matéria, não há nada
que Ela ainda possa fazer. Sua criatividade cessa e Ela
entra em Silêncio. Ela descansa em sua última emana-
ção, o princípio-terra.1 Uma vez encerrada silencio-
samente no mūlādhāra, a Deusa é conhecida como
kuṇḍalinī-śakti.2
Como uma analogia, se nós pudéssemos explorar
o centro da Terra (Corpo), encontraríamos uma
tremenda força de rocha fundida impossível de ser
mensurada. Nós somente conseguimos acessar a
camada superficial da Terra. Ir profundamente nos
seus domínios não é nada seguro. É assim que de-
vemos pensar sobre a força da kuṇḍalinī-śakti, um
poder imensurável. Não é possível explorar seu es-
copo total com profundidade. Nós temos acesso

1Arthur Avalon, THE SERPENT POWER.


2 Para detalhes sobre um programa sistemático de treinamento
com os cakras para o despertar da kuṇḍalinī-śakti, veja minha
obra CAKRA SĀDHANĀ: O DESPERTAR DA SERPENTE DE FOGO.
121
somente as camadas de sua influência além dos do-
mínios de Malkuth na medida em que ela começa a
despertar em Yesod, a região genital.
Assim, nós podemos dizer que no Tantra, assim
como na Iniciação de Minerval na O.T.O., a interação
entre o mūlādhāra e o ājñā colocam em movimento a
kuṇḍalinī-śakti, a Serpente de Fogo também identifi-
cada como uma Luz fluída e magnética que natural-
mente perpassa todo nosso corpo. Quando essa Luz
se submete ao movimento, ela se torna volátil e co-
mo um princípio positivo, ela é referida como Enxo-
fre. O Enxofre é conectado com a imagem do Vulcão,
um outro símbolo para o Falo. A lava, por outro lado,
carrega consigo toda a Potência e Força que jaz no
centro da Terra. Quando a kuṇḍalinī-śakti repousa
ou encerra seu movimento, ela permanece imóvel,
como lava endurecida, como é o caso de toda maté-
ria. Nesse estado ela é identificada com o princípio
negativo do Mercúrio. O Sal é o ingrediente neutro
da equação. E não é dito ao Minerval: Nós, sem reser-
vas, depositamos poder em suas mãos? Essa Luz, co-
mo um vulcão em erupção vomitando lava do centro
da Terra, é Força pura. Sim, nas mãos do Minerval é
entregue grande poder.
Quando o Espírito encarna no mundo, ele se en-
cerra na matéria. O nascimento ocorre quando Deus
desce a Terra. Para reconciliar os opostos, o Espírito
de Luz desce a matéria, pois do contrário ela não
122
poderia ser redimida. É por isso que a jornada do
Minerval começa em Chokmah, como a kuṇḍalinī-
śakti que desce para encerrar-se na Terra (Malkuth),
quando ela irá se preparar para construir o caminho
de retorno.
O segredo por trás da interação entre os cakras
mūlādhāra e ājñā reside no fato de que O Louco é a
semente-pensamento ou o broto-vontade que des-
ceu até a Mente (ājñā). Por conta disso, todos os
nossos pensamentos passam pelo prisma da imagi-
nação como vibrações que viajam até seu objetivo, o
qual está em harmonia com àqueles pensamentos.
Em outras palavras, uma vez que um pensamento
tenha sido criado – e já que a energia não pode se
dissipar – ele é naturalmente atraído às vibrações no
Corpo de Luz que estão em consonância com ele.
Isso será discutido com mais atenção ao avaliarmos
o Caminho da Torre (Atu XVI). Por agora, é impor-
tante compreender que o ājñā está em perfeita har-
monia com o mūlādhāra, assim, se a sua mente pro-
jeta apenas pensamentos qliphoticamente fantas-
magóricos, você será atraído para circunstâncias
qliphóticas em Malkuth (mūlādhāra), se perdendo
na revolta constante dos desejos do Ego. Isso pode
levar qualquer pessoa a uma busca sem fim por pra-
zeres de todos os tipos. A realidade de qualquer
pessoa nessas circunstâncias é excessivamente torpe
e medíocre. Desejar ser algo é afirmar para o univer-
123
so que nós não somos aquilo que desejamos. Esse é
um Arcano oculto nos Graus da Santa Ordem A∴A∴.
Por exemplo, o Grau de Neófito (1°=10⌷), significa
que o Neófito projeta suas aspirações a Divina Uni-
dade (1) simbolizada por Kether, se imiscuindo das
demandas do desejo em Malkuth (10) que ele tem
que aprender a controlar através da prática de yama.
O Neófito deve aprender a viver pelas regras do Eu
Sou, não do eu desejo ser. Confundir o desejo ou ma-
quiá-lo com o nome de vontade é um caminho peri-
goso pois a dualidade abaixo do Abismo tem ânsia de
resultado. Aleister Crowley deixou claro que qual-
quer Neófito poderia falhar nesse ordálio e por conta
disso ser vítima de uma mulher elemental. Mas esse é
um termo técnico. Não se trata de um espírito fami-
liar ou elementar artificial, muito menos um súcubo
ou íncubo, mas ao contrário, trata-se de uma mulher
de carne e osso, composta por todos os elementos,
daí mulher elemental. Ele usou o termo para denotar
a Kundry perdida nos afãs do desejo. Confundindo
desejo com vontade, os Neófitos são levados a queda
por qualquer mulher elemental. A queda, por outro
lado, é a traição a Grande Obra. O Candidato deve,
portanto, tomar cuidado para não criar falsos deu-
ses, ilusões e fantasmas na mente, pois a contra-
parte vampira dessas projeções em Malkuth drenam
os fluídos nervosos e o próprio cérebro. É por isso

124
que a possessão ou obsessão de criaturas espirituais
pode destruir a Mente e o Corpo.
Mas da mesma maneira, se nós pensamos em to-
das as coisas que se referem a determinada esfera na
Árvore da Vida, isso criará vibrações similares em
Malkuth, nos atraindo a circunstâncias que estão em
harmonia com os pensamentos produzidos, ativando
àquela zona de poder ou cakra. Isso é parte dos Ar-
canos que envolvem a Iniciação de Minerval. De
todos os nossos órgãos, a Mente é a que mais sente
prazer. A atividade sexual começa na Mente (Chok-
mah) e somente depois ela se manifesta no Corpo
(Malkuth), ativando a libido. Essa é uma importante
lição associada ao Caminho de O Louco.
Aleister Crowley nunca publicou abertamente a
relação entre os Graus da O.T.O. e as esferas da Ár-
vore da Vida, no entanto, as suas anotações sobre os
Rituais da O.T.O. que sobreviveram trazem referên-
cias não somente a distribuição dos Graus na Árvore,
mas sua relação com o sistema de cakras da cultura
tântrica. Suas notas dizem especificamente quais são
os cakras colocados em operação através das Ceri-
mônias de Iniciação. Ao cruzar as informações das
notas de Crowley com a Coluna CXVIII de LIBER 777,
chegamos a seguinte estrutura:

125
Grau Cakra Sephiroth
0° Ājñā e mūlādhāra Chokmah e Malkuth
I° Viśudhi Binah
II° Anāhata Chesed, Geburah e Ti-
phereth
III° Swādhiṣthāna Hod
IV° Maṇipūra Netzach
V° Anāhata Tiphereth
VI° Anāhata Geburah
VII° Anāhata Chesed
VIII° Viśudhi Binah
IX° Ājñā Chokmah

Em A VOZ DO SILÊNCIO Blavatsky diz: Então do coração


esse poder subirá até à sexta região, à região média,
ao lugar entre os teus olhos, quando se toma a respi-
ração da Alma-Única, a voz que enche tudo, a voz do
seu Mestre. Sobre esse verso, Crowley comenta: Esse
verso fala sobre a concentração da kuṇḍalinī no ājñā-
cakra. A respiração é aquilo que vai de um lado ao
outro e refere-se a União entre Śiva e Śakti no sa-
hasrāra.1 Em alguns Tantras, a kuṇḍalinī é retratada
como um espírito guardião feminino, quer dizer, a
Guardiã do Poder da Deusa Suprema. A descrição
tradicional da kuṇḍalinī é uma Serpente adormecida
no mūlādhāra-cakra, enrolada em volta de si mesma,
três voltas e meia. Esse é um símbolo que vela um

1 Aleister Crowley, LIBER 71: A VOZ DO SILÊNCIO.


126
processo trino ou uma Trindade: alento, pensamento
e sêmen (veja o Atu XVI: A Torre). Lembre-se, abaixo
do Abismo, não existe nada que seja nosso, que po-
demos dizer: isso é meu. Em LIBER YOD nós encon-
tramos: Tenha cuidado em pensar «meu ājñā». Nestas
meditações e práticas o ājñā não lhe pertence. É mes-
tre e escravo, vós não sois mais que o macaco de ma-
deira.
Na A∴A∴ um ponto crítico do sistema é quando o
Candidato alcança Netzach. Nessa etapa nós pode-
mos dizer que a kuṇḍalinī alcançou o maṇipūra-
cakra. Como mencionei em minha obra CAKRA SĀ-
DHANĀ: O DESPERTAR DA SERPENTE DE FOGO, quando a
kuṇḍalinī ainda está se movimentando pelos cakras
inferiores, o complexo mūlādhāra-swādhiṣthāna-
maṇipūra, ela pode voltar a adormecer a qualquer
deslize do Candidato. Somente quando ela alcança o
anāhata-cakra é que o caminho não tem mais volta.
Ela começa a colonizar cada um dos cakras superio-
res até a coroa final. É por esse motivo que o Grau de
Filósofo na A∴A∴ é muito crítico. Vinte anos instru-
indo alunos na A∴A∴ me fizeram encontrar um pa-
drão no comportamento de muitos estudantes: neste
Grau parece que experimentamos uma descrença,
uma atitude de mente cética em relação a todo esse
conhecimento. Isso pode nos levar ao engano de que
símbolos como a kuṇḍalinī são amorfos, desprovidos
de significado real. No entanto, ela é a Deusa que nos
127
permite estar experienciando Malkuth e planos a-
lém. Mas quando a kuṇḍalinī adentra ao Santuário do
anāhata como nosso daimon, ela começa a nos ins-
truir, passo-a-passo, a como reconquistar o Paraíso
Perdido. Ela faz isso em sua jornada até o alto, ele-
vando nossa consciência aos centros de energia mais
sutis. Mas se estando em Netzach o Candidato não
supera seu ceticismo em relação ao Universo e suas
distintas manifestações, a Iniciação para. Seu cami-
nho é interrompido por uma busca materialista e
insana pelos desejos e apetites do Ego. O Candidato
retorna a Malkuth, de onde ele não consegue mais
sair. A aspiração constante ao daimon é como uma
faca de dois gumes que libera um poder altamente
intoxicante. Thomas Moore, um autor de psicologia
profunda dos dias de hoje, diz: A aspiração ou refle-
xão sobre o daimon pode ser tanto a fonte de toda
nossa criatividade quanto a fonte de toda nossa de-
pravação. Negar o daimon nessa etapa do caminho
pode liberar o demônio. Por isso é ensinado ao Filó-
sofo da A∴A∴ que a aspiração constante ao Sagrado
Anjo Guardião o manterá seguro em sua jornada.

128
O ORVALHO DO MINERVAL

C
rowley concordava que as vibrações da Ser-
pente de Fogo ou kuṇḍalinī eram conhecidas
pelos gregos pelo nome de corrente ofidiana,
que implica o trabalho com a força serpentina. Em
uma carta enviada a David Curwen (1893-1984)
datada de 21 de agosto de 1945, Crowley escreveu:
Sobre as Vibrações Ofidianas: A O.T.O. é um sistema
que leva ao conhecimento último do que elas são e
como utilizá-las. Seu abuso sendo excessivamente
perigoso, não podem ser reveladas a todas as pessoas.
Você deveria passar pelo treinamento severo da O.T.O.
Em uma outra carta enviada a Curwen em 9 de ou-
tubro de 1945, Crowley escreve sobre o amṛta: Os
Rituais da O.T.O. levam gradativamente a descoberta
do segredo. Sobre os Rituais da O.T.O., os Arcanos
revelam significados internos ou ocultos e significa-
dos esternos ou revelados, dependendo do discerni-
mento Candidato. Nos Graus superiores da O.T.O.
aprende-se que o amṛta pode ser tanto o néctar da
imortalidade quanto o veneno da mortalidade. Em O
NÉCTAR & O VENENO, ensaio publicado em meu livro A
LANÇA & O GRAAL (Livro I), eu explico como o amṛta é
o produto do bindu branco conservado nos cakras
superiores, produzindo o amṛta no sahasrāra-cakra.
Em O Louco, esse Néctar ou Orvalho também é sim-

129
bolizado pelo fluxo de água que passa por entre suas
pernas, o que dá a fluidez ao ājñā-cakra. Os qabalis-
tas têm se referindo a este Néctar apenas pelo termo
Luz. O amṛta fui naturalmente do saharāra (Kether).
Caso o Adepto falhe em sua Castidade ou Fidelidade
ao Santo Graal, Juramento Mágico assumido no VII°
O.T.O., então o bindu branco torna-se venenoso em
sua descida aos cakras inferiores. J.F.C. Fuller em sua
nota sobre o saharāra-cakra diz que a lua no centro
deste cakra está sempre destilando o elixir ou néctar,
o fluído lunar da imortalidade.
Em A VISÃO & A VOZ, 22° Aethyr de LIN, nós encon-
tramos: Ele para de tocar e move seu dedo. Deixa um
rastro de fogo multicolorido preenchendo o Ar com
uma teia de luzes emaranhadas. E delas vertem gotas
de orvalho. É difícil descrever o que ocorre. O orvalho
não representa o que eu pensava. As gotas são enor-
mes globos, brilhantes como a lua cheia, perfeitamen-
te transparentes, igualmente luminosas. E na nota
que segue essa passagem Crowley diz: Este «orva-
lho» é o Superno Leão-Serpente em seu Mênstruo do
líquido Perolado. Interessante notar a passagem de
MATEUS (13:45-6): Outrossim o reino dos céus é seme-
lhante ao homem, negociante, que busca boas pérolas;
E, encontrando uma pérola de grande valor, foi, ven-
deu tudo quanto tinha, e comprou-a. Na sinopse que
Crowley fez sobre os 30° Aethyrs de A VISÃO & A VOZ,
sobre o 22° Aethyr de LIN ele comenta: Uma referên-
130
cia ao IX° O.T.O. A Tábua de 49 partes (primeira Apa-
rição da Criança Coroada e Conquistadora para o
Adeptus Exemptus como no Pastos) A Visão da Rosa, o
Coração de BABALON e O Nascimento do Universo.
Aqui cabe uma reflexão sobre Babalon. O que nós
sabemos sobre Ela? Este nome refere-se a Grande
Deusa Mãe em Binah, o Castelo do Santo Graal. No
cânone thelêmico, este Castelo é conhecido por Ci-
dade das Pirâmides. Neste castelo, Babalon é a Rai-
nha. Ela é o complemento ou a outra parte do Rei-Pai,
Senhor Caos na esfera de Chokmah. O Rei e a Rainha
estão permanentemente em um abraço alquímico-
sexual enquanto empunham a Lança Sagrada e o
Santo Graal. Eles estão, portanto, em União Eterna;
eles são, assim, Um e Uma Coisa Só. Nós os vemos
como figuras separadas por conta de nossa inabili-
dade em compreender seu estado de União. Abaixo
do Abismo não é possível ver a não-dualidade que
existe além dele. A O.T.O. está de posse de uma das
grandes fórmulas mágicas da Tradição Ocidental de
Mistérios, encerrada na Palavra ON, formada por
duas letras unidas. Rapidamente, considere que es-
tas duas letras, O e N, representam o Yang e Yin. Uma
vez que essas duas letras, ON (Filho-Vav e Filha-
Heh) descem abaixo do Abismo, elas se separam pela
chance de união em O e N. Essas duas legras conec-
tam o Sol (Tiphereth) aos dois Pilares da Mão Es-
querda e Direita na Árvore da Vida. Nos Mitos do
131
Graal, Yang é o Rei Amfortas e Yin é a Kundry. En-
quanto ela reside no Castelo do Graal, é vista como
uma velha decrépita repugnante de características
saturninas que serve ao Rei, não apenas como Rai-
nha, mas o mais importante, como a Alta Sacerdotisa
do Santo Graal. Como o rei, a Rainha está acima do
Abismo. Quando Rei e Rainha descem abaixo do
Abismo, eles precisam de um veículo adequado, o
Filho e a Filha. Uma vez que a Rainha-Babalon en-
contra um veículo (Filha) para se estabelecer, ela
permite que sua escolhida se torne uma de suas
Prostitutas, a Mulher Escarlate. As Prostitutas de
Babalon são suas Representantes. Elas são insepará-
veis, portanto, são Uma e a Mesma, Mãe e Filha.
Falando sobre o Néctar ou Orvalho Sagrado, Bla-
vatsky diz em A VOZ DO SILÊNCIO: O orvalho do céu
brilhando ao primeiro raio do sol no coração do lótus,
quando cai na terra torna-se uma, gota de lama; vede
como a pérola se tornou uma porção de lodo. E Cro-
wley comenta: Essa não é apenas uma imagem poéti-
ca. Esse orvalho está conectado ao mantra Aum Mani
Parme Hum e seu significado é conhecido apenas aos
Iniciados do Nono Grau da O.T.O.1 A compreensão do
Arcano citado por Crowley ocorre no Caminho da
Luxúria (Atu XI). Ao ser iniciado no VII° O.T.O., o
Adepto recebe a Instrução DE NATURA DEORUM ou DA

1 Aleister Crowley, LIBER 71: A VOZ DO SILÊNCIO.


132
NATUREZA DOS DEUSES. No início dessa instrução é
indicado a leitura de alguns Capítulos de O LIVRO DAS
MENTIRAS para uma compreensão mais profunda dos
Mistérios que a Ordem está lhe transmitindo. Os
referidos Capítulos são: KE, A, H, IA, IE, IF, IH, B. O
Rubi Estrela, O Sabbath do Bode, Infusão de Crina de
Cavalo, O Cano do Revólver, O Escaravelho, Gotas de
Orvalho e O Montanhista.

Na verdade, amor é morte, e morte é vida por vir.


O Homem não retorna; a correnteza não flui mon-
tanha acima;
a velha vida não existe mais; há uma nova vida
que não é sua.
Porém, aquela vida é de sua essência verdadeira; é
mais Ele que
tudo aquilo que ele chama Ele.
No silêncio de uma gota de orvalho, está toda a
tendência de sua alma,
e de sua mente, e de seu corpo; é sua Quintessên-
cia e o Elixir de seu
ser. Ali estão as forças que o fizeram, e ao seu pai,
e ao pai
de seu pai antes dele.
Este é o Orvalho da Imortalidade.
Deixa-o seguir livre, tal como Ele Quer; tu não és
seu mestre, mas Seu

133
veículo.1

Aleister Crowley associou o Capítulo acima ao Cami-


nho da Lua, o qual supunha-se gotejar orvalho. Os
Alquimistas baseavam-se nos escritos de Hermes
Trismegistus, notório por ensinar a fabricar este
orvalho na forma do Elixir da Vida ou Pedra Filoso-
fal. Os Tantras se referem a esse Elixir como Gotas da
Lua. Elas descem através do Caminho de O Louco,
mas não são produzidas até que já se tenha certo
grau de purificação e sutileza. Não é possível fazer
ouro sem ouro, dizem os alquimistas. Isso significa
que até que o Homem da Terra tenha conquistado a
graduação de Amante, o Orvalho Sagrado não será
secretado. A kuṇḍalinī precisa alcançar o anāhata-
cakra, o Neófito precisa se tornar um Adepto. Uma
vez existindo a conexão entre o ājñā e o mūlādhāra,
é requerido Tanto ao Neófito da A∴A∴ quanto ao
Minerval na O.T.O. castidade e a execução de yama.
Quando o Bindu Branco se encontra no ājñā o
Adepto é lançado em um êxtase místico que trans-
cende qualquer tipo de linguagem. Não há dualidade,
apenas a ambrosia dos deuses e o deleite do Eterno
Sagrado. Através da khecarī-mudrā, uma técnica
tântrica utilizada com muita ênfase nas práticas de

1Aleister Crowley, O LIVRO DAS MENTIRAS, Capítulo 18, Gotas de


Orvalho.
134
meditação onde coloca-se a língua (Peh) no orifício
nasal (Ar-Aleph) por dentro da boca, o que encerra o
bindu branco nos calras superiores, onde ele se torna
o Néctar da Imortalidade, o Orvalho Sagrado dos
Deuses ou amṛta. Mas uma vez abaixo do viśudhi
(Binah) o bindu branco se tornará veneno ao ser
corrompido pela dualidade: o Néctar da Mortalidade,
pois ele leva consigo ojas, elemento essencial produ-
zido pelo corpo que alimenta as práticas espirituais.1
Se o bindu branco descer até o maṇipūra-cakra sem
ser devidamente equilibrado, ele poderá levar o
Adepto a degeneração espiritual. Em outra carta
enviada a David Curwen em 7 de novembro de 1945,
tratando sobre a khecarī-mudrā e o amṛta, Crowley
diz: Quando ele [o amṛta] cai no estômago é consumi-
do por agni e torna-se venenoso, perde sua virtude e é
destruído. Daí a importância de se cortar o freio da
língua [para tornar possível a khecarī-mudrā] com
uma lasca de osso entoando os mantras apropriados
até que seja possível levar a língua no orifício nasal do
palato. Ao se referir ao estômago, Crowley falava da
região do estômago, não o próprio estômago. Essa é
a região do agni-maṇḍala, logo à frente do maṇipūra-
cakra que fica na espinha dorsal. Esse é uma região
regida pelo Elemento Fogo (agni). Crowley continua:

1Para um estudo profundo sobre ojas, modo de produção e carên-


cia no organismo, veja meu livro A LANÇA & O GRAAL (Livro I).
135
você não deve engolir o Elixir, mas deve deixar o corpo
absorvê-lo através da membrana mucosa. Ele não
define qual a membrana mucosa usar, nos dando um
leque de opções como a boca, área genital (a glande
dentro do prepúcio ou a membrana do clitóris, o
ânus ou até mesmo as narinas e olhos). Dependendo
do tipo de ritual, a escolha do lugar para absorção é
imprescindível. Em uma carta enviada a Grady Mc-
Murtry1 (1918-1985) em 21 de novembro de 1944
Crowley escreve: Sobre o IX°: a teoria é simples e
penso que já lhe falei o suficiente para que você traba-
lhe. Em todo caso: você deve preparar a medicina
unindo dois ingredientes em seu vaso, concentrado e
exaltado sobre o propósito no momento em que unir
esses ingredientes. Você terá de absorvê-lo, principal-
mente pela membrana mucosa (para que evite mu-
danças químicas grosseiras que poderão ocorrer caso
a medicina seja engolida); então, uma terceira pessoa
ou mistura é envolvida. Você aplica uma pequena
porção nela, seja diretamente ou por meio de um
talismã. Na Operação talvez seja adequado completar
o circuito através do contato com a terra, por exem-
plo, a grama ou uma planta, não o solo ou qualquer

1 Grady McMurtry foi o discípulo de Crowley que mais recebeu


instruções acerca do IX° O.T.O. do próprio Crowley e foi conside-
rado por ele seu Filho Mágico (777) e sucessor legítimo como
Califa da O.T.O.
136
recipiente artificial. A arte para se preparar o Elixir
não é fácil: i. primeiro deve-se produzir uma Águia
copiosa, ii. o ovo deverá ser fertilizado e iii. a conexão
entre ambos deve ser segura. A mistura deve ocorrer
em todo caso, caso contrário balas perdidas voarão
perdidas pela Luz Astral. A experiência é o melhor
professor. [...] Você descobrirá muitas coisas sobre si
mesmo. Nunca se esqueça a fórmula básica YHVH.

