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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

INSTITUTO DE BIOCIÊNCIAS
2014

Organizadores

Laboratório de Algas Marinhas Laboratório de Fisiologia do Desenvolvimento Vegetal


Janaína Pires Santos Alejandra Matiz Lopez
Vanessa Urrea Victoria Bruno Nobuya Katayama Gobara
Carolina Krebs Kleingesinds
Laboratório de Anatomia Vegetal Paulo Marcelo Rayner Oliveira
Fernanda Maria Cordeiro de Oliveira Paulo Tamaso Mioto
Yasmin Vidal Hirao Ricardo Ernesto Bianchetti

Laboratório de Genética Molecular de Plantas Laboratório de Sistemática Vegetal


Bruno Silvestre Lira Gisele Gomes Nogueira Alves
Laboratório de Fitoquímica
Guilherme de Medeiros Antar
Fernanda Mendes de Rezende

Professora responsável

Profa. Dra. Cláudia Maria Furlan

Autores

Annelise Frazão Karina Bertechine Gagliardi


Beatriz Nogueira Torrano da Silva Karoline Magalhães Ferreira Lubiana
Carmen Palacios Kátia Pereira dos Santos
Cassia Ayumi Takahashi Keyla Rodrigues
Cíntia Iha Marcelo Fernando Devecchi
Daniele Serra Marco Aurélio Sivero Mayworm
Fabiana Firetti-Leggieri Mauro Alexandre Marabesi
Fernanda Anselmo Moreira Paula Novaes
Fernanda Maria Cordeiro de Oliveira Paulo Marcelo Rayner Oliveira.
Fernanda Mendes de Rezende Paulo Tamaso Mioto
Fernando Sena Priscila Torres
Gisele Alves Ricardo Ernesto Bianchetti
Guilherme Antar Sarah Aparecida Soares
Janaína Pires Santos Sarah Gomes de Oliveira
Jenifer Carvalho Thália do Socorro Serra Gama
José Hernandes Lopes-Filho Vanessa Urrea Victoria
Juliana El Ottra Yasmin Vidal Hirao
Juliana Lovo

São Paulo
2014
Botânica no Inverno 2014 / Org. de Alejandra Matiz Lopez[et al.]. – São Paulo:

Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, Departamento de Botânica,

2014. 192 p. : il.

Versão impressa: ISBN 978-85-85658-50-2

Versão online: ISBN 978-85-85658-51-9

Inclui bibliografia

1. Botânica. 2. Extensão. 3. Pós-Graduação.I. Título.


Prefácio

Fundado em 1934 pelo professor Felix Kurt Rawitscher, o Departamento de Botânica


do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo atualmente é referência em nível
internacional de pesquisa e ensino. Possui uma equipe formada por 29 docentes, os quais
estão distribuídos em 8 áreas de conhecimento. Apresenta como infraestrutura 11
laboratórios, um herbário com a coleção de plantas vasculares, algas e madeiras estimada em
300.000 espécimes e um fitotério, com uma coleção de plantas vivas para uso didático,
estufas e casas de vegetação. Somando-se ao grande número de pós-graduando (dentre esses,
estrangeiros) e a alta atividade científica dessa comunidade, a Pós-Graduação de Botânica
possui conceito CAPES 6, o mais alto entre as botânicas do país.
Realizado desde o ano de 2011, o curso de Botânica no Inverno, é uma iniciativa dos
pós-graduandos que visa divulgar esse trabalho realizado no Departamento de Botânica,
possibilitando o futuro acolhimento de alunos/(potenciais) pesquisadores ao seu corpo
discente.
Na IV edição, o Curso de Botânica no Inverno pretende, com os alunos de graduação e
recém-formados, revisar e atualizar conceitos fundamentais das subáreas Anatomia Vegetal,
Sistemática e Taxonomia, Ficologia, Fisiologia Vegetal, Biologia Molecular, Biologia Celular
e Fitoquímica, além de proporcionar a experiência de vivenciarem as atividades realizadas em
nossos laboratórios, despertando o primeiro interesse dos possíveis futuros acadêmicos em
projetos de pesquisa do Departamento.
Para a realização do IV Botânica no Inverno, agradecemos à Universidade de São
Paulo, à direção do Instituto de Biociências, à chefia do Departamento de Botânica, à
Comissão Coordenadora do Programa de Pós-graduação em Botânica, as agências de fomento
FAPESP, CAPES e CNPQ, à Monsanto, à Eppendorf, à Synth, à RCS Copiadora e ao Nahu
Hostel.

Desejamos a todos um bom curso.

Comissão Organizadora do IV Botânica no Inverno


Índice
A origem do cloroplasto e a evolução dos eucariontes fotossintetizantes ................................................. 1
Bioquímica, fisiologia e ecofisiologia da fotossíntese .............................................................................. 9
Aspectos gerais do desenvolvimento do meristema apical radicular e meristema apical caulinar .......... 14
Plantas e sociedade ................................................................................................................................. 24
Microalgas: ecologia, biodiversidade e importância ............................................................................... 35
Tópicos atuais das relações entre os metabolismos do carbono e nitrogênio em plantas vasculares ...... 48
Metabolismo secundário vegetal ............................................................................................................. 65
Fontes vegetais atuais e potenciais de energia, álcool e biodiesel .......................................................... 72
Ficocolóides: polissacarídeos das algas marinhas suas aplicações e o cenário industrial atual .............. 82
Sinalização luminosa e o desenvolvimento vegetal ................................................................................ 88
Metabólitos secundários na interação planta-planta .............................................................................. 103
Os estudos da flor.................................................................................................................................. 113
Algas invasoras ..................................................................................................................................... 122
Papel ecológico dos metabólitos secundários frente ao estresse abiótico ............................................. 127
Polinização e tipos de reprodução em angiopermas .............................................................................. 136
Princípios e métodos da sistemática vegetal ......................................................................................... 143
Citogenética vegetal .............................................................................................................................. 150
Árvores filogenéticas: da classificação aos estudos evolutivos ............................................................ 162
Leitura complementar ........................................................................................................................... 176
A origem do cloroplasto e a evolução dos eucariontes
fotossintetizantes
Cíntia Iha
Fernando Sena

Registros fósseis indicam que havia vida na Terra há cerca de 3 bilhões de anos. Nessa época, a única
forma de vida eram células procarióticas, que viviam em um ambiente pobre em oxigênio e rico em gás
carbônico e outros gases. As primeiras evidências concretas do aparecimento de organismos fotossintetizantes
datam de 2,8 a 2,5 bilhões de anos atrás. As evidências fósseis, geoquímicas e moleculares indicam que esses
organismos eram semelhantes às cianobactérias atuais. Esses dados mostram que a origem das cianobactérias e
da fotossíntese oxigênica foram concomitantes na história da vida na Terra.
As cianobactérias e a fotossíntese oxigênica permitiram grande modificação do ambiente. A reação da
fotossíntese absorve o gás carbônico atmosférico e libera oxigênio. Com o passar dos milhões de anos, o
oxigênio foi se acumulando e culminou na primeira grande poluição atmosférica. A maioria dos organismos
procariontes que existiam possuíam um metabolismo redutivo anaeróbio, que era pouco eficiente, e, por causa da
oxidação resultante do acúmulo de oxigênio, esse organismos redutores sofreram uma extinção em massa.
Apesar disso, essa oxidação do ambiente permitiu dois eventos muito importantes: o primeiro foi o aparecimento
de um metabolismo muito mais eficiente – a respiração aeróbia; o segundo foi o consequente surgimento dos
organismos eucariontes.
Os primeiros eucariontes apareceram há cerca de 1,5 bilhões de anos. O fato impressionante é que a
diversificação dos eucariontes ocorreu de forma bastante rápida, em comparação ao tempo entre o surgimento da
vida até o aparecimento do primeiro eucarionte. Do aparecimento da vida até o surgimento da primeira célula
eucariótica se passaram 2 a 1,5 bilhões de anos; do aparecimento do eucariotos até os dias de hoje, cerca de 1,5
bilhões de anos. A diversidade atual e já extinta de eucariontes é enorme. Provavelmente esse “bloom”
evolucionário de eucariontes só foi possível em decorrência de um terceiro evento ocasionado pela oxidação da
atmosfera: o surgimento da camada de ozônio, que protegeu a vida contra os raios UV que danificam a estrutura
do DNA.
O nosso planeta está repleto de vida fotossintetizante, sendo que os únicos procariontes
fotossintetizantes conhecidos são as cianobactérias. Todas as outras formas de vida que fazem fotossíntese são
eucariontes. O surgimento do eucarionte fotossintetizante ocorreu graças a uma cianobactéria que viveu
simbioticamente dentro de uma célula eucarionte, até então não fotossintetizante. Esse evento é chamado de
endossimbiose. O advento da endossimbiose deu capacidade às células eucarióticas de captar luz e fixar carbono,
gerando seu próprio alimento, o que foi vantajoso para elas. A cianobactéria também se beneficiou, pois recebeu
abrigo e proteção da célula eucariótica. Ocorreu então uma coevolução entre a célula hospedeira e a
cianobactéria intracelular, que evoluiu para organelas, hoje conhecidas como cloroplastos. Essa coevolução
permitiu a origem e o desenvolvimento das plantas e algas atuais.
A ideia básica sobre a origem dos cloroplastos parece muito simples: a endossimbiose de uma
cianobactéria dentro de uma célula eucariótica, em que ambas se beneficiam e podem coevoluir. Porém, a

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realidade é muito mais complicada. Existem eucariontes fotossintetizantes de vários tamanhos, desde as plantas
terrestres e grandes macroalgas até unicelulares, como as microalgas. Além disso, esses organismos podem ser
sésseis ou móveis e ocupam todos os ambientes: terrestre, aquático, do equador aos polos. A diversidade de
eucariontes fotossintetizantes é enorme e muitos desses organismos não evoluíram juntos. Esse capítulo vai
mostrar um panorama geral da origem do cloroplasto e como esse evento permitiu a diversidade de organismos
eucariontes fotossintetizantes.

As algas e sua diversidade


Para tratar da evolução do cloroplasto e dos organismos eucariontes fotossintetizantes é necessário ter
uma visão geral da diversidade desses organismos. Tradicionalmente, as algas são todas as formas de vida
fotossintetizante com clorofila a, que não são as plantas terrestres. Essa visão era suficientemente ampla para
incluir organismos tão distintos como procariontes (as cianobactérias) e eucariontes. Dos eucariontes são
considerados “algas” tanto organismos próximos às plantas terrestres como protozoários próximos a organismos
não fotossintetizantes (Figura 1). De modo geral, as algas estão supostamente unificadas com base na
fotossíntese oxigênica, apesar dessa habilidade não retratar uma evolução originada de um mesmo ancestral
comum.
Todas as formas de vidas existentes hoje estão divididas em três domínios: Bacteria, Archaea
(procariontes) e Eukarya (todos os organismos eucariontes). A fotossíntese oxigênica está presente nos domínios
Bacteria (apenas nas cianobactérias) e Eukarya, espalhada em diversos grupos. É consensual que a origem dos
eucariotos é única, ou seja, ocorreu apenas uma vez, porém existem várias evidências mostrando que os
organismos eucariontes fotossintetizantes surgiram diversas vezes. Para entender essa diversidade será passado
brevemente quem são esses organismos.
Atualmente, são reconhecidos cinco grandes grupos em Eukarya: Unicontes (dividido em Opistocontes
e Amoebozoa), Archaeplastida, Rhizaria, Chromoalveolados (divididos principalmente em Alveolados e
Estramenópilas) e “Excavados” (dividido em Excavados e Discicristados). Apenas um deles não possui
representantes fotossintetizantes: os Unicontes (Figura 1).
A primeira vez que ocorreu a endossimbiose foi com ancestral comum do grupo Archaeplastida (archae
= antigo; plastida = cloroplasto). Esse evento ocorreu apenas uma vez e é chamado de endossimbiose primária.
Todas as espécies desse grupo são fotossintetizantes e existem fortes indícios de ser um grupo monofilético.
Existem três grandes linhagens distintas: Rhodophyta, que são as algas vermelhas; Chloroplastida, que inclui as
algas verdes e as plantas terrestres; e Glaucophyta.
O grupo Rhizaria possui organismos que são majoritariamente ameboides e fazem parte,
principalmente, do plâncton do mar. Porém existem também organismos de água doce e terrestres. Fazem parte
desse grupo: Radiolaria, Foraminifera, Plasmodiophora, Heliozoa e Cercozoa. Apenas em Cercozoa existem
organismos fotossintetizantes, as “cloraraquiniófitas” (Chlorarachniophyta). Estas algas são unicelulares,
marinhas. Apesar de elas serem fotossintetizantes, estão bastante relacionadas com organismos heterotróficos.
Estramenópilas fotossintetizantes constituem em torno de onze linhagens distintas, todas elas possuem
cloroplasto com clorofila a e c. Entre elas estão dois grupos que são ecológica e economicamente importantes: as
diatomáceas e as algas pardas, juntos formam o grupo heterocontes. As diatomáceas são microalgas muito
abundantes no plâncton marinho e de água doce. Possuem uma carapaça de sílica bipartida que se encaixam

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como uma caixa com uma tampa. As algas pardas (Phaeophyceae) são macroalgas que estão amplamente
distribuídas no globo terrestre, principalmente nas regiões temperadas. Existem espécies enormes, que podem
chegar a 60 metros de comprimento e formam verdadeiras florestas subaquáticas, conhecidas como florestas de
kelps.
Dentro do grupo dos alveolados, apenas os dinoflagelados possuem representantes fotossintetizantes,
mesmo assim, não são todos. Dinoflagelados formam um grupo diverso, predominantemente unicelular. Apenas
metade deles é fotossintetizante, mas há indícios que o ancestral comum do grupo era capaz de realizar
fotossíntese e, ao longo da evolução, uma parte perdeu essa capacidade. Apicomplexas são grupo-irmão dos
dinoflagelados e inclui importantes agentes que causam doenças, como malária (Plasmodium) e toxoplasmose.
Todos os apicomplexas, apesar de não fazerem fotossíntese, possuem um cloroplasto vestigial chamado
apicoplasto, sugerindo que o ancestral comum entre dinoflagelados e os aplicomplexas era fotossintetizante.
As haptófitas e as criptófitas são algas evolutivamente próximas das estramenópilas. Elas também
possuem cloroplasto com clorofilas a e c, o que sugere que o ancestral comum entre as estramenópilas,
haptófitas e criptófitas já possuía cloroplasto com clorofila c.
Os únicos organismos fotossintetizantes dos excavados são as euglenófitas. Ainda assim, apenas uma
parte delas possuem cloroplastos. As euglenófitas são unicelulares de vida livre que ocorrem nos ambientes
marinhos e de água doce.

Figura 1 - Árvore filogenética de Eukarya, mostrando os grandes grupos. Os ramos pretos indicam a presença de
organismos capazes de realizar fotossíntese. Modificado de Baudalf (2008).

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Endossimbiose primária
Todos os organismos que fazem fotossíntese oxigênica possuem clorofila a como molécula principal
para captação luz. Essa molécula está associada a um sistema químico e fotoquímico tão complexo que chega a
ser inconcebível a ideia de que ela possa ter surgido mais de uma vez no planeta. Já foi dito anteriormente que a
clorofila a surgiu nas cianobactérias, antes do aparecimento do primeiro eucarionte e que existem evidências que
sugerem veementemente que o cloroplasto dos organismos eucariontes surgiu com a endossimbiose de uma
cianobactéria dentro de uma célula eucarionte hospedeira. Com isso, o que prova que a endossimbiose primária
ocorreu apenas uma vez é a origem única da clorofila a das cianobactérias.
O cloroplasto dos eucariontes que evoluíram da endossimbiose de uma cianobactéria possui duas
membranas. Esses cloroplastos são chamados de primários ou simples. Existem duas explicações para a presença
dessas duas membranas. A hipótese mais comum é que a membrana interna era a membrana plasmática da
cianobactéria, enquanto que a membrana mais externa é do fagossomo (vacúolo digestivo) da célula eucarionte
(Figura 2a). A outra explicação é que tanto a membrana interna como a externa pertenciam à cianobactéria
original. Neste caso, assume-se que a membrana do fagossomo foi perdida. As cianobactérias são bactérias
gram-negativas, isto é, possuem parede celular constituída por uma camada de peptidioglicano, envolvendo a
membrana plasmática, e externamente a essa camada há outra membrana lipoprotéica. Durante a evolução dos
cloroplastos, a camada de peptideoglicano foi perdida, mantendo-se as duas camadas lipoproteicas - a membrana
plasmática e a membrana lipoproteica mais externa da parede celular.
De modo geral, a endossimbiose ocorre de forma bem corriqueira no planeta. Vários casos podem ser
citados, o mais comum é o dos recifes de corais. Os corais são cnidários que possuem dentro de suas células
endossimbiontes que são dinoflagelados, chamados zooxantelas. São as zooxantelas que promovem as cores dos
corais. Elas realizam fotossíntese e fornecem alimento para os cnidários, que por sua vez, fornecem abrigo para
elas. Quando há um desequilíbrio ambiental, seja por poluição ou aumento da temperatura da água, os cnidários
expulsam as zooxantelas de suas células, o que provoca o branqueamento dos corais. No caso das plantas e das
algas, elas não são capazes de expulsar os cloroplastos de suas células. Ao longo da evolução das células
vegetais e dos cloroplastos ocorreu uma transferência lateral de genes. Ou seja, genes que pertenciam à
cianobactéria foram transferidos para o núcleo da célula hospedeira. Esta, por sua vez, passou a produzir as
proteínas importantes para a vida da cianobactéria, tornando-a dependente da célula hospedeira (Figura 2b). Se a
transferência lateral de genes não tivesse ocorrido, provavelmente a cianobactéria não iria coevoluir para o
cloroplasto da célula vegetal.
A célula hospedeira ancestral, que adquiriu o cloroplasto primário, deu origem a três linhagens bem
definidas: as glaucófitas, as algas vermelhas e as algas verdes (que inclui as plantas terrestres) (figura 2c). Esses
três grupos formam uma linhagem monofilética chamada Archaeplastida. As glaucófitas constituem um pequeno
grupo de algas unicelulares de água doce. O cloroplasto das glaucófitas, chamado de cianela, agrega várias
evidências da endossimbiose primária. As cianelas ainda mantêm vestígios da camada de peptideoglicano
(componente da parede celular da cianobactéria) entre as duas membranas. Os cloroplastos das algas vermelhas e
as cianelas possuem pigmentos para captação de luz semelhante ao das cianobactérias atuais (clorofila a e
ficobiliproteínas). As algas verdes, grupo diverso que inclui desde organismos unicelulares até as plantas
terrestres, possui o cloroplasto mais diferenciado das cianobactérias. Esses cloroplastos perderam as
ficobiliproteínas, desenvolveram a clorofila b e possui um complexo de membrana formando os tilacóides.

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Todos os outros organismos fotossintetizantes adquiriram cloroplasto a partir de um eucarionte da linhagem
Archaeplastida e não de uma cianobactéria. Esse evento é chamado de endossimbiose secundária.

Figura 2 - Representação esquemática da evolução do cloroplasto através da Endossimbiose Primária. Chl a:


clorofila a, Chl b: clorofila b, PB: ficobiliproteínas, TLC: Transferência lateral de genes. Modificado de Bellorin & Oliveira
(2006).

Endossimbiose secundária
Como já foi dito anteriormente, todos os outros organismos fotossintetizantes, que não fazem parte do
grupo Archaeplastida, não possuem cloroplasto originado da endossimbiose primária, ou seja, a partir de uma
cianobactéria. O cloroplasto desses grupos se originou a partir de células eucariontes que já possuíam cloroplasto
primário, é a chamada endossimbiose secundária. Diferente da endossimbiose primária, que ocorreu apenas uma
vez na história da evolução, a endossimbiose secundária ocorreu diversas vezes, em vários grupos diferentes. Os
grupos que possuem cloroplastos secundários são: euglenófitas, dinoflagelados, algas heterocontes (diatomáceas
e algas pardas), haptófitas, criptófitas, apicomplexas e “cloraraquiniófitas”.
A primeira evidência que indica a endossimbiose secundária é a presença de mais de duas membranas
nos cloroplastos desses grupos. As euglenas e os dinoflagelados possuem três membranas e as algas
heterocontes, as haptófitas, as criptófitas, os apicomplexas e as “cloraraquiniófitas” possuem quatro membranas
(Tabela 1). Outra evidência consistente da endossimbiose secundária é a presença do núcleo vestigial (chamado
de nucleomorfo) do eucarionte endossimbionte, presente nos grupos “cloraraquiniófitas” e criptófitas.
A explicação para as mais de duas camadas do cloroplasto secundário é que as duas camadas mais
internas pertencem ao cloroplasto primário, a terceira camada mais interna seria correspondente à membrana
plasmática do eucarionte que foi engolfado e, por fim, a quarta camada, a mais externa, corresponde à membrana

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do fagossomo. No caso do cloroplasto com três membranas, é mais provável que o cloroplasto secundário tenha
perdido uma das membranas, que possivelmente era a membrana plasmática do eucarionte endossimbionte.
Assim como na endossimbiose primária, para que o eucarionte hospedeiro e o eucarionte
endossimbionte coevoluam, foi necessário que a transferência lateral de genes tivesse ocorrido. Dessa vez, não
apenas genes do genoma do cloroplasto primário do eucarionte endossimbionte tiveram que ser transferidos para
o genoma nuclear do eucarionte hospedeiro, mas também genes nucleares do eucarionte endossimbionte tiveram
que ser transferidos para o núcleo do hospedeiro.

Tabela 1 - Tabela comparativa entre os grupos fotossintetizantes. Chl a: clorofila a, Chl b: clorofila b, Chl c:
clorofila c, PB: ficobiliproteínas

Membranas do cloroplasto Nucleomorfo Principais pigmentos

Glaucófitas 2 Ausente chl a, PB


Algas Vermelhas 2 Ausente chl a, PB
Algas Verdes 2 Ausente chl a, chl b

Cryptomonas 4 Presente chl a, chl c, PB


Estramenópilas 4 Ausente chl a, chl c
Haptófitas 4 Ausente chl a, chl c
Dinoflagelados 3 Ausente chl a, chl c
Chloraracniófitas 4 Presente chl a, chl b
Euglenas 3 Ausente chl a, chl b
Apicomplexos 4 Ausente não fotossintetizente

Os eucariotos que possuem cloroplastos secundários são tão diversos, assim como esses cloroplastos
são diversos entre si. Por causa dessa diversidade, é bem aceito que a endossimbiose secundária tenha ocorrido
algumas vezes. Existem dois principais tipos de cloroplastos secundários: aqueles derivados da endossimbiose de
alga verde e aqueles derivados de alga vermelha. A endossimbiose por alga verde ocorreu duas vezes de forma
independente na história da evolução. Desses dois eventos, foram originadas as linhagens das
“cloraraquiniófitas” e das euglenófitas fotossintetizantes (figura 3). A endossimbiose por uma alga vermelha é
mais complexa, pois não se sabe ainda se esse evento ocorreu apenas uma vez ou mais de uma. No cenário atual,
é mais parcimoniosa a ocorrência de uma única endossimbiose secundária de uma alga vermelha, que ramificou
para os dinoflagelados, algas heterocontes, haptófitas, criptófitas e apicomplexas (Figura 4).
Os cloroplastos originados pela endossimbiose secundária de uma alga verde possuem clorofila a e b.
As “cloraraquiniófitas” guardam bastante evidência sobre a endossimbiose secundária. Esses organismos
pertencem à linhagem Cercozoa e existem poucas espécies reconhecidas. O cloroplasto possui quatro
membranas, um citoplasma vestigial com ribossomos funcionais, um nucleomorfo e o cloroplasto primário do
eucarionte endossimbionte.

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As euglenófitas fotossintetizantes pertencem ao grupo dos Excavados e não são evolutivamente
próximas às “cloraraquiniófitas”, o que corrobora a hipótese de que ocorreram duas endossimbioses secundárias
de alga verde. Além disso, apenas uma parte das euglenófitas possui cloroplasto, indicando que a endossimbiose
não ocorreu no ancestral comum do grupo, mas sim durante a sua diversificação. Inicialmente, acreditava-se que
o cloroplasto das euglenófitas havia sido originado por uma endossimbiose primária, pois são bastante reduzidos.
Esse cloroplasto possui três membranas e não possui nucleomorfo, restando apenas o cloroplasto primário do
eucarionte endossimbionte.

Figura 3 - Representação esquemática da evolução do cloroplasto através da Endossimbiose Secundária por uma
alga verde. Chl a: clorofila a, Chl b: clorofila b. Modificado de Bellorin & Oliveira (2006).

Uma origem do cloroplasto a partir de uma alga vermelha foi proposta inicialmente com os cloroplastos
das criptófitas, que são as únicas algas que possuem cloroplasto com ficobiliproteínas e mais de duas
membranas. Esses cloroplastos também possuem clorofila c, pigmento também encontrado nos cloroplastos das
algas heterocontes, haptófitas e dinoflagelados. A hipótese mais parcimoniosa é que a endossimbiose de uma
alga vermelha ocorreu apenas uma vez na história evolutiva e que desse ancestral, divergiu o grupo conhecido
como Chromoalveolados (Figura 4).
As criptófitas são organismos unicelulares marinhos ou de água doce. O cloroplasto secundário desse
grupo tem quatro membranas, possui um citoplasma vestigial com ribossomos e pode armazenar reserva de
amido. Há também um nucleomorfo e o cloroplasto primário contém tilacóides. Como já foi dito, além das
clorofilas a e c, estão presentes ficobiliproteínas, pigmento presente nas algas vermelhas. A membrana mais
externa do cloroplasto secundário é contínua com as membranas do retículo endoplasmático que envolve o
núcleo.
As algas heterocontes e as haptófitas possuem o cloroplasto com quatro membranas e são muito
semelhantes (Figura 4b). Perderam o nucleomorfo, mas estão localizadas no lúmen do retículo endoplasmático.
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Possuem clorofila a e c, mas perderam as ficobiliproteínas. As algas heterocontes constituem o mais diverso
grupo de algas, que possui desde organismos unicelulares presentes no picoplâncton até complexas macroalgas
que chegam a um tamanho de muitos metros, as chamadas kelps.
Uma história evolutiva mais confusa é a dos alveolados (Figura 4c). Dentro desse grupo estão os
dinoflagelados, onde metade faz fotossíntese e a outra não. O cloroplasto dos dinoflagelados fotossintetizantes
possuem três membranas, não possui nucleomorfo e contém clorofila a e c. Estudos indicam que a metade
heterotrófica dos dinoflagelados perdeu o cloroplasto ao longo da evolução.
O caso mais surpreendente da evolução dos cloroplastos são os apicomplexas. Todos os apicomplexas
são heterotróficos e muitos estão associados a doenças animais. Eles possuem um cloroplasto não
fotossintetizante e reduzido de quatro membranas, que são chamados de apicoplastos. Esses cloroplastos
perderam totalmente a capacidade de fotossíntese, mas os vestígios de um ancestral fotossintetizante ainda estão
presentes.
A situação filogenética dos chromoalveolados ainda é duvidosa e pouco resolvida. A hipótese mais
parcimoniosa sugere um evento único de uma endossimbiose secundária de uma alga vermelha, que coevolui,
divergindo para os grupos das criptófitas, haptófitas, alveolados e estramenópilas. Ao longo da evolução, grande
parte das espécies desses grupos perdeu o cloroplasto, ou a capacidade de fazer fotossíntese.

Figura 4 - Representação esquemática da evolução do cloroplasto através da Endossimbiose Secundária por uma
alga vermelha. Chl a: clorofila a, PB: ficobiliproteínas. Modificado de Bellorin & Oliveira (2006).

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Bioquímica, fisiologia e ecofisiologia da fotossíntese
Mauro Alexandre Marabesi

Introdução
A fotossíntese é o processo fisiológico através do qual a energia solar é convertida em produtos
orgânicos que são utilizados tanto pelos organismos fotossintetizantes como pelos organismos heterotróficos. Os
produtos fotossintéticos estão na base do fluxo de energia da maioria dos ecossistemas, com exceção de
ambientes acima de 70º C como as fontes hidrotermais, onde a quimiossíntese é a base do fluxo energético.
A fotossíntese pode ser dividida em dois processos acoplados que ocorrem no cloroplasto. O primeiro
processo é a transformação da energia solar nas membranas do cloroplasto em poder redutor (NADPH) e energia
na forma de ATP. O segundo processo ocorre no estroma do cloroplasto onde o poder redutor e o ATP formado
na fase anterior são utilizados para produzir carboidratos no ciclo de Calvin. Em algumas espécies a redução do
nitrogênio e do enxofre ocorre nas folhas utilizando o poder redutor produzido na fotossíntese. Porém como estas
espécies são minoria a partir de agora usaremos o termo fotossíntese como sinônimo da redução do dióxido de
carbono. A equação geral da fotossíntese é:
2H2A + CO2 CH2O + A2
Esta equação demonstra que o processo fotossintético depende de reações de óxido – redução, que a
glicose não é o carboidrato produzido por este processo e que nem todos os organismos usam a água como
doador de elétrons. Existem bactérias nas quais o elemento A é o enxofre, e, portanto utilizam H 2S como doador
de elétrons e produzem carboidratos e S2. Este tipo de fotossíntese na realidade foi a primeira a ocorrer na
história da Terra e deu origem à fotossíntese oxigênica na qual o elemento A é o oxigênio. Esta mudança
permitiu a expansão e a diversificação dos organismos fotossintetizantes basais (bactérias e cianobactérias), pois
utiliza o substrato que mais estava disponível nos mares primitivos, a água.

Bioquímica e fisiologia da fotossíntese


A fotossíntese é um processo procarionte, uma vez que os cloroplastos das células vegetais são
resultados da simbiose de células eucariontes com procariontes. Alguns cloroplastos são derivados de
endossimbiose primária (ou seja, resultante de um evento de simbiose que ocorreu há 1,6 milhões de anos) e
alguns de endossimbiose secundária no qual um organismo incorporou outro que possuía a simbiose primária,
neste caso os cloroplastos possuem mais de duas membranas. Um caso bastante incomum de simbiose
secundária ocorre em corais onde o pólipo do coral engloba algas e estas permanecem funcionais dentro dos
pólipos.
A transformação da energia luminosa em poder redutor e ATP ocorre nas membranas do cloroplasto
onde diversas proteínas transmembrânicas estão presentes. Estas proteínas se organizam em complexos que são
conectados por carregadores móveis de elétrons. O primeiro complexo é o fotossistema II, que é formado por
diversas proteínas, dentre estas estão o complexo antena (onde as clorofilas e carotenóides estão alojados e
orientados por proteínas) que “coletam” a energia luminosa e a transferem por ressonância entre as moléculas de
clorofila para um centro de reação, resultando na liberação de um elétron de uma molécula especial de clorofila,
dando início ao transporte de elétrons. Na parte voltada para os tilacóides do fotossistema II está localizado o

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complexo que hidrolisa a água liberando o oxigênio, H + e elétrons. Estes últimos irão repor o elétron doado no
centro de reação. O fotossistema II doa elétrons para o complexo do citocromo bf que por sua vez doa elétrons
para o fotossistema I. O fotossístema I pode doar seu elétron para o NADP + (através de um aceptor de elétrons,
geralmente a ferredoxina) para formar o NADPH. Os H + liberados pelo fotossistema II se acumulam no interior
do tilacóide formando um gradiente de prótons. Este gradiente é a força motora da produção de ATP que ocorre
em um complexo protéico denominado ATPase.
O ATP e NADPH produzidos nestas reações são utilizados no ciclo de Calvin para reduzir o CO2 a
trioses fosfato (que são açúcares de 3 carbonos). Estas trioses fosfato podem seguir dois caminhos, um deles é
atravessar as membranas do cloroplasto e no citoplasma seguirem a via da neoglicogênese (inverso da glicólise)
para produzir sacarose ou podem ficar retidas no cloroplasto onde são usadas para formar amido.
O ciclo de Calvin pode ser dividido em três fases, a primeira é a fase de carboxilação onde o CO 2 é
incorporado na ribulose 1,5 bifosfato (RUBP, que possui 5 Carbonos) formando 2 compostos de 3 carbonos (de
forma que plantas que possuem este metabolismo são denominadas de C 3). Esta reação é catalisada por uma
enzima denominada de ribulose 1,5 bifosfato carboxilase/oxigenase (abreviada como RUBISCO). Esta enzima é
ineficiente, pois possui baixa afinidade com o CO2 e porque também reage com o O2 dando origem ao ciclo de
fotorrespiração. A fase seguinte do ciclo de Calvin é a de redução, onde os compostos de 3 carbonos são
reduzidos (usando o NADPH e ATP gerados na primeira etapa da fotossíntese- descrita anteriormente) a
carboidratos (trioses fosfato). Uma parte destes sai do ciclo de Calvin e uma parte fica retida para a regeneração
do aceptor de CO2, a RUBP. A estequiometria destas reações requer que para a formação de 2 trioses fosfato
sejam usadas 6 moléculas de CO2 e 6 moléculas de RUBP originando 12 moléculas de 3 carbonos, 2 destas saem
do ciclo e 10 destas são usadas na regeneração da RUBP.
Estes dois processos estão acoplados de forma que se a cadeia transportadora de elétrons funciona mais
rápido do que o ciclo de Calvin terá um acúmulo de H + nas membranas do tilacóides. Este acúmulo de H+ leva a
acidificação dos tilacóides que causa uma mudança conformacional nos complexos antenas, levando-os a
dissipar a maior parte da energia absorvida na forma de calor, desta forma reduzindo a taxa de transporte de
elétrons e ajustando a velocidade dos dois processos.

Fotorrespiração e mecanismos de concentração de CO2


A reação da RUBISCO com o oxigênio dá origem a um composto de 3 carbonos e um de 2 carbonos. O
composto de 3 carbonos pode seguir o ciclo de Calvin, mas o composto de 2 carbonos não. Desta forma existe
um ciclo denominado de fotorrespiração que recicla os compostos de 2 carbonos. Neste ciclo, 2 moléculas de 2
carbonos são combinadas para formar uma molécula de 3 carbonos com a liberação de uma molécula de CO 2.
Estima-se que a 25º C a liberação de CO2 pela fotorespiração diminui a produtividade da planta em um 25%.
A taxa de fotorrespiração é controlada principalmente por dois fatores, a temperatura e a razão CO 2/O2
no tecido vegetal. A razão CO2/O2 determina a disponibilidade dos dois substratos e qualquer fator que diminua
a disponibilidade de CO2 (como o fechamento estomático) irá aumentar a taxa de fotorrespiração e qualquer
fator que aumente a disponibilidade de CO2 irá diminuir a taxa de fotorrespiração. Conforme a temperatura
aumenta, há um incremento na taxa de fotorrespiração devido a dois fatores: o primeiro é que com o aumento da
temperatura, a solubilidade do CO2 no tecido diminui mais do que a do O2, o que equivale a diminuir a razão
CO2/O2. O segundo fator é que a atividade de oxigenase da RUBISCO aumenta consideravelmente quando

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comparada com a sua atividade carboxilase.
Algumas plantas desenvolveram mecanismos de concentração de CO2 que são capazes de diminuir a
fotorrespiração, devido ao aumento na razão CO2/O2. Estas vias fotossintéticas são denominadas de C4 e o
Metabolismo ácido das crassuláceas (CAM). Estes dois tipos de metabolismos possuem o mesmo requerimento
enzimático, diferindo apenas na morfologia e na escala temporal.
No metabolismo C4, o CO2 ao chegar ao citoplasma das células do mesófilo se dissolve formando
HCO3, o qual é usado pela enzima fosfoenolpiruvato carboxilase (PEPC) juntamente com o fosfoenol piruvato
(PEP) para formar oxaloacetato (que é um composto de 4 carbonos e daí o nome C 4). Este último por sua vez é
reduzido a malato. O malato então é transportado para as células da bainha perivascular onde entra no
cloroplasto e é descarboxilado, liberando CO2 e piruvato que retorna para as células do mesófilo onde é
transformado em fosfoenolpiruvato, com gasto de uma molécula de ATP, e reinicia o ciclo. Como o ciclo C 4
funciona muito mais rápido do que o ciclo de Calvin ocorre o acúmulo de CO2 no cloroplasto.
No metabolismo CAM a formação do oxaloacetato ocorre no período noturno e o malato formado é
armazenado no vacúolo (este armazenamento de ácido foi visto pela primeira vez em uma crassulácea e recebeu
o nome de Metabolismo Ácido das Crassuláceas). No dia seguinte (período claro), o malato é liberado do
vacúolo e descarboxilado no citossol. O CO2 gerado neste processo vai para o cloroplasto onde é usado no ciclo
de Calvin.

Difusão de CO2 pela folha


O CO2 para reagir com a RUBISCO no ciclo de Calvin deve-se difundir da atmosfera até o cloroplasto.
Esta rota de difusão pode ser entendida como uma série de resistências ao fluxo de CO 2 que levam a uma
redução de sua concentração ao longo desta via. A primeira resistência é a da camada limite, que é constituída de
ar parado ao redor da folha. A resistência desta camada envolve a presença de tricomas na superfície da folha e a
velocidade do vento. Quanto maior a quantidade de tricomas, maior a camada de ar parado ao redor da folha e,
portanto, maior a resistência à difusão do CO2. Por outro lado, quando maior for a velocidade do vento, menor
será a camada de ar parado e, portanto, menor a resistência a difusão do CO 2. A segunda resistência é dada pelos
estômatos, sendo que a difusão do CO2 será proporcional à quantidade e abertura destes. Depois de entrar na
folha pelos estômatos o CO2 deve-se difundir pelos espaços intercelulares até atingir a parede celular das células
do mesófilo. Até este momento o CO2 difundiu-se pelo ar e esta parte da difusão é denominada de gasosa. Ao
entrar em contato com as paredes celulares o CO2 deve se difundir pelo citossol até o cloroplasto e esta parte da
difusão é denominado de aquosa. Como a difusão pela água é 10.000 vezes mais lenta que pelo ar esta fase da
difusão representa uma resistência tão grande quanto às outras somadas. Desta forma a concentração de CO 2 vai
diminuindo gradativamente da atmosfera ao cloroplasto.

Ecofisiologia
Apesar da fotossíntese não poder ser medida diretamente, existem equipamentos que conseguem
estimar a taxa de assimilação líquida de CO2 no tecido foliar de maneira não destrutiva. Estes equipamentos são
denominados de sistemas de trocas gasosas e, apesar de serem complexos, funcionam com base em um princípio
simples. Estes sistemas enclausuram uma parte da folha (ou a folha inteira) e possuem um analisador de gás por
infravermelho, desta forma, este analisador quantifica a concentração de CO 2 e H2O do ar antes de passar pela

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folha e o analisa novamente após passar pela folha. Através da diferença na concentração de CO 2 calcula-se a
taxa de consumo de CO2, denominada de taxa de assimilação líquida (A). Esta variável é denominada dessa
forma, pois representa a resultante entre todos os processos que assimilam CO 2 (fotossíntese) e todos os
processos que liberam CO2 (fotorrespiração e respiração). Através da diferença na concentração de H 2O calcula-
se a taxa de transpiração (E).
Os estudos de ecofisiologia podem ser entendidos sob a perspectiva de como a bioquímica e fisiologia
da fotossíntese influenciam a eficiência da utilização de recursos (luz, água e nutrientes, com foco no nitrogênio)
e como estas estratégias de utilização dos recursos se distribuem nas diferentes espécies e quais são as regras
gerais desta variação.
A eficiência do uso de qualquer recurso é calculada como a taxa de assimilação líquida de CO 2 dividida
pela quantidade do recurso em questão. A taxa de assimilação líquida é usada, pois representa a entrada de
energia para as plantas e, portanto é assumido neste tipo de análise que a seleção natural favorece espécies que
possuem maior entrada de energia por unidade de recurso utilizado.
A eficiência do uso na luz é definida como: A/ No de fótons utilizados, a eficiência instantânea do uso
da água é definida como: A/E e a eficiência do uso do nitrogênio é definida como: A/[Nitrogênio da folha]. Estas
eficiências são diferentes entre espécies, e podem ajudar a compreender a distribuição espacial das espécies
vegetais.
Espécies que vivem no sub-bosque de florestas ou na sombra possuem maior eficiência do uso da luz do
que espécies que atingem o dossel de uma floresta ou estão no sol pleno. Entre os diferentes tipos de fotossíntese
as plantas C4 possuem uma baixa eficiência do uso da luz em baixa irradiância de fótons (menos de 200 µmol de
fótons m-2s-1) devido ao custo extra de ATP no ciclo C4, porém sob condições de alta irradiância (maior que
1000 µmol de fótons m-2s-1), essas plantas possuem uma elevada taxa de assimilação de CO 2, e
consequentemente, uma maior eficiência no uso da luz.
Geralmente, espécies que habitam locais secos (como o deserto e/ou o cerrado) possuem maior
eficiência do uso da água do que espécies que habitam locais úmidos (florestas). Entre os diferentes tipos de
fotossíntese as espécies CAM e C4 possuem maior eficiência no uso da água do que espécies C3.
A relação entre a taxa de assimilação de CO2 e a quantidade de nitrogênio foliar é a mais estudada na
literatura, por possuir uma forte base fisiológica e devido ao nitrogênio ser o elemento mineral limitante na
maioria dos ecossistemas. A base fisiológica desta relação é que o conteúdo de nitrogênio foliar determina a
quantidade de enzimas, clorofila, NADPH e ATP disponíveis para o metabolismo fotossintético. Devido à
RUBISCO ser uma enzima pouco eficiente na sua atividade carboxilase é necessário uma grande quantidade
dela. Estima-se que a RUBISCO compreenda em torno de 50% das proteínas solúveis das folhas. Estudos
demonstraram que cerca de 80% do nitrogênio foliar em trigo está no cloroplasto e que em espécies herbáceas
cerca de um 50-60% do nitrogênio foliar é investido na maquinaria fotossintética. Estudos realizados em
diversas localidades ao longo do planeta têm mostrado que a relação fotossíntese – nitrogênio é mais similar
entre espécies que ocorrem em um mesmo habitat do que entre espécies de habitats diferentes. A base desta
conclusão é que para as espécies coexistirem estas devem possuir uma eficiência similar no uso dos recursos.
Entre os diferentes tipos de fotossíntese as espécies C4 possuem maior eficiência do uso do nitrogênio
do que espécies C3. Isto é devido a dois fatores: 1) como a RUBISCO em espécies C 4 opera em alta concentração
de CO2, ela torna-se mais eficiente e, portanto é necessária uma menor quantidade desta enzima por cloroplasto.

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Outro fator é que a RUBISCO só esta presente nos cloroplasto das células da bainha perivascular, desta forma
diminui a quantidade de células no tecido foliar que devem sintetizar esta enzima.
O uso de um recurso também tem influência sobre outros. A eficiência do uso da luz é muito maior em
plantas sob luz baixa do que sob luz alta, enquanto que na eficiência do uso do nitrogênio ocorre o contrário,
desta forma quem possui uma alta eficiência no uso da luz possui uma baixa eficiência no uso do nitrogênio e
vice-versa.
A outra linha de pesquisa em ecofisiologia está voltada para o entendimento do “espectro da economia
foliar”. Neste tipo de estudo, em um grande número de espécies é comparada a relação entre diversas
características foliares, tais como a taxa de assimilação líquida de CO 2 (Amax) que representa a quantidade de
CO2 assimilado com luz saturante e concentração de CO2 atmosférica; a taxa de respiração (Rd) que representa a
quantidade de CO2 liberado pela folha durante a respiração; a massa foliar específica (MFE) que representa a
estrutura da folha e; o conteúdo de nitrogênio da folha (N). Nestes estudos a massa foliar específica representa o
investimento de biomassa na folha e o conteúdo de nitrogênio foliar o investimento de nitrogênio feito na folha.
O retorno deste investimento é medido como Amax e o custo de manutenção da folha é estimado pela taxa de
respiração.
Atualmente o maior destes estudos foi realizado com um banco de dados de 2500 espécies de 175
localidades de diferentes tipos de vegetação. Foi demonstrado, através de análise multivariável, que a variação
dessas características entre espécies foi explicada pelo primeiro eixo, onde espécies com alto A max, N e baixo
MFE se agrupam em um extremo deste eixo (espécies com potencial de crescimento rápido), enquanto no outro
extremo deste eixo se agrupam as espécies com características invertidas e correspondem às plantas com
crescimento lento.
Esta análise demonstrou que as espécies se distribuem ao longo de um contínuo de estratégias de
utilização dos recursos, onde um extremo é representado pela estratégia de baixo investimento estrutural (baixo
MFE) e alto investimento mineral (alto N) associado a um retorno rápido deste investimento (alto A max) e um
alto custo de manutenção (alto Rd) o que permite estas espécies crescerem rapidamente, ocupando os espaços
disponíveis. Porém devido à alta demanda minerais estas espécies geralmente estão associadas a locais ricos em
nutrientes. O outro extremo é representado pela estratégia de conservação de recursos, onde temos alto
investimento estrutural (alto MFE), baixo investimento mineral (baixo N), baixo retorno do investimento (baixo
Amax) associado a um baixo custo de manutenção (baixo Rd). Esta estratégia de conservação dos recursos é bem
sucedida em locais pobres em minerais. Entre estas duas estratégias opostas existe um contínuo, composto por
espécies que apresentam características intermediárias.

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Aspectos gerais do desenvolvimento do meristema
apical radicular e meristema apical caulinar
Paulo Marcelo Rayner Oliveira

Introdução
As plantas, atualmente, são resultado de milhares de anos de exposição às adversidades ambientais.
Diferentemente dos animais, as plantas são sésseis e, consequentemente, incapazes de migrar sob condições
ambientais desfavoráveis ou fugir o ataque de predadores Apesar disso, os organismos vegetais apresentam as
mais diversas adaptações que os permitiram colonizar os mais diferentes tipos de ambientes. Essas características
adaptativas mostram-se bastante variadas e, às vezes, um tanto quanto peculiares como, por exemplo, no caso
das epífitas. Exemplos dessas diferenças marcantes no padrão de desenvolvimento podem ser observadas na
bromeliácea Tillandsia recurvata,(L.) L. que possui um sistema radicular cuja principal função é a de fixação e,
do outro lado, a Orchidaceae Chiloschista usneoides (D.Don) Lindl. , que possui um sistema caulinar bastante
reduzido, sendo que quase todo seu metabolismo é executado pela parte radicular. Todas estas variações na
arquitetura vegetal só são possíveis devido a duas regiões extremamente importantes para o desenvolvimento,
que são os meristemas apicais caulinar e radicular.
Se tratando de desenvolvimento, os hormônios vegetais (ou fitormônios) aparecem como protagonistas.
Sabe-se que quase todos os eventos que acontecem no corpo da planta tem a participação destas moléculas. As
principais classes hormonais são: Auxina (AIA), Citocininas (CK), Giberelinas ou Ácido Giberélico (AG),
Ácido Abscísico (ABA) e o Etileno. Todavia, existem também outras substâncias reguladoras do crescimento
como os Brassinosteróides, Ácido Salicílico, Ácido Jasmônico, Estrigolactonas e o Óxido Nítrico. Tendo em
vista a importância dos hormônios, veremos um pouco dos processos dos quais alguns destes compostos
participam durante o crescimento e desenvolvimento vegetal.
Todo processo de formação do corpo vegetal acontece com a determinação dos polos meristemáticos
ainda na fase embrionária. Na região apical do embrião é estabelecido o polo do Meristema Apical Caulinar
(MAC), e na região basal do embrião polo do Meristema Apical Radicular (MAR). Esses dois centros celulares
vão garantir a continuidade no desenvolvimento da planta, pois durante a fase embrionária ainda não estão
formados os órgãos que estarão presentes na fase de desenvolvimento pós-embrionária como, por exemplo,
folhas, órgãos reprodutivos e sistema radicular completo. O processo de formação destas duas regiões é bastante
complexo. Da mesma forma, o modo como são organizados os meristemas e vias de sinalização que atuam,
quase que de forma restrita em algumas regiões dos meristemas, são também bastante intrincadas.

Meristema apical caulinar


Primeiramente analisaremos o MAC (figura 1), que exibe o seguinte padrão de organização: a região
mais interna é a Zona Central, que é composta pelo Centro Organizador (CO) que é circundado pelo Nicho de
Células Tronco (NCT). O CO apresenta baixa taxa de divisão celular e supre o NCT com novas células. Já o
NCT apresenta uma maior taxa de divisão, porém as células ainda são morfologicamente indiferenciadas. Estas
duas regiões são contornadas pelas Zonas Periféricas (ZP), regiões onde acontece a formação de novos órgãos.

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Figura1 – Representação das zonas do meristema apical caulinar.

Os mecanismos moleculares que regulam o desenvolvimento do MAC são de alta complexidade, porém
parte dessa maquinaria já é conhecida (figura 1). No âmbito hormonal, a citocinina mostra-se determinante para
a manutenção e desenvolvimento do MAC. Os maiores teores desta molécula estão localizados no CO. Esta
região é fortemente controlada por um fator de transcrição denominado WUSCHEL (WUS). Este define o centro
organizador, fazendo com que estas células apresentem baixa atividade mitótica e permaneçam
morfologicamente indiferenciadas. No centro organizador, WUS regula negativamente alguns fatores de
transcrição como ARABIDOPSIS RESPONSE REGULATOR7 (ARR7) e ARABIDOPSIS RESPONSE
REGULATOR15 (ARR15), sendo que regulam a expressão de genes envolvidos na inibição da sinalização
intracelular da citocinina. De forma sinergística, a citocinina induz a expressão de WUS, ou seja, há um feedback
positivo neste caso. Já as células do NCT permanecem indiferenciadas devido à ação do fator de transcrição
SHOOT MERISTEMLESS (STM). O STM que está presente na zona periférica induz genes que codificam
enzimas que participam da rota biossintética da citocinina, no caso isopenetenil transferase (IPT7), este
mecanismo aumenta os teores de citocinina no NCT, impedindo a diferenciação destas células. Além disso, as
proteínas codificadas pelo WUS no CO são transportadas para o NCT, induzindo a transcrição de CLAVATA
(CLV3), que atua juntamente com a citocinina mantendo células desta região indiferenciadas. Contudo CLV3
inibe a expressão de WUS no NCT o que permite a estas células sair da condição de quiescência, mas
permaneçam indiferenciadas.

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Figura 2 – Interações hormonais e gênicas nas regiões do meristema apical caulinar. NCT nicho de células
tronco, CO centro organizador, ZP zona periférica.

STM também atua na região da zona periférica, inibindo a biossíntese da giberelina e a expressão do
gene ASYMMETRIC LEAVES (AS1), garantindo que as células permaneçam morfologicamente
indiferenciadas. A auxina também aparece como fator chave no desenvolvimento da parte caulinar do vegetal
(figura 3). Nas regiões onde o balanço hormonal é favorável à auxina, ocorre também um aumento nos teores de
giberelina, repressão de STM, expressão do gene ASYMMETRIC LEAVES (AS1) e por fim inicio a formação
do primórdio foliar. A determinação da região meristemática onde será formado o novo órgão foliar é sinalizada
via gene CUP SHAPED COTYLEDON (CUC), que promove a inibição da proliferação celular estabelecendo
uma fronteira entre a região meristemática e a região de formação da folha.

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Figura 3 – Interação entre auxina, citocinina e outros elementos durante a formação do primórdio foliar.

Meristema apical radicular


Nesta seção analisaremos o meristema apical radicular (MAR) que é originado a partir do polo
radicular. O polo radicular localiza-se na parte basal do embrião sendo formado a partir da hipófise. Durante
este processo, a auxina aparece como protagonista (figura 4a). Este hormônio é um regulador positivo do fator de
transcrição AUXIN RESPONSE FACTOR5/MONOPTEROS (ARF5/MP). A expressão de ARF5 leva à indução
de outro fator de transcrição o TARGET OF MONOPTEROS7 (TMO7). No momento em que o TMO7 é
expresso, este é transportado para a hipófise, e então dá-se início a uma cascata de transdução de sinais que
determinará o estabelecimento polo radicular. Também faz parte deste processo de regulação o BODENLOS
(BDL) e TOPLESS (TPL). Entretanto, este conjunto atua como repressor do ARF5/MP. BDL e TPL são
regulados negativamente pela auxina. Deste modo forma-se um circuito de regulação onde a auxina induz
expressão do ARF5 que leva à expressão de TMO7 dando origem às células iniciais da raiz primária. Do outro
lado, BDL e TPL controlam a expressão de ARF5, restringindo o destino celular apenas às células da hipófise.
Contudo, existe outro mecanismo que atua de forma complementar. Neste caso, estão envolvidos os genes
PLETHORA (PLT) e CLASS III HOMEODOMAIN-LEUCINE ZIPPER (HD-ZIP III). PLT tem sua expressão
induzida pela auxina, que na fase embrionária atua na especificação das células tronco da raiz. Além disso, PLT
inibe HD-ZIP III que está envolvido no processo de determinação do polo caulinar, na repressão de PLT. Assim
estes dois genes trabalham em feedback negativo, onde um controla a expressão do outro. Neste momento
também ocorre a determinação do nicho de células tronco onde se localiza o centro quiescente (figura 4b). Este
evento é mediado pela auxina que induz a expressão de ARR7 e ARR15 e estes inibem a sinalização da
citocinina onde será formado o NCT. Já a região onde será formado o centro quiescente, tem-se a participação
ativa da citocinina.

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Figura 4 – Embrião na fase globular. Em A a indução da divisão da hipósife. Em B, estabelecimento do nicho de
células tronco e centro quiescente.

Conhecendo o processo de estabelecimento do primórdio radicular, vejamos a organização da raiz


(figura 5) que pode ser dividida da seguinte forma: Zona Meristemática (ZM), Zona de transição (ZT), Zona de
alongamento (ZA) e Zona de Diferenciação/Maturação (ZD). A região meristemática compreende o Nicho de
Células Tronco (NCT) que é formada pelo Centro Quiescente (CQ) – equivalente ao Centro Organizador do
meristema apical caulinar – e as células tronco propriamente ditas. Também constitui esta região a coifa, que é
formada a partir de divisões celulares que ocorrem em direção à parte apical da raiz. Esta estrutura funciona
como uma barreira conferindo proteção ao CQ e ao NCT da columela. Além disso, ela também favorece a
penetração da raiz no substrato, decorrente da presença de uma mucilagem. Outra função da coifa é a
gravipercepção, ou seja, percepção da direção e sentido do vetor gravitacional. Mudanças na orientação do corpo
da planta podem direcionar o crescimento da raiz. A Zona de transição se localiza entre a ZM e a ZA, sendo que
neste local as células iniciam o processo de diferenciação, recebendo informações de identidade tecidual. A Zona
de alongamento é a parte da raiz onde as células vão crescer longitudinalmente e onde vão começar a apresentar
a identidade tecidual que foi determinada ainda na região meristemática e Zona de Transição. E por fim, a Zona
de Diferenciação e Maturação é a região onde as células vão completar o seu desenvolvimento.
Além da divisão espacial, a raiz também possui a divisão de tecidos (figura 5). A camada mais interna é
formada pelo cilindro vascular. Este é composto pelo xilema e floema, que são componentes do sistema vascular
não só da raiz, mas da planta inteira. Adjacente ao cilindro, temos o periciclo. Este tecido é conhecido por ter
células com características meristemáticas e é o local onde se formam as raízes laterais. Externamente ao
periciclo encontra-se a endoderme. Esta camada é a uma barreira divide o córtex do cilindro, por possuir uma
estrutura de impermeabilização que sela os caminhos do apoplasto (espaço intercelular), fazendo com que água e

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nutrientes entrem na planta via simplasto (espaço intracelular). A união do cilindro vascular, periciclo e
endoderme, forma o estelo. Por fim temos o já citado córtex, que funciona principalmente como tecido de
absorção e acúmulo e a epiderme que é o tecido de revestimento da raiz.

Figura 5- Divisão e organização tecidual da raiz.

O simples fato do estabelecimento do CQ e do NCT não garante o desenvolvimento da raiz; para isso é
necessária a manutenção da atividade meristemática, que é o que vai garantir o a quiescência das células d CQ e
o funcionamento do nicho de células tronco. Para controlar esta condição das células, existem mecanismos que
funcionam em conjunto. Um deles é comandado pelos genes SCARECROW (SCR) e SHORT ROOT (SHR). A
dinâmica acontece da seguinte forma: SHR é expresso no estelo, formando a proteína que também recebe o
nome de SHR. Esta proteína é transportada até o CQ e interage com a proteína SCR formando um complexo
proteico. Esta estrutura induz a ativação do próprio gene SCR, sendo que este é responsável por impedir que as
células do CQ se diferenciem em outros tipos de célula. O outro sistema é composto por PLETHORA 1 (PLT1)
e PLETHORA 2 (PLT2). Estes genes, que são regulados pela auxina, induzem a expressão das proteínas PIN,
importantes transportadores da própria auxina. Isto ajuda a manter altos níveis de auxina no CQ e no NCT,
inibindo a diferenciação celular. Veja esquema abaixo (figura 6).

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Figura 6 – Mecanismos moleculares que promovem a manutenção do centro quiescente.

Outro ponto crucial neste processo é a manutenção do tamanho do meristema, pois é o que comanda o
crescimento e desenvolvimento radicular. A interação da auxina com a citocinina é o que governa parte deste
processo. Sabe-se que estes dois hormônios podem interagir de forma positiva ou antagônica, sendo que
diferentes fatores vão determinar o tipo de interação destas moléculas. No caso da região meristemática, há um
antagonismo onde a auxina vai manter a alta taxa de divisão celular das células próximas ao meristema e a
citocinina vai controlar a taxa de diferenciação na região abaixo do meristema - a zona de transição. Este
controle se dá através da regulação do gene SHORT HYPOCOTYL2 (SHY2), que controla a produção da
proteína SHY2. SHY2 é um repressor da auxina. Entretanto, a própria auxina, em altas concentrações, leva à
repressão de SHY2. Já a citocinina, através do ARABIDOPSIS RESPONSE REGULATOR1 (ARR1), induz a
expressão de SHY2 na região vascular da região de transição. Adicionalmente, este gene possui também a
função de reprimir a proteína PIN. Menores níveis de auxina e proteínas PIN tem como consequência menores
níveis de auxina e menor atividade mitótica, respectivamente. Todavia, vale lembrar que mesmo com a inibição
de alguma PIN, outras continuam o transporte, pois se o fluxo de auxina for totalmente interrompido, o CQ e o
NCT serão prejudicados. Este mecanismo determina o tamanho do corpo da raiz. Outro fato que controla o
tamanho do meristema é gerido pelo fator de transcrição, que é expresso no CQ.
WUS-RELATED HOMEOBOX 5 (WOX5) que é homólogo ao WUS que, como foi comentado
anteriormente, atua no centro organizador do meristema apical caulinar. O WOX5 assim como WUS são
regulados negativamente por um peptídeo o CLE40, que é homólogo ao CLV3 no MAC. Neste caso, WOX5
possui a função induzir a proliferação das células tronco que originam columela. Sabe-se também que ele é
regulado positivamente pelo SCR que, por sua vez, é induzido pela auxina. Já na columela, CLE40 regula
negativamente a expressão do WOX5 o que permite a diferenciação das células que vão formar a essa estrutura,
conforme mostrado na figura 7.
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Figura 7 – Mecanismos de regulação da atividade meristemática.

Partindo para o processo de diferenciação, temos a formação do floema. Como dito anteriormente, no
caso da raiz, juntamente com o xilema ele forma o cilindro vascular. Temos como elementos constituintes do
floema as células companheiras e os elementos de vaso. Existem dois fatores que mostram ser extremamente
importantes na especificação dos tecidos floemáticos. O primeiro, e imprescindível, é o OCTOPUS (OPS). Sua
expressão ocorre primariamente próxima ao CQ, uma de suas funções é determinar o destino celular para
formação do floema. Outro importante papel é promover a continuidade no processo de diferenciação das células
deste tecido. O segundo fator é o ALTERED PHLOEM DEVELOPMENT (APL) que é responsável pela
diferenciação das células companheiras e elementos de vaso. Além disso, este fator aparentemente inibe a
diferenciação do xilema. APL e OPS trabalham de forma complementar. Plantas mutantes ops (plantas que são
defectivas deste fator de transcrição) não apresentam células com características floemáticas como presença de
calose, espessamento da parede e alongamento. Já mutantes apl apresentam atraso na iniciação das divisões
celulares que vão gerar as células companheiras e elementos de vaso, problemas na formação do protofloema e
metafloema. Entretanto, sabe se que outros fatores também atuariam junto com OPS e APL, mas o
funcionamento ainda não estaria bem elucidado.
Completando o cilindro vascular temos o xilema. Um dos reguladores de sua formação é o fator de
inibição da diferenciação de elementos traqueídeos (TDIF) (do Inglês Tracheary Element Differentiation
Inhibitory Factor). Este é um peptídeo exibe funções como inibição da diferenciação das células do procâmbio e
indução da proliferação destas células, além de induzir a expressão do WOX4 que atua na manutenção das
células procambiais. Com relação à diferenciação dos tecidos xilemáticos, temos dois genes da família
VASCULAR-RELATED NAC-DOMAIN (VND). Neste caso VND6 inicia a diferenciação do metaxilema e o
VND7 que age diferenciando o protoxilema. E estes dois genes juntamente com SECONDARY WALL-
ASSOCIATED NAC DOMAIN PROTEIN1 (SND1) são responsáveis por compor uma grande e complexa

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cascata de sinalização que leva à deposição de parede secundária, processo este induzido por MYB. Vale
ressaltar que estes são apenas alguns dos reguladores da formação do xilema. Uma imensa quantidade de genes
está envolvida no processo alguns já bem estabelecidos, outros nem tanto. Além disso, hormônios como auxina,
citocinina, etileno também atuam no processo de formação. A variação no balanço entre a auxina e citocinina
determina a diferenciação entre metaxilema e procâmbio. Estudos mostram que peptídeos CLE degradam alguns
ARRs que são específicos na regulação negativa da citocinina, neste caso seria inibida a formação do
protoxilema devido à presença da citocinina. Em contrapartida a auxina induz a expressão de ARRs que atuariam
na contramão. Essa oscilação de repressão e indução determinaria o destino celular das iniciais do xilema.
Outro tecido que compõe o estelo, juntamente com floema, xilema e endoderme é o periciclo. Sabe-se
que este preserva características meristemáticas em algumas células. Estas células se localizam nos polos do
xilema, e é exatamente nesta região que ocorre a formação das raízes laterais. O mecanismo que está por trás
deste evento é liderado principalmente pela auxina. Este hormônio é transportado de duas formas. O primeiro é o
transporte à longa distancia que é feito através do floema, sendo o meio mais rápido. Já a segunda é o chamado
“transporte polar” que é mediado pelas proteínas PIN. No modo polar, a auxina é transportada célula a célula e
consequentemente é um processo mais demorado. No transporte polar, a auxina entra nas células pelos
carreadores de influxo os AUX/LAX e sai através dos já citados carreadores de efluxo as proteínas PINs. Em
Arabidopsis a indução da raiz lateral ocorre ainda na região zona de transição através do transporte polar de
auxina. Outro hormônio aparece como regulador positivo do processo: o etileno. A dinâmica acontece da
seguinte forma: A auxina é transportada basipetamente pelas proteínas PIN. Estas tem a função não só de
realizar o transporte basípeto, mas também fazem a redistribuição da auxina no corpo da raiz. O etileno por sua
vez tem sua síntese induzida pela auxina e as células na presença de etileno se tornam mais sensíveis à ação da
auxina. Por consequência destes eventos, células do periciclo responsivas à auxina entram em processo de
divisão ocorrendo a formação da nova raiz lateral.
Completando o estelo, tem-se a endoderme. A formação deste tecido acontece concomitantemente com
a formação do córtex (figura 8).

