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A persistência das imagens de Glauber
Edição do mês

2 de agosto de 2021

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(Foto: Arquivo Nacional)

Quarenta anos depois de sua morte em Sintra, Portugal, em 22 de agosto de 1981,


quando tinha 42 anos, Glauber Rocha continua sendo, quase consensualmente, o mais
importante e genial dos cineastas brasileiros, seja pela estética barroca inigualável,
seja por ter sido, no século 20, um dos mais importantes pensadores sobre o Brasil.

Glauber foi a figura central do Cinema Novo, movimento que criou o cinema moderno
brasileiro, dando continuidade à ruptura neorrealista provocada por Nelson Pereira
dos Santos com Rio, 40 graus (1955) e Rio, Zona Norte (1957). É de Glauber a frase-
síntese da modernidade audiovisual brasileira: “Uma ideia na cabeça e uma câmera na
mão”. Entre seus filmes estão obras-primas como Deus e o Diabo na terra do
Sol (1964), Terra em transe (1967), Cabeças cortadas (1970), Di-Glauber (1977) e A
Idade da Terra (1980). Em homenagem ao cineasta, o site do Instituto Moreira Salles
abriu o streaming gratuito de sete de seus filmes. O curta Di-Glauber, antes embargado
pela família do pintor Di Cavalcanti, será exibido na sessão de abertura do Festival
Internacional de Curtas Metragens de São Paulo por 24 horas, a partir das 19 horas do
dia 20 de agosto, no site www.kinoforum.org.

Foram companheiros de Glauber na estética, afeto e ação política: Cacá Diegues, Paulo
César Saraceni, Joaquim Pedro de Andrade, Ruy Guerra, Leon Hirszman, Luiz Carlos
Barreto, Walter Lima Jr., Zelito Viana e Arnaldo Jabor. Premiado no exterior e
perseguido no Brasil, Glauber acumulou controvérsias no fim da vida, ao encontrar
sinais de redenção política tanto no ideólogo dos estertores do regime militar, Golbery
do Couto e Silva, como nas incendiárias intervenções em vídeo no programa
televisivo Abertura, da TV Tupi, cujo título se referia ao período final da ditadura.
A convite da Cult, cineastas responderam à questão: “Que imagem você tem ou
guarda de Glauber Rocha?”. Valeu recorrer a qualquer imagem sugerida pela vida ou
pela obra do mestre, e as respostas vão em seguida.

Cacá Diegues, diretor de Bye Bye Brasil (1980)

Glauber Rocha não foi apenas o mais original e talentoso cineasta na história de nosso
cinema, como também um raro pensador do Brasil e do mundo contemporâneo. Era
como se o que ele dizia ter acontecido, sempre verdade, fosse uma previsão infalível
do que logo aconteceria. Glauber era um amigo generoso e sempre muito atencioso.
Um irmão protetor para todos os momentos de nossa vida, públicos ou privados. Um
cara que faz falta a todo mundo.

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Edgard Navarro, diretor de Superoutro (1989)

Eu tinha 14 anos quando vi Deus e o Diabo na terra do Sol. Foi uma experiência radical,
embora eu não tivesse a menor ideia de sua extensão na época. Até hoje sou um
sequelado do cinema de Glauber.

Zelito Viana, diretor de Avaeté: semente da vingança (1985) e produtor de Terra em


transe, O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969) e Cabeças cortadas, de
glauber rocha

A imagem mais marcante de Glauber Rocha que vem à minha cabeça é o plano inicial
de Cabeças cortadas: a aproximação lenta de um plano geral até o close do [ator] Paco
[Francisco] Rabal, cujo personagem representa um ditador latino-americano que fala
ao telefone, no princípio cantando uma mulher. Em seguida, no outro ouvido, arma
uma tremenda negociata para roubar o dinheiro público de seu país, engrena com uma
discussão sobre intervenção das Forças Armadas e vai misturando tudo, resultando
numa síntese do drama que vivemos na nossa América Latina: escrota, ditatorial,
corrupta, alienada, sem esgoto e que ri da própria tragédia.

Viva nosso imenso Glauber de Andrade Rocha! Saravá!

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Luís Abramo, codiretor (com Paloma Rocha) do documentário Antena da raça (2021),
motivado pelas intervenções em vídeo de Glauber Rocha no programa de
televisão Abertura

Tenho visto muito as imagens de Deus e o Diabo na terra do Sol no processo de


restauração do filme, que está em fase de finalização, e sempre me surpreendo com a
composição dos planos, com a intenção e a inteligência das decisões da câmera, em
diálogo com a dramaturgia buscada por Glauber para o filme. Essa oportunidade de
ver os planos de forma calma e estudada com uma imagem restaurada em 4k, que
devolve ao filme todas as nuances do negativo original, está sendo um privilégio. O
filme é de uma beleza e de uma radicalidade emocionantes.
Anna Muylaert, codiretora (com Lô Politi) de Alvorada (2021)

A primeira vez que eu vi um filme do Glauber foi no cine Belas Artes, numa sessão
vespertina de A Idade da Terra. Começa com aquele pôr do sol de cinco minutos e eu,
adolescente e cinéfila, mas não entendendo nada, fiquei muito revoltada, não entendia
aqueles planos longos, aquela falta de narrativa. Fiquei muito incomodada, tive
vontade até de sair do cinema, mas continuei até o final. Depois o filme foi pegando na
minha cabeça, acabei comprando uma fita VHS e passei a rever várias cenas de que eu
gostava muito, como a do Tarcísio Meira com os punhos em riste no meio de uma
escola de samba. Eu entrei no Glauber pelo final. E depois vi os primeiros filmes. Se eu
fosse falar de uma cena apenas, seria aquela, arrepiante, em que o Manuel, de Deus e o
Diabo na terra do Sol, depois de passar por tanto sofrimento, se une ao bando do
cangaceiro Corisco. É rebatizado de Satanás e o chapéu é colocado em sua cabeça.
Aquela cena é muito forte porque retrata a tentativa de se superar, de mudar na base
do decreto, embora na verdade ele continue sendo a pessoa inocente que era antes.

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Marcelo Caetano, diretor de Corpo elétrico (2017)

As imagens que eu guardo do trabalho do Glauber são de A Idade da Terra: as cenas em


que os atores interagem com as pessoas na rua. Essa forma provocativa de filmar “o
povo brasileiro” tem um despudor que raramente se vê no cinema atual. Onde hoje há
a figuração e o controle, em Glauber havia o acaso e a loucura. É Tarcísio Meira
andando por uma escola de samba, a procissão de freiras encabeçada por Norma
Bengell, Jece Valadão dando um passe no meio da rua. É uma catarse!
Lírio Ferreira, diretor de Árido movie (2005)

Apesar de ser do mar dos arrecifes, desde cedo embrenhava com meu pai pelos
interiores do Nordeste, me deparando com aquela imensidão de vazios que
preenchiam a minha existência. Pois bem, numa dessas viagens pelos sertões da Bahia,
passávamos por Monte Santo [locação de Deus e o Diabo na terra do Sol] quando
esbarrei com aquelas pequenas igrejas enfileiradas e dispostas ali, nos montes santos
que circundavam a cidade. Foi como uma epifania. Aquele quadro quase barroco
despertou em minha alma de criança um Brasil até então recôndito, interdito e
misterioso. Anos depois, ao assistir, no Recife, a uma mostra com filmes de Glauber
Rocha, deparei-me com Deus e o Diabo na terra do Sol e aquele alumbramento infantil
me assombrou novamente. Só que agora justaposto a uma força indescritível e bem
mais terrífica. Naqueles instantes na sala escura, a cena do Beato Sebastião pregando a
transitoriedade do mundo e o fim das agruras para aquela comunidade messiânica me
fez entender que a liberdade é o que move o pensamento crítico e que sem ela não
iremos a lugar algum. O zunido daquela ventania também me fez ver que, de todas as
mentiras em que acredito no mundo, o cinema ainda é a que melhor narra a verdade.

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Tata Amaral, diretora de Hoje (2011)

Assisti a Terra em transe tardiamente, no final dos anos 1970, acho que em 1978 ou
79. Foi a experiência mais vertiginosa da qual me recordo: as câmeras aéreas, as
personagens dispostas nas paisagens, palácios, locações. Mesmo sem compreender
boa parte do filme, aprendi o que é enquadramento e força dramática. De Glauber, a
imagem que mais guardo é ele olhando através de uma lente imaginária feita com os
dedos das duas mãos em L. Homenageio esse gesto no logotipo da série As
protagonistas.
Tizuka Yamasaki, diretora de Gaijin: os caminhos da liberdade (1980), foi produtora e
assistente de direção em A Idade da Terra

Não foi fácil ser assistente de Glauber no longa A Idade da Terra, pois ele era um vulcão
humano em erupção o tempo todo. Não conseguia terminar as cenas do roteiro que
havia escrito. Interferia na filmagem com instruções para os atores sem se importar
que sua voz estivesse sendo captada pelo microfone. De última hora alterava o plano
de filmagem, ou sem aviso sumia por alguns dias. Assim que cheguei a Salvador para a
preparação de A Idade da Terra, lhe mostrei o cronograma de filmagem que eu fizera
num grande painel de papel. Glauber olhou, olhou, depois pediu um pincel atômico e
sem nenhum constrangimento rabiscou o seu plano de filmagem sobre o cronograma!
Sofrendo essa humilhação, aprendi que teria que mudar minha atuação profissional
para me adequar ao seu modo de agir. O cinema que ele estava fazendo não dependia
de planos e organogramas. Nascia de uma improvisação constante e tínhamos que
ficar a postos para aceitar e dar prosseguimento às transformações de sua
criatividade. Aliás, suas melhores cenas eram aquelas que nasciam dessa forma.
Ninguém reclamava, pois o resultado era tão deslumbrante que, no meu caso, esquecia
da angústia vivida um pouco antes. Todos tentavam acompanhar as novas ideias de
Glauber, que brotavam ininterruptamente.

Só a morte conseguiu calar a voz desse cineasta que nunca deixava de bradar em
defesa da cultura brasileira. Glauber morreu muito cedo porque seu corpo era
pequeno demais para suportar uma mente tão inteligente e perturbadora, tão
singularmente criativa, tão gigantesca para os seus pares da época.

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Joel Pizzini, diretor de Anabazys (2007) e curador da restauração da obra de Glauber


Rocha

A cada erupção do vulcão Glauber temos a sensação de que ele está entre nós.
Há uma sucessão inesgotável de estudos e novas descobertas mundo afora a seu
respeito, que dá a ilusão de que ele segue desarrumando o arrumado muito além dos
42 anos que viveu quando deixou nossa terra em transe.

Especulações místicas à parte, é impressionante ver o impacto que sua arte ainda
provoca, seja nas polêmicas intervenções políticas, na inovadora linguagem do
programa Abertura, mas, sobretudo, na proa visionária do Cinema Novo.

Sua vida-arte se pautava pela transigência política para atingir a intransigência


estética. Após a premiação de O dragão da maldade contra o santo guerreiro no festival
de Cannes, Glauber esnobou os holofotes da fama e partiu para a África, onde
realizou O leão de 7 cabeças (1970), um retorno, segundo ele, aos mitos originários
de Barravento (1962).

César Meneghetti, diretor de Glauber, claro (2021)

Há uma imagem que é símbolo do nosso filme Glauber, claro. Glauber enquadra com os
dedos os closes que o diretor de fotografia Mario Gianni deveria captar no meio de
uma baracopoli [favela] romana. Glauber, em exílio, quis entrar no meio do set
pasoliniano de Accatone (1961) e Mamma Roma (1962) na periferia romana, talvez
procurando uma espécie de Brasil no “centro mitológico do capitalismo ocidental”.
Quando decidi filmar nesse cenário, gostaria de ter encontrado aquelas pessoas, mas
aquela baracopoli não existia mais. No lugar há uma praça e seus habitantes foram
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transferidos para apartamentos em prédios de quatro ou cinco andares nos arredores
do mesmo bairro, o Prenestino. As pessoas, adultas e crianças, retratadas nas imagens
tinham educação e saúde gratuitos, seus direitos de trabalhadores só seriam retirados
no fim dos anos 1990 e os preços de alimentos de primeira necessidade eram
proibidos de subir. Como dizia um conhecido que se refugiou da Albânia numa lancha
abarrotada de clandestinos: “O comunismo na Itália é bom pois é um comunismo
capitalista!”.