O LOUCO COMO ZRO

N o verão de 1913, Crowley escreveu apenas


uma história, a qual ele chamou de ATLÂNTI-
DA: O CONTINENTE PERDIDO ou LIBER 51. Em
suas CONFISSÕES, ele escreveu a seguinte passagem
sobre LIBER 51: A história pretende ser um relato
sobre a civilização da Atlântida. Eu sinto que nela
falta coesão artística. Às vezes uma rapsódia fantásti-
ca descrevendo meus ideais de uma sociedade utópi-
ca; mas algumas passagens são uma sátira as condi-
ções atuais de nossa sociedade, enquanto outras
transmitem lampejos de profundos segredos mágicos
ou a antecipação de descobertas científicas. O livro
entrelaça alquimia e magia sexual teatral, embora
difíceis de serem encontradas por qualquer não
iniciado. No primeiro capítulo Crowley revela que o
verdadeiro nome do continente era Atlas, nome

137
derivado de uma antiga palavra lemuriana, tlas, que
significa negro. Ele diz: O «A» é um prefixo feminino,
derivado da forma da boca quando profere o som.
Existe no livro uma referência a palavra casa como o
pico da montanha e toda a história leva a construção
de uma casa que como o pico da montanha, é uma
referência fálica. Casa é a tradução da letra hebraica
Beth, relacionado ao Atu I, O Mago, regido por Mer-
cúrio. O Falo no IX° O.T.O. produz uma essência má-
gica (ZRO): semear, semente, propagar, sêmen.1 Em
LIBER 51 Crowley escreveu: Em uma parte do corpo
todas as mulheres são perfeitamente negras, com uma
escuridão que nenhuma outra escuridão já viu; dessa
circunstância apareceu o nome Atlas. Ele é absurda-
mente atribuído por alguns autores como o depósito
do excesso de fósforo no Zro. De modo que: impreg-
nando ou depositando fósforo no Zro (sêmen), uma
referência a uma passagem alquímica que diz que a
Luz representa o Espírito Humano e desde que o
elemento não-metálico do fósforo tem aparente
habilidade fosforescente de brilhar no escuro e con-
tém luz, é sugestionado ser a essência por trás do
sêmen. O fósforo puro tem a habilidade que entrar
em combustão somente através de seu contato com

1 Aleister Crowley, SEPHER SEPHIROTH. ZRO soma 277. Crowley


escreveu que essa palavra significa semear, propagar, sêmen,
semente.
138
o ar. Esse estado do fósforo também é chamado de
Estrela da Manhã, quer dizer, Vênus na aurora. O
fósforo negro é requerido para nutrir o Zro. Negro é
a cor de Binah, Babalon. Considere a seguinte passa-
gem de LIBER 51: O Fósforo Negro é sempre adiciona-
do pela Alta Sacerdotisa e não se sabe como ela faz
isso. O Zro que ainda permanece é o sujeito de experi-
mentos externos pelos Magistas. E para deixar bem
claro para àquele que tem capacidade de ver e com-
preender, veja a seguinte passagem de MAGIA EM
TEORIA & PRÁTICA, Capítulo XX: Tome-se uma substân-
cia simbólica do curso inteiro da natureza; tornar-se-
á Deus, e se a absorva. Zro é a essência contida no
sêmen, O Louco, Aleph.
Sobre as práticas de magia sexual da O.T.O. eu in-
dico o artigo que apareceu no THE EQUINOX, Vol. I,
No.4, intitulado MINHA SENHORA DE CALÇÕES: UMA HIS-
TÓRIA COM VINGANÇA. O autor foi o próprio Crowley
sob o pseudônimo de George Raffalovich. Essa edi-
ção do THE EQUINOX apareceu pouco tempo depois de
Crowley ter sido admitido por Theodor Reuss
(1855-1923) no Soberano Santuário da Gnose, VII°
Grau da O.T.O., assumindo o nome de Frater Bapho-
met. MINHA SENHORA DE CALÇÕES é um dos escritos
mais geniais de Crowley sobre magia sexual. Trata-
se de uma história metafórica similar as BODAS AL-
QUÍMICAS DE CHRISTIAN ROSENKREUTZ. O texto contém
oito seções, cada uma numerada após um específico
139
Atu do Tarot. Os cinco primeiros: O Louco, O Presti-
digitador (Magus), La Papesse (Alta sacerdotisa), A
Imperatriz e Os Amantes. Na seção Os Amantes Cro-
wley faz uma nota dizendo que estes Caminhos re-
presentam o processo através do qual a Mistura
apropriada, o Glúten da Águia Branca com o Pó Ver-
melho é conquistado. Ele diz: Para adquirir a terceira
projeção, a ordem dos trunfos do Tarot não pode mais
ser preservada e nem seu número exceder a sete.1

Você deve produzir ouro por si mesmo, não me di-


zer como deveria ser produzido. Eu já sei. Mas (so-
mente entre eu e você, secretamente) existem coi-
sas que eu não sei. É assim: Quando eu quero pro-
duzir ouro, eu coloco sete coisas no cadinho e a-
queço. Depois aproveito o que é produzido. Mas is-
so não acontece sempre; às vezes eu falho. E às ve-
zes não é conveniente deixar todos os sete ingredi-
entes juntos e eu não sei ao certo o que é necessá-
rio e o que não é.2

Em LIBER 51 o termo casa, portanto, denota o Falo.


Considere essa passagem: As «casas» de Atlas eram

1 Das oito seções deste escrito, apenas as cinco primeiras, até Os


Amantes (Zain-7) são as mais importantes no momento. O Eremi-
ta, O Diabo e A Lua serão em um outro momento.
2 Aleister Crowley em carta enviada a Frater Achad em 21 de

novembro de 1915.
140
construídas pela rocha viva pela ação do Zro em suas
sete precipitações. Os outros Arcanos, mais secretos,
podem ser acessados nos próximos três Atus: O E-
remita, O Diabo e A Lua, que tratam do casamento
alquímico, a mistura dos fluídos sexuais do homem e
da mulher. Mas essa não é a combinação de dois
ingredientes apenas, mas três. O Neófito deve se
integrar com o Adepto. O Adepto deve então se inte-
grar com o Anjo. Contudo, os cinco primeiros Atus
devem ser claramente compreendidos, principal-
mente sua associação com o pātañjala-yoga. Este é
um trabalho mágico-espiritual individual e ele deve
ser executado com proficiência para que o resultado
seja somente o esperado: seu nascimento. O próximo
Caminho a ser considerado dentro deste contexto é
Os Amantes. Mas por agora, considere as linhas que
abrem o Capítulo 0, O Louco em LIBER 51:

Você se casará comigo, então? Disse a viúva.


Sim, é claro! O homem respondeu.
Eu tomo você por um grande tolo então.

Aleister Crowley resumiu todo o símbolo de O Louco


na seguinte expressão: Toda imagem se resume no
glifo da luz criativa. Em outras palavras, O Louco é
nosso Espírito como a Palavra em sua busca por
encarnação que o possibilitará executar faz o que tu
queres, quer dizer, realizar sua Verdadeira Vontade.
141
O nome francês deste Atu é Le Feu, cognato a palavra
fogo, que sugere uma conexão com luz e energia.
Como é dito no Ritual: Eu Sou a Luz e Viajo na Luz.
Como um símbolo do Fogo de Prometeu, O Louco
personifica o poder transformador que tanto cria
como pode destruir o homem. É dessa destruição
que conta a parábola sobre Atlântida, os Arcanos por
trás do ZRO.

142
A JORNADA DO MAGO
UM EPÍSTOLA SOBRE O PRIMEIRO GRAU DA
ORDO TEMPLI ORIENTIS

Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.

Apareçam, ó crianças, sob as estrelas, & recebam


suas farturas de amor!1
Ninguém passará por mim ao menos que ceife
minha vida e essa é a tua maldição pois, tendo ma-
tado-me, deves tomar o meu lugar e tornar-se o fei-
tor de ilusões, o grande enganador, o armador de
ciladas; ele que confunde até mesmo os que com-
preendem. Pois eu fico em cada caminho e coloco-
os de lado da verdade pelas minhas palavras e mi-
nhas artes mágicas.2

1 LIBER AL, I:12.


2 Aleister Crowley, A VISÃO & A VOZ, 6° Aethyr.
143
Atu I – O Mago – no Tarot de Thoth. Concepção de Fernando
Liguori, pintura de Nícolas Furlan Moraes.
144
INTRODUÇÃO

O
Caminho de Beth, Atu I, O Mago, se encontra
acima do Abismo, conectando Kether, a Coro-
a, a Binah, o Entendimento. Este Caminho se
encontra bem no alto do Pilar Esquerdo de energia
descendente na Árvore da Vida. A letra hebraica
atribuída ao Atu 0, O Louco, é Aleph, como vimos no
capítulo anterior. Unida a letra hebraica do Caminho
de O Mago, Beth, forma-se a palavra AB (k)), que
significa Pai. Trata-se de uma conexão, portanto,
com o princípio masculino criador/fecundador do
Eu Sou em Kether. A letra Beth, no entanto, quando
lida em letras cheias - tyk – significa casa. Como
citei no capítulo anterior, casa pode ser uma refe-
rência ao Falo, no entanto, mais apropriadamente ao
que existe dentro do Falo, quer dizer, o sêmen que,
na prática da magia sexual thelêmica de Aleister
Crowley, é a morada de O Louco do Tarot de Thoth.
Este Caminho representa a fase onde O Louco come-
ça a completar o seu destino que deu-se início ou foi
colocado em movimento através da força de Chok-
mah, o Caos.
As três letras que compõem a palavra Beth (tyk)
se encontram na palavra Berashith (ty#)rk). Esta

145
é a palavra que abre o GÊNESIS: no início.1 Isso impli-
ca que no início a fundação da Casa foi erigida sobre
uma pedra sagrada conhecida como Ehben (Nk)). É
sobre esta pedra sagrada que O Louco dará o primei-
ro passo em direção a Binah e é por este motivo que
os ocultistas têm identificado essa esfera qabalística
como o verdadeiro lugar onde a iniciação ocorre. O
Espírito humano (Mercúrio) se prepara dentro do
útero da Mãe-Binah para nascer ou ser projetado a
Vida abaixo do Abismo. A Casa, portanto, é o espaço
pessoal de O Louco.
Em seu QBL, Frater Achad diz que a Casa é aquilo
que abriga, dá segurança, o Útero da Mãe. Mas o que
significa este nascimento a partir do útero da Mãe?
Acima do Abismo, no útero como o vazio espacial da
Mãe existem inúmeras sementes esperando para
descer abaixo do Abismo, buscando metaforicamen-
te seu nascimento. O Mago dá a estas sementes a
habilidade de descerem abaixo do Abismo através
do Pilar Esquerdo de energia descendente. Ele assim
o faz vestindo cada semente (O Louco) em uma Casa
proverbial. A Casa, dessa maneira, é a primeira ima-
gem, algo construído inconscientemente quando a
essência de O Louco – ou Deus – faz sua jornada em
direção a consciência manifesta. E uma vez que a

1Para o significado das outras letras que envolvem berashith, veja


o capítulo sobre o Atu XIX, O Sol.
146
Casa aparece como uma imagem arquetípica, ela
precisa ser visualmente agarrada e compelida den-
tro de uma cerca (Cheth), na intenção de ser cuida-
dosamente avaliada até que um objeto multidimen-
sional apareça ou seja projetado na consciência.
Trata-se de uma imagem que pode sofrer transfor-
mações de todos os tipos através do unidireciona-
mento das energias da mente uma vez que tenha
descido abaixo do Abismo. A chave para que este
processo funcione, quer dizer, para que essa imagem
seja agarrada e cercada, se encontra nas oito partes
da fala como ensinadas na gramática, cada uma as-
sociada aos oito primeiros Atus de Tahuti – de O
Louco (Aleph) ao O carro (Cheth) – que têm relação
com as oito práticas yogīs do pātañjala-yoga. Desde
que todas as imagens são solidificadas na consciên-
cia através das palavras, sejam elas pronunciadas,
escritas ou apenas projetadas pela mente, o processo
deve ser feito em acordo com as regras gramaticais.
A questão importante a ser ressaltada aqui é essa:
essas imagens arquetípicas estão sendo projetadas a
partir da perspectiva de Malkuth ou da perspectiva
de Kether? Desde a infância, a Alma tem sido incons-
cientemente alimentada com as imagens projetadas
pelos desejos desmedidos do Ego (perspectiva hori-
zontal de Malkuth). O Espírito, por outro lado, usa
imagens projetadas pelo Eu Sou (perspectiva verti-
cal de Kether) na intenção de nos colocar no cami-
147
nho da Verdadeira Vontade ou Grande Obra. Dessa
maneira, na magia sexual de Aleister Crowley o ma-
gista deve reconhecer as imagens projetadas pelo
princípio do Eu Sou, imagens carregadas com os
códigos de Luz oriundos dos planos mais elevados,
não as imagens projetadas pelo Ego no plano hori-
zontal de Malkuth. É disso que se trata a magia sexu-
al thelêmica.
Vamos nos debruçar por um breve momento so-
bre as oito partes da fala.

AS OITO PARTES DA FALA


No capítulo nove de O LIVRO DAS MENTIRAS Crowley
escreveu:

Ser é o Substantivo; Forma é o adjetivo.


Matéria é o substantivo; Movimento é o Verbo.
Por que então o ser se vestiu com a Forma?
Por que então a Matéria se manifestou em Movi-
mento?
Não respondas, Oh silencioso! Pois LÁ não há «por
que ou porquê».
O nome DAQUILO não é conhecido, o Pronome o in-
terpreta, quer
dizer, mal interpreta.
Tempo e espaço são Advérbios.
Dualidade gera a Conjunção.
O Condicional é Pai da Preposição.
148
O artigo marca também Divisão; mas a Interjeição é
o som que
termina em Silêncio.
Destrói, portanto, as Oito Partes da Fala; a Nona es-
tá próxima
da verdade.
Esta deve ser também destruída, antes de tu entra-
res
n’O Silêncio.
Aum.

A gramática inglesa classifica as palavras em oito


partes específicas da fala, sem explicar necessaria-
mente qual a palavra, mas sim como ela é usada. Isso
se reflete também na gramática brasileira, com suas
oito regras básicas de como pronunciar as palavras.
Assim temos:

1. Substantivo: Parte da fala que significa uma enti-


dade concreta ou abstrata, que evidencia a subs-
tancia, a essência.
2. Adjetivo: Parte da fala que qualifica o substantivo
ou que serve para modificá-lo, acrescentando
uma qualidade ou quantidade àquilo que se no-
meia.
3. Verbo: Parte da fala que denota um processo
sendo empregado, uma atividade em progresso.
Do ponto de vista semântico, àquilo que contém
as noções da ação e do ponto de vista sintático,
149
exerce a função do núcleo predicado das senten-
ças.
4. Pronome: Parte da fala substituível por um subs-
tantivo e que representa um nome, um termo ou
a função de um nome.
5. Advérbio: Parte da fala em modificação ou em-
pregado junto ao verbo, que funciona como seu
modificador, exprimindo circunstância de tempo,
modo, lugar, qualidade, causa, intensidade, opo-
sição, afirmação, negação, dúvida, aprovação etc.,
sendo utilizado, portanto, para modificar tam-
bém o adjetivo.
6. Conjunção: Parte da fala que une um discurso em
progresso.
7. Preposição: Parte da fala que estabelece relação
com o contexto sintático, antes ou depois, ligando
também elementos de uma frase, estabelecendo
relação entre eles.
8. Artigo: Parte da fala que compartilha das mesmas
características do verbo e do substantivo que se
queira destacar.

Estas oito partes da fala têm conexão com as práticas


do pātañjala-yoga e com os oito primeiros Atus de
Tahuti, como segue:

150
1. O substantivo representa a natureza essencial do
Atu 0, O Louco, pois ele envolve não apenas o
conceito de ideias abstratas, mas também ideias
materiais. Essa é uma referência, portanto, ao
complexo corpo-mente (Malkuth-Chokmah): Ser
é o Substantivo [...] Matéria é o substantivo. No
pātañjala-yoga, representa a prática de yama,
uma moralidade de tipo universal.
2. O adjetivo representa o papel do Atu I, O Mago,
que qualifica o substantivo com um objetivo. O
Mago simboliza a qualidade ou habilidade que
possuímos para manipular corretamente as for-
ças que estão em operação, dando forma ao O
Louco, qualificando-o, o que ressalta mais ainda
suas características fundamentais ou essenciais.
No pātañjala-yoga, representa a prática de niya-
ma, um conjunto de virtudes pessoais.
3. O verbo é representado pelo Atu II, A Alta Sacer-
dotisa, que se refere a um processo sendo empre-
gado, uma atividade em progresso. Como Cro-
wley sustenta, Movimento é o Verbo. O verbo é a
ação do Camelo cruzando o deserto árido. Abaixo
do Abismo o Camelo é Matéria, em contraste com
seu Movimento. Talvez seja incorreto dizer isso,
uma vez que este Caminho de A Alta Sacerdotisa
está tanto abaixo como acima do Abismo. Dessa
maneira, o Camelo é tanto Matéria quanto Movi-
mento. O racional por trás disto pode ser um
151
pouco complicado por conta da próxima parte da
fala, o pronome, que Crowley diz mal interpretar.
No pātañjala-yoga, representa a prática de āsana,
deveras mal interpretada, pois se trata do assento
pelo qual a Verdadeira Natureza individual se re-
vela, mas tem sido executada na modernidade
como um conjunto de exercícios posturais.
4. O pronome é representado pela ação do Atu III, A
Imperatriz, que une Chokmah-Caos-Pai a Binah-
Babalon-Mãe, misturando a qualidade de ambos
em uma única essência. É a parte da fala substitu-
ível por um substantivo, implicando que uma
Criança Mágica – a Filha – que, após seu nasci-
mento, inevitavelmente assumirá o Trono de sua
Mãe: O nome DAQUILO não é conhecido, o Prono-
me o interpreta, quer dizer, mal interpreta. Quer
dizer, aquilo que não é conhecido acima do A-
bismo será em breve identificado abaixo, no en-
tanto, Pureza acima do Abismo significa Impure-
za abaixo. É por isso que abaixo do Abismo será
mal interpretado devido à natureza da própria
dualidade. Trata-se, portanto, de uma criança que
ainda se encontra no Útero da Mãe. No pātañjala-
yoga, representa a prática de prāṇāyāma, o con-
trole sobre os vāyus internos.
5. O advérbio é representado pelo Atu XVII, A Estre-
la, parte da fala empregada como modificador do
verbo, adjetivo ou qualquer parte da sentença,
152
menos o substantivo. Essa condição ou caracte-
rística implica que o que foi projetado por O Ma-
go chega a sua realização total em A Estrela. Cro-
wley diz que tempo e espaço são advérbios, quer
dizer, existe uma linha bem tênue que separa o
substantivo inicial da sentença ou corpo, como a
Criança que ainda está no Útero da Mãe e que
embora sejam duas, Criança & Mãe, na verdade
são Uma e a Mesma. No pātañjala-yoga, repre-
senta a prática de pratyāhāra, o controle sobre os
sentidos, a linha ou janela que filtra àquilo que
ingerimos através dos sentidos.
6. A conjunção é representada pelo Atu V, O Hiero-
fante, o Caminho de Vav. A forma da letra Vav pa-
rece um prego e ela é utilizada como uma palavra
que une ideias as sentenças. O prego, por outro
lado, é àquilo que une asa coisas. A palavra latina
et – que está no centro de Solve et Coagula – sig-
nifica e, uma letra que une palavras e sentenças.
Crowley diz que a dualidade gera a conjunção e a
conjunção de duas coisas produz uma terceira,
uma Criança, banhada em sapientia, quer dizer,
sabedoria. O Caminho de Vav é um dos mais im-
portantes, pois uma vez que a Alma é projetada
abaixo do Abismo, ela é solapada em todos os as-
pectos por seu oposto, seja no desejo do Ego ou
na Verdadeira Vontade. É através do Caminho de
Vav que é possível unir o microcosmo ao macro-
153
cosmo, unir aquilo que está abaixo com aquilo
que está acima do Abismo. No pātañjala-yoga,
representa a prática de dhāraṇā, o unidireciona-
mento das forças da mente.
7. A preposição está relacionado ao Atu VI, Os A-
mantes. Na gramática, a preposição é a parte da
fala que estabelece relação entre elementos de
uma sentença, criando relação/conexão entre e-
les. Na magia sexual thelêmica, um símbolo cog-
nato é, portanto, o Falo na Kteis (vagina). A pre-
posição trata-se da Palavra dentro, descrevendo a
relação de Babalon e a Besta como irmãos. É o
entendimento disso que permite que a Criança
seja projetada abaixo do Abismo: O Condicional é
Pai da Preposição. No pātañjala-yoga, representa
a prática de dhyāna, meditação e união amorosa
com o Sagrado.
8. O artigo, finalmente, é atribuído ao Atu VII, O
Carro. É a parte da fala que compartilha das
mesmas características do verbo e do substanti-
vo que se queira destacar. Crowley diz que o ar-
tigo marca também Divisão; mas a Interjeição é o
som que termina em Silêncio. Silêncio é atribuído
ao Caminho de Cheth (Câncer) onde a Grande
Obra é alcançada. No pātañjala-yoga, este Cami-
nho representa a prática de samādhi, a completa
união com o Sagrado. Dessa maneira, é na prática
do samādhi que a união silenciosa ocorre, reve-
154
lando uma nona parte da fala, a interjeição, que
se manifesta plenamente n Caminho de Teth, Lu-
xúria (Atu XI), Babalon & a Besta unidos: AHA!