Figura 8 – Formação da endoderme e córtex via interação de SHORTROOT(SHR) e SCARCROW (SCR).

22
Isso se deve ao fato da interação entre o SHR e o SCR. Da mesma forma que SHR é transportada ao
CQ, existe o transporte para células iniciais que são derivadas do CQ. A divisão desta célula inicial dá origem à
endoderme e ao córtex. Estudos mostraram que mutantes shr (plantas que são deficientes de SHR) possuem uma
camada de células que se assemelha com córtex. Já mutantes scr possuem tecidos que se assemelham ao córtex e
endoderme. Entretanto não há uma distinção entre os dois tecidos. Sendo assim, tudo leva a crer que SHR esteja
ligado à determinação da identidade da endoderme.
Finalmente, revestindo a raiz temos a epiderme. Em algumas plantas, ela é originada das iniciais da
columela, em outras a partir da diferenciação das células do córtex. Em Arabdopsis a epiderme é formada em
camadas alternadas, por dois tipos de células: os tricoblastos e atricoblastos. A diferença entre estes dois tipos
celulares está na capacidade de formação dos pelos radiculares. Esta estrutura constitui-se na verdade de
expansões da parede celular da região jovem da raiz, que aumenta a superfície de contato da raiz e,
consequentemente, proporciona uma maior absorção de água e nutrientes. Existem alguns fatores de transcrição
que regulam a formação dos pelos radiculares. Um deles é o GLABRA2 (GLB2), que é responsável por inibir a
formação de pelos nos atricoblastos e é regulado positivamente por um complexo de fatores de transcrição:
TRANSPARENT TESTA GLABRA 1 (TTG1) e WEREWOLF (WER). O complexo TTG1-WER também
induz a produção da proteína CAPRICE (CPC) no atricoblasto. Entretanto, CPC é transportada para o tricoblasto
onde entra em ação inibindo o próprio WER-TTG1. Esta inibição consequentemente leva repressão do GLB2,
permitindo formação dos pelos radiculares (figura 9). O modo como este transporte ocorre ainda não é bem
entendido.

Figura 9 – Mecanismos de formação dos pelos radiculares.

Todos os mecanismos moleculares e fisiológicos aqui apresentados representam apenas uma pequena
parcela de todas as vias de sinalização presentes na planta. Este capítulo foi elaborado com o intuito de mostrar
que todo o processo de desenvolvimento vegetal é gerenciado por uma rede de interações. Todos os dados aqui
apresentados tiveram como base Arabidopsis thaliana (L.) Heynh., pois atualmente é a planta modelo com um
dos maiores volumes de dados. Porém, vale destacar que é necessário explorar outras espécies dado, a
plasticidade que as plantas apresentam.

23
Plantas e sociedade
Fernanda Anselmo Moreira
Fernanda Mendes de Rezende

Introdução
As plantas são muito importantes para a manutenção do equilíbrio nos ecossistemas devido às diversas
atividades que elas desempenham, tais como, regulação do clima, sequestro de carbono, purificação da água e do
ar, translocação e ciclagem de nutrientes, redução da radiação que incide no solo, atenuação da ação dos ventos,
além de ser fonte de alimento para muitos organismos vivos, incluindo os seres humanos, sendo, portanto, a base
de muitas cadeias alimentares. Dessa maneira, os seres humanos, assim como vários outros organismos vivos,
são totalmente dependentes das plantas.
Os humanos utilizam as plantas das mais variadas maneiras com o objetivo de sanar as suas
necessidades e, consequentemente, aumentar as suas chances de sobrevivência e melhorar as suas condições de
vida.
As plantas sempre foram usadas pelos homens como fonte de alimento e com o passar do tempo outras
funções foram agregadas a elas. Além de fornecedoras de energia para a manutenção do nosso corpo, elas são
usadas como matéria-prima para a confecção de roupas, ferramentas e moradias. As indústrias farmacêuticas e
de cosméticos utilizam as plantas, direta ou indiretamente, em muitos de seus produtos e esses setores têm
grande impacto econômico, visto que, eles movimentam bilhões de dólares por ano. Elas também são utilizadas
como combustível para o fogo e nos últimos tempos como matéria-prima para produção de biocombustíveis,
principalmente devido à crise do petróleo. Algumas delas também têm grande impacto econômico no setor
agropecuário, pois podem ser tóxicas a determinados animais de criação ou invadir plantações. Outras, por outro
lado, são apreciadas por sua beleza e então são cultivadas e comercializadas simplesmente para fins estéticos. Há
plantas que são importantes não por serem fontes de alívio e curas de enfermidades, mas sim por serem tóxicas
aos humanos. Por fim, deve-se também ressaltar que certas plantas são importantes por causarem impactos
sociais negativos devido a sua empregabilidade na produção de drogas de abuso, e o comércio ilegal dessas, em
virtude de suas propriedades alucinógenas.
A seguir serão discutidas algumas das aplicações desse grupo de seres vivos em nosso cotidiano, bem
como aspectos sociais referentes a algumas dessas aplicações.

Plantas alimentícias
Os seres humanos, assim como os demais animais e outros grupos de organismos vivos, são
heterotróficos, necessitando das plantas, direta ou indiretamente, para obter os nutrientes necessários para a sua
sobrevivência. Dessa maneira, o primeiro uso que os humanos fizeram das plantas foi como fonte de alimento,
sendo a domesticação de plantas o fator crucial para transição do hábito nômade de caçador coletor para o hábito
sedentário de homem agricultor, possibilitando a formação de comunidades.
Um dos problemas mais graves que a humanidade enfrenta é a má distribuição dos recursos
alimentícios. Grande parcela da população mundial não tem acesso a um mínimo de alimentos que permita um
estado satisfatório de saúde, em contrapartida há um grande número de seres humanos que tem problemas de

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saúde por se sobrealimentarem. Se por um lado há pessoas sofrendo por carência crônica de proteínas e
vitaminas, por outro há pessoas que sofrem com obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares.
Além da água, os humanos precisam consumir outros cinco tipos de nutrientes, para ter uma dieta
saudável. Carboidratos, lipídeos e proteínas são nutrientes necessários em grandes quantidades e, por isso, são
chamados de macronutrientes, enquanto que vitaminas e minerais, necessários em pequenas quantidades, são
denominados micronutrientes. As fibras apesar de não serem classificadas nem como macronutrientes ou
micronutrientes são importantes para a saúde humana. Certos compostos provenientes do metabolismo
secundário das plantas também têm sido considerados substâncias que promovem melhorias na saúde, são os
chamados alimentos funcionais, que produzem benefícios específicos à saúde, além da sua função nutritiva
básica; e os nutracêuticos, que contêm um ou mais ingredientes biologicamente ativos que foram isolados ou
purificados de alimentos e que são comercializados como um ingrediente suplementar à dieta.
Os carboidratos são a principal fonte energética para as células e podem ser encontrados nas plantas na
forma de monossacarídeos (por exemplo, frutose presente nas frutas), dissacarídeos (sacarose presente na cana-
de-açúcar e na beterraba) e amido (trigo, arroz, milho, batata, mandioca, batata-doce e feijão são as principais
fontes).
As proteínas também podem ser fornecedoras de energia, mas também desempenham outras funções no
organismo, tais como, estrutural, enzimática, regulação de várias funções corporais (hormônios), transporte e
defesa. Há vinte tipos de aminoácidos que compõem as proteínas, sendo que onze delas o corpo humano é capaz
de sintetizar e os nove restantes (aminoácidos essenciais) são obtidos exclusivamente através da dieta. As
proteínas de origem vegetal geralmente são consideradas incompletas, pois não apresentam todos os
aminoácidos nas devidas proporções, mas através de uma combinação de plantas, geralmente um cereal e uma
leguminosa, é possível obter todos os aminoácidos necessários e nas devidas proporções. Dentre as plantas, as
leguminosas apresentam maior riqueza em proteínas.
Plantas oleaginosas produzem misturas de substâncias chamadas de óleos fixos, estes são misturas de
triglicerídeos, formados por três resíduos de ácidos graxos esterificados com uma molécula de glicerol. Alguns
ácidos graxos são considerados essenciais pois, embora necessários ao organismo humano, este não é capaz de
sintetizá-los. Os ácidos graxos essenciais são os ácidos linoléico, linolênico e araquidônico e podem ser
encontrados nos óleos vegetais. Os óleos vegetais como, por exemplo, os óleos de canola, girassol, soja, milho e
oliva apresentam ácidos graxos insaturados e estes, além de altamente energéticos, diminuem as chances de
desenvolver doenças cardiovasculares, além de ajudarem a reduzir os níveis de colesterol no sangue.
As fibras dietéticas (lignina, celulose, hemicelulose, pectina, dentre outras substâncias) geralmente não
são digeridas pelo sistema digestório, mas são responsáveis por manter estável o nível de glicose no sangue,
reduzir o nível de colesterol sanguíneo e acelerar a passagem do bolo fecal pelo cólon. Elas podem ser
encontradas em grãos integrais, frutas, vegetais e sementes.
As vitaminas, por sua vez, são importantes por atuarem como coenzimas e por estarem ligadas à síntese
de substâncias importantes ao organismo. Algumas vitaminas podem ser obtidas através do consumo de plantas,
enquanto que outras não. As vitaminas A, C e todas do complexo B, exceto a B12, podem ser obtidas em dietas
envolvendo plantas. Por outro lado, as vitaminas B12 e D não podem ser obtidas através do consumo de plantas,
sendo obtidas por outras fontes.

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A vitamina A é responsável por várias funções no organismo humano, dentre elas, formação dos
pigmentos visuais da retina presente nos olhos e manutenção do tecido epitelial. Ela pode ser obtida mediante o
consumo de frutas e vegetais de coloração amarela, laranja e verde escuro que contém o precursor da vitamina
A, o betacaroteno. O ácido ascórbico, vitamina C, pode ser encontrado em frutas frescas e vegetais e essa
vitamina tem como função a síntese de colágeno, produção de hormônios, além de ser antioxidante. Já as
vitaminas do complexo B atuam como coenzimas em diversas reações metabólicas e as principais fontes de
vitamina B, exceto a vitamina B12, são os grãos integrais, sementes, legumes e nozes.
Muitos estudos têm relacionado o consumo de compostos provenientes do metabolismo secundário das
plantas com benefícios a saúde. Os compostos fenólicos constituem uma importante classe de metabólitos
secundários e muitas dessas substâncias são conhecidas por terem uma forte atividade antioxidante. Dentre os
compostos fenólicos com atividade antioxidante destacam-se os flavonoides, as cumarinas, os taninos e os ácidos
fenólicos. Compostos conhecidos por apresentarem essa atividade são interessantes do ponto de vista nutricional
por prevenirem várias doenças que podem estar relacionadas ao estresse oxidativo, tais como: aterosclerose,
diabetes, câncer e artrite reumatóide.
Além da importância nutricional, as plantas alimentícias também são importantes do ponto de vista
econômico, visto que certos países têm a maior parte da sua economia voltada para o setor agrícola. O Brasil, por
exemplo, é um dos maiores países agrícolas do mundo e esse setor movimenta cerca de US$ 100 bilhões por ano.
As principais culturas de importância econômica mundial são os cereais (Poaceae), seguidos das
leguminosas (Fabaceae). Trigo, arroz e milho são os cereais mais cultivados ao redor do mundo, há mais de
7.000 anos, e a soja é um exemplo de leguminosa muito cultivada.
Muito investimento é destinado para o desenvolvimento de tecnologias que visam aumentar o
rendimento dessas e de outras culturas. Na realidade, hoje, a produção de alimento é suficiente suprir as
necessidades nutricionais da população mundial, porém, o alimento é mal distribuído e há muito desperdício.
Estima-se que mais de 1 bilhão de pessoas ao redor do planeta não têm condições de consumir a quantidade
mínima necessária para atender as suas necessidades nutricionais diárias e essa é a causa de milhões de mortes
por ano. Vale ressaltar que a população mundial superou a marca de 7 bilhões de habitantes em 2011 e é
esperado que chegue a 9 bilhões por volta de 2050. Dessa maneira, investimentos em tecnologia para obter
maiores rendimentos nos cultivos, redução do desperdício e melhor distribuição desses alimentos entre as
populações são necessários, pois à medida que a população aumenta, consequentemente, também aumenta a
necessidade por alimentos.

Plantas medicinais
Recentemente, em 2012, um estudo verificou que homens Neandertais, que viveram há cerca de 47 e 51
mil anos na gruta de El Sidrón, nas Astúrias, ingeriam além de proteína animal e uma série de alimentos de
origem vegetal cozidos, algumas plantas com baixo valor nutricional e sabor amargo. Uma delas era o milefólio,
que contém azuleno - substância reconhecida pela sua ação anti-inflamatória, e a outra camomila, que contém
cumarinas - substâncias que aliviam edemas. Os autores sugerem que os Neandertais da região tinham um
conhecimento sofisticado do seu meio natural, incluindo a capacidade de selecionar e utilizar certas plantas pelo
seu valor nutricional e medicinal, sugerindo que a medicina tradicional é uma prática muito mais antiga do que
imaginávamos.

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Desde os primórdios da medicina, substâncias químicas derivadas de animais, vegetais e
microrganismos têm sido utilizados no tratamento de diversas doenças. Os produtos derivados de vegetais têm
dominado as farmacopeias por milhares de anos, fornecendo uma fonte virtualmente inesgotável de recursos
medicinais. Nos extratos destas plantas medicinais a ação conjunta, ou isolada, de certas substâncias é
responsável pela atividade biológica, e essas substâncias seriam os princípios ativos.
As plantas medicinais podem ser usadas de distintas maneiras como, por exemplo, na forma de
cataplasma, chás e pós. No entanto, elas devem ser utilizadas com cuidado, pois da mesma maneira que o seu
uso em determinadas quantidades e formas de administração podem ser usadas para fins medicinais, se aplicadas
de maneira incorreta ou em altas concentrações elas podem se tornar extremamente tóxicas, podendo inclusive
causar problemas crônicos ou levar a óbito. Um exemplo muito conhecido é o confrei (Symphytum officinale,
Boraginaceae), que na década de 1980 era muito consumido in natura ou na forma de chás, para tratamento de
doenças gastrintestinais, inflamações, reumatismos, hemorroidas, tosses e várias outras enfermidades. No
entanto, a planta contém alcoloides pirrolizidínicos que causam lesões no fígado, podendo levar à doença veno-
oclusiva hepática. Hoje se sabe que o confrei tem ação medicinal graças à presença de alantoína, um composto
nitrogenado de comprovada ação cicatrizante, e o seu uso oral não é recomendado.
Além das formas tradicionais, as plantas medicinais também podem ser usadas para a produção de
medicamentos mais elaborados que requerem técnicas mais sofisticadas. A partir do início do século XIX,
químicos desenvolveram técnicas para a análise e isolamento dos princípios ativos dessas plantas. O primeiro
fármaco obtido foi a morfina (um potente analgésico) a partir da papoula (Papaver somniferum - Papaveraceae).
Da mesma planta são obtidos outros fármacos para controle da dor, como a codeína e a papaverina, este último é
um dos constituintes do medicamento Atroveran®, utilizado para o tratamento de cólicas. Na figura 1 estão
representadas as estruturas de alguns compostos isolados de plantas.
Até meados do século XX, as plantas medicinais e seus derivados constituíam a base dos medicamentos
até a síntese química, que teve início no final do século XIX, desencadear uma fase de desenvolvimento
vertiginoso. Atualmente, a maior parte dos medicamentos é de origem semissintética (medicamentos produzidos
a partir de um composto isolado de plantas, mas parte da molécula é quimicamente alterada em laboratório) ou
totalmente sintética.
Apesar dos avanços tecnológicos para a produção de medicamentos, cerca de 80% da população
mundial usa recursos vegetais para o tratamento de doenças e alívio de sintomas (Tabela 1). Isso se deve ao alto
valor agregado aos medicamentos industrializados. Dessa maneira, certos países têm investido em pesquisas para
comprovar e validar a eficácia de plantas medicinais.
Em 2008, foi instituído no Brasil o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos que tem
como objetivo implantar o uso de plantas medicinais e fitoterápicas de maneira segura e eficaz. Neste mesmo
ano, o Ministério da Saúde criou a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao Sistema Único de
Saúde (RENISUS) que contém 71 espécies com potencial terapêutico, dentre elas, Allium sativum, Aloe spp.,
Anacardium occidentale, Croton spp., Eucalyptus globulus, Mentha pulegium, Mikania spp., Psidium guajava e
Salix Alba.

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Tabela 1: Alguns exemplos de importantes plantas medicinais, princípios ativos e usos medicinais.

Nome
Nome científico Família Princípio ativo Uso medicinal
comum
Artemisia annua Artemísia Asteraceae Artemisinina Antimalárico
Dilatação de pupilas e
Atropla belladona Beladona Solanaceae Atropina
anticolinérgico
Maria-sem- Leucemia, linfomas e
Catharanthus roseus Apocynaceae Vimblastina
vergonha outros cânceres
Cinchona spp. ------- Rubiaceae Quinina Antimalárico
Anticolinérgico e
Datura metel ------- Solanaceae Escopolamina
antiespasmódico
Tratamento de doenças
Digitalis lanata
Dedaleira Plantaginaceae Digitoxina cardíacas (arritmias e
Digitalis purpurea
insuficiência congestiva)
Codeína Antitússico e analgésico
Morfina Analgésico potente
Papaver somniferum Papoula Paparaveraceae
Relaxante da
Papaverina
musculatura lisa
Physostigma venenosum ------ Fabaceae Fisostigmina Glaucoma
Pilocarpus pennatifolius Jaborandi Rutaceae Pilocarpina Glaucoma
Rauwolfia serpentina ------ Apocynaceae Reserpina Anti-hipertensivo
Salgueiro- Salicina
Salix Alba Salicaceae Anti-inflamatório
branco (ácido salicílico)
Taxus brevifolia ------ Taxaceae Taxol Câncer ovariano e outros

Figura 1: Estrutura dos princípios ativos de Digitalis spp. (digitoxina), Papaver somniferum (morfina),
Cinchona spp. (quinina), Salix alba (salicina) e Catharanthus roseus (vimblastina).

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Plantas tóxicas
As plantas produzem uma enorme variedade de compostos para se protegerem do ataque de animais
herbívoros e patógenos. A maior parte desses compostos são alcaloides, glicosídeos cardioativos e glicosídeos
cianogênicos e, por esta razão, muitos são utilizados para a produção de medicamentos ou de venenos utilizados
na agricultura. Além desses compostos, outras substâncias também podem ser responsáveis pela toxicidade da
planta, dentre elas, taninos, diterpenos e toxalbuminas (proteínas tóxicas).
As plantas tóxicas estão presentes no nosso dia-a-dia e muitas vezes podem estar mais próximas do que
podemos imaginar, frequentemente nas nossas próprias residências. Diversas plantas que ornamentam as
moradias ou estabelecimentos públicos na realidade são tóxicas, caso sejam ingeridas, e certos alimentos
também podem causar intoxicações quando preparados incorretamente.
Diferentes países ao redor do mundo criaram páginas na internet listando as plantas tóxicas mais
comuns em cada país, seus efeitos colaterais em casos de ingestão e como identificá-las. No Brasil, por exemplo,
o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (SINITOX) apresenta uma lista das plantas tóxicas
mais comuns no país, medidas preventivas, materiais educativos e dados estatísticos sobre intoxicações por
plantas tóxicas a nível nacional e regional. Estima-se que no Brasil aproximadamente 60% dos casos de
intoxicação por plantas ocorrem em crianças com menos de nove anos de idade e 80% desses casos ocorreram
acidentalmente.
A seguir são apresentadas algumas plantas tóxicas aos seres humanos, suas partes tóxicas, princípios
ativos e principais sintomas.
- Conium maculatum L. (cicuta - Apiaceae)
A cicuta é uma planta conhecida pela sua toxicidade desde a antiguidade. O filósofo Sócrates recebeu
como sentença ingerir uma infusão de cicuta como pena de morte. Essa planta apresenta alcaloides, tais como,
coniína e coniceína. Todas as partes da planta são tóxicas e sua ingestão pode provocar náuseas, vômitos,
distúrbios neurológicos, paralisia e coma.
- Nerium oleander L. (espirradeira - Apocynaceae)
A espirradeira é uma planta ornamental, com lindas flores, e extremamente tóxica. Todas as suas partes
são tóxicas, elas apresentam glicosídeos cardioativos e a sua ingestão provoca sintomas neurológicos (dor de
cabeça e desorientação), arritmias cardíacas, náuseas, vômitos e diarréias.
- Thevetia peruviana (Pers.) K.Schum. (chapéu-de-napoleão - Apocynaceae)
É uma planta comum em jardins. Todas as suas partes são potencialmente tóxicas em decorrência dos
glicosídeos cardioativos que elas apresentam. Sua ingestão provoca problemas gastrointestinais, tais como
náuseas, vômitos e diarréias, sintomas neurológicos (desorientação e dor de cabeça) e arritmia cardíaca. Se
houver contato com os olhos pode ocorrer irritação e fotofobia.
- Dieffenbachia picta Schott. (comigo- ninguém- pode - Araceae)
Uma parcela da população acredita que a comigo- ninguém- pode tem o poder de espantar o mau-
olhado, sendo assim, ela é facilmente encontrada em residências e estabelecimentos públicos. Todas as partes da
planta são tóxicas e a sua toxicidade se deve a presença de ráfides de oxalato de cálcio (em forma de ráfides, que
perfuram a pele) e proteínas tóxicas (dumbcaína). O contato mecânico e a ingestão podem causar dor e

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queimação, edema nos lábios, palato e língua, além de náuseas, vômitos e diarréias. Em casos de contato com os
olhos pode provocar intenso lacrimejamento, fotofobia e edema.
- Euphorbia milii Des Moul. (coroa-de-cristo - Euphorbiaceae)
Essa planta, além de utilizada como ornamental, também é cerca-viva. As partes aéreas são tóxicas em
decorrência da presença de diterpenos. O contato com a pele pode provocar irritação, coceira e formação de
bolhas de água e a sua ingestão acarreta em irritação da mucosa bucal, edema, dor, sensação de queimação
diarréia e vômitos.
- Euphorbia pulcherrima Willd. ex Klotzsch (bico-de-papagaio - Euphorbiaceae)
Essas plantas são amplamente usadas ao redor do mundo como ornamentais devido as suas flores. O
látex liberado pela planta contém toxalbuminas e pode provocar reações semelhantes à coroa-de-cristo, uma vez
que haja contato com a pele, e em casos de ingestão a pessoa pode apresentar diarréias e vômitos.
- Manihot esculenta Crantz (mandioca-brava ou mandioca - Euphorbiaceae)
A mandioca é muito utilizada como alimento na América do Sul desde a época da colonização. Suas
raízes e folhas contêm glicosídeos cianogênicos, como a linamarina, tornando-as tóxicas. No entanto, se
preparada corretamente, ou seja, retirar a casaca e cozir por tempo suficiente, os glicosídeos cianogênicos serão
eliminados. Esses glicosídeos são degradados pela enzima linamarase, que está presente na própria planta,
originando ácido cianídrico e este libera o íon cianeto. Dessa maneira, além dos sintomas clássicos de
intoxicação que envolve diarréias, vômitos, náuseas, o indivíduo intoxicado pode apresentar alterações no ritmo
cardíaco, asfixia, cianose e óbito.
- Ricinus communis L. (mamona – Euphorbiaceae)
As sementes de mamona apresentam a ricina, uma toxalbumina. Essa proteína tem a capacidade de
aglutinar os eritrócitos e os intoxicados podem ter desde vômitos e diarréias até problemas renais, distúrbios
neurológicos e apnéia e coma. A carrapateira, como também é conhecida, pode ser encontrada em terrenos
baldios.
Algumas medidas básicas podem evitar intoxicação por plantas, principalmente em crianças. Manter as
plantas tóxicas fora do alcance de crianças, conhecer as plantas existentes na residência e ao redor dela,
conscientizar as crianças que não se deve colocar plantas na boca e nem brincar com elas, evitar preparar
remédios caseiros sem orientação médica e evitar ingerir qualquer parte de planta desconhecida são medidas que
podem evitar a intoxicação por plantas.

Plantas psicoativas
Determinadas plantas apresentam compostos psicoativos que têm a capacidade de afetar o sistema
nervoso central de várias maneiras. Elas podem ser alucinógenas, estimulantes ou calmantes. Há relatos de que
os humanos fazem uso desses tipos de plantas desde a antiguidade em rituais religiosos, para aliviar dores e
aumentar a disposição durante a realização de tarefas. A maior parte dos compostos vegetais com propriedades
psicoativas são alcaloides e as principais famílias que apresentam alcaloides psicoativos são: Solanaceae,
Papaveraceae, Rubiaecae, Erythroxylaceae, Myristicaceae e Convolvulaceae.
Certos compostos podem causar dependência fisiológica acarretando em uma série de consequências,
dentre elas, danos fisiológicos ao indivíduo e impactos sociais e econômicos.

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Estima-se que a cada ano cerca de 230 milhões de pessoas ao redor do mundo, entre 15 e 64 anos,
fazem uso de drogas ilícitas. No Brasil esse uso abusivo de drogas ilícitas constitui um sério problema de saúde
pública afetando, direta ou indiretamente, mais da metade de população.
A seguir serão discutidas algumas plantas que são importantes por serem usadas como drogas de abuso,
lícitas e ilícitas no Brasil.
- Nicotiana tabacum e Nicotiana rustica (tabaco - Solanaceae)
A nicotina (figura 2) é um alcaloide que é produzido nas raízes e depois transportado para as folhas. As
duas espécies do gênero Nicotiana mais cultivadas são a N. tabacum e a N. rustica. O uso de tabaco remonta por
volta de 5000 a 3000 a.C. e, de acordo com achados arqueológicos, é possível que essa planta tenha sido a
primeira droga recreativa utilizada na América do Sul. As folhas de tabaco podem ser usadas de variadas formas,
tais como, mascando, em chás ou, principalmente, fumando-as.
Atualmente, a nicotina é a droga recreativa mais usada no mundo, depois do álcool e da cafeína.
Estima-se que haja aproximadamente 1,1 bilhões de fumantes ao redor do mundo e estes são responsáveis pelo
consumo de 5 trilhões de cigarros por ano. Dos exemplos de drogas psicoativas citadas neste trabalho apenas a
nicotina, que pode ser facilmente encontrada nos cigarros, é considerada uma droga lícita no Brasil.
Muitas pesquisas têm sido realizadas para avaliar as consequências na saúde de pessoas que fumam
cigarros contendo nicotina, dentre elas, dificuldade de mulheres engravidarem, risco de passar nicotina para os
filhos durante a amamentação, desenvolvimento de doenças respiratórias, cardíacas e cânceres, principalmente o
de pulmão. Fumantes passivos também podem ser afetados, pesquisas apontam que crianças que são fumantes
passivas podem ter a capacidade pulmonar reduzida e desenvolver doenças respiratórias, enquanto que os adultos
podem inclusive desenvolver câncer de pulmão.

Figura 2: Estrutura da nicotina.

- Cannabis sativa (maconha - Cannabaceae)


O uso da maconha é muito antigo, os primeiros registros datam de 2700 a.C. e são provenientes da
China. Seu uso está presente em todas as sociedades sendo considerada uma das drogas ilícitas mais consumidas
no mundo. Isso se deve, possivelmente, pelo fato de que a planta é facilmente cultivada em diferentes condições
e não precisa passar por muitos processamentos para ser usada.
Mais de 400 compostos foram identificados, dentre eles, mais de 60 canabinoides que são responsáveis
pelas propriedades psicoativas da planta. Os canabinoides são compostos fenólicos, sendo que o composto mais
potente é o THC (delta-9-tetraidrocanabiol – figura 3) que está presente na resina.

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Figura 3: Estrutura do delta-9-tetraidrocanabiol.

Os seus efeitos psicológicos e fisiológicos ocorrem rapidamente, após alguns minutos, e podem durar de
2 a 4 horas. Alguns dos efeitos fisiológicos e psicológicos da maconha é a euforia, ansiedade, agravamento dos
estados psicóticos, alterações das noções de tempo, perda da memória, confusão mental e aumento do apetite. A
sua completa eliminação do organismo demora mais de 30 dias, metabolizada pelo fígado e eliminada pelas
fezes e urina. Vale ressaltar que os canabinoides são lipofílicos e por esta razão podem ser acumulados no leite
materno e atravessar a placenta.
A maconha tem sido usada de forma empírica há séculos, nos dias de hoje já é reconhecido seu uso
medicinal para melhorar o estado de pessoas com câncer, AIDS e alguns casos de epilepsia, mas não cura essas
doenças. Tem sido proposto o seu uso em tratamentos de anorexia e esclerose múltipla.
- Erythroxylum coca (coca - Erythroxylaceae)
A partir das folhas de coca é extraído o alcaloide cocaína (figura 4) que é usado como droga de abuso.
As espécies E. coca e E. novogravatense são as principais fontes de cocaína, elas são nativas da região das
montanhas dos Andes. Há evidências do uso dessas plantas desde 3500 anos atrás nas regiões andinas, onde
tinham importância econômica e social para os incas.

Figura 4: Estrutura da cocaína - princípio ativo presente nas folhas da coca (Erythroxylum coca).

Por volta de 1850 a cocaína foi isolada e a partir dessa época ela passou a ganhar muita popularidade
nos EUA, podendo ser encontrada de diversas maneiras, por exemplo, em chás, elixires e bebidas. Duas bebidas
que continham em sua fórmula extratos de folhas de coca se tornaram muito apreciadas: a Vin Mariani e a Coca-
Cola, esta última criada em 1886. Desde 1903 não há mais extratos de folhas de coca na Coca-cola, pois os
efeitos negativos relacionados ao uso da cocaína começaram a se tornar evidentes.
Nas últimas décadas houve a morte de muitas celebridades ao redor do mundo que faziam uso de
cocaína fazendo com que a população em geral percebesse o perigo relacionado ao consumo dessa substância,
mas ainda assim, em muitos países, o uso abusivo de cocaína constitui um grave problema de saúde pública,
como é o caso do Brasil.
Na década de 1980 foram desenvolvidas novas formas do uso da cocaína, sendo o crack um exemplo.
Ele é a forma da cocaína solidificada que, quando quebrada, recebe o nome de “pedras de crack” e ao ser fumado
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os efeitos aparecem mais rapidamente e de forma mais intensa, além de ter um custo muito inferior quando
comparado ao da cocaína.
- Papaver somniferum (papoula - Papaveraceae)
O ópio é um látex rico em alcaloides e extraído por meio de incisões feitas nos frutos imaturos da
papoula. Já foram identificados mais de 20 alcaloides nesse material, dentre eles, a morfina e a codeína. Os
opiáceos são depressores do sistema nervoso central e alguns deles são usados como droga recreativa, por
exemplo, a morfina e a heroína, provocando uma sensação intensa de euforia. A overdose em decorrência do uso
de tais compostos pode levar a óbito devido à supressão do centro respiratório no cérebro.
A morfina e a codeína, como citado anteriormente, são usadas para fins medicinais como analgésico e
antitússico, respectivamente. A morfina é altamente viciante e atualmente ela é empregada apenas em casos de
dores severas como em situações de pós-operatório e casos terminais de câncer.
Em 1898 a Bayer, uma empresa química e farmacêutica alemã, desenvolveu a heroína (figura 5), um
derivado semissintético da morfina, com uma ação analgésica e antitússica superior ao da morfina e codeína,
respectivamente. Essa substância tem um poder viciante seis vezes superior ao da morfina e o seu uso se
popularizou graças à invenção da injeção hipodérmica que propiciou o uso injetável intravenoso fazendo com
que os seus efeitos sejam mais intensos, uma vez que ela é rapidamente absorvida através da corrente sanguínea.

Figura 5: Estrutura da heroína.


Plantas ornamentais
As plantas ornamentais são cultivadas simplesmente devido a sua beleza, ou seja, para fins estéticos,
sendo que o cultivo de tais plantas ocorre desde a antiguidade, como é o caso dos lírios, narcisos e rosas. O
próprio Gregor Mendel, que estabeleceu as leis fundamentais da genética, interessava-se tanto pelo
melhoramento dos vegetais como por ornamentação que conseguiu obter uma nova variedade de flor que ficou
conhecida como a fúcsia de Mendel (Onagraceae), e chegou a receber uma medalha pelas suas pesquisas
agronômicas.
Uma das propriedades mais apreciadas no mercado de espécies ornamentais diz respeito à coloração das
flores. Três tipos de pigmentos estão envolvidos na coloração de órgãos vegetais, os carotenoides, as betalaínas,
e os flavonoides (em especial a classe das antocianinas). Betalaínas representam as colorações avermelhadas a
violetas (betacianinas) ou amareladas a tons de laranja (betaxantinas), mas ocorrem restritamente nas espécies da
ordem Caryophyllales. Os carotenoides, responsáveis pela maioria dos tons amarelados e alaranjados, podem
coexistir com antocianinas resultando assim em tonalidades marrons e bronze. As antocianinas são pigmentos
responsáveis pelos tons vermelho, púrpura e azul. Podem ainda coexistir outras substâncias com esses pigmentos
interferindo nas tonalidades encontradas. Alguns compostos fenólicos, como fenilpopanoides e flavonóis, além
de atuarem como copigmentos, podem conferir a cor branca.

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As plantas ornamentais são cultivadas para atender diferentes segmentos, tais como, indústria de
eventos e cerimoniais, datas comemorativas, recomposição ambiental, paisagismo, dentre outros.
Comercialmente, elas podem ser classificadas em flores de corte, flores de vaso, plantas de interior e paisagismo,
flores e plantas tropicais e folhagens.
Alguns dos principais países produtores são a Holanda, Colômbia, Dinamarca, Itália, Israel, Bélgica,
Costa Rica, Canadá, EUA e Alemanha. Esse setor do agronegócio tem se destacado no Brasil, sendo que o
estado de São Paulo é o principal produtor. No entanto, nos últimos anos houve um crescimento desse ramo em
outras regiões, tais como os estados da região Sul e Norte do país, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Goiás, Distrito
Federal, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Ceará.
O Brasil começou a se profissionalizar no final da década de 1950 graças ao trabalho de imigrantes
(holandeses, alemães e japoneses, entre outros) que se estabeleceram em cidades próximas à capital do estado de
São Paulo. Estima-se que o Brasil cultiva mais de 350 espécies com aproximadamente três mil variedades de
flores e plantas ornamentais que podem ser nativas ou exóticas, gerando aproximadamente 194 mil empregos
diretos e movimentando R$ 5,2 bilhões em 2013. Os brasileiros ainda consomem pouco esse tipo de produto,
mas o mercado externo tem grande potencial, visto que os principais países importadores (Argentina, Noruega,
Alemanha, Japão e EUA) têm um elevado consumo. No Brasil, é crescente o investimento e atenção para o
mercado de flores e plantas ornamentais. A Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Flores e Plantas
Ornamentais realizou, em 2010, uma agenda estratégica focada em incentivar, apoiar e promover o crescimento
e o desenvolvimento do mercado interno de consumo para as flores e plantas ornamentais. No Brasil há uma
grande variedade de espécies nativas e ornamentais com ampla diversidade de cores, odores e formas, o que
torna ainda mais interessante o investimento no setor. Na figura 6 é possível visualizar um fluxograma
simplificado da cadeia produtiva do sistema agroindustrial de flores e plantas ornamentais.

Figura 6: Fluxograma do Sistema Agroindustrial de Flores e Plantas Ornamentais.

Devido aos diferentes microclimas favoráveis ao plantio de plantas ornamentais de regiões tropicais e
temperadas, a disponibilidade de água e terras para cultivo e o crescente incentivo na tecnologia agronômica o
Brasil tem sido favorecido neste mercado.

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Os principais produtos comercializados são as flores de corte, principalmente, rosas e crisântemos, e as
folhagens. No que diz respeito às flores de vaso, as mais vendidas são as suculentas do gênero Kalanchoe e as
orquídeas do gênero Phalaenopsis. Hoje em dia há espécies arbóreas nativas sendo comercializadas como
espécie ornamental como é o caso do manacá- da- serra (Tibouchina pulchra - Melastomataceae).
Outros exemplos de plantas comercializadas são: a alocasia, antúrio, jiboia (Araceae), arruda
(Rutaceae), bromélias pertencentes aos gêneros Aechmea, Guzmania, Neoregelia, Tillandsia e Vriesia
(Bromeliaceae) – muito vendidas como plantas de vaso – várias espécies do gênero Cactus (Cactaceae), gérbera
e girassol (Asteraceae) e lírio (Liliaceae).

Microalgas: ecologia, biodiversidade e importância


Karoline Magalhães Ferreira Lubiana

Introdução
As algas são seres majoritariamente autotróficos, que apresentam um talo como forma vegetativa, no
qual não ocorre grande diferenciação e especialização celular como observado nas plantas terrestres. Embora
possam formar talos parenquimatosos, estes são relativamente indiferenciados em órgãos. Tecidos elementares
de transporte podem ser encontrados apenas nos gêneros mais complexos das algas macroscópicas bentônicas.
O termo algas não possui valor taxonômico, visto que os organismos não compartilham um ancestral
em comum (grupo polifilético) e estão dispersos em vários ramos da árvore da vida. Devido a esta característica,
as algas são muito diferentes entre si quanto à morfologia e fisiologia. Podemos dividir as algas em dois grupos,
as procariontes e as eucariontes (figura 1). As algas procariontes não possuem organelas delimitadas por
membranas (plastídios, mitocôndria, núcleo, complexo de Golgi e flagelos) e são representadas pelas
cianobactérias. As demais algas eucariontes possuem organelas e estão distribuídas em vários grupos como
veremos a seguir.
As algas têm uma extensa história fóssil, algumas remontando a origem e irradiação das formas
fotossintetizantes. Foram responsáveis pela modificação da atmosfera primitiva através da produção de oxigênio.
As algas carófitas (Chlorophyta) são consideradas grupo irmão das plantas. A fotossíntese que utiliza oxigênio
surgiu apenas uma vez na história evolutiva, e foi subsequentemente espalhada via endossimbiose para uma
grande variedade de organismos. Uma característica universal dessa reação bioquímica é a necessidade do
pigmento clorofila a para sua realização, sendo este imprescindível para o desencadeamento da quebra da
molécula e desencadeamento da cadeia transportadora de elétrons (fase fotoquímica ou luminosa).
As algas são um grupo composto por organismos unicelulares, de tamanho muito diminuto, até
organismos gigantes, que formam verdadeiras florestas no fundo dos mares. Contribuem enormemente para a
renovação do oxigênio atmosférico, além de serem os principais produtores primários dos ecossistemas
aquáticos (base da cadeia alimentar). Elas são tradicionalmente divididas em microalgas (organismos de
dimensões microscópicas) e macroalgas (dimensões macroscópicas). Embora as microalgas sejam definidas
como organismos fotossintéticos que não podem ser observados a olho nu, muitas podem se organizar em
colônias e filamentos, que se tornam visíveis macroscopicamente. A grande diferença entre as colônias de

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microalgas macroscópicas e as macroalgas propriamente ditas é que, nas microalgas, não ocorre organização das
células e diferenciação a ponto de simularem tecidos vegetais.
Neste capítulo vamos introduzir um pouco do universo desses seres microscópicos que estão por quase
toda parte e passam imperceptíveis aos nossos olhos no dia a dia. Aprender um pouco sobre a importância das
microalgas como base da cadeia alimentar e estruturadoras dos ecossistemas aquáticos. Vamos também aprender
um pouco sobre sua diversidade, os grupos com mais espécies, onde eles são encontrados, caracteres peculiares
únicos entre outros aspectos a respeito da biologia desses organismos tão importantes para a vida no nosso
planeta.

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Ecologia e importância das microalgas
Microalgas podem ser encontradas nos mais diversos ambientes ao longo de todo o planeta Terra. São
mais comuns em ambientes aquáticos, tanto continentais quanto marinhos, mas podem habitar ambientes
inóspitos. Elas vivem sobre a neve, em associação simbiótica com liquens, moluscos, protozoários, corais (entre
outros), em solos de desertos e até mesmo em fossas termais.
Na grande maioria dos habitats nos quais esses organismos são encontrados, desempenham o papel de
produtores primários na cadeia alimentar, equivalente ao realizado pelas plantas no ambiente terrestre. A
produção de matéria orgânica é feita pela utilização da luz do sol, dióxido de carbono e água, através processo
bioquímico chamado fotossíntese. A produção primária é uma taxa que se refere à fixação do carbono
atmosférico em um ano em uma determinada área. Além do dióxido de carbono que será incorporado na
formação da matéria orgânica, as algas necessitam de outros nutrientes inorgânicos para sintetizar moléculas
cruciais para sustentação de sua vida, como nitrogênio, fósforo e outros micronutrientes (Na, K, Mg, Ca, Si, Fe,
Mn, B, Cl, Cu, Zn, Mo, Co, entre outros). Há organismos que são capazes de absorver matéria orgânica
(osmotróficos, mixotróficos) ou, até mesmo, fagocitar outros organismos para suprirem suas necessidades
metabólicas.
A dependência da luz para realização da fotossíntese restringe a vida das algas como um todo às zonas
iluminadas do globo. Além da produção básica de alimento nas redes tróficas, elas geram o oxigênio necessário
para o metabolismo energético da maioria dos organismos viventes. Os seres humanos, embora raramente
consumam diretamente tais organismos, se alimentam de outros organismos da teia alimentar que as algas
sustentam (peixes, crustáceos, mariscos).
De acordo com o habito de vida, elas são classificadas em algumas categorias. Microalgas que vivem
nos sedimentos de ambientes aquáticos (fundo de lagos, mares, etc.) são chamadas de microfitobentos. As que
vivem na coluna d´água, ao sabor das correntes, são classificadas como fitoplanctônicas. As algas que vivem
sobre superfícies de gelo, formam a crioflora. Há algas que vivem em ambientes terrestres, sobre plantas (epífitas
aéreas), rochas (epilíticas aéreas), sobre animais (epizoóicas) ou sobre o solo.
O fitoplâncton é a principal comunidade das microalgas, visto que mais de 70% da superfície de nosso
planeta é coberto pela água dos oceanos. São restritos às zonas iluminadas da coluna d´água dos oceanos (zona
eufótica), que corresponde a uma fração muito pequena, cerca de 200 metros de profundidade (menos de um por
cento do volume total). A profundidade média dos oceanos é de quatro mil metros (4km).
Embora a biomassa da comunidade fitoplanctônica represente menos de um por cento da biomassa
fotossintética do planeta, essas microalgas são responsáveis por mais de 48% da produção primária anual do
planeta Terra. Nos oceanos, as microalgas fitoplanctônicas realizam mais de 90% da produção primária, sendo o
restante feito pelas macroalgas, plantas marinhas e organismos quimiossintetizantes. Isso ocorre porque as áreas
de plataforma continental onde os organismos bentônicos podem se alojar são relativamente muito pequenas
quando comparadas com as áreas oceânicas, que a profundidade é muito grande e a luz não chega ao fundo. A
produção primária realizada pelo fitoplâncton nos oceanos é extremamente variável nas diferentes regiões, visto
que as condições para a produção primária variam muito de acordo com a região. As diferenças se dão,
principalmente, por causa da disponibilidade de nutrientes dissolvidos e de luz. As zonas costeiras e de
ressurgência apresentam valores de produção primaria muito maiores quando comparadas às zonas oceânicas
tropicais, que embora tenham muita luz disponível são pobres em nutrientes. Essas diferenças acontecem porque

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nas zonas de ressurgência e costeiras há maior quantidade de nutrientes disponíveis para a produção primária
quando comparados a zonas oceânicas. As zonas de ressurgência são alimentadas por nutrientes que vêm do
fundo dos oceanos e as zonas costeiras pelos nutrientes do ambiente terrestre.
Os oceanos têm fluxos de circulação de água devido à inércia da rotação da Terra em torno de si
mesma. Assim formam- se os giros e correntes oceânicas superficiais. As correntes podem ser frias ou quentes,
dependendo de onde se iniciam. As correntes superficiais que são originadas nos trópicos são quentes, enquanto
que as correntes que se formam nos polos são frias. Áreas costeiras cujas correntes são frias são mais produtivas
que áreas costeiras de correntes quentes. As zonas polares são as que têm maiores valores de produção primária.
Mares equatoriais são menos produtivos quando comparados com zonas temperadas e polares. Isso ocorre
devido a grande diferença de temperatura da água da superfície em relação à do fundo, que resulta em duas
massas de água que não são capazes de se misturar devido a diferença de densidade entre elas (termoclina), o
que evita que a água do fundo, rica em nutrientes, aflore para a superfície onde estão os organismos
fotossintetizantes. Enquanto nas zonas tropicais há muita luz e poucos nutrientes para a fotossíntese, nas zonas
temperadas e polares o principal fator limitante da produção primária é a disponibilidade de luz, uma vez que as
estações são do ano são marcadas por grandes diferenças de insolação. Mesmo assim, as zonas polares ganham
em produção primária.
Locais onde há pouca disponibilidade de nutrientes que resultam em baixa produtividade primária têm,
consequentemente, pouca produção de mariscos e peixes. Isso ocorre ao longo da costa do Brasil, que é servida
pela corrente do Brasil, uma corrente de águas quentes e pobre em nutrientes (se origina na linha do Equador).
Consequentemente, a costa do Brasil possui baixa produção pesqueira quando comparada com costas servidas
por correntes superficiais frias, como a costa do Chile, por exemplo.
Quando as microalgas de ambientes aquáticos se deparam com condições favoráveis ao crescimento,
são capazes de se reproduzir rapidamente, levando a formação de uma grande biomassa que é visível a olho nu.
Esta rápida proliferação e produção de biomassa é chama de floração, ou bloom. As florações de microalgas
podem ser desencadeadas por diversos fatores, mas acredita-se que estejam fortemente relacionadas à poluição
dos corpos d´água devido às atividades humanas (esgotos domésticos, industriais, fertilizantes agrícolas), que
descarregam uma grande quantidade de resíduos químicos capazes de serem metabolizados por esses
organismos. As florações de microalgas podem ter sérias consequências, levando a mortandade de organismos
aquáticos por anoxia, intoxicação de animais e humanos (quando os blooms são tóxicos) e impossibilidade de
uso dessa água para abastecimento de residências, por exemplo. Mais detalhes sobre florações tóxicas serão
abordados nos próximos tópicos.
As Haptophyceae marinhas apresentam uma característica muito peculiar. Elas são capazes de produzir
uma molécula, o dimetil sulfeto (DMS), que é volátil. Um precursor dessa molécula atua como osmorregulador
celular, o β-dimetilsufoniopropionato (DMSP). A produção dessa molécula parece estar relacionada a baixas
concentrações de nitrogênio. Dessa forma, em alto mar (ambiente pobre em nutrientes), esses organismos
acumulariam o DMSP, precursor do DMS. O DMS é oxidado em dimetil sulfóxido (SMSO), dióxido de enxofre,
ácido metanosulfônico, sulfato, ácido sulfúrico, entre outros. Como os produtos de degradação do DMS são
voláteis, eles vão para a atmosfera e resultam em chuvas ácidas naturais. Estudos revelaram que florações
(blooms) de Haptophyta no mar são responsáveis por chuvas ácidas. Parece que os produtos de oxidação do
DMS, citados acima, também favorecem a nucleação de nuvens com alto poder de reflexão da luz que incide do

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sol, aumentando o poder de sombreamento destas. Consequentemente, a degradação do DMS leva a formação de
nuvens mais reflexivas, diminuindo o efeito dos raios ultravioletas sobre essas algas, favorecendo o seu
desenvolvimento. A redução da intensidade luminosa, devido ao maior sombreamento das nuvens, também leva
ao controle da formação de blooms. Essas nuvens com maior poder de reflexão aumentam o calor acima de sua
cobertura, o que produz chuvas fortes e tempestades. Essas chuvas trazem nutrientes, uma vez que os relâmpagos
induzem a formação de nitratos na atmosfera, o que favorece o desenvolvimento das algas. Há, dessa forma, um
equilíbrio complexo do ciclo do enxofre, no qual as Haptophyceae intervêm.

Biodiversidade das microalgas


A fotossíntese oxigênica se originou apenas uma vez na vida, com o aparecimento nas bactérias, há
aproximadamente 3,5 bilhões de anos atrás. Durante o Proterozóico, esses organismos dominaram os mares e
foram responsáveis pela oxigenação da atmosfera, condição vital para a maior parte dos seres vivos atualmente.
Posteriormente, a fotossíntese oxigênica foi espalhada para outros grupos de eucariontes através da
endossimbiose (simbiogênese). Todos os processos de endossimbiose causaram perdas massivas dos genes do
genoma hospedado, muitos deles foram transferidos para o genoma principal da célula hospedeira.
Acredita-se que o primeiro processo de endossimbiose envolvendo um organismo eucarionte
heterotrófico e uma cianobactéria primitivos, denominado endossimbiose primária, foi único e ocorreu há
aproximadamente 1,8 bilhão de anos atrás. Neste processo, a cianobactéria foi transformada em um cloroplastoe
originou o grupo Archaeplastida, que inclui os grupos Glaucophyta, Rhodophyta (algas vermelhas) e
Chloroplastida (algas verdes e plantas terrestres). Há evidências que as algas verdes tiveram importante papel na
produção primária durante o Proterozóico tardio e no Cambriano.
As algas vermelhas e algas verdes participaram do processo de endossimbiose envolvendo outros
eucariontes heterotróficos em vários outros eventos de endossimbiose. Tais processos que envolveram dois
eucariontes determinam a endossimbiose secundária. Eventos de endossimbiose entre uma alga vermelha e um
eucarionte heterotrófico deram origem a Cryptophyceae, Haptophyceae, Stramenopilos (ou Heterokontes). Já a
endossimbiose secundária com a participação de uma alga verde deu origem às Chlorarachniophyta,
Euglenophyta, e alguns dinoflagelados. Os dinoflagelados que contém peridinina e fucoxantina tiveram seus
cloroplastos provavelmente originados de eventos de endossimbiose terciária com uma Haptophyceae. Há
dinoflagelados que mantém cloroplastos temporários, denominados cleptoplastídeos, os quais são roubados de
outros organismos fotossintetizantes, como as Cryptophyceae. Um grupo de algas verdes, as Charophyceae, são
consideradas o grupo irmão das plantas, “algas” que se especializaram para sobreviver no ambiente terrestre.
Devido a história de surgimento dos diferentes grupos de algas, estes estão muito dispersos na árvore da
vida e possuem forma e fisiologia muito distintas entre si. Historicamente, as algas unicelulares, exceto as
Archaeplastida (classificado dentro de Plantae), eram classificadas com outras formas de vida unicelulares,
dentro de um grande reino, primeiramente definido por Ernest Haeckel, como Protista. Este reino,
convenientemente, agrupa tudo que não pode ser classificado como fungo, animal ou planta. Entretanto, este não
pode ser utilizado numa perspectiva filogenética, pois une organismos que não compartilham ancestralidade em
comum. Como esses organismos estão dispersos em vários grupos de histórias evolutivas diferentes, eles são
classificados por diferentes códigos de nomenclatura da biologia. Por exemplo, as cianobactérias são bactérias,
mas fazem fotossíntese, consequentemente, são abordadas pelo Código Internacional de Nomenclatura para

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Algas, Fungos e Plantas (antigo Código de Nomenclatura Botânica) e pelo Código Internacional de
Nomenclatura de Bactérias. Entretanto, esses organismos são tradicionalmente mais estudados pelos botânicos,
devido a capacidade fotossintética. As nomenclaturas adotadas neste capítulo são baseadas no primeiro código.
Atualmente a classificação dos protistas como um todo sofreu mudanças drásticas, principalmente
devido a associação de dados moleculares e ultraestruturais. A tabela 1 resume os vários grupos de algas aceitos
atualmente, sua classificação e diversidade específica, com destaque para formas microscópicas. Esta foi
construída com base nos dados publicados em Guiry & Guiry (2014) e Baldauf (2008). As microalgas possuem
preferências de habitat e alguns grupos são mais abundantes e diversos que outros dependendo do ambiente.
Neste capítulo vamos abordar apenas os grupos mais diversificados e abundantes, uma vez que a diversidade dos
grupos é muito grande.

Tabela 1: Classificação dos diferentes grupos de algas e diversidade.

Espécies
Domínio Divisão Classe
descritas

Procariota Eubacteria Cyanobacteria Cyanophyceae 4,053


Glaucophyta Glaucophyceae 15
Bangiophyceae ** 158
Compsopogonophyceae ** 73
Cyanidiophyceae 3
Rhodophyta Florideophyceae ** 6,199
Porphyridiophyceae 12
Rhodellophyceae 6
Stylonematophyceae 36
Chlorodendrophyceae 45
Chlorophyta incertae sedis 16
Chlorophyceae 3,004
Archaeplastida Mamiellophyceae 17
Chlorophyta Nephrophyceae 28
Pedinophyceae 22
Eukarya
Prasinophyceae 109
Trebouxiophyceae 651
Ulvophyceae ** 1,596
Charophyceae ** 695
Chlorokybophyceae 1
Coleochaetophyceae ** 26
Charophyta
Conjugatophyceae 3,452
Klebsormidiophyceae ** 38
Mesostigmatophyceae 1
Aurearenophyceae 1
Bacillariophyceae 7,238
Stramenopila/ Heterokontes Ochrophyta Bacillariophceae incertae sedis 228
Bolidophyceae 14
Chrysomerophyceae 4

40
Chrysophyceae 512
Coscinodiscophyceae 1,717
Dictyochophyceae 88
Eustigmatophyceae 36
Fragilariophyceae 629
Pelagophyceae 12
Phaeophyceae ** 1,836
Phaeothamniophyceae 34
Picophagophyceae 4
Pinguiophyceae 5
Placidiophyceae 2
Raphidophyceae 26
Schizocladiophyceae 1
Synchromophyceae 2
Synurophyceae 289
Xanthophyceae 530
Dinophyceae 2,940
Ellobiophyceae 24
Noctilucophyceae 25
Alveolata Dinophyta/ Pyrrophyta
Oxyrrhida 3
Perkinsea 8
Syndiniophyceae 51
Chlorarachniophyceae 12
Rhizaria Cercozoa Filosa 2
Imbricatea 29
Cryptophyta Cryptophyceae 161
Coccolithophyceae 505
Hacrobia
Haptophyta Pavlovophyceae 15
Haptophyta incertae sedis 54
Discicristata Euglenozoa Euglenophyceae 1176
38,469
**Macroalgas

Cyanobacteria
Começamos pelas algas procariontes, Cyanobacteria (algas azuis), que originaram a fotossíntese na
Terra. Essas bactérias são um grupo de eubactérias, as únicas capazes de fazer fotossíntese oxigênica. Acredita-
se que o surgimento desse grupo ocorreu há cerca de 3,5 bilhões de anos atrás. As cianobactérias foram os
organismos responsáveis pela transformação da atmosfera primitiva, visto que nessa não havia oxigênio,
molécula que foi gradativamente acumulada devido sua síntese por essas algas. A presença de O 2 e do ozônio
(O3) na atmosfera formou uma barreira protetora contra os raios ultravioleta, permitindo a colonização de regiões
menos profundas das águas e, posteriormente, do ambiente terrestre.
As células têm organização como a de uma bactéria, visto que são organismos procariontes, não
havendo núcleo tampouco organelas. A parede celular contém peptideoglicano, característica das eubactérias e
são do tipo gram-negativo. Têm como pigmentos fotossintéticos a clorofila a (algumas tem clorofilas b ou d),

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carotenoides e ficobiliproteínas. As células armazenam vários tipos de reserva de nutrientes, nitrogenadas
(cianoficina), carbonadas, pequenas gotas de óleos e grânulos de polifosfato.
A morfologia mais simplória do grupo são indivíduos unicelulares, podendo estar ou não revestidos por
camadas de mucilagem. Formas coloniais são comuns no grupo, as quais também podem ser revestidas por
mucilagem (figura 1). Outra forma comumente encontrada, as células se organizam em fileiras, formando
tricomas, que quando são envolvidos por mucilagem são chamados filamentos. As cianobactérias nunca
apresentam flagelos. A reprodução ocorre por simples divisão celular, não havendo reprodução sexuada
verdadeira, mas uma parasexualidade como observada nas demais bactérias. As cianobactérias podem
desenvolver células especializadas de resistência, chamadas de acinetos. Outro tipo de célula diferenciada são os
heterocitos, capazes de fixar nitrogênio atmosférico para ser utilizado pelas células. Entretanto, algumas espécies
que não possuem heterocitos também são capazes de fixar nitrogênio.
As cianobactérias são encontradas em diversos hábitats. Existem espécies que vivem em ambientes
aquáticos (dulcícolas, salobros e marinhos), tanto na coluna d´água (fitoplâncton) quanto no substrato
(microfitobentos), assim como espécies aéreas, encontradas na atmosfera, no solo, em rochas, calçadas, etc.
Essas algas têm uma imensa capacidade de suportar ambientes inóspitos. Podem ser encontradas em pelos de
mamíferos, como preguiças, em geleiras, águas termais e, até mesmo, em regiões desérticas. São mais raras e
ausentes nos mares polares. Podem ocorrer em simbiose com diversos grupos de plantas, como raízes de Cycas
(gênero Nostoc). Também são simbióticas com esponjas e liquens.
As cianobactérias podem ser consumidas como fonte de proteínas para alimentação humana, como
Spirulina, vendida em cápsulas. As cianobactérias cocóides são amplamente distribuídas nos oceanos
temperados e tropicais e têm importante papel na fixação do carbono atmosférico.

Figura 1: Cianobactérias: (I) Espécie colonial revestida por mucilagem, evidenciado por tinta nanquim;
(II) Espécie organizada em tricoma.

Em condições favoráveis ao seu crescimento, as cianobactérias podem se reproduzir rapidamente e


formar florações imensas, caracterizadas por manchas vermelhas, azuis e verdes. Muitas vezes essas florações
estão ligadas a problemas de eutrofização dos ambientes aquáticos (poluição) e podem ser tóxicas.
Trichodesmium, um gênero capaz de fixar nitrogênio atmosférico, pode formar florações imensas, produzindo
manchas marrom- alaranjadas na superfície dos mares sob condições favoráveis.
As cianobactérias são capazes de produzir toxinas (cianotoxinas), podendo gerar grandes problemas nos
ambientes de água doce, uma vez que a água é utilizada para consumo humano. O consumo de água
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contaminada com cianotoxinas pode gerar graves acidentes quanto estas estão presentes em altas concentrações.
As cianotoxinas são classificadas como neurotoxinas ou hepatotoxinas, de acordo com a ação. Há outras
cianotoxinas que não serão mencionadas neste texto.
As neurotoxinas são moléculas capazes de bloquear as sinapses entre os neurônios e os músculos no
homem e também em animais, desencadeando sintomas como convulsão, fadiga, tonturas e contrações
musculares. Dependendo da quantidade de toxina ingerida pode levar à morte por parada respiratória. As
neurotoxinas produzidas por cianobactérias são anatoxina e saxitoxina. As anatoxinas são produzidas por
espécies dos gêneros Anabaena. Aphanizomenon, Oscillatoria e Trichodesmium. As hepatotoxinas agem como
inibidores de proteína fosfatase, culminando em hemorragia no fígado. Os sintomas incluem fraqueza, náusea,
diarreia, vômito e extremidades do corpo frias. São produzidas por espécies dos gêneros Microcystis, Anabaena,
Nostoc, Nodularia e Oscillatoria. Em altas concentrações também levam a morte.

Chlorophyta
As Chlorophyta, também conhecidas como algas verdes, são algas eucariontes. Estão dentro do grupo
Archaeplastida, que foi originado por um evento de endossimbiose primária que envolveu uma cianobactéria e
um eucarionte primitivos. Essas algas são principalmente de água doce, cerca de 90% das espécies, e apenas
10% são representadas por indivíduos marinhos. Além dos ecossistemas aquáticos, podem ser encontradas no
ambiente terrestre. Podem estar presentes em salinas, neves, desertos, cinzas vulcânicas e sobre solos. Podem ser
epifíticas ou endofíticas, epizoóicas ou endozoóicas, até mesmo patogênicas. Assim como as cianobactérias, são
dispersas em ambientes mais variados.
São representadas por indivíduos unicelulares, flagelados ou não, formas coloniais, filamentosas, até
mesmo pluricelulares (micro e macroalgas) (figura 2). Alguns indivíduos podem medir alguns metros de
comprimento (Codium). Entretanto a maior diversidade de espécies é encontrada nas formas microscópicas. A
reprodução pode ocorrer por simples mitose (assexuada) ou sexuada. As células são, em geral, revestidas por
celulose, polímero que forma as paredes celulares. Acredita-se que os grupos mais basais possuem parede menos
espessa e rija, pois supõe- se que na condição ancestral essa parede fosse inexistente ou maleável ao ponto de ter
permitido o englobamento da cianobactéria. As algas mais basais dentro do grupo são as Prasinophyceae, cuja
parede celular é composta por escamas de polissacarídeos ácidos entrelaçados.

Figura 2: Morfologia unicelular de Chlorophyta (I) Chlorella sp., alga unicelular cocóide da classe
Trebouxiophyceae; (II) Nephroselmis sp., alga monadal, classe Nephrophyceae.

43
Algumas espécies unicelulares dessa linhagem podem formar imensas florações, que são devidas,
principalmente, a eutrofização dos corpos d´água. Espécies produtoras de toxinas são desconhecidas para o
grupo. Algumas espécies macroscópicas são relatadas como invasoras, condição observada no ambiente
marinho. Outas espécies dos gêneros Ulva, Cladophora e Entoromorpha são resistentes aos lançamentos de
esgotos domésticos e industriais, podendo dominar locais nessas condições, sendo, portanto, bons indicadores
ambientais. A sobrevivência e dominância em ambientes eutrofizados estão ligadas à capacidade das algas
verdes assimilarem e degradarem a ureia em amônia, utilizando-a como fonte de nitrogênio para síntese de
outras moléculas orgânicas.
Essas algas têm como pigmentos fotossintéticos as clorofilas a e b e carotenoides como luteína e
neoxantina (único da linhagem verde e suas derivadas por endossimbiose). Acumulam amido dentro do
cloroplasto (intraplastidial), em geral associado ao pirenoide. Os tilacóides no cloroplasto estão empilhados, de
dois a seis, podendo forma grana. Os cloroplastos são revestidos por duas membranas e não ocorre retículo
endoplasmático no cloroplasto. Vários grupos dentro dessa linhagem têm capacidade de assimilar compostos
orgânicos dissolvidos para obtenção de energia, sendo assim, esses organismos podem ser chamados de
osmotróficos e mixotróficos.
Essa linhagem pode acumular carotenoides sobre certas condições, como deficiência de nitrogênio, alta
irradiância ou alta salinidade. Grandes concentrações de carotenoides dão à célula uma cor laranja ou
avermelhada. Os animais não podem sintetizar carotenoides e esses os adquirem através da alimentação, por
meio de ingestão direta ou indireta de algas. Os carotenoides são os responsáveis pela coloração em peixes,
crustáceos e aves (como a cor rosa observada nos flamingos). Devido a essa característica de acumulação de
carotenoides, muitas espécies têm sido cultivadas para extração desses pigmentos, utilizados como corantes
naturais.