Arquivo Nacional
Ana Maria Magalhães, diretora da série O Brasil de Darcy Ribeiro (2014) e atriz em A
Idade da Terra

Guardo de Glauber a imagem de sua alegria selvagem, o riso aberto, a contar casos e
imitar personagens na noite do nascimento do seu filho Pedro Paulo e do furacão que,
na estreia de A Idade da Terra no festival de Veneza, enfrentou a guerra sem perder
jamais a ternura que envolvia a nossa silenciosa cumplicidade sertaneja. Ao escrever
essas linhas, percebo que a imagem mais forte de Glauber para mim é a própria
saudade.

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Especial | Depoimentos
Edição do mês

2 de agosto de 2021

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(Foto: Marcus Steinmeyer)
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Roberto Schwarz
Crítico literário e professor aposentado dos Departamentos de Teoria Literária da USP
e da Unicamp

PAULO ARANTES 2º

Quando se aposentou na universidade, em 1998, Paulo começou uma segunda


carreira. Em lugar de vestir o pijama, ampliou a sua atividade didática numa escala
impressionante, tornando-se uma figura nacional. Correndo por fora de instituições ou
partidos, mas ancorado na crítica ao capitalismo, usou o seu tempo livre para trazer à
esquerda a reflexão de ponta que muitas vezes faltava. Uma vez liberadas da rotina
universitária, a sua inteligência, capacidade de leitura e de organização – todas fora do
comum – formaram uma força peculiar, unindo sofisticação máxima nos estudos e
compromisso social com os pobres.

Como editor, dirigiu coleções bem concebidas e ambiciosas, a serviço da


desprovincianização de nosso pensamento crítico. O leitor materialista sabe o esforço
braçal – de tradução, revisão, contatos telefônicos etc. – que isto envolve. Como
professor, animou por 20 anos o famoso Seminário das Quartas, uma verdadeira
invenção cultural onde entre altos e baixos talvez se tenha formado
uma intelligentsia com traços próprios. Embora sediado na universidade, que era seu
hábitat natural, o Seminário era totalmente independente, sem as limitações ligadas a
currículo e carreira ou performance convencional. Os frequentadores eram alunos,
mestrandos, doutorandos, professores, militantes e curiosos de muitas áreas,
sobretudo Filosofia e Ciências Humanas. Tratava-se de passar em revista a reflexão
social brasileira recente, nas mais variadas disciplinas, em particular os estudos
ligados à presente desagregação do capitalismo local e internacional. Com perdão da
ilusão retrospectiva, digamos que as figuras de Jair Bolsonaro e Donald Trump, antes
ainda de existirem, já eram fantasmas familiares adivinhados no Seminário. Ao final
das sessões, Paulo sintetizava o debate, muitas vezes de maneira memorável,
erguendo-o à sua consequência histórica.

Paralelamente, Paulo organizou ciclos de discussão no Movimento dos Trabalhadores


Rurais Sem Terra (MST), muito originais pela concepção democrática, sem prejuízo da
exigência intelectual. Sem falsa reverência, os militantes do movimento debatiam sua
experiência com especialistas de primeiro nível, os quais, por seu lado, tinham o raro
privilégio de se explicar diante de um auditório de outra classe social, politizado e
vivamente interessado. Eu mesmo tive o prazer de participar de ocasiões desse tipo, as
quais não esqueci.

Nessa altura, Paulo viajara o país de alto a baixo e era grande conhecedor de nossa
produção universitária de esquerda. Por decisão deliberada, não recusava convites
para participar de bancas acadêmicas, viessem de onde quer que viessem, desde que
houvesse afinidade política. A qualidade e o espírito de suas arguições naturalmente se
impuseram, fazendo dele um examinador muito solicitado, e – com o tempo –
informadíssimo sobre o movimento intelectual brasileiro. Assim, a incrível expansão

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da pós-graduação em Filosofia e Ciências Humanas no país encontrava nele um foco de
reflexão e síntese, que por sua vez vinha desaguar no Seminário das Quartas, com seus
convidados interessantes, vindos de toda parte.

Se buscarmos comparações, o esforço talvez seja parente da atuação discreta e


nacional de Antonio Candido – como que um ministro da Cultura sem pasta – em favor
da formação intelectual brasileira. Noutra faixa, pela aposta na revisão crítica da
produção contemporânea, e também na interpenetração em grande escala de filosofia,
história, teoria social, pesquisa empírica e anticapitalismo, estamos próximos
da Revista de pesquisa social dos frankfurtianos nos anos de 1930.

Quanto à produção escrita de Paulo 2º , incisiva e audaciosa, não cabe nos limites desta
nota.

Iná Camargo Costa


Professora aposentada de Teoria Literária da USP

PROPOSTA AOS JOVENS

Como testemunha participante da produção de Paulo Arantes desde a publicação


de Hegel: a ordem do tempo, gostaria de avisar aos mais jovens que, para melhor
entender algumas implicações deste seu último livro, Formação e desconstrução: uma
visita ao Museu da Ideologia Francesa (2021), seria bom ler ou reler os que com ele
fazem constelação, a saber: Ressentimento da dialética: dialética e experiência
intelectual em Hegel (1996), O fio da meada: uma conversa e quatro entrevistas sobre
filosofia e vida nacional (1996) e Um departamento francês de ultramar: estudos sobre a
formação da cultura filosófica uspiana (1994).
Recortando um único tema que me interessa desde aqueles tempos, em Ressentimento
da dialética é possível encontrar afirmações como “Heidegger se ocupa sem rodeios da
‘verdade interna’ e ‘grandeza’ do nacional-socialismo em sua Introdução à
metafísica de 1935”. Em Formação e desconstrução ele menciona a “aberrante
transplantação gauchista de Heidegger” para a França. E em Um departamento francês
de ultramar avisa que um dos contrabandistas responsáveis pela semeadura se chama
Maurice Blanchot, também referido em O fio da meada. Proposta aos jovens: por que
não desenvolver esse fio que Paulo deixou de lado para explicar o vínculo entre
Heidegger, desconstrução, máquinas desejantes e outras fraseologias que assolaram (e
parece que continuam assolando) o discurso dito de esquerda mundo afora?

Leda Paulani
Professora titular (sênior) do Departamento de Economia da FEA-USP

SINTONIZADO COM O RELÓGIO DA HISTÓRIA

Não é fácil falar sobre Paulo Arantes, pois muito precisaria ser dito. Dono de uma
escrita aguda, doída, mas absolutamente sedutora, é impossível passar incólume pela
leitura de seus ensaios (e olha que sou economista). Invariavelmente sintonizado com
o relógio da História, Paulo foi para mim sempre uma referência inescapável e é
mencionado em muitos de meus textos. Ademais, tenho com ele uma dívida intelectual
impagável. Quase tudo de que mais gosto, dentre o que produzi nos últimos 20 anos,
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foi instigado por ele, que não se furta à militância intelectual, de todas as formas
possíveis.

Isabel Loureiro
Professora aposentada do Departamento de Filosofia da Unesp

DO PROFESSOR DE FILOSOFIA AO INTELECTUAL PÚBLICO

Em 1976 meus colegas da Filosofia me desaconselharam a fazer o curso do Paulo


Arantes, alegando que não dava para entender nada. O professor, além de falar baixo e
fumar sem parar, abria longos parênteses que faziam os ouvintes perder o fio da
meada. Por sorte, não lhes dei ouvidos. Sou muito grata por essas aulas memoráveis
sobre as relações entre idealismo alemão e Revolução Francesa, que estão na origem
de meu trabalho posterior sobre a Revolução Alemã de 1918 e a obra de Rosa
Luxemburgo. Ao longo dos anos, o Paulo professor de filosofia tornou-se um
intelectual público reconhecido, que, no incansável exercício da “dialética puramente
negativa”, constrói uma teoria crítica adequada ao presente fim de linha.

Tales Ab’Sáber
Professor de Filosofia na Unifesp
TRÊS GRANDES NEGATIVAS

São três as grandes negativas que movem o pensamento de Paulo Arantes. Caíram as
fixações metodológicas de departamentos de Filosofia e Humanidades de ultramar,
com suas justificadas suspensões do juízo do caso histórico. Ele recusou a estrutura de
negociação permanente de uma democracia de fundo liberal, pactada com seu projeto
ditatorial de origem e cuja melhor face era a virtual tentativa de encaminhá-la para
uma social-democracia mínima, entre ideologia e resgate limiar de pobres, de um
mundo que articulava a miséria como gestão e ocultamento, também administrado,
dos próprios modos de execução. Como fio que liga tudo, recusou a aceitação tácita do
andamento domingo do mundo do capitalismo em devir de globalização nova, dos anos
1990 e 2000. Paulo Arantes é um dos críticos intensos do sistema-mundo
contemporâneo e seu tempo, desde o caso ou descaso Brasil.

José Fernando Peixoto de Azevedo


Dramaturgo e professor na EAD-USP

TEATRO, ESTUDOS NEGROS E A INTERVENÇÃO DE ARANTES

Ainda calouro, deparei-me com Paulo Arantes e, desde então, suas falas e seus textos
movem. Aliás, Paulo escreve como fala, e há, nesse gesto, todo um programa.
Tropeçando na sintaxe arantesiana, pus-me em fuga, e no trânsito entre filosofia e
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teatro, lançado a uma cena nem sempre avisada de seus impasses, reconheci ali o
campo efetivo de emergência de sujeitos que vivem, na fratura, a brecha: um teatro
sem sociedade? Em fuga, minha negritude fez corpo no alinhamento machadiano de
uma tradição que se desdobra em outra teoria crítica. É assim que a leitura
arantesiana dos deslocamentos de uma certa filosofia continental em chão
estadunidense permite ler, a contrapelo, um tanto do que chamam estudos negros.

Tatiana Maranhão
Socióloga, professora na Facamp

José César de Magalhães Jr.


Sociólogo, professor na Facamp

CRÍTICA DAS DERIVAS DE ESQUERDA

Para quem trabalhava na área social, Paulo Arantes tinha um texto cuja visada, mesmo
de circunstância, tornava patente a vertigem ideológica na virada dos anos 2000.
“Esquerda e direita no espelho das ONGs” estava talvez na linhagem da sua crítica das
derivas da esquerda que, desde as vanguardas francesas do pós-1968 até o
“reformismo fraco” dos anos Lula, sorviam o engajamento militante no vórtice das
urgências humanitárias. Pavimentava-se a derrogação da imaginação social e política
em pura administração. A convergência insidiosa de poder, dinheiro e “mundo da
vida” era então desnudada no amálgama da terceirização dos serviços públicos, da
prospecção dos mercados populares e da responsabilização individual pela tragédia
social. Paulo leva o gesto crítico aos confins dessa tibieza em “não confrontar o PIB”,
que reincide nas tentativas recorrentes de “salvamento” dos patamares mínimos de
uma exploração civilizada.

Pedro Rocha
Psicanalista e professor de Filosofia na Unirio

HORA DE PULAR FORA?

A dialética ressentida; o zero à esquerda; a modernidade abortada ou concluída, tanto


faz – é importante sublinhar o humor de Paulo Arantes, da sua escrita e da sua fala: o
riso com que ele enumera as catástrofes genialmente inventariadas. Não tem riso
libertador, ali. O humor é de cadafalso mesmo, é o riso de quem perdeu, dos
engrupidos pela civilização moderna, de quem desistiu de levar a sério os esquemões
de sua superação imanente. Essa civilização que nos frustrou é apresentada como um
desastre contínuo, e sua promessa, portanto, era infernal: só nesse sentido há algum
alívio cômico. Trata-se, por isso, também do riso meio sem graça de quem, estando na
merda, olha ao redor e, atravessando o constrangimento, indaga se já não será a hora
de pularmos fora.

®® Tedeia
Gilberto https://t.me/PDFs_Brasil
Professor de Filosofia na UNB

PASSAGEM P-T-P’

Paulo Arantes, certa vez, coordenou um curso na Escola Nacional Florestan Fernandes
do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O plano de ensino e o perfil
das atividades voltadas à formação “discente” na série de jornadas trissemanais de
imersão no campus de 2005 a 2007: encontros diários das 8 às 18 horas, com ele
presente em todas as atividades e etapas. Por repertório: as questões e os textos que
perpassavam os encontros do Seminário das Quartas. Cerca de 40 duplas preparavam
de manhã a “classe” com leituras e debates de bibliografias, retomadas e debatidas
com duplas de autores à tarde. Merece menção Roberto Schwarz, ao final do dia,
declarar-se emocionado porque o livro Duas meninas (1997) acabava de encontrar,
finalmente, seus leitores. Eu, ante tal ocasião de saltar fora do trabalho alienado
docente que a instrução cotidiana nas escolas e suas diretrizes implicam, vou abreviá-
la como uma passagem P-T-P’, Prática-Teoria-Prática’, que supera a reposição do
mundo danificado pelo esquema D-M-D’, Dinheiro-Mercadoria-Dinheiro’.
Alguns militantes
O SONHO PASSOU NA JANELA

“O que você sabe sobre tarifa zero? Como ela se liga à luta contra o aumento e às
mobilizações que têm balançado o país? O Movimento Passe Livre de São Paulo
convida para uma aula pública que vai discutir essas e outras questões nesta quinta-
feira, às 17h. O local não poderia ser mais adequado: do lado de fora da Prefeitura.”