Tendo nos debruçado um pouco sobre os oito aspec-


tos da fala que devem ser equilibrados na projeção
da Palavra Mágica e que tem relação com a projeção
da Alma abaixo do Abismo, é necessário nos debru-
çar também sobre os conceitos de Alma e Espírito,
presentes em toda essa obra.
Estes termos, Alma e Espírito, têm sido utilizados
em associação quase que por todas as crenças religi-
osas do Ocidente, sinônimos que abrangem o com-
plexo corpo-mente e a própria consciência. No en-
tanto, quando desqualificamos qualquer conceito
religioso aplicado a estes termos, percebemos que a
Alma é uma projeção abaixo do Abismo do Espírito
Universal, uma centelha ou parte deste Espírito en-
carcerada na estrutura física do corpo (Malkuth).
Assim, é correto dizer que Alma e Espírito não são
coisas distintas, mas Uma e a Mesma. A Alma é assim
uma porção menor ou inferior do Espírito. No entan-
to, o que diferencia Alma e Espírito é a função de
ambos. A palavra espírito vem do latim spiritus e
significa alento, uma metáfora para o princípio vital
que anima a todos nós e está muito além de qualquer
definição que queiramos dar ao termo. Nós podemos
chamar o Espírito de Alma Superior ou até mesmo O
155
Louco do Tarot. A Alma, no entanto, pode ser cha-
mada de Alma Inferior e não representa apenas a
nossa consciência ou a força anímica do Espírito que
utiliza o corpo físico para adquirir experiência no
curso de suas encarnações, mas também é o escopo
total de nosso inconsciente, o nosso mundo onírico e
todas as outras áreas onde a linha tênue da realidade
não é claramente definida. De muitas maneiras nós
podemos dizer que a Alma é o ponto de vista do
Espírito abaixo do Abismo, quer dizer, uma ferra-
menta de percepção que permite o Espírito ser refle-
xivo em toda a manifestação que nos cerca. A Alma é
considerada, dessa maneira, a menor porção do
Espírito, devido a sua natureza subjetiva pessoal e
na psicologia moderna, muitos se sentem à vontade
em chamá-la de Consciência apenas. De certa manei-
ra eles estão corretos, pois a Alma está, para todo
efeito prático, em uma região intermediária que os
gregos chamavam de metaxu, palavra traduzida
como ponte ou reino intermediário. A localização
dessa região sempre foi alvo de inúmeros debates
entre os gregos, pois ela não é nem a consciência
ordinária através da qual é possível a percepção de
todas as coisas, assim como não se trata das profun-
dezas espirituais de cada um e do qual estamos
completamente esquecidos. Mas ela se encontra em
algum lugar entre esses dois universos ou realida-
des. Se o Espírito está contido em O Louco (Atu 0), a
156
Alma está em O Universo (Atu XXI), O Aeon (Atu XX) e
A Lua (Atu XVIII). Alma e Espírito, portanto, são
unidos pelos dezoito Caminhos restantes.
Assim, sobre a relação entre Alma, Espírito e cor-
po, seria mais adequado dizer que o Espírito na for-
ma da Alma usa o corpo para adquirir experiência no
curso de inúmeras encarnações. Quando assim afir-
mamos, colocamos a autoridade do Espírito onde ela
deveria estar o tempo todo, em Kether. Vamos re-
tornar agora ao Atu I, O Mago.

O MAGO

O
Atu I, O Mago, é regido por Mercúrio, o deus
da Fala. Ele é uma figura, metal ou elemento
central na Alquimia, recebendo o mesmo
nome, Mercúrio. Carl Jung diz que o Mercúrio contém
em si mesmo todos os opostos concebíveis. É uma
óbvia dualidade, mas é uma unidade no sentido em
que suas inumeráveis contradições estão dramatica-
mente a parte de um número igual de figuras díspares
aparentemente independentes. Ele é tanto material
quanto espiritual. Ele é ou representa o processo a-
través do qual a matéria inferior bruta e inerte é
transformada em matéria sutil espiritual e vice versa.
Ele é o diabo, o psicopompo redimido, o trapaceiro e

157
reflexo de Deus na natureza física.1 Essa é uma des-
crição fiel do Caminho de Beth, O Mago, nascido
dentro de Chokmah cuja natureza é dupla: ele é tan-
to Amfortas (o Rei) quanto Klingsor (o Feiticeiro),
Caim e Abel, Set e Hórus, Jesus e Judas. Ele é assim
luz e trevas, Deus e Satã. Ele é o verdadeiro Rei, co-
mo o leão na Alquimia. No capítulo quatro, Rex e
Regina de seu MYSTERIUM CONIUNCTIONIS, Jung diz: Na
Alquimia o leão – a besta «real» - é um sinônimo de
Mercúrio ou, para ser mais preciso, um estado em
transformação. Mas antes de se tornar um leão, Mer-
cúrio foi figurado como um dragão que morde a sua
cauda, um círculo perfeito. Ele foi chamado também
de sangue espiritual quando foi associado ao sangue
de Cristo, cujo poder de transubstanciação trans-
forma tudo o que é material em espiritual no milagre
da missa. Assim, a natureza mercurial é dual, no
entanto, Uma e a Mesma. Um pouco mais a frente
Jung complementa: Ele fez o dois-em-um e destruiu a
divina muralha «na carne». Caro (carne) é um sinô-
nimo para prima materia, portanto, Mercúrio. O «um»
é o «novo homem». Ele reconcilia o dois em «um cor-
po», uma ideia que é figurativamente representada na
Alquimia como o hermafrodita de duas cabeças.2

1 Carl Jung, ESTUDOS ALQUÍMICOS, Vozes.


2 Idem.
158
Nos escritos dos alquimistas, encontramos rela-
tos de que quando o Mercúrio é transformado em
uma imagem, vemos nele tanto o Leão quanto a Leo-
a, uma força de duas cabeças coroadas identificadas
como o enxofre vermelho e branco. A letra Beth
relaciona-se com o número 2. Isso significa que Mer-
cúrio é tanto o mundo criativo espiritual (o sêmen
primordial) quanto o Espírito oculto na matéria (o
sêmen). Ele é tanto um poder transformador quanto
o libertador. Portanto, ele é, para todo e qualquer
efeito prático, o Mago. A lição por trás do Caminho
de Beth nos possibilitará compreender como o Espí-
rito foi preso acima do Abismo para que pudéssemos
libertá-lo abaixo. E isso nós conquistamos apren-
dendo a como pensar de maneira apropriada, saben-
do qual o tipo de semente elemental ou arquetípica
plantada (como demonstrado na Carta Natal) irá
afetar drasticamente a nossa realidade física. Exata-
mente como a natureza de Mercúrio na Alquimia,
que possui um grande poder de transformação, o
Caminho de Beth é onde se inicia o processo de auto-
realização, ensinando o magista a ter controle sobre
sua quadratura (), permitindo que o Sagrado (°) aja
através dele. O Círculo (°) é O Louco (ZRO) cuja Lei é
a razão pelo qual cada um de nós estamos encarna-
dos: Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.1

1 LIBER AL, I:40.


159
A Quadratura () em cada uma das Sephiroth no
esquema de Graus da A∴A∴ representa aspectos de
nosso Nodo Sul e Nodo Norte na Carta Natal. Com
isso em mente, as três fases do Ego mencionadas no
capítulo anterior sobre a jornada de O Louco podem
ser vistos agora como explorando o corpo na pré-
puberdade, criando assim um veículo através do
qual a Vida cresce em um templo consagrado. Para
entender este processo, precisamos nos debruçar
sobre o significado da frase proclamada por Herácli-
to (535-475 a.C.), filósofo grego pré-socrático e pai
da dialética que disse: Ethos Anthropoi Daimon, que
significa o Caráter do Homem é seu Destino. Pelo
menos essa tem sido a tradução mais comum dentre
outras, pois existe até hoje um acirrado debate sobre
o significado dessa frase. Este conceito, no entanto,
se desenvolveu a partir da ideia de que o homem não
controla sua Vida, mas ao invés disso, vive em acor-
do com uma poderosa força oculta conhecida como
«destino». O Destino nos foi entregue pelos deuses e
nós o carregamos por toda nossa Vida, todos os dias.
O mais próximo que Carl Jung pode conceber a ideia
de Deus está bem explícito em frases dele como essa:
O Destino é uma força de tipo superior. Quando fala-
mos de Destino, falamos de Deus, o Divino ou o Diabó-
lico.1 A utilização do termo «Deus» sugere que Jung

1 Carl Jung, MEMÓRIAS, SONHOS, REFLEXÕES. Nova Fronteira.


160
está falando de uma entidade objetiva e independen-
te, maior que ele mesmo, mas na verdade não é bem
assim. As concepções de Jung geralmente demons-
tram um entendimento de questões espirituais que
envolvem apenas o ruach na Árvore da Vida. O ver-
dadeiro Deus acima do Abismo (Kether/Eu Sou)
parecia ser uma ideia evasiva para Jung. Em outras
palavras, Carl Jung via deuses, daimons e o próprio
Destino como rótulos para «complexos» encontrados
no inconsciente coletivo ou na psique e, portanto,
presentes no caráter de todas as pessoas. Patrick
Harpur, autor de DAIMONIC REALITY: A FIELD GUIDE TO
THE OTHERWORLD, diz em seu livro: O Guia Guardião
[...] tendo sido negado ou reprimido, tende-se a se
separar e assumi quase que em uma autonomia, com
vimos em casos de desordem de múltiplas personali-
dades. Compreender Destino, portanto, significa
projetar-se no inconsciente na intenção de traçar
quando, onde e como essa divisão ocorreu, quer di-
zer, quando o daimon pessoal deixou de nos ajudar
em conquistar a Verdadeira Vontade e passou a nos
oferecer esmolas do desejo e os apetites das paixões,
similar a tentação de Cristo no deserto pelo Diabo. É
importante lembrar que invocar o auxílio do daimon
pessoal não faz de ninguém uma pessoa melhor. Não
existem dúvidas de que seu dever é nos auxiliar a
realizar nosso Destino, mas devido à programação
que cada um de nós recebe na infância, chegamos a
161
um ponto onde perguntamos: onde é que está este
guia guardião em nossa jornada?
De fato, devido a nossa programação de que Deus
está morto, o daimon pessoal da maioria das pessoas
é avesso a qualquer prática de orientação espiritual
e por conta disso, ele precisa ser reprogramado e
controlado para que ele possa assumir a função de
nos guiar em direção a Verdadeira Vontade. Harpur
continua: Eles nunca poderão ser controlados por
completo enquanto tiverem poderes de controlar o
indivíduo que eles acompanham [na encarnação]. No
entanto, após rigorosas iniciações e ritos de passa-
gem, seu objetivo pode ser redirecionado para os fins
pelos quais eles acompanham todos nós. Harpur está
descrevendo o cerne do sistema de magia proposto
por Abramelin, que ensina o magista a controlar seu
daimon pessoal () para que o Sagrado Anjo Guardi-
ão (°) ou Verdadeira Vontade possa nos controlar.
Em seu MITOLOGIAS, W.B. Yeats (1865-1939) diz:

Penso que foi Heráclito que disse: o Daimon é nosso


Destino. Quando eu penso na vida como uma luta
contra o Daimon, que nos coloca no trabalho mais
difícil entre àqueles não completamente impossí-
veis, compreendo porque existe uma profunda ini-
mizade entre o homem e seu destino. [...] Eu estou
convencido de que o Daimon nos engana e nos en-

162
trega, e que ele teceu a rede de estrelas e a jogou de
seu ombro.

Crowleu traduziu a frase de Heráclito, Ethos Anthro-


poi Daimon, simplesmente como Caráter é Destino.
Quer dizer, quem nós somos é predeterminado por
um tipo ou traço particular de caráter que nós esco-
lhemos antes de encarnar, o que significa como o
daimon pessoal ou O Louco foi programado como
uma imagem. Mas isso não se trata de uma marca
indelével na pedra, ou seja, não é sadio pensar que
toda nossa vida será governada pelo Destino ou
pelas estrelas. Sobre isso Crowley diz: deve ser cla-
ramente entendido que as estrelas somente indicam o
que virá se a Inteligência ou Livre Arbítrio não forem
usados para mudar o curso natural dos eventos.1 Isso
significa que a Carta Natal nos oferece apenas lam-
pejos de Ehben, o caráter fundamental sobre o qual
nossa Vida é edificada. Crowley completa: [...] até
onde nós devemos desenvolver traços desejáveis e
superar àqueles indesejáveis, depende apenas do exer-
cício do Livre Arbítrio.2 Para os filósofos gregos do
passado, uma das questões mais inquietantes era se
havia ou não uma ordem pré-ordenada de eventos
em cada nova encarnação ou se somos dotados de

1 Aleister Crowlery, THE GENERAL PRINCIPLES OF ASTROLOGY.


2 Idem.
163
livre arbítrio. A maioria dos gregos diria que a res-
posta a essa indagação é apenas uma: destino. Isso
implica em um decreto divino que predetermina o
curso de nossas vidas e este decreto pode ser inferi-
do a partir da Carta Natal. Mas os gregos também
sabiam que a ideia por trás do Destino não deveria
ser vista como uma explicação sobre o porquê de
certos eventos acontecerem ou, caso algo aconteces-
se, porque deveria ser assim. Ao invés disso, o decre-
to divino do Destino era reconhecido, nos termos da
cultura thelêmica, como Verdadeira Vontade, quer
dizer, a compreensão da razão pela qual a Alma de-
cide – e para isso ela programa – a encarnação a ser
vivida. No entanto, embora encarnada para comple-
tar o seu Destino, a conquista da Verdadeira Vonta-
de, ainda sim a Alma possui livre arbítrio, pois não
existe lei além de Faz o que tu queres.1
No Ritual de Iniciação no Grau de Minerval na
O.T.O., o Candidato escolhe sua encarnação quando
ele admite ao Saladino que é um viajante pelas terras
do Egito indo em direção a Heliópolis, a Cidade do
Sol. A falha em compreender essa passagem do Ritu-
al e alcançar Heliópilis após ser recebido e assumir o
Grau Minerval, é admitir a própria falha em executar
verdadeiramente as Leis do Faz o que tu queres2

1 LIBER AL, III:60.


2 LIBER AL, I:40.
164
colocadas em movimento no curso do Ritual de Ini-
ciação. Ao Minerval no Ritual de Iniciação na O.T.O.,
portanto, é dado o Livre Arbítrio. Mas são poucos
que têm a devida instrução sobre este ponto, o que
leva a falha no trabalho que a O.T.O. propõe, pois
uma vez que as forças invocadas pelo Ritual de Inici-
ação colocam o candidato na rota correta até Helió-
polis, ele deverá decidir se cumpre a Lei de sua Es-
trela-Sol ou se irá ceder aos desejos da paixão. Todo
Minerval, portanto, deveria ponderar sobre o que é
Heliópolis, como chegar lá e caso ele não chegue, o
que pode acontecer.
Originalmente, após ser recebido na O.T.O., o
Candidato permanecia no Grau 0° (Minerval) por um
período de nove meses.1 Esse período representava
o tempo em que o Espírito residia no Útero da Mãe-
Babalon, assim como a passagem pela terra dos mor-
tos através de um calor escaldante. Como no MITO DE
ER de Platão, o Minerval descansa e bebe das águas
do esquecimento – Rio Lete. Quer dizer, o Minerval
chegou a Binah, o Grande Mar e Útero Cósmico da
Mãe Divina. Essa é a esfera qabalística onde o Candi-
dato passa pelo Ritual de Iniciação no I° Grau da

1A atual liderança da O.T.O. hoje adota novas regras e o Candidato


não é mais encorajado a permanecer nove meses como Minerval.
Caso ele queira, imediatamente após ser recebido como Minerval
ele pode requisitar a iniciação no I° Grau.
165
O.T.O. Embora o Ritual de Minerval seja considerado
o Rito de Iniciação na O.T.O., na verdade ele é um
prelúdio para a verdadeira Iniciação na Ordem, que
ocorre no I° Grau, onde se diz filosoficamente que o
ovo e a serpente se unem. Dessa maneira trata-se de
um equívoco pensar que o Rito de Minerval é a porta
de entrada para O.T.O. A iniciação é o início de uma
nova etapa e no Ritual de Minerval o Candidato só
está sendo preparado ou instruído – como Er no
mito de Platão – a seguir em uma direção (yama) na
qual o ele será iniciado em breve. Em sua publicação
de 1929, O ALFA & O ÔMEGA DA INICIAÇÃO, Frater Achad
nota que um aspirante ao Primeiro Grau deve ser
devidamente preparado para assumi-lo. Assim, o
período de nove meses no Grau Minerval servia para
preparar o Candidato para a verdadeira Iniciação na
O.T.O., que ocorria no I° Grau e não existiam garanti-
as de que ele seria proficiente em sua preparação.
No mesmo ensaio Frater Achad nota: Algumas pesso-
as não são devidamente e verdadeiramente prepara-
das, seja por seu iniciador ou por si mesmas. Essa é a
causa da grande maioria das falhas. No entanto, se o
Candidato é devidamente preparado para Iniciação
no I° O.T.O., então ele irá descobrir que o Ritual do I°
Grau é uma poderosa ferramenta de transformação
que pode ser praticado por qualquer pessoa em
qualquer idade, pois o seu conteúdo arquetípico
opera um renascimento na psique do Candidato,
166
restaurando a divindade perdida da Alma no proces-
so de encarnação. Em DE NATURA DEORUM Crowley
diz: Pois todas as tentativas de iniciar, até mesmo os
que merecem, antes que eles se iniciem a si mesmos,
são tolice e fatalidade. Os Segredos do Sábio, embora
do conhecimento deles, não devem ser expressos na
língua dos homens comuns. Em uma entrada em seu
diário mágico de 8 de janeiro de 1923, Crowley nos
provê o seguinte conselho: A iniciação nunca é àquilo
que você pensa ser, caso fosse, você já seria iniciado.
Portanto, o Candidato só era admitido verdadeira-
mente a O.T.O. após o Ritual de Iniciação do I° Grau.