Dinophyceae (Dinophyta)
Os dinoflagelados são organismos bem peculiares dentre as algas, muitos deles têm formas bem
inesperadas. É uma linhagem de organismos muito importante no plâncton marinho e de água doce. São
majoritariamente marinhos, pois 90% da diversidade de espécies é encontrada nesses ambientes. São mais
difundidos em regiões tropicais e exclusivamente aquáticos. Depois das diatomáceas (Bacillariophyceae), são o
segundo maior produtor primário em regiões costeiras.
A grande maioria do grupo é representada por organismos unicelulares monadais (flagelados),
raramente formam filamentos. Há poucos representantes cocóides, ameboides ou formando colônias
palmeloides. Há gêneros simbiontes com corais (Symbiodinium), moluscos, esponjas, foraminíferos e radiolários.
A reprodução ocorre de forma sexuada e assexuada.
A morfologia típica de um dinoflagelado consiste em um epicone e um hipocone, divididos por um
sulco transversal ou cíngulo (figura 3). Um sulco longitudinal percorre perpendicularmente o sulco transversal.
O epicone e o hipocone são fragmentados em várias placas celulósicas. O número, forma e disposição das placas
são características peculiares dos gêneros. As células dos dinoflagelados têm dois flagelos, um emerge da célula
e o outro rodeia a célula, o último fica disposto no sulco transversal, como um cinto. Há dinoflagelados que não
possuem armadura celulósica, têm apenas uma película, e são chamados dinoflagelados atecados. Nas células
dos dinoflagelados há organelas ejetáveis, chamados extrussomos, assim como nos ciliados (outro grupo de

44
Alveolados). Os extrussomos encontrados nos dinoflagelados são do tipo tricocistos, mucosistos e nematocistos.
Quando são descarregados, essas organelas provocam um “salto” da célula.
Metade das espécies dessa linhagem têm cloroplastos e a outra metade não. A maioria dos
dinoflagelados autotróficos têm cloroplastos derivados de endossimbiose terciária que envolveu uma
Haptophyceae, já em outros grupos os cloroplastos são oriundos de outras relações de endossimbiose com outros
grupos de algas. Alguns dinoflagelados podem ter plastídios temporários, chamados cleptocloroplastos.
Os dinoflagelados heterótrofos são predadores, realizam fagocitose e osmotrofia, como, por exemplo, o
gênero Protoperidinium. Muitas espécies têm um órgão de captura especializado, denominado pedúnculo.
Devido a essa característica predadora, muitas vezes, florações de microalgas são sucedidas por florações de
dinoflagelados heterotróficos que se alimentam dessas células.
A maioria dos indivíduos fotossintéticos têm cloroplastos envolvidos por três membranas (duas
membranas do envelope do cloroplasto, além de uma membrana do retículo endoplasmático do cloroplasto, que
não é contínua com a membrana externa do envelope nuclear). Os pigmentos fotossintéticos do grupo são,
geralmente, as clorofilas a e c2, além de peridinina e neoperidinina, seus principais carotenoides. Alguns
dinoflagelados têm pirenoides no cloroplasto. O produto de reserva é o amido, similar ao produzido pelas algas
verdes e plantas terrestres, estando armazenado no citoplasma. O núcleo dos dinoflagelados tem os cromossomos
permanentemente condensados e é nomeado como núcleo dinocariótico ou mesocariótico, que tem entre cinco e
dez vezes mais DNA que outras células eucariontes.

Figura 3: Morfologia da célula de dinoflagelado típica, Protoperidinium sp.

Os dinoflagelados são os únicos organismos dentre as microalgas que podem apresentar


bioluminescência. Algumas espécies, ao serem estimuladas, produzem luz azul neon. A produção do brilho é
devido à uma reação enzimática, na qual a enzima luciferase catalisa a oxidação da luciferina. Esse fenômeno
ocorre apenas durante a noite, pois é controlado pelo relógio biológico (ritmo circadiano) e já foi reportado para
os gêneros Gonyaulax, Noctiluca, Ceratium, Pyrocystis, entre outros. Especula-se que a bioluminescência seja
uma forma de afastar predadores.
Os dinoflagelados podem produzir florações imensas, principalmente no mar. A grande maioria das
florações não é danosa, mas as vezes podem acarretar prejuízos em áreas de cultivo de animais marinhos.
Algumas espécies de dinoflagelados têm capacidade de produzir toxinas muito potentes, que podem desencadear
a morte de peixes e mariscos durante as marés vermelhas (florações de espécies tóxicas). O consumo de
mariscos provenientes de áreas onde ocorreram florações pode resultar em intoxicação, uma vez que os
dinoflagelados ficam retidos nas guelras e tubo digestivo desses invertebrados. As toxinas podem ser excretadas

45
das células dos dinoflagelados ou liberadas após a morte. As principais doenças causadas por consumo de
dinoflagelados tóxicos estão listados na tabela 2.

Tabela 2: Principais tipos de intoxicação causadas por ingestão de dinoflagelados tóxicos


Táxons
Doença Toxinas Ação Sintomas
relacionados
Ácido
Envenenamento ocadáico, Inibição das
Exuviaella,
diarreico de toxinas proteínas serina e Gastroenterite severa (vômito, diarreia,
Dinophysis e
marisco (Diarrhetic macrolídeas treonina fosfatase náusea, cólicas).
Prorocentrum.
shellfish poisoning) e PP1 e PP2A.
iessotoxinas
Ácido
Envenenamento Ativador do canal
gambierico,
Ciguatera de Ca2+, levando a Diarreia forte durante dois dias seguida de
ciguatoxina Gambierdiscus
(Ciguatera fish ruptura da fraqueza.
e
poisoning) membrana celular
maitotoxina
Age nos canais Náuseas, vômitos, diarreia, dor abdominal,
Envenenamento de Alexandrium, dependentes de sensação de formigueiro ou ardor lábios,
+
marisco Derivados Pyrodinium voltagem de Na , gengivas, língua, face, pescoço, braços,
paralisante de bahamense e evitando a entrada pernas, mãos e pés. Falta de ar, boca seca,
(Paralytic shellfish saxitoxina Gymnodinium de Na+, evitando a sensação de asfixia, confuso ou fala arrastada
poisoning) catenatum geração de e perda da coordenação são também
potencial de ação. possíveis.

Bacillariophyceae (Ochrophyta, Stramenopila)


As diatomáceas são algas cujo cloroplasto é derivado do processo de endossimbiose secundária que
envolveu uma alga vermelha. Os organismos podem ser unicelulares ou coloniais e são encontrados em quase
todos os ambientes aquáticos como organismos de vida livre fotossintetizantes. Há poucos representantes
heterotróficos. Elas ocorrem no plâncton ou no bentos de ambientes de água doce, salobro ou marinho. Há
espécies terrestres, embora necessitem de ambientes umidificados. Algumas formas simbiontes são conhecidas
em associação com foraminíferos e esponjas. São as microalgas com maior diversidade de espécies conhecida.
Esses organismos têm um ou vários cloroplastos, que são envolvidos por quatro membranas, duas
membranas do envelope do cloroplasto e duas outras membranas do retículo endoplasmático, sendo que a última
membrana do retículo endoplasmático é contínua com a membrana externa do envelope nuclear. Nos
cloroplastos há um pirenoide, que pode ser central. Os pigmentos fotossintéticos são as clorofilas a e c1 e c2,
além de carotenoides e xantofilas. O principal carotenoide é a fucoxantina, que dá as células a cor marrom-
dourada, característica do grupo. O produto de reserva da célula é a crisolaminarina, que fica disposta em
vesículas. Elas também armazenam óleos.
O carácter derivado próprio do grupo é a frústula, parede celular silicosa. A frústula é dividida em duas
partes (epivalva e hipovalva), que se encaixam perfeitamente, lembrando uma placa de petri. As frústulas podem
ter formas altamente variadas, além de serem muito ornamentadas. A forma e ornamentação das frústulas são

46
usadas como caracteres taxonômicos dessas algas. Elas podem se reproduzir assexuadamente (mais comum) e
sexuadamente.
Podem ter simetria radial ou bilateral (cêntricas ou penadas) (figura 4). As formas penadas podem ter
rafe, uma fenda longitudinal na frústula. Algumas espécies possuem movimento, que pode ser observado ao
microscópio de luz como um deslizamento da célula.
As diatomáceas são o principal produtor primário no ambiente marinho, além de terem expressiva
significância em ambientes dulcícolas. As diatomáceas penadas têm igual representatividade de espécies no
ambiente marinho e dulcícola, entretanto, as cêntricas são predominantemente marinhas. Os ambientes marinhos
com correntes frias têm maiores quantidades de diatomáceas, representadas por poucas espécies. São importantes
produtores primários em regiões costeiras e zonas de ressurgência. Regiões mais pobres em nutrientes possuem
maior diversidade de espécies e menor biomassa. Estima-se que mais de 40% da produção primária dos oceanos
seja realizada pelas diatomáceas.
Há poucas espécies que causam efeitos prejudiciais ao homem. São espécies do gênero Pseudonitzschia
que podem formar florações tóxicas e produzirem ácido domóico, toxina que pode levar a morte dependendo da
quantidade ingerida. O consumo de alimento contaminado com ácido domóico leva à intoxicação amnésica de
marisco (amnesic shellfish poisoning), que causa diarreia, náusea, vômito, cólicas abdominais. Em casos mais
sérios, sintomas neurológicos podem durar horas até mesmo dias, que incluem dor de cabeça, desorientação,
tontura, distúrbios visuais, perda de memória recente, fraqueza motora, pressão arterial instável, arritmia
cardíaca e coma. Alguns casos podem ter sequelas permanentes, como perda de memória recente.

Figura 4: Diatomáceas: (I) Nitzschia longíssima, forma penada vista apical; (II) Thalassiosira spp.
forma cêntrica, vista lateral.

Florações de outras espécies, apesar de não produzirem de toxinas, podem ter efeitos prejudiciais a
muitos organismos. Florações de células que têm muitos prolongamentos da carapaça silicosa podem injuriar
muitos animais marinhos, uma vez que as células se acumulam nas guelras e geram lesões.
Devido à característica da parede celular desse grupo, que é muito resistente, há um grande registro fóssil. A
acumulação de frústulas durante milhares de anos nos sedimentos dos mares levou à formação depósitos
silicosos, denominados diatomitos. O diatomito tem utilização comercial na fabricação de peças de filtros, tintas,
produtos abrasivos, creme dental, isolante, além de tijolos. Os depósitos das frústulas de diatomáceas também
são de grande importância para exploração de petróleo.

47
Tópicos atuais das relações entre os metabolismos do
carbono e nitrogênio em plantas vasculares
Cassia Ayumi Takahashi
Paulo Tamaso Mioto

Introdução ao metabolismo do nitrogênio

O nitrogênio e as diferentes fontes nitrogenadas


O nitrogênio é um elemento mineral necessário em grandes concentrações pelas plantas sendo
considerado como um dos macronutrientes mais importantes para promover o crescimento e desenvolvimento
adequado de todos os órgãos vegetais. Por essa razão, plantas que crescem em condições ambientais com
deficiência de nitrogênio possuem seu crescimento extremamente comprometido o qual pode levar à própria
letalidade do organismo. O nitrogênio pode ser encontrado em muitas moléculas importantes presentes nos
tecidos vegetais como, por exemplo, ácidos nucleicos (RNA e DNA), clorofila, aminoácidos e proteínas.
O nitrogênio pode estar disponível às plantas nas formas inorgânicas como o nitrato (NO 3-), amônio
(NH4-), gás amônia (NH3) ou nitrogênio gasoso (N2) e também nas formas orgânicas como aminoácidos ou ureia.
As formas mais comumente encontradas nos solos e absorvidas pelas raízes das plantas são o nitrato e amônio.
Na maioria dos solos, o amônio é geralmente convertido a nitrato pelo processo de nitrificação realizado pelas
bactérias nitrificantes. Por essa razão, o nitrato é a principal forma inorgânica de nitrogênio absorvido e
metabolizado pela maioria das plantas terrícolas. Os solos ricos em fonte amoniacal são aqueles que apresentam
pH ácido ou baixa disponibilidade de oxigênio como é o caso dos solos muito compactados ou alagados. Além
disso, existem plantas que exsudam inibidores do processo de nitrificação através de suas raízes, contribuindo
para que os solos se mantenham enriquecidos por amônio.
As fontes nitrogenadas como amônio, nitrato e alguns aminoácidos não são apenas considerados
importantes fontes nitrogenadas às plantas, mas também podem atuar como moléculas sinalizadoras para
diversos processos fisiológicos das plantas. O nitrato, por exemplo, estimula a transcrição de muitos genes
relacionados à absorção e assimilação do nitrogênio como aqueles que codificam os transportadores de nitrato,
diversas enzimas do metabolismo do nitrogênio e do metabolismo do carbono, proteínas envolvidas com a
síntese de ácidos orgânicos, fotorrespiração e/ou fotossíntese.

Absorção das fontes nitrogenadas


Há muitas similaridades entre os processos de absorção do nitrato e do amônio pelas raízes das plantas.
Quando esses íons são encontrados em baixas concentrações nos solos, geralmente, eles são absorvidos por
processo ativo (através de transportadores de alta afinidade) pelas células radiculares. Existem dois tipos de
sistemas de transportadores de alta afinidade (HATS, high-affinity transport systems) para o nitrato, sendo que
um deles é constitutivo, ou seja, está sempre presente nas membranas celulares independente da presença ou
ausência do nitrato no solo, e o outro é induzido pela presença desse íon. Já no caso do amônio, conhece-se

48
apenas um HATS. Todos os HATS são influenciados positivamente pela presença das fontes nitrogenadas no
solo e pelo status do conteúdo interno de nitrogênio total dos tecidos das plantas. Por exemplo, os genes que
codificam os transportadores de nitrato ou amônio são induzidos pela presença do nitrato ou amônio nos solos,
respectivamente, enquanto que podem ser inibidos quando a concentração endógena do aminoácido glutamina
torna-se elevada.
Nos casos em que as concentrações de nitrato ou amônio são muito elevadas nos solos, outros tipos de
transportadores passam a atuar na absorção desses íons. Eles pertencem à categoria dos transportadores de baixa
afinidade (LATS, low affinity transporter systems). A regulação e a caracterização desses transportadores são
pouco conhecidas, uma vez que as tecnologias existentes atualmente são consideradas pouco sensíveis para a
realização de estudos mais aprofundados. Além disso, somente para o caso do amônio, o transporte também pode
ocorrer passivamente pelas membranas quando esse íon encontra-se em altas concentrações no substrato.

Redução do nitrato e do nitrito


Após o nitrato ser absorvido pelas raízes, ele é reduzido a amônio por meio de duas reações químicas. A
primeira delas é catalisada no citoplasma pela enzima redutase do nitrato (NR) tendo como produto uma
molécula de nitrito. Esse último é transportado para o interior dos cloroplastos (em tecidos fotossintetizantes) ou
plastídios (em tecidos não fotossintetizantes) onde é reduzido a amônio através da ação da enzima redutase do
nitrito (NiR). A reação completa da redução do nitrato a amônio requer oito elétrons no total, sendo que
compostos como ferredoxina (Fd), NADH ou NADPH atuam como moléculas doadoras de elétrons nesse
processo (figura 1).

Figura 1: Reações químicas de redução do nitrato a amônio, catalisadas pelas enzimas redutase do
nitrato (NR) e redutase do nitrito (NiR)

Assimilação do amônio
O amônio absorvido pelas raízes das plantas ou produzido pela redução do nitrato é primariamente
assimilado ao aminoácido glutamina pela ação da enzima sintetase da glutamina (GS). Durante o processo de
assimilação do amônio, a GS geralmente atua conjuntamente com outra enzima denominada de sintase do
glutamato (GOGAT). A GS realiza a transferência do íon amônio para uma molécula de glutamato, gerando o
aminoácido glutamina, processo que requer a hidrólise de uma molécula de ATP (trifosfato de adenosina) e
envolve um cátion divalente, como o Mg+2, Mn+2 ou Co+2 como co-fator. A GOGAT, por sua vez, realiza uma
reação de redução em que o grupo amino da glutamina é transferido para a posição alfa ceto da molécula de 2-

49
oxoglutarato, resultando na formação de duas moléculas de glutamato (figura 2). Acredita-se que uma parte das
moléculas produzidas é utilizada para repor o substrato de reação da GS durante a assimilação do amônio,
enquanto que outra parte é usada para manter a integridade de outros processos metabólicos importantes para o
desenvolvimento e crescimento da planta. O trabalho em conjunto dessas duas enzimas é conhecido como ciclo
GS/GOGAT sendo esta considerada por muitos pesquisadores como a principal rota bioquímica de assimilação
do amônio.

A
)

B
)

Figura 2: Reações da assimilação do amônio pelo ciclo GS/GOGAT. (A) Reação catalisada pela
enzima sintetase da glutamina (GS). (B) Reação química realizada pela enzima sintase do glutamato (GOGAT).

As isoenzimas da GS e GOGAT estão localizadas em dois compartimentos celulares distintos. Nas


folhas jovens e maduras, geralmente são encontradas as formas existentes no interior dos cloroplastos ou
plastídios conhecidas como sintetase da glutamina do tipo 2 (GS2) e sintase do glutamato dependente de
ferredoxina como poder redutor (Fd-GOGAT). Diferentemente da GS2 e Fd-GOGAT, a sintetase da glutamina
do tipo 1 (GS1) e a sintase do glutamato dependente de NADH como poder redutor (NADH-GOGAT) estão
localizadas no citoplasma sendo pouco expressas nas folhas jovens e abundantemente encontradas nos tecidos
vasculares ou folhas maduras e senescentes. Em geral, a GS tem múltiplas isoformas de GS1 sendo esta
codificada por 3 a 5 genes em diversas espécies de plantas, enquanto que a GS2 é codificada por somente um
único gene. Análises filogenéticas demonstraram que os genes que expressam a GS citossólica pertencem a três
grupos distintos, enquanto que o gene responsável em codificar a GS cloroplastídica ou plastídica pertence
apenas a um grupo filogenético nas plantas superiores.
Em geral, a GS1/NADH-GOGAT são enzimas que desempenham um importante papel em gerar
aminoácidos necessários para o crescimento e desenvolvimento adequado das plantas e também para assimilar o
amônio gerado pelo catabolismo de proteínas solúveis, ácidos nucleicos e clorofila durante a senescência. Já
GS2/Fd-GOGAT são enzimas importantes principalmente para assimilar o amônio gerado durante a
fotorrespiração.
A compreensão da regulação das diferentes isoformas de GS e GOGAT é bastante complexa.
Dependendo do tecido, da célula ou do compartimento celular em que essas enzimas se localizam ou do estágio

50
de desenvolvimento do órgão vegetal, as atividades e as funções fisiológicas dessas enzimas são diferentes. É
importante considerar essa complexidade ao se estudar a GS e a GOGAT, pois as suas funções em conjunto com
as de outras enzimas permitem à planta balancear o metabolismo do carbono e nitrogênio em diferentes órgãos e
regiões celulares, nas diferentes horas do dia e sob diversas condições ambientais.
A assimilação do amônio pode ocorrer também através da ação de outra enzima do metabolismo do
nitrogênio denominada desidrogenase do glutamato (GDH). A GDH é uma enzima capaz de catalisar uma reação
reversível, ou seja, essa enzima pode atuar tanto no sentido de assimilar o amônio através de uma reação com
uma molécula de 2-oxoglutarato para se produzir uma molécula de glutamato (sentido aminante da reação)
quanto no sentido inverso dessa mesma reação, ou seja, a GDH desamina a molécula de glutamato para gerar o
2-oxoglutarato e o amônio (sentido desaminante da reação) (figura 3). O sentido da reação que a GDH adota nos
tecidos vegetais varia de acordo com as necessidades celulares com relação aos conteúdos de glutamato e
esqueletos carbônicos. Nas plantas, conhecem-se duas isoformas de GDH: uma mitocondrial, dependente de
NADH, e outra cloroplastídica, dependente de NADPH.

Figura 3: Reação reversível catalisada pela enzima desidrogenase do glutamato (GDH).

Diferentemente do nitrato, que pode ser acumulado em grandes concentrações nos vacúolos das células,
o amônio é considerado um composto extremamente tóxico para os tecidos vegetais quando se encontra em
elevadas concentrações nos tecidos. Por essa razão, muitas plantas assimilam o amônio rapidamente em
aminoácidos após ser absorvido pelas raízes para se evitar possíveis problemas de toxicidade. Quando as
concentrações endógenas de amônio tornam-se muito elevadas nos tecidos vegetais, alguns estudos sugerem que
a GDH pode atuar no sentido aminante da reação como uma estratégia para destoxificar os tecidos vegetais
enriquecidos por elevadas concentrações de amônio endógeno. Entretanto, a maioria dos pesquisadores acredita
que a GDH atua preferencialmente no sentido desaminante da reação e raramente no sentido de assimilação do
amônio, uma vez que a afinidade química que a GDH tem em assimilar o amônio é inferior ao da enzima GS.
Em outras palavras, é necessário que as concentrações de amônio endógeno sejam muito elevadas para que a
GDH possa atuar no sentido aminante. A GDH pode ser considerada uma importante enzima que fornece
compostos carbônicos (2-oxoglutarato) importantes para a manutenção do funcionamento do ciclo de Krebs ou
também chamado de ciclo do ácido tricarboxilico (TCA). Devido a esse duplo papel que a GDH pode adotar nos
tecidos, a reação bioquímica catalisada pela GDH pode ser considerada um importante ponto de conexão entre os
metabolismos do carbono e do nitrogênio em plantas.

51
As recentes descobertas sobre as relações entre os metabolismos do carbono e do nitrogênio em
arroz (Oriza sativa)

Introdução
O crescimento e o desenvolvimento das plantas estão completamente relacionados à disponibilidade dos
recursos nutricionais no ambiente e às diferentes estratégias que as plantas possuem para conseguir absorvê-los e
metabolizá-los. Dentre os nutrientes, o carbono e o nitrogênio são os elementos mais estudados pelos
pesquisadores do mundo devido à enorme importância que tais fontes possuem para o desenvolvimento das
plantas e para o aumento da produtividade. O corpo vegetativo de uma planta é formado por diferentes órgãos
como folhas, caule e raízes, sendo que cada um deles desempenha diferentes funções nos processos de captação
e assimilação do carbono e nitrogênio. O metabolismo do carbono e nitrogênio são duas redes metabólicas
fortemente interligadas. Embora haja muitos estudos que se dedicaram a analisar e compreender ambas as vias
metabólicas nas plantas, muitas questões a respeito de como elas se relacionam e/ou como são reguladas ainda
são pouco compreendidas. A dificuldade de se estudar esse tema deve-se a alguns fatores: à existência de uma
complexa comunicação fisiológica e bioquímica entre os diferentes órgãos vegetais; às diversas regulações das
rotas gênicas e metabólicas; à ampla rede de relações bioquímicas entre o metabolismo do carbono e nitrogênio
ou à influência que os fatores ambientais possuem sobre a fisiologia das plantas. Atualmente, novas tecnologias
1
das áreas de metabolômica e da manipulação gênica têm auxiliado consideravelmente os pesquisadores a
aprofundarem os conhecimentos e avançarem nas pesquisas desse tema. Para se ilustrar como as relações entre
os metabolismos do nitrogênio e do carbono são estudados nas plantas, será apresentada a seguir as principais
descobertas de uma pequena coletânea de artigos científicos recentemente publicados que utilizaram o arroz
como modelo de estudo.

 Informações complementares
1- metabolômica: área do estudo científico que tem como principal objetivo quantificar e analisar os
conjuntos de compostos metabólicos produzidos ou modificados por um organismo.

 Apêndice
A nomenclatura utilizada para citar genes e proteínas descritos nos tópicos a seguir foi similar à
nomenclatura adotada pelos artigos originais.

O metabolismo do nitrogênio em arroz


O arroz (Oriza sativa) é considerado um alimento básico e de primeira necessidade para população
mundial. Ele é extensivamente produzido e cultivado em diversos países, ocupando uma média de 125 milhões
de hectares das terras cultiváveis do planeta. Devido a essa grande importância, o arroz é uma planta comumente
utilizada como modelo de estudo em diversas pesquisas envolvendo temas relacionados à fotossíntese,
metabolismo do nitrogênio e do carbono. Tais estudos têm como principal objetivo expandir os conhecimentos a
respeito da fisiologia do arroz os quais poderão ser utilizados no desenvolvimento de novas tecnologias que
aumentem a sua produtividade.
52
O crescimento e a produtividade de uma planta são totalmente influenciados pela disponibilidade de
fontes nitrogenadas no ambiente. O amônio é a principal forma nitrogenada inorgânica disponível nos campos
alagados ou pantanosos onde o arroz é tradicionalmente cultivado. Diferentemente da maioria das plantas
terrícolas que utilizam o nitrato como principal fonte nitrogenada, o arroz tem um melhor crescimento e
desenvolvimento quando cultivado em meios contendo o amônio.
O amônio absorvido pelas raízes do arroz ou produzido pela redução do nitrato é primariamente
assimilado a aminoácidos como glutamina ou glutamato pela ação das enzimas do ciclo GS/GOGAT. Em arroz,
há três genes que codificam a GS1 citossólica (OsGS1;1, OsGS1;2, OsGS1;3), um gene relacionado a GS2
cloroplastídica (OsGS2), dois genes que expressam a enzima NADH-GOGAT citossólica (OsNADH-GOGAT1,
OsNADH-GOGAT2) e um gene que codifica a Fd-GOGAT nos cloroplastos e plastídeos (OsFd-GOGAT).
2
Estudos de citolocalização têm demonstrado que esses genes são expressos em locais específicos nos
diferentes tecidos e órgãos do arroz. Os RNA mensageiros (RNAm) transcritos dos genes OsGS1;1, OsNADH-
GOGAT2, OsGS2 e OsFd-GOGAT são encontrados abundantemente nas folhas maduras. Embora tenham sido
expressas no mesmo órgão vegetal (folhas), os transcritos desses genes foram localizados em tipos celulares ou
organelas específicas. As formas citossólicas (OsGS1;1, OsNADH-GOGAT2) foram encontradas
especificamente nas células companheiras do floema e parenquimáticas adjacentes, enquanto que as outras duas
últimas (OsGS2, OsFd-GOGAT) foram expressas apenas no interior dos cloroplastos. Os genes OsGS1;2 e
OsNADH-GOGAT1 são expressos principalmente nas células epidérmicas e exodérmicas das raízes e o gene
OsGS1;3 foi somente expresso nas espiguetas (uma região da inflorescência) do arroz (figura 4). A localização
desses genes em regiões específicas da planta sugere que provavelmente a sua expressão está relacionada a
funções distintas durante o processo de absorção e assimilação do amônio.

Figura 4: Localização tecidual das isoformas de alguns genes da assimilação do amônio em arroz.
53
 Informações complementares
2- citolocalização: estudos científicos que visam localizar determinados compostos no interior das células e
tecidos de um organismo. Existem diversos tipos de protocolos e metodologias de citolocalização descritas na
literatura como, por exemplo, as técnicas de imunorreação. Essa metodologia consiste basicamente em ligar a
molécula de interesse (antígeno) a outro composto (anticorpo) através de uma reação antígeno-anticorpo. O
anticorpo é uma molécula que atua como um “marcador”, já que emite cor ou fluorescência. Posterior a
imunorreação, os tecidos são cortados por meio de técnicas anatômicas e analisados em microscópio.

A assimilação primária do amônio pelas raízes do arroz


Alguns trabalhos têm demonstrado que em cevada, as isoformas das enzimas GS2 e Fd-GOGAT
presente nos cloroplastos são responsáveis principalmente pela assimilação do amônio liberado durante a
fotorespiração. Entretanto, os mutantes knockout 3 que possuem os genes codificadores da GS2 ou Fd-GOGAT
silenciados apresentaram um crescimento e desenvolvimento normal quando comparado com o tipo selvagem
(planta que não teve modificações genéticas). Esse tipo de resultado sugere que outras isoformas de GS e
GOGAT, como por exemplo, as formas citossólicas, podem ser importantes para o crescimento e
desenvolvimento da planta, uma vez que a ação dessas enzimas pode estar compensando a falta das atividades de
GS2 e Fd-GOGAT nos tecidos dos mutantes knockout de cevada.
As funções dos diferentes genes que codificam as formas citossólicas de GS1 e NADH-GOGAT eram
pouco conhecidas nas plantas até o momento em que se publicaram as descobertas mais recentes realizadas em
arroz. Atualmente, o arroz é o único exemplar das plantas terrícolas em que se caracterizaram os mutantes
knockout dos genes que codificam as enzimas GS1 e NADH-GOGAT e se analisaram as possíveis funções que
esses genes desempenham durante os processos de absorção e assimilação do amônio.
A GS1;2 e NADH-GOGAT1 parecem estar preferencialmente envolvidas com a assimilação primária
do amônio exógeno absorvido pelas raízes do arroz. O fenótipo do mutante knockout do gene OsGS1;2
cultivados em meio contendo amônio como única fonte nitrogenada mostraram características similares às das
plantas de arroz com deficiência de nitrogênio, como por exemplo, a diminuição do número de colmos ou
perfilhos ativos na planta e a redução da quantidade de inflorescências geradas durante o período reprodutivo.
Além disso, esses mutantes também apresentaram um grande acúmulo de amônio endógeno e uma drástica
diminuição da concentração de aminoácidos como a glutamina, glutamato, asparagina e aspartato tanto nos
tecidos das raízes quanto no interior dos vasos do xilema quando comparado com as plantas selvagens.
Características similares também foram observadas para os mutantes knockout do gene OsNADH-GOGAT1. Os
resultados desses parâmetros fisiológicos e a localização abundante dos transcritos dos genes OsGS1;2 e
OsNADH-GOGAT1 nas raízes do arroz demonstram que existe uma forte correlação entre as enzimas GS1;2 e
NADH-GOGAT1 com a assimilação primária do amônio exógeno absorvido pelo sistema radicular.
A expressão de outros genes envolvidos na assimilação do amônio como OsGS1;1, OsGS1;3, OsGS2,
OsNADH-GOGAT2 e OsFd-GOGAT também foi analisada nos mutantes knockout dos genes OsGS1;2 ou
OsNADH-GOGAT1. Verificou-se que a expressão de todos esses genes foi similar ao do tipo selvagem. Esses
resultados sugerem que nenhuma outra enzima do metabolismo do nitrogênio foi capaz de compensar a falta das

54
atividades das enzimas GS1;2 e NADH-GOGAT1 durante o processo de assimilação do amônio nas raízes das
plantas mutantes.
 Informações complementares
3- mutantes knockout: organismos geneticamente modificados que possuem um ou mais genes não funcionais
ou silenciados. Através da caracterização do fenótipo desses mutantes, pesquisadores conseguem inferir as
possíveis funções ou relações que o gene silenciado tem na fisiologia do organismo.

Os papéis dos genes OsGS1;1 e OsNADH-GOGAT2 na assimilação do amônio e na remobilização


e reutilização do nitrogênio durante a senescência das folhas maduras
Outros estudos também têm investigado as funções dos genes OsGS1;1 e OsNADH-GOGAT2 na
assimilação do amônio presente nas folhas do arroz. Quando os mutantes knockout do gene OsGS1;1 foram
cultivados em meio contendo amônio como fonte única de nitrogênio disponível, verificou-se uma significativa
redução do crescimento da parte aérea, sendo que este valor foi cerca de 60% menor do que aquele observado no
tipo selvagem. Além disso, também se constatou uma severa redução da produtividade e do tamanho dos grãos
durante a fase reprodutiva do arroz. De maneira interessante, o conteúdo total de carbono das folhas do arroz
mutante foi bastante similar ao valor quantificado para as plantas do tipo selvagem, porém a quantificação do
conteúdo de nitrogênio total foi drasticamente menor nos mutantes. Esse último resultado mostrou-se bastante
consistente com a grande redução da biomassa total da parte aérea do arroz mutante. A caracterização do
fenótipo do mutante knockout do gene OsGS1;1 demonstrou que a atividade da enzima GS1;1 é essencial para se
manter a integridade do crescimento e desenvolvimento normal da parte aérea da planta.
Durante o processo natural de senescência das folhas do arroz, os conteúdos totais de clorofila e de
proteínas solúveis diminuem gradativamente. A maior parte do nitrogênio presente nas folhas senescentes do
arroz é remobilizada nas formas de asparagina ou glutamina. Esses dois aminoácidos são transportados dos
órgãos senescentes para os órgãos dreno, como a inflorescência ou as folhas mais novas, através do floema. No
arroz, cerca de 80% do nitrogênio presente nas panículas (inflorescência) são provenientes do processo de
remobilização. Recentemente, um estudo tem demonstrado que tanto os trancritos do gene OsGS1;1 quanto a
enzima GS1 foram abundantemente encontrados nas células companheiras do floema e do parênquima adjacente
das folhas maduras do arroz. Esses resultados de citolocalização e a caracterização do fenótipo do mutante
knockout OsGS1;1 sugerem que as principais funções da enzima GS1;1 são a assimilação do amônio proveniente
do catabolismo de proteínas, ácido nucleico e demais compostos nitrogenados durante a senescência das folhas e
a produção de glutamina como aminoácido principal usado na remobilização do nitrogênio das folhas
senescentes para os órgãos dreno através do floema (figura 5).
De maneira interessante, os resultados de citolocalização da proteína NADH-GOGAT2 e de
caracterização fenotípica dos mutantes knockout do gene OsNADH-GOGAT2 foram similares aos resultados de
localização da proteína GS1;1 e dos mutantes knockout do gene OsGS1;1, respectivamente, sugerindo que a
NADH-GOGAT2 provavelmente é a isoforma que atua conjuntamente com a enzima GS1;1 no processo de
assimilação do amônio em folhas maduras e senescentes.

55
Figura 5: Processo de reutilização e remobilização do nitrogênio durante a senescência das folhas do
arroz. As enzimas OsGS1;1 e OsNADH-GOGAT2 são expressas nas células companheiras do floema e do
parênquima adjacente. A ação combinada dessas duas enzimas tem como principais funções a assimilação do
amônio proveniente do catabolismo e a produção de aminoácidos como glutamina e asparagina que são
remobilizados das folhas senescentes para os órgãos dreno (inflorescência ou folhas jovens) através do floema.
OsGS1;1: sintetase da glutamina do tipo 1;1; OsNADH-GOGAT2: sintase do glutamato dependente de NADH
do tipo 2; Gln: glutamina; Glu: glutamato; Asn: asparagina; KG: 2-oxoglutarato.

Os transcritos provenientes dos genes OsGS1;2, OsGS1;3, OsGS2, OsNADH-GOGAT1 e OsFd-GOGAT


também foram quantificados no mutante knockout OsGS1;1. De forma interessante, verificou-se que a
abundância dos transcritos desses genes foi similar àquela detectada no tipo selvagem, indicando que a mutação
do gene OsGS1;1 não tem influência na transcrição dos demais genes que codificam as outras isoformas das
enzimas do metabolismo do nitrogênio em arroz. Além disso, apesar desses transcritos dos genes que codificam
para as enzimas GS1;2, GS2, NAHD-GOGAT1 e Fd-GOGAT terem sido detectados nas folhas maduras dos
mutantes knockout do gene OsGS1;1 ou do gene OsNADH-GOGAT2 cultivados em meio contendo amônio
como única fonte de nitrogênio, os resultados de caracterização fenotípica descritos anteriormente demonstraram
que nenhuma dessas enzimas foram capazes de compensar a falta da atividade da GS1;1 e da NADH-GOGAT2
para permitir um crescimento e desenvolvimento normal da parte aérea do arroz.

56
O papel crucial que a GS1;1 exerce no balanço metabólico do C/N em arroz
Os metabolismos do carbono e nitrogênio normalmente se mantêm balanceados no interior dos tecidos
das plantas. As enzimas GS/GOGAT atuam em etapas importantes do metabolismo do nitrogênio. A ação
conjunta dessas duas enzimas forma uma rota bioquímica primordial para a assimilação do amônio em
compostos orgânicos nas plantas. A GS é considerada uma enzima chave para assimilar o amônio em um
composto orgânico (glutamina), enquanto que a GOGAT é uma enzima que atua em um importante ponto de
conexão existente entre os metabolismos do nitrogênio (glutamina) e do carbono (2-oxoglutarato), uma vez que
catalisa a reação entre a glutamina e o 2-oxoglutarato para produzir duas moléculas de glutamato. Quando um
único gene entre os vários tipos que codificam as enzimas GS1 e NADH-GOGAT foi silenciado no arroz, os
mutantes knockout dos genes OsGS1;2, OsNADH-GOGAT1 ou OsNADH-GOGAT2 mostraram ter ainda uma
certa capacidade de produzir sementes, apesar de ter se verificado uma significativa redução do tamanho da
panícula e do número de espiguetas durante o período reprodutivo. Por outro lado, a mutação knockout do gene
OsGS1;1 foi letal para a maioria das plantas. Os poucos mutantes de arroz que sobreviveram praticamente não
geraram sementes. Esse fenótipo deletério demonstrou que o mutante knockout do gene OsGS1;1 pode ser um
excelente modelo para se investigar como a GS1;1 influencia no balanço metabólico C/N do arroz.
Traçar o perfil metabólico de uma planta é considerado uma das estratégias e ferramentas mais
poderosas para se compreender as relações globais existentes entre os metabolismos do carbono e nitrogênio em
plantas. Devido a grande complexidade de compreensão do funcionamento das diversas rotas bioquímicas e de
como tais rotas se inter-relacionam ou são reguladas, geralmente é muito difícil descobrir quais são as alterações
metabólicas que foram desencadeadas no interior dos tecidos vegetais por conta de um estimulo ambiental ou
pelo silenciamento de um gene específico. Quando se realiza a quantificação simultânea de vários compostos
endógenos e, posteriormente, uma análise de correlação entre as concentrações dos diversos metabólitos
encontrados, é possível detectar o grau de influência e visualizar as possíveis relações existentes entre, por
exemplo, o efeito de um gene silenciado com as diversas rotas bioquímicas do metabolismo primário e
secundário da planta. Essas correlações permitem traçar um panorama global dos diversos mecanismos e
processos bioquímicos existentes em um determinado estado fisiológico da planta. Essa nova tecnologia tem
sido muito utilizada nas investigações que visam compreender melhor as redes metabólicas de mutantes
knockout ou de plantas transgênicas.
Recentemente, um estudo tem traçado e caracterizado o perfil metabólico do mutante knockout do gene
OsGS1;1 cultivado em meio contendo amônio como fonte única de nitrogênio disponível. O silenciamento do
gene OsGS1;1 alterou significativamente o perfil metabólico quando comparado com o do tipo selvagem,
evidenciando um nítido desbalanço entre os metabólitos provenientes do metabolismo do carbono com os do
metabolismo do nitrogênio. Verificou-se um grande acúmulo de açúcares e fosfato de açúcares, uma diminuição
do conteúdo endógeno de alguns aminoácidos como glutamina, glutamato e outros pertencentes à família do
aspartato e uma grande redução da concentração dos compostos intermediários pertencentes ao ciclo do ácido
tricarboxílico (TCA) nas folhas dos mutantes. Esses resultados demonstraram que a GS1;1 pode desempenhar
um papel crucial para a manutenção do balanço metabólico de compostos provenientes do metabolismo do
carbono e do nitrogênio durante o processo de absorção do amônio fornecido através da adubação radicular no
arroz. A regulação e as reações de sinalização existente entre o gene OsGS1;1 e os demais genes envolvidos com
os metabolismos do carbono e do nitrogênio ainda são desconhecidos em arroz.

57
A assimilação do amônio catalisada pela GS1;1 influencia o transporte de nitrogênio entre a raiz
e a parte aérea no arroz
Os produtos gerados pela assimilação do amônio como a glutamina ou o glutamato também atuam
como aminoácidos sinalizadores que indicam o status do conteúdo de nitrogênio total no interior dos tecidos
vegetais. O status de nitrogênio de uma planta pode ser averiguado através da taxa e da concentração que os
compostos nitrogenados estão sendo translocados das raízes para as folhas. Através da técnica de monitoramento
em tempo real do transporte de nitrogênio marcado ( 13N) (positron-emiting tracer imaging system in real time),
13
um estudo tem verificado que o N absorvido pelas raízes do arroz, adubados com uma solução nutritiva
contendo amônio, foi rapidamente transportado até a base das folhas em poucos minutos. Entretanto, esse
transporte de 13N foi completamente inibido quando se aplicou às raízes um inibidor da enzima GS (sulfoximina
metionina), sugerindo que a maior parte do amônio absorvido pelas raízes precisa ser primeiramente assimilado
a aminoácidos, provavelmente, pela ação das enzimas GS1;2/NADH-GOGAT1 para, posteriormente, ser
transportado para a parte aérea na forma de glutamina ou aspartato. Esses dois aminoácidos são considerados as
principais formas moleculares mais comumente encontradas nos vasos do xilema de arroz.
Em mutantes knockout do gene OsGS1;1 foi verificado uma diminuição do conteúdo total de
nitrogênio e uma redução significativa da concentração endógena da glutamina e asparagina nas folhas, apesar
desse mutante ter sido cultivado em meio contendo amônio e a expressão da enzima GS1;2 nas raízes ser similar
àquela observada nas plantas selvagens. Esses resultados sugerem que embora a enzima GS1;2 esteja ativa para
assimilar o amônio absorvido em aminoácidos, os compostos nitrogenados orgânicos produzidos nas raízes não
foram transportados para a parte aérea da planta, indicando que a mutação do gene OsGS1;1 influenciou
negativamente, de alguma maneira, o processo de transporte dos aminoácidos como glutamina e asparagina entre
o sistema radicular e a parte aérea do mutante.

A influência do silenciamento do gene OsGS1;1 no metabolismo secundário


O perfil metabólico traçado para o mutante knockout do gene OsGS1;1 também revelou alterações das
concentrações endógenas de alguns compostos pertencentes às redes bioquímicas do metabolismo secundário,
relacionados aos sistemas de proteção da planta contra as adversidades ambientais ou ao desbalanço metabólico
de alguns compostos no interior dos tecidos vegetais. No tratamento em que as plantas mutantes e selvagens
foram cultivadas em meio contendo amônio, verificou-se que as concentrações de alguns metabólitos
secundários quantificados nas raízes do mutante foram muito superiores àquelas medidas no sistema radicular
das plantas selvagens. Dentre esses metabólitos, destacou-se o grande aumento da concentração de 1,3-
diaminopropano nas raízes do mutante. A função desse composto está completamente relacionada com a
tolerância da planta em resposta aos estímulos de estresse por razão de algum desbalanço metabólico existente
nos tecidos vegetais. No caso do mutante knockout do gene OsGS1;1, também foi observado um acúmulo de
amônio endógeno nos tecidos das raízes. Talvez, o grande acúmulo de compostos metabólicos secundários como
a 1,3-diaminopropano esteja possivelmente relacionado com a destoxificação do amônio acumulado nas raízes
do mutante.

58
A isoforma da PEPC expressa nos cloroplastos das folhas do arroz
A fosfoenolpiruvato carboxilase (PEPC) é uma enzima conhecida por catalisar a ligação de um CO 2 em
uma molécula de fosfoenolpiruvato (PEP). Esse processo utiliza o íon HCO 3- como substrato, gerando
oxaloacetato (OAA). O OAA produzido dessa reação pode ser utilizado para diversos fins, como a reposição dos
compostos intermediários do ciclo dos ácidos tricarboxílicos (TCA) ou ser convertido a malato, uma molécula
usada em muitas funções celulares. No entanto, um estudo recente em arroz demonstrou que certas isoformas
dessa enzima também possuem uma grande importância durante o processo de assimilação do nitrogênio.
O arroz possui 6 genes que codificam a enzima PEPC (Osppc) sendo que cada um deles é expresso em
órgãos bastante específicos. Cinco desses genes (Osppc1, 2a, 2b, 3 e 4) codificam a PEPC tipicamente
encontrada em plantas, enquanto que o sexto gene (Osppc-b) codifica uma PEPC geralmente encontrada em
bactérias. Em geral, todos os genes Osppc típicos de plantas possuem uma estrutura éxon-intron muito similar
entre si, sendo constituídos basicamente de 10 éxons. Já o gene Osppc de bactérias apresenta uma estrutura
bastante distinta, uma vez que pertence a uma linhagem evolutiva diferente. Segundo a literatura, as proteínas
PEPCs são classificadas em três grupos: tipo C3, tipo C4 e típica de raiz. Os estudos filogenéticos das PEPCs de
plantas têm demonstrado que as enzimas Osppc2a, 2b e 3 pertencem as PEPCs do grupo C3 e a Osppc1
geralmente é encontrada nas raízes das plantas. Já a proteína Osppc4 encontrada em arroz não pertence a
nenhum dos grupos até o momento conhecidos. Verificou-se que a Osppc4 possui uma sequência de
aminoácidos muito similar às das demais Osppc do arroz, porém essa proteína tem uma característica que lhe é
bastante particular: uma extensão da cauda amino terminal constituída de 40 resíduos de aminoácidos.
Para se verificar se a extensão da cauda amino terminal da enzima Osppc4 atua como um peptídeo de
4
trânsito , um experimento teve como objetivo expressar uma proteína artificial formada pela fusão entre a
porção amino terminal da Osppc4 com uma proteína fluorescente verde (GFP) nas células epidérmicas de
Commelina diffusa (trapoeraba ou dayflower). A fluorescência da GFP sobrepôs completamente a fluorescência
da clorofila das células guardas, indicando que a extensão amino terminal da proteína Osppc4 realmente atua
como um peptídeo de trânsito que tem como alvo principal o cloroplasto. Através da técnica de immunoblot 5,
examinou-se a existência da proteína PEPC em cloroplastos isolados. Em um preparado contendo as proteínas
solúveis totais das folhas do arroz, foram detectados quatro bandas imunoreativas. De maneira interessante,
somente uma dessas quatro bandas estava expressa em altas concentrações na fração do estroma dos
cloroplastos. Esses resultados indicaram que o arroz tem uma proteína PEPC que atua principalmente dentro dos
cloroplastos.
Além disso, também se verificou que a enzima Osppc4 era bastante ativa no interior dos cloroplastos.
Os valores de Vmax (velocidade máxima da reação enzimática) em pH 7,3 e 8,0 foram similares com os
medidos para a enzima Osppc2a, que é considerada a principal isoenzima citossólica encontrada nas folhas do
arroz.
Todos esses resultados demonstraram que o gene Osppc4 codifica uma proteína PEPC funcional que
atua no interior dos cloroplastos das folhas do arroz. Além disso, a expressão do gene Osppc4 também foi
detectada nas raízes e folhas estioladas, indicando que outros plastídios também podem conter a enzima Osppc4
ativa.

59
A enzima Osppc4 foi principalmente expressa nas folhas do arroz, mais especificamente nas células do
parênquima clorofiliano, e não foi localizada nas células da epiderme, cilindro vascular ou nas células guardas
das folhas. Nos mutantes knockout do gene Osppc4, verificou-se que a atividade total da PEPC nas folhas foi
cerca de dois terços do valor detectado para a planta selvagem, indicando que, provavelmente, a abundância das
proteínas Osppc4 correspondeu cerca de um terço do total das proteínas PEPC presente nas folhas. No caso das
proteínas Osppc2a, foi verificado que aproximadamente metade do total das proteínas PEPC das folhas do arroz
correspondiam a essa isoforma citossólica.

 Informações complementares
4- peptídeo de trânsito: proteínas que possuem uma extensão da cauda amino terminal. Essa sequencia terminal
de aminoácidos permite que uma determinada proteína seja transportada do seu local de síntese para uma
organela específica como os cloroplastos, mitocôndrias, entre outras.
5- técnica de immunoblot: método de biologia molecular utilizado para se quantificar e detectar as proteínas de
um extrato vegetal. Essa técnica consiste da utilização de eletroforese em gel para se separar as proteínas
desnaturadas por massa. Posteriormente, as proteínas são transferidas do gel para uma membrana de
nitrocelulose através da aplicação de uma corrente elétrica. Por fim, as proteínas presentes nessa membrana são
submetidas a uma reação com uma enzima específica que permite a revelação colorimétrica das proteínas de
interesse. Dessa forma, é possível analisar a quantidade de proteínas existentes de um extrato vegetal e comparar
os níveis entre diversos grupos.

Os efeitos do silenciamento do gene Osppc4 no crescimento do arroz


Um estudo recente tem caracterizado o fenótipo do mutante knockout do gene Osppc4 cultivado em
amônio como única fonte de nitrogênio disponível. Os mutantes apresentaram o fenótipo de nanismo,
caracterizado principalmente pela drástica redução da lâmina foliar. Após 25 dias de cultivo em meio com
amônio, a massa seca total da planta mutante foi reduzida em aproximadamente 19% quando comparada ao
selvagem. Embora a área foliar tenha sido extremamente diminuída, as propriedades fotossintéticas não foram
afetadas pela mutação. Características ou parâmetros fotossintéticos como a taxa de assimilação do CO 2, os
conteúdos endógenos de clorofila e proteínas solúveis totais ou a dependência da concentração intercelular de
CO2 e da intensidade luminosa tanto sob as condições ambientais normais (21% de O2) quanto em baixa
disponibilidade de O2 (2%) foram similares nas folhas dos mutantes e nas das plantas selvagens, indicando que o
silenciamento do gene Osppc4 não teve influência nos processos de assimilação do gás carbônico e nem na
fotorrespiração.
Como o nitrogênio é um elemento bastante importante para manter o funcionamento de toda rede
bioquímica da fotossíntese nas folhas, se hipotetizou que, talvez, a mutação knockout do gene Osppc4 tenha
limitado o crescimento da lâmina foliar por reprimir de alguma maneira a absorção e/ou a assimilação do
nitrogênio. Para verificar se a mutação knockout do gene Osppc4 influenciava negativamente a absorção do
amônio, quantificou-se a concentração desse íon no interior dos vasos do xilema do arroz mutante cultivados em
meio contendo amônio como única fonte nitrogenada. Não se verificaram diferenças significativas entre os
valores medidos no mutante e no selvagem e, portanto, concluiu-se que a absorção do amônio não foi afetada

60
pela mutação do gene Osppc4. O fenótipo de nanismo, provavelmente, ocorreu devido a um efeito defectivo que
a mutação possa ter acarretado durante a assimilação do amônio.

O papel crucial do gene Osppc4 na assimilação do amônio nas folhas do arroz


O perfil metabólico do mutante knockout do gene Osppc4 foi caracterizado e analisado para se
investigar a influência que essa mutação tem sobre as rotas metabólicas do carbono e do nitrogênio no arroz. Em
geral, o silenciamento do gene Osppc4 acarretou em três principais variações no perfil metabólico dessa planta:
(1) aumento da concentração dos metabólitos secundários relacionados à via do chiquimato, (2) diminuição da
concentração dos ácidos orgânicos e (3) elevadas concentrações de glutamina e baixas de glutamato.
A concentração dos metabólitos secundários relacionados à via do chiquimato aumentou cerca de 60%
nos mutantes knockout do gene Osppc4, indicando que, provavelmente, houve um aumento na concentração do
PEP, o principal substrato da enzima PEPC, nos tecidos do arroz, uma vez que esse composto é considerado a
molécula precursora da via do chiquimato (figura 6). Dentre os ácidos orgânicos, a concentração do malato foi
aquela que demonstrou a maior variação no mutante sendo que o valor foi cerca da metade daquele detectado no
tipo selvagem. Esse resultado sugere que provavelmente houve uma diminuição da concentração dos produtos da
PEPC, OAA, que foram convertidos a malato pela enzima desidrogenase do malato dependente de NADP como
poder redutor (NADP-MDH) no interior dos cloroplastos (figura 6). As concentrações do citrato e isocitrato
também foram menores no mutante enquanto que os níveis de fumarato e succinato se mantiveram similares ao
do selvagem (figura 6). Embora, a concentração de 2-oxoglutarato não apresentou diferenças significativas entre
mutante e selvagem, os resultados previamente descritos sugeriram que o fluxo metabólico do malato ao 2-
oxoglutarato foi significativamente reprimido pela mutação knockout do gene Osppc4. Talvez, outras vias
bioquímicas estejam produzindo o 2-oxoglutarato a fim de se manter a concentração endógena desse composto
dentro do nível necessário para que as funções bioquímicas básicas do ciclo de Kerbs (ou TCA) possam
continuar a ocorrer normalmente. Entretanto, essas outras vias parecem não conseguir compensar a repressão do
fluxo metabólico do malato ao 2-oxoglutarato ocasionado pela mutação knockout do gene Osppc4 quando as
condições celulares passaram a necessitar de maiores concentrações de 2-oxoglutarato como será explicado a
seguir.
A concentração de glutamina endógena aumentou consideravelmente nos tecidos do mutante sendo essa
o dobro do valor quantificado no selvagem, enquanto que o conteúdo endógeno de glutamato foi
aproximadamente 20% menor no mutante (figura 6). Esses resultados sugeriram que a reação catalisada pela
GOGAT pode ter sido inibida pela mutação knockout do gene Osppc4, já que a glutamina e o glutamato são o
substrato e o produto, respectivamente, da reação química catalisada pela enzima GOGAT. A redução da síntese
de 2-oxoglutarato, outro substrato de reação da enzima GOGAT, poderia ser a principal causa da inibição da
produção do glutamato pelo ciclo GS/GOGAT. Em geral, o glutamato pode ser rapidamente convertido a
aspartato nas folhas do arroz. Segundo os resultados do perfil metabólico do mutante knockout do gene Osppc4,
o conteúdo endógeno de aspartato nas folhas diminuiu cerca de dois terços quando comparado com o do
selvagem, sugerindo uma possível inibição da síntese desse aminoácido. O aspartato é produzido através de uma
reação entre o glutamato e o OAA sendo catalisada pela enzima aspartato aminotransferase. Todos esses
resultados sugeriram que a mutação knockout do gene Osppc4 influenciou negativamente a assimilação do

61
amônio e, subsequentemente, a síntese de outros aminoácidos devido à carência da produção de ácidos
orgânicos.

Figura 6: Possível via interconectando as enzimas PEPC e GOGAT. No mutante knockout do gene
Osppc4, os compostos em negrito estariam com as concentrações aumentadas, enquanto que os demais estariam
reduzidos.

Pela análise comparativa dos perfis metabólicos do mutante knockout do gene Osppc4 e do selvagem,
sugeriu-se que essa mutação knockout reduz significativamente a produção de ácidos orgânicos e,
consequentemente, inibe a assimilação do amônio via a ação do ciclo GS/GOGAT, além de também influenciar
negativamente na síntese de outros aminoácidos. Segundo a literatura, os ácidos orgânicos são sintetizados a
partir dos fotossintatos através da glicólise e do ciclo dos ácidos tricarboxilicos. Além disso, o 2-oxoglutarato,
que é sintetizado a partir do citrato no citossol, é utilizado principalmente para a assimilação do amônio nas
células das folhas. Segundo os resultados apresentados anteriormente, foi sugerido que uma nova rota de síntese
de ácidos orgânicos é catalisada pela enzima PEPC codificada pelo gene Osppc4: o OAA produzido pela ação da
PEPC cloroplastídica, talvez, seja rapidamente convertido a malato pela NADP-MDH e exportado para o
citossol. Após ser exportado, o malato seguiria a rota “convencional”, ou seja, seria convertido a 2-oxoglutarato,
importado para os cloroplastos e usado pelo ciclo GS2/Fd-GOGAT no estroma ou poderia também ser utilizado
pelas enzimas GS1/NADH-GOGAT no citossol. Além disso, esses autores inferiram que a PEP poderia ser
sintetizada a partir dos compostos intermediários do ciclo de Calvin no interior dos cloroplastos. O 3-
fosfoglicerato, um produto da RUBISCO, é um composto intermediário da glicólise e poderia ser convertido
para PEP através de duas reações enzimáticas catalisadas pela 3-fosfoglicerato mutase e enolase (figura 7). Essa
hipótese pode ser considerada plausível, uma vez que já foram identificados genes que codificam essas proteínas
adicionadas com peptídeos de trânsito no genoma do arroz. Dessa forma, os fotossintatos poderiam ser
convertidos a ácidos orgânicos sem necessariamente passarem pela via da glicólise.
O fenótipo do nanismo detectado nas plantas mutantes knockout do gene Osppc4 mostraram que apesar
de existirem outras enzimas que codificam a PEPC no arroz, nenhuma delas pareceu conseguir compensar a falta
da atividade da Osppc4, indicando que provavelmente, a Osppc4 juntamente com a NADP-MDH possa ser a

62
principal rota bioquímica que produz os ácidos orgânicos necessários para que ocorra a assimilação do amônio
nas folhas do arroz.

Figura 7: Esquema representativo da nova rota de síntese de ácidos orgânicos catalisada pela enzima
PEPC codificada pelo gene Osppc4. PEPC: fosfoenolpiruvato carboxilase; MDH: malato desidrogenase; NADP-
MDH: malato desidrogenase dependente de NADP; PEP: fosfoenolpiruvato; OAA: oxaloacetato; 2PGA: 2-
fosfoglicerato; 3PGA: 3-fosfoglicerato; Gln: glutamina; Glu: glutamato; KG: 2-oxoglutarato; GS1: sintetase da
glutamina do tipo 1; NADH-GOGAT: sintase do glutamato dependente de NADH; GS2: sintetase da glutamina
do tipo 2; Fd-GOGAT: sintase do glutamato dependente de ferredoxina.

Considerações finais
O arroz é um bom exemplo que demonstra a complexidade de se estudar as relações entre o
metabolismo do nitrogênio e do carbono. O amônio absorvido pelas raízes do arroz é primeiramente assimilado
ao aminoácido glutamina pela ação das enzimas OsGS1;2/OsNADH-GOGAT1. Posteriormente, uma parte desse
aminoácido produzido pode ser também convertida a asparagina por uma reação de transaminação nas raízes.
Tanto a glutamina quanto a asparagina são as principais formas nitrogenadas transportadas nos vasos condutores
do arroz. O transporte desses aminoácidos da raiz para a parte aérea é de alguma maneira regulada pelos genes
que codificam as enzimas OsGS1;1 e OsNADH-GOGAT2. O crescimento e o desenvolvimento de novas folhas
e órgãos reprodutivos no arroz são totalmente dependentes dos processos de remobilização e reutilização do
nitrogênio presente nas folhas maduras. As isoformas OsGS1;1 e OsNADH-GOGAT2 são as principais enzimas
que atuam na assimilação do amônio proveniente do catabolismo das folhas senescentes e na produção de
aminoácidos que serão transportados até os órgãos dreno através do floema. Além disso, a OsGS1;1 e OsNADH-
GOGAT2 exercem um papel essencial para manutenção do balanço C/N no arroz uma vez que o silenciamento
dos genes codificadores dessas enzimas causou um grande desbalanço nos perfis metabólicos de diversos
açúcares e compostos nitrogenados e levou a letalidade de vários mutantes. Ainda existe a isoforma OsGS1;3,
expressa principalmente nos órgãos reprodutivos do arroz, porém suas funções ainda são desconhecidas. Por fim,

63
uma nova isoforma de PEPC encontrada nos cloroplastos do arroz demonstrou traçar uma nova rota metabólica
que tem como principal função fornecer os esqueletos carbônicos necessários para a assimilação do amônio nas
folhas do arroz.

64
Metabolismo secundário vegetal
Fernanda Mendes de Rezende
Sarah Aparecida Soares
Kátia Pereira dos Santos

Vários autores costumam dividir o metabolismo vegetal em primário e secundário. Embora na prática
essa divisão seja difícil, caracterizam-se como metabolismo primário os processos comuns e pouco variáveis à
grande parte dos vegetais, e que levam à síntese de carboidratos, proteínas, lipídios e ácidos nucléicos. Tais
sínteses ocorrem por vias conhecidas como glicólise e ciclo de Krebs (ciclo do ácido carboxílico) que, além de
sintetizar intermediários para outras vias metabólicas, geram energia e poder redutor a partir de reações de
oxido-redução de compostos orgânicos. Além destas vias, pode-se obter energia através da β-oxidação de ácidos
graxos e degradação de produtos que não são essenciais para a planta. Esses processos compõem a unidade
fundamental de toda a matéria viva.
A distinção entre metabolismo primário e secundário (ou especial) se dá pelo conceito de que
metabólitos secundários não estão envolvidos em processos geradores de energia e/ou de constituição do
protoplasto. Além disso, os metabólitos secundários não estão presentes de forma ubíqua entre as plantas,
expressando a individualidade de famílias, gêneros e, até mesmo, espécies.
Apesar do nome, as substâncias oriundas de vias “secundárias” são vitais para as plantas, e
desempenham papéis essenciais na interação com fatores bióticos e abióticos, atuando como atrativos ou
repelentes de polinizadores; dissuasores de herbivoria; na proteção contra radiação UV e poluição; na sinalização
intraespecífica; na alelopatia; nas adaptações a novas situações impostas pelo ambiente, dentre outras funções.
Para desempenharem estas funções, diversas substâncias são voláteis ou pigmentos, sendo responsáveis pelos
mais diversos e intensos aromas, sabores e cores, características de interesse humano nos ramos de paisagismo,
indústria alimentícia e farmacêutica.
Outro aspecto interessante, a ser abordado, são os chamados princípios ativos vegetais comumente
encontrados em diversos produtos e terapias, mas o que de fato são esses princípios ativos presentes nos
vegetais?
São substâncias secundárias formadas a partir de produtos da fotossíntese com a função de defesa para a
planta por terem alguma ação sobre o organismo de seu predador. Para nós, humanos, são essas substâncias que
são responsáveis pelo efeito medicinal de uma planta, mas dependendo da dose administrada, o efeito destes
metabólitos secundários deixa de ser terapêutico e passa a ser tóxico. Diversas plantas apresentam um uso
medicinal milenar e nos extratos destas plantas, a ação conjunta ou isolada de certas substâncias é responsável
pela atividade biológica. Este efeito diferente de acordo com a dose pode ser exemplificado com os glicosídeos
cardioativos, duas espécies de Plantaginaceae do gênero Digitalis, D. lanata e D. purpúrea, sintetizam essas
substâncias. Essas são amplamente utilizadas, quando em pequenas doses no controle de problemas relacionados
ao baixo débito cardíaco, entretanto, em doses maiores, os glicosídeos cardioativos paralisam o coração na fase
de sístole.
Mas como substâncias com propriedades e ações tão diversas são sintetizadas pelas plantas?

65
Os metabólitos secundários são muito diversos, mais de 50 mil já foram em espécies de angiospermas, e
são sintetizados em diferentes compartimentos celulares, por quatro vias: via do ácido chiquímico, do
mevalonato (MEV), do malonato e do metileritritol fosfato (MEP) (figura 1). Através dessas vias são formados
os quatro grupos principais: terpenos, derivados de ácidos graxos, compostos fenólicos e nitrogenados.
Interessantemente, para classificação em cada grupo as características estruturais e propriedades químicas são
mais importantes do que o compartilhamento de uma mesma via de síntese. Alguns detalhes sobre as rotas
biossintéticas, sua importância para a sobrevivência das plantas e utilização por seres humanos, serão expostos a
seguir.