Naquele fim de tarde frio, o professor aposentado não respondeu às perguntas. Fez
outra: “com o que sonham os que sonham acordados no transporte público?”. De olho
no que continua a mobilizar milhões para essa espera encaixotada de todos os dias, os
escritos de Paulo Arantes provocam a encontrar, no chão massacrante do trabalho –
sim, ainda ele, o trabalho em sua “centralidade negativa” contemporânea –, pistas para
descobrir o que de fato acontecia sob a pacificação do governo da esquerda e divisar
como a coisa virou.

Enquanto o sonho da sociedade salarial sumia no retrovisor do ônibus lotado, o


trabalho ganhava ares de guerra fratricida – e embalava o pesadelo que viria pela
frente… Mas aquele professor ainda é dos poucos a insistir nos verdadeiros devaneios.

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As epístolas de Paulo aos seus
contemporâneos
Edição do mês

1. Marildo menegatdisse:

2 de agosto de 2021

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(Foto: Marcus Steinmeyer)

Num intelectual como Paulo Arantes residem muitas faces. Ele é brilhante em quase
todas. Sua obra é algo como uma invenção intensa de si mesmo num mundo em
escombros. E isso explica muito da unidade desconcertante desse ser multifacetado.
Seus escritos vão da difícil decifração de uma tese original sobre Hegel ao fascinante
conteúdo dos ensaios de Ressentimento da dialética: dialética e experiência cultural em
Hegel (1996). Eles incluem formas estranhas de prosa, da entrevista-livro O fio da
meada: uma conversa e quatro entrevistas sobre filosofia e vida nacional (1996) à
radiografia dos tempos acelerados do apagão nacional dos anos 1990, nos governos de
FHC, presentes em Zero à esquerda (2004). Mas Paulo Arantes é também, e cada vez
mais, uma figura à vontade em lives, em que a oralidade vai compondo interpretações
e insights que cabem nos melhores momentos do pensamento crítico que por estas
terras se produz. E há ainda um Paulo cujo único registro que temos é o da memória
de quem o ouviu. Na soma de tudo, um autor esotérico, pois o que ele pensa não tem
nada de simples nem de facilmente digerível. A questão de quão hermético é o acesso
aos seus escritos e da matéria pesada do seu pensar não é um problema de afetação de
um estilo difícil, mas um labor de compreensão da realidade que beira a obsessão.
Como poucos, Paulo enxergou o que estrutura essa realidade e compreendeu a
dinâmica que a empurra para o abismo. Além disso, tal reflexão sobre uma sociedade
periférica no olho do furacão na era da crise estrutural do capitalismo não pode, ao
menos na sua perspectiva, ser dissociada de uma conversa com a tradição crítica
brasileira. Mesmo que seja um pensar em muito diferenciado desse corpo teórico, o
fato é que a tradição remete a um programa de ação, a uma preocupação de leitura da
formação do país e a respostas – essas costumam ser o início dos dissensos – sobre
esse destino partilhado. Em outras palavras, ela estabelece um objeto comum de
estudos.

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Com Luiz Felipe de Alencastro (de costas), Roberto Schwarz e Fernando Haddad, no lançamento do
livro “Desorganizando o consenso” (1998)
SOBRE O DESASTRE EM CURSO

Num desses momentos memoráveis – não lembro se foi gravado, mas pouco importa –,
Paulo (talvez eu possa estar inventando isso) traçou um diagnóstico do difícil lugar de
certos autores (no qual eu o incluiria) da tradição crítica brasileira do pós-1964.
Segundo ele, a concepção de colapso da moderna sociedade produtora de mercadorias,
desenvolvida por Karl Marx nos Grundrisse, decorrente do limite efetivo da criação de
mais-valor representado pelo alto desenvolvimento tecnológico do sistema, foi
tornando-se um patrimônio teórico (no mínimo como hipótese de trabalho) comum
entre alguns desses intelectuais (penso em Roberto Schwarz) nos idos dos anos 1970
e 1980. O capital como uma autocontradição em processo, cuja tendência lógica
imanente do seu desenvolvimento é a catástrofe, teria sido inclusive tema de uma ou
duas teses de doutorado naquela época. Essa posição contrária à ideia de progresso
ilimitado da filosofia da história ilustrada, que o entendimento da tendência ao colapso
produziu, antes de alimentar uma cena de desistência do debate público – este
dominado pela pressa do novo e da modernização, nunca entendida como um
movimento crescentemente destrutivo –, teria produzido nesse grupo uma redobrada
angústia. Diferentemente da geração anterior dos clássicos da tradição crítica, que
sempre se pautou pela denúncia da iníqua distribuição da riqueza nacional, e que
produziu o que Antonio Candido chamou de “consciência traumática do atraso”, Paulo
percebeu que o atraso não era a lentidão de um paquiderme na linha evolutiva das
nações, mas um lugar que tenderia a fundir, numa única realidade, o aprofundamento
da desgraça da miséria brasileira num quadro de desmonte do capitalismo mundial,
que se iniciava pela periferia. A imagem que Paulo usou nesse debate, que agora
recupero para explicar tal posição, foi muito reveladora da solidão dessa invenção de
si num mundo em escombros. Primo Levi descreveu, num de seus testemunhos sobre
os campos de concentração, uma partida de futebol entre agentes nazistas e
prisioneiros judeus. O sentido do jogo (para os judeus), aparentemente impensável
nesse contexto, seria o de uma suspensão do tempo do fim. Para Paulo, diante da
barbárie incontornável da formação social do capitalismo no Brasil, a tradição crítica
devia pensar esse tempo do fim e (quem sabe?) retardar a barbárie definitiva.

Com conhecimento de causa, creio, há alguma semelhança de propósitos com o


Theodor Adorno do pós-guerra, que, ao voltar para a Alemanha, insistiu no papel de
esclarecimento a ser ainda exercido pela filosofia. O próprio Paulo evocou, se não me
engano, as famosas lições radiofônicas do filósofo alemão daquele período. A dialética
do esclarecimento havia mostrado que o nazismo não foi um desvio, mas uma
possibilidade latente do processo de modernização. Se a barbárie, pensava Adorno, é o
contrário da formação, “também é algo essencial que os indivíduos sejam
desbarbarizados. A desbarbarização da humanidade é a precondição imediata da sua
sobrevivência”. Retardar a barbárie tem muito de entregar-se a esse jogo. A formação
nacional, que é o tema em comum com a tradição crítica, dado o horizonte de crise do
capitalismo, havia entrado numa fase de desmanche.

Nesse sentido, a ditadura civil-militar foi um enigma quase indecifrável. Ela não era a
brutalidade fetichista do antissemitismo com o esforço de guerra total do fascismo,
mas tinha muito do impulso modernizante que os movimentos italiano e alemão

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representaram. Assim como nestes, a industrialização se aprofundou e a indústria
cultural foi atualizada – lá, no uso da indústria cinematográfica; por aqui, na boçal
assimilação do hábito cotidiano de assistir à televisão por muitas horas. Ao fim se
formou um modo de vida moderno e urbano em que o fetichismo do dinheiro, produto
da sociabilidade do valor, se impusera como forma social-total saturada de
incontornável lixo cultural. O cerne do enigma é que essa modernização representou o
máximo do desenvolvimento do capitalismo por aqui e criou as condições para que se
produzissem, a partir de então, novas patologias, maiores inclusive do que as
cultivadas pela ditadura. Como alguém já observou, o país passou a ser
contemporâneo do que havia de pior no capitalismo, sem nunca ter participado do seu
(fraco) processo civilizatório. Quando a ditadura militar entrou em debacle no fim dos
anos 1970, não foi o resultado do esgotamento da dominação política, apenas; mas o
sinal de uma crise maior em curso. Nesse sentido, o colapso passou a ganhar
historicidade e contornos mais definidos na experiência local. Durante o período de
conclusão da redemocratização, esses elementos já eclipsavam o horizonte. Poucos
perceberam naquele momento que o futuro tinha sido confiscado. O modo como Paulo
Arantes reagiu a essa situação histórica permite compreender sua fidelidade ao que
Hegel julgava imprescindível: a filosofia há de ser uma reflexão sobre seu tempo.
Quando o pós-modernismo já ocupava espaços e o amesquinhamento da reflexão se
apresentava na figura do especialista, Paulo reinventou o intelectual público. Há nisso
um sentido de recomposição do espírito universal (dessa vez numa versão concreta)
desde a periferia.

.
Quando o pós-modernismo já ocupava espaços e o
amesquinhamento da reflexão se apresentava na
figura do especialista, Paulo reinventou o
intelectual público
.

A última década do século 20 obrigou uma série de difíceis resoluções. A começar pela
constatação de que a tradição crítica – que, em grande parte, embarcara no governo de
FHC – havia sido extinta. Da mesma ordem era o afundamento da crítica à sociedade
moderna em outras partes do mundo. Portanto, não era apenas um problema local.
Nos anos neoliberais, algo da realidade se alterava muito rápido, deixando náufragos
os desavisados. O capital entrou numa fase agônica de reprodução depois de 1989,
quando o eixo da acumulação não girou mais em torno do processo de produção de
mercadorias, mas da centralidade do capital fictício na simulação de lucros. O contato
com a teoria da crise de Robert Kurz, por esses anos, ampliou e confirmou a percepção
paulínea (e o desespero, penso) sobre o desastre em curso.

ALGO NOVO ENTRE NÓS

Os três livros que Paulo escreveu desde então são emblemáticos e ajudam a entender a
figura (do espírito) que ele inventou. Com Zero à esquerda, Extinção (2007) e O novo
tempo do mundo: e outros estudos sobre a era da emergência (2014), a forma de sua

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escrita mudou, cedeu a uma urgência do tempo (que, como sabemos, é a essência de
toda crítica), desdenhando quase que por completo (pois o hábito do cachimbo
sempre deixa vestígios na linha da boca) o dissertar acadêmico. Não será possível,
infelizmente, analisar em pormenor esses livros, mas são algo novo entre nós (lugar
que Paulo divide, em parte, com Schwarz). As exigências dialéticas de dar conta da
dinâmica da sociedade burguesa enquanto totalidade, e suas articulações entre o
acontecimento local e a dinâmica global, são ali ensaiadas, produzindo um conjunto
que espanta pelos acertos. A entrada do novo tempo do mundo num estado de
exceção, em que as guerras de ordenamento passariam a ser a regra, não foi antevista
a partir de uma olhadela no último artigo do autor da moda em Paris, como é comum
na prosa acadêmica – inclusive de esquerda –, mas pela compreensão cerrada dessa
articulação em que, por uma contraintuição, Paulo considera (com Schwarz) que a
realidade da periferia é o movimento tendencial da totalidade do sistema. No colapso
da periferia reside a verdade do capitalismo. Essa prosa tem um esforço de
representação (a tal obsessão de Paulo) que dialoga e inverte o absurdo do lugar do
narrador de Memórias póstumas de Brás Cubas. Ela é seu destino realizado: a distopia
efetiva da morte da nação.

Eu me referia, anteriormente, à intensa invenção de si do nosso Autor. Penso que essas


muitas faces são o resultado de um desespero. São algumas pistas para que seus
contemporâneos despertem antes do fim. Suas formulações já não podem contar,
como sugeriu Adorno, com o conforto de serem lançadas em garrafas ao mar. Não
haverá quem as leia no futuro se não pararmos o curso catastrófico do presente. Este,
me parece, é o jogo que Paulo Arantes joga. João Saldanha dizia (ou talvez eu o esteja
inventando) que o grande craque no futebol é aquele que amplia o repertório de
possibilidades de um bípede se equilibrar elegantemente mantendo a bola sob o
domínio dos pés.
Uma coleção digital e pública para a obra de Otília e
Paulo Arantes
No site Sentimento da Dialética, o conteúdo é gratuito e favorece o conhecimento livre
e desmercantilizado

Numa iniciativa que se saiba inédita, Otília e Paulo Arantes disponibilizarão toda sua
obra em formato digital e gratuito em um site que apresenta a coleção Sentimento da
Dialética (www.sentimentodadialetica.org). Recém-inaugurado, o site já conta com 15
e-books (em vários formatos para download) e 10 vídeos, entre outros materiais, e
estará em permanente expansão nos próximos meses. A coleção é coordenada pelo
filho do casal, Pedro Arantes, professor da Universidade Federal de São Paulo/Unifesp,
e adota o software livre PKP/OMP (o mesmo utilizado pela Universidade de São
Paulo/USP e pela Universidade Estadual de Campinas/Unicamp em suas plataformas
de livros abertos). A identidade visual e o projeto gráfico dos e-books é da designer
Paula Astiz.