No começo era a Iniciação. A carne nada vale; a


mente nada vale; aquilo que é desconhecido para ti
e está acima destas, embora firmemente baseado
sobre o seu equilíbrio, dá vida.
Em todos os sistemas de religião, deve ser encon-
trado um sistema de Iniciação, o qual pode ser de-
finido como o processo pelo qual um homem chega
a aprender sobre aquela Coroa desconhecida.
Embora ninguém possa comunicar o conhecimen-
to ou o poder para realizar isto que nós podemos
chamar a Grande Obra, é, todavia, possível que os
iniciados guiem outros.
Todo homem deve superar seus próprios obstá-
culos, expor suas próprias ilusões. Porém, outros
podem ajudá-lo a fazer ambos, e eles podem torná-
lo completamente apto a evitar muitos dos falsos
167
caminhos que não levam a lugar algum, os quais
tentam os pés cansados do peregrino não iniciado.
Eles podem, além disso, assegurar que ele seja de-
vidamente provado e testado, pois há muitos que
pensam ser Mestres, os quais sequer começaram a
trilhar o Caminho do Serviço, que conduz à
mæstria.
Agora, a Grande Obra é uma, a Iniciação é uma, e
a Recompensa é uma, embora diversos sejam os
símbolos com os quais o Inexprimível é revestido.1

Sobre o processo de iniciação, Frater Achad faz mais


apontamentos que nos sugerem muitas reflexões:
Uma Ordem cujos assuntos tratam da iniciação nos
Mistérios pode ter sucesso em fazê-lo através de um
Ritual de Iniciação. O Ritual sendo bom, embora falho
em algum ponto, deverá interiorizar a Verdadeira
Corrente dos Poderes Superiores.2 O Ritual de Inicia-
ção no I° O.T.O. cumpre essa função, pois através de
sua prática o conteúdo tóxico, condicionado e vicia-
do das camadas profundas da mente é colocado em
movimento e purgado no curso do Ritual. Os Irmãos
e Irmãs da O.T.O. são aconselhados a adaptar os
Rituais da Ordem de maneira que possam praticá-los
em casa após serem iniciados por seus iniciadores, o
que da continuidade a força invocada e colocada em

1 Aleister Crowley, LIBER LXI VEL CAUSAE.


2 Frater Achad, O ALFA & O ÔMEGA DA INICIAÇÃO.
168
movimento quando passaram pela primeira vez pela
Iniciação.
Como vimos no capítulo anterior, A Jornada d’O
Louco, o Ritual de Minerval aciona apenas um Cami-
nho na Árvore da Vida, o Caminho de Aleph. O Ritual
de I° Grau aciona sete Caminhos na Árvore. O pri-
meiro é o Caminho de Beth, depois o Caminho de
Gimel e em seguida os Caminhos de Daleth, Heh, Vav,
Zain e Cheth. Estes sete Caminhos não se relacionam
apenas aos aṅgas do pātañjala-yoga, mas também
aos sete sādhanās ou aspectos ocultos da prática
yogī mencionados por Blavatsky em A VOZ DO SILÊN-
CIO, na seção sobre os Sete Portais:

1. DĀNA, a chave da caridade e do amor imortal: O


Mago
2. SHĪLA, a chave da Harmonia nas palavras e nos a-
tos, a chave que contrabalança a causa e o efeito,
não deixando mais espaço a ação kármica: A Alta
Sacerdotisa
3. KSHĀNTI, paciência doce, que nada pode pertur-
bar. A Imperatriz
4. VAIRĀGYA, a indiferença ao prazer e a dor, a ilusão
vencida, só a verdade vista. A Estrela
5. VĪRYA, a energia indômita que abre o seu caminho
para a VERDADE suprema, erguendo-se acima das
mentiras terrenas. O Hierofante

169
6. DHYĀNA, cuja porta de ouro, uma vez abertas as
cabeças dos Narjol em direção ao reino de Sat eter-
no e sua contemplação incessante. Os Amantes
7. PRAGNYĀ, a chave para o que faz do homem um
Deus, criando-lhe um filho Bodhisattva, dos Dhyā-
nis. Tais são as chaves de ouro para esses Portais. O
Carro

Estes são os Sete Portais que auxiliam a abertura


desses sete Caminhos na jornada mágica d’O Mago.
No I° Grau da O.T.O., o Candidato se debruça sobre
essas práticas yogīs para explorar completamente
todos os aspectos que envolvem sua iniciação antes
de solicitar admissão ao II° Grau, centrado em Ti-
phereth cujo metal é o ouro. Em uma carta enviada a
Frater Achad em 21 de novembro de 1915, Crowley
escreveu: Você precisa fazer ouro por si mesmo e não
me dizer o que você pensa que poderia ser. [...] Quan-
do eu quero fazer ouro, coloco sete coisas em um ca-
dinho e aqueço, retirando dali o que é produzido. Mas
isso não acontece sempre, às vezes eu falho. E nem
sempre é conveniente colocar sete coisas juntas e não
tenho certeza do que é necessário ou do que não é.
Magicamente nós podemos dizer que após O Lou-
co ter aceitado sua nova encarnação, seu veículo é
projetado de Chokmah (o Falo) para dentro do Útero
da Mãe em Binah. Chokmah é muitas vezes referido
como o Conhecedor que estende a si mesmo até Bi-
170
nah, a Conhecida. De outro modo, ainda dentro de
Chokmah (Tenda-Falo), O Louco é apenas a Essência
por trás do espermatozoide na busca por um veículo
ou imagem. No simbolismo da O.T.O. o espermato-
zoide que carrega a Essência d’O Louco é chamado
de Serpente para distingui-lo do aspecto ou corpo
bruto do sêmen. O Útero que recebe a Serpente é
representado no Ritual do I° O.T.O. como a Fonte
Sagrada. Ali O Louco é devidamente preparado e
nutrido para o Nascimento. Nutrição é a Chave con-
tida no Ofício da Mulher Escarlate e sua relação com
o sangue. Crowley insistiu que a falha em compreen-
der todos esses Arcanos torna impossível a compre-
ensão do IX° O.T.O.
A Fonte Sagrada do I° Grau é retratado como um
quadrado. É interessante notar uma relação com o
quadrado que aparece no meio do glifo do mūlādhā-
ra-cakra. Na Árvore da Vida,o mūlādhāra-cakra re-
presenta o complexo Malkuth-Yesod, a Terra (corpo
físico) e a Lua (sangue menstrual). No Ritual do I°
O.T.O. o Candidato circumbula três vezes a Fonte
Sagrada, uma ação mágica chamada Viagens com a
Lua, o que simboliza a Alma jornando pela terra dos
mortos no calor escaldante. Nesse processo, mente e
corpo se preparam para o Nascimento. No capítulo
anterior eu me referi a mente e corpo como ājñā e
mūlādhāra, os cakras colocados em ação no Ritual de
Minerval. Vamos manter isso bem em mente nesta
171
obra. As três voltas ao redor da Fonte Sagrada da
O.T.O. representam os três estágios na gestação de
uma criança no útero, divididos em trimestres. As
três voltas ao redor da Fonte Sagrada também re-
presentam as três voltas da kuṇḍalinī-śakti e, portan-
to, os três guṇas: tamas, rajas e sattva, as qualidades
negativa, positiva e neutra presentes em tudo na
Natureza, que também é uma imagem para o corpo
da Deusa. A ideia serpentina da kuṇḍalinī-śakti re-
presenta um potencial altamente dinâmico no orga-
nismo, mas que se encontra em acordo com uma
frequência macrocósmica considerada a própria Mãe
Divina ou Grande Deusa (devī). Como tal é uma e-
nergia feminina e como o Ouroboros, a kuṇḍalinī-
śakti é representada por uma Serpente encolhida
três voltas e meia, mordendo sua própria cauda. No
homem, Ela reside no mūlādhāra-cakra e tem sido
dito que ela permanece em repouso, adormecida.1
O mūlādhāra-cakra e a kuṇḍalinī-śakti nele reco-
lhida encontram inúmeras correspondências no
Ritual de I° Grau da O.T.O. e cada Home & Irmão ou
Mulher & Irmã admitidos a este Grau na Ordem é
encorajado a explorar inúmeros aspectos de si mes-
mo em acordo com esse simbolismo. A volta superi-

1 Ao leitor é indicado meu livro, CAKRA SĀDHANĀ: O DESPERTAR DA


SERPENTE DE FOGO, para um curso completo sobre os cakras e o
trabalho com a kuṇḍalinī-śakti;
172
or da kuṇḍalinī-śakti recolhida é representada por
sattva, qualidade sutil da lucidez e da clareza espiri-
tuais, o que implica pureza, por isso sua cor corres-
pondente é branca. A deusa do destino relacionada a
sattva é Láquesis. Uma pessoa de característica satt-
víca, assim entende-se, trata-se de alguém espiritua-
lizado, pura como a própria força do Sol e cujo dese-
jo é dedicar-se pela emancipação espiritual da hu-
manidade, oferecendo sua Luz ao mundo. Nas três
graduações thelêmicas, sattva representa o estágio
do Eremita.

Mūlādhāra-cakra.

A volta intermediária da kuṇḍalinī-śakti recolhida é


representada por rajas, qualidade ativa, dinâmica e
positiva e sua cor associada é o vermelho. Refere-se
a Fundação de nossa imagem como a vemos e gosta-
ríamos de projetá-la no mundo, o Ego ou Eu Inferior.
A deusa do destino associada a essa volta intermedi-
ária da kuṇḍalinī-śakti é Cloto, relacionada a Vida
173
escolhida pela Alma e projetada abaixo do Abismo.
Este é o estágio do Amante na iniciação thelêmica.
A volta inferior da kuṇḍalinī-śakti recolhida é a-
tribuída a tamas, qualidade negativa da ignorância,
obscuridade, violência, inércia, embotamento e ape-
go, relacionada a cor negra. Dos três guṇas, tamas é a
qualidade mais inferior e por isso relaciona-se a
deusa do destino Átropos, que conecta a Alma ao
corpo físico. Tamas encontra equivalência na gradu-
ação thelêmica de Homem da Terra.
Estes três estágios da iniciação conectados tam-
bém as três fases da Vida no corpo do homem en-
carnado representam a descida da Alma a matéria
no Pilar do Meio na Árvore da Vida nos estágios de
Tiphereth, Yesod e Malkuth. Cada uma dessas três
qualidades, sattva, rajas e tamas, devem ser refina-
das no trabalho com o ruach que compreende a per-
sonalidade (Eu Inferior) e a Consciência ou Eu Solar
(Eu Superior), permitindo assim a comunicação
entre os planos e a reorganização dos poderes da
Alma. Essas palavras devem ser levadas em conside-
ração por qualquer Candidato a Grande Obra, pois a
falha em compreender e executar esse processo com
eficiência demarca a linha sutil entre o conhecimen-
to recebido diretamente do Sagrado em Kether e
àquele produzido pelo Ego em Hod. Crowley nota:

174
É vital que o Adepto treine faculdades intelectuais
para que lhe digam a verdade, na medida da capa-
cidade delas. Desprezar a mente por causa das limi-
tações desta é o erro mais desastroso; é a causa
comum das calamidades que espalham por tantas
praias os destroços da Armada Mística. Preconcei-
to, arrogância, confusão, todas três formas de de-
sordem mental e moral, tão frequentemente obser-
vadas em pessoas de grande consecução espiritual,
tem levado o Caminho mesmo ao descrédito; quase
todas estas catástrofes se devem a tentativas de
construir o Templo do Espírito sem dar devida a-
tenção às Leis mentais de estrutura, e às necessida-
des físicas de fundamento. A mente deve ser trei-
nada ao máximo de perfeição, mas conforme as su-
as propriedades internas, nós não podemos alimen-
tar um microscópio com costeletas de carneiro. De-
ve ser considerada como um instrumento mecânico
de conhecimento independente da personalidade
de seu possuidor; devemos trata-la exatamente
como tratamos nossos eletroscópios ou nossos o-
lhos, sem a influência de nossos desejos. Um médi-
co chama um colega para tratar de sua família, sa-
bendo que sua ansiedade pessoal pode perturbar
seu julgamento. Um microbiologista que confia em
seus olhos quando sua teoria está sendo provada
pode falsificar os fatos e perceber tarde demais que
fez o papel de tolo. 1

1 Aleister Crowley, MAGIA EM TEORIA & PRÁTICA.


175
Toda integridade da consciência, portanto, deve ser
meticulosamente estudada e os Irmãos do I° O.T.O.
são incentivados a manterem uma mente científica
em sua análise. LIBER ISRAFEL VEL LXIV é uma podero-
sa invocação ao deus Thoth escrita por Aleister Cro-
wley. É interessante notar que 64 é um número sa-
grado a Hod (Mercúrio). Tahuti ou Thoth é o Senhor
da Magia, Sabedoria e principalmente, da pronúncia
mágica. Crowley atribuiu essa instrução ao Anjo do
Atu XX, O Aeon, que conecta Malkuth a Hod.
No Ritual de Iniciação ao Grau de Neófito na Or-
dem Hermética da Aurora Dourada havia um trono
posicionado no quadrante Leste que simbolizava a
subida do Sol de Vida e Luz onde o oficiante encarre-
gado governa o Salão de acordo com as Leis da Or-
dem. No quadrante à frente, Oeste, havia um Trono
que representava o aumento das trevas e a diminui-
ção da luz. Uma estrutura similar é encontrada no
Ritual de I° Grau da O.T.O.. No Leste se encontra a
Tenda do Saladino. No Oeste está a Fonte Sagrada da
O.T.O., pois Vida implica Morte. Dentro da Tenda do
Saladino existem quatro cubos arranjados na forma
de um Tau invertido, o Emblema do IV° Grau. Os
cubos são dispostos na forma de uma figura fálica.
Considere as seguintes passagens fálicas:

176
Ela ficará ereta sobre a alta montanha; apenas o
meu Deus comungará com ela. Ele cresce sob mi-
nha mão: ele cobrirá todo o firmamento.1

Quando o Candidato alcança o IV° Grau na O.T.O. ele


já possui em mãos o segredo que transforma o Leão
(O) do forno ardente do atanor através da retorta
(Hod) para dentro da curcubita (Netzach), mistu-
rando-se ao glúten da Águia Branca (N). Paul Foster
Case diz: O atanor é o organismo humano e o corpo é
uma perfeita descrição desse símbolo.2 Os alquimista
do passado se referiam ao corpo físico quando fala-
vam do atanor, pelo menos os sopradores. No con-
texto da alquimia sexual da O.T.O., o atanor trata-se
do Falo. Sobre o Tau invertido, o Saladino (como a
conexão mágica) senta-se no topo, o Emir (a mãe)
senta-se a esquerda e o Vizir (o pai) senta-se a direi-
ta. O Candidato é trazido ao centro do templo, entre
a Tenda do Saladino e a Fonte Sagrada da O.T.O.
Toda iniciação ocorre entre os pilares Leste e Oeste:

Saladino: Qual é a Arma do Mestre?


Vizir: (dá-lhe a vela) LUZ.
Saladino: Como ele a usará?
Emir: Para encontrar a VERDADE.

1 Aleister Crowley, LIBER LIBERI VEL LAPIDIS LAZULI SUB FIGURA VII,
III:22 e 25.
2 Paul Foster Case, ESOTERIC KEYS OF ALCHEMY.

177
Saladino: Onde deve ele procurá-la?
Vizir: Na Fonte.1

O Vizir, sendo o Pai carrega a Luz que simboliza o Sol


(que reside dentro do Falo). O Emir, sendo a Mãe, os
informa que, como Aleteia, a Verdade é encontrada
na Fonte Sagrada. Depois da Cerimônia de Abertura,
Purificação e Juramento no Ritual de I° Grau na
O.T.O., o Candidato é levado até a Fonte Sagrada no
Oeste, quando o Saladino diz:

Nós estamos dispostos a lhe admitir, porque duas


pessoas dignas concordaram em tornar isso possí-
vel; mas eu sou obrigado a lhe explicar que teria si-
do melhor se você jamais tivesse se aproximado de
nós, caso imagine que nós podemos lhe ensinar os
segredos dos Mistérios. Os segredos Reais são in-
comunicáveis. Os segredos da Arte Real crescem
como uma flor no coração do homem. Tudo o que
nós podemos fazer é ajudar essa flor, suprindo-a
com comida, ar, água, e luz solar.2

Cito novamente DE NATURA DEORUM: Pois todas as


tentativas de iniciar, até mesmo os que merecem,

1Ritual de Iniciação do I° Grau da O.T.O.


2Ritual de Iniciação do I° Grau da O.T.O. Para entender o papel do
Saladino do ponto de vista da Trindade acima do Abismo, o leitor
é indicado a leitura de A VISÃO & A VOZ, 13° Aethyr. Ênfase na
chave: flores.
178
antes que eles se iniciem a si mesmos, são tolice e
fatalidade. Os Segredos do Sábio, embora do conheci-
mento deles, não devem ser expressos na língua dos
homens comuns. Completando, Paul Foster Case em
seu HERMETIC ALCHEMY: SCIENCE AND PRACTICE diz: O
impulso natural, quando a descoberta é feita, é contá-
la ao mundo. No entanto, isso tem se mostrado um
impulso desmedido, pois qualquer segredo descoberto,
aparentemente perfeito e claro, cultiva uma inclina-
ção missionária. O Grande Arcano da Iniciação é in-
comunicável. Contudo, claro como possa parecer à-
queles que possuem o segredo do Arcano – e nenhum
conhecimento é completamente claro – o fato que
permanece é que a linguagem humana não pode
transmitir o Arcano da mente daquele que o possui
para a mente de um despreparado. Não é possível
transmitir a absolutamente ninguém o conhecimen-
to do Grande Arcano, pois não existem palavras que
possam capturá-lo. O Candidato a Real Iniciação
deve encontrar por si mesmo a joia de seus desejos.
Conhecimento: Após completar a seção anterior
do Rirual, o Candidato é despido. Isso implica que
todas as memórias de suas encarnações passadas
serão completamente esquecidas quando ele beber
das águas do Rio Lete, pois ele está sendo preparado
para uma nova Vida. No Leste se encontra o Saladi-
no, que invoca os poderes do Nascimento, coman-
dando o Candidato a iniciar suas Viagens com a Lua,
179
estando ele acompanhado pelo Vizir (pai) e Emir
(mãe) nas três voltas ao redor da Fonte Sagrada da
O.T.O. Essa jornada representa o tempo que a Alma
passa com Láquesis. Ao chegar no fim dessa jornada
o Saladino lhe diz: Este é o Caminho para o Conheci-
mento de ti mesmo. Sê verdadeiro para contigo mes-
mo.
Perfeição: Novamente, o Candidato é conduzido
por mais três voltas ao redor da Fonte Sagrada. No
fim dessa jornada o Saladino diz ao Candidato: Este é
o Caminho para a Perfeição de ti mesmo. Conquista-
te. Essa jornada representa o tempo que a Alma pas-
sa com Cloto, onde aprende que deve se tornar sobe-
rana de si mesma.
Verdade: E por uma terceira vez, o Candidato faz
uma nova jornada de três voltas ao redor da Fonte
Sagrada e no fim o Saladino lhe informa que esta
terceira jornada representa o Caminho para a Ver-
dade. Busca a Beleza. Na Beleza, a Verdade eterna é
revelada. Trata-se do período em que a Alma esteve
como Átropos, determinando o percurso de sua
encarnação.

[...] sendo guardiões da verdade, eles ensinaram


apenas mentiras, salvo aqueles que compreendem;
pois a verdade não passa pelo Portal do Abismo.
Todavia o reflexo da verdade aparece nas Sephiro-
th inferiores. E o seu equilíbrio está na Beleza e por
180
isso aqueles que procuram apenas a beleza chegam
mais perto da verdade. Visto que a beleza recebe
diretamente três raios das supernas e os outros não
mais do que um.1

O Ritual do I° Grau da O.T.O. opera na esfera de Bi-


nah, acima do Abismo. O Juramento Mágico em a-
cordo com a Grande Obrigação de Binah é: trabalhar
em verdade. A Verdade (Aleteia) é um atributo do
Mestre do Templo em Binah.2

1Aleister Crowley, A VISÃO & A VOZ, 6° Aethyr.


2 O pensamento gnóstico não produziu uma doutrina que repre-
sentasse todos os seus pensadores. Cada mestre interpretava
segundo o seu nível de acesso espiritual a doutrina gnóstica a sua
maneira. Valentim (100-160 d.C.) foi o gnóstico mais famoso no
período do cristianismo primitivo. Ele chegou a se candidatar a
bispo, mas não foi eleito e em detrimento disso ele começou a
ensinar seus discípulos. No seu sistema, a criação começou dentro
de Bitos, o abismo negro além de toda existência e a partir dele
surgiu sua contraparte feminina, Enóia (pensamento). Além de
Bitos e Enóia, surgiram duas outras emanações desse abismo
negro: Nous e Aleteia. Estes foram, na concepção de Valentim, os
quatro primeiros deuses (aeons) gnósticos e deveriam manter sua
regência por um determinado período de tempo. Este termo,
aeon, é derivado da palavra grega aion, que significa vida. No
entanto, como muitas outras palavras gregas, aion carrega signifi-
cados distintos quando utilizado em outros contextos. Um deles é
eternidade ou era. No entanto, a palavra aion é mais bem empre-
gada como uma corrente de força vital encontrada em absoluta-
mente tudo, de coisas materiais a ideias, conceitos, convenções
morais, movimentos e conjunções astrológicas etc. Tudo o que
181
Cada uma das deusas do destino, as três moiras,
Cloto, Láquesis e Átropos, produzem, tecem e cortam
o fio da vida de todos, organizando e preparando a
Alma para nova encarnação. Após completar nove
luas de gestação, as três vezes de três voltas que o
Candidato faz ao redor da Fonte Sagrada da O.T.O. no
Ritual de I° Grau, ele é colocado dentro da Fonte com
um cordão no pescoço. Este cordão é um símbolo do
fio da vida e do cordão umbilical d’O Louco, mas
também de um Arcano que envolve Judas e que ire-
mos discutir. Mas muitos Candidatos bebem em
demasia da água do esquecimento dentro da Fonte
Sagrada e depois como Iniciados no I° Grau da O.T.O.
– devido a formação do Ego como Almas encarnadas

existe é permeado por essa corrente vital por um período de


tempo, dependendo da intenção. As implicações mágicas desse
processo são óbvias. Tudo o que existe – e aqui incluímos ordens
iniciáticas – deve seguir o curso do Sol: nascimento, vida e morte.
Os Atus de Tahuti não existem no organismo, quer dizer, na
anatomia sutil, como muitos não-iniciados têm proposto, fazendo
más interpretações do processo iniciático. Os Atus de Tahuti são
conexões metafóricas que nos informa o tipo e a qualidade do da
força (aion) que transita entre duas zonas de poder (cakras) que
animam toda estrutura do Self, o arquétipo central da consciência.
Do ponto de vista de um Adepto Exempto, pode ser dito que
os quatro aeons ou deuses primordiais gnósticos são: Bitos (o
espaço vazio além de Kether); Enóia (Kether); Nous (a mente ou o
potencial total do intelecto, quer dizer o Gênio ou Verdadeira
Vontade em Chokmah); Aleteia (Binah).
182
– ignoram, quer dizer, se esquecem das lições lhe
ensinadas no Ritual de Minerval, da mesma maneira
que o orgasmo masculino se precipita para fora da
Tenda em um momento fugaz de prazer sexual. Uma
das lições mais importantes do Ritual Minerval e que
geralmente é a mais ignorada, é sobre a viagem até
Heliópolis, a Cidade do Sol, cuja metáfora fala sobre
o objetivo por trás da encarnação de cada Alma, quer
dizer, seu destino ou Verdadeira Vontade. Este é o
yama d’O Louco esquecido por muitos que passam
pelo Ritual de I° Grau na O.T.O.
Este cordão que representa o fio da vida no Ritual
de I° Grau tem um importante simbolismo nos Ritu-
ais de Iniciação da O.T.O. e também da Maçonaria.
Em alguns rituais as mãos são amarradas com ele.
em outros ela é colocada ao redor do pescoço e no
Ritual de IV° Grau ela é colocada nos tornozelos. Em
algumas interpretações privadas de Irmãos da O.T.O.
sobre os Rituais da Ordem este cordão muitas vezes
aparece como a corda que impede o prisioneiro de
fugir. No entanto, seu simbolismo é mais profundo. O
cordão representa a própria conexão com o mundo
espiritual, uma corda que nos mantém em contato
com os planos internos de existência e, portanto,
uma lembrança da Verdadeira Vontade. Alguns Ir-
mãos pensam que se caminharem rápido através das
iniciações logo alcançarão os Graus mais elevados e
lá aprenderão os Grandes Mistérios que a O.T.O.
183
oferece. Contudo, todo poder é dado ao Minerval:
Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.1 Esta frase
de O LIVRO DA LEI aparece novamente no Ritual de IV°
Grau quando o cordão que prende os tornozelos do
Candidato é removido. Isso é uma tentativa de ensi-
nar o Candidato, como Jacó na Bíblia, que os pés
simbolizam àquilo que nos conecta ao plano material
abaixo do Abismo, tornando-nos incapazes de per-
ceber o Sagrado acima do Abismo. É uma lição difícil
ao Candidato do IV° O.T.O. levantar os pés da terra,
pois do contrário ele nunca estará apto a ascender
pelo Pilar Direito de energia ascendente na Árvore
da Vida. Neste Ritual de Iniciação no IV° Grau da
O.T.O. um oficiante emula Haggai, um dos profetas
menores da Bíblia, enunciando os dez mandamentos
ao Candidato, seguidos desta frase: Amarás ao Se-
nhor teu Deus com todo o teu coração, e ao teu próxi-
mo como a ti mesmo, pouco antes do cordão ser tira-
do de seus tornozelos. No Ritual da Maçonaria, logo
após os dez mandamentos seguia esta frase: Eu te
dou um novo mandamento: que nós nos amemos!
Àquele que diz que ele está na Luz e odeia seu irmão,
permanece nas trevas. Na minha versão pessoal dos
Rituais de Iniciação da O.T.O. eu mantive o original
da Maçonaria. O leitor deve refletir sobre estes ver-
sos da Bíblia:

1 LIBER AL, I:40.


184
Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor, e
fui para eles como os que tiram o jugo de sobre as
suas queixadas, e lhes dei mantimento.1
Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis
uns aos outros; como eu vos amei a vós, que tam-
bém vós uns aos outros vos ameis.2

Todos os Arcanos de Iniciação transmitidos pelos


Rituais da O.T.O. são acumulativos. Eles sutilmente
transmitem ensinamentos sobre magia sexual ensi-
nando que a natureza d’O Louco (prāṇa) deve ali-
mentar e completar a Verdadeira Vontade, não os
desejos lascivos do Ego. Heliópolis, a Cidade do Sol,
não se trata de qualquer lugar na Terra, mas do san-
tuário sagrado do coração de cada um. Se o Candida-
to a Iniciação na O.T.O. quer de verdade se harmoni-
zar plenamente com os ensinamentos da Ordem, ele
deve caminhar com Aleteia, a deusa grega da Verda-
de oculta na Fonte Sagrada da O.T.O. no I° Grau. No
entanto, essa Verdade estará plenamente disponível
somente após o Candidato conhecer o ordálio seco
do III° Grau, onde a ele é lembrado que Heliópolis é a
cidade dedicada a A-Tum, o Sol poente.
Aleteia, a Verdade, é como mercúrio, que em um
primeiro momento trata-se de um metal tóxico que

1 OSÉIAS, 11:4.
2 JOÃO, 13:34.
185
deve ser cuidadosamente manipulado. O Mercúrio é
líquido e não possui forma. Se apertamos o Mercúrio
nas mãos, ele escapa pelos dedos. Essa não é somen-
te a natureza da Verdade, mas de nossa própria Ver-
dadeira Vontade. Crowley diz: As lendas sobre o jo-
vem Mercúrio são, portanto, lendas da astúcia. Ele
não pode ser compreendido pois é a Vontade inconsci-
ente.1 Em O LIVRO DE THOTH Crowley explica que a
posição do Mago-Mercúrio na Árvore da Vida, de-
monstra a terceira sephira, Binah, Compreensão, não
estando ainda formulado, nem mesmo a falsa-sephira
Daath, Conhecimento. Simbolicamente na Árvore da
Vida, uma vez que o Espírito-ON (Minerval) esteja
em Binah (I° O.T.O.), ele inicia sua jornada em dire-
ção a Vida (II° O.T.O.) através de um portal conheci-
do como Daath, que significa conhecimento. Essa é a
razão da jornada ao redor da Fonte Sagrada da
O.T.O., preparar o Candidato para o conhecimento.
Tendo a Alma passado por este portal para baixo do
Abismo, ela será afligida pela dualidade. No Ritual de
I° O.T.O., este simbolismo está presente no Vizir e no
Emir que acompanham o Candidato em suas Viagens
com a Lua. Trata-se, portanto, de uma lição sobre a
fórmula mágica ON (O Louco). Abaixo do Abismo ON
se torna O e N (Ayin e Nun), pela chance de união.2

1 Aleister Crowley, OS COMENTÁRIOS DO AL, Editora Bhavani.


2 Veja LIBER AL, I:29.
186
Uma vez abaixo do Abismo a Alma chega a Tiphereth
pelo Pilar do Meio. É Láquesis que rege o signo solar
da Carta Natal e na Árvore da Vida o Sol é atribuído a
Tiphereth. Essa zona de poder traduz-se por Beleza,
onde cada Adepto torna-se consciente das Leis de
sua Estrela. Cloto rege o signo lunar da Carta Natal.
Na Árvore da Vida a Lua está associada a Yesod,
onde Cloto estabiliza o caminho onde aprende-se a
conquistar e a controlar a Personalidade (Eu Inferi-
or-Ego) ou a máscara na intenção de completar o
objetivo pelo qual a Alma encarna. Átropos rege o
signo ascendente na Carta Natal, marcando o nasci-
mento da Alma em Malkuth, encarcerada no corpo
físico. Ela ensina a Verdade a quem tem ouvidos para
escutar na intenção de que cada Alma seja verdadei-
ra para consigo mesma (a Verdadeira Vontade) na
jornada da encarnação. A pista para a solução desta
questão fundamental é encontrada no Ritual de I°
Grau da O.T.O.: Este é o Caminho para a Verdade.
Busca a Beleza. Na Beleza, a Verdade eterna é revela-
da.
Em MAGICK WITHOUT TEARS Crowley nos informa
que no I° Grau da O.T.O. a Criança experimenta o
Nascimento. Mas anteriormente, em uma entrada
em seu diário mágico em 17 de julho de 1916, ele se
refere ao I° O.T.O. como o Mistério do Nascimento.
Esteja atento aqui: isso não significa que o Candidato
experimenta a Vida, quer dizer, a manifestação abai-
187
xo do Abismo. Essa é uma experiência do II° Grau.
Portanto, os Candidatos no I° O.T.O. aprendem sobre
os Mistérios do Nascimento como uma criança não-
nascida, desfrutando da nutrição no Úreto da Mãe-
Binah. O I° Grau é, portanto, nas palavras de Aleister
Crowley, Iniciação. No curso do Ritual de Iniciação, o
Saladino chama a atenção para a Adaga em cima do
Altar: Deixe-me chamar sua atenção para esta Adaga,
que tomou tão grande parte nesta cerimônia. Se es-
force ao máximo para descobrir seu significado; seu
trabalho será bem recompensado. [... ] Note este Disco.
Você tem pouca familiaridade com ele, mas tem esta-
do ali sobre o Altar, assim como o Sol, nosso Pai, está
no Céu, mesmo quando não O percebemos. Agora, a
Adaga tem a forma de uma cruz. E o Disco, a de um
círculo; cruzes e círculos são, portanto, verdadeiros
sinais de Nossa Ordem. A Adaga corresponde ao Ele-
mento Ar e o Disco ao Elemento Terra. Terra repre-
senta o quadrante Norte, onde a jornada do Minerval
se inicia. Ar representa o quadrante Leste, onde
ocorre a Iniciação no I° O.T.O. O II° Grau, Vida, ocorre
no quadrante Sul e a Morte, III° Grau, no quadrante
Oeste, onde o Sol se põe.
O primeiro metal mencionado pelos alquimistas
do passado como Thomas Vaughan (1621-1666) e
nos tratados de Alquimia é o cobre, associado ao
planeta Vênus. Este é o planeta de Netzach na Árvore
da Vida, onde ocorre o Ritual de IV° Grau da O.T.O.
188
Em suas palestras sobre a Grande Obra, Paul Foster
Case nota que Vênus é o lugar onde o Estudante de-
veria procurar pela prima materia. Os Candidatos a
Iniciação na O.T.O. recebem um Disco de cobre du-
rante o Ritual de I° Grau, o que indica que eles estão
preparados para buscar a prima materia. Sobre o
poder de Vênus Crowley escreveu: é a harmonia
coerente e cooperativa que está com você desde a
eternidade, seu gêmeo e companheiro.1 O Disco é um
lembrete de que quando o Portal (Daleth-Vênus) se
abrir a criança (deus) emergirá no ponto onde não
existe deus senão o homem. Até lá, muita atenção
deve ser dada ao processo que está se construindo e
se desenvolvendo. Caso contrário, se o Candidato
beber demais das Águas do Rio Lete, ele se esquece-
rá de tudo o que aprendeu e caso isso ocorra, o IX°
Grau da O.T.O. torna-se uma impossibilidade.
No pātañjala-yoga, o sādhanā associado ao Cami-
nho de Beth, O Mago, é niyama. Como um magista,
implica na observação atenta e precisa das regras e
Leis Universais ensinadas a Alma enquanto em
Chokmah, onde foi preparada para agir em acordo
com essas Leis abaixo do Abismo. Essa observação
atenta deve ser empreendida no campo religioso,
filosófico, científico e político-social. Os pensadores
têm reformulado inúmeros códigos de conduta, vir-

1 Aleister Crowley, THE MAGICK REVIVAL.


189
tudes a serem observadas e rigorosamente colocadas
em prática. O que o magista deve aprender neste
Caminho de Beth é que essas Leis Universais têm de
ser colocadas em ação, mas de acordo com a Verda-
deira Vontade. Somente nesse caminho completa-se
a Grande Obra. Como no estudo de yama (O Louco
como Minerval), existem cinco códigos de regras
para consigo mesmo (niyama) no pātañjala-yoga,
mas diferentes das cinco práticas que compreendem
yama, as cinco disciplinas de niyama são mais pesso-
ais, íntimas e faz-se necessário uma reavaliação des-
sas disciplinas no Novo Aeon, estabelecendo o corpo
físico como um Templo de adoração ao Sagrado.
Tradicionalmente, as yamas são códigos de com-
portamento mental que todos nós precisamos culti-
var. Elas incluem satya, identificação com a verdade;
ahiṃsā, ausência de violência na mente; asteya, não
tentar possuir coisas que não pertencem a você;
aparigrāha, não-possessividade; e brahmacarya,
manter uma estrutura elevada e positiva da mente.
Estes cinco códigos de conduta mental retificam o
comportamento. A tendência natural da mente é
tamásica, portanto, sua resposta a qualquer situação
está agrilhoada por tamas e se assim não for, por
rajas. Como existe uma flutuação contínua entre
tamas e rajas na vida, é preciso cultivar a firmeza da
mente para contrabalancear os fatores negativos
através dos códigos de conduta ou yamas. As niya-
190
mas são disciplinas a serem seguidas no dia a dia a
fim de se manter a pureza física, mental, espiritual e
o cultivo da consciência. Patañjali apontou cinco:

1. saṁtoṣa contentamento
2. śauca Pureza
3. svādhyāya auto-estudo, estudo das
doutrinas espirituais
4. tapas autodisciplina, ascese, energia
concentrada
5. īśvarapraṇidhāna entrega ao Senhor (Deus |
Deusa)

De acordo com a lenda de SIR GAWAIN & O CAVALEIRO


VERDE, a estrela de cinco pontas no escudo de Gawa-
in foi escolhida pelo Rei Salomão como seu selo má-
gico pessoal, que representava a Verdade. A forma
da estrela é chamada de nó sem fim, pois suas linhas
passam umas dentro das outras até que se encon-
tram para fechar suas pontas. Este pantáculo repre-
senta as Cinco Virtudes da Ordem dos Cavaleiros que
Gawain aspirava ser admitido, da mesma maneira
que ocorre com quem aspira ao Adeptado em Tiphe-
reth.

1. Atitude irrepreensível com seus cinco sentidos;


2. Nunca falhar com seus cinco dedos;

191
3. Confiar nas cinco feridas que Cristo sofreu na
cruz;
4. Fortalecer-se através dos cinco júbilos comparti-
lhados pela Rainha do Céu (Virgem Maria) na re-
velação de Jesus;1
5. Praticar Amor fraternal, Cortesia, Piedade e Cas-
tidade.

Na parte de trás do escudo de Gawain há uma ima-


gem da Virgem Maria que fica na altura de seu peito.
Isso era para ele um símbolo através do qual ele
mantinha seu Coração firme para não falhar com
suas Virtudes. Essas são as cinco ferramentas utili-
zadas pelo Mago. Como no Caminho de Aleph onde O
Louco segue o seu próprio yama, no Caminho de
Beth O Mago não deve se permitir seguir o niyama
(virtudes) de outra pessoa. Yama e niyama são pro-
dutos da imersão interior e na descoberta das Leis
da Estrela que cada um somos.
De acordo com o sādhanā descrito por Blavatsky
em A VOZ DO SILÊNCIO, na seção sobre os Sete Portais,
dāna, a chave da caridade e do amor imortal, é atri-
buída ao caminho de Beth, O Mago. Trata-se de uma
preparação para o IV° Grau da O.T.O. na esfera qaba-
lística de Netzach, onde a prática de bhakti-yoga
deve ser executada e aperfeiçoada na intenção de

1 Anunciação, Nascimento, Ressurreição; Ascensão e Assunção.


192
purificar o amor a Babalon. Sobre essa passagem na
obra de Blavatsky Crowley diz: Caridade e amor são
aqui utilizados no seu sentido técnico, Ágape. Amor e
a Lei, amor sob Vontade. Ambos, Ágape e Thelema
(vontade) somam 93, que os identifica qabalistica-
mente. Este amor não e um sentimento superficial de
bondade sentimental piegas. [...] O amor é uma chama
pura, tão rápida e letal como o relâmpago. Este e o
tipo de amor que o aluno necessita. Isso significa que
O Mago compreende o amor como uma poderosa
ferramenta para União em todos os aspectos e cir-
cunstâncias quando manejado com maestria e sob
estrito direcionamento da Vontade, nunca impelido
pelos desejos do Ego. Em PEQUENOS ENSAIOS EM DIRE-
ÇÃO À VERDADE, Crowley diz:

«Ora, o Magus é Amor, e liga Aquilo e Isto em sua


Conjuração.»
A fórmula de Tetragrammaton é a completa ex-
pressão matemática do Amor. Sua essência é esta:
quaisquer duas coisas se unem, com um duplo efei-
to: primeiro, a destruição de ambas, acompanhada
pelo êxtase do alívio da tensão de separação; se-
gundo, a criação de uma terceira coisa, acompa-
nhada pelo êxtase da realização da existência, que é
Alegria até que, por desenvolvimento, ela se torna
cônscia de sua imperfeição, e ama seu novo oposto.
Esta fórmula de Amor é universal; todas as leis
da natureza a servem. Assim, a gravidade, a afini-
193
dade química, o potencial elétrico, e o resto – e es-
tes são todos meros aspectos da lei geral – são vari-
edades de asseveração da tendência única.
O Universo é mantido pela dupla ação implica-
da na fórmula. O desaparecimento de Pai e Mãe é
precisamente compensado pela emergência de Fi-
lho e Filha. A Fórmula do Tetragrammaton pode,
portanto, ser considerada como uma máquina de
movimento perpétuo que continuamente desen-
volve ruptura em cada uma de suas fases.
O sacrifício de Ifigênia em Aulis pode ser toma-
do como um exemplo típico da fórmula: o efeito
místico é a assunção da virgem no seio da deusa; o
efeito mágico (a destruição da parte terrena dela, o
veadinho) satisfaz a raiva de Aeoulus, e permitem
aos gregos que naveguem.
Agora, não podemos compreender com dema-
siada clareza, nem manifestar essa compreensão
demasiado em nossos atos, que a intensidade da a-
legria liberada varia com o grau de oposição origi-
nal entre os dois elementos de união. Calor, luz, ele-
tricidade são fenômenos expressivos da plenitude
de paixão, e o valor deles será maior quanto maior
for a diferença entre as energias compondo o ca-
samento. Nós obtemos mais da explosão do Hidro-
gênio com o Oxigênio do que da apática combina-
ção de substâncias indiferentes umas às outras. As-
sim, a união de Nitrogênio e Cloro é tão insatisfató-
ria para cada uma das moléculas que o composto
resultante se desintegra com explosiva violência ao
menor choque. Nós podemos asseverar, então, na
194
linguagem de Thelema, que tal ato de amor não é
«amor sob Vontade». É, por assim dizermos, uma
operação de magia negra.
Consideremos, em um exemplo figurado, os
«sentimentos» de uma molécula de hidrogênio na
presença de uma de oxigênio ou de cloro. Deve so-
frer intensamente pela percepção de seu extremo
desvio do tipo perfeito de mônada, contemplando
um elemento tão supremamente oposto à sua pró-
pria natureza em todo ponto. Tanto quanto ela é
egoísta, sua reação deve ser escárnio e ódio; mas à
medida que compreende a verdadeira vergonha
que sua separabilidade representa para ela em con-
traste com a presença de seu oposto, esses senti-
mentos mudam para uma ânsia angustiada. Ela
começa a cobiçar a faísca elétrica que lhe permitirá
aliviar suas dores pela aniquilação, na ruptura de
união, de todas essas propriedades que constituem
sua existência separada; e ao mesmo tempo lhe
permitirá satisfazer sua paixão por criar um tipo
perfeito de Paz.
Nós vemos essa mesma psicologia em toda par-
te no mundo físico. Um exemplo mais evidente e
mais elaborado certamente poderia ter sido tirado
(fosse o propósito deste ensaio menos genérico) da
estrutura atômica mesma, e do esforço de átomos
por solucionar a agonia de sua agitação no nirvāna
beatífico dos gases «nobres».
O processo de Amor sob Vontade é, evidente-
mente, progressivo. O Pai que se mata no útero da
Mãe se percebe novamente, com ela, mas transfigu-
195
rado no Filho. Este Filho age como um novo Pai; e é
assim que nosso Ente é constantemente aumenta-
do, e se torna capaz de contrabalançar um Não-
Ente cada vez maior, até aquele final ato de Amor
sob Vontade que abarca o Universo em samma-
samādhi.
A paixão de Ódio é, assim, na realidade dirigida
contra nós mesmos; ela é a expressão da dor e ver-
gonha de separação; parece ser dirigida contra o
nosso oposto apenas por transferência psicológica.
A Escola de Freud tornou esta tese suficientemente
clara.
Há pouca coisa, portanto, em comum entre o
Amor e Paixões mornas tais como «consideração»,
«fidelidade», ou carinho; é o profano quem, para
sua danação num inferno de comida mal feita e pa-
nos de prato após o jantar, confunde tais com A-
mor.
O Amor pode ser mais bem definido como a
paixão de Ódio inflamada ao ponto de loucura,
quando por fim toma refúgio em Auto-Destruição.
O Amor vê mui claro, com o ardor de raiva mor-
tífera, anatomizando sua vítima com aguda energia,
buscando onde melhor golpear fundo e fatalmente
o coração; o Amor se torna cego apenas quando sua
fúria o dominou completamente, e o atirou na boca
rubra da fornalha de autoimolação.
Nós devemos, além do mais, distinguir o Amor,
nesse senso mágico, da fórmula sexual; se bem que
esta seja seu símbolo e seu tipo. Pois a pura essên-
cia da magia é uma função de ultimal consciência
196
atômica, e suas operações devem ser depuradas de
toda confusão e contaminação. As operações ver-
dadeiramente mágicas de Amor são, portanto, os
transes, mais especialmente os de Compreensão;
como terá sido prontamente percebido por esses
que fizeram um cuidadoso estudo qabalístico da
natureza de Binah. Pois ela é oniforme como o Ar-
mo e como a morte: o Grande Mar de onde toda a
Vida surge, e cujo útero negro tudo reabsorve. Ela
resume, assim, em si mesma o duplo processo da
Fórmula de Amor sob Vontade; pois não é Pã o Cri-
ador-de-Tudo nas clareiras das florestas ao meio-
dia, e não é o «cabelo, as árvores da Eternidade»
d’Ela os filamentos de Divindade-que-Tudo-Devora
«sob a noite de Pã»?
No entanto, seja lembrado que se bem que Ela é
amor, a fundação d’Ela é apenas passiva; Ela é o ve-
ículo da palavra, Chokmah, a sabedoria, o Todo-Pai,
que é a Vontade do Todo-Um. E portanto erram
gravemente e temerariamente aqueles que tagare-
lam do Amor como a Fórmula da Magia; o Amor é
desequilibrado, vazio, vago, não-dirigido, estéril,
mais: um vero Cascão, o joguete de abjetos resíduos
demoníacos; o Amor tem que ser «Sob Vontade».