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Terpenos
Os terpenos formam o maior grupo de produtos naturais, apresentando uma grande diversidade
estrutural, com mais de 35 mil substâncias identificadas. Estes são derivados teóricos do isopreno, uma estrutura
de 5 carbonos, sendo o número dessa unidade presente na molécula utilizado para a classificação, podendo
existir: monoterpenos (C10), sesquiterpenos (C15), diterpenos (C20), triterpenos (C30), tetraterpenos (C40) e
politerpenos (mais de 40 carbonos).
Os terpenos são tidos como derivados teóricos do isopreno por esta molécula não estar envolvida na
síntese dos terpenos, os precursores são o isopentenil difosfato (IPP) e o dimetilalil difosfato (DMAPP). A sua
síntese se dá a partir de duas vias, a do MEV (que tem como precursor acetil CoA) que ocorre no citossol, e a do
MEP (derivado de intermediários glicolíticos) a qual é uma rota plastidial. Atualmente sabe-se que há uma
comunicação entre estas vias podendo haver trocas dos componentes formados por cada uma, assim ambas
levarão a formação do IPP que pode se converter em seu isômero DMAPP.
A ligação do IPP e DMAPP forma o geranildifosfato (GPP), uma molécula de 10 carbonos, a partir da
qual são formados os monoterpenos. O GPP pode se ligar a outra molécula de IPP, formando um composto de
15 carbonos (farnesil difosfato- FPP), precursor da maioria dos sesquiterpenos. A adição de outra molécula de
IPP ao FPP forma o geranilgeranil difosfato (GGPP), um composto de 20 carbonos, precursor dos diterpenos.
Por último, dímeros de FPP e GGPP compõem aos triterpenos (C30) e tetraterpenos (C40), respectivamente. Cada
uma destes tipos de terpenos possuem uma ampla gama de funções nas plantas e alguns exemplos serão
abordados a seguir.
Os mono e sesquiterpenos são substâncias presentes nos óleos voláteis, e conferem a determinadas
plantas seu aroma característico (como as Lamiaceae, Ocimum sp,. por exemplo). Os óleos voláteis também
possuem compostos de outras vias como, por exemplo, fenilpropanoides. Estão associados à defesa (repelindo
ou atraindo insetos) e sinalização molecular nas plantas, além disso, exibem atividades antimicrobianas e têm
sido amplamente utilizados na indústria cosmética, farmacêutica e alimentícia.
Há diterpenos essenciais como o fitol, que faz parte de várias moléculas como a da clorofila, e é um dos
mais simples e abundantes diterpenos. Outra molécula essencial dentro desta classe é a giberelina, grupo de
hormônios vegetais envolvidos na regulação de diversos processos como alongamento celular e senescência.
No caso dos triterpenos, atividades anticancerígenas foram relatadas para os tipos ursano, lupano e
oleanano, substâncias encontradas em diversas plantas. Além destes, triterpenos são frequentemente encontrados
na forma de saponinas (do latim: sapo = sabão) que possuem propriedades surfactantes. Limonoides, que são
triterpenos modificados, têm reconhecida atividade inseticida, como por exemplo, no óleo de Neem (Azadirachta
indica, Meliaceae). Triterpenos, como os esteroides sitosterol, estigmasterol e campesterol, são frequentemente
encontrados como parte estrutural da membrana celular. Esteroides também são de interesse nutricional pela sua
capacidade de reduzir os níveis de colesterol absorvido.

Derivados de ácidos graxos


O papel destes compostos para as plantas é de extrema importância, pois são constituintes de cera
cuticular. Juntamente com a cutina e a suberina, as ceras constituem o conjunto de substâncias hidrofóbicas que
mantêm as superfícies impermeáveis e restringem a perda de água dos tecidos através da transpiração. Além

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disto, ao revestir os órgãos aéreos, atua como uma barreira entre o meio interno e externo, conferindo proteção
contra os raios UV, entrada de patógenos, e poluição. O surgimento desta camada protetora foi um dos
importantes fatores para a conquista do ambiente terrestre há 400 milhões de anos.
A quantidade de cera é variável, até mesmo em uma mesma espécie, respondendo a diversos elementos
como idade do tecido e condições ambientais. Elas são misturas complexas de hidrocarbonetos alifáticos de
cadeia longa com série homóloga (por exemplo, n-alcanos, álcoois, aldeídos, ácidos graxos e ésteres), que
podem apresentar pequenas quantidades de terpenoides.
O início da síntese desses compostos se dá no plastídio, onde ocorre a formação de ácidos graxos C16 e
C18 a partir de unidades de malonil CoA e acetil CoA. Esses ácidos são transportados para o retículo
endoplasmático, onde sofrem diversas reações de elongação formando ácidos graxos de cadeia longa (C 20-C40),
precursores dos demais compostos da cera. Reações de descarboxilação levam à formação de alcanos, álcoois
secundários e cetonas.
Ainda é obscura a síntese dos aldeídos, entretanto, acredita-se que possam surgir de reações enzimáticas
com os alcanos ou diretamente pela perda de hidroxilas de ácidos graxos. A partir dos ácidos graxos de cadeia
longa, também podem ser formados por reações de redução, os álcoois primários e ésteres. Os mecanismos de
transporte dessas substâncias ainda não são claros, podendo ocorrer por proximidade, vesículas ou
transportadores específicos como transportador ABC e proteínas transportadoras de lipídios.

Compostos fenólicos
O grupo dos compostos fenólicos incluem substâncias com ao menos um anel aromático no qual houve
a substituição de ao menos um hidrogênio por um grupo hidroxila, sendo que estas substâncias podem ser
simples ou com diversos graus de polimerização. Podem ocorrer naturalmente na forma livre (agliconas), ligados
a açúcares (glicosídeos), ou ainda, ligados a proteínas, terpenos, entre outros. Exemplos de substâncias fenólicas
são os ácidos fenólicos, quinonas, fenilpropanoides, cumarinas, flavonoides e as substâncias poliméricas (taninos
e ligninas).
Estes compostos são essenciais para as plantas, um exemplo está na sua participação na síntese da
lignina. Este complexo polimérico confere rigidez e resistência mecânica à parte aérea, característica que
conferiu uma melhor sustentação e possibilitou maior transporte de água e minerais a partir das raízes,
permitindo a conquista do ambiente terrestre.
Os taninos são classificados em dois grupos baseados em seu tipo estrutural: taninos hidrolisáveis
(restritos a poucas ordens e derivados de ácidos fenólicos) e taninos condensados (derivados de flavonoides). A
principal característica desses compostos é a capacidade de precipitar proteínas, agindo como importantes anti-
herbivóricos ao aumentar a adstringência, tornando a planta impalatável.
Outros compostos fenólicos como as cumarinas, furanocumarinas e estilbenos protegem as plantas
contra patógenos (bactérias e fungos) e herbívoros, além de inibir a germinação de sementes de plantas
adjacentes impedindo a competição destas pelos mesmos recursos (alelopatia).
Os flavonoides atuam na proteção dos tecidos vegetais da ação mutagênica dos raios UV e participam
da atração de polinizadores e dispersores de sementes. Sua estrutura básica é formada por 15 carbonos dispostos
em três anéis (C6-C3-C6), sendo os compostos mais diversificados do reino vegetal.

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Estes compostos têm recebido crescente atenção por parte da indústria alimentícia, cosmética e
farmacêutica. A eles são atribuídos uma vasta gama de efeitos fisiológicos como: antialérgicos, anti-
inflamatórios, antimicrobianos, antitrombóticos, antioxidantes, cardioprotetores e vasodilatadores. Por estes
efeitos, este grupo de substâncias, as quais são presentes em altos níveis em frutas e vegetais, são consideradas
benéficas à saúde humana, especialmente pelo potencial antioxidante.
Essas substâncias fenólicas são oriundas, em sua grande maioria, da via do ácido chiquímico, que é o
precursor dos aminoácidos aromáticos (AAA) tirosina, triptofano e fenilalanina, sendo este último, o principal
AAA precursor de substâncias fenólicas. Parte da síntese de alguns desses compostos pode ocorrer pela via do
acetato malonato, ou, ainda, pela combinação das duas vias, como é o caso dos flavonoides, que são substâncias
de biossíntese mista.

Compostos nitrogenados
Compostos nitrogenados são defesas químicas anti-herbivoria. As três classes mais importantes são:
alcaloides; glicosídeos cianogênicos e glucosinolatos. Essas substâncias são formadas a partir de aminoácidos
aromáticos e alifáticos.
Alcaloide é o nome dado a um grupo de substâncias bastante heterogêneo, predominantemente
sintetizado por plantas (dos 27 mil alcaloides conhecidos no momento, 21 mil são de origem vegetal), tendo em
comum o caráter alcalino, conferido pela presença de um ou mais átomos de nitrogênio, podendo haver um ou
mais anéis heterocíclicos, sendo classificados de acordo com o anel nitrogenado presente em sua estrutura. São
substâncias reconhecidas pelo seu amplo espectro de atividades biológicas, por isso correspondem a princípios
ativos comuns em plantas medicinais e tóxicas. É o caso da papoula (Papaver somniferum, Papaveraceae), que
contém morfina, codeína e papaverina; do café (Coffea arabica, Rubiaceae), que contém cafeína; de
Chondodendron tomentosum (Menispermaceae), da qual se extrai o curare, potente relaxante muscular com
atividade anestésica, utilizado como veneno de flecha por indígenas sul-americanos. Outro alcaloide muito
conhecido é a nicotina (presente no fumo, Nicotiana tabacum, Solanaceae).
Glicosídeos cianogênicos possuem um resíduo de açúcar e um grupamento nitrila. São armazenados em
vacúolos e, quando a planta é atacada, são hidrolisados pela enzima que se encontra no citoplasma gerando
cianeto, substância altamente tóxica.
Glucosinolatos são substâncias que contém enxofre, nitrogênio e açúcar em sua molécula. Ocorrem em
quase todas as espécies de Brassicaceae e são responsáveis pelo sabor picante do agrião, rabanete e pelo gosto
característico dos brócolis, repolho, mostrada, etc. Quando a planta é atacada, os glucosinolatos são hidrolisados
pela enzima mironase, produzindo isotiocianatos e nitrilas que agem na defesa da planta como toxinas e
repelente contra herbívoros.

Técnicas de separação e identificação de produtos naturais


A cromatografia está entre os métodos mais modernos de análise de espécies químicas devido,
principalmente, à facilidade de execução e boa qualidade de separação de constituintes químicos. Iniciada na
década de 1930, as técnicas cromatográficas fornecem informações relevantes, seja por si mesma ou em conjunto
com outras técnicas instrumentais de análise, como a espectrofotometria ou a espectrometria de massas, que
fornecem informações sobre a estrutura da substância.

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A cromatografia é um método físico-químico de separação dos componentes de uma mistura, realizada
através da distribuição desses componentes em duas fases: a fase estacionária e a fase que se move através dela.
Durante a passagem da fase móvel pela fase estacionária, os componentes da mistura são distribuídos pelas duas
fases de tal forma que cada um deles é seletivamente retido pela fase estacionária, resultando em migrações
diferenciais desses componentes.
Para a classificação da cromatografia, são feitas algumas distinções gerais como, por exemplo: a forma
física do sistema que define a técnica geral em cromatografia em coluna (quando a fase estacionária está disposta
em um tubo cilíndrico) ou cromatografia planar (quando a fase estacionária está disposta em uma superfície
planar); o estado físico da fase móvel que diferencia a cromatografia em gasosa (quando a fase móvel é um gás
inerte); líquida (quando a fase móvel é um líquido que pode interagir com os solutos) ou supercrítica (quando a
fase móvel é um vapor pressurizado, em temperatura e pressão acima de seu ponto crítico, com viscosidade
menor que um líquido e interação com os solutos); entre outras.
Sendo assim, o processo cromatográfico pode ser realizado de várias formas. Algumas delas são: a
cromatografia em coluna, cromatografia por partição, cromatografia por exclusão, cromatografia em papel,
cromatografia gás-líquido, cromatografia gás-sólido, cromatografia líquido-líquido, cromatografia em camada
delgada, cromatografia por troca iônica e cromatografia com fluído supercrítico.
Entretanto, considera-se que a classificação mais importante em cromatografia baseia-se no mecanismo
de separação que pode se dar por processos:
1. Físicos: por fenômenos de adsorção ou absorção, a fase estacionária pode ser sólida ou líquida.
Exemplos: cromatografia em papel, cromatografia gás-líquido, gás-sólido, cromatografia líquido-líquido, entre
outras.
2. Químicos: quando os grupos funcionais da fase estacionária interagem com os componentes da amostra.
Mecanismo encontrado, por exemplo, na cromatografia em camada delgada e cromatografia por troca iônica.
3. Mecânicos: quando a fase estacionária é uma matriz de composição inerte com partículas de forma,
tamanho e porosidade uniformes. Mecanismo encontrado, por exemplo, na cromatografia por exclusão.
Como dito anteriormente, para a identificação de compostos podem ser empregadas técnicas
cromatográficas acopladas a técnicas de identificação, ou apenas técnicas de identificação. As principais técnicas
utilizadas na determinação estrutural de produtos naturais são: espectrometria de massas (EM),
ultravioleta/visível (UV/vis), infravermelho (IV) e ressonância magnética nuclear (RMN). Cada técnica permite
extrair um tipo de informação sobre a molécula e tais técnicas, com exceção da espectrometria de massas, se
relacionam com o espectro eletromagnético em diferentes comprimentos de onda, frequência e energia (figura
2). Cada uma terá um efeito sobre a estrutura da substância e isso definirá a informação que será possível extrair
da molécula.
A espectrometria de massas, como o próprio nome diz, tem como principal informação a massa de um
constituinte. Nessa técnica o composto é ionizado para que seja detectado, e a estrutura ionizada pode ser
fragmentada fornecendo mais informações sobre como é o arranjo estrutural deste composto.
A técnica de UV/vis abrange uma faixa de comprimento de onda que vai de 190-800nm. É utilizada
muito mais para auxiliar na quantificação de moléculas conhecidas do que na identificação propriamente dita.
Contudo, em alguns casos, essa espectroscopia de absorção UV/vis pode fornecer informações úteis sobre a
estrutura de uma molécula. Essa técnica permite a visualização de cromóforos, que são regiões onde ocorre a
transição do estado fundamental para o excitado. Alguns exemplos de grupos que absorvem dentro dessa faixa

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de comprimento de onda são: hidroxilas (R-OH), carbonilas (C=O) e, duplas e triplas ligações entre carbonos,
nitrogênios ou ambos, e conjugações (duplas alternadas).
O IV é uma técnica muito utilizada para o conhecimento dos grupos funcionais de uma molécula.
Envolve comprimentos de ondas entre 2,5µm e 25µm, maiores que os associados ao visível, mas menores do que
micro-ondas. Frequentemente os dados relacionados a esta técnica são empregados em valores de frequência que
varia de 400 a 4.000cm-1. A energia fornecida por essa técnica permite a visualização dos movimentos
vibracionais de estiramento (mudança na distância) e dobramento (mudança no ângulo) das ligações na maioria
das moléculas mais covalentes.
A RMN, como o próprio nome diz, é um método espectroscópico que estuda o núcleo dos átomos.
Muitos núcleos atômicos têm uma propriedade chamada spin, de forma que os núcleos comportam-se como se
estivessem girando. Os núcleos que apresentam massa ímpar ou número atômico ímpar têm um momento
magnético e um momento angular de spin, os núcleos mais comuns e utilizados que possuem spin são: 1H e 13C.
Os comprimentos de onda nesse caso são bem maiores (1m-5m), mas para esta técnica utilizamos como
referência não o comprimento de onda e sim a frequência, que neste caso é similar às frequências de rádio (4-
900mHz). A técnica permite determinar o adjacente de uma ligação sendo de extrema importância na
determinação estrutural de uma molécula. A combinação de IV e RMN é, muitas vezes, suficiente para elucidar
uma estrutura, entretanto é importante ressaltar que a combinação de diversas técnicas muitas vezes se faz
necessária para que um produto natural seja estruturalmente identificado.

Figura 2: Espectro eletromagnético.

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Fontes vegetais atuais e potenciais de energia, álcool e
biodiesel
Marco Aurélio Sivero Mayworm

A situação energética atual


Desde as primeiras civilizações até a metade do século XIX, as principais fontes de energia para
geração de calor provinham principalmente da biomassa vegetal e carvão. Com o advento da Revolução
Industrial, no século XIX, o uso de máquinas a vapor gerou um aumento expressivo no consumo de carvão, e
criou uma interdependência entre o progresso e o consumo de energia, e assim novas fontes de energia
precisaram ser criadas para atender ao novo padrão de desenvolvimento em várias partes do mundo.
Assim, a partir da metade do século XIX, a nova demanda de energia contribuiu para o inicio da
exploração industrializada do petróleo e do carvão. A produção de óleo cru nos Estados Unidos aumentou de
dois mil barris em 1859, para aproximadamente dez milhões de barris em 1874. O consumo de gás natural
aumentou a partir da segunda metade do século XX, com a implantação de uma rede de distribuição mais segura
e ampla em vários países, principalmente no hemisfério norte.
Atualmente, 80% do consumo mundial de energia em todo o mundo dependem da utilização de
combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás), os quais tem ampla utilização em diversos setores da economia
além da geração de energia, porém tem gerado uma série de problemas ambientais e relacionados à saúde do
homem, plantas e animais.

Os benefícios e riscos do uso dos combustíveis fósseis


Combustíveis fósseis são aqueles que derivam de um longo processo de fossilização de plantas e
animais, e extraídos a partir de depósitos que se encontram em diferentes profundidades da crosta terrestre,
sendo divididos em três tipos: petróleo, gás natural e carvão, os quais são considerados como combustíveis não-
renováveis devido o processo de formação ser extremamente lento, envolvendo milhares ou milhões de anos.
O petróleo constitui-se em uma mistura complexa de hidrocarbonetos, geralmente hidrocarbonetos
alifáticos, alicíclicos e aromáticos, e ainda pequenas quantidades de nitrogênio, oxigênio, compostos de enxofre
e íons metálicos, entre os quais níquel e vanádio. Essa mistura passa por um processo complexo de refino e
destilação para obtenção de produtos como éter de petróleo, benzeno, parafina, gasolina, querosene, óleo diesel,
asfalto, entre outros.
O petróleo na forma de seus derivados é atualmente de grande importância, uma vez que a gasolina,
querosene e óleo diesel são responsáveis pelos principais meios de transportes, movimento de máquinas
agrícolas e equipamentos de construção civil, produção de energia elétrica (usinas termoelétricas), bem como
matéria prima na produção de diversos insumos da indústria química como o plástico, entre outras utilidades.
O gás natural corresponde à fração gasosa retida nos depósitos petrolíferos, rica em metano, sendo
principalmente utilizado como combustível em residências, indústrias e veículos automotores.

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O carvão mineral é composto por carbono (elemento mais abundante), oxigênio, hidrogênio, enxofre e
cinzas contendo vários minerais. Há diferentes tipos de carvão, separados pelo seu teor de carbono, como a turfa
(50%), linhito (70%) hulha (85%) e antracito (90%). Da mesma forma que o petróleo, o carvão é muito
importante para o homem, tendo amplo emprego na siderurgia e no aquecimento de casas em muitos países,
principalmente de clima temperado. Além disso, uma grande parcela da energia elétrica produzida em
termoelétricas no mundo é gerada a partir da queima de carvão.
A queima dos derivados de petróleo, gás e carvão levou a um aumento das emissões de dióxido de
carbono, óxido de nitrogênio e dióxido de enxofre, contribuindo para o aumento expressivo da poluição
atmosférica, ao longo do século XX. A queima de carvão produz também efluentes gasosos altamente tóxicos
entre os quais estão o mercúrio, vanádio, cádmio, arsênio e chumbo.
A liberação de dióxido de carbono e outros poluentes contribuem para agravar o chamado efeito estufa
e o aumento de incidência da chuva ácida, além de aumentar o índice de doenças respiratórias, cardiovasculares,
entre outras, que se intensificam principalmente nos períodos mais secos do ano nas grandes cidades. No ano de
1952, em Londres, a queima do carvão contribuiu para um expressivo aumento da poluição atmosférica
causando elevado número de mortes e deixando milhares de pessoas doentes, tal episódio ficou conhecido como
"o grande nevoeiro de 1952”. Situações como essa continuam a se repetir atualmente em várias cidades da
China, Russia e outros países que tem sua matriz energética muito dependente de carvão e petróleo.
O uso de fontes energéticas alternativas, além de contribuir para uma redução do consumo de recursos
finitos (petróleo, gás e carvão) contribui também para a redução das emissões de carbono, e seus efeitos sobre o
ambiente e sobre a saúde das pessoas. Entre as fontes de energia alternativas estão as energias hidroelétrica,
nuclear, eólica e geotérmica, que somam atualmente 10% da matriz energética mundial e o uso de biomassa os
10% restantes. A biomassa inclui os seres vivos e o conjunto dos produtos orgânicos gerados por estes seres
vivos, mas que não se encontram completamente decompostos em moléculas básicas, e desta forma ainda
apresentam um grande potencial energético em suas ligações químicas.

A biomassa vegetal como alternativa de fonte de energia


A biomassa vegetal é fonte de diversas macro e micromoléculas como celulose, hemiceluloses, lignina,
amido, sacarose, triglicerídeos, entre outras que são utilizadas através de tratamentos térmicos (queima),
biológicos (fermentações) e transformações químicas para a geração de biocombustíveis sólidos, líquidos e
gasosos.
Biocombustível é o combustível gerado a partir da utilização de diferentes materiais biológicos não-
fósseis, disponíveis de uma maneira renovável, como produtos agrícolas e florestais, algas, resíduos agrícolas,
florestais, industriais e animais.
A maior diferença química entre os biocombustíveis e matérias-primas derivadas do petróleo é o
conteúdo de oxigênio. Nos biocombustíveis, os teores de oxigênio variam entre 10 e 45%, enquanto que os
derivados de petróleo são constituídos principalmente de hidrocarbonetos; os biocombustíveis apresentam ainda
teores muito baixos de enxofre e nitrogênio tornando as propriedades quimícas dos biocombustíveis muito
diferentes em relação ao petróleo. Essas características contribuem para que os biocombustíveis, quando
queimados, emitam um menor percentual de gases causadores do efeito estufa.

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Segundo LEITE & LEAL (2007), o uso alternativo de biocombustíveis em todo o mundo tem sido
incentivado por diversos governos visando uma redução da dependência da compra de derivados de petróleo,
uma nova possibilidade de gerar agronegócios em diferentes escalas, atendendo a interesses de pequenos e
grandes produtores, dando oportunidade para a criação de novos empregos no campo, e ainda, contribuindo com
a redução do nível de emissões principalmente nos grandes centros urbanos, afetando menos o chamado efeito
estufa na atmosfera, e suas consequências.
Atualmente, três tipos de biocombustíveis têm sido gerados em proporções comerciais: biogás,
biodiesel e bioetanol.

Biogás
O biogás, conhecido como gás dos pântanos, foi descoberto por Shirley em 1667 e é produzido por
microrganismos através de processo de digestão anaeróbica de matéria orgânica, em ambientes naturais como
oceanos, manguezais, pântanos e outros corpos de água doce, ou ainda em atividades antropogênicas, como
plantações de arroz alagado, tratamento de efluentes industriais, aterros sanitários, etc.
Os principais constituintes do biogás são o metano (60-80%) e o dióxido de carbono (20-40%); outros
gases, como sulfeto de hidrogênio, nitrogênio, hidrogênio e monóxido de carbono também podem compor o
biogás, porém em menores concentrações.
Nos últimos anos, a produção de biogás tem sido implantada para geração de eletricidade, a partir de
resíduos agropecuários no meio rural, aterros sanitários e estações de tratamento de esgotos nos centros urbanos.
Uma vantagem da produção e uso de biogás é o fato do metano (principal constituinte do biogás) ser um gás que
contribui mais intensamente para o efeito estufa que o dióxido de carbono. Assim uma vez que se utilizam
resíduos que de outra forma na sua decomposição natural liberariam metano, este mesmo gás ao ser produzido
pelo homem, é queimado gerando energia e gás carbônico. Além disso, o uso do biogás substitui o uso de
combustíveis fósseis, e suas emissões na atmosfera.
Segundo BARRETO & CAMPOS (2009), a produção de biogás ocorre através de digestão anaeróbia ou
fermentação metanogênica, um processo que envolve a participação de grupos de bactérias fermentativas
hidrolíticas, fermentativas acidogênicas, acetogênicas e metanogênicas, as quais são as responsáveis pela
produção de metano.
Em propriedades rurais a produção de biogás pode ser desenvolvida em um equipamento denominado
biodigestor, que é formado por uma câmara fechada, onde se coloca a matéria orgânica (afluente), dissociada em
uma solução aquosa (geralmente 8 a 10% (m/v)) que será então decomposta por bactérias, através do processo de
digestão anaeróbica, produzindo o biogás, que acumula na porção superior (gasômetro) do biodigestor. Além do
biogás, o processo gera a produção de um efluente que ainda contém um alto teor de matéria orgânica,
parcialmente decomposta, que é utilizado como biofertilizante, e lançado em áreas de lavoura, reduzindo o
consumo de insumos agrícolas.
A composição do biogás varia de acordo com as características do tipo de resíduo empregado (esterco,
resíduos de lavouras, resíduos florestais, etc) e as condições de operação do biodigestor. O processo contínuo de
produção de biogás já é bem conhecido, em especial a geração de gás metano a partir de esgotos sanitários e de
dejetos de animais. ESPERANCINI et al. (2007) desenvolveram um projeto de biodigestor utilizando esterco de
suínos com 20% de sólidos totais. Preparou-se uma solução contendo 8% de sólidos totais, utilizando-se 123 kg

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de esterco suíno e 184 litros de água, totalizando uma mistura de 307 L, com tempo de retenção hidráulica
(TRH) de 50 dias. Atingiu-se a produção de 43 m3 de biogás por dia, o que atenderia, segundo os autores, as
necessidades energéticas de cinco residências. Os resultados indicaram que os custos de implantação do projeto
seriam pagos em 2,5 anos.
Em 2011, o rebanho brasileiro de suínos atingiu algo em torno de 39 milhões de cabeças. Os dejetos da
atividade da suinocultura possuem um grande potencial para produção do biogás, visto que cerca de 70% dos
sólidos encontrados nos dejetos de suinos podem ser convertidos em biogás. As fezes coletadas de um animal de
90 Kg produzem em média 0,24 m3 de metano por dia, o que permitiria a geração de milhões de metros cúbicos
de metano, que poderiam ser utilizados como fonte de energia térmica e elétrica nas próprias fazendas, ou
vendido para o abastecimento de centros urbanos próximos. Da mesma forma os rebanos bovinos e avícolas
seriam outras fontes de grande potencial para a produção de biogás, assim como os resíduos da produção
agrícola.
Neste sentido, outros estudos têm abordado o uso de resíduos agrícolas como fonte de biomassa na
geração do biogás. Em uma empresa de Santa Catarina, para cada tonelada de banana industrializada,
aproximadamente três toneladas de pseudocaule, 160 kg de engaços, 480 kg de folhas e 440 kg de cascas são
gerados. Em um trabalho desenvolvido com esses restos de produção, o rendimento máximo em biogás, obtido
em biodigestor de bancada, foi de 244 L.kg-1 de sólidos totais, com 66,8% de metano. Os autores sugeriram que
o aproveitamento desses resíduos na produção de biogás, não só possibilitaria a redução da poluição ambiental,
devido ao acúmulo de resíduos no campo, mas também permitiria agregar valor à cultura da banana, uma vez
que o custo com fornecimento de energia acaba sendo reduzido.
Esses resultados e muitos outros demonstram que a produção de biogás no meio rural pode ser de
grande valia, na redução dos custos com energia, na redução dos custos com insumos agrícolas e na melhoria da
qualidade do solo, água e ar, uma vez que os resíduos de produção deixariam de ser acumulados por longos
períodos, ou descartados em locais inadequados, a céu aberto.
Infelizmente no Brasil, apesar de se ter uma imensa produção agropecuária, que gera milhões de
toneladas de resíduos diariamente, os projetos de produção de biogás no campo ainda são raros, e segundo a
ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), apenas 0,06% da energia elétrica gerada no Brasil provém da
produção de biogás, geralmente a partir de usinas em aterros sanitários.
Nos centros urbanos, o biogás pode ser produzido a partir de aterros sanitários ou estações de
tratamento de esgoto. Geralmente, a geração de biogás começa após o depósito dos resíduos, podendo continuar
por um período de 20 ou 30 anos depois do encerramento do aterro. As estimativas das emissões globais de
metano, provenientes dos aterros, oscilam entre 20 e 70 Tg/ano (MMA, 2014), e a maioria desse montante
continua sendo apenas lançada no ar contribuindo consideravelmente para o aumento das emissões globais de
metano, e agravamento do esfeito estufa.
Por outro lado, iniciativas no sentido de captar o metano gerado em aterros sanitários têm demonstrado
que é um processo viável de execução e de geração de renda. Uma avaliação feita no Centro de tratamento de
residuos de Caieiras, em São Paulo demonstrou em 2011, a produção de 14000 m3 de biogás por hora contendo
50% de metano, gerando receita ao ser convertido em energia elétrica, e na comercialização de créditos de
carbono.

75
Biodiesel
No final do século XIX, Rudolf Diesel desenvolveu um motor movido a óleo vegetal que era utilizado
na sua forma bruta, como extraído das plantas. O uso direto nos motores apresentava muitos problemas, como o
acúmulo de material oleoso nos bicos de injeção, a queima do óleo era incompleta, formavam-se depósitos de
carvão na câmara de combustão, o rendimento de potência era baixo e, como resultado da queima, havia
liberação de acroleína (propenal), um composto tóxico.
Em 1937, o belga Charles George Chavanne criou o método de transesterificação para transformar óleo
vegetal em um produto menos viscoso, que recebeu o nome de biodiesel.
Atualmente o biodiesel é produzido a partir de reações de transesterificação de triglicerídeos de fontes
biológicas renováveis, como óleos e gorduras animais e vegetais. É um produto biodegradável, com baixo grau
de toxicidade e de emissões.
Na transesterificação de óleos vegetais, os triglicerídeos, principais componentes do óleo, reagem com
álcool (metanol ou etanol) na presença de um catalisador (ácido, básico, metálico ou biológico) produzindo uma
mistura de ésteres alquílicos de ácidos graxos (biodiesel) e glicerol.
Na indústria geralmente se emprega o metóxido de sódio como catalisador, ou uma mistura de ácido
sulfúrico, ou hidróxido de sódio, e metanol ou etanol. Após o processo, formam-se duas fases. Quando se
empregam óleos refinados, como o óleo de soja comercial, essas fases se separam em proporções volumétricas
equivalentes (1:1) sendo que após a reação, a fase inferior é constituida por glicerina, álcool, água e sais
derivados do catalisador e do ácido mineral empregados no processo. A fase mais leve (superior) é constituida
por aproximadamente 40% do volume em ácidos graxos livres e 60% de ésteres alquílicos de ácidos graxos.
Na produção de biodiesel podem ser utilizadas fontes de qualquer óleo vegetal como óleo de soja,
algodão, dendê, mamona e pinhão manso, óleos produzidos por algas, óleos de fritura, gorduras natural ou
artificialmente hidrogenadas, sebo bovino, banha, gordura de frango e óleos de peixe .
Porém, a composição da matéria-prima, principalmente em relação ao padrão de ácidos graxos
predominantes irá refletir sobre as propriedades físico-químicas do biocombustível, afetando a queima no motor,
a formação de depósitos no sistema de injeção e ainda o tipo e a quantidade de substâncias ou gases poluentes
emitidos.
Atualmente, fatores como a geografia, o clima e a economia determinam o óleo vegetal de maior
interesse para uso potencial na produção de biocombustíveis. Assim, nos Estados Unidos, por exemplo, o óleo de
soja é considerado como matéria-prima primordial e, nos países tropicais, o óleo de palma. No Brasil, os óleos
de soja, palma e mamona são geralmente os mais utilizados, porém muitas outras fontes da flora brasileira têm
potencial de utilização.
Estudos demonstraram que as propriedades físico-químicas dos biodieseis metílicos e etílicos do óleo de
babaçu estão de acordo com os limites estabelecidos pela Agência Nacional de Petróleo (ANP), sendo, nestes
termos, possível a utilização do biodiesel produzido a partir do babaçu na forma pura ou misturada ao diesel, em
motores com ciclo diesel.
O uso de biodiesel como aditivo ao óleo diesel pode ser feito em várias proporções (“blends”), sendo as
misturas chamadas de B5, B10, B20, conforme o teor de biodiesel presente na mistura. Atualmente no Brasil,
utiliza-se a mistura B5, porém a Companhia Vale do Rio Doce utiliza a mistura B20 em suas locomotivas. Em

76
Curitiba e outras cidades, parte da frota de ônibus municipais está utilizando B100, ou o biodiesel misturado ao
diesel. A partir de 2020, a legislação brasileira determina que a mistura passe a ser B20.
O uso de biodiesel e diesel em determinadas proporções mostra o mesmo rendimento que o observado
com o diesel comum. Sabe-se hoje que o biodiesel produzido a base de soja pode ser mais econômico ou similar
ao diesel comum.
Além do biodiesel gerado, há ainda na reação de transesterificação, a produção de glicerol, ou glicerina.
Para cada 9 kg de biodiesel produzido, cerca de 1 kg de glicerol bruto é formado. Este produto é então
comercializado com outros setores industriais, sendo utilizado na produção de alimentos, produtos
farmacêuticos, cosméticos, tintas, papel, explosivos, entre outros.
Segundo a Agência Nacional de Petróleo-ANP (2010), a produção brasileira em 2009 foi de 1,6 milhões
de m de biodiesel, gerados em cerca de 60 unidades produtoras, sendo as regiões Centro-Oeste (640.000 m3),
3

Sul (478.000 m3) e Sudeste (284.000 m3) as principais produtoras.


A inclusão do biodiesel no diesel contribui para a redução da dependência do petróleo, redução
da poluição atmosférica, além de gerar alternativas de empregos em áreas geográficas menos propícias para
outras atividades econômicas, promovendo assim, a inclusão social, uma vez que culturas como da mamona e do
pinhão manso podem ser desenvolvidas em solos mais pobres e a manutenção e colheita podem ser feitas
manualmente, gerando iniciativas de projetos de agricultura familiar, contribuindo para a manutenção do homem
no campo.
Apesar da produção e o consumo de biodiesel constituírem uma proposta viável e interessante para a
redução da emissão dos gases provenientes da queima de derivados de petróleo e geração de empregos no
campo, em várias partes do mundo, principalmente no sudeste asiático, India, China, vários países da África e
mesmo no Brasil, críticas têm surgido devido alguns projetos de cultivo de oleoginosas serem mais uma forma
de expansão das fronteiras agrícolas, gerando a destruição de imensas áreas de vegetação nativa, e levando ao
risco de extinção de várias espécies animais e vegetais. Assim apesar do biodiesel ser uma proposta para redução
do consumo do diesel, novas fontes devem ser encontradas a fim de reduzir a degradação de áreas naturais ainda
preservadas.

Biodiesel de algas
Nas últimas décadas, estudos têm mostrado que o biodiesel pode também ser extraído a partir de
microalgas. Estes organismos oferecem facilidade de cultivo em sistemas abertos ou fechados, quantidade
elevada de lipídeos devido à alta taxa de fotoconversão, viabilidade de manipulação genética em curto espaço de
tempo, crescimento rápido de biomassa e produção de biodiesel o ano todo. O alto teor de lipídeos associado ao
fato de poderem ser produzidas o ano todo, diferente das plantas que dependem de um ciclo de vida mais longo,
envolvendo floração e frutificação, tem apontado para rendimentos de até 137000 L de óleo por hectare de
cultivo de algas, algo muito superior ao encontrado com o óleo de dendê, que entre as plantas mostra a maior
produtividade por área plantada (6000 L por hectare). Em muitas espécies de algas, a estrutura unicelular ou
filamentosa, depende de menor consumo de energia, e consequentemente grande parte da energia absorvida na
fotossíntese pode ser armazenada, por exemplo, na forma de lipídeos, que então são extraídos para a produção de
biodiesel.

77
Segundo LEE (2001), as algas podem ser cultivadas em sistemas abertos ou fechados. Nos sistemas
abertos, as algas são mantidas em tanques abertos a luz do sol, e a água é movimentada através de pás
mecânicas. Nos sistemas fechados, as algas são mantidas em tubos de acrílico ou material similar, com centenas
ou quilômetros de comprimento, interligados entre si. Neste sistema as algas ficam isoladas do meio externo, e
bombas geram o deslocamento de água, nutrientes e das próprias algas ao longo do sistema. Um fator negativo
do cultivo de algas está no elevado consumo de energia elétrica para manter a água de cultivo em movimento e
devidamente rica em nutrientes.
Após o cultivo, as algas passam por um filtro e a biomassa é conduzida para a extração dos lipídeos.
Esses podem ser extraídos por processos químicos utilizando solventes como benzeno, éter ou n-hexano. Outros
métodos utilizam enzimas ou choque osmótico, gerando o rompimento das algas. O teor de lipídeos nas algas
varia entre 1 e 70%, mas sobre certas condições os teores podem atingir 90% do peso seco.
Também é importante lembrar que o cultivo de algas para a produção de biocombustíveis, torna-se
interessante à medida que pode ser desenvolvido utilizando-se CO2 emitido por uma indústria, reduzindo a taxa
de emissões de gases do efeito estufa; pode ser desenvolvido em águas residuais, removendo elementos como
NH4+, NO3-, PO43-, que de outra forma ao serem lançados em corpos d’água contribuiriam para processos de
eutrofização e perda da qualidade da água; o cultivo pode ainda ser desenvolvido em áreas inadequadas para a
agricultura, como regiões semidesérticas; e a biomassa após extração do óleo, pode ser destinada a produção de
ração animal, outros biocombustíveis como etanol e biogás, fertilizantes, entre outros produtos.
Apesar das inúmeras vantagens da produção de biodiesel a partir de algas, a produção desta nova fonte
de biocombustível em escala comercial precisa encontrar alternativas para o alto preço dos nutrientes da cultura,
métodos mais baratos para a secagem e extração do óleo, e buscar solução para o alto grau de insaturação do
óleo, que se torna mais vulnerável a oxidações, necessitando assim da adição de antioxidantes ao produto. Esses
e outros problemas estão sendo estudados e o uso do biodiesel a partir de algas ainda precisa passar por vários
anos de estudo antes de virar realidade.

Etanol
Entre os álcoois que podem ser utilizados como combustíveis para motores estão o metanol (CH3OH),
etanol (C2H5OH), propanol (C3H7OH) e butanol (C4H9OH). Contudo apenas os dois primeiros são técnica e
economicamente adequados como combustíveis para veículos automotores.
O etanol ou álcool etílico produzido por hidrólise e depois por processos de fermentação é denominado
bioetanol. As matérias-primas destinadas à produção de bioetanol podem ser divididas em três grupos principais:
(1) fontes de sacarose (cana de açúcar, beterraba açucareira, sorgo doce), (2) fontes de amido (milho, sorgo,
trigo, arroz, batata, mandioca, batata-doce e cevada), e (3) biomassa lignocelulósica (madeira, palha e restos de
culturas), que produz o chamado etanol lignocelulósico, a ser discutido mais abaixo.
O bioetanol é uma necessidade para a usina açucareira, já que não é econômico extrair todo o açúcar
(sacarose) contido no caldo de cana. Durante a produção do açúcar, formam-se as chamadas “águas-mães da
cristalização” (melaço) com as quais a usina realiza a fermentação e, deste modo, aproveita todo o açúcar
contido na planta. A fermentação da sacarose é realizada utilizando-se Saccharomyces cerevisiae, uma levedura.
Uma suspensão contendo cerca de 28% de células da levedura são adicionadas ao reator de fermentação,
juntamente com o caldo da cana esterilizado. A reação química é composta por hidrólise enzimática da sacarose

78
seguida da fermentação de açúcares simples. Inicialmente, a enzima invertase da levedura catalisa a hidrólise da
sacarose produzindo glicose e frutose. Depois, a zimase, outra enzima, também presente na levedura, converte a
glicose e a frutose em etanol. A taxa de conversão de sacarose em álcool atinge cerca de 90%. Após a destilação,
obtem-se um etanol hidratado (92-95%).
A energia necessária para efetuar principalmente a moagem da cana-de-açúcar, nas centrífugas e na
etapa da destilação, é fornecida pela queima do bagaço nas caldeiras da usina. Nas usinas mais eficientes, esta
queima do bagaço gera saldo positivo de energia, que é convertida em energia elétrica e vendida para as
concessionárias de eletricidade, tema a ser abordado mais abaixo.
O Brasil é o maior exportador mundial de etanol e o segundo maior produtor depois dos Estados
Unidos. Todo o bioetanol do Brasil é produzido a partir de cana-de-açúcar, a maior parte é usada internamente
substituindo 40% do consumo de gasolina e cerca de 20% é exportada para os Estados Unidos, União Européia e
outros mercados. No Brasil, o bioetanol é usado puro ou misturado à gasolina em uma proporção contendo 24%
de bioetanol e 76% de gasolina.
O Brasil é o único país a utilizar o E100 (etanol hidratado) em veículos automotores. Na Suécia utiliza-
se o E95 com aditivos para melhorar a ignição, e nos Estados Unidos o E85. O clima mais frio é um dos
principais fatores limitantes para a ampliação do uso do etanol hidratado no hemisfério norte, pois o etanol perde
sua propriedade combustível em temperaturas abaixo dos 13 °C.
O bioetanol é um combustível alternativo, atraente, pois é um recurso renovável e é oxigenado, assim,
apresenta potencial para reduzir emissões de partículas em motores de ignição por compressão. A presença de
oxigênio no bioetanol melhora a combustão e, portanto, reduz as emissões de hidrocarbonetos, monóxido de
carbono, e de partículas. O bioetanol tem ainda um maior número de octanas, limite mais amplo de
inflamabilidade e maior calor de vaporização do que a gasolina. Estas propriedades permitem uma maior taxa de
compressão, menor tempo e melhor queima no motor, vantagens sobre a gasolina num motor de combustão
interna. Em 2010, a Environmental Protection Agency (EPA), nos Estados Unidos, designou o etanol de cana-
de-açúcar como biocombustível avançado, capaz de reduzir as emissões de gases do efeito estufa (GEE) em pelo
menos 61% em comparação com a gasolina.
Contudo a produção de etanol a partir da cana-de-açúcar e do milho (biocombustíveis de primeira
geração) consome grandes quantidades de insumos agrícolas, principalmente compostos nitrogenados, e
agrotóxicos, que contribuem para a degradação do solo, corpos d’água e da qualidade do ar. Também exige o uso
de grandes áreas agrícolas, que deixam de ser utilizadas na produção de alimentos e para outros fins. A fim de
reduzir o impacto gerado pelas monoculturas de cana e milho, muitos grupos de pesquisa, em várias partes do
mundo, têm investido no desenvolvimento e aprimoramento de processos para a obtenção dos chamados
biocombustíveis de segunda geração, como a produção do chamado etanol lignocelulósico.

Etanol lignocelulósico
Os resíduos de culturas agrícolas constituem uma importante fonte de biomassa no mundo, atingindo
algo em torno de 40 milhões de toneladas anuais de resíduos lignocelulósicos, que em grande parte ainda é
subaproveitada ou simplesmente esquecida no campo, causando prejuízos econômicos e ao meio ambiente. A
biodegradação desse material pode ser uma alternativa para reduzir os impactos sobre o ambiente e também
gerar a produção de energia limpa.

79
A biodegradação de lignocelulose foi discutida pela primeira vez há apenas 40 anos. As enzimas de
conversão dependem de um substrato específico, sem formação de produtos secundários, o que reduz a inibição
dos passos seguintes do processo. No entanto, a reação catalisada pelas enzimas que fazem a conversão de
celulose em glicose é lenta a menos que a biomassa tenha sido submetida a um pré-tratamento, o que também é
necessário para chegar a rendimentos elevados e para tornar o processo bem sucedido comercialmente.
O etanol lignocelulósico pode ser produzido a partir de diversos materiais vegetais, os quais podem ser
classificados em quatro grupos: resíduos florestais, resíduos sólidos urbanos, resíduos de papel, e resíduos de
culturas agrícolas.
Basicamente, a biomassa lignocelulósica é composta de cadeias de celulose unidas entre si por ligações
de hidrogênio. Essas longas fibras celulósicas são, por sua vez, recobertas por hemiceluloses (polissacarídeos
ramificados formados principalmente por D-xilose e pequenas quantidades de L-arabinose, D-glicose, D-
manose, D-galactose, ácido glucurônico e ácido manurônico) e lignina (composto polimérico tridimensional
formado por unidades de fenilpropanóides interligados).
Entre os pré-tratamentos para degradação da biomassa lignocelulósica, estão:
- O craqueamento com vapor, no qual a biomassa é submetida a uma exposição a vapor, até atingir uma
temperatura elevada (180-240oC), por tempos curtos (10 segundos ou 5 a 10 minutos) e, a seguir, efetua-se uma
descompressão instantânea. O produto final apresenta hidrólise parcial das hemiceluloses, fusão da lignina e
diminuição do grau de polimerização da celulose.
- O Processo Organosolv, quese baseia no cozimento da biomassa lignocelulósica com o solvente
orgânico (acetona, metanol ou etanol), à elevada temperatura e pressão, e posterior recuperação da celulose e da
lignina. O solvente orgânico é removido e recuperado por evaporação e destilação, sendo reciclado no processo.
- O aquecimento da biomassa em presença de ácido diluído, numa proporção de 1 a 3% da biomassa
seca e a temperaturas de até 200oC por curto tempo (segundos). Nestes processos, a conversão da hemicelulose é
eficiente e conduz a uma alta recuperação dos monômeros de carboidratos. As desvantagens deste tratamento
estão associadas à necessidade de requerer um pós-tratamento de neutralização da acidez com calcário, gerando
como resíduo o gesso. A recuperação do gesso é complexa e, o seu descarte, representa um problema ambiental.
Há ainda pré-tratamentos utilizando processos enzimáticos que empregam celulases e xilanases como
biocatalisadores de hidrólise, os quais requerem condições brandas (temperaturas próximas a 50 oC, pH em torno
de 4,5-6,0 e operação em pressão atmosférica normal), permitindo ainda, conversões superiores às obtidas pela
hidrólise química. Entre as vantagens desses processos estão a menor destruição de açúcares e menor acúmulo de
inibidores de fermentação. Atualmente muitos grupos de pesquisa trabalham no isolamento de celulases e
xilanases, a partir de fungos de diferentes gêneros como Trichoderma, Sporotrichum, Chrysosporum,
Aspergillus, Penicillium, entre outros.
As principais barreiras aos processos enzimáticos são: o custo muito elevado para obtenção, isolamento
e uso das enzimas, o longo tempo para obtenção de altos rendimentos e um alto consumo energético para manter
os grandes volumes em agitação, aquecidos por até 96 horas.
Estudos têm mostrado que cada tonelada de bagaço de cana-de-açúcar após passar por processo de
hidrólise pode gerar algo em torno de 186 litros de etanol, o que poderia contribuir significativamente para o
aumento da produção deste bicombustível sem a necessidade de se ampliar as fronteiras agrícolas.

80
Atualmente a produção de etanol lignocelulósico ainda está num estágio pré-comercial, mas pode entrar
no mercado num futuro próximo. A matéria-prima é abundante, barata e facilmente encontrada, o que é um
incentivo para seu aproveitamento, permitindo a produção de combustíveis valiosos, compostos químicos,
eletricidade e calor, conduzindo a produção de energia sustentável com melhores desempenhos ambientais e
econômicos, através do desenvolvimento dos conceitos de biorrefinarias. No Brasil e Estados Unidos, algumas
estimativas sinalizam que até 2030 o processo de biomassa lignocelulósica ultrapasse o montante de 1,3 bilhões
de toneladas de matéria seca, gerando a produção de mais de 200 bilhões de litros de etanol.

Fontes de biomassa na produção de energia elétrica


A bioeletricidade é uma energia limpa e renovável produzida a partir de qualquer biomassa. O processo
consiste basicamente na queima da biomassa em caldeiras produzindo vapor que gera a propulsão de turbinas
produzindo energia elétrica. Segundo dados da ANEEL, em 2012, no Brasil, a queima do bagaço de cana para
geração de energia elétrica correspondeu a 6,29% da Matriz de Energética Elétrica Brasileira, muito superior as
outras fontes de biomassa que também participam da geração de energia como madeira (0,30%) e casca de arroz
(0,03%).
Em várias partes do Brasil, usinas produtoras de álcool e açúcar utilizam o bagaço da cana para gerar
energia consumida pela própria usina e o excedente tem sido vendido às concessionárias de energia elétrica
locais e distribuída nas cidades próximas. Uma usina de médio a grande porte pode gerar mais de 1500 MW/h,
atendendo o consumo de milhares de habitantes. As usinas brasileiras em 2011 geraram cerca de 10 milhões de
MW/h, energia necessária para atender 21 milhões de habitantes.
Desta forma, à medida que a produção de bioetanol continua a crescer para atender o mercado
automobilistico, a produção dos resíduos, ou seja, o bagaço da cana, já tem hoje um destino que gera lucro,
através da produção de energia elétrica, e num futuro próximo, se a sua utilização se concretizar na produção de
etanol celulósico, o destino deste resíduo e de muitos outros resíduos de biomassa provenientes da agricultura
será fonte de energia limpa e renovável, reduzindo ainda mais a dependência pelos derivados de petróleo.
Finalizando, é sempre bom lembrar que apesar dos benefícios gerados pelos biocombustíveis e fontes de
biomassas, frente aos derivados do petróleo, todas as formas de produção de energia geram impacto sobre o
ambiente, e o homem deve continuar buscando novas formas não só de produção, mas também novas formas de
economizar energia, tornando suas atividades mais sustentáveis e menos agressivas ao ambiente.

81
Ficocolóides: polissacarídeos das algas marinhas suas
aplicações e o cenário industrial atual
Janaína Pires Santos
Vanessa Urrea-Victoria

As algas compreendem um grupo de organismos, os quais apresentam poucas características em


comum, compartilham o hábito predominantemente aquático e são desprovidas de um tecido constituído de
células estéreis envolvendo os órgãos de reprodução e de um sistema diferenciado para condução de água.
Juntamente com um pequeno grupo de angiospermas aquáticas, são consideradas produtores primários que
sustentam a vida nos mares, oceanos entre outros diferentes ambientes hídricos, desempenhando, portanto, um
papel ecológico fundamental na manutenção destes ecossistemas. As algas são encontradas em ambientes
terrestres, aquáticos ou em associações com outros organismos (e.g. líquens, que representam uma associação
dos fungos com as algas). Dentre estas formas, as mais comuns são as de ambiente aquático: rios, lagoas,
mangues e mares. Nestes ambientes, elas podem fazer parte dos bentos (definido como o conjunto de indivíduos
que vivem fixos ao substrato) ou plâncton (conjunto de indivíduos que vivem em suspensão na coluna de água
devido à sua pequena ou nula capacidade de locomoção).
As algas são organismos que apresentam um conteúdo rico em proteínas, vitaminas, sais minerais e
polissacarídeos, que são amplamente utilizados nas indústrias farmacêuticas, cosmecêutica, alimentícia e
biotecnológica. Apesar de possuírem uma grande quantidade de polissacarídeos que de modo geral não são
digeridas pelos seres humanos, é comprovado que o consumo regular de algas proporciona maior capacidade de
digestabilidade. Nos países orientais o uso das algas no consumo direto pelo homem é uma prática bastante
antiga, com evidências de seu uso no Japão há mais de 10.000 anos. Hoje em dia, esse uso é bastante difundido,
sendo alguns gêneros mais amplamente utilizados, por exemplo: Porphyra sp., Eucheuma sp., Laminaria sp. e
Undaria sp., oriundas de cultivo e bancos naturais.
O uso das algas marinhas como fonte de ficocolóides data de 1968, quando as propriedades
emulsificantes e estabilizantes do ágar extraído com água quente de uma alga vermelha foram descobertas no
Japão. Posteriormente outros extratos foram obtidos das algas pardas, em escala comercial devido à sua ação
gelificante. No entanto, foi a partir da Segunda Guerra Mundial que o uso industrial dos extratos de algas
marinhas se expandiu largamente, sendo algumas vezes limitado devido à falta de disponibilidade de matéria
prima.
Países que cultivam macroalgas para fins comerciais somam trinta e um, sendo que 99,6% dessa
produção mundial é restrita a apenas oito países, dentre eles: China (58,4%: 11,1 milhões de toneladas),
Indonésia (20,6%: 3,9 milhões de toneladas), Filipinas (9,5%: 1,8 milhões de toneladas); Coréia do Sul (4,7%:
901.700 toneladas), Coréia do Norte (2,3%: 444.300 toneladas), Japão (2,3%: 432.800 toneladas), Malásia
(1,1%: 207.900 toneladas) e República Unida da Tanzânia (0,7%: 132.000 toneladas) (figura 1A e B).

82
A B

Figura1: Panorama da produção mundial de macroalgas marinhas referentes a dados da FAO do ano
2010.

Segundo a FAO, no relatório de 2012 sobre “O estado mundial da pesca e da aquicultura”, até esta data,
apenas as algas marinhas foram registradas nas estatísticas de produção de plantas aquáticas a nível mundial. A
produção global tem sido dominada por macroalgas marinhas. O volume de produção de algas aquáticas
aumentou em taxas anuais médias de 9,5% em 1990 e 7,4% na década de 2000 (quando comparado com as taxas
de crescimento na produção de animais aquáticos de aquicultura), o que é equivalente à produção de 3,8 milhões
de toneladas em 1990 e de 19 milhões de toneladas em 2010. Algumas espécies como Kappaphycus alvarezii e
as grandes algas pardas (também conhecidas como “kelps”) foram responsáveis por aproximadamente 98% da
produção mundial de algas em 2010 sendo a grande parte desta voltada para alimentação e extração de
ficocolóides.
As algas vermelhas, caracterizam-se pelo conteúdo de polissacarídeos complexos, denominados
carragenanas cujas propriedades dependem de cátions associados, podendo formar géis rígidos na presença de
K+ (kappa-carragenana), géis elásticos na presença de sais de cálcio (iota-carragenana) ou frações não
gelificantes devido ao alto grau de sulfatação (lambda-carragenana) (figura 2). De acordo com suas propriedades
físicas (gelificantes, estabilizantes e emulsificantes) e composição química, esses polissacarídeos extraídos da
parede celular das algas vermelhas terão diferentes tipos de emprego.

kappa-
carragenana

iota-
carragenana

lambda-
carragenana

Figura 2: Esquema da estrutura química das carragenanas.

83
As espécies produtoras de carragenana tipo kappa são: Hypnea musciformis, Gigartina stellata,
Eucheuma cottonii, Chondrus crispus e Iridaea sp. As espécies produtoras de carragenana tipo iota são:
Gigartina sp. e Eucheuma spinosum. As espécies produtoras de carragenana do tipo lambda são: Gigartina sp.
Dentre estas, as únicas que vem sendo cultivadas comercialmente são Eucheuma sp. e Kappaphycus sp.
O conteúdo de carragenana nas algas varia de 30% a 60% do peso seco, dependendo da espécie e das
condições marinhas, tais como luminosidade, variação de nutrientes, temperatura e oxigenação da água. A
carragenana possui a habilidade exclusiva de formar ampla variedade de texturas de gel em temperatura
ambiente: gel firme ou elástico; transparente ou turvo; forte ou débil; termo-reversível ou estável ao calor; alta
ou baixa temperatura de fusão/gelificação. Algumas espécies de algas podem produzir carragenanas de
composição mista, como kappa/iota, kappa/lambda ou iota/lambda. As carragenanas podem ser utilizadas
também como agentes de suspensão, retenção de água, gelificação, emulsificação e estabilização em outras
diversas aplicações industriais.
O primeiro registro do uso de carragenana na indústria alimentar foi em meados do século XIX, como
agente clarificante da cerveja. A extensa lista de características que as carragenanas apresentam, levaram à
expansão na indústria de derivados lácteos, por produzirem soluções de alta viscosidade e géis na presença de
água, devido à sua reatividade com o leite (especialmente com a proteína caseína), resulta em um gel suave e
agradável às papilas, portanto, 52% das aplicações das carragenanas são referentes à indústria de laticínios
(indústria do leite e seus derivados).
Em produtos lácteos, o agente gelificante normalmente usado é a kappa carragenana, devido ao seu
baixo custo, ela pode ser utilizada em sorvetes, achocolatados, flans, pudins, creme de leite, iogurtes, queijos,
sobremesas em pó e leite de coco. Em doces e confeitos, a utilização da iota carragenana oferece vantagem de
produzir um gel de estrutura comparável à da gelatina, mas com um ponto de fusão mais elevado, sua aplicação
inclui sobremesas tipo geleias, doces em pasta, confeitos e merengues. Nos produtos cárneos, a carragenana é
aplicada em presunto, mortadela, hambúrguer, patês, aves e carnes processadas. Nas bebidas, é aplicada para
clarificação e refinação de sucos, cervejas, vinhos e vinagres, achocolatados, xaropes, suco de frutas em pó e
shakes para emagrecimento. Em panificação é utilizada para cobertura de bolos, recheio de tortas e massas de
pão. A carragenana é utilizada, também, em molhos para salada, sopas em pó, mostarda, molhos brancos e
molhos para massas.
Na indústria dos cosméticos tem ocorrido o uso crescente das carragenanas na fabricação de loções,
cremes e géis perfumados. A aptidão para formar finas películas torna a carragenana um excelente
acondicionador de xampu, além de cremes de beleza, pois a rápida evaporação da fase aquosa da emulsão
liberada sobre a pele forma um microfilme oleoso protetor e medicinal. Além disso, podem ser usadas na
estabilização de cremes dentários, devido à sua capacidade de formar géis aquosos altamente estáveis contra a
degradação enzimática, tornando a carragenana única como agente espessante nesse tipo de pastas. A sua
estrutura permite, nestas circunstâncias, a liberação dos sabores e aromas durante a lavagem dos dentes.
Outro tipo de ficocolóide produzido pelas algas vermelhas é denominado ágar-ágar, também conhecido
como ágar ou agarose. É um hidrocolóide extraído de diversos gêneros de algas vermelhas. O ágar-ágar é
resultado da mistura heterogênea de dois polissacarídeos: agarose e agaropectina, encontrados na parede celular.
A agarose é o componente gelificante enquanto a agaropectina tem apenas uma baixa capacidade de formar gel.
É uma família de polissacarídeos que apresenta estruturas de D-galactose (figura 3).

84
Figura 3: Esquema da estrutura química do ágar-ágar.

A quantificação dos teores de sulfato na molécula de ágar fornece um dos parâmetros de qualificação
deste ficocolóide, a retirada de sulfato e a sua transformação em 3,6 anidrogalactose aumentam a qualidade do
gel. Contudo, o ágar que é utilizado na bacteriologia (e.g. meios de cultura) deve ter alguns pré-requisitos, como
ser resistente às hidrólises enzimáticas, possuir uma alta força do gel e ausência de cargas.
O ágar na forma pura para análise é suplementado com uma mistura de nutrientes, usado em Biologia
Vegetal para auxiliar a germinação no cultivo in vitro, sob condições estéreis e com o meio de cultura variando
de acordo com cada espécie vegetal. Este tipo de meio é particularmente útil no controle de concentrações
exógenas específicas de certas biomoléculas, como por exemplo, os hormônios vegetais, que podem induzir
determinados padrões de crescimento de acordo com a concentração aplicada.
O ágar é um polissacarídeo que possui muitas aplicações, sendo utilizado principalmente na indústria
alimentícia e na área de pesquisas, devido às suas aplicações biotecnológicas. Nas indústrias alimentícias o ágar
tem uso generalizado, onde se aproveitam suas propriedades emulsificantes, estabilizantes e gelificantes, assim
como sua alta resistência ao calor. Em virtude do seu baixo valor energético é empregado na elaboração de
alimentos dietéticos. O ágar destinado à alimentação é considerado de boa qualidade, quando possui baixos
teores de sulfato.
Além da grande utilidade na área de biotecnologia, sendo empregado em géis utilizados na separação de
eletrólitos em eletroforese, na separação de moléculas, em técnicas de imunodifusão, em meios de cultivo
microbiológico. A utilização do ágar para preparação desses meios deve-se principalmente à: formação de gel
em baixas concentrações; baixa reatividade com outras moléculas e resistência à degradação pelos
microrganismos mais comuns. Preparações comerciais de ágar em escala mundial são obtidas principalmente por
espécies pertencentes às ordens Gelidiales e Gracilariales. As formas de extração deste ficocolóide podem
variar de acordo com o gênero escolhido (figura 4).
Por fim, os alginatos são um termo usado para os sais de ácido algínico, encontrados nas paredes
celulares das algas pardas e constitui outro grupo de ficocolóides. São polímeros formados por cadeias longas
dos ácidos L-glururônico e D-manurônico, podendo variar de acordo com a espécie (figura 5). Alginatos
associados a sódio, cálcio, potássio ou magnésio são solúveis em soluções aquosas em pH acima de 3,5. Dessa
forma os alginatos não são necessariamente os mesmos, podendo ser encontrados alginatos com alta viscosidade
quando dissolvido em água (por exemplo: Macrocystis sp.) ou baixa viscosidade (e.g. Sargassum sp.).
Os alginatos são utilizados em indústrias têxteis, devido à alta qualidade do gel produzido e por não
reagirem com os corantes, dessa forma são os melhores espessantes para tais corantes, tornando-se mais caros do
que os demais encontrados no mercado.

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Figura 4: Esquema de extração do ágar com modificações de acordo com o gênero escolhido.

Figura 5: Esquema da estrutura química do alginato.