A coleção é assim apresentada: “O novo tempo do mundo exige dos intelectuais


responsabilidades que lhes são intrínsecas: tornar a força das ideias parte do
movimento de entendimento e transformação do mundo. Os filósofos Otília Beatriz
Fiori Arantes e Paulo Eduardo Arantes cumprem, juntos, há mais de 50 anos, a tarefa
da crítica como intelectuais públicos atuantes, transitando entre diversas áreas das
humanidades e da cultura, em diferentes audiências e espaços de formação”.

Um dos objetivos da coleção de acesso aberto é permitir um encontro da obra de Paulo


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e de Otília “com um público cada vez mais amplo, plural e popular, formado por
estudantes e novos intelectuais e ativistas brasileiros”. Ao mesmo tempo, pelo tipo de
plataforma e licença aberta, faz parte do “movimento contemporâneo em defesa do
conhecimento livre e desmercantilizado, na produção do comum e de um outro mundo
possível”.

Marildo Menegat é professor no Núcleo de Estudos de Políticas Públicas


em Direitos Humanos da UFRJ.
A Exceção pensada
Edição do mês

2 de agosto de 2021

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(Foto: Marcus Steinmeyer)

Poderíamos dizer que Paulo Arantes é um pensador do mundo contemporâneo em


crise – caso o próprio autor não julgasse que “crise” é um conceito envelhecido. Como
assim? Justamente em uma época em que há crises por todos os lados, isso sem
mencionar a crise fundamental de valorização do capital que se arrasta já por mais de
quatro décadas e que, de forma definitiva, arrancou o chão do horizonte progressista
da modernização, que por sua vez ocorre agora somente de modo simulado e
estruturalmente provisório? Pois então, como ele mesmo diz em uma entrevista a
Maurílio Botelho e Marcos Barreira na revista Sinal de menos, em 2015, logo após a
publicação de O novo tempo do mundo: e outros estudos sobre a era da emergência, o
conceito de crise, em sentido enfático, pouco significa no momento em que “Presente e
Crise parecem formar um bloco só”. Paulo Arantes não é, portanto, um teórico da crise
– mas podemos dizer que é um teórico da exceção. Ocorre que, ao trocar um conceito
pelo outro, o problema só está aparentemente resolvido: se por um lado a crise, que é
por excelência instante e momento de decisão, parece se tornar inseparável de um
presente contínuo e “indecidido”, o que de certo modo anula a própria noção de crise
tal como ela se constitui na modernidade, por outro lado a exceção, na medida em que
ela se normaliza, também é “negada” como exceção: a ideia de exceção normal é, tal
como a noção de crise permanente, um contrassenso lógico, uma contradição em
termos. No entanto, como insiste diversas vezes o autor, para além de uma retórica
política da urgência (que se torna inseparável do diagnóstico), é esse o conceito que
descreve de forma mais adequada o mundo contemporâneo.

A EXCEÇÃO OPERA

Em sentido filosófico (ou científico, se quisermos), a exceção se apresenta como uma


dificuldade para o pensamento, já que este, a princípio, segue normas – que, por sua
vez, estão lastreadas na regularidade do mundo, seja ele natural ou social, passível
então de ser conhecido. No âmbito da filosofia “profissional”, não são poucos os que
identificam a própria razão a certa normatividade, e quem se distancia disso está
sujeito à acusação de niilismo, irracionalismo, “déficit normativo” etc. A rigor, a
exceção é um limite para o pensamento; ela nem sequer poderia ser objeto da razão
teórica, no máximo um problema da prática. De forma análoga, a exceção é o limite do
direito, isto é, ela não é objeto do jurista (normativista por excelência), mas, na melhor
das hipóteses, é assunto relegado para a polícia, na qual o submundo do concreto
opera de maneira diversa da idealidade da norma; na qual as normas se aplicam ao
serem violadas. Assim como o estado de exceção é o não-direito no âmbito do direito,
pensar a exceção significa colocar a filosofia diante do não-filosófico, daquilo que não é
meramente conceitual (o “não-idêntico”, diria Adorno). Ora, quando Roberto Schwarz
apresenta o problema da matéria nacional logo no início do célebre ensaio “As ideias
fora do lugar” (1973), diz ele: “Toda Ciência tem princípios” – mas o Brasil, por escapar
a esses princípios que tanto explicam como falham em explicar a realidade social, “está
fora do sistema da ciência”. Apesar do efeito cômico da frase, tal afirmação, para além
da ironia (que aqui é objetiva), é “séria”. Compreender essa visão bifocal que apreende
tanto a norma como a exceção – ou melhor, que apreende a norma por meio da

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exceção – talvez possa ajudar quem deseja se aventurar na leitura da obra, à primeira
vista caótica, fragmentada e assistemática de Paulo Arantes, cuja incansável
curiosidade intelectual (que não arrefece nem aos quase 80 anos) atravessa disciplinas
e assuntos dos mais diversos e improváveis.

Normalidade e exceção permanente


não são idênticas, mas são, por assim
dizer, mutuamente constitutivas
.

Mas tentemos também desdobrar isso de modo um pouco menos abstrato, afinal
aquilo que aparece como estilo de pensamento, ou melhor, método – mesmo que
antimetódico, tal qual o ensaio como forma – se justifica somente porque, na própria
realidade, a exceção opera. Ou seja, não se trata de uma estetização do pensamento
que se perde no caos e na contingência, mas de algo que possibilita – não por acaso –
algumas das compreensões mais exatas do mundo contemporâneo. A que se refere
então Paulo Arantes quando diz “Exceção” (assim mesmo, grafada em maiúsculo)?
Claro, para responder seria necessário repassar por inteiro, pelo menos, dois de seus
livros. A exceção brasileira, ou a exceção “em geral” (se pudermos dizer assim), é
certamente o ponto de fuga do pensamento de Paulo Arantes – pelo menos nos últimos
20 anos, quando o termo passou a se tornar mais presente em sua escrita; primeiro no
livro Extinção (2007), que por sua vez se desdobra em O novo tempo do mundo (2014),
no qual a “era da emergência” ganha contornos teóricos e históricos bastante nítidos,
embora permaneça avessa a definições sumárias. Hegel recusava igualmente a ideia de
uma definição que antecedesse a exposição.
Os termos “exceção” e “emergência” ora se confundem, ora se distinguem, a começar
pela tradução deliberadamente “errada” da oitava tese de Walter Benjamin sobre o
conceito de história, que serve de epígrafe à coleção Estado de Sítio, coordenada pelo
próprio autor. O Ausnahmezustand, que também em Benjamin tem dois significados, se
desdobra em dois termos: por um lado, o “estado de exceção em que vivemos” é, na
verdade, como se vê a partir de baixo, “regra geral”. O fascismo, na compreensão
histórico-filosófica de Benjamin, é uma falsa exceção. Reaparece aqui o problema ao
qual voltaremos. No segundo momento da tese, diz Benjamin que, no momento em que
compreendermos que esse estado de exceção é uma falsa exceção, “perceberemos que
nossa tarefa é criar um verdadeiro estado de emergência” (no original,
também Ausnahmezustand). Benjamin se refere à revolução, entendida agora não mais
como a afirmação de tendências dadas pelo curso do mundo (ou seja, não mais como
progresso ou realização de uma norma fornecida pela própria história), mas como um
corte que interrompa a necessidade histórica – um “milagre”, não divino e
providencial, mas que seja resultado da ação humana, por sua vez capaz de produzir
uma (verdadeira) exceção. Também Hannah Arendt, explicando o que é liberdade no
seu livro Entre o passado e o futuro (1954-1968), defende que a ação propriamente
política ocorre quando há “interrupções de uma série qualquer de acontecimentos”,
quando o automatismo social é rompido, de modo que “uma capacidade de realizar
milagres deve ser incluída também na gama das faculdades humanas”. Em suma, o
“milagre” da verdadeira exceção (que Arendt chama de começo) significa: a
emergência do efetivamente novo – esse era já o objeto de reflexão de Paulo Arantes
quando defendeu, em 1973, uma tese sobre o tempo e sua ordem em Hegel. Já a “falsa”
emergência (ou falsa exceção) significa: repetição daquilo que sempre foi, mas com
roupas novas. Mas essa separação entre emergência do novo e repetição, ou entre falsa
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e verdadeira exceção, não é nada simples, tampouco é ela uma separação absoluta,
pelo contrário: um está engrenado no outro. Sabemos que isso dá em dialética e, como
estamos tentando sugerir, há, em Paulo Arantes, uma negatividade dialética própria à
noção de exceção.

A ambivalência das figuras da negação, que podem assumir tanto uma forma “falsa”
quanto uma “verdadeira”, é algo bem conhecido pelo autor – assim como há “duas
exceções”, Paulo Arantes reconhece igualmente “dois pânicos” (Extinção). Também em
um ensaio de 1983, por exemplo, comentando a “querela do niilismo” no idealismo
alemão, diz ele que, assim como haveria um “bom” e um “mau” infinito, intimamente
ligados e ao mesmo tempo distintos (tal como na exposição da Ciência da Lógica, de
Hegel), há um “falso niilismo”, próprio de um “idealismo infeliz”, e um “verdadeiro
niilismo”, sendo este “o foco de um processo de implosão que Gérard Lebrun chamou
de éclatement de la Finitude [explosão da Finitude]”, ou ainda, “um niilismo por assim
dizer filtrado pelo crivo do Conceito” – em suma, um niilismo organizado. Ares da
negação determinada, certamente. Mas como ao hegelianismo “é inerente esse balanço
entre o falso e o verdadeiro”, sua sombra permanente é o Nada indeterminado, que
está aí, pairando, destrutivo, mas que não dá em nada – tal como a exceção perene.

A noção de estado de exceção permanente, embora empregada por aí a torto e a


direito, poucas vezes é pensada até o fim. Tal conceito deve significar algo a mais que a
constatação evidente de que o mundo é uma calamidade. Trata-se de um conceito,
como se nota, paradoxal: o que é permanente não pode ser excepcional e vice-versa.
Quem ler Carl Schmitt, o jurista que pensou os limites do direito ao pensar o estado de
exceção até suas últimas consequências, não encontrará no texto a noção de exceção
permanente, ao menos não nesses termos. Entretanto, ele reconhece que a exceção é,
digamos, mais constitutiva que a norma e a letra da constituição. Schmitt certamente
não é um teórico da revolução, tampouco um teórico da crise. Mas pode-se dizer que é
um teórico da permanente evitação da crise como aquilo que constitui a normalidade,
cuja verdade é seu oposto. Ou, nos termos de Jacob Taubes, ele é um “apocalíptico da
contrarrevolução”. Assim, é latente a noção de um estado de exceção permanente que
seria, na língua de Hegel, a “suprassunção” da exceção e da norma, de modo que um
contém o outro, um sustenta o outro.

A VERDADE PERIFÉRICA DA MODERNIZAÇÃO

É justamente a possibilidade de distinguir guerra e paz (exceção e normalidade) o que


funda a modernidade e suas dualidades constitutivas. Mas esse “dois”, essa distinção
entre guerra e paz, tem um avesso. Esse avesso é o subsolo da normalidade europeia
em vias de consolidação com o fim das guerras civis e religiosas, que é, a saber,
a indistinção entre guerra e paz. Esse subsolo, onde reina tal indistinção que foi
expurgada do território europeu para que se estabeleça seu nómos da terra, é nada
mais nada menos que a Colônia: historicamente, é ali onde se forma, em sentido
propriamente moderno, o estado de exceção permanente. Eis a verdade periférica da
modernização, cuja temporalidade sem desenvolvimento reaparece no centro no
instante de seu colapso. Normalidade e exceção permanente não são idênticas, mas
são, por assim dizer, mutuamente constitutivas. A negação dessa exceção permanente
não é, portanto, a reafirmação da norma, visto que o que a sustenta é justamente
aquilo do que devemos nos livrar. A crítica imanente (para usar um termo da velha
guarda frankfurtiana) olha para a exceção e não lamenta a não realização da norma,
que teria se convertido em ideal eterno, mas compreende que a norma se realiza na
medida em que passa ao seu contrário. A teoria crítica de Paulo Arantes não é
nenhuma crítica abstrata da ordem, mas tampouco tem a normalidade como critério.