No Atu I, O Mago, as cores de fundo refletem Kether


(branco), Chokmah (cinza) e Binah (preto). Essa
trindade de cores que se mesclam em equilíbrio
decrescente demonstra que toda operação do Atu I
ocorre acima do Abismo.
197
O Mago está coberto sobre os ombros, protegido
com uma manta púrpura. Na mesma cor, atrás de
sua cabeça, é possível ver a coroa mercurial do sím-
bolo de Mercúrio. Sobre a cor púrpura Crowley diz:
A Base da Vida Divina [...] Luz, cujos fracos reflexos
estão além do Violeta.1 O orvalho branco começa a
tomar forma. O púrpura também é uma cor associa-
da a Lua, uma conexão das Viagens com a Lua que o
Candidato no Ritual do I° Grau tem de passar. De
acordo com o LIBER 777 (Col. XVI No. 12), púrpura é
um dos segredos revelados pelo Pendurado (Atu XII).
Em O LIVRO DE THOTH Crowley diz: Mercúrio é pree-
minentemente o portador do Bastão: energia emitida.
Esta carta representa, portanto, a Sabedoria, a Von-
tade, a Palavra, o Logos pelos quais os mundos foram
criados. Todas essas referências tratam da esfera de
Chokmah, onde o Minerval recebe a Palavra Sagrada
ON. Em conexão com a fórmula Abrahadabra, sendo
os dois Abras o Pai (Sol) e o Filho (Mercúrio), Cro-
wley diz: Ele é o Filho, a manifestação em ato da ideia
do Pai.2 Este é o segredo por trás do Falo em Chok-
mah e da fórmula mágica por trás do Ritual de Mi-
nerval e de I° Grau da O.T.O.
Na Astrologia nós aprendemos que Mercúrio rege
o intelecto e nos ensina a utilizar a Luz Solar arma-

1 Aleister Crowley, LIBER 777.


2 Aleister Crowley, O LIVRO DE THOTH.
198
zenada ou impregnada na Lua, uma vez que ela não
possui luz própria. Mercúrio nos mostra como per-
cebemos nossa realidade e como nos relacionamos
com tudo, desde objetos inanimados1 as pessoas ao
nosso redor. Dessa maneira, Mercúrio rege a comu-
nicação, a linguagem e os símbolos. Mercúrio como
Prometeu e até mesmo o daimon grego, é o enviado e
interprete entre o céu e a terra, ascendendo com as
preces e pedidos das Almas humanas e descendo
com as respostas, graças e mandamentos e uma vez
que ele está entre céu e terra, serve como uma ponte
de conexão entre mundos. O Mago está com o tronco
e os braços descobertos, o que implica sua habilida-
de em confortavelmente se alinhar ao Sagrado Eu
Sou em Kether, transmitindo sua harmonia prístina,
clareza e pureza, a própria essência de sua origem
espiritual e por conta disso ele sabe como aterrar
(em seu corpo) o orvalho branco de Kether.
Thoth é o deus egípcio equivalente a Mercúrio.
Ele tem o corpo humano e a cabeça de uma íbis.
Mitologicamente Thoth é o deus da sabedoria e no
panteão egípcio ele era o Coração, o assento da inte-
ligência e da mente. Mas ele também era a língua de

1Via de regra, na visão de Mercúrio não existem objetos inanima-


dos. Uma vez que a luz mercurial é àquela de muda a natureza dos
quatro elementos, tudo o que existe tem vida, é animado e res-
ponsivo.
199
Rá, o que significa que Thoth é o meio pelo qual o Sol
revela a si mesmo através da Fala. Assim, Thoth é o
patrono da Palavra, o revelador dos hieróglifos e da
própria escrita. A ele são atribuídos os Atus do Ta-
rot, revelados em um misterioso livro conhecido
como O LIVRO DE THOTH. Thoth é o mensurador ou
mediador da dualidade, responsável para que haja
nela o equilíbrio representado pela pluma de Maat.
No Atu I, O Mago se encontra com a mão direita esti-
cada para o alto e a mão esquerda em jñāna-mudrā
sobre o joelho, emulando Baphomet, que conecta o
que está abaixo com o que está acima.
Na O.T.O., o símbolo do Grande Arquiteto que
formula a medida entre o céu e a terra, o macro e o
microcosmo, é Baphomet. Crowley escreveu um
poema sobre Baphomet chamado A MÃE DO SABBATH.
Este poema pode ser encontrado em seu TRABALHOS
COLETADOS e em uma nota a este poema ele escreveu:
Supostamente, a abreviação de trás para frente do
nome secreto da Ordem Templária: tem. o. h. p. ab.;
quer dizer, templi omnium hominum pacis pater (he-
braico Ab = pai). Alguns argumental que a palavra
sintetiza o corpo de toda doutrina, facilmente desco-
berta por qualquer um que conheça os segredos qaba-
lísticos das letras. A frase latina correta é: Templi
Omnium Hominum Pacis Abbas, quer dizer, O Pai do
Templo da Paz Universal Entre os Homens. A cifra,
portanto, é: TAM-O-H-P-AB. Seja como for, Crowley
200
se refere a Baphomet como o Andrógino cujo hieró-
glifo representa a perfeição arcana. Alguns pesquisa-
dores têm sugerido que a palavra Baphomet tenha
sido derivada da palavra grega metis que significa
sabedoria. Na mitologia grega Metis foi um Titã que,
como sua mãe Atena, era a personificação da sabe-
doria. Para estes estudiosos modernos a palavra
bapho é uma derivação da palavra grega baptismo,
que significa batismo. Baphomet seria, portanto, o
batismo de Metis. Essa é uma conexão com o Ritual
de Minerval, onde o Candidato busca a Sabedoria,
quando é preparado para o batismo na Fonte Sagra-
da da O.T.O.
O Louco representa o substantivo nas oito
parte da fala e O Mago representa o adjetivo.
O adjetivo qualifica o substantivo, provendo-o
com mais informação sobre sua própria natu-
reza ou como Crowley coloca, Forma é o adje-
tivo. Em O LIVRO DAS MENTIRAS, estas parábolas
tratam do Arcano Mágico que envolve o Leão
e a Serpente. A palavra qadosh (kadosh) é um
dos adjetivos mais importantes de todo sis-
tema de magia da O.T.O. A palavra significa
sagrado ou santo. Considere: Então no poder
do Leão eu formulei a mim mesmo aquele fogo
santo e informe #dq, que se lançou e flamejou

201
pelas profundezas do Universo.1 Essa palavra,
qadosh, está diretamente conectada ao VI°
O.T.O., pois este é o Grau dos Ilustres Templá-
rios da Ordem de Qadosh e das Damas Compa-
nheiras da Ordem do Santo Graal. No entanto,
esta palavra também tem conexões com os
Mistérios do XI° O.T.O. Em MAGIA EM TEORIA &
PRÁTICA, Crowley diz que:

O iniciado do XI° O.T.O. observará aqui que existe


uma fórmula totalmente diversa de ALIM, comple-
mentar aquela que foi discutida aqui. 81 pode ser
considerado o número de Yesod antes que da Lua.
O significado etimológico da palavra pode ser to-
mado como indicativo da Fórmula. Aleph pode ser
referido a Harpoórcrates, com alusão ao conhecido
poema de Catullus. Lamed pode implicar a exalta-
ção de Saturno e sugerir o Três de Espadas de uma
maneira particular. Yod então lembrará Hermes, e
Mem o Pendurado. Temos assim um Tetragramma-
ton que não contém nenhum componente feminino.
A força inicial é aqui o Santo Espírito, e seu veículo
ou arma é a «Espada e a Balança». Justiça é então
executada sobre a «Virgem» mercurial, com o re-
sultado que o homem é «Pendurado» ou estendido,
e é morto desta forma. Tal operação torna a criação
impossível, como no caso anterior; mas não há aqui
questão de rearranjo; a força criadora é delibera-

1 LIBER DCCCXIII VEL ARARITA SUB FIGURA DLXX, VII, 0.


202
damente empregada para destruir, e é inteiramente
reabsorvida em sua própria esfera (ou cilindro nas
equações de Einstein) de ação. Esta obra deve ser
considerada como «Santidade para o Senhor». Os
hebreus, efetivamente, conferiam o título de Qado-
sh (Santo) sobre seus adeptos. Seu efeito é consa-
grar os Magistas que a executam, de uma forma
muito especial. Podemos notar também as corres-
pondências do Nove com Teth, XI, Leo, e a Serpente.
Os grandes méritos desta Fórmula é que evita o
contato com os planos inferiores, é autosuficiente,
não implica em responsabilidades e deixa seus pra-
ticantes não apenas mais fortes em si mesmos, mas
completamente livres para satisfazer suas nature-
zas essenciais. Seu abuso é uma abominação!

Os Adeptos que compreendem qadosh como uma


qualidade intrínseca de AL (Deus) ou O Louco (Atu
0) Sagrado agindo através da Espada de O Mago (Atu
I) enquanto ele opera como O Eremita (Atu IX) na
postura de O Pendurado (Atu XII), poderão compre-
ender a conexão com o VI° O.T.O. e como isso des-
creve, da mesma maneira que um adjetivo, os Misté-
rios do  (O Eremita) e de  (O Pendu-
rado) para o XI° O.T.O.
No Atu I, O Mago, logo acima de sua cabeça e co-
roa mercurial púrpura, há uma nuvem acinzentada
que demonstra Śakti-Babalon em coito com a Besta:
babalon per mentis imagenem mano sinistra. Este é
203
um encantamento descrito por Crowley em seu diá-
rio mágico que significa: Babalon imaginada através
da Mente e com a mão esquerda. Essa imagem for-
mada acima da coroa mercurial de O Mago trata-se
da faculdade de projetar o Corpo de Luz no plano
astral e lá se unir com a Grande Deusa. Essa faculda-
de é de suma importância na construção do Santuá-
rio de Babalon em Netzach.
Acima do Abismo não existe real distinção entre
Babalon-Binah e a Besta-Chokmah. É a mente abaixo
do Abismo que os percebe separados, distintos. Mas
em realidade eles são apenas Um. Babalon e a Besta
unidos estão sendo imaginados pela Mente (ājñā-
cakra) representada pelo Hadit Alado em sua testa. É
possível ver um cordão cinza conectando a imagem
da Besta em cópula eterna com Babalon diretamente
no ājñā-cakra de O Mago. Cinza é a cor de Chokmah e
o ājñā-cakra tem sido descrito como o Santuário
Secreto do Sagrado. Isso indica que o que existe na
Mente de O Mago é a Śakti Universal em coito
(samādhi) eterno com a Grande Besta e essa conjun-
ção equilibrada entre o a Sagrada Unidade de todas
as coisas e a Sagrada Multiplicidade de todas as coi-
sas se manifesta através dos fluídos (kālas) da Deusa
diretamente para a Mente de O Mago.
Eu sou a secreta Serpente enrolada pronta para
saltar: em meu enrolar está o prazer. Se Eu ascendo
completamente minha cabeça, Eu e minha Nuit somos
204
um.1 A pergunta que aqui se levanta é essa: qual a
imagem de Babalon que reside acima do Abismo em
Binah? Perceba aqui este arcano de magia prática da
O.T.O.: a imagem projetada estando abaixo do Abis-
mo imediatamente irá convocar o seu oposto. Por-
tanto, no ato de projeção da Palavra Mágica, qual-
quer semente-vontade imediatamente invocará o
seu oposto. Estes são os dois aspectos da Kundry
produzido pelo magista. Enquanto o homem con-
templar os bacanais dos sátiros adorando as virgens,
muito dificilmente conseguirão encontrar a bem-
aventurança da Alma. As beatas curandeiras e ben-
zedeiras do interior compartilham de uma malícia
mágica inata. Elas acreditam que quando alguém
elogia uma criança pequena por sua beleza, imedia-
tamente deve-se lançar um encantamento de prote-
ção sobre a criança. Este encantamento ressalta as
características feias da criança, mesmo que aparen-
temente ela não tenha nenhuma. Essas curandeiras e
benzedeiras acreditam que o mal só ataca àquilo que
representa o seu oposto e uma vez que ele invoca o
negativo, feio e o deformado, não irá atacar uma
criança que seja de sua semelhança. Elas acreditam
que elogios contêm uma intenção mágica oculta que
deve ser «cortada». Muitas utilizam até tesouras

1 LIBER AL, II:26.


205
como arma mágica para «cortar» este tipo de ataque
ou outros.
Essa lição de magia prática da O.T.O. ensina que o
magista deve conhecer completamente o objetivo
pelo qual encarnou na atual estrutura física, quer
dizer, ele deve saber qual é a sua Verdadeira Vonta-
de e somente então projetar ou proferir a sua Palavra
Mágica, completamente amparada pelos códigos de
luz da Verdadeira Vontade, caso contrário, ele pode-
rá projetar sementes que criarão fantasmas ou abor-
tos espirituais. Por isso o caminho até o IX° O.T.O. é
deveras difícil, penoso e longo. Se no momento do
orgasmo, no ato de projeção da Palavra Mágica o
magista deixar pensamentos intrusos invadirem sua
mente – o que implica que ele não derramou até a
última gota de sangue na Taça de Babalon - então a
falha é eminente. Crowley se refere a essa falha ma-
gistica como desapego imperfeito. O Santo Graal deve
receber a Totalidade da Obra, não um aspecto dela: a
Grande Obra ocorre por meio e através do Silêncio. É
no Silêncio que a Besta vibra a Palavra Mágica. No
Atu XVI, A Torre, o raio não vem do céu, mas parte do
alto de A Torre. O construto pensante na forma de
pensamentos representa a faculdade da Fala, mesmo
que inaudível e pensar em qualquer coisa que não
seja [_______] no momento preciso de transição prova
que o magista não estabeleceu verdadeiramente a
conexão com os planos acima do Abismo onde reina
206
a Verdadeira Vontade representada pela União das
Supernas.
E qual é, portanto, o paradoxo disso? Bem, se vo-
cê consegue completar o espaço que deixei em bran-
co no parágrafo acima, isso significa que você é um
IX° Grau da O.T.O. Na tradição original da O.T.O.
transmitida por Crowley, somente quem conhecia o
segredo do IX° por si mesmo poderia reivindicá-lo e
utilizá-lo com a regência adequada. Quer dizer, o IX°
O.T.O. não é conferido a ninguém. Ele deve ser con-
quistado ou encontrado. Quando algum aluno de-
monstrava ter o conhecimento, Crowley lhe entrega-
va uma instrução chamada EMBLEMAS E A MANEIRA DE
SE USAR. Isso tem um motivo: as Bodas ou o Casa-
mento Místico deve ser conquistado pelos esforços
do magista antes dele receber o IX° (Chokmah) Grau
da O.T.O., onde a Palavras é a própria Vontade. No
sistema de magia proposto por Abramelin, o magista
deve estabelecer contato com seu daimon pessoal
antes de conjurar as forças demoníacas sinistras. Na
tradição medieval dos grimórios, os magistas pri-
meiro operavam com a CHAVE MAIOR DE SALOMÃO e
somente depois de grande proficiência nela eles
utilizavam a CHAVE MENOR DE SALOMÃO, quer dizer, o
sistema da goécia. Esse é o mistério que tenho enfa-
ticamente discorrido: a Qadratura no Círculo. Pri-
meiro é preciso se inundar com os códigos de luz do
Círculo (°) Sagrado para somente então controlar a
207
quadratura pessoal (). Gerald Yorke (1901-1983)
em seu ensaio chamado HEDONISMO TÂNTRICO, diz:
Essas técnicas são perigosas para o homem comum
que não aprendeu a desassociar a mente de seus sen-
tidos. Nessa frase Gerald Yorke convoca todo o peso
da cultura tântrica que postula que as técnicas sexu-
ais de magia e misticismo são o final do caminho,
não o início. É somente ao Herói (vīra), àquele que
conquistou os seus sentidos, que a prática mágica
sexual é adequada. Nada é uma secreta chave desta
lei.1
Vamos considerar o termo Abismo na cultura the-
lêmica. O Abismo representa um deserto que fica
entre o mundo da manifestação (Hadit) e sua fonte
(Nuit), mas também é uma referência na magia da
O.T.O. a abertura vaginal da mulher. Na verdade, o
termo é um sinônimo direto para vagina em muitos
escritos de Crowley e também para . Em
ambos os casos, penetrar este Vazio com o  é
uma referência ao Cruzamento do Abismo: IX° - XI°.
No momento do orgasmo – a obliteração total da
consciência – o pensamento correto para a «Nave do
Deserto» deveria ser [_______]. Este é um mantra que
deve ser vibrado até que o magista esteja inflamado
em êxtase que nenhum pensamento intruso seria
capaz de interferir. Tamanha e hábil façanha não

1 LIBER AL, I:46.


208
pode ser executada por um não-iniciado. Apenas
magistas proficientes no manejo da baqueta mágica
– o poder mercurial de O Mago – podem derramar
até a última gota de sangue na Taça de Babalon, caso
contrário, o Senhor do Caos destruirá toda operação
de magia.

Enquanto que no Atu 0, O Louco, a criança está va-


gando descomprometida e livre, o Atu I, O Mago se
aquieta. Na maioria das cartas do Tarot, O Mago
demonstra unidirecionamento das energias da men-
te no manejo das quatro armas elementais. Esse
manejo ele demonstra através de suas mãos que
projetam a Luz Mercurial através da qual a magia

209
opera. No Atu I aqui demonstrado, O Mago está sen-
tado na postura meditativa de padmāsana. Essa pos-
tura é considerada uma das melhores na prática
meditativa, pois ela comprime o prāṇa na parte su-
perior do tronco. Com ajuda de sua mente, o ājñā-
cakra, O Mago direciona o prāṇa armazenado na
parte superior do corpo para dentro da suṣumnā-
nāḍī. O prāṇa é impelido a se manifestar através de
sua mão direita na forma da Luz Mercurial (Yod-
Sêmen), demonstrada com as armas elementais ao
redor de sua mão. Isso demonstra o prāṇa ou ener-
gia mágica concentrada na forma de ojas em movi-
mento em acordo com a direção dada pela mente de
O Mago. Na representação do Atu I em alguns Tarots,
O Mago segura a Baqueta Mágica na mão esquerda,
como é o caso do Tarot de Marselha. Sallie Nichols
em sua obra JUNG & O TARÔ, onde ela discorre sobre o
Tarot de Marselha, diz: Isso indica que seu poder não
é um resultado do intelecto treinado, mas um presente
natural inconsciente. Na imagem do Atu I, O Mago,
aqui demonstrada, sua mão esquerda está sobre o
joelho em jñāna-mudrā. No kuṇḍalinī-yoga, essa
mudrā sobre o joelho aciona uma nāḍī oculta que
coloca em movimento o prāṇa ou poder serpentino
contido na parte inferior do corpo, quer dizer, no
mūlādhāra-calkra. Pelo braço esquerdo sobe a ser-
pente kuṇḍalinī-śakti, uma referência direta ao en-
cantamento que Crowley escreveu em seu diário
210
mágico: Babalon imaginada através da Mente e com a
mão esquerda. O braço esquerdo de O Mago, portan-
to, é por onde ele canaliza e adestra o poder fálico
serpentino como um trabalho particular de sua qua-
dratura pessoal. Esse é o âmago da magia fálica da
O.T.O. A qualidade ou a natureza intrínseca de Mer-
cúrio não pode ser agarrada pelas mãos, como falei
no início deste capítulo. Caso qualquer um tente
fazê-lo, o Mercúrio sairá por entre os dedos. Mercú-
rio é uma substância líquida sem forma e este é o
segredo por trás dessa magia ensinada na O.T.O. O
Mago sentado com a mente quieta em padmāsana é
a própria incorporação do glifo mágico de Mercúrio
e isso pode ser inferido pela coroa mercurial acima
da cabeça de O Mago. Isso significa que ele não tenta
manipular o Mercúrio através da mente, como se
qualquer treinamento mental tentaria fazer. A mente
só dá direção a Luz Mercurial quando O Mago é a
própria incorporação de Mercúrio, quando existe
samādhi constante com a Luz Mercurial. O braço
esquerdo ainda representa o Pilar Esquerdo de E-
nergia descendente na Árvore da Vida, onde se situa
Hod, a esfera qabalística associada a Mercúrio e ao
Poder Fálico cujo Caminho de Beth é uma represen-
tação acima do Abismo.
A serpente se ergue como um falo ereto. Sua ca-
beça tem a forma de um falo e ela projeta para o alto
seu veneno. Mas ele não cai sobre a terra; cada gota
211
alimenta a Pirâmide de Poder do Faz o que tu queres
em Amor a Babalon. Essa é a Pirâmide da Vontade e
se qualquer gota for desperdiçada sobre a Terra em
direção aos desejos e apetites do Ego, então ela pro-
duzirá milhares de fantasmas, as crias de Choronzon.
Quando estas obsessões são criadas, elas criam uma
espessa sombra de sofrimento sobre a realidade.
Sobre a natureza do Abismo, Crowley diz:

«O Abismo. Choronzon, sua Natureza».1 O nome do


Habitante do Abismo é Choronzon, mas ele não um
ser realmente. No Abismo não existe um ser defini-
do, ele contém todas as formas possíveis, todas i-
gualmente vazias, cada mal no verdadeiro sentido
da palavra – ininteligível, porém maléfico desejan-
do intensamente ser real. Essas formas serpentei-
am aleatoriamente num monte de poeira e cada um
tentando se agregar afirmando ser um individuo
gritando «Eu sou Eu» apesar de ciente todo o tempo
de que suas partes não estão verdadeiramente uni-
das; o menor distúrbio dissipa a ilusão como um
cavaleiro chutando um monte de areia espalhando-
o pelo chão.2 Choronzon é descrito por Sir Edward
Kelly como esse poderoso demônio, o primeiro e
mais mortal das forças do mal. Ele não é uma pes-

1 Aleister Crowley, A VISÃO & A VOZ (resumo dos éteres).


2 Aleister Crowley, AS CONFISSÕES DE ALEISTER CROWLEY.
212
soa, é metafisicamente contrário a todo o Processo
de Magia.1

As palavras de Crowley devem ser levadas em con-


sideração. Para conquistar a Cidade das Pirãmides é
necessário passar por este reino. A Pirâmide de Po-
der que recebe o veneno da serpente demonstrada
no Atu I, O Mago, da mesma maneira que a Fonte
Sagrada da O.T.O., representa o Útero da Deusa, o
Santo Graal ou Taça de Babalon. Na Qabala Grega,
tanto a Pirâmide () quanto o Falo ()
somam 831. Acima do Abismo eles representam uma
Unidade, o que implica que Chokmah e Binah não
são aspectos distintos de Kether-Eu-Sou. A natureza
do Santo Graal não se pode revelar. No entanto, todo
ano desce dos céus uma pomba branca que provê
nova força devido a seus poderes miraculosos. Este
vaso é o Santo Graal. Àqueles que o adoram e se des-
pojam de tudo por ele são dotados de poderes super-
humanos.2
A instrução para o VIII° O.T.O., DE NUPTIIS SECRE-
TIS, DEORUM CUM HOMINIBUS ensina o Casamento Mís-
tico entre os deuses e os homens, um Arcano oculto
de magia cujo símbolo é a metáfora da Pomba no
Lamen da O.T.O. O que esta instrução ensina é a