Os alginatos são utilizados em indústrias têxteis, devido à alta qualidade do gel produzido e por não
reagirem com os corantes, dessa forma são os melhores espessantes para tais corantes, tornando-se mais caros do
que os demais encontrados no mercado. São também utilizados na indústria alimentícia, devido à sua capacidade
estabilizante, reduzindo a formação de cristais de gelo mesmo quando submetidos a temperaturas muito baixas,
86
além de proporcionarem o aspecto macio. Outra aplicação importante é na indústria de cervejas por formar uma
película que não permite a formação de bolhas, mesmo diante da agitação do líquido.
A importância dos alginatos como insumo para as indústrias alimentícia, farmacêutica e química, é
devido às suas propriedades hidrocolóides, ou seja, sua capacidade de hidratar-se em água quente ou fria para
formar soluções viscosas, dispersões ou géis. Os alginatos possuem propriedades espessantes, estabilizantes,
gelificantes e formadoras de películas, resultando em uma ampla gama de aplicações.
Os principais gêneros de macroalgas utilizados para produção de alginato são: Macrocystis sp.,
Laminaria sp. e Ascophyllum sp., todos característicos de águas frias. O gênero Macrocystis é coletado de
populações naturais na costa oeste dos EUA, enquanto o gênero Laminaria vem sendo cultivado intensamente na
China, onde a produção ultrapassou 200.000 toneladas de algas secas por ano. Uma significante parcela desse
material é utilizado nas indústrias de alginato da própria China. Aproximadamente 27.000 toneladas de alginatos
com valores de US$ 230 milhões foram comercializados em 1990. A produção comercial de alginatos teve início
em 1929 e, em 1934, em escala limitada na Grã Bretanha e, mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial,
surgiu a indústria de alginatos na Noruega, França e Japão.
De forma geral, o interesse e a busca pela aplicabilidade dos polissacarídeos das algas tem aumentado
consideravelmente nos últimos anos, devido aos estudos fitoquímicos na procura de bioatividade destes
polissacarídeos. Atualmente, já são reconhecidas importantes atividades biológicas para os ficocolóides como:
1) antivirais, especificamente lambda e iota carragenana, pois em pequenas concentrações provocam
simulação linfocitária capaz de inibir em 80% (iota carragenana) e 100% (lambda carragenana) o
desenvolvimento do vírus da herpes simplex (HSV). Gigartina skottsbergii tem potenciais efeitos antivirais
contra o HSV (tipo I e II) durante a etapa de adsorção do vírus. Também interferem na fusão das células
infectadas com o vírus da imunodeficiência humana (HIV) e inibem a enzima retroviral específica “transcriptase
reversa”. Outros estudos sugerem que as moléculas de carragenana inibem as infecções por DNA- e RNA-vírus;
2) anticoagulante do sangue, pelas semelhanças estruturais com heparina, tem sido reportada a bioatividade da
alga verde Codium cuneatum e na alga vermelha Euchema sp. As propriedades anticoagulantes e
hipocolesterolêmicos das lambda-carragenanas apresentam uma atividade significativamente maior que o tipo
kappa e tipo iota; 3) antitumorais: Aumento do tempo médio de sobrevivência, redução do volume do tumor, e
contagem de células viáveis. Esta atividade está reportada nas espécies Gigartina intermedia e Chondrus
ocellatus, obtidas mediante o teste de inibição do “Ehrlich carcinoma”; e 4) antiinflamatórias produzindo
efeitos prolongados no sistema imunológico. Estas atividades foram efetivamente comprovadas e podem garantir
o desenvolvimento de novos fármacos, representando um grande ganho para o conhecimento e para setores
importantes da indústria farmacêutica.
As macroalgas nas últimas décadas têm ocupado importante papel no setor industrial, devido à
produção de ficocolóides e de substâncias bioativas. De acordo com o panorama apresentado, esses organismos
representam uma potencial fonte comercial e biotecnológica que ainda tem sido pouco explorada, principalmente
no Brasil. O Brasil possui uma grande extensão litorânea com grande biodiversidade algácea, que precisa da
investigação científica sobre o potencial comercial e a extração de ficocolóides ou de substâncias bioativas
produzidas por esses organismos.

87
Sinalização luminosa e o desenvolvimento vegetal
Ricardo Ernesto Bianchetti

Condicionadas ao seu padrão séssil, as plantas foram selecionadas com uma estrita sensibilidade para a
percepção de diversos sinais abióticos como, por exemplo, disponibilidade de nutrientes e água, alterações na
temperatura e altitude, percepção da duração do dia e da luz, dentre outros. A sinalização luminosa, além de ser
essencial para o processo de fotossíntese, exerce grande influência durante todo o ciclo de vida das plantas, que
vai desde a germinação até as fases vegetativa e reprodutiva (figura 1).
Não surpreendente, em torno de 20% do material genético de espécies modelos mostrou-se
diferencialmente expresso em presença de luz, sendo todas as alterações que a luz é capaz de fazer durante a vida
das plantas é denominada fotomorfogênese. Neste cenário detectaram-se fotorreceptores capazes de perceber não
só a presença da luz, mas também sua intensidade, qualidade e direção. Tais fotorreceptores são descritos em
quatro grandes famílias: fitocromos, tendo absorção principalmente no espectro vermelho/vermelho-extremo;
criptocromos e fototropinas percebendo na intensidade UV-A/Azul e homodímero UVR8, recentemente
identificado, que é capaz de responder à luz UV-B. Em ações sinérgicas, antagônicas ou independentes, estes
fotorreceptores atuam na interface entre o ambiente externo e as vias de sinalização que regulam todas as
respostas a sinais luminosos, relacionados ao crescimento e desenvolvimento vegetal, permitindo à adaptação
das plantas ao ambiente em que vivem.

Figura 1: Influência dos fotorreceptores em diversas fases do ciclo de vida vegetal.


88
Propriedades da luz
A luz pode ser definida como radiação eletromagnética, tendo propriedades ondulatórias e de partícula.
A luz se propaga por ondas em diferentes comprimentos, e contém propriedades eletromagnéticas, sendo capaz
de viajar em meio sólido, líquido, gasoso ou no vácuo. O comprimento de onda é a distância entre sucessivos
pontos, calculadas como o comprimento entre dois sucessivos picos de onda. A unidade de medida comumente
utilizada para o comprimento de onda é o nanômetro (1 nm = 10-9 m ) . Além do comprimento de onda, também
podemos caracterizar a luz conforme a frequência de oscilação (dada em cm/s ou ciclos/s), que corresponde à
quantidade de ondas que passa por determinado ponto em determinada fração de tempo. A frequência (v) é
inversamente proporcional ao comprimento de onda (λ) e diretamente proporcional à velocidade da luz (υ),
como mostrado na equação 1. Sendo assim, a velocidade da luz é o valor subtraído da constante de
aproximadamente 300 mil km/s (que corresponde à velocidade da luz no vácuo) de acordo com o meio em que a
luz está se propagando.
λv = υ (Eq. 1)
Além das propriedades ondulatórias, a luz também exibe propriedades de partícula tendo então efeito
fotoelétrico. As partículas podem ser divididas e organizadas como fótons, o fóton possui determinada
quantidade de energia por mol (E), que está relacionado ao comprimento de onda e à frequência, conforme
mostrado na equação 2.
E = hv = hυ/ λ (Eq. 2)
Onde h é a constante de Planck = 6,6 x 10-34 J/s.
Nas plantas, a absorção de luz pelos receptores e pigmentos ocorre em comprimentos de onda
específicos, as regiões do espectro eletromagnético que mais interessam, nesse caso, são do ultravioleta,
passando pelo visível, até o infravermelho (Tabela 1) . A partir da energia recebida, o elétron passa do estado
fundamental para o estado excitado, sendo a diferença de um estado para outro a energia absorvida pelo fóton.
As características dos comprimentos de onda da tabela 1 são importantes para os diversos
fotorreceptores existentes nas plantas, onde tais moléculas possuem regiões específicas que tem a capacidade de
absorver determinada quantidade de energia, que são provenientes de comprimentos de ondas específicos da luz.

Tabela 1: Definição e caracterização dos comprimentos de onda da luz.


Cor Comprimento de Comprimento Frequência
onda (nm) representativo (nm) (ciclos/s)
Ultravioleta-B 280-320 254 11.80 X 1014
Ultravioleta-A 320-400 360 8,33 X 1014
Violeta 400-425 410 7.31 X 1014
Azul 425-490 460 6.52 X 1014
Verde 490-560 520 5.77 X 1014
Amarelo 560-585 570 5.26 X 1014
Laranja 585-640 620 4.84 X 1014
Vermelho 640-740 680 4.41 X 1014
Infravermelho >740 1400 2.41 X 1014

89
Fotorreceptores: propriedades e estrutura
Estudos pioneiros foram feitos com um fotorreceptor que é capaz de absorver na região do vermelho
(640-740 nm). A ideia de sua existência foi proposta na década de 30, com experimentos de Flint e McAlister
que mostraram que sementes de alface (Lactuca sativa) apresentaram alta germinação ao serem irradiadas com
luz vermelha e que a germinação era inibida com luz vermelho-extremo. Na década de 50, análises sobre o
espectro de absorção e espectro de ação de vários fenômenos ajudaram a elucidar a presença deste fotorreceptor
e os comprimentos de onda em que havia uma maior absorção, mostrando que um único pigmento, que absorve
na região do vermelho, é responsável não apenas pela germinação de sementes de certas espécies, mas sim por
um leque de respostas fisiológicas nas plantas. Porém, o mais impressionante não foi a descoberta de um
espectro específico para o pigmento, mas a visualização nos espectros que um pico de absorção na região do
vermelho-extremo era capaz de reverter as respostas que seriam obtidas pela radiação no vermelho. Nesse
contexto duas hipóteses haviam se tornado viáveis: a presença de dois receptores com ações antagônicas ou a
presença de um único receptor com fotorreversibilidade, evento esse que jamais havia sido descrito em sistemas
biológicos. Apenas na década de 80, haloproteínas deste fotorreceptor foram detectados em plântulas estioladas
de aveia e as propriedades de fotorreversibilidade foram demonstradas in vitro, mostrando que ele absorvia na
região do vermelho e inibia a própria ação quando absorvia na região do vermelho-extremo.
Identificado como fitocromo, este pigmento pode existir em duas formas – Fv que absorve em luz
vermelha, com pico de 660 nm ou Fve, que absorve em luz vermelho-extremo, com pico de 730 nm (figura 2).
Ao comparar o espectro de absorção com o espectro de ação fisiológica, foi possível detectar que o fitocromo
não está envolvido apenas na germinação de sementes, mas também durante todo o ciclo de vida vegetal, em
diversas etapas do desenvolvimento. Os fenômenos associados ao fitocromo variam conforme a intensidade
luminosa e o estágio de maturação no tecido e estão associados com a promoção de germinação em sementes
fotoblásticas, processo de desestiolamento, escape da sombra, desenvolvimento foliar, síntese de clorofilas e
antocianinas, biogênese plastidial em folhas e frutos, regulação do relógio biológico, evocação do meristema
floral em plantas fotoperiódicas, entre outras ações.

Figura 2: Espectro de absorção do fitocromo.


90
Em Arabidopsis, fitocromo é descrito como uma família multigênica, subdivida em dois tipos:
fitocromo 1, representado pelo phyA que responde preferencialmente no espectro do vermelho extremo (e em
menor escala na luz azul) e é rapidamente degradado na presença de luz, e fitocromo do tipo 2, representado por
phyB, phyC, phyD e phyE que são fotoestáveis e respondem na faixa do vermelho. Nos dias de hoje os
fitocromos mais estudados, e conservados durante a evolução das plantas, são phyA e phyB que podem agir pelas
mesmas vias moleculares ou em vias independentes.
Entre as Angiospermas, a estrutura básica do grupo cromóforo dos fitocromos é a mesma: um tetrapirrol
linear, constituído de quatro anéis, totalizando 19 carbonos na cadeia principal e com um grupamento amina em
cada anel, que são denominados A-B-C-D, e sintetizado nos plastídios. Para a síntese do cromóforo é essencial
as enzimas proveniente dos genes Long Hypocotyl 1 e 2 (HY1 e HY2), localizados no núcleo celular, sem estas
enzimas a formação do cromóforo não ocorreria, invalidando as respostas associadas ao fitocromo. Após a
percepção da sinalização luminosa no espectro vermelho, existe uma alteração conformacional no cromóforo
entre a ligação dos carbonos 15 e 16 que promove a rotação do anel D. Este evento irá modificar não só o
posicionamento deste anel, mas também toda a estrutura física do cromóforo, alterando também a região dos
ácidos propil carboxílicos que são ligados aos carbonos 8 e 12 que estão, respectivamente nos anéis B e C, e
fazendo alterações na ligação tioester que liga o anel A a um aminoácido cisteína presente na apoproteína ligada
ao cromóforo. Além das mudanças no cromóforo, a presença da luz vermelha também promove mudanças na
conformação de aminoácidos da apoproteína, portanto, a radiação no espectro do vermelho irá alterar toda a
estrutura do fitocromo. A apoproteína que se liga ao anel A é sintetizada no citosol e corresponde à principal
causa de diversidade de respostas fisiológicas associada aos diferentes tipos de fitocromos. Provenientes de uma
família multigênica (PHYA-PHYE em Arabidopsis), a apoproteína é capaz de se ligar de forma espontânea ao
cromóforo através de seu domínio GAF, região onde se localiza a cisteína que se liga ao anel A, na extremidade
da região N-terminal da proteína, essa ligação confere propriedades únicas ao fitocromo. A extremidade N-
terminal também tem regiões específicas para estabilizar a molécula de fitocromo do momento em que recebe a
irradiação luminosa até a resposta a nível molecular. A apoproteína tem uma região articulada que separa a
extremidade N-terminal da C-terminal, esta não está associada à percepção direta na luz, mas detém as
propriedades de resposta moleculares associadas ao fitocromo. Regiões da extremidade C-terminal tem ação
como quinase, capaz de fosforilar não só outras moléculas como também fazer autofosforilação quando recebe o
estímulo pela luz. A região C-terminal também tem um domínio que guia o fitocromo para o núcleo celular (para
phyB), justificando o porquê de respostas associadas à luz vermelha estarem ligadas a um maior lag time (Tempo
que a resposta fisiológica leva para aparecer após o estabelecimento do sinal ambiental) e regulação ao nível
transcricional. Cromóforo e apoproteína se associam de forma espontânea no citosol, mantendo a haloproteína
em Fv até a percepção do sinal luminoso.
A síntese do cromóforo e da apoproteína seguem em vias diferentes. O fitocromo quando está no
escuro, permanece na forma inativa (Fv) no citosol. Ao receber a luz vermelha, ele é convertido para a forma
Fve através das alterações já descritas, no entanto a forma Fve do fitocromo é pouco estável, fazendo com que a
molécula volte de forma espontânea para sua conformação inicial logo após um período sem a sinalização
adequada, nesse período em que está em Fve, o fitocromo deverá ser capaz de promover alterações a nível
molecular, sendo que, somente a partir deste momento a resposta será irreversível. O tempo de escape das
respostas associadas ao fitocromo é definido por quanto tempo a resposta fisiológica pode ser revertida após a

91
aplicação do sinal, antes de chegar a uma fase irreversível. A iniciação da resposta pode variar de minutos a
horas e pelas propriedades da fotorreversibilidade, presente em algumas respostas nos fitocromos, pode ser
instantaneamente anulada após aplicação da luz vermelho-extremo. Apesar do espectro de absorção das duas
formas do fitocromo serem bem definidos, em condições iluminadas é praticamente impossível encontrar apenas
Fv ou Fve. Isso porque, apesar da absorção do Fve ser no vermelho-extremo, o espectro de absorção das duas
formas se sobrepõe bastante em determinada região do vermelho (figura 2), existindo conversão contínua de Fve
em Fv e de Fv em Fve mesmo quando irradiado com luz vermelha. O resultado é um equilíbrio fotoestacionário
entre as duas formas da molécula. A atividade do fitocromo é mostrada na equação 3, em que φ é igual a
porcentagem de fitocromo ativo e F corresponde a quantidade total de fitocromo.
Fve/F = φλ (Eq. 3)
Ao receber o pulso de luz vermelha (660 nm), é esperada uma faixa de 85% de Fve. Por outro lado, o
vermelho-extremo (730 nm) deixa apenas 3% do fitocromo na forma Fve.
A resposta fisiológica dependerá do valor de φ em determinado comprimento de onda, onde se
constatará se a quantidade de Fve será suficiente para a resposta esperada.
Apesar das características relacionadas à fotorreversibilidade ser classicamente associado aos
fitocromos, estudos relacionados ao leque de respostas fisiológicas que ele pode proporcionar constataram que os
diferentes tipos de fitocromo podem responder de formas diferentes à luz vermelha, e que a fotorreversibilidade
não é uma característica obrigatória à promoção de respostas relacionadas aos fitocromos. De fato, além da
resposta à qualidade de luz (dependente da freqüência ondulatória), diferentes tipos de fitocromos foram
relatados com resposta dependente também da fluência do sinal luminoso quando submetidos à luz vermelha. A
fluência é determinada pela quantidade de µmol/m² de energia luminosa, e as três diferentes formas clássicas de
resposta podem ser visualizadas no Quadro 1. Em alguns casos, a propriedade de fotorreversibilidade não
invalidará a resposta fisiológica (Very low fluence) e em outros casos ela não será relevante (High irradiance).
As respostas em Low fluence e Very Low fluence são dependentes da qualidade da luz e da quantidade de
fluência recebida, portanto nesse segundo parâmetro dois fatores são extremamente importantes para ativar a
resposta do fitocromo, conforme mostrado na equação 4.
α = t.f (Eq. 4)
α = atividade do fotorreceptor; t = tempo; f = fluência
Portanto a resposta é desencadeada pelo produto da fluência aplicada e o tempo em que a célula vegetal
é submetida ao tratamento luminoso, esse produto é chamado de lei da reciprocidade, um dos fatores pode ser
aumentado contanto que o outro seja reduzido, já respostas em High irradiance não podem ser desencadeadas
pela luz fraca contínua e nem pela luz forte em pouco tempo, portanto não obedece a lei da reciprocidade.
Tipo de resposta Fluência Fotorreversibilidade Quantidade da forma ativa necessária
para desencadear a resposta

Very Low fluence 0,001–0,1 μmol/m2 Não Fve 0,02%


<que 3% no vermelho extremo
2
Low fluence 1-1000 μmol/m Sim Fve aproximadamente 80%

High irradiance Luz contínua e irradiância Não Fotoequílibrio entre Fv-FVe


alta até saturação
Quadro 1: Respostas associadas à fluência de luz percebida pelo fitocromo.

92
As diferenças de resposta associadas aos fitocromos são relacionadas ao fato das diferentes
apoproteínas serem codificadas por diferentes genes, espalhados pelos cromossomos da planta modelo, e
necessitarem do controle estrito de diferentes respostas fisiológicas de acordo com a variação do dia. Por essa
razão, as propriedades distintas de phyA e phyB se justificam para as plantas, em ambiente selvagem, terem um
controle da duração e do momento do dia que deverá ocorrer determinada resposta. phyA é relacionado
principalmente a High irradiance e ao fotoequilíbro entre Fv e Fve, esta característica faz com que a molécula
absorva preferencialmente em comprimento de ondas maiores que phyB, portanto está comumente associado
com resposta de escape de sombra ( maiores comprimentos de onda são responsáveis pela luminosidade de
lugares mais sombreados) e promover uma resposta primária (gene primariamente transcrito em resposta ao
fitocromo que pode desencadear a resposta fisiológica diretamente ou em uma molécula sinalizadora), que
posteriormente poderá resultar em uma resposta secundária. O processo de desestiolamento de plântulas de
Arabidopsis possui 10% dos seus genes diferencialmente expresso por ação de phyA, este fotorreceptor é capaz
de controlar simultaneamente um grande número de respostas fisiológicas. Apenas neste evento ele é associado
com respostas upregulation ou downregulation no metabolismo celular, biogênese plastidial, sinalização
hormonal, reguladores transcricionais, transporte de moléculas e defesas a estresses abióticos, mostrando a
complexidade da cadeia de resposta do phyA.
Podem agir de forma sinérgica, como na degradação de proteínas inibidores de genes associados à
fotomorfogênese Phytochrome Interaction Factors (PIF) e na ativação da transcrição de Long Hypocotyl 5
(HY5), ou de forma antagônica, phyA e phyB se complementam mediando a percepção da radiação no espectro
do vermelho. Comumente associado a respostas com efeito de fotorreversibilidade, o phyB pode ser regulado
pela luz vermelha e ter sua resposta inibida pela luz vermelho-extremo. Com essa percepção apurada da
qualidade da luz e da fluência, ocorre uma resposta fisiológica adequada não só à presença da luz vermelha, mas
também das variações de fluência e qualidade de luz regida por um período de 24 horas nas diferenças das
épocas sazonais. As diferenças dos dois tipos de fitocromos não são restritas somente à percepção em
determinado espectro de luz, ambos possuem singularidades em suas propriedades bioquímicas que resultam em
diversas formas de evitar a sobreposição das respostas fisiológicas. Este mecanismo é extremamente importante,
principalmente se levar em consideração a sinalização e interações em vias semelhantes (mostradas
posteriormente), e o efeito de conversão mostrado na equação 3. As características bioquímicas associadas às
diferenças entre phyA e phyB são relacionadas à fotoestabilidade das moléculas. Enquanto phyA é rapidamente
degradado em presença de luz, phyB é estabilizado quando recebe a irradiação, por consequência, as respostas
associadas ao primeiro tendem a ser mais rápidas que o segundo. Para um rápido lag time, as plantas apresentam
um eficiente transporte de phyA do citosol ao núcleo,o transporte de phyA ocorre quando a apoproteína do
fitocromo, após ser irradiada com a luz vermelha, se relaciona de forma positiva às proteínas de citosol Far Red
Elongated Hypocotyl 1 (FHY1) e sua homóloga FHL. Dessa forma o transporte de phyA do citosol para o núcleo
celular é condicionado a existência dessas duas proteínas e apenas ocorre quando a sinalização luminosa está
ativa e levando em consideração a proporção Fve/Fv. Este transporte faz com que o phyA chegue ao núcleo após
pouco mais de dez minutos depois de receber a sinalização adequada, induzindo respostas primárias antes de sua
degradação e antes da chegada posterior de phyB. A mutação em FHY1/FHL faz o fitocromo A se acumular no
citosol e inibe grande parte de respostas associadas a ele. Apesar da maioria das respostas associadas à phyB

93
também serem relacionadas ao controle transcricional, o deslocamento deste do citosol para o núcleo é feita de
forma mais lenta do que phyA. Após o citosol da célula vegetal receber a irradiação vermelha, o fitocromo Fve é
transportado para o núcleo acumulando-se, a aplicação da luz vermelho-extremo pode reverter esse efeito, mas
em caso de não fotorreversibilidade, phyB pode se acumular no núcleo celular por bastante tempo, promovendo
respostas mais lentas.
Poucos estudos, devido a variação interespecífica, são realizados sobre phyC, phyD e phyE. Com a luz
sendo um sinal essencial para todos os fitocromos e estando presente em forma constante no ambiente, as plantas
também desenvolveram proteínas que conseguem inibir o sinal luminoso quando este é excedente, tais proteínas
podem ser exemplificadas como transcritos dos genes Culin 4 (CUL4), Constitutive Photomorphogenesis 1
(COP1), UV Damage DNA Binding (DDB), Detiolated 1 (DET1) e PhyA Suppressor 1 (SPA1) que atuam
inibindo o fitocromo ou marcando transcritos do gene HY5 para a degradação.
Acrescentando informações quanto aos fotorreceptores e regulação de respostas fisiológicas mediadas
pela luz, durante as décadas de 80 e 90 foram reportadas a existência do gene Long Hypocotyl 4 (HY4). Este
gene está relacionado com a formação de um receptor responsivo à luz azul e na faixa UV-A, a caracterização
deste receptor resultou na identificação de criptocromos em plantas. O criptocromo é amplamente relatado em
todos os organismos vivos, exercendo funções diferenciadas. Em plantas, a resposta estrita à sensibilidade
luminosa, mais especificamente na região do UV-A/Azul, vem adicionando complexidade na percepção da luz e
no processo de fotomorfogênese.. Isso se deve ao fato de que não apenas o fitocromo, mas outro fotorreceptor é
capaz de agir durante a regulação molecular associada à luz em diversas etapas do desenvolvimento vegetal
(figura 1). Apesar de responderem em comprimentos de onda diferentes, fitocromos e criptocromos são capazes
de se relacionarem indiretamente, através de vias semelhantes de respostas, como na formação de antocianinas,
desestiolamento, regulação do relógio biológico e controle da floração. Criptocromos agem estabilizando HY5,
através da degradação de COP1 e SPA1. Semelhante aos fitocromos, os criptocromos são descritos em um
conjunto de receptores diferentes. Em Arabidopsis foram descobertos a presença de três criptocromos (cry1, cry2
e cry3). Cada um dos tipos de criptocromo pode agir de forma independente ou integrada em diversas respostas
fisiológicas. Não surpreendentemente, os criptocromos também são regulados e regulam os fitocromos. Eles
podem agir de formas sinérgica,, como por exemplo, cry1 com phyA, e antagônica, cry2 com phyA e cry1/cry2
com phyB. Estudos recentes tem mostrado também, relações diretas entre os dois fotorreceptores, com a
capacidade de phyA de fosforilar a região C-terminal dos criptocromos.
Os criptocromos são compostos por uma região N-terminal, associada ao cromóforo e a região C-
terminal que fará o tipo de resposta relacionado à luz azul. A região N-terminal da proteína que forma os
criptocromos tem um sistema antena, onde está localizada uma pterina e uma flavina. No escuro a flavina é
existente na forma oxidada (FAD), ao receber a luz na frequência do azul a energia recebida indiretamente pela
pterina ou diretamente pela flavina fará esta última ser excitada, passando para um estado transitório de semi-
redução (FADH.) que ocorre alguns minutos após a percepção deste sinal ambiental. A fotorredução da flavina
está associada principalmente à percepção da luz por aminoácidos aromáticos, que estão constantemente
associados com a percepção na radiação do ultravioleta e azul. O triptofano se mostrou associado como o
receptor da luz, que transfere elétrons culminando na semi-redução de FAD. O estado semi-reduzido da flavina
não é estável e pode ser revertido na presença de escuro contínuo. Outros fatores como a luz verde tem sido
relatados como sendo essenciais para diminuir o tempo hábil de semi-redução da flavina, reduzindo as respostas

94
relacionadas ao criptocromo. Após a percepção do cromóforo no estado FADH, a região C-terminal da proteína
será ativada e sinalizará respostas associadas à luz azul. Diferentemente da região N-terminal que é
extremamente conservada, a região C-terminal tem uma extensão diferente e pode variar interespecificamente, e
justamente nesta região que existe a diferença de diversidade das respostas de cry1 e cry2. Após a percepção da
luz azul, a flavina na região N-terminal ficará em um estado semi-reduzido. A transferência de elétrons fará a
dissociação da região C-terminal, aumentando a área de contato da molécula do criptocromo e também as
propriedades bioquímicas deste, levando a interação com outras moléculas e resposta a nível fisiológico, esta
propriedade, juntamente com as propriedades quinases vem sendo relatadas como a forma de ação do
criptocromo.
Semelhantemente aos fitocromos, nas plantas, a evolução dos criptocromos se deu de forma que cry1 e
cry2 apresentassem estruturas e formas de respostas distintas, mesmo ambos percebendo a luz azul. Localizados
constitutivamente no núcleo celular e interagindo na maior parte nele, após a percepção da luz azul, cry1 é capaz
de se deslocar para o citosol ou permanecer no núcleo, enquanto cry2 apenas responderá no núcleo Os
criptocromos também podem se relacionar com a fluência (Equação 4). cry2 tem uma baixa resposta em
fluências muito altas, ao receber a radiação no comprimento do azul apresenta o máximo de sua atividade nos
primeiros momentos de percepção e vai sendo linearmente degradado conforme o tempo, ou aumento da
intensidade da luz azul. Por outro lado, cry1 mostra o máximo de sua resposta em fluências muito alta, o que
mostra uma heterogeneidade nas respostas dos dois fotorreceptores, sendo capazes de perceber de forma mais
apurada o sinal ambiental, ao qual a planta está exposta, resultando na resposta fisiológica. O cry3 ao contrário
dos outros dois, tem uma diferenciação grande na região C-terminal, conservando apenas o domínio N-terminal e
a percepção a luz azul/UV-A. Portanto os eventos fisiológicos controlados por ele não estão relacionadas às
clássicas respostas fotomorfogênicas descritas para criptocromos, e sim relacionados com transferência
eletrônica, tendo ação na mitocôndria e cloroplastos.
Recentemente foi identificado um novo tipo de fotorreceptor que responde na radiação UV-B,
denominado UVR8. Os estudos quanto a esse tipo de receptor ainda são escassos e poucos conhecimentos
existem sobre quais respostas fisiológicas específicas eles são associados, no entanto, a estrutura e modo de ação
deste fotorreceptor vêm sendo elucidados. O UVR8 é um dímero quando a planta é exposta ao escuro ou à luz
branca (escassa de radiação UV-B), porém quando está na luz UV-B é dissociado em um monômero.
Obedecendo a lei de reciprocidade (equação 4). O UVR8 tem o aminoácido aromático triptofano que percebe o
tempo de exposição e a fluência da radiação UV-B. Posteriormente, após receber a radiação, este fotorreceptor é
convertido para a forma de monômero, sendo então capaz de se associar com a proteína COP1. A associação
UVR8/COP1 resultará na síntese de genes relacionado à respostas à luz UV-B.
Fechando a quarta grande família de fotorreceptores, existem as fototropinas, que foram descobertas no
fim da década de 90. .A fototropina 1 foi associada a transcrição de gene Non-Phototropic Hypocotyl 1 (NPH1),
e a percepção desse fotorreceptor foi definida na luz na região do azul/UV-A. Classicamente esta percepção é
associada a experimentos pioneiros de Darwin, mostrando o crescimento tropico do caule em direção a um sinal
luminoso. De fato, diferentemente dos criptocromos que absorvem na mesma região do espectro, as fototropinas
estão mais associadas a respostas rápidas após receber a luz azul/UV-A, desencadeando movimento de estruturas
e de moléculas, como movimento do caule, abertura de estômatos e movimento dos cloroplastos. Os relatos da
forma de resposta deste fotorreceptor são, comumente, feitos com base na movimentação de proteínas, ativações

95
pós-traducionais e polarização de membranas, não sendo associados à alterações transcricionais.
Diferentemente dos criptocromos, as fototropinas são associadas às membranas e não ao núcleo celular, portanto
a resposta ao mesmo estímulo ambiental pode desencadear vias independentes para fototropinas e criptocromos.
A estrutura química das fototropinas é constituída de um grupo C-terminal, com uma região quinase (PKD) e
uma região N-terminal, que abriga dois domínios Light-Oxygen-Voltage sense (LOV1 e LOV2) que são
associados à flavinas, receptores da luz azul. Após receber a luz azul, o estado excitado do cromóforo fará a
dissociação do domínio LOV da PKD na região C-terminal da fototropina. Ao tempo em que esta região se
desvincula fisicamente do domínio LOV, ela conseguirá fazer a autofosforilação e desencadear as alterações em
resposta a luz azul.
Mesmo tendo os dois domínios LOV responsivos à luz azul, LOV1 e LOV2 exercem funções diferentes
na molécula da fototropina, resultando em um controle mais refinado da percepção ambiental LOV2 tem ação
deixando o PKD constitutivamente inativo, ao receber a luz azul a excitação de LOV2 acarreta a liberação do
domínio que rapidamente será autofosforilado e mediará as respostas a nível celular, ao contrário LOV1 apenas
agirá como um atenuador das respostas mediadas pela luz. Mutações especificamente nessas regiões resultaram
na resposta da luz azul constitutivamente ativa, independente da resposta do sinal ambiental, portanto o domínio
LOV tem como função fazer o controle estreito da resposta e permitir que ela ocorra apenas em presença à
sinalização. As fototropinas se apresentam nas plantas como dois tipos de receptores distintos, denominados
phot1 e phot2. A transcrição dos genes PHOT1 e PHOT2 ocorrem de forma diferente, e são comumente
relacionadas ao tipo de resposta fisiológica que se espera de cada uma delas. A transcrição de PHOT1 ocorre no
escuro e este resulta em respostas mais dependente de baixas condições de luz, atuando durante o
desestiolamento das plântulas e nas respostas trópicas dependente de baixa radiação. A interação de outros
fotorreceptores com phot1 aparece em nível molecular, onde o cry1 e os fitocromos regulam negativamente a
expressão de PHOT1, justificando a baixa resposta desse fotorreceptor em maior intensidade de luz azul. Por
outro lado a transcrição de PHOT2 é dependente de luz, sendo regulado positivamente pelo fitocromo, essa
associação é devido a resposta de phot1 à maiores fluências do azul, isso desencadeia um leque de respostas
fisiológicas dependente da alta fluência, como no processo de fotomorfogênese de plântulas, nos tropismos em
condições altas de luz e na movimentação do cloroplastos no escape do excesso de luz.

Regulação molecular e respostas fisiológicas associadas aos fotorreceptores


Respostas associadas à membrana plasmática e ao citoplasma.
Uma pequena fração das respostas associadas à luz é desencadeada por lag time reduzido e não existe
alterações na transcrição de genes e no aumento diferenciado de mRNA nas células. Essas respostas estão
associadas em alterações na polarização de membranas e mudanças pós traducionais associada à fosforilação de
proteínas, que fazem a ativação ou inibição das mesmas. Essas respostas variam conforme os diferentes tecidos e
estágios de maturação das plantas. Nesse cenário, o principal fotorreceptor que age mediando respostas rápidas a
nível celular são as fototropinas. Apesar de ter um controle de transcrição para a formação deste fotorreceptor
mediado pela luz a nível molecular (cry1 e fitocromos inibem a formação de phot1 e estimulam a formação de
phot2, por exemplo), o modo de ação de fototropinas é comumente relacionado com respostas rápidas, que
desencadeará, na maioria das vezes, no movimento de estruturas ou células. Ao perceber a luz azul, as alterações

96
no domínio LOV farão a fosforilação da região C-terminal das fototropinas que será responsável por
determinadas respostas fisiológicas.
Algumas das respostas mediadas por fototropinas são amplamente descritas, como por exemplo, a
abertura estomática. A movimentação das células guardas fazem a abertura do orifício do estômato, o que
ocorre após a ativação de phot2 via fosforilação e ativação de H+ATPase. A ativação desta enzima é responsável
pela exclusão de prótons H+ para fora da célula, fazendo a despolarização de membranas, permitindo que cátions
K+ entrem na célula para que, em sequência, ocorra à entrada de ânions Cl-. O armazenamento destes íons no
vacúolo diminui o potencial hídrico intracelular e resulta na entrada de água nas células guardas e,
consequentemente, a abertura do estômato. Este processo mediado por fototropinas é de grande importância para
as plantas, pois permite o controle endógeno de CO 2 e a possibilidade de realização da fotossíntese. Este é um
processo mediado pela luz que não envolve a síntese de novo de proteínas, mas sim a manutenção das que já são
existentes no interior das células e nas membranas. A abertura estomática, apesar de ser o evento fisiológico
mediado pela luz azul mais conhecido, não é o único fator que está sob o controle das fototropinas. Além dessas
respostas mediadas pelas fototropinas das células guardas, a luz azul também é relatada como controladora do
movimento caulinar. As fototropinas no ápice caulinar são capazes de perceber a direção e distribuição desigual
da luz azul, portanto a percepção não só da qualidade da luz pelas fototropinas, mas da direção em que a
irradiação no ápice caulinar ocorre resultará em crescimento desigual do caule, direcionado à luz, evento
denominado fototropismo. Ao perceber a luz azul em direção desigual phot1 (em irradiações menores) ou phot2
(em irradiações maiores) são ativadas no lado do caule que recebe a radiação luminosa. A ativação das
fototropinas controla a distribuição de proteínas PIN na membrana plasmática destas células, guiando-as para o
lado mais sombreado da célula (resposta de evitar a luz azul). As proteínas PIN são responsáveis pelo transporte
polar de auxinas, e a concentração deste hormônio em condições desiguais no ápice caulinar, altera gradiente de
concentração deste hormônio nas regiões mais sombreadas do ápice caulinar Ao transportar esta maior
concentração para a região de alongamento do caule, fará um crescimento diferenciado na região escuro/com
menos luz. O crescimento desigual fará a resposta trópica de crescimento caulinar em direção da luz. Mais uma
vez a luz azul influencia em uma resposta essencial ao desenvolvimento das plantas, o crescimento em direção à
região iluminada faz com que consigam otimizar a captação da luz , possibilitando sua sobrevivência em regiões
menos iluminadas e a evitar a eliminação por competição interespecíficas.
Não só no desenvolvimento vegetativo e na abertura estomática estão presentes respostas rápidas
associadas às fototropinas. Estes fotorreceptores tem grande importância no período de desestiolamento de
plântulas e no desenvolvimento foliar. Respostas com menor lag time, no entanto, não são apenas relacionadas às
fototropinas, phyA é outro fotorreceptor que pode influenciar em respostas rápidas associados ao citosol e à
membranas, sem a necessidade de seu deslocamento pelo núcleo. Apesar de primariamente a hipótese de que os
fitocromos são proteínas de membrana ter sido levantada, como já mostrado na sessão anterior, essa teoria foi
derrubada quando foi demonstrado que todos os fitocromos são hidrosolúveis e desencadeiam suas respostas
principalmente no núcleo celular, após serem transportados ao receberem a radiação vermelha. As modificações
celulares desencadeadas pelo fitocromo sem a locomoção para o núcleo celular são associados à capacidade de
phyA de interagir com Protein Kinase Substrate (PKS). Apesar de serem proteínas que inibem a atividade tanto
de phyA quanto de phyB no citosol, a fosforilação dessas proteínas por phyA mediadas pela luz azul, pode fazê-
las interagir com phot1 permitindo respostas associadas a este pigmento em resposta à luz azul.

97
Classicamente os fitocromos associados com o relógio biológico, também são relatados com resposta no
fechamento de folíolos em leguminosas no fim do dia, tipo de movimento denominado nictinastia. Algumas
espécies de leguminosas abrem os folíolos ao iniciar o dia, fechando-os no fim da tarde. Esse evento fisiológico
é feito em resposta à intensidade da luz. A luz azul, percebida no início do dia, controla a abertura dos folíolos e
a luz vermelha, do fim do dia, seguida do escuro induz o fechamento dos folíolos. O fechamento dos folíolos é o
resultado da diferença de turgidez de células motoras dorsais e células motoras ventrais, que é desencadeado pelo
fluxo de K+ e Cl- para dentro das células motoras dorsais, aumentando a turgidez e expandindo essas células. Na
abertura dos folíolos ocorre o processo inverso, portanto o fechamento dos folíolos é uma resposta do fitocromo
associado à diferença de potencial eletroquímico da membrana e turgidez das células.
Outras repostas de modificações pós traducionais mediadas pelo fitocromo vem sendo descritas, mas
necessitando de maior quantidade de estudos para elucidar o modo de ação e as respostas fisiológicas que podem
ocorrer devido a essas modificações.

Respostas associadas ao núcleo celular


Ao contrário das respostas associadas à membrana plasmática e ao citosol, o conhecimento acerca de
como a luz influencia a transcrição de genes é amplamente relatado. De fato a luz regula a expressão
diferenciada de vários genes em diversas etapas do ciclo de vida vegetal, desde a germinação até a frutificação.
Muitas vias de sinalização são relatadas como sendo influenciadas pela luz, e espera-se descobrir várias outras
influenciadas diretamente por este sinal ambiental e elucidar melhor os caminhos já conhecidos em diferentes
tecidos e espécies de plantas. A luz pode controlar as respostas de transcrições de outros genes de duas maneiras:
resposta primária, em que os fotorreceptores influenciarão diretamente uma proteína responsável por uma
resposta fisiológica, ou de forma secundária, em que os fotorreceptores serão responsáveis pela transcrição de
mRNA que servirão como sinalizadores para proporcionar uma determinada resposta fisiológica através de uma
ação secundária.
Ainda como sementes, algumas espécies apresentam uma adaptação determinante para que a
germinação apenas ocorra após a percepção da luz. Essas respostas estão comumente associadas em sementes
com endospermas reduzidos e pouca quantidade de reservas, que são incapazes de manter a plântula no estágio
heterótrofo por muito tempo após a germinação, até que ela consiga começar a realizar fotossíntese. As sementes
que apresentam este tipo de resposta são denominadas fotoblásticas positivas, e estão envolvidas com a resposta
pelo fitocromo, uma vez que germinam apenas após a percepção especificamente da luz vermelha. As sementes
fotoblásticas podem germinar em respostas very low fluence, mediadas principalmente por phyA, e low fluence
mediadas principalmente por phyB, variando de acordo com a espécie. A fotorreversibilidade após a aplicação da
luz vermelho-extremo, fazendo a não germinação de sementes, está associada com a descoberta dos fitocromos.
Geralmente sementes ortodoxas (que tem grande perda de água após sua formação e conseguem manter viáveis
por um longo período de tempo) germinam caso não estejam envolvidas com nenhum tipo de dormência. Após
receber um sinal ambiental crucial, como por exemplo a presença de água, as sementes fotoblásticas não são
capazes de germinar precisando, além deste fator, receber um flash de luz vermelha para que a germinação
ocorra. Com phyA/phyB controlando esse tipo de resposta, após receberem a luz vermelha aumentando o φ, a
forma ativa dos fitocromos irão migrar para o núcleo celular. A migração fará a interação deles com as PIF´s.

98
As proteínas PIF´s constituem uma família multigênica e são comumente relacionadas com a inibição
de respostas reguladas pela luz sendo rapidamente degradadas após o pulso de luz vermelha. phyA e phyB agem
na marcação dessas proteínas para posterior degradação delas no proteossomo 26S, após o deslocamento de
ambos os fotorreceptores para o núcleo celular. Logo após a irradiação, as proteínas PIF´s desaparecem do
núcleo rapidamente, permitindo que a resposta associada aos fatores de transcrição que são inibidos por elas
aconteçam. No processo de germinação de sementes fotoblásticas positivas, as proteínas PIF´s inibem a
transcrição de genes que resultarão em uma enzima chave na rota de formação de Giberelinas (figura 3).
Consecutivamente as PIF´s são degradas pelos fitocromos, e ocorre um grande aumento do hormônio giberelina
no embrião, que em uma complexa cascata de sinais culminará na síntese de novo de enzimas que irão degradar
carboidratos de reserva das sementes, fornecendo substrato para a respiração do embrião e o início da
germinação.
Após a germinação a planta enfrenta a parte mais crítica de seu ciclo de vida, que é a manutenção e
sobrevivência da plântula. Neste estágio, além de ser extremamente frágil, a permanência na condição
heterotrófica até o início da realização do processo de fotossíntese confere um grande desafio, sobretudo se a
germinação ocorre longe da presença de luz. Portanto, para sobreviver a plântula deverá alcançar a luz o mais
rápido possível para iniciar a formação de clorofilas, realizar a fotossíntese e manter o crescimento e
desenvolvimento. Sementes não fotoblásticas comumente germinam apenas na presença de água, sem o sinal
luminoso, dessa forma nos primeiros momentos após a germinação, a plântula possui características típicas de
respostas no escuro: alongamento do hipocótilo, para alcançar a luz rapidamente, coloração pálida devido à
ausência de pigmentos, cotilédones mal formados e um gancho apical defendendo a região meristemática. Após
receber a luz branca, fitocromos e criptocromos iniciam uma série de alterações fisiológicas para reverter o efeito
do estiolamento, esse processo denominado desestiolamento é fortemente estudado como modelo das vias de
sinalização luminosa. Durante o desestiolamento, os fitocromos agem na degradação de proteínas PIF´s, que fará
a liberação de outras respostas como a síntese de clorofilas e o início da transcrição dos genes Circadian Clock
Associated (CCA1) e Late Elongated Hypocotyl (LHY) (figura 3), que desencadearão em respostas típicas do
amanhecer. A influência dos fitocromos também modula respostas que são relacionadas à formação de
citocininas, que terá grande efeito na inibição do alongamento do hipocótilo, abertura dos cotilédones e na
formação das primeiras folhas. Sabe-se que a ação da luz no processo de desestiolamento, age de forma
antagônica a diversos fitormônios, principalmente auxinas e etileno, para fazer a inibição do alongamento
excessivo do hipocótilo.
Em outro caminho phyA e phyB também agem de forma integrada na resposta primária de HY5 (figura
3), promovendo a transcrição de diversas enzimas que participarão da formação de antocianinas, flavonoides e
carotenoides, que atuam como pigmentos acessórios na proteção dos danos causados pelo excesso de luz. Além
disso, HY5 também induzirá a resposta secundária na formação de enzimas chaves na síntese de clorofilas, no
funcionamento do ciclo C3 da fotossíntese e na biogênese plastidial, permitindo que o processo de fotossíntese
comece. Outra típica resposta à luz associada a phyA é a formação de enzimas que participam da fotorrespiração
e ativação dos transcritos de Long Hypocotyl in Far-Red (HFR) e Long After Far-red Light (LAF), que
controlam respostas no processo do desestiolamento. Apesar de esses eventos serem amplamente descritos no
processo de desestiolamento, a sinalização luminosa também é necessária para manter a contínua transcrição
desses genes durante o desenvolvimento foliar. A luz é um sinal essencial para diversas vias metabólicas e na

99
manutenção do desenvolvimento vegetal, mas como no ambiente ela está presente de forma contínua durante
todo o dia, não é surpresa que as plantas apresentam capacidade refinada de controlar negativamente esses
transcritos, afim de não criar uma resposta contínua e desnecessária.
Além do controle negativo no citosol feito pelas já descritas PKS na degradação de ambos os
fitocromos, os dois principais conjuntos são formados pelo complexo CUL/DDB/DET/COP, que reprimem a
atividade de HY5 e CUL/DDB/COP/SPA, que age não apenas na degradação de HY5, mas também impedindo
as respostas associadas à fotomorfogênese, todavia COP e SPA tem ação também na degradação de phyA (figura
3). Além da regulação feita a nível molecular, o ambiente também influencia na regulação negativa em respostas
mediadas pelo fitocromo. Sabe-se que no escuro phyA e phyB podem reverter para a forma inativa, as respostas
controladas por phyA apenas são encontradas nos primeiros momentos após receber o sinal luminoso, uma vez
que este fitocromo degrada-se facilmente em presença de luz. Os fitocromos, apesar de mediaram a transcrição
de HY1 e HY2, também tem função na autoregulação negativa. phyA por exemplo tem forte atuação na
formação das proteínas PKS e SPA, responsáveis pela própria degradação a nível citosólico e nuclear,
respectivamente. Além do leque de respostas mediadas pela luz durante o desestiolamento e na indução da
produção de moléculas chave para a percepção de sinal luminoso os criptocromos vêm acrescentando respostas
na formação de antocianinas e clorofilas devido à capacidade que eles têm em anular as respostas mediadas por
SPA e COP. As vias em que ocorrem essa inibição não são totalmente claras, mas acredita-se que eles marcam
essas proteínas para degradação via proteossomo 26S e retiram COP do núcleo, transportando-o para o citosol e
impedindo que ele faça a degradação de HY5 (figura 3). Outras respostas mediadas por cry1 como a expansão do
cotilédone e a expansão do sistema radicular vêm sendo descritas com a presença deste fotorreceptor no citosol.
Após o processo de desestiolamento, no desenvolvimento vegetativo, as plantas em ambiente selvagem,
encontram muitas barreiras que podem alterar a quantidade de luz que recebem, prejudicando assim a realização
da fotossíntese e outras respostas primárias que necessitam da presença da luz. O sombreamento ocorre através
de alguma barreira física, como por exemplo a copa de plantas vizinhas, e consiste em um problema para plantas
que são adaptadas a condições de sol. Além das diversas adaptações que podem diferenciar uma folha de sol para
uma folha de sombra, phyA e phyB agem de forma diferente nas resposta de escape de sombra. Sob os dosséis
ou outras condições sombreadas, as plantas recebem uma quantidade maior de luz vermelho-extremo, o que é
favorável para a ativação e resposta mediada por phyA que promove um maior crescimento até que a planta seja
exposta a melhores condições luminosas, recebendo mais luz vermelha que vermelho extremo e aumentando o φ.
Conforme a radiação luminosa aumenta, a degradação de phyA ocorre e phyB passa a assumir o controle do
desenvolvimento mediado pela luz, inibindo o crescimento caulinar e investindo recursos em outras etapas do
desenvolvimento.. Este balanço de prioridades realizado pelo controle molecular vegetal mostra a importância da
qualidade de luz para a manutenção do crescimento, priorizando os recursos certos para determinadas respostas
fisiológicas a partir da condição ambiental correta.
Durante todo o desenvolvimento das plantas, a luz influencia também nas alterações controladas pelo
ritmo circadiano. Os organismos biológicos tem um relógio interno, controlado por alguns poucos genes que
desencadearão secundariamente a expressão de genes que estão presentes durante as horas de luz e genes que
estão presentes na hora da escuridão. Os primeiros, denominados “genes do amanhecer” são controlados em um
crescimento linear conforme as horas de presença na luz e em determinado ponto do dia, dando espaço para os
“genes do entardecer”, que controlam as respostas que aparecem em determinado tecido vegetal durante a noite.

100
Esse controle do ritmo circadiano é particularmente relevante nas plantas, que necessitam da percepção
ambiental de forma bem refinada. Como a luz é fonte chave de controle desses genes, não é surpresa que
fitocromos e criptocromos agem de forma conjunta para controlar os genes do relógio e que a partir dos
transcritos em resposta primária, mais de 6% do genoma vegetal (na espécie modelo Arabidopsis) são
diferencialmente expressos ao responder aos genes do relógio. Os genes que controlam positivamente as
respostas do amanhecer, descritos como o CCA e o LHY, tem a transcrição reprimida pela presença das PIF´s, e
são controlados positivamente pelo gene Time Of Cab (TOC) que faz a resposta do entardecer (figura 3).
Quando a presença de phyA e phyB marcam as PIF´s para degradação no início do dia, a expressão desses dois
genes é iniciada quando em presença de TOC. Esses dois genes fazem a repressão do TOC de forma linear
conforme o passar do dia e permitem que os genes de resposta ao amanhecer se iniciam, alterando toda uma
cascata de resposta fisiológica nas plantas. s transcritos de TOC é mediado por phyA e por phyB pelo
intermediário Gigantea (GI). Após a ativação de CCA e LHY os níveis de TOC começam a diminuir, com a
aproximação do fim do dia, TOC chega ao seu mínimo, o que acaba decrescendo a quantidade de CCA e LHY.
Sem esses dois reguladores negativos da resposta de TOC, a expressão dele começa a aumentar no fim da tarde,
a repressão que ele é capaz de fazer em GI faz a sua estabilização em níveis ótimos, e os genes de entardecer são
transcritos. Após o início de um novo dia, a degradação de PIF´s levará a expressão de CCA e LHY novamente,
que voltarão a controlar os genes do amanhecer. Esse ritmo tem duração de aproximadamente 24 horas e
permitem que as plantas tenham a percepção do tempo de duração do dia e da determinada resposta que deverá
ser desencadeada conforme o passar do dia, como a transcrição da apoproteína dos próprios fitocromos e
criptocromos, formação de proteínas relacionadas ao estresse luminoso, proteínas que regulam negativamente as
respostas luminosas ou intermediárias da fotossíntese.
Durante o desenvolvimento reprodutivo vegetal, os fotorreceptores também tem grande importância nas
plantas que apresentam floração fotoperiódica. A percepção de comprimento de dias maiores ou menores está
associada a uma apurada maquinaria de plantas fotoperiódicas, sendo capazes de responder às variações
sazonais de acordo com as mudanças em determinadas estações, desencadeando a alteração do meristema
vegetativo para a evocação floral. O fotoperiodismo é controlado pela percepção do comprimento do dia e da
quantidade de horas no escuro que a folha é submetida. Todo o sinal desenvolvido na folha gira em torno mRNA
do gene Constans (CO), que é acumulado nas folhas durante todo o dia e ao fim do dia, quando chegam a níveis
elevados, é capaz de fazer a transcrição de Flowering Locus T (FT), que será transportado para o ápice caulinar,
culminando na evocação floral. A luz tem um grande papel na formação das flores dessas plantas, uma vez que
phyA faz o controle estrito da formação de CO, ao fim de um dia longo a radiação vermelho-extremo prevalece,
deixando phyA em forma ativa. Após uma noite curta e com reversão lenta no escuro, phyA será capaz de
produzir a transcrição de CO em maior quantidade, que desencadeará posteriormente na transcrição de FT.
Agindo de forma antagônica, phyB ao receber a luz vermelha é capaz de degradar CO impedindo acúmulos de
FT e atrasando o tempo de floração das plantas de dia longo. O controle interno mediado por cry1 e
principalmente por cry2 é capaz de inibir a ação de phyB ao receber a luz azul. Essa inibição irá permitir o
acúmulo de mRNA de CO. Outro fator que degrada facilmente o mRNA de CO é o controle negativo exercido
por COP, por essa razão a inibição que cry 1 e cry2 faz nessa proteína, como já descrito anteriormente,
aumentará a estabilidade de CO. Este mecanismo permite a transcrição de FT e o transporte deste pelo floema,
até chegar ao meristema vegetativo. Sabe-se que FT ativa o Agamous like-20, sendo este capaz de iniciar a

101
formação do meristema floral através da ativação de Leafy e Apetalla 2, dois genes chaves que farão a formação
da flor e posteriormente darão o sinal para a iniciação dos genes que determinam a identidade dos órgãos florais.
O processo de floração é complexo e muitas vias ainda são obscuras.
Pouco ainda se sabe quanto à influência da luz no desenvolvimento de frutos, a maioria dos estudos é
no desenvolvimento de frutos climatéricos, onde no início do desenvolvimento, fotorreceptores agem por
intermédio de citocininas aumentando a concentração de clorofilas e biogênese plastidial. Durante o
amadurecimento a luz tem grande influência, juntamente com o etileno e a temperatura, aumentando a
quantidade de carotenóides e flavonoides no fruto.

Figura 3: Vias de controle molecular mediadas por fitocromos e criptocromos no núcleo celular.

As vias de sinalização e modo de ação da luz nos diferentes tecidos durante o desenvolvimento vegetal
ainda vem sendo fortemente estudados para aumentar os conhecimentos e elucidar novas vias de respostas, a
associação da luz com muitas moléculas sinalizadoras, sobretudo fitormônios ainda precisam ser esclarecidas
para acrescentar conhecimento em tudo o que gere os eventos relevantes na fotomorfogênese para a
sobrevivência vegetal.

102
Metabólitos secundários na interação planta-planta
Paula Novaes
Fernanda Anselmo Moreira

As plantas produzem muitos compostos orgânicos que não parecem ter relação direta com o
crescimento e desenvolvimento vegetal, denominados metabólitos secundários. Os metabólitos secundários
podem proteger a planta contra a herbivoria e infecção por patógenos, agir como atrativos aos polinizadores e
dispersores, atuarem na simbiose planta-microrganismo, na competição e na comunicação direta entre plantas, na
alelopatia, entre outros. Este capítulo tratará do papel destes metabólitos secundários nas interações planta-
planta.

Comunicação entre plantas


Alguns metabólitos secundários podem ser chamados de voláteis (VOCs). Estes compostos possuem
baixos pontos de ebulição e evaporam ou sublimam em temperatura ambiente. Seus constituintes mais comuns
são terpenos (mono e sesquiterpenos), aldeídos, álcoois e ésteres derivados da quebra por lipoxigenase dos
ácidos graxos. Exemplos de VOCs são apresentados na figura 1.

1 2 3

4 5 6

Figura 1: Exemplos de compostos orgânicos voláteis (VOCs) de menor (1. Etileno, 2. Acroleína, 3.
Limoneno) e maior tamanho (4. Metil jasmoneto, 5. Metil salicilato, 6. Linalol).

Muitas plantas podem liberar compostos voláteis quando atacadas por herbívoros. Estas substâncias
podem repelir seus inimigos, atrair predadores ou parasitóides dos herbívoros, mas também podem avisar outros
ramos do mesmo indivíduo ou das plantas vizinhas do perigo. As alterações que ocorrem devido à esse “aviso”
são chamadas de “priming”, ou seja, preparações fisiológicas antecipadas à um perigo futuro.
Vários trabalhos demonstraram que, ao menos em laboratório, os VOCs são capazes de alterar a
expressão de genes de defesa; a produção de ácido jasmônico e outros compostos de proteção. Muitos trabalhos
demonstraram que metil jasmonato, terpenóides voláteis e voláteis C6 de folhas verdes (GLVs) podem ativar
reações dependentes de ácido jasmônico. O ácido jasmônico é um hormônio vegetal que induz a expressão de
diversos genes relacionados à defesa contra estresses bióticos e abióticos.

103
Figura 2: Molécula de Ácido Jasmônico.

Por exemplo, os voláteis sinalizadores de perigo de artemísia provocam a produção antecipada de


inibidores de proteinases (PIs) em tabaco e, consequentemente, o tabaco deverá sofrer menor herbivoria. Outro
exemplo ocorre em milho, onde plantas que receberam os sinais dos voláteis apresentam valores de ácido
jasmônico semelhantes às plantas predadas.
Três passos caracterizam os sinais de VOCs transmitidos pelas plantas: emissão, transporte e
recepção. A emissão é controlada por fatores físico-químicos como o controle estomático e a liberação de
compostos em fase líquida na planta para fase gasosa na atmosfera. Já o transporte dos VOCs dependerá do
tamanho das moléculas e de fatores abióticos como temperatura, convecção ou ventos. Moléculas pequenas não
devem apresentar grandes limitações em seu transporte, mas moléculas maiores podem necessitar de plumas para
serem dispersas em maiores concentrações. Os VOCs podem ainda ser ativados pela presença do oxigênio
quando dispersos na atmosfera.
Por outro lado, a percepção dos VOCs nas plantas vizinhas dependerá muito da condutância estomática
que, por sua vez, é alterada por fatores como incidência de luz e temperatura. Ou seja, a recepção dos VOCs nas
folhas será maior em períodos de maior abertura estomática. Muitos autores sugerem que a percepção dos VOCs
ocorreria por sinais hormonais como metil jasmoneto, metil salicilato, GLV e etileno. Por exemplo, o
silenciamento de GLVs em artemísia influenciou diretamente a expressão genética do tabaco vizinho.

Alelopatia e aleloquímicos
Este fenômeno foi documentado pela primeira vez cerca de 300 a.C. por escritores gregos e romanos,
mas apenas em 1937 Hans Molisch denominou "alelopatia" como interações planta-planta. O termo alelopatia é
formado pela junção das palavras latinas allelon (recíproco) e pathos (influência). Atualmente é definido como
qualquer efeito direto ou indireto de compostos químicos de plantas em outra planta ou microrganismo. Segundo
a definição da Sociedade Internacional de Alelopatia, o termo diz respeito a qualquer processo que envolva
metabólitos secundários, ou até primários, produzidos pelas plantas e microrganismos, influenciando o
crescimento e o desenvolvimento de sistemas agrícolas e biológicos.
A alelopatia é reconhecida como um importante mecanismo ecológico, que influencia a dominância e a
sucessão das plantas, formação de comunidades, vegetação clímax, manejo e produtividade de culturas. As
substâncias que apresentam atividade alelopática, ou os “aleloquímicos”, podem estar presentes em diversos
órgãos das plantas, como folhas, caules, raízes, flores e frutos. As plantas podem liberar esses compostos no
ambiente de diversas maneiras: pela decomposição de matéria vegetal, como lixiviados no solo, volatilização das
substâncias ou liberação dos exsudatos radiculares. Alguns trabalhos demonstram a importância da microbiota
do solo em alterar a atividade dos aleloquímicos. Indicativos visuais de atividade alelopática numa área são raros

104
ao redor de plantas sem nascimento de plântulas da mesma ou de outras espécies, regeneração natural
inadequada de áreas degradadas, agrupamentos de plantas da mesma espécie, entre outros.
O processo de alelopatia vem sendo observado tanto em ambientes naturais como em áreas cultivadas,
causando inúmeras implicações, tanto ecológicas como econômicas, tais como o declínio de produções agrícolas
e problemas na regeneração de áreas naturais. Assim, a vegetação de uma determinada área pode ser um modelo
de sucessão condicionado às plantas pré-existentes e às substâncias que possam liberar no ambiente.
A germinação e o desenvolvimento das plantas podem ser afetados quando expostos aos aleloquímicos.
Na maioria das vezes, há retardo ou inibição da germinação e redução do crescimento inicial de coleóptilos e
plântulas. Microscopicamente, os aleloquímicos podem agir diretamente na inibição dos componentes do
fotossistema II, interrupção da respiração e da síntese de ATP, na indução da formação de espécies reativas ao
oxigênio (ROS) e, consequentemente, morte celular e, em outras modificações no metabolismo das plantas
vizinhas, incluindo atividade enzimática, relações hídricas, níveis de hormônio, disponibilidade de minerais,
divisão e elongação celular, estrutura e a permeabilidade de membranas e paredes celulares.
Nos sistemas agrícolas, a alelopatia pode ocorrer entre culturas, entre culturas com resíduos (ou palha) e
entre as culturas com plantas infestantes (exóticas ou nativas), sendo, portanto, um evento de importância
econômica. A rotação de culturas é uma prática importante do ponto de vista da manutenção dos nutrientes do
solo, mas por outro lado, dependendo da cultura anterior, pode trazer sérios prejuízos. A palha do sorgo, por
exemplo, libera a benzoquinona sorgoleona no solo que irá afetar a germinação e o crescimento das próximas
culturas. Por outro lado, alguns pesquisadores têm tentado modificar culturas para que apresentem maior
quantidade de aleloquímicos e deste modo ser mais resistentes contra suas competidoras.

Figura 3: A benzoquinona Sorgoleona.

Atividade alelopática em si é muito difícil de ser provada, pois necessita muitas análises, inclusive em
campo. A maioria dos trabalhos trata na verdade de atividade fitotóxica de extratos e compostos vegetais. Essas
são etapas importantes para se demonstrar alelopatia, mas outras análises devem estar envolvidas. Um estudo
completo em alelopatia deveria conter um componente ecológico (uma demonstração de que ela ocorre em
campo), um componente químico (isolamento, identificação e caracterização dos aleloquímicos) e um
componente fisiológico (identificação de interferências relevantes como mecanismos bioquímicos, celulares, ou
moleculares). Leslie Weston, Manuel Reigosa e Inderjit são exemplos de autores que vêm tentado aprofundar os
estudos de alelopatia.

105
Figura 4: Exemplos de substâncias descritas como fitotóxicas: 1. carotenoide Luteína, 2. lactona
sesquiterpênica Grosheimina e 3. flavonoide Amentoflavona.

Plantas invasoras e a hipótese das “armas novas”


As invasões de espécies exógenas são a segunda maior causa de perda de biodiversidade mundial,
perdendo apenas para o desmatamento e a fragmentação dos habitats. Invasões de espécies exóticas ocorrem
quando os organismos são transportados para ambientes muitas vezes distantes, onde seus descendentes
proliferam-se, espalham-se e persistem. As invasões biológicas estão alterando as comunidades naturais e áreas
de plantio do mundo em taxas sem precedentes. Se estratégias eficazes para reduzir os impactos mais
prejudiciais dos invasores não forem implementadas, haverá o risco de empobrecer e homogeneizar os
ecossistemas que sustentam agricultura, silvicultura, pesca e outros recursos e que fornecem serviços naturais
insubstituíveis.
É preciso entender por que algumas espécies exóticas se estabelecem de forma tão agressiva que afetam
as comunidades nativas (e os sistemas agronômicos) e outras não. De modo geral, as plantas invasoras são mais
competitivas que as demais espécies, pois são melhores colonizadoras, se reproduzem mais rapidamente,
sobrevivem em condições mais adversas e ainda têm maior área específica foliar, taxas de crescimento e
conteúdo de nitrogênio nas folhas em relação às nativas. Aumentos consideráveis na distribuição e na
abundância de plantas invasoras podem ocorrer devido à falta de regulação por predadores naturais, patógenos e
competidores, situação presente em ambientes degradados e em monoculturas como as de soja, cana, arroz, etc.
Após se estabelecerem no ambiente, as plantas invasoras exóticas podem alterar as propriedades do solo, por ter
potencial para alterar as taxas de decomposição e a ciclagem de nutrientes, de modo que as nativas não mais
pudessem se estabelecer. Além disso, a hipótese das novas armas tem sido proposta. Ela prediz que as plantas
invasoras podem ter vantagem no domínio do ambiente, pois possuem metabólitos secundários que são novos
para a comunidade invadida e agem como aleloquímicos.
Aleloquímicos têm sido descritos como “armas novas” de espécies invasoras exóticas para se
estabelecerem rapidamente em um ambiente. Além da ação direta da alelopatia, o poder competitivo de plantas
que liberam substâncias alelopáticas pode ser ainda maior quando também competem por recursos no ambiente.
As plantas invasoras podem alterar propriedades físicas e químicas do solo através de seus aleloquímicos e,
assim, aumentar o potencial de retenção de nutrientes. Esse tipo de ação é classificado como alelopatia indireta.
106
A identificação dos aleloquímicos de plantas exóticas invasoras é o primeiro passo para entender se a
alelopatia pode ser um dos modos de seu estabelecimento no ambiente. Após a identificação destas substâncias,
elas poderão ser utilizadas em estudos de campo como avaliação de sua concentração no solo, sua interação com
outras substâncias e microrganismos, entre outros.
A (-)-catequina, por exemplo, tem sido indicada como a arma química de Centauria maculosa
(Asteraceae), nativa da Eurásia, para se estabelecer como planta invasora em ambientes da América do Norte. A
hipótese das “novas armas” prediz que o sucesso de plantas invasivas exóticas pode ser devido à produção de
aleloquímicos que as espécies nativas nunca encontraram e para as quais ainda não desenvolveram defesas.