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Se há uma “instância intramundana de transcendência”, ela se encontra em algo
presente enquanto ausente: uma latência permanentemente negada e que todavia não
abandona a longa espera para a qual foi educada; algo a que permanentemente se
previne que aconteça, perenizando a falsa exceção, e que, contraditoriamente, também
ganha o nome de Exceção.

Felipe Catalani é doutorando em Filosofia pela USP.

Luiz Philipe de Caux é professor de Filosofia na UFRN.


Cavar sob os escombros da história
Edição do mês

2 de agosto de 2021

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(Foto: Marcus Steinmeyer)

Desde pelo menos o fim do sistema soviético, simbolizado pela queda do Muro de
Berlim em 1989, multiplicaram-se, à esquerda e à direita, os discursos a respeito do
esgotamento das energias utópicas e as declarações triunfantes acerca do capitalismo
ocidental como horizonte insuperável das sociedades humanas, coroados finalmente
pelo complemento ideológico da decretação do fim da história. Antes fosse, diria muito
provavelmente Paulo Arantes, se levarmos em conta o ambicioso diagnóstico de época
traçado em seu livro O novo tempo do mundo: e outros estudos sobre a era da
emergência (2014), para o qual o desaparecimento das expectativas revolucionárias é
apenas parte do problema da nossa época.

Embora se prometesse um mundo sem maiores sobressaltos, cujos conflitos seriam


dali em diante administrados pela última potência dominante, o que de fato
presenciamos nas décadas seguintes foi a devastação social promovida pelas políticas
neoliberais de austeridade fiscal, desregulamentação dos mercados e o ataque dos
interesses privados aos bens e serviços públicos. Longe do paraíso prometido pelos
vencedores, o que temos presenciado é o surgimento, agora no centro do capitalismo
mundial, de uma desigualdade econômica crescente com o esvaziamento da proteção
social, crises migratórias e humanitárias das populações periféricas excluídas dos
fluxos de riqueza e, por fim, a crise ambiental e climática decorrente da disputa por
recursos naturais transformados em mercadoria.
Em 2008, uma crise financeira de proporções inéditas parecia finalmente começar a
colocar em xeque o braço econômico desse arranjo histórico-social nefasto. Mas
efetivamente não se verificou nenhuma reação política que fosse capaz de pelo menos
obrigar os donos do poder e do dinheiro a arcar com o prejuízo que eles próprios
causaram. Em vez disso, o sistema se recompôs com a irrigação pelo poder público de
trilhões de dólares no mercado financeiro, deixando a conta para ser paga pelos
Estados e suas populações endividados. Ora, esse parece ser de fato o novo tempo do
mundo diagnosticado por nosso autor. Diante de um quadro de calamidades, para
ficarmos só nas últimas três décadas, temos sido incapazes de oferecer respostas à
altura da gravidade dos fatos, contrariando de resto o dito de Karl Marx de que a
humanidade só se põe problemas que pode resolver. Entramos, pois, numa era de
emergências para a qual não conseguimos projetar uma saída. Não se trata de
resignação ou conformismo, mas de uma situação objetiva da qual mesmo as reações
mais radicais não têm conseguido escapar. E assim, a contragosto, vamos nos
adaptando indefinidamente, de crise em crise, de desastre em desastre, sem nenhum
fim à vista.

Diante de um quadro de calamidades, para


ficarmos só nas últimas três décadas, temos
sido incapazes de oferecer respostas à altura
da gravidade dos fatos
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SEM AS ANTIGAS ILUSÕES

Para refletir sobre esse imbróglio, talvez valha a pena seguir uma pista oferecida pelo
historiador italiano Enzo Traverso, em seu livro Melancolia de esquerda: marxismo,
história e memória, que, creio, segue na direção do que anda pensando o filósofo
brasileiro. Muito inspirado pela ideia benjaminiana de escrever a história a contrapelo,
ou de escavar sob a história dos vencidos, Traverso nos lembra que durante as lutas
revolucionárias do século 20, de outubro de 1917 a maio de 1968, havia a confiança de
que, para além do discurso oficial dos regimes stalinistas, a emancipação seria
desentranhada do seio mesmo da barbárie. A história, contudo, não confirmou essa
certeza e o desfecho foi outro: “A dialética do século 20 foi enterrada. Em vez de
liberar mais energias revolucionárias, o fim do socialismo de Estado acabou por frear a
trajetória histórica do próprio socialismo. A inteira história do comunismo foi
reduzida a sua dimensão totalitária”. O efeito dessa sobreposição indevida entre
socialismo e totalitarismo foi o “desaparecimento absoluto de toda uma representação
do século 20”, e pela primeira vez desde então surgiu uma “consciência histórica
compartilhada” sobre o comunismo como símbolo de opressão. Como se vê, não se
está falando apenas do ressurgimento da retórica anticomunista de sempre, mas da
interdição de um passado de lutas que acabou por bloquear a própria imaginação
política de esquerda. “Colonizaram nossa imaginação e moldaram um
novo habitus antropológico”, que considera a tradição revolucionária um fardo a ser
afastado. E, quando posteriormente se iniciou o tempo das reparações da guerra e do
holocausto, à esquerda foi concedida quando muito a memória das vítimas individuais
das tragédias do século, mas não da história de suas lutas políticas, como se estas e
aquelas fossem excludentes, e não complementares entre si.
É óbvio que esse apagamento da nossa memória histórica não poderia ser realizado
sem consequências práticas para os novos movimentos de massa do século 21, o que
aliás era um dos objetivos do processo em curso. A ausência e mesmo a recusa das
referências do passado provocou muita desorientação nas novas gerações de ativistas
e militantes políticos, levando muitas vezes os movimentos que lideravam a um
impasse. “Historicamente, revoluções sempre foram usinas de utopias; elas não só
forjavam novos imaginários e novas ideias, como afloravam expectativas e
esperanças.” Não foi, contudo, o que se verificou nos mais recentes movimentos de
massas. Fiquemos com o balanço das revoluções árabes de 2011. “Elas depuseram dois
ditadores odiados na Tunísia e no Egito, porém não souberam lidar com a falta deles.
Suas memórias eram constituídas de fracassos: socialismo, pan-arabismo, terceiro
mundismo, além de fundamentalismo islâmico (o que não inspirava as gerações mais
novas). Com uma auto-organização admirável, tais revoluções mostraram completa
falta de liderança e pareciam desorientadas em termos estratégicos, mas seus limites
não estavam em seus líderes ou mesmo em forças sociais: eram limites de nossa época.
Essas revoluções e movimentos de massa carregam o fardo dos fracassos das
revoluções do século 20, um enorme peso que paralisou qualquer imaginação
utópica.”

Com efeito, muitas das antigas aspirações revolucionárias foram desta para melhor,
sem deixar saudades. Todavia, tão ou mais nocivo quanto o fim do horizonte de
expectativas do nosso tempo parece ter sido a interdição da nossa imaginação política,
que torna mesmo o impulso mais transgressor incapaz de projetar a possibilidade de
um outro mundo, a não ser como catástrofe.

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Aqui dois caminhos se abrem à esquerda: o presentismo, que renuncia a qualquer
ideia de uma sociedade emancipada no futuro, visto como algo “utópica” e que, como
só resta o presente, assume a “responsabilidade” de realizar as pequenas reformas –
ou grandes, tanto faz –, mas sempre com o mesmo objetivo de apenas manter o
planeta habitável. Ou então a possibilidade de agir como se não houvesse futuro, uma
vez que se abre mão de governar o presente com vistas a uma emancipação vindoura
(que de fato nunca vem) para construí-la desde já, com outras ideias, meios e práticas.
Esse caminho é necessariamente vago, porque tudo o que sabemos é o que não fazer. O
que fizemos até aqui ou foi derrotado ou foi devidamente apagado pelos projetos
hegemônicos de esquerda. Mas parece o único possível, se ainda não nos resignamos à
aceitação de um presente de desastres.

Para não simplificar demais a história é preciso pelo menos deixar anotado aqui, como
o faz nosso historiador benjaminiano, que o embotamento da nossa imaginação
utópica não se deve apenas ao fracasso do socialismo real, evidentemente. A formação
de uma consciência socialista, por exemplo, sempre esteve ligada à sociabilidade do
ambiente do trabalho que concentrava os trabalhadores num mesmo espaço e
favorecia a formação de laços de solidariedade, de uma identidade e de uma cultura de
classes. Com o fim da fábrica fordista, os trabalhadores foram dispersados e fragilizou-
se o vínculo de classe que os unia. Contribui igualmente para isso a crise dos partidos
de massa e dos sindicatos, que cumpriam importante papel de conscientização política
dos trabalhadores. Hoje essas organizações, em sua maioria, transformam-se, como se
sabe, em máquinas eleitorais sem ideologia definida ou em instrumentos de interesses
corporativos.
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Da esquerda para a direita: Otília, Jacques Rancière, Dominique Desanti, Toni Negri, Danielle
Rancière, Paulo e Helena Hirata, em Paris, 2010
DESBLOQUEAR O PRESENTE
Até mesmo por essas razões objetivas, está evidentemente fora de questão conclamar
a uma simples volta ao passado. Entretanto, não podemos recusar em bloco uma longa
tradição de lutas emancipatórias. Sob os escombros de derrotas acumuladas, há
muitas aspirações legítimas e práticas políticas que precisam ser resgatadas e podem,
quem sabe, ajudar-nos a desbloquear o presente. Posso estar enganado, mas creio que
Paulo Arantes caminha um pouco nessa direção quando, no último capítulo do seu
livro, saúda a “utopia real” que emergiu no primeiro momento das jornadas de junho
de 2013. Além de alcançar a revogação do aumento das tarifas de transporte público –
o que não foi pouca coisa –, a mobilização conseguiu igualmente “derrotar a maior
concentração urbana de poder e dinheiro na América Latina”. E isso só foi possível por
meio de uma modalidade de luta política que remonta aos primórdios das lutas
operárias: a ação direta inventada pelos primeiros anarquistas. Seu sentido não se
confunde com o emprego da violência, como querem seus críticos, mas na recusa da
mediação dos partidos, sindicatos e organizações estabelecidas. Foi dessa maneira que
os insurgentes de junho negaram ao Estado o monopólio de impor o modo de governo
da cidade e da vida dos indivíduos. “Não queremos ser governados, ou não mais
assim.” Uma recusa que nos põe no caminho de conceber nossas próprias formas de
organização da vida social, sem as antigas ilusões.

Não se trata, claro, de extrair daí modelos de ação política, sobretudo no caso das
mobilizações de rua, cuja marca é justamente o caráter efêmero, impossível de ser
repetido nos mesmos moldes e com o mesmo êxito em situações diferentes. Nem
tampouco, eu diria, de excluir as correntes outrora dominantes do movimento
socialista e que muitas vezes, por forças de disputas internas, contribuíram para o
esquecimento de formas alternativas de contestação do capitalismo. Sem prejuízo da

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crítica, seria um erro, por exemplo, renunciar à crítica da economia política elaborada
pelo marxismo como análise do capitalismo. O resgate da nossa capacidade de
invenção política parece então estar ligado, em primeiro lugar, à rejeição da operação
ideológica que pretende equiparar a história das lutas emancipatórias ao fracasso das
revoluções no século 20, mas sobretudo de um reencontro com aquelas correntes
subterrâneas dos movimentos anticapitalistas que se negaram a navegar a favor da
história.

Rodnei Nascimento é professor de Filosofia na Unifesp.


Professor no mundo coberto de “lives”
Edição do mês

2 de agosto de 2021

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(Foto: Marcus Steinmeyer)

A drástica redução tecnológica que a pandemia impôs a encontros presenciais – das


velhas salas de aula a velhos ambientes de pesquisa e de intervenção cultural – parece
agora propiciar o surgimento de muitas novidades especialmente alinhadas com a
reprodução de usos e costumes do ensino e da aprendizagem mercantis. Difícil dizer
que, com o pandemônio de tamanha redução, fermentassem novas e genuínas práticas
de estudo, mobilizações da inteligência tais que estivessem fora da vala comum do
telespectador melodramatizado e, ao mesmo tempo, teleguiado pelo efeito-câmera de
um tipo de televisionismo ostensivo. Problemas da hora. Cuja formulação, no entanto,
precisaria levar em conta o que pode haver de providencial no registro fidedigno da
efêmera fala falada em aulas ou palestras presenciais, assim como no da fala falante
em modos ampliados de acesso a um público maior.