1 Aleister Crowley, A VISÃO & A VOZ.


2 Maurice Kufferath, THE PARSIFAL OF RICHARD WAGNER.
213
conjuração de um elemental através das chaves eno-
chianas e uma vez que o magista tenha sucesso, dei-
xe que a Seiva da Vara seja preservada dentro das
pirâmides das letras que compõem o nome do Espíri-
to. A seiva da vara é demonstrada no Atu I, O Mago,
como o veneno precipitado para fora da boca da
serpente, uma referência ao sêmen como Palavra
Mágica ou Encantamento projetado pelo Falo. A lição
que o Atu I ensina ao magista é considerar seu Falo
como um instrumento do ou o próprio Deus. En-
quanto O mago se encontra inflamado em prece e
conjurações, a Pomba desce e lhe confere a Palavra
de Deus e não existe deus senão o homem. A esfera
qabalística de onde a Palavra é projetada é Chok-
mah. Na A∴A∴ essa é a esfera do Magus 9°=2 cuja
tarefa é proferir sua Palavra Mágica, a chave mestra
de poder para sua encarnação. Crowley acreditava
que a cada nova era um Magus anuncia uma Palavra
Mágica para todos guiar. No entanto, de acordo com
O LIVRO DA LEI, cada Amante de Nuit deve proferir a
sua Palavra, àquela que dará sentido a sua encarna-
ção no Planeta. A magia ensinada na O.T.O., portanto,
capacita o homem a projetar sua Palavra Mágica de
emancipação espiritual.
A Pirâmide é uma representação do macrocosmo,
o Círculo (°) nas graduações espirituais da A∴A∴,
cuja metáfora é demonstrada no símbolo do Hexa-
grama Sagrado. O Triângulo da Arte na frente d’O
214
Mago é o mesmo em que Salomão aprisionou os
espíritos e ele representa o microcosmo, uma refe-
rência a Quadratura Pessoal () cuja metáfora é de-
monstrada na operação elemental do Pentagrama. A
Quadratura Pessoal representada nos Graus da A∴A∴
é uma referência às forças secretas da Natureza de
cada esfera qabalística em que o magista se encontra
e que, dessa maneira, irão se manifestar na sua cons-
tituição física (Malkuth). A não compreensão deste
Arcano de iniciação e outro mencionado em O LIVRO
DA LEI podem levar o Candidato sério à ruína:

Eu sou a secreta Serpente enrolada pronta para sal-


tar: em meu enrolar está o prazer. Se Eu ascendo
completamente minha cabeça, Eu e minha Nuit so-
mos um. Se Eu inclino para baixo minha cabeça, e
verto veneno, em seguida é arrebatado da terra, e
Eu e a terra somos um.1

Agora, considere MATEUS (22:21): Dai pois a César o


que é de César, e a Deus o que é de Deus. O Círculo (°)
e a Quadratura () são Nuit e Hadit. A União destes
dois símbolos nós chamamos de Quadratura no Cír-
culo demonstrada na equação 6+5=11; onze é o nú-
mero sagrado da magia ou energia tendendo a mu-
dança que não é somente um símbolo da Grande

1 LIBER AL, II:26.


215
Obra, mas da tarefa espiritual dos Mestres do Tem-
plo. Alquimicamente, a Quadratura no Círculo é vela-
da sob o Solve et Coagula, a dissolução no Infinito e
além acima do Abismo até que nada permaneça.
Assim, seja lá qual a graduação espiritual na A∴A∴,
Homem da Terra, Amante ou Eremita, o magista
sempre terá de conquistar maestria sobre sua Qua-
dratura Pessoal, devotando-se ardorosamente ao
Círculo. Esse é o segredo ensinado no sistema de
magia proposto por Abramelin, que ensina que na
hora do nascimento todos ganham um anjo e um
demônio guardião, os quais irão conferir as ferra-
mentas para se descobrir e colocar em prática a
Verdadeira Vontade. O anjo e demônio guardião são
os mesmos na função do daimon pessoal que deve
ser reeducado e reensinado a auxiliar o homem em
sua jornada pelas encarnações.1
Em seu livro JUNG & O TARÔ, Sallie Nichols enfatiza
que o verdadeiro mago opera milagres através do
poder unidirecionado das energias de sua mente,
mas a magia da consciência humana tem uma dupla
natureza como os dois gumes de uma espada. Nós
podemos usá-la para moldar um novo mundo ou abrir
a Caixa de Pandora e liberar os demônios ocultos para
destruir nosso mundo e toda a vida no Planeta. O

1 Para um aprofundamento nesse tema veja CORRENTE 93: A COR-


RENTE SOLAR DO NOVO AEON.
216
Mago, portanto, assim como o daimon, tem o poder
para fazer paz ou trazer a guerra. O Grau de Magus
na A∴A∴, portanto, provê uma visão completa e a-
brangente da Verdadeira Vontade e dos desejos do
Ego. Neste Grau o Arcano da Quadratura no Círculo é
se entregar completamente a experiência de Chok-
mah, se deixando guiar pela Verdadeira Vontade
enquanto controla as forças de seu dragão- a libido –
em Yesod. No Atu I, O Mago, isso é demonstrado nos
símbolos da Pirâmide e do Triângulo. O Caminho de
Beth é atribuído ao número 2. Dois é um número que
representa a própria dualidade. Em LIBER 231 Cro-
wley escreveu perto ou se aproximando do número 2,
quer dizer, o número 1: Os relâmpagos aumentaram
e o Senhor Tahuti se manifestou. A Voz veio do Silên-
cio. Então Aquele correu e voltou. E em uma nota a
essa passagem ele diz: Ativo & Passivo – corrente
dual etc. – As Forças Alternadas na Humanidade. Nos
três cantos do Triângulo da Arte lê-se: MI-CHA-EL
(Michael), o arcanjo de Hod (Mercúrio), àquele que
tem o poder, a força e a autoridade de controlar a
Quadratura Pessoal, as forças ocultas da Natureza.
É possível ver uma montanha atrás d’O Mago. Em
DE NATURA DEORUM, Crowley ensina que Montanhas
podem ser Macho ou Fêmea. A razão pela qual as
montanhas desenhadas em alguns trunfos do Tarot
são idênticas é porque elas são andrógenas. Essa é
uma palavra derivada das raízes gregas aner (ho-
217
mem ) e gyne (mulher), indicando um gênero ten-
dendo a mudança. Os Atus I (O mago), XVII (Estrela)
e XVIII (A Lua), não exibem o Sol raiando sobre a
Montanha, o que implica que ele está sob a Monta-
nha, abaixo dela, no submundo, caverna ou buraco,
ou seja, uma Montanha feminina. Quando o Sol é
demonstrado sobre a Montanha, trata-se de um sím-
bolo masculino, o Falo que projeta a semente (Pala-
vra).
Cada um dos capítulos de MAGIA EM TEORIA & PRÁ-
TICA estão associados aos Atus de Tahuti. O Capítulo
Os Princípios do Ritual deve ser estudado junto com
o Atu I, O Mago. Esse capítulo começa assim: Existe
uma única definição geral do propósito de qualquer
Ritual Mágico: é a união do Microcosmo com o Ma-
crocosmo. O Supremo e Completo Ritual é, portanto, a
Invocação do Sagrado Anjo Guardião; ou na lingua-
gem do misticismo, União com Deus. Como eu venho
demonstrando enfaticamente, existe grande confu-
são no termo Sagrado Anjo Guardião e sou da opini-
ão de que ele é muito mal utilizado na cultura thelê-
mica. Muitos thelemitas ainda se apegam a ideia de
que o Sagrado Anjo Guardião é o Eu Superior e que
quando eles atingirem a consecução espiritual de
Tiphereth irão completar a tarefa de Conhecimento &
Conversação. Crowley admitiu no fim de sua vida que
o Sagrado Anjo Guardião não é o Eu Superior, mas
uma entidade completamente a parte da consciência
218
humana, com sua própria agenda, um daimon pesso-
al. Eu já demonstrei em outros escritos que o Sagra-
do Anjo Guardião não desce abaixo do Abismo e que
até este termo aplicado a Ele é impróprio, pois não
existe nenhum anjo acima do Abismo. Como falei
anteriormente, acima do Abismo reside o Espírito
nas Supernas, que se precipita abaixo do Abismo
como a Alma. Este Espírito é o Real e Verdadeiro
Sagrado Anjo Guardião cuja Suprema Iniciação ocor-
re no oitavo Aethyr acima do Abismo. Ele projeta um
daimon para auxiliar a Alma na jornada de sua en-
carnação. É este daimon pessoal que deveríamos
chamar de Sagrado Anjo Guardião ou apenas Ente
Guardião, como eu proponho.
A mão direita d’O Mago aberta simboliza não a-
penas o Pilar Direito de energia ascendente na Árvo-
re da Vida, mas as Cinco Virtudes da Ordem dos
Cavaleiros que buscam pelo Santo Graal. Este simbo-
lismo da mão aberta será discutido com mais pro-
fundidade nos Atus IX (O Eremita) e X (A Roda da
Fortuna). A palma da mão contém um poderoso
marma utilizado não apenas para curas espirituais,
mas também para purificação e a realização de atos
de magia. Muitos sistemas de cura modernos como o
Reiki admitem que a palma da mão contém uma
poderosa zona de poder. Geralmente essa zona de
poder é descrita como um cakra, mas não é este o
caso. Trata-se de um marma, a confluência de três ou
219
mais canais de energia (nāḍīs). A palavra sânscrita
nāḍī significa torrente ou fluxo e geralmente é repre-
sentada na forma de um canal que conduz prāṇa.
Segundo a ciência tântrica do prāṇa-vidyā, a arte de
manipular, conduzir ou projetar o prāṇa sob vonta-
de, o marma da mão esquerda opera essencialmente
com citta-śakti (energia lunar da consciência ou
mente) e o marma da mão direita com prāṇa-śakti
(energia solar física). Do centro da mão direita, de
dentro do Pentagrama de ON120, é projetado o Sol-
Palavra-Sêmen. O Pentagrama de ON120 representa
o controle do ākāśa (Espírito) na Operação dos Qua-
tro Elementos, simbolizados pelas Armas Mágicas
Elementais que circundam o Sol-Sêmen-Logos d’O
Mago. O Logos projetado do centro do Pentagrama
encerra o Arcano da Operação Elemental também no
sistema enochiano de magia, pois o centro da Grande
Cruz é atribuído ao Sol. Assim, o Sol no Atu I, O Mago,
é uma projeção de seu poder, pois é do Sol que todas
as forças universais e elementais emergem para
animar e harmonizar as Torres de Vigia do Universo.
É através do Sol que as forças elementais represen-
tadas pelas marés dos tattvas atuam sobre toda hu-
manidade e é por isso que exercícios mágico-
místicos como o RITUAL RESH têm grande importân-
cia. Este ritual promove uma operação alquímica na
Alma de quem o pratica, harmonizando as correntes
dos tattvas na psique do magista. O nome que Cro-
220
wley deu a esse rito thelêmico é LIBER RESH VEL HELI-
OS. Hélio é o nome do Sol na mitologia grega e ele
ganhou os atributos de outro deus, Apolo, nas reces-
sões mitológicas tardias. No RITUAL RESH, o Sol é
adorado quatro vezes ao dia, simbolizando a Opera-
ção dos Elementos na Alma. Em O LIVRO DA LEI nós
encontramos:

Existe uma porta secreta que deverei estabelecer


para confirmar teu caminho em todos os quadran-
tes (estas são as adorações, como tu tens escrito),
como é dito:

A luz é minha; seus raios consomem a


Mim: eu tenho logrado uma secreta porta
Para a Casa de Ra e Tum,
De Khephra e de Ahathoor.1

Em LIBER ALEPH, uma instrução de Crowley para seu


Filho Mágico, nós encontramos: Não negligencies
jamais as quádruplas Adorações do Sol em suas qua-
tro Estações, pois desta forma tu afirmas teu Lugar na
natureza e suas Harmonias. E em MAGICK WITHOUT
TEARS: A primeira necessidade é a dedicação de tudo o
que se é e de tudo o que se tem para a Grande Obra,
sem reservas de qualquer espécie. Isso deve ser manti-
do constantemente em mente e a maneira de fazer

1 LIBER AL, III:38.


221
isso é praticar LIBER RESH VEL HELIOS. No Atu I, O Ma-
go, este trabalho ou processo espiritual é demons-
trado pelas Armas Mágicas Elementais ao redor do
Sol-Sêmen-Logos. Assim, se o Atu 0, O Louco, repre-
senta o prāṇa, o Atu I, O Mago, representa o domínio
e controle sobre o prāṇa na intenção de realizar a
operação da magia ou energia tendendo a mudança.
O Mago aprendeu como abrir o Portal (Daleth). Em A
VISÃO & A VOZ, referente ao Atu I e o Aethyr de ZON,
Crowley diz: Àquele que produz ilusão. Àquele que vê
na Ilusão (Lilith). Já em LIBER VIARVM VIAE encontra-
mos: As Afirmações e Negações Universais. LIBER B
(I.). E em LIBER B VEL MAGI: Um é o Magus: duas são
Suas forças: quatro são suas armas. O Mago, portanto,
é a nova fase de O Louco, onde ele ganha duas forças,
Vontade & Amor. No entanto, essas duas forças se
dividirão abaixo do Abismo. Mas como um Magus da
A∴A∴, é lhe dado o meio pelo qual ele poderá unir
essas duas forças novamente, quer dizer, as quatro
Armas Mágicas Elementais: No início o Magus falou
realmente a Verdade, e projetou a Ilusão e a Falsidade
para escravizar a alma. Porém ali está o Mistério da
Redenção. Com a Baqueta Ele criou. Com o Cálice Ele
preservou. Com o Punhal Ele destruiu. Com o Pantácu-
lo Ele redimiu.
Em suas CONFISSÕES, Crowley escreveu sobre ou-
tro texto de sua autoria, O MUNDO DESPERTO: O MUNDO
DESPERTO é uma sublime descrição do caminho do
222
sábio, tornado pitoresco pelo uso de símbolos do Tarot
e charmoso por sua personificação da Alma como a
donzela. Em MAGIA EM TEORIA & PRÁTICA ele se refere
a este escrito da seguinte maneira: Uma alegoria
poética das relações da Alma com o Sagrado Anjo
Guardião. Na edição original de KONX OM PAX onde O
MUNDO DESPERTO foi publicado, muitas notas explica-
tivas em latim e hebraico foram adicionadas, tor-
nando muitas passagens claras para o estudante
atento. Em relação ao Caminho de Beth há uma pas-
sagem interessante na qual Crowley adicionou essa
nota: Via ‫ ב‬v. Domus. A passagem segue: E há o cami-
nho pelo qual eu sempre vou ao Rei, meu Pai, e esta
passagem é feita de relâmpagos e raios; mas há um
Magista Sagrado chamado Hermes que me guia tão
rapidamente que às vezes chego no mesmo instante
em que parti.
O LIVRO DAS MENTIRAS contém o Mistério Quádru-
plo por trás do Caminho de Beth, no Capítulo 2, O
Grito do Falcão, onde lemos: Hoor tem um nome se-
creto quádruplo: esse é Faz O Que Queres. E nos seus
comentários Crowley diz: Estas quatro palavras, Faz
O Que Queres, são também identificadas com os qua-
tro modos possíveis de conceber o universo; Hórus
unifica-os. Hórus é o Deus Falcão Solar. Dentro de
nós essas quatro qualidades representam os tijolos
que constroem todas as nossas imagens arquetípi-
cas. Sallie Nichols em sua obra JUNG & O TARÔ diz: De
223
acordo com Jung, quando sincronicidades ocorrem,
significa que um poder arquetípico foi ativado. É difí-
cil saber identificar esse poder arquetípico devido a
inabilidade em saber escolher entre a Vontade e os
desejos do Ego. Por exemplo, podemos dizer que o
objetivo geral de toda Alma ao encarnar é viver.
Viver é a Verdadeira Vontade de toda Alma. Para
viver, a Alma precisa se alimentar e, portanto, comer
é, de certa maneira, uma Verdadeira Vontade da
Alma, afinal, sem alimentação a Alma não pode viver.
No entanto, comer é apenas uma sombra no escopo
geral do processo pelo qual a Alma encarna e vive,
assim, podemos dizer que se trata de um desejo e
não da Verdadeira Vontade, pois o ato de comer
apenas assiste ou auxilia a Alma no seu processo de
vida e não representa o verdadeiro propósito pelo
qual a Alma encarnou. Dessa maneira, é uma tarefa
fundamental ao Magus distinguir entre a Vontade e o
desejo e como ele o afeta, negativa ou positivamente.
No entanto, o daimon pessoal ou Ente Guardião
sempre está enviando sinais pelos quais é possível
seguir no caminho certo para realizar a Verdadeira
Vontade. Assim, é necessário saber identificar esses
sinais.
Eu disse que tem sido um consenso entre os the-
lemitas que o Sagrado Anjo Guardião não se trata de
uma entidade distinta, mas de uma parte supercons-
ciente de nós mesmos. Se este for o caso, estes sinais
224
recebidos têm sido produzidos pela própria mente,
uma espécie de psicocinese, criando manifestações
objetivas reconhecidas como sinais do daimon pes-
soal. Alguns psicólogos têm conjecturado que essa
energia psicocinética desencadeada pode tomar uma
forma objetiva, mesmo sendo produzida pela mente.
Eles estão passando bem perto da questão. O daimon
pessoal, como disse acima, é projetado para baixo do
Abismo junto com a Alma quando ela encarna.
Jung acreditava que os indivíduos possuem um
reservatório pessoal de experiências únicas a cada
pessoa. Essas experiências formam, portanto, os
arquétipos subjetivos individuais. Freud chamou
isso de subconsciente e Jung mais tarde ressignificou,
chamando de inconsciente pessoal. Jung também
trabalhou sobre o conceito de inconsciente coletivo,
que não apenas une e organiza nossas experiências,
mas que também conectam toda humanidade, simi-
lar ao que os ocultistas conhecem como arquivos
ākāśicos da natureza. Em ambos os casos Jung pro-
pôs que estes arquétipos têm uma dupla natureza na
medida em que residem profundamente na psique,
em níveis inconscientes, mas que são ancorados no
mundo porque impulsionam todas as ações do ho-
mem. Toda essa percepção de Jung é demonstrada
na Árvore da Vida e no trabalho espiritual sobre ela,
precisamente no que concerne ao Sol-Tiphereth
interior que se manifesta também através de uma
225
dupla natureza, representada nas tarefas do Adepto
Menor Interno e Externo e que envolve todo o com-
plexo do ruach: o Eu Inferior (a Personalidade) e o
Eu Superior (Consciência Solar).1 O Adepto Interno
lida com a natureza inconsciente além do tempo e o
Adepto Externo lida com o Ego e suas personas. Jung
usava a metáfora do oceano para falar do inconsci-
ente coletivo, onde a consciência individual não
passa de uma pequenina ilha circundada pela imen-
sidão líquida do mar. O conteúdo do inconsciente
coletivo é chamado, assim, oceano de imagens. Mui-
tas vezes os arquétipos precipitados para fora desse
vasto oceano de imagens não faz parte do conteúdo
individual, mas formam uma ponte através da qual é
possível estabelecer conexão com todo tipo de maté-
ria arquetípica e orgânica.
Jung se refere ao conteúdo psicosinético desen-
cadeado que toma uma forma objetiva de creatio
continua, a atividade contínua e criativa de Deus no
universo. Mas não existe como mensurar cientifica-
mente a fonte do inconsciente coletivo, pois sua
natureza é mercurial e como tal, um conteúdo para-
doxal arquetípico imensurável, salvo indiretamente
através de uma imagem refletida na superfície do
oceano. Assim, é mais fácil acessar seu conteúdo

1 Vejua meu livro C ORRENTE 93: A C ORRENTE S OLAR DO N OVO


A EON .
226
indiretamente através de projeções, segundo Jung.
Estes arquétipos evitam e ludibriam a consciência,
cobrindo a realidade com uma sombra. Nós encon-
tramos e projetamos o que existe no nosso interior
do lado de fora. A Verdadeira Vontade ou o objetivo
por trás da encarnação como O Louco está profun-
damente enraizada no inconsciente coletivo e como
todo conteúdo arquetípico do inconsciente coletivo,
ela nunca será completamente compreendida. No
entanto, é possível avaliar a sombra para descobrir o
curso da encarnação e é por isso que se diz que é
impossível chegar a Luz senão por meio das som-
bras. Jung acreditava que o conteúdo psicocinético
prova a existência de várias criaturas espirituais
distintas, de elementais a UFOs, como manifestações
arquetípicas dos indivíduos e de alguma maneira
essas projeções, como o daimon pessoal, controlam
todo tipo de sincronicidades que ocorrem no dia-a-
dia. Em outras palavras, tudo o que nós temos pro-
gramado no inconsciente desde a infância como as
fundações da própria encarnação, não apenas ali-
menta nossos pensamentos e ações, mas também se
projeta no exterior como sincronicidades, formulan-
do nosso comportamento e guiando nossa vida como
o próprio destino, as Leis fecundadas pela semente
(O Louco) e sobre as quais erigimos a Árvore da
Vida.