Figura 5: O flavonoide (-)-Catequina.

Herbicidas de origem natural


O manejo de plantas infestantes (ou “plantas daninhas”) tem sido um problema desde o começo da
agricultura. De modo geral, as plantas infestantes possuem maior área específica foliar e são mais competitivas
que as demais espécies, pois são melhores colonizadoras, se reproduzem mais rapidamente e sobrevivem em
condições mais adversas.
Uma vez evidenciada a ação alelopática, pode-se fazer uso destes compostos no combate às plantas
invasoras de muitas culturas agrícolas. Vários esforços estão sendo realizados na tentativa de diminuir o uso de
herbicidas comerciais com o manejo das invasoras, utilizando sistemas adequados de semeadura entre espécies e
entre safras, adubação verde, além de sistemas agroecológicos. Outro tipo de pesquisa que pode ser realizada é a
procura e o desenvolvimento de herbicidas de origem natural, através do isolamento identificação e síntese de
aleloquímicos. Muitos autores discutem que a química combinatória moderna não conseguiu, pelo menos em
parte, ser a fonte primária da descoberta de novas substâncias de interesse biológico e fez necessário que os
cientistas voltassem-se aos produtos naturais, combinados infinitamente pela evolução durante milhões de anos.
Convencionalmente, diversos tipos de herbicidas sintéticos são utilizados para o controle das espécies
infestantes. Os herbicidas sintéticos são altamente eficazes em pequenas doses, apresentam boa seletividade para
culturas e são relativamente baratos para a fabricação. Em 2008, o Brasil passou a ser o maior consumidor de
agrotóxicos do mundo e responder pelo uso de 84% destes produtos em toda a América Latina. O uso
indiscriminado e muitas vezes equivocado destes compostos contra plantas infestantes tem intoxicado as
populações humanas e contaminado as comunidades biológicas.
Em adição, as plantas infestantes desenvolveram sistemas de resistência aos herbicidas sintéticos
convencionais. Algumas destas resistências têm justamente origem no uso indevido destes compostos. Assim, a
busca por herbicidas naturais, que sejam biodegradáveis e não produzam as contaminações provocadas pelos
herbicidas sintéticos, é de fundamental importância. Além disso, o consumo de produtos oriundos da chamada
agricultura orgânica, que não permite o uso de herbicidas sintéticos, têm crescido mundialmente.

107
Os efeitos alelopáticos de muitas espécies têm sido estudados para o controle de plantas infestantes de
culturas agrícolas. Nestes casos, os aleloquímicos que forem identificados podem ser usados como um recurso ao
desenvolvimento de novos herbicidas naturais. Ácido acético, eugenol, ácido oléico, ácido pelargônico,
triquetonas, cimetilina, bialafos, glufosinato, sorgoleona, arteter e helianonole, por exemplo, são aleloquímicos já
identificados com potencialidades de herbicidas. As vantagens de herbicidas de origem aleloquímica estão em
serem solúveis em água, ausência de moléculas halogenadas, rotas alternativas de ação, interações mais
específicas com as plantas-alvo, atividade em menores concentrações e menor dano ambiental do que os
herbicidas convencionais. Os aleloquímicos podem agir no desenvolvimento das espécies receptoras através da
interferência nos processos de respiração, fotossíntese, atividade enzimática, relações hídricas, abertura dos
estômatos, níveis de fitormônio, disponibilidade de mineral, e ainda, na divisão e alongamento celular, estrutura
e a permeabilidade de membranas e paredes das células.

Plantas parasitas
Plantas parasitas são aquelas que penetram no tecido vivo de outra planta, denominada hospedeira, e
dela retiram os recursos necessários para a sua manutenção. Esses nutrientes são retirados da planta hospedeira
através de uma estrutura especializada conhecida como haustório. A presença do haustório é a característica que
define as plantas parasitas, pois há certas plantas que também se desenvolvem em outras plantas, mas que não
são parasitas. Por exemplo, epífitas, lianas e trepadeiras também são encontradas vivendo sobre outras plantas,
mas não retiram nenhum nutriente delas, apenas as utilizam como suporte para obter melhores condições
luminosas e/ou para se manter eretas.
O termo haustório foi introduzido em 1813 por A. P. de Candolle ao descrever a ponte anatômica
existente entre uma espécie do gênero Cuscuta (Convolvulaceae) e a sua respectiva hospedeira. Ela é uma
palavra formada a partir da contração de duas outras de origem latina (haustor = beber e orium = dispositivo
usado para), sendo assim, o haustório pode ser considerado como uma estrutura que age como uma ponte
fisiológica usada para transferir água e nutrientes da planta hospedeira para a planta parasita. Essa estrutura
possibilita um contato íntimo entre as duas plantas e vários compostos podem ser transferidos, tais como, água,
nutrientes orgânicos e inorgânicos, hormônios, toxinas e inclusive material genético.

Classificação
As plantas parasitas podem ser classificadas de acordo com o seu grau de dependência em relação à
hospedeira, seu status fotossintético e o local em que ela se liga à hospedeira. No que diz respeito ao seu grau de
dependência em relação à hospedeira, as plantas parasitas podem ser obrigatórias ou facultativas. As obrigatórias
são aquelas que não são capazes de completar seu ciclo de vida sem uma hospedeira, enquanto que as
facultativas conseguem completar seu ciclo de vida sem ela, mas são oportunistas e quando têm a oportunidade
parasitam outra planta.
Quanto ao status fotossintético, elas podem ser hemiparasitas ou holoparasitas. As hemiparasitas são
plantas capazes de realizar fotossíntese, ao menos durante parte do seu ciclo de vida, mas dependem de sua
hospedeira para obter água e nutrientes minerais. Já as holoparasitas são plantas que, durante a fotossíntese, não
produzem quantidades suficientes de fotoassimilados para sobreviverem e, por isso, retiram de sua hospedeira

108
toda a quantidade de fotossintatos de que necessitam. Geralmente, as hemiparasitas se conectam apenas ao
xilema da hospedeira, ao passo que, as holoparasitas se conectam ao xilema e ao floema.
As parasitas obrigatórias englobam todas as holoparasitas e parte das hemiparasitas, enquanto que as
facultativas incluem apenas alguns grupos de plantas hemiparasitas.
As plantas parasitas podem se instalar na raiz da hospedeira e, então, são chamadas de parasitas de raiz
ou podem se instalar na parte aérea e, neste caso, elas são denominadas parasitas de parte aérea ou simplesmente
parasitas aéreas.
Na tabela 1 a classificação das plantas parasitas está resumida.

Tabela 1: Classificação de plantas parasitas


Local em que a parasita
Grau de dependência da
Status fotossintético se estabelece na Exemplos
hospedeira
hospedeira

Cassytha spp.
Caule (parte aérea)
Hemiparasita
Striga spp.
Raiz
Obrigatória
Cuscuta spp.
Caule (parte aérea)
Holoparasita
Orobanche spp.
Raiz

Diversidade de plantas parasitas e evolução


Todas as plantas parasitas são Angiospermas, mais especificamente no grupo das eudicotiledôneas.
Apenas 1% de todas as angiospermas é parasita, esse 1% corresponde a aproximadamente 4.500 espécies,
distribuídas em torno de 270 gêneros e 20 famílias, de acordo com a nova classificação proposta no APG III de
2009. Dessas, 90% são hemiparasitas e as demais holoparasitas. No que diz respeito ao órgão em que ela
parasita, um pouco mais que a metade (60%) é parasita de raiz e o restante (40%), parasita aérea.
De acordo com dados moleculares e comparação morfológica, o hábito parasita apareceu pelo menos 12
ou 13 vezes de forma independente na história evolutiva das angiospermas. Alguns fatores poderiam ter
desencadeado esse hábito, tais como, disponibilidade de água e nutrientes, luz e polinização.

Variedade de hospedeiras
As plantas parasitas podem parasitar qualquer planta que apresente sementes, ou seja, qualquer
espermatófita pode ser uma hospedeira em potencial. Apesar dessa enorme variedade de possíveis hospedeiras,
vale ressaltar que geralmente elas preferem plantas que tenham grande quantidade de nitrogênio, acesso fácil ao
sistema vascular e uma baixa defesa.
As plantas parasitas podem ser especialistas ou generalistas. As especialistas são aquelas que parasitam
um número restrito de plantas. Às vezes certas parasitas podem ser tão específicas que parasitam apenas uma
única espécie como é o caso da Epifagus virginiana (Orobanchaceae) que parasita apenas Fagus grandifolia
109
(Fagaceae). Outras podem ser especialistas em nível de gênero e, então, parasitam várias espécies do mesmo
gênero. As generalistas, por sua vez, podem parasitar uma ampla variedade de hospedeiras como é o caso das
plantas parasitas pertencentes ao gênero Cuscuta que podem parasitar centenas de outras plantas de diferentes
famílias.
Vale ressaltar que, apesar de certas parasitas serem capazes de parasitar um grande número de
hospedeiras, elas têm o seu ótimo de crescimento apenas em determinadas plantas.
Outro aspecto interessante é que certas plantas parasitas são capazes de parasitar outras parasitas de
grupos taxonômicos diferentes ou até da mesma espécie. No primeiro caso dá-se o nome de epiparasitismo,
enquanto que o segundo de autoparasitismo – as autoparasitas podem parasitar a si mesmas ou a outros
indivíduos da mesma espécie.

Mecanismos de defesa da planta hospedeira frente à planta parasita


Os mecanismos de resistência da planta hospedeira contra plantas parasitas podem ser divididos em
mecanismos de resistência pré-penetração, pré-haustorial e pós-haustorial.

Mecanismos de resistência pré-penetração


Os mecanismos de resistência pré-penetração são aqueles que acontecem antes da planta parasita ter
algum tipo de contato com a planta hospedeira. A redução na produção de estimulantes de geminação e a
secreção de substâncias inibidoras de germinação e/ou de fitoalexinas pela planta hospedeira são exemplos de
mecanismos de resistência pré-penetração.
Normalmente, as substâncias estimulantes de germinação são produzidas pelas hospedeiras para
aumentar a associação de suas raízes com fungos micorrizicos arbusculares. De maneira indireta, servem como
sinais para que as sementes das plantas parasitas de raiz germinem. Essas substâncias são liberadas pelas raízes
de plantas que podem ou não ser hospedeiras em potencial. Tais compostos garantem que apenas as sementes
das plantas parasitas situadas dentro da rizosfera da possível hospedeira germinem. Geralmente essas sementes
apresentam pequenas quantidades de reserva nutricional, dessa maneira, elas precisam estar muito perto de suas
hospedeiras para germinar, caso contrário, elas não sobreviverão.
Até o momento foram identificados três grupos diferentes de estimulantes de germinação: as
dihidroquinonas, as lactonas sesquiterpênicas e as estrigolactonas, sendo que o último tipo é descrito como o
mais potente. As estrigolactonas são metabólitos secundários pertencentes ao grupo dos terpenos. Algumas
estrigolactonas já identificadas são o estrigol, orobancol, sorgolactona (figura 6) e alectrol.

Figura 6: Estimulantes de germinação – estrigolactonas: A- Estrigol; B- Orobancol; e C- Sorgolactona.

110
Mecanismos de resistência pré-haustorial
Os mecanismos de resistência pré-haustorial são aqueles que impedem que haja a conexão da planta
parasita ao sistema vascular da planta hospedeira, pois uma vez que a parasita tenha feito contato com a sua
hospedeira e o haustório tenha começado a se formar, a penetração pode ocorrer. Em estudos realizados com
espécies de Orobanche foi constatado que a penetração da parasita pode ser interrompida em três momentos
diferentes: no córtex, na endoderme e dentro do cilindro central. A interrupção da penetração da planta parasita
no córtex está associada a um reforço da parede celular da hospedeira por proteínas de ligação cruzada (cross-
linking), deposição de calose, suberização e acúmulo de compostos fenólicos no apoplasto no ponto de infecção.
Nos casos em que a interrupção ocorre na endoderme há lignificação da parede celular endodermal e do periciclo
e quando a penetração é impedida dentro do cilindro central ela está associada ao acúmulo de compostos
fenólicos que cria um ambiente tóxico.
Essas respostas defensivas (lignificação, suberização e produção de compostos fenólicos) são bem
conhecidas contra diferentes tipos de estresses abióticos e bióticos e é uma resposta defensiva a outros gêneros
de plantas parasitas, além do Orobanche.

Mecanismos de resistência pós-haustorial


Os mecanismos de resistência pós-haustorial são aqueles que ocorrem após a planta parasita estabelecer
uma conexão com o sistema vascular da planta hospedeira. Espécies pertencentes ao gênero Orobanche formam
um tipo de ligação com o sistema vascular da hospedeira que é conhecido como tubérculo e é através desta
estrutura que a parasita obtém água e nutrientes de sua hospedeira. Foi relatado que em algumas plantas houve
necrose e morte dessa estrutura e esses eventos podem estar associados à presença de gel ou de substâncias
parecidas com gomas dentro dos vasos do xilema da hospedeira. Outra resposta defensiva é a produção de
compostos fenólicos tóxicos que chegam à parasita através do sistema vascular.
Nos últimos anos houve um aumento no conhecimento a respeito dos mecanismos de resistência das
plantas hospedeiras contra as plantas parasitas, no entanto, pouco se sabe sobre o processo de sinalização
envolvido na defesa dessas plantas. Vale ressaltar que a maior parte dos estudos sobre os mecanismos de defesa
se refere a plantas parasitas de raiz, pois os principais gêneros de importância econômica, Orobanche e Striga,
pertencem a esse grupo.

Impacto econômico das plantas parasitas e métodos de controle


Dos 270 gêneros de plantas parasitas, apenas aproximadamente 25 apresentam alguma importância
econômica, porém esses poucos gêneros já são responsáveis por causar sérios problemas na agricultora em várias
partes do planeta. Os principais gêneros que causam prejuízos na agricultura são Cuscuta, Orobanche e Striga,
mas se for considerar a indústria madeireira deve-se incluir o Arceuthobium. Os prejuízos na agricultura podem
ser devastadores em certas regiões do planeta. Na África, por exemplo, plantações de cereais podem ser
totalmente perdidas devido a infestações por plantas parasitas e estima-se que as perdas no rendimento das
regiões de savana representem um prejuízo de 7 bilhões de dólares por ano. Na tabela 2 estão descritos alguns
dos principais gêneros de importância econômica, bem como suas principais hospedeiras e sua distribuição.

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Tabela 2: Principais gêneros de plantas parasitas de importância econômica

Família Gênero Alguns representantes Algumas hospedeiras Distribuição

O. aegyptiaca,
alface, girassol, fava, lentilha,
O. cernua,
ervilha, tomate, tabaco, batata, Distribuição mundial
Orobanche O. crenata,
repolho, melão, cenoura, aipo,
O. cumana,
couve-flor
O. ramosa
Orobanchaceae
S. asiatica, milho, sorgo, milheto, arroz,
Striga África, Ásia, Austrália e
S. hermonthica cana-de-açúcar
EUA
A. picta,
Leguminosas (feijão, grão-de-
Alectra A. orobanchoides, África
bico, amendoim), tabaco, girassol
A. vogelii
C. australis,
C. campestris, alfafa, plantas cítricas, café,
C. chinensis, pêssego, lichia, soja, cenoura, Distribuição mundial
Convolvulaceae Cuscuta
C. gronovii, batata, tomate, berinjela,
C. pedicellata, cranberry
C. reflexa
C. ciliolata,
árvores, tais como, eucaliptos e
Lauraceae Cassytha C. filiformis, Pantropical
plantas cítricas
C. melantha
pinheiros, árvores frutíferas
Loranthaceae Viscum V. album (macieira, pereira) e árvores Europa, África, Ásia e
diversas Austrália

A. americanum,
representantes das famílias Europa, África, Ásia,
A. douglasii,
Arceuthobium Pinaceae e Cupressaceae América do Norte e
A. pini
América Central
Santalaceae
P. pauciflorum,
árvores fornecedoras de madeira
P. piperoides, América do Norte,
Phoradendron de lei, coníferas, plantas cítricas,
P. serotinum, América Central e
cacau, pereira e árvores diversas.
P. tomentosum América do Sul

Diferentes medidas de controle de plantas parasitas têm sido desenvolvidas, elas podem ser mecânicas,
químicas e biológicas. Remoção da planta parasita, poda seletiva dos ramos parasitados, cultura-armadilha (usar
plantas que não sejam hospedeiras compatíveis, mas que estimulem a germinação das sementes das plantas
parasitas – germinação suicida), desenvolvimento de variedades de hospedeiras resistentes, uso de estimulantes
de germinação (a ideia desse princípio consiste em liberar estimulantes de germinação para induzir a germinação
suicida das plantas parasitas), uso de herbicidas e controle biológico (utilizando, por exemplo, fungos e insetos)
são alguns exemplos de mecanismos de controle de plantas parasitas.
112
Os estudos da flor
Fernanda Maria Cordeiro de Oliveira
José Hernandes Lopes-Filho
Juliana El Ottra
Karina Bertechine Gagliardi
Keyla Rodrigues
Thália do Socorro Serra Gama
Yasmin Vidal Hirao

Os estudos da flor, dentro do contexto dos estudos de biologia comparativa, tiveram seu inicio com os
trabalhos de J. W. von Goethe, na área da morfologia, e com C. K. Sprengel, na área de biologia floral. Passados
cerca de dois séculos, os estudos sobre a flor hoje abrangem diversas áreas da biologia, como a anatomia,
desenvolvimento, biologia da polinização, biologia reprodutiva, genética, biologia molecular, paleobotânica e
estudos de diversidade e evolução. Com o avanço da tecnologia nas últimas décadas, notadamente com a
microscopia eletrônica e com o desenvolvimento de novas metodologias nos estudos de genética e biologia
molecular, novas e fascinantes descobertas têm sido feitas. Dado que são diversas as áreas que estudam a flor, é
difícil sintetizar tudo o que se conhece hoje sobre essa estrutura tão importante para a reprodução em
Angiospermas. Assim sendo, aqui daremos destaque, sobretudo para os estudos sobre morfologia e anatomia
bem como mecanismos moleculares envolvidos na floração e estruturas secretoras associadas.

Morfologia
A flor é um ramo altamente modificado, bastante complexo, apresentando diferentes regiões, com
estruturas e funções diversas. Basicamente uma flor em antese possui três principais conjuntos de verticilos: o
perianto (sépalas e pétalas), o androceu (estames) e o gineceu (carpelos), estando estas estruturas organizadas de
maneira verticilada (mais comum) ou espiralada (mais raro, presente nas Angiospermas basais). As sépalas, que
em conjunto formam o cálice, são localizadas mais externamente na flor, seguida pelas pétalas (constituintes da
corola), estames e, no centro da flor, localizam-se os carpelos. Androceu e gineceu são os verticilos férteis da
flor, portando os microgametófitos e os megagametófitos. Estes produzem os núcleos espermáticos e a oosfera,
células reprodutivas ou gametas, respectivamente.
A grande diversidade de formas florais encontradas nas Angiospermas se origina de variações
morfológicas. O número e o arranjo dos verticilos florais, bem como sua forma e fusões determinam, em grande
parte, as diferentes morfologias florais encontradas na natureza. Modificações nos verticilos podem originar
novas estruturas na flor, como o hipanto (conação e adnação de dois ou mais verticilos, como o cálice e a corola
nas flores de Bromeliaceae) ou as coronas (apêndices petalíneos e/ou estaminais, comuns em grupos como
Velloziaceae, Passifloraceae e Apocynaceae).
Os verticilos florais podem apresentar-se livres ou fundidos: conatos, quando a fusão ocorre no mesmo
verticilo e adnatos, quando a fusão ocorre em verticilos diferentes. Como resultado da união dos verticilos,
113
arquiteturas bastante complexas surgem, sendo difícil o reconhecimento da identidade de cada um dos quatro
verticilos na estrutura floral desenvolvida. Como exemplos temos: a corola gamopétala das Acanthaceae
(conação das pétalas), o ginostêmio das Orchidaceae, resultante da fusão do androceu e estilete; a flor de Canna
indica (Cannaceae) onde o estilete petalóide é adnato ao estame; e o ginostégio de muitas Apocynaceae,
resultante da união das anteras com o estilete.
A coloração dos verticilos florais é notavelmente diversa. A corola frequentemente apresenta variações
de cor, sendo tal fato associado à atração visual de certos polinizadores. A coloração nas pétalas é ocasionada
pela presença de antocianinas, antoxantinas ou ainda betalaínas, dentre outras substâncias acumuladas no
vacúolo, ou ainda carotenos e xantofilas presentes no interior dos cromoplastos ou cloroplastos. Geralmente as
células que apresentam estes pigmentos localizam-se na epiderme. Outros mecanismos que tornam as pétalas
mais atrativas são a presença de espaços intercelulares que refletem a luz, ou ainda, a epiderme papilosa, gerando
o efeito aveludado da superfície.
Nas flores podem ocorrer estruturas glandulares secretoras dos mais variados tipos e formatos. Dentre
estas, podem ser citadas como atrativas para animais que visitam a flor como os nectários (secretam o néctar,
substância açucarada), os oosmóforos (secretam compostos voláteis), os elaióforos (secretam substâncias
lipídicas), e as glândulas de resina.

Desenvolvimento
O meristema apical caulinar (MAC) pode ser vegetativo (figura 1), dando origem aos tecidos e órgãos
vegetativos; ou reprodutivo, quando sofre modificações induzidas por uma cadeia de estímulos, originando os
tecidos e órgãos florais. As células do meristema em geral caracterizam-se por terem tamanho comparativamente
menor, possuírem parede primária, plastos indiferenciados e citoplasma denso.
A transição de um meristema vegetativo para um floral envolve modificações morfo-anatômicas
conspícuas, sobretudo relacionadas à interrupção do crescimento indeterminado e a produção dos verticilos
florais. No crescimento vegetativo, após a formação de cada primórdio foliar, o meristema cresce restaurando
seu tamanho original antes da formação do próximo primórdio. No entanto, durante o desenvolvimento da flor o
meristema diminui gradualmente após a formação de cada peça floral, até ser completamente diferenciado no
último verticilo. Durante o desenvolvimento, os órgãos florais surgem no ápice do meristema floral de modo
ordenado, muitas vezes refletido em um rápido alongamento do eixo, que formará a inflorescência seguido pela
ampliação e achatamento dos meristemas que darão origem às flores.
As peças florais se encontram dispostas tipicamente em uma ordem específica, o padrão mais
comumente encontrado é o surgimento dos primórdios dos verticilos em sequência centrípeta, com a formação
de sépalas, pétalas, estames e carpelos (figura 2). Os estágios iniciais dos primórdios de todos os verticilos
florais têm aspecto de um domo semi-esférico ou são lateralmente achatados. A iniciação dos primórdios é
visível histologicamente como áreas intensamente coradas no meristema floral (figura 2). A formação do
primórdio de um verticilo induz a diferenciação de um feixe procambial, que mais tarde se tornará o feixe
vascular principal (mediano ou dorsal). O feixe procambial recém-formado se conecta com um ou mais feixes
vasculares, localizados na base da flor ou pedicelo. Durante o crescimento do verticilo, mais feixes de procâmbio
podem se diferenciar.

114
Muitas vezes os primórdios florais de um mesmo verticilo podem surgir inicialmente unidos como uma
projeção anelar do meristema floral (e.g.: tubo da corola), resultante da fusão dos meristemas individuais de cada
verticilo. Este tipo de fusão é denominado de fusão congênita, e é evidente somente nos estágios iniciais do
desenvolvimento floral (e.g.: margens dos carpelos de diversas Angiospermas). Diferentemente, a união
posgênita, tem sido observada nos diferentes verticilos florais, ocorrendo quando estes se tornam unidos após
surgirem e experimentarem o desenvolvimento como peças livres, sendo unida apenas posteriormente por meio
da adesão das margens dos verticilos, podendo ocorrer ou não a fusão completa destas (e.g.: falsa simpetalia em
Correa, Oxalis, Conhocarpus; anteras de Asteraceae).
Sépalas e pétalas têm ontogenias diferentes: enquanto o surgimento dos primórdios do cálice ocorre em
sequência espiral, as pétalas apresentam surgimento verticilado. Quanto à vascularização, sépalas geralmente
apresentam três feixes vasculares, enquanto as pétalas possuem apenas um podendo se ramificar em maior
número posteriormente.
Os estames, após o desenvolvimento de seu primórdio, diferenciam primeiramente a região da antera
para apenas depois diferenciar a porção do filete sendo vascularizados por apenas um feixe. Nos casos de flor
polistêmone, o desenvolvimento dos primórdios ocorre por fragmentação do número básico inicial dos
primórdios de estame.
Quanto ao desenvolvimento do carpelo, este apresenta inicialmente uma zona de cruzamento, que
corresponde à margem foliar onde o óvulo se desenvolve em sua superfície interna, e uma zona secundária, onde
as demais porções se desenvolverão. Quando desenvolvido, o carpelo apresenta duas regiões básicas: a porção
superior, correspondente à região do estilete e estigma, e a porção inferior, correspondente ao ovário. O
fechamento da folha carpelar pode ocorrer apenas durante as etapas finais de sua ontogenia, conferindo a
característica mais marcante das Angiospermas, ou seja, a presença de óvulos protegidos por carpelos. Com
relação à vascularização, o carpelo apresenta geralmente três feixes vasculares, um dorsal e dois ventrais (que
irrigarão o óvulo), no entanto, variações quanto ao número e posição de feixes podem ocorrer.
O gineceu pode ser unicarpelar, proveniente do desenvolvimento de apenas um primórdio, como por
exemplo em Leguminosae, ou pode ser pluricarpelar, sendo gerado a partir de vários primórdios. Neste último
caso os primórdios dos carpelos podem ser livres e o gineceu denominado de apocárpico (e.g.: Dilleniaceae) ou
unidos sendo denominado de sincárpico (e.g.: Bromeliaceae, Bignonicaceae). Estas uniões podem ocorrer de
maneira congênita ou posgênita. Mais comumente são encontrados gineceus sincápicos com porção basal unida
congenitamente e porções apicais unidas posgenitamente.

115
Primórdios Foliares

Sépala Estame
s

Pétala
Figura 1: Meristemasapical caulinar vegetativo de Asclepias curassavica (foto de Diego Demarco)
Figura 2: Botão floral jovem de Asclepias curassavica (foto de Diego Demarco)

Mecanismos moleculares responsáveis pelo desenvolvimento floral


Com o advento da biologia molecular, alguns dos principais mecanismos de controle do
desenvolvimento vegetal foram elucidados. No que se refere ao desenvolvimento reprodutivo, muito do que se
conhece hoje foi obtido com estudos realizados em Arabidopsis thaliana (Brassicaceae) e Antirrhinum majus
(Plantaginaceae), chamadas de plantas modelo. O estudo exaustivo, sobretudo de linhagens mutantes dessas
plantas, resultou na descoberta de muitos genes e seus modos de atuação no desenvolvimento vegetal. Os tópicos
abordados a seguir são válidos, sobretudo para estas plantas modelo, mas em grande parte são conservados ao
longo das Angiospermas e, muitas vezes, podem ser extrapolados para diversos de seus grupos.

Indução floral
116
A floração é um fenômeno que ocorre de forma coordenada na vida das plantas e depende de uma série
de fatores, sejam endógenos (níveis de expressão de determinados genes), ou exógenos (temperatura,
fotoperíodo, hormônios). O fotoperíodo, ou seja, a duração do ciclo claro/escuro, é um dos mais importantes
mecanismos, conhecido há bastante tempo como fator crucial na determinação da indução floral. Desta maneira,
algumas plantas são classificadas como de dias curtos, isto é, florescendo quando o período de exposição a luz
solar é menor (inverno) enquanto outras são de dias longos de dias curtos, isto é, florescendo quando o período
de exposição a luz solar é menor (inverno) enquanto outras são de dias longos(verão).
Através de diversos experimentos, foi constatado que a percepção do fotoperíodo ocorre nas folhas e de
alguma maneira essa informação é transmitida até os meristemas vegetativos, onde desencadeia mudanças que
resultam na formação de flores. Foi então estabelecido o conceito de “florígeno”, um hormônio que seria
responsável por esta transmissão de informação. Por muito tempo, diversos pesquisadores buscaram por este
elusivo hormônio, sem sucesso. Contudo, recentemente foi elucidado o mecanismo pelo qual o fotoperíodo
influencia na floração.
De forma simplificada, a floração depende de um relógio circadiano endógeno que controla a variação
da expressão de uma rede de genes. O gene diretamente ligado ao relógio, TIMING OF CAB EXPRESSION1
(TOC1), oscila sua expressão independente do ciclo de luz. Contudo, um dos genes controlado por TOC1
transcreve para a proteína CONSTANS (CO), que é degradada durante a fase escura do ciclo (figura 3). Por fim,
CO induz a expressão de outro gene, FLOWERING LOCUS T (FT), cuja proteína é transportada das folhas até os
meristemas. Desta maneira em plantas que florescem em dias curtos, FT age como indutor de floração, enquanto
que em plantas de dias longos, FT atua como repressor.

Figura 3. Representação esquemática da expressão de CO e FT em diferentes regimes de fotoperíodos. Dia


curto: embora CO expresse normalmente, sua proteína é degradada durante a noite, não sendo capaz de induzir
FT. Dia longo: Não há alteração na expressão de CO, mas sua proteína é capaz de se manter íntegra,
promovendo a expressão de FT.

Além do fotoperíodo, geralmente em regiões que passam por um período severo de inverno, é
importante um mecanismo que assegure que a floração ocorra apenas após o inverno. O processo pelo qual a
temperatura atua na floração é denominado de vernalização, e seu mecanismo não é tão bem conhecido quanto o
do fotoperíodo, embora pareça estar ligado a mudanças na expressão gênica devido à condensação da cromatina
durante os períodos de frio mais intenso.

117
Por fim, muitas plantas podem entrar em floração independentemente dos estímulos exógenos devido a
um aumento, intrínseco e constante durante seu desenvolvimento, na expressão de genes responsáveis pela
indução floral, especialmente o gene LEAFY (LFY).

Identidade e manutenção do meristema floral


Como mencionado anteriormente, o MAC pode possuir diferentes identidades, sendo elas: (1)
meristema vegetativo (MV); (2) meristema da inflorescência (MI); (3) meristema floral (MF). Sendo que, na
prática, o que diferencia esses meristemas é o comportamento de sua atividade, sobretudo no que diz respeito ao
tipo de primórdios produzidos.
Desta maneira, um MV é característico por produzir folhas (com seus respectivos meristemas axilares),
enquanto um MI produz brácteas e/ou meristemas florais. O MF, por sua vez, produz os verticilos florais
(sépalas, pétalas, estames e carpelos) e finalmente cessa sua atividade. Como normalmente as flores são
produzidas em inflorescências, geralmente o processo de floração envolve os dois processos de transição
meristemática (MV→MI→MF), que são caracterizados por mudanças na expressão de genes regulatórios da
atividade do meristema, e da manutenção ou não de um grupo de células com características meristemáticas.
Os genes responsáveis pela transformação e manutenção do meristema floral são chamados de
“FLORAL MERISTEM IDENTITY (FMI) genes” (genes de identidade do meristema floral), sendo os principais:
LFY, APETALA1 (AP1), CAULIFLOWER (CAL) e FRUITFULL (FUL). Todos esses genes codificam para
proteínas que agem como fatores de transcrição, regulando a expressão de uma infinidade de genes, e que resulta
por fim no desenvolvimento adequado dos órgãos reprodutivos.
O gene LFY parece ser o pivô na transição para o meristema floral, sendo observado um aumento
drástico em sua expressão, que ocorre de maneira uniforme em todo o meristema. Este gene atua como fator de
transcrição para uma série de outros genes relacionados à floração, em especial AP1, AP3 e AGAMOUS (AG),
genes do modelo ABC (ver próximo tópico). Uma vez que AP1 também induz a expressão de LFY, uma rede de
feedback positiva é criada, assegurando que, uma vez desencadeado, o processo de estabelecimento do MF seja
mantido até o final. Outros genes também atuam de forma crucial para a atividade do meristema floral, como
AG, que promove o fim da proliferação de células meristemáticas após o desenvolvimento dos carpelos.
Por fim, embora desempenhe papel antagonista aos de identidade floral, reprimindo a expressão de LFY
e AP1, o gene TERMINAL FLOWER 1 (TFL1), é fundamental para o desenvolvimento reprodutivo. Entre outras
atividades, TFL1 impede que LFY e AP1 transformem um MI em MF. Desta maneira, muitas das arquiteturas de
inflorescência observadas na natureza resultam do balanço entre as expressões dos genes de identidade floral
(LFY e AP1) e seu repressor TFL1.

Determinação dos órgãos florais e o modelo ABC


A partir de estudos baseados em plantas modelo, foram descobertas linhagens de mutantes que exibiam
mutações homeóticas em suas flores (mutações que produzem um órgão onde normalmente se encontraria
outro). Após o estudo de diversas linhagens, notou-se que as mutações homeóticas em flores sempre afetavam
dois verticilos adjacentes, e nunca apenas um. Embora muitos mutantes tenham sido reconhecidos, todos se
encaixavam em 3 categorias: (A) sépalas e pétalas eram substituídas por carpelos e estames, respectivamente;

118
(B) pétalas e estames eram substituídos por sépalas e carpelos; e (C) estames e carpelos eram substituídos por
pétalas e sépalas.
Desta maneira, foi estabelecido o chamado “modelo ABC” da determinação dos órgãos florais (figura
4). O modelo propõe que a expressão de genes classe A determina a formação de sépalas; a atividade conjunta de
A e B especifica a formação de pétalas; B e C combinados determinam estames e a atividade de apenas C resulta
na formação de carpelos. O modelo também propõe uma regulação negativa entre A e C, e a expressão de B nos
verticilos 2 e 3, independentemente dos outros fatores. Em Arabidopsis, os genes APETALA1 (AP1) e
APETALA2 (AP2) correspondem à função de A; APETALA3 (AP3) e PISTILLATA (PI) à função de B; e
AGAMOUS (AG) para a função de C.
Posteriormente, com a descoberta de outros genes envolvidos, foram incorporadas ao modelo as funções
D, relacionada à identidade de óvulos, e E, necessária para a formação de todos os órgãos florais. Em
Arabidopsis a função D é realizada pelo gene SEEDSTICK (STK), em redundância com os genes
SHATTERPROOF1 (SHP1), SHP2 e AG. Já função E é realizada pelos genes SEPALLATA1 (SEP1), SEP2 e
SEP3.

Figura 4: Representação esquemática do modelo ABCDE em Arabidopsis thaliana. A combinação de diferentes


classes de genes é responsável pela determinação dos verticilos florais.

Hoje, sabemos que muitos desses genes são fatores de transcrição que orquestram a expressão de uma
infinidade de outros genes responsáveis por desenvolver corretamente cada verticilo floral. Sabemos ainda que
muitos desses genes atuam conjuntamente formando heterodímeros. Desta maneira, um complexo formado por
proteínas AP1 e SEP, por exemplo, é responsável pela regulação de genes que no final resultarão no
desenvolvimento de uma sépala.
Por fim, estudos com o silenciamento de genes da classe E (SEPALLATA) mostram que na ausência do
mecanismo que leva à formação dos verticilos florais, os primórdios derivados do meristema floral transformam-
se em flores com quatro verticilos de órgãos morfologicamente semelhantes às folhas. Tal resultado corrobora as
teorias anteriormente propostas sobre a homologia dos verticilos florais com as folhas do corpo vegetativos da

119
planta. Notavelmente, a equivalência entre folhas e flores foi primeiramente propostas pelo filósofo alemão J. W.
Goethe, em 1790.

Estruturas secretoras florais


A flor, assim como as demais partes das plantas, podem apresentar estruturas secretoras nos diferentes
verticilos florais, bem como na inflorescência. As secreções (ou exsudados) que estas produzem são
provenientes de processos metabólicos, que incluem os processos de síntese, isolamento de substâncias e
posterior liberação, tanto nos espaços extracelulares no interior do órgão em que esta é formada, como para o
exterior da planta. Estes exsudados apresentam composições químicas bastante variadas, podendo apresentar, por
exemplo, água, proteínas, óleos, néctar, látex, substâncias salinas, resinas etc. As células secretoras presentes no
órgão de onde são liberados estes exsudados apresentam, geralmente, características histológicas, como ausência
de parede celular secundária, citoplasma de aspecto denso e núcleo relativamente grande em relação ao
citoplasma.
As estruturas secretoras podem apresentar-se como uma célula individualizada (idioblastos) ou em uma
estrutura multicelular (tricomas, emergências e canais), sendo tais estruturas de reconhecida importância
taxonômica e filogenética, uma vez que certos tipos são característicos de grupos de plantas e servem como
evidência de parentesco próximo entre as mesmas.
As estruturas secretoras possuem diferentes classificações quanto à sua posição e/ou função, não
havendo universalidade quanto à utilização dos termos na literatura. Assim, quando localizada no interior da flor,
é comumente chamada de estrutura secretora floral (e.g.: nectários florais) e quando localizada em outra região
ou nas proximidades da flor, pode ser chamada de extrafloral (e.g.: nectários extraflorais). De modo semelhante,
quando a função da estrutura está relacionada à polinização, é denominada de nupcial (e.g.: nectário nupcial), e
quando não apresenta tal função, é extranupcial (e.g.: nectários extranupciais), podendo estar envolvidas em
outras funções, como por exemplo, mecanismos de defesa anti-herbivoria. Muitas vezes a confusão no uso destas
terminologias provém da ausência de dados sobre a função das estruturas secretoras florais.
Nas flores, várias estruturas secretoras são conhecidas, as mais comumente encontradas são:
Os nectários, que são tecidos especializados na produção de néctar. Estes podem ser visualizados a partir de uma
gama de estruturas, morfologicamente e anatomicamente diversas. Os nectários intraflorais, frequentemente
apresentam-se em forma de um anel basal contínuo ao redor do ovário. A composição do néctar é variável,
porém este é constituído, de modo geral, por sacarose, glicose e frutose. Além disso, mucilagem, aminoácidos,
proteínas, íons minerais, vitaminas, enzimas e ácidos orgânicos também podem ser encontrados. A presença do
néctar floral está tradicionalmente associada à atração de polinizadores nectarívoros, no entanto, pode apresentar
outras funções como indução da germinação dos grãos de pólen dentro da câmara estigmática, bem como sua
presença em nectários no cálice tem o potencial de atrair formigas protetoras contra herbívoros.
O tecido transmissor é o tecido através do qual os tubos polínicos crescem até chegar à micrópila do
óvulo, havendo uma relação nutricional ou fisiológica com os tubos polínicos. É definido como uma parte do
gineceu que se estende do estigma ao ovário, podendo ser parcial ou inteiramente secretor e composto por três
regiões: estigmática, estilar e ovariana. Embora a presença de tecido transmissor e o caminho percorrido pelo
tubo polínico através do gineceu sejam bem conhecidos, há raras informações estruturais sobre este tecido e

120
quase nenhuma sobre as secreções produzidas por ele, sendo que há relatos de presença de secreção
mucilaginosa tanto na região estigmática como na estilar.
Além das estruturas secretoras florais acima citadas, há também outras, como elaióforos, coléteres,
laticíferos, osmóforos, além dos tecidos secretores de resina. Tais estruturas produzem secreções que podem ser
utilizadas como fonte nutricional pelos visitantes florais ou atração de formigas protetoras da planta.
Os estudos comparativos das estruturas secretoras florais em diversos grupos de plantas permitem-nos
compreender, não apenas os aspectos funcionais destas secreções, mas também as alterações graduais que
ocorreram nestas estruturas ao longo da história evolutiva dos grupos que as possuem. Por exemplo, alterações
na localização do nectário, composição do néctar e seu local de acúmulo podem apresentar relação às mudanças
evolutivas quanto a diferentes tipos de polinizadores. Além disso, na evolução de carpelos apocárpicos para
sincápicos ou parcialmente sincárpicos, foram observadas alterações no trajeto dos tecidos transmissores no
interior do gineceu, e consequentemente no direcionamento dos tubos polínicos, podendo promover a
fecundação dos óvulos de um ou mais lóculos do ovário devido ao surgimento de um compitum (estrutura
oriunda da união de todos os tecidos transmissores dos carpelos).

121
Algas invasoras
Beatriz Nogueira Torrano da Silva

Organismo alienígena? Invasor? Exótico? Introduzido?


São muitos os termos que se referem ao registro de organismos em locais onde estes não eram
encontrados originalmente. Neste sentido, um organismo exótico é aquele encontrado fora de seu limite natural
de distribuição. O termo “organismo introduzido” é utilizado com o mesmo significado, porém está implícita a
participação do ser humano como causador. Em inglês espécies exóticas são referidas com a expressão “alien
species” (espécies alienígenas), embora seu uso em português não seja comum. Um “organismo invasor” tem
um contexto distinto, o de provocar alterações nas comunidades nativas como consequência da dinâmica
populacional do invasor. Neste caso o organismo exótico se propaga com facilidade pelo fato de não encontrar
neste novo ambiente os entraves físicos, químicos e biológicos que enfrentaria em seu ambiente de origem.
Dessa forma, pode-se dizer que o organismo invasor apresenta um comportamento invasivo.
Com estas definições em mente, percebemos que estamos cercados por organismos exóticos,
principalmente pelo fato de fazer parte da cultura humana carregar consigo espécies de interesse para
alimentação, ornamentação, vestimentas, etc. Você já se imaginou alimentando-se somente por itens que
ocorrem naturalmente na área delimitada por sua cidade? Mesmo os índios brasileiros e os povos nômades
africanos carregam consigo sementes e raízes que acabam por registrar seus locais de passagem.
Não se deve considerar que espécies exóticas são somente aquelas oriundas de outros países, tampouco
oriundas de outros estados ou cidades, adicionalmente, deve-se pensar em diferentes regiões biogeográficas,
além de compreender previamente a distribuição natural de uma espécie. Assim, torna-se necessária a supervisão
e o controle sobre os vetores de introdução atuantes dentro de um próprio país e de suas subdivisões.
Utilizaremos aqui a seguinte definição para organismo exótico:

“Propágulos ou diásporos de organismos disseminados, por


meios não naturais, para áreas onde eles não ocorriam
naturalmente.” (Oliveira e Paula 2003)

Mas qual é o limite para a aplicação destes termos? Afinal, o que fazer quando uma população se
distribui além dos limites naturais conhecidos para a espécie, através de métodos naturais de dispersão (pelo
vento, como as sementes aladas, ou por natação no caso de alguns animais), e se desenvolvem de tal maneira que
se tornam uma ameaça frente à comunidade nativa?
Os questionamentos são inúmeros, e este é um assunto amplo que muda de perspectiva conforme se
aprofunda em um grupo ou outro de organismos. Para mais esclarecimentos a respeito do tema busque pelas
referências sugeridas ao final deste capítulo. Este capítulo terá como foco as algas marinhas.

122
Vetores de introdução
A inserção das algas marinhas em um ambiente que não de sua origem ocorre por meio dos vetores de
introdução. Os principais são: transporte marítimo, associação a cultivos de animais (como o de ostras e
mexilhões, igualmente introduzidos), cultivo das próprias algas, transporte de plataformas, construção de canais,
diques e comportas de grande porte, além da aquariofilia (Oliveira et al. 2009). O transporte de algas acontece
diariamente em todo o mundo.
O principal vetor é o transporte marítimo. As macroalgas, fixam-se no casco ou em qualquer estrutura
imersa do navio, podendo sobreviver em travessias transcontinentais. Outra maneira é o transporte de propágulos
na água de lastro. As microalgas, principalmente no caso das heterotróficas, podem sobreviver juntamente com
os demais organismos planctônicos na água de lastro, que é abastecida e posteriormente despejada em pontos
distintos do oceano, com a finalidade de compensar o equilíbrio do navio sob diferentes condições de carga.
Um caso mundialmente famoso de introdução de macroalga é o de Caulerpa taxifolia no mar
Mediterrâneo, conhecida como the killer algae por motivos bem fundamentados. Quem imaginaria que um
propágulo descartado no efluente do Aquário de Mônaco (França) seria responsável pela exterminação da
paisagem bentônica natural por milhares de hectares, no território de mais de cinco países? Esta espécie de
Caulerpa se propagou sob a forma de uma variedade genética tolerante à temperatura local, e que não encontrou
ali seus predadores naturais. Esta variedade forma bancos bastante densos naquele tipo de ambiente e modificou
drasticamente a comunidade bentônica. A expansão descontrolada da espécie, que alcançou também a costa
Oeste dos Estados Unidos e Austrália, provocou acalorados debates internacionais, incluindo workshops
específicos e o envolvimento das sociedades política, empreendedora e científica de muitos países. A partir disto,
a aquariofilia passou a ser um dos vetores em foco no contexto da introdução de espécies – sejam marinhas ou de
água doce.
O cultivo comercial de macroalgas de interesse para consumo humano é feito em muitos países
incluindo Indonésia, Filipinas, Japão, Malásia, Vietnam, Chile, China, Índia, Tanzânia, Madagascar, entre
outros. O Brasil também está nesta lista, porém aqui esta atividade não alcançou grandes proporções. A
motivação para o cultivo passa pelo consumo humano através da alimentação direta e extração de ficocolóides,
amplamente empregados na indústria (para detalhes sobre este tema, ver Capítulo “Importância e aplicações dos
Ficocolóides: Polissacarídeos das Algas Marinhas”). Neste sentido, uma série de espécies de macroalgas foi
introduzida com esta finalidade, incluindo os gêneros Laminaria, Undaria, Kappaphycus, Porphyra, Gracilaria,
entre outros.
Neste último século tivemos um grande aumento dos casos de introdução de espécies marinhas para a
maricultura, proporcionando fontes de renda, redução dos gastos com importações e aproveitamento do território
marinho. É indiscutível o fato de que estas inserções serão cada vez mais importantes econômica e socialmente.
Porém, por vezes a população cultivada promove o escape ou a reprodução dos indivíduos, o que pode resultar
no estabelecimento da nova espécie na natureza. Este foi o caso de Undaria pinnatifida na costa britânica e de
Hypnea musciformis e Kappaphycus spp. no Hawaii, bem como o de K. alvarezii nos mares da Índia,
provocando o sufocamento dos corais nativos e prejudicando toda a comunidade.
Os casos mais notáveis remetem-se às introduções acidentais relacionadas ao transporte marítimo na
maioria das vezes, ou associadas a outras espécies exóticas de mesma procedência, importadas para cultivo.
Destacam-se, por sua repercussão, as introduções de Undaria pinnatifida na Austrália e Nova Zelândia,

123
Sargassum muticum na costa Oeste da América do Norte e também no Sudeste europeu, Codium fragile subsp.
tomentosoides nos Estados Unidos, Ilhas Britânicas e França e Caulerpa racemosa no mar Mediterrâneo.

Prevenção e erradicação de espécies invasoras


Apesar de serem inúmeras as possíveis formas de introdução de algas e a ocorrência destas diariamente,
o estabelecimento de uma população exótica no Brasil não é comum. Alguns fatores podem levar à baixa taxa de
estabelecimento dos indivíduos introduzidos: os variados graus de poluição e contaminação da água da costa nas
proximidades de nossos maiores portos e a discrepância que pode existir entre as águas de origem dos espécimes
e as águas brasileiras conforme a região do país, devido a fatores bióticos e abióticos muito diversos. Deste
modo a maior parte do material recém-chegado não poderia sobreviver por tempos prolongados e se estabelecer.
Um caso que se encaixa neste cenário é o da Baía de Santos, em que estudos progressivos na região realizados
por A.B. Joly, E.C. Oliveira Filho e F. Berchez, das décadas de 50 a 90 não evidenciaram o aparecimento de
novas espécies, justamente neste porto que é uma das principais vias de chegada de navios. Ao mesmo tempo,
espécies registradas no local na ocasião do primeiro período de investigação desapareceram nos períodos
seguintes.
O risco de introduções se tornarem efetivas, sejam elas oriundas da navegação, de cultivos, da
aquariofilia ou mesmo através de meios naturais (como as correntes marítimas) depende da combinação entre as
características do ambiente com o grau de tolerância e o desempenho da espécie em questão. Condições como a
compatibilidade da alga com o ambiente – este deve ser semelhante ao ambiente natural da espécie –, a falta de
predação, a competição desleal com organismos bentônicos da comunidade nativa e o descarte de tanques
marinhos – dependendo da localização do aquário portador – são fatores que influenciam a introdução. Para se
obter o estabelecimento efetivo de uma população precisa-se, ainda, da capacidade de reprodução e expansão
deste indivíduo. Porém, estima-se que uma parte considerável dos organismos introduzidos que sobrevivem não
cheguem a apresentar comportamento invasivo, integrando-se assim à comunidade (Bellorín e Oliveira 2001).
No caso da maricultura, apesar de todos os benefícios sócio-econômicos envolvidos com a introdução
de espécies, uma série de medidas devem ser tomadas para a prevenção de impactos à comunidade nativa,
sugere-se então: 1º) o conhecimento prévio da biologia da espécie em questão, bem como dos processos
envolvidos em sua interação com o ambiente; 2º) a seleção cuidadosa das cepas que originarão o cultivo,
certificando-se da ausência de epífitos, endófitos ou mesmo doenças; 3º) um longo período de quarentena das
plantas, certificando-se do não aparecimento de enfermidades relacionadas; 4º) o desenvolvimento de estruturas
de cultivo que não permitam o escape das plantas para o ambiente, incluindo redes de contenção; 5º) o
monitoramento constante da área onde o cultivo é implantado, a fim de verificar o surgimento de indivíduos no
ambiente (Guilardi et al. 2008).

No Brasil
A preocupação com a introdução marinha no Brasil é recente, datando das últimas três décadas. A
iniciativa internacional de impedimento e contenção de espécies exóticas existe desde 1982, criada durante
Convenção sobre o Direito do Mar e das Nações Unidas (Convenção de Montego Bay). Seguiu-se a preocupação
com a elaboração da Agenda 21 Internacional, debatida durante a Conferência das Nações Unidas sobre meio
Ambiente e Desevolvimento de 1992 (a famosa Rio 92, resultando na Convenção sobre Diversidade Biológica).

124
Houveram outros esforços para a inclusão do tema na VI Conferência das Partes da Convenção em 2002
(Holanda), e a participação da Organização Marítima Internacional com a Convenção Internacional para o
Controle e Gestão da Água de Lastro de Navios e Sedimentos Associados em 2004. O Brasil é signatário destas
ações, mas tomou suas próprias iniciativas em 2001 com a Reunião de Trabalho sobre Espécies Exóticas
Invasoras, seguido pelo I Simpósio Brasileiro sobre Espécies Exóticas Invasoras (2005). Houve também a
criação da Câmara Técnica Permanente sobre Espécies Exóticas Invasoras em 2006, pela Comissão Nacional de
Biodiversidade (CONABIO), envolvendo sempre uma série de organizações nacionais e internacionais, públicas
e não governamentais. Seguiu-se a publicação do Informe sobre as Espécies Exóticas Invasoras Marinhas no
Brasil em 2009, pelo Ministério do Meio Ambiente (Lopes et al. 2009). O esforço de investigação nesta área é
crescente e tanto as iniciativas quanto grande parte dos profissionais envolvidos estão reunidos no trabalho de
Fernandes et al. (2009).
Em relação às algas marinhas, especificamente, temos o registro de alguns eventos de introdução em
águas brasileiras (explanados mais detalhadamente em Oliveira et al. 2009, Torrano-Silva et al. 2010 e
Torrano-Silva et al. 2013), ocorrido com as seguintes espécies: Kappaphycus alvarezii, K. striatum, Porphyra
suborbiculata, Caulerpa scalpelliformis e Laurencia caduciramulosa. As três primeiras têm atrativo comercial
para a indústria, enquanto que C. scalpelliformis tem uso na aquariofilia e L. caduciramulosa não tem uso
humano.
Caulerpa scalpelliformis, variedade de distribuição reconhecidamente pantropical, tinha como limite sul
de sua distribuição no Brasil a região do Espírito Santo, até ser documentada na baía de Ilha Grande (RJ) em
2001. Desde então, esta alga vem aumentado rapidamente sua área de distribuição, chegando a deslocar a
espécie Sargassum vulgare anteriormente dominante, além de influenciar a abundância de outras espécies da
comunidade bentônica. Um possível vetor de introdução de C. scalpelliformis na região seria a movimentação de
embarcações, dada a presença do terminal petroleiro da baía de Ilha Grande e do estaleiro da Verolme. Vetores
alternativos seriam a aqüicultura de moluscos e a aquariofilia, neste último caso devido à beleza estética desta
alga e sua fácil adaptação a aquários.
Laurencia caduciramulosa foi coletada pela primeira vez em 2001, também na baía de Ilha Grande
(RJ), inicialmente sob a forma de indivíduos esparsos. Pouco tempo depois a espécie passou a ser vista em áreas
circunvizinhas. Apesar do pequeno porte, L. caduciramulosa difunde-se facilmente através de propágulos
apicais. O fato de não ter sido detectada em levantamentos prévios reforça a proposição desta espécie ser uma
nova ocorrência. A existência de estaleiros nas proximidades das áreas de ocorrência desta alga levanta a
hipótese destes serem a fonte de introdução - já que a alga poderia ser transportada presa às estruturas do barco
ou mesmo pela água de lastro. Recentemente um novo registro foi feito no estado da Bahia. Por se tratar de
espécie inconspícua, é muito possível que o ponto original de introdução seja qualquer outro ponto não
investigado.
Kappaphycus alvarezii e K. striatum foram inicialmente introduzidos em Ubatuba, sob a forma de um
cultivo experimental para obtenção de biomassa para extração ficocolóides, sob autorização do IBAMA - sendo
que K. striatum foi erradicado em 2001. Após este pontapé inicial, K. alvarezii teve uma ampliação da área
autorizada para cultivo em toda a faixa entre a Baía de Sepetiba (RJ) e Ilhabela (SP). Mais recentemente,
Florianópolis (SC) também conta com uma frente de investigação no cultivo de K. alvarezii, liderados pela Dra.
Leila Hayashi, da UFSC (Paula e Pereira 1998; Paula e Oliveira 2004).

125
Há indícios de que uma série de outras introduções de algas, sem acompanhamento científico, foram
efetuadas em outras regiões do país, como são os casos de Eucheuma denticulatum, Porphyra sp. e mesmo K.
alvarezii. Apesar de todos os riscos de uma introdução executada fora dos cânones da boa prática ecológica,
parece que tanto as introduções de Porphyra sp. no sudeste brasileiro e de E. denticulatum no nordeste
fracassaram e não se estabeleceram na natureza.
Baseando-se no exemplo da devastação biológica provocada pelo avanço de Caulerpa taxifolia no mar
Mediterrâneo, uma pesquisa brasileira incluiu a investigação da situação das macroalgas marinhas em aquários
comerciais. Este trabalho encontrou uma grande variedade de espécies viventes em tanques do Estado de São
Paulo, incluindo grupos não registrados para águas brasileiras (Torrano-Silva et al. 2013). Além destas, foi
detectada a presença de C. scalpelliformis em uma variedade de distribuidoras, onde os talos são multiplicados a
fim de serem utilizadas como ornamentação e refúgio em aquários marinhos. Lembrando que esta é a mesma
espécie encontrada na Ilha Grande (RJ), sob a forma de espécie invasiva, fica comprovada a potencialidade da
aquariofilia como fonte contensora de espécies potenciais para a invasão de ambientes marinhos costeiros.

126
Papel ecológico dos metabólitos secundários frente ao
estresse abiótico
Carmen Palacios
Daniele Serra
Priscila Torres

Estresse
O estresse é provocado a partir da atuação de estímulos bióticos ou abióticos, que em geral ocorrem de
forma brusca ou intensa e desencadeiam alterações no funcionamento natural dos organismos, provocando
diversas respostas que podem conduzir a aclimatação. Dependendo da intensidade do estresse, de seu período de
incidência e do organismo afetado, a tensão sofrida poderá causar modificações genéticas. Se estas mudanças são
positivas ante a pressão incidente, possivelmente haverá evolução. Neste contexto, o estresse tem importância
ecológica e evolutiva.
Existem estresses de dois tipos: 1. biótico, quando atuam patógenos, alelopatia e herbívoros e 2.
abióticos, quando há a alteração das condições ambientais que o organismo se encontra aclimatado.

Estresse abiótico e metabólitos secundários


Os fatores abióticos podem influenciar direta ou indiretamente crescimento, desenvolvimento,
reprodução, distribuição e sazonalidade, causando alterações na eficiência fotossintetizante, adaptação e
performance de aclimatação de organismos fotossintetizantes.
Deste modo, o estresse abiótico ocorre quando há modificação em condições ambientais como luz
excessiva ou radiação UV, dessecação, deficiência de nutrientes, choques mecânicos, exposição a metais
pesados, temperaturas altas e baixas, mudanças abruptas de temperatura, hipoxia ou anoxia e, ainda, atividades
antrópicas: despejo de esgotos ou substâncias tóxicas, entre outros (figura 1).

Figura 1: Esquema da incidência de alguns dos principais agentes de estresse abiótico sobre os
organismos fotossintetizantes.

127
Essas alterações abióticas são potencialmente prejudiciais para as plantas, podendo conduzir à morte de
células, partes ou até mesmo todo o organismo. Dessa forma, podem ser observadas em organismos
fotossintetizantes diversas respostas de proteção frente ao estresse abiótico. Dentre estas respostas, os
metabólitos secundários podem atuar como mitigadores permitindo que o organismo fotossintetizante transponha
uma situação de estresse. Por isso é comum verificar mudanças qualitativas e/ou quantitativas na composição
química dos organismos sob estresse abiótico, resposta ecologicamente significativa.

Tipos de estresses
Poluição
Os poluentes atmosféricos têm um efeito negativo sobre as plantas; eles podem ter efeitos tóxicos
diretos ou indiretos, alterando o pH do solo, seguido pela solubilização dos sais não tóxicos de metais, como o
alumínio. As matérias de partículas têm um efeito mecânico negativo ao cobrir as lâminas foliares reduzindo a
penetração da luz impedindo a abertura de estômatos, limitando assim a taxa fotossintética.
O crescimento demográfico tem gerado efeitos positivos tanto na economia como na tecnologia. No
entanto, esses efeitos positivos causam modificações contínuas na atmosfera devido ao acúmulo de inúmeros
poluentes intensificados pelas atividades industriais, desse modo são liberados os denominados gases de efeito
estufa (GEE). Dentre os principais GEE, o ozônio troposférico (O3) é considerado um dos principais poluentes
por ser altamente oxidativo com impacto sobre todos os ecossistemas. Em geral, poluentes como SO2, NO e O3
são absorvidos através dos poros existentes na superfície foliar, chamados de estômatos. Uma vez no interior da
planta, os poluentes podem reagir com a água formando compostos tóxicos ou menos tóxicos. Há também
absorção realizada pelas raízes.
Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) o dióxido
de carbono (CO2) é o GEE antrogênico mais importante. Suas emissões anuais cresceram entre 1970 e 2004 em
cerca de 80%, apresentando 77% do total das emissões antrópicas de GEE, em 2004. No entanto, as plantas
desempenham um papel importante na redução do teor de CO 2 atmosférico, através da fotossíntese. Essa redução
do teor de CO2 atmosférico tem um papel importante na redução de GEE e as consequências sobre as mudanças
climáticas. O carbono armazenado nas plantas é o resultado do equilíbrio entre o carbono fixado pela
fotossíntese e de carbono liberado na atmosfera pela respiração.
As ceras cuticulares, camada de natureza lipofílica (figura 2), mostram-se como uma barreira específica
de proteção contra as condições adversas. As respostas decorrentes do aumento de CO2 são variáveis: por
exemplo, nas ceras cuticulares o teor pode apresentar alterações de acordo com as diferentes condições
ambientais. Assim, Hymenaea courbail (jatoba) da Mata Atlântica apresentou maior teor de cera foliar em
contraste a menor teor de cera foliar nos indivíduos do Cerrado ao serem cultivadas sob 720 ppm de CO2. No
entanto, houve variação nas abundâncias relativas de suas classes constituintes (n-alcanos e triterpenos). Plantas
oleaginosas (como canola e soja), em atmosferas enriquecida com 740 ppm e 800 ppm de CO2, respectivamente,
aumentaram o teor de cera cuticular. Todavia, Pinus palustris e Agave deserti apresentaram redução da cera sob
condições de 720 ppm e 750 ppm de CO2, respectivamente. Contudo, estudos de acoplamento de O3 e CO2 não
mostraram nenhum efeito.

128
Figura 2: Esquema da distribuição da cera cuticular.

Para outros metabólitos secundários, foi relatado que Digitalis lanata cultivada em casa de vegetação
com atmosfera enriquecida com 1000 ppm de CO 2 produziu 3,5 vezes mais digitoxina (heterosídeo cardiativo
utilizado na terapêutica da insuficiência cardíaca congestiva) por hectare do que plantas cultivadas no campo.
Plantago lanceolata apresentou concentrações similares ou menores de iridóides quando cresceram sob 700 ppm
de CO2. Nas emissões de compostos voláteis (terpenoides) e resinas, tratamentos com SO 2, NO2 e O3
troposférico podem alterar quali- e quantitativamente a presença deles.
Em decorrência das alterações ambientais são usadas plantas bioindicadoras que reagem de forma
previsível e quantificável a perturbações ambientais, apresentando a tendência de modificar suas funções vitais
de diferentes formas e em diferentes níveis. Assim, a abundância de antocianinas e taninos são bons indicadores
de poluição por O3, como observado em folhas de Psidium guajava “Palumula” que demonstrou correlação
positiva e significativa entre estes compostos e a concentração de 7802 ppb h O3. Porém, estudos em Betula
pendula Roth não mostraram diferenças em flavonoides de folhas, não obstante, proantocianidinas e seus
precursores mostraram diferenças nos caules, conjuntamente estudos de análise de açúcares totais foram
significativos nas folhas.