Ocorre que só por fazer o que sempre tem feito há mais de 50 anos, o professor Paulo
Arantes vai se tornando o interlocutor de uma legião de jovens que, no Brasil e fora
dele, estudam ou se interessam pela amplitude e ousadia de perspectivas que, com
suas aulas-live, seguem interrogando radicalmente o tempo e o mundo em que ainda
vivemos.

Será suficiente destacarmos, aqui, algumas dessas perspectivas mais diretamente


ligadas ao que elas haveriam de se tornar, se acaso fossem sugestões de estudos,
inaugurassem programas de leitura e pesquisa, fomentassem planos de investigação e
possibilidades de aprofundamento. Contrariando o receituário do que deve ser o
gênero live e mais ou menos à margem do expediente acadêmico, talvez se tirasse
algum proveito dessa permanente disposição do professor Arantes, muito cioso de
socializar e tornar públicas as próprias ideias.

TRÊS DE TRÊS PAULOS

Salientemos o trecho de um vídeo gravado pelo Programa Pet-Filosofia, da Faculdade


de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP),
em 17 de agosto de 2015. Em determinado momento, alguém na plateia pergunta a
Paulo Arantes que temas ele consideraria pertinentes, naquela época, como eixos de
pesquisa para jovens estudantes de filosofia no Brasil. Na resposta Arantes se refere ao
livro The order of evils: toward an ontology of morals (A ordem dos males: rumo a uma
ontologia da moral, 2005), de Adi Ophir, filósofo israelense que estuda as formas do
mal: “o” assunto diz respeito diretamente à ocupação da Palestina. Na glosa da obra,
Arantes assinala que o autor faz uma reflexão filosófica moral, elabora
conceitualmente os dilemas práticos do conflito e conclui que a ocupação é um projeto
apocalíptico, sem saída. A injunção, segundo Arantes, é clara: ou o filósofo pensa sobre
isso ou não estará pensando sobre nada. E devolve a pergunta que ainda ressoa no
ambiente digital em que ela se acha disponível: qual seria o equivalente disso no
Brasil?

Como entre estudantes e interessados é recorrente e bem-vinda a dúvida sobre o que


deveriam, prioritariamente, estudar em Filosofia, a resposta de Arantes explicita que a
busca “do” assunto tem a ver com a conjunção de ao menos três orientações: atenção
aos assuntos do presente histórico e filosófico; disposição de atentar para os estudos
filosóficos mundo afora; exercício imaginativo de filosofia e história comparadas. Para

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tanto, estão pressupostas uma concepção do que seja a formação de uma cultura
filosófica no Brasil e a responsabilidade do estudioso, um modo de abordar e intervir
no que se pensa sobre as condições e determinações do presente, o que está longe de
querer dizer estudar apenas as filosofias, os temas e os problemas ditos
contemporâneos. Na chave do benefício, caberia ainda estudar o pensamento dos
próprios filósofos em cena, seja o do brasileiro, seja o do israelense, devidamente
guardados o senso dos extremos e o das proporções. Ao comparar dois laboratórios de
exploração, dominação e opressão exercidos por dois Estados, a questão da ocupação
militar de um território e o confinamento de toda uma população talvez fosse ainda,
como dissera Bento Prado Jr. acerca de outro assunto, “uma pequena ruga na
superfície das águas, mas que revela uma tormenta nas águas mais profundas e que
não deixa intacto o valor da cultura e da filosofia”.
Durante aula pública na Praça do Patriarca, em São Paulo, em junho de 2013
Em trecho da live “A desconstrução que estamos vivendo”, em 13 de maio de 2021,
aula inaugural da turma de 2021 do curso de mestrado acadêmico em Filosofia da
Universidade Estadual do Ceará (Uece), o professor Arantes reconstitui o contexto

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específico a partir do qual Roberto Schwarz pôde chegar à seguinte boutade: “a
desconstrução existe, mas acontece de ponta-cabeça: é a realidade que passou a imitar
o jargão filosófico”. Arantes nos conta que o ensaio de Schwarz o nosso “Fim de século”
foi escrito no começo da década de 1990, sob o impacto de dois fenômenos de passado
próximo: primeiro, o naufrágio da ditadura, que entregou aos sucessores um país
destruído (crise da dívida externa, hiperinflação, decomposição social); segundo, a
leitura de O colapso da modernização, de Robert Kurz, a partir da qual Schwarz se
pergunta sobre o Brasil no trágico desmanche dos países pós-catástrofe. Já o
fenômeno mais remoto, é possível encontrá-lo em Marcel Proust, na transposição pela
qual ele põe na boca de seu personagem, o Barão de Charlus, aquilo que Oscar Wilde
havia dito contra o dogma da arte pela arte: se a realidade é que teria passado a imitar
a pintura, ambas agora se expõem numa galeria singular, que vai de impressionistas
realmente existentes às aquarelas imaginadas de um Elstir. Voltando ao passado
recente, mais uma vez a realidade imitaria a arte; desta feita, porém, numa experiência
social imediata e sedimentada na forma literária, quando Schwarz encontra
em Estorvo, de Chico Buarque, o ponto da reviravolta crítica em questão. Daí a
conclusão que, resumida na tirada que mencionamos acima, foi orientando as
considerações de Arantes sobre a mundialização da Ideologia Francesa. Como, desse
ponto de vista, o fenômeno Ideologia Francesa não nos dispensa de repensar a
Ideologia Alemã, faria todo sentido do mundo, hoje, enxergar uma inversão operando
na famosa 11ª proposição das teses de Marx ad Feuerbach?

Dito de outro modo, se a relação desmanche/desconstrução sugeria a Schwarz uma


melhor compreensão da matéria social brasileira, acarretando um tipo de arejamento
no miasma do ramerrão filosófico, Arantes enxerga seu potencial sugestivo para
ponderar sobre a relação capitalismo/Ideologia Francesa – uma via promissora para
abordar as aclimatações e decorrências filosóficas, psicanalíticas e políticas da
desconstrução, no rastro da Ideologia Francesa nos Estados Unidos e no Brasil. Como
efeito em cadeia e situada em outro fuso histórico, a recombinação implica então outra
sacada – algo do tipo: “Esses filósofos têm apenas pretendido transformar o mundo, de
diferentes maneiras; a questão, porém, é interpretá-lo”. O resultado, nos anos em que
Arantes redigia os ensaios de Formação e desconstrução, permitia desnudar o caráter
fraseológico da visada desconstrucionista e o teor essencialmente problemático da
Ideologia Francesa. Permitiria a publicação do livro repor o debate na chave de
interrogar, em 2021, o alcance da combatividade presente nos movimentos filiados
ao desconstructive turn?

O terceiro fragmento foi colhido numa live promovida pelo Núcleo de Estudo Crítico
das Políticas Públicas, de Santo André (SP), em 18 de agosto de 2020. Num dos raros
momentos de referência a sinais de “esperança”, Arantes recorda um trecho do
primeiro volume do livro O princípio esperança, de Ernst Bloch. Pondo em foco o teatro
como “instituição paradigmática e a decisão nele tomada”, Bloch descreve a situação
de pessoas na rua, à espera de comprarem ingressos na fila da bilheteria. Pergunta-se,
no texto, o que pensam essas pessoas. Arantes por seu turno esclarece que se trata de
um texto escrito em pleno 3º Reich, embora a cena retomasse uma realidade dos anos
1920: a de um público formado em parte pela experiência do teatro como arte, em
parte pela busca de amenizar a fadiga do trabalho, em parte pela busca mais leviana de
mero entretenimento ligeiro. Todos, porém, assinala Arantes, alimentando a
expectativa legítima de que, abertas as cortinas, apareceria ali um novo mundo,
diferente e melhor. Se tais expectativas – rememoradas e perfiladas como um rastilho
de pólvora no contexto adverso do 3º Reich – dão testemunho da esperança
condicional por um mundo novo, não menos condicional haveria de ser a conclusão do
professor: “Se nós do teatro pós-pandêmico tivermos uma sala como essa, com gente

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esperando para entrar e imaginando alguma expectativa que transcenda a própria fila,
então o teatro estará salvo; ainda poderemos, em certo sentido, ter alguma esperança”.

“Ele pensava dentro de outras cabeças; e na sua,


outros, além dele, pensavam. Este é o verdadeiro
pensamento” (Bertolt Brecht)
.

Ao estender o mapeamento dos caminhos e descaminhos da esperança até os


profissionais do teatro, Arantes descreve o circuito das expectativas e dos propósitos
surgidos no debate, apontando para um novo tempo do teatro do mundo. Alguma
esperança em ato nessa “arte de pensar na cabeça dos outros”? No cuidado de sempre
oferecer a bibliografia em que respalda sua glosa, pode alguma esperança ressurgir
dos livros, fagulha de uma lembrança nada óbvia em tempos de tamanho
obscurantismo educacional, só que bem longe do esnobismo livresco e mais próximo
de uma chave fornecida por outro mestre, Chico de Oliveira, que certa vez formulou:
“em tempos de crise” – entendemos, entre estas e as próximas aspas: em tempos de
desconstrução mundializada, exceção impensada e programadas obsolescências da
figura do intelectual – “é preciso voltar à mesa de estudos”.

A fala de Paulo Arantes, como não poderia deixar de ser, é marcadamente ensaística. A
justificativa, se fosse preciso mais do que a própria fala, é sempre explicitada nas
várias menções que faz aos mestres que o formaram, direta ou indiretamente: Antonio
Candido, Gilda de Mello e Souza, Bento Prado Jr. e Roberto Schwarz, para lembrar
apenas os mais citados.
A famosa história que Arantes conta, em outro registro – de que, logo no começo do
curso, teria recebido de Bento Prado Jr. um maço de textos de autoria de Gérard
Lebrun com a recomendação expressa: “leia, estude e imite, é assim que se deve
escrever” –, acrescenta um mestre francês e confirma a primeira lição de casa. A
segunda lição, como decorrência necessária, era aprender também a falar como se
passava a escrever. Providências de outro tempo, espécie de etiqueta do que se
concebia como excelência na formação filosófica. E essa consideração talvez nos ajude
a explicar um pouco melhor em que sentido poderíamos chamar de farpado o estilo
ensaístico presente na fala de Paulo Arantes. Talvez mais óbvio, um estilo que exige
precaução e atenção redobradas, porque resultado de longa e cuidadosa
sedimentação. Pela intensidade das referências bibliográficas cruzadas e articuladas
no empenho de apurar a visada que permite abordar por vários aspectos o assunto. No
sentido de que nossa atenção vai sendo fisgada, retida pelas ideias e pelas
formulações, porque representam convergências fecundas ao exercício do
pensamento. Pelo que muitos caracterizam como sarcasmo, ironia e, às vezes,
mordacidade, são antes venenos contra a Teoria do Medalhão. A farpa aponta direções,
porque assume declaradamente posição política. Como verbo, farpar exprime ainda
algo dos sentidos de ruptura, o que, em termos políticos, fala alto a imaginações
dialéticas. Como decorrência, poderíamos nos perguntar: o que essas farpas ameaçam,
o que apontam, o que fisgam, o que contornam, o que marcam e o que rompem? As
respostas a essas questões nos interessam, mas dependem tanto da ponderação de
cada um a partir dos seus próprios espelhos quanto do acordo de que a formação
daquele sujeito coletivo depende de um pacto de confiança, de honestidade, de
solidariedade, de descompartimentalização e de desindividualização intelectual
progressiva.
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FOTOGRAMAS DE MOVIMENTO E PARADA

Nessas amostras – aqui sugeridas como fotogramas nos quais a exposição em linha
representa apenas a primeira camada, será possível talvez perceber todo um jogo de
movimento e parada, pensar sem nenhuma pressa o que poderia significar uma
retomada, seus pontos de viragem e nossos próprios passos adiante – os traços de
uma ética docente que, em ato, nos ajudam a pensar a parte que nos cabe nesse amplo
e preciso circuito de formação cultural.