227
O Atu I, O Mago, ensina que essas sincronicidades
devem ser identificadas, pois elas revelam uma es-
trutura abstrata que nos provê uma distinção tangí-
vel e nítida entre os desejos do Ego e a Verdadeira
Vontade. Se essas sincronicidades são reveladas pelo
daimon pessoal ou enviadas pelo Eu Solar, de fato, é
imaterial, pois seja lá o que for, elas se aplicam a
natureza da Quadratura Pessoal de cada um. Na
tradição thelêmica nós ensinamos que a melhor
maneira de se compreender e saber encontrar com
certa facilidade essas sincronicidades é através das
anotações no diário mágico. Como já falei em instru-
ções anteriores, no diário se coloca tudo, não apenas
rituais, seus resultados e conjecturas filosóficas, pois
uma vez que todo ato intencional é um ato de magia,
tudo deve estar anotado no diário. Inspirado pelo
conhecimento do Atu I, o magista sabe que essas
sincronicidades raramente se manifestam como
resultado de rituais, mas ao contrário, elas brotam
de circunstancias triviais da vida devido as semente
que plantamos no curso da encarnação desde a in-
fância. Através do diário mágico é possível encontrar
as instruções que o daimon pessoal revela a cada um
na descoberta das Leis do próprio Universo.
É sabido por todos que um bom magista é men-
surado pela capacidade de manifestar no curso do
ritual sua paranormalidade. Crowley concorda que
esse é o segredo por trás da magia salomônica, que é
228
a arte de invocar anjos e evocar daimons a aparência
visível. Ele diz em seu GOÉCIA: A CHAVE MENOR DE SA-
LOMÃO: O que causa a ilusão da aparição de um espíri-
to no triangulo da arte? O amador ou um perito em
psicologia responderá: «A causa esta na sua mente».
Em seu O LIVRO DA MAGIA DE SALOMÃO, Carrol «Poke»
Runyon argumenta que este é o segredo por trás de
toda fiel e verdadeira prática de magia salomônica,
um estado alterado de consciência que possibilita ao
magista acesso a planos e reinos diversos. O primei-
ro capítulo de seu livro chama-se Hipnose & Yoga e
nele o autor esclarece que a prática da hipnose e de
uma técnica yogī conhecida como trāṭāka – em trei-
namento espiritual sistemático e antes dos ritos de
magia – possibilita ao magista expandir a consciên-
cia. No fim do capítulo ele também propõe que a
magia sexual salomônica confere um nível de gnose
que possibilita ao magista despertar sua paranorma-
lidade no ritual. Gigantes como Stanislas de Guaita
(1861-1897) estiveram entre os primeiros magistas
modernos a observar que a gnose empodera o mago
e para isso ele fez inúmeros experimentos com subs-
tâncias que alteravam sua consciência e desperta-
vam sua paranormalidade. Papus (1865-1916) e
Éliphas Lévi (1810-1875) receitavam infusões a
base de cânhamo e outros intoxicantes. Crowley,
além de adepto das plantas de poder e substâncias
que alteram a consciência, também se valia da gnose
229
sexual nos ritos de magia. E parece que no atual
renascer da magia, gradativamente os magistas es-
tão migrando de um ponto de vista idealista do uni-
verso para uma visão animista da prática da magia,
reconectando o Mago moderno com o Xamã do pas-
sado.
A prática da magia nos ensina que nós vestimos
os nossos deuses na imagem que desejamos através
dos sentidos, que devem ser utilizados como armas
mágicas pelo hábil magista. Na gnose o magista se
apodera de seus sentidos, o que lhe possibilita ma-
nipular com mais eficiência a matéria astral através
de bases físicas. Na gnose é possível comungar com o
Gênio Interior, o Eu Solar e com o daimon. Isso abre
o Caminho de Heh, A Estrela. O tema deve ser estu-
dado sob a luz deste Caminho. Essa sincronia ou
conexão com o Eu Solar e com o daimon, possibilita
ao Mago acesso a Verdadeira Vontade. Em O CORAÇÃO
DO MESTRE, no Caminho de Beth, O Mago, encontra-
mos o seguinte ensinamento:

O Verdadeiro Eu é o significado da Vontade Verda-


deira: conhece a Ti mesmo mediante Teu Caminho.
Calcula bem a Fórmula de Teu Caminho. Cria livre-
mente; absorve jubilosamente; divide intencional-
mente; consolida completamente. Trabalha, Onipo-
tente, Oniciente, Onipresente, na e para a Eternida-
de.

230
O que o Atu I está ensinando é que através do esfor-
ço em unidirecionar a Vontade, o Mago pode acessar
e controlar a matéria sutil astral e as forças que a
colocam em movimento através de seus próprios
sentidos. Concentração é a chave deste processo. No
pātañjala-yoga, a prática de niyama (comportamen-
tos e virtudes) está associada ao Caminho de Beth.
Crowley disse:

Eu tratei de yama e niyama extensamente pois a


importância de ambas tem sido grandemente sub-
estimada, e suas naturezas completamente mal en-
tendidas. Elas são definitivamente práticas mágicas
com um pequeno toque de sabor místico. A vanta-
gem para nós aqui é que podemos de forma muito
útil nos exercitar e desenvolver dessa maneira nes-
se país onde a técnica do Yoga é para todos os pro-
pósitos práticos impossível. Incidentalmente, o
verdadeiro país de um indivíduo – ou seja, as con-
dições – no qual ela por acaso nasceu é o único no
qual yama e niyama pode ser praticado. Você não
pode desviar do seu karma. Você tem de merecer o
direito de se devotar ao Yoga apropriadamente fa-
zendo com que essa devoção seja um estágio neces-
sário no cumprimento da sua Verdadeira Vontade.
No Hindustão agora é permitido tornar-se «Sann-
yasi» – um recluso – até se cumprir o seu dever pa-
ra com o seu próprio ambiente – dê a César o que é
de César antes de dar a Deus as coisas que são de
Deus. Maldito seja aquele aborto de sete meses que
231
pensa em tirar vantagem dos acidentes de nascen-
ça, e, caçoando do chamado do dever, escapa para
ir encarar uma parede branca na China! Yama e ni-
yama são apenas os estágios mais críticos do Yoga
pois eles não podem ser traduzidos em termos de
um currículo escolar. Nem podem truques de alu-
nos podem livrar os aspirantes dos deveres da
hombridade. Faz o que tu queres há de ser tudo da
Lei.

O Atu I, O Mago, nos ensina que criamos a ilusão


dentro de nossa própria mente, assim como pode-
mos destruí-la com o poder da mente. Com este co-
nhecimento, o Mago tem o poder de transformar
uma coisa em outra e nisso reside sua natureza mer-
curial. O Mago tem poder sobre seus desejos e sobre
sua Vontade. O Mago entende que o Ego não pode
causar essa mudança e é por isso que nas suas ope-
rações de magia sua mente está além do Ego, de
onde provem sua capacidade de manipular a luz
mercurial. No caminho ele aprende não somente a
levar a mente além do Ego, mas também controlar o
Ego dentro de seus limites. O Mago reconhece a Ver-
dade além de tudo e seu nome é Eu Sou!

Amor é a lei, amor sob vontade.

232
O MAGO

Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.

S
audações aos leitores! Nesta edição de O OLHO
DE HOOR preparei a ilustração O Mago, o Arcano
I do Tarot de Thoth, concebido por Frater Set-
Apehpeh, 246 ∵, para o desenvolvimento da sua Tese
Mágica. Tenho feito às ilustrações para o seu bara-
lho, como o Atu 0, O Louco e que aos poucos são
confeccionadas junto dos textos que explicam o Ar-
cano em questão.
O Mago é atribuído ao Caminho de Beth no mapa
da Árvore da Vida, ligando Kether, Coroa, a Binah, o
Entendimento. Sendo uma imagem-movimento que
ocorre entre as Sephiroth acima do Abismo, sua
posição no Pilar Esquerdo da Árvore da Vida diz
muito sobre sua qualidade: Um princípio masculino
criador/fertilizador do Eu Sou em Kether, conforme
Frater Set-Apehpeh, 246 ∵ explica no seu texto. A
energia é descendente, ou seja, se dirige a materiali-
zação em Malkuth, o Reino, o plano físico.
Na ilustração podemos ver que há diversos sím-
bolos ligados ao Falo, melhor, a energia que resi-

233
de/oculta-se nele, o sêmen. Esta substância cinzenta
de grande poder mágico é o veículo d’O Louco, o
veículo da Consciência, o Espírito e muito espaço foi
dado a esse assunto no sistema de Magia Sexual de
Aleister Crowley. O sêmen é o líquido mercurial no
qual O Louco é dirigido a Binah, o Útero, a Mãe e lá
ele é nutrido e semeado para então receber o nasci-
mento, sua encarnação. Sua formulação deve ser
feita através dos impulsos verticais de Kether, o Eu
Sou, e não dos impulsos horizontais de Malkuth, do
Ego, pois, com a força guiada pelos planos superio-
res, esta substância é carregada magicamente, rece-
bendo a Luz e o Poder de Criação que elevará tanto o
sacerdote como a sacerdotisa, transformando a cri-
ança mágica; quando isso não ocorre, as volições
descontroladas do Ego provindas de Malkuth e do-
minadas pelas Qliphoth recebem as rédeas da carru-
agem que está completamente desprotegida. Este
veículo controlado pelos aspectos mais baixos con-
sequentemente será levado para os desertos cober-
tos por poeira, o berço das Qliphoth, acarretando
assim na falha do rito, sendo o resultado um aborto
mágico.
Vemos o Mago aqui como uma representação da
continuidade do processo d’O Louco, possuindo suas
características próprias. Pois ele é a expressão do
Espírito e se dirige a encarnação, o nascimento da
Alma abaixo do Abismo. Hadit encontra-se entre a
234
testa e as sobrancelhas do Mago indicando também
que a kuṇḍalinī-śakti foi desperta, a energia serpen-
tina oculta em todo ser, um potencial dinâmico in-
terno que também encontra-se no macrocosmo, que
foi exaltada do mūlādhāra-cakra até a altura do ājñā
cakra, uma região onde predomina a lucidez e a
intuição. Assim como evidencia que o Mago está
imaginando a União da Besta com Babalon, a união
dos opostos.
A kuṇḍalinī-śakti está ao lado do Mago, a cabeça
da Serpente vermelha está voltada para cima e ver-
tendo veneno sobre a Pirâmide de Poder, no qual
todo poder é direcionado, caso contrário, se alguma
gota for desperdiçada sobre a Terra, os desejos do
Ego serão alimentados, produzindo assim a confusão
provinda dos fantasmas, obsessões de Choronzon
que escravizarão o Adepto, isolando agora o Irmão
Negro que não soube derramar todo o seu sangue na
Taça de Babalon e foi impedido de adentrar na Cida-
de das Pirâmides, acima do Abismo, local da Inicia-
ção deste Aeon. A Serpente possui um formato fálico,
simbolizando assim o Falo erguido, conforme está no
LIBER AL VEL LEGIS (cap. II, v. 26), Hadit diz: Eu sou a
secreta Serpente enrolada pronta para saltar: em meu
enrolar está o prazer. Se Eu ascendo completamente
minha cabeça, Eu e minha Nuit somos um.. A Serpente
verte veneno sobre a Pirâmide, para o alto, decla-
rando a projeção dos e para os planos superiores,
235
Taça de Babalon, a União com a Mulher Escarlate e
Therion, a sacerdotisa e o sacerdote nos ritos de
Magia Sexual Thelêmica. Devemos compreender que
isso ocorre tanto no mundo físico, assim como nos
planos internos, no íntimo de cada um, essa união,
portanto é a União dos opostos em si mesmo, samā-
dhi.
O Mago representa Mercúrio, vemos isso ao no-
tarmos a auréola com chifres que forma o símbolo
astrológico de Mercúrio. O Mago (Mercúrio) é lem-
brado como uma figura dupla, fluída e traiçoeira,
deve-se isso a relação de Beth com o número 2, os
opostos em si mesmo, aspectos positivos e também
negativos em união. Por exemplo, lembra-nos a figu-
ra do daimon pessoal, uma vez tratada em uma edi-
ção anterior, isto é, tudo depende do impulso que
projetamos a energia do Mago, a força que guia o
veículo, a imagem, não é boa ou ruim, os pensamen-
tos que nutrem o sêmen fazem toda diferença, pois
ele é em si neutro. O Mago representa um poder que
aprisiona e também liberta (nisso reside à diferença
entre a ilustração do Mago e de Māyā, a ilusão dos
hindus, que mencionei mais acima). Por outro lado,
Mercúrio representa o mundo criativo espiritual (o
sêmen primordial), o raio que fertilizador e que
tornou possível a criação do universo, assim como o
Espírito oculto na matéria (o sêmen), diz Frater Set-
Apehpeh, 246 ∵. Portanto, isso indica que devemos
236
controlar essa energia e não deixar ela nos controlar,
lembrando a fórmula mágica da Quadratura no Cír-
culo e o nosso sucesso ou fracasso na aplicação desta
fórmula irá influir de modo significante na realidade,
pessoal e externa a nós. Outra relação com a fórmula
da Quadratura no Círculo se apresenta na frente do
Mago, o Triângulo da Arte que contêm o sigilo do
Túnel de Set contrário ao Caminho de Beth na Árvo-
re da Vida, representando os aspectos mais tamási-
cos, densos, a Quadratura, e o Mago atua como um
exorcista, purificando e controlando suas camadas
inferiores trazendo a Luz do Círculo, a Lucidez do
Espírito.
A kuṇḍalinī-śakti está enrolada no braço esquer-
do do Mago que está em jñana-mudrā indicando a
mesma posição de Baphomet, assim como é acima,
também é abaixo devido ao seu papel de intermediá-
rio, o mensageiro dos deuses, aquele que transita
entre os mundos levando as preces dos mortais para
os deuses e transmitindo as mensagens dos deuses
aos mortais.
A Serpente no seu braço dá três voltas simboli-
zando as três voltas na Fonte Sagrada na Iniciação de
I° Grau O.T.O., também simboliza os três guṇas: ta-
mas, rajas e sattva, qualidades negativa, positiva e
neutra presente nos fluxos externos da natureza, e
os fluxos internos de nós mesmos, as três voltas e
meia da kuṇḍalinī-śakti no mūlādhāra e por último
237
as três Moiras, as Senhoras do Destino. A volta supe-
rior simboliza sattva, a lucidez sutil, a pureza, a cor
branca da deusa Láquesis, o Grau de Eremita dentro
da Tradição de Thelema. A volta intermediária re-
presenta rajas, uma qualidade positiva, o dinamis-
mo, a cor vermelha, associando-se a deusa Cloto e o
Grau de Amante. A última volta atribui-se a tamas, a
qualidade negativa, ignorância, obscuridade, violên-
cia, inércia, embotamento, apego, a cor negra, no
qual a deusa Átropos é relacionada e na Iniciação
Thelêmica, é o Grau de Homem da Terra. Essas três
voltas juntas são as três fases da Vida na projeção da
Alma do homem encarnado abaixo do Abismo atra-
vés do Pilar do Meio da Árvore da Vida, passando
pelas Sephiroth Tiphereth, Yesod e Malkuth.
Além de representar o Pilar Direito, de energia
Ascendente, a mão direita do Mago estendida a fren-
te, possui na sua palma um pentagrama. Na palma da
mão temos um marma extremamente poderoso que
pode ser utilizado para purificações e também curas
espirituais, por exemplo, no Reiki, porém para que
sejam bem empregadas essas manipulações, elas
devem ser feitas sob vontade. O Pentagrama repre-
senta a estrela de cinco pontas presente no escudo
de Gawain, que foi escolhido para ser o selo mágico
pessoal de Salomão, seu objetivo era representar a
Verdade e as Cinco Virtudes da Ordem dos Cavalei-
ros. O espermatozoide projetado é o Logos, a Palavra
238
criadora dos Quatro Mundos, o ākāśa (Espírito) que
controla os Quatro Elementos do Pentagrama, re-
presentados ao seu redor pelas Armas Mágicas, o
Bastão, a Adaga, a Taça e o Pantáculo. Podemos rela-
cionar os cinco niyamas também por visarem o culti-
vo da firmeza da mente, promover a pureza física,
mental e espiritual, dotando de capacidades de con-
trolar as volições tamásicas, negativas, e transformar
e fertilizar o solo para que a Consciência floresça.
Este estado de lucidez no dia-a-dia é importantíssi-
mo, pois o estado de presença faz com que seja pos-
sível distinguir os aspectos egóicos da Quadratura e
as inspirações do Círculo. É como limpar o terreno
para poder construir o Templo do Espírito.
No plano de fundo podemos visualizar que o pro-
cesso da Jornada do Mago ocorre acima do Abismo,
na ilustração estão as cores de Kether (branco),
Chokmah (cinza) e Binah (preto), a Trindade equili-
brada.
As vestes do Mago expressam seu caráter de yogī,
alguém que é mestre de si mesmo, tomou as rédeas
de si, dos seus elementos, e dedica todo o labor a
Grande Obra, ao Divino, a Babalon. Uma atitude de
constante reverência ao Divino. Ele veste uma manta
púrpura, semelhante a coroa mercurial. Sobre a cor
púrpura Crowley diz: A Base da Vida Divina [...] Luz,
cujos fracos reflexos estão além do Violeta. Púrpura é

239
ainda uma cor associada aos Graus superiores da
O.T.O.
O cordão cinza que desce da testa da Besta
(Chokmah) em União com Babalon (Binah), os dois
estão em coito constante em Kether. Demonstra-se
nesta imagem que Babalon aguarda em êxtase o
Mago, que simboliza a capacidade de se projetar no
Plano Astral e assim conquista a união com a Deusa.
Sua presença apenas nos diz que a Mente ainda não
possui meios de desvencilhar da divisão, ele sempre
verá os opostos divididos, mesmo quando buscamos
representar a sua união, esse comportamento da
Mente ocorre por estar submersas pelas marés abai-
xo do Abismo, somente quando se atravessa o Abis-
mo é que a separação é abolida.
A montanha atrás do Mago possui um aspecto
masculino, pois o Sol não está no submundo, como
em algumas cartas do Tarot aparecem, nestas repre-
sentações as montanhas apresentam características
femininas, porque ela oculta abaixo o Sol. A energia
solar, no caso da carta do Mago, está sendo projetada
para cima, sobre a Montanha.
Para a próxima edição buscarei tratar dos símbo-
los de Māyā, que são a antípoda das relações que
fizemos aqui para o Mago.

Amor é a lei, amor sob vontade.

240
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O OLHO DE HOOR

Aleister Crowley

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Julianus. York Beach, ME: Wiser, 1999.

245
246
O
s Irmãos da A∴A∴ anunciam-se sem milagres
ou mistérios. É fácil para qualquer charlatão
proferir maravilhas confundir e até enganar,
não somente os tolos, mas qualquer pessoa sagaz e
de percepção elevada, perito em desmascarar frau-
des. Novamente, o que a A∴A∴ se propõe é capacitar
tais homens a avançar às altas interpretações da
condição humana e a prova de suas habilidades são
suas vitórias e não qualquer outro fenômeno irrele-
vante. A demonstração dos milagres é um non sequi-
tur.
Não há qualquer mistério na A∴A∴ e não deve-se
confundir mistério com o desconhecido. Os Irmãos
da A∴A∴ não fazem mistério. Eles não dão somente o
Texto mas o Comento, não somente o Comento, mas
o Dicionário, a Gramatria e o Alfabeto. Os Irmãos da
A∴A∴ oferecem suas faces contra todos os tipos de
charlatanismo, sejam eles milagres remunerados ou
do tipo obscuros; todas as pessoas que fizeram fama
em cima desse tipo de prática que esperem ser des-
mascaradas.

247
Os Irmãos da A∴A∴ recomendam experimentos
simples e os descreverão por suas canetas na lingua-
gem mais simples possível. Se você falha em obter
bons resultados não responsabilize outro que não a
ti mesmo ou Seus métodos e, obtendo sucesso, agra-
deça aos mesmos.
É a intenção dos Irmãos da A∴A∴ estabelecer um
laboratório em que os estudantes sejam capazes de
levar experimentos, requerendo muito tempo e labu-
ta para adaptá-los a sua vida profana e, seus plane-
jamentos, sendo esclarecidos á medida que as opor-
tunidades vão surgindo.
Conhecimento perfeito da natureza e da humani-
dade é ensinado nessa escola. É através dela que
todas as verdades penetram no mundo; ela é a esco-
la de todos aqueles que procuram por sabedoria,
sendo que é apenas nessa comunidade que a verda-
de e as explicações de todos os mistérios serão en-
contradas. Ela é a mais oculta das comunidades,
contudo ela contém membros de muitos círculos;
nem há qualquer Centro de Pensamento cuja ativi-
dade não seja devido à presença de um de nós. Em
todos os tempos, tem existido uma escola exterior,
baseada em uma interior, da qual não é mais que
uma expressão exterior.
Em todos os tempos, tem existido uma assem-
bleia oculta, uma Sociedade de Eleitos, daqueles que
procuraram e tiveram capacidade para luz, e essa
248
sociedade interior foi o Eixo da R.O.T.A. Tudo que
qualquer ordem externa possui no símbolo, cerimô-
nia ou rito é a letra expressa externamente daquele
espírito de verdade que habita no Santuário interior.
E nem a contradição do exterior representa qual-
quer barreira à harmonia do interior.
Qualquer pessoa com sinceridade de propósitos
pode solicitar afiliação a A∴A∴ através do seguinte
procedimento.

Admissão ao Outer College Brasil

Caso tenha interesse em participar da A∴A∴, envie


uma carta em PDF por e-mail seguindo as instru-
ções:

 Você deve morar em Juiz de Fora.


 Faça um breve relato sobre sua busca espiritu-
al. Estudos, práticas e a relevância desse pro-
cesso na magia e no ocultismo.
 Faça uma lista de vinte livros que já estudou na
área da magia e ocultismo em geral; cite os
mais relevantes em sua iniciação e faça uma
breve resenha do livro mais importante para
você.
 Na carta, coloque todos os seus dados: endere-
ço (físico e eletrônico), data de nascimento, afi-

249
liação, profissão, telefone e anexe uma cópia de
seu CPF, RG e comprovante de residência.

Toda a comunicação da Ordem se dá através de do-


cumentos em PDF via e-mail e por correio conven-
cional.
Após o envio de sua aplicação de afiliação, a Or-
dem irá notificá-lo em cinco ou dez dias, após a ava-
liação de seu pedido. Se ele atender os nossos requi-
sitos, você será admitido ao período probatório,
devendo manter uma prática espiritual sistemática
por um período de um ano, com entradas diárias no
diário mágico.
Sua aplicação de afiliação pode ser enviada por e-
mail, em PDF:

sociedadethelemica@gmail.com

250