Temperatura
As plantas são submetidas a oscilações contínuas de temperatura diurna e sazonal que acontecem
naturalmente, sendo uns dos fatores ambientais de grande importância no crescimento, desenvolvimento e
rendimento; embora temperaturas extremas possam ser as causas mais proeminentes do estresse ambiental. Já a
síntese de metabólitos secundários é extremamente dependente das condições climáticas e das características
genotípicas de cada planta. Contudo, as plantas conseguem desenvolver estratégias para evitar o dano causado
pela mudança súbita de temperatura, sendo que uma condição ideal para uma determinada planta pode ser
estressante para outra. Entre essas estratégias desenvolvem-se respostas ao estresse, forçando o investimento em
recursos para modificar seu metabolismo e assim prevenir danos causados pelo calor esse processo normalmente
é referido como aclimatação.
Os cenários projetados no quinto relatório do IPCC (Setembro, 2013) para este século apresentam
aumento na temperatura entre 2,6 °C e 4,8 °C, dessa forma muitas espécies vegetais aturariam em ambientes
mais quentes.

129
Nas espécies vegetais adaptadas a ambientes de clima temperado, como por exemplo, soja, ervilha,
milho e trigo, à medida que a temperatura aumenta, inicia-se a síntese de proteínas de choque térmico (HSPs, do
inglês, Heat shock protein). As HSPs classificam-se dentro das famílias das chaperonas moleculares
responsáveis pelo dobramento, motagem, translocação e degradação de vários processos celulares normais,
estabilizando proteínas e membranas, que podem ajudar no redobramento das proteínas sob condições de
estresse. Além disso, estudos demostraram a correlação positiva entre o aumento da síntese de HSPs e aumento
da temperatura, por exemplo, a superexpressão de genes HSP70 (uma das classes de HSPs). As HSPs são
designadas pelos seus pesos moleculares aproximados em kDa como HSP110, HSP90, HSP70, HSP60, HSP40 e
as HSPs de baixo peso molecular (15–30 kDa).
O estresse térmico pode desacoplar algumas vias metabólicas dependentes das enzimas sensivéis ao
aumento da temperatura e provocar o acúmulo de espécies reativas de oxigênio (ERO). Estudos em Arabidopsis
thaliana revelaram que o cálcio, ácido abscísico (ABA), etileno e ácido salicílico estão envolvidos na proteção
contra o dano oxidativo induzido pelo calor. Não obstante, temperaturas acima dos 35 °C podem inibir a síntese
de etileno. Contudo, os carotenoides, eficientes agentes detoxificadores de ERO, diminuíram após o tratamento
térmico em espécies da família Brassicaceae.
De fato, o aumento de 5 °C na temperatura ambiente causou em Panax quinquefolius (família
Araliaceae) a redução da taxa fotossintética, condutância estomatal, biomassa de raiz e biomassa total em 52%,
60%, 28% e 33%, respectivamente, assim como acelerou a senescência foliar. No entanto, não foi encontrado
alteração no teor de ginsenosídeo na raiz. Os ginsenosídeos são triterpenos tetracíclicos conhecidos como
saponinas esteroidais e classificados em 20(S)-protopanaxadiols e 20(S)-protopanaxatriols, referentes ao número
de açúcares ligados ao núcleo. Os 20(S)-protopanaxadiols, constituídos por duas moléculas de açúcares (incluem
Rb1, Rb2, Rc e Rd) e 20(S)-protopanaxatriols, formados por três moléculas de açúcares (incluem Re e Rg1). Os
ginsenosídeos atuam como agentes antifúngicos e antimicrobianos e os níveis de acumulação variam
dependendo das condições geográficas, estação anual, estadio da planta, condições do solo e luz.
Além disso, Hypericum brasiliense (família Clusiaceae) apresentou diminuição do ácido betulínico
(triterpeno pentacíclico com propiedades de anti-retroviral, anti-malária, anti-inflamatório e anti-cancerígeno) ao
crescer sob 36 °C, enquanto que o teor de ácidos fenólicos aumentou. Os compostos fenólicos compreendem
uma grande variedade de esqueletos de carbono e uma vasta diversidade de estruturas. Entre esses compostos, os
flavonoides, apresentam-se na forma livre (agliconas) ou ligados a açúcares (glicosídios). Partícularmente, a
quercetina (aglicona) se expressa como um potente sequestrador de radicais livres devido à di-hidroxilação do
anel B (3’ e 4’) assim como a insaturação e a função 4-oxo do anel C (figura 3). Assim também, kaempferol
revelou um forte potencial antioxidante.
OH
3'
4' OH

HO
1 B
7 9 O
6'
A C
4
5 OH
OH O

Figura 3: Molécula de flavonoide aglicona quercetina

130
Por outro lado, espécies nativas de ambientes quentes, como por exemplo, milho, soja, algodão, tomate
e banana, quando sujeitas a temperaturas inferiores a 15 °C podem apresentar redução da taxa fotossintética e
injúrias. Assim, uma das principais formas de defesa diante de temperaturas extremas é a modificação estrutural
da membrana plasmática na celula vegetal, que serve como barreira de permeabilidade. Temperaturas de
congelamento danificam a membrana celular, produzindo desidratação aguda associada ao congelamento. A
membrana lipídica é composta principalmente de duas classes de ácidos graxos, saturados e insaturados. Os
ácidos graxos insaturados possuem uma ou mais duplas ligações na cadeia carbônica, enquanto os ácidos graxos
saturados são totalmente saturados com átomos de hidrogênio. Devido ao ponto de fusão, os ácidos graxos
insaturados solidificam-se em temperaturas mais baixas que os ácidos graxos saturados (Tabela 1).

Tabela 1: Principais ácidos graxos nas plantas angiospermas


Ácidos graxos Ponto de fusão (°C)
O

Laúrico HO CH3 44
O

Mirístico HO CH3
58
O

Palmítico HO CH3 63
Saturados
O

Esteárico HO CH3 71

CH3
Araquídico HO 77
O

Palmitoleico HO CH3 -0,5


O

HO

Oleico CH3 16
O

HO CH3

Linoleico -5
Insaturados O

HO

CH3
Linolênico -11
O

HO

H3C

Araquidônico -49

Baixas temperaturas estão associadas a maiores concentrações de flavonoides devido ao aumento


quantidade de ERO. Os flavonoides são frequentes nas camadas de células epidérmicas e nos tecidos suscetíveis
à luz UV, tais como pólen e meristema apical. Portanto, sob condições de baixas temperaturas e altas
intensidades de luz (UV) o acúmulo de antocianinas seria favorecido. Contudo, quando ocorre a elevação da
131
temperatura durante desenvolvimento dos frutos há degradação de antocianinas e por consequência a redução do
valor econômico no mercado. Químicamente, a metoxilação (–CH3), glicosilação (glicose) e acilação (R–CO–)
promovem a estabilidade de antocianinas sob altas temperaturas ocorrendo baixos níveis de sínteses de
antocianinas.

Irradiância
Em ambientes naturais, organismos fotossintetizantes estão sujeitos a alterações na irradiância e
qualidade da luz e tais mudanças podem ocorrer numa sobretaxa temporal e espacial. As flutuações na luz
ocorrem em escala de segundos e controlam o nível de energia para a membrana fotossintetizante e atividades
enzimáticas de assimilação e podem ocasionar estresse oxidativo.
Sendo assim, a composição do aparato fotossintetizante e a atividade fotossintetizante, assim como os
processos metabólicos dela dependentes, são altamente sensíveis às longas e/ou intensas mudanças de irradiância
e qualidade espectral da luz. Como exemplo, o sombreamento natural das folhas causa a redução da relação
rendimento/rendimento fotossintetizante devido à deficiência de fótons pela filtragem dos pigmentos
fotossintetizantes. Além disso, as plantas podem enfrentar dificuldades não só por mudanças na irradiância, mas
também com a variação dos tipos de espectros de sombra, pois a energia necessária para excitar um pigmento
fotossintetizante depende da estrutura do próprio pigmento.
Os pigmentos fotossintetizantes tendem a se ajustar às condições de irradiância, sendo então possível
verificar alterações globais dos pigmentos responsáveis pela absorção da luz. Deste modo, sob altas irradiâncias,
os pigmentos fotossintetizantes tendem a sofrer redução em suas concentrações. Os efeitos causados pela
irradiância também sofrem grande influência da temperatura. Assim, se uma planta é exposta a alta irradiância e
a alta temperatura, haverá aumento da oxidação. Enquanto a mesma planta, sob igual irradiância, mas sob
temperatura mais baixa, possivelmente apresentará oxidação menos significativa.
O excesso de estímulo luminoso pode causar redução de componentes de transporte de elétrons no
aparato fotossintetizante e lignificação. E embora a aclimatação às mudanças de irradiância em organismos
fotossintetizantes possa ocorrer em escala de minutos a horas, a mudança mais dramática durante a exposição
desses organismos ao excesso de irradiância é a fotoinibição (figura 4A). Isso acontece quando a taxa de
conversão de energia luminosa é menor do que a taxa de absorção de energia luminosa. Essa diminuição do
rendimento da fotossíntese está relacionada com a redução da atividade fotoquímica dos cloroplastos do centro
de reação do fotossistema II (PSII, do inglês Photosystem II), causando redução da atividade fotossintetizante.
Entretanto, a fotoinibição pode ser reversível se os componentes (por exemplo, a proteína D1) do PSII forem
recuperados.
O aumento do estresse oxidativo favorece a elevação da produção de substâncias que atuam como
antioxidantes bem como a redução de componentes fotossintetizantes. Algumas dessas substâncias agem
absorvendo o excesso de energia luminosa e liberando-a em forma de calor, forma de energia que causa menor
prejuízo ao organismo. Dentre os antioxidantes que respondem ao excesso de luminosidade encontram-se ácidos
fenólicos, flavonóides e aminoácidos tipo micosporinas, que absorvem a radiação UV, carotenoides, que
dissipam energia via ciclo das xantofilas e antocianinas que atuam mitigando a degradação da clorofila durante o
estresse por excesso de luz.

132
Os efeitos do excesso de luminosidade, estresse oxidativo e atuação das substâncias antioxidantes
também podem ser notados visualmente através da descoloração de folhas, arqueamento de ramos e necrose. Do
mesmo modo, outras modificações celulares como espessamento de parede celular, aumento do volume das
células, clareamento e alteração da disposição dos cloroplastos e de outras organelas (que se tornam mais
centralizados) podem ser verificadas (figura 4B).

Figura 4: A. Fotossíntese x irradiância, onde observa-se o aumento da irradiância provocando a elevação da


atividade fotossintetizante até a estabilização e inibição. B. Planta sob dois regimes de irradiância; esquerda:
irradiância à que a planta está habituada; direita: irradiância mais alta do que a habitual, que age promovendo
deformação e descoloração das folhas; nas células, há o aumento do volume, espessamento da parede, a
descoloração e a centralização de cloroplastos e outras organelas e o aumento da produção de substâncias de
reserva.

Estresse salino
A salinidade do solo é um dos principais fatores que limitam o crescimento e o desenvolvimento da
planta em seu habitat natural. Este tipo de estresse se caracteriza pelo aumento na quantidade de sal no ambiente
em que a planta vive.
O processo de salinização pode ser natural ou causado pelos seres humanos. O processo de salinização
natural ocorre em regiões áridas e semiáridas, principalmente onde os lençóis freáticos estão muito próximos à
superfície do solo, facilitando a subida da água por evaporação nos solos secos. A água conduz os sais deixando-
os na superfície do terreno. Dessa forma, as fronteiras naturais impostas pela salinidade dos solos limita o
potencial agrícola. Estima-se que cerca de 40% das áreas da Terra sejam cobertas por regiões áridas e
semiáridas.
Já o processo de salinização causado de forma antrópica, ocorre pelo manejo inadequado com irrigações
excessivas associadas à pouca drenagem de alguns tipos de solo. Assim, a água acumulada evapora e acaba
deixando os sais no solo. Esta é uma das principais causas de perda de solos agricultáveis no mundo todo.
Segundo a ONU é possível que cerca de 20% das terras agrícolas e 50% das terras cultiváveis no mundo sofrem
por problemas de salinidade, principalmente as culturas de grande importância econômica, como o milho (Zea
mays L.) e arroz (Oriza sativa L.).
133
As plantas apresentam graus distintos de tolerância à salinidade. As que possuem uma alta tolerância
são ditas halófitas, geralmente, nativas de ambientes salinos, como por exemplo, plantas de mangues. Enquanto
plantas sensíveis ou hipersensíveis a níveis mais altos de sais são ditas glicófitas, que compreendem a maioria
das plantas terrestres, incluindo as alimentícias e de interesse econômico.
A alta salinidade pode inibir o crescimento, prejudicar o desenvolvimento, acelerar a senescência ou
mesmo provocar a morte, devido principalmente a fatores osmóticos e iônicos. Os fatores osmóticos ocorrem em
decorrência do acúmulo de sais dissolvidos no solo, que causam a redução do potencial hídrico, dessa forma
diminuindo a disponibilidade de água para as raízes, enquanto os fatores iônicos surgem como consequência da
absorção excessiva de íons, principalmente Na + e Cl- que acarretam em toxicidade para as plantas. Ambos os
fatores agem interferindo em processos metabólicos diversos.
Os metabólitos secundários são importantes na defesa contra o estresse salino. É comum verificar
mudanças nos níveis de antioxidantes, como muitas substâncias fenólicas; isso sugere um possível estresse
oxidativo. Em consequência do estresse osmótico, pode haver aumento de substâncias de baixo peso molecular
que ajudam a manter o equilíbrio osmótico nas células, essas substâncias são ditas osmólitos. Entre os osmólitos
mais comuns, estão os polióis, como sorbitol, manitol, glicerol e pinitol e compostos nitrogenados, como a
glicina-betaína e a prolina.

Estresse hídrico
A disponibilidade de água é crucial para vida das plantas, sendo o excesso ou a falta o que caracteriza o
que chamamos de estresse hídrico. Segundo a ONU, em consequência das mudanças climáticas, este tipo de
estresse pode afetar drasticamente a produção de alimentos. A previsão mostra que no nordeste brasileiro
choverá 22% menos. Aliás, seca e inundações são problemas que os agricultores enfrentam rotineiramente em
vários países, principalmente em países em desenvolvimento.
Enchentes podem ser altamente letais para plantas, pois prejudica a troca de gases entre o solo e as
raízes. É comum este tipo de estresse acarretar em estresse oxidativo e consequentemente provocar aumento na
produção de antioxidantes.
Entretanto a falta de água, ou seja, a seca é muito mais preocupante para o mundo do que as enchentes.
Desde 1970 as regiões que sofrem por seca mais que dobraram. São 168 países enfrentando o processo de
desertificação. Este déficit hídrico pode ocasionar desidratação celular e desequilíbrio osmótico nas plantas, que
para evitar maiores perdas de águas fecham os estômatos. Em consequência, há a restrição da difusão do CO 2
dentro das folhas, o que afeta diretamente a fotossíntese, gerando o estresse oxidativo e o incremento de
antioxidantes.
Sob déficit hídrico é comum observar um forte incremento de antocianina nas plantas, porém existe um
debate quanto a função desta substância. Alguns autores sugerem que funcionam como antioxidantes, outros
dizem que atuam como osmólitos ou mesmo como fotoprotetores. Contudo, não há dúvida de que as
antocianinas têm extrema relevância durante o déficit hídrico, visto que cultivares de pimentas vermelhas, ricas
em antocianinas são mais resistentes à falta d’água do que cultivares verdes.
Semelhante debate existe quanto à função de outras substâncias como os alcaloides (por exemplo, a
capsaicina em pimentas) ou glicosídeos cianogênicos (por exemplo, a linamarina em mandiocas) que também
apresentam um aumento massivo em respostas à seca. Outra estratégia adotada por plantas expostas a déficit

134
hídrico é o aumento da espessura das cutículas, além de mudanças em suas composições, como o aumento de n-
alcanos e cutina que já foram observados em Arabidopsis thaliana.
De forma geral, plantas expostas a estresse hídrico por deficiência de água ou mesmo estresse salino
exibem aumento de metabólitos secundários. Estas características valorizam o sabor e aroma de temperos e o
potencial farmacêutico de plantas medicinais cultivadas em regiões secas e semiáridas, pois metabólitos
secundários são geralmente substâncias de interesse.

Estresse nutricional
O estresse nutricional se caracteriza ou pelo excesso ou pela falta de algum nutriente para a planta.
Quando há falta de macronutrientes como nitrogênio, é comum o acúmulo de substâncias com estruturas
constituídas apenas de carbono, hidrogênio e oxigênio, como as substâncias fenólicas. Neste caso, foram
observados os acúmulos de antocianinas e maior lignificação. Contudo, o excesso deste macronutriente pode
deslocar as vias para a produção de compostos nitrogenados como alcalóides, glicosídeos cianogênicos e
glucosinolatos. O aumento de nutrientes, consequência comum do uso inadequado de fertilizantes, também pode
provocar estresse salino, como visto anteriormente. Os micronutrientes são menos estudados, mas o magnésio e
molibdênio, por exemplo, quando em excesso podem provocar aumento de glicosídeos cardioativos como em
Digitalis grandiflora, já a falta de micronutrientes tal a do boro em palmeiras, pode provocar a redução da
síntese de substâncias fenólicas.

Considerações finais
De acordo com ideias mencionadas, os estresses abióticos são responsáveis por elevar a produção de
compostos oxidantes, que sinalizam respostas antioxidantes. Essas respostas antioxidantes agem mitigando o
estresse oxidativo, conferindo maior resistência e podendo conduzir a aclimatação do organismo.
Os metabólitos secundários variam de acordo com cada espécie, sendo disparados os que mais se
adéquam à condição de estresse atuante, considerando os fatores que influenciam diretamente na disponibilidade
dos metabólitos, como por exemplo, a nutrição, que será determinante na produção dessas substâncias.
Assim, embora os metabólitos secundários apresentem sítios de atuação e funções específicas, muitos
desses provocam respostas semelhantes. Então, a principal função dos metabólitos secundários, ante ao estresse,
é evitar o dano crônico e/ou a morte dos organismos. Assim, a partir das possíveis alterações genéticas
decorrentes desse estresse os organismos podem atingir à aclimatação e finalmente a especialização da espécie.

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Polinização e tipos de reprodução em angiopermas
Fabiana Firetti-Leggieri
Juliana El Ottra

As plantas, diferentemente da maioria dos animais, são organismos imóveis (sésseis) e por isso
necessitam de agentes externos para a sua reprodução sexuada. As angiospermas desenvolveram um conjunto de
características que as permitem controlar ativamente sua escolha de parceiros para a reprodução sexuada. Esse
conjunto de características está reunido na flor. As flores são definidas como eixos caulinares com entrenós
encurtados que comportam apêndices foliares modificados para exercerem a função de reprodução. Nas flores,
os verticilos externos, denominados cálice e corola, geralmente exercem os papéis de proteção dos verticilos
reprodutivos mais internos e de atração dos animais polinizadores, respectivamente. Já os verticilos reprodutivos
(mais internos), androceu e gineceu, produzem, respectivamente, os grãos-de-pólen que carregam os gametas
masculinos e os óvulos que, após fertilizados, darão origem às sementes.

Polinização
As flores das angiospermas apresentam uma extraordinária diversidade formas e cores que vem
impressionando botânicos desde os tempos de Goethe. Os estudos das flores com enfoque ecológico associam a
existência de tal diversidade pela influência de vários fatores, bióticos e abióticos, que atuariam na evolução das
flores, sendo a pressão seletiva por parte dos polinizadores de grande importância. Estudos realizados com
diversos grupos de plantas mostram que polinizadores exercem pressões seletivas consideráveis sobre um
conjunto de caracteres florais relacionados à polinização. A seleção de tais feições florais pode estar diretamente
relacionada à especiação e diversificação dos táxons por afetarem o sucesso reprodutivo das plantas. Desse
modo, a presença de tais características morfológicas é notável exemplo de ação da seleção natural e de seus
produtos adaptativos. As evidências dos estudos de adaptação floral em relação aos seus vetores de pólen
levaram ao surgimento do conceito de síndromes de polinização, que consiste na convergência das formas florais
em linhagens de plantas filogeneticamente distantes, e sua associação previsível com certos polinizadores, sejam
estes bióticos ou abióticos.
Os principais tipos e características das síndromes de polinização são:

Polinização biótica
Polinização por besouros (cantarofilia): As flores polinizadas por besouros são geralmente grandes e solitárias
(ex: magnolias) ou pequenas e agregadas em inflorescências (ex: Araceae); nos besouros, o sentido de olfato é
mais desenvolvido que o visual, assim, as flores polinizadas por besouros são brancas ou com cores pouco
vistosas, mas com odor forte, distinto de odores adocicados. Os recursos podem ser néctar e pólen ou somente
pólen e partes florais.

Polinização por abelhas (melitofilia): as abelhas caracterizam o grupo mais importante de animais visitantes de
flores. As flores que co-evoluíram com as abelhas têm pétalas vistosas, com plataformas de pouso e são
vivamente coloridas, geralmente azuis e amarelas ou com outras cores que refletem o UV; apresentam marcas

136
(guias de néctar) que indicam a posição do néctar; o principal recurso coletado pelas abelhas é o néctar e esse
geralmente é produzido em áreas de difícil acesso como nectários situados na base do tubo da corola; a flor
geralmente apresenta odor agradável e o pólen também pode ser coletado.

Polinização por borboletas (psicofilia): as flores que coevoluíram com borboletas são similares, em muitos
aspectos, a flores polinizadas por abelhas; entretanto, geralmente são flores tubulosas e de cores chamativas
(vermelha ou alaranjada), possuem néctar escondido em tubo floral estreito ou esporão (cálcar), flores de
orientação ereta, com odor fraco.

Polinização por mariposas noturnas (falenofilia): as flores polinizadas por mariposas noturnas são tipicamente
brancas ou de cor pálida, com odor fortemente adocicado que usualmente é emitido após o pôr-do-sol. O recurso
que estas flores oferecem aos seus visitantes geralmente é o néctar produzido por nectários localizados no tubo
de uma corola tubular, longa e delgada ou em esporões, ou ainda flores em forma de estrela e orientadas
geralmente na vertical.

Polinização por moscas (miofilia): as flores miófilas apresentam cores claras e opacas e néctar de livre acesso,
ou então, no caso da sapromiofilia, flores de cor escura como castanho-avermelhado ou marrom emitem odor
fétido parecido com o de carne podre.

Polinização por aves (ornitofilia): No continente americano, os principais polinizadores entre as aves são os
beija-flores, já em outras partes do mundo as flores são visitadas por representantes de outras famílias de aves.
As flores polinizadas por aves têm néctar copioso e pouco espesso, retido em tubos florais ou outras estruturas,
geralmente têm pouco ou nenhum odor, são coloridas (geralmente vermelhas e amarelas), grandes ou compõem
grandes inflorescências (estímulo visual); a orientação das flores é vertical, com ou sem plataforma de pouso
(esta é ausente no caso de flores polinizadas por beija-flores, que por adejarem não necessitam pousar para a
retirada do néctar).

Polinização por morcegos (quiropterofilia): os morcegos visitantes de flores podem ser encontrados em áreas
tropicais do Velho e do Novo Mundo. As flores visitadas por esse grupo de animais são grandes e robustas,
ficam pendentes ou no tronco das árvores (caulifloria), ou ainda em orientação horizontal, produzem grandes
quantidades de néctar, este geralmente em tubos florais ou outras estruturas, têm cores pouco vistosas, odor forte
de material fermentado ou fruto maduro e abrem somente durante a noite.

Polinização abiótica
Polinização pelo vento (anemofilia): as angiospermas polinizadas pelo vento estão melhor representadas em
regiões temperadas, sendo relativamente raras nos trópicos. Nas regiões temperadas, ao contrário das regiões
tropicais, as espécies são encontradas em grandes densidades de indivíduos por área e os indivíduos da mesma
espécie se encontram relativamente próximos. Para uma polinização realizada pelo vento ser bem sucedida, a
floração geralmente ocorre no período em que as plantas estão sem folhas, as flores femininas e masculinas se
encontram em indivíduos separados (plantas dióicas), são pouco vistosas com os verticilos externos geralmente

137
são reduzidos ou ausentes, os estames são bem expostos e as anteras produzem grande quantidade de grãos de
pólen pequenos e lisos, os estigmas são grandes e expostos, sendo comumente ramificados ou plumosos, o
ovário geralmente produz um único óvulo, não há produção de néctar e não apresentam odor.

Polinização pela água (hidrofilia): as angiospermas polinizadas pela água estão reunidas em cerca de 79
famílias e 380 gêneros e são plantas aquáticas submersas que vivem em ambientes marinhos ou de água doce.
Neste tipo de polinização, o pólen pode ser liberado isoladamente e, neste caso, forma filamento (pólen
filiforme) ou é disperso agrupado formando uma cadeia. Em outros grupos, como no gênero Vallisneria por
exemplo, as flores estaminadas são liberadas e flutuam até a superfície onde encontram três estames que se
apresentam eretos como velas.
Apesar do conceito de síndromes de polinização ter sido amplamente utilizado no passado e ter
dominado a literatura por muitos anos, estudos mais recentes, no entanto, têm argumentado que a ocorrência de
tal fenômeno não é universal, uma vez que em certos grupos de plantas nota-se uma fraca associação entre um
grupo particular de polinizadores e a morfologia floral. Adicionalmente, o conceito de síndromes não abrange
certas características florais que influenciam a polinização, como período e duração da floração durante o ano,
período de abertura da flor ao longo do dia, duração da antese floral e recompensas florais que estão também
diretamente relacionadas ao sistema de polinização e ao comportamento dos animais nas plantas. Por exemplo,
uma flor que morfologicamente se caracteriza como falenófila, mas que possui flores abertas, com néctar e
exalando odor também durante o dia, apresenta também visitas de polinizadores diurnos, como borboletas. Deste
modo, o tradicional conceito de síndromes de polinização não pode ser usado para definir precisamente o
polinizador efetivo de cada espécie vegetal. Também em relação aos estudos evolutivos, o que se tem observado
atualmente é que o fenômeno das síndromes de polinização deve ser analisado com critério, uma vez que se sabe
que outros fatores podem influenciar a evolução floral em um grupo, notavelmente as restrições filogenéticas,
que limitam a convergência das feições florais.
Apesar do conceito de síndromes não poder ser utilizado, nós podemos classificar as plantas em
oligofílicas (ou especialistas) ou polifílicas (ou generalistas) quanto ao seu sistema de polinização. As espécies
oligofílicas tendem a apresentar flores com morfologia e outros recursos (odor, por exemplo) mais
especializados e, por isso, são visitadas por um ou poucos grupos funcionais de animais. Um grupo funcional de
polinizador é classificado de acordo com semelhanças quanto ao hábito e comportamento ao forragear a flor, e
que por isso, exercem pressão seletiva similar sobre as características florais. Assim se uma flor for visitada por
cinco espécies de abelhas e 10 espécies de moscas melitófagas, esta seria visitada por dois grupos funcionais: o
das abelhas e o das moscas. Um exemplo de sistema de polinização especializado seria o caso de flores que
possuem as pétalas altamente modificadas, de cor escura, que lembram carne em decomposição, e que exalam
um odor fétido atraindo apenas moscas saprófitas (e.g, algumas espécies de Stapelia, Apocynaceae;
Bulbophyllum, Orchidaceae). Já as espécies polifílicas apresentam morfologia floral menos sofisticada e
investem na polinização por uma ampla gama de polinizadores apresentando assim um sistema de polinização
considerado generalista. A vantagem de ser uma espécie oligofílica ou polifílica irá depender das condições
ambientais em que a planta está sujeita. A oligofilia é mais vantajosa em ecossistemas estáveis onde os
polinizadores são numerosos e diversos e muitas espécies de plantas polinizadas por animais florescem
sincronicamente. Em contraste, as plantas polifílicas, que são visitadas por vários animais generalistas, terão

138
vantagem em ambientes perturbados onde os potenciais polinizadores são escassos. No entanto, não se deve
descartar o conceito de síndromes florais, uma vez que estas são úteis para a geração de hipóteses testáveis em
campo já que servem como ponto de partida para estudos sobre a biologia floral de grupos onde esta é totalmente
desconhecida.

Sistemas reprodutivos
A reprodução das plantas é determinada, geralmente, pelas interações extrínsecas com os vetores de
pólen e pelo tipo de sistema reprodutivo. A reprodução sexuada tem grande vantagem seletiva. Ela ocorre apenas
em organismos eucariotos e é decorrente de uma alternância de gerações regular entre meiose e fecundação.
Uma das mais significativas características da reprodução sexuada é que esse mecanismo produz uma enorme
variabilidade genética, o que ajuda na manutenção da diversidade. Nas angiospermas, a reprodução sexuada não
requer apenas a produção de gametas, mas também o desenvolvimento das flores e de vários outros dispositivos
que aumentam as possibilidades de fecundação desses gametas.
A polinização pode ocorrer em uma mesma flor (autopolinização, autogamia), entre as flores de um
mesmo indivíduo (geitonogamia) ou entre flores de indivíduos diferentes (polinização cruzada). Geneticamente,
a autogamia é equivalente a geitonogamia. Muitas plantas evitam a autopolinização e, deste modo, as
conseqüências da depressão endogâmica, desenvolvendo mecanismos que favoreçam a polinização cruzada. Tal
impedimento é alcançado pela separação dos gametas femininos e masculinos no tempo ou no espaço e por
mecanismos de auto-incompatibilidade.
A separação espacial (ou hercogamia) pode ocorrer de diversos modos. Esta pode ocorrer através da
dioecia ou monoecia. Na dioecia, as flores estaminadas e pistiladas se encontram em indivíduos diferentes,
enquanto que na monoecia as flores de sexos separados estão localizadas no mesmo indivíduo. Ainda, a
hercogamia pode apresentar-se dentro de uma mesma flor (hercogamia intrafloral). Neste caso, o estilete pode
localizar-se acima do nível das anteras (hercogamia de aproximação), ou também pode ocorrer o inverso - as
anteras localizam-se acima do nível dos estigmas (hercogamia reversa).
A separação temporal (ou dicogamia) é alcançada quando a liberação dos grãos de pólen e a
receptividade estigmática ocorrem em momentos diferentes, i.e., quando o estigma está receptivo antes de
ocorrer a liberação do pólen (protoginia) ou quando as anteras liberam os grãos de pólen antes de o estigma estar
receptivo (protandria).
Outro mecanismo para evitar a autopolinização é a auto-incompatibilidade (SI), i.e., a
inabilidade de uma planta bissexual produzir zigotos a partir da autofertilização. É um dos principais
mecanismos que evoluíram nas plantas com flores para favorecer a xenogamia e, consequentemente, a geração
de variabilidade genética. Estima-se que metade das angiospermas sejam SI, sendo documentada em
eudicotiledôneas, monocotiledôneas e em taxa considerados basais na árvore das angiospermas. As melhores
evidências para a presença de auto-incompatibilidade são: (1) germinação do pólen e crescimento de tubo
polínico diferencial após a autopolinização e polinização cruzada; (2) desenvolvimento diferencial dos óvulos
após a autopolinização e polinização cruzada; (3) aborto sincrônico de frutos e parada no desenvolvimento dos
embriões após a autopolinização.
O controle genético nos sistemas de SI é geralmente exercido por um único lócus, o gene S, com muitas
formas alélicas alternativas, os quais podem estar associados a outros genes que não contribuem para a

139
especificidade da SI, mas parecem participar da sua expressão. Existem diferentes maneiras de classificar os
sistemas de incompatibilidade, as quais são definidas pelo tipo de controle genético, pelos locais no pistilo onde
se processam as reações de reconhecimento e rejeição do gametófito masculino e conforme as flores são
homomórficas ou heteromórficas. De acordo com tais critérios são reconhecidos três tipos fundamentais de SI: o
sistema homomórfico gametofítico (GSI), o sistema homomórfico esporofítico (SSI) e o sistema heteromórfico
(HetSI).
GSI: O sistema homomórfico gametofítico, ou auto-incompatibilidade gametofítica, é considerado o
tipo mais comum nas angiospermas. De acordo com o modelo genético estabelecido, o lócus S multialélico atua
na especificidade deste sistema. A reação de incompatibilidade é determinada pelo alelo s portado pelo
gametófito masculino, deste modo, a reação de incompatibilidade ocorre quando o produto de um alelo s do
gametófito masculino (grão de pólen/ tubo polínico) encontra o produto de um alelo s idêntico no tecido
transmissor do estigma/estilete.
SSI: No sistema homomórfico esporofítico, ou auto-incompatibilidade esporofítica, o controle genético
da incompatibilidade é exercido por apenas um lócus S, contendo vários alelos em uma população. Neste sistema
de incompatibilidade, ambos os alelos s presentes no esporófito doador de pólen (planta parental paterno)
determinam a reação de incompatibilidade. Assim, cada grão de pólen (haplóide), embora possua apenas um
alelo s em seus núcleos, é potencialmente capaz de desencadear a reação de incompatibilidade para ambos os
alelos presentes no esporófito no qual o pólen foi formado. Admite-se que o produto do gene S em plantas com
SSI é uma substância derivada das células tapetais, depositada na exina dos grãos de pólen. Este sistema de
incompatibilidade parece ser bastante raro nas angiospermas, tendo emergido várias vezes em grupos
taxonômicos filogeneticamente não relacionados.
HetSI: sistema heteromórfico, ou auto-incompatibilidade heteromórfica, é um tipo de SI esporofítica
que envolve diferenças na morfologia floral. Neste caso, como visto em Primula, um tipo de flor tem um estilete
longo e estames curtos (forma pin) e o outro tipo possui estames longos e estilete curto (forma thrum). Neste
caso somente as polinizações realizadas entre morfos diferentes são bem sucedidas. Uma situação mais rara e
complexa ocorre em espécies trísticas com três alturas de estilete e de estames, sendo o princípio da
incompatibilidade semelhante ao da distilia. O heteromorfismo é governado por um supergene, uma série de
genes próximos ou ligados em um cromossomo. Os indivíduos thrum são heterozigotos (Ss) e os pins são
homozigotos recessivos (ss).
Além do comprimento dos estiletes e da altura das anteras, outras diferenças morfológicas acompanham
as diferentes formas florais como tamanho do pólen, morfologia da exina e tamanho das papilas estigmáticas.
Vários estudos indicam que as características morfológicas do pólen e das papilas estigmáticas que acompanham
as formas florais podem favorecer a aderência e, consequentemente, o potencial germinativo dos grãos de pólen
na superfície estigmática. Devido a associação entre heterostilia e HetSI, este sistema é facilmente reconhecido
na natureza e já foi registrado em 24 famílias e em mais de 164 gêneros de angiospermas. As famílias que
apresentam o maior número de gêneros e espécies heteromórficas são Primulaceae, Oxalidaceae,
Plumbaginaceae, Connaraceae e Rubiaceae. A ampla distribuição da HetSI indica uma evolução independente
desse sistema em muitos grupos taxonômicos, filogeneticamente não relacionados e esse tipo de SI parece ter
emergido com maior frequência do que os sistemas homomórficos.

140
Auto-compatibilidade
Dentro de muitas espécies auto-incompatíveis há uma variação na auto-fertilidade entre as plantas.
Condições ambientais externas, principalmente aumento de temperatura, são conhecidos por aumentar a auto-
fertilidade em espécies auto-incompatíveis. Sabe-se que a auto-fertilidade também muda com a idade das flores e
com o número de frutos desenvolvidos na planta. Há evidências que a quebra da SI em flores mais velhas
aumentam a taxa de auto-fertilização quando as plantas tem acesso restrito aos polinizadores (garantia de
produção de progênie quando os polinizadores são escassos). Um exemplo são as plantas colonizadoras que nem
sempre tem seus polinizadores disponíveis na área colonizada.
A transição da auto-incompatibilidade para a auto-compatibilidade é uma das vias mais frequentemente
atravessadas na evolução do sistema reprodutivo das plantas. Tradicionalmente, populações de espécies auto-
incompatíveis com polimorfismos genéticos para auto-fertilidade são vistas como populações em transição para
a auto-compatibilidade. Diversos pesquisadores tem se perguntado se o polimorfismo genético para a auto-
fertilidade é um produto da seleção para a manutenção de um sistema sexual misto e recentes modelos teóricos
tem explorado uma gama de parâmetros que levam a polimorfismos estáveis para a manutenção de sistema
sexual misto em espécies auto-incompatíveis. Os polimorfismos genéticos para a auto-fertilidade parecem mais
constantes em populações de espécies auto-incompatíveis que estão em baixa densidade ou em habitats
altamente fragmentados. Deste modo, uma predição é que polimorfismos estáveis de auto-fertilidade são mais
comuns em espécies que possuem metapopulações dinâmicas. Provavelmente, a presença de genes que
aumentam a auto-fertilidade em espécies auto-incompatíveis permite que as espécies maximize seu “fitness”e
sua diversidade genética via polinização cruzada enquanto assegura a reprodução nos episódios de colonização e
expansão da população (pseudo-auto-fertilidade).

Reprodução assexuada
A reprodução assexuada, dividida em apomixia e reprodução vegetativa, resulta em uma progênie
proveniente de mitose e que é geneticamente idêntica à planta-mãe. Frequentemente, as plantas reproduzem
sexuada e assexuadamente, garantindo-se com as duas estratégias evolutivas. A vantagem da reprodução
assexual é que numerosos propágulos podem ser gerados eficientemente em um curto espaço de tempo e sem a
dependência da transferência de gametas. Entretanto, a principal desvantagem evolutiva é a ausência de
variabilidade genética resultante desse processo.

Reprodução vegetativa
A reprodução vegetativa consiste na produção de clones genéticos a partir de tecidos vegetativos. Os
clones vegetativos são produzidos pela formação de plântulas aéreas, como por exemplo, o desenvolvimento de
plântulas nas margens das folhas de Kalanchoe daigremontiana Raym.-Hamet & H. Perrier (Crassulaceae). O
clone pode também resultar de estolões, rizomas, bulbos, e outros que podem ser dispersos para longe da planta-
mãe.

Apomixia
141
A apomixia é um método assexual de reprodução por meio de sementes que impede a meiose e a
fertilização para culminar no desenvolvimento autônomo do embrião, produzindo, deste modo, uma progênie
clonal. Em plantas apomíticas, o desenvolvimento sexual é desregulado em vários momentos: (1) a meiose é
alterada ou está ausente para a produção de um gametófito feminino não reduzido e geneticamente idêntico à
planta-mãe; (2) a fertilização é evitada, produzindo um embrião autônomo (partenogênese); (3) o
desenvolvimento do endosperma é espontâneo ou sexual.
Estudos embriológicos distinguem três diferentes mecanismos de apomixia baseados na origem e
localização das células iniciais do desenvolvimento apomítico. De acordo com tal classificação, os tipos de
apomixia geralmente reconhecidos nas angiospermas são: apomixia gametofítica, dividida em aposporia e
diplosporia, e embrionia adventícia.
Na apomixia gametofítica, o saco embrionário surge de uma célula inicial não reduzida meioticamente.
De acordo com o tipo de célula que dará origem ao saco embrionário, esse mecanismo de apomixia pode ser
dividido em aposporia e diplosporia. Na aposporia, ou aposporia somática, células esporofíticas do óvulo,
geralmente do nucelo, originam sacos embrionários não reduzidos, como resultado da divisão mitótica. Nesse
caso, os sacos embrionários não reduzidos podem coexistir com o formado meioticamente, tendo como
conseqüência a formação de embriões apomíticos e zigótico na mesma semente. A maioria das espécies
apospóricas é pseudogâmica, pois necessita da fertilização dos núcleos polares para a formação do endosperma.
Na diplosporia, ou aposporia generativa, o saco embrionário é formado de uma célula generativa (célula-mãe do
megásporo), diretamente por mitose (diplosporia mitótica) ou indiretamente, por meiose modificada (diplosporia
meiótica), tendo como produto final um saco embrionário não reduzido.
Na embrionia adventícia, os embriões assexuais são formados a partir de células do nucelo ou do
tegumento interno. As células somáticas que originam os embriões são denominadas embriócitos. Na maioria
dos casos, a embrionia adventícia ocorre na presença de reprodução sexuada, sendo tais espécies consideradas
apomíticas facultativas. Nestes casos, a formação de sementes poliembriônicas viáveis geralmente necessita da
fertilização para a formação do endosperma. No entanto, a formação espontânea do endosperma ocorre em
algumas espécies como em Commiphora wigthii (Arn.) Bhandari (Burseraceae), uma espécie considerada
apomítica autônoma ou obrigatória. Esta forma de apomixia é a mais comumente encontrada nas plantas tendo
sido registrada em 57 famílias e 225 gêneros e também é a forma mais comum de produção de sementes
poliembriônicas.
Os embriões supranumerários das sementes poliembriônicas podem ser de natureza esporofítica ou
gametofítica e podem ser originados por processo sexual ou apomítico. A produção sexual de embriões
supranumerários ocorre a partir dos seguintes processos: (1) poliembrionia zigótica, onde os embriões
supranumerários resultam da clivagem das células do embrião formado a partir da fertilização da oosfera; (2)
poliembrionia a partir do suspensor, processo no qual os múltiplos embriões são originados a partir da divisão
das células do suspensor do embrião zigótico; (3) poliembrionia com origem nas sinérgides, consta da
fertilização da oosfera e de uma das sinérgides; quando há a penetração do óvulo por um único tubo polínico, os
embriões zigótico e da sinérgide não se desenvolvem pois não há formação do endosperma, portanto, a
poliembrionia nesse caso só forma semente poliembriônica quando mais de um tubo polínico consegue alcançar
o óvulo e participar da fecundação. Já a produção esporofítica de tais embriões ocorre geralmente a partir das
células do nuclelo ou dos tegumentos (embriócitos).

142
Princípios e métodos da sistemática vegetal
Gisele Alves
Guilherme Antar
Jenifer C. Lopes
Juliana Lovo
Marcelo F. Devecchi

A sistemática, frequentemente utilizada como equivalente à taxonomia, é considerada a ciência da


diversidade dos organismos. Este campo do conhecimento é responsável pela descoberta, descrição e
interpretação da diversidade biológica existente. Historicamente, toda a síntese de informação sobre os
organismos é ordenada na forma de sistemas de classificação que buscam ser preditivos, possibilitando a nossa
compreensão sobre a vida e o mundo que nos rodeia. A taxonomia pode ser considerada o ramo mais antigo da
Biologia, já que as tarefas de nomear e reconhecer um organismo compreendem os primeiros passos antes que
seja possível aprofundar seu estudo (Blackwelder 1940). O desejo de nomear e classificar é inerente ao homem,
e o conhecimento da diversidade biológica parece ser tão antigo quanto o próprio conhecimento humano. Um
exemplo disso é o livro O Gênesis, um dos primeiros registros conhecidos de preocupação formal do homem na
elaboração de nomes para os organismos (Amorim 2002).
A sistemática inclui quatro componentes básicos: Descrição, identificação, nomenclatura e
classificação dos organismos. Atualmente, a escola da sistemática mais aceita entende que as classificações
devem refletir a história evolutiva dos organismos, de forma que a reconstrução filogenética passa também a ser
escopo da sistemática.
A descrição, item importante no registro da biodiversidade, é produzida em forma escrita pela listagem
detalhada de todos os atributos estruturais do organismo, sendo, no caso das plantas, iniciada pelos órgãos
vegetativos: raiz, caule e folhas, seguidos pelos reprodutivos: flores, frutos e sementes.
A identificação é o processo de atribuição de um nome à um espécime, um indivíduo inteiro ou suas
partes. Este nome está correlacionado à um material testemunho, o tipo nomenclatural, que é designado quando
se elabora a descrição desta espécie. O método mais usual para a identificação de um organismo é a utilização de
chaves de identificação, sendo as dicotômicas as mais utilizadas, que possibilitam a identificação do material por
meio de características morfológicas objetivas e excludentes entre si (figura 1).
Um segundo método de identificação é por comparação. A comparação pode ser realizada através de
descrições das espécies candidatas ou por comparação com espécimes já identificados, vivos ou depositados em
coleções biológicas. Apesar de ser um método eficiente deve-se levar em consideração a confiabilidade da
identificação dos espécimes da coleção para que não ocorra apenas a duplicação de uma identificação errônea.
Por isso é importante a utilização de materiais identificados por pessoas que tenham um profundo conhecimento
do grupo em questão, os especialistas.

143
Figura 1: Chave de identificação das espécies da família Malpighiaceae presentes na Reserva Biológica do Alto
da Serra de Paranapiacaba. (Alves, G. & Sebastiani,R. No prelo.)

Outro aspecto essencial para a sistematização da biodiversidade é a nomenclatura dos organismos


descritos. É fundamental que a nomenclatura seja regida por regras que tornem uniforme a aplicação e criação de
novos nomes. O nome de um organismo, que deve ser único, sendo muito importante devido à sua função de
indexar todo o conhecimento acerca dele.
Finalmente, a classificação consiste em organizar os organismos descritos em grupos hierárquicos,
possibilitando uma ordenação lógica. Um maior detalhamento sobre nomenclatura e classificação dos vegetais
será apresentado a seguir.
Diante da grande variedade de formas de vida do nosso planeta, os principais desafios da Sistemática
são:
 Descrever a diversidade das formas de vida do nosso planeta;
 Auxiliar na compreensão dos processos responsáveis pela geração desta diversidade;
144
 Sintetizar todo o conhecimento acerca dos grupos descobertos e estudados em
sistemas de referência sobre a diversidade biológica que permitam acesso a ela.

Nomenclatura botânica
A aplicação de nomes científicos é a primeira finalidade da nomenclatura biológica, por permitir e
facilitar a comunicação. Além disso, o nome de um táxon é extremamente importante, pois ele nos dá acesso a
um conjunto de informações disponíveis sobre os organismos. Com a descrição de grupos de organismos, a
atribuição de nomes é também fundamental para sua ordenação dentro de um sistema de classificação.
No caso das plantas, o sistema nomenclatural possui um conjunto de regras específicas e compreendem
a Nomenclatura Botânica, que é regida de forma independente da zoológica. A criação do Código Internacional
de Nomenclatura Botânica em 1867 foi fundamental para conferir estabilidade e universalidade aos nomes
científicos. O nome de um táxon não deve ser atribuído arbitrariamente, ele deve estar de acordo com as normas
de nomenclatura que são organizadas segundo princípios, regras e recomendações.
O Código é um sistema dinâmico, sujeito a modificação e sua publicação é feita posteriormente a uma
reunião que ocorre nos Congressos Internacionais de Botânica, realizados a cada seis anos. O código vigente é o
Código Internacional de Nomenclatura para Algas, Fungos e Plantas, atualizado em Melbourne, Austrália em
2011. O código provê um sistema de nomenclatura precisa e simples, capaz de ser usado por botânicos em todos
os países. A adoção do nome científico para um dado táxon não deve permitir ambiguidade e deve indicar a
categoria taxonômica a qual ele pertence.

Princípios
São seis os princípios que constituem a base do sistema de nomenclatura botânica, sendo a única parte
imutável do Código:

I. A nomenclatura botânica é independente da nomenclatura zoológica e bacteriológica. O código


aplica-se, igualmente, aos nomes de grupos taxonômicos tratados como plantas, tenham eles sido ou não
originalmente tratados como tais.
II. A aplicação de nomes para grupos taxonômicos é feita através de tipos nomenclaturais.
III. A nomenclatura de um grupo taxonômico está baseada na prioridade de publicação.
IV. Cada grupo taxonômico com circunscrição, posição e nível próprios pode ter somente um
nome correto, qual seja, o mais antigo que esteja de acordo com as regras, exceto em casos
especificados.
V. Nomes científicos de grupos taxonômicos são tratados em latim, independentemente de sua
derivação.
VI. As regras de nomenclatura são retroativas, a menos que sejam expressamente limitadas.

145
Regras
Estão organizadas em artigos que têm por objetivo reger os nomes já existentes e orientar a criação de
novos. Os artigos são um detalhamento dos princípios e um procedimento que está contra uma regra, está contra
o Código.

Exemplos de regras:

a) As terminações dos nomes designam as categorias taxonômicas em Angiospermas.

b) O nome científico de uma planta é uma combinação de dois nomes (binômio), o


primeiro referente ao gênero e o segundo, ao epíteto específico. Os nomes científicos devem ser
acompanhados pelo nome do autor da espécie e sempre estar destacado no texto. Ex. Lupinus coriaceus
Benth.

Recomendações
Tratam de pontos secundários e indicam a melhor forma de escolha de um nome. As recomendações
também detalham os princípios e um procedimento que está contra uma recomendação não constitui um bom
exemplo a ser seguido.

Inicialmente, as plantas eram denominadas por longas sentenças descritivas até a

proposta de uma nomenclatura binomial realizada por Gaspar Bauhin (1707-1778), posterior

implementação por Linnaeus (1707-1778) e aceita até os dias atuais.

A hierarquia taxonômica do sistema de classificação botânica


As categorias taxonômicas são estabelecidas por características filogenéticas, sendo o Reino a mais
inclusiva e a de Espécie a menos inclusiva, e são uma tentativa de ordenar a diversidade biológica conhecida em
nosso planeta (Tabela 1).

146
Tabela 1: Níveis hierárquicos das categorias taxonômicas
Nível
hierárquico/ Sufixo padrão Exemplo
abreviações

Reino Bionta Chlorobionta


Divisão Phyta Embryophyta
Classe – cl. opsida Equisetopsida
Subclasse Idae Magnoliidae
Ordem – ord. Ales Fabales
Família – fam. Aceae Fabaceae
Subfamília Oideae Papilionoideae
Tribo – tr. Eae Genisteae
Gênero – gen. Nenhum; escrito em itálico, letra Lupinus
inicial maiúscula.
Espécie – sp. Nenhum; nome genérico e L. parvifolius
específico em itálico.

O ponto inicial de reconhecimento dos nomes válidos para a maioria das plantas é 1º de maio de 1753,
data de publicação do Species Plantarum por Linnaeus.

A classificação dos serves vivos


Ao longo da história os cientistas buscaram determinar a melhor forma para classificar os seres vivos.
Os primeiros sistemas de classificação têm suas origens na Grécia Antiga, e eram baseados nos diferentes graus
de similaridade de alguns poucos caracteres morfológicos. O uso dos termos gênero e espécie data desta época e
eram utilizados por Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) e Platão (428/427 a.C.-348-347 a.C.) na definição de
entidades físicas e biológicas. Para Aristóteles, a definição dessas entidades, consiste em buscar a sua essência.
A essência não está nos indivíduos, mas sim nas espécies. As espécies são classificadas em um determinado
gênero e são diferenciadas das demais espécies do mesmo gênero pela differentia. Diversos sistemas de
classificação foram propostos por diferentes autores, e um que merece ser mencionado foi o trabalho realizado
por de Carl F. Linnaeus (1707-1778). O Species Plantarum é baseado principalmente nas similaridades
encontradas em estruturas reprodutivas e por isso ficou conhecido como "sistema sexual" e consiste em uma
base muito sólida para a sistemática botânica ainda hoje. A maior parte dos sistemas propostos, incluindo o de
Linnaeus, tinha como objetivo agrupar as espécies em um número pré-determinado de famílias que, segundo o
pensamento vigente na época, seguia uma ordem Divina. Assim, o trabalho do naturalista consistia
essencialmente em "descobrir" a ordem Divina da Criação.
Após a publicação de Origem das Espécies, em 1859, por Charles Darwin (1809-1882), há uma
mudança muito importante de paradigma na história do conhecimento humano. Com isso, o estudo da natureza e
a classificação passam a ter significados completamente distintos. Sob a hipótese de descendência comum
postulada por Darwin, as classificações hierárquicas buscam retratar as relações evolutivas dos organismos.

147
Neste novo sistema, a ancestralidade comum é o elemento ordenador da diversidade. Com isso, a construção de
classificações é baseada em um sistema hierárquico composto de grupos grandes e inclusivos de organismos no
qual cada um destes comporta grupos menores e menos abrangentes. Um exemplo deste sistema é o grande
grupo do reino vegetal, que inclui todas as plantas verdes. Os grupos subsequentes, denominados filos, ordens,
famílias, gêneros e espécies são progressivamente menos inclusivos, ou seja, agrupam um número cada vez
menor de táxons. Como esses grupos indicam as relações de parentesco, essa nova classificação baseada na
filogenia dos organismos permite sintetizar a informação sobre a sua história evolutiva.
A classificação das plantas (e de todos os seres vivos) é baseada em diversas fontes de evidências
disponíveis. Essas podem ter diferentes origens, como os caracteres morfológicos, anatômicos, embriológicos,
cromossômicos, palinológicos, químicos e moleculares. A obtenção destes dados se dá por meio da análise de
amostras das plantas com emprego de metodologias apropriadas que vão desde observações da morfologia
externa com uso de instrumentos ópticos até uso de técnicas de biologia molecular que têm por objetivo a
comparação de sequências de determinados trechos do DNA dos organismos para inferir as relações de
parentesco entre eles.
Na sistemática moderna, as relações de parentesco entre as espécies e o posicionamento destas em um
sistema classificatório são estabelecidos segundo os princípios da Sistemática Filogenética, incluindo
principalmente os conceitos de monofiletismo e sinapomorfia (Hennig 1965, 1966). Grupos monofiléticos são
aqueles constituídos por um ancestral comum e todos os seus descendentes e apenas estes (Futuyma 2005). Já a
sinapomorfia representa uma apomorfia (novidade evolutiva) compartilhada por todos os membros de um grupo
monofilético (Futuyma 2005).

Metodologia usada na taxonomia vegetal


O trabalho do sistemata inclui a produção de inventários florísticos e trabalhos mais aprofundados como
a revisão sistemática de um grupo. Um inventário florístico visa o conhecimento da composição da vegetação de
determinada área, enquanto uma revisão taxonômica tem por objetivo compilar informações mais aprofundadas
da taxonomia do grupo, com a delimitação das espécies.
As etapas do trabalho podem ser divididas em duas principais frentes: trabalho de campo e de
laboratório. O trabalho de campo consiste em expedições para a coleta de amostras de plantas na natureza, e é a
fonte inicial de material para a pesquisa.
1. Coleta do material botânico: A obtenção do material para pesquisa se dá pela coleta de ramos
de um mesmo indivíduo, quando as espécies são lenhosas, para espécies herbáceas, é necessária a coleta de
alguns indivíduos de uma mesma população. Informações importantes e que são perdidas com o processo
de herborização devem ser anotadas, tais como altura da planta, cor da flor, odores da planta e junto com
dados de localização constituirão uma ficha que será anexada à amostra (exsicata).
2. Preparação dos espécimes para herbário (herborização + prensagem + estufa): Para que as
amostras possam ser depositadas em herbários é necessário que elas estejam totalmente secas, provendo
assim sua conservação. Para isso, o material coletado é acomodado entre jornais e papelões comprimidos
numa prensa e levado a estufa (aprox. 70 °C) para serem secos.
3. Montagem das exsicatas com etiquetas: Após serem secas, as plantas são identificadas usando
chaves de identificação, que podem ser obtidas em trabalhos de floras e revisões taxonômicas. Estes

148
trabalhos geralmente contêm descrições e ilustrações das espécies. É possível fazer a comparação com
materiais depositados no herbário e já identificados por um especialista do grupo. Após a identificação, as
amostras são montadas em cartolinas e as etiquetas em que constam o número do coletor e os dados
pertinentes do espécime são devidamente afixadas junto à amostra.
4. Herbário: A partir destas amostras é possível realizar, por exemplo, trabalhos de flora, com o
levantamento e descrição das espécies com suas características vegetativas e reprodutivas que ocorrem em
determinada área.
5. Compilação e divulgação dos resultados: (chaves de identificação, descrições, ilustrações e
dados biológicos, ecológicos e geográficos).

A botânica e a internet
Existem algumas ferramentas da internet que facilitam o trabalho na taxonomia. Um bom exemplo é a
“Lista de espécies da flora do Brasil”, encontrada no site do Jardim Botânico do Rio de Janeiro
(floradobrasil.jbrj.gov.br). Lá é possível verificar quais espécies de plantas ocorrem no país e suas localizações.
Já nos si tes do Índice internacional de nomes de plantas (ipni.org) e no do Jardim Botânico de Missouri
(tropicos.org) é possível buscar a grafia correta dos nomes científicos e os autores destes nomes. Além desses, a
Biblioteca do patrimônio da biodiversidade (biodiversitylibrary.org) e a biblioteca digital Botanicus
(botanicus.org) são excelentes ferramentas para a pesquisa das obras antigas nas quais muitas espécies foram
descritas.

Sistemática filogenética
As primeiras filogenias dos grupos de plantas foram inferidas principalmente a partir de dados
morfológicos. Porém, o uso de caracteres morfológicos para se determinar a história evolutiva de grupos de
plantas é frequentemente questionado devido ao número limitado de caracteres e a dificuldade dos pesquisadores
em definir quais caracteres seriam mais apropriados para tal finalidade (Stevens 2000). A inferência das relações
filogenéticas entre os táxons baseada apenas em caracteres aparentemente similares muitas vezes implicava em
erros devido à grande complexidade dos processos evolutivos. Assim, frequentemente, as similaridades
morfológicas representam, na verdade, homoplasias ou adaptações de grupos de plantas distantes
filogeneticamente. Ao contrário da homologia dos caracteres, essencial para a delimitação de grupos
monofiléticos, os caracteres homoplásticos surgem várias vezes e de forma independente em táxons não
relacionados em consequência da convergência ou da reversão evolutiva (Endress et al. 2000, Futuyma 2005,
Judd et al. 2009).
Atualmente, as reconstruções das filogenias dos grupos são baseadas majoritariamente em dados
moleculares. Devido à geração de grande quantidade de dados em um período relativamente curto, os estudos
moleculares têm mudado de forma considerável o posicionamento dos táxons de níveis mais elevados, como
ordens e famílias (APG I, 1998; APG II, 2003; APG III, 2009). Para alguns grupos vegetais, entretanto, os
estudos moleculares serviram para corroborar as relações entre os táxons anteriormente sugeridas por estudos
morfológicos comparativos.

149
Citogenética vegetal
Sarah Gomes de Oliveira

Cromossomos
Desde muito cedo na utilização do microscópio, foram observados no núcleo das células estruturas que
coravam fortemente quando tratadas com corantes específicos. Estas estruturas foram denominadas
cromossomos - palavra com origem no idioma grego (croma = cor; e soma = corpo).
Dependendo do organismo, a molécula de DNA pode ser circular ou linear, e pode ser composta por
uma cadeia de bases nitrogenadas (A, T, C, G) com mais de 100.000 a 3.750.000 de nucleotídeos de
comprimento. Em geral, as células eucarióticas (células com núcleo) possuem cromossomos lineares grandes,
enquanto as células procariotas (células sem núcleo definido) possuem cromossomos circulares menores.
O DNA contém proteínas associadas que auxiliam na compactação, bem como no controle de sua
função. O DNA cromossômico codifica a maior parte ou toda a informação genética de um organismo; contudo,
algumas espécies também possuem plasmídeos ou outros elementos genéticos extra-cromossômicos.
Nos eucariotos, os cromossomos são empacotados por proteínas numa estrutura condensada, a
cromatina, permitindo que as longas moléculas de DNA se encaixem no núcleo da célula. O DNA eucariótico
tem vários níveis de empacotamento.
A maior parte da cromatina interfásica é altamente compactada, estruturalmente inacessível e
funcionalmente inativa. A cromatina pode ser estruturalmente dividida em dois tipos facilmente visualizados no
núcleo interfásico: 1) a “eucromatina” - fibras de cromatina menos densamente compactadas, com aparência
dispersa e padrão de coloração menos intenso; e 2) a “heterocromatina” - fibras de cromatina densamente
compactadas apresentando coloração densa.
Estes diferentes graus de condensação da cromatina estão relacionados principalmente com as proteínas
associadas às fibras de DNA. A condensação é determinada por acetilação e metilação de histonas; podendo
causar condensação da cromatina e inatividade gênica. Dois tipos diferentes de proteínas estão associadas à
cromatina: as histonas e não-histonas. As histonas são pequenas proteínas básicas altamente conservadas. As
não-histonas incluem um grande número de diversas proteínas com funções estruturais e reguladoras.
As fibras de cromatina se organizam em uma estrutura denominada nucleossomo. O cerne do
nucleossomo contém oito proteínas histônicas (duas unidades de cada H2A , H2B , H3 e H4 ), que se juntam
para formar um octâmero protéico que se liga e envolve cerca de 146 pares de bases de nucleotídeos de
comprimento (aproximadamente 1,7 voltas de DNA ao redor do octâmero de histonas). Uma outra histona, H1 e
suas variantes, liga-se ao cerne do nucleossomo, mantendo o DNA enrolado em torno do nucleossomo.
Conjuntamente, o octâmero e a histona H1 interagem com aproximadamente 160 pb de DNA. Os nucleossomos
são mantidos separados um do outro por um segmento de comprimento variável de alguns pares de nucleotídeos
até cerca de 80 pb (cada unidade de repetição abrange cerca de 200 pb). Os nucleossomos representam o
primeiro nível de organização da cromatina. O segundo nível de organização da cromatina é representado pelo
enrolamento da cadeia de nucleossomos em uma estrutura comprimida, uma fibra de cerca de 30 nm de
diâmetro. O terceiro nível de organização da cromatina envolve o empacotamento da fibra de 30 nm em alças
contíguas, alcançando a largura de cerca de 300 nm. Esta estrutura, por sua vez, se enrola ainda mais, formando

150
uma fita helicoidizada de cerca de 700nm, que forma os cromossomos metafásicos (onde o DNA alcança seu
estado máximo de empacotamento).
A estrutura da cromatina e cromossomos varia ao longo do ciclo celular. A divisão celular é o processo
pelo qual uma célula mãe divide-se em duas ou mais células filhas. Em eucariotos existem dois tipos distintos de
divisão celular: 1) Mitose (divisão somática), na qual cada célula filha é geneticamente idêntica à célula parental;
2) Meiose (divisão germinativa), na qual o número de cromossomos nas células filhas é reduzido pela metade
para a produção de gametas.
Ambos os processos de divisão apresentam quatro fases distintas: 1) Prófase (caracterizada por uma
gradual transformação da massa difusa di núcleo interfásico em filamentos longos e contorcidos, enquanto no
citoplasma surge o fuso acromático); 2) Metáfase (estágio em que os cromossomos se encontram alinhados em
um plano mediano, formando a placa equatorial ou placa metafásica); 3) Anáfase (fase de migração das
cromátides para pólos opostos da célula); e 4) Telófase (inicialmente os cromossomos se apresentam fortemente
condensados e agregados e o final inicia-se a divisão da célula, ou citocinese). Quando o núcleo não está em
divisão, ele está em intérfase, sendo que nesta etapa os cromossomos estão total ou parcialmente
descondensados, não sendo possível individualizá-los sob o microscópio de luz. Cada ciclo celular começa na
intérfase e termina no final da telófase.
Os cromossomos de cada espécie possuem uma morfologia característica, considerando número,
tamanho e morfologia. O conjunto de cromossomos de uma espécie designa-se cariótipo. Os cariótipos dos
eucariotos são muitas vezes altamente variáveis. Em alguns casos, existe variação não somente entre espécies,
como também dentro de uma mesma espécie. Estas variações podem abranger: variação entre os dois sexos,
variação na linhagem germinativa e somática, variação entre os membros de uma população (polimorfismos),
variação devido à distribuição geográfica.
A técnica de determinação do cariótipo é normalmente chamada de cariotipagem. Em geral as células
podem ser bloqueadas em metáfase com a utilização de anti-mitóticos como a colchicina, que inibe a
polimerização das proteínas do fuso mitótico, parando a divisão celular na metáfase.
Durante a metáfase mitótica e meiótica os cromossomos se condensam, e tornam-se visíveis ao
microscópio. Como estes cromossomos são característicos da metáfase, são chamados de cromossomos
metafásicos, e são o objeto de estudo da maioria dos trabalhos citogenéticos. Sua estrutura compreende duas
cromátides irmãs ligadas pelo centrômero, o qual divide o cromossomo em duas seções, ou “braços”; sendo as
extremidades livres dos braços chamadas de telômeros.
As células metafásicas são então coradas, fotografadas, e dispostas em um cariograma. O cariograma é
a apresentação do conjunto de cromossomos recortados, emparelhados e enumerados em ordem de comprimento,
seguidos dos cromossomos sexuais. Outra maneira de expor as informações do cariótipo é através de um
idiograma; trata-se de uma representação esquemática dos cromossomos de uma espécie, mostrando informações
simples como morfologia, tamanho e bandeamentos, informacões substanciais para o estabelecimento de
relações entre as espécies com respeito à organização dos cromossomos.