Porque recusa todo dogmatismo, em benefício do debate crítico intensivo e extensivo;


porque nega o regime que partilha e rebaixa a democracia a um racionamento que não
para de reduzi-la à míngua; porque vira pelo avesso a redução tecnológica para atestar
que nele ainda se avistam outros lados, para muito além do lado que a torna somente
uma ampliação apologética de gurus e expertos – Paulo Arantes, nas suas análises
concretas de casos concretos, não termina de colocar em causa a emergência e o
potencial, mais ou menos imponderável, dos novos e precários intelectuais.

Esse exercício de vida inteira esteve no sangue bom que circulou nos Seminários da
Escola Nacional Florestan Fernandes e no Seminário das Quartas. Lá como cá, nas lives,
importa aprendermos a pensar coletivamente – não será demais insistir: uns nas
cabeças dos outros, e vice-versa. Nisso, a Tese 11 poderia talvez reencontrar seus
eixos originais e emancipatórios.

Denílson Soares Cordeiro é professor de Filosofia na Unifesp.

Sílvio Rosa Filho é professor de Filosofia na Unifesp.


Especial | Paulo Arantes: a teoria crítica em
movimento
Edição do mês

2 de agosto de 2021

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(Foto: Marcus Steinmeyer)

Este número especial dá notícia do que tem acontecido com as aventuras da dialética
negativa no Brasil. A escavação contemporânea – precisando ir muito além de
operações de resgate e salvamento, não podendo apenas arrancar a tradição crítica
brasileira aos conformismos que sempre quiseram apoderar-se dela – representa a
busca de sua radicalidade mais funda. Sucede que ela pode ser encontrada, agora, sob
o nome e o renome de um professor de dupla carreira: por dentro da universidade e
fora dela.

Verdade que nem sempre Paulo Eduardo Arantes (1942) se daria por achado nessas
reapresentações de sua trajetória. Seu apreço por “análises concretas de casos
concretos” vai desde a tese de doutoramento (Hegel: a ordem do tempo, defendida na
França em 1973) até O novo tempo do mundo (2014) e Formação e
desconstrução (2021), coincidindo ainda com a mencionada duplicidade: o professor
que Arantes nunca deixou de ser (sua presença em sala de aula por exatos 30 anos, até
a aposentadoria; recentemente, algo mais de 40 lives em 15 meses de pandemia, de
março de 2020 a junho de 2021) e a experiência do intelectual anticapitalista, que ele
não parou de transformar em força produtiva. Desbloqueio do Novo no coração da
teoria crítica?

Organizando e participando do “Seminário das Quartas” (2001-2020), elaborando


coleções como Zero à Esquerda e Estado de Sítio, coordenando cursos na Escola
Nacional Florestan Fernandes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST) (2005-2007), orientando, coorientando e examinando projetos de pesquisa e
teses universitárias, colocando-se como interlocutor atento de jovens internautas,
estudantes, ativistas e militantes – Paulo é uma personalidade intelectual abrangente,
irredutivelmente singular e multiforme nos seus modos vários de intervenção. Aliás,
desde julho de 2021, está no ar a coleção Sentimento da Dialética – um lugar de
encontro com obras de Otília e Paulo Arantes, reafirmando o sentido coletivo da sua
produção intelectual, reunida e editada em livros digitais gratuitos.

Assim, ao partir da periferia e da matéria social brasileira como verdade da


modernização em colapso, Paulo Arantes foi tomando pé nos últimos tempos e
atravessou o paradoxo daqueles intelectuais que, no melhor dos casos, foram radicais
de ocasião.

Fica portanto o duplo convite: pensar a conseguida persistência desse pensamento,


assim como as formas de ação emancipatória que ele pode implicar.

Sílvio Rosa Filho é socióloga e professora de Sociologia na FGV.

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Fragmentos do intelectual
Edição do mês

1. Sílvia Viana, Bruno Carvalho e Fernando Vidal Filhodisse:

2 de agosto de 2021

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(Foto: Marcus Steinmeyer)

MAX STIRNER NA SBPC

Veja que maluquice: falar sobre o Max Stirner na Sociedade Brasileira para o
Progresso da Ciência! Foi minha primeira intervenção depois que voltei do doutorado
na França, em 1974. Havia 300 pessoas na sala, sem microfone, só fumaça e, no meio
daquele nevoeiro todo, ninguém sabia do que eu estava falando. Ao escrever o texto
“Ideia e ideologia” para esse encontro, me dei conta de que Stirner & Cia eram os
“ideólogos franceses”. Portanto, no olho do furacão estavam os ideólogos, tanto
alemães quanto seus símiles franceses de quase um século depois; estava a
compreensão das transformações filosóficas como “revoluções discursivas”, uma
expressão típica da ideologia francesa e cuja matriz estava lá na ideologia alemã – eles
só fazem revoluções discursivas, é frase contra frase, ideia fixa. E quem tem ideia fixa?
São aqueles diabos de intelectuais alemães. No cerne de A ideologia alemã, que é uma
teoria da divisão do trabalho – trabalho intelectual e material, segundo o jovem Marx –
estavam os intelectuais, os ideólogos. Esses ideólogos tinham um correspondente,
eram longevos e chegavam até a França. Os putschs linguísticos, as revoluções
linguísticas, a maneira de falar que mudava o mundo e que eu estava quebrando a
cabeça para enfrentar – queria mostrar que a dialética não é uma maneira de falar,
como disse o Gérard Lebrun em A paciência do conceito – a solução estava ali. Aí os
intelectuais entram no foco.
UM REFERENTE PARA A DIALÉTICA

O lance era o seguinte. Eu precisava mostrar que o hegelianismo tinha um pé na


realidade, que o sistema hegeliano tinha um referente. Esse referente é o que todo
programa materialista, programa de crítica da filosofia ou da ideologia, tem que ter, ou
então você não émarxista para além das meras intervenções metodológicas. O elo que
eu precisava para passar do sistema para a realidade era esse mix: a figura do
intelectual, uma entidade sociológica pensante que formulava frases. Não sei que dia
foi, que ano foi, o estalo de Vieira: relendo pela enésima vez a “Introdução”
da Fenomenologia do espírito, quando aparece a ideia de “raciocinação”, falei: “essa
raciocinação tem cara de dialética”. Como na graduação eu tinha feito um trabalho
sobre O sobrinho de Rameau, já estava com o ouvido educado: na Fenomenologia do
espírito, a consciência dilacerada do sobrinho de Rameau é a primeira apresentação ao
vivo da dialética em funcionamento. O romance picaresco de um parasita,
puro vagabondage, aí está a dialética, porém inconclusiva. Quando vi a semelhança
com a “raciocinação”, eu disse: “É aqui que eu vou entrar. Aqui é meu Abre-te,
Sésamo”.

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Paulo Arantes na França, na década de 1970


INTELLIGENTSIA

Então estudo as várias refrações da constituição da ideia de intelligentsia, a história


da intelligentsia em situações de condição periférica avassaladora. Como já disse e
redisse cem vezes, esta é a hora e a vez do esquema do Roberto Schwarz. Esqueci de
lembrar que, naquele fumacê da SBPC, arrumei um jeito de expor As ideias fora do
lugar. Acho que foi uma première nacional, pela cara de espanto da moçada no
gargarejo. Começo pela França, depois vou para a Alemanha, passo de raspão pela
Itália e pelo Gramsci, com o propósito de chegar à Rússia, aonde nunca consegui
chegar. Na Inglaterra não existe esse fenômeno, como tampouco vai existir na
subsidiária estadunidense. Aí intelectual não conta, é marginal em todos os sentidos.
Ele é apenas alguém confinado numa cidade universitária como Cambridge ou Oxford,
que pode falar qualquer abobrinha em latim, contanto que não se meta na vida
política. Por isso é o ideal de todos os conservadores, de Tocqueville a Raymond Aron.
É o inferno dos intelectuais, mas é o paraíso para eles. E o paraíso dos intelectuais era
a França, por causa da Ilustração.

DEMIURGOS DA NAÇÃO

Quando eu cheguei a São Paulo em 1974, minha missão pessoal era encerrar meu
analfabetismo cultural em relação à tradição crítica brasileira. Comecei a estudar o
Brasil como um analfabeto filosófico se iniciando. Eu chego e me deparo com o
seguinte fenômeno: encontro um revival de estudos sobre o pensamento autoritário de
crítica à República Velha. Estava todo mundo lendo Oliveira Viana, Alberto Torres,
Plínio Salgado, Otávio de Faria, todos os críticos autoritários do liberalismo. Todo
mundo tinha embarcado na legenda de que os fundamentos da ditadura de 1964
estavam no pensamento de direita dos anos 1920 e 1930 e que, portanto, tínhamos de
ler a crítica antiliberal da direita brasileira clássica pelo prisma da nova conjuntura
autoritária. E descobriam o quê? O autoritarismo não só estava enraizado numa
sociedade patriarcal de origem escravista, mas tinha raízes intelectuais nesses grandes
autores, uma espécie de origem ideológica eminente, por vezes refinada. Mesmo que
ninguém tematizasse, o tema naquele momento eram os intelectuais, a figura do
intelectual na sua versão autoritária, como demiurgo da nação, como intrinsecamente
imbuído de sua vocação dirigente. A fase repressiva da ditadura arrefecia e se
imaginava que, finalmente, a ditadura terminaria e que nós estávamos apressando o
seu término estudando os pressupostos ideológicos lá pra trás. E a figura do
intelectual como um demiurgo da nação e figura dirigente já estava pintando ali.
Depois ela vai reaparecer… quando? Em dois momentos, depois da Abertura, nos anos
1980 e 1990, vai reaparecer com um presidente sociólogo e um presidente

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sindicalista, mas cujo partido era composto eminentemente de intelectuais que
vinham do confronto com essa tradição teórica. De modo que a ideia do
intelectualocentrismo brasileiro, da vocação dirigente dos intelectuais, estava no ar
desde o momento em que eu pus os pés no aeroporto de Viracopos.

O IRMÃO SIAMÊS

Por definição, o intelectual brasileiro é um ser engajado, não no sentido sartriano. É


um ser empenhado na construção nacional. A construção nacional gira em torno
desses demiurgos da nação que são os intelectuais. Funcionaram nos anos 1920, 1930
e mesmo antes da Primeira Guerra. Impregnaram todo o modernismo brasileiro.
Quem é o irmão siamês dessa figura? São os militares! Os militares pensam
exatamente a mesma coisa. Notem que mesmo no seu jeito bronco, o Mourão
arremeda todo o repertório dos autoritários de ontem acerca do pretenso caráter
nacional brasileiro, e tome asneiras de cabo de esquadra sobre índio isto, negro aquilo.
Nada mais parecido com a delirante presunção dirigente e tutelar dos intelectuais
brasileiros desde a sua formação do que os militares, que também se acham o sal da
terra, só que com o monopólio das armas: se consideram a semente geradora do
Estado, que por sua vez conformou a nação.

PARADOXO AMBULANTE

Intelectual é aquele que não adere. Não pode aderir por definição, pois se adere, a vida
mental cessa. Esse era o meu ponto. Eu me contrapunha ao dogmatismo redescoberto
da nova esquerda – que no fundo estava se preparando, nada mais nada menos, para
virar gestionária – me escudando na figura do intelectual. Embora tivesse assinado
minha filiação eleitoral ao PT, eu não queria ser militante. Foi quando comecei a
descobrir certas coisas. Como era schwarziano de carteirinha, era frankfurtiano. Aí
começava a encrenca. A tradição crítica brasileira tinha uma dimensão afirmativa
inescapável. Seguindo na cola de Roberto Schwarz e de Antonio Candido, que eram os
mais próximos, eu tinha que encarar essa dualidade: continuar ao mesmo tempo
descrente da ideia de progresso e de formação – o golpe era a palavra definitiva: não
haverá mais construção de uma sociedade orgânica no Brasil – e por outro lado
colocar tijolinhos na construção nacional, lutar pelas liberdades, pela universidade, ser
contra a ditadura e por aí vai. Portanto, achar que a história do capitalismo estava a
nosso favor, quando sabíamos intimamente que não estava. Aí as duas almas
faustianas que eu enxergava no Roberto. Ele era frankfurtiano e, ao mesmo tempo,
“nacional-popular-desenvolvimentista” como todo mundo que se opunha à ditadura.
De um lado a Revolução Cubana, de outro os frankfurtianos. As duas coisas se
anulavam: um paradoxo ambulante. A salvação estava na ironia, que aliás já era mais
do que objetiva: você tem que se equilibrar na corda bamba e, de certa maneira,
praticar uma espécie de permanente ironização das ideias.

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Com Antonio Candido, no lançamento dos livros “Ressentimento da dialética” e “O fio da meada”,
em São Paulo, 1996
DUAS CANOAS

A minha solução de compromisso era adotar a posição do Antonio Candido. A teoria


dele acerca do que chamou de modesto radicalismo de classe média era até bem
simples, quase um ovo de Colombo. O intelectual de classe média radical era aquele
que não pensava em termos de classe, mas sim em termos nacionais, e buscava
encontrar uma saída para o Brasil. Uma saída civilizada que incorporasse aqueles
inorgânicos diagnosticados pelo Caio Prado como um impasse a ser superado. Mas, ao
mesmo tempo, esse radical de classe média não poderia dar o passo principal, que era
aderir à revolução. Quando explicita essa teoria do radicalismo no Brasil, ele diz que é
um pé em cada canoa. O radical é de classe média, assim como a teoria da classe
revolucionária, que vem de fora – era assim desde a social-democracia alemã.
Portanto, radicais e revolucionários se entrecruzam de vez em quando. Com uma
diferença: o radical vai até certo ponto, depois ele retorna para sua classe, ou seja, ele
não atravessa a linha. Na hora de atravessar a linha de classe e passar para o outro
lado, o radical contemporiza. Tal contemporização é o pão cotidiano desses grandes
pensadores da tradição crítica brasileira, que começa com Joaquim Nabuco e vai até o
último sobrevivente dessa tradição, que é o Roberto Schwarz.
SIM SEM UM PINGO DE NÃO

Foi a isso que eu reagi. E reagi de uma maneira mais moralista do que materialista.
Reação de alguém que não entendia aquele tipo de capitulação. Você pode se render se
foi vencido, mas no caso era uma capitulação entusiástica: a entrada do Brasil na
Globalização, que o Fernando Henrique chamava de Novo Renascimento. Nunca se
veria tanto conformismo na história intelectual brasileira. Um grande e entusiástico
Sim sem um pingo de Não. Os primeiros pingos começariam a cair anos depois com a
coleção Zero à Esquerda. Uma frente ampla, dos desenvolvimentistas da UFRJ e da
Unicamp à colapsologia de Robert Kurz. E começaram a cagar regra como todo bom
paulista uspiano, sempre evocando a complexidade dos fatos que os atrasados não
entendiam. Quantas vezes não tive que ouvir me chamarem de marxista resmungão e
moralista, que não estava entendendo nada, e que eles estavam botando o país nos
trilhos da modernidade, completando a construção da nação, que o capitalismo estava
a nosso favor, a globalização empurrava os ventos na nossa direção. Em última
instância, entrava em ação a ilustração brasileira, a ilustração paulista, os Aufklärers,
que estavam ali para explicar como as coisas funcionam. E de uma espécie nova:
ilustrados de origem marxista. Eram, portanto, os mais habilitados a tocar o serviço,
no caso a construção nacional num ambiente capitalista irrecusável. Sobretudo porque
chegaram ao poder depois do naufrágio da União Soviética. Não havia alternativa,
literalmente; não era só repetir a Thatcher, realmente não havia alternativa. Num
artigo de 1994, José Luís Fiori deu a explicação materialista correta, mostrando como
FHC não só não renegara nada do que escrevera, como passara a comandar a própria
versão conservadora da teoria da dependência; aderira, em suma, ao subcapitalismo
preconizado pelo famigerado Consenso de Washington. Eu apenas reagi pelo prazer de

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chamar esses intelligenti de idiotas. Como na acepção do Adorno e do Horkheimer: a
estupidez da inteligência alemã diante da ascensão do nazismo. Me interessava
sublinhar a bêtise, as bobagens. Daí a ideia de dicionarizar o novo Febeapá, desta vez o
da Era Tucana.

ASSUNTO ENCERRADO

Outro paradoxo: durante os anos 1980, me lembro muito bem do Roberto fechando o
diagnóstico (no sentido médico, querendo dizer óbito), me fazendo compreender pela
primeira vez que a famigerada formação do Brasil tinha ido para o brejo. Por exemplo,
um sintoma da patologia nacional era o fato de que nos concernia de perto, de você ter
um país inacabado, porém com um sistema cultural que funcionava, cuja formação se
completara. Mesmo assim não tínhamos como não votar no PT. Embora desconfiasse
que o partido já era uma ficção política, uma miragem que impressionava mas que não
tinha mais nenhum fundamento no chão histórico produtivo, a dita sociedade do
trabalho tinha ido para o espaço. Quando eles chegaram ao poder, bateu no teto e o
sonho acabou. Assunto encerrado. Podemos passar livremente, sem consciência
pesada, para a oposição, e dizer o que significa, como diria mais tarde o Marildo
Menegat, essa “gestão da barbárie”. Malgrado o próprio PT, que acreditava estar dando
um passo à frente, subindo nos ombros dos tucanos para levantar mais uma laje no
mito progressista do país em construção na periferia do capitalismo, e desta vez rumo
ao centro.
PENSANDO POR FORA

Entre 2001 e 2002, outro corte. O Fórum Social Mundial era ambivalente: manipulado
como instrumento eleitoral do PT, mas tinha inspiração zapatista, antiglobalização,
anticapitalista, que vinha de Seattle, trazido por franceses que estavam pouco se
lixando para o PT & Cia. É claro que eu fui! Fui procurar a molecada da Ação Global dos
Povos. Foi lá que conheci o pessoal que iria fundar o Passa Palavra, o Movimento Passe
Livre. “Quem é esse pequeno grupo de pessoas de passagem por um breve período da
história?” Um pessoal de esquerda, pensando por fora, que, pela primeira vez, não
estava mais chorando o leite derramado da construção nacional interrompida. Nem aí
para a progressista ilusão do desenvolvimento, recuperar a distância que nos separava
do centro. Tampouco sensíveis à chantagem de um produto escasso chamado
emprego, que aliás nem existia mais. Mais “por fora” da tradição crítica brasileira,
impossível. O outro mundo possível do Espírito de Porto Alegre passava a léguas do
pote de ouro da Modernidade no fim do arco-íris. Coincidência ou não, o Seminário das
Quartas começou naquele mesmo ano de 2001.

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Paulo com Roberto Schwarz e Bento Prado Jr., na casa do último na França, em 1971. A criança é Bento
Prado Neto
TROCANDO FIGURINHAS

A era lulista começou a se exaurir a olhos vistos. Antes de a pax explodir em 2013, a
fórmula mágica parou de funcionar. Era impossível fazer todas as conciliações ao
mesmo tempo. Uma hora teria que explodir e explodiu. “Batemos no teto” é a primeira
frase do texto “Nunca fomos tão participativos”, da Erminia Maricato. Conversando
com jovens que eu estava conhecendo por essas andanças, com gente que eu estava
conversando aqui e acolá, trocando figurinhas, eu sugeri abrir uma sessão no site do
Passa Palavra com testemunhos de militantes ou ex-militantes desse esgotamento e fiz
aquele textinho de convocatória. Entre 2011 e 2012 aconteceu a saída dos 51 do MST,
então fizemos esse encontro com gente que tinha saído, mas também com gente que
tinha ficado, tudo sangue bom, óbvio. Veja só a peculiaridade disso: foram quatro
jornadas com aqueles jovens militantes já veteranos, mas era um convite sobretudo
para assessores técnicos que já estavam com a língua de fora com a burocratização dos
movimentos sociais. Daí o meu interesse na segunda ou terceira geração do Centro de
Estudos dos Direitos da Cidadania e o título do encontro: “Por Dentro, Por Fora”. Como
eu tinha amigos na Fundação Rosa Luxemburgo, me encarreguei de encontrar a
infraestrutura e o local. Levei todo mundo que encontrava, tinha até grupo de teatro.
Redigi textos para iniciar a discussão, eram montagens, colagens e eu fazia lá a
maquiagem. Lia e depois não abria mais o bico. Três dias eles falando e eu lá só
ouvindo, como professor em seminário. Abril de 2012. Um ano depois, Junho.

NOTA DE RODAPÉ

É nesse momento que, aí sim, fica clara a clivagem entre a esquerda e o progressismo:
os megaprojetos, os meganegócios, as megaintervenções, os megaeventos. O lulismo
indo para o ralo e endoidando na sua apoteose mental do refrão “Nunca Antes na
História Deste País”. A política reapareceu, e apareceu como sempre foi, luta, e como
luta de encaminhamento de expectativas inegociáveis. A noção de engajamento muda
então completamente de figura. Veja só, eu no meu caso sou apenas uma nota de
rodapé. A minha única vantagem é ter consciência disso e ter registrado a nova
clivagem no subtexto dos meus escritos. Fecho o meu livro, O novo tempo do mundo: e
outros estudos sobre a era da emergência, sobre junho de 2013. O livro já estava
praticamente impresso e a editora disse: “Mas, Paulo, não vai dar para você encerrar o
livro sem uma menção a Junho! Sobretudo porque você deu uma aula pública na frente
de uma Prefeitura que por pouco não foi arrombada”. Eu fiz na correria, mandando
brasa. É um balanço e uma escalada às avessas: nunca fomos tão engajados, nunca
fomos tão participativos, nunca fomos tão governados. Não queremos mais ser

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governados assim. Nos ensaios anteriores ao livro, a personagem ou o tema “o
intelectual” tinha desaparecido. Mas ele retorna de outra maneira. N’O novo tempo do
mundo, o último texto no fundo é uma intervenção intelectual, porém puxada por uma
palavra de ordem que não sabíamos mais interpretar: amanhã será maior.

FÉ DE OFÍCIO

De 2014 para cá, por alguma razão, mais falei do que escrevi. Principalmente falei sem
parar. Onde então foi se esconder o tema que interessa a vocês nesta conversa? Onde
continua a ruminação dessa atividade crítica? Está nas lives! De 2014 para cá
percorreu o Brasil, falando de ceca e meca. De abril de 2020 até a semana retrasada
foram mais de 40 lives. Mas afinal o que isso tem a ver? O mundo pandêmico está
coberto de lives. Porque, no fundo, é a coisa mais banal do mundo. Não é dizer “mudou
de mídia”; eu me comporto como numa conferência normal, mas, querendo ou não,
centupliquei a minha audiência cativa em sala de aula. Estando livre, estou às ordens,
se estiver a meu alcance, falo conforme a encomenda, que por sorte é sempre o que
interessa – o que está rolando no mundo, da pandemia e seus derivados, que são
legião, à catástrofe bolsonarista. Como em sala de aula, faço questão de fornecer a
bibliografia. Nada mais nada menos do que a fé de ofício da minha profissão, o ato
docente, simples assim.
APENAS UM PROFESSOR

Parece uma ideia fixa: volta e meia preciso lembrar que sou apenas um professor, não
peçam mais de mim. Não é falsa modéstia, pois até adotei uma teoria sobre a origem e
a natureza dessa modéstia, mas na verdade o recado é este: “Olha, pessoal, eu tenho
muitos defeitos, mas pelo menos uma coisa não perdi: nada mais entranhado num
intelectual brasileiro que conhece ‘sua matéria’, o senso do ridículo. Eu sei que tenho
um teto, não posso ultrapassá-lo”. Pode parecer subterfúgio, mas quando digo “sou
apenas um professor” também é uma confissão: batemos nesse teto. No momento em
que a Aufklärung entrou em parafuso, está desafiada, para dizer o mínimo; muita coisa
tem que ser repensada. Mas tem outra coisa embutida: sou um professor, continuarei
sendo professor e continuaria sendo, mesmo se o socialismo, na acepção enfática,
revolucionária, do termo, um dia prevalecesse. Se vamos falar seriamente em
revolução e socialismo, ela é violência política pura. Como eu estarei do seu lado,
aconteça o que acontecer, quero ficar o mais longe possível do matadouro que virá, na
contramão da carnificina atual. Não contem comigo como ideólogo do regime! Mas de
novo e sempre, como um professor. Quero conversar com jovens estudantes sobre
filosofia e literatura, sobre sociologia. O ato docente também é um ato civilizatório,
seja lá o que isso queira dizer nos dias de hoje. Como reconheceu Adorno, a catástrofe
já aconteceu, a nossa única função na face da Terra, como humanos que pensam, é
adiar a sua repetição, o second strike, que cedo ou tarde virá. E só posso adiá-lo um
pouquinho falando disso e daquilo como puder, na mídia que for. Ponto, acabou.

Sílvia Viana é socióloga e professora de Sociologia na FGV.

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Bruno Carvalho é doutorando em Filosofia pela USP.

Fernando Vidal Filho é doutorando em Filosofia pela USP.