151
Telômeros

Cromossomo Centrômeros

Cromátides irmãs

Figura 1: Estrutura cromossômica de um cromossomo metafásico.

Embora muitos avanços tecnológicos tenham ocorrido, as características básicas de cariótipos foram
observadas sob a coloração convencional, e por um longo tempo permitiu a descrição do número diplóide,
morfologia e tamanho cromossômico (figura 2), o número fundamental de braços (NF) e a presença de
mecanismos de cromossômicos sexuais. A posição centromérica pode ser definida numericamente. As duas
maneiras mais usuais são: a razão entre braços (r) e o índice centromérico (ic) (figura 2).

M etacêntrico Submetacêntrico Acrocêntrico Telocêntrico

Razão de braços 1.00 – 1.49 1.50 – 2.99 3.00 – ∞ ∞

Í ndice centromérico 50.0 – 40.1 40.0 – 25.1 25.0 – 00.1 0

Figura 2: Posição do centrômero e morfologia cromossômica.

Citogenética vegetal
A Citogenética é uma área da Genética que se aproxima da análise genômica de uma forma holística ao
englobar os cromossomos em sua totalidade, compreendendo o estudo de sua estrutura, função e comportamento.
Durante várias décadas, a análise citogenética foi realizada utilizando métodos clássicos
(convencionais) para analisar o cariótipo, permitindo a descrição da estrutura e organização cromossômica,
revelando o número e morfologia cromossômicos, bem como a determinação de cromossomos sexuais de plantas
e animais. Desta maneira, mesmo anteriormente aos avanços das técnicas de bandeamento cromossômico e da
aplicação da detecção in situ de sequências de DNA nos cromossomos, os primeiros citologistas descobriram
uma riqueza de informações sobre a célula, a estrutura e funções de suas organelas, a natureza da cromatina, o
comportamento cromossômico durante a mitose e a meiose, e os fundamentos da hereditariedade mesmo antes
152
dos cromossomos serem confirmados como sendo o material genético. O comportamento cromossômico é
baseado em interações específicas e altamente reguladas entre os cromossomos e os microtúbulos do fuso; e é
um fator importante na fidelidade genômica.
Embora grande parte do trabalho inicial tenha sido realizado em modelos animais, os modelos vegetais,
como o milho (Zea mays), tornaram-se populares após trabalhos de citogeneticistas importantes como Barbara
McClintock. O uso de plantas como modelos permitiu o aprofundamento do estudo citogenético pela existência
de inúmeros fenômenos que são relativamente raros em sistemas animais, tais como a poliploidia, a tolerância a
grandes rearranjos cromossômicos, e a auto-fertilização; além de possibilitar a aplicação do conhecimento
gerado acerca destes processos no melhoramento destas culturas. Desde então, a exploração de plantas como
modelo de estudo levou a grandes avanços na pesquisa básica e aplicada .
É possível destacar, em especial para gramíneas, o papel do modelo vegetal no estudo da evolução e
comportamento cromossômico. O advento das técnicas como FISH (Hibridização in situ Fluorescente) e GISH
(Hibridização in situ Genômica) permitiu o estabelecimento de metodologias para estudar o comportamento de
genomas, cromossomos individuais ou fragmentos cromossômicos em híbridos naturais e artificiais. Uma vez
que a maioria das plantas passou por um ou dois eventos de hibridização seguido por poliploidização (aumento
do número de genomas/núcleo da espécie, mais de dois genomas em um núcleo), estas metodologias tornaram-se
comuns para a análise de alopoloplóides (poliplóide com cromossomos provenientes de espécies diferentes, e
resultante de uma duplicação cromossômica).

Histórico da citogenética
Os cromossomos foram observadas pela primeira vez em células vegetais por Karl Wilhelm von Nägeli
em 1842. Este botânico suíço descreveu estruturas filiformes no núcleo das células vegetais, os quais denominou
"citoblastos transitórios". O termo “cromossomo” foi cunhado pelo anatomista alemão von Waldeyer, em 1888,
após o desenvolvimento de técnicas de coloração para torná-los mais discernível. O comportamento
cromossômico em células de salamandra foi descrito por Walther Flemming, o descobridor da mitose, em 1882.
Inicialmente, era difícil determinar o número diplóide das espécies (cromossomos se organizam em
pares de cromossomos homólogos) porque os cromossomos possuíam muitas metáfases, e a contagem dos
cromossomos enfrentava dificuldades (limitação dos microscópio, preparação cromossômica). Na década de
1950, foram feitos avanços técnicos, tais como a adição de colchicina para deter as células em metáfase e o uso
de uma solução hipotônica para obter cromossomos individualizados (mais condensados e sem sobreposição).
Em 1956 foi estabelecido o número de cromossomos diplóides nos humanos, e o método de cultura de leucócitos
periféricos foi adotado por muitos citogeneticistas, possibilitando a descrição correta do número cromossômico.
A utilização dos leucócitos, especificamente linfócitos T, deveu-se ao fato de que estas células são capazes de
rápido crecimento e divisão quando cultivadas.
A próxima etapa ocorreu após o desenvolvimento da genética no início do século XX, quando foi
estabelecido que o cariótipo era o portador dos genes. Levitsky parece ter sido o primeiro a definir o cariótipo
como a aparência fenotípica dos cromossomos somáticos, considerando que estavam relacionados com o
conteúdo gênico.

153
O trabalho de Barbara McClintock
O campo da citogenética vegetal foi fortemente influenciado pelo trabalho pioneiro da americana
Barbara McClintock que começou sua carreira estudando o milho (Zea mays). Seu método para a identificação
inequívoca de cromossomos individuais permitiu descobertas importantes sobre a estrutura e o comportamento
do genoma do milho. McClintock mostrou que todos os cromossomos poderiam ser identificados
individualmente a partir de um único núcleo meiótico com uma combinação de duas medidas, os comprimentos
relativos e as relações dos braços cromossômicos. Esta abordagem provou ser útil para o mapeamento de outras
espécies de plantas, incluindo o arroz (Oryza sativa), o sorgo (Sorghum propinquum) e o tomate (Lycopersicon
esculentum). Para a análise das espécies vegetais com cromossomos de tamanho semelhante, no entanto,
precisaram do desenvolvimento de técnicas adicionais para a resolução do cariótipo.
Em 1931, Barbara McClintock e a estudante Harriet Creighton forneceram a primeira prova
experimental de que os genes estavam fisicamente posicionados nos cromossomos, descrevendo o fenômeno do
crossing-over e recombinação genética. McClintock, posteriormente, continuou os estudos sobre os mecanismos
de quebras e fusões cromossômicas. Além disto, ela produziu o primeiro mapa genético do milho, ligando as
regiões do cromossomo com as características físicas; e demonstrou o papel dos telômeros e centrômeros,
regiões que são importantes para a conservação da informação genética. Seus estudos levaram à identificação de
um evento de quebras cromossômicas, que ela denominou de "Ds" ou locus de "dissociação". Durante as décadas
de 1940 1 950, McClintock analisou os elementos transponíveis, uma descoberta que lhe proporcionou o Prêmio
Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1983. O estudo de elementos transponíveis (TEs – Transposable elements),
foi revolucionário na medida em que sugere que o genoma de um organismo não é uma entidade fixa, mas está
sujeito a alterações e rearranjos.
Além da descoberta dos TEs e suas técnicas de investigação revolucionárias, Barbara McClintock
também foi a primeira cientista a especular corretamente o conceito básico da epigenética (alterações
hereditárias na expressão gênica que não são causados por alterações nas seqüências de DNA). E, reconheceu
que os genes podem ser expressos e silenciados durante a mitose em células geneticamente idênticas.
McClintock propôs esta teoria antes da estrutura molecular do DNA e mais de 40 anos antes do conceito de
epigenética ser formalmente estabelecido.

Citogenética clássica e o advento das técnicas de bandeamentos


Uma ampla variedade de bandeamentos são úteis para visualizar cromossomos sob o microscópio.
Colorações citológicas clássicas (convencionais) como aceto-orceína, acetocarmin e hematoxilina coram a
cromatina e são fáceis de visualizar ao microscópio ótico padrão. Enquanto a aceto-orceína produz um padrão de
coloração nítida, que permite o estudo da morfologia dos cromossomos, infelizmente, é indelével e não permite
descoloração e uso de métodos de colorações subsequentes. Outros corantes, como Giemsa, podem ser
facilmente removidos com solventes, e são mais frequentemente utilizados. Braços cromossômicos, constrições
primárias, satélites, e sítios frágeis são facilmente identificáveis com a coloração clássica (ou convencional
Os cromossomos em metáfase podem ser identificados utilizando certas técnicas de coloração
denominadas bandeamentos. As bandas são partes do cromossomo que, ao serem coradas por uma substância
com maior afinidade por certas regiões cromossômicas, aparecem claramente distinguidas de seus segmentos
adjacentes ao aparecerem mais claras ou escuras, gerando padrões de bandas que são específicos para os

154
cromossomos individuais. Quando os cromossomos marcados são vistos ao microscópio, essas bandas servem
como marcos ao longo do comprimento de cada cromossomo e auxiliam na sua identificação quando há uma
forma e tamanho similares.
No final da década de 1960, Caspersson iniciou o desenvolvimento destas técnicas,, as quais
permitiram não somente na identificação dos cromossomos, como também indicar pontos de ruptura e os
cromossomos envolvidos em eventos de rearranjos.
Para este tipo de análise, as células são cultivadas e, em seguida, o ciclo celular é bloqueado pela
colchicina para maximizar o número de células em metáfase, fase em que os cromossomos estão mais
condensados e enrolados, tornando-os mais adequados para a análise visual. Posteriormente, estas células são
espalhadas sobre uma lâmina, onde há adição do corante para visualização ao microscópio. Com esta técnica, os
cromossomos são visualizados como uma série contínua de bandas claras e escuras,
As técnicas de bandeamentos se dividem em dois grupos principais: 1) os que resultam em bandas
distribuídas ao longo do comprimento de todo o cromossomo, tais como bandas-G, Q- e R; e 2) os que
bandeam/colorem um número restrito de bandas ou estruturas específicas, como é o caso do bandeamento-C e da
impregnação com nitrato de prata (AgNO3).
A variação e identificação de novos corantes aumentou a resolução das técnicas de bandeamento.
Modificações na concentração e tempo de exposição às soluções são adequadas para cromossomos de animais,
mas conduzem a dificuldades de marcação consideráveis com cromossomos de plantas, reduzindo, assim, a sua
utilização. As razões, muitas vezes não são compreendidas, mas o padrão de bandas dos cromossomos de plantas
geralmente não atinge o mesmo grau de resolução observado nos cromossomos animais.
Contudo, mesmo com todas as adaptações, a resolução permaneceu relativamente limitada dado o
número reduzido de bandas em cromossomos metafásicos, o que dificulta a detecção de pequenas regiões
cromossômicas. Somente a partir do desenvolvimento do bandeamento de alta resolução que se alcançou uma
maior precisão na delimitação de quebras cromossômicos e na observação de locos gênicos, considerando que
os cromossomos no final da prófase estão mais distentidos e possibilita a observação do dobro de bandas
analisadas em metáfase.

Citogenética molecular
Na década de 1980, muitos avanços foram observados na citogenética. Enquanto sondas marcadas com
radioisótopos eram hibridizadas em DNA desde 1969, somente na década de 1980 foi desenvolvido um método
para visualizar os cromossomos utilizando sondas fluorescentes marcadas. Esta metodologia passou a ser
conhecida como hibridização in situ fluorescente (FISH), e permitiu a detecção de sequências específicas de
ácidos nucléicos e ribonucleicos em cromossomos, células e tecidos. Outros avanços na micromanipulação e
análise de cromossomos levaram à técnica de microdissecção cromossômica, possibilitando que cromossomos e
partes de cromossomos possam ser isolados, clonados e estudados com maior detalhe.

Principais técnicas citogenéticas


Bandeamento-Q
Nesta técnica, os cromossomos são submetidos a um tratamento com quinacrina mustarda, uma
substância fluorescente e alquilante (agente que possui a capacidade de adicionar grupos alquila a diversos
155
grupos eletronegativos do DNA, alterando ou evitando a duplicação celular); e passam a apresentar faixas com
diferentes intensidades de fluorescência, com um padrão de bandas amareladas brilhantes e opacas característico.
Estas bandas foram designadas de bandas Q (de quinacrina). A maior parte do DNA corado é composto por
heterocromatina (região mais condensada da cromatina, geralmente associada com bloqueio de transcrição). A
quinacrina se liga às regiões ricas em AT e GC, mas somente as regiões ricas em AT fluorescem. Estas regiões
ricas em AT são mais comuns em heterocromatina do que em eucromatina (região menos condensada da
cromatina, associada com transcrição genica), por isto estas regiões são marcadas preferencialmente. As
diferentes intensidades de bandas individuais reflete a diferença na composição nucleotídica ao longo do
cromossomo. Outros fluorocromos como DAPI ou Hoechst 33258 também produzem padrões característicos.
Cada um deles produz o seu padrão específico, pois as propriedades das ligações e da especificidade não são
exclusivamente com base na sua afinidade para regiões ricas em AT. A distribuição de AT e a associação com
outras moléculas como histonas, por exemplo tem um impacto sobre as propriedades de ligação.

Bandeamento-G
Na realização do bandeamento-G, os cromossomos passam por um pré-tratamento com sal ou enzima
proteolítica (geralmente esta eliminação das proteínas é feita pela ação da tripsina) e, posteriormente corados
com Giemsa (assim, recebendo o nome bandas G). Os cromossomos mostram um padrão de bandas claras e
escuras, no qual as faixas escuras correspondem ao DNA rico em bases AT (geralmente associados à região com
poucos genes ativos/expressos); e as bandas claras têm DNA rico em bases GC (geralmente relacionada com
genes ativos/expressos). As bandas-Q e G são idênticas, mas a maioria dos laboratórios preferem utilizar
rotineiramente as bandas-G, uma vez não é necessário nenhum microscópio de fluorescência.
Este tipo de bandeamento é adequado para as células de animais, mas inútil para plantas . Os
cromossomos vegetais tratados com esta técnica são uniformemente corados, ainda que não se saiba os motivos
exatos para esta observação.

Bandeamento-R
Para a realização desta técnica, os cromossomos são incubados em solução salina (tampão fosfato) e
submetidos a temperaturas controladas para que sejam desnaturados (quebra de ligações de hidrogênio); e,
posteriormente, corados com Giemsa. O padrão de bandas resultante é, essencialmente, o inverso da bandas Q e
G, por isto também é nomeado como. bandas reversas. As bandas R são ricas em pares de bases GC. As regiões
AT-ricas são seletivamente desnaturadas pelo calor deixando intactas as regiões GC-ricas. Este padrão “reverso”
é útil para analisar a estrutura das extremidades dos cromossomos (visualizados como banda clara nos
bandeamento Q e G, e banda escura no bandeamento R).

Bandeamento-T
Envolve a coloração das regiões teloméricas dos cromossomos usando tanto Giemsa quanto acridina
orange, após desnaturação térmica controlada. As bandas T, aparentemente, representam um subconjunto das
bandas R, por serem menores do que as correspondentes bandas-R e são preferencialmente teloméricas.

156
Bandeamento-C
O primeiro relato sobre o bandeamento-C ocorreu em 1970, a partir da constatação de que a região
centromérica dos cromossomos de camundongos é rica em sequências de DNA repetitivas e bandas escuras
quando coradas com Giemsa. O bandeamento-C identifica as regiões de heterocromatina dos cromossomos.
Nesta técnica, as preparações citológicas sofrem desnaturação alcalina antes da coloração que leva a uma quase
completa despurinação do DNA (reação química dos na qual a ligação β-N-glicosídica é hidroliticamente clivada
libertando uma base nucléica, adenina ou guanina).Depois de lavar a solução, o DNA restante é renaturado e
corado com Giemsa. Muitos cromossomos têm regiões heterocromáticas que diferem entre os indivíduos, e estas
regiões polimórficas podem ser mais precisamente visualizadas os métodos de bandeamento-C.

Bandeamento-Hy
Esta é uma técnica especialmente desenvolvida para as células vegetais. A metodologia envolve um pré-
tratamento no qual as células são aquecidas na presença de HCl e em seguida coradas com aceto-carmim . O
padrão de bandeamento Hy é diferente do das bandas-C, e é mencionada como bandas HY+ e HY-. A ligação
das histonas ao DNA e sua completa extração têm um impacto sobre a capacidade de ligação do aceto-carmim e
a formação das bandas claras e escuras.
Variações no procedimento de escolha do pré-tratamento com outros corantes e fluorocromos aumentou
ainda mais a resolução desta técnica.

Impregnação com nitrato de prata (AgNO3)


A coloração com nitrato de prata (AgNO3) é um processo citoquímico de oxidação/redução muito usado
na citogenética para localização de nucléolos e regiões organizadoras de nucléolos (NOR) em animais e plantas.
Entretanto, este procedimento mostrou algumas limitações pois evidencia somente as regiões de DNA
ribossomal (DNAr) que estiveram ativas na intérfase anterior, enquanto que a metodologia de FISH com sondas
de DNAr identifica todos os sítios que contêm os genes ribossomais, independente de serem funcionais ou não.

Coloração com DAPI/Distamicina A


A coloração com DAPI / distamicina é uma técnica de coloração fluorescente, visando a marcação de
um subconjunto específico de bandas-C. Esta coloração é útil na identificação de pontos de interrupção
pericentromérica (região ao redor do centrômero) em rearranjos cromossômicos e na identificação de
cromossomos que são pequenos demais para as técnicas de bandas padrão.

Bandeamento de alta resolução


Esta metodologia emprega cromossomos em estados de prófase e pró-metáfase, pois nestas fases estão
mais distendidos (menos compactados) do que em metáfase. A técnica pode ser usada na identificação de
alterações cromossômicas pequenas, como microdeleções, e tem sido de grande importância para estudos
evolutivos.

157
Troca de cromátides-irmãs (SCE - Sisters Chromatids Exchange)
Esta metodologia permite a visualização de intercâmbios entre os segmentos de cromátides irmãs que
ocorre entre cromátides-irmãs na meiose ou na mitose. Geralmente são visualizadas através da exposição de
células a 5-bromodesoxiuridina (5-BrdU) por dois ciclos celulares. Devido à natureza semi-conservativa de
replicação do DNA, após uma divisão celular simples, a absorção de 5-BrdU (que substitui a timidina) resulta
em coloração homogênea de ambas as cromátides, com cada molécula de DNA de fita dupla (uma para cada
cromátide) contendo uma fita de DNA “parental” e uma fita de DNA substituída com 5-BrdU. A coloração
diferencial das duas cromátides pode ser vista depois de uma segunda divisão celular na presença de 5-BrdU. A
cadeia parental inicial de DNA (sem incorporação de 5-BrdU) permanece em uma cromátide, emparelhada com
uma cadeia de DNA substituída com 5-BrdU sintetizada de novo, enquanto a outra fita de 5- BrdU incorporada
em ambas as cadeias. As cromátides que têm apenas uma fita substituída com 5-BrdU é mais estável e perde
menos cromatina em exposição à combinação de coloração e luz UV. Portanto, as trocas entre as cromátides
irmãs são representadas por regiões de coloração escura. Esta técnica é um bom marcador para possíveis danos
no DNA.

Hibridização in situ fluorescente (FISH)


A Hibridização in situ Fluorescente é uma técnica de citogenética desenvolvido por investigadores
biomédicos no início de 1980, e tem sido é utilizada para detectar e localizar a presença ou ausência de
sequências específicas de DNA nos cromossomos.
O desenvolvimento das técnicas de hibridização in situ (ISH) proporcionou oportunidades para análise
citogenética essencialmente em qualquer espécie, independentemente da sua morfologia cromossômica inerente.
Nas plantas, a utilização de um marcador radioactivo ou nucleotídeos modificados (ligado a biotina,
digoxigenina, ou compostos fluorescentes) para fazer sondas ISH permite a visualização microscópica e
localização de sequências complementares nas células, nos núcleos e nos cromossomos individuais. A
Hibridização in situ fluorescente (FISH ) tem sido amplamente utilizada nos últimos 30 anos. Esta técnica de
hibridação baseia-se na capacidade de desnaturação e reconhecimento específico de cadeias de DNA
complementares (adenina emparelha com timina e citosina com guanina) através de ligações de hidrogênio. Esta
técnica depende de uma sonda marcada (sequência de interesse) e da obtenção dos cromossomos de interesse, a
desnaturação da sonda e do DNA cromossômico, a hibridização (hibridização do DNA-alvo com a sonda) e
detecção da sonda (figura 3).
Esta técnica tem permitido a produção de sondas de todo o genoma de uma espécie, cromossomos
inteiros, ou regiões cromossômicas, como regiões centroméricas e teloméricas, braços cromossômicos, região
cromossômica específica ou elementos dispersos (DNAs altamente e moderadamente repetitivos) (figura 4).

158
Etapas
iniciais

Sequência
M etáfase de interesse

Sequência alvo Sonda marcada

Desnaturação

Hibridização

Detecção

Análise

Figura 3: Passos básicos para a hibridização in situ fluorescente (FISH)

159
Sonda Sonda Sonda de Sonda de Sonda de Sonda de
telomérica centromérica locus específico braço cromossômico cromossomo inteiro DNA disperso

Figura 4: Tipos de sondas mais utilizadas em experimentos de FISH.

O poder da citogenética é cada vez mais frequentemente focado em dois aspectos relacionados com a
FISH: limite de detecção do tamanho da sonda (menor tamanho de sonda que pode ser claramente distinguido) e
o limite da resolução da sonda (a menor distância entre dois sinais que podem ser visualizados separados e
distintos em uma imagem microscópica).
Um objetivo comum em citogenética de plantas é visualizar o local e arranjo de duas ou mais
sequências de DNA em relação a outro cromossomos. Considerando as diferenças no grau de compactação do
DNA nos cromossomos e as sondas utilizadas em um determinado estudo, a escolha do tipo de cromossomo
(mitótico ou meiótico) e como ele é preparado (esmagamento ou alongamento) são determinantes para a
resolução de um determinado experimento (Tabela 1).

Fiber-FISH
Nesta metodologia as proteínas, tais como as histonas, são removidas; e as fibras de DNA são
estendidas, aumentando a resolução da análise. Os primeiros protocolos utilizavam lise alcalina ou o tratamento
com elevado teor de sal para gerar as fibras. Estas abordagens produzem fibras de comprimento variável de
modo que o tamanho de uma sonda que hibrida com as fibras podem não está intimamente relacionada com o
seu comprimento de sinal, fazendo com que estas preparações não sejam adequado para a análise quantitativa.
Para a quantificação, são necessárias fibras de DNA uniformemente estendidas. A Fiber-FISH é uma das
ferramentas mais poderosas para mapeamento de sequências de DNA em regiões específicas do genoma, pois
permite o dimensionamento exato de lacunas e sobreposições entre as sondas
A fiber-FISH oferece particularmente alta resolução e tem sido usada para caracterizar arranjos
genômicos complexos em núcleos vegetais e plastídeos (Tabela 1).

160
Tabela 1: Limites de resolução e deteccão de tamanho da sonda em FISH de cromossomos vegetais.

Tipo Estágio Cromossomo alvo Limite de Tamanho


celular celular Cromatinaa Preparaçãob resoluçãoc da sondad
(kb) (kb)
Mitótico Metáfase 2.000- 2.27-10
10.000
Eucromatina 4.000-5.000 >100
Heterocromatina 5.000- 50-100
10.000
Super 70 1.000-2.000
estendida
Prometáfase 2.000
Intérfase 100 10
Fibra 4.0 0.7
extendida
Meiótico Paquíteno 100-40 3.1
Eucromatina 120 50.0
Heterocromatina 1.200
Super <50
estendida

a
Tipo de cromatina indicado para o estudo
b
Técnica de esmagamento ou extensão
c
Menor tamanho de sonda reportado em deteccão de sinais de FISH
d
Distância mínima reportada entre dois sinais de FISH ao longo do cromossomos

Perspectivas
Os avanços na microscopia, técnicas de preparações cromossômicas e reagentes para visualizar a
cromatina mostram a grande promessa para a citogenética vegetal, especialmente quando usados juntos. As
combinações de métodos como citologia molecular e e imagens de alta resolução acrescentam novos
conhecimentos e modelos para a compreensão de organização cromossomo em múltiplas escalas.
A Citogenética Vegetal desempenha um papel vital em uma ampla gama de disciplinas de investigação,
como genômica estrutural e funcional, e a biologia evolutiva comparativa. Campos emergentes, como
engenharia de cromossomos de planta também dependem fortemente de análise citológica molecular. Novos
avanços em tecnologias de imagem, como a iluminação da estrutura em 3D e microscopia óptica, têm
diminuídos a distância entre os estudos moleculares e citogenéticos dos genomas de plantas. Embora baseada em
técnicas pioneiras há quase um século, a citogenética vegetal ainda está em evolução, fornecendo ferramentas
cruciais e integrativas para análise genética e genômica dos cromossomos e genomas de plantas.

161
Árvores filogenéticas: da classificação aos estudos
evolutivos
Annelise Frazão

As árvores filogenéticas são diagramas ramificados, em geral dicotômicos, que representam uma
reconstrução hipotética das relações de parentesco entre organismos. Elas fornecem arcabouços gerais para a
ordenação do conhecimento biológico, sendo a base da sistemática filogenética e também os fundamentos para a
elucidação de padrões evolutivos.

Breve histórico e introdução a conceitos básicos


O uso de diagramas dicotômicos para organizar o conhecimento biológico vem desde Teofrasto (372
a.C.-287 a.C.), o qual é uma representação do método de classificação descendente baseado em divisões lógicas
de Aristóteles. Entretanto, esses diagramas não implicavam em nenhum tipo de relação evolutiva entre os
organismos, somente relações lógicas. O pensamento de Aristóteles deu origem à ideia da scala naturae ("escada
da natureza" ou "cadeia dos seres"). De acordo com esta ideia todos os organismos podem ser ordenados de
maneira linear, contínua e progressiva, começando pelo mais simples até alcançar o mais complexo. A scala
naturae atingiu seu apogeu durante o século XVIII, quando o filósofo alemão Leibniz publicou a teoria da
continuidade, e foi adotada por diferentes naturalistas como Buffon, Lineu e Charles Bonnet.
No início do século XIX, Lamarck elaborou as bases da teoria da evolução e publicou um diagrama
com as relações evolutivas entre animais, semelhante à imagem clássica de genealogia. Este conceito
Lamarckiano contrapôs-se à ideia de cadeia linear dos seres, pretendendo expressar da forma mais precisa
possível a ordem da natureza e as relações de parentesco entre os animais. Contudo, foi na segunda metade do
século XIX, com as contribuições de Charles Darwin e Alfred Russel Wallace, que encontramos ao mesmo
tempo a ideia de que os organismos compartilhavam uma história única, seguido por uma força evolutiva e não
por determinação ou intenção divina. Em 1859, na publicação da obra Origem das Espécies, por Charles Darwin,
a imagem de uma árvore filogenética formada a partir dos processos guiados pela seleção natural foi mostrada
pela primeira vez. No entanto, foi o historiador natural Ernst Haeckel que propôs o termo “filogenia” pela
primeira vez, e o autor da primeira árvore filogenética (sem ser baseada em princípios evolutivos), publicada em
1866. Apesar de toda ideia de evolução apresentada por Darwin e da proposição da representação gráfica da
história evolutiva dos organismos proposta por Haeckel, somente depois da divulgação dos trabalhos com
ervilhas do monge Agostiniano Gregor Mendel ao final do século XIX que foi descoberto o mecanismo de
herança de características entre as gerações, a genética. Após a divulgação dessas descobertas, se iniciou um
longo e dedicado aprimoramento na forma em que os cientistas acessavam a história genealógica e evolutiva dos
organismos.
Após a divulgação destas descobertas, houve o aprimoramento da forma segundo a qual os cientistas
acessavam a história evolutiva dos organismos.
Hoje sabemos que a evolução das espécies é um processo que compreende um acúmulo de mudanças ao
longo das diversas gerações, o que gera diversidade intraespecífica. Esse acúmulo de mudanças ao longo do
tempo tem como consequência uma diferenciação tão grande entre as linhagens que estas passam a serem
162
consideradas espécies distintas. Este processo de formação de
novas espécies é chamado de especiação. Para que seja possível
comparar diferentes entidades biológicas ao ponto de se acessar
esta história evolutiva ao longo de certa escala temporal, a
sistemática filogenética parte da premissa de que há, em algum
momento, um ancestral comum a estas entidades, a partir dos
quais elas divergiram. Para que a comparação entre as entidades
seja possível, ela é realizada considerando características que são
tidas como homólogas, ou seja, características que tiveram uma
mesma origem. Desta forma, a inferência da relação entre as
entidade é feita a partir da comparação de diversos grupos de
características que tem origem comum e que acumularam
mudanças ao longo do tempo na escala evolutiva.
A evolução é um conjunto complexo de diversos processos que
atuam em diferentes escalas. Assim sendo, há diferentes formas
de como representá-la de acordo com o nível de detalhamento
que está sendo estudado. Em um nível mais específico, é possível
representar graficamente a relação direta de parentesco e,
consequentemente, de fluxo genético entre indivíduos de uma
população utilizando-se de uma genealogia. Já de uma forma
mais abrangente, a representação da hipótese de relação entre
diferentes entidades biológicas (e.g. espécies, gêneros, famílias)
criada a partir da análise das evidências disponíveis é feita através
de uma filogenia, como pode ser visto na figura 1. Dizemos que
uma filogenia é uma hipótese porque é construída a partir de
evidências (características homólogas) da relação entre diferentes
entidades biológicas. A figura 1 mostra um esquema hipotético de
o que realmente uma filogenia representa.
Apesar de Haeckel ter apresentado o termo filogenia em
1866, somente no século seguinte foi proposto um método
objetivo para a construção de árvores filogenéticas. Esta proposta

Figura 1: Esquema hipotético mostrando os diferentes


níveis em que a evolução ocorre e o que uma filogenia realmente representa. A partir de um nível individual,
quatro indivíduos de uma espécie A de angiospermas (a) podem ser relacionados diretamente com sua geração
parental e com a geração parental dos parentais deles e assim por diante, por meio de características herdadas (b
e c). É possível ainda estabelecer a relação genealógica entre esses indivíduos em nível populacional (d) e da
relação entre essas diferentes populações dentro da espécie (e). Por fim, essas populações com todas suas
características representem uma espécie, e é utilizada para o estabelecimento da história evolutiva em relação a
outras espécies (B, C, D, E) por meio de uma filogenia (f). Adaptada de Baum (2008).

163
foi apresentada pelo alemão Willi Hennig em 1950 e difundida posteriormente em 1966, quando seu livro foi
traduzido do alemão para a língua inglesa. Hennig propôs uma definição precisa da relação biológica (relação de
parentesco) e uma maneira pela qual essa relação pode ser inferida. As ideais de Hennig foram embasadas
principalmente em duas premissas: (1) assumir que os organismos evoluem e todos eles compartilham um
ancestral comum em pelo menos algum momento; e (2) por este exato motivo, características homólogas devem
ser preferidas para realizarmos comparações. Assim, torna-se possível estabelecer qual organismo é mais
aparentado filogeneticamente entre si, ou seja, quais táxons compartilham um mesmo ancestral exclusivo
diferente de todo o resto da diversidade.
As ideias de Hennig formam a base da sistemática filogenética e dos métodos utilizados para inferir a
história evolutiva dos organismos usados até hoje. No entanto, a interpretação de filogenias não é algo simples e
pode levar a conclusões equivocadas caso certos conceitos fundamentais não estejam claros. Assim, estes
conceitos serão apresentados na seção a seguir.

Definições e conceitos fundamentais


Para uma leitura apropriada de uma árvore filogenética é necessário descrever elementos fundamentais
que ela representa. Em uma filogenia os representantes utilizados para o estudo de uma parcela da diversidade
biológica são chamados de terminais (figura 2a). Esses terminais são representados por diferentes táxons. Cada
terminal é conectado por um nó, o qual representa o ancestral comum mais recente compartilhado entre duas
linhagens. Tendo em vista que a evolução ocorre continuamente, os terminais também representam nós, o que
chamamos de nó terminal (figura 2a). Os nós de uma filogenia conectam diferentes linhagens, as quais são
representadas pelo que chamamos de ramos (figura 2a). O nó mais externo de uma que conecta todos os ramos
de uma filogenia é chamado de raiz (figura 2a). Um ramo pode ter diferentes tamanhos, onde quanto maior ele
for, maior o número de características acumuladas uma linhagem tem em relação a outras. Chamamos o
diagrama que mostra o número de diferença de cada linhagem com tamanhos diferentes de filograma (figura 2d).
Quando mostramos apenas o padrão da relação entre os terminais sem incorporar o tamanho do ramo, temos um
diagrama que chamamos de cladograma (figura 2c). Uma filogenia pode mostrar a relação filogenética entre
grupos apresentando ou não a informação temporal. Quando a informação temporal é apresentada temos um
cronograma (figura 2e). Apesar dessas definições, uma filogenia pode ser mostrada de diferentes formas, como
pode ser visto na figura 2b.
A partir da leitura da árvore na figura 3, podemos estabelecer que A e B são mais relacionados entre si
do que com C, porque A e B compartilham um ancestral comum mais recente (x). Dizemos que A é grupo-irmão
de B e C é grupo-irmão de A + B, ou seja, compartilham um ancestral comum exclusivo entre si. Com base
nesses estabelecimentos de relações, o objetivo da reconstrução filogenética é de apresentar hipóteses de
hierarquia de grupos-irmãos expressada na forma de um diagrama, chamado de cladograma. Essas hipóteses são
construídas com base na análise de um conjunto de caracteres dos taxóns.

164
Figura 2: Representação esquemática de elementos que constituem uma árvore filogenética. a)
Filogenia dos grandes grupos de Angiospermas com cada elemento de uma árvore filogenética indicada. b) As
diferentes formas possíveis de se representar uma filogenia. c) Esquema de um cladograma. d) Esquema de um
filograma. e) Esquema de um cronograma.

Com esse conjunto, é construída uma matriz de caracteres para que os organismos sejam comparados,
assumindo-se que cada caráter tem uma mesma origem, ou seja, são homólogos. Como é assumido que os
caracteres são homólogos a priori, diz-se que são estabelecidas hipóteses de homologia, a serem testadas na
própria inferência filogenética. Nessa matriz, cada caráter apresenta um estado de caráter. Por exemplo, em uma
matriz para estudos evolutivo das angiospermas é codificado o “número de pétalas”. Existem espécies trímeras e
com um número maior de pétalas. Neste caso, o “número de pétalas” é o caráter, e a variação desse número é o
estado desse caráter.

Figura 3: Relações de parentesco entre três táxons A, B e C e dois ancestrais hipotéticos x e y.

165
Os caracteres usados para a reconstrução filogenética devem ser qualitativos, podendo ter dois (binário)
(figura 4a, b) ou mais estados (multiestados) (figura 4c, d). Quando codificamos os caracteres em estados,
estabelecemos uma série de transformação, ou seja, que característica existia e qual ou quais surgiram depois. No
caso de caráter multiestado, essa série pode ser ordenada ou não (figura 4c, d). Essa ordem com que os caracteres
surgiram é determinada a partir da polarização da série de transformação, o que é feito com o uso de um grupo
externo, o qual deve ser um grupo aparentado filogeneticamente, mas não do mesmo grupo de interesse, ou seja,
que não compartilhe o mesmo ancestral exclusivo desse grupo. Este último recebe o nome de grupo interno. Por
exemplo, na figura 3, se o grupo de interesse é A e B esses constituem o grupo interno, e C é o grupo externo.

Figura 4: Os diferentes caracteres usados em análise filogenética: binário polarizado (a), binário não polarizado
(b), multiestado polarizado e ordenado (c) e multiestado polarizado não ordenado (d).

De acordo com a proposta de Hennig, somente uma parte da similaridade entre dois taxóns é
informativa para a descoberta das relações de parentesco entre eles. Ele definiu dois tipos de caracteres: um
caráter ocorrendo no estado ancestral, a plesiomorfia e um caráter derivado (afastado/modificado do estado
ancestral), a apomorfia. Na figura 5, o caráter "quadrado preto" é plesiomórfico enquanto o "quadrado branco" é
apomórfico. Deve ser ressaltado que estes são conceitos relativos. Por exemplo, na figura 6, o caráter "quadrado
branco" é uma apomorfia do grupo (FEDCBA), mas é uma plesiomorfia para o grupo (CBA). Todo grupo
interno e seus membros, os grupos-irmãos, são definidos pelo compartilhamento de apomorfias exclusivas, as
sinapomorfias.

Figura 5: Cladograma mostrando o relacionamento entre táxons hipotéticos. De acordo com o cladograma,
ocorreu uma mudança no estado do caráter no grupo FEDCBA. O estado do caráter “quadrado preto” representa
uma plesiomorfia em relação ao “quadrado branco”, o qual é uma apomorfia.

166
Figura 6: Cladograma mostrando o relacionamento entre táxons hipotéticos. Neste caso, o estado do caráter
“quadrado preto” é plesiomórfico em relação ao “quadrado branco” e “círculo branco”, os quais são apomórficos
em relação ao “quadrado preto”. No entanto, quando o foco é o grupo FEDCBA, o estado “quadrado branco” é
plesiomórfico em relação ao “círculo branco”, o qual é uma apomorfia.

Em um cladograma existe a possibilidade da formação de três tipos de agrupamentos, os quais aceitam


ou rejeitam a hipótese de homologia criada quando construída a matriz de caracteres. Dentre esses
agrupamentos, somente um é tido como um grupo natural, ou seja, descendentes de um ancestral comum
exclusivo (figura 7). Um grupo é natural ou monofilético se ele contém o ancestral comum mais recente e todos
seus descendentes (figura 7a), e se esse grupo inclui o ancestral e todos e somente todos os descendentes desse
ancestral. O estabelecimento de um grupo monofilético é feito pela identificação de uma ou mais sinapomorfias,
ou seja, caracteres e seus estados exclusivos e compartilhados entre membros do grupo. Por este motivo, quando
um grupo é monofilético significa que a hipótese de homologia apresentada quando a matriz foi construída foi
aceita. Os dois outros tipos de agrupamento são conhecidos como grupos artificiais. Um grupo parafilético
contém o ancestral comum mais recente, mas não a totalidade dos descendentes (figura 7b). Essa situação ocorre
quando um grupo é definido por simplesiomorfia, ou seja, um caráter plesiomórfico compartilhado por um
grupo. Finalmente, um grupo polifilético não contém o ancestral comum mais recente entre todos os indivíduos
do grupo (figura 7c). Ele é definido por homoplasia, ou seja, um caráter que na verdade não é homólogo; não
tem uma origem única. Nestes dois últimos casos, a hipótese inicial de homologia é rejeitada, significando que a
origem da(s) característica(s) não foi única.

Figura 7: Os três diferentes tipos de grupos possíveis em um cladograma: monofilético (a), parafilético (b) e
polifilético (c).
167
Métodos para a construção de filogenias
As hipóteses filogenéticas representadas pelas filogenias podem ser reconstruídas a partir de diferentes
métodos utilizando diferentes tipos de dados, como por exemplo características morfológicas, comportamentais e
genéticas. Os métodos de reconstrução filogenética são divididos em métodos baseados em distância e baseados
em caráter. Métodos baseados em distância utilizam uma matriz construída a partir do número de diferenças
entre pares de táxons e geralmente são análises realizadas com dados genéticos. Os baseados em caráter utilizam
características diretas dos táxons e podem ser utilizados com qualquer tipo de dado sobre o grupo estudado. A
seguir serão apresentados os diferentes métodos, com ênfase naquele que foi o primeiro a ser utilizado e é a base
para todo o conhecimento aplicado hoje na sistemática filogenética introduzida por Willi Hennig, a parcimônia.

Métodos baseados em distância


Análises de distância foram muito aplicadas na segunda metade do século passado com dados genéticos.
Esse método foi utilizado pelos cientistas da chamada escola fenética. A ideia dessa escola era estabelecer o
relacionamento de organismos com base em similaridade apenas. Quanto menor a distância genética entre os
táxons, mais próximos eles seriam. Esta forma de pensar em relacionamento evolutivo entre os organismos é
muito criticada, já que nem sempre organismos que apresentam pouca diferença entre si compartilham uma
história evolutiva em comum. Desta forma, é possível que o estabelecimento de alguns grupos não represente
uma hipótese provável da história evolutiva do grupo estudado. Por este motivo os métodos baseados em caráter
são os mais utilizados para estudos evolutivos. Os métodos baseados em distância mais utilizados são os
algoritmos de Neighbor-Joining (agrupamento de vizinhos) e o UPGMA (Unweighted Pair Group Method using
Arithmetic average).
A distância genética é a divergência entre duas sequências derivadas de um ancestral em comum. Numa
árvore filogenética essa distância corresponde ao comprimento do ramo (distância entre os nós). Se as
sequências evoluíram como um diagrama dicotômico e se conhecemos as distâncias entre as sequências, então
podemos reconstruir a árvore filogenética. Para calcular distâncias genéticas é preciso ter um modelo de
substituição de nucleotídeos que forneça uma descrição estatística das substituições de um nucleotídeo para
outro. A partir desta probabilidade, calcula-se a distância genética esperada entre os táxons estudados.
O modelo de substituição de nucleotídeos é utilizado porque mudanças de um nucleotídeo para outro
pode variar de acordo com a região do genoma, do tipo de material genético utilizado (DNA ou RNA) e de qual
organela ele pertence (núcleo, mitocôndria, cloroplasto). Um modelo de substituição de nucleotídeos descreve
matematicamente as diferentes possibilidades de mudança entre os nucleotídeos do tipo purina (C e T) e
pirimidina (A e G). Mudanças entre nucleotídeos de um mesmo grupo são chamadas de transição (ex.: C para T)
e entre diferentes grupos de transversão (ex.: A para C). Essa comparação é feita para cada sítio do alinhamento.
Tais modelos são calculados a partir dos dados observados, ou seja, da matriz de caracteres, que neste caso é
chamada de alinhamento de sequências. Um alinhamento nada mais é do que a comparação de sequências de
DNA de diferentes táxons, formando uma matriz. Desta forma, essas sequências devem ser homólogas, ou seja,
representarem uma mesma região do genoma de todos os táxons estudados. Por exemplo, em plantas é muito
utilizado o gene rbcL, o qual codifica uma das subunidades da enzima rubisco, protagonista do processo de
fotossíntese. Como todos os organismos fotossintetizantes apresentam este gene, ele pode ser utilizado em uma
inferência filogenética que inclua esses rganismos. Para isso, um alinhamento deve ser realizado, onde as

168
sequências desses diferentes táxons serão comparadas. Em um alinhamento, cada nucleotídeo é um caráter, o
sítio, e é representado pelas colunas do alinhamento. Os estados do caráter no caso da molécula de DNA são as
diferentes possibilidades de nucleotídeos, A, T, C ou G.

Métodos baseados em caráter


Os métodos baseados em caráter possuem duas abordagens, a parcimônia e a probabilística. A
abordagem da parcimônia leva em consideração que a hipótese que leva em consideração um menor número de
mudanças nos caracteres é a mais provável de refletir a história evolutiva do grupo. Na parcimônia , as mudanças
dos caracteres são chamadas de passos evolutivos. Quanto mais mudanças detectadas em uma filogenia, menos
parcimoniosa é aquela hipótese filogenética e vice-versa. Neste sentido, quanto mais parcimoniosa (menor
número de passos evolutivos) for a hipótese filogenética, mais próximo da história evolutiva real de um grupo
ela é. Já a abordagem probabilística leva em consideração a probabilidade de uma hipótese filogenética ser mais
próxima da verdadeira, esta probabilidade por ser inferida com base na. máxima verossimilhança ou por
estatística Bayesiana.

Parcimônia
Construção do cladograma (figura 8a)
Todos os métodos começam por construir uma árvore não enraizada (sem direção de transformação dos
caracteres), sendo que encontrar a árvore não enraizada mais parcimoniosa (com o menor número de passos)
simplifica os cálculos. Os métodos exatos (busca exaustiva e branch and bound) buscam o cladograma que
minimiza o critério de otimização, ou seja, que características são mesmo ou não homólogas e quais representam
novidades evolutivas ou não. Contudo, o número de árvores possíveis aumenta exponencialmente com o
aumento do número de terminais. Por exemplo, para 3 terminais existem 3 árvores possíveis, para 4 terminais
existem 15 e para 20 terminais existem 2.10 20 árvores possíveis. Para contornar essa limitação computacional,
métodos heurísticos foram desenvolvidos para explorar apenas uma parcela do universo de árvores, porém sem a
garantia de encontrar a árvore mais parcimoniosa. Isso porque métodos heurísticos exploram amostras do
universo de árvores possíveis, mas não todas elas. Apesar disso, este métodos não são simplistas quanto à busca
de árvores e por isso existem diversos algoritmos que otimizam as buscas (algoritmo de Wagner, rearranjo dos
ramos etc.).

Polarização dos caracteres e enraizamento (figura 8b)


A polarização corresponde a imposição da direção numa série de transformação. Em outras palavras,
distingue o estado apomórfico do estado plesiomórfico de um caráter. O único método que reduz a arbitrariedade
para polarizar caracteres é o critério ontogenético, ou seja, a descrição detalhada do desenvolvimento de
estruturas. No entanto, a ontogenia da maioria dos caracteres permanece ainda desconhecida. Assim, um método
indireto é usado, a comparação com o grupo externo. Como dito anteriormente, o grupo externo corresponde a
um ou vários táxons que são relacionados ao grupo de interesse. Não é recomendável restringir as comparações
de caracteres a um único táxon externo. A escolha do grupo externo, em geral, é baseada numa hipótese
filogenética prévia. O enraizamento da árvore é efetuado no ramo com o grupo mais externo (o menos
relacionado).

169
Otimização (figura 8c)
É na etapa de otimização que os caracteres utilizados na análise são associados aos nós na árvore
filogenética. Neste passo do método é quando as hipóteses de homologia apresentadas na matriz de caracteres é
testada, ou seja, se o caráter utilizado para a análise é ou não uma homologia verdadeira. Se a hipótese for aceita,
o caráter utilizado é uma homologia, a qual poderá ser uma novidade evolutiva (apomorfia) ou não
(plesiomorfia). Caso seja um caráter que apareceu mais de uma vez de forma independente nos diferentes táxons
estudados, este não é considerado homólogo e sim uma homoplasia e, portanto, a hipótese de homologia inicial é
rejeitada. Um exemplo de homoplasia é mostrado na figura 8c, onde o caráter 4 apareceu independentemente nos
táxons C e D.
Diferente dos outros métodos baseados em caráter, a parcimônia não utiliza modelos de substituição de
nucleotídeos. Como já mencionado na seção de métodos de distância, os nucleotídeos podem mudar em
diferentes taxas dependendo da região do genoma dos organismos. Então como a parcimônia lida com essa
variação se os dados utilizados na matriz de caracteres forem informações genéticas? Neste caso, existe uma
atribuição de custos para as mudanças dos nucleotídeos. Quanto mais custo for dado a uma mudança, um maior
número de passos será necessário para que tal mudança ocorra e, portanto, menos parcimoniosa será esta
possibilidade de mudança. Essa atribuição de custos deve ser muito criteriosa, já que pode trazer ruído para a
análise e influenciar o algoritmo a encontrar uma árvore sub-ótima.

Índices, estimativas de sustentação e árvores de consenso (figura 8d-e)


Existem índices que mensuram o quanto os caracteres utilizados para a inferência da filogenia
representaram ou não homologias para o grupo estudado. O índice de consistência (CI) é uma mensuração do
número de eventos homoplásticos em uma reconstrução. Isso significa que este índice mede o quanto das
hipóteses de homologia criadas para a construção da matriz de caracteres representaram realmente uma
homologia ou não para o grupo estudado. O índice de retenção (RI) mede a proporção de autapomorfias (estado
derivado a um táxon único) e homoplasias em relação ao número total de passos. Quanto maior o valor do RI
significará que a filogenia apresenta mais apomorfias compartilhadas (sinapomorfias) que não são sujeitas a
homoplasia, ou seja, de não ter aparecido mais de uma vez de forma independente nos grupo de estudo. Já
quando o RI tende a zero, existem muitas apomorfias não compartilhadas (autapomorfias) e homoplasias.
Mas o que fazer quando mais de uma árvore mais parcimoniosa é obtida? Para sumariar essa
informação, são empregados os métodos de consenso. A árvore de consenso estrito contém apenas os grupos
monofiléticos presentes em todas às árvores. Ela elimina qualquer grupo que não tenha sido reconstruído em
todas as filogenias igualmente parcimoniosas, porém parte da informação presente nas árvores é perdida, como
no caso dos clados não conflitantes entre si, mas não presentes em todas às árvores. A árvore de “consenso de
maioria” inclui os grupos monofiléticos presentes na maioria das árvores obtidas na análise, haja ou não conflitos
entre eles.
As estimativas de sustentação trazem uma mensuração da robustez de um clado, o quanto a existência
do clado depende da amostragem dos caracteres utilizados na matriz. Assim, as estimativas de sustentação mais
usadas são baseadas na reamostragem dos caracteres. Os métodos de bootstrap e o jackknife são reamostragens

170
não paramétricas, ou seja, não dependem de parâmetros previamente definidos. O bootstrap reamostra os
caracteres da matriz de caracteres com reposição e constrói novas matrizes com o mesmo número de caracteres
da original. O clado é estatisticamente significativo se o valor é superior ou igual a 95%, significando que de todas as
re-amostragens de caracteres, aquele determinado clado foi recuperado em 95% das réplicas. A interpretação dos
valores de bootstrap é difícil devido a grande variação nos resultados. O jackknife difere do bootstrap, já que é
um método de re-amostragem com reposição. Apesar disso, o bootstrap é o método de reamostragem mais
utilizado.

Figura 8: Esquema geral mostrando as etapas de uma reconstrução filogenética hipotética por parcimônia. a)
Construção da árvore. A partir de uma matriz de caracteres composta por quatro táxons e 4 caracteres, sendo A o
grupo externo. Cada caráter é visto em cada uma das três árvores não enraizadas possíveis. Ao final, é somado o
número de passos evolutivos necessários para verificar todos os caracteres nas diferentes árvores não enraizadas
e a árvore mais parcimoniosa é escolhida. b) A árvore mais parcimoniosa passa pelo processo de polarização dos
caracteres, onde a árvore filogenética é enraizada em A. c) Os caracteres são otimizados, sendo possível verificar
em que grupo surgiram. É possível ver um caso de reversão neste exemplo com o caráter 4, onde ocorreu uma
171
reversão em B. d) Cálculo dos Índices de consistência (IC) e retenção (IR). m representa o número mínimo de
passos evolutivos para a árvore, s o número efetivo de passos na árvore e g o número máximo de passos
evolutivos para a árvore. e) Método de reamostragem para suporte dos ramos, o bootstrap. A matriz de
caracteres foi reamostrada 100 vezes, com reposição dos caracteres. Ao final, é feito um consenso de todas as
árvores re-amostradas. Os valores significam a porcentagem de vezes que um dado grupo foi reconstruído no
conjunto de réplicas. Neste caso, B foi reconstruído com grupo-irmão de C 90% das vezes, D como grupo-irmão
de B+C 100% das vezes e A como grupo-irmão de todo o resto da diversidade também 100% das réplicas.

Máxima verossimilhança
A ideia da máxima verossimilhança (Maximum likelihood - ML) está associada a um valor que
maximiza a probabilidade de algo acontecer ou ter acontecido. Assim, a aplicação da máxima verossimilhança
na reconstrução filogenética implica na busca pela árvore que tem a maior probabilidade de ter originado os
dados observados (a matriz de caracteres ou o alinhamento de sequências de nucleotídeos). O objetivo é de
avaliar, assumindo um modelo de substituição de nucleotídeos (M), a probabilidade condicionada (P) de ter uma
árvore específica (Ei) sabendo que observamos os dados da matriz (D). , Essa probabilidade anota-se P(Ei/D). A
verossimilhança (L) dessa última probabilidade, L(Ei/D), é igual a P(D/Ei), lê-se a probabilidade condicional (P)
dos dados (D) dada uma árvore filogenética (Ei).
A primeira etapa de uma análise filogenética pelo método de ML é de definir uma árvore e os
parâmetros (inclusive os comprimentos dos ramos) e em seguida a verossimilhança de cada caráter é calculada.
Numa segunda etapa, as verossimilhanças de cada caráter da matriz são multiplicadas para obter a
verossimilhança global desta árvore. Depois, os parâmetros da árvore, tais como o comprimento de ramo e as
possibilidades de relacionamentos entre os grupos, são otimizados para maximizar a verossimilhança.
Finalmente, o universo de árvores possíveis é explorado para encontrar a árvore com a verossimilhança máxima.
Esse universo de árvore representa uma amostragem das árvores possíveis de serem reconstruídas a partir de
determinados dados. Como a ML é um método heurístico, explora algumas árvores dentre todas possíveis. A
forma com que essa procura de árvores acontece varia de acordo com o algoritmo utilizado.
Para ilustrar, imagine que no universo de árvores existem árvores com probabilidades de terem gerado
os dados de uma matriz variando de 0 a 1, sendo 1 o valor que representa a probabilidade máxima de um evento
ter acontecido. Imagine que os valores de ML estão sendo medidos por um ponteiro com a escala de 0 a 1 (Fig.
9). A medida que o algoritmo vai procurando as árvores e comparando com os dados da matriz, ele mede a ML
de cada uma delas. Imagine que ele faça essa busca três vezes selecionando dez árvores diferentes em cada uma
dessas buscas. Ele mediu diversos valores entre 0 e 1, mas três deles foram mais próximos de 1, ou seja, de uma
dada árvore ter uma probabilidade muito alta de representar o conjunto de dados. Supondo que os valores foram
0.99 (Fig. 9c), 0.8 (Fig. 9a) e 0.85 (Fig. 9b), temos então, que a árvore com 0.99 foi a que mais se aproximou do
valor máximo. Logo, esta seria a árvore que melhor explica a existência dos seus dados. E é basicamente assim
que uma hipótese filogenética por ML é reconstruída.

Análise Bayesiana
A ideia da estatística bayesiana é a de ser possível calcular a probabilidade de algo acontecer ou ter
acontecido, sabendo alguma informação a priori. Por exemplo, imagine que um dia você acordou e viu que o

172
gramado de sua casa estava molhado. Você pode criar inúmeras hipóteses acerca do que deve ter acontecido para
que a grama esteja molhada, como ter chovido durante a noite ou que seu vizinho molhou a grama. No entanto,
você tem uma informação a priori, notou que na noite anterior o céu estava nublado. Dada esta informação, qual
seria a hipótese mais provável dentre as que você criou? A de que choveu, certo? É basicamente assim que a
estatística bayesiana funciona.

Figura 9: Ilustração da ideia de busca de árvores em uma análise de Máxima Verossimilhança (ML). Em um
universo de árvores com um número n de árvores possíveis, dez árvores são amostradas. Para cada uma dessas
árvores os valores de ML são calculados. Para cada uma dessas buscas, uma melhor árvore é selecionada dentre
as dez e o valor de ML é registrado pelo algoritmo. Este exemplo representa três buscas independentes de
árvores (a-c). Neste caso, a árvore com maior valor de ML foi encontrada na terceira busca (c). Adaptada de
Herron & Freeman (2014, p. 128).

Num contexto de inferência filogenética, enquanto a verossimilhança avalia uma árvore com base em
quão provável é que a evolução teria produzido os dados observados, a inferência bayesiana avalia uma árvore
com base em sua probabilidade posterior, P(Ei/D). A probabilidade posterior (P) representa a probabilidade de
uma árvore (Ei) ser verdadeira, ou seja, de representar a história evolutiva de um grupo, dados uma matriz de
caracteres (D). Além disso, são embutidas no cálculo informações tidas a priori sobre a evolução dos caracteres
utilizados e a verossimilhança dos dados dependendo da árvore hipotética. Uma propriedade interessante do
método bayesiano é que uma vez que temos a probabilidade posterior, podemos marginalizar (estimar) qualquer
parâmetro de interesse do modelo. Assim, não é preciso determinar os parâmetros antes de começar a análise
como no caso da análise ML.
Os resultados da análise bayesiana é um conjunto de árvores (em geral alguns milhares) que foram
amostradas durante a análise. Uma árvore de consenso de maioria é construída para sintetizar os resultados. A
probabilidade posterior de cada clado é estimada e é utilizada para a sustentação, onde quando maior é o valor,

173
maior a probabilidade de naquele clado existirem dados e informações a priori. O cálculo e a interpretação
estatística da probabilidade posterior na árvore final são matematicamente complexos. Apesar disso, esta é mais
uma característica interessante da análise bayesiana, já que sua árvore final representará um conjunto de árvores
possíveis e não apenas uma única árvore como acontece com a inferência por ML. Desta forma, a análise
bayesiana acaba incorporando incerteza à inferência, o que se assemelha mais com a forma com que a história
evolutiva dos organismos é acessada.

Classificações filogenéticas
Como mencionado no início do capítulo, uma classificação pode não ser filogenética, representando
uma delimitação de entidades biológicas artificiais e que não refletem a história evolutiva de um grupo. A partir
do momento que existe uma hipótese da história evolutiva de um grupo, a classificação passa a ser menos
arbitrária. Este é um dos usos de filogenia mais aplicados pelos filogeneticistas. Na área de botânica, por
exemplo, existe um grupo que pesquisadores que determinaram com base em filogenia a classificação das
Angiospermas, o Angiosperm Phylogeny Group (APG).
O princípio mais importante das classificações filogenéticas é que todos os táxons devem ser
monofiléticos. Assim, cada táxon dessas classificações são entidades históricas que são descobertas via a análise
filogenética e não entidades inventadas.
Transformar uma árvore filogenética numa classificação corresponde ao ato de criar um sistema de
classificação que reflita a filogenia em todos os níveis. Além de reconhecer somente os táxons monofiléticos,
três outras normas devem ser seguidas: (1) todos os as características que permitem que o grupo seja reconhecido
devem ser expressos ou passíveis de reconhecimento; (2) deve ser possível reconhecer as relações entre grupo-
irmãos e (3) deve ser possível reconhecer a que grupo maior um grupo menor está subordinado.

Exemplos da utilização de árvores filogenéticas


Existem inúmeras formas para uma árvore filogenética ser utilizada. Além de uma filogenia poder ser
ferramenta para a definição da classificação de grupos, ela pode servir de base desde o estabelecimento de
padrões da evolução de organismos no espaço até desvendar crimes. As diversas aplicações da filogenia existem
pelo seu poder de previsibilidade, já que a premissa principal para sua construção é assumir que os
relacionamentos entre diferentes linhagens são estabelecidas com base em uma origem comum. Por exemplo,
empresas especializadas em dedetização fazem estudos criteriosos de filogenias para saber quais grupos de
organismos são ou não sensíveis à ação de um pesticida. Assim, é possível definir que organismos serão
prejudicados ou não pelo agente químico. Além desse, seguem dois exemplos reais do uso de filogenias.

Um exemplo biogeográfico
Foi encontrada na Índia uma espécie de rã muito distinta de todas as outras espécies conhecidas. Esta
espécie compartilha características morfológicas com diferentes grupos de anfíbios anuros (rãs, sapos e
pererecas). Os pesquisadores que a encontraram e a descreveram fizeram uma reconstrução filogenética
utilizando dados moleculares (DNA) da espécie encontrada e representantes de diferentes grupos de anuros.
Após a construção da filogenia eles fizeram uma análise para incorporar a informação de tempo, tendo um
cronograma ao final da análise. Os resultados mostraram que a espécie encontrada na Índia seria grupo-irmão de
174
um grupo endêmico das Ilhas Seichelles, ou seja, não são encontradas em outros locais no planeta. Ao verificar a
idade de separação entre a espécie indiana e o grupo de Seichelles, os pesquisadores detectaram que a data
coincidia com a separação da Ilha Seichelles da Índia, quando a última estava seguindo em direção ao sudeste
asiático a cerca de 90 milhões de anos atrás. Com base nisso, os pesquisadores sugeriram que o relacionamento
entre os dois táxons, o indiano e de Seichelles, é consequência de um evento vicariante em resposta a separação
das duas áreas geográficas no passado. Um evento vicariante ocorre quando uma população ancestral é separada
devido ao surgimento de uma barreira geográfica a qual induz a interrupção do fluxo gênico entre representantes
da população ancestral. Desta forma, as mutações que ocorrem nas diferentes subpopulações influenciadas por
diferentes forças evolutivas não são trocadas entre elas. Ao longo do tempo as mudanças acumuladas nas
diferentes populações são tão expressivas que elas se tornam entidades biológicas distintas, ou seja, novas
espécies (especiação).

Um exemplo de uso em perícia criminal


Existem diversos registros do uso de filogenias para a resolução de crimes. Por exemplo, no ano de
2007 foi divulgado um trabalho sobre a investigação de um surto de HIV em crianças que estavam internadas em
um hospital Libanês. Existia uma desconfiança de que algum médico teria infectado as crianças. Para verificar
isso, foi realizada uma análise filogenética comparando as cepas de vírus do HIV em todas as crianças
infectadas, incluindo sequências de DNA de outras cepas de HIV de outros locais do planeta, incluindo a
informação temporal na filogenia. A hipótese era de que se foi uma infecção proposital ou mesmo acidental
realizado pelos suspeitos, seria reconstruído um grupo monofilético composto pelas cepas das crianças do
hospital que surgiu após o ano de 1998, quando os suspeitos começaram a trabalhar no hospital. O resultado
mostrou que na verdade as cepas tinham diferentes idades, mais antigas ou mais recentes do que o ano de
ingresso dos suspeitos no hospital. Além disso, foi possível detectar que as cepas das crianças do hospital eram
mais aparentadas com cepas do oeste da África, de onde chegavam muitos imigrantes no Líbano em busca de
emprego, inclusive em hospitais. Logo, eles concluíram que os suspeitos eram inocentes e que o surto de HIV
nas crianças foi causado por alguma contaminação acidental.

175
Leitura complementar

A origem do cloroplasto e a evolução dos eucariontes fotossintetizantes